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Lei de Terras angolana responde aos problemas actuais

01-02-2010 | Fonte: Jornal Economia

A Lei de Terras, no essencial, não é má e responde, grosso modo, aos anseios e aos problemas que vivemos actualmente, disse em entrevista ao Jornal de Economia, o jurista e docente universitário, Lazarino Poulson (na foto), a propósito do diploma, em vigor desde 2004. P– Qual é a importância da Lei de Terras? R– A Lei de Terras é um instrumento que visa regular o direito que o cidadão pode ter de acesso à utilização da terra, e, também, à sua extinção. A importância que ela tem é de regular a utilização dos espaços no território. Se não houvesse a Lei de Terras, haveria muito mais conflitos, haveria esbulho e violação do direito de propriedade da terra. P – O que significa ser a terra propriedade originária do Estado? R–Dizer que a terra é propriedade originária do Estado, quer dizer que, em princípio, o dono da terra é o próprio Estado, e este pode transmitir essa propriedade aos seus cidadãos, de acordo com os vários direitos que a lei permite. P – Qual é a diferença entre o chamado domínio público e o domínio privado do Estado? R – Quando estamos a falar do domínio privado do Estado, estamos a nos referir àquela parte da terra pertencente ao Estado, que este pode dispor, em termos de direito privado. Ou seja, o Estado pode vender, criar o direito de superfície ou de propriedade. O Estado pode dispor dos mesmos terrenos de que dispõe uma entidade privada. Quando falamos de domínio público, estamos a falar de bens de que o Estado não pode dispor nos mesmos termos que o domínio privado. Ou seja, o Estado não pode vender, o Estado não pode criar um direito de superfície sobre um bem do domínio público, o Estado não pode penhorar. Esse direito do Estado não prescreve. Portanto, há um conjunto de requisitos que diferenciam o domínio público do Estado do seu domínio privado. Se quiséssemos resumir, diríamos que o domínio público do Estado é aquele que está indisponível, e o domínio privado do Estado é o que está disponível. Por exemplo, na orla marítima da Ilha de Luanda, onde nós encontramos restaurantes e hotéis, a parte que vulgarmente chamamos praia faz parte do domínio público do Estado, que não pode ser vendida a um privado. O Estado pode simplesmente conceder a licença de exploração durante algum tempo daquele bem que é do domínio público. P – Em que pé se encontra a questão da titularidade dos terrenos urbanos ou

P – Quer dizer que existe uma grande lacuna neste capítulo? R – Muito grande. Mesmo nas cidades. As pessoas não têm o título adequado. para que. P – Outra insuficiência legislativa. Coloco a questão de outra forma: seria muito mais inteligente cobrar uma taxa razoável quando um indivíduo cria o direito de superfície. A nossa lei permite a criação de cinco direitos fundiários. e não tem alternativa. do domínio útil consuetudinário e o direito de ocupação precária. obviamente. P – Em que circunstâncias é que podem ocorrer expropriações de terras? R – As expropriações de terras devem ocorrer naqueles casos em que o Estado necessita estritamente de um espaço. Os camponeses. A maior parte das pessoas não constituíu o direito de superfície sobre os terrenos que ocupam. por detrás disso. Eu diria que um dos maiores problemas que temos em Angola é a falta de títulos. Creio que. o título idóneo das terras que ocupam. e não a taxa de constituição do direito de superfície. nós deveríamos arranjar outras formas de colectar o fisco. P – Em relação ao programa governamental de construção de um milhão de casas. P – Como avalia os emolumentos e as taxas de exploração pagas pelo Estado pela cedência de terrenos? R – O valor estipulado para a constituição do direito de propriedade nas áreas urbanas é elevado. do que na fase em que o investidor já tem o imóvel. os pagamentos não fossem muito pesados ao investidor. na sua maioria. numa altura em que nós queremos fazer investimentos de construção. as pessoas não têm o registo de propriedade das habitações e das terras. sendo que. Assim. e não na constituição do direito de superfície. nos impostos de consumo e industrial. o Estado deveria aplicar uma taxa mais elevada na altura da exploração. na fase do investimento. está a falta de serviços administrativos que o Estado não tem em número suficiente para atender à demanda. para colocar um serviço ou um bem de utilidade pública. P – E qual seria a estratégia a adoptar? R – A estratégia seria elevar as contribuições na fase do resultado. do domínio útil civil. quando o investidor faz o investimento. . o que. A expropriação é um acto que o Estado pratica previamente e dá sempre lugar a uma justa indemnização. conferiria segurança ao cidadão. nomeadamente os direitos de propriedade. na fase em que o investidor estivesse a tirar lucros do investimento feito. que deveriam incidir sobre a produção. P – O que é um direito fundiário? R – É um direito que se constitui sobre a terra. a taxa sobre o imóvel é que deveria ser elevada. e outras taxas a nível do Ministério da Agricultura. de superfície. os requerentes terão automaticamente o título de propriedade dos lotes cedidos? R – O esforço ingente do Estado de construção de um milhão de casas e de requalificação das cidades não está a ser acompanhado com serviços administrativos para se acautelar a questão dos títulos de propriedade.mesmo rurais? R – Nós estamos num país onde eu diria – claro que não temos estatísticas fiáveis – que 80% da terra não está titulada. não têm o título de ocupação. Na área rural.

O que se verifica é que ainda não foi montada toda aquela máquina administrativa que concorra para que os imóveis sejam registados. Os governos provinciais e os seus respectivos serviços administrativos é que não estão a acompanhar o processo no seu detalhe.R– Não me parece ser só um problema de legislação. a lei refere-se aos títulos que devem ser dados. Share on email Enviar artigo por e-mail . mas sim de concretização. Na verdade.