UMA PROPOSTA METODOLÓGICA PARA O USO/OPERACIONALIZAÇÃO DOS CONCEITOS NA PESQUISA EM GEOGRAFIA

Valte r do Carmo Cruz Profe ssor assiste nte DEGEO/FFP/UERJ valte rdocarmocruz@yahoo.com.br

1. Introdução Na aventura de fazer pesquisa, nos deparamos com algumas dificuldades e obstáculos que às vezes nos impedem de avançarmos na produção do conhecimento. Uma dessas dificuldades bastante comum entre os jovens pesquisadores, mas também compartilhada por pesquisadores mais experientes, é a forma de lidar com a teoria e com o conceito numa pesquisa. Desse modo, é bastante rotineiro encontrarmos, graduandos, mestrandos e doutorandos angustiados por encontrar o conceito mais adequado aos seus problemas e projetos de pesquisa. Se esse quadro é comum a toda atividade de pesquisa, no campo disciplinar da geografia assume cores e tons mais dramáticos, pois há ainda muita ambigüidade e confusão no que se refere ao papel da teoria e dos conceitos como ferramentas intelectuais para ler o mundo em nossa disciplina. O passado da geografia como uma ciência essencialmente empiricista, que não valorizava o papel da teoria e do conceito na produção do conhecimento, nos deixou como legado e herança uma grande dificuldade metodológica para trabalharmos com os conceitos Assim, o uso do conceito torna-se uma tarefa quase exotérica, o que resulta em duas atitudes distintas por parte dos geógrafos: a primeira é fazer do conceito apenas uma espécie de ornamentação, algo que tem apenas o valor decorativo, desse modo, afirmando o caráter empiricista da geografia. De outro lado, há uma espécie de superinflação de reflexões epistemológicas e teóricas abstratas, onde o conceito torna-se uma espécie de fetiche, que se torna um fim em si mesmo. O que precisamos é construir uma forma alternativa de uso dos conceitos, trabalhar as teorias e os conceitos como um dispositivo, uma “caixa de ferramenta” que funcionam como alavancas que nos permitem pensar o mundo e suas problemáticas. Essa visão é bem definida pelo filósofo Gilles Deleuze quando este afirma:
Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante... É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá−la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem−se outras; há outras a serem feitas. E curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. (Gilles Deleuze, 1972 p. 71).

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Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3

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Mas qual desses conceitos usar nas pesquisas? Espaço. dispositivos que só ganham sentido no seu uso. o lugar e. mais recentemente. a teoria e os conceitos devem ser concebidos como instrumentos. precisa de instrumentos. território. deformadas e até “roubadas” de outros autores. a região. e torna-se 2 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. formas e moldes acabados. é sempre uma construção singular.RS. Em sua intervenção Gilles Deleuze aponta para uma forma muito particular de compreensão do papel da teoria e dos conceitos para o pensamento/ação. no seu funcionamento e não como algo que contenha um valor em si que se auto-justifique. aperfeiçoadas. Eis o que faremos a partir de agora. nessa perspectiva. paciência para que possa ser construído e que não tem receitas prontas. Esses são considerados pela comunidade como aqueles que conferem uma relativa identidade a geografia como ciência. o território. como qualquer trabalhador. ISBN 978-85-99907-02-3 2 . Sobre a natureza do conceito. Porto Alegre . de torná-los efetivamente uma “caixa de ferramentas”. assim como podem ser criadas. ferramentas. de ferramentas (teorias e conceitos) para realizar sua ação. esforço.A citação acima é uma contundente afirmação de Deleuze retirada de um famoso diálogo entre ele e Foucault sobre o papel do intelectual e da teoria no final dos 1960. a paisagem. poderíamos incluir também o conceito de rede. região lugar ou rede? Quais as especificidades e as diferenças entre esses conceitos? Qual desses é o mais adequado para o meu problema de pesquisa? Que diferenças implicam em termos de análise da realidade sócio-espacial escolher um desses conceitos ao invés de outro? Esses são apenas alguns das perguntas e alguns dos questionamentos que como fantasmas assombram os pesquisadores se deparam com o dilema de escolher os conceitos mais adequados para realização de suas pesquisas. É preciso encontrar outro modo de lidar com as teorias e os conceitos. O pesquisador como artesão intelectual. mas há um razoável consenso de que existem algumas categorias estruturantes desse campo científico: o espaço. Segundo o filósofo francês devemos tratar a teoria e os conceitos de maneira pragmática e instrumental. inventadas de acordo com os problemas e questões enfrentadas por cada um na sua labuta de pesquisar. pois. A geografia como qualquer campo disciplinar construiu ao longo de seu percurso uma grande variedade de teorias. mas essa tarefa não é simples. repetição. compreendemos o ato de fazer pesquisa como uma espécie de “artesanato intelectual” que exige criação. conceitos e categorias analíticas. 2010. essas ferramentas podem ser adquiridas. emprestadas. 2. paisagem. É a partir dessa perspectiva pragmática do uso das teorias e dos conceitos como “caixa de ferramentas” que vamos esboçar uma proposta metodológica para operarmos com os conceitos.

Segundo Haesbaert (2009) ao longo do percurso histórico. até. ISBN 978-85-99907-02-3 3 . pois corriqueiramente não há muita clareza se essas distinções são de natureza ontológica (no nível concreto da realidade) ou epistemológica (no plano analítico. distinção e contraste) entre esses conceitos é marcado por muita confusão. dificultando. território e lugar não há muito clareza sobre a natureza das semelhanças.RS. aliás. Mas há também posições que afirmam que os conceitos são construções intelectuais. O conceito. encontramos posições que se estende no interior de um amplo continuum que vai desde a posição estritamente realista até aquelas completamente idealistas. qual a natureza das diferenças entre conceitos como espaço. um “operacionalizador” que não tem outro compromisso senão o de servir ao pesquisador enquanto instrumento de análise.muitas vezes uma empreitada angustiante devido à falta de clareza sobre a natureza dos conceitos e suas especificidades como ferramentas analíticas. Porto Alegre . diferentes planos de análise e a partir de bases teórico-metodológicas distintas). muitas vezes. Essa ambigüidade requer uma maior clareza de qual é a natureza do conceito. como se fosse possível o uso do conceito isolado de uma teoria e de um método. apenas uma escolha de gosto. não raro os conceitos ganham uma autonomia se desvinculando de pressupostos teórico-metodológicos mais amplos. 2009: 96) 3 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. instrumentos analíticos que distinguem uns dos outros no plano epistemológico e nada tem haver diferenças “reais” no nível ontológico. a posição idealista em que o conceito não passa de um instrumento. uma técnica. os conceitos são vistos como se esses existissem como entidades “reais” uma completamente distinta e externas umas das outras. território e lugar? Quando falamos em conceitos como espaço. e não de uma opção teórico-metodológica. sua operacionalidade. semelhança. 2010. parece carregar consigo o próprio “real”. É como se muitas vezes a definição e o uso de um conceito fosse uma decisão de fórum íntimo do pesquisador. Ontológica ou epistemológica? Por exemplo. vizinhança. ao longo da história. (HAESBAERT. O ponto de partida para uma reflexão sobre o conceito é nos interrogarmos sobre qual sua a natureza. Normalmente o tratamento dessa relação (proximidade. A diferença é ontológica ou epistemológica? O caminho mais comum tem sido uma distinção ontológica. se estende no interior de um amplo continuum que vai desde a posição estritamente realista de alguns que o consideram como um retrato fiel da “realidade” e que. O uso de um ou de outro desses conceitos nas pesquisas nem sempre é claramente justificada e a distinção entre esses também carregam muitas ambigüidades. mas também distanciamento. pois grande parte dessa ambigüidade é fruto da falta de clareza e passa pela própria forma como a natureza do conceito foi pensando historicamente pelas diferentes correntes do pensamento filosófico. no outro extremo. ao ser enunciado. diferenças e especificidades entre esses conceitos.

produtor de acontecimentos. trata-se de um idealismo subjetivo que restringe o valor do conceito ao próprio universo do sujeito pesquisador (HAESBAERT. Porto Alegre . ao contrário. algo que é inventado. já que o conceito também. “fundar” realidades. (HAESBAERT. conseqüente tem sua significação independente de qualquer ato de conceituação. Se o conceito é produto. O que significa dizer que o conceito não indica. pois eles nunca serão a mesma coisa – por isso. uma ferramenta. um dispositivo. O conceito é um dispositivo. produzido. Mas levar em conta a “realidade” e os problemas reais não significa voltar a um empirismo positivista. onde há um compromisso dos conceitos com referenciais empíricos. 2009: 97). como se este fosse pré-existente e exterior a linguagem e a representação. sobretudo. pois a construção de qualquer conceito implica numa operação onde o vetor é sempre do racional para o real. de modo algum.Ainda segundo Haesbaert (2009) na Geografia os espectros dessas posições assumem seus extremos muito claramente no que se refere ao conceito de região. Assim. Essas duas posturas extremas são pouco promissoras. algo que funciona. longe da visão idealista objetiva que vê no conceito um “reflexo” do real. (GALLO. mas que nunca se restringe. ISBN 978-85-99907-02-3 4 . É bem conhecido o contraponto entre a visão de “um certo” La Blache empirista objetivo. 2010. o conceito é um instrumento. segundo Haesbaert (2009) o conceito nunca pode ser confundido com o “real” ou com o “empírico”. precisamos considerar o seu funcionamento como um dipositivo com suas características inerentes. não aponta uma suposta verdade. cuja “região-personagem” aparecia inscrita na própria morfologia da paisagem. ou uma “representação mental”. ele é também produtor: produtor de novos pensamentos. que o torna possível. especialmente em ciências sociais. pensar. Mas o fato de consideramos o conceito uma construção social isso não significa que esse possa ser uma escolha totalmente arbitrária. Assim. criado. a partir de condições dadas e opera no âmbito mesmo destas condições. que permite. totalmente variável. de novo. conforme o critério adotado pelo pesquisador. Neste último caso. o conceito é justamente aquilo que nos põe a pensar. isso implica em nos afastarmos do positivismo empirista que analisa o conceito como simples formas de divisão e taxonomia do real. mais que uma “re-apresentação” diferenciadora do “real”. o que paralisaria o pensamento. portanto. O conceito é dispositivo que faz pensar. ou um “operador lógico”. acaba por acionar. uma “medi-ação” (no sentido concomitante de “meio-ação”) a que recorremos para sua compreensão. precisamos compreender que o conceito é construção social. o conceito não deve ser procurado. Neste sentido. depois “radicalizado” por posturas neopositivistas que viam a região como simples “classificação de áreas”. 2008: 43) Nessa perspectiva Deleuziana exposto por Gallo (2008) o conceito é considerado como uma ferramenta. e um Hartshorne idealista. e. sempre. pois não está ai para ser encontrado. produtor de novos conceitos.RS. 4 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. na medida em que é o conceito que recorta o acontecimento. 2009:97). a este caráter “mediador” ou de “meio”. O conceito não é uma “entidade metafísica”.

nas zonas de penumbra os conceitos e seus problemas se aproximam e se ordenam com semelhanças. aquilo que permite vermos e falarmos de certos aspectos da realidade num primeiro plano e secundarizarmos outro. pois. novas sensibilidades frutos das novas linhas de visibilidade e enunciação que cada conceito inaugura quando é criado.RS. 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 5 . do cotidiano. já no conceito de lugar aquilo que apreendido com alto grau de resolução é muito mais uma poética do espaço do que a política do espaço. mas quando olhamos para o aspecto periférico de cada conceito. Linhas de visibilidade/ linhas de enunciação As linhas de visibilidade e as linhas de enunciação e o que nos permitem ver e falar. maior nitidez e resolução a certos aspectos. um regime de luz que ilumina de um certo modo a superfície do real. por 5 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. pontos e curvas. penumbras e sombras que obscurecem. inventado ou usado . estamos falando das linhas de luz e de enunciação de cada conceito. essas linhas criam regimes visibilidades e dizibilidades que incidem sobre a realidade criando o visível e o invisível ou que é enunciável e o que não é. dimensões e fenômenos da realidade. cada conceito inaugura novas capacidades perceptivas. Do mesmo modo que cada conceito cria uma nova linha. sendo essa configuração que dá especificidade a cada conceito. dando forma. Num diálogo com essa formulação inspirada na filosofia deleuziana poderíamos dizer que todo conceito possui uma linha de visibilidade/linha de enunciação. nas suas zonas de sombra vemos elementos que se assemelham como. Assim. quando falamos que o conceito de território tem como foco fundamental a questão do poder e da política e que o conceito de lugar nos permite fazer uma leitura que tem como foco a dimensão da experiência vivida. contorno. Assim. As linhas de visibilidade e de enunciação é que criam e instaram a especificidade contrastante entre os conceitos. a dimensão mais poética. que justifica. narrar sobre determinados aspectos e determinadas problemáticas a realidade. o que estamos indicando são os diferentes regimes de luz e de enunciação que cada conceito inaugura sobre a realidade sócio-espacial. que torna possível.Segundo Deleuze os dispositivos são um espécie de novelos marcados por um emaranhado de linhas. mas também interdita e que exclui determinados modos de falar. assim. secundarizam outros elementos da realidade. As principais linhas de um dispositivo são: as linhas de visibilidade/enunciação. por exemplo. um novo regime de enunciação. Porto Alegre . do mesmo modo que produzem uma contraluz. as linhas de força e linhas de objetivação . No conceito de território o poder e a política estão o foco das linhas de luz e de enunciação. Cada conceito produz uma linha. por exemplo. sensível e subjetiva da dimensão espacial. uma linha de força e uma linha de objetivação. quando olhamos a linhas de luz e enunciação entre as principais conceituações de território e lugar há uma clara diferença entre o foco desses conceitos. legitima. as questões que envolvem o poder e conflito estão nas sombras e penumbras das linhas de luz do conceito de lugar. em contrapartida a experiência sensível e poética está nas sombras e penumbras do conceito.

não se restringem a esse jogo de presenças e ausências. não são uma simples operação ópticas. 2008 p. Neste sentido. dizendo uma forma de compreensão-intervenção no mundo. ISBN 978-85-99907-02-3 6 . É por isso que o conceito pode ser ferramenta tanto de conservação como de transformação. Seguindo esse raciocínio parece pertinente a formulação de Gallo (2008) quando afirma que: (. Por outro lado.. hierarquizando visões e di-visões do mundo social.) Que não se faça uma leitura idealista do conceito: não se trata de afirmar que é uma idéia (conceito) que funda a realidade. classificando. para instaurar outros mundos. os conceitos são se resumem as linhas de visibilidade/enunciação. O conceito é sempre uma intervenção no mundo. brota dela e serve justamente para fazê-la compreensível. lente para ver o mundo. o conceito é imanente à realidade. 35-36). dominação/resistência/conflito e colocar na sombra e penumbra outros elementos como dimensão da experiência mais subjetiva e sensível das práticas sócio-espaciais tem implicações éticas e políticas concretas. mas ao mesmo tempo uma ação epistêmica ética e política.. o fato de que o conceito de território ter seu foco. os conceitos são as ferramentas que permitem ao filósofo criar um mundo à sua maneira. Isso implica em ver os conceitos como ferramentas analíticas. Essas linhas de visibilidade/enunciação/força/objetivação remetem diretamente a questão dos problemas ou 6 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. 2010. os conceitos criam linhas de força que rasgam o caos do real. instituindo realidades. mas eles são também constitutivos e produtores do mundo e da realidade. os conceitos podem ainda ser armas para a ação de outros. filósofos ou não. ao produzirmos ou ao usarmos um determinado conceito não estaremos realizando uma mera operação cognitiva. Assim. Linhas de força.. (GALLO. da questão do pertencimento e da identidade que tanto um quanto outro conceito recobre parcialmente. que dispõem deles para fazer a crítica do mundo. do mesmo modo que o regime de luz que o conceito de lugar lança sobre o real permite chegarmos à densidade e espessura existencial do viver. ou melhor. são também relações de força e poder. seja para mudá-lo. também tem claras implicações éticas e políticas. Linhas de objetivação Assim as linhas de luz e de força criam as linhas de objetivação que são uma espécie de lente de objetivação. Os conceitos não são somente descritivos ou reveladores do mundo e da realidade. seja para conservá-lo. Mas. num sentido completamente outro. sua linha de luz e enunciação sobre o fenômeno do poder.RS. mas também como dispositivos ético-político de intervenção no mundo. instaurando uma forma especifica de compreensão e intervenção no mundo. Porto Alegre .exemplo.) a criação de conceitos é uma forma de transformar o mundo. de falas e silêncios que as linhas de luz e enunciação produzem.. (.

a) A primeira envolve a relação entre os conceitos e problemas ou entre a criação de conceitos e o campo de problematizações que dá sentido à existência de um conceito. a última questão se refere à dimensão histórica de um conceito. território.RS. e tampouco é um ápice de uma história linear. problemas estes que podem ser reformulados e recolocados de maneiras diferentes ao longo da história. o ato da criação dos conceitos está diretamente ligado a questões e problemas aos quais se supõe que eles respondam. todo conceito é criado e formulado a luz de problemas específicos. Para trabalharmos metodologicamente com um conceito é necessário aprofundarmos pelo menos cinco questões que revelam a natureza e as propriedades dos conceitos. criar um conceito? Ou ainda o que nós faz escolhermos trabalhar. a relação entre a historicidade. Pressupostos metodológicos para se trabalhar com conceitos. validade e legitimidade de uma criação conceitual. ISBN 978-85-99907-02-3 7 . lugar a que problemas querem responder? É o problema subjacente a cada conceito que vai definir o foco analítico do conceito. para respondermos a essas questões. cabe perguntar quais problemas ou campo de problematizações estão ligados aos conceitos criados no campo da geografia? Conceitos como espaço. mas da emergência de um campo problemático que exige novas categorias do pensamento que lhe façam face”. Portanto. 2010. como se ele existisse em larva desde o inicio dos tempos”. e) E. cujo progresso ou o aperfeiçoamento exige a sua definição. “um conceito não surge do aprimoramento das idéias. com o locus de enunciação de cada conceito. pois. a) Relação entre conceito e problema/campo de problematização. c) A terceira questão envolve a natureza complexa e heterogênea do conceito.campo de problematizações de onde um conceito emerge e também ao solo epistemológico/teórico/metodológico que o sustenta. b) A segunda refere-se à relação entre o conceito e o plano de imanência ou o solo epistemológico/campo teórico-metodológico a partir do qual ele opera. Deleuze e Guattari (1992) nos apontam um caminho fundamental. em um determinado momento. d) A quarta está relacionada com o caráter assinado de cada conceito. 3. por fim. lugar e território se 7 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. O que leva um autor a formular. as linhas de força e as linhas de objetivação. Assim. qualquer conceito só pode ser compreendido a luz dos problemas ou do campo de problematizações no qual um referido conceito foi criado e inventado. para esses autores todo conceito só pode ser compreendido a partir do problema ou do campo de problematizações no qual foi criado e formulado. produzir. Assim. Para a autora o conceito é uma tentativa de responder a um feixe de problemas que se constrói. Gondar (2005:13) inspirada em Deleuze afirma que “um conceito não surge do nada. em outros termos. usar um conceito e não outro na realização de nossas pesquisas? Essas questões implicam em perguntar sobre a razão da existência dos conceitos. Porto Alegre . as linhas de visibilidade/enunciação. de maneira contingente. Assim. mesmo que os conceitos de espaço.

Quando nos itens anteriores falávamos que os conceitos de território e lugar tinham linhas de luz. os problemas. pois “todo conceito tem componentes. todo conceito traz as marcas desse plano. Não podemos tomar os conceitos como elementos isolados. b) A relação entre conceito e plano de imanência/ solo epistemológico. estes problemas também foram formulados a partir de solos epistemológicos e campos teórico-metodológicos distintos. estávamos falando que tais conceitos respondiam a questões e problemas distintos. também podemos dizer que fazer uma leitura do conceito de Território a partir de uma perspectiva semiótica (Geografia cultural) é bem diferente do que fazer uma leitura do território a partir de uma abordagem do materialismo histórico (Geografia marxista) ou de uma abordagem pós-estrututalista do território. não há conceito construído a partir de único elemento. pois todo conceito está localizado. Segundo Deleuze e Guattari (1992: p. os conceitos são criados partir de um solo epistemológico/teórico/metodológico específico. Tem. ele brota de um solo epistemológico específico a partir do qual é formulado o problema que ele supõe responder. 2008). pois eles estão envolvidos em uma atmosfera mais ampla. todo conceito é uma multiplicidade “formado por componentes e define-se por eles. Do mesmo modo. isso implica que todo conceito opera a partir de um campo teórico-metodológico específico e é a partir dessas referências que os conceitos nos permitem fazer uma leitura-intervenção singular no mundo.aproximem. claro que totaliza seus componentes ao constituir-se. 2010. linhas de força e linhas de objetivação distintas e portando implicavam em diferentes leituras da espacialidade /geograficidade do social. Assim. definido pela cifra de seus componentes”. 8 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010.RS. Porto Alegre . e se define por eles. as questões que cada desses conceitos nos permitem visualizar e tratar são distintas por conta dos problemas diferentes que cada conceito buscar responder. como um caleidoscópio. Todo conceito tem um contorno irregular. são planos de imanência que rasgam o caos do real de maneira diferentes inaugurando horizontes e possibilidade singulares de compreensão-intervenção no mundo. ISBN 978-85-99907-02-3 8 . c) A relação entre conceito e heterogeneidade/multiplicidade/complexidade. mas é sempre um todo fragmentado. portanto uma cifra. por exemplo. Cada conceito é uma tentativa de dar conta de questões especificas construídas num determinado momento histórico. pois todos têm um objetivo comum que é nos ajudar a fazer uma leitura das espacialidade/ou geograficidade do social. todo conceito é complexo. Assim. em que a multiplicidade gera novas totalidades provisórias a cada golpe de mão” (Gallo. faz diferença se um conceito como o de lugar é construído a partir do solo epistemológico da fenomenologia (Geografia humanista) ou do materialismo histórico (geografia marxista) ou ainda a partir do pós-estruturalismo (Geografia pós-moderna). tenham semelhanças. a partir de um solo epistemológico e de um campo teórico-metodológico próprio.27) não há conceito simples.

para compreensão de um determinado conceito e. mesmo se têm histórias diferentes. tendo um número finito de componentes. tal é o estatuto dos componentes. de articulação e condensação de vários elementos lógicos e históricos. Neste sentido. em meio à multiplicidade de possibilidades. mas uma encruzilhada de problemas em que se alia a outros conceitos coexistentes (Deleuze e Guattari 1992: p. participam de uma co-criação. suas relações de proximidade. os conceitos que compõe o conceito território. sobreposições. superpõem-se uns aos outros. de convergência de seus componentes que permitem uma significação singular. teias. vizinhança. semelhança. outros conceitos e acontecimentos. rede etc. Já no que se refere ao plano interno precisamos analisar os elementos conceituais. ISBN 978-85-99907-02-3 9 .) os conceitos se acomodam uns aos outros. uma zona de vizinhança ou um limite de 9 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010.RS. sobretudo. que um conceito nunca é criado do nada. ao trabalharmos com um conceito é fundamental buscarmos traçar as coordenadas relacionais no plano externo desse conceito em relação ao seu campo. suas sobreposições e suas diferenciações contrastantes. podemos entender que o conceito é uma questão de articulação. Deleuze e Guattari (1992:30) afirmam que: É próprio do conceito tornar os componentes inseparáveis nele: distintos. suas interseções.. Um conceito não exige somente um problema sob o qual remaneja ou substitui conceitos precedentes. lugar. sua endo-consistência. mas também seus distanciamentos. bifurcará sobre outros conceitos.30) Neste sentido. compostos de outra maneira. Porto Alegre . ao trabalhamos com o conceito de território precisamos localizá-lo na relação com os outros conceitos estruturantes do campo disciplinar da geografia como é o caso dos conceitos de espaço. heterogêneos e todavia não separáveis. pertencem à mesma filosofia.Neste sentido. distinções. mostrando suas relações. paisagem. contraste e diferenciações em pelo menos em três níveis: no plano externo. um ponto de coincidência. região. é resultante de uma heterogênese de cruzamentos de problemas. compõem seus respectivos problemas. interno e derivativo. todo conceito. Entende-se. um mundo possível. enfim. Sobre essa ordenação. Com efeito. o conceito é um momento. conexão e inter-relação entre os conceitos no mesmo plano de Deleuze e Guattari (1992) afirmam: (. corte e superposição. pois segundo Gallo (2007) todo conceito é o ponto de coincidência. mas. intersecções. suas especificidades. É que cada componente distinto apresenta um recobrimento parcial. para sua operacionalização é preciso entender os conceitos e sua complexidade e sua condição relacional.. ou o que define a consistência do conceito. mas que constituem outras regiões do mesmo plano. Neste sentido. que respondem a problemas conectáveis. sim. construindo redes. portanto. por exemplo. criando uma configuração singular. Neste mesmo sentido. todo conceito só ganha sentido a partir do conjunto de outros conceitos. coordenam seus contornos. de condensação. constelações e planos conceituais. 2010. a partir de conjunto de relações e inter-relações entre elementos e conceitos. de uma multiplicidade de situações.

ao criar um conceito. (. Segundo Gallo (2008) todo conceito é necessariamente assinado. Neste sentido. ISBN 978-85-99907-02-3 10 . à forma particular de pensar e de escrever. estratégia. geo-política e bio-política afetam. e de uma tradição teórica. conflito. Mas entendemos que a “marca” e a “assinatura” dos autores no conceito está para além do estilo filosófico e de sua singularidade como escritor.. De onde falam os autores que formulam os diferentes conceitos na geografia? Falam a partir de que contexto histórico-geográfico? A partir de que cultura e de que língua? De que pontos de vista de Classe. justiça territorial etc. por meio dos conceitos que cria. tática. 2010. a situação e localização geo-histórica e bio-política dos “sujeitos-autores” ou. cada autor. os conceitos são situado historicamente pelas “marcas” e pela “assinatura” dos seus autores. territorialização. Todo conceito é assinado. todos os conceitos são marcados por acúmulos. além disso. ação. a criação de conceitos é uma espécie de “assinatura do mundo”: cada autor assina o mundo à sua maneira.) São estas zonas. do lócus de enunciação de onde fala o autor que cria um conceito. antagonismos. precisamos discutir os elementos conceituais que dão consistência interna ao conceito de território tais como: política. raça e gênero? De que forma Essas diferentes formas de localização social.RS. apropriação etc. seguindo o nosso exemplo do conceito de território podemos identificar uma família de conceitos derivados desse conceito nuclear: territorialidade. esta inseparabilidade. seja. para entendermos um conceito como de território precisamos explicitar as definições e articulações que dão a configuração a este conceito. aqueles que surgem a partir de um conceito central e nuclear construindo uma família. des-territorialização. Mas para além plano externo e interno que dão consistência e identidade ao conceito ainda e necessário levar em conta o plano derivativo em que está envolvido o conceito. que definem a consistência interior do conceito. re-territorioalização.. essas marcas tem a ver também com a condição social. precisamos compreender os conceitos derivados. identidade territorial. disciplina controle domínio. mas também por 10 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Entender a historicidade de um conceito significa entender que ele é construído num momento histórico especifico a partir de problemas também específicos. Todo conceito tem uma história. poder. d) A relação entre conceito e locus de enunciação. direito territorial. limites ou devires. A assinatura remete ao estilo filosófico de cada um.indiscernibilidade com outro. ressignifica um termo da língua com um sentido propriamente seu. heranças e continuidades dentro de um campo disciplinar. geo-hitórica . influenciam nas diferentes formulações dos conceitos em geografia? e) A relação entre conceito e historicidade . Porto Alegre . Assim. Assim. uma rede conceitual que normalmente é mobilizada no seu conjunto.

O que é a filosofia. J. José. e GUATTARI. Ainda devemos lembrar a radical historicidade dos conceitos pela sua capacidade de duração e longevidade ou pela sua defasagem e superação. (org). R. V. pp. São Paulo: Expressão Popular. Belo Horizonte: Autêntica. DODEBEI. Dilemas dos conceitos espaço-território e contenção territorial. Intelectuais e o poder. n. Walter. Chapecó. M. Silvio. F. SC: Argos. 22. capacidade de operacionalização analítica e legitimidade política e ideológica exposta ao movimento da história que aprofunda. A. 2005 HAESBAERT. G. Uberlândia. 2008. M. DELEUZE. 1990. Barcelona: Gedisa. redefine. processos e conflitos . SAQUET. v. 55-78. 1993. 2009. re-significa ou supera-os. 2003./dez. pois os conceitos têm sua validade. O que é um dispositivo. Afredo. O que é contemporâneo? E outros ensaios. Giorgio. FOUCAULT. Trad. Tradução de wanderson flor do nascimento. jul. DELEUZE. ISBN 978-85-99907-02-3 11 . KOHAN. Belo Horizonte: Autêntica. Microfísica do Poder. 155-161.A. Porto Alegre . Vocabulário Técnico e Critico da Filosofia. Quatro preposições sobre memória social. Deleuze & a Educação. 2010. 2009 LALANDE. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor. São Paulo: Martins Fontes. Referências Bibliográficas: AGAMBEN. In: GONDORA. 44. 1998. p. 6ª edição. 11 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. 2006. GALLO. Rio de Janeiro: Editora 34. GALLO. filósofo. Foucault 80 anos . 2007. In FOUCAULT. In: Revista educação e filosofia. DELEUZE. SPOSITO. GONDAR. E. Na oficina de Foucault. O que é memória social? Rio de Janeiro: Contracapa. MILLS c. DELEUZE G. In GONDAR J. G. Conversações. descontinuidades e sobressaltos. Territórios e territorialidades: teorias. S. G. Rio de Janeiro: Editora 34. ¿Que és un dispositivo? In: Michel Foucault.. Rio de Janeiro: Graal.RS.rupturas. 2004 VEIGA-NETO. Filosofia e o exercício do pensamento Conceitual na educação básica. Michel. 1992. Peter Pál Pelbart. W.