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Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC Vol. 2 nº 1 (3), janeiro-julho/2005, p.

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www.emtese.ufsc.br

Aprendendo a entrevistar: como fazer entrevistas em Ciências Sociais

Valdete Boni e Sílvia Jurema Quaresma

Resumo:

Neste artigo abordamos a importância da entrevista como uma técnica de coleta de dados que é utilizada em Sociologia para a captação de dados subjetivos. São diversos os tipos de entrevistas, diante disso, explicitamos os mais utilizados que são: a entrevista projetiva, entrevistas com grupos focais, história de vida, entrevista estruturada, aberta e semi-estruturada. Discutimos sobre a importância destes tipos de entrevistas, suas vantagens e desvantagens. Relatamos sobre a preparação do pesquisador para ir a campo e também expomos algumas sugestões tecidas por Bourdieu de como fazer uma entrevista utilizando o método científico. Palavras Chave: pesquisa qualitativa, entrevista, metodologia, coleta de dados, vantagens.

Abstract:

In this article we discuss the importance of interviews as a method of data collection used in Sociology for the gathering of subjective data. Since there are several types of interviews, we concentrate on the most used ones, namely projective interviews, focus groups, life history, structured, open, and semi-structured interviews. We 68

discuss the importance of these types of interviews and their advantages and disadvantages. We talk about how a researcher may prepare him/herself to carry out interviews and we also present some suggestions given by Bourdieu on how to conduct an interview using the scientific method. Keywords: Qualitative advantages. research, interview, methodology, data collection,

1. Introdução

Este artigo tem como objetivo principal abordar a importância da entrevista como uma técnica de coleta de dados que é utilizada em pesquisas nas Ciências Sociais. Para tanto iniciamos o artigo com uma breve apresentação sobre o desenvolvimento das pesquisas qualitativas na Sociologia. Em seguida exporemos os 3 momentos imprescindíveis que dizem respeito à coleta de dados para a pesquisa, esses momentos se referem: a pesquisa bibliográfica, a observação em campo, e a técnica de coleta de dados através de entrevistas. É no 3º momento que se estabelece a problemática que nos propomos investigar neste artigo, formulada da seguinte maneira: quais as principais vantagens e desvantagens das formas de entrevistas que são mais utilizadas na Sociologia, isto é, a entrevista projetiva, entrevistas com grupos focais, história de vida, entrevista estruturada, aberta e semi-estruturada. Também faz parte deste artigo a apresentação de algumas sugestões do sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) sobre a conduta do cientista social ao realizar entrevistas utilizando o método científico.

2. As pesquisas na Sociologia

Inicialmente as técnicas de pesquisa começaram a se desenvolver a partir do final do século XIX quando alguns antropólogos, como: o americano, Lewis Henry Morgan (1818-1881); o alemão, Franz Boas (1858-1942); e o polonês, Bronislaw Malinowski (1884-1942) realizaram diversos estudos sobre as sociedades tradicionais. No início do século XX, em 1910, surge nos Estados Unidos, mais precisamente na Universidade de Chicago, o departamento de Sociologia e Antropologia que acabou tornando-se o principal centro de estudos de pesquisas sociológicas da época. A escola de Chicago, como é conhecida desde 1930, distinguiu-se pela produção de conhecimentos úteis para a solução de problemas sociais concretos, os quais, a cidade de Chicago enfrentava. Estes estudos referiam-se aos problemas de imigração, delinqüência, criminalidade, conflitos étnicos, etc. Devido a esta preocupação 69

empírica a Escola de Chicago foi a que mais contribuiu para abrir caminho para outras correntes teóricas como a fenomenologia e a etnometodologia. Foi ela também que além de fazer uso de pesquisas quantitativas, atuou para o desenvolvimento das pesquisas qualitativas na Sociologia, ou seja, começou-se a pesquisar com a utilização científica de documentos pessoais, como por exemplo, cartas e diários, com a exploração de diversas fontes documentárias e com o desenvolvimento do trabalho de campo nas cidades urbanas. A finalidade da pesquisa segundo Selltiz (1987) é de certa forma descobrir respostas para algumas questões mediante a aplicação de métodos científicos, já para Bunge (1972) a pesquisa científica tem duas finalidades, isto é, a acumulação e a compreensão dos fatos que foram levantados. As pesquisas qualitativas na Sociologia trabalham com: significados, motivações, valores e crenças e estes não podem ser simplesmente reduzidos às questões quantitativas, pois que, respondem a noções muito particulares. Entretanto, os dados quantitativos e os qualitativos acabam se complementando dentro de uma pesquisa (MINAYO, 1996). O interesse pelo tema que um cientista se propõe a pesquisar, muitas vezes, parte da curiosidade do próprio pesquisador ou então de uma interrogação sobre um problema ou fenômeno. No entanto, a partir do momento que o objeto de pesquisa é escolhido pelo próprio pesquisador isso, de certa forma, desmistifica o caráter de neutralidade do pesquisador perante a sua pesquisa, já que na maioria das vezes, a escolha do objeto revela as preocupações científicas do pesquisador que seleciona os fatos a serem coletados, bem como o modo de recolhê-los. Mas de qualquer forma, nem sempre é fácil determinar aquilo que se pretende pesquisar pois, a investigação pressupõe uma série de conhecimentos anteriores e uma metodologia adequada ao problema a ser investigado. Por mais ingênuo ou simples nas suas pretensões qualquer estudo objetivo da realidade social além de ser norteado por um arcabouço teórico, deverá informar a escolha do objeto pelo pesquisador e também todos os passos e resultados teóricos e práticos obtidos com a pesquisa (BECKER, 1994). Mas o ponto de partida de uma investigação científica deve basear-se em um levantamento de dados. Para esse levantamento é necessário, num primeiro momento, que se faça uma pesquisa bibliográfica. Num segundo momento, o pesquisador deve realizar uma observação dos fatos ou fenômenos para que ele obtenha maiores informações e num terceiro momento, o pesquisador deve fazer contatos com pessoas que possam fornecer dados ou sugerir possíveis fontes de informações úteis.

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2.1 A pesquisa bibliográfica

Em linhas gerais a pesquisa bibliográfica é um apanhado sobre os principais trabalhos científicos já realizados sobre o tema escolhido e que são revestidos de importância por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes. Ela abrange: publicações avulsas, livros, jornais, revistas, vídeos, internet, etc. Esse levantamento é importante tanto nos estudos baseados em dados originais, colhidos numa pesquisa de campo, bem como aqueles inteiramente baseados em documentos (LUNA, 1999).
2.2 A observação em campo

A observação também é considerada uma coleta de dados para conseguir informações sob determinados aspectos da realidade. Ela ajuda o pesquisador a “identificar e obter provas a respeito de objetivos sobre os quais os indivíduos não têm consciência, mas que orientam seu comportamento” (LAKATOS, 1996:79). A observação também obriga o pesquisador a ter um contato mais direto com a realidade. Esta técnica é denominada observação assistemática, onde o pesquisador procura recolher e registrar os fatos da realidade sem a utilização de meios técnicos especiais, ou seja, sem planejamento ou controle. Geralmente este tipo de observação é empregado em estudos exploratórios sobre o campo a ser pesquisado. Outra forma de coletar dados através da observação ocorre quando o pesquisador utiliza a observação participante. A observação participante se distingue da observação informal, ou melhor, da observação comum. Essa distinção ocorre na medida em que pressupõe a integração do investigador ao grupo investigado, ou seja, o pesquisador deixa de ser um observador externo dos acontecimentos e passa a fazer parte ativa deles. Esse tipo de coleta de dados muitas vezes leva o pesquisador a adotar temporariamente um estilo de vida que é próprio do grupo que está sendo pesquisado. Esse método é muito utilizado quando se pretende pesquisar, por exemplo, alguma seita religiosa e seus rituais. Entretanto a observação participante, como técnica de trabalho de campo, é desaconselhada por alguns cientistas que acham que o pesquisador deve manter uma certa distância entre ele e o seu objeto de pesquisa em nome do resguardo da objetividade científica (COSTA, 1987).

2.3 As várias formas de entrevistas científicas: algumas vantagens e desvantagens

Num terceiro momento da pesquisa o objetivo do pesquisador é conseguir informações ou coletar dados que não seriam possíveis somente através da pesquisa 71

bibliográfica e da observação. Uma das formas que complementariam estas coletas de dados seria a entrevista. A entrevista é definida por Haguette (1997:86) como um “processo de interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistado”. A entrevista como coleta de dados sobre um determinado tema científico é a técnica mais utilizada no processo de trabalho de campo. Através dela os pesquisadores buscam obter informações, ou seja, coletar dados objetivos e subjetivos. Os dados objetivos podem ser obtidos também através de fontes secundárias tais como: censos, estatísticas, etc. Já os dados subjetivos só poderão ser obtidos através da entrevista, pois que, eles se relacionam com os valores, às atitudes e às opiniões dos sujeitos entrevistados. A preparação da entrevista é uma das etapas mais importantes da pesquisa que requer tempo e exige alguns cuidados, entre eles destacam-se: o planejamento da entrevista, que deve ter em vista o objetivo a ser alcançado; a escolha do entrevistado, que deve ser alguém que tenha familiaridade com o tema pesquisado; a oportunidade da entrevista, ou seja, a disponibilidade do entrevistado em fornecer a entrevista que deverá ser marcada com antecedência para que o pesquisador se assegure de que será recebido; as condições favoráveis que possam garantir ao entrevistado o segredo de suas confidências e de sua identidade e, por fim, a preparação específica que consiste em organizar o roteiro ou formulário com as questões importantes (LAKATOS, 1996). Quanto à formulação das questões o pesquisador deve ter cuidado para não elaborar perguntas absurdas, arbitrárias, ambíguas, deslocadas ou tendenciosas. As perguntas devem ser feitas levando em conta a seqüência do pensamento do pesquisado, ou seja, procurando dar continuidade na conversação, conduzindo a entrevista com um certo sentido lógico para o entrevistado. Para se obter uma narrativa natural muitas vezes não é interessante fazer uma pergunta direta, mas sim fazer com que o pesquisado relembre parte de sua vida. Para tanto o pesquisador pode muito bem ir suscitando a memória do pesquisado (BOURDIEU, 1999). As formas de entrevistas mais utilizadas em Ciências Sociais são: a entrevista estruturada, semi-estruturada, aberta, entrevistas com grupos focais, história de vida e também a entrevista projetiva. Ao discorrermos sobre eles tentaremos identificar, na medida do possível, quais as vantagens e as desvantagens destes tipos de entrevistas. Mesmo sabendo de antemão que a escolha de quaisquer técnicas de coleta de dados depende particularmente da adequação ao problema da pesquisa. A entrevista projetiva é aquela centrada em técnicas visuais, isto é, a utilização de recursos visuais onde o entrevistador pode mostrar: cartões, fotos, filmes, etc ao informante. Esta técnica permite evitar respostas diretas e é utilizada para

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aprofundar informações sobre determinado grupo ou local 1954 apud MINAYO, 1993).

(HONNIGMANN,

Com relação à história de vida (HV), para as finalidades a que se propõe este artigo, abordaremos como uma entrevista em profundidade na qual o pesquisador constantemente interage com o informante. Sua principal função é retratar as experiências vivenciadas por pessoas, grupos ou organizações. Existem dois tipos de HV: a completa, que retrata todo o conjunto da experiência vivida e a tópica, que focaliza uma etapa ou um determinado setor da experiência em questão (MINAYO,1993). A HV tem como ponto principal permitir que o informante retome sua vivência de forma retrospectiva. Muitas vezes durante a entrevista acontece a liberação de pensamentos reprimidos que chegam ao entrevistador em tom de confidência. Esses relatos fornecem um material extremamente rico para análise. Neles se encontram o reflexo da dimensão coletiva a partir da visão individual. As entrevistas com grupos focais é uma técnica de coleta de dados cujo objetivo principal é estimular os participantes a discutir sobre um assunto de interesse comum, ela se apresenta como um debate aberto sobre um tema. Os participantes são escolhidos a partir de um determinado grupo cujas idéias e opiniões são do interesse da pesquisa. Esta técnica pode ser utilizada com um grupo de pessoas que já se conhecem previamente ou então com um grupo de pessoas que ainda não se conhecem. A discussão em grupo se faz em reuniões com um pequeno número de informantes, ou seja, de 6 a 8 participantes. Geralmente conta com a presença de um moderador que intervém sempre que achar necessário, tentando focalizar e aprofundar a discussão. A primeira tarefa do moderador é a sua própria apresentação e também uma rápida apresentação do tema que será discutido. Logo após os participantes do grupo devem se apresentar. Neste método de entrevista os participantes levam em conta os pontos de vista dos outros para a formulação de suas respostas e também podem tecer comentários sobre suas experiências e a dos outros (BAUER & GASKELL, 2002). Não existe um consenso dentro das Ciências Sociais que determina quando este método é mais eficaz que a entrevista individual pois, a escolha do método sempre irá depender da natureza da pesquisa, dos objetivos da pesquisa, dos tipos de entrevistados e também depende da habilidade e preferência do pesquisador. Entretanto, podemos considerar que a discussão em grupo visa muitas vezes complementar a entrevista individual e até a observação participante. As entrevistas estruturadas são elaboradas mediante questionário totalmente estruturado, ou seja, é aquela onde as perguntas são previamente formuladas e temse o cuidado de não fugir a elas. O principal motivo deste zelo é a possibilidade de comparação com o mesmo conjunto de perguntas e que as diferenças devem refletir 73

diferenças entre os respondentes e não diferença nas perguntas (LODI, 1974 apud LAKATOS, 1996). Os questionários podem ser enviados aos informantes através do correio ou de um portador. Quando isso acontece deve-se enviar uma nota explicando a natureza da pesquisa. A entrevista estruturada ou questionário geralmente é utilizado nos censos como, por exemplo, os do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nas pesquisas de opinião, nas pesquisas eleitorais, nas pesquisas mercadológicas, pesquisas de audiência, etc. Algumas das principais vantagens de um questionário é que nem sempre é necessário a presença do pesquisador para que o informante responda as questões. Além disso, o questionário consegue atingir várias pessoas ao mesmo tempo obtendo um grande número de dados, podendo abranger uma área geográfica mais ampla se for este o objetivo da pesquisa. Ele garante também uma maior liberdade das respostas em razão do anonimato, evitando viéses potenciais do entrevistador. Geralmente, através do questionário, obtêm-se respostas rápidas e precisas. Mesmo sofrendo muitas críticas o questionário continua sendo muito utilizado nas diversas áreas. Algumas desvantagens da sua utilização são: a percentagem de retorno dos questionários enviados pelo correio geralmente é pequena e quando a devolução é tardia prejudica o andamento da pesquisa. Muitas vezes há um número grande de perguntas sem respostas. Outra desvantagem é a dificuldade de compreensão da pergunta por parte do respondente quando o pesquisador está ausente. A técnica de entrevistas abertas atende principalmente finalidades exploratórias, é bastante utilizada para o detalhamento de questões e formulação mais precisas dos conceitos relacionados. Em relação a sua estruturação o entrevistador introduz o tema e o entrevistado tem liberdade para discorrer sobre o tema sugerido. É uma forma de poder explorar mais amplamente uma questão. As perguntas são respondidas dentro de uma conversação informal. A interferência do entrevistador deve ser a mínima possível, este deve assumir uma postura de ouvinte e apenas em caso de extrema necessidade, ou para evitar o término precoce da entrevista, pode interromper a fala do informante. A entrevista aberta é utilizada quando o pesquisador deseja obter o maior número possível de informações sobre determinado tema, segundo a visão do entrevistado, e também para obter um maior detalhamento do assunto em questão. Ela é utilizada geralmente na descrição de casos individuais, na compreensão de especificidades culturais para determinados grupos e para comparabilidade de diversos casos (MINAYO, 1993).

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As entrevistas semi-estruturadas combinam perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto. O pesquisador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento para dirigir, no momento que achar oportuno, a discussão para o assunto que o interessa fazendo perguntas adicionais para elucidar questões que não ficaram claras ou ajudar a recompor o contexto da entrevista, caso o informante tenha “fugido” ao tema ou tenha dificuldades com ele. Esse tipo de entrevista é muito utilizado quando se deseja delimitar o volume das informações, obtendo assim um direcionamento maior para o tema, intervindo a fim de que os objetivos sejam alcançados. A principal vantagem da entrevista aberta e também da semi-estruturada é que essas duas técnicas quase sempre produzem uma melhor amostra da população de interesse. Ao contrário dos questionários enviados por correio que têm índice de devolução muito baixo, a entrevista tem um índice de respostas bem mais abrangente, uma vez que é mais comum as pessoas aceitarem falar sobre determinados assuntos (SELLTIZ et allii, 1987). Outra vantagem diz respeito à dificuldade que muitas pessoas têm de responder por escrito. Nos dois tipos de entrevista isso não gera nenhum problema, pode-se entrevistar pessoas que não sabem ler ou escrever. Além do mais, esses dois tipos de entrevista possibilitam a correção de enganos dos informantes, enganos que muitas vezes não poderão ser corrigidos no caso da utilização do questionário escrito. As técnicas de entrevista aberta e semi-estruturada também têm como vantagem a sua elasticidade quanto à duração, permitindo uma cobertura mais profunda sobre determinados assuntos. Além disso, a interação entre o entrevistador e o entrevistado favorece as respostas espontâneas. Elas também são possibilitadoras de uma abertura e proximidade maior entre entrevistador e entrevistado, o que permite ao entrevistador tocar em assuntos mais complexos e delicados, ou seja, quanto menos estruturada a entrevista maior será o favorecimento de uma troca mais afetiva entre as duas partes. Desse modo, estes tipos de entrevista colaboram muito na investigação dos aspectos afetivos e valorativos dos informantes que determinam significados pessoais de suas atitudes e comportamentos. As respostas espontâneas dos entrevistados e a maior liberdade que estes têm podem fazer surgir questões inesperadas ao entrevistador que poderão ser de grande utilidade em sua pesquisa. Tanto na entrevista aberta como na semi-estruturada, temos a possibilidade da utilização de recursos visuais, como cartões, fotografias, o que pode deixar o entrevistado mais à vontade e fazê-lo lembrar de fatos, o que não seria possível num questionário, por exemplo (SELLTIZ et allii, 1987).

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Quanto as desvantagens da entrevista aberta e semi-estruturada, estas dizem respeito muito mais as limitações do próprio entrevistador, como por exemplo: a escassez de recursos financeiros e o dispêndio de tempo. Por parte do entrevistado há insegurança em relação ao seu anonimato e por causa disto muitas vezes o entrevistado retém informações importantes. Essas questões são, ainda assim, melhor apreendidas pela entrevista aberta e semi-estruturada. Vale lembrar que a qualidade das entrevistas depende muito do planejamento feito pelo entrevistador. “A arte do entrevistador consiste em criar uma situação onde as respostas do informante sejam fidedignas e válidas” ( SELLTIZ, 1987:644). A situação em que é realizada a entrevista contribui muito para o seu sucesso, o entrevistador deve transmitir, acima de tudo, confiança ao informante.

3. Sugestões de Bourdieu para a realização de entrevistas científicas

Em primeiro lugar Bourdieu (1999) indica que a escolha do método não deve ser rígida mas sim rigorosa, ou seja, o pesquisador não necessita seguir um método só com rigidez, mas qualquer método ou conjunto de métodos que forem utilizados devem ser aplicados com rigor. Para se obter uma boa pesquisa é necessário escolher as pessoas que serão investigadas, sendo que, na medida do possível estas pessoas sejam já conhecidas pelo pesquisador ou apresentadas a ele por outras pessoas da relação da investigada. Dessa forma, quando existe uma certa familiaridade ou proximidade social entre pesquisador e pesquisado as pessoas ficam mais à vontade e se sentem mais seguras para colaborar. O autor aconselha, na medida do possível, falar a mesma língua do pesquisado, ou seja, o pesquisador deve descer do pedestal cultural e deixar de lado momentaneamente seu capital cultural para que ambos, pesquisador e pesquisado possam se entender. Se isso não acontecer provavelmente o pesquisado se sentirá constrangido e a relação entre ambos se tornará difícil. O pesquisador deve fazer tudo para diminuir a violência simbólica que é exercida através dele mesmo. Em algumas pesquisas são utilizados os pesquisadores ocasionais. São pessoas instruídas com técnicas de pesquisa e que têm acesso a certo grupo que se deseja pesquisar, essas pessoas devem ter uma certa familiaridade com o grupo. Esta estratégia pode ser utilizada, mas com cuidado pois, os pesquisadores ocasionais podem deixar de fornecer instrumentos mais precisos para posterior análise. Portanto, na medida do possível, o próprio pesquisador deve fazer a entrevista, afinal, é ele que melhor sabe o que está procurando.

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Durante a entrevista o pesquisador precisa estar sempre pronto a enviar sinais de entendimento e de estímulo, com gestos, acenos de cabeça, olhares e também sinais verbais como de agradecimento, de incentivo. Isto irá facilitar muito essa troca, essa relação. O pesquisado deve notar que o pesquisador está atento escutando a sua narrativa e ele deve procurar intervir o mínimo possível para não quebrar a seqüência de pensamento do entrevistado. A entrevista deve proporcionar ao pesquisado bem-estar para que ele possa falar sem constrangimento de sua vida e de seus problemas e quando isso ocorre surgem discursos extraordinários. Bourdieu (1999) cita que os pesquisados mais carentes geralmente aproveitam essa situação para se fazer ouvir, levar para os outros sua experiência e muitas vezes é até uma ocasião para eles se explicarem, isto é, construírem seu próprio ponto de vista sobre eles mesmos e sobre o mundo. Por vezes esses discursos são densos, intensos e dolorosos e dão um certo alívio ao pesquisado. Alívio por falar e ao mesmo tempo refletir sobre um assunto que talvez os reprimam. Neste caso pode-se até dizer que seja uma auto-análise provocada e acompanhada. O pesquisador deve levar em conta que no momento da entrevista ele estará convivendo com sentimentos, afetos pessoais, fragilidades, por isso todo respeito à pessoa pesquisada. O pesquisador não pode esquecer que cada um dos pesquisados faz parte de uma singularidade, cada um deles têm uma história de vida diferente, têm uma existência singular. Portanto nada de distração durante a entrevista, precisa-se estar atento e atencioso com o informante. Além disso, ao realizar o relatório da pesquisa é dever do pesquisador se esforçar ao máximo para situar o leitor de que lugar o entrevistado fala, qual o seu espaço social, sua condição social e quais os condicionamentos dos quais o pesquisado é o produto. Tem que ficar claro para o leitor a tomada de posição do pesquisado. Durante todo o processo da pesquisa o pesquisador terá que ler nas entrelinhas, ou seja, ele tem que ser capaz de reconhecer as estruturas invisíveis que organizam o discurso do entrevistado. Dessa forma, durante a entrevista o pesquisador precisa estar alerta pois, o pesquisado pode tentar impor sua definição de situação de forma consciente ou inconsciente. Ele também poderá tentar passar uma imagem diferente dele mesmo. A presença do gravador, como instrumento de pesquisa, em alguns casos pode causar inibição, constrangimento, aos entrevistados. Em outros casos o pesquisado poderá assumir um papel que não é o seu, assumir um personagem que nada tem a ver com ele, ou seja, ele pode incorporar o personagem que ele acha que o pesquisador quer ouvir. Sendo assim, consciente ou inconscientemente o pesquisado estará tentando enganar o pesquisador.

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Em relação à atuação ou postura do entrevistador no momento da entrevista este não deve ser nem muito austero nem muito efusivo, nem falante demais, nem demasiadamente tímido. O ideal é deixar o informante à vontade, a fim de que não se sinta constrangido e possa falar livremente. Uma entrevista bem sucedida depende muito do domínio do entrevistador sobre as questões previstas no roteiro. O conhecimento ou familiaridade com o tema evitará confusões e atrapalhos por parte do entrevistador, além disso, perguntas claras favorecem respostas também claras e que respondem aos objetivos da investigação. Bourdieu (1999) também aponta algumas sugestões para com a transcrição da entrevista que é parte integrante da metodologia do trabalho de pesquisa. Uma transcrição de entrevista não é só aquele ato mecânico de passar para o papel o discurso gravado do informante pois, de alguma forma o pesquisador tem que apresentar os silêncios, os gestos, os risos, a entonação de voz do informante durante a entrevista. Esses “sentimentos” que não passam pela fita do gravador são muito importantes na hora da análise, eles mostram muita coisa do informante. O pesquisador tem o dever de ser fiel, ter fidelidade quando transcrever tudo o que o pesquisado falou e sentiu durante a entrevista. O autor também considera como dever do pesquisador a legibilidade, ou seja, aliviar o texto de certas frases confusas de redundâncias verbais ou tiques de linguagem (né, bom, pois é, etc). Este autor também considera como um dever do pesquisador tomar o cuidado de nunca trocar uma palavra por outra, nem mesmo mudar a ordem das perguntas. Portanto considera-se ideal que o próprio pesquisador faça a transcrição da entrevista. Na visão de Bourdieu (1999), o sociólogo deve fazer às vezes do parteiro, na maneira como ele ajuda o pesquisado a dar o seu depoimento, deixar o pesquisado se livrar da sua verdade. Este autor considera que a entrevista é um exercício espiritual, é uma forma do pesquisador acolher os problemas do pesquisado como se fossem seus. É olhar o outro e se colocar no lugar do outro. Portanto o sociólogo deve ser rigoroso quanto ao seu ponto de vista, que não deixa de ser um ponto de vista de um outro ponto de vista, o do entrevistado. Goldenberg (1997) assinala que para se realizar uma entrevista bem sucedida é necessário criar uma atmosfera amistosa e de confiança, não discordar das opiniões do entrevistado, tentar ser o mais neutro possível. Acima de tudo, a confiança passada ao entrevistado é fundamental para o êxito no trabalho de campo. Além disso, existe um código de ética do sociólogo que deve ser respeitado.

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Considerações finais

O objetivo deste artigo não era o de discorrer amplamente sobre as técnicas de pesquisa que apresentamos pois, consideramos que vários autores tratam deste tema com muito mais propriedade. A intenção era tornar possível algumas confrontações entre as diferentes formas de entrevista e mostrar que todas trazem limitações sobre as quais o pesquisador deve estar cauteloso tentado evitá-las se for possível. Conforme enfatizamos antes, cada instrumento de coleta de dados deve estar intimamente ligado ao problema da pesquisa. Porém para nós cientistas sociais o grande dilema é saber qual deles melhor se ajusta na compreensão do fenômeno que estamos pretendendo pesquisar. Por fim é preciso considerar que este artigo está tratando de metodologia e conforme Bourdieu (1998) assinala, os procedimentos da pesquisa parecem estar antecedendo à prática apenas pelo fato de que foram definidos de antemão, mas de fato eles foram definidos com a prática. Ele lembra também, citando Nietzsche, que os sacerdócios vivem do pecado... De maneira semelhante acrescentamos: os gramáticos vivem dos erros, assim como os metodólogos... Ele mesmo, como sociólogo faz uma relativização da função do metodólogo, ou seja, do especialista em metodologia. Por isso mesmo os manuais de metodologia tanto enfatizam o fazer correto, mas deve-se ter consciência de que esse correto é algo construído e que também é dado historicamente.

Referências bibliográficas:

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MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento científico: pesquisa a qualitativa em saúde. 2 edição. São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco, 1993. MINAYO, Maria Cecília de Souza (org). Pesquisa Social: Teoria, Método e a Criatividade. 6 Edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1996. SELLTIZ, Claire et allii. Métodos de pesquisa nas relações sociais. Tradução de a Maria Martha Hubner de Oliveira. 2 edição. São Paulo: EPU, 1987.

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ARTIGO ARTICLE

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Amostragem por saturação em pesquisas qualitativas em saúde: contribuições teóricas Saturation sampling in qualitative health research: theoretical contributions

Bruno José Barcellos Fontanella 1 Janete Ricas 2 Egberto Ribeiro Turato 3

Abstract
1 Departamento de Medicina, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, Brasil. 2 Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil. 3 Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil.

Introdução
Amostragem por saturação é uma ferramenta conceitual freqüentemente empregada nos relatórios de investigações qualitativas em diferentes áreas no campo da Saúde, entre outras. É usada para estabelecer ou fechar o tamanho final de uma amostra em estudo, interrompendo a captação de novos componentes. Objetivamos, neste artigo, refletir criticamente sobre alguns fundamentos metodológicos e técnicos de seu emprego. O fechamento amostral por saturação teórica é operacionalmente definido como a suspensão de inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição 1, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados. Noutras palavras, as informações fornecidas pelos novos participantes da pesquisa pouco acrescentariam ao material já obtido, não mais contribuindo significativamente para o aperfeiçoamento da reflexão teórica fundamentada nos dados que estão sendo coletados. Esta conotação/definição já vinha presente no texto que parece ter inaugurado o uso da expressão saturação teórica (theoretical saturation) 2. No entanto, é necessário problematizá-la porque, embora possa parecer um procedimento decorrente de uma constatação facilmente atingível, muitas vezes a averiguação de saturação

Correspondência B. J. B. Fontanella Departamento de Medicina, Universidade Federal de São Carlos. Rodovia Washington Luís, Km 235, São Carlos, SP 13565-905, Brasil. bruno.fontanella@uol.com.br

The transparency and clarity of research reports, emphasizing the data collection stage, are considered important parameters for evaluating the scientific rigor of qualitative studies. The current paper aims to analyze the use of saturation sampling as a methodological concept, frequently employed in descriptions of qualitative studies in various areas of knowledge, particularly in the field of health care. We discuss and confront the following topics: definition of sampling closure by theoretical saturation; difficulties in the acceptance and operationalization of intentional samples (with examples), adequate size of the intentional sample, the significance of valuing what is repeated or the differences contained in the sample reports, inadequate uses of expressions containing the term saturation, and finally possible metaphors for understanding the concept. Sampling Studies; Qualitative Research; Methodology

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(1):17-27, jan, 2008

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Fontanella BJB et al.

pode ser feita de maneira acrítica ou excessivamente subjetivista. No extremo, o emprego da expressão pode se apoiar apenas no consenso que atualmente existe, entre os pesquisadores qualitativistas, sobre a propriedade de utilização deste recurso metodológico, faltando, entretanto, suficiente discriminação quanto ao seu significado, ferindo assim a transparência da investigação. Glaser & Strauss 2 originalmente conceituaram saturação teórica como sendo a constatação do momento de interromper a captação de informações (obtidas junto a uma pessoa ou grupo) pertinentes à discussão de uma determinada categoria dentro de uma investigação qualitativa sociológica. Na expressão dos autores, tratar-seia de uma confiança empírica de que a categoria está saturada, levando-se em consideração uma combinação dos seguintes critérios: os limites empíricos dos dados, a integração de tais dados com a teoria (que, por sua vez, tem uma determinada densidade) e a sensibilidade teórica de quem analisa os dados.

construídos a partir de conceitos prévios do pesquisador 4. Os diferentes paradigmas científicos comportam e prescrevem diferentes tipos de construção de amostras. Aquelas utilizadas nas pesquisas qualitativas são, talvez, as mais controversas aos olhos de leitores e pesquisadores acostumados às ciências de inspiração positivista, historicamente hegemônicas na produção científica na área da saúde. Tais ciências supõem que o fato existe por si, cabendo ao observador descrevê-lo e enunciar seus nexos causais, não importando a imaginação e outras questões subjetivas na elaboração das teorias na consciência do cientista.

Amostragens intencionais são válidas?
Nesta linha argumentativa, são comuns as asserções de que as amostras não probabilísticas não são subconjuntos suficientemente representativos da realidade empírica em foco e das populações estudadas, porque suas características inviabilizariam um tratamento estatístico dos resultados, de modo a permitir sua generalização. A aplicação ficaria, assim, limitada à própria amostra (isto é, teria uma baixa validade externa, embora com adequada validade interna) 5,6. Esse tipo de argumento enfatiza, a nosso ver equivocadamente, a idéia de que a representatividade é alcançada apenas por algo como uma imagem em tamanho reduzido do contexto, tomado como tendo seus atributos homogeneamente distribuídos no universo de seus componentes. Bastaria, por isso, selecionar aleatoriamente um número suficiente deles para evitar, estatisticamente, que as exceções fossem tomadas como regra. Essa visão não valoriza o fato de que, quando se trata de questões psicossociais do ser humano, o desempenho de um atributo, mesmo que de maneira superdimensionada por indivíduos típicos quanto a determinado parâmetro em investigação (e, talvez por isso mesmo, especiais candidatos a serem selecionados), revele funções ou características representativas daquele mesmo contexto. Por exemplo, em um estudo sobre crenças que sustentam as práticas curativas alternativas de uma comunidade rural, poderiam ser entrevistados, como informantes-chave, uma benzedeira, um raizeiro e um curandeiro aos quais a comunidade recorresse. As crenças que sustentam suas práticas estariam difundidas na comunidade, mas concentradas nestes indivíduos. A despeito desse tipo de crítica, a maioria dos estudiosos de metodologia científica prevê o em-

Amostragem como fonte de validação das pesquisas
A importância do estudo dos processos de amostragem relaciona-se estreitamente ao conceito de validade científica 3. Sem dúvida, a forma de constituição de um subconjunto supostamente representativo do contexto sob investigação (isto é, da realidade empírica pesquisada) é um importante recurso de validação de estudos científicos, uma vez que os dados a serem trabalhados emergem fundamentalmente – embora parcialmente – dos elementos que compõem tal subconjunto. A constituição desse subconjunto transcorre paralelamente à de outros elementos cruciais de validação científica: o desenho da pesquisa (seja experimental ou de campo), o recorte do objeto e formulação do problema, a formulação dos pressupostos ou hipóteses, a escolha dos instrumentos de coleta de dados e os quadros de referenciais teóricos de interpretação dos resultados. O supracitado advérbio “parcialmente” lembra que o campo de observação não é a fonte exclusiva dos achados e explica-se pelos questionamentos sobre o que seriam as essências dos diferentes objetos científicos, suas propriedades e determinações básicas, bem como das possibilidades de conhecimento sobre eles, ou seja, por questões de natureza ontológica. Tais propriedades, determinações e conhecimentos são organizados psicológica e socioculturalmente, sendo impossível desconsiderar que os dados não advêm passivamente da realidade, mas são

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prego de amostras não probabilísticas, dependendo dos objetivos da investigação. Já sob a ótica dos pesquisadores que utilizam métodos compreensivo-interpretativos – ou qualitativos – os processos não probabilísticos de amostragem também podem representar uma fase difícil de planejar e empreender. Tais dificuldades muitas vezes parecem se relacionar à fundamentação teórica que constrói o objeto em investigação e, portanto, quais os indivíduos mais adequados para serem incluídos na amostra (ou seja, a adequação da amostra ao objeto de estudo). Para garantir qualidade às pesquisas qualitativas, é necessário congruência entre os paradigmas teóricos (que fundamentam a definição do objeto e a formulação do problema) e os métodos e técnicas empregados (para abordar a realidade empírica) 7. Em termos operacionais, a questão que orienta a amostragem não probabilística relaciona-se à homogeneidade fundamental 8,9 que deveria estar presente na amostra, isto é, aos atributos definidos como essenciais, presentes na intersecção do conjunto de características gerais dos componentes amostrais. Ocorrida essa definição, a escolha dos elementos amostrais advirá de um caminho mais prático, na dependência direta dos objetivos da investigação, pois a um mesmo objeto podem corresponder diferentes objetivos de pesquisa.

O objeto, os objetivos e os componentes da amostra
Para esclarecimento, citemos um exemplo hipotético: Trabalhando em hospital para pacientes com tuberculose, um pesquisador preocupado com adesão ao tratamento (→ objeto de pesquisa) verifica que a maioria dos casos internados relaciona-se à reagudização do quadro clínico, aparentemente relacionada ao abandono de tratamento proposto (→ problema delimitado). Um exemplo de questionamento central a ser investigado poderia ser assim redigido: “Que fatores o paciente associa ao fenômeno de sua não-adesão ao tratamento e que sentidos psicológicos e socioculturais tais motivos têm para si?” (→ problema formulado). As hipóteses poderiam ser as mais variadas: dificuldades objetivas de acesso ao tratamento (físicas, sociais, econômicas, relacionais etc.), efeitos colaterais percebidos como da medicação, falta de motivação psicológica (por não acreditar na eficácia, não acreditar que conseguiria seguir à risca o tratamento, não desejar se curar, ou ainda, querer morrer ou contaminar outras

pessoas), co-morbidade psiquiátrica que dificultasse a persistência no tratamento, negação psicológica da doença, família não colaboradora, unidades de saúde com falha na gestão do cuidado, entre outras. Diante do problema e das hipóteses, o pesquisador decide, então, entrevistar indivíduos ou realizar grupos focais, isto é, elege uma técnica de coleta de dados. A questão que se segue é: quais devem ser os participantes? Neste ponto da elaboração do projeto de pesquisa, pensa-se nos seguintes subgrupos que poderiam fornecer dados para responder ao problema formulado: • pacientes sem adesão ao tratamento e hospitalizados por esse motivo; • pacientes sem adesão ao tratamento, mesmo não hospitalizados; • pacientes com boa adesão ao tratamento, mas que poderiam relatar as dificuldades práticas para manterem o seguimento ambulatorial; • familiares desses pacientes; • profissionais de saúde que sabem informar estas questões pela experiência acumulada na abordagem dessa clientela. Como referido, o subgrupo que constituirá a amostra não poderá ser casualmente escolhido, porque deve corresponder ao objeto de pesquisa, já que este é o mesmo e está presente em todos os subgrupos (adesão ao tratamento para tuberculose). A escolha deverá recair no subgrupo que melhor atender aos objetivos específicos da pesquisa. Estes, por sua vez, dependem dos pressupostos e dos limites que se quer dar ao estudo. Pode-se escolher conhecer especificamente o ponto de vista dos agentes comunitários, ou de outros trabalhadores da saúde, ou da família, ou do paciente que não abandonou ou do que abandonou etc. Portanto, embora o recorte do objeto determine indiretamente os componentes amostrais, estes são mais especificamente definidos pelos objetivos. Na situação exemplificada, aceitandose que o objeto-tema é adesão ao tratamento da tuberculose, a amostra deveria ser constituída por quem tem um discurso sobre o assunto, sejam profissionais de saúde, agentes comunitários, familiares e amigos, sejam, evidentemente, os próprios doentes.

Tamanho adequado da amostra intencional
Até aqui, discutimos a primeira de duas perguntas que devem ser feitas na busca de uma amostra adequada aos objetivos de uma pesquisa: quem selecionar? Outra pergunta crucial é: quantos se-

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lecionar? Isto é, qual o tamanho do grupo desses sujeitos. Nos estudos qualitativos, a questão “quantos?” nos parece de importância relativamente secundária em relação à questão “quem?”, embora, na prática, representem estratégias inseparáveis. Afinal, o que há de mais significativo nas amostras intencionais ou propositais não se encontra na quantidade final de seus elementos (o “N” dos epidemiologistas), mas na maneira como se concebe a representatividade desses elementos e na qualidade das informações obtidas deles. Apesar desta importância secundária, o estabelecimento de um número amostral fechado é inevitável (como em qualquer empreendimento investigativo não censitário). Um erro metodológico no estabelecimento desse número final pode comprometer a credibilidade dos achados e das análises realizadas 10. Nas pesquisas qualitativas, de qualquer forma, este fechamento amostral ocorrerá por critérios de seleção que não consideram mensurações das ocorrências estudadas, ao contrário das pesquisas quantitativas que, ao utilizarem amostragem probabilística, não devem prescindir desta caracterização ao calcularem o “N” adequado aos cálculos estatísticos. Diferentemente das pesquisas quantitativas, a seleção dos elementos amostrais em pesquisas qualitativas não decorre da mensuração da distribuição de categorias como nos estudos matematizados de características clínicas e bio-sociodemográficas (como diagnósticos nosográficos, perfis de personalidade, eficácia de terapêuticas medicamentosas, idade, sexo, procedência, tipo de moradia, situação conjugal, escolaridade etc.). Isso não é necessário porque os critérios a que os estudos qualitativos visam não obedecem aos mesmos padrões de distribuição de parâmetros biológicos ou dos fenômenos naturais em geral. A seleção dos elementos decorre, sobretudo, da preocupação de que a amostra contenha e espelhe certas dimensões do contexto 8, algumas delas em contínua construção histórica. A desnecessária representatividade estatística é um dos motivos pelos quais as amostras qualitativas são menores do que as necessárias nos estudos quantitativos. No entanto, a necessidade de “fechamento” amostral exige do pesquisador a explicitação dos critérios para interromper a seleção de casos novos, tornando-os inteligíveis aos futuros leitores dos relatórios e norteadores do andamento prático dos procedimentos de captação. Variadas são as técnicas para realizar uma amostra intencional, tendo Patton 11 listado mais

de uma dezena de possibilidades – porém seu fechamento freqüentemente se dará por redundância de informações ou saturação, tema maior da presente discussão. Outras técnicas de interrupção de captação de elementos amostrais podem ser confundidas com a técnica da saturação. Foge do escopo deste artigo discuti-las, não obstante serem freqüentemente empregadas: o fechamento por exaustão (em que são incluídos todos os indivíduos disponíveis) e por cotas (em que se prédetermina a necessidade de contemplar algumas características secundárias dos elementos amostrais – faixa etária e sexo, por exemplo, cujos indivíduos que as retêm serão deliberadamente procurados). Em nenhuma delas há a procura apriorística por seguir uma lógica probabilística, ainda que os participantes da pesquisa possam advir de uma seleção desse tipo. Quando, por exemplo, num mesmo grande empreendimento de pesquisa convivem projetos de tratamentos quantitativos e qualitativos, a praticidade pode fazer que a fonte de recrutamento dos sujeitos seja a seleção randômica (por exemplo, no estudo de Loyola Filho et al. 12).

Saturação: exemplo operacional de como constatar
A avaliação da saturação teórica a partir de uma amostra é feita por um processo contínuo de análise dos dados, começado já no início do processo de coleta. Tendo em vista as questões colocadas aos entrevistados, que refletem os objetivos da pesquisa, essa análise preliminar busca o momento em que pouco de substancialmente novo aparece, considerando cada um dos tópicos abordados (ou identificados durante a análise) e o conjunto dos entrevistados. Propomos na Tabela 1 uma representação esquemática de um processo de coleta de informações, em que os participantes apresentam suas percepções e atribuições de significados sobre determinado tópico. Note-se que nenhum dos discursos é igual a outro, no entanto todos apresentam elementos comuns com algum outro. No início, os acréscimos aos anteriores são evidentes. Posteriormente, os acréscimos vão se rareando até que deixam de aparecer a partir da entrevista 9. Após mais seis entrevistas confirmou-se a repetição. Nesse momento, poderíamos dizer que o discurso do grupo amostral sobre o tópico em questão era {a,b,c,d,e,f,g,h,i,j,k,l}. Seria improvável que novas idéias aparecessem, mesmo que chegássemos ao dobro das entrevistas.

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Entretanto, se na entrevista 25 aparecesse o conjunto de informações {r,t,z}, poderíamos supor que o informante pertence a outro grupo cultural ou que está à margem de sua cultura (podendo, por exemplo, ser considerado portador de graves problemas mentais, ou um sujeito cuja particular visão de mundo aponta para uma tendência futura do grupo). Não sendo uma descoberta deste tipo o nosso objetivo, poderíamos ter parado na entrevista 15 ou 13. Expomos na Tabela 2 uma análise preliminar de entrevistas de um estudo qualitativo sobre adesão de pais de crianças deficientes ao tratamento, em realização na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A categoria em questão é “sentimentos dos pais diante da constatação de ter um filho deficiente”. Obsserve-se que a entrevista 2 acrescenta bastante à primeira, mas a 3 e 4 já acrescentam menos, considerando o conjunto de informações obtidas na duas primeiras. Daí por diante,o acréscimo ou não existe ou é considerado pequeno. Diante disso, existe uma possibilidade de que a saturação tenha ocorrido com relação a este objetivo nas 11 primeiras entrevistas, o que pode e deve ainda ser confirmado com mais entrevistas, talvez uma ou duas. Os sentimentos de tristeza, negação, desespero, decepção, susto, frustração, medo, revolta, vergonha, rejeição, culpa, resignação, aceitação com o passar do tempo e desenvolvimento de apego excessivo são os que o grupo manifesta diante dessa vivência, ou permite que o pesquisador infira estarem presentes. Com esse conjunto de dados, este poderá considerar ter elementos suficientes para novas e substanciais elaborações teórico-conceituais sobre a categoria em questão, aprofundando o conhecimento sobre o tema geral investigado. Porém, se também for de seu interesse a forma como tais sentimentos são expressos pelos informantes (por exemplo, que comportamentos pregressos são associados pelos informantes a esses sentimentos), a pré-análise em busca de saturação deve recomeçar. Para esta nova categoria, e para as demais que sejam elaboradas, a saturação poderá ocorrer em outro ponto do processo de coleta de dados, não necessariamente na entrevista 11. Note-se que tratamos neste exemplo de uma pré-categoria, pois, diante do objeto de pesquisa “adesão de pais de deficientes ao tratamento”, é de certa forma previsível que os sentimentos vivenciados pelos participantes da amostra venham a se constituir como uma categoria de análise ou mesmo um objetivo específico do estudo.

Tabela 1 Representação de um processo de coleta de informações (atribuições de significados quanto ao tema “X”). Entrevistado 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Conteúdo manifesto do entrevistado ou inferido pelo pesquisador Afirma pensar: Relata ter vivenciado: Sugere a possibilidade de: Relata saber: Opina não ser possível: Refere acreditar: Já conversou a respeito: Permite inferências sobre: Relata ter vivenciado: Já pensou, não acredita mais: Afirma pensar: Relata ter vivenciado: Permite inferências: Relata ter vivenciado: Relata ter vivenciado: a,b,c,d c,e,f a,d,g f,g,d h,b,d,k f,b,c,h c,i,g b,c,d,j,f,k k,d,b,c,h,l d,h a,d,f,c,h,l a,b,j,l,h l,f,a f,d,l,a,c,k c,f,b,h

Tabela 2 Análise preliminar de entrevistas de estudo sobre adesão de pais de crianças deficientes ao tratamento (categoria: sentimentos relatados e vivenciados). Entrevistado 1 Conteúdo manifesto do entrevistado ou inferido pelo pesquisador Permite inferências: Relata ter vivenciado: Opina ser possível: 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Relata ter vivenciado: Sugere a possibilidade: Relata ter vivenciado: Relata ter vivenciado: Não acrescenta Relata ter vivenciado: Opina ser possível: Relata ter vivenciado: Não acrescenta Não acrescenta Relata ter vivenciado: Permite inferências: Não acrescenta tristeza, vergonha culpa vergonha, resignação rejeição tristeza, medo negação resignação aceitação com o passar do tempo desespero, decepção, susto, frustração, medo desenvolvimento de apego excessivo desespero, medo, resignação, aceitação com o passar do tempo desespero, decepção, susto, frustração, revolta

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Indo a campo sem pré-categorias
Diferentemente deste exemplo, há situações em que o pesquisador vai a campo sem pré-categorias explicitadas. É o caso de estudos com um caráter exploratório ainda mais marcante, nos quais a população é desconhecida, e não existem problemas ou objetivos específicos nitidamente delimitados, tampouco hipóteses ou pressupostos claramente definidos. Este pode ser o caso de muitos estudos etnográficos na área da saúde, os quais pressupõem a imersão parcial ou total do pesquisador na cultura abordada. Dos fenômenos observados, reportados e vivenciados, ele fará necessariamente, mesmo que não intencionalmente, um recorte, que constituirá o seu relato e será objeto de suas reflexões, constituindo objetivos declarados a posteriori. Esses objetivos, embora não anteriormente explicitados ou discerníveis, já faziam parte ou então passaram a fazer parte do estudo, à medida que este se desenvolveu. Numa situação desse tipo, o pesquisador provavelmente não interromperia sua busca enquanto novas explicações, significados ou visões de mundo estivessem surgindo sobre os assuntos e fatos focalizados. Diante disso, diríamos que o pesquisador sempre virá a julgar, mesmo de forma não intencional, se houve saturação teórica dos significados, representações e simbolizações que a cultura estudada atribui aos fenômenos focados.

Empregos polêmicos de saturação
Consideramos cabível, neste ponto, comentar alguns empregos polêmicos do termo saturação. Eles têm sido observados por nós, algumas vezes, em situações de exposição oral de argumentos em eventos ou reuniões científicas e em relatórios escritos (artigos e teses). Primeiramente, o termo pode assumir uma conotação que sugere que o pesquisador ficou saturado, ou seja, farto de entrevistar e ouvir respostas semelhantes, resolvendo então interromper a coleta de dados. Caso ocorra, tal fenômeno estaria situado na esfera mental do pesquisador e não seria, obviamente, um parâmetro metodológico para encerrar a captação de novos elementos. Tratar-se-ia possivelmente de um estado de impaciência, reflexo de uma predisposição para perceber somente alguns fenômenos 10, talvez mais aderidos à realidade empírica. Por outro lado, o eventual emprego da expressão pesquisador saturado pode corresponder a uma figura de linguagem referente à percepção,

avaliação e tratamento mental dos dados pelo pesquisador com base em seu escopo teórico e que, a partir deste, julga-os já suficientes. Um segundo emprego controverso, e talvez equivocado, refere-se à expressão amostra saturada quando, na prática, o fechamento amostral se deu por exaustão (os participantes foram todos os que faziam parte do universo definido pelo pesquisador). No estudo de Goulart et al. 13, por exemplo, sobre as representações das mães quanto ao processo de morte de seus filhos no primeiro ano de vida, num bairro de Belo Horizonte, Minas Gerais, todas aquelas cujos filhos faleceram num determinado período foram entrevistadas. Neste caso, a palavra utilizada para descrever seu fechamento não parece corresponder ao efetivamente realizado. É possível, porém, que uma amostra fechada por exaustão seja suficiente para saturar algumas ou todas as categorias formuladas pelo pesquisador. Tratarse-ia, no entanto, de uma constatação de saturação não decorrente do próprio processo de pesquisa. A expressão “pouco a acrescentar” pode igualmente ser problematizada: o que seriam “poucos” dados novos ou “certa reincidência das informações” 8, as quais justificariam a interrupção de coleta de dados? “Pouco a acrescentar” toma como referência aquilo que o pesquisador objetivou atingir, um certo grau de aperfeiçoamento teórico da discussão de uma categoria. O conteúdo das respostas dos informantes às questões formuladas (e implícitas nos objetivos) “pouco acrescentam” a tal aperfeiçoamento. Contudo, outro pesquisador ou o mesmo, achando necessário aprofundar a discussão ou se apoiando em referenciais teóricos diferentes, podem sentir que necessitam de mais ou de outros dados. Além disso, dependendo dos objetivos da investigação, no momento em que fica bem caracterizado que um determinado conjunto de percepções a partir da amostra é repetitivo, as diferenças que venham a se apresentar podem ser mais valorizadas e exploradas. Pode ser um momento de questionar sobre um possível movimento que esteja levando o pesquisador a simplificar excessivamente sua análise. Casos desviantes ajudariam a melhor demarcar a extensão das análises, apontando seus limites, e uma maior variedade da representação (incluindo esses casos extremos ou negativos, maximizando a representação de grupos numericamente minoritários da população em estudo 14) mostraria o compromisso com a transparência da investigação.

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Valorizar o que se repete ou as diferenças?
Observe-se, então, que o fechamento da amostra resulta de um balanço que o pesquisador faz sobre valorizar, no conjunto das informações obtidas, as diferenças ou, em contraposição, o que se repete. Isso leva à reflexão sobre a relação indivíduo-grupo e sobre qual desses aspectos a abordagem teórica do pesquisador privilegia. Segundo os teóricos da Análise do Discurso, lê-se na fala de um indivíduo o discurso do grupo e o seu próprio discurso 15. Diz-se “seu próprio discurso” não no sentido de ter sido construído fora de um contexto histórico e interacional, independente das condições de sua produção e das determinações históricas e sociais de sua formação, mas no sentido da forma original pela qual esse discurso mais amplo foi assimilado e organizado pelo indivíduo. As diferenças (o que se percebe como individualizações da fala) seriam as nuances que a linguagem adquire ao ser assimilada às vivências pessoais e aos contornos que o enunciado adquire, determinados pelas condições imediatas da enunciação. Tais condições imediatas (onde se diz, de onde se diz e para quem se diz) definem para o sujeito o que pode, o que deve e como pode ser dito naquele momento e situação. Mas as possibilidades de um indivíduo dizer são limitadas pelo tempo e espaço social a que pertence, o que o leva a ser identificado, pelo observador, como pertencente a um determinado grupo. Dessa forma, as semelhanças predominantemente indicarão, na perspectiva social, o discurso do grupo, da formação social à qual pertence o sujeito ou, na perspectiva psicanalítica, as estruturas do aparelho psíquico mais universais ou gerais. Por sua vez, as diferenças marcarão as vivências pessoais e as condições imediatas de produção da fala, podendo incluir os fenômenos ditos transferenciais na relação com pesquisador ou com a instituição onde a pesquisa é conduzida. Logo, a constatação de saturação depende dos objetivos do pesquisador: se ele tem como objetivo a captação daquilo que caracteriza o grupo, a saturação amostral se dá num determinado nível. Este nível poderá garantir maior validade externa, ou seja, maior transferibilidade das interpretações para contextos mais amplos. Porém, se lhe interessa o conhecimento aprofundado do sujeito, essa saturação poderá, hipoteticamente, nunca ocorrer. Buscar-se-ia, neste último caso, uma maior validade interna das interpretações, ou seja, um aprofundamento nos sujeitos que compõem a amostra, sem a preocupação precípua de ampla generalização. Tal

aprofundamento pode corresponder a diferentes fenômenos, de acordo com a linha teórica adotada. Em sociologia, por exemplo, corresponderia à investigação dos modos como se concretizam, nos indivíduos, os comportamentos inerentes à estrutura de uma sociedade 16. Em psicanálise, por seu turno, corresponderia à investigação da dinâmica transferencial ímpar entre um entrevistado e um pesquisador 17. Considerando um mesmo estudo, diferentes tipos de informações e objetivos específicos terão diferentes momentos de saturação. Por exemplo, numa pesquisa sobre acidente escolar, da qual um de nós participou (J. R.) 18, considerou-se que todos os conceitos sobre o que é acidente apareceram nas primeiras 11 de um total 17 entrevistas realizadas com coordenadores de escolas de ensino fundamental. Já as diferentes atribuições de responsabilidade sobre a prevenção de acidente apareceram nas 13 primeiras. A maior ou menor homogeneidade da amostra no que diz respeito à cultura, tradição, gênero, faixa etária, experiência vivida etc., também influenciará o momento de saturação. No estudo citado, sendo todos os entrevistados profissionais de escolas privadas, de classes sócio-econômicas média e alta, presume-se que a saturação tenha ocorrido mais rapidamente do que se tivessem sido entrevistados também coordenadores de escolas públicas de bairros pobres. Uma amostra constituída somente de jovens adultos diabéticos, com o objetivo de captar representações relativas à restrição de alimentos, estaria saturada mais rapidamente do que se lá inseríssemos jovens adultos não diabéticos, e assim por diante. Num extremo deste raciocínio, estaria um processo de amostragem que não se satura ou que “satura o pesquisador”. Seria o caso, por exemplo, se resolvêssemos pesquisar em profundidade as vivências de luto pela perda de um filho, obtendo histórias de vida tópicas de pessoas que vivenciaram essa perda. Em tese, tantas seriam as formas quantos seriam os indivíduos. Consideramos, então, que, dependendo do objeto ou do problema focalizado, diferentes níveis de abrangência do contexto investigado são requeridos, na tentativa de captar os diferentes tipos ou níveis de simbolização presentes nas manifestações individuais dos participantes de uma pesquisa: número de indivíduos representantes desse contexto, diferentes tempos de duração de entrevista ou capacidades de insight dos entrevistados, assim como diferentes níveis de aprofundamento interpretativo por parte do pesquisador. Por exemplo, em pesquisa sobre vivências emocionais a respeito de determinado problema de saúde, dependendo do nível focado, nova entrevista com um mesmo sujeito pode ser

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necessária para que o pesquisador conclua a respeito de determinado mecanismo de defesa utilizado pelo entrevistado que, por sua vez, poderia também precisar de mais tempo para tornar tal mecanismo evidente.

Abrangência da generalização
Do primeiro exemplo mencionado (acidente escolar), teríamos resultados que se aplicariam ao grupo como um todo e, mesmo que parcialmente, a cada indivíduo. A generalização se apoiaria na análise das semelhanças históricas, sociais e culturais entre o grupo estudado e o foco da aplicação. Do segundo caso (luto), quanto mais aprofundássemos, mais teríamos resultados que se restringiriam aos indivíduos pesquisados. A generalização possível, aqui, apoiar-se-ia na avaliação caso a caso dos sujeitos que compuseram a amostra e no julgamento dos leitores do relatório de pesquisa sobre a plausibilidade de aplicação dos resultados apresentados em casos e settings específicos. Essas diferenças nos remetem novamente à afirmação de que saturar ou não, bem como o momento em que isto acontece, depende dos objetos e dos objetivos do pesquisador.

Recurso a metáforas para compreender saturação
Com base no exposto, parece inerente à técnica de fechamento amostral por saturação um certo grau de imprecisão ou aproximação quanto a um número ideal de componentes. Isto é exemplificado pelo simples fato de que a constatação de redundância de informações depende diretamente de certa quantidade de entrevistas realizadas posteriormente à saturação. Assim, o ponto exato de saturação amostral é determinado, logicamente, sempre a posteriori, embora sua ocorrência tenha sido prevista no desenho da pesquisa. Na medida em que as ferramentas utilizadas na constatação de saturação não são de ordem matemática, e sim cognitiva (envolvendo a percepção do pesquisador e seu domínio teórico), vários parecem ser os fatores que intervêm nesse processo, podendo influenciar a decisão de interromper o recrutamento da amostra por considerá-la saturada, usando agora a expressão no sentido de “amostra completa”. Cabe ressaltar, ainda, que qualquer projeto de pesquisa se insere num contexto que extrapola questões puramente metodológicas, situando-se num determinado contexto político de produção científica. Os objetivos de pesquisa inserem-se também neste

contexto mais amplo e, como vimos, eles influenciam diretamente todos os aspectos do processo de amostragem. Para ilustração desses fatores, alguns deles imponderáveis, comparamos a saturação, nesse sentido amplo, ao conceito de saturação na área físico-química. Recorremos ao auxílio de metáforas advindas desta área do conhecimento que, ao que nos parece, encontram-se implícitas já na origem da formulação do conceito de saturação teórica 2. Nesta área do conhecimento, o termo saturação é empregado para descrever comportamentos de materiais (solutos) transferidos para um meio específico (solvente): uma solução está saturada quando a concentração do soluto é a máxima possível para as determinadas condições físico-químicas do solvente (temperatura e pressão, por exemplo). Outra possibilidade de emprego físico-químico dessa expressão se dá quando um determinado material gasoso se encontra em equilíbrio com seu estado líquido, sendo impossível uma transferência maior de um estado para outro, também em determinadas condições. Dir-se-ia, portanto, que o processo de coleta de dados se satura quando há a percepção de que os dados novos a serem coletados decantam-se, isto é, não são diluídos ou absorvidos na formulação teórica que se processa, não mais contribuindo para seu adensamento. Isso se daria por diferentes motivos: • Por questões práticas do processo de pesquisa, como possibilidade de acesso aos informantes, tempo disponível para a sua realização ou a abrangência ou tamanho possíveis do relatório. A metáfora química seria a de um continente (um frasco) com pouca capacidade e que comporta pouco solvente e, em decorrência, pouco soluto (em termos absolutos). Exemplificando: em uma pesquisa em andamento sobre violência doméstica contra a criança, da qual um de nós participa, os pais de classe média e alta não foram entrevistados por impossibilidade de acesso. • Por questões ontológicas, quando o material obtido não é solúvel nas ferramentas ou paradigmas interpretativos disponíveis; isto é, alguns objetos não seriam reconhecíveis e, assim sendo, seria impossível serem utilizados e interpretados (diluídos). Na falta de um referencial teórico suficientemente denso (utilizando termo de Glaser & Strauss 2), o pesquisador não conseguiria transformar certos aspectos do contexto com que se defronta em dados, resultando em pontos-cegos ao conhecimento. • Por questões cognitivas e das dinâmicas psicológicas e culturais do pesquisador e ou dos pesquisados. Quando essas questões estão presentes, talvez correspondam aos elementos beta

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conceituados pelo psicanalista Bion 19: elementos dos participantes da pesquisa não apreendidos (neste caso, por quem coleta e analisa os dados), sendo então mentalmente descartados, não absorvidos, rejeitados de antemão por uma simples impossibilidade psicológica de serem percebidos. No caso das pesquisas qualitativas na área clínica, por exemplo, em que os elementos de angústia da dupla pesquisador-entrevistado estão profundamente atuantes, este talvez seja um dos principais determinantes do decantamento (descarte) de possíveis dados. O fenômeno pode decorrer de questões do próprio pesquisador – incapaz de escutar e analisar certos conteúdos, por uma dificuldade de rapport com determinado entrevistado –, ou dos sujeitos pesquisados – incapazes de transmitilos de maneira inteligível ou psicologicamente audível, ou mesmo de percebê-los – ou, ainda, da interação entre ambos. Trata-se de fenômeno análogo ao comentado quanto às questões ontológicas, com a diferença de que haveria, neste caso, ferramentas teóricas interpretativas suficientes, não ocorrendo, porém, a apreensão de dados. Considerando todo o grupo amostral, essa dificuldade é minimizada pelo fato de outras pessoas serem também entrevistadas, já que as informações individuais se complementam e/ou se sobrepõem. O que não foi apreendido a partir da interação com um participante, poderá ser com um outro. A interrupção da coleta de dados decorre de um juízo consciente do pesquisador. Todavia, no caso supracitado, haveria processos não conscientes influenciando a coleta, representando coisas que “não podem ser ditas ou não podem ser ouvidas”, ficando indisponíveis para o pesquisador, para o pesquisado ou para ambos. Isso influenciaria também a análise dos dados efetivamente colhidos, pois essas questões enviesam o olhar e a reflexão do pesquisador. Este poderia, desavisadamente, decidir por um ponto de saturação incorreto para seus objetivos, pois não estaria consciente da presença desse fenômeno. Porém, estando o corpus das entrevistas disponível, outros leitores/analistas de dados poderiam perceber indícios de sua ocorrência e considerar que o mais correto teria sido outro ponto de saturação. Trata-se de um exemplo de como pode se originar a imprecisão no número amostral, comentada anteriormente. Quando as questões culturais estão presentes, advindas, por exemplo, de posição excessivamente etnocêntrica do pesquisador (pouca familiaridade com o objeto de estudo, barreiras de linguagem, insuficiente aculturação etc.), incapacitando-o a compreender certos valores

simbólicos culturais dos participantes, elas podem ser vistas como uma variação dos citados elementos beta: símbolos cognitivamente não perceptíveis ao pesquisador, pontos psicológica e culturalmente cegos. Nestes casos, a metáfora química seria a de um solvente (pesquisador) que, em virtude da baixa temperatura (isto é, insuficientes condições cognitivas, culturais ou psicológicas), absorve e comporta pouco soluto. • Por questões metodológicas do desenho da pesquisa: o objetivo geral do estudo é restrito, o caráter exploratório dado à investigação é pequeno, objetivando responder pontualmente a uma ou a poucas questões. Metaforicamente, não haveria incapacidades, insuficiências ou características inerentes aos materiais (solvente/ soluto – pesquisador/pesquisados) que os tornariam pouco compatíveis, mas uma opção por restringir o que será utilizado de ambos. Exemplificando: o objetivo pode se limitar à identificação dos termos mais comuns utilizados por uma população, para aperfeiçoar um questionário padronizado. Neste caso, a investigação estaria exposta a dúvidas sobre o seu caráter de pesquisa científica, já que é necessário algum reconhecimento, por parte do meio científico, de que os dados coletados se refiram a um contexto mais amplo em termos de espaço ou tempo do que a dos próprios dados. Talvez possa ser considerado procedimento eminentemente técnico, e não propriamente científico.

Conclusão
O conceito de saturação teórica é amplamente utilizado em pesquisas qualitativas na área da saúde, sendo invariavelmente citado em estudos metodológicos que contemplam o tópico amostragem intencional. O conceito encontra respaldo científico no pressuposto da constituição social do sujeito que, na Teoria das Representações Sociais, reflete-se no conceito de determinação social das representações individuais e, na Análise do Discurso, no conceito de determinação histórica e social das formações discursivas e da fala 15,20. Amostragem por saturação é uma ferramenta conceitual de inequívoca aplicabilidade prática, podendo, a partir de sucessivas análises paralelas à coleta de dados, nortear sua finalização. O ponto de saturação da amostra depende indiretamente do referencial teórico usado pelo pesquisador e do recorte do objeto e diretamente dos objetivos definidos para a pesquisa, do nível de profundidade a ser explorado (dependente do referencial teórico) e da homogeneidade da po-

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Fontanella BJB et al.

pulação estudada. Entretanto, por ser uma ferramenta inerentemente influenciada por fenômenos cognitivos e afetivos da dupla pesquisadorpesquisados, na prática da pesquisa qualitativa o encontro desse ponto de saturação está sujeito a imprecisões. Consideramos fundamental para o rigor científico e transparência das pesquisas qualitativas a menção, no relatório, do conjunto de

fatores identificados que possam ter contribuído para a decisão de um determinado ponto de saturação amostral. Deve-se evitar a simples menção à utilização desse recurso metodológico, algo possivelmente representativo de uma ilusão de transparência 21 de um procedimento complexo, que contribui decisivamente para a validade científica do instrumento de coleta e análise de dados.

Resumo
A transparência e a clareza dos relatórios de pesquisa, destacando a etapa de coleta de dados, são consideradas parâmetros importantes de avaliação do rigor científico dos estudos qualitativos. Este texto visa a refletir sobre o emprego do conceito metodológico de amostragem por saturação teórica, empregado freqüentemente nas descrições de pesquisas qualitativas nas diversas áreas do conhecimento, relevantemente, no campo da atenção à saúde. Discutimos e problematizamos os seguintes tópicos: definição de fechamento amostral por saturação teórica; dificuldades de aceitação e operacionalização de amostras intencionais (exemplificando-as), o tamanho adequado da amostra intencional, o significado de valorizar o que se repete ou as diferenças contidas nos relatos da amostra, os usos inadequados de expressões que empregam o termo saturação e, finalmente, possíveis metáforas para compreender o conceito. Amostragem; Pesquisa Qualitativa; Metodologia

Colaboradores
Os três autores contribuíram igualmente para a redação do artigo, tendo B. J. B. Fontanella compilado e organizado as progressivas modificações que resultaram no texto final.

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AMOSTRAGEM POR SATURAÇÃO EM PESQUISAS QUALITATIVAS EM SAÚDE

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DA FALA DO OUTRO AO TEXTO NEGOCIADO: DISCUSSÕES SOBRE A ENTREVISTA NA PESQUISA QUALITATIVA1
Márcia Tourinho Dantas Fraser2 Sônia Maria Guedes Gondim Universidade Federal da Bahia Resumo: O artigo discute a entrevista como técnica qualitativa de apreensão da percepção e da vivência pessoal das situações e eventos do mundo. A relação intersubjetiva, entrevistador e entrevistado, é de fundamental importância para permitir o acesso aos significados atribuídos pelas pessoas aos eventos do mundo, cujo produto é fruto das mútuas influências no processo de interação na entrevista. A primeira seção discute a abordagem qualitativa de pesquisa e aponta suas principais diferenças em relação à abordagem quantitativa, bem como as implicações da escolha teórico-metodológica para o uso da entrevista como técnica de pesquisa. A segunda seção caracteriza as entrevistas qualitativas quanto à estrutura, tipos, objetivos, papel dos participantes e discute ainda critérios de seleção dos entrevistados, representatividade, validade e fidedignidade das interpretações dos resultados. A última seção apresenta algumas considerações sobre os limites e possibilidades de uso da técnica. Palavras-chave: entrevista; abordagem qualitativa; técnicas de pesquisa. FROM THE SPEECH OF THE OTHER TO THE NEGOTIATED TEXT: DISCUSSIONS ABOUT THE INTERVIEW IN THE QUALITATIVE RESEARCH Abstract: The article discusses the interview as a qualitative technique in the apprehension of perception and personal experience of world situations and events. The intersubjective relation, interviewer and interviewee, is of fundamental importance for allowing the access to the signs attributed by persons to the world events, as such product is the result of mutual influences in the interacting process in interview. The first section discusses the qualitative approach of the research and points the main differences towards the quantitative approach, as well as the theorical-methodological implications for using the interview as a technique for research. The second characterizes the qualitative interviews within the structure, types, participants role, and also discusses criteria in selecting the interviewees, representativity, validity, and trustworthiness in the results of the interpretations. The last section presents some considerations about the limits and possibilities in using the technique. Key-words: interview; qualitative approaches; research techiniques. A entrevista é considerada uma modalidade de interação entre duas ou mais pessoas. Trata-se de uma conversação dirigida a um propósito definido que não é a satisfação da conversação em si, pois esta última é mantida pelo próprio prazer de estabelecer contato sem ter o objetivo final de trocar informações, ou seja, diminuir as incertezas acerca do que o interlocutor diz (Haguete, 2001; Lodi, 1991). Dito
Artigo recebido para publicação em 03/11/2003; aceito em 08/05/2004. Endereço para correspondência: Rua Aristides Novis, 105, Edifício Bosque Suisso, Apto. 1102B, Federação Salvador, Bahia, Cep 40210630, E-mail: mtd-fraser@uol.com.br
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de outro modo, a entrevista é uma forma de interação social que valoriza o uso da palavra, símbolo e signo privilegiados das relações humanas, por meio da qual os atores sociais constroem e procuram dar sentido à realidade que os cerca (Flick, 2002; Jovechlovitch & Bauer, 2002). O uso desta técnica parece estar localizado no campo da medicina, dado o interesse nesta área em se obter informações pormenorizadas do paciente para dar subsídios ao diagnóstico das doenças. Mais tarde, sua aplicação foi estendida para outros domí-

140 Márcia Tourinho Dantas Fraser nios, com objetivos diversos conforme cada área de aplicação. Atualmente é empregada principalmente na clínica em geral, na seleção de pessoas e na investigação científica. Na clínica, a entrevista constitui uma técnica fundamental não só para o diagnóstico, como também para a intervenção terapêutica. Na seleção de pessoas, o foco é na avaliação comparativa do candidato para fundamentar prognósticos de desempenho futuro no trabalho, e, por último, na pesquisa científica, a entrevista é utilizada principalmente como fonte de coleta de dados. Embora se reconheça que as abordagens e as discussões que circunscrevem o uso da entrevista sejam amplas, o objetivo deste artigo é o de discutir algumas de suas vantagens como técnica de pesquisa na perspectiva qualitativa. Uma delas é a de favorecer a relação intersubjetiva do entrevistador com o entrevistado, e, por meio das trocas verbais e nãoverbais que se estabelecem neste contexto de interação, permitir uma melhor compreensão dos significados, dos valores e das opiniões dos atores sociais a respeito de situações e vivências pessoais. Outra vantagem é a flexibilização na condução do processo de pesquisa e na avaliação de seus resultados, visto que o entrevistado tem um papel ativo na construção da interpretação do pesquisador. Esta seria uma modalidade de triangulação (confiabilidade), pois, ao invés de o pesquisador sustentar suas conclusões apenas na interpretação que faz do que o entrevistado diz, ele concede a este último a oportunidade de legitimá-la. Este é um dos aspectos que caracteriza o produto da entrevista qualitativa como um texto negociado. Acredita-se que a entrevista como técnica de pesquisa social associada às observações etnográficas tenha sido usada inicialmente por Booth, em 1886, em estudo sobre as condições sociais e econômicas dos habitantes de Londres. A entrevista como técnica de investigação científica foi gradativamente difundida nas pesquisas qualitativas e nas pesquisas quantitativas (Fontana & Frey, 1994). As pesquisas de opinião, de tradição quantitativa, por exemplo, também passaram a fazer uso mais sistemático de entrevistas, impulsionadas, principalmente, pela criação do Instituto Americano de Opinião Pública por Gallup, em 1935, e pelos estudos das atitudes na psicologia social de Thomas e Znaniecki (Fontana & Frey, 2000). Em princípio, as variadas abordagens de pesquisa adotam pontos de vistas diferentes sobre a prática, orientam-se por pressupostos ontológicos e epistemológicos diversos e focalizam distintos aspectos na sua investigação (Kemmis & Mctaggart, 2000; Rey, 2002). A sua diversidade está alicerçada em divergências metodológicas que repercutem no uso da própria técnica de entrevista, na sua estrutura, na definição de seus objetivos, no papel do entrevistador e do entrevistado, e nas formas de validação de seus resultados. Compartilha-se, neste artigo, a opinião de que a multiplicidade de abordagens de pesquisa pode ser enriquecedora para o conhecimento científico (Hollis, 2002), entendendo-se que a questão central deva localizar-se nas opções teórico-metodológicas que repercutem na decisão dos níveis de análise da ação social circunscritos a um paradigma3 . A entrevista na pesquisa qualitativa, ao privilegiar a fala dos atores sociais, permite atingir um nível de compreensão da realidade humana que se torna acessível por meio de discursos, sendo apropriada para investigações cujo objetivo é conhecer como as pessoas percebem o mundo. Em outras palavras, a forma específica de conversação que se estabelece em uma entrevista para fins de pesquisa favorece o acesso direto ou indireto às opiniões, às crenças, aos valores e aos significados que as pessoas atribuem a si, aos outros e ao mundo circundante. Deste modo, a entrevista dá voz ao interlocutor para que ele fale do que está acessível a sua mente no momento da interação com o entrevistador e em um processo de influência mútua produz um discurso compartilhado pelos dois atores: pesquisador e participante. Ao contrário, quando o foco de investigação é o comportamento humano, ou seja, a forma como as pessoas agem no cotidiano e não somente falam sobre ele, existem outras técnicas, tais como a observação participante e a observação sistemática que permitem melhor atender a estes objetivos. A observação participante é uma modalidade
3 Masterman (1979) identifica três principais sentidos da noção de paradigma na obra de Kuhn: o metafísico, que consiste em um princípio organizador da percepção da realidade, o sociológico, que é uma forma padronizada compartilhada pelos cientistas de conceber o que é ciência e, por último, o metodológico, que funciona como um aparato técnico para orientar o fazer científico do pesquisador.

Da fala do outro 141 de observação bastante empregada em estudos de natureza antropológica e sociológica e se distingue da observação sistemática pelo fato de esta última defender o distanciamento entre o observador e o fenômeno a ser observado, assim como a objetividade da observação, garantida pela adoção de procedimentos rigorosos de registros. De maneira distinta, a observação participante parte da premissa de que a apreensão de um contexto social específico só pode ser concretizada se o observador puder imergir e se tornar um membro do grupo social investigado. Só então, poderá compreender a relação entre o cotidiano e os significados atribuídos por este grupo. Toda técnica de pesquisa tem alcances e limites demarcados e, para que seus resultados sejam confiáveis, são necessários, além da coerência com o paradigma escolhido e com o objeto de estudo, o conhecimento e o domínio da técnica pelo pesquisador, o que é perfeitamente aplicável no caso da entrevista. O presente texto foi redigido com o objetivo de discorrer sobre alguns aspectos metodológicos do uso de entrevista na perspectiva qualitativa e para tal está dividido em três seções: a primeira delas circunscreve a abordagem qualitativa de pesquisa nas ciências sociais e destaca as suas principais diferenças em relação à abordagem quantitativa. A segunda seção define e caracteriza metodologicamente as entrevistas qualitativas no que se refere a sua estrutura, aos seus objetivos e ao papel dos participantes, assim como discute os critérios de seleção dos entrevistados, a representatividade da amostra e as modalidades de entrevistas, individual e grupal. A finalização é feita com comentários sobre o uso e os limites desta técnica. A abordagem qualitativa de pesquisa A abordagem qualitativa ou idiográfica surge como contraponto à abordagem monotética que defende a quantificação e o controle das variáveis para que o conhecimento objetivo do mundo seja alcançado. O fundamento da abordagem nomotética está na crença de que o modelo das ciências naturais é pertinente para as ciências sociais e, em sendo assim, estas deveriam aderir à proposição de que as leis gerais que regem os fenômenos do universo são necessárias e constantes. Caberia às ciências sociais, então, descobrir as leis gerais do comportamento e das ações humanas por meio da adoção dos procedimentos metodológicos das ciências naturais. O ponto de vista da abordagem qualitativa e compreensiva, no entanto, é o de que os modelos científicos das duas ciências são diferenciados, dada a natureza distinta de seus objetos. A ação humana é intencional e reflexiva, cujo significado é apreendido a partir das razões e motivos dos atores sociais inseridos no contexto da ocorrência do fenômeno, o que não acontece com os objetos físicos, foco de análise das ciências naturais. Conhecer as razões e os motivos que dão sentido às aspirações, às crenças, aos valores e às atitudes dos homens em suas interações sociais é o mais importante para as ciências sociais. Dilthey, autor de abordagem compreensiva, defendeu o método histórico-antropológico ao afirmar que os fenômenos humanos são apreendidos ao se integrar a representação, o sentimento e a vontade e inseri-los em uma perspectiva histórica (Amaral, 1987). Weber, outro representante desta abordagem, diferenciou a compreensão direta (objetiva) da compreensão indireta (subjetiva) e influenciou significativamente a fenomenologia do mundo social elaborada por Schütz (1972)4 . Em resumo, a abordagem qualitativa ou idiográfica parte da premissa de que a ação humana tem sempre um significado (subjetivo ou intersubjetivo) que não pode ser apreendido somente do ponto de vista quantitativo e objetivo (aqui entendido como independente do percebedor e do contexto da percepção). O significado subjetivo diz respeito ao que se passa na mente consciente ou inconsciente da pessoa (individualismo metodológico – o nível de análise é a pessoa) e o significado intersubjetivo se refere ao conjunto de regras e normas que favorecem o compartilhamento
4 A rigor, embora não seja objeto de consideração adicional neste artigo, a abordagem compreensiva de Weber inclui duas dimensões de significado: subjetivo e objetivo. O subjetivo diz respeito àquele significado que está atrelado à intencionalidade do agente dirigida a um futuro – “motivos para”, e o objetivo se refere àquele significado que pode ser apreendido por meio da observação e da análise de fatos passados – “motivos porque” . Exemplo: pode-se compreender que duas amigas, Mariana e Flora, tenham rompido seus laços de amizade “porque” Mariana foi extremamente indelicada com Flora que a havia acusado de desonestidade. A intenção de Mariana (motivo para) foi causar constrangimento e ferir a amiga, deixando em evidência sua mágoa (Schütz, 1972).

142 Márcia Tourinho Dantas Fraser de crenças por grupos de pessoas inseridas em determinado contexto sóciocultural (holismo metodológico – o nível de análise é a estrutura e os sistemas). Se o pesquisador concorda com os princípios da abordagem nomotética seus esforços de investigação empírica, incluindo a escolha e uso de técnicas, serão congruentes com a crença de que os fenômenos psicológicos devem ser estudados do mesmo modo que os fenômenos físicos, com repercussões para os procedimentos de pesquisa a serem adotados: padronização, controle de variáveis e grau de distanciamento do pesquisador de seu objeto de estudo. A entrevista, neste caso, obedecerá a um roteiro estruturado, os entrevistadores se submeterão a um treinamento para neutralizar as diferenças individuais e a análise dos resultados estará focada apenas nas respostas do entrevistado, ignorando que elas são, em grande parte, produto da interação que se estabelece entre entrevistador e entrevistado. A diferença entre qualitativo e quantitativo encontra apoio na escolha de abordagens que são sustentadas por pressupostos filosóficos distintos. Mais afinados com a abordagem nomotética encontram-se o positivismo e o pós-positivismo e, mais identificados com a abordagem idiográfica destacamse a teoria crítica social, o construtivismo e o participacionismo. Os dois primeiros aportes teóricos defendem o ponto de vista de que a realidade é externa ao sujeito e passível de ser apreendida de modo objetivo e invariável; e os três subseqüentes o de que a realidade é dinâmica, histórica e socialmente construída pelo sujeito na interação subjetivo-objetivo (Alves-Mazzotti & Gewandsznajder, 1994; Gondim, 2002a; Lincoln & Guba, 2000; Radnitzky, 1970; Smith, Harré & Langenhove, 1995). Para os positivistas, a questão central é a objetividade. A análise social para ser objetiva (independente do sujeito percebedor) necessita ser quantificada ou mensurada a partir de instrumentos padronizados que assegurem a neutralidade e que possibilitem fazer generalizações com precisão, em conformidade com o modelo das ciências naturais. As ciências sociais, por sua vez, mesmo que lidem com um objeto de estudo que, distintamente de um objeto físico e passivo, reage diante de seu pesquisador, deveriam seguir este mesmo modelo se o seu interesse for o de alcançar um status próximo ao das ciências naturais, o que de modo algum é objeto de consenso entre os teóricos das ciências sociais (Minayo, M.C. de S., Deslandes, S.F.; Neto, O.C. & Gomes, R. (2000). A tradição idiográfica, em contrapartida, defende o ponto de vista de que as ciências sociais têm como objetivo central a compreensão da realidade humana vivida socialmente. O essencial não é quantificar e mensurar e sim captar os significados. O que se busca não é explicar a relação antecedente e conseqüente (nexos causais) e sim compreender uma realidade particular na sua complexidade (influência mútua dos atores sociais na construção de sua realidade). Sendo assim, as ciências sociais não deveriam aproximar-se do modelo das ciências naturais, pois tal modelo não atenderia às necessidades e especificidades de seu objeto de estudo. Esta dicotomia entre qualitativo e quantitativo é palco de inúmeras controvérsias teóricas que procuram definir qual é o melhor método de pesquisa e quais os critérios de validade científica. O positivismo é criticado, principalmente, por reduzir o conhecimento da realidade social àquilo que pode ser observado, mensurado e quantificado; sobre a abordagem compreensiva, recaem críticas ao subjetivismo do pesquisador no processo de investigação e a ausência de controle na coleta de dados e na sua interpretação (Minayo, & Cols., 2000). A crise das abordagens concorrentes teve um de seus pontos altos na década de 60, do século passado, influenciada também pelos questionamentos de Kuhn (1975) sobre a objetividade e a racionalidade da ciência, e pelas críticas da Escola da Teoria Crítica Social (denominada por alguns de Escola de Frankfurt) sobre aspectos ideológicos e atitudes da ciência dominante. A crítica mais recorrente ao positivismo é a de que este considera o conhecimento científico como uma fotografia fiel, objetiva e neutra da realidade (Alves-Mazzotti & Gewandsznajder, 1994). Entre os oponentes do positivismo, há aqueles que buscam posição conciliatória, como, por exemplo, Kemmis e Mctaggart (2000), para quem o debate constante entre as abordagens quantitativas e qualitativas sobre a validade e a adequação de suas técnicas é um equívoco, pois não existe abordagem capaz de garantir a verdade sobre um objeto. As di-

Da fala do outro 143 ferentes tradições teóricas focalizam distintos aspectos nas suas investigações - as perspectivas objetiva e subjetiva, o enfoque social, grupal ou individual , assim como diversificados métodos e técnicas de investigação são utilizados em função dos aspectos práticos que se pretende enfatizar. A discussão apresentada nesta seção teve como objetivo considerar criticamente alguns aspectos que permitissem entender que a entrevista pode ser uma técnica utilizada tanto em pesquisas qualitativas quanto quantitativas, a depender da abordagem metodológica escolhida pelo pesquisador. Caso ele opte pela abordagem quantitativa e nomotética, os seus esforços serão dirigidos para garantir a neutralidade e a objetividade das informações obtidas, principalmente pela padronização das perguntas e da postura do entrevistador, assim como pela escolha aleatória ou estratificada dos entrevistados. Se, ao contrário, a escolha for pela abordagem qualitativa, os esforços serão dirigidos: 1) para garantir a representatividade dos significados, passível de ser obtida ao entrevistar aqueles que conhecem e compreendem profundamente a realidade a ser estudada, 2) para permitir que o entrevistado sinta-se mais livre para construir seu discurso e apresentar seu ponto de vista, o que faz com que o roteiro seja o mais flexível possível, e, por último, 3) para submeter as interpretações do pesquisador à avaliação crítica dos próprios participantes da pesquisa (legitimidade). Enfim, esta breve explicitação pretendeu discorrer sobre o paradigma de pesquisa qualitativo e as principais diferenças entre essa abordagem e a perspectiva quantitativa, já que essas diferenças repercutem, também, no uso da própria técnica. Agora o foco recairá no uso da técnica de entrevista. A técnica da entrevista Esta seção caracteriza a técnica da entrevista e focaliza suas especificidades e sua utilização nas investigações qualitativas. A seção está dividida em quatro partes, a saber: 1) estrutura e objetivos, 2) o papel do entrevistador e dos entrevistados, 3) seleção dos entrevistados e representatividade da amostra e 4) entrevistas individuais e grupais. Estrutura e objetivos Há duas modalidades mais gerais de entrevista: a face a face e a mediada. A primeira se refere àquela modalidade em que entrevistador e entrevistado se encontram um diante do outro e estão sujeitos às influências verbais (o que é dito ou perguntado), às não-verbais (comunicação cronêmica – pausas e silêncios -, cinésica – movimentos corporais -, e paralinguística – volume e tom de voz), e às decorrentes da visualização das reações faciais do interlocutor. A segunda modalidade inclui as entrevistas feitas por telefone, por computador e por questionários, que também estão sujeitas às mesmas influências verbais e não-verbais, mas de modo diferenciado, em especial quando não permitem a visualização das reações faciais do interlocutor. Em relação a sua estruturação, por sua vez, as entrevistas podem ser estruturadas, semi-estruturadas ou não estruturadas. As entrevistas estruturadas ou fechadas são utilizadas, freqüentemente, em pesquisas quantitativas e experimentais. A preocupação é com o ajuste do roteiro às hipóteses previamente definidas, a padronização da apresentação de perguntas e a limitação das opções de respostas para facilitar o planejamento das condições experimentais e do tratamento estatístico dos dados. Em outras palavras, esta modalidade de entrevista se caracteriza por uma estruturação rígida do roteiro e oferece pouco espaço para a fala espontânea do entrevistado. O roteiro da entrevista é préelaborado e testado, assim como as questões obedecem a uma seqüência rigorosa com pouca flexibilidade para a formulação das perguntas e para o subseqüente aproveitamento de comentários adicionais dos entrevistados. A posição esperada do entrevistador é a mais neutra possível, devendo evitar esboçar qualquer opinião que possa sugerir a sua visão pessoal e, diante de qualquer dúvida do entrevistado a respeito do conteúdo da pergunta formulada, o entrevistador deve apenas repetir o enunciado, sem oferecer explicações complementares que não tenham sido previstas pelo roteiro inicial. Desta forma, os procedimentos se uniformizam para todos os entrevistados e entrevistadores (Fontana & Frey, 2000). As entrevistas estruturadas, em grande parte, se fundamentam na existência de um conhecimento exterior que pode ser apreendido pelo pesquisador,

144 Márcia Tourinho Dantas Fraser desde que todos os procedimentos metodológicos recomendados tenham sido seguidos. Elas podem apoiar-se em um questionário, com perguntas e respostas de múltipla escolha, ou em um roteiro fixo contendo perguntas objetivas que permitam respostas abertas a serem posteriormente submetidas a técnicas de análise de conteúdo, com ênfase quantitativa (Bardin, 1977; Smith, 2000). O excesso de estruturação, entretanto, inibe a livre manifestação da opinião do entrevistado, o que é fundamental para a compreensão de sistemas de valores e significados de um grupo social. Por exemplo, uma entrevista estruturada e apoiada em questionário de múltipla escolha sobre nutrição poderia conter uma pergunta do seguinte tipo: O que você mais valoriza na alimentação? a) nutrientes do alimento b) sabor do alimento c) quantidade de alimento disponível. Se o entrevistado A escolher a letra c, o entrevistador poderá inferir que a quantidade de alimento tem mais valor para o entrevistado do que os outros fatores (sabor e nutrientes), mas esta informação será insuficiente para compreender por que o entrevistado dá importância mais a este aspecto que aos demais, ou seja, quais as motivações e os valores que estariam sustentando a escolha do entrevistado. Uma pesquisa qualitativa sobre o mesmo tema poderia mais facilmente optar por uma estrutura de entrevista que privilegiasse questões abertas, tais como: O que você valoriza na sua alimentação? Este tipo de questão permitiria ao entrevistado, por exemplo, dizer que valoriza uma mesa farta porque é descendente de italiano e isto lhe faz lembrar a sua infância e os almoços dominicais na casa da avó, uma típica mama italiana que valorizava os encontros familiares e via na diversidade e quantidade disponível de alimentação uma maneira de demonstrar felicidade com a chegada dos convidados. Uma resposta desse tipo oferece informações ricas sobre a importância do processo de socialização na formação de hábitos alimentares e os aspectos culturais envolvidos na nutrição, que poderiam ser ignorados em uma entrevista fechada. Em outras palavras, as opções nutrientes do alimento, sabor do alimento e quantidade de alimento disponível estão restritas ao seu valor individual para a pessoa e podem levar o pesquisador a concluir apenas que o entrevistado A se preocupa com a quantidade e não com a qualidade, sendo que o que está em jogo é o fato de que a quantidade de alimento disponível na mesa é fundamental para demonstrar a alegria em receber os familiares, não importando o consumo integral do alimento disponível. Em geral, na pesquisa quantitativa ou experimental, o enfoque que se pretende dar ao tema já é definido desde o planejamento do roteiro da entrevista (hipóteses a serem testadas), determinando o número e o conteúdo das perguntas. No caso de pesquisas qualitativas, o enfoque é mais vago (tema mais amplo) e é comum que ele se defina no próprio processo da entrevista, ou seja, à medida que o entrevistado vai expressando suas opiniões e significados, novos aspectos sobre o tema vão emergindo e o entrevistador pode redefinir seu roteiro para obter informações que permitam ampliar sua compreensão do tema. As entrevistas mais comumente utilizadas nas pesquisas qualitativas são as semi-estruturadas e as não-estruturadas. A opção por uma delas está relacionada com o nível de diretividade que o pesquisador pretende seguir, variando desde a entrevista na qual o entrevistador introduz o tema da pesquisa e deixa o entrevistado livre para discorrer sobre o mesmo, fazendo apenas interferências pontuais (por exemplo: história oral), até a entrevista um pouco mais estruturada, que segue um roteiro de tópicos ou perguntas gerais (Bartholomew, Henderson & Márcia, 2000). Talvez a forma mais representativa de entrevista não estruturada seja a da clínica psicoterápica, como é o caso da entrevista psicanalítica. Neste contexto, é o paciente (entrevistado) que solicita a entrevista, e sua fala e seu discurso dirigem todo o processo. Ao psicanalista (entrevistador), cabe oferecer uma “escuta” diferenciada, restringindo suas intervenções ao mínimo, apenas para facilitar a livre associação do paciente e possibilitar que o processo analítico aconteça. Se uma pessoa marca uma entrevista inicial com um psicanalista porque se sente deprimida e pede para que ele lhe indique um caminho por onde começar ou lhe diga o que é o mais importante falar (não é

Da fala do outro 145 incomum na prática clínica o paciente perguntar o que interessa ao analista saber), a orientação do profissional será no sentido de estimular que o paciente fale livremente, evitando fazer uma anamnese ou definir tópicos, pois, na clínica psicanalítica, o que a pessoa prioriza para falar e a forma particular como organiza o seu próprio discurso são importantes dados clínicos. A entrevista não estruturada na pesquisa qualitativa possui características diferentes da entrevista clínica. A rigor, considera-se que a entrevista aberta e dirigida inteiramente pelo próprio entrevistado seja difícil de ser realizada na pesquisa científica, pois, uma investigação desta natureza, mesmo que não tenha definido uma hipótese a ser colocada à prova, é dirigida a um objeto específico (problema de pesquisa) de investigação escolhido pelo pesquisador, o que, a princípio, impõe um limite à liberdade da fala do entrevistado. Apesar de reconhecer essa limitação, a entrevista em pesquisa qualitativa procura ampliar o papel do entrevistado ao fazer com o que o pesquisador mantenha uma postura de abertura no processo de interação, evitando restringir-se às perguntas pré-definidas, de forma que a palavra do entrevistado possa encontrar brechas para sua expressão. É prática comum a elaboração de um roteiro apresentado sob a forma de tópicos (tópico-guia) que oriente a condução da entrevista, mas que de modo algum impeça o aprofundamento de aspectos que possam ser relevantes ao entendimento do objeto ou do tema em estudo. Para a elaboração dos tópicos, é importante que o pesquisador avalie seus interesses de investigação e proceda a uma crítica da literatura sobre o tema (Gaskell, 2002). Além de ser um instrumento orientador para a entrevista, o tópico guia pode ser útil para a elaboração e antecipação de categorias de análise dos resultados. Um outro aspecto que justifica a defesa da não estruturação ou semi-estruturação da entrevista na pesquisa qualitativa é que esta abordagem almeja compreender uma realidade particular e assume um forte compromisso com a transformação social, por meio da auto-reflexão e da ação emancipatória que pretende desencadear nos próprios participantes da pesquisa. Para os defensores da abordagem qualitativa, a realidade humana é construída no processo de inserção do indivíduo em um contexto social particular e, em decorrência, os participantes são vistos como pessoas que constroem seus discursos e baseiam suas ações nos significados derivados dos processos de comunicação com os outros, com quem compartilham opiniões, crenças e valores. Deste modo o poder de ação e transformação das pessoas pode ser ampliado ao ser propiciado a cada uma delas refletir sobre suas próprias concepções, crenças e ações (Alves-Mazzotti & Gewandsznajder, 1994; Gergen & Gergen, 2000; Gondim, 2002a). A entrevista qualitativa tem a finalidade de atender aos objetivos da pesquisa, que podem ser diversos. Ela pode ser utilizada como a única técnica de pesquisa, como técnica preliminar ou ainda associada a outras técnicas. No primeiro caso, o propósito da pesquisa pode ser apenas o de compreender os significados e as vivências dos entrevistados no que tange a determinadas situações e eventos. Por exemplo, uma pesquisa define como objetivo central conhecer a representação social de um grupo de idosos de um asilo X sobre o envelhecimento e elege a entrevista semi-estruturada como sua principal fonte de dados. Ao pesquisador deste estudo, interessa compreender como esses idosos percebem e vivenciam seu próprio envelhecimento. Nada impede, entretanto, que os resultados sejam utilizados para orientar o trabalho de profissionais do próprio asilo, para oferecer subsídios para o desenvolvimento de políticas sociais mais amplas, bem como para servir de referência à formulação de hipóteses e de teorias que poderão vir a ser testadas no futuro. O uso da entrevista qualitativa como técnica preliminar pode ter como objetivo explorar informações ou dados que permitam a construção de outros instrumentos de pesquisa. Uma investigação sobre o significado do lazer para o público jovem brasileiro, por exemplo, pode ser conduzida para subsidiar a elaboração de uma escala. Na etapa inicial da pesquisa, poderiam ser feitas entrevistas qualitativas para conhecer as opiniões gerais de jovens brasileiros (variando gênero, classe social, etnia, nível de escolaridade e bairro de moradia) a respeito do lazer e, a partir daí, proceder à categorização e à análise das respostas e comentários, de modo que informações significativas sobre o assunto fossem reunidas para compor a escala sobre o significado do lazer

146 Márcia Tourinho Dantas Fraser e delimitar seus componentes ou fatores. Findo isto o pesquisador validaria o instrumento por meio da aplicação de questionários a uma amostra aleatória da população brasileira. Finalmente, a associação de entrevista qualitativa com outras técnicas de pesquisa é muito freqüente nos estudos etnográficos, que, por exemplo, costumam utilizá-la com as técnicas de observação. Isto se revela útil porque, ao se propor estudar características culturais de determinada comunidade, o pesquisador pode estar interessado em conhecer as crenças, os valores e as opiniões das pessoas, e, também, em perceber de que modo estes valores e crenças se expressam no cotidiano das pessoas, ou seja, na sua conduta ou comportamento diários, o que torna pertinente associar entrevistas à observação participante. Em síntese, foram destacados, nesta parte da seção, as modalidades, a variabilidade de estruturação e os objetivos da entrevista. No próximo item, será discutido o papel do entrevistador e do entrevistado na interação. O papel do entrevistador e do entrevistado: da fala do outro ao texto negociado Um ponto fundamental a ser considerado é o papel dos participantes nas entrevistas qualitativas. Mais de uma vez, foi mencionado neste artigo que a entrevista é essencialmente uma comunicação verbal e consiste em um tipo de interação com objetivos específicos, que visa a compreensão de como os sujeitos percebem e vivenciam determinada situação ou evento que está sendo focalizado. Embora se reconheça que os papéis do pesquisador e do pesquisado sejam diferenciados, a crença é a de que somente se o entrevistador mantiver uma relação de maior proximidade com o entrevistado é que a compreensão do mundo pela sua perspectiva se tornará acessível. Na pesquisa experimental ou quantitativa, a preocupação é com a preservação da neutralidade da influência do pesquisador no que o entrevistado irá dizer, o que repercute na acentuação da demarcação de seus papéis. O papel do entrevistador é o de dirigir o processo e formular perguntas de modo padronizado, enquanto ao entrevistado compete responder de maneira objetiva, o que irá facilitar a categorização de respostas e a generalização dos resultados para a população investigada. Na abordagem qualitativa, entretanto, o que se pretende, além de conhecer as opiniões das pessoas sobre determinado tema, é entender as motivações, os significados e os valores que sustentam as opiniões e as visões de mundo. Em outras palavras é dar voz ao outro e compreender de que perspectiva ele fala. Para atingir este objetivo, o entrevistador assume um papel menos diretivo para favorecer o diálogo mais aberto com o entrevistado e fazer emergir novos aspectos significativos sobre o tema. A relação intersubjetiva, então, é condição para o aprofundamento, visto que a abordagem qualitativa advoga que a realidade social não tem existência objetiva independente dos atores sociais, mas ao contrário, é construída nos processos de interações sociais. Dito de outro modo, mesmo que se reconheça, por exemplo, que os livros sobre a mesa continuam a existir objetivamente independente de se estar olhando fixamente para eles, só adquirem sentido à medida que se encontram representados na mente de cada um e carregam consigo um conjunto de significados a eles atribuídos nas interações sociais passíveis de serem continuamente redefinidos. Na mente de cada pessoa, o livro pode ser representado por descrições gerais – os livros são formados por um conjunto de folhas impressas e encadernadas que contém registros verbais; mas igualmente por avaliações – os livros contribuem para ajudar na difusão do conhecimento e oferecem informações para o crescimento humano. Ao adotar essa mesma perspectiva, Fontana e Frey (2000) consideram que a entrevista qualitativa é um “texto negociado” resultante de um processo interativo e cooperativo que envolve tanto o entrevistado como o entrevistador na produção do conhecimento. A expressão “texto negociado” deixa transparecer que os resultados de pesquisas que se apóiam em entrevistas semi-estruturadas ou abertas são decorrentes de uma produção desencadeada pelo processo ativo de trocas verbais e não verbais entre o participante e o pesquisador. Se de um lado, os pesquisadores de abordagem experimental e quantitativa investem em pesquisas para orientar a adoção de procedimentos metodológicos que venham a minimizar os vieses e a influência do pesquisador no processo de coleta de dados (Darley & Gross,

Da fala do outro 147 2000), de outro, os pesquisadores qualitativos afirmam que não há como assegurar tal distanciamento, visto sermos seres sociais ativos e estarmos continuamente interferindo nos acontecimentos a nossa volta e sendo influenciados por eles. A adesão à crença de que a realidade é apreendida intersubjetivamente constitui, para os defensores da abordagem qualitativa, uma das razões que justificam a escolha pela técnica de entrevista semiestruturada ou aberta em detrimento da entrevista estruturada. É justamente pela adesão a esta crença que muitas críticas são dirigidas a estas modalidades de entrevista, em particular pela ausência de objetividade, que permite que diferentes entrevistadores possam interferir nas respostas do entrevistado e construir interpretações diversas. A esse respeito, é importante ter clareza de que a entrevista em pesquisa qualitativa visa a compreensão parcial de uma realidade multifacetada concernente a tempo e contexto sócio-histórico específicos. Isto não significa, no entanto, defender um relativismo subjetivista, de acordo com o qual cada um tem a sua ‘verdade’, mas reconhecer que as visões de mundo de grupos humanos se sustentam nos níveis de compartilhamento vivenciados por eles: época, lugar, processos de socialização, nível de desenvolvimento da ciência e da sociedade, hábitos e costumes culturais, língua, ambiente etc. Diferentes entrevistadores e entrevistados podem chegar a conclusões distintas sobre um mesmo tema investigado, o que torna defensável que o pesquisador, ao relatar seus resultados, deixe bastante explícitas suas concepções e visões sobre o assunto, assim como ofereça informações detalhadas sobre os participantes da pesquisa. É isto que permitirá àquele que não participou da pesquisa refletir e criticar os resultados à luz da compreensão do contexto em que as conclusões foram extraídas. Não se pode esquecer também que o esclarecimento dos critérios de escolha dos participantes a serem entrevistados é muito importante, visto que a aleatoriedade na abordagem qualitativa não é considerada a melhor opção. O que importa não é quantos foram entrevistados, mas se os entrevistados foram capazes de trazer conteúdos significativos para a compreensão do tema em questão. Seleção dos entrevistados: a questão da representatividade amostral Em pesquisas qualitativas, o fundamental é que a seleção seja feita de forma que consiga ampliar a compreensão do tema e explorar as variadas representações sobre determinado objeto de estudo. O critério mais importante a ser considerado neste processo de escolha não é numérico, já que a finalidade não é apenas quantificar opiniões e sim explorar e compreender os diferentes pontos de vista que se encontram demarcados em um contexto. Em um ambiente social específico, o espectro de opiniões é limitado, pois a partir de um determinado número de entrevistas percebe-se o esgotamento das respostas quando elas tendem a se repetir e novas entrevistas não oferecem ganho qualitativo adicional para a compreensão do fenômeno estudado. Isto significa que já se torna possível identificar a estrutura de sentido, ou seja, as representações compartilhadas socialmente sobre determinado tema de interesse comum (Gaskell, 2002; Gondim, 2002a). Considera-se, então, que o número de entrevistas deve ser pensado levando-se em conta os objetivos da pesquisa, os diferentes ambientes a serem considerados e, principalmente, a possibilidade de esgotamento do tema. Gaskell (2002) afirma, porém, que o número de entrevistas para cada pesquisador deve oscilar de 15 a 25 entrevistas individuais e de seis a oito no caso de entrevistas grupais, a depender do nível de aprofundamento da análise almejada e de outras decisões metodológicas do pesquisador. A seleção dos entrevistados também deve estar relacionada à segmentação do meio social a ser pesquisado, que precisa ser pertinente ao problema da pesquisa. Os objetivos e o enfoque que se pretende dar ao tema, portanto, devem estar claros e bem definidos para que a escolha seja adequada. Um mesmo assunto pode ser de interesse de diversos grupos e pode ser compreendido de diferentes maneiras em função dos múltiplos enfoques possíveis e das características próprias de cada grupo, o que torna difícil uma única pesquisa abarcar todas as possibilidades. Se as entrevistas são grupais, a escolha de grupos naturais pode ser uma opção ao invés de grupos compostos por amostras estatísticas. Os grupos naturais têm a vantagem de interagirem em seu cotidiano e compartilharem interesses e valores semelhan-

148 Márcia Tourinho Dantas Fraser tes. Por exemplo, podem-se entrevistar grupos rivais de adolescentes moradores de um bairro da periferia com o objetivo de investigar a violência entre jovens em centros urbanos. A intencionalidade na escolha dos grupos é importante na pesquisa qualitativa porque aproxima o pesquisador de uma realidade concreta onde ocorre o fenômeno a ser investigado. Ainda que a entrevista seja feita com cada indivíduo em separado, a intencionalidade da escolha persiste, pois se o objetivo é conhecer com mais profundidade um tópico, é preciso que o entrevistado tenha o que falar sobre ele. É provável que qualquer cidadão tenha algo a dizer sobre os políticos, os problemas de violência e de saúde da população nas grandes cidades, mas, se o foco do estudo for sobre as conseqüências sociais da discriminação racial, a escolha dos entrevistados deve recair sobre aqueles que estão diretamente implicados. A clareza dos caminhos que se pretende trilhar na pesquisa é fundamental neste processo. Por exemplo, se o objeto de investigação for o aborto, o tema pode ser investigado a partir do ponto de vista de um grupo de advogados, que enfatizam o aspecto legal, de psicólogos, que dão destaque às repercussões psicológicas do aborto, de médicos que se preocupam em descrever os efeitos do aborto na saúde física, ou ainda de adolescentes que passaram pela experiência de um aborto. Ao investigar a interface entre trabalho e família, no entanto, seria importante definir a amplitude do estudo, assim como as características específicas dos participantes escolhidos e as perspectivas a serem exploradas: é a perspectiva dos próprios trabalhadores que se quer abordar? É o ponto de vista do empregador que se deseja apreender? Ou o objetivo é compreender como os familiares dos trabalhadores percebem as interferências do trabalho na vida doméstica? Para o estudo da interface entre trabalho e família, pode-se optar também por investigar o tema a partir da perspectiva de um grupo específico de profissionais. Os participantes podem ser escolhidos pelas características inerentes ao próprio tipo de trabalho, que sugiram haver dificuldades para conciliar a vida pessoal e o trabalho. É o caso de profissionais que estejam submetidos a turnos alternados, de executivos de grandes empresas, cujo trabalho exija viagens constantes ou mesmo mudanças freqüentes de local de moradia, ou de trabalhadores que exerçam funções de alto risco. Para a seleção dos entrevistados, portanto, vários fatores devem ser considerados conforme o enfoque dado ao tema e a abrangência pretendida no estudo. Enfim, uma das principais finalidades da pesquisa qualitativa é a de apresentar, de forma ampla e representativa, a diversidade de pontos de vistas de um determinado grupo e, para tal, é preciso avaliar se as características de gênero, idade e instrução são relevantes e quais os benefícios de investigar alguns segmentos sociais específicos ao invés de outros. A escolha criteriosa dos participantes é fundamental para os resultados da pesquisa, na medida em que afeta a qualidade das informações obtidas e a validade da própria pesquisa (Gaskell,2002). Os critérios de seleção nas entrevistas qualitativas se inserem no debate sobre a representatividade amostral. Minayo (1998) discute esta questão com base nas proposições de Bourdieu de que as pessoas que vivem no mesmo ambiente social tendem a desenvolver e reproduzir disposições semelhantes e, em sendo assim, os significados individuais podem estar representando significados grupais. Em outras palavras, a fala de alguns indivíduos de um grupo é representativa de grande parte dos membros deste mesmo grupo inserido em um contexto específico. Até este ponto discorreu-se sobre a estrutura e os objetivos da entrevista, sendo discutido o papel dos participantes, os critérios de seleção dos entrevistados e a representatividade das entrevistas qualitativas. Para finalizar esta seção, serão focalizadas as entrevistas individuais e grupais. Entrevistas individuais e grupais As entrevistas individuais e grupais são amplamente utilizadas nas investigações científicas. Pela tradição, a pesquisa acadêmica privilegia as entrevistas individuais, ao passo que as pesquisas de mercado preferem as entrevistas em grupos. A partir da última década, entretanto, o quadro tem-se modificado com o crescimento considerável do emprego de entrevistas com grupos nas ciências sociais (Gondim,

Da fala do outro 149 2002a, 2002b; Morgan, 1997). A entrevista individual é uma interação de díade, indicada quando o objetivo da pesquisa é conhecer em profundidade os significados e a visão da pessoa. Esta modalidade de entrevista é muito utilizada em estudos de caso, história oral, histórias de vida e biografias, que demandam um nível maior de detalhamento. É preferida também quando a investigação aborda assuntos delicados, difíceis de serem tratados em situação de grupo. A escolha da modalidade individual de entrevista também pode decorrer das características ou condições do entrevistado, pois oferece mais flexibilidade para o agendamento de horário e de local de realização. É o caso de pessoas mais idosas, doentes e crianças pequenas (Gaskell, 2002). A entrevista grupal assim como a entrevista individual pode ser estruturada, semi-estruturada ou aberta, podendo ser utilizada como única técnica de coleta de dados ou associada a outras técnicas, dependendo dos propósitos do estudo. Esta modalidade de entrevista é indicada para pesquisas cuja temática seja de interesse público ou preocupação comum, por exemplo, política, mídia, lazer, novas tecnologias, e para assuntos e questões de natureza relativamente não familiar, que não tenham o caráter excessivamente íntimo e exijam muito aprofundamento de cada pessoa. No campo das ciências sociais essa modalidade de entrevista tem sido empregada em diversos tipos de investigações (Fontana & Frey, 1994), tais como para construir e testar uma escala social (Bogardus, 1926), para subsidiar projetos na área de saúde (Morgan & Spanish, 1984) e para avaliar o impacto da propaganda (Merton, Fiske & Kendall, 1990). Uma modalidade de entrevista grupal, que é o grupo focal ou de discussão, tem apresentado um crescimento expressivo nas últimas décadas, atendendo a interesses de acadêmicos, que a usam para investigar as percepções e representações de grupos específicos, e as de profissionais que a empregam como ferramenta de gerenciamento, de tomada de decisão e de apoio a programas de intervenção (Gondim, 2002a, 2002b). Embora alguns autores não façam claramente uma distinção entre as entrevistas grupais e grupos focais, existem diferenças fundamentais entre estas técnicas que necessitam ser destacadas, principalmente no que se refere ao papel do pesquisador, ao tipo de abordagem e aos objetivos da pesquisa. Nas entrevistas grupais, o que se visa é conhecer as opiniões e o comportamento do indivíduo no grupo. O entrevistador estabelece uma relação diádica com cada membro do grupo. Ao contrário, nos grupos focais, o que interessa são as opiniões que emergem a partir do momento em que as pessoas em grupo passam a estar sujeitas aos processos psicossociais que ocorrem neste contexto e influenciam na formação de opiniões. No grupo focal, o pesquisador tem um papel menos diretivo, ocupando o lugar de facilitador do processo de discussão grupal. Sua relação é com o grupo, pois é ele que é tomado como a unidade de análise, ao contrário da entrevista grupal em que o pesquisador se dirige a cada indivíduo e o nível de análise que adota é o do indivíduo no grupo (Gondim 2002a; Morgan, 1997). A escolha entre entrevistas individuais, grupais e grupos focais é fundamental para os rumos da investigação, uma vez que esta decisão orienta a maneira como os dados serão coletados e analisados. Morgan (1997) compara as entrevistas individuais e as entrevistas grupais, ao apresentar algumas de suas vantagens e desvantagens. Nas entrevistas grupais, o autor supracitado afirma que a técnica oferece ao pesquisador a oportunidade de observar in loco as semelhanças e diferenças entre opiniões e experiências dos participantes. Nas entrevistas individuais este mapeamento só poderia ser obtido pela posterior análise comparativa de cada uma das entrevistas transcritas. A entrevista individual, a seu modo, é vantajosa quando o que está em jogo é o conhecimento em profundidade dos significados pessoais de cada participante. Favorece também a maior proximidade de cada participante individualmente e, em conseqüência, permite maior controle do investigador da própria situação da entrevista, visto que, na situação de grupo, o risco de se desviar do tema é maior. Em síntese, as entrevistas grupais e, mais especificamente os grupos focais permitem ampliar a compreensão transversal de um tema, ou seja, mapear os argumentos e contra-argumentos em relação a um tópico específico, que emergem do contexto do pro-

150 Márcia Tourinho Dantas Fraser cesso de interação grupal em um determinado tempo e lugar (jogo de influências mútuas no interior do grupo), enquanto as entrevistas individuais permitem ampliar a compreensão de um tópico específico de modo aprofundado para uma mesma pessoa, em seu processo de interação diádica com o entrevistador. Considerações finais Este artigo teve o propósito de abordar as entrevistas como técnica de pesquisa na abordagem qualitativa. As entrevistas ocupam um lugar de destaque no rol das técnicas de pesquisa em ciências sociais, principalmente por lidar com a palavra, veículo privilegiado da comunicação humana. Por meio da interação verbal de entrevistado e entrevistador, é possível apreender significados, valores e opiniões e compreender a realidade social com uma profundidade dificilmente alcançada por outras técnicas, como questionários e entrevistas estruturadas. Isto porque, no caso das entrevistas qualitativas, a relação estabelecida entre o entrevistador e o entrevistado permite um diálogo amplo e aberto favorecendo não apenas o acesso às opiniões e às percepções dos entrevistados a respeito de um tema, como também a compreensão das motivações e dos valores que dão suporte à visão particular da pessoa em relação às questões propostas. Ressalta-se, entretanto, em concordância com o que diz Silverman (2000) que, embora as entrevistas sejam uma alternativa inegável para pesquisas cujo objetivo é apreender como as pessoas “vêem as coisas”, existem outras técnicas mais adequadas quando o foco da pesquisa é conhecer como as pessoas “fazem as coisas”, como, por exemplo, a observação participante e sistemática. Na primeira seção, procurou-se caracterizar sucintamente a abordagem qualitativa de pesquisa apresentando as principais diferenças entre esta abordagem metacientífica e a quantitativa ou monotética. Considerou-se importante fazer este percurso porque as entrevistas são utilizadas por ambas as abordagens e essas diferenças repercutem no manejo da própria técnica, como por exemplo, na estruturação de um roteiro, no papel do entrevistador e do entrevistado e na análise dos resultados. As entrevistas qualitativas são largamente empregadas na pesquisa social, podendo ser de vários tipos e responder a objetivos diversos. Uma de suas finalidades é a de compreender um contexto particular, assim como a de ajudar na construção de modelos teóricos. A relação intersubjetiva do entrevistador e do entrevistado é vista como uma característica central da entrevista qualitativa, por permitir a negociação de visões da realidade resultantes da dinâmica social onde os participantes constroem conhecimento e procuram dar sentido ao mundo que os cerca (AlvesMazzotti & Gewandsznajder, 1994; Fontana & Frey, 2000; Minayo, 1998). Como toda técnica de pesquisa, as entrevistas apresentam limites. Alguns são característicos da própria interação social que tem seu curso nas entrevistas, outros são mais específicos da modalidade de entrevista grupal ou individual. Enfim, todo e qualquer método deve procurar dar respostas (positivas ou negativas) a pelo menos quatro exigências científicas: validade constructo, validade externa, validade interna e confiabilidade (Yin, 2001). A validade de constructo demanda que o pesquisador reconheça que a técnica de entrevista seja a melhor forma de abordar (ou mensurar) o seu objeto de estudo; a validade externa diz respeito ao poder de generalização, que, no caso da pesquisa qualitativa, é limitado ao contexto de estudo; a validade interna se refere à consistência dos procedimentos internos de pesquisa, que, no caso da pesquisa qualitativa, e da entrevista pode ser obtida pela construção de modelo teórico que expressa a estrutura de sentido dos significados declarados pelos participantes; e a confiabilidade, que se refere à capacidade de uma pesquisa repetir os mesmos procedimentos e apresentar os mesmos resultados. Neste último caso, a pesquisa qualitativa leva desvantagem em relação à pesquisa experimental e quantitativa, a não ser que conceba que a confiabilidade pode vir a ser obtida caso o modelo teórico construído a partir dos resultados do contexto específico possam vir a ser pertinentes a outros contextos similares (Alves-Mazzotti & Gewandsznajder 1994). Outras alternativas de obter confiabilidade são as avaliações críticas dos participantes e de outros pesquisadores. A primeira consiste em averiguar se as interpretações do pesquisador fazem sentido para

Da fala do outro 151 o próprio participante, o que pode ser feito, inclusive, no momento da entrevista, por meio de perguntas que permitam ao entrevistador esclarecer pontos obscuros e entender mais claramente o que dizem os entrevistados (texto negociado). O questionamento dos pares, a segunda alternativa de confiabilidade, consiste em submeter os resultados à avaliação de outros colegas pesquisadores para que sejam apontados e discutidos as falhas de procedimentos e os equívocos de interpretação. Para finalizar, qualquer que seja a técnica ou o método escolhido pelo pesquisador haverá limitações. Aliás, a própria escolha do objeto de estudo de pesquisa já requer um recorte da realidade a ser investigada. O importante é que tal escolha esteja cada vez mais respaldada em claras concepções do pesquisador sobre a natureza do objeto de estudo e o nível de análise e de descrição pretendidos. Referências Bibliográficas Alves-Mazzotti, A.J. & Gewandsznajder (1994). Paradigmas qualitativos. Em R. Bogdan & S.K.Biklen (org.), Investigação qualitativa em educação: Uma introdução a teoria e aos métodos (pp.130-176 ). Porto, Portugal: Porto Editora. Amaral, M.C.P. (1987). Dilthey: Um conceito de vida e uma pedagogia. São Paulo: EDUSP. Bardin, L. (1977). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70 Bartholomew, K., Henderson, A.J.Z. & Márcia, J.E. (2000). Coding semistructured interviews in social psychology research. Em H.T. Reis & C.M. Judd (orgs.), Handbook of research methods in social and personality psychology (pp.286-312). UK: Cambridge University Press. Bogardus, E.S. (1926). The group interview. Journal of Applied Sociolog, 10, 372-382. Darley, J.M. & Gross, P.H. (2000). A hypothesisconfirming bias in labeling effects. Em C. Stangor (org.), Stereotypes and prejudice (pp. 212- 225). Philadelphia: Psychology Press. Flick, U. (2002). Entrevista episódica. Em M.W. Bauer & G. Gaskell. (orgs.), Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Um manual prático (pp. 114-126). Petrópolis: Vozes. Fontana, A. & Frey, J.H. (1994). Interviewing the art of Science. Em N. Denzin & Y.S. Lincoln (orgs.), Handbook of qualitative research (pp.361-376). London: Sage Publications Inc. Fontana, A. & Frey, J.H. (2000). The Interview: from structured questions to negotiated text. Em N. Denzin & Y.S. Lincoln (orgs.), Handbook of qualitative research (pp. 645-672). London: Sage Publications Inc. Gaskell, G. (2002). Entrevistas individuais e de grupos. Em M.W. Bauer & G. Gaskell (orgs.), Pesquisa qualitativa com texto, imagem, e som. Um manual prático (pp.64-89). Petrópolis: Vozes. Gergen, M. & Gergen, K (2000). Qualitative inquiry: Tensions and transformations. Em N. Denzin & Y.S. Lincoln (orgs.), Handbook of qualitative research (pp. 1025-1046). London: Sage Publications Inc. Gondim, S.M. (2002a). Grupos focais como técnica de investigação qualitativa: Desafios metodológicos. Paidéia. Cadernos de Psicologia e Educação, 12(24), 149-161. Gondim, S.M. (2002b). Perfil profissional e mercado de trabalho: relação com a formação acadêmica pela perspectiva de estudantes universitários. Estudos de Psicologia,7(2), 299-308. Haguette, T.M.F. (2001). Metodologias qualitativas na sociologia. Petrópolis: Vozes. Hollis, M. (2002). Filosofia das ciências sociais. Em N. Bunnin & E.P. Tsui-James (orgs.), Compêndio de filosofia (pp. 357-387). São Paulo: Edições Loyola. Jovchelovitch, S & Bauer, M.W. (2002). Entrevista narrativa. Em M.W. Bauer & G. Gaskell (orgs.), Pesquisa qualitativa com texto, imagem, e som. Um manual prático (pp.90-113). Petrópolis: Vozes. Kemmis, S. & Mctaggart, R. (2000). Participatory action research. Em N. Denzin & Y.S. Lincoln

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ARTIGO / ARTICLE

Quantitativo-Qualitativo: Oposição ou Complementaridade?
Quantitative and Qualitative Methods: Opposition or Complementarity?
Maria Cecilia de S. Minayo 1 Odécio Sanches 2 MINAYO, M. C. S. & SANCHES, O. Quantitative and Qualitative Methods: Opposition or Complementarity? Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 9 (3): 239-262, jul/sep, 1993. This paper summarizes a methodological debate underway at the Brazilian National School of Public Health concerning the two major approaches for investigations in the field of health: the quantitative and qualitative methods. The authors — a public health anthropologist and a biostatistician — used theoretical and practical arguments to demonstrate that these methods are differentiated in nature, but that they complement each other in the understanding of social reality. In a world where human beings are distinguished by communicative language, this debate focuses on the possibility, meaning, and limits of both mathematical language and the language commonly used in everyday life. Key words: Biostatistics; Research Methods; Social Sciences; Public Health

INTRODUÇÃO Este artigo tem sua origem em uma das atividades curriculares do Curso de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — os denominados Seminários Avançados de Teses —, quando os autores, discutindo um dos projetos apresentados, tiveram a oportunidade de apontar as potencialidades e limitações das abordagens quantitativa e qualitativa que estavam sendo utilizadas no projeto em discussão. Estas abordagens são os instrumentos de que se serve a Saúde Pública, em particular, para se aproximar da realidade observada. Nenhuma das duas, porém, é boa, no sentido de ser suficiente para a compreensão completa dessa realidade. Um bom método será sempre aquele, que permitindo uma construção correta dos
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Departamento de Ciências Sociais da Escola Nacional de Saúde Pública. Rua Leopoldo Bulhões 1480 - 9º andar, Rio de Janeiro, RJ, 21041-210, Brasil. 2 Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública. Rua Leopoldo Bulhões 1480 - 8º andar, Rio de Janeiro, RJ, 21041-210, Brasil.

dados, ajude a refletir sobre a dinâmica da teoria. Portanto, além de apropriado ao objeto da investigação e de oferecer elementos teóricos para a análise, o método tem que ser operacionalmente exeqüível. Aceitando um desafio do Editor da Revista, dois investigadores se encontram: um trabalha com a abordagem quantitativa; o outro, com a metodologia qualitativa. Ambos defendem seus respectivos instrumentos de ação, porém ambos os relativizam, pois só quando os mesmos são utilizados dentro dos limites de suas especificidades é que podem dar uma contribuição efetiva para o conhecimento da realidade, isto é, a busca da construção de teorias e o levantamento de hipóteses. Na primeira parte, a abordagem quantitativa é examinada mais no contexto de uma linguagem. Sem particularizar para o campo da Saúde Pública, procura-se evidenciar a evolução das idéias associadas a esta abordagem na descrição e interpretação de fenômenos biológicos de um modo geral (portanto, não adentrando a complexidade inter e multidisciplinar da Saúde Pública). Na segunda parte deste trabalho, a metodologia qualitativa é abordada procurando enfocar,

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principalmente, o social como um mundo de significados passível de investigação e a linguagem comum ou a “fala” como a matéria-prima desta abordagem, a ser contrastada com a prática dos sujeitos sociais. Finalmente, procura-se concluir que ambas as abordagens são necessárias, porém, em muitas circunstâncias, insuficientes para abarcar toda a realidade observada. Portanto, elas podem e devem ser utilizadas, em tais circunstâncias, como complementares, sempre que o planejamento da investigação esteja em conformidade. O conhecimento científico é sempre uma busca de articulação entre uma teoria e a realidade empírica; o método é o fio condutor para se formular esta articulação. O método tem, pois, uma função fundamental: além do seu papel instrumental, é a “própria alma do conteúdo”, como dizia Lenin (1965), e siginifica o próprio “caminho do pensamento”, conforme a expressão de Habermas (1987).

O QUANTITATIVO A Descrição Matemática como uma Questão de Linguagem O desenvolvimento da linguagem é uma etapa fundamental na evolução do controle deliberado e consciente das circunstâncias ambientais. A fala exerce um papel vital na rápida transmissão de grandes quantidades de informação entre os diferentes elementos de um grupo. Quando se atinge o estágio da escrita, cria-se, então, a possibilidade do registro permanente, revisado e acumulado. A modificação consciente e intencional da linguagem para servir a propósitos deliberados é uma etapa posterior do processo. Aqueles que acompanham e operam na evolução das idéias e do conhecimento sabem que a situação atual da investigação científica é urgente: os trabalhos científicos são produzidos a uma taxa sempre crescente, tornando-se constantemente mais difícil acompanhar lado a lado os novos desenvolvimentos, tanto na própria área de interesse específico quanto no âmbito inter e multidisciplinar, independentemente da existência de meios eletrônicos para armazenamento da informação.

Nas áreas denominadas ciências exatas, nos últimos 3 séculos tem havido consideráveis avanços a este respeito, já existindo, atualmente, todos os pré-requisitos para o manuseio do crescimento acelerado do conhecimento, principalmente o da linguagem, conforme acentua Bailey (1967). De fato, a título de ilustração, consideremos aquela que parece ser a mais antiga das ciências exatas: a Astronomia. É bem conhecido o fantástico conhecimento adquirido pelos astrônomos da Babilônia e do Egito antigo, não só envolvendo a observação prolongada e precisa dos eventos, mas também desenvolvendo a habilidade para se distinguir padrões de mudanças, sobre cuja base puderam criar um calendário suficientemente preciso, que permitiu o desenvolvimento de atividades que, modernamente, constituem o cerne da economia agrícola. Na verdade, para se alcançar tais resultados era necessário mais que observar os acontecimentos e registrar luz e calor nos dias de verão, ou luz esmaecida e dias frios no inverno. A observação de padrões reconhecíveis e a determinação e mensuração de suas posições eram essenciais. A manipulação e o registro de tais medidas com propósitos de predição implicavam a existência de uma linguagem e de uma escrita adequadas. Não é, pois, por um acidente que a matemática babilônica e egípcia possuía as qualidades suficientes para atender a tais necessidades. A lição fundamental que se pretende extrair da lembrança histórica de tal fato de conhecimento de todos é que, mesmo no chamado Mundo Antigo, um conhecimento considerado suficientemente preciso não teria sido atingido e aplicado sem as noções básicas de contar e medir, acompanhadas de um adequado instrumento matemático para manipulá-las. Isto parece corroborar nosso ponto de vista de que uma interação entre pensamento e linguagem e, conseqüentemente, seu desenvolvimento mútuo são pautados por uma correspondente interdependência entre pensamento e matemática, quando nos dispomos a usá-la para propósitos de maior precisão de expressão. A despeito dos grandes avanços na Biologia Molecular e na Engenharia Genética, reconhecemos, no entanto, que nas chamadas soft

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sciences da Biologia, Psicologia, Sociologia, etc., o progresso tem sido mais incerto. Uma razão para este fato é que os sujeitos da pesquisa, nestas áreas, são muito mais variáveis e complexos que aqueles das denominadas Ciências Exatas. No entanto, à medida que as observações e mensurações tornam-se mais acuradas e extensivas, no âmbito das soft sciences tem surgido a oportunidade de se usar a linguagem matemática para descrever, representar ou interpretar a multidiversidade de formas vivas e suas possíveis inter-relações. A questão fundamental, porém, é decidir que espécies de arrazoados matemáticos são relevantes para determinados problemas, que limitações estão impostas e como tais métodos podem ser ampliados e generalizados. Não se pode perder de vista que o uso da linguagem matemática leva a descrições e modelos idealizados, uma construção abstrata que, na prática, na melhor das situações, será observada apenas parcialmente. Quanto mais complexo for o fenômeno sob investigação, maior deverá ser o esfoço para se chegar a uma quantificação adequada, em parte porque algumas atividades são inerentemente difíceis de serem mensuradas e quantificadas e, em parte, porque, até o presente momento, descrições matemáticas excessivamente complicadas são extremamente intratáveis, do ponto de vista de solução, para que tenham algum valor prático. Deve, então, ser exercitada uma considerável habilidade no julgamento de quais fatores são relevantes, ou pelo menos aproximadamente relevantes, para um determinado problema. A realidade, porém, é que nos defrontamos com uma situação conflitante, que requer realismo e manejabilidade. Uma descrição extremamente precisa de todos os fatos conhecidos, por exemplo, a respeito da evolução de uma espécie, pode impedir qualquer representação matemática útil. Por outro lado, uma supersimplificação do quadro matemático utilizado poderia permitir, com grande facilidade, o cálculo numérico de certos coeficientes, mas isto seria, ou poderia ser, totalmente infrutífero, porque muitos fatos relevantes teriam que ser omitidos. Este é, certamente, um dos dilemas presentes no moderno trabalho de investigação como um

todo, não se restringindo, portanto, à investigação biológica, médica ou social. O Papel da Teoria de Propabilidade e da Inferência Estatística Todos nós sabemos que características individuais tais como peso, altura, pressão arterial, taxas de componentes bioquímicos no sangue, resposta a estímulos externos, etc., variam entre indivíduos de um grupo num dado instante e, num mesmo indivíduo, de instante para instante. Ordem e regularidade só podem ser estabelecidas, de forma aproximada, em termos médios e sobre um grande número de indivíduos. Nossa impossibilidade de predizer antecipadamente, e com certeza, os resultados de um experimento em sucessivas repetições, sempre sob as mesmas condições, caracteriza-se como um experimento aleatório. A variabilidade presente, nestas condições, é chamada variabilidade aleatória, casual, randômica ou estocástica. Em matemática, o instrumento adequado para trabalhar o aleatório é um conjunto de procedimentos que constitui a chamada teoria da probabilidade. Para todo evento aleatório é possível associar uma ou mais variáveis, ditas variáveis aleatórias (função definida no espaço amostral do experimento aleatório em questão), e para cada variável aleatória (ou conjunto de variáveis aleatórias) é possível encontrar uma função que descreva a distribuição de probabilidades para a referida variável (ou conjunto de variáveis), dita função densidade de probabilidade. O uso de distribuições de probabilidade para descrever padrões biológicos, médicos ou sociais não é recente. Quetelet (1835) já havia utilizado as propriedades da distribuição de Gauss para descrever padrões de altura de seres humanos; Galton (1889), um médico inglês, havia utilizado as propriedades da mesma distribuição nos estudos de genética sobre herança natural, tendo sido o criador da teoria de análise de dados largamente utilizada em estatística e conhecida sob o rótulo de regressão linear. É importante observar que as distribuições de probabilidade estão fundamentalmente associadas a conceitos matemáticos, embora sejam derivadas das noções comuns de chance e

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possibilidade, estabelecidas pelo senso comum, e as conclusões devam ser interpretadas em sentido prático. Ao construirmos um quadro matemático válido de alguns fenômenos com fortes flutuações aleatórias, introduzimos idéias de probabilidades e usamos a teoria da probabilidade para desenvolver as implicações práticas da mesma. Se o modelo é razoavelmente satisfatório, pelo menos a algum respeito, então as implicações devem ser verificadas na prática. Isto é, as conclusões matemáticas devem mostrar um certo grau de aproximação ou aderência às observações que são feitas e aos resultados obtidos para o fenômeno em questão. É função da estatística estabelecer a relação entre o modelo teórico proposto e os dados observados no mundo real, produzindo instrumentos para testar a adequação do modelo. Em resumo, enquanto a teoria da probabilidade está dentro da esfera da lógica dedutiva, a estatística encontra-se no âmago da lógica indutiva, conforme explicita Bailey (1967). A grande potencialidade dos procedimentos estatísticos de análise de dados, na presença de variabilidade aleatória está contida na possibilidade de se estabelecer inferência, neste caso chamada inferência estatística. Uma das aplicações da inferência estatística é o teste de ajuste — também chamado teste de aderência (em inglês, goodness of fit) — de um modelo teórico proposto ao conjunto de dados observados. Formalmente, dois são os grandes problemas estatísticos de natureza inferencial: os problemas de estimação de parâmetros e os problemas de testes de hipóteses estatísticas. As questões de inferência estatística que deram origem à denominada estatística matemática surgiram de modo mais formal com os trabalhos, quase simultâneos (e às vezes polêmicos), de Sir Ronald A. Fischer e da dupla J. Neyman e E. S. Pearson, na década 20-30 (Neyman, 1976; Neyman & Pearson, 1967; Fischer, 1934), sendo brilhantemente unificadas num contexto de teoria das decisões por A. Wald (Wald, 1950). Um grande avanço tem sido conseguido nas ciências da saúde, e em particular na Epidemiologia, com a criação de alguns procedimentos inferenciais estatísticos, específicos para deter-

minados desenhos de estudo. No entanto, tem ocorrido um certo abuso na utilização de tais procedimentos por parte de muitos pesquisadores desta área, que, desconhecendo ou intencionalmente ignorando as limitações impostas a tais procedimentos pelos pressupostos sobre os quais se assentam, extrapolam sua aplicações, deixando sob suspeita os resultados da análise conduzida (Altman, 1991). Isto ocorre principalmente nos testes de hipóteses estatísticas, em particular com o abuso do chamado “p-valor” como uma medida de evidência em relação à hipótese de nulidade (Miettinen, 1985; Stephen et al., 1988; Berger & Selke, 1987; Goodman & Royall; 1985). Os estatísticos encontram-se atualmente na situação dos bioquímicos e dos farmacólogos: não se sentem responsáveis pelo uso indevido e abusivo de seus produtos. Não são procedentes as críticas feitas à Estatística; elas devem ser dirigidas aos maus usuários. Associadas às questões de inferência estatística temos as questões de amostragem. Em regra, aqui também há um desconhecimento quase geral, por parte dos não-especialistas, a respeito do papel da amostragem, sua relação com a inferência e, conseqüentemente, os pressupostos básicos que devem nortear a opção por um determinado desenho de amostragem e um tamanho específico da amostra. Esta não é uma questão apenas técnica, relacionada à definição do tamanho da amostra; não é uma questão meramente estatística ou para deixar para o estatístico resolver. Pesquisadores experimentados na área das ciências humanas (aqui incluindo as ciências da saúde) não podem ignorar, e muito menos esquecer, que as questões de amostragem são parte integrante das questões gerais de desenho da investigação.

O QUALITATIVO, SUAS POTENCIALIDADES E SUAS LIMITAÇÕES O Social como um Mundo de Significados Passível de Investigação Ao inscrever, no item anterior, a descrição matemática como uma questão de linguagem, Sanches afirma que “quanto mais complexo é o fenômeno sob investigação, maior deverá ser o esforço para se chegar a uma quantificação

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adequada”. Em seguida, o autor relativiza as “descrições matemáticas complicadas” como sendo “extremamente intratáveis”, devendo o investigador defrontar-se com situações conflitantes entre realismo e manejabilidade. A reflexão de Sanches ajuda a introduzir o estudo sobre as potencialidades e os limites do método qualitativo, dentro de uma discussão epistemológica mais ampla. Uma das questões colocadas sobre a cientificidade das ciências sociais diz respeito à plausibilidade de se tratar de uma realidade na qual tanto investigadores como investigados são agentes: esta ordem de conhecimento não escaparia radicalmente a toda possibilidade de objetivação? Para responder a esta pergunta, uma corrente de estudiosos das áreas humano-sociais, como Durkheim (1978), tem se munido de dois argumentos metodológicos: a) é possível traçar uniformidades e encontrar regularidades no comportamento humano; e b) regularidades predizíveis existem em qualquer fenômeno humano-cultural e podem ser estudadas sem levar em conta apenas motivações individuais. Outros cientistas, porém, tentam encaminhar a discussão de forma diferente, questionando se, ao buscar instrumentos de objetivação do social apenas através da quantificação das uniformidades e regularidades, não se estaria descaracterizando o que há de essencial nos fenômenos e nos processos sociais. No início do século XX, em Chicago, Estados Unidos, e no final do século XIX, em Heidelberg, Alemanha, surgia uma escola sociológica que se rebelava radicalmente contra a tentativa de analogia entre ciências naturais e ciências sociais. Seu fundamento residia na argumentação de que as ciências sociais privam-se da sua própria essência quando se abstêm de examinar a estrutura motivacional da ação humana. O desenvolvimento desta segunda corrente, em oposição ao positivismo, deveu-se a estudiosos como Wilhelm Dilthey, embora certas de suas raízes possam ser encontradas em Hegel, Marx e, até, Vico. Quem deu maior consistência metodológica a esta reflexão, no entanto, foi Max Weber. É de Weber a afirmação de que cabe às ciências sociais a compreensão do significado da ação humana, e não apenas a

descrição dos comportamentos. Weber também afirma que o elemento essencial na interpretação da ação é o dimensionamento do significado subjetivo daqueles que dela participam (Weber, 1970). Da mesma forma, William Thomas (1970), um dos pais da sociologia norte-americana, avançou na elaboração do clássico teorema segundo o qual é essencial, no estudo dos seres humanos, descobrir como eles definem as situações nas quais se encontram, porque “se eles definem situações como reais, elas são reais em suas conseqüências” (1970: 245-247). O que Weber e Thomas afirmaram tornou-se hoje um axioma da investigação dos “objetos” sociais. A compreensão de que os seres humanos respondem a estímulos externos de maneira seletiva, bem como de tal seleção é poderosamente influenciada pela maneira através da qual eles definem e interpretam situações e acontecimentos, passou a complicar o raciocínio sobre a cientificidade enquanto modelo já construído. A corrente compreensivista — mãe das abordagens qualitativas — ganhou legitimidade à medida que métodos e técnicas foram sendo aperfeiçoados para a abordagem dos problemas humanos e sociais. No entanto, persistem muitas questões, complexas e profundas, que se tornam posições intelectuais e ideológicas frente aos interrogantes teóricos, metodológicos capazes de abranger os objetos com mais profundidade. O positivismo de Comte (1978) e Durkheim (1978), por exemplo, tem defendido que a única forma científica de apreender o social é a observação dos dados da experiência, isto é, dos caracteres exteriores, objetivamente manifestos nos fatos: “a posição epistemológica de base do positivismo”, dizem Bruyne et al. (1991), “é a recusa da apreensão imediata da realidade, da compreensão subjetiva dos fenômenos, da pesquisa intuitiva de suas essências”. A atitude positivista é caracterizada, quanto ao método, pela subordinação da imaginação à observação (Comte, 1978). Os fatos são valorizados pelas suas características exteriores, como bem o descreve Durkheim (1978): “ é coisa todo objeto de conhecimento que não é naturalmente penetrável pela inteligência (...) e que o espírito só pode chegar a compreender com a condição de sair de si mesmo, por meio de observações e de

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experimentações”. Assim, resumindo, a abordagem positivista limita-se a observar os fenômenos e fixar as ligações de regularidade que possam existir entre eles, renunciando a descobrir causas e contentando-se em estabelecer as leis que os regem. A lógica que preside esta linha de atividade é de caráter comparativo e exterior aos sujeitos. O positivismo não nega os significados, mas recusa-se a trabalhar com eles, tratando-os como uma realidade incapaz de se abordar cientificamente. Um dos marcos históricos a favor desta corrente foi a tese de Doutorado de Samuel Stouffer, em 1930, na Universidade de Chicago (naquela ocasião, o templo norte-americano da abordagem qualitativa), com o título “An Experimental Comparison of Statistical and Case History Methods of Attitude Research” (1931). Tal tese ensejou um amplo debate acadêmico sobre a propriedade dos métodos quantitativos e qualitativos nas ciências sociais, redundando numa clara prioridade a favor da abordagem estatística, porque: a) foi considerada mais rápida, mais fácil de ser viabilizada e capaz de abranger um número maior de casos; e b) as análises qualitativas foram consideradas, quando muito, estudos heurísticos, pré-científicos, subjetivistas ou, até, “reportagens malfeitas”. Ora, o debate da década de 30 não se encerrou; pelo contrário, continua ainda hoje em todos os centros de reflexão sobre o social. Os motivos que fundamentaram a crítica de Stouffer, no entanto, estão muito mais relacionados ao pouco desenvolvimento de métodos e técnicas compatíveis do que com a própria natureza do conhecimento. E é neste sentido que, ao contrário do positivismo, a sociologia compreensiva coloca o aprofundamento do “qualitativo” inerente ao social, enquanto possibilidade e único quadro de referência condizente e fundamental das ciências humanas no presente. Neste debate, como já se mencionou, W. Dilthey (1956) separa as ciências físicas e as ciências humanas com um recorte fundamental. Para ele, nas ciências físicas é possível procurarmos explicações e lidarmos com a compreensão dos fenômenos através da análise de seus significados. Nas primeiras estabelecem-se leis causais; nas segundas, configurações e interpretações.

Weber (1970) elabora a tarefa qualitativa como a procura de se atingir precisamente o conhecimento de um fenômeno histórico, isto é, significativo em sua singularidade. É no campo da subjetividade e do simbolismo que se afirma a abordagem qualitativa. A compreensão das relações e atividades humanas com os significados que as animam é radicalmente diferente do agrupamento dos fenômenos sob conceitos e/ou categorias genéricas dadas pelas observações e experimentações e pela descoberta de leis que ordenariam o social. A abordagem qualitativa realiza uma aproximação fundamental e de intimidade entre sujeito e objeto, uma vez que ambos são da mesma natureza: ela se volve com empatia aos motivos, às intenções, aos projetos dos atores, a partir dos quais as ações, as estruturas e as relações tornam-se significativas. No entanto, não se assume aqui a redução da compreensão do outro e da realidade a uma compreensão introspectiva de si mesmo. É por isso que, na tarefa epistemológica de delimitação qualitativa, há de se superar tal idéia, buscando uma postura mais dialética dentro daqueles três aspectos descritos por Bruyne et al. (1991): a) o movimento concreto, natural e sócio-histórico da realidade estudada (sentido objetivo); b) a lógica interna do pensamento enquanto sentido subjetivo; e c) a relação entre o objeto real visado pela ciência, o objeto construído pela ciência e o método empregado (sentido metodológico). É necessário buscar o auxílio de pensadores como Habermas (1987), para quem “uma teoria dialética da sociedade procede de maneira hermenêutica. Nela, a compreensão do sentido é constitutiva. Tira suas categorias primeiro da consciência que têm da situação os próprios indivíduos em ação. No sentido objetivo do meio social, articula-se o sentido sobre o qual se insere a interpretação sociológica, ao mesmo tempo identificadora e crítica”. Em outras palavras, do ponto de vista qualitativo, a abordagem dialética atua em nível dos significados e das estruturas, entendendo estas últimas como ações humanas objetivadas e, logo, portadoras de significado. Ao mesmo tempo, tenta conceber todas as etapas da investigação e da análise como partes do processo

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social analisado e como sua consciência crítica possível. Assim, considera os instrumentos, os dados e a análise numa relação interior com o pesquisador, e as contradições como a própria essência dos problemas reais (Minayo, 1982). Voltando ao ponto inicial sobre as indagações espistemológicas de tal abordagem, dir-se-ia que a cientificidade tem que ser pensada aqui como uma idéia reguladora de alta abstração, e não como sinônimo de modelos e normas rígidas. Na verdade, o trabalho qualitativo caminha sempre em duas direções: numa, elabora suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece seus resultados; noutra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e toma direções privilegiadas. Ela compartilha a idéia de “devir” no conceito de cientificidade. Definir o nível de simbólico, dos significados e da intencionalidade, constituí-lo como um campo de investigação e atribuir-lhe um grau de sistematicidade pelo desenvolvimento de métodos e técnicas têm sido as tarefas e os desafios dos cientistas sociais que trabalham com a abordagem qualitativa ao assumirem as críticas interna e externa exercidas sobre suas investigações. Linguagem e Prática: Matérias Primas da Abordagem Qualitativa Segundo Granger (1982), a realidade social é qualitativa e os acontecimentos nos são dados primeiramente como qualidades em dois níveis: a) em primeiro lugar, como um vivido absoluto e único incapaz de ser captado pela ciência; e b) em segundo lugar, enquanto experiência vivida em nível de forma, sobretudo da linguagem que a prática científica visa transformar em conceitos. Falando dentro do campo sociológico, Gurvitch (1955) diferencia também dois níveis de experiência em constante comunicação: a) o “ecológico, morfológico, concreto”, que admite expressão em cifras, equações, medidas, gráficos e estatísticas; e b) o das “camadas mais profundas”, que se refere ao mundo dos símbolos, dos siginificados, da subjetividade e da intencionalidade. É exatamente esse nível mais profundo (em constante interação com o ecológico) — o nível dos significados, motivos, aspirações, atitudes,

crenças e valores, que se expressa pela linguagem comum e na vida cotidiana — o objeto da abordagem qualitativa. Por trabalhar em nível de intensidade das relações sociais (para se utilizar uma expressão kantiana), a abordagem qualitativa só pode ser empregada para a compreensão de fenômenos específicos e delimitáveis mais pelo seu grau de complexidade interna do que pela sua expressão quantitativa. Adequa-se, por exemplo, ao estudo de um grupo de pessoas afetadas por uma doença, ao estudo do desempenho de uma instituição, ao estudo da configuração de um fenômeno ou processo. Não é útil, ao contrário, para compor grandes perfis populacionais ou indicadores macroeconômicos e sociais. É extremamente importante para acompanhar e aprofundar algum problema levantado por estudos quantitativos ou, por outro lado, para abrir perspectivas e variáveis a serem posteriormente utilizadas em levantamentos estatísticos. O material primordial da investigação qualitativa é a palavra que expressa a fala cotidiana, seja nas relações afetivas e técnicas, seja nos discursos intelectuais, burocráticos e políticos. Segundo Bakhtin (1986), existe uma ubiqüidade social nas palavras. Elas são tecidas pelos fios de material ideológico; servem de trama a todas as relações sociais; são o indicador mais sensível das transformações sociais, mesmo daquelas que ainda não tomaram formas; atuam como meio no qual se produzem lentas acumulações quantitativas; são capazes de registrar as fases transitórias mais íntimas e mais efêmeras das mudanças sociais. Nestes termos, a fala torna-se reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores, normas e símbolos (sendo ela mesma um deles), e, ao mesmo tempo, possui a magia de transmitir, através de um porta-voz (o entrevistado), representações de grupos determinados em condições históricas, sócio-econômicas e culturais específicas. Uma das indagações mais freqüentes no campo da pesquisa é a que se refere à representatividade da fala individual em releção a um coletivo maior. Tal indagação constituía uma preocupação de Bourdieu (1972) quando este definiu o conceito de habitus, segundo o qual a identidade de condições de existência tende a produzir sistemas de disposições seme-

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lhantes, através de uma harmonização objetiva de práticas e obras: “cada agente, ainda que não saiba ou não queira, é produtor e reprodutor do sentido objetivo, porque suas ações são o produto de um modo de agir do qual ele não é o produtor imediato, nem tem o domínio completo”. Daí a possibilidade de se exercer, na análise da prática social, o efeito da universalização e da particularização (180). O referido autor define o conceito de habitus da seguinte maneira: “um sistema de disposições duráveis e intransferíveis que integra todas as experiências passadas e funciona a todo momento como matriz de preocupações, apreciações e ações (...) o inconsciente da história que a história produz, incorporando as estruturas objetivas” (Bourdieu, 1972). No mesmo sentido, existe um comentário feliz de Sapir (1967) quando diz que o “indivíduo concretiza, sob mil formas possíveis, idéias e modos de comportamento implicitamente inerentes às estruturas ou às tradições de uma dada sociedade”. O autor acrescenta que “ se um testemunho individual é comunicado, isto não quer dizer que se considera tal indivíduo precioso em si mesmo. Essa entidade singular é tomada como amostra da continuidade de seu grupo” (Sapir, 1967:90). Resumindo, para Goldmann (1980), “a consciência coletiva só existe nas consciências individuais, embora não seja a soma dessas últimas”. Sociologicamente, diferente do que se passa com a Psicologia, a análise das palavras e das situações expressas por informantes personalizados não permanece, pois, nos significados individuais. A compreensão intersubjetiva requer a imersão nos significados compartilhados. Sociólogos e antropólogos têm desmonstrado que a função essencial das normas culturais é prover os membros de um grupo ou sociedade com definições de situação intelegiveis e intercambiáveis no coletivo. Sem isso, a vida social seria impossível. Portanto, se um estudioso do social astá apto a entender a linguagem e a definição da situação típica de um grupo, estrato ou sociedade — respondendo às indagações tradicionais da ciência —, ele está apto também a predizer as respostas desse grupo com um certo grau de probabilidade.

As considerações acima encaminham-se para questões de ordem prática, sobretudo em relação à representatividade da fala e da observação das práticas, das instituições e do “evasivo da vida cotidiana”. O confronto da fala e da prática social é tarefa complementar e concomitante da investigação qualitativa, que, no entanto, em alguns casos, limita-se ao material discursivo. Em particular, as abordagens etnográficas não dispensam as etapas de observação e convivência no campo. A ênfase quase absoluta na fala como material de análise transforma a questão da descoberta e da validade em habilidade de manipulação dos signos. Ela está fundamentada na crença de que a “verdade” dos significados situa-se nos meandros profundos da significação dos textos. Ao contrário, o ensinamento fundamental da Antropologia é o cotejamento da fala, com a observação das condutas e dos costumes e com a análise das instituições. Checar o que é dito com o que é feito, com o que é celebrado e/ou está cristalizado. Desta forma, uma análise qualitativa completa interpreta o conteúdo dos discursos ou a fala cotidiana dentro de um quadro de referência, onde a ação e a ação objetivada nas instituições permitem ultrapassar a mensagem manifesta e atingir os significados latentes. Há vários métodos e técnicas de análise do material qualitativo. E, assim, como observa Sanches a respeito do uso da estatística, há trabalhos bem-feitos ou malfeitos. Há investigadores que não passam além do que Bourdieu (1972) denomina “ilusão da transparência”, da repetição do que ouve e vê no trabalho de campo. Tal procedimento não pode ser atribuído ao método em si, mas ao seu uso superficial e pobre. Segundo Granger (1982), um verdadeiro modelo qualitativo descreve, compreende e explica, trabalhando exatamente nesta ordem. Para Nicole Ramognino (1982), um trabalho de conhecimento social tem que atingir três dimensões: a simbólica, a histórica e a concreta. A dimensão simbólica contempla os significados dos sujeitos; a histórica privilegia o tempo consolidado do espaço real e analítico; e a concreta refere-se às estruturas e aos atores sociais em relação.

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CONCLUSÕES Propositalmente, não se entrou, neste trabalho, nas questões específicas da área da saúde, uma vez que a pretensão do texto era ser introdutório de uma problemática que concerne e ultrapassa o campo. No entanto, é certo que, hoje, os objetos de investigação, tanto dos professores como dos pós-graduandos em Saúde Pública da Ensp, vinculam-se metodologicamente aos temas aqui tratados, fato conhecido através do desenvolvimento das linhas de pesquisa e dos projetos de tese. A intenção dos autores, portanto, é apenas dar um pontapé inicial num debate que consideram extremamente relevante e indiscutivelmente possível e promissor. Consideram que, do ponto de vista metodológico, não há contradição, assim como não há continuidade, entre investigação quantitativa e qualitativa. Ambas são de natureza diferente. A primeira atua em níveis da realidade, onde os dados se apresentam aos sentidos: “níveis ecológicos e morfológicos”, na linguagem de Gurvitch (1955). A segunda trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões. A primeira tem como campo de práticas e objetivos trazer à luz dados, indicadores e tendências observáveis. Deve ser utilizada para abarcar, do ponto de vista social, grandes aglomerados de dados, de conjuntos demográficos, por exemplo, classificando-os e tornandoos inteligíveis através de variáveis. A segunda adequa-se a aprofundar a complexidade de fenômenos, fatos e processos particulares e específicos de grupos mais ou menos delimitados em extensão e capazes de serem abrangidos intensamente. Do ponto de vista epistemológico, nenhuma das duas abordagens é mais científica do que a outra. De que adianta ao investigador utilizar instrumentos altamente sofisticados de mensuração quando estes não se adequam à compreensão de seus dados ou não respondem a perguntas fundamentais? Ou seja, uma pesquisa, por ser quantitativa, não se torna “objetiva” e “melhor”, ainda que prenda à manipulação sofisticada de instrumentos de análise, caso deforme ou desconheça aspectos importantes

dos fenômenos ou processos sociais estudados. Da mesma forma, uma abordagem qualitativa em si não garante a compreensão em profundidade. Esta observação torna-se necessária para rebater a tese de vários estudiosos que, do ponto de vista científico, colocam, numa escala, a abordagem quantitativa como sendo a mais perfeita, classificando estudos qualitativos apenas como “subjetivismo”, “impressões” ou, no máximo, “atividades exploratórias”. Não cabe neste espaço desenvolver o tema, mas, tanto do ponto de vista quantitativo quanto do ponto de vista qualitativo, é necessário utilizar todo o arsenal de métodos e técnicas que ambas as abordagens desenvolveram para que fossem consideradas científicas. No entanto, se a relação entre quantitativo e qualitativo, entre objetividade e subjetividade não se reduz a um continuum, ela não pode ser pensada como oposição contraditória. Pelo contrário, é de se desejar que as relações sociais possam ser analisadas em seus aspectos mais “ecológicos” e “concretos” e aprofundadas em seus significados mais essenciais. Assim, o estudo quantitativo pode gerar questões para serem aprofundadas qualitativamente, e viceversa.

RESUMO MINAYO, M. C. S. & SANCHES, O. Quantitativo-Qualitativo: Oposição ou Complementaridade? Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 9 (3): 239-262, jul/set, 1993. Este trabalho resume um debate metodológico em processo na Escola Nacional de Saúde Pública, Brasil, sobre as duas formas de abordagem mais correntes nas investigações da área de saúde: o método quantitativo e o método qualitativo. Os autores — uma antropóloga sanitarista e um bioestatístico — demonstram, com argumentações teóricas e práticas, que esses métodos são de natureza diferenciada, mas se complementam na compreensão da realidade social. Num mundo onde o que distingue o ser humano é a linguagem comunicativa, o acento

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deste debate recai sobre a possibilidade, o significado e os limites da linguagem matemática e da linguagem de uso comum na experiência cotidiana. Palavras-Chave: Bioestatística; Métodos de Ciências Sociais; Saúde Pública

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O uso do grupo focal em pesquisa qualitativa

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O USO DO GRUPO FOCAL EM PESQUISA QUALITATIVA
THE USE OF THE FOCUS GROUP IN QUALITATIVE RESEARCHING EL USO DEL GRUPO FOCAL EN LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA

Lúcia Beatriz Ressel1, Carmem Lúcia Colomé Beck1, Dulce Maria Rosa Gualda2,Izabel Cristina Hoffmann3,Rosângela Marion da Silva3,Graciela Dutra Sehnem4

Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Rio Grande do Sul, Brasil. 2 Doutora em Enfermagem. Professor Associado do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil. 3 Mestranda em Enfermagem do Programa de Pós Graduação em Enfermagem (PPGEnf) da UFSM. Rio Grande do Sul, Brasil. 4 Mestranda em Enfermagem do PPGEnf da UFSM, Professor Substituto do Departamento de Enfermagem da UFSM. Rio Grande do Sul, Brasil.
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PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa qualitativa. Pesquisa metodológica em enfermagem. Sexualidade.

RESUMO: O estudo objetiva apresentar o grupo focal como técnica de coleta de dados em uma tese de doutorado resultante de pesquisa qualitativa. O grupo focal, como técnica de pesquisa, utiliza sessões grupais de discussão, centralizando um tópico específico a ser debatido entre os participantes. A pesquisa focalizou a temática da sexualidade na assistência de enfermagem em uma perspectiva cultural, sendo desenvolvida com dois grupos de enfermeiras: docentes e assistenciais. O grupo focal abrangeu oito encontros, cada um foi planejado separadamente. A avaliação do processo realizou-se mediante entrevista com as enfermeiras, destacando como pontos positivos a condução ao pensamento crítico e ao processo de desalienação; e a possibilidade desta técnica desvelar significados singulares e a que se relacionam, sob o ponto de vista dos sujeitos pesquisados. Destaca-se que o grupo focal facilitou a abordagem da sexualidade, desconstruindo e reconstruindo conceitos e buscando novas respostas para as inquietações que o tema conjuga.

KEYWORDS: Qualitative ABSTRACT: This study aims to present the use of focus group as a technique for data collection in a research. Nursing methodol- doctoral dissertation resulting from qualitative research. The focus group as a research technique uses group discussion sessions focused on specific topics to be debated among its participants. The research ogy research. Sexuality.  focused on sexuality in nursing care from a cultural perspective, developed and carried out among two groups of nurses: nursing professors and nursing assistants. The focus group was composed of eight meetings, each planned separately. The evaluation process occurred through the interviews with the nurses, highlighting critical thinking and non-alienation as positive features. The possibility of this technique unveils singular meanings and to what they are related based on the subjects’ points of view. The focus group technique facilitated the sexuality approach, deconstructing and reconstructing concepts as well as searching for new answers to the problems the theme raises.

PALABRAS CLAVE: Investigación cualitativa. Investigación metodológica en enfermería.  Sexualidad.

RESUMEN: Este estudio tuvo como objetivo presentar el uso del grupo focal como técnica de recolección de datos en una tesis de doctorado, resultado de una investigación cualitativa. El grupo focal utiliza sesiones grupales de discusión, teniendo como foco central un tópico específico a ser debatido por los participantes. La investigación focalizó la temática de la sexualidad en la asistencia de enfermería, bajo una perspectiva cultural, siendo desarrollada con dos grupos de enfermeras: docentes y asistenciales. Comprendió ocho encuentros, y cada uno fue planeado por separado. La evaluación del proceso se realizó por medio de entrevistas con las enfermeras, destacando como puntos positivos la conducción hacia el pensamiento crítico y al proceso de desalineación; y la posibilidad de que esta técnica revele significados singulares y a que ellos se relacionen desde el punto de vista de los sujetos investigados. Esa técnica facilitó el abordaje de la sexualidad, desconstruyendo y reconstruyendo conceptos y buscando respuestas para las inquietudes del tema.

Lúcia Beatriz Ressel Endereço: Rua Coronel Niederauer, 621, ap. 1503 97015-121- Centro, Santa Maria, RS, Brasil E-mail: lbressel208@yahoo.com.br
Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2008 Out-Dez; 17(4): 779-86.

Relato de experiência Recebido em: 15 de abril de 2008 Aprovação final: 14 de outubro de 2008

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Ressel LB, Beck CLC, Gualda DMR, Hoffmann IC, Silva RM, Sehnem GD

INTRODUÇÃO
Este artigo resultou da tese de doutorado Vivenciando a sexualidade na assistência de enfermagem: um estudo na perspectiva cultural,1 realizada na Universidade de São Paulo (USP). Este estudo, de cunho qualitativo, teve como objetivo compreender de que forma a sexualidade, condicionada culturalmente, é vivenciada na assistência de enfermagem, pelas enfermeiras. Como o estudo envolveu a perspectiva cultura, e teve orientação etnográfica, os dados revelados deveriam possibilitar que emergissem diferentes pontos de vista sobre o tema, a fim de apreender as singularidades das visões de mundo das enfermeiras participantes. Ao mesmo tempo, esperava-se que favorecessem compreender, em profundidade, o comportamento do grupo restrito, justificando-se a utilização da técnica do Grupo Focal (GF).2-3 Os GFs são grupos de discussão que dialogam sobre um tema em particular, ao receberem estímulos apropriados para o debate. Essa técnica distingue-se por suas características próprias, principalmente pelo processo de interação grupal, que é uma resultante da procura de dados.4 Em uma vivência de aproximação, permite que o processo de interação grupal se desenvolva, favorecendo trocas, descobertas e participações comprometidas. Também proporciona descontração para os participantes responderem as questões em grupo, em vez de individualmente.2-3 Essa técnica facilita a formação de idéias novas e originais. Gera possibilidades contextualizadas pelo próprio grupo de estudo.2 Oportuniza a interpretação de crenças, valores, conceitos, conflitos, confrontos e pontos de vista. E ainda possibilita entender o estreitamento em relação ao tema, no cotidiano.1 Cabe enfatizar que o GF permite ao pesquisador não só examinar as diferentes análises das pessoas em relação a um tema. Ele também proporciona explorar como os fatos são articulados, censurados, confrontados e alterados por meio da interação grupal e, ainda, como isto se relaciona à comunicação de pares e às normas grupais.4 O GF também é adequado para ser consultado em estágios exploratórios de uma pesquisa, quando se quer ampliar a compreensão e a avaliação a respeito de um projeto, programa ou serviço. E pode ser associado a outras técnicas de coleta de dados, concomitantemente.5

Esta técnica tem sido utilizada freqüentemente nas áreas da Antropologia, Ciências Sociais, Mercadologia e Educação em Saúde. Ela é apropriada nas pesquisas qualitativas, que objetivam explorar um foco, ou seja, um ponto em especial. A técnica de pesquisa com o GF foi descrita e publicada no ano de 1926, em um trabalho de Bogartus, nas Ciências Sociais, como entrevistas grupais. Depois, em 1946, durante a 2ª Guerra Mundial, foi usada por Merton & Kendall, para investigar o potencial de persuasão da propaganda de guerra para as tropas. E, em 1952, Thompson & Demerath estudaram sobre fatores que afetavam a produtividade de trabalhos em grupo. Na área de marketing, a mídia utiliza largamente a mesma técnica, valorizando-a pelas condições de baixo custo para sua operacionalização e pela rapidez em obter dados confiáveis e válidos.5 O GF, apesar de ter sido criado e utilizado pelas Ciências Sociais, ficou à margem dessa ciência por vários anos. Nesse período havia uma preferência, em pesquisas qualitativas da área, pela observação participante e pela entrevista semi-estruturada. Contudo, na academia, essa técnica atraiu a atenção de pesquisadores da Antropologia Social, que a utilizam em estudos culturais e pesquisas em saúde. Mais recentemente, a partir do final da década de 80, vem sendo retomada por seus próprios precursores, que triplicaram o número de trabalhos com aplicação do GF.4 No Brasil, na faculdade de Saúde Pública da USP, na área de Educação em Saúde, a partir de 1989, o GF vem sendo aplicado para sistematizar a coleta de dados, em estudos diagnósticos de problemas educativos em saúde, e em estudos avaliativos de programas de saúde.5 Principalmente nessa área, ele vem sendo requisitado e amplamente utilizado como instrumento de avaliação e diagnóstico educativo. É fundamental salientar que a técnica também está presente na Enfermagem, ainda que de forma tímida. Ela surge principalmente em estudos que apontam esta técnica como estratégia metodológica, em pesquisas qualitativas na Enfermagem3,6-8 e nos trabalhos que avaliam aspectos relacionados à educação, promoção, programas e projetos de saúde.5,9-10 Neste sentido, o presente artigo tem como objetivo apresentar a técnica do GF como ferramenta a ser utilizada em pesquisa qualitativa, evidenciando a avaliação realizada após sua aplicação junto às participantes da tese1 referida ao início desta introdução.
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A METODOLOGIA DE CONSTRUÇÃO DO GRUPO FOCAL
O estudo 1 que deu origem a este artigo objetivou compreender de que forma o tema da sexualidade, condicionado culturalmente, é vivenciado na prática da assistência de enfermagem pelas enfermeiras. Para tanto, adotou-se como opção conceitual a Antropologia Cultural e como método a Etnografia. Optou-se pela abordagem de pesquisa qualitativa, do tipo descritivo-exploratória, e os dados foram obtidos por intermédio das técnicas do GF, prioritariamente, e de entrevistas, complementarmente. Para a seleção e organização do GF, foi imprescindível ter claro os critérios de inclusão dos sujeitos na pesquisa. Foram compostos dois grupos distintos de colaboradoras, um com sete enfermeiras docentes do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e outro com sete enfermeiras do Hospital Universitário de Santa Maria-RS. A formação do GF é intencional e pretendese que haja, pelo menos, um ponto de semelhança entre os participantes.2-3 Optou-se, neste estudo, para composição dos grupos, pelo critério de compartilhamento do mesmo local de trabalho. Isso favoreceu os relatos de experiências, necessidades, valores e crenças, as quais interagem na temática em foco. O número de participantes em cada grupo seguiu orientação de estudos acerca do grupo focal, que referem de seis a 15 pessoas como um módulo recomendável.2-3,11 A dimensão dos grupos depende dos objetivos de cada estudo. Quando se deseja gerar maior número de idéias, a melhor opção é organizar grupos maiores. E, quando se espera aprofundar a temática na discussão, deve-se optar por grupos menores.2-3 Foram realizadas oito sessões de GF, divididas em quatro encontros por grupo. Cada sessão durou uma hora e trinta minutos. As reuniões ocorreram semanalmente, em dia e hora combinados com as colaboradoras. Esse cuidado é uma recomendação para o bom desenvolvimento dos grupos focais.2-3,11 Antes de iniciar os GFs, realizaram-se entrevistas individuais, com o objetivo de obter informações referentes à identificação pessoal e ao interesse e perspectiva de cada colaboradora em participar do trabalho. Na véspera do encontro de cada GF, confirmava-se, via telefone, o horário e o local do encontro, no sentido de estimular a presença de cada enfermeira. As reuniões contaram com uma preparação especial, de acordo com o objetivo e a metodoTexto Contexto Enferm, Florianópolis, 2008 Out-Dez; 17(4): 779-86.

logia que seria utilizada. Foram necessários alguns cuidados que permearam todas as sessões, como agendamento prévio do local, preparo da sala (iluminação, ventilação, cadeiras estofadas, espaço adequado para a realização das técnicas), manutenção do gravador (pilhas e fitas cassete), seleção e preparo antecipado do material específico para cada encontro e organização do ambiente. Esses preparativos são previstos nos estudos acerca dessa técnica.2-3 O ambiente das sessões grupais deve ser agradável, confortável e acolhedor. Por isso, optou-se pelo uso de incensos, que perfumaram levemente a sala, músicas relaxantes, com sons de água, de natureza, e um lanche para ser degustado ao longo do encontro.3 Tendo em vista que, como enfermeiras, nosso objeto de trabalho é o cuidado de pessoas, a sensibilidade deve permear nosso fazer. Esse entendimento foi estendido à pesquisa, no conjunto de etapas que envolveram a realização do grupo focal. A formação em círculo permitiu a interação face a face, o bom contato visual e, ainda, a manutenção de distâncias iguais entre todas as participantes, estabelecendo o mesmo campo de visão para todas. A observadora e a moderadora se sentavam em lugares que possibilitavam a comunicação não-verbal, por meio do olhar. Para não centralizarem a atenção das colaboradoras, evitaram se posicionarem uma ao lado da outra.2-3 A localização da sala possibilitou desenvolver os encontros sem interferências externas. O cuidado ao prever o espaço físico para realizar o grupo mostrou-se fundamental, pois facilitou o debate, assegurou privacidade, conforto, fácil acesso e ambiente neutro.2 Embora ambos os grupos estivessem centrados no tema da sexualidade, cada encontro teve um objetivo específico, ou seja, focalizar uma perspectiva acerca da temática. Para tanto, foram utilizadas técnicas de estímulo apropriadas5 e questões norteadoras para os debates, as quais fizeram parte do guia de temas.2-3 Em alguns encontros, optou-se por empregar técnicas comumente utilizadas em oficinas didáticas, entre elas as técnicas de explosão de idéias, colagem em cartaz e de modelagem em argila. Associaram-se tais recursos buscando incentivar o desenvolvimento da temática, que se encontra velada, sendo difícil de ser expressa verbalmente. Assim, à medida que as colaboradoras expressavam seus sentimentos e concepções por meio das técnicas, elas explicavam, argumentavam

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e desenvolviam a discussão naturalmente. Foi possível constatar a promoção do debate de forma criativa, alegre e sem censuras. Ao final de cada encontro, foi elaborada uma síntese dos depoimentos e era oportunizado um último espaço às participantes, tanto para acrescentarem, esclarecerem ou mudarem alguma idéia referida na discussão, quanto para expressarem como se sentiram. Solicitava-se, também, que fizessem sugestões e críticas ao andamento das atividades, se desejassem. Encerrava-se com agradecimentos finais e confirmava-se o próximo encontro. Ao início de cada nova sessão, era exposto um resumo dos encontros anteriores e apresentado o objetivo daquele encontro. Dava-se, então, início ao debate, a partir da técnica de estímulo escolhida. Salienta-se aqui a construção e o uso do guia de temas, que serviu como um esquema norteador, sistematizando questões e objetivos para cada GF. Percebeu-se que a sua importância não se relacionava à quantidade de questionamentos, mas à qualidade da elaboração e da aplicação, de acordo com os objetivos de cada encontro.2-3 Nesse sentido, foi possível, por meio da observação atenta, manter a discussão em foco, aprofundando, esclarecendo e solicitando exemplos às participantes. Algumas das questões constantes do guia são citadas a seguir: Qual a primeira idéia que lhe vem à mente, quando falamos em sexualidade? Como você expressa sua sexualidade no dia-a-dia? Como transparecem as questões de sexualidade na prática de enfermagem, e como são conduzidas essas questões? Como eram tratadas as questões relativas à sexualidade, em sua infância e adolescência? Como é a imagem de enfermeira para você? Como você se vê e se sente, como mulher, em relação a este tema? Como você se vê e se sente, como enfermeira, em relação a este tema? Algumas frases de apoio, que consistiram em uma série de afirmações oriundas da leitura na área da Antropologia, sobre o tema em foco, também foram utilizadas.4 Elas eram apresentadas sob a forma de grandes cartões, para motivar e sintetizar o debate. Em todos os momentos dos GFs, procuravase manter a atenção máxima nos depoimentos das colaboradoras. Percebiam-se as expressões não-verbais comunicadas ao longo das discussões, porém, como nem sempre era possível apreendê-las, contou-se com a ajuda da observadora. Além de proporcionar o apoio logístico na operacionalização de cada encontro, ela se

mantinha atenta aos sinais e os registrava no diário de campo do pesquisador.2-3 Ao final de cada sessão, a moderadora e a observadora se reuniam para trocar idéias e avaliar o encontro recente, gerando orientações para a próxima sessão.3 A moderadora buscou, ao longo dos encontros grupais, facilitar as discussões, encorajando os depoimentos e assegurando espaço para que todas as participantes se expressassem. Realizou sínteses, retomando o foco da discussão e confirmando informações. Procurou falar pouco e ouvir mais, fazendo intervenções, quando necessário, para manter o debate focalizado, em consonância com as orientações de estudos sobre o grupo focal.2-3,11 Para preservar a identidade e anonimato das colaboradoras do estudo, utilizaram-se letras maiúsculas para identificá-las, na transcrição de seus depoimentos. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde, da UFSM, sob o protocolo Nº 077/01, de 2 de julho de 2001. Cabe destacar que, além de cumprir os procedimentos éticos previstos pela Resolução Nº 196/96,12 sobre a autorização para gravar as falas das participantes e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foi também firmado um termo de compromisso entre as colaboradoras, chamado de setting, ou contrato grupal, com a finalidade de assegurar o sigilo ético e facilitar o processo interacional.3 Procedeu-se à análise dos dados de acordo com recomendações para pesquisas que utilizam o GF, e a abordagem qualitativa.4,13-14 Realizou-se, inicialmente, uma leitura exaustiva dos depoimentos, seguida da indexação dos dados, que consiste na ordenação e categorização dos dados, a partir do destaque de temas ou padrões recorrentes. Essa indexação é indutiva, e as categorias surgem da absorção hermenêutica do analista do texto.13-14 As categorias de análise foram agrupadas por afinidade e compuseram os seguintes temas descritores: Construções Singulares (que apresenta como se deu a construção cultural da sexualidade na socialização primária das participantes); Tornando-se Enfermeira (que aponta como ocorreu a construção cultural da sexualidade no curso de graduação em enfermagem); A Vivência da Sexualidade na Assistência de Enfermagem (que mostra como as participantes vinham vivenciando as questões relativas à sexualidade, no dia-a-dia
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de sua prática); e Desconstruções e Reconstruções (que revela a avaliação da vivência no GF pelas colaboradoras do estudo). Após a categorização dos dados, os temas descritores foram submetidos a uma análise específica, com a releitura de cada categoria e construção de subtemas. A imersão nos subtemas possibilitou o aprofundamento e a compreensão analítica. Ao final, foram realizadas a interpretação dos dados e a aproximação com os autores que subsidiaram o referencial teórico do estudo.

AVALIANDO O PROCESSO DOS GRUPOS FOCAIS
Ao final das sessões grupais, pretendendo avaliar o que representou para as colaboradoras deste estudo a participação nas discussões empreendidas nesses grupos, foi questionado, individualmente: O que este exercício de reflexão no GF, sobre sexualidade, trouxe para você? Usouse, então, a técnica de perguntas múltiplas como estímulo, a partir da lembrança das informações veiculadas nas sessões grupais. Tais perguntas eram diretivas, longas e narrativas, com o objetivo de esclarecer e complementar as informações obtidas, e avaliar a técnica utilizada no processo de pesquisa. Os dados oriundos desta etapa são apresentados a seguir, e destacam a aplicação da técnica do GF em pesquisa qualitativa. Dentre as diferentes análises a respeito da experiência nesse exercício, selecionamos, inicialmente, os relatos que evidenciaram o autoconhecimento e a possibilidade de trocas que o GF propiciou. Esse foi um momento singular, em que pude falar de coisas minhas, ouvir as outras colegas [...], pudemos estar juntas e, como enfermeira quase nunca senta, esse foi um momento preparado para tal, e que nos propiciou ver coisas e ouvi-las por nós mesmas (K). [...] Ganhei na experiência, na motivação para trabalhar com grupos e no repensar minhas próprias questões [...] (E). Acho que esse exercício trouxe mudanças para mim, no sentido de me dar condições, através da reflexão, de falar sobre sexualidade com mais liberdade. Me sinto mais apta a falar sobre isso com pacientes, com alunos. Acho que isso é um processo, sinto ainda que tenho barreiras e limitações como pessoa, mas este exercício serviu para me fazer analisar sobre essas coisas (A). Percebe-se que a técnica escolhida, o GF, foi determinante para criar um espaço de avaliação
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de procedimentos, emoções, significados e percepções acerca do tema em foco, no cotidiano das participantes.2-3 Assim como esse espaço discursivo oportunizou o autoconhecimento, por meio da reflexão pessoal e da revisão de conceitos, também possibilitou a percepção de ser humana, ter limitações e fragilidades. Igualmente, propiciou o entendimento de que a forma de pensar e agir em relação à sexualidade está amparada nos valores, nas regras e nas concepções que nortearam a sua construção.15 Esse exercício facultou também olhar o outro e encontrar similaridades nas singularidades de cada pessoa envolvida. Foi um espaço integrador e de compartilhamento. Certamente, despertou para um entendimento da sexualidade e descortinou um caminho que pode auxiliar na condução do tema em estudo, tanto na vida pessoal, quanto na vida profissional das participantes. Nesse sentido, apresenta-se um depoimento: Antes dos grupos se iniciarem, eu pensava que, ao final, teria um conceito de sexualidade, como uma coisa concreta, formada. E não foi assim, mas isso foi tranqüilizador de perceber. Foi bom também, porque vi que não era uma coisa que eu colocaria “quadradinho” na minha cabeça. Na verdade, faz parte de um processo que passa por tudo na minha vida, e tem que ser enfrentado e trabalhado sempre (D). Esse depoimento evidencia a necessidade de refletir continuamente sobre a temática. Isso pode acontecer em nível pessoal, de acordo com as possibilidades que emergirem para cada uma, culminando em uma reorientação na assistência de enfermagem empreendida por elas. Ao mesmo tempo, foi notório o interesse que a discussão grupal oportunizou, abrindo um espaço reflexivo e crítico individual. Por outro lado, foi possível também amenizar a ansiedade com relação à temática em estudo. Por meio da técnica do grupo focal, ela foi compreendida como uma condição que todo ser humano possui, que está presente em toda e qualquer situação da vida dele, independente de seu querer. Ela é vivenciada por meio de um processo dinâmico e permanente, ao longo da vida, permitindo a expressão cultural singularmente construída, no manejo e no enfrentamento dessa questão.1 Acredita-se que o exercício de ouvir a si mesmo e de ouvir os outros, como decorreu nos GFs deste estudo, é um elemento de conscientização para a pessoa sobre as próprias concepções. A validade aparece pelo processo organizado, planejado

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e baseado em um contrato ético de participação, assumido por todos os elementos do grupo. Tal procedimento permitiu a expressão espontânea e a reflexão individual e grupal das idéias, assim como a desconstrução e a reconstrução de concepções. Algumas dessas concepções foram reforçadas; outras, porém, mantiveram-se intactas, por motivos diversos, oriundos da singularidade e do respeito ao compromisso de aceitação das diversidades que fluíram nas discussões. Nesse sentido, destaca-se a importância do compromisso ético e de respeito instituído no GF: acho que outro aspecto importante foi a questão do sigilo. Naquele momento, saber que podes falar o que quiser fora dali, menos aquilo que foi trabalhado no grupo, já que foi firmado ali um contrato tão sério entre todos os componentes, foi muito legal (L). Uma prerrogativa essencial, para o bom desenvolvimento desse tipo de grupo, é a elaboração de um termo de compromisso ético, de sigilo e respeito, firmado entre todos os participantes do grupo. No caso desta pesquisa, o termo conteve elementos de ordem organizacional e ética que conduziram as discussões e as condutas no grupo.2-3 Neste estudo, a elaboração coletiva do termo foi realizada no primeiro encontro, sendo ele aprovado e assinado por todas as pessoas envolvidas. Esse cuidado ético foi premiado com uma condução séria, sigilosa e de respeito entre as colaboradoras, nas discussões grupais. Afigurou-se como um elemento importante para assegurar confiança entre elas, fortalecida pelo sentimento de empatia, a partir da interação vivenciada nos grupos. Esse conjunto de traços positivos levou a um convívio agradável e estimulante para as colaboradoras. O efeito surgiu também na forma de cumplicidade e de desejo de aproximação, documentados nos relatos avaliativos desse exercício. A seguir, alguns desses relatos são destacados. Foi muito bom conhecer essa técnica. Ela facilitou muito a exposição dos sentimentos, do que a gente pensa e deseja. E se formou uma cumplicidade no grupo. Não sei se outra técnica propiciaria tanta cumplicidade a um grupo de pessoas bem diferentes. Ainda hoje, eu analiso colocações que algumas colegas fizeram e sinto-me cúmplice delas (A). Eu acho que faltam espaços para que a gente possa falar sobre coisas que fazem parte do nosso eu, que se refletem nas atividades profissionais. A gente mal se cumprimenta. As pessoas não se tocam. Acho que, quando começaste a trabalhar, isso despertou, no grupo, uma vontade de estar mais próximo uns dos outros. Foi um momento em que a gente se aproximou e não só discutiu sobre sexualidade (N).

Nesse depoimento, foi lembrado o fato de o trabalho grupal despertar o desejo de aproximação, como uma forma de acolhimento, empatia e solidariedade. Nesse sentido, é possível entender como resultado, concomitante nos grupos, a manifestação interpessoal de afeto por meio dos olhares, dos sorrisos, dos abraços, da atenção, do consolo e do conforto, espontaneamente liberados em situações emocionadas, no grupo. A emoção foi compartilhada de forma solidária entre todas as participantes e se fez marcar, positivamente, pelos sentimentos de cumplicidade e de proximidade na relação interpessoal, desenhados por cada grupo, ao longo dos encontros. Sobre isso, a colaboradora já citada alude: Aqueles momentos pareciam livres de qualquer preconceito e medo. Mas quando saíamos daquele momento, as pessoas pareciam se revestir de proteção de novo, por isso eu entendo que deveria haver uma continuidade (N). Esse relato expõe, com clareza, os aspectos da confiabilidade e da espontaneidade que premiaram os grupos de discussão, oportunizando que cada participante se mostrasse com suas debilidades e dificuldades. Por intermédio do sentimento de cumplicidade, elas se apoiaram em situações delicadas, nas quais as emoções e sentimentos pessoais emergiram, havendo respeito entre todas e desenvolvendo-se uma receptividade mútua, no clima da vivência grupal. Estes foram momentos percebidos como de revitalização, quando elas expressavam seus pensamentos, despidas de preconceitos, oportunizando ouvir a si próprias e ver suas colegas sob outro ângulo, diferente do profissional que as une. Ao mesmo tempo em que os GFs possibilitaram o desvelamento de emoções e sentimentos acerca da sexualidade, eles promoveram a diminuição da ansiedade em relação a esse tema, pois produziram um espaço revitalizador para os relacionamentos. No entanto, surgiram inquietações pela conscientização de como essa temática tem sido tratada pelas enfermeiras. Isso é comentado no relato a seguir. Essas necessidades foram visualizadas no grupo focal. Saí dos encontros muito mais incomodada, no sentido de ter fortalecido algumas coisas e ver que está mais do que na hora de trabalharmos outras (L). Observa-se, pela avaliação, que o exercício com o GF foi um momento de despertar, pelas reflexões que suscitou. Ao mesmo tempo, foi um espaço de prazer, como refere a participante a seguir: a técnica usada foi prazerosa. A gente dava
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um jeito de comparecer. Suspendia, trocava, transferia outras coisas para poder estar ali naquela hora. Porque havia uma vontade enorme de estar ali (N). Ao longo dos encontros, percebeu-se o empenho de cada colaboradora em participar, pois cada uma entrou no grupo por interesses próprios e singulares, pelo desejo de auxiliar e de apoiar este trabalho, de adquirir novos conhecimentos e de realizar trocas. No desenvolvimento de cada encontro, observou-se o clima de respeito, de acolhimento e de receptividade, e isso foi um aspecto essencial para a boa convivência no grupo. Evidenciou-se que os grupos mantinham espontaneamente discussões produtivas, gerando um volume considerável de informação. As colaboradoras puderam sentir as qualidades de um espaço de abertura, autoconhecimento e compartilhamento das idéias. Como resultado, tal experiência as impulsionou a desenvolverem, a posteriori, atividades grupais de mútua ajuda, conforme relato. Acredito que algumas coisas mudaram depois deste exercício e as conseqüências estão vindo, um ou dois meses depois... todas se motivaram, escolhemos até um nome para o grupo: Acolher. A gente já se organizou para os encontros. Eu acho que isso é resultado do grupo que eu participei com você, porque vontade eu tinha, mas faltava a motivação para colocar em prática (J). É pertinente salientar que o GF é uma técnica de pesquisa que utiliza sessões grupais de discussão, centralizadas num tópico específico, que é debatido entre os participantes.2-3 Para tanto, se faz necessária uma série de requisitos que organizam os momentos grupais, conduzindo-os e os direcionando ao objetivo da pesquisa.

crítica acerca das atividades cotidianas da enfermeira, no que tange à sexualidade. Esse resultado reforça uma das vantagens da técnica empregada para coleta de dados do estudo, que é a de conduzir ao pensamento crítico, ou seja, a um processo de desalienação. É oportuno referenciar que a técnica de GF aplicada metodologicamente neste estudo, levou a perceber que o tema contém implícitos procedimentos com regras, normas, valores e significados culturais instituídos, além de ser permeado por elementos de natureza ética, tais como respeito, dignidade e compromisso. O conhecimento disso apontou ou reforçou inquietudes quanto à forma com que o tema tem sido tratado na área da saúde, em especial, pela enfermagem. E alertou para a urgência de uma transformação em nível pessoal, profissional, e educacional. Cabe destacar, por fim, que a técnica do GF permitiu a revelação dos significados que expressam o ponto de vista de quem foi pesquisado. Nesse sentido, permitiu o desvelamento das singularidades presentes na complexidade cultural do contexto. Trouxe à luz semelhanças, não igualdades. E fez emergirem profundas diferenças nas experiências, nos sentimentos e nas expressões vivenciadas no fazer dos enfermeiros. Evidencia-se, assim, como uma possibilidade na construção de dados em pesquisas qualitativas e na área de enfermagem.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebeu-se que a técnica escolhida para este exercício de pesquisa permitiu que se desencadeasse a construção de novas ações por parte das colaboradoras deste estudo. Por meio da reflexão sobre a sexualidade, nas sessões de grupo focal, elas criaram condições singulares para suas necessidades, desconstruindo e reconstruindo conceitos. Buscaram em si mesmas as respostas para as indagações e inquietações que o tema conjuga. E desse processo emergiu uma série de novos questionamentos sobre suas vivências pessoais e profissionais, diante da temática. Esse exercício com o GF representou uma oportunidade de autoconhecimento, de autoafirmação, de revisão conceitual e de reflexão
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Pesquisa qualitativa em saúde: reflexões metodológicas do relato oral e produção de narrativas em estudo sobre a profissão médica*
Qualitative research in health studies: methodological reflections on the oral account and narrative technique in a study on the medical profession Lilia Blima Schraiber
Departamento de Medicina Preventina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - Brasil

Foi realizada pesquisa qualitativa aplicada à saúde coletiva e medicina social, baseando-se em estudo acerca das transformações históricas da autonomia profissional dos médicos na passagem da medicina liberal para a atual medicina tecnológica. A pesquisa de campo valeu-se de entrevistas abertas e gravadas para colher depoimentos pessoais sobre histórias da vida profissional de médicos formados entre 1930-1955. Caracterizados tecnicamente como "relato oral", os depoimentos foram registrados na forma de narrativas livres. Os relatos são considerados quanto à capacidade de expressarem a auto-representação dos médicos sobre seus cotidianos de trabalho, bem como registrarem a história da prática médica. Avalia-se a entrevista aberta como instrumento de produção de narrativas livres e relatos de vida. Pesquisa, métodos. Prática profissional, história. Medicina social.

Introdução O presente texto traz reflexões de natureza metológica e operacional acerca da pesquisa qualitativa em saúde, tomando por base a investigação realizada em um estudo sobre o médico e seu trabalho 22,23 . Motivado por questões relativas à organização dos serviços de saúde quanto à inserção dos médicos em ações integradas com a saúde pública, ou relativas à interdependência das ações médicas especializadas, o referido estudo constituiu a autonomia profissional desses trabalhadores, seu objeto de investigação. A medicina foi examinada enquanto trabalho social e os dados empíricos foram extraídos

de relatos acerca do trabalho cotidiano. Esses relatos referem-se a momentos históricos de importantes transformações na autonomia dos médicos, eqüivalendo para a sociedade brasileira aos últimos 50 anos. O objetivo do estudo foi o de alcançar informações sobre o trabalho médico no Brasil, não só para obter a história da passagem da medicina liberal para a medicina especializada e "armada" dos dias atuais -à qual se denominou medicina tecnológica-, como também obter as representações dos médicos acerca desse processo e de si mesmos enquanto agentes técnicos e sujeitos históricos. Do ponto de vista da produção dos dados, o estudo primeiramente recorreu ao dado já

*Pesquisa subvencionada pela Financiadora de Estudos o Projetos/FINEP (Processo n° 4.2.88.0228.00) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq (Processo n° 303696/85-MP). Trabalho baseado na Tese de Doutorado do autor - "Medicina liberal e tecnologia: as transformações históricas da autonomia profissional dos médicos em São Paulo", apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1988. Apresentado ao I Encontro Nacional de Antropologia Médica, Salvador, 3 a 6 de novembro de 1993. Saparatas/Reprints: Lilia Blima Schraiber - Av. Dr. Arnaldo, 455 - 2° andar - 01246-903 - São Paulo, SP - Brasil Edição subvencionada pela FAPESP. Processo 94/0500-0. Recebido em 13.7.1994. Aprovado em 3.1.1995.

registrado, valendo-se de três tipos de fontes: textos da história da medicina no Brasil, textos de debate acerca do exercício profissional publicados no período histórico em pauta e, por fim, textos biográficos. Essas fontes, contudo, não foram apropriadas para evidenciar o cotidiano da prática profissional. Em razão do singular desenvolvimento social brasileiro, no entanto, houve a possibilidade de acesso direto a personagens partícipes do mencionado processo histórico. Isto porque, como mostra o estudo, a transição de um a outro modo de produzir os serviços médicos no Brasil ocupou cerca de 40 a 50 anos, possibilitando que esta passagem fosse vivenciada por poucas gerações de sujeitos, alguns dos quais ainda vivos por ocasião da pesquisa. Assim, a investigação de campo buscou entrevistá-los para a produção de narrativas com a qualidade de testemunhos pessoais. Todos os critérios acima traduziram-se na seleção de médicos cujo início da profissão deu-se entre 1930 e 1955, buscando-se um resgate das "histórias da vida de trabalho", o que foi orientado por um roteiro de questões muito amplas e um estímulo à livre narração. Os entrevistados foram levados a refletir sobre seu dia-a-dia profissional, trabalhando a "hipótese" central do estudo: a formulação de que a autonomia profissional, perdendo espaço na esfera mercantil, busca centrar-se na dimensão técnica interna ao processo de trabalho, em um movimento que corresponde à sua transformação, para preservar-se enquanto possibilidade objetiva na profissão. Tratando-se de testemunho acerca de seu próprio trabalho e estimulando um pensamento sobre questões tão caras à medicina, tais como, a tecnologia, a qualidade da intervenção técnica, o papel social da prática médica ou o significado do desenvolvimento científico e profissional, esta produção de narrativas por médicos constituiu rica experiência da perspectiva da pesquisa científica. Não se poderia, por isso mesmo, deixar de refletir a esse respeito. Assim, tomando-a como ponto de partida, mas também valendo-se de bibliografia específica sobre a pesquisa qualitativa nas Ciências Humanas, desenvolveu-se no presente texto algumas considerações acerca dessa metodologia de pesquisa e da técnica do relato oral por entrevista aberta, tal como utilizadas pelo estudo em questão.

Técnica e Arte do Trabalho de Campo Escolhendo Modo e Técnica para a Coleta dos Dados Como todo processo de trabalho 15 , a produção de dados empíricos na pesquisa também coloca um ardil: encontrar a melhor construção operatória pela qual, a partir das hipóteses científicas, evidenciam-se provas, ou seja, respostas produzidas pelo cientista, com base em métodos, técnicas e instrumentos de investigação. A prova, pois, o cientista capta do real, não só por razões de técnica, mas por ter sido capaz de, ao eleger e exercitar técnicas em seu trabalho de campo, fazer renascer o objeto de seu estudo5. No presente caso, tratava-se de escolher a modalidade de pesquisa capaz de percorrer a dimensão técnica da prática médica, caminhando pelo interior desse trabalho. Mas, simultaneamente, tratava-se de visualizar, no técnico, a dimensão social. Vale dizer, evidenciar a intervenção médica em sua estruturação técnica, por ser parte da vida em sociedade. Tratavase, ainda, de captar nesse percurso as relações entre o médico e sua prática, permitindo ver na base material desse trabalho a inscrição do agente e vice-versa, estudando-se, assim, a dimensão subjetiva das práticas e a concreta constituição dos sujeitos nas ações. Por referência à autonomia profissional, a abordagem proposta demandava evindenciá-la como técnica e como representação do trabalho médico, qualificações em que a autonomia se estabelece, quanto às condições objetivas desse trabalho, como ferramenta adequada e necessária, e, quanto ao imaginário profissional, como ideal de trabalho. Considerando que se tratava também de um estudo em que todas essas dimensões deveriam expressar-se no movimento histórico da prática médica, dentre as possibilidades de pesquisa qualitativa 13,18,21 , a escolha recaiu sobre a modalidade orientada para produzir relatos em um misto de lembranças das histórias pessoais da vida de trabalho com reflexões mais gerais sobre o trabalho médico e sobre o movimento de suas transformações. No pólo empírico da pesquisa, a técnica que lhe foi mais adequada é a da entrevista e, entre seus diversos tipos6,17,19, o estudo desenvolveu uma abordagem que estimulasse narrativas mais livres do entrevistado. Impôs-se,

contudo, limites de temáticas, tentando-se, ao mesmo tempo, garantir que as questões estipuladas pelo roteiro prévio fossem todas recobertas. Com base na modalidade de relação estabelecida entre o pesquisador e o entrevistado, Queiroz19 delimita dois tipos de relatos, considerando a forma mais ou menos espontânea com que o entrevistado produz sua fala, Assim, mesmo no interior das entrevistas mais abertas foram encontradas situações em que é o pesquisador que define os temas e conduz sua abordagem; controla o entrevistado mais prolixo e impõe limites, definindo cortes e a própria conclusão do trabalho. Há, porém, entrevistas em que o tema sugerido é, por si só, amplo, e o entrevistado terá uma narrativa totalmente livre, conduzindo-a a seu ritmo e suficiência. Esta última constitui as histórias de vida, enquanto que a primeira forma, mesmo tratando da experiência vivida, contitui, conforme a autora, os depoimentos pessoais. Esta modalidade é a que melhor expressa a escolha técnica da pesquisa ora examinada. Mas basear a investigação na produção de um pensamento sobre a experiência vivida significa centrá-la nas representações dos sujeitos, o que, de um lado, constitui a opção de se estudar uma realidade social e coletiva por meio de narrativas individuais e vividos singulares, e de outro, pretender verificar não apenas o que esses sujeitos percebem dos diferentes modos de produzir serviços médicos, mas a própria existência objetiva desses modos. Essa metodologia introduz relativamente à aproximação do objeto em estudo, pois, duas ordens articuladas de questões: o social e o coletivo por referência ao individualsingular que o apreende; e o real objetivo por referência à dimensão subjetiva que o evidencia. Essas são questões que a grande maioria dos textos de referência para esta modalidade de investigação, termina por trabalhar 1,2,3,4,9,11,12,19,20 . A este respeito observou-se, em primeiro lugar, que da perspectiva de se buscar o acontecido através de sua representação no relato individual, esses textos exortam a grande vantagem da técnica de expressar o coletivo, o qual pode-se recuperar nas narrativas obtidas, por meio de uma riqueza ímpar: o coletivo explorado pela reconstrução pessoal. Trata-se da re-produção* do fato social na experiência pessoalmente vivida e na reflexão que a relata.

É esse processo de re-produção que valida o trabalho com representações e situações singulares para se examinar acontecimentos coletivos e fatos sociais. Sendo cada relato a forma pessoal de expressar o grupo ou o social, o que cada pessoa relata, e o modo como relata, são construções que se determinam na vida em sociedade. Por um lado, sendo construções, correspondem a um modo de relatar e, por isso, a entrevista produz sempre uma interpretação daquele que relata, trabalhando na própria subjetividade a objetividade do real. Mas, por outro lado, seu conteúdo, seja relatando o presente ou como recordação, não é exatamente único, senão a experiência pessoal no interior de possíveis históricos bem determinados, experiência que dependerá da forma pela qual o narrador posiciona-se socialmente e que lhe produz as concepções acerca do real das quais lançará mão em seu relato14,24. Os médicos entrevistados falam, pois, sobre a medicina liberal, sobre as tensões dessa prática ao crescer o modo tecnológico de produção dos serviços e sobre as repercussões dessas tensões na dimensão técnica do trabalho, mostrando formas historicamente encontradas para a preservação do exercício autônomo. Simultaneamente, expressam concepções acerca do movimento de mudanças que experimentaram. Tudo isso, ao relatarem, porém, o que cada um individualmente viveu. Em segundo lugar, o que se relata, mesmo sendo pensamento e pensamento individual, não se reduz a uma impressão subjetiva. É produto de uma elaboração intelectual específica, porque é produto de um pensar que é trabalho, trabalho de refletir e recordar. Por isso não é apenas sentimento, mas a reconstrução do vivido em nova objetivação: toda reflexão é trabalho da memória*. O que foi experimentado no passado e mesmo o que se concebe do presente, é externado enquanto trabalho de reflexão próprio, distanciando-se dos juízos do senso-comum: o relato é um pensamento especialmente produzido. A entrevista que o suscita deve ser vista como uma experiência particular e não como uma a mais do cotidiano. A entrevista recorta o cotidiano no objeto que propõe à reflexão e o interrompe por meio desta reflexão, ou como
* O conceito é extraído de H. Lefebvre16 e significa: o repetitivo que gera diferenças. Daí, inclusive, o modo de grafá-lo (re-produção).

diz Caldeira 7 , a entrevista produz "... uma interpretação que é, em geral, uma ordenação original de coisas velhas, de pedaços de imagens, experiências, opiniões, etc., que a memória guardou. Esta interpretação (...) é uma visão mais global do que se pode ter no cotidiano". No presente estudo, também se observam cotidianos e se examina a vida de homenscomuns; mais precisamente, a prática profissional dos médicos-comuns, cujo registro nem sempre ocorre. Esta prática expressa o modo de produzir os serviços médicos nas condições do dia-a-dia, em que o ato médico uniforme e único enquanto modo genérico de medicina, é re-produzido nas desiguais situações de trabalho concretamente existentes na sociedade; reprodução que, na particular situação de trabalho experimentada individualmente pelo médico, significa reelaboração dos pressupostos e expectativas homogêneas dos médicos, enquanto pensamento coletivo acerca do trabalho médico ideal. Ao mesmo tempo, o estudo buscou uma recuperação de acontecimentos passados, mas que se faz no presente: o entrevistado não só trabalha a experiência vivida no momento atual, como é levado a recuperar seu passado pelas questões do presente, questões problematizadas diretamente por ele, assim como pelas problemáticas que o pesquisador lhe coloca. Por tudo isto o relato sempre será uma lembrança individual, "um ponto de vista sobre a memória coletiva" 4 , formas ricas na ampliação, na profundidade e na diferenciação com que se trabalha o coletivo. Mas também, por isso mesmo, cada momento de entrevista e cada relato completado formam subtotalidades que se deve respeitar. A constituição de um todo a partir dos singulares, na reconstituição do acontecimento social, deve considerar que os depoimentos podem se orientar em direções diferentes e até contraditórias. Trata-se da autonomia relativa da parte ou do singular; autonomia que, de fato, ocorre, mas não é capaz de anular a inscrição simutânea do coletivo naquilo que é relatado. Esta inscrição poderá ser resgatada desde que se tome o coletivo como tendo qualidade própria por referência a seus constituintes parcelares, o que significa tanto eleger o ponto de vista interpretativo pelo qual se reconstrói a totalidade em estudo, quanto admitir que cada parte individualizada não precisa repetir tudo o que se passa no plano do coletivo para que seja

seu efetivo constituinte 10,19 *. Por todas essas observações, tal como serão consideradas adiante, a pesquisa exigiu certos cuidados na produção e no processamento intelectual do material obtido, impondo-se a adoção de determinados princípios gerais que orientaram todo o trabalho com o empírico. Princípios Técnicos e Cotidiano da Pesquisa A produção das narrativas deve delimitar alguns procedimentos próprios, tais como definir quem, até quando e quantos sujeitos serão entrevitados. Além disso há que se lembrar que a técnica ora discutida produz grande volume de material coletado. Selecionar sujeitos, no presente caso, levou em consideração alguns pressupostos: inserção na produção de serviços na forma predominante ou exclusiva da medicina de mercado e, pois, médicos-comuns; pertencer ao coletivo de agentes de trabalho "liberal"**, exercendo práticas de intervenção clínica e cirúgica, em suas modalidades mais gerais; e, como critério primeiro dado no recorte inicial do objeto de estudo, praticar a medicina em São Paulo, com a graduação profissional entre 1930-1955. Essas características indicam qual a posição que os entrevistados ocupam na medicina, delimitando quais representações e memória grupal inscrevem-se, portanto, nas narrativas. Também a procura dos sujeitos foi orientada pelo critério de maior facilidade de contacto, no sentido de serem "médicos bastante acessíveis", tendo em vista a dificuldade na obtenção de relatos em investigações dessa natureza, sobretudo considerando a categoria profissional em pauta. Trata-se aqui da pergunta que o entrevistado se coloca e coloca ao pesquisador: "por que eu fui o escolhido?". As
* A bibliografia pertinente situa no exame interpretativo do material coletado os cuidados relativos à sua aproximação no sentido de captar o plano do coletivo. Aponta, também, possível suporte nesta tarefa: a complementação das narrativas com outras formas de investigação ou com dados de outra natureza, produzidos em obsrvações diretas ou como material já registrado. * * O termo liberal grafa-se sob aspas pelo fato de que no Brasil esse período, usualmente reconhecido como medicina liberal, não exibe as mesmas condições de outros países quanto a essa modalidade de trabalho, uma vez que a medicina do pequeno produtor privado e isolado, em boa parte de seu tempo, conviveu com o trabalho assalariado, a medicina dos Institutos ou previdênciária 23 .

razões da escolha são mais facilmente aceitas quando referidas a situações dos extremos sócias: elite e homem-comum do povo. Nelas, por motivos opostos, o entrevistado reconhece a importância de seu relato. Para o indivíduo que é tido e se vê como representante de grupo, isto é, que adquire uma identidade de elite, a importância de seu depoimento é socialmente difundida e ele próprio a reconhece; para aquele, no extremo oposto, cuja oportunidade da fala constitui rara situação, é o fato de ser então valorizado, que conta para sua aceitação em participar da entrevista. É mais difícil explicitar razões quando estas não coincidem com nada especial, senão com seu contrário: o grande conjunto de pessoas que constituem grupos quaisquer na sociedade e que podem ser destacadas de seu interior para representar o seu grupo, mas não exatamente por ser ele indivíduo específico, senão "comum" -um qualquer dentre os do mesmo grupo. Os médicos, em geral, não são concebidos e não se autoconcebem exatamente na categoria de homens-comuns, mas como grupo muito especial de sujeitos sociais, cujo trabalho, além disso, funda-se na concepção do segredo profissional. Assim, se por um lado, podem entender a necessidade do relato ou a relevância da pesquisa, por outro, detêm a noção de que seus procedimentos, principalmente os da dimensão técnica, não devem ser do conhecimento público. Estão dispostos, pois, a falar sobre a medicina, talvez até sobre a prática de outros, preferencialmente anônimos... Porém, usualmente, a não ser entre pares (médicos), não falam de si ou de seus cotidianos. Além do que, não tendo sido eleito enquanto sujeito especial, torna-se ainda mais difícil explicar as razões de sua particular participação. A seleção dos médicos obedeceu, pois, a um princípio especial: não se realizar ao acaso, mas por meio de mecanismos reconhecíveis pelos próprios entrevistados como formas de escolha confiáveis, isto é, formas conhecidas e, de certo ponto de vista, também sob controle deles próprios. Os entrevistados foram, assim, contactados mediante a indicação interpessoal, em que, a partir de médicos próximos e conhecidos do pesquisador, surgiram as primeiras indicações, das quais surgiram novos médicos e assim por diante, o que conformou "gerações" de sujeitos indicados. A menção a cada novo contacto sobre o entrevistado anterior e seu "encaminhamento"

permitiu sempre boa recepção e disponibilidade do entrevistado para com a pesquisa, reforçando a manutenção desse princípio. Mesmo assim, em 19 contactos, registraram-se 5 recusas. De todos os médicos que aceitaram participar, a primeira "geração" de indicados (2 médicos) foi objeto de pré-teste (16 horas e 30 minutos de gravação) e outros 3, mesmo constituindo "gerações" posteriores, foram abandonados logo após o primeiro contato, em razão de erro involuntário na indicação. Foram obtidas 9 entrevistas. Gravadas, elas produziram, no total, 38 horas de material registrado. Esse número de situações seguiu o critério de "exaustão" ou "saturação" 3 , segundo o qual o pesquisador verifica a formação de um todo e reconhece a reconstituição do objeto no conjunto do material. Porém esse não é, de forma alguma, critério obrigatório. A eleição de critérios que balizam a técnica de coleta dos depoimentos depende do objeto em estudo e do específico campo empírico de investigação. Essa característica de critérios móveis contrasta com outras técnicas de investigação, cujas normas são fixas e bem mais independentes por referência aos objetos particulares de estudo. Mas vale aqui lembrar que a adoção de critérios implica perspectivas interpretativas do material pertinentes. Ademais, o rigor nos critérios de seleção dos entrevistados, como também seu número, liga-se a questões de controle sobre dados falsos ou comportamentos "desviantes"13,19. É a situação em que o pesquisador tenta assegurarse de que colherá o dado pertinente e que conseguirá obter a prova que necessita frente a suas hipóteses. Mas nesta modalidade de pesquisa, seja o dado inesperado ou os comportamentos pessoais inesperados ("desviantes"), também podem ser produtivamente explorados. Esse "controle" dá-se no momento "analítico", isto é, inscrevendo no exame do material o inesperado ou destoante. De igual modo, pode ser suficiente apenas um relato de experiência vivida, que convenientemente estudado pode fornecer conhecimentos relevantes acerca da vida social. Além da saturação, outros critérios foram formulados ao longo do desenvolvimento da investigação, referidos a procedimentos que não podem ser regidos por mecanismos fixos "a priori". O melhor modo de se obter o relato ou quando encerrá-lo são problemas que se resolvem

apenas no desenrolar da narrativa. Isto porque a técnica se funda na exploração de questões que o pesquisador previamente traz, em conjugação com a presença do dado novo, este último criado no momento da entrevista. Mesmo que o pesquisador já domine questões da história que indaga e muito embora cada participante já tenha para si uma história guardada, por ocasião da entrevista, como retomada deliberada e provocada dessa história, ela será efetivamente refeita: pelo entrevistado, através de associações, repetições ou desqualificações de idéias cujos nexos se constróem no presente da entrevista; pelo pesquisador, na dinâmica do relato - pelos fatos que este traz e em seus encadeamentos, totalmente originais, na narrativa. Assim, o modo pelo qual o pesquisador pode intervir produtivamente não tem norma fixa e não se repete de uma a outra entrevista. Não possuindo princípios que de antemão definem o momento e a direção da intervenção, a entrevista conduz sempre a uma atualização do roteiro, fundada na avaliação subjetiva das potencialidades do diálogo. Eis porque elementos como a simpatia ou, como já se mencionou, o conhecimento prévio dos sujeitos a serem entrevistados, não configuram nessa técnica fator inconveniente. Muito pelo contrário, contituem norma favorável, porque a técnica se fundamenta exatamente na autenticidade e veracidade discursiva do entrevistado, cujo depoimento o pesquisador quer compreender -e não contestar ou, mesmo, testar. O núcleo do procedimento técnico, neste caso, requer, pois, do entrevistado, o compromisso declarado com suas concepções e valores, e a disposição moral de evidenciá-los. E do pesquisador, requer a capacidade de estabelecer, com o entrevistado, relação pessoal e íntima, para que este se sinta à vontade no relato4,20,21. Assim, o "controle" sobre a investigação, que se dá mais no sentido de garantir a presença das questões que a pesquisa coloca, freqüentemente se faz com base em critérios criados no momento da entrevista. Eis porque o diálogo estabelecido na relação pesquisador entrevistado deve ser adequadamente articulado ao próprio objeto de estudo, residindo o "controle" do processo da entrevista sobretudo neste domínio intelectual do pesquisador. Por isso, também, de forma bastante flexível, quer o roteiro, quer a intervenção do pesquisador,

são ferramentas importantes no processo da entrevista, mas que apenas ganham sentido no momento concreto do relato em produção. O roteiro, em particular, assume o papel de guia da narrativa e é utilizado para orientar o pesquisador na colocação de temas estimulantes do relato, constituindo apoio ao trabalho da reflexão ou memória auxiliar. Deve-se percorrêlo subordinadamente à dinâmica que o próprio entrevistado dá à narrativa e respeitando a seqüência das questões que o relato produz. Algumas temáticas surgem como questões já problematizadas e certas informações aparecem relatadas espontaneamente, sugerindo questões relevantes para o narrador e como expressão também da memória grupai. Outras têm que ser sistematicamente estimuladas pelo pesquisador. Entre as primeiras, no presente estudo observam-se, por exemplo, a perda da autonomia mercantil e o assalariamento do médico, ou rotina e a impessoalidade da prática, decorrentes da massificação e institucionalização da medicina. Mas, a mais significativa questão foi, sem dúvida, o Estado como grande produtor, interferindo diretamente na dinâmica mercantil, o que é trabalhado, via de regra, sob a forma de protesto contra a política pública para o setor. Como ilustração do segundo conjunto de informações, foram observadas as questões referentes à autonomia técnica e ligadas à intimidade do processo de intervenção, dimensão sempre muito preservada de reflexão e, sobretudo, de indagações. Assim, a especialização ou a inovação tecnológica concreta são aspectos que, quando referidos, são colocados como atributos "naturais" da medicina, parecendo quase não necessitar de "reflexão". O relato mais espontâneo parece reservado para aspectos tidos como "genéricos" da profissão: os outros; o saber científico; o desenvolvimento tecnológico em abstrato. Ou, aspectos "externos": o governo; as instituições; a crise econômica do país. Reserva-se, ainda, do ponto de vista da história, para o que se crê "perdido": o lado negativo da mudança, isto é, o que deixa de ser valorizado, segundo o imaginário profissional. Raramente, ao contrário, os entrevistados supuseram a necessidade de contar ou de valerse de uma fala mais densa que a mera constatação, para os aspectos opostos aos anteriores: o caso profissional particular, com suas mazelas e dificuldades do dia-a-dia; o relato do interior da prática, em que se evidencia a abordagem do

doente para sua assistência e a formulação do julgamento ou decisão médica; ou, diante do desenrolar histórico, as mudanças "positivas", como a incorporação dos equipamentos ou a "cientificidade" "aumentada" da prática materialmente armada. Alguma reflexão mais crítica, portanto, parece importar apenas para as "perdas" históricas ou as adversidades, do passado ou do presente, quase nunca articulando, em um mesmo pensamento crítico, a totalidade dos aspectos e qualificações do exercício profissional. Este último posicionamento, inclusive, os faz mudar, no tempo, a "fronteira" do que lhes pertence, o que nos é evidenciado por mudanças do alvo merecedor de reflexão crítica e, pois, objeto da narrativa mais espontânea, à proporção que o relato percorre diferentes momentos da história pessoal recordada. É o que ocorre, por exemplo, quando falam de sua participação pessoal na construção de suas condições de trabalho relativamente à prática liberal, quando os mecanismos sociais conformadores da produção na modalidade consultório privado não são reconhecidos enquanto forma social e estruturada de autonomia técnica e mercantil, parecendo-lhes sempre algo seu: esforço pessoal, vocação individual e reta conduta moral na profissão. Ao passo que, na medicina tecnológica, o compromisso pessoal para com as condições de trabalho (quaisquer delas), apontado no momento anterior, é o que deixa de ser reconhecido, por não mais se incluir, mesmo enquanto produção de setor privado, como algo "interno" à fronteira técnico-profissional, repercutindo diretamente no conceito de autonomia e em seus pólos: liberdade e responsabilidade. Nos relatos, essa forma distinta de tratamento das questões (do superficial ao pensamento crítico mais articulado), indica-nos a importância que cada conjunto de temas adquire para o entrevistado. E a observação deste aspecto, expressivo quanto às concepções acerca da medicina como trabalho social e quanto à auto-representação, tornou-se possível em razão do temário previsto pelo roteiro. Este percorria não só a vida de trabalho, mas a vida em família, no lazer e na escolarização. Ademais, percorria a vida experimentada nos vários momentos decorridos desde a infância, por onde, inclusive, se iniciou a entrevista. No plano da vida de trabalho, o roteiro estimulava a descri-

ção detalhada dos vários aspectos envolvendo a estruturação da prática profissional, a qual foi tomada desde o seu início, mantendo-se essa descrição mais "densa" como eixo de aproximação do transcurso da prática até momentos recentes, destacando-se em especial a reflexão relativa ao trabalho do consultório privado. Buscando verificar, justamente, a estruturação dos exercícios profissionais concretos e particulares diante dos modos vigentes de produção de serviços médicos na sociedade brasileira, observando, inclusive, de que forma essas estruturações"acompanharam" as transformações históricas dessa sociedade, e, principalmente, tentando verificar a posição do médico em sua prática, o roteiro conduzia a temas como: a finalidade do trabalho profissional; os instrumentos e equipamentos, além de técnicas de intervenção utilizadas; as relações de cada trabalho com outros serviços médicos; cada clientela e seus doentes como objeto da intervenção; e, essencialmente, atos concretos de realização do cuidado médico, como processo, isto é, a atividade do trabalho. Para facilitar o relato acerca desse último aspecto, estimulouse a descrição de situações marcantes no exercício profissional vivido, incentivando os casos e os exemplos, ainda que a narrativa mais livre logo conduza a fala para essa direção. Da mesma forma que o uso do roteiro, delimitar o tempo de duração e o momento de encerrar a entrevista foi algo estabelecido no transcorrer do trabalho de campo. De um modo geral o tempo é longo, mas não se pode fixá-lo previamente, além do que varia para cada situação. Da perspectiva do encerramento da entrevista, o cumprimento dos itens do roteiro, como conteúdo mínimo da reflexão prosposta, pode ser um bom ponto de partida, porém, de modo algum indica o término do trabalho de produção das narrativas. Como trabalho de reflexão, sua conclusão está dada pela suficiência de tratamento dos temas e quando estes se esgotam como forma de alimentar o diálogo, o que novamente se pode demarcar apenas no interior da dinâmica dos relatos. Esse conjunto de envolvimentos do pesquisador com o objeto que investiga confere uma qualidade muito viva ao processo, em um caráter de permanente construção de modelo operatório da própria investigação, o que traz ao pesquisador quase sempre muitas dúvidas. Desse ponto de vista alguns procedimentos

complementares à entrevista podem orientar melhor o processo, como é o caso dos sempre referidos, nessa modalidade de pesquisa, "cadernos de campo" em que são anotadas as próprias percepções do pesquisador acerca da investigação em curso. Não obstante, é o conhecimento do objeto de estudo e das questões que foram selecionadas para trabalhá-lo que muito auxiliam nos jugamentos e decisões, exigindo do pesquisador domínio sobre a pesquisa tal que torne seus procedimentos uma forma viva de exercício de subjetividade teoricamente fundamentada, isto é, o próprio pesquisador como instrumento de investigação e não apenas em mero portador de impressões pessoais. Além disso e nesse mesmo sentido, sem prentender que todos os procedimentos adotados tornem-se regras universais, para que o processo não resulte em uma ação subjetiva pessoal, deve-se estabelecer princípios que presidam a intencionalidade da ação técnica na pesquisa, ainda que a estratégia de conduzi-los dependa fundamentalmente de cada relação interindividual que se consegue estabelecer. Embora alguns princípios já tenham sido mencionados, eles podem ser assim sintetizados. Um primeiro princípio tomou a entrevista como meio de conhecimento, conforme já se considerou no presente texto. Fundou-se, portanto, a ação do investigador no fato de que não se tratava de uma polêmica, um embate político-ideológico, nem um teste de conhecimentos ou objetivações neutras de "verdade absoluta". O fundamento residiu na necessidade de encontrar formas de apreender, com clareza, as representações próprias do entrevistado e o diálogo transcorreu sempre no sentido de recordação dos fatos e esclarecimentos dos valores, incentivando o trabalho de reflexão em ambos os sentidos. A intervenção do pesquisador se pautou em falas bastante explícitas para que se pudesse questionar o entrevistado o mais abertamente possível, mesmo que, dada a busca de produzir narrativas livres, tanto se a reduziu ao indispensável, quanto se lançou mão do roteiro apenas quando suas questões não eram trabalhadas espontaneamente, o que foi feito sempre com sugestão de temas em sua forma mais geral. Não obstante, ocorreram alguns impasses de conversação. Foram situações em que, mesmo involuntariamente, a sugestão foi formulada de modo inadequado, o que ocorreu seja porque, para o pesquisador, de fato eram diver-

sas as concepções e as problemáticas que valorizou, por referência às do entrevistado, seja porque as questões trazidas remetiam a um vivido pessoal (do pesquisador) referido a uma época histórica muito diversa daquela em que o entrevistado vivenciou a maior parte de suas experiências profissionais. O pesquisador, portanto, terminou por produzir algumas falas distantes do entrevistado, em uma linguagem que, a este, foi, muitas vezes, estranha. O processo da entrevista, desse ângulo, representou processo de aprendizado para o pesquisador, no sentido de encontrar modos adequados de participar, até certo ponto, das mesmas concepções e da mesma forma de pensar a realidade que o entrevistado possui, sobre o presente e sobre o passado. A entrevista, assim, não é só uma forma de entender e captar o outro, mas de se fazer entender, e tanto a história de vida como a posição social e científica distinta do pesquisador relativamente ao entrevistado, introduzem linguagens divergentes. Em parte decorente do mesmo princípio anterior e em parte com base nestas últimas observações, houve a necessidade de se fazer um "contrato" de trabalho bastante preciso, esclarecendo o mais possível o objeto e o recorte temático escolhidos para a pesquisa; as razões, os sentidos e as pretensões da pesquisa; e a forma indicativa de organizar o trabalho de investigação: como, quando e onde se fariam as entrevistas, bem como a duração presumível de cada sessão ou do número de sessões desejável. Também o pesquisador deve colocar-se autêntico e veraz na relação com o entrevistado. Da perspectiva dessa organização do trabalho de campo, as explicitações foram no sentido de que iria tratar-se de um trabalho relativamente prolongado, com o uso de gravador, com sessões de gravação não muito curtas e sobretudo por meio de sessões repetidas, critérios fixados com base na experiência das primeiras entrevistas. Essa explicitação das "regras do jogo" foi de grande importância, pois é freqüente o indivíduo contactado pensar que se trata de pesquisa de curta duração ou com questinários padronizados, e a ocorrência oposta, por fugir ao esperado, parece requerer explicações mais detalhadas. O trabalho de campo ocupou cerca de quatro e meia sessões de gravação por entrevistado, variando de três até nove para um mesmo sujeito, em razão da disponibilidade e prolixi-

dade de cada narrador. A duração que se conseguiu obter em cada uma das sessões de gravação marcou um tempo que quase sempre se pautou no próprio cansaço do entrevistado, fruto do trabalho de reflexão e de narrar, ocupando mais freqüentamente uma hora de gravação, sendo o máximo atingido o de duas horas de gravação, em uma mesma sessão. Repartir a narrativa por várias sessões de gravação mostrou-se produtivo sob dois pontos de vista. Primeiro porque, para o próprio trabalho de refletir e lembrar, o intervalo decorrido de uma a outra sessão produziu efeitos relevantes, verificado no fato de que quase sempre ao início de cada sessão, mesmo que parecesse já trabalhado determinado tema na etapa anterior, o entrevistado espontaneamente solicitava o registro de outros novos aspectos lembrados, por ter prosseguido em sua reflexão após o registro anterior. Em segundo lugar, esse intervalo permitiu combinar, ao uso do caderno de campo, o estudo sistemático do segmento discursivo já gravado. E assim foi feito, precedendo cada nova sessão, o que permititu explorar com mais segurança as narrativas, à medida que se vinham produzindo. O conjunto desses critérios fez com que se evitasse entrevistar mais que dois sujeitos, na mesma etapa do trabalho de campo, o que, somado ao tempo gasto com localização, contactos e efetivação da entrevista, produziu uma duração global de 6 meses para este trabalho, parâmetro a ser considerado também na delimitação da quantidade de relatos a serem produzidos e no dimensionamento da investigação empírica. Na produção das informações, combinouse o uso sistemático e articulado de dois instrumentos de registro, os quais, como já dito, foram; o gravador e o caderno de campo. Este último serviu para anotar diversos tipos de dados, operação feita sempre ao final de cada sessão, identificando-a no caderno. Foram anotações referidas à própria experiência vivenciada na entrevista, através da efetivação de suas técnicas de abordagem e obtenção dos relatos, avaliando-as no sentido de sua eficácia, produtividade e impasses para a investigação. Também se registraram informações sobre o entrevistado, seu comportamento geral na entrevista e em particular quanto aos temas e à dinâmica com que transcorriam. Foram valiosas as ano-

tações feitas acerca do local de trabalho, quando as entrevistas realizaram-se no consultório particular (o que ocorreu em 6 dos 9 casos). Em muitas ocasiões registraram-se informações que o próprio entrevistado fornecia fora da gravação, as quais não foram poucas ou irrelevantes. Pode-se mesmo dizer que uma outra entrevista se passa nos intervalos, na "hora do cafezinho", ou ao término da sessão, após concluída a gravação. As falas nesses momentos são descontraídas e recobrem assuntos de todos os tipos: o entrevistado opina sobre a entrevista, sobre os médicos, sobre a medicina, sobre sua vida e se inteira da vida do pesquisador, comenta a técnica, a possível participação de outros colegas, e assim por diante. São extremamente valiosas, pois, esssas anotações. De outro lado, esses momentos informais de aproximação são vitais para a própria realização da investigação, uma vez que determinam as bases da relação interpessoal, com a formação de vínculos que ultrapassam o formal, criando-se laços de amizade, simpatia e confiança, pelo mútuo interesse que se estabelece - e há que se dar de fato - pela pessoa que ali está. A transformação do narrador em objeto de pesquisa morto e paralisado retira qualquer possibilidade de serem criadas relações efetivamente capazes de dar conta de um trabalho de investigação dessa espécie. Além disso, essa postura não significa, para qualquer dos dois sujeitos, esforço negativo: ao contrário, expressa a cumplicidade do mútuo empenho para se produzir o relato e para se conservar, no tempo, o depoimento e a historia 4,8 . Quanto ao uso do gravador, este instrumento, de fato, "representa uma ampliação do poder de registro" 20, pela produtividade maior da operação e pelo registro de viva voz. Permite captar e reter por maior tempo um conjunto amplo de elementos de comunicação de extrema importância: as pausas de reflexão e de dúvida ou a entonação da voz nas expressões de surpresa, entusiasmo, crítica, ceticismo, ou erros - elementos esses que compõem com as idéias e os conceitos a produção do sentido da fala, aprimorando a compreensão da própria narrativa. Mas gravar implica um trabalho dispendioso e difícil de transcrição de todo o material obtido. Trabalho que, se é possível fazer realizar-se à medida que são produzidas as narrativas, economizando tempo de processamento de dados, requer razoáveis parcelas de recursos

financeiros, além de demandar conferência da própria qualidade da transcrição. É, porém, etapa obrigatória, já que facilita o manuseio posterior dos registros e, por ser a fita material perecível, termina-se perdendo o registro como documento de arquivo. O uso do gravador introduz, de outro lado, pela presença da própria máquina (o "terceiro" participante), a consciência de que o fiel retrato da narrativa e na forma exata de sua enunciação, está se tornando público, por vezes inibindo o relato ou trazendo a excessiva preocupação com desempenho pessoal. Mas a necessidade da transcrição ou a presença desse "outro" na entrevista são apenas pequenos problemas, pouco alterando as vantagens da gravação como forma de registro. Após a gravação, um primeiro trabalho com o material, o da transcrição, representa a passagem da forma oral para a linguagem escrita, de modo fiel ao contido na gravação. Isto exige tanto selecionar um adequado profissional, quanto o acompanhamento da atividade, este último, aspecto importante, já que o profissional da transcrição raramente domina o linguajar próprio de segmentos técnicos determinados, ou..."a língua dos médicos", assim como há o "sociologuês", o "economês", e outros... Para se ter uma idéia do tipo de trabalho que envolve, vale destacar que cada hora gravada produziu, em média, 30 laudas datilografadas, em espaço de aproveitamento máximo da lauda, o que produziu um volume total de 1.142 páginas de material coletado. Um segundo trabalho com o material, o de edição, significa definir critérios de editoria e forma de publicação, o que no presente caso seguiu critérios de "anonimato" dos informantes, maior concisão e continuidade nas narrativas e individualização dos relatos, excluindose, no texto final, as intervenções do pesquisador e optando-se pela ordenação temporal das histórias, iniciando-se com o depoimento do médico mais antigo na profissão e concluindose com o mais jovem 22 . Um último trabalho realizado foi o exame totalizador e a leitura trans-individual dos relatos. Nesse sentido, há que se mencionar o duplo caráter desse material: ao mesmo tempo dado empírico para a exploração de dimensões transcendentes ao singular, tanto quanto já resultado do estudo. Como resultado é produto de trabalho específico no interior da investiga-

ção de campo, trabalho em que se produz uma forma própria de objetivação dos temas selecionados: objetivação cientificamente fundada, diferenciando-se de outros discursos acerca do real. Desta perspectiva as narrativas prescindiriam deste terceiro momento de trabalho. Mas optando-se, no presente estudo, por interpretá-las para produzir outros mais resultados, as narrativas foram lidas como histórias particulares de modelos genéricos de profissão e que contam as várias estruturações concretas do exercício profissional, cujos perfis individuais estarão, em alguns casos mais e noutros menos, próximos da condição tecnológica geral do modo de produção de serviços em que se inscrevem. Da perspectiva totalizadora, então, o leque de estruturações registrado foi abordado como um conjunto, sem deixar de levar em conta a singularidade de cada história produzida. Para tanto, é preciso, primeiro, dominar o todo de uma mesma história, para poder confrontá-lo com outra. Impregnarse de cada todo, é o termo que a literatura específica consagra a este proceder20. O destaque a fragmentos, que aparece na abordagem de conjunto e, portanto, comparativa dos relatos singulares, pressupõe que se tenha apreendido o sentido próprio do fragmento na totalidade do pensamento do qual é separado, tal como buscou-se realizar. Como as narrativas, além de ferramentas de aproximação das representações, foram também tomadas como instrumentos de observação da prática, sem desconhecer a ocorrência de falas mais descritivas ou mais opinativas, foi o todo do discurso conformado que se examinou. A leitura das narrativas se fez, portanto, não só quanto às representações, mas igualmente através das representações, para alcançar os procedimentos concretos pelos quais se organizaram e se transformaram os exercícios profissionais. Assim, o modo específico pelo qual foram trabalhadas as idéias, as noções e as concepções do pensamento médico supôs considerá-las como constituintes da prática do médico, articuladas ao exercício profissional que dotam de significação. Podem, assim, relatálo, situando nele o agente técnico e sujeito histórico; ao mesmo tempo que sendo processo de significação, representam a construção de pensamento acerca do trabalho e sua história. A realização do trabalho analítico com o material buscou alcançar todos estes sentidos.

Considerações Finais À guisa de conclusão das presentes reflexões, seria importante algumas observações, ressaltando o que se considera contribuições do presente estudo acerca do trabalho médico, com base na metodologia da pesquisa qualitativa e na específica técnica ora examinada. O caráter do instrumento de pesquisa muito amplo, sua definição sob princípios operativos muito genéricos e a grande dose de decisões pessoais do pesquisador no curso de sua utilização no trabalho de campo, têm sido os aspectos mais polêmicos quanto à tecnicalidade desta forma de investigação. São eles, porém, ao mesmo tempo, sua marca mais produtiva. É exatamente esta sua natureza que permite melhor explorar a subjetividade como objeto de conhecimento, já que promove resgate das dimensões sujetivas dos processos sociais que respeita o todo complexo de sua constituição. Tal capacidade nos é evidenciada por ser o relato oral a apreensão da subjetividade na forma de um pensamento externalizado, vale dizer, a narrativa. Trata-se, assim, da objetivação de pensamentos, por meio da construção de um pensar. Por isso, credita-se à pesquisa qualitativa e particularmente à produção de narrativas, a característica de ferramenta extremamente apropriada para o estudo das as representações. No presente caso, o estudo desdobrou-se em representações acerca da realidade objetiva da prática médica e em auto-representações, permitindo

explorar de duplo modo a dimensão subjetiva do trabalho médico. Da perspectiva de estudo histórico, esta forma de investigação empírica possibilitou, de fato, inscrever a cotidianidade na dinâmica de mudanças observadas, ao longo do período de tempo considerado. E esta possibilidade é especialmente importante no caso da história da medicina, em razão dos mencionados desvios de registro histórico, que valorizam quer os feitos pessoais, quer os fatos científicotecnológicos, enquanto a natureza própria da memória neste campo. Já enquanto estudo da prática médica como trabalho social, ao resgatar um modelo de trabalho, o pensamento médico acerca desse modelo e a auto-representação de seus partícipes, o relato oral expôs as percepções acerca do cotidiano articuladamente à reconstituição objetiva deste. Permitiu-se, assim, não só conhecer o pensamento de personagens técnicos acerca de processos sociais, mas revelar alguns aspectos éticos e lógicos de sua forma de pensar: a produção de narrativas mais livres, reconstituindo esse pensamento, fez emergir o valorizado e o desqualificado, bem como o problemático e o natural, para as percepções singulares e para seu conjunto, o pensamento médico. Sua leitura, então, possível, nos fará compreender a cultura profissional, as imagens idealizadas acerca da prática e como se autoconcebem, na história e na sociedade, estes cujas práticas técnicas os situam enquanto privilegiados atores sociais.

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Abstract
Qualitative research as applied to Public Health and Social Medicine is studied. The project is based upon research into the historical transformation of medical professional autonomy as medicine shifted from the "liberal" practice to recent "technological" medicine. Field research used unstructured recorded interviews to gather perssonal testimonies about the professional histories of physicians who graduated between 1930 and 1955. These testimonies are technically classified as "oral accounts" and were registered as free narratives. This study analysis how accounts can express the physicians' self-representations of their daily work and simultaneously write the history of medical practice. Further, the unstructured interview is evaluated as an instrument yielding free narratives and life accounts.

Research, methods. Professional practice, history. Social medicine.