Biopoder ou infopolítica?

As subjetividades na era da economia do conhecimento

Ruy Sardinha Lopes*

Resumo:
O advento das TICs, a reestruturação gerencial do capitalismo e a preponderância que a informação e o conhecimento adquiriram no mundo atual têm levado diversos autores a reconhecerem a importância das mudanças – no trabalho, na força de trabalho e na natureza da concorrência capitalista – em curso. Neste sentido, o capitalismo, para continuar sobrevivendo, abandonou a esfera autotélica da produção strito sensu para espraiar-se num mundo da vida, ainda não totalmente colonizado. Ao fazê-lo deparou-se com uma matéria – o conhecimento, a informação e a cultura - de difícil adequação à sua lógica reprodutiva, defrontando-se com inúmeras incoerências. Por outro lado, atingiu em cheio o centro produtor de “subjetividades”. As incoerências econômicas e as subjetividades geradas em tal processo têm levado autores como Kurz, Gorz e Negri a apostarem suas fichas nas “forças microeletrônicas”, nos “dissidentes numéricos” ou na “multidão” como os novos agentes de uma possível transformação social em curso. Nesta exposição, ao nos contrapor às idéias de Virno, Hardt e Negri, sintetizadas no conceito de multidão, pretendemos discutir o papel e o lugar dos agentes sociais numa economia que fez das TICs e do conhecimento elementos fundamentais de seu processo valorativo.

Da “sociedade Pós-industrial” de Daniel Bell ao “Império” de Hardt e Negri – passando pelo “paradigma comunicacional” de Habermas, pelo “Pós-fordismo” dos regulacionistas franceses e pelo “informacionalismo” de Manuel Castells - várias têm sido as tentativas de se abarcar conceitualmente as rotações do capitalismo após o término do grande período expansionista dos anos 40 ao fim da década de 1960. Em seu bojo o abandono da rigidez e “militarização” do modo de regulação dito “fordista”, do padrão de consumo extensivo e da economia de aglomeração em prol de um modelo produtivo e gerencial mais

Posta a intelectualização generalizada dos processos de trabalho e de consumo.que se constitui na matéria por excelência do capital. de regime de acumulação capitalista o desenvolvimento de novas forças produtivas – donde os grandes investimentos nas TICs – se faz necessário para dar concretude tanto à reengenharia produtiva como à mobilidade planetária do capital financeiro. Soma-se a isso a nova confluência entre as finanças e o capital produtivo que.o intelecto geral .NORTON apud PRADO. 2004). 2002. novas habilidades para assegurar o sucesso competitivo são exigidas. de um consumo intensivo e de conformações mais complexas onde os limites espaciais já não são necessariamente territoriais ou escalares. garantir a qualidade”. Como se trata. posto que “o interior e o exterior social. como Marx antecipou nos Grundrisse. esgotadas as possibilidades de obtenção do lucro na Grande Indústria. uma espécie de “fundo humano de conhecimento”. submetese cada vez mais à sua lógica rentista levando autores como Chesnais a denominar o atual regime de acumulação “sob dominância financeira”.134) – “os funcionários devem agregar valor pelo que sabem e pelas informações que podem fornecer. solucionar problemas. donde a ênfase nos ativos intangíveis ou imateriais como a nova fronteira da acumulação. Mais. político e cultural se constituem através de topologias de redes de atores cada vez mais dinâmicas e diversas em relação a sua conformação espacial” (AMIN. Acontece que. . agora. Mais do que a capacidade de se operar sistemas de máquinas segundo uma lógica mecânica. o que se procura extrair da força de trabalho é sua “compreensão da natureza”. Agora. como o capital não pôde prescindir – ainda – do trabalho vivo também este deve conformar-se às suas exigências reprodutivas. não é mais a máquina. mas o próprio conhecimento científico e tecnológico.“flexível”. econômico.96). Investir. ontem e hoje. p. com a mudança da natureza da maquinaria – que se constitui numa espécie de “objeto intelectual ou espiritual” (FAUSTO. 2005. o capitalismo tratará de desenvolver novas estratégias de pilhagem e controle do acesso a esse fundo. Como esses conhecimentos são “distribuições descentralizadas de um todo altamente complexo de saberes científicos e tecnológicos que Marx chama de intelecto geral” (PRADO. 2002). p. sua capacidade de “pensar. gerenciar e explorar o conhecimento de cada funcionário passou a ser o fator crítico de sucesso para as empresas da era da informação” (KAPLAN.

portanto. Ali onde o trabalho aparece junto ao processo produtivo imediato. afetivas etc. Diminui o caráter monológico do trabalho: a relação com os outros é um elemento originário. Nas palavras de Negri e Na origem de tal visada a constatação do fato de que não só todo sistema produtivo gera também subjetividades. passível de ser cristalizado em capital fixo e controlado. somente da subordinação do conhecimento para a produção dos operários. p.26): Pode-se avançar na seguinte tese: o ciclo do trabalho imaterial é pré-constituído por uma força de trabalho social e autônoma. básico. Nos termos de Paolo Virno. Este “espaço de estrutura pública” – configurado no processo de trabalho – mobiliza aptidões tradicionalmente políticas. implicando a exposição perante os demais. exigindo. função. e Antonio Negri a enxergarem ganhos emancipatórios propiciando a constituição de um “capital-humano” Lazzarato (2001.Não se trata mais. mas que a atual guinada produtiva ao afastar-se da troca orgânica com a natureza para concentrar-se nas operações sígnicas. “cofre de ferramentas” (VIRNO. em sua Gramática da Multidão. Ou seja. a cooperação produtiva é um “espaço de estrutura publica”. Maurizio Lazzarato. Paolo Virno. mas da colonização daquilo que lhe escapava – as capacidades reflexivas. A política (em sentido amplo) faz-se força produtiva. A constatação das dificuldades de regulação e medição bem como de uma certa dependência do regime de acumulação em curso em relação ao trabalhador (uma vez que nele se encontra objetivado o intelecto geral) tem levado autores como Manuel Castells. Nenhuma organização científica do trabalho pode predeterminar esta capacidade e a capacidade produtiva social resistente e autônomo. complexidades qualitativas dificilmente mensuráveis quantitativamente. pode-se dizer do trabalho contemporâneo que se assemelha a um complexo de ações políticas. 2006). ou seja: Quando a cooperação ‘subjetiva’ torna-se a principal força produtiva. portanto. antes que um componente. como é característica da ação política a intervenção nas relações sociais (e não sobre os materiais naturais). de modo algum acessório. capaz de organizar o próprio trabalho e as próprias relações com a empresa. através do tempo de trabalho. . ou medido. cognitivas. a presença de um público. as ações do trabalho mostram uma pronunciada índole lingüístico-comunicativa. modificando o contexto onde atua e expondo-se “à vista dos demais”. cognitivas e comunicativas tornase um dos principais centros produtores de subjetividades. isto é da objetivação de funções motoras ou de formas elementares da inteligência e da memória.

Talvez fosse melhor entender a nova forma hegemônica como “trabalho biopolítico”.NEGRI. Segundo os autores: “devemos enfatizar que o trabalho envolvido em toda produção imaterial continua sendo material – mobiliza nossos corpos e nossos cérebros. a multidão afirmaria sua radicalidade democrática podendo ser encarada como uma 1 Hardt e Negri identificam trabalho imaterial e trabalho biopolítico. assim. p. sociobiológica) a seus elementos passíveis de regulamentação2. uma vez que tal tecnologia dirige-se à multiplicidade dos homens na medida em que ela forma “uma massa global. os primeiros objetos de saber e os primeiros alvos de controle dessa biopolítica” (FOUCAULT. de mortalidade. uma diferença que se mantém diferente. São esses processos de natalidade. a doença. as classes sociais ou o Estado. nessa biopolítica. pode finalmente erguer-se como o elemento chave para toda reflexão sobre a esfera pública contemporânea. o social e o cultural tornam-se cada vez menos claras” (HARDT. indicava uma redução da multiplicidade biológica (ou.A dimensão política. Reconhecemos que a este respeito a expressão trabalho imterial é muito ambígua. afetada por processos de conjunto que são próprios da vida. Segundo os autores aqui considerados. com a rara exceção de Spinosa. acho eu. p. ou seja. Daí a eleição da categoria de multidão. trabalho que cria não apenas bens materiais mas também relações e. como qualquer trabalho. biopolítica1 do trabalho contemporâneo dá-se. a partir do momento em que o capitalismo subordina as potencialidades – cognitivas. que são processos como o nascimento. a morte. ao mesmo tempo em que indicava uma mudança nas formas e técnicas do poder – a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle.150) 2 “De que se trata nessa nova tecnologia do poder. em última analise. emotivas etc – inseparáveis do corpo vivente. p. Avessa à instâncias mediadoras postiças como o partido. 289). segundo a interpretação de Deleuze (1992) -. como a ferramenta que. etc. isto é. segundo as sugestões de Virno. juntamente com uma porção de problemas econômicos e políticos (os quais não retomo agora). O adjetivo biopolítico indica. da unidade. no jogo político . Segundo Foucault. sígnicas. ou melhor. Se tal dimensão aproxima-nos do conceito foucaultiano de biopoder uma importante inversão se faz presente. inscrito na história do liberalismo econômico. preferivelmente. a fecundidade de uma população. nesse biopoder que está se instalando? Eu lhes dizia em duas palavras agora há pouco: trata-se de um conjunto de processos como a proporção dos nascimentos e dos óbitos. que as distinções tradicionais entre o econômico. Malcolm Bull (2005) mostra que esta postura. a redução da vida a seu conteúdo biológico ou da multiplicidade dos viventes a qualquer unidade socialmente construída é um equívoco teórico e uma impossibilidade prática. constituíram. de longevidade que. justamente na segunda metade do século XVIII. 2001. decorre de uma má leitura dos escritos desses filósofos o que os levará a uma compreensão equivocada do papel das instâncias mediadoras. O que é imaterial é o seu produto. partilhada por Hardt e Negri. 2005. etc” (FOUCAULT. tal conceito. a taxa de reprodução. um conjunto de singularidades que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única. tendo sido desde o século XVII suplantada pela categoria de povo3. a própria vida social. 2000. 290) 3 Paolo Virno (2002) apresenta as potencialidades da multidão como uma inversão da derrota histórica que a mesma sofreu nas batalhas políticas do século XVII ao se eleger o “povo” como categoria política fundamental (Hobbes). a produção. o político.

aquilo que o capitalismo precisa vampirizar para ver seu ciclo reprodutivo garantido e o que lhe resiste. 2005. 426) Sob este ponto de vista.rede: “uma rede aberta e em expansão na qual todas as diferenças podem ser expressas livre e igualitariamente. indeterminada. as TICs. nada mais natural que estas forças produtivas microeletrônicas. no interior de um “caldo semiótico e maquínico. capitaneadas pelo desejo da multidão. A soberania política e o governo do uno. potência genérica. se o capitalismo logra em colonizar o mundo da vida. Seria. também é verdade que este lhe resiste através da proliferação dos “dissidentes numéricos”. 2005. tendem a parecer não só desnecessários como absolutamente impossíveis” (HARDT. afetivo e econômico”. Tais forças. dynamis. para afirmar-se como a potência da vida. já que “essas formas de vida visadas não constituem uma massa inerte e passiva à mercê do capital. as TICs e demais formas de tecnologias da inteligência como isomorfismos que expressam as formas sociais capazes de lhes dar nascimento e utilizá-las.NEGRI. capacidade. p. . que sempre solaparam qualquer verdadeira noção de democracia. não só o bios é redefinido intensivamente. sejam tomadas como promotoras de uma nova ordem social e de uma nova ciência. A caracterização da multidão como rede – “uma forma comum que tende a definir nossas maneiras de entender o mundo e de agir nele” (HARDT. Em outros termos. Desta forma. as redes. presente também na expressão força de trabalho. pois.NEGRI. afirmam-se como os promotores da democracia não representativa: “A criação da multidão. como bem observou Peter Pelbart.191) possibilita que enxerguemos as redes eletrônicas. a democracia da multidão. sua inovação em redes e sua capacidade de tomada de decisão em comum tornam hoje a democracia possível pela primeira vez. molecular e coletivo.12). isto é. assim como a biopolítica deixa de ser tida como o poder sobre a vida. 2005. p. faculdade.NEGRI. essa potência. mas um conjunto vivo de estratégias” (Pelbart). as novas formas de trabalho “imaterial”. p. Caracterizadas também por sua fragmentação e dispersividade. Delineia virtualmente novas instituições democráticas não mais baseadas na delegação e na representação. a um só tempo. biopotência da multidão. uma rede que proporciona os meios de convergência para que possamos trabalhar e viver em comum” (HARDT. os processos de inovação e até mesmo os mecanismos neurofisiológicos de tomada de decisão opõem-se a um poder econômico e político que insiste em não dar ouvidos às singularidades reinantes.

impedindo-se. Como afirmam Bolaño e Herscovici (2006): “O caráter público ou privado de um bem não se define em função das características técnicas dos produtos ou dos mercados. padrão de viagem. operou o deslocamento da “lógica da propriedade” e seu controle sobre o tempo de trabalho para o controle e fidelização do cliente. portanto. a entrada contemporânea numa “economia do acesso”. estocagem e processamento da informação. bem como aquelas que geram novos conhecimentos – como as atividades em P&D – passam a ter suas lógicas determinadas pelos interesses dos grandes investidores. agora. mas é o produto de decisões intrinsecamente políticas”. contrários a um poder centralizador. é a implementação de novas modalidades de exclusão social. . inclusões e exclusões necessárias ao funcionamento do sistema. a informação e o conhecimento ganharam uma inaudita centralidade econômica. Uma vez que. permite o controle do cliente – é a própria experiência. as subjetividades proliferantes já surgem como instâncias virtualmente passíveis de subsunção ao econômico. da gerencia (management) dos afetos. desejos e experiências. Em primeiro lugar. em relação às redes eletrônicas.Seria. mas o arcabouço tecnológico a serviço das hierarquias. Isto implica a capacidade por parte das empresas de respostas “criativas” às necessidades e desejos atuais e futuros dos clientes – o que supõe a manipulação de várias informações sobre o estilo de vida. a inversão do conceito foucaultiano uma operação pertinente para dar voz e ouvido aos biopoderes espalhados na multidão? Seriam as TICs e redes eletrônicas os meios capazes de aglutinar os desejos dispersos transformando-os em atos emancipatórios? Quais subjetividades são criadas e têm voz e lugar no universo das redes capitalistas? Ainda que tais argumentos tenham o mérito de pôr em questão a ordem vigente e contrapor-se a uma visão unilateral e impositiva do capitalismo apresentam. no momento de dominância da oikonomia. organização. as redes eletrônicas não são mecanismos fragmentadores e democráticos. o que se consome – e. Mais. como vêm apontando vários estudos da economia política das TICs. guarda-roupa etc e a capacidade de transformar esse conjunto de informações em “produtos desejáveis”. entretanto. lazer. mais apta a lidar – produtivamente – com os ativos intangíveis. as atividades referentes à distribuição. sua publicização ou o acesso gratuito e democrático aos mesmos. Em segundo lugar. Para além das possibilidades técnicas. segundo Rifkin. do nosso ponto de vista. desta forma. A darmos ouvidos a Rifkin. algumas imprecisões. o que se observa. ou seja. estado de saúde.

são os mecanismos de produção. agora. programável. cada vez m ais. uma vez que. Nas palavras de Deleuze (2006). Se antes. o computador eletrônico digital. [. processamento.] Se estamos já a viver dentro do horizonte do ‘estado de natureza cibernético’. 2001. armazenamento. quando a cultura se torna cultura-como-informação” (MARTINS apud SANTOS. 2003). satisfações intangíveis. TICs e subjetividades em prol da reprodução continuada do capital leva-nos. novamente. A utilização das redes. no momento da infopolítica.os intermediários culturais – dotada de “saber. multiusos e de alto rendimento. consubstanciada nos interesses econômicos. enquanto produtores de “experiências comercializáveis” e de “subjetividades mínimas”.92). sensibilidade artísticas. que produzam reações sensoriais.. é da redução da multiplicidade sociobiológica à vida nua. a vida humana em si se torna o melhor produto comercial. Experiências estas. pois. e a esfera comercial se torna o árbitro final de nossa existência pessoal e coletiva” (RIFKIN. . por aquilo que podemos chamar por analogia ‘estado de cultura cibernético’. podemos também dizer que estamos aa moldar e ser moldados. Tais aspectos explicam. distribuição e recuperação da informação/ conhecimento que ocupam a ordem do dia. agora o essencial é uma senha que marca o acesso ou a rejeição à informação: “Não se está mais diante do par massa- 4 Como afirma Hermínio Martins: “O pressuposto é que a natureza se encontra totalmente disponível aos processos de recuperação. Hardt e Negri). O empenho das ciências da comunicação e da informação e das biologias modernas em traduzir o mundo numa linguagem codificável e passível de controle instrumental demonstram parte desse esforço de reconstrução e controle da própria vida pelo capital. ou machina machinarum. bem como a cooptação de uma “nova elite” . se na sociedade disciplinar o controle se dava pelo número de matrícula que indicava a inserção do indivíduo na massa. de longevidade e de urbanização. possibilitados pela máquina universal. que se trata. possível de sumariar adequadamente como ‘natureza-como-informação’.. expertise profissional e faro comercial” capaz de criar os ativos intangíveis tão caros ao mercado. ao conceito de biopolítica elaborado por Foucault ( e não a inversão proposta por Virno. de mortalidade. importava à biopolítica o controle e regulamentação dos processos de natalidade. p.emoções. a inédita centralidade da cultura e o papel da indústria cultural e midiática na reprodução do mundo capitalista. ao tratarmos o bios e os processos sócioculturais como informação4. ao tomar a população como problema. já totalmente reprogramadas empresarialmente: “Quando praticamente todo o aspecto de nosso ser se torna uma atividade paga. digase. criatividade. lá como cá. processamento e armazenamento de informação.

dados. catalogam. . redesenha-se as formas de vida. um saber/poder exemplar no século XIX com incidência sobre o corpo e sobre a população. culturas etc.indivíduo. possibilitando usos não sistêmicos. Da mesma forma que biopolítica ao lidar com a população como problema impôs um arranjo espacial que articulasse mecanismos disciplinares de controle sobre o corpo com a normalização dos comportamentos7. Ver “ A encruzilhada da política ambiental brasileira” (Santos. recorrendo-se ao espontaneísmo da multidão guiada por uma 5 Conforme afirma Achim Seiler (2003). estruturas e auto-organizações. inclusões e exclusões8 que juntamente com os constructos bioengenheirados disciplinam. uma vez que à artificialização do objeto natural e à naturalização do objeto biotecnológico 6 promovidas pela recombinação de informações genéticas são conferidas poderes mágicos e demiúrgicos. 2003) 7 Ver Foucault:2000:299/300 8 Como os fluxos de informação e conhecimento precisam de uma infra-estrutura física e territorializada. 6 Conforme Simondon. hoje a biotecnologia5. controlam.É todo um espectro de novas técnicas e métodos – como a engenharia genética ou a produção de bioreatores – que visa oferecer produtos. entretanto. alimentícios. ambientais etc. Através da redução da natureza a seus elementos “lingüísticos” e de sua posterior recombinação. a engenharia genética e a ciência da informação são os modelos de como as motivações econômicas e mercantis têm capturado a natureza. insiste em afirmar sua infinita irredutibilidade. divisíveis. a biotecnologia não se constitui como um campo específico da tecnologia como a microeletrônica. os organismos geneticamente modificados (OGM) e demais constructos bioengenheirados demonstram a um só tempo a tentativa de controle estrito da natureza e o mecanismo de privatização dos bens públicos através de sua recombinação gramatical e o surgimento do fetichismo genético. mercados ou "bancos". também hoje a infopolítica impõe ajustes espaciais. controles. farmacêuticos. processos e serviços inovadores permeando uma ampla gama de setores: agrícolas. processam corpos. segundo Foucault. Os indivíduos tornaram-se "dividuais". Assim como a conjunção entre medicina e higiene foi. e as massas tornaram-se amostras. desvinculando-as de suas formas. Não é. subordinando o sistema primitivamente coerente de funcionamento biológico à ação e interesses humanos (e mercantis). agrupamentos humanos. o controle e reducionismo infopolíticos não são isentos de contradições. etnias. as “invenções biotecnológicas”. Assim. sua distribuição desigual tem configurado um padrão imprescindível de obtenção dos sobreganhos e um mecanismo adicional de absorção de capital sobreacumulado. Assim como a série de estratégias operada pela biopolítica não consegue dar conta da totalidade da vida que. alimentos. recombinam. para Foucault.

p. professor e pesquisador da EESC-USP –São Carlos 9 Segundo Virno. anula a dicotomia entre os interesses públicos e privados. haja vista ser capaz de agir em comum e. que os avanços e retrocessos fazem parte do processo histórico e que a resposta à questão “que fazer ?” cabe ao próprio movimento político.espécie de mão invisível natural – the common9 . Ao recusarmos uma teleologia imanente à história ou à multidão. Negri e Hardt. Sua confiança na multidão. na teleologia historicista: “podemos interpretar a história das revoluções modernas como uma progressão intermitente e irregular.305 ). econômicas e militares de diversos matizes etc. NEGRI. em última instância. na qual até mesmo o capital financeiro é visto como uma forma – invertida e distorcida – da multidão. para a realização do conceito absoluto de democracia” (HARDT. portanto. a multidão não é anárquica ou incoerente. o conhecimento e as TICs ganharam centralidade econômica isto se deveu a um complexo conjunto de forças que amalgamou interesses. disputas políticas. o conhecimento de suas contradições internas e dos mecanismos utilizados pelo capital para tornar as forças adversas em pró-ativas. a produção do comum e os comportamentos rebeldes que os expressam do sistema global de soberania” (HARDT. 2005. portanto. como procuramos mostrar. Estados-nações. de se governar. embora composta de um conjunto de singulariades que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única. no desenvolvimento tecnológico e.que. * Ruy Sardinha Lopes – Doutor em Filosofia pela USP. recorrendo-se aos mais diversos tipos de instâncias mediadoras – das indústrias culturais à persuasão das armas. 2005. insistimos que a resposta não está dada. por vezes contraditórios. . Tal ação em conjunto decorre do fato destas singularidades derivarem de algo ainda não-individual: “uma realidade pré-individual que o indivíduo leva consigo”(SIMONDON apud VIRNO. a luta contra as formas de assujeitamento e contra a proliferação de subjetividades mínimas alguns dos ingredientes necessários para a formação de subjetividades e mecanismos de resistência. isto é.NEGRI. em última instância. Serão. porém real. 2006). mostra-se uma perigosa inversão da realidade. o recurso a um ato de amor político capaz de romper o abismo intransponível que “separa o desejo de democracia.447) que estaremos melhor instrumentalizados para pensar novas formas de resistência. a informação. nada foi mais corruptor para o movimento revolucionário alemão que a “convicção de nadar no sentido da corrente”. Se. Como observa Daniel Bensaid (2006). que as subjetividades contemporâneas se dão como campo de batalhas. Aquilo que Hardt e Negri chamam de the common. lembrando Walter Benjamin. de capitalistas individuais. p. a recusa à redução do bios à vida nua. a afirmação da diferença ontológica entre a reprodução do capital e a reprodução da vida.

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