A presença de Petrarca em John Donne. NAUGLE, David. John Donne's Poetic Philosophy of Love.

O primeiro parágrafo do texto deidica-se à extensa exploração do termo (amor) na obra do poeta inglês. Ao afirmar que ―Love was the supreme concern of his mind, the preoccupation of his heart, the focus of his experience, and the subject of his poetry‖, já é patente um diálogo com o modelo petra rquista – pelo menos no em relação ao objeto, uma vez que em ambos os poetas, o amor é motivo de investigação consciente e racional, contrariando a noção moderna de que esse afeto estaria no âmbito das paixões e da irracionalidade, ausente de raciocínio e reflexão. Essa tese é confirmada no parágrafo senguinte, no qual Naugle delega a função de ―love’s philosopher/poet or poet/philosopher‖ a John Donne e reforça o aspecto imaginativo1 presente em sua poesia. Em seguida, o autor pretende precisar a natureza dessa investigação realizada por Donne, ou seja, se ela de alguma forma se apresenta de maneira leviana e jocosa, se o argumento reflexivo se mostra sério e preocupado, ou ainda, se há uma alternância na abordagem da ―filosofia do amor‖ nas poesias sacras e profanas do autor. A relevância – para nosso trabalho – dessa tentativa de resposta ―definitiva‖ debruça-se na ferramenta usada por Naugle: a fim de esmiuçar a intenção do soneto, o crítico lança mão de Petrarca e de Ovídio – constituintes do próprio Cristianismo Platônico, como elementos fundadores da filosofia do amor realizada por John Donne2. Há, então, feitas as considerações iniciais, uma demonstração da presença de Ovídio nos poetas ingleses daquele momento histórico, que vivia uma reverberação do Renascimento italiano. Havia em poetas como Marlowe, Spenser, Shakespeare e Donne, um empréstimo de alguns versos de Ovídio, portanto sua influência era notoriamente presente e, por conseguinte, as características do amor empregadas pelo romano: ―Ovid’s writings on love and lust are risqué, satirical, cynical and ironic‖, nas palavras de Naugle, em opoisção à postura mais apaixona e romântica de Petrarca.
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No sentido da potência de imaginar, que difere da capacidade de devaneio dessa faculdade. 2 ―Donne’s own Christian Platonism‖ no original. Tradução livre.

Ovid deals in giggles and Petrarch in sighs and tears. Did he deploy Ovidian themes and imagery in order to explore and perhaps promote a rank sexuality. seguem algumas hipóteses deixadas em aberto pelo escritor. As questões demonstram uma preocupação da real do método de Donne ao utilizar caracterizações de Ovídio sobre o amor. her hair. Ovid is satiric and ironic whereas Petrarch is serious and straightforward. pois é a dor que reaviva na memória a imagem da amada. aqui elencadas: Were his precepts and examples about love presented aslascivious lessons in the unvarnished art of lust. 3 Sempre reflexivo. do ragionare. her illness‖.Antes de ponderar sobre a participação direta ou indireta de Petrarca. . ―Petrarch writes under the aegis of the tragic mask and Ovid under the comic. Andreasen faz entre os dois poetas já citados. . combustível necessário para a real compreensão do sentimento amoroso. Após essa apresentação. taken together these two traditions cover the whole range of possibilities for dramatizing profane love‖ (Andreasen 54). e principalmente elege o amor3 como uma maneira nobre de vida. e por isso fundamental para o movimento Erótico. o texto entra decisivamente em Petrarca e evoca termos comuns entre as obras. . . que para Petrarca é motivo. que por estilo e até um didatismo se propõe a responder após a exposição da leitura comparada entre o poeta italiano e o inglês. como ―the lady’s eyes. Ao citar Donal Guss. . No entanto a tese sustentada é de que há uma distinção entre o modelo petrarquista e a postura da poesia de Donne perante o amor sentimetal e espiritual não correspondido. or was he writing as a moral satirist in an attempt to demonstrate the foibles and frustrations associated with prurient sexuality? The second question has to do with Donne’s own use of Ovid. Ovid would correct by indirection and Petrarch by direction. logo o raciocínio é refrescado. segundo ele. há algumas análises de certas poesias que se enquadrariam nessa suposta influência de Ovídio. . . essa por sua vez se aproximaria mais de Ovídio: percebe no prazer físico uma maneira de suavizar a dor interna. or did he possibly draw upon the Roman writer satirically and for implicitly moral purposes? O modo de introduzir a temática petrarquista em seu texto consiste na diferenciação que Nancy C.

excessive. e para Naugle. Diferentemente. na qual o amor em seus sonetos sofre uma transformação. Nesses termos. restless. não será necessária a este trabalho – entre os dois poetas. O primeiro pertence ao amor vulgar. há três diálogos confessionais entre Petrarca e Agostinho. característica que segundo o texto – se apoiando mais uma vez em Andreasen – é fonte abundante e decisiva no modelo poético de John Donne. Donne estaria nesse meio entre a exaltação do amor carnal (Ovídio) e do amor nobre (Petrarca). expressed in sighs and tears. o foco passa da musa para Deus. incitado por Laura. as energias gastas nesse amor exacerbado deveriam ser investidas em Deus.altamente intelectualizado. Portanto. o amor sacro se inclina sobre a relação do Homem com Deus. maddening love that is ultimately irrational and incapable of satisfaction… the mood of misery. até o ponto em que o Amor passa a ser o Pensamento do Amor. o texto encara algumas temáticas comuns – cuja listagem. Ainda para Andreasen tanto Ovídio como Petrarca eram lidos nessa esfera semântica católica. O que é digno de nota é que o trabalho de Naugle introduz o cristianismo pela esfera teológica em Petrarca. Após a introdução da importância do poeta italiano. nos quais o segundo leva o poeta a perceber seu erro por excesso em sua relação com Laura. há a separação do caminho para o Amor petrarquista em dois: o profano e o sacro4. Em texto publicado postumamente. pois se preocupa em discernir a dualidade humana entre corpo e alma e em se esquivar da imoralidade de Ovídio e da idolatria de 4 ―Profane Petrarchan love‖ e ―profane Petrarchan love‖. . respectivamente. e o catalisador e guia do poeta nessa direção foi Santo Agostinho. despair. e assim inverte a ordem moral do sonetista. ―It is a violent. Feitas as distinções. and unhappiness. a princípio. e a abertura das possibilidades de diálogo entre uma obra e outra. is most characteristic of this aspect of Petrarchan love‖. e também responsabiliza o amor profano pela sua infelicidade e miséria espiritual. o Cristianismo entra novamente em evidência. no sentido de que o amor vulgar deveria ser corrigido para que não houvesse um desvio no amor humano por Deus.

o Cristianismo Platônico5 seria o mecanismo mais eficiente para atuar sobre o equilíbrio entre alma e corpo6. e a seguir. for Donne. cuja base passa pelo belo corpo como passo inicial. isto é. é através dele que se inicia o percurso. Pelo menos por hora. David Naugle conclui que: ―Although we do hear the souls of the lovers speak in a Neoplatonic state of ecstasis.‖ Aqui. nor soul only. Apesar de sua predileção pela alma. o poeta se alia ao Cristianismo Platônico e a Petrarca no meio em que reside as circunstâncias propícias no caminho para a compreensão do Amor e do erotismo: o corpo.Petrarca.‖ São essas as considerações que o crítico faz sobre a presença petrarquista em John Donne. porém a análise construída não entrará nesse trabalho. . ―It is a philosophy of love that seeks to balance the roles and establish right relations between both body and soul. e portanto. There is. uma ponte direcionada à transcendência. Nesse início 5 6 Ver Nota 2. ―physical beauty in the body would reflect spiritual beauty in the soul. se propõe a analisar o poema The Esctasy. o corpo. a ladder of ascent from the physical to the purely spiritual. therefore. was not body only. A coligação entre os três forma um triângulo crítico na interpretação do Amor para a elevação do espírito. but soul and body working together in tandem. o corpo se torna um meio. and spiritual beauty in the soul would reflect the very beauty of God. que tem por fundação a tríade de influência Cristianismo Platônico/Petrarca/Ovídio. à metafísica. but both would be necessary in the grand unity of things‖. a beleza física é a abertura para o aperfeiçoamento espiritual. Nisso há o acesso de John Donne nesse pilar duplo do entendimento do amor. Nas palavras de Naugle. ou seja. Love. Para Naugle. Citando Louis Martz. tentaremos nos ater nas relações mais palpáveis entre os dois poetas. Tanto para a concepção platônica e para o modelo petrarquista. a beleza física é fulcral na perseguição da ampla contemplação do Amor. such is the natural state of man‖ (180). é central a percepção de que para ambos. ressalta Naugle. in which the souls go forth from the body to discover the True and the One— nevertheless the Truth that they discover is in fact the Truth of Aristotle and the synthesis of St Thomas Aquinas: that the soul must work through the body.

seja a fortuna crítica.de estudo. . esse será nosso norte a ser seguido nas próximas obras a serem lidas – sejam os poemas em sim.

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