SUMÁRIO

I

HISTÓRIA INTERROMPIDA GERTRUDES PEDE UM CONSELHO OBSESSÃO O DELÍRIO A FUGA MAIS DOIS BÊBEDOS

II

UM DIA A MENOS A BELA E A FERA OU A FERIDA GRANDE DEMAIS

I

História Interrompida

Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso, dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pelo macio e quente de um gatinho, por isso é que sua vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres, outros como um "pedaço de hora perdida", sem significação, uns vermelhos e completos, outros brancos, mas já espedaçados. Eu, na verdade não sabia o que retrucar e lamentava não ter um gesto de reserva, como o seu, de alisar o cabelo, para sair da confusão. No entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisa que pareça profunda. Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele construía: pelo menos esse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, sem dúvida, também o achava, porque não respondia. Ficava muito triste, a olhar para o chão e a alisar seu gatinho morno. Assim se passavam as horas. Às vezes eu mandava buscar uma xícara de café, que ele bebia com muito açúcar e gulosamente. E eu pensava um pensamento muito engraçado: é que se achasse que andava a destruir tudo, não teria tanto gosto em beber café e não pediria mais. Uma leve suspeita de que W... era um artista, vinha-me à mente. Para desculpá-lo, respondia-me: destrói-se

mas a si próprio e aos desejos (nós temos um corpo) não se consegue destruir. que não tem verdadeiramente um conteúdo próprio. muito comum em moças solteiras de sua idade. Era preciso evitar a todo custo que aquela tendência analista. que terminava pela redução do mundo a míseros elementos quantitativos. Pareceu-me que o jardim entrara na sala.. Num dia de verão abri a janela de par em par. olhei seu rosto triste e ficamos calados. me atingisse. muito subjetivista.Isso é apenas uma tendência sentimental indefinível.tudo em torno de si. Foi então que pensei aquela coisa terrível: "Ou eu o destruo ou ele me destruirá". cobria as flores e a relva. Decidi-me... Eu tinha vinte e dois anos e sentia a natureza em todas as fibras. Nenhum argumento. entrefechei os olhos e sibilei: . Eram quatro horas da tarde.. Daí essa confusão de sentimentos. Voltei-me desolada. Queria ver se o cinzento de suas palavras conseguia embaçar meus vinte e dois anos e a clara tarde de verão. Mentalmente ouvi-o responder: . mas que depois dela mais nenhuma se seguirá. amolecida pela calma daqueles momentos. Aquele dia estava lindo. como se nascesse naquele instante. Um sol mansinho. Voltei-me para ele. Precisava reagir. apoiei as mãos no parapeito da janela. Tentei explicar-lhe. Voltei-me para dentro. misturada à literatura da moda. Pura desculpa. combatê-lo. Ao redor o silêncio. Queria dizer-lhe: Parece-me que essa é a primeira das horas. disposta a começar no mesmo momento a lutar. a não ser o seu estado psicológico.

levantou a mão sonolenta e acariciou os cabelos. o bordado e. o sono. assim. a brisa indiferente. Sim. enfeitá-la. Pois eu jamais plantaria jasmim junto de girassóis.. voltei muito devagar para casa. Meus lindos e luminosos vinte e dois anos.. de branco. Depois que nos separamos. o que precisava era de resolver "meu caso". imaginando quadros.. lendo um livro. salvá-lo. Queria achar a fórmula que pudesse salvá-lo. muito branca e alegre. sem dúvida eu gostava dele. Achei-me fútil. O sol já se tinha deitado e no céu sem cor já se viam as primeiras estrelas. Fechei os olhos. e ele de escuro. não. Mandei vir café e com muito açúcar. Sim. Queria achar uma fórmula que mo desse para mim.. enfim. um livro. nós formávamos um belo par. E sempre andava de escuro. Depois pôsse a riscar com a unha os desenhos em xadrez da toalha de mesa. Oh. Durante dois dias pensei em cessar. Ele era moreno e triste. Tudo me parecia porém estéril. Bem. Eu. Enveredei pelo atalho mais comprido. abandonei os braços ao longo do corpo. Eu. o longo serão vazio. bem. cortando rosas. como ousaria. Estava com preguiça de chegar em casa: invariavelmente o jantar. Lá fora. Ele ergueu os olhos para mim. Mas eu estava inquieta. mordendo um capim e chutando todos os seixos brancos do caminho. a cama. Ele era um . ao seu lado. Mas justifiquei-me: precisamos contentar a natureza. A relva crescida era penugenta e quando o vento soprava forte ela me acariciava as pernas.Essa hora me parece a primeira das horas e também a última!! Silêncio. no fim da estrada. E essa idéia me era agradável porque justificaria os meios que empregasse para prendê-lo.. numa roupa florida.

Não. como um homem de negócios à espera do resultado da Bolsa. mas quando a verdade lhes surge diante dos olhos é sempre inopinadamente. Assim explico a minha falta de apetite no jantar magnífico. Simplesmente.. feche os olhos e espere que venha a serenidade. a idéia. Dir-lhe-ia (com o vestido azul que me fazia muito mais loura). ceifam e destroem metade do mundo sob o pretexto de que cortam os erros. passam a vida à procura da verdade.. não se entusiasme. por um processo inconsciente para o gestante. descalça para não acordar Mira. . pus-me a andar pelo quarto.. Levantei-me porém e. deite-se. Com efeito.. após um dia atarefado... enfim. a voz suave e firme. fixando-o nos olhos: . acumula apenas. por si mesma. distante. homens como W. e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então. Às duas horas da madrugada. minha insônia agitada numa cama de lençóis frescos. eu só conseguiria qualquer coisa pondo-o em estado de "shock". Porém cada vez mais parecia-me que achara a solução. se ele se conhecia? O nascimento de uma idéia é precedido por uma longa gestação.Tenho pensado muito a nosso respeito e resolvi que só nos resta. e se tornem como o avarento que acumula. E eis como. entram pelos labirintos mais estreitos.homem difícil. nasceu ela. Talvez porque tenham tomado amor à pesquisa. esquecido da primitiva finalidade pela qual começou a acumular. pensei: veio depressa demais para ser boa. Sentei-me alvoroçada na cama. O fato é que com W.

.. com gritos nervosos: "W. Mundo. nós vamos casar. E sobretudo conhecia-o fundamente. Mas na verdade eu não queria ficar fria: desejava viver o momento até esgotá-lo. com uma inchação do lado excessivamente artificial. parecia-me defeituosa. ." Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas. cheio de finalidades. Eternidade. e até a lua. no dia seguinte. nas flores. Mundo. eu conhecia os homens. pensando na decoração do ambiente. Vida. Precisava apenas conquistar um rosto menos afogueado. Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: "Eternidade. mas ouvia de antemão as queixas de Mira a mamãe. como arranjar a voz suave e firme. Vida.Vamos nos casar? Não.. . imediatamente". Deus. Eternidade... atônito. Não consegui dormir durante o resto da noite. eu correria o riso de receber W. como parte de um ritual. Nada de perguntas. Levantei-me com a disposição de uma mocinha no dia do seu casamento. frases e diálogos. Ele gostava de mim e talvez porque só a mim não conseguira destruir com suas análises (eu tinha vinte e dois anos). tão minúscula eu me descobria. Porque estaria diante da Verdade. serena e meiga? A continuar naquela febre. não. Deus....W. Depois disso.. E permaneceria estático. vamos casar imediatamente. Queria abrir a luz. muito redonda. Passei a manhã muito agitada.. Sim.. Cada ato meu era preparatório. na roupa. cortada ao meio por um galho de folhas finas. Ele não teria o recurso do gesto preferido. Sentei-me para uma longa costura. Estava tão desperta que o ressonar de Mira me enervava..

. É verdade. o que é uma golinha de renda. Estou casada e tenho um filho. E só escrevi "isso" para ver se conseguia achar uma resposta a perguntas que me torturam. de quando em quando. .Clarinha disse que ele se matou! Se matou com um tiro na cabeça.. E não costumo olhar para trás: tenho em mente ainda o castigo que Deus deu à mulher de Loth.. Terminou com a brusquidão e a falta de lógica de uma bofetada em pleno rosto. é? É mentira. alguma bondade. não é? E repentinamente a história se partiu. quando entrou esbaforida no quarto e fechou a porta atrás de si. eu disse: . uma profunda e emocionante certeza de amor. diante de. não existe mesmo nada. meu Deus.Beba um copo d'água e depois conta como a gata teve trinta gatinhos e dois cachorrinhos pretos.. a ela se ligam. "Eternidade.Amor"? Mira tem quatorze anos e é muito exagerada. perturbando . E com ela. nada por que eu troque os instantes que vêm! Só duas ou três vezes na vida experimenta-se tal sensação e as palavras esperança. Vida. E se eu desse a golinha de renda a Mira? Sim.. Nem teve ao menos um fim suave. A idéia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa... me perdoe. Mundo. E fechava os olhos e imaginava-o tão vivo que sua presença se tornava quase real: "sentia" suas mãos sobre as minhas e uma ligeira tontura me atordoava.A serenidade foi pouco a pouco voltando. Mas pensei. a culpa é de ele ser tão bonito e moreno e eu tão loura!"). felicidade. para não ficar com remorsos. embora bonita.. Não lhe dei o nome de W. ("Oh. saudade. com grandes gesto. descobri. mas a culpa é do verão.

"Eternidade. Não havia hora melhor que duas da tarde. “Estou cansada de andar de um lado para outro. absolutamente idiota. chamando-a para o escritório. a doutora. a blusa. Mundo. Mas. Não queria esperar porque ficaria com medo. Às vezes não consigo dormir. eu tenho dezessete anos e queria…” Idiota. “Minha senhora. Inventar depressa uma história. o sol amarelo derramado sobre tudo. tinha que entender. mesmo proque minhas irmãs dormem no mesmo quarto e se remexem muito. não pensar. Que vergonha! Até que a doutora terminou por lhe escrever.. pelo mundo? que sentido teve a minha dor? qual o fio que esses fatos a. . Vida.minha paz: que sentido teve a passagem de W. escrevendo conselhos nas revistas. Mas não consigo dormir porque fico pensando nas coisas. só esperar. O pior é que só se lembrava da carta que mandara. E a doutora riria… Não. Agora.. recordar-se das coisas boas.. as flores vermelhas duma janela. não. Lá fora."? Outubro 1940 Sentou-se de modo que seu próprio peso “passasse a ferro” a saia amarrotada.. E assim não daria à doutora a impressão que desejava causar. o que iria dizer? Tudo tão vago. mas não quero mais. tudo muito bom. Já resolvi me suicidar. afinal. não pensar. sou como os poetas…” Oh. encarregada de menores abandonados. mesmo sem ela falar.” E as outras cartas? “Não gosto de nada. Deus. Endireitou os cabelos. contar até mil. A senhora não pode me ajudar? Gertrudes. Não pensar na entrevista. Podia ver os telhados das casas.

De fato. ainda . Às lágrimas sucedia-se. Deus nunca precisa esperar. Enquanto esperava? Não. como se a crise se completasse no desejo. sempre em toda parte. Caía num choro abafado. a não sei quem e não sei de que forma. um grito de criança.Hoje ia acontecer alguma coisa! Não pensar 1. Que é que ele faz então? Está aí. Outros. mesmo que ainda acreditasse n’Ele (eu não acreditava em Deus. não usava o uniforme do colégio e resolvera fumar). um estado de suave convalescença. Tinha frequentemente vontade de chorar. Surpreendia a todos com sua doçura e transparência e. E era exatamente o que a doutora ia explicar. Riu. 4. Tinha até a vista muito boa. podendo tanto. 3. quando procurava imaginá-la. Ora sentia uma inquietação sem nome. 2. embriagando-se com os menores acontecimentos. 7… Não servia. Tuda não passava nada bem. com a impressão confusa de que se entregava. Sentia uma pequena vertigem. invisível. Se fosse Deus até já teria me esquecido de como principiara o mundo. Só por distração. embora não soubesse propriamente em que consistia a felicidade. aliviando-se. cheia de tédio. e Deus. cegas. Tornara-se bem livre… Mas isso não significava estar contente. ora uma calma exagerada e repentina. lânguida como uma gata. não poderia achar graça na eternidade. de aquiescência a tudo. Uns dias. ruins. e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade. mesmo que ainda acreditasse em fantasmas. E realmente não a suportava. lembrando-se de quando bebia avidamente as histórias que lhe contavam. não termina. enervada e triste. Uma folha caindo. tomava banho em cima do almoço. 6. 5. sem forma definida. Agora é que sabia por que Deus. acompanhando os olhos inchados. Já há tanto tempo e com séculos à frente… A eternidade não começa. nos últimos tempos. Era uma vez um rapaz cego que… Cego por quê? Não. ele não era cego. e o que em geral se reduzia à vontade apenas. inventava pessoas aleijadas.

ser enfermeira!” Imaginava-se já vestindo o hábito negro. com irritante despreocupação. e quem sabe? Amor até. com a graça de quem joga flores. Dava esmolas a todos os pobres. pelo meio da noite. Ou então. cheios de fé quase a adorá-la. silenciosa e rapidamente. Seu olhar tornava-se duro como aço. aquelas mãos implacavelmente coradas e largas. Depois. Imaginava um futuro em que. forçava uma leveza de passarinho. muitos homens a amá-la. simpatia mesmo. qual? Tudo era confuso e só se exprimia bem na palavra “liberdade” e nos passos pesados e firmes. E chegava ao auge com algum pensamento que a exaltava e a mergulhava em misticismo ardente: “Entrar para um convento! Salvar os pobres. cheia de mistérios e dores. olheiras cavadas pelas noites não dormidas. os ferros de operar. audaciosa e fria. das longas mangas. À noite não dormia até que os galos longínquos começassem a cantar. conduziria uma multidão de homens e mulheres. Fora feita para “libertar”. Ele a miraria com admiração. Vivia então os seus dias gloriosos. deslizava para uma meia inconsciência. a multidão já conduzida. . Sentia que “podia”. As mãos. o rosto pálido. Entregando ao médico.mais. com a touca alva. Sonhava acordada. brancas e finas. os olhos piedosos e humildes. Como fora amena há dias. enchia-se de força. onde tudo era bom. quando se destinava a outro papel? Outro. propriamente. “Libertar” era uma palavra imensa. emergindo. no rosto fechado que adotava. notando com alegria reprimida que não se interessava pelo bolo que as irmãs devoravam animalmente. um quarto só seu. De outras vezes. Não pensava. Acordava amarga. áspero como espinhos. uma ausência de aulas.

Boa tarde. confiando na bondade e compreensão da senhora. Interrompiam-na com as observações mais banais: “Já tomou banho. Mas ao mesmo tempo parecida com Diana.Vim aqui por excesso de audácia. Boa tarde. já lhe pertencia. junto de tanta vulgaridade? E. . pensava acabrunhada. o olhar das pessoas de casa. não. a Caçadora. E antes de conhecê-la. Ela sorri. Não tardaria a entrar no escritório. belas tragédias… Até que descobriu a doutora. Vai ser assim: ela é alta. a ver com ela? Mas. Até que foi chamada: viam afinal que ela era alguém.Mas. Poderia mandá-la viajar . . De noite mantinha longa conversas imaginárias com a desconhecida. uma extraordinária. Um olhar simples. uma incompreendida! Até o dia marcado para a entrevista. por que não “aconteciam coisas”? Tragédias. Um pouquinho gorda. distraído. Compreendem bem? Uma aventura. De dia. Duvidava que tivesse tanta coragem. não se usa). Tenho dezessete anos e acho que já posso começar a viver. escrevia-lhe cartas. Viveu numa atmosfera de febre e de ansiedade. irmã? Não. por exemplo. tem os cabelos curtos. senão. completamente alheio ao nobre fogo que ardia dentro dela. Tuda não se sentiu. Eu fico séria. afinal. Dar-lhe-ia trabalho. Uma aventura. da sala de visitas. Tuda?” Ou. impossível ser grande num ambiente como o seu. um busto grande. minha filha (não seria melhor: boa tarde. Aconteceria alguma coisa. olhos fortes. além disso. E mesmo o que a doutora tinha. Quem poderia persistir.

cabelos pretos enrolados em dois cachos sobre a nuca. Ou poderia dizer: . E encontrou-se diante da doutora. com o tato que lhe valera o lugar de conselheira na revista. numa tentativa de sensualidade. Tuda sentiu vontade de fugir. De repente… O rapazinho coçou a orelha e disse. séria. suponhamos. você terá um papel muito maior na vida. o ar velho que as pessoas teimavam em emprestar aos fatos excitantes e novos: . sem respirar. Uma estranha. Há muitos anos saíra de casa. Fingiu arrumar a mesa. – Por que é que se lembrou de vir a mim.Então? – disse depois. O rosto calmo.Pode entrar… Tuda atravessou a sala. O batom pintando um pouco pra fora dos lábios. que Tuda não conhecia. Miúda.para colher dados sobre… sobre a mortalidade infantil. as mãos irrequietas.Gertrudes. – Uma menina chamada Gertrudes… – Riu. a doutora vai falar. procurar trabalho? – iniciou. Você fará… O quê? Afinal. o que é grande? Tudo acaba… Não sei. Estava sentada junto à mesa. com uma vida própria. . . rodeada de livros e papéis. ou sobre os salários dos homens do campo.

o olhar vago. muitas coisas. doutora. Sua mãe. a todo o mundo. E também. Deixara de palpitar e a sala.Essa inquietação. falava. a doutora tomavam aos poucos uma disposição mais compreensível. sem importância. Não podia ouvir bem porque ficou tonta e o coração achou de lhe pulsar exatamente nos ouvidos. Você não precisa trabalhar. Mas o pai dizia que há males que vêm para o bem e que as amígdalas eram uma defesa do organismo. não gostava que ela saísse à noite. Os últimos filmes. Então a estranha falou-lhe das cartas. A puberdade traz distúrbios e… Não. por exemplo. . Na sua carta falou num apelido? Tudes. Se quiser – ia usar o velho “truc” e sorriu -. Precisava operar a garganta e vivia resfriada. vai passar. más leituras. Ela já era grande demais para essas coisas o que sentia era mais belo e mesmo… . Tuda… Tuda corou. alegando sereno. sei lá. a Lídia. que humilhação. a todo o mundo! . se quiser arranje um namorado. Tuda contou alguns segredos. “Idade difícil… todos são… quando menos se espera…” . Você é inteligente e vai compreender o que vou lhe explicar. nem fazer nada de extraordinário. as jovens modernas. o que a natureza criara tinha sua função. a voz levemente rouca.Bem. Sobre diversos assuntos. tudo que você sente é mais ou menos normal.A doutora falava. A doutora brincava com o lápis. Tuda também falava.Isto vai passar. Então… Ela era igual a Amélia. sem orientação. agora já conheço você mais ou menos.

ainda mais se impacientou. Estava cansada. A doutora inclinara a cabeça para um lado e desenhava pequenos riscos simétricos sobre uma folha de papel. tantas “crianças sem lar”. tantos problemas irresolúveis (seus problemas) e aquela guria.” Vagamente observou que isso contrariava sua tese individualista: “Cada pessoa é um mundo. fale sem medo. por interesse. boa vida burguesa. Uma nuvem tapou o sol e o escritório de repente sombrio e úmido. cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve. Começava a fraquejar e a deixar-se invadir pelos próprios pensamentos. Daí a um instante o floco de poeiras recomeçou a brilhar e a mover-se. Justamente porque observou que se contradizia e porque lhe ocorreu a frase do colega sobre a inconsistência das mulheres e porque achou-a injusta.A doutora ainda falava. Como sempre.Então? Mais alguma coisa? Fale. irritou-se e transferiu a irritação para Tuda: “Tanta gente morrendo. Tuda continuava muda. como para punir-se. receava cometer uma excentricidade e ainda não se habituara consigo mesma. A conselheira impacientou-se ligeiramente. afundar na contradição. Trabalhara tanto… . Um minuto ainda e diria à menina: por que não visita o cemitério? Vagamente porém notou-se as unhas sujas de Tuda e refletiu: é . com família. Mas não sabia resumir seu estado nessa pergunta. Depois rodeava os riscos com um círculo um pouco torto. Tuda pensava confusamente: vim perguntar o que faço de mim.. Notou-o. só se olha para o mundo alheio por distração. querendo. obstinadamente muda. a dar-se importância. por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital. mas não é solução”. não conseguia manter a mesma atitude por muito tempo. com raiva de si mesma. Além disso. o “mal de muitos” é consolo..

E. De repente. Tuda sentiu que a doutora não gostava dela. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha. não podia voltar atrás! Roubara um doce e não queria comê-lo… Mas a doutora a obrigaria a mastigá-lo.Olhe. como castigo… Ah. tinha a impressão de que a ruga nº 3. Que viera fazer ali? Perguntou-se assustada. naquela sala que nunca vira e que subitamente era “um lugar”. assim. E com a vida é assim. – Olhe. pareceram-lhe mentira. E além disso lembrava-se do seu próprio tempo de unhas sujas e imaginou que desprezo não teria por alguém que então lhe falasse do cemitério como de uma realidade. tenho certeza de que você ainda terá muita felicidade. Aquela menina fazia-lhe tão mal e ela queria estar de novo só. escapulir do escritório e andar de novo sozinha. mas não diziam “a infelicidade de Tuda…” Caminhara tão depressa com essa mentira! Agora estava perdida. o que me agradaria dizer-lhe é que você um dia terá o que agora procura tão confusamente. Mas não se pode apressar a vinda desse estado. Tudo perdia a realidade em relação à sua mãe. as amígdalas de Tuda…”. junto daquela mulher que nada tinha a ver com todas as coisas familiares. uma monstruosa mentira. sem a compreensão inútil e humilhante da doutora. Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. – A doutora sentiu um súbito cansaço. pensou estar sonhando. Tuda. a engoli-lo. do nariz aos lábios. à casa. tão pacato. Os sensíveis são simultaneamente mais infelizes e felizes que . as aulas de Tuda. afundara.muito turbulenta ainda para tirar lições do cemitério. e não só a confissão como o inexplicável motivo que a conduzira à doutora. . apesar do sofrimento. como de uma coisa que existe. É uma espécie de calma que vem do conhecimento de si própria e dos outros. só para se divertir… A prova é que ninguém dela se utilizava. Diziam: “o vestido de Tuda. ao último almoço. que ela inventara gratuitamente.

Tuda já não a entendia mais. a divina: .os outros. assim. Olhando-a. é isso! Só lágrimas! A doutora já não sorria. vacilando sobre a doutora. Tuda soube que não mentira. gritar: é isso que eu tenho. a voz arrastada: . Mas dê um tempo ao tempo! – Como era vulgar com facilidade. Mas estava cansada do duelo. Não era da boca. era mais forte do que ela. E de repente Tuda sentiu aquele rosto entrando bem na sua alma. sentiu que estava em posição superior à da doutora. de perfil. E. pensativa. esconder o rosto no seu regaço. Pois se aquele era o seu refúgio. onde até ele. sabia também da perplexidade que traz o conhecimento de si própria e dos outros. afundar no divã. Oh. refletiu sem amargura. Pensava. fechar as janelas – a repousante escuridão. uma estranha. com sua enervante e calma aceitação da felicidade. O escritório novamente vazio. decepcionada. A doutora sabia que se pode passar a vida inteira buscando qualquer coisa atrás da neblina. Sabia que a beleza de descobrir a vida é pequena para quem procura principalmente a beleza nas coisas. ajoelhar-se diante da doutora. Era como uma sombra terrivelmente simpática. sabia muito. apenas dela. à outra. nem dos olhos que vinha aquele ar… ar divino. A conselheira não notara que já se havia denunciado com os olhos e emendou. no mesmo instante. não era a verdade. – Vá vivendo… Sorriu. De novo. ah. era um intruso! Olharam-se e Tuda. Ah.Por que a senhora disse: “o que me agradaria dizer-lhe…”? Então não é a verdade? A menina era mais perspicaz do que pensara. Não. não! Uma alegria. Buscou-a depressa. uma vontade de chorar.

não queria chorar. – Olhe. Não havia mais o que dizer. – Aceita? Vamos. Porque se falasse. inteligente até. dar-lhe talvez um trabalho que a ocupasse e distraísse. Tuda levantou-se. haveria de ajudá-la. estou cansada. Não queria – a desgraça de sempre perceber – lembrar-se do gesto mole e cansado com que a doutora lhe . Oh. vou ajudá-la. Tuda enxugou o rosto com as mãos. Na rua. vamos fazer um contrato? Você continua estudando. . Mas agora. – Você não precisa chorar… Vamos.Espere – a doutora pareceu meditar um instante. depressa. Tuda. seja uma boa menina e concorde… Sim. sobretudo isto!) Novamente tudo flutuando no escritório. poderia chorar. vinte anos. mergulhar nele. sem preocupar-se muito consigo. tudo era mais fácil. E quando completar… digamos… vinte anos. Caminhara depressa. prometa que será uma mulherzinha corajosa… – Sim. dizer quanto concordava. sim. concordava! Tudo era de novo possível! Ah.. depressa. Era bem viva.Mas Tuda… – A sombra divina no seu rosto. que me deixem. só que não poderia falar. sólido e simples.Eu disse isso? Acho que não… (Que deseja afinal essa guria? Quem sou eu para dar conselhos? Por que é que ela não telefonou? Não. enquanto não passasse o período de desadaptação. o divã. isso sim. concordava. quanto se entregava à doutora. melhor que não telefone. você vem cá… – Animou-se sinceramente: simpatizava com a menina. . com os olhos úmidos.

Faltara-lhe até o momento quem a reconhecesse. simplesmente… Distanciara-se de todos.estendera a mão. Pensou. sempre presente… . Olharam para Tuda com a animosidade que as pessoas sentem umas pelas outras e que só os jovens ainda não disfarçam. para ela própria reconhecer-se… Transformava-se tudo! Como? Não sabia… Continuou a andar. sem ligar o pensamento ao olhar das meninas: que tenho a ver com elas? Quem esteve junto à doutora. conversando e rindo alto. a sua própria personalidade que se afirmara com a certeza de que no mundo havia correspondência para ela… Surpreendera-se: podia-se então falar no… “naquilo” como de algo palpável. Entrou numa sorveteria e comprou um sorvete. Pensava: antes era daquelas que existem. Passaram duas mocinhas de uniforme de colégio. os olhos muito abertos. cada vez mais lúcida. não poderia continuar a mesma. vigilante. casam. consciente. E dagora em diante um dos elementos constantes de sua vida seria Tuda. mesmo da antiga Tuda… Alguma coisa se desenrolara nela. passeando com as amiguinhas. na sua insatisfação que ela escondera com vergonha e medo… Agora… Alguém tocara levemente nas névoas misteriosas de que vivia há algum tempo e de repente elas se solidificavam. existiam. estudando. Que loucura! Mas aos poucos o pensamento instalou-se: fora uma indesejada… Corou. têm filhos simplesmente. falando de coisas misteriosas e profundas? E se elas soubessem da aventura nem entenderiam… De repente pareceu-lhe que depois de ter vivido aquela tarde. que se movem. indo ao cinema. formavam um bloco. Tuda estava sozinha e foi vencida. E mesmo o ligeiro suspiro… Não. não.

deslumbrada. parecia-lhe. . Possuía um segredo do qual as pessoas nunca poderiam partilhar. João. procurar o ar divino da doutora. “Essa menina não está passando bem. mamãe. algumas apenas. perdão. não conseguir pensar com clareza e não poderem as palavras conhecidas exprimir o que se sente! Um pouco orgulhosa. meio decepcionada. Ficou um instante atordoada.Seu destino modificara-se. senhorita… Machuquei-a? Quase perdeu o equilíbrio com o choque. não empresto coisa alguma.Oh. mamãe não. Tornara-se de um momento para outro sozinha… Vacilou. os olhos dolorosos. pensou. caminhando… Para onde? Já não se apressava para casa. só participaria da vida comum com algumas partículas de si mesma. os passos resolutos. pedir-lhe que ela não a abandonasse. Mas como? Oh. caminhando. repetia-se: vou ter outra vida. a Tuda de hoje… Estaria sempre à margem?… – Revelações sucediam-se rápidas. mas não com a nova Tuda. sem apoio. diferente da de Amélia. voltar para o escritório. medo! Mas a doutora vivia uma vida própria e – outra revelação – ninguém saía inteiramente para fora de si para ajudar… “Só” volte aos vinte anos… Não empresto o vestido. aposto como as amígdalas…” . você vive pedindo… E nem era possível ser compreendida! “A puberdade traz distúrbios…”. acendendo repentinas e iluminando-a como pequenos raios – Isolada… Sentiu-se subitamente deprimida. porque tinha medo. Ah. E ela própria. Onde está mamãe? Não. papai… Procurava ter uma visão de seu novo futuro e apenas conseguia ver-se andando sozinha sobre largas planícies desconhecidas. desorientada.

o corpo que o homem olhara.Não enxerga? – O homem tinha dentes brancos. cheia de súbita violência: .Eu lá preciso de doutora! Lá preciso de ninguém! Continuou a andar. Diabo! (Não diga diabo. Franziu as sobrancelhas. Lambeu o finzinho do sorvete e como ninguém reparava comeu a casquinha (os homens de mãos sujas é que fazem as casquinhas. Lembrou-se subitamente: a doutora… Não… Não. A brisa forte arrepiou-a. Abrindo os olhos. Tuda percebeu a rua cheia de sol. com ligeiro sorriso no rosto redondo. Tuda). a alma que a doutora tocara. ela… ela existia! Acompanhou o pensamento a sensação de que tinha um corpo seu. – Não há de que… Não foi nada… O rapaz se afastou. o do homem. Tuda). Porque afinal. Apertou os lábios com firmeza. comeria todas as casquinhas do mundo. pontudos. palpitante. faria o que bem entendesse.. Nem aos vinte anos… Aos vinte anos seria uma mulher caminhando sobre a planície desconhecida… Uma mulher! O poder oculto desta palavra. uma alma sua. Setembro 1941 . pensou. Diria o que quisesse. apressada. Que sorriso engraçado. feroz de alegria.

instruídas naquela sabedoria que se adquire pela experiência e se adivinha pelo senso comum. posso rememorá-lo com mais serenidade. . de minha infância até meus quatorze anos. Lá eu teria oportunidade de conhecer rapazes e moças. numa boa casa de arrabalde. Não me recordo com nitidez de seu início. É necessário contar um pouco sobre mim. Transformei-me independente de minha consciência e quando abri os olhos o veneno circulava irremediavelmente no meu sangue. Aceitei a descoberta e suas consequências sem grande alvoroço. Nasci de criaturas simples. Tentarei não acusar. Apenas assim conhecer-se-á o terreno em que suas sementes foram jogadas. silenciarei. já antigo no seu poder. fizeram-me usar novas peças de roupa e consideraram-me quase pronta. do mesmo modo distraído como estudava. Embora não acreditasse que se pudesse compreender inteiramente por que as sementes resultaram em tão tristes frutos.Obsessão Agora que já vivi o meu caso. abaixaram meu vestido. Sempre fui sossegada e nunca dei provas de possuir os elementos que Daniel desenvolveu em mim. Vivemos. juntamente com outros detalhes posteriores. Aé que um dia em mim descobriram uma mocinha. Não tentarei fazerme perdoar. Mudamo-nos para uma casa mais próxima da cidade. antes do meu contato com Daniel. passeava. Aconteceu simplesmente. brincava e movia-me despreocupadamente sob os olhares benevolentes de meus pais. onde eu estudava. num bairro cujo nome. lia e vivia.

ter filhos e. Quanto aos meus sonhos. Nunca dedicava um pensamento mais forte a qualquer assunto. E. Nada romântica. acrescentando não sem um pouco de perplexidade: “E por que não?” Jaime foi sempre bom para mim. e meu corpo forte. as pessoas que me cercavam moviam-se tranquilas. E. uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me habitava. Às vezes. nessa idade tão cheia deles . num círculo onde o hábito há muito alargara caminhos certos. afastava-as logo como a um sentimento inútil que não se liga às coisas realmente importantes. Casamo-nos e alugamos um apartamento bonito. Realmente fiz depressa algumas amizades.dizia mamãe. Aos dezenove anos encontrei Jaime. Jaime. com minha alegria amena e fácil. de minha casa anterior. E eu era feliz. embora nunca me tomasse de contentamento se assim sucedia. onde os fatos .os de uma jovem qualquer: casar. Por outro lado. Eu. seu temperamento pouco ardente. Vivemos seis anos juntos. eu o considerava de certo modo um prolongamento de meus pais. desejo que eu não precisava bem e confusamente enquadrava nos fins dos mil romances que lera. Se alguém me perguntava. melancolia sem causa escurecia-me o rosto. Mamãe. Eu apenas esperava que tudo corresse bem. sem filhos. bem mobiliado. sem me contagiar com seu romanticismo. a testa lisa sem preocupações. Vivia facilmente. Casa. finalmente. minha pele clara causavam simpatia. Eram feitos apenas para distrair. eu afirmava. ser feliz. Consideravam-me bonitinha. onde habituara-me aos privilégios de filha única. pensava eu. Quais? Não as definia bem e englobava-as na expressão ambígua “coisas da vida”. como a poupar-me ainda mais. não acreditava inteiramente nos livros que lia.

a reunião de domingo em casa de meus pais. Minhas duas casas se mobilizaram e num trabalho de noites e dias salvaram-me. Lembro-me que Jaime dissera uma vez. qualquer bom e animado jogo reconquistavam-me rapidamente e repunham-me na estrada larga. . mas agora parece-me impossível que na zona escura de cada homem. Respondi. acinzentava meus atos e meus desejos. um pouco emocionado: . sem o saber. Noto agora que certa apatia. não por misticismo mas por comodismo. mais do que paz. sem saber explicá-la e habituada a conferir um nome claro a todas as coisas. E assim continuei até que contraí febre tifoide e quase morri.explicavam-se razoavelmente por causas visíveis e os mais extraordinários se ligavam.. o casamento.Se nós tivéssemos um filho. na minha feliz cegueira. Ou engano-me e. desatenta: . a Deus. mesmo dos pacíficos. não sabia enxergar mais profundamente? Não sei. a morte e os estados a eles contínuos. Além disso. junto às primas e vizinhos. não a admitia ou atribuía-a a indisposições físicas. não se aninhe a ameaça de outros homens.Pra quê? Denso véu isolava-me do mundo e. um abismo distanciava-me de mim mesma. de novo a caminhar entre a multidão dos de olhos fechados. Se aquela vaga instisfação vinha me inquietar. mais terríveis e dolorosos.. eu. Os únicos acontecimentos capazes de perturbar suas almas eram o nascimento.

mas consegui-o. mesmo agora. em que eu até já esquecera minha atitude de “convalescente”. E um dia.A convalescença veio me encontrar magra e pálida. infelizmente um pouco tarde. Não houve apelação. mas as pessoas que as possuíam. como na fase da doença. Do primeiro Daniel nada guardei. desejando-a com certa ansiedade. Pela primeira vez davam-me uma oportunidade de ver com meus próprios olhos. sem o que fazer. meu ar de fragilidade acentuava-se propositalmente. num trem noturno. Em todas elas referia-me à volta. subitamente lançada numa liberdade que eu não pedira e da qual não sabia me utilizar. Mas eram outros. Quando Jaime chegava do trabalho. . até Daniel.. Só então. tão superficialmente eu vivia. Não planejara assustá-lo. deixando-me sozinha. bem diversa do conjunto a que depois me habituei. Pela primeira vez isolavam-me comigo mesma. onde o bom clima e o novo ambiente me fortificariam. Não afirmo com segurança que esse estado tenha favorecido uma influência mais fácil de Daniel. O que até então me sustentara não eram convicções. Jaime para lá me conduziu. senão a marca. Passava o dia recostada sobre o travesseiro. irritava-me com simples palavras. porém. Imagino antes que forçava minha fraqueza para conservar as pessoas ao redor de mim.. observo que um sentimento de mal-estar se apoderara de mim. lembrar-me do rosto de Daniel. Arranjou-me uma boa pensão e partiu. consegui pela convivência compreender e absorver seus traços. Não posso. Talvez tenha sido o começo. sem gosto para nada do mundo. sem pensar. presa por anormal e doce languidez. sem me mover. Mal me alimentava. longe das coisas como que nascidas comigo. Falo daquela sua fisionomia de minhas primeiras impressões. Fora de minha órbita. senti-me sem apoio porque afinal nem as noções recebidas haviam criado raízes em mim. comunicaram-me que eu passaria dois meses em Belo Horizonte. Isso. Pelas cartas que naquela época escrevi e lidas muito depois.

. Mas é necessário começar pelo princípio. acrescentou . caindo subitamente em conversa alheia. faz esvoaçar cabeleiras e saias. magoada. o que já fizera várias vezes. tudo o que não era humano em Daniel. “Um dever para com a sociedade”. Mais nada. distraindo-se a escandalizar os circunstantes. . Sobre o trabalho. como se tivesse emergido de um sono espesso. De quando em quando. Que não deveria constituir senão um meio de matar a fome imediata. enorme. Até que um dia ouvi-o falar. sem poder reconstituí-lo mentalmente. à daquele tempo. partida. Acredito mesmo que minha angústia posterior mais se acentuou com essa impossibilidade de recompor sua imagem. surge-me qualquer traço seu. isolado. a lembrança de sua alma. esmagadora e ao mesmo tempo distante como uma ameaça.Já alguém disse que não há fundamento para o dever.. daqueles anteriores. como se não lhe interessasse convencer. retrucou-lhe friamente que antes de tudo trabalhar era um dever. aquelas sobrancelhas afastadas. após o primeiro instante de silêncio e de reserva que se formou. Martirizava-me com acusações. embora não abandonando aquele seu ar de distância.Sei que ele sorria. Daniel morava na pensão onde eu me alojara. pôr um pouco de ordem nesta minha narrativa. Nunca se dirigira a mim. densas. e concedeu-lhe uma frase: . fixava-o em mim vivamente. Um estudante de óculos. eu o enxergava qual uma sombra. Eu assim apenas possuía suas palavras. desprezava-me e.a qualquer momento abandonaria o seu. É que ele me dominava de tal forma que. apenas isso. eu só conseguia relembrá-lo transportando-me a mim mesma. Como um pintor que para prender a ventania na sua tela inclina a copa das árvores. já exausta pelas tentativas inúteis. E. nem eu o notara particularmente. de contornos móveis. E nas noites de insônia. para viver como “um bom vagabundo”. Daniel teve um gesto qualquer. Seus dedos curvos e compridos. quase me impedia de vê-lo. se assim posso dizer.

Compreendi que Daniel os desprezava e irritei-me porque também eu era atingida. até que. revoltar-se. senão como leve fantasia. Vendo-o. surpresa e divertida: nunca ouvira alguém insrgir-se contra o trabalho. unidos contra o que lhes viesse perturbar o conforto. eu nunca me lembrara de que se pudesse não aceitar. Não estava habituada a me demorar muito tempo sobre qualquer pensamento. e senti-me. evitava Daniel.. colocando-me assim ao lado da pensão inteira. deixando o estudante indignado. como uma impaciência. os olhos abertos. para lá me dirigi. Recordei-me de Jaime. defendendo papai. “uma obrigação tão séria”. e um ligeiro mal-estar. Ele conversava com um homem magro. vagava eu pela pensão vazia. pelas “coisas da vida”. Depois.. De outra vez. desejar que o mundo fosse diferente do que era. ouvindo vozes na sala de espera.. formalizei-me numa atitude fria e inútil. defendendo-me não sei de quê.. E para ele eu caminhava. sem importância. Mas foi em vão. mais segura. escolher. porque receava aceitá-las. uma vez que ele mal me percebia. sempre elogiado pelo “desempenho de suas funções”. examinando todos por ocasião do jantar. O máximo de revolta de Jaime ou de papai concretizava-se apenas em forma de lamento. sem refletir. E jamais me ocorrera. Jaime e todos os meus.. vigilantes. E a mim. Desde então. a salvo. Sobretudo percebera através das palavras de Daniel um descaso pelo estabelecido. Forcei minha antipatia. às duas horas de uma tarde chuvosa.. sem saber por quê. Daniel era o perigo. cortantes. Parece-me que eu temia que ele pronunciasse alguma frase daquelas suas. apoderou-se de mim. No entanto. vestido . imperceptivelmente punha-me em guarda. mamãe. como ele contava. quando revi Daniel. De um modo geral. senti vagamente certa vergonha em fazer parte daquele grupo amorfo de homens e mulheres que numa combinação tácita se apoiavam e se esquentavam.Saiu da sala.

acumular desejos. com pouca imaginação e pouca inteligência. um pouco deslumbrada.. sem me penetrar. Tentava não me distrair para não perder da conversa mágica. No entanto. perturbando-me. singularmente incomodada. ... Perdia-me deles e quando voltava a prestar atenção já outra frase misteriosa e brilhante nascera.As realizações matam o desejo . Nos primeiros momentos. nada compreendi do que falavam... não pensava senão de acordo com minha estreita realidade. para meu espanto.. repetia-me eu. Suas palavras deslizavam sobre mim. mas uma curiosidade súbita me prendeu e conduziu-me a uma poltrona. Gradualmente distingui algumas palavras conhecidas. deixa-me vazio e saciado. entre outras que eu jamais ouvira pronunciadas: termos de livros. envoltos nos seus pensamentos a tal ponto que nem me viram entrar.disse Daniel. Agora Daniel falava de si mesmo.O que me interessava sobretudo é sentir. encher-me de mim mesmo. Eu mesma. . Afinal. . elas escondiam uma harmonia própria que eu não conseguia captar. Ia retirar-me. as realizações matam o desejo”. A realização abre-me. “A universalidade de. falando sem pressa.. refleti desculpando-me. “As realizações matam o desejo.” “o sentido abstrato que. a sala pertencia aos hóspedes. afastada das que eles ocupavam.” É preciso saber que eu nunca assistira a palestras onde o assunto não versasse sobre “coisas” e “histórias”. Procurei não fazer qualquer ruído. Os dois fumavam. adivinhei.de preto..

a minha história é difícil de ser elucidada. E sobretudo. Porque despertei simultaneamente mulher e humana.. confundiu-se dentro de mim e eu não saberia precisar se meu desassossego era o desejo de Daniel ou a ânsia de procurar o novo mundo descoberto. tocando. em outras verdades desconhecidas para mim. “O que importa é sentir e não fazer.. qualquer coisa longe da verdade de todos os dias. E surpreendia-me também vê-los se atacarem com palavras pouco amáveis que ofenderiam qualquer outra pessoa mas que eram por eles recebidas sem atenção.” Desculpa. estarrecida. .Há de novo a insatisfação. como se. Quando Daniel disse-me que eu falava da Biblia. Por isso tudo.disse o outro. vislumbrava as ideias. tomei-me do terror de Deus. Até onde foi o meu sentimento por Daniel (uso esse termo geral por não saber exatamente qual era o seu conteúdo) e onde começava o meu despertar para o mundo? Tudo se entrelaçou. Um dia cheguei a explicar-lhe que ao pensamento desse perigo se ligavam expressões lidas em livros com a pouca atenção que eu geralmente concedia a tudo e que agora me luziam na memória: “fruto do mal”.. A inquietação que as primeiras conversas com Daniel me produziram nascia como de uma certeza de perigo. . criando outro desejo que um homem normal procuraria realizar.. entre as baforadas de seu cigarro. Você justifica sua inutilidade com uma teoria qualquer.. mas misteriosamente melódica. separada em seus elementos. pela primeira vez eu... como se não soubessem o que significava “honra”.Não há saciedade . adivinhava. mesclado no entanto a uma curiosidade forte e vergonhosa como a de um vício. Eu os escutava. Surpreendia-me não só a conversa.. como o plano em que ela se apoiava. por exemplo.. até então profundamente adormecida. Você fracassou e só consegue se afirmar por meio da imaginação.

Minha atitude de humildade diante dele era o meu agradecimento ao seu favor. ficaram dormentes. rápidas e agudas. aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver.. a ponto de me fazer chorar. Não me recordo dos detalhes que nos aproximaram. Disse-me mais tarde que a gargalhada que deu e que tanto me feriu. Tudo lhe perdoo. mesmo sem ele. E assim conheci Daniel. como se a vida por si mesma não se justificasse. tanto mais o separava dos “outros”. na imobilidade.. Sei apenas que fui eu que o procurei. dos que não medem suas ações pelo Bem e pelo Mal. Como eu o admirava. “meus olhos tolos. me descobrisse um dia. E sei que Daniel se apoderou progressivamente de mim. Que sei eu? Escutei-os. tudo perdoo aos que não sabem se prender. fugisse de Jaime e de sua terra.Talvez Daniel tenha agido apenas como instrumento. Minha boca estupidamente aberta. Quanto mais sofria o seu desprezo. Quando Daniel olhou-me. atestando minha ingenuidade de animal”. para sempre.. cerca de duas horas. talvez eu. o destinos dos soltos na terra. Hoje compreendo-o. . Arranhando-me com frases que lhe saíam fáceis e incolores mas que em mim se cravavam. Era assim que Daniel falava comigo. tanto mais eu o cosiderava superior. mesmo sem ele. eu o imaginava. jamais teria se inclinado à minha pessoa se não me achasse curiosa e divertida.. Ele me considerava com indiferença e. Meus olhos fixos doíam e minhas pernas. fora causada pela exaltação em que se achava há dias e sobretudo pelo meu lamentável aspecto. talvez meu destino fosse mesmo o que segui. talvez.

Quando o conseguia. E esse estado era o seu auge. de que ninguém se beneficiava e que era por todos. . o doente. repetia. crescer dentro de seus contornos. mais vivo. Porque quando tudo se diluía... farejando seus desejos nascentes. apesar da esterilidade dessa luta e por mais extenuante que fosse. E. apenas na sua memória restava algum vestígio. embora em perpétuo clarão. os olhos fechados. amargo. ignorado. onde pudesse estender-se e justificar-se. Assemelhava-se ao que precederia uma realização e ele ardia por alcançá-lo. Nunca se concedia longo repouso... Em breve de novo girava em torno de si mesmo. e sentia-se quase pago. quase satisfeito. Tudo nele atingia naturalmente o máximo. adensando-os até elevá-los a um ponto de crise. sentindo-se. além dele. o que só existia. percebia-se sem apoio e. vibrava no ódio. mas num estado de capacidade. mais castigado. na beleza ou no amor. Fazer sua música e ele mesmo ouvi-la.. aquela sua previsão clara do “depois”. Quando se voltava para o mundo. desenvolver seus próprios elementos. inventara outro caminho onde sua inatividade coubesse. de exaltação de forças. ele.. Como se necessitasse de tal programa. não na objetivação. eis o mais alto e nobre objetivo humano. dentro de si próprio. Aquele seu poder de esgotar as coisas antes de tê-las. quanto mais sofria. cuja alma tanto ansiava por se expandir.Conheci mais tarde o verdadeiro Daniel. Dos que possuem a terra num segundo.. Antes de iniciar o primeiro passo para a ação. descobria que apenas sabia pensar. perplexo. já tateante e apagado. Era a dor da criação. como a se compensar dessa impossibilidade de realizar.. Realizar-se seria abandonar a posse e a realização de coisas para possuir-se a si mesmo. sem a criação embora. já degustava a saturação e a tristeza que seguem as vitórias. Realizar-se.

a morte. No entanto. espedaçando sem piedade o humilhante bom senso que lhe prendia o voo. Parecia louco. revelada não só nesse constante desejo de fugir. Só isso e atingira aquilo a que sua tendência o guiava: o sofrimento.. Desse homem que ele nunca atingiria.. Porque nesses momentos receava a loucura. longe de todos os humanos. Daí fácil tornava-se esboçar o futuro. até o fim implacável .. lhe lembrava terras desconhecidas. de não se unir às coisas para não lutar por elas. já que o concebia. longe daquele homem ideal que seria um sereno ser animalizado. longo. trôpego. Esse dueto consigo mesmo era o reflexo de sua essência. também Daniel tinha sua lógica. no entanto. fazia respirar seu velho sonho de fuga. para salvar-se. Desse homem a quem invejava. Sofrer.. nela afundado. Esquecia que ele próprio o forjara. um desejo oposto que a destruísse. Por vezes a crise. Quando seu padecimento se avolumava demais. para ele. E afinal só por isso ardia Daniel: por viver. descobria. o contemplativo. sem nenhuma evasão. tomava aspecto tão dolorosamente denso que ele. sentia-se doente. de uma inteligência fácil e confortável. nele se embebia e dele vivia como de uma realidade. De tal modo entregava-se ao sentimento criado e de tal modo este se tornava forte que ele chegava a esquecer a sua origem provocada e alimentada. De pensamento a pensamento. esgotando-a. Apenas. constituía o único meio de viver intensamente. lançava os olhos em socorro para esse tipo . inconscientemente dirigido para o mesmo fim. Criava então. ansiava enfim por se libertar. arquejante. com aquela altivez alcançada pelos que sofrem. Um pássaro que voava. a quem não podia deixar de desprezar. como na incapacidade de realizá-lo. seus caminhos eram estranhos.Tudo servia-lhe de partida. e por isso continuaria por toda a sua vida. chegava à noção de sua covardia.

não desejando continuar o mesmo passado de calma e de morte. nele me ofuscava exatamente sua tortura. mesmo a sua maldade assemelhavam-no a um deus destronado . Hoje tenho pena de Daniel. Eu. Vivia nesse ciclo. Cansado da tortura. Até que. parecia-lhe belo e perfeito.que. agora sei. depois já inumana. tanto procurou me esmagar e humilhar-me. parece-me que já o disse. Depois de ter me sentido desamparada. Pelo seu passado . E porque. transformava-o em angústia. . e não conseguindo. temia-o demasiado porque conhecia bem seus próprios limites. Quanto ao futuro. dominar um futuro diferente . meio-a-meio feliz.não conseguira situar-se no mundo conformado. Permitiase um pouco de equilíbrio como uma trégua. porque desejava que também eu sofresse. Era sempre esta a força oposta que apresentava a si mesmo quando atingia o extremo doloroso de sua crise.a um gênio. mas que o tédio logo invadia. indefinida. da média. adensava esse tédio. cheio duma simplicidade que para ele. procurava-o. que. No entanto. Mesmo o seu egoísmo. o hábito do conforto. E além disso. ingênua. como um leproso que secretamente ambiciona transmitir sua lepra aos sãos. sem saber o que fazer de mim.obscuro. com meus gestos medidos e meu corpo reto. por contraste com sua própria miséria. Daneil. numa súbita sede de paz. Desejou acordar-me. imitava-o. possuía boa aparência de saúde. Talvez tivesse permitido minha aproximação num desses momentos em que precisava da “força oposta”. não se resignara a abandonar aquela ambição enorme. cheio de sonhos frustrados . porque me invejava. seria heroica.agora percebo quanto Daniel era livre e quanto era infeliz. dirigia-se para além das coisas da terra. apesar de conhecê-los. E. na vontade mórbida de novamente sofrer. eu já o amava.

de seu sexo”. pequenos fatos passados. Em alguns acorda e envenena apenas. Pouco sei sobre o amor. como no meu caso e no de Daniel. apenas observando o espetáculo que a si mesmo se proporcionou. ao que obedeci. E o maior mal que Daniel me fez foi despertar em mim mesma esse desejo que em todos nós existe latente. na minha volta à sua companhia. Agora eu o compreenderia. Apenas lembro-me que o temia e o procurava. Contava-lhe. À loucura. o cigarro nos . tão pobre para nossa terrível ansiedade. adivinhavao. medrosa. voltara-se para o que ninguém. Aprendi a fazer minha alma vibrar e sei que. Sei agora qualquer coisa sobre os que procuram sentir para se saberem vivos. E quase sempre decepcionante. “ao menos para saber de sua matéria. Fez-me contar minha vida. obediente. à aventura. rebuscando as palavras para não lhe parecer muito estúpida. viagens. E quantas vezes quase com tédio. que me hipnotizava. A outros conduz a laboratórios. experiências absurdas.. Caminhei também nessa viagem perigosa. “por uma conspiração da natureza”. no mais profundo do próprio ser. disse-me uma vez. poderia realizar. Estranho que pareça. pode-se permanecer vigilante e frio. sofria pelo desconhecido. com as expressões mais cruéis. “De sua qualificação no mundo das percepções e das sensações”. jamais tocaria um instante sequer com os sentidos. de sua cor. soberano e distante. Ele ouvia. Porque ele não hesitava em falar sobre minha falta de inteligência.. Mas então apenas via o Daniel sem fraquezas.Falhando na realização do que se apresentava aos olhos. enquanto isso. por aquilo que.

. desde o início. Não sei o que. você quer que eu a acorde? . Mas nada lhe retrucava.Cristina. Eu me ruborizava. . muito normal. de desdém benevolente: . com aquele ar só seu. impediu minha revolta. mas voltava a procurá-lo. os olhos distraídos. porque começava a concordar com ele e secretamente esperava que se dignasse iniciar-me no seu mundo. Um dia falei-lhe sobre Jaime e ele disse: . você nada quer.Interessante.Muito bem. mistura de desejo contido de rir.Cristina. Oh. é bom ser inconsciente? .Cristina..Cristina. bastante feliz. Apenas recordo-me de que para o seu egoísmo era um prazer dominar e que eu fui fácil Um dia. Chegou a estender suas garras a Jaime. a todos os meus amigos amassando-os como algo desprezível. vi-o animar-se subitamente. como se a inspiração lhe parecesse a um tempo feliz e cômica: . E como sabia humilhar-me. envergonhavam-me no que eu tinha de mais oculto. você sabe que vive? . as palavras são comuns. ferida. não é mesmo? Eu chorava depois. não sei por que cheia de raiva. de cansaço. E terminava por dizer. Não sei.lábios. Revolucionavamme. mas o modo pelo qual eram pronunciadas.

Horrorizava-me. impassível. porém. Iniciou-se minha educação.. retocando-me como para um ritual. Ele. fazia-me perceber. Perante os meus próprios olhos. por admitir tamanho jugo. Começaram então os passeios estranhos e reveladores. eu ouvia. Ouça esse trecho com a cabeça jogada para trás. você.. Horrorizava-me o mundo novo que a voz persuasiva de Daniel fazia-me vislumbrar. Soube de vidas negras e belas. Ele falava. insistia. concordando. soube do sofrimento e do êxtase dos “privilegiados pela loucura”.E. antes que eu pudesse rir. . os lábios abertos.. fingia obedecer por brincadeira. se não tivesse resolvido me transformar. a mim que sempre fora uma quieta ovelha. Ele mal concederia olhar-me. . os olhos entrefechados. Nada. era mais sério para mim.Prepare-se para sentir comigo.Medite sobre eles. “soprar no meu corpo um pouco de veneno. já me observava a balançar com a cabeça. aqueles dias que me marcaram para sempre. Eu fingia rir. do bom e terrível veneno”. porém já me atraía com a força aspirante de uma queda. com o seu feliz meio-termo.. grave: . Louco quanto pareça... ele repetia várias vezes: queria transformar-me. como a desculpar-me perante os amigos de outrora. E eu pensava.

Vivamente. entregando-me às suas mãos e pedindo perdão por não lhe dar mais..Mais abandono. Eu. De repente despertava: que vida escura tivera até então.Mais langor no olhar. interrompia Daniel) as lágrimas formam parte da experiência cotidiana. realmente. eu sentia! Ele apenas sorriu.. No entanto era a verdade... tão simples e primitiva. . Caminhara longos anos pelas grutas e de repente descobria a radiosa saída para o mar.. Agora eu renascia. “visto que o segredo da vida é sofrer. nessa dor que dormia quieta e cega no fundo de mim mesma..” E aos poucos... E sobretudo obedecia procurando não descontentá-lo em coisa alguma. E porque nada me pedia. Deixe que minha voz seja o seu pensamento. Eu ouvia. gritei-lhe um vez mal respirando. . ainda mais caía na certeza de minha inferioridade e de nossa distância. Aquela voz lenta terminou por arder na minha alma. Agora.. eu entendia. inconsciente e alegre.... Esta verdade está contida em todas as coisas. mas inteligente. agitada. ainda não contente.. As narinas mais leves.“Para os que jazem encarcerados (não apenas nas prisões. Sim.. não um dia em que o coração é feliz”. nada do que eu não mais hesitaria em lhe oferecer. Tornei-me nervosa. Os olhos sempre inquietos. dia sem lágrimas é dia em que o coração está endurecido. prontas para absorver profundamente. revolvendo-a profundamente. .. Quase não dormia. que jamais desejara qualquer coisa com intensidade. na dor. “porque possuía um corpo alegre”. Eu. Eu obedecia.

Receava não sei o quê. reservei num deles um quarto. Ansiava longinquamente que meu marido reagisse por mim.Mais uma tarde e talvez nunca mais no vejamos .Certamente você voltará.arrisquei medrosa. Ele riu baixinho. concedi-me uma hora de descanso. como era de esperar. Dissera-me um dia: “As almas fracas como você são facilmente levadas a qualquer loucura com um olhar apenas . antes de voltar para Daniel. Jaime não desconfiou do motivo real. Tive a nítida impressão de que tentava sugerir-me a volta. empalideci. finalmente. passar dois dias comigo. mas nunca me ocorrera fugir. Eu tinha vergonha de Jaime. pensando num meio de não deixar Daniel vê-lo. a notícia de que mamãe estava doente veio me chamar para o Rio antes desse dia. Falei com Daniel. . Sob o pretexto de que desejava experimentar um hotel. Eu devia partir.. No entanto.Jaime veio me visitar. E isso mais me aproximou de Daniel. me retirasse daquelas mãos loucas.. Andei como tonta. Ao receber seu telegrama. como uma ordem. Confiava em que antes de minha partida Daniel me quisesse. Foram dois dias horríveis. Odiava-me porque me envergonhava de Jaime e no entanto fazia o possível para com ele esconder-me nos lugares onde Daniel não nos visse. . Tratava de adiar o perigo. entre aliviada e desamparada. Quando ele partiu.

temendo que uma folha se movesse. Temi não suportar a dor de perdê-lo . Mas.. Sim. tentanto sorrir: . Ainda não está completa. esquecendo que ele próprio já afirmara sua indiferença por mim. um gesto qualquer quebrasse o feitiço do momento. não é porque me quer?” Perguntei-lhe. adorá-lo. Eu esperava e na expectativa. pensei assustada.. num desânimo pesado que me deixou lassa e vazia por uns momentos. de novo.Daniel . aquela sua frieza como que me excitava. cega que estava. Eu esperava e tremia. eu desejaria imobilizar todo o universo. agarrei-me a essa possibilidade: “Se me sugere que eu o procure um dia. entrefechou-os. analisando-me. Houve um longo minuto de silêncio. era forçoso reconhecer. Sabia que esse instante era o primeiro realmente vivo entre nós. o primeiro que nos ligava diretamente.. que minha respiração. Caí em mim mesma. engrandecia-o aos meus olhos.Sua educação. Ele ergueu os olhos e. E.disse-lhe baixo. alegrei-me com este pensamento. ele jamais se perturbara sequer com minha presença.. desvanecesse-o e fizesse-nos cair novamente .” No entanto. compreendendo-me. todos os sentidos aguçados.por almas fortes como a minha. desejei ajoelhar-me perto dele. nunca mais. Nunca mais. rebaixar-me. Aquele momento me separava de súbito de todo o meu passado e numa singular previsão adivinhei que ele se destacaria como um ponto vermelho sobre todo o decorrer de minha vida. que alguém nos interrompesse.Voltar? Por quê? . Numa daquelas exaltações súbitas que haviam se tornado frequentes em mim. diante de meu rosto angustiado.

úmidos de suor. a mim. Era a primeira vez. meu corpo. Ficou em silêncio. Enrubesci. você me conhece mais do que seria preciso para viver comigo. Eu sabia que para Daniel se apiedar de mim. quase insensíveis. na testa. Olhou-me bem no fundo dos olhos e num meio sorriso concluiu: . E. ainda não se habituara. como após uma longa explicação. Nem a fome nem a miséria de alguém comoviam-no mais do que a falta de estética.na distância e no vácuo das palavras. . A um pequeno movimento de Daniel. como sempre em que “minha intensidade de animal o chocava”. que ele me recusava claramente. eu deveria estar ridícula. emprestar-lhes alguma nota grotesca. O sangue latejava-me surdamente nos pulsos. caíam-me sobre o rosto afogueado e a dor. como pronta para enlouquecer. Minha ansiedade deixava-me numa tensão extrema. No momento mais grave de minha vida eu estava ridícula. a que minha fisionomia.E se eu voltar? Recebeu a frase com desagrado. explodi quase num grito. . Os cabelos soltos.E além disso. Fixou os olhos em mim e progressivamente seus traços se transformaram. mas adestrara minha intuição quanto aos menores. no peito. como pronta para me atirar num sorvedouro. durante longos anos calma. dizia-me o olhar penalizado de Daniel. acrescentou. Acendeu o cigarro sem pressa.Eu a odiaria no dia em que nada mais tivesse a lhe dizer. tudo o que eu possuía e que lhe oferecia de olhos fechados. Fora já bastante pisada para não me sentir ferida. como se ele me tivesse sacudido com violência: . As mãos geladas e úmidas. deveria torcer minhas feições. porém. a voz lenta e serena: .Pausa. Já falei muito. A constante preocupação de atingir seus pensamentos não me concedera o poder de penetrar nos mais importantes.

numa espécie de sonolência que apenas se sacudia de mim enquanto eu escrevia a Daniel. tentando agradá-lo. Nada aguardava mais.Aterrorizada com minhas próprias palavras que me arrastavam independentes de mim. ameneada: . se humilhasse. Nunca recebi palavra sua. Mas respondeu-me. a voz controlada. definitivamente. Porque fazia-o por mim. Mamãe curou-se depressa. que se humanizasse. . Às vezes meu estado se agravava e cada instante tornava-se doloroso como uma pequena flecha que se cravasse no meu corpo. Pensava em fugir. em correr para Daniel.Não. .Responderá ao menos às minhas cartas? Ele teve um imperceptível movimento de impaciência. E eu voltara para Jaime. beijou-me. Beijou-me nos lábios. Antes de me retirar. sem que minha inquietação se apaziguasse. E o meu desejo era que ele sentisse prazer. Caía numa febre de movimentos que em vão procurava disciplinar em trabalhos caseiros para não despertar a atenção de Jaime e da criada. E continuava a escrever. prossegui com humildade. No entanto movia-me como uma cega. Retomei a vida anterior. O que não impede que você me escreva.

seria um espelho branco. Não suportava mais aquelas amenas tardes em família que outrora tanto haviam me distraído. A Daniel. Perscrutava-me atenta: “aquilo voltaria?” Referia-me à tortura com palavras vagas. “Aquilo” crescera demais dentro de mim.dizia Jaime. mas também saber como deixar de sentir. eu temia libertar-me. deixava-me plena.. expondo-a ao sol. Mas. eles nada tinham a ver com a opressão que me esmagava. E mesmo. Simplificando minha história em duas ou três palavras. mesmo nesse período.Há duas semanas que estou tentando esse ponto e nada consigo . Tentar pensar no que acontecera com nitidez e objetividade para reduzir meus sentimentos a um esquema. Vagamente parecia-me uma traição. Oh. parecia-me realmente irrisória. Observe. Tornara-me vibrátil. com aquela saudade dolorosa que me esgazeava os olhos e atordoava a mente. hein. Tentara. . a mim mesma. porque se a experiência é sublime pode tornar-se igualmente perigosa..Está calor. Ficaria desamparada se me curasse. .dizia mamãe.Seguia-se um estado de lassidão em que sofria menos. como se deste modo a afastasse. sentia. Cristina? . sem entrelinhas. não sossegava inteiramente. embora. Afinal. nada há melhor que expô-lo ao sol. Para que um sentimento perca o perfume e deixe de intoxicar-nos. Sésamo”. . sem perfume. lembrava-me de que ele me dissera um dia: . descobrira. mas não me contagiava a frieza de meus pensamentos e antes imaginava tratar do caso de uma mulher desconhecida com um homem desconhecido. Em momentos de maior lucidez. o que era eu agora.É preciso saber sentir. estranhamente sensível. Aprenda a encantar e a desencantar. estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao “abre-te. senão um reflexo? Se abolisse Daniel.

Jaime atalhava, espreguiçando-se: - Imagine, fazer crochê com um tempo desses. - O diabo não é fazer crochê, é ficar quebrando a cabeça para arranjar o tal ponto retrucava papai. Pausa. - Mercedes ainda terminará por ficar noiva daquele rapaz - informava mamãe. - Mesmo feia como é - respondia papai distraído, virando a folha do jornal. Pausa. - O chefão resolveu agora usar o sistema de envio da... Eu disfarçava a angústia e inventava um pretexto para me retirar por uns momentos. No quarto mordia o lenço, sufocando os gritos de desespero que ameaçavam minha garganta. Caía na cama, o rosto afundado no travesseiro, esperando que alguma coisa acontecesse e me salvasse. Começava a odiá-los, a todos. E desejava abandoná-los, fugir daquele sentimento que se desenvolvia a cada minuto, mesclado a uma insuportável piedade deles e de mim mesma. Como se juntos fôssemos vítimas da mesma e irremediável ameaça. Tentava reconstituir a imagem de Daniel, traço por traço. Parecia-me que se o relembrasse nitidamente teria uma espécie de poder sobre ele. Retinha a respiração, retesava-me, apertava os lábios. Um momento... Um momento mais e tê-lo-ia, gesto por gesto... Sua figura já se formava, nebulosa... E finalmente, pouco a pouco, desolada, eu a percebia desvanecer-se. Tinha a impressão de que Daniel fugia de mim, sorrindo. No entanto, sua presença não me abandonava. Uma vez,

estando com Jaime, eu a sentira e me ruborizara. Imaginara-o a olhar-nos, com seu sorriso calmo e irônico: - Bem, vejamos, um casal feliz... Estremecera de vergonha e durante vários dias mal conseguira suportar a sombra de Jaime. Pensava em Daniel, com maior intensidade ainda. Frases suas rodavam dentro de mim em turbilhão. Uma ou outra se destacava e me perseguia horas e horas. “A única atitude digna de um homem é a tristeza, a única atitude digna de um homem é a tristeza, a única...” Longe dele, começava a compreendê-lo melhor. Lembrava-me de que Daniel não sabia mesmo rir. Às vezes, quando eu dizia qualquer coisa engraçada e se o surpreendia distraído, via seu rosto como que se partir, numa careta que contrariava aquelas rugas nascidas apenas da dor e da meditação. Um ar a um tempo infantil e cínico, indecente quase, como se ele estivesse fazendo algo proibido, como se estivesse enganando, furtando-se a alguém. Eu não suportava olhá-lo, nesses raros instantes. Abaixava a cabeça, vexada, cheia de uma piedade que me fazia mal. Realmente ele não sabia ser feliz. Talvez nunca lho tivesse ensinado, quem sabe? Sempre tão sozinho, desde a adolescência, tão longe de qualquer gesto amigo. Hoje, sem ódio, sem amor, com indiferença apenas, de quanto bondade eu seria capaz. Mas naquele tempo... Temia-o? Sentia apenas que se ele surgisse a qualquer momento, um gesto seu faria com que o seguisse para sempre. Sonhava com esse instante, imaginava que, ao seu lado, libertar-me-ia dele. Amor? Desejava acompanhá-lo, para estar do lado mais forte, para que ele me poupasse, como quem se aninha nos braços do inimigo para estar longe de suas flechas. Era

diferente de amor, descobria: eu o queria como quem tem sede e deseja a água, sem sentimentos, sem mesmo vontade de felicidade. Concedia-me às vezes outro sonho, sabendo-o mais impossível ainda: ele me amaria e eu me vingaria, sentindo-me... Não, não superior, mas igual a ele... Porque, se me quisesse, estaria destruída aquela sua poderosa frieza, seu desdém irônico e inabalável que tanto me fascinava. Enquanto isso eu nunca poderia ser feliz. Ele me perseguia. Oh, sei que me repito, que erro, confundo fatos e pensamentos nesta curta narrativa. No entanto, mesmo assim, com que esforço reúno seus elementos e lanço-os sobre o papel. Já disse que não sou inteligente, nem culta. e sofrer apenas não basta. Sem falar, os olhos fechados, há qualquer coisa abaixo do meu pensamento, mais profundo e mais forte, que pretende o que se passou e que, em fugidio instante, veja com intidez. Mas meu cérebro é fraco e não consigo transformar esse minuto vivo em reflexão. Tudo é verdade, no entanto. e devo reconhecer outros sentimentos ainda, igualmente verdadeiros. Muitas vezes, nele pensando, numa transição lenta, via-me servindo-o como uma escrava. Sim, admitia, trêmula e assustada: eu, com um passado estável, convencional, nascida na civilização, sentia um prazer doloroso em imaginar-me a seus pés, escrava... Não, não era amor. Horrorizava-me: era o aviltamento, aviltamento... Surpreendia-me a olhar para o espelho buscando no rosto algum novo traço, nascido da dor, de minha vileza, e que pudesse conduzir minha razão aos instintos em tumulto que eu ainda não queria aceitar. Procurava aliviar minha alma, mortificando-me, sussurrando entre os dentes apertados: “Vil... desprezível...” Respondia-me, pusilânime: “Mas, meu deus (letra minúscula, como ele me ensinara), eu não sou culpada, eu não

. como que justificar-me. como se falasse a alguém invisível. abrangendo nesse lamento minha impossibilidade de deixar de querê-lo. aquele olhar lento. contra ele. E sobretudo haviam despertado em mim a sensação de que palpitava em meu corpo e em meu espírito uma vida mais profunda e mais intensa do que a que eu vivia.sou culpada. sabendo-o longe embora. principalmente. sem jamais conseguir penetrar o sentido. não posso”. de continuar naquele estado. Era apenas isso o que eu sabia. haviam me fascinado. daqueles de que eu apenas adivinhava a existência. Tudo o . minúscula e desamparada. no desejo de proteger-nos. Aquelas longas conversas em que eu apenas ouvia. aconchegando-o a mim. vencida: “Concordo. E confusamente. Procurava. banal. dizia-me baixinho. depois de tanto tempo. Soubera de vidas ardentes. Ele me deixara entrever o sublime e exigira que também eu queimasse no fogo sagrado. contra sua força. sem dormir.” Sentia-o balançar a cabeça benevolente: “Não posso. concordo.” De quê? Eu não o definia. sem forças. a ambos. para atingir não sei que coisa. unia-me a Jaime. Eu me debatia. De noite. qualquer coisa que me estarrecia de medo. o desejo doloroso de me aprofundar em não sei quê. concordo que minha vida é confortável e medíocre. Qualquer coisa horrível e forte crescia dentro de mim... mais de um ano. sob as pálpebras grossas. aquela chama que acendia nos meus olhos. de. de tal modo ele se apoderara de minha alma. Porque. é pequeno tudo que tenho. mas voltara à minha própria. acordado em mim sentimentos obscuros. encolhia-me. seguir os caminhos grandiosos que ele começara a mostrar-me e onde eu me perdia. contra seu sorriso. a Jaime e à nossa vida burguesa. gritava comigo mesma. pesado de conhecimento. diante de sua recordação. imaginava-o assistindo meus dias e sorrindo a algum pensamento secreto..

não! Ele me dissera. uma amiga. Como tive forças para destruir tudo o que eu fora. Foi uma frase sua. Porém minha atitude diante do sofrimento era ainda de perplexidade.” Ele comia como quem amarrota um pedaço de papel. Repugnância.. ele bem o dissera.que aprendera com Daniel fazia-me apenas enxergar a pequenez do meu cotidiano e execrá-lo. não. Com uma volubilidade. Sentia-me sem apoio. como nos que precedem a morte. você precisava ouvir Armando falar sobre música. se bem me lembro. que me lançou para Daniel por outros caminhos. Pensei em Daniel que. Um dia olhara com repugnância e censura para minha blusa que palpitava depois da corrida para pegar o ônibus. eu imaginara recebê-lo sem lábios. para ferir Jaime. tudo imaterializava.Meu bem. tentava evadir-me em lágrimas. Naquele dia. tive momentos de trégua. Dora. . Mas outro pensamento continuou lúcido e imperturbável: ele dizia que o corpo era um acessório. Mesmo no seu único beijo. Não. continuava o outro pensamento frio: “Você come chocolate como se fosse a coisa mais importante do mundo. Você tem um horrível gosto pelas coisas. sem ser inquietada. . Estremeci: não empobrecer sua memória. Você diria que ele fala do prato mais gostoso do mundo ou da mulher mais “não sei quê”. já velhos e cansados? No período que antecedeu minha resolução. em certas doenças. pelo contrário. Minha educação não terminara.. viera à minha casa ver se me distraía de uma das dores de cabeça que eu pretextara para abandonar-me livremente à melancolia. como se mastigasse cada notinha e jogasse fora os ossos. tornar infelizes papai e mamãe.

Como sabias que era eu? . se quiseres trazer alguma coisa. E apenas sossegava.. Como se me tivessem passado água fresca sobre o rosto. incrivelmente feliz. Sim.Não quero nada. Jaime.. sim. compra bombons. Ah. Jaime. antes que eu mude.. querido.. Sentia-me repentinamente exausta.falou sua voz fanhosa e risonha. tu existes. Jaime! ... um apoio.Alô. . Meus nervos se relaxaram. . elas me aceitam.Subitamente.. sim? ( Já. Tuas mãos são fortes. Era como se eu fugisse de Daniel. Lutei ainda um instante para não analisar sua frase distraída.. Jaime. tive consciência de que muita gente sorriria de Daniel. A esse pensamento. Atendi. antes que Daniel venha. Até logo. Tu também gostas de chocolate... Talvez eu mesma o desprezasse se não estivesse doente. ele é banal. . quando concordava com o Daniel invisível: sim. És real. Mas vem já. Telefonei para saber se queres alguma coisa da cidade. pensei. mediocremente. chocolate. estranhamente: Daniel. Porque ultimamente tudo eu comparava ao que de belo e profundo me dissera Daniel.Não. qualquer coisa revoltou-se dentro de mim. já sem forças para continuar. filha.Demoras? .. com um daqueles sorrisos orgulhosos e ambíguos que os homens votam uns aos outros. já!) Alô! Alô! Escuta. Quando o telefone tocou. .. sôfrega.

os olhos. Depois de novo o silêncio. Mas a ansiedade tirava-me a paciência.Que tens.Não poderíamos ficar assim a vida inteira? Ele riu. suavemente bom. Beijou-me despreocupado. E no silêncio da sala. pus-me diante do espelho e ajeitei-me como há meses não o fazia. só isso: vou me libertar! Estou livre!” Sentamo-nos no sofá. Nada pensava e apoiava-me em Jaime com serenidade. feliz quase: Daniel não surgira. Meu pensamento vibrou como um grito agudo: “Só isso. ventando-me os ouvidos. . passei-as pelas minhas faces. a prova final. . meu senhor. deixava-me os olhos brilhantes. . . Segurei-lhe as mãos. Alisou minhas mãos. Ele notou-me a mudança no penteado. as unhas. Cristina? O que aconteceu? Não respondi. Sim. pensei profundamente aliviada. Ele passou as mãos pelos meus cabelos. pela testa. os movimentos rápidos. tirando-me a força.Mas não foi um pedido: foi uma ordem. Estava bom. .. Quando ele apareceu. mas milhares de campainhas se chocaram dentro de mim. . cessou de súbito minha inquietação.Sabes? Gosto mais de ti sem verniz nas unhas.Quando Dora se despediu. senti a paz... Seria uma prova..Deferido o pedido. estava calma.

Deitei-me serena e dormi até o dia seguinte.Então. Parecia-me que Daniel estava junto de mim... não pensei mais no assunto.. com um pincel fino.. tentanto fazer-me longínqua e inatingível: “Vou embora. Mandei a criada para casa. Movimentos inúteis. resolvi ir embora. Se fosses mais . pretos também? Nessa mesma noite. pouca tinta.Que foi? .” Numa inspiração súbita. seus cabelos eram negros. dilatados. claros. Um momento. escrevi deliberadamente.. fitei-os. sim. Antes de sair.. resolvi deixar um bilhete a Jaime. pensei com um ligeiro sorriso de triunfo. Estou cansada de viver contigo. no entanto.. Arrumei uma pequena mala com o essencial.. Minuciosos. sua presença quase palpável: “Estes teus olhos desenhados à flor do rosto. no ar. como se uma lança tivesse me trespassado as costas. entesei-me subitamente no sofá. abri os olhos. tornei agradável o serão de Jaime. pensamentos rápidos e atropelados. apenas com o orgullho de mostrar a Daniel que eu era “forte”. Seus cabelos. despreocupei-me. E de repente. esmagado. em folga. E. Os olhos. Se não consegues compreender-me pelo menos confia em mim: digo-te que mereço ser perdoada. um bilhete que o ferisse como Daniel o feriria! Que o deixasse perturbado. evolou-se subitamente minha serenidade. Os olhos. . Sim.perguntou-me Jaime inquieto. repetidos.. Esperei que Jaime fosse ao trabalho.. sem nenhum remorso. incapazes de fazer bem ou mal.. como não o fizera há muito....

em certos momentos. ninguém é capaz de fazê-lo. E mais afundava na inexistência. como um último suspiro. Permanecia junto do poderoso. Por que não durou sempre aquela morte ideal? Um pouco de clarividência. concedendo-me tréguas. Cuidei de seus livros. perdoa-me”. Tomei silenciosamente meu lugar junto a Daniel. Era como se voltasse à minha fonte. lançado à vida como mulher e eu depois retornasse à minha verdadeira matriz. através de meu próprio sofrimento. serena. mas quando a analisava alguma vez era sempre do mesmo modo: vivo com ele e é tudo. advertia-me de que a paz só poderia ser passageira. tornei mais claro o seu ambiente. Ele não mo agradecia. como aceitara minha companhia. do que sabia. desde o instante em que saltando do trem aproximei-me de Daniel sem ser repelida. para descobrir sozinha. para tua paz. em seus movimentos. minha atitude foi uma só. Aceitava simplesmente. substituí-o. nem de remorsos por Jaime. os olhos fechados. Como se anteriormente me tivessem cortado de uma rocha. como uma enfermeira. imobilizando-me para a eternidade. adiando o momento em que eu própria buscaria a vida. Quanto a mim.inteligente. Não refletia sobre a situação. No entanto. Gradualmente apoderei-me de sua vida diária. eu te diria: não me julgues. . Nem de contentamento por ele. Nem propriamente de alívio. não perdoes. isso me bastava. de suas roupas. Adivinhava que nem sempre me bastaria viver Daniel.

no entanto. cheia de remorsos. O hábito instalou-se na minha existência e já guiada por ele é que me ocupava minuto por minuto com Daniel. Apenas um receio perturbava minha estranha paz: o de que Daniel me mandasse embora. Abandonava a costura sobre o regaço. Eu nele entrara. perscrutando com certo prazer . lhe pedisse para comer alguma coisa. ouvia-o dizer-me qualquer coisa ou rir de mim por algum motivo. os meses tombaram uns sobre os outros. estava próximo.Pode ir. como outrora. os dedos trêmulos por alguns instantes. Nunca sorria. afinal. No entanto não me afastaria de sua vida nem para ser feliz. encontrei-o irritado. cosendo silenciosamente suas roupas ao seu lado. Ainda não jantara e como eu. De tal modo eu me incorporara à situação que dela não mais recebia estímulos e sensações que me permitissem tonalizá-la. nem infeliz embora. E quando. Às vezes. retomava o pano e continuava o trabalho. Os dias correram. por um acidente numa das estradas. exaltada. empalidecia e esperava sua ordem: . Quando voltei ao quarto. Já não o ouvia fremente. Nada mais me surpreendia. desaprendera da alegria. os olhos fixos em qualquer ponto. guardou um longo silêncio proposital e finalmente informou. demorei-me demais fora de casa.Por enquanto assistia-o apenas e repousava. pressentia que ele ia falar. Eu não o era. Um dia em que saí cedo. O fim. mudo ao meu boa-noite.

enquanto ele conservava o mesmo ar casmurro.. Como entender-me? Por que de início aquela cega integração? E depois. Precisava de mim! repeti mil vezes depois.. Então. Talvez continuasse a sê-lo. . sem revolta. um pouco infantil.minha inquietação: não almoçara igualmente. Corri a fazer café. Servira já o meu tempo de escrava. sem que o deliberasse. numa queixa muda contra meu desleixo involuntário. descobri afinal.. absurdamente nova e forte. Lembro-me de que parei com a cafeteira na mão. a quase alegria da libertação? De que matéria sou feita onde se entrelaçam mas não se fundem os elementos e a base de mil outras vidas? Sigo todos os caminhos e nenhum deles é ainda o meu. grande demais para meus braços e para meu desejo. Ele. mas como um desapontamento: bem.. Pela primeira vez descobria que Daniel precisava de mim! Eu me tornara necessária ao tirano. Daniel continuava sombrio. E já agora não aceitava seu domínio. pensei.. E Daniel fraquejara. Resignava-me apenas. Fui moldada em tantas estátuas e não me imobilizei. desnorteada. Sorri. com a sensação de ter recebido um belo e enorme presente.. ele precisava de mim? Não sentia alegria. terminou minha função.. não me despediria.. sabia agora. um pouco tímida.. E o mais estranho é que acompanhava esta impressão uma outra. observando de soslaio meus movimentos apressados ao preparar a mesa. Daí em diante. De repente abri os olhos. descuidei imperceptivelmente de Daniel. desencantara-se. Estava livre. Assustei-me àquela reflexão inopinada e involuntária. espantada.... até o fim da vida. Mas servia a um deus.

orgulhosos. se de início retraiu-se surpreso com minha coragem. num rápido desfalecimento de forças. procurando mil intenções ocultas em cada palavra proferida. dia a dia. Ele percebeu minha transformação e.Para que narrar pequenos fatos que demonstrem minha progressiva caminhada para a intolerância e para o ódio? Sabe-se bem quanto basta para transformar a atmosfera em que vivem duas pessoas. Como uma criança doente. Tornamo-nos astuciosos. Feríamo-nos a cada momento e estabelecemos a vitória e a derrota. à espera de que ele se concretizasse e nos caísse em cima. Sustentava-nos. o poder de olhar de frente para o ídolo. Armamo-nos e éramos duas forças. agora. a princípio mesclado ao sabor do triunfo. Tornei-me cruel. não sabia mais suportar. Ele tornou-se fraco. No entanto avançáramos demasiado longe e. . Qualquer palavra minha era o início de ríspida discussão. mostrava-se cada vez mais caprichoso. não poderíamos recuar. desejava às vezes estender-lhe a mão. depois de mim. Continuamos a viver. mostrou-se como realmente era. retornou ao jugo antigo com mais violência. Mal nos falávamos. Eu mesma. Respirávamos mal no quarto. Movíamo-nos como que dentro do perigo. a luta. E agora eu degustava. um sorriso prendem-se como um anzol a um dos sentimentos que repousam enovelados no fundo das águas sossegadas e leva-o à tona. fá-lo gritar acima dos outros. Encontraria porém minha própria violência. pelas costas. confessando o isolamento em que minha libertação o deixara e que. Havia ocasiões em que por um triz não me pedia apoio. Um pequeno gesto. Descobrimos mais tarde outro recurso ainda: o silêncio. pronto a não deixar-me escapar.

(Vivi com Daniel perto de dois anos. Voltou-se e deparei com seus olhos frios. falei para minha própria surpresa: . Então. A água embaciara os vidros. puxou o lenço e.De que te ris? Perguntei.Mas isto não pode continuar. . atentamente. E talvez mesmo já amasse minha companhia.) Já agora nem mesmo o ódio. para quem fosse rei. Toda minha raiva se concentrou neste momento e pesou-me no peito como uma pedra. olhava pela janela.. Era um fim de tarde. certamente irônicos.uma vez deu-se a conclusão.. arquejante. talvez curiosos. uma vez que nenhum laço sério nos prendia? ele não mo propunha porque se habituara à minha ajuda e igualmente não conseguiria mais viver sem alguém sobre quem exercesse poder. após uma semana de chuva que nos aprisionara durante dias juntos no quarto. o rosto branco sobre a “écharpe” escura do pescoço. precocemente sombrio.E por que então não nos separávamos. Estávamos cansados. O tique-taque do relógio latejava dentro do quarto. como se de súbito o fato crescesse de importãncia. Daniel. Até as novas relações foram invadidas pelo hábito. Pouco faláramos durante o dia. desde que não o era em parte alguma. pôs-se a limpá-los. Uma vez. de pé. junto ao sofá. como se continuasse uma discussão. os movimentos minuciosos e cuidados. A chuva gotejava monotonamente lá fora. ele que sempre fora tão solitário. Quanto a mim sentia prazer em odiá-lo. esgotando ao limite os nossos nervos . Eu o observava. . traindo o esforço que lhe custava conter o enervamento.

então. Assim seríamos quase felizes. lembrou-se e respondeu: . Assustei-me... . Retornei pausadamente: . nenhum dos dois acreditava mais naquilo que nos prendia? .. Como era corajoso. Apenas isso: pra quê? .Continuei obstinada. Seria apenas um meio de me ferir? Surpreendi-me entretanto... sem que me comovesse a descoberta.. . Achei-o terrivelmente belo. Senti medo da audácia com que me desafiava.. porque.Mas por que de mim. Seres de conteúdo forte.Não somos dois? Limpou uma gotinha que escorrera pelo parapeito. Queres uma prova? Não me matarias. Uma desilusão. Sempre estiveste só.Por quê? Ah. . que não nos faz vibrar. assustei-me como se tivesse sido roubada. De repente. Meu Deus. Estás só.. . porque depois não sentirias prazer nem dor..Tens medo da verdade? Nem sentimos ódio um pelo outro.De ti. Essa discussão que não se liga propriamente a nós. indiferentes ou com ódio. então? .Por quê? Ele inclinou-se um pouco e seus dentes brilharam na meia escuridão. É que tu e eu.Ele continuou a fitar-me e tornou a limpar os vidros da janela..Não.

Mas como as coisas se precipitaram. Desviamos o olhar ao mesmo tempo.Aproximei-me e sobre a palidez de seu rosto fino.sacudi-o pelo braço -. . trêmula: . cheios agora de curiosidade quase amiga. os cabelos pareciam excessivamente negros. como se precipitaram! pensava.disse Daniel tentanto emprestar um tom ligeiro e desdenhoso às palavras.Vou embora. Também ele imobilizara-se. Encaramo-nos um momento. De novo o silêncio. Daniel. subitamente serenada. procurando. vou embora! Ele não se moveu. Minha voz saiu baixa e pesada: . Retirei-a com um movimento tão brusco e súbito que o cinzeiro voou longe. Respirei com força. Estava dito! Estava dito! Repeti triunfante.Eu não podia deixar de notar a inteligência com que ele penetrava a verdade. o fundo de nossas almas. como se uma luta devesse começar. A minha frase abrira tal distância entre nós que eu não suportava sequer seu contato. Depois encaramo-nos surpresos. sem cólera. . . esquecido de qualquer máscara. Fiquei um tempo olhando os cacos. como fascinado pela rapidez da cena.Os encarcerados . os olhos desarmados. O relógio bateu seis horas. Levantei depois a cabeça. Fez-se silêncio. profundamente.Daniel . o nosso mistério que deveria ser o mesmo.Vou embora. perturbados. Tive então consciência de que minha mão agarrava seu braço. Tivemos os dois um pequeno movimento rápido. . espedaçou-se no chão.

Tudo parara ao redor de nós. retornei à vida. Daniel. Houve longuíssima pausa. Repeti. Via-lhe as costas. Com um novo suspiro. daquelas que nos mergulham na eternidade.Vou embora. Adivinhava-me diferente dele e o meu “deslize” atemorizava-o. continuo. Regressamos à antiga vida. Caminhei para a porta e na soleira estaquei novamente. Quanto a mim. Já agora sozinha. Ele desejava sobretudo a paz. Nunca me fez muitas perguntas. Minha mãe morrera de um ataque do coração. Papai refugiara-se junto ao meu tio. . ocasionado pela minha partida. Ele não teve um gesto.Foi o último instante de simpatia que tivemos juntos. Outubro 1941 . a cabeça escura erguida. como se ele olhasse para a frente.Vou embora. a voz singularmente oca: . Jaime aceitou-me de volta. fazia-o respeitar-me. embora ele nunca mais se aproximasse inteiramente de mim. no interior do Estado. Para sempre sozinha.

bebe avidamente e ela se balança dentro dele como num frasco vazio. Encolhe-se profundamente. ele é rei. Procura os chinelos embaixo da cama.. sob a luz do dia.. arrastando as pernas moles. Na sua cama. enquanto se aconchega no pijama de flanela. suadas.O Delírio O dia está alto e forte quando se levanta.. e aqui uns braços silenciosos e mornos atraíssem-no e o transformassem num menino pequeno. chovesse. É o delírio. os olhos fechados. os movimentos tão difíceis. a Virgem-Mãe agora se destaca. As mulheres. Ah. com um suspiro. Sente a cabeça endurecida na nuca. tateando com os pés. Morto. Uma luz muito doce se espalha sobre a Terra como um . bate no travesseiro e mete-se lá dentro. ela também um vulto. refletindo no chão o largo quadrado da janela. Torna-se tão humilde diante da rua viva e do sol indiferente. Afasta-se com desgosto.. puro e cruel. Com as sombras. nítida e dominadora. levanta os lençóis. Molha a testa e respira desafogado. Vai até a pia. um carro buzina junto ao botequim. enche as mãos de água. de sacola na mão. pequeno e morto. Volta para dentro.. Guris brincam de botão à porta da Confeitaria Mascote. cerrados. no seu quarto. tão familiar após a noite insone. é o delírio. Vai andando devagar. é mais fácil descrer. olha a cama desfeita. como se lá fora chovesse. Pedaços de nabos e alfaces se misturam à poeira da rua estreita. E o sol. O sol começa a cobrir o guarda-roupa. Os dedos dos pés são qualquer coisa gelada. espalhado por cima de tudo.. impessoal. vêm da feira. E os maxilares presos. Da janela enxerga a rua clara e movimentada.

assustadas. E a Terra envelhece rápida. Cores lilases flutuam no espaço como borboletas. Larga como o Oceano Atlântico e não como um rio louco! Vomita borbotões de barro a cada grito. A lua dilui-se lentamente e um sol-menino espreguiça os braços translúcidos. pequenos seres de luz pura. amigos. E a Terra. ainda trêmulas. Frescos murmúrios de águas puras que se abandonam aos declives. arquejante. Silêncio. Um par de asas dança na atmosfera rosada. E ela. S-s-s-s. A Terra continuamente exaurida murcha. como sempre... mal pousando no solo os pés transparentes. Meus grandes e nobres amigos. Novas cores . As róseas formas continuam a brotar da terra ferida. ides assistir a uma luta milenar. Corolas murcham e as cores escurecem... E as luzes reaparecem tímidas. Silêncio.perfume... Sobre as feridas escuras pululam flores miúdas e cheirosas. Um queixume longínquo vem subindo do corpo da Terra. Silêncio. Delgadas flautas erguem-se para o céu e melodias frágeis rebentam no ar como bolhas. numa ferida larga. ininterruptamente. murcha em dobras e rugas de carne morta. O sol esgarça as nuvens e respinga morno brilho.. As flautas desfiam cantos agudos como suaves gargalhadas e as criaturas ensaiam uma dança levíssima. abre-se em novas fendas negras.. rompe-se de súbito com estrondo. A Terra está tendo filhos? As formas dissolvem-se no ar. novo rugido.. De repente... Das grutas resfolegantes e sangrentas nascem outros seres. O dia vai nascer. poderoso. sangrento. Um forte cheiro de barro machucado arrasta-se em densa fumaça.. surgem um a um. leves como o sopro de uma criança adormecida.. meus amigos.. A alegria dos nascidos está no auge e o ar é puro som. Há um pássaro que foge. Um século de silêncio. Então o sol apruma o tronco e surge inteiro. Da Terra rasgada e negra. os braços contraídos de dor...

Abre os olhos. Todos choram.. Seus filhos se assustam.. um esquisito animal que brilha. Diz. O globo gira agora lentamente.emergem dos rasgões profundos. enorme. interrompem as melodias e as danças ligeiras. Esbatem no ar as asas finas num zumbido confuso. cansado. A vitória de quem foi? Ergue-se um homem pequenino. Um momento ainda brilham. Quem deve se retirar é o monstro. Um pequeno ser de luz nasce ainda.. pendente. .Eu posso informar quem ganhou. foi a vingança. a voz em eco. e no silêncio brusco.A galeria não se manifesta! A galeria não se manifesta! O homenzinho intimida-se.. estranhamente perdida: . porém continua: . o espaço é subitamente cinzento e morto. É verdade que se abaixar as pálpebras. lentamente. Morrendo. da última fila. aproxima-se.Mas eu sei! Eu sei: a vitória foi da Terra. Grita e aponta: . rebenta em raivoso fragor. agiganta-se perto de todos os ouvidos até que. até atingir a nuca. todas iguais. A primeira coisa que vê é um pedaço de madeira branca. Mas é uma questão de honra.. Depois desfalecem exaustos e em cega linha reta afundam vertiginosamente no Espaço. subitamente furiosos. Foi a sua vingança. “Foi a vingança” aproxima-se. brilha e enfia as unhas compridas e cintilantes pelas suas pupilas. como um suspiro... E a Terra se some. a aranha recolhe as unhas e reduz-se a uma nódoa vermelha e móvel. Olhando para adiante enxerga novas tábuas. Todos gritam. E no meio de tudo..

Encosta a boca no seu dorso e vai passando-a por todos os caminhos. A palma é macia.procura enxergá-la através do escuro..Você apagou? . . ... murchou.Mas eu já apaguei. profundamente humilhado. negar-se-ia a criar. alisa-a devagar.Saia! Você é de ouro.. .. . Ela sempre se vinga. Junto da unha um pouco áspero. que vai deixando atrás de si um pedaço onde não fica mais pensamento. Ele a . levanta-se e diz: . Agora eu só queria saber isto: se ela pudesse ter escolhido. Se dormisse na certa melhorava. mas saia! A moça morena. moça. Só para feri-lo. Então? Seria tão fácil explicar que era um lâmpada.Coitado. Você está mas é com muita febre. A moça morena agora mistura seus dedos com os seus cabelos úmidos. Veja se dorme. Volta a cabeça para a parede e começa a chorar. os olhos muito abertos na escuridão. Ele pega-lhe no braço. Porque os seres criados sentiam-se tão superiores. Mão fresca. Torce o comutador. ela apagou-se por si mesma. de vestido claro..Coitadinho. A luz está incomodando. somente para não morrer? .Depois ela se vingou. A moça morena dá um gritinho: . desfia seus dedos por aqueles dedos finos.. Ele diz: . Eu nem sabia que dentro dela tinha tanta luz. tão livres que imaginaram poder passar sem ela. A mão procura fugir..Mas não faça isso. minuciosamente. pequena. Ele se sente humilhado. meu bem! Passa a mão pela sua testa. revolve-lhe as ideias com movimentos suaves. Tudo seria bom se as portas não batessem tanto..Não.A Terra murchou.

. Mas. Ele se sente bem.Este é um momento? Pergunta em voz bem alta. Está agora no terraço do quarto de D. faço gosto em que o senhor more aqui. Estire os cadáveres dos momentos mortos em cima da cama.. negócio de lado. Eu quero momentos adultos!. Ela fica. Moça. O presente já é passado. sem pecado. Apesar de ter sido carregado como um bebê. Só se tem o momento que vem. Cubra-os com um lençol alvo. É uma pombinha que ele aprisionou. Só a família mesmo . Não. um cobertor enrolado nos pés. ponha-os num caixão de menino. o que dá para o grande quintal. que minha terra está murchando. eu lhe aconselharia a voltar para o Norte.retém. como vai de pernas? A pensão é minha.Moça. . eu quero lhe confiar um segredo: moça. Agora suas têmporas deixam de latejar porque duas borboletas úmidas pairam sobre elas.. faz tic-tic-tic. Agora seus olhos já não queimam. depois com mais firmeza. aproxime-se.Então. Marta. Adormece.. já não é mais. Fino e tenro. Marta enxuga as mãos no avental. Então na sua boca enxuta dois lábios frescos pousam de leve.. com muito. O pulso. Levaram-no para lá.. que é que eu faço? Me ajude. Depois o que vai ser de minha luz? O quarto está tão escuro. E este? Já agora também não.. muito sono. Eles morreram crianças ainda. D. A pombinha está assustada e seu coração faz tic-tic-tic. antes da partida? Onde está? Sente a princípio alguma coisa movendo-se junto dele. seu moço. Pensa que mesmo um incêncio não o faria levantar-se agora. Voam em seguida.. Onde a Virgem-Mãe que a tia meteu-lhe na mala.. cansou-se. . sentaram-no sobre uma espreguiçadeira de vime.

Marta tem razão. Qualquer coisa suave brota do peito em ondas concêntricas e espalha-se por todo o corpo como vagas musicais. Olha-a com fixidez. Estende as pernas. É verdade que há também a fadiga que o prende ao assento. mas.. deseja-a levemente. cora.. Ela diz que sim.. Ficam calados e sentem-se bem. bem forte. Sorri para a moça.. .Minha afilhada veio fazer outra visitinha. D.pregaria o senhor do descanso.. a cabeça fica oca de repente. de pegar na mão da moça. é jovem.. tem prazer em se estirar sobre a cadeira. Há tanto tempo não se enxerga. Sua presença foi como uma suave sacudidela.. cansados..... É jovem. Já agora a melancolia o abandona e.. E o bom cansaço. molemente. de pura alegria. com hora certa de dormir e de comer.. Nos lábios. escrevendo. sim. Ela se confunde. mais leve. então? Ele sente nas mãos o toque de uma pele meio áspera. A moça entra. quase infantil.. nada se concede.. D.Você me fez antes alguma visita? . Marta pisca um olho.arrisca.. lendo. O doutor não gostou quando eu contei que o senhor ficava de luz acesa até de madrugada. Deus nos valha. Por que não? Uma aventura. A moça sorri... pulsa com força. Na testa. afasta o cobertor... afinal. Ele olha-a. Que houve. Ele mal presta atenção. Compreendem-se. olha-a reconhecido.. observando com benevolência aquele seu desejo confuso de respirar muito. isso não é vida de gente. de se descobrir ao sol. Que aconteceu? Seu coração se acelera. Sorriem. Não faz mais frio e a cabeça não está tão vazia. Não é só por causa da eletricidade. Não pode pensar muito. E seu corpo também reclama direitos. . .. Os olhos se afundam. Sorri.

Ela...Ah. Mal sabe. O senhor teve muita febre. viver.. e. Para assustado. concorda com ela..Ele respira mais profundamente. contente consigo mesmo. delirou. Olha-a de trás.Não se assuste. Então? Os dois ficam sérios. pensa um pouco relutante. com frieza: ..diz mais calmo e subitamente quase com indiferença. resolvido a tentar a aventura de qualquer modo.. É natural que não se lembre do delírio... sem raízes. com a suavidade da convalescença. .. D. em que se permita mais. No entanto. ser mais humano. o delírio. Marta talvez tenha razão e... Ele a encara desapontado. observa seu perfil vulgar. uma vontade de se esgueirar como se o estivessem .. Ela se perturba. . .Pois eu me lembro de tudo . diz polidamente.Você se lembra quando o homenzinho da última fila ergueu-se e disse: “Eu sei.Como. não experimenta alívio especial após a resolução de seguir uma vida mais fácil. delicado. pensa ele..... Você desculpe. enrubesce de novo.Sim .. Sente pelo contrário uma ligeira impaciência. Ela agora é uma estranha. Corresponde ao olhar da moça. Ela sorri.diz de repente.. .? . O calor. nem de nada mais. Pergunta animado: . O que está dizendo? Frases loucas que lhe escaparam. Sim. Mas aquela moleza no corpo. agora retraída. despreocupar-se.Lembro-me de tudo.”. quanto significa-lhe este sorriso: uma ajuda para que ele entre por um caminho mais cômodo. no fim a gente não sabe o que aconteceu mesmo e o que foi mentira. Fracasso.

Anima-se. Todo o delírio surge-lhe ante os olhos? Como um quadro. não pode pensar.. O terraço dá para o arvoredo compacto. deslumbrado. sangrento. Há um momento em que sente a escuridão mesmo dentro de si. Procura a paisagem. sem saber por quê.diz avidamente -.empurrando. . nada restará dele.. Endireita-se sobre a cadeira. um vago desejo de se diluir.. covarde.. Mas que material poético encerra. O sol reaparece.Faça-me um favor .adia. Sai de trás da nuvem vagarosamente e surge inteiro.. Onde está o sol? Tudo escureceu. Ah. por que não? Mesmo o fato de a moça morena. Continua porém inquieto.. erguida para o céu. O terraço sombreia-se. ele se aprofundará na cadeira infinitamente. poderoso. E agora seu sussurro é o canto suavíssimo de uma flauta transparente. sim.” E a dança dos seres sobre as feridas abertas? O calor volta-lhe ao corpo em leves ondas.Quer-me trazer um caderno que está em cima de minha mesa? E um lápis também. chame D.. suas pernas se desmancharão. Sobretudo. faz frio. numa fadiga prévia pelo que se seguirá.. nada resolver por enquanto . . insatisfeito subitamente.. Na meia-luz. de desaparecer. Pensamentos alvoroçados se entrecruzam de repente em sua cabeça. “A Terra está tendo filhos.. Ainda está doente.... Marta.. Ela vem.. um pouco surpreendido. as árvores se balançam e gemem como velhinhas conformadas... Sim. . Respinga brilho sobre o bosquezinho. Invoca um pensamento poderoso que o faça pousar sossegado sobre a ideia de se modificar: mais uma doença dessas e talvez fique inutilizado.. Sim. Não deseja pensar.

E principalmente se ela soubesse que esforço lhe custava escrever. pedindo desculpas a D.. À moça.. todas as suas fibras eriçavam-se..Não.. um nada orgulhoso talvez.. não cessava. sua cabeça já está dolorida.. Quando começava. A si mesmo.. Marta balança a cabeça. Mal se levantou da cama. parece que chuparam todo o sangue de dentro. Mas poderia conter sua luz. “A Terra.. .. O senhor agora não pode trabalhar. pálido.conclui ambiguamente. os braços contraídos de dor. para poupar-se? Sorri um sorriso triste. irritadas e magníficas.. Mas depois se vinga.Mas. enquanto não sentia que elas eram o seu prolongamento. E enquanto não cobria o papel com suas letras nervosas... sobretudo. Ele para. Julho 1940 .. Vai buscar lápis e papel. D. de súbito pensativo. pesada.. Está magro. Marta. pela aventura frustrada.” Sim. a Terra não pode escolher .. esgotando-se até o fim.

O banco seria um ponto de repouso. Assustou-se.A Fuga Começou a ficar escuro e ela teve medo. Os automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou outra buzina tocava maciamente. o livro na mão recompondo a cena diária.primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Sim. Agora que decidira ir embora tudo renascia. muito apressadas. gostaria infinitamente do que pensara ao cabo de duas horas: “Bem. . Se não estivesse tão confusa. aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela. as coisas ainda existem”. Estava cansada. impermeável. Não era solução. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: . Quis sentar-se num banco do jardim. Tonta como estava. os rostos cansados. Só mesmo um pouco de medo. Pensava sempre: “Mas que é que vai acontecer agora?” Se ficasse andando. simplesmente extraordinária a descoberta. A chuva caía sem tréguas e as calçadas brilhavam úmidas à luz das lâmpadas. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto de partida. porque na verdade não sentia a chuva e não se importava com o frio. Passavam pessoas de guarda-chuva. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com toda a força: “Você não voltará. Voltar para casa? Não. fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do “Lar Elvira”. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia na marcha. porque ainda não resolvera o caminho a tomar.” Apaziguou-se.

quanto as ondas quebravam junto às pedras. se apalparia. dormir caindo. era de representar. A chuva continuava. Resolveu tentar de novo aquela brincadeira. A princípio. Então ele caía para fora da terra. tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito.. chegava a comer caindo. Uma angústia pesada. Também um pouco de medo e doze anos. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés.. até morrer. a espuma salgada salpicava-a toda. pelo contrário. Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. vinha desde pequena. Não havia. agora que estava livre. porém. trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Ela tomara o ônibus na Tijuca e saltara na Glória. O que tinha menos vontade de fazer. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo. beliscaria para saber-se desperta.Se representasse num palco essa mesma tragédia. Com ele a força da gravidade não pegava. sombrias. caindo e se acostumava. Mas por que a procurava então? A história de não encontrar o fundo do mar era antiga. No capítulo da força da gravidade. O mar revolvia-se forte e. para olhar o mar. Já andara para além do Morro da Viúva. Caía onde? Depois resolvia: continuava caindo. Atravessou o passeio e encostou-se à murada. porque ela não sabia lhe dar um destino. na escola primária. inventara um homem com uma doença engraçada. e ficava caindo sempre. E continuaria caindo? mas nesse momento a tecordação do homem não a angustiava e. Bastava olhar demoradamente para dentro d’água e pensar que aquele mundo não tinha fim. porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras. porém somente alegria e alívio dentro dela. isso .

Os dias se derretem. apesar de divertidas. Das pessoas que só usam uma marca de lápis e dizem de cor o que está escrito na sola dos sapatos. . “Meu filho. vestira uma roupa leve. Você pode perguntar-lhe sem receio qual o horário dos trens.. Agora pode rir. Ah. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Saíra do chuveiro frio. uma grande âncora. eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher”.. olhando-a. Achou tão engraçado esse pensamento que se inclinou sobre o muro e pôs-se a rir. vivia caindo. depois de doze séculos. Vou procurar um lugar onde pôs os pés. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido. depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Que é que eu faço? Talvez chegar perto e dizer: “Meu filho. Ele ficará surpreso? Sim. fundem-se e formam um só bloco. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a lâmpada do bom senso.. Não voltarei para casa. o jornal de maior circulação e mesmo em que região do globo os macacos se reproduzem com maior rapidez.. Só está frio e muito bom. Agora a chuva parou. está chovendo”.lhe trouxera certa tranquilidade. Um homem gordo parou a certa distância. Não. sim. olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol. pois costumava cansar-se pensando em coisa inúteis. Abre a boca e sente o ar fresco inundá-la. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. dormia caindo. Pôs-se a caminhar e esqueceu o homem gordo. Água escura e silenciosa. Ela ri. doze anos pesam como quilos de chumbo. bom e nunca erra. Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só hoje. E a pessoa está perdida. Eu comia caindo. apanhara um livro. Vive atrás de uma janela. isso é infinitamente consolador.

. Quase ao mesmo tempo. porque o navio parte às duas horas da tarde. Há doze anos não sente fome. O céu de um azul violento. sério. Então um forte estrondo abalou a casa. quase sem ondas.Mas hoje era diferente de todas as tarde dos dias de todos os anos. Amanhecerá. a sopa é quente. uma lua enorme surgirá. O navio se afasta rapidamente. A chuva aumentava. Um vento fresco circulava pela casa. um café cheiroso e forte. com . o travesseiro é macio. em movimentos pesados. Fazia calor e ela sufocava. puxou a roupa do corpo. as nuvens escuras. ofegante. apertava-a. Ficou mais calma. perfumada a roupa limpa. gritante. Pedirá café. mornos e espaçados. Ah.. Terá a manhã livre para comprar o necessário para a viagem. Ouvia seu tamborilar no zinco do quintal e o grito da criada recolhendo a roupa. imóvel. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. E em breve o silêncio. minuciosos. Ficou imóvel no meio o quarto. O quarto do hotel tem um ar estrangeiro. estraçalhou-a. Vestiu-se. juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora. uma lua fresca e serena.. Mas não: o ar ali estava. pesado. O ar fechava-se em torno dela. Entrará num restaurante. densas. De repente. As águas cantam no casco. Abriu todas as janelas e as portas. E quando o escuro dominar o aposento. depois dessa chuva. alisava seu rosto quente. Agora era como um dilúvio.. Agora está com fome. Nenhuma viração e o céu baixo. O pão é fresco. E ela dormirá coberta de luar. Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal-estar e o calor. O mar está quieto. rasgou-a em longas tiras. então. caíam grossos pingos d’água. como tudo é lindo e tem encanto.

Não recebeu seu recado avisando que só voltaria de noite? Não. Bem que pode ir a um hotel. Toma um copo de leite quente porque não tem fome. Não posso ter raiva de mim. Mas os hotéis do Rio não são próprios para uma senhora desacompanhada. E toda aquela chuva que apanhou.. Sim. . cadência. tudo isso é mentira. deixou-lhe um frio agudo por dentro. as gaivotas esvoaçam. Entra em casa. porque estou cansada. Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Sente o luar cobri-la vagarosamente.suavidade. diz ele. fecha os olhos e ajeita-se na cama. eu nada estou provocando. sobe uma luz grande e pura. Diz-lhe que Rosinha esteve doente. E nestes pode talvez encontrar algum conhecido do marido. É tarde e seu marido está lendo na cama. de pintinhas brancas. Fica de olhos abertos durante algum tempo. Veste um pijama de flanela azul. As passagens são tão caras. E mesmo tudo está acontecendo. São doze anos. Isso é verdade.. Dentre as árvores. o que certamente lhe prejudicará os negócios. Oh. ele torce o comutador. Ele beija-a no rosto e diz que o acorde às sete horas em ponto. brancas espumas fugidas do mar. Depois enxuga as lágrimas com o lençol. salvo os de primeira classe. muito macio mesmo. Volto para casa. Pede ao marido que apague a luz. Ela promete. tudo isso! Mas ela não tem suficiente dinheiro para viajar. Em torno.

Rio 1940 . o navio se afasta cada vez mais.Dentro do silêncio da noite.

ele não passava de um estranho qualquer… Por que não falava ele de sua vida com a objetividade com que pedira o copo de chopp ao garçom? Recusava-me a conceder-lhe o direito de ter uma alma própria.que pretendia com seu arrogante silêncio? Não o interrogara várias vezes? Ele me ofendia. Era consciente. como eu. Mais um instante. E embebedava-me não puramente.Mais dois bêbedos Surpreendi-me. Um destroço daqueles. nem bastante bonito. porque do contrário nunca eu saberia de sua existência. afinal. lera obras sobre o budismo. fariam um epitáfio sobre meu túmulo quando morresse. sem sequer emocionar-se com a oportunidade de viver. tão importante como um cão trotando . nem bastante feio. que podia contar minha vida desde o tempo em que meus avós ainda não se conheciam. Eu possuía o direito de ter pudor e de não me revelar. No entanto ele persistia em seu mutismo. Meu estado de embriaguez me inclinava especialmente à benevolência e além disso. . sabia que ria. mas com um objetivo: Eu era alguém. não suportaria sua insolência. que sofria. cheia de preconceitos e de amor por si mesmo. fazendo-lhe ver que deveria agradecer minha aproximação. Não é que abusava de minha boa vontade? Por que mantinha ele um ar de tão denso mistério? Podia contar seus segredos sem receio de qualquer julgamento. não deveria ter claros e escuros. com a inteligência suficiente para saber que era um destroço. o queixo fugitivo. Mas aquele homem que jamais sairia de seu estreito círculo.

sob a luz fraca do botequim que prolongava os rostos em sombras. Andava de bar em bar. Moviamo-nos lentamente. o amor. Andei pelas ruas. Era mentira? O tom era verdadeiro. conversavam. Igual a todos. Só era mentira a frase imaginada tão sem esforço..Naquela noite eu já bebera bastante. Liguei o telefone e esperei. Procurei um meio de me derramar um pouco. a energia. algumas pessoas jogavam.vagas. E.. pensando: escolherei alguém que nunca tenha imaginado me merecer. aquela ânsia de dar meu excesso eram verdadeiros. como se nada me devesse. No entanto não estava contente ainda.Oh. Mas ninguém me agradava particularmente.Alô. rodar dentro de seus próprios pensamentos. Este. bebiam. Ema tinha vaga ideia de que eu era diferente e debitava nessa conta tudo que de estranho eu pudesse fazer. meu bem.. antes que transbordasse inteiramente. Todos pareciam bastar-se. De tal modo me aceitava. a essa hora! Desliguei. excessivamente feliz. . E naquele momento evitava precisamente a solidão que seria uma bebida forte demais. a beleza. Ninguém precisava de mim. silencioso. ei-lo! Embriagado à custa de meu dinheiro e. Até que o vi. este... Mas tão igual a todos que formavam um tipo. que eu ficava só quando estávamos juntos. Ema! . Procurei um homem ou uma mulher. as raras palavras . Ao redor de nós. temi ultrapassar-me: estava por demais ajustado em mim mesmo. até que. mal respirando de impaciência: . resolvi.. soltas.

.Meu Deus.Pra quê? . atingindo os meus. Pelo menos para sofrer com ela.Então? Disse eu impaciente. então.. sem cintilações. sim.. olhou para os lados e retomou: .Angina.. .. Talvez por isso ele custasse tanto a falar.. Ele olhou-me um instante. . Depois sorriu: .Mas o senhor estava falando sobre seu filho!.Com quem está o menino? .em um tom mais forte.Ah. .. o farmacêutico disse angina. Ele pareceu despertar. ...Que é que ele tem? . nada. O torpor amolecia. perscrutando-o. Mas alguma coisa dizia-me que ele não estava tão embriagado e que silenciava simplesmente por não reconhecer minha superioridade. os braços largados sobre a mesa.E o senhor não fica junto dela? . os cotovelos sobre a mesa.. Pois é.Junto da mãe.Então. os pés estirados. Quanto ao outro abandonara-se na cadeira. Eu bebia devagar. O senhor é casado com a moça? . ele está mal. .

Então surpreende o menino morto. Dizem: “É preciso cuidar do enterro”. Estava tão imerso na descrição que me esquecera do homem. sem se mover. Imagine se o filho morre. O menino morreu e ela de repente ficou desocupada.. Cai sobre a cama. Morre. Sua cabecinha está torta. junto da caminha e ali fica sem pensar.Imagine-a de olhos ardentes.disse eu.. Sobem pelo rosto de seu filho. . . batem à sua porta.. os dentinhos roendo aqui e ali. Ela responde: “Pra quê? pois se ele já . A criança estertorando.Ela acorda do desmaio e nem sabe onde está. embora sem saber em que consistia ela propriamente. obstinadamente. não sou casado não. roem sua boquinha. Os vizinhos entram e veem que ele morreu. ainda quente. dizendo: “Quem sabe se é bom chamar o farmacêutico?” Ela responde: “Pra quê? pois se ele morreu”. chorando. durante duas horas. Tudo está em silêncio e a moça não sabe o que fazer. meu pobre filho! É a morte. Ele não se emocionava. ouvindo. Sorri triunfante. Dessa vez não chora. fixos na parede. Os vizinhos estranhando a falta de notícias.Não. os olhos abertos. ela fica sozinha. junto da criança. é a morte!” Os ratos da casa se assustam e começam a correr pelo quarto. . levanta-se e os ratos fogem. Olha de um lado para outro. Senta-se numa cadeira. morrendo. Temem que ela ainda não saiba e preparam o choque. Precisamos fazer alguma coisa. Ela atende a todos muito delicadamente e diz: “Ele está melhor”. rasgando a roupa: “Meu filho. Então todos ficam tristes e tentam chorar. alegres. Os ratos também visitam o seu corpo. o queixo encostado no peito. Olhei-o de repente e surpreendi sua boca aberta. A mulher dá um grito e desmaia.Que desgraça! . rápidos.

As lágrimas já me chegavam aos olhos e escorriam pelo rosto. mesmo depois de ter se chocado comigo? Ah. mal conseguindo fitar-me com os olhos sonolentos.. lisa de sentimentos.. nunca. A cena me pareceu tão cômica que me torci de rir. Estaquei de súbito.. ele não se movia. Os vizinhos se assustam e pensam que ela está louca. em mim os sentimentos estão solidificados. Rompi numa gargalhada.morreu”. Contarei tanta coisa. Já pensava em outra coisa e no entanto ria sem parar. Se for preciso. Algumas pessoas voltaram a cabeça para meu lado.. Olhei-o zangado.O quê? Tirou um palito de paliteiro e meteu-o na boca. Praticante de ataraxia. Sofro. . Mas talvez o senhor não compreenda: somos diferentes.Ah. sem o saber. vão dormir. já nascem com rótulo. Por um instante assustei-me. Dizem: “Vamos chamar um padre”. . Já não tinha mais vontade de rir e no entanto continuava. devagar. E como não têm nada com a história. . . e não ligue muito.. E se estivesse morto? Sacudi-o com força e ele ergueu a cabeça. Ou talvez seja assim: o menino morra e ela seja como o senhor. diferenciados. Adormecera. completamente bêbedo. então.. Não sabem o que fazer.O senhor está louco? Pois se não comeu nada!. pacificamente? Deixá-lo continuar um caminho fácil. . farei confissões.O senhor está brincando comigo? Pensa que vou abandoná-lo assim. Ela responde: “Pra quê? pois se ele já morreu”. Ou o senhor não sabe o que é ataraxia? A cabeça deitada sobre os braços.

O cemitério.Escute-me. esse luar mais branco que o rosto de um morto. Esse luar. como disse Ema antes de nosso noivado. eu. Agora mesmo ela está sobre o cemitério também. meu amigo. Humilhe-se diante dele. lá onde dormem todos os que foram e nunca mais serão. Pense.Pense. novas coisas. amigo? Eu.. outros seres. onde o menor sussurro arrepia um vivo de terror e onde a tranquilidade das estrelas amordaça nossos gritos e estarrece nossos olhos. porém: quanto mais difícil a tarefa. Não sofre. EU. Você apareceu um instante e ele é sempre. ter que morrer um dia e. Lá. no centro do coração. pense bem.. iluminou séculos de noites e apagou-se em seculares madrugadas. a lua está alta no céu. mais atraente. Uma nebulosa de homem. milhares de séculos depois. Talvez ele se ligue ao germe do seu bisneto sofredor. tão distante e silencioso. Por isso vou jogar meu anzol dentro do senhor. amigo. Você não tem medo? O desamparo que vem da natureza. Quem sabe? . Isso não importa. indiferenciado em húmus.. e a lua indiferente e triunfante. velou sobre as águas apaziguadas dos dilúvios e das enchentes.. .. E eu Morto! respirei profundamente. amigo. Lá.É . onde não se tem lágrimas nem pensamentos que exprimam a profunda miséria de acabar. procurando-o com fúria: .. eu por mim não suporto.conscientes de si mesmos. sem olhos para o resto da eternidade. Debrucei-me sobre a mesa.. sem olhos para o resto da eternidade. Talvez seu bisneto já consiga sofrer mais. esse luar será o mesmo espectro tranquilo quando não mais existirem as marcas dos netos dos seus bisnetos. esse luar assistiu aos gritos dos primeiros monstros sobre a terra. Dói-me aqui. mãos pálidas estendidas sobre novos homens.. . Quanto ao senhor.disse ele.

Não quero morrer! Não quero morrer.Hein? . . E o prazer era maior do que o atual. enxugando os olhos. . mexia com o palito nos dentes. Depois foi muito bom porque o vinho estava misturando-se. o homem.Eu? . quando fumo realmente. .Debrucei-me sobre a mesa. “hein” o quê? .Mas se o senhor nada comeu . descendo ao meu próprio túmulo e eu mesmo fechá-lo. Mas não a inconsciência.Mas. .“O quê” o quê? . meu Deus.... com uma pancada seca.Ah. Dizia baixinho: .O senhor não tem vergonha? . vou dizer mais: eu queria morrer vivo.Ouça.Eu fazia assim em pequeno. E depois enlouquecer de dor na escuridão da terra.O quê? . Peguei também um palito e segurei-o entre os dedos como se fosse fumá-lo. Ele. .insisti. Ele continuava com o palito na boca.. escondi o rosto nas mãos e chorei.

os lábios trêmulos como se fosse chorar. As palavras vagas. os olhos piscando.É claro. ele tirou o palito da boca. . Ou era o sono? De repente. Tão bom..É claro coisa alguma.. tão suave..... Não estou pedindo aprovação.. disse: Dezembro 1941 . as frases arrastadas sem significado.

com o robe de chambre mais velho. Morte? Será que uma vez os tão longos dias terminem? Assim devaneio calma. quieta. E melhorou ainda mais quando sentou na poltrona recém-forrada de roxo (gosto de Augusta) e acendeu o primeiro cigarro do dia. já encontrando na pequena copa a garrafa térmica cheia de café. já que nunca esperava visitas. desse fumo . quando se lembrou de que a velha Augusta pedira licença por um mês para ver seu filho.não lhe agradava. Era um cigarro de marca cara. nem alegrias nem tristezas. nenhum dever. Será que a morte é um blefe? Um truque da vida? É perseguição? E assim é. Teve preguiça do longo dia que se seguiria: nenhum compromisso. pois. Tomou uma xícara morna e lá ia deixá-la para Augusta lavar.II Um dia a menos Eu desconfio que a morte vem. Mas estar tão mal vestida . Levantou-se e vestiu um pijama de sedinha de bolas azuis e brancas que Augusta lhe dera no seu último aniversário.roupa ainda da falecida mãe . sempre acordara cedo. Isso realmente melhorava. O dia começara às quatro da manhã. Sentou-se.

Augusta lhe contara que havia melhoria depois. no entanto. tinha claramente impresso seu nome: Margarida Flores. Pois então. não era muitas coisas. Por que alguém não se lembrava de apelidá-la de Margarida Flores de Jardim? É que as coisas simplesmente não eram do seu lado. Em esquina. Aliás. E depois? Depois. por mero acaso. Era uma luta constante a de ver quem chegava primeiro ao jornal que. Lá foi meio animada. nunca se sabe o que se vai ler. Mas lá não estava o jornal: o diabrete do vizinho inimigo já deveria ter carregado com ele. pois então revelou-se subitamente: então pois então era assim mesmo. . Nem pensava se era bonita ou feia. Pensou uma bobagem: até sua pequena cara era de lado. Assim mesmo havia já chegado de assim era. E por mero acaso havia nascido. Além do endereço.louro. cigarrilha estreita e comprida. se o ministro da Indochina vai se matar ou o amante ameaçado pelo pai da noiva termina se casando. qualidade social de uma pessoa que não era por acaso ela. Assim mesmo. Sempre que distraidamente via seu nome escrito lembrava-se de seu apelido na escola primária: Margarida Flores de Enterro. Lembrou-se do jornal de assinatura à sua porta de entrada. Não é? Então. Depois. Ela era óbvia.

. mais misterioso. além do mais. E que incomodava um pouco. o telefone não tocou. Raramente se via ao espelho. E ela comia muito. -Alô? Sim? -É Margarida Flores de Jardim? Diante da voz tão macia. como se já se conhecesse muito.Depois. O que já complicaria as coisas: para um drinque se deveria ir na certa vestida de modo mais audacioso. Ela não era muito pessoal. Ou então era importuna por falta de assunto. E. Por exemplo. Era o que via quando se via no espelho. Lembrou-se a tempo que hoje em dia um homem não convidava para tomar chá com torradas e sim para um drinque. responderia: -Margarida Flores de Bosques Floridos! E a cantante voz a convidaria pra tomarem chá de tarde na Confeitaria Colombo. não muito.. interrompendo um abraço sexual. Telefonaria para alguém? Mas sempre que telefonava tinha a impressão nítida de que estava sendo importuna.. Supôs o seguinte: -Trim-trim-trim. Depois havia o telefone. mais. Era gorda e sua gordura extremamente pálida e flácida. mais pessoal. Depois não tinha problemas de dinheiro. Depois. E se alguém lhe telefonasse? Iria ter que conter o trêmulo da voz alegre por alguém enfim chamá-la.

Ser virgem aos trinta anos.. E do banheiro saiu a modo de dizer em leve minueto. de ser uma mulher de trinta anos de idade.. ela se guiava pelo fato de não ser casada. disse o homem e de repente ela não aguentou e desligou o rádio. ou segundo.. Que dádiva o tempo passar. roupa pálida. Como se “flauta e viola” fossem na realidade o seu secreto. Acabados o banho e os pensamentos. o que era pecado porque quem tem Deus nunca está só.... Então foi tomar um banho que lhe deu tanto prazer que não pôde impedir de pensar como seriam outros prazeres corpóreos. Quanto a ela mesma. pouco batom. E se fosse casada. ligou o rádio e pegou um homem no meio de um pensamento: “flauta e viola”..Depois resolveu arrumar a gaveta das calcinhas e sutiãs: ela era exatamente do tipo que arrumava gavetas de calcinhas e sutiãs. . Depois viu com grande satisfação no relógio da cozinha. pois não era a única coisa que tinha? Fora Augusta. o marido teria em perfeita ordem a fileira das gravatas. Teve coragem e disse baixinho: flauta e viola. que já eram onze horas da manhã. a menos que fosse violentada por um marginal. muito talco. Segundo qualquer coisa. segundo a gradação de cor. E quantos e quantos desodorantes: duvidava que alguém no Rio de Janeiro cheirasse menos que ela. Tinha Deus. talco. de ter a mesma empregada desde que nascera. talco. Depois. não tinha jeito. Pois sempre há alguma coisa pela qual se guiar e arrumar. Como o tempo passara depressa desde quatro da madrugada. ambicionado e inalcançável modo de ser. sentia-se bem na delicada tarefa.. Talvez fosse a mais inodora das criaturas. e que mais? Evitou depressa “o que mais” pois a essa pergunta cairia num sentimento muito egoísta e ingrato: sentir-se-ia só. Enquanto esquentava a galinha esbranquiçada e pelenta do jantar.

Ficou olhando. Só depois de muito tempo percebeu que nem sequer olhava a televisão e só fazia mesmo era gastar eletricidade.Desligado o rádio e sobretudo o pensamento. Mas a essa hora só dava filmes antigos de faroeste entremeadíssimos com anúncios sobre cebolas. Depois? Depois resolveu ler revistas velhas.. Depois! Como havia esquecido a televisão? Ah. modess. E a sobremesa? Requentou um pouco de café da manhã e temperou-o com amarga sacarina para jamais engordar. há muito tempo que não o fazia. ganhariam alguma cor e sabor. Estavam amontoadas .. Depois. Depois. Depois. Seu orgulho seria ser quase mirradinha. Torceu o botão com alívio. havia trechos em que a gordura era gelatinosa e fria. Resolver acender um cigarro. Lembrou-se a troco de nada das milhões de pessoas com fome. os quartos caíram num silêncio: como se alguém em alguma parte acabasse de morrer e. Pôs-se a comer. groselhas que deveriam ser boas mas engordativas. sem Augusta ela esquecia-se de tudo. na sua terra e nas outras terras. Ligou-a toda esperançosa. e outros em que era queimada e esturricada. Isso melhoria tudo pois faria dela um quadro numa exposição: Mulher Fumando Diante de Televisão. Iria sentir um mal-estar todas as vezes em que comesse. Mas felizmente havia o barulho da frigideira esquentando os pedaços de galinha que. quem sabe. Sim. Mas logo percebeu seu erro: tendo tirado a galinha da geladeira e só a esquentado um pouco.

as modas eram outras. para não dar a entender que era uma precipitada ou uma necessitada. é claro. mastigando pequenas torradas secas que arranhavam as gengivas. Cuspiu na toalha o pedaço da terceira torrada e. Depois. de novo sem coragem de jogá-las fora já que haviam pertencido à mãe. Mas. Quando ia partindo com os dentes a terceira torrada . anúncio de cinta para afinar cintura. o que quer que significasse essa palavra moderna. por uma espécie de mania de ordem. afinal inócua e até divertida -. Além do que não tinha letra bonita e achava que sem ter letra bonita não aceitavam candidatos. algumas do tempo de solteira da mãe. Melhorariam com um pouco de manteiga. Sim e depois? Depois foi ferver água para tomar chá. e cada vez era uma dor aguda no coração pois poderiam desligar pensando que . além de aumentar o colesterol. Mas eram um pouco antigas demais. manteiga engordava. ACONTECEU! Juro. os homens todos tinham bigode. juro que ouvi o telefone tocar.no quarto da mãe. desde a sua morte. deixou-o tocar quatro vezes.ela costumava contar as coisas. quando ia comer a terceira torrada. Tomou o chá fervendo. mas não tinha trabalho: a pensão do pai e da mãe supria suas poucas necessidades.. enquanto ela não esquecia que o telefone não tocava. Se ao menos tivesse colegas de trabalho. E sobretudo todos os homens usavam bigodes. Fechou-se. se disse ela..

mas pelo menos faça-me o favor de lhe dizer que atenda logo o aparelho e já! . -Por obséquio . Madame Constança.Jovem. quando nasci. lá isso esconde. -Mas essa não é a rua General Isidro? Isso piorou a questão. . mas é que não tem aqui nenhuma. sinto lhe informar que nesta casa não vive ninguém com o nome de Flávia. e nunca houve nesta casa nenhuma jovem chamada Flávia! ..por favor pode chamar ao aparelho (ninguém dizia mais “aparelho”) para mim a Flávia? Meu nome é Constança. sei que Flávia é um nome muito romântico.Que esconde. .disse a voz feminina que devia ter mais de oitenta anos a julgar pela rouquidão arrastada . sim.disse com certo desespero por causa da voz de comando de Madame Constança.É. que é que eu posso fazer? . quem sabe.Madame Constança. mas que número de telefone pediu? O quê? O meu? Mas lhe asseguro que moro aqui há exatamente trinta nos.não havia ninguém em casa! A esse pensamento terrificante precipitou-se de súbito nessa mesma quarta chamada e conseguiu dizer com voz bem negligente: -Alô.. Flávia é um ano mais velha que eu e se esconde a idade isso é problema dela! -Talvez não esconda a idade. . coisa alguma.

. enfim? ..Deixe de ser grosseira.E isso adianta alguma coisa? Silêncio.não e-x-i-s-t-e. Só sei responder coisas que já pensei. ah...Adianta ou não adianta.Ah. .. estou mentalizando. eu estava tentando lhe dizer que nossa família foi a primeira e única moradora desta casinha e lhe afianço..Eu.Por quê? Há flores no jardim? . . e não estou dizendo que a senhora Flávia não existe. não é de empregada de criação que quero. é Flá-vi-a! . sua sirigaita! Aliás como é o seu nome? .Estou mentalizando. ah... estou perdendo a paciência. minha senhora. que nunca morou aqui nenhuma senhora Flávia. . criatura de Deus. encontrei! O nome de minha empregada de criação é Augusta! . aqui . juro por Deus. .Então faça uma forcinha e mentalize o nome de Flávia e verá que saberá responder. .Mas.É que não sei responder porque nunca tinha antes pensado nisso.. Ah. a senhora tem bom humor! Não. eu. . flores no jardim mas é que meu nome é florido.Margarida Flores do Jardim. não há. mas aqui.

. mas minha mãe sempre disse que as pessoas insistentes são mal-educadas.É.O chá é porque eu não tinha o que fazer. minha única e pura intenção era falar com Flávia para convidá-la para um joguinho de bridge. imploro de joelhos que desligue o telefone para eu acabar de tomar meu chá brasileiro. . Madame Constança.. não sei jogar jogo nenhum. . e eu a pensar que você pudesse ter estudado na Inglaterra e que soubesse pelo menos a que horas se toma chá! .Só falo a língua do Brasil.Não quero parecer grosseira.E a que se deve essa falha na sua educação? . Dona Flores. É como não.Mas como não!? . . Ah! Tive uma idéia! Já que Flávia saiu. só para praticarmos um pouco? . . E agora eu lhe imploro em nome de Deus que não me torture mais.. minha senhora.Meu Deus.É isso mesmo.Mal-educada? Eu? Criada em Paris e Londres? Você ao menos sabe francês ou inglês. desculpe! . mas não precisa choramingar por isso.Chá às três horas da tarde? Bem se vê que você não tem a mínima classe. por que é que você não vem à minha casa para umas carteadas a dinheiro baixo? Hein? Que acha? Não se sente tentada? E que acha de distrair uma senhora já de certa idade? . e creio que é tempo da senhora desligar porque a essa hora meu chá deve estar gelado.

comeu uma banana um pouco ácida. Depois eram quatro horas. Sim. A tarde estragada.. não tinha fome. Sete: hora do jantar! Gostaria de comer outra coisa e não a galinha de ontem mas aprendera a não desperdiçar comida. Depois cinco. . em vez de chá. A terceira torradinha cuspida na toalha da mesa. Depois. Era tirar o telefone do gancho para que. se a Madame Constança fosse constante como o seu nome. com licença de sua madame.Meu pai era estrito: na sua casa não entravam vícios de baralho.. Depois. E com gosto acentuado de sacarina.. sentiu-se por um instante aliviada e teve uma idéia tão nova que nem parecia dela: parecia demoníaca como as idéias da madarne. se me permite dizer e acho que. Para falar a verdade. sua mãe e Augusta eram muito antiquados. Só às .Não! Não lhe permito dizer! E quem vai desligar o telefone sou eu mesma. Seis. Assoou o nariz. Ah. não tornasse a ligar para chamar a desgraçada Flávia.Seu pai. se não tivesse bons costumes. . Ou o dia estragado? Ou a vida estragada? Nunca se detivera para pensar se era ou não feliz. Comeu uma coxa ressequida com torradinhas... o que não diria à tal da Constança! Até já estava arrependida do que não lhe dissera por ter bons costumes. Enxugando os olhos. Então. O chá estava gelado.

pensativa. Eu. E não era um simples ensaio: era na verdade um estréia. Abriu um dos vidros: tirou duas das pequenas pílulas. Escovou os dentes durante muito tempo. Foi buscar a jarra e um copo. já sentia uma coisa nas pernas. . Foi ao quarto de sua mãe. ah. ainda das feitas pela mãe. Mas ninguém no mundo saberá. e só tomo duas pilulazinhas. o suficiente para ter um sono tranquilo e acordar toda rosada para meu maridinho. De olhos abertos.vezes se animava com Augusta porque falavam. Mas no segundo vidro pensou pela primeira vez na vida: “Eu”.e realmente encontrou três vidros cheios de bolinhas. Tinha gosto de mofo e açúcar. E agora para sempre não se saberá julgar se foi por desequilíbrio ou enfim por um grande equilíbrio: copo após copo engoliu todas as pílulas dos três grandes vidros. Foi então que pensou nos vidros de pílulas contra insônia que haviam pertencido à mãe. Toda ela enfim estreava. Não notava em si a menor má intenção. E entrou na cama. Isso. Leontina. De olhos abertos. comiam fora da dieta e nem engordavam! Mas Augusta ia se ausentar um mês. daqueles gostosos. Não tinha nenhuma má intenção. E antes mesmo que terminassem. falavam e comiam. pensou Margarida das Flores no Jardim. respondia Leontina. uma dose a mais pode ser fatal. Oito horas. Ia tomar duas pílulas para amanhecer rosada. Lembrou-se de seu pai: cuidado. Já podia se deitar. dormir um bom soninho e acordar rosada. com a dose. abriu uma gaveta do lado esquerdo da grande cama de casal . sob as cobertas. De olhos abertos. não quero largar esta boa vida tão cedo. Um mês é uma vida. Vestiu uma camisola rasgadinha de algodão meio puído.

tão boa quanto nunca antes sentira. 1977 . Era um dia a menos. Não teve força para ir para o seu próprio quarto: deixou-se cair de través na cama onde a tinham gerado. Ela nem sabia que era domingo. Vagamente pensou: se pelo menos Augusta tivesse deixado pronta uma torta de framboesa.

A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais

Começa: Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a “seu” José para vir buscá-la às cinco, não calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só massagem. Que devia fazer? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas - era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros, e nesses outros ela se refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era - era puro, pensou sem se entender. Quando se viu no espelho - a pele trigueira pelos banhos de sol fazia ressaltar as flores douradas perto do rosto nos cabelos negros -, conteve-se para não exclamar um “ah!” - pois ela era cinquenta milhões de unidades de gente linda. Nunca houve - em todo o passado do mundo - alguém que fosse como ela. E depois, em três trilhões de trilhões de anos não haveria uma moça exatamente como ela. “Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão!”

Este momento era único – e ela teria durante a vida milhares de momentos únicos. Até suou frio na testa, por tanto lhe ser dado e por ela avidamente tomado.

“A beleza pode levar à espécie de loucura que é a paixão.” Pensou: “estou casada, tenho três filhos, estou segura.” Ela tinha um nome a preservar: era Carla de Sousa e Santos. Eram importantes o “de” e o “e”: marcavam classe e quatrocentos anos de carioca. Vivia nas manadas de mulheres e homens que, sim, que simplesmente “podiam”. Podiam o quê? Ora, simplesmente podiam. E ainda por cima, viscosos pois que o “podia” deles era bem oleado nas máquinas que corriam sem barulho de metal ferrugento. Ela, que era uma potência. Uma geração de energia elétrica. Ela, que para descansar usava os vinhedos do seu sítio. Possuía tradições podres mas de pé. E como não havia nenhum novo critério para sustentar as vagas e grandes esperanças, a pesada tradição ainda vigorava. Tradição de quê? De nada, se se quisesse apurar. Tinha a seu favor apenas o fato de que os habitantes tinham uma longa linhagem atrás de si, o que, apesar de linhagem plebeia, bastava para lhes dar uma certa pose de dignidade. Pensou assim, toda enovelada: “Ela que, sendo mulher, o que lhe parecia engraçado ser ou não ser, sabia que se fosse homem, naturalmente seria banqueiro, coisa normal que acontece entre os “dela”, isto é, de sua classe social, à qual o marido, porém, alcançara com muito trabalho e que o classificava de “self made man” enquanto ela não era uma “self made woman”. No fim do longo pensamento, pareceu-lhe que – que não pensara em nada. Um homem sem uma perna, agarrando-se numa muleta, parou diante dela e disse: - Moça, me dá um dinheiro para eu comer?

“Socorro!!!” gritou-se para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem. “Socorreme, Deus”, disse baixinho. Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta. Se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel que ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse. Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie. Pelo menos de espécie diferente da dela. “Da dela?” “Que espécie de ela era para ser ‘da dela’?” Ela – os outros. Mas, mas a morte não nos separa, pensou de repente e seu rosto tomou ar de uma máscara de beleza e não beleza de gente: sua cara por um momento se endureceu. Pensamento do mendigo: “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa, ou não me dá ou me dá muito pouco”. Ocorreu-lhe então, um pouco cansado: “ou dá quase nada”. Ela espantada: como praticamente não andava na rua – era de carro de porta à porta – chegou a pensar: ele vai me matar? Estava atarantada e perguntou: - Quanto é que se costuma dar? - O que a pessoa pode dar e quer dar - respondeu o mendigo espantadíssimo. Ela, que não pagava o salão de beleza, o gerente deste mandava cada mês sua conta para a secretária do marido. “Marido”. Ela pensou: o marido o que faria com o mendigo? Sabia que: nada. Eles não fazem nada. E ela – ela era “eles” também. Tudo o que pode dar? Podia dar o banco do marido, poderia lhe dar seu apartamento, sua casa de campo, suas jóias... Mas alguma coisa que era uma avareza de todo o mundo, perguntou: - Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho.

A cabeça dela era cheia de festas. Abriu-a. O mendigo gastava tudo o que tinha. Festejando o quê? Festejando a ferida alheia? Uma coisa os unia: ambos tinham uma vocação por dinheiro. festas. comida boa.Olhe – disse ele -. moça? .. comida. Não.Eu?? Não estou não. só tenho essa nota de quinhentos. enquanto o marido de Carla. disse qualquer coisa quase incompreensível por causa da má dicção de poucos dentes. O homem perplexo. mostrando as gengivas quase vazias: . dinheiro. banqueiro. isso Carla sabia: “quem não tem bom emprego depois de certa idade. Mas. Enquanto isso a cabeça dele pensava: comida.Eu não tenho trocado. tirou-lhe a nota e estendeu-a humildemente ao homem. O ganha-pão do mendigo era a redonda ferida aberta. Era melhor me dar trocado. . se ficasse bom. investia na ferida grande em carne viva e purulenta. não teria o que comer. e lucro. poderia ser pintor de paredes... devia ter medo de ficar curado. e inflação. porque. E depois rindo.Está rindo de mim. O homem pareceu assustar-se. dinheiro. eu tenho mesmo os quinhentos na bolsa..” Se fosse moço. colecionava dinheiro.. a vida não era . adivinhou ela.. ou a senhora é muito boa ou não está bem da cabeça. Como não era. não vá dizer depois que roubei. E ainda por cima. quase lhe pedindo desculpas. aceito. .O mendigo olhou-a espantado. festas. ninguém vai me acreditar. O ganha-pão era a Bolsa de Valores.

fora o marido que determinara que teriam dois. Mas não pôde se impedir de ver nascer em si mais um pensamento absurdo: ele já fez esportes de inverno na Suíça? Desesperou-se então. as pessoas na rua imobilizaram-se – só seu coração batia. Que morram todos os ricos! Seria a solução. Faziam tudo por ela. Ela se encostou na parede e resolveu deliberadamente pensar. Desesperou-se tanto que lhe veio o pensamento feito de duas palavras apenas “Justiça Social”. Ela era isso: como uma fotografia colorida fora de foco.. com cabelos negros e unhas compridas e vermelhas. Era diferente porque não tinha o hábito e ela não sabia que pensamento era visão e compreensão e que ninguém podia se intimar assim: pense! Bem. . Assim: esse mendigo sabe inglês? Esse mendigo já comeu caviar. e para quê? Viu que não sabia gerir o mundo. bebendo champanhe? Eram pensamentos tolos porque claramente sabia que o mendigo não sabia inglês. Só que tinha os pensamentos mais tolos. Até mesmo os dois filhos – pois bem. pensou alegre. Fazia todos os dias a lista do que precisava ou queria fazer no dia seguinte – era desse modo que se ligara ao tempo vazio. os relógios pararam. Mas acontece que resolver era um obstáculo. nem experimentara caviar e champanhe. Era uma incapaz. os carros pararam. Mas – quem daria dinheiro aos pobres? De repente – de repente tudo parou. Simplesmente ela não tinha o que fazer.bonita. Os ônibus pararam. Pôs-se então a olhar para dentro de si e realmente começaram a acontecer..

O mundo não sussurrava. quando dançasse. Isso era vencer? Que paciência tinha que ter consigo mesma. O seguinte: olhe. A jovem senhora do banqueiro pensou que não ia suportar a falta de maciez que se lhe jogavam no rosto tão maquilado. a cara lambuzada de maquilagem e lantejoulas douradas. E não havia água! Sabe o que é isso – não haver água? Quis pensar em outra coisa e esquecer o difícil momento presente. Que paciência tinha que ter para salvar a sua própria vida. “vencedora”? Se vencer fosse estar em plena tarde clara na rua. O mundo gri-ta-va!!! Pela boca desdentada desse homem. pudesse usufruir em paz seu extraordinário bem-estar. disse que tinha onze filhos. Teve uma vontade inesperadamente assassina: a de matar todos os mendigos do mundo! Somente para que ela.“Tem-se que fazer força para vencer na vida”. coberto de silêncio. quando adolescente.. Salvar de quê? Do julgamento? Mas quem julgava? Sentiu a boca inteiramente seca e a garganta em fogo – exatamente como quando tinha que se submeter a exames escolares. por acaso. depois da matança. o mendigo também tem sexo... E a festa? Como diria na festa. como diria ao parceiro que a teria entre os braços. era muito sensível a palavras e porque desejava para si mesma o destino de resplendor do lago de TIBERÍADE. sob o voo das rolas. mais azul que o céu.” Sabia de cor porque. Ele não vai a . Seria ela. de rochas de pórfiro. e alvos terrenos por entre os palmares. Então lembrou-se de frases de um livro póstumo de Eça de Queirós que havia estudado no ginásio: “O lago de Tiberíade resplandeceu transparente. todo orlado de prados floridos. Não.. dissera-lhe o avô morto. de densos vergeis.

Colegas em quê? Em se vestir bem? Em dar jantares para trinta. mas eu estou doida? Eu caí num esquema? Num esquema de gente rica? “Antes de casar era de classe média.” “A beleza pode ser de uma grande ameaça. “luz de vela”? pensou.reuniões sociais. Sim. pensou. “Carne?” Lembrou-se vagamente que a cozinheira dissera que o “filet mignon” subira de preço. a vida não é isso. ele na verdade só quer comer mingau pois não tem dentes para mastigar carne. ele tem fome de pão e não de bolos. .” A extrema graça se confundiu com uma perplexidade e uma funda melancolia. ela não era mulher de ter chiliques e fricotes e ir desmaiar ou se sentir mal.. a luz de vela. ele não sai nas colunas do Ibrahim. não queria pensar nisso. Estou é brincando de viver. Ela uma vez vira uma amiga inteiramente de coração torcido e doído e doido de forte paixão. pensou ajeitando as flores douradas sobre os negríssimos cabelos. “Se eu não fosse tão bonita teria tido outro destino”.... Sorriu um pouco ao pensar em termos de “coleguinhas”. Como algumas de suas “coleguinhas” de sociedade. quarenta pessoas? Ela mesma aproveitando o jardim no verão que se extinguia dera uma recepção para quantos convidados? Não. Então não quisera nunca experimentar. Não. ou do Zózimo. Sempre tivera medo das coisas belas demais ou horríveis demais: é que não sabia em si como responder-lhes e se responderia se fosse igualmente bela ou igualmente horrível. lembrou-se (por que sem o mesmo prazer?) das mesas espalhadas sobre a relva. secretária do banqueiro com quem se casara agora e agora – agora luz de velas. “A beleza assusta”. Como poderia ela dançar? Só se fosse uma dança doida e macabra de mendigos.

Para mudar de sentimento – pois que ela não os aguentava e já tinha vontade de. se houvesse. com quem se casaria? Começou a rir um pouco histericamente porque pensara: o terceiro marido era o mendigo. como saber dessa miséria de alma”. para mudar de sentimentos pensou: este é o meu segundo casamento. Vendera-se. ela o aceitara porque ele era rico e era um pouco acima dela em nível social. .O senhor fala inglês? O homem nem sequer sabia o que ela lhe perguntara. ia demorar muito. Descobria isso agora. ali. ela aceitava este segundo porque ele lhe dava grande prestígio. E o segundo marido? Seu casamento estava findando. casara-se pela primeira vez com o homem que “dava mais”. Se houvesse para ela um terceiro casamento – pois era bonita e rica -.. Sim. Aliás. Teve vontade de gritar para o mundo: “Eu não sou ruim! Sou um produto nem sei de quê. De repente perguntou ao mendigo: . dar um pontapé violento na ferida do mendigo -. e ela tudo suportando porque um rompimento seria escandaloso: seu nome era por demais citado nas colunas sociais. à sua mão no Louvre. isto é. pensou rindo de si mesma.. obrigado a responder pois a mulher já o comprara-o com tanto dinheiro. Agora entendia por que se casara da primeira vez e estava em leilão: quem dá mais? Quem dá mais? Então está vendida.Estava assustada quando vira o sorriso de Mona Lisa. ele com duas amantes. Como se assustara com o homem da ferida ou com a ferida do homem. por desespero. saiu pela evasiva. E voltaria ela a seu nome de solteira? Até habituar-se ao seu nome de solteira. aliás. o marido anterior estava vivo. Vendera-se às colunas sociais? Sim. Mas.

.. Mas quis fingir que não era. tão rica que teve um mal-estar. E o mendigo é Jesus. Eu sou o Diabo. Todos. esse homem se perdeu na humanidade como eu também me perdi. Pois não estou falando agora mesmo com a senhora? Por quê? A senhora é surda? Então vou gritar: FALO. E mesmo que não fingissem iam ter um mal-estar.. .Falo sim. pensou lembrando-se do que aprendera na infância. começou a suar frio. nem isso teriam. não falam nenhuma língua e que havia multidões anônimas mendigando para sobreviver. Tomava plena consciência de que até agora fingira que não havia os que passam fome.. Afinal de contas quem era ela? Sem comentários. Que usinas. santo Deus? As do Ministro Galhardo? Teria ele usinas? A “energia elétrica. é amor. Ela soubera sim. mas desviara a cabeça e tampara os olhos. hidrelétrica”? E a magia essencial de viver – onde estava agora? Em que canto do mundo? No homem sentado na esquina? A mola do mundo é dinheiro? Fez-se ela a pergunta. mas todos – sabem e fingem que não sabem. Ela era. Espantada pelos enormes gritos do homem. Quis forçar-se a entender o mundo e só conseguiu lembrar-se de fragmentos de frases ditas pelos amigos do marido: “essas usinas não serão suficientes”. Mas – o que ele quer não é dinheiro. eram de corpo.. sobretudo porque a pergunta não durou um átimo de segundo: pergunta e resposta não tinham sido pensamentos de cabeça. Como não teriam? Não. Sentiu-se tão.

homem. alegre.Pensamento do mendigo: “Essa mulher é doida ou roubou o dinheiro porque milionária ela não pode ser”. Mas de repente aquele pensamento gritado: . gente? Então pensou: ela é daquelas vagabundas que cobram caro de cada freguês e com certeza está cumprindo alguma promessa? Depois. Eu. me sentar no fio da calçada. Eram. Depois. “Há coisas que nos igualam”. Nascer foi a minha pior desgraça. pensou procurando desesperadamente outro ponto de igualdade. mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita. Estou prestes a. Teve vontade de dizer: olhe. sinto-me com direito a tudo. Veio de repente a resposta: eram iguais porque haviam nascido e ambos morreriam. pois. aceitável. milionária era para ele apenas uma palavra e mesmo se nessa mulher ele quisesse encarnar uma milionária não poderia porque: onde se viu milionária ficar parada de pé na rua. eu também sou uma pobre coitada. irmãos. Silêncio. . e minha roupa de alma está maltrapilha. Tendo já pagado esse maldito acontecimento. de um momento para o outro. a única diferença é que sou rica.Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes. eu estou perto de desmoralizar o dinheiro ameaçando o crédito do meu marido na praça..... pensou com ferocidade.

sua riqueza e até os seus perfumes. No plano físico eles eram iguais.A senhora está se sentindo mal? .” Nunca mais seria a mesma pessoa. não sei. ele . Simplesmente isso. Mas – mesmo este era em hora errada. nem quem era o Presidente do Brasil. porém. Quanto a ela. tinha uma cultura mediana. ele era agora o “eu” alter-ego. ela nunca a vira tão de perto. como levada de um empurrão e derramar por isso vinho tinto em branco vestido de renda. .. mas não estou bem... O mendigo se carrega a si mesmo. tinha uma capacidade aguda de compreender. Parecia-lhe difícil despedir-se dele.. De repente sabia: esse mendigo era feito da mesma matéria que ela.Tinha medo. que estivera em contato com uma ferida que pedia dinheiro para comer – passou a só pensar em dinheiro? Dinheiro esse que sempre fora óbvio para ela. Será que estivera até agora com a inteligência embutida? Mas se ela já há pouco. Realmente no baile ela reverdeceria seus elementos de atração e tudo voltaria ao normal. seus apartamentos.Hoje no baile a senhora se recupera e tudo volta ao normal – disse José.. .. Não que jamais tivesse visto um mendigo. Sentou-se no banco do carro refrigerado lançando antes de partir o último olhar àquele companheiro de hora e meia. Ela. O “porquê” é que era diferente. Mas de repente deu o grande pulo de sua vida: corajosamente sentou-se no chão.Não estou mal. E a ferida. Pensou: o corpo é uma coisa que estando doente a gente carrega. e ele não parecia saber de nada. “E como comunista teria direito às suas joias. “Vai ver que ela é comunista!” pensou meio a meio o mendigo.

Mas houve um momento em que ela começou a chorar. desde quando havia nascido. aos trinta e cinco anos de idade. . de. amante das óperas. fingira não notar que ela cantava mal. E tudo na sua vida.. cantar bem. tenho medo também de cantar muito. Mas você canta muito mal. como uma perplexidade. Lembrou-se de que em adolescente procurara um destino e escolhera cantar. O professor perplexo perguntara-lhe o que tinha. Mas cantava mal. de lábios entreabertos como se houvesse à beira deles uma palavra.É que eu tenho medo de. Não soube deduzir nada com essa frase. Essa história de procurar a arte para entender só lhe acontecera uma vez – depois mergulhara num esquecimento que só agora. quando o motorista ligou o rádio. ela que estava precisando de um destino. através da ferida. Há quanto tempo não ouvia a chamada música clássica porque esta poderia tirá-la do sono automático em que vivia. Eu – estou brincando de viver. facilmente lhe arranjaram um bom professor. tudo na sua vida fora macio como pulo do gato. dissera-lhe o professor. Ter uma ferida na perna – é uma realidade. precisava ou cantar muito mal ou cantar muito bem – estava desnorteada. No mês que vem ia a New York e descobriu que essa ida era como uma nova mentira. E assim. ouviu que o bacalhau produzia nove mil óvulos por ano. Maaaaal mal demais! Chorava ela e nunca teve mais nenhuma aula de canto. ela mesma sabia e seu pai. Por um motivo que ela não saberia explicar – ele era verdadeiramente ela mesma. . Como parte de sua educação.fazia parte para sempre de sua vida. de. . Estava sonhadora. Adeus.Também tenho medo.. distraída. muito mais mal ainda. de.

(No carro andando) De repente pensou: nem lembrei de perguntar o nome dele. 1977 .

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