INSEGURANÇA SOCIAL E SURGIMENTO DA PREOCUPAÇÃO COM A SEGURANÇA SOCIAL INSECURITY AND THE EMERGENCE OF CONCERNS ABOUT SECURITY

Loïc Wacquant* Universidade de Berkeley

A análise comparada da evolução da pena nos países avançados durante a década passada demonstra uma ligação estreita entre o sucesso do neoliberalismo como projeto ideológico e prática governamental que ordena a submissão ao “livre mercado” e a celebração da “responsabilidade individual” em todos os domínios, por um lado, e o desenvolvimento de políticas de segurança ativas e punitivas circunscritas à delinquência de rua e as categorias situadas às margens da nova ordem econômica e moral que ocorre sob o império conjunto do capital financeiro e do salário flexível, por outro.1 Essas políticas foram objeto de um consenso político sem precedente e de uma ampla aceitação pública que transcende as fronteiras de classe, em favor de uma bagunça midiática tenaz entre criminalidade, pobreza e imigração, assim como uma confusão constante entre insegurança e “sentimento de insegurança”. Essa confusão é criada para canalizar para a figura do delinquente de rua (de pele escura) a ansiedade difusa causada por uma série de transformações conexas: mudanças de salário, crise da família patriarcal e erosão das relações tradicionais de autoridade entre as categorias de idade e sexo, decomposição dos territórios tradicionais dos operários e intensificação da competição escolar como meio de acesso ao emprego. A severidade penal é, então, apresentada praticamente por todo lado e por todos como uma necessidade saudável, um reflexo indispensável de autodefesa do corpo social
Professor de Sociologia na Universidade da Califórnia – Berkeley e pesquisador no Centro de Sociologia Européia em Paris. Seus trabalhos, publicados em várias línguas, abordam as questões da desigualdade urbana, a incorporação, o Estado penal, a dominação etnoracial e a teoria sociológica. Dentre seus livros recentes, temos The Mystery of Ministry: Pierre Bourdieu and Democratic Politics(2005), Parias urbains. Ghetto, banlieues, État(2006), e Punishing the Poor: The New Government of Social Insecurity(lançado em 2008). É co-fundador e director da revista interdisciplinary Etnography. 1 Esse artigo apresenta as grandes linhas de meu livro Punishing the Poor: The New Government of Social Insecurity(Durham e Londres; Duke University Press, 2008), apoiando-se no prefácio e no primeiro capítulo. Uma versão francesa desse livro ainda será publicada.
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Tradução Translation

A GENERALIZAÇÃO DA INSEGURANÇA SOCIAL E SEUS EFEITOS A expansão e glorificação repentinas do Estado penal nos Estados Unidos a partir da metade dos anos de 1970. État. banlieues. Paris. porque eles são a encarnação viva e ameaçadora da insegurança social generalizada produzida pela erosão do salário estável e homogêneo (promovido pelo paradigma de emprego na época das décadas de expansão fordista entre 1945 e 1975) e pela decomposição das solidariedades de classe e de cultura que a estabilidade econômica sustentava em um quadro nacional claramente circunscrito. La Découverte. desde o local que essas pessoas ocupam nas cidades. Robert Castel. não correspondem a nenhuma ruptura na evolução da criminalidade: os crimes não mudaram bruscamente de escala ou de padrão durante esse período seja em um ou no outro lado do Atlântico. Paris. e depois em toda a Europa segundo os mesmos esquemas.3 Com o esgarçamento Loïc Wacquant. 1995 e Loïc Wacquant. vinte anos mais tarde. Não foi tanto a criminalidade que mudou. Les Métamorphoses de la question sociale. Ghetto. sua presença indesejável e suas ações intoleráveis. imigrados pós-coloniais sem passaporte e documentos nem relações fixas – subitamente se tornaram proeminentes no espaço público. no final das contas. A grande experiência norte-americana da “guerra contra o crime” se impôs como a referência incontornável dos governos do Primeiro Mundo. Les Prisons de la misère. ou seja. como querem fazer crer os responsáveis pelo mito acadêmico da “tolerância zero” que se espalhou por todo o planeta. nômades e dependentes químicos à deriva. Fayard. Esse fenômeno também não traduz um aumento da eficiência do aparelho repressivo que justificasse seu reforço. Essas categorias-detrito – jovens desempregados e sem domicílio fixo. 2007.2 Constrangido entre a alternativa oblíqua entre catastrofismo e angelismo. mas o olhar que a sociedade passou a ter sobre algumas ilegalidades de visibilidade pública. Parias urbains. até os usos e tradições delas passaram a ser explorados nos âmbitos político e midiático. sobre as populações deserdadas e desamparadas (por seu status ou origem) que começaram a recair a suspeita de crimes. Paris. Raisons d’Agir Editions. a fonte teórica e a inspiração prática do endurecimento generalizado da pena que se traduziu em todos os países avançados por uma hipertrofia espetacular da população carcerária.199 ameaçado pela gangrena da criminalidade. quem quer que ouse questionar as “evidências” do pensamento securitário único que reina hoje sem divisão se vê certamente (des)qualificado como um doce sonhador ou um ideólogo culpavelmente ignorante quanto às rudes realidades da vida urbana contemporânea. qualquer que seja sua gravidade. 1999. 3 2 Panóptica 19 (2010): 198-213 . Une chronique du salariat.

judiciárias e penitenciárias que se observa na maior parte dos países do Primeiro Mundo há uns vinte anos decorre de uma tripla transformação do Estado. que atinge (objetivamente) as famílias das classes populares desprovidas de capital cultural requerido para alcançar os setores protegidos do mercado de trabalho. a normalização do trabalho informal alimenta no conjunto as sociedades do continente com uma poderosa corrente de ansiedade. Criminalização das proteções sociais que conduz à substituição do direito coletivo ao seguro contra o desemprego e a pobreza pela obrigação individual de atividade (workfare nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. aliados sob a bandeira do neoliberalismo. Babb. Essas mutações são o produto da mudança na relação de forças entre as classes e os grupos que lutam a todo momento pelo controle do mundo do emprego. tendo como pano de fundo a miséria dos trabalhadores norte-americanos e o desemprego em massa contínuo na Europa. difusa e multiforme. mas que também enche de cólera (subjetivamente) amplos setores das classes médias. descontinuidade e dispersão dos trajetos profissionais) e a seus efeitos destruidores nos níveis inferiores da estrutura social e espacial. É essa insegurança social e mental. e a angústia por não poder transmitir seu status aos seus filhos em uma competição sempre mais intensa e incerta para a obtenção de títulos e postos de trabalho. p. Essa transformação é a resposta burocrática dada pelas elites políticas para as mutações do emprego (terceirização e polarização dos postos de trabalho. etc. 4 Panóptica 19 (2010): 198-213 . The Rebirth of the Liberal Creed: Paths to Neoliberalism in Four Countries. emprego ALE na Bélgica. flexibilização e intensificação do trabalho. que tomaram a ponta e realizaram uma vasta campanha de reconstrução do poder público de acordo com seus interesses materiais e simbólicos. Essa corrente introduz o medo do futuro. 533-579. ler Marion Fourcade-Gourinchas e Sarah L. nessa luta. que o novo discurso marcial dos políticos e das mídias sobre a delinquência captou para fixá-lo tão somente sobre a questão da insegurança física ou criminal. a raiva pela queda e crise sociais. PARE e RMA na França. a retração de sua proteção social e o aumento considerável de sua atuação penal. aliando a amputação de seu braço econômico. reforma Hartz na Alemanha.200 das fronteiras da nação pela hipermobilidade do capital. De fato. são os grandes empregadores transnacionais e as frações “modernizadoras” da burguesia cultura e da alta nobreza do Estado. in American Journal of Sociology 108(novembro de 2002). o endurecimento generalizado das políticas policialescas. que contribui simultaneamente para acelerar e ocultar. a ampliação dos fluxos migratórios e a integração europeia. E. individualização dos contratos de emprego.4 Mercantilização dos bens públicos e aumento do trabalho precário e sub-remunerado.) com o intuito de impor o asssalariado Para uma análise das variações nacionais desse esquema comum.

ou seja. Essas três tendências são autoimplicadas e autoimbrincadas em uma cadeia causal autorelacionada que reconstrói o perímetro e redefine as modalidades de ação do poder público.6 É o mercado que lhe fornece sua metáfora maior e o mecanismo de seleção que supostamente assegura a “sobrevivência do mais apto”. como seu predecessor do início do século XX. Guilford Press. Social Darwinism in European and American Thought. que tinha como missão diminuir os ciclos recessivos da economia de mercado. descrito a partir de bases radicalmente desistoricizadas que. assinalando suas carências de caráter ou de comportamento. 2001 e Catherine Lévy. aquelas da “recaída” no desemprego e o “pedófilo” – consideradas tanto como encarnações vivas da incapacidade congênita de se conformar à ética ascética do trabalho assalariado e do autocontrole sexual. paradoxo. não encontra seu modelo na natureza. O Leviatã se contenta então no desenvolvimento de suas funções reais de manutenção da ordem. Esse novo darwinismo. que elogia e recompensa os “ganhadores” pelo seu vigor e inteligência e fustiga os “perdedores” da “luta pela existência” econômica. reforçado pela transição do welfare para o workfare. encontra seu prolongamento ideológico e seu complemento institucional no “pingo de ferro” do Estado penal se realiza e se desenvolve de Jamie Peck. Workfare States. hipertrofiadas e deliberadamente abstratas de seu meio social.5 Reforço e extensão do aparelho punitivo centralizado nos bairros deserdados das cidades centrais e das periferias. proteger as populações mais vulneráveis e reduzir as desigualdades mais gritantes. mas um mercado que é ele mesmo naturalizado. Cambridge. 2003. onde se acumulam as desordens e a desesperança engendradas pelo duplo movimento de retração do Estado nos âmbitos econômico e social. Cambridge University Press. 5 Panóptica 19 (2010): 198-213 . É assim que a “mão invisível” do mercado de trabalho desqualificado. 1997. na medida em que ele erige a competição como fetiche e celebra a plenos pulmões a “responsabilidade individual” – cuja contrapartida é a irresponsabilidade coletiva e política.201 dessocializado como horizonte normal do trabalho para o novo proletariado urbano dos serviços. 6 Mike Hawkins. Vivre au minimum. Editions La Dispute. capítulo 4. A um Estado keynesiano acoplado ao assalariado fordista vetor de solidariedade. sucede um Estado que se pode qualificar como neodarwinista. Paris. comanda uma forma de realização histórica concreta das abstrações puras e perfeitas da ciência econômica ortodoxa. 1860-1945: Nature as Model and Nature as Threat. elevada ao nível de teodiceia oficial da ordem social in statu nascendi. Enquête dans l’Europe de la précarité. New York. como também sobre sua missão simbólica de reafirmação dos valores comuns pela execração pública das categorias desviantes – em primeiro lugar.

justiça e administração penintenciária. (ii) ela neutraliza e contrapõe os elementos mais questionadores. correlativa à depreciação do “direito ao trabalho” sob sua antiga forma (isto é. La Misère du monde. Isso porque. em toda a Europa. tornando-os claramente supérfluos pela recomposição da oferta de empregos. pp. 219-228. Raisons d’agir. cada vez mais ativa e intrusiva nas zonas inferiores do espaço social e urbano. pp. e Contre-feux. 1997. à educação.202 forma a estrangular as desordens geradas pela difusão da insegurança social e pela desestabilização correlativa das hierarquias estatutárias que formavam a armadura tradicional da sociedade nacional (tal como a divisão entre Brancos e Negros na América e entre nacional e imigrado colonial na Europa do Oeste). nesse caso específico. dando a possibilidade de se reproduzir socialmente e de se projetar no futuro). E. ou pelos seus derivados britânicos. Compreende-se melhor o motivo pelo qual. Seuil. com uma duração indeterminada e um salário viável. à saúde. quando os mais eminentes especialistas da questão penal eram unânimes em prever sua inutilidade. e o interesse e os meios estabelecidos para a manutenção da ordem foram criados para ocupar o espaço do déficit de legitimidade sentido pelos responsáveis pelas decisões políticas pelo próprio fato de que eles renunciaram às missões estabelecidas para o Estado em matéria econômica e social. representada pelo direito do trabalho. 9-15. os partidos da esquerda do governo convertidos à visão neoliberal tenham se mostrado tão ávidos pela temática da segurança encarnada pela “tolerância zero” vinda da América durante a década passada. há apenas trinta anos. é substituída – nos Estados Unidos – ou é acrescentada – na União Europeia – a regulação por sua “mão direita”. como a “polícia de proximidade”. a prisão volta à cena principal da sociedade. A canonização do “direito à segurança”. Paris. em tempo integral e com direitos plenos. Paris. na medida em que aumenta os custos da estratégia de fuga para a economia informal da rua. e (iii) ela reafirma a autoridade do Estado no quotidiano no domínio restrito a partir desse momento ocupado por ele. 1993. à assistência e à moradia. aquela que protege e melhora as oportunidades de vida. A utilidade reencontrada para o aparelho penal na era póskeynesiana do emprego da insegurança é tripla: (i) ela permite que as frações mais reativas da classe operária se curvem à disciplina do novo emprego do setor de serviços. a adoção de políticas de desregulamentação econômica e de retração social significou uma traição política ao eleitorado popular que os levou ao poder e que Pierre Bourdieu et al. 7 Panóptica 19 (2010): 198-213 . na verdade seu desaparecimento. logicamente. À regulação das classes populares que Pierre Bourdieu denomina de “a mão esquerda” do Estado7. polícia.

Regime que podemos denominar de “liberal-paternalista”. que será o caldeirão da revolução neoliberal. QUANDO PRISÃO E ASSISTÊNCIA SOCIAL SE ENCONTRAM: A DUPLA REGULAÇÃO DOS POBRES O giro claramente punitivo realizado pelas políticas penais nas sociedades avançadas no final do século XX não decorre apenas e simplesmente do conjunto de duas obras que se completam: “crime e castigo”. Foram nos Estados que se inventou essa nova política da pobreza entre 1973 e 1996. de Massimo d’Alema na Itália e de Gerhard Schröder na Alemanha. no qual defendem que “os programas de assistência aos pobres foram Michel Foucault. 8 Panóptica 19 (2010): 198-213 . in Résumé des cours.203 esperava justamente do Estado uma proteção reforçada contra os julgamentos e as carências do mercado. 1989. no rastro da reação social. “no sentido amplo de técnicas e procedimentos destinados a dirigir a conduta dos homens”8 e mulheres capturados pelas turbulências da desregulamentação econômica e pela reconversão da assistência social em trampolim rumo ao emprego precário. Julliard. a viragem punitiva negociada pelo governo da “esquerda plural” controlada por Lionel Jospin na França no outono de 1997. 9 Michael C. Ithaca. 123. para os grupos que habitam as regiões inferiores do espaço social. e paternalista e autoritário na parte de baixo. and the American Welfare State. racial e política aos movimentos progressistas da década anterior. pp. ao contrário. está relacionada com a generalização do salário dessocializado e a instauração de um regime político que permitiu impô-lo. Brown. em relação às empresas e às classes privilegiadas. Assim. depois que William Clinton se aliou sem problema à ordem do dia ultra-repressiva ditada pelo Partido Republicano do outro lado do Atlântico em 1994. Money. Frances Fox Piven e Richard Cloward publicaram seu livro clássico Regulating the Poor. Paris. por volta dos mesmos anos. dispositivo no seio do qual a prisão assume um papel principal e que se traduz. já que ele é liberal e permissivo na parte de cima. 1999. 1970-1982. Race. 323-353. Ele anuncia a instauração de um novo governo da insegurança social. em relação àqueles que se foram capturados pela reestruturação do emprego e pelo refluxo das proteções sociais ou sua reconversão em instrumento de vigilância e disciplina. Cornell University Press. Essa virada punitiva. “Du gouvernement des vivants”. por uma tutela severa e minuciosa. não tem grande relação com a pretensa “explosão” da delinquência dos jovens ou com as “violências urbanas” que invadiram o debate público por volta do fim da década de 1990. como também pela de Anthony Blair na GrãBretanha.9 Em 1971. p. de Felipe Gonzalez na Espanha.

Esse acoplamento dinâmico entre a mão esquerda e a mão direita do Estado se opera de acordo com uma divisão dos papéis dentro da família entre os gêneros.10 Trinta anos depois. ela se desenvolve também em torno dos cenários severos das delegacias de polícia. do Estado-Penitência.. mães solteiras e outros “assistidos” para jogá-los nos setores periféricos do mercado de trabalho. Regulating the Poor: The Functions of Public Welfare. À burocracia da assistência social reconvertida em trampolim para os círculos de miséria incumbe a missão de inculcar nas mulheres pobres (e indiretamente em suas crianças) o dever do trabalho pelo trabalho: 90% dos provenientes do “welfare” nos Estados Unidos são mulheres. companheiros e filhos: 93% dos detentos americanos são homens(que são também 88% dos libertados em condicional e 77% que tiveram o direito ao sursis). A ativação dos dispositivos disciplinares aplicados aos desempregados. tribunais. De acordo com uma rica linha de trabalhos feministas sobre políticas públicas. nova edição ampliada. Na era do salário em decomposição e descontínuo. A “dramaturgia do trabalho” não se desenvolve apenas sobre a cena da repartição da assistência social e dos locais em que se busca emprego. xviii. e o enorme desenvolvimento de uma fina ramificação policial e penal em rede reforçada nas zonas urbanas deserdadas.11 No início do novo século. 1971. na falta de outras medidas. E que pretende. e depois perduraram (sob uma forma modificada) a fim de que fosse respeitada a disciplina do trabalho”. indigentes. 11 Piven e Cloward. 381-387 e 395-397. gênero Frances Fox Piven e Richard A. Cloward. viril e controlador. por um lado.cit. 1993. a regulação das famílias das classes populares não passa mais apenas pelo braço maternal e complacente do EstadoProvidência. a missão é a de endireitar seus irmãos. Vintage Books. assegurar um distanciamento cívico ou físico em relação àqueles que são considerados “incorrigíveis” ou inúteis.204 iniciados para fazer frente aos deslocamentos da organização do trabalho que provocaram desordens em massa. Para o quarteto formado pela polícia. por outro. pp. como gostariam Piven e Cloward na edição revista em 1993 de sua análise clássica da regulação dos pobres. prisão e o agente da condicional. ela se apóia também sobre aquele. essa dinâmica cíclica de expansão e retração da assistência social foi suplantada por uma nova divisão do trabalho de entiquetamento e dominação das populações desviantes e dependentes que liga os serviços sociais e a administração da justiça sob a égide de uma mesma filosofia behaviorista e punitiva. nas barras dos tribunais e na sombra das prisões. op. 10 Panóptica 19 (2010): 198-213 . são os dois componentes de um mesmo dispositivo de gestão da pobreza que visam a uma recuperação autoritária do comportamento das populações indóceis à ordem econômica e simbólica que se colocou. New York. p.

Assistência social e justiça criminal são. 1 Printemps 2001. Para além dessa divisão sexual e institucional da regulação dos pobres. a sanções que podem resultar em um isolamento prolongado. 1563-1602. a partir desse momento. É por isso que suas condutas devem ser vigiadas e reguladas pela imposição de protocolos rígidos. pp. A partir da metade dos anos de 1970. os beneficiários da assistência social e os presos apresentam perfis sociais similares e estabelecem relações mútuas estreitas que os tornam as duas metades sexuais de uma mesma população. “Welfare and the Problem of Black Citizenship”. os “clientes” dos setores assistencial e penitenciário do Estado são o objeto de uma mesma suspeita: eles são considerados moralmente frágeis.5 milhões. até que se prove o contrário. 22(1996). 6. Além disso. 105. tratado como pouco mais do que um sujeito (em oposição aos direitos e obrigações universais do cidadão13). animados por uma mesma filosofia paternalista e punitiva que acentua a “responsabilidade individual” do “cliente”. pp. UMA VIA EUROPEIA EM DIREÇÃO AO ESTADO PENAL? A erosão das bases econômicas e a gestação social do crescimento do Estado penal na América fornecem materiais indispensáveis para uma antropologia histórica da invenção em atos do neoliberalismo. e depois. in Annual Review of Sociology. in Yale Law Journal. 12 Panóptica 19 (2010): 198-213 . 1-23. essa distribuição sugere que a invenção da dupla regulação dos pobres na América nas últimas décadas do século XX faz parte de uma (re)masculinização do Estado na era neoliberal. “Gender in the Welfare State”. se necessário. cuja violação os expõe a um aumento da disciplina corretiva.205 e cidadania12. o número de famílias que recebiam a principal alocação instituída pela “reforma” da assistência aos desamparados de 1996 (Temporary Assistance to Needy Families” era de 2. pp. Em 2001. Nesse mesmo ano. uma espécie de morte social por falta moral – isolados da comunidade cívica dos portadores de direito para aqueles que recebem a assistência social. com reverberações no interior da estrutura burocrática. 13 Dorothy Roberts. Signs and Regimes: Reading Feminist Research on Welfare States. isolados da sociedade dos homens “livres” para os reincidentes. que é em parte uma reação oblíqua às mudanças sociais trazidas pelos movimentos feministas. in Social Politics 8. e elas atingem os públicos de maneiras semelhantes. correspondendo a cerca de 6 milhões de beneficiários. o estoque da população carcerária atingiu 2.1 milhões. Abril de 1996. 51-78 e Julia Adams e Tasleem Padamsee. esse país é o motor teórico e prático da elaboração e disseminação planetária de um projeto político que visa a submeter o Ver Ann Orloff.1 milhões de pessoas e os efetivos que estavam sob a responsabilidade da justiça(juntando-se os detidos e os condenados com sursis e liberados em condicional) se aproximava de 6.

slogans e medidas de segurança. os Estados Unidos são uma espécie de alambique histórico que permite observar em tamanho grande. Longe de ser um desenvolvimento incidental ou um processo teratológico. da justiça e da prisão nos países da Europa e da América do Sul que se engajaram no caminho da “liberalização” da economia e na reconstrução do Estado inflamado pelo líder americano. in European Journal of Criminal Policy and Research. in European Journal of Criminal Policy and Research. inverno de 2001.15 Por imposição ou inspiração. da futura paisagem da polícia. p. 15 Vivien Stern. Londres. a expansão hipertrofiada do setor penal do campo burocrático é um componente essencial de sua nova anatomia na idade do neo-darwinismo econômico. influência que ela atribui (i) “à mudança completa do consenso prevalecente no mundo desenvolvido durante o pós-guerra e expresso pelas convenções das Nações Unidas”. “The Penalisation of Poverty and the Rise of Neoliberalism”. Vivien Stern sublinha que “uma influência importante sobre a política penal na Grã-Bretanha e em outros países europeus foi a política seguida pelos Estados Unidos”. católica ou social-democrata. 14. “Mass Incarceration: ‘A Sin Against the Future’?”. 401-412. é assim não apenas viajar nos “limites extremos da civilização europeia”. eles se tornaram também os primeiros exportadores mundiais de “teorias”. 14 Panóptica 19 (2010): 198-213 . o alinhamento ou a convergência das políticas penais nunca passam por uma simples cópia.206 conjunto das atividades humanas à tutela do mercado. outubro de 1996. seja uma modificação clara e brutal do tratamento social em direção ao tratamento penal da marginalidade urbana. as consequências sociais. Percorrer o arquipélago carcerário norte-americano. O enraizamento profundo do Estado social na estrutura burocrática como também nas estruturas Loïc Wacquant. levando a um hiper-encarceramento.14 Em seu panorama da evolução carcerária ao redor do mundo. 3. É também descobrir os possíveis contornos. pp. Willan Publishing. de acordo com as palavras de Tocqueville. Criminal Justice and Political Cultures: National and International Dimensions of Crime Control. políticas e culturais do surgimento da pena neoliberal em uma sociedade submetida ao império conjunto da forma do mercado e do individualismo moralizante. 9 4. e (ii) ao descrédito que pesa hoje em todo lugar sobre o ideal de “reabilitação e reintegração social do criminoso”. verdadeiramente prováveis. Sob esse ângulo. e Tim Newburn e Richard Sparks(dir. durante a década passada. Isso porque os Estados Unidos não se contentam em ser a caldeira e a locomotiva do projeto neoliberal no plano da economia e da assistência social. Nos países da Europa com tradição estatal forte.). e antecipar por transposição estrutural. segundo o qual “a privação da liberdade deve ser utilizada de maneira restrita”. a nova política da miséria não implica uma duplicação servil do patrão norte-americano. 2004. número especial sobre Justiça penal e política social.

suas configurações sociais e tradições políticas e burocráticas específicas. os serviços sociais têm um papel ativo nesse processo de criminalização. ameaçados os pais de jovens delinquentes com a supressão das alocações familiares. estágios de formação. Por outro. as autoridades francesas realizaram ao mesmo tempo mais na questão social e mais no aspecto penal. foram aprovados decretos contra a mendicância (tornando tal atividade ilegal). do Estado a colaborar estreitamente com a polícia e a Panóptica 19 (2010): 198-213 . limitadas as liberações em condicional. programa TRACE. de acordo com sua história nacional. empregos para jovens. Para esquematizar.. etc. aceleradas as deportações de estrangeiros submetidos a uma dupla pena. Por um lado. já que eles dispõem de meios administrativos e humanos para exercer uma supervisão mais próxima das populações ditas problemáticas. etc. holandesa.). durante a década passada. Encorajando os serviços sociais. etc. desenvolveram-se as “células de vigilância” e foram fixadas as unidades de polícia antirevoltas nos “bairros sensíveis” da periferia urbana. a ativação simultânea do tratamento social e penal das desordens urbanas não pode esconder o fato de que o primeiro serve com frequência de tapa-sexo burocrático para o segundo e ele está cada vez mais submetido na prática. sanitários. a menor impregnação da ideologia individualista e utilitarista que está por trás da sacralização do mercado. foi instituída a Cobertura Médica Universal e estendeu-se o acesso à Renda Mínima de Inserção. Mas. substituiu-se o educador pelo juiz para fazer apelo à lei. mesmo que o “social” seja marcado por um moralismo punitivo. pode-se caracterizar provisoriamente a “via europeia” (com as variações francesa. escolares. aumentaram-se os mínimos sociais. Assim. multiplicaram-se os dispositivos de assistência (Contratos Emprego-Solidariedade. multiplicadas as operações policiais “súbitas e inesperadas” nas cidades estigmatizadas e banalizado o uso da prisão preventiva. e a falta de cesura etno-racial fizeram com que os países continentais não passassem rapidamente para o “todo penal”. aumentadas as penas para os reincidentes e as possibilidades de prisão de menores. italiana. Segunda diferença entre os Estados Unidos e os países do Velho Mundo: a penalização da miséria à europeia se realiza principalmente através da polícia e dos tribunais do que pela prisão.207 mentais nacionais. etc. Correlacionado a isso. Cada um deles deve construir seu próprio caminho em direção ao novo governo da insegurança social. Ela obedece (por quanto tempo ainda?) a uma lógica dominante muito mais panóptica do que segregadora e retributiva.) para o Estado penal que se desenha por acaso perante nossos olhos por um duplo acento conjunto da regulação social e penal das categorias marginais.

e do excelente ranking de último da classe para o líder em encarceramento dentre os quinze países da União Europeia. mas representa uma verdadeira novação política. onde e quando vai parar a inflação dos efetivos das casas de detenção e das penitenciárias que se observa em quase todos os países da Europa? O caso dos Países Baixos. que passaram de uma estratégia dita humanista para uma filosofia penal de tipo empresarial. Resta saber se essa via europeia em direção ao liberal-paternalismo é uma alternativa verdadeira à penalização à americana ou se ela constitui simplesmente uma etapa intermediária ou um desvio que levará a uma hiper-inflação carcerária perene (como experimentados por Espanha e Portugal). social e penal. acaba por submetê-las (e somente elas) a uma vigilância punitiva cada vez mais precisa e penetrante. sob a justificativa de assegurar o bem-estar das populações deserdadas e esquecidas. A PENALIZAÇÃO DA PRECARIEDADE COMO PRODUÇÃO DA REALIDADE Da mesma forma que a emergência de um novo governo da insegurança social difundido pela revolução neoliberal não marca um retorno histórico em direção a uma configuração organizacional familiar. também o desenvolvimento do Estado penal não pode ser compreendido sob a rubrica estreita da repressão. Para mostrar que a escalada do aparelho punitivo nas sociedades avançadas decorre menos de uma “guerra contra o crime” do que da reconstrução do Estado. eles não vêem que a luta contra a criminalidade é apenas um pretexto cômodo e uma plataforma propícia para reconstrução do perímetro da responsabilidade do Estado que se opera simultaneamente nos âmbitos econômico. Se os bairros são saturados de viatura de polícia sem que sejam realmente melhoradas as chances de vida e de emprego nessas regiões. a tropa repressiva é um ingrediente maior da confusão discursiva que envolve e obscurece a profunda transformação dos meios.208 justiça. aumenta-se a probabilidade de se detectarem atividades delituosas e. Quem pode dizer hoje. as prisões e condenações penais. portanto. é tão instrutivo quanto inquietante. nós os transformamos em extensão do aparelho penal de forma a instaurar um panoptismo social que. é preciso e é Panóptica 19 (2010): 198-213 . Cegos pelas fogueiras midiáticas. Os militantes da esquerda que denunciam a “máquina de punir” dos dois lados do Atlântico – travando uma batalha quimérica contra a “prisãoindustrial complexa” nos Estados Unidos e vituperando contra um diabólico “programa de segurança” na França – confundem a embalagem com o conteúdo. Na verdade. se forem multiplicadas as parcerias entre a justiça e os outros serviços do Estado. finalidades e justificações da autoridade pública na virada do século.

com Pierre Bourdieu. 1976(orig. É preciso. Le Capital. Pierre Bourdieu. quando nos convidou a abandonar “a hipótese repressiva” a fim de tratar o poder como uma força fecunda que recompõe a própria paisagem que ela percorre.17 O aparecimento do “liberal-paternalismo” deve ser concebido também. ele a protege da estagnação e suscita essa tensão constante. dirigentes de grandes empresas ou outros agentes que tiram proveito (algumas vezes pecuniário) do crescimento. mas também a arte. tomo 1. em primeiro lugar. p. Colin Gordon. recusar o “funcionalismo do pior” que transforma todo desenvolvimento histórico na obra de um estrategista perspicaz. Two Lectures(1976). dir. essa mobilidade de espírito sem o qual o próprio estímulo pela competição seria atenuado. Pantheon. do “krottenwijck” nos Países Baixos. como também o aparecimento de eufemismos burocráticos para designar as 16 “Um dos princípios da sociologia consiste em recusar esse funcionalismo negativo: os mecanismos sociais não são o produto de uma intenção maquiavélica.”18 A transição da gestão social para o tratamento penal das desordens induzida pela fragmentação do salário é de fato eminentemente produtiva. portanto. Panóptica 19 (2010): 198-213 . 18 Karl Marx. Livre IV: Théories de la plus-value. que atribui essa escalada a um plano deliberadamente construído pelas classes dominantes oniscientes e onipotentes. e. Paris. e o teatro dramático. a Europa do final do século XX viu a invenção do “bairro sensível” na França. Produtiva de novas categorias de percepção e de ação pública. do “Problemquartier” na Alemanha. Ela também não considera a advertência feita por Foucault. com as intenções subjetivas dos administradores do Estado. Editions Sociales. tal visão confunde a convergência objetiva de um conjunto de políticas públicas diversas que se entrelaçam. in Power/Knowledge: Selected Interviews and Other Writings. do “sink estate” no Reino Unido. Paris. da amplitude e da intensidade das penas e dos programas de supervisão pensados para os dejetos urbanos da desregulação. cada uma defendida por seus protagonistas e impostas por suas relações próprias. Questions de Sociologie. Como um eco distorcido à pretensa descoberta das “underclass areas” nos Estados Unidos. os legisladores. 1980. Eles são muito mais inteligentes que o mais inteligente dos dominadores”. 97. Ele produz não apenas os manuais da lei penal e a própria lei penal. O criminoso rompe com a monotonia e a segurança da vida burguesa. Minuit. 71. como o sugeria naquele momento Karl Marx. 19721977. ou o produto mecânico e quase milagroso de um aparelho abstrato de dominação e exploração que se “reproduziria” em todas as situações. pp. 1980.16 Além disso. e assim sucessivamente. p. e ele ‘presta um serviço’ ao apresentar os sentimentos morais e estéticos do público. New York. 226. a literatura. 17 Michel Foucault. Assim. tomadores de decisão política.209 suficiente romper com a visão da história inspirada pela teoria do complô. a partir da categoria geradora da produção: “O criminoso produz uma impressão ao mesmo tempo moral e trágica. 1877).

351-375. pp. ver Laurent Bonelli. Renseignements Généraux et violences urbaines. O mesmo ocorre com a noção burocrática de “violências urbanas”. despolitizando-os. Isso porque a política de criminalização da precariedade é igualmente portadora de novos saberes sobre a cidade e seus distúrbios que difundem uma gama inédita de “experts” e. n. confrontos coletivos com a polícia. e por essa razão. na França. ameaças aos professores. ou dos “selvagens” na França (variante social-paternalista do insulto racista em uma linguagem jurídica supondo uma falta de cultura das classes populares) justificou a reabertura ou a extensão dos centros de internação para jovens delinquentes. seguindo seus passos. enquanto todos os estudos existentes deploram sua extrema nocividade. É o caso. in Déviance et société. roubo de veículos. etc. forjada na França pelo Ministério do Interior para amalgamar os atos desviantes de natureza e motivação as mais diversas (olhares agressivos e linguagem de baixo calão. pp.19 Novos tipos sociais são um outro produto derivado do novo regime de insegurança social: a irrupção dos “super-predadores” nos Estados Unidos. in Actes de la recherche en sciences sociales. tráfico de drogas ou receptação de objetos roubados. 136-137. organismo criado por Pierre Joxe em 1989. de jornalistas. do Instituto de Altos Estudos da Segurança Interna. L’expertise policière de la ‘violence urbaine’: sa construction intellectuelle et ses usages dans le débat public français. Esses saberes são colocados em forma e em órbita por instituições híbridas. acrescente-se a renovação de figuras clássicas tal como o do “reincidente profissional”. universitário e midiático. que simulam a pesquisa para dar uma caução de aparência científica o aumento do aparato policial e penal nos bairros deserdados. “colocado sob a autoridade direta do Ministro do Interior”. dezembro de 2000. março de 2001. em que se pesquisam através de “retratos-falados” as características psicofisiológicas e antropométricas distintivas. dos “feral youth” e outros “yobs” no Reino Unido. responsáveis administrativos. grafite e depredações.) a fim de favorecer um enfrentamento punitivo dos problemas sociais que afligem os bairros populares. e depois desenvolvido por Charles Pasqua. A tudo isso. situadas na interseção dos campos burocrático. a fim de promover um “pensamento razoável sobre a segurança interna”. último avatar pseudo-científico do uomo delinquente de Cesare Lombroso em 1884. que irriga a França Sobre a invenção e o desenvolvimento político-burocrático dessa noção. 95-103 e Laurent Mucchielli.210 camadas miseráveis da cidade deixadas em estagnação econômica e social pelo Estado. associações e eleitos preocupados com os “bairros sensíveis”. rixas entre jovens. submetidas a um controle policial reforçado e a uma penetração mais cruel da instituição carcerária. 19 Panóptica 19 (2010): 198-213 . alimentando o crescimento de uma verdadeira indústria burocrático-jurídica de “avaliação dos riscos” envolvidos pela soltura de categorias sensíveis de detentos. 24-4.

cada um em seu nível. para o trabalho coletivo de construção material e simbólica do Estado penal a partir de agora encarregado de (re)tomar em suas mãos as populações jogadas nos vãos e nos fossos do espaço urbano. Em resumo. não estaria completa se não mencionássemos as empresas privadas de “aconselhamento em segurança” que passam pelos “adjuntos da segurança”. composição penal. oficina da propaganda de segurança que apresenta essa característica curiosa de não contar com nenhum criminólogo dentre seus eminentes membros.) que. o IHESI foi substituído pelo INHES(Instituto nacional de altos estudos de segurança). designando um “policial de referência” a cada escola (ao invés de um psicólogo ou um assistente social. as editoras ávidas por publicar trabalhos sobre esse tema importante. Panóptica 19 (2010): 198-213 . para justificar a “parceria escola-polícia” que a produziu e o engajamento do corpo de professores 20 Em julho de 2004. “criminólogo” autoproclamado e PDG da firma do “conselho em segurança urbana Alain Bauer Associates”. sob o pretexto de eficiência burocrática. etc.211 com as últimas novidades do “crime control” importadas da América do Norte. as autoridades francesas transformaram as turbulências comuns da vida escolar em violações da lei e fabricaram uma epidemia de “violências escolares”. mas como infrações ao código penal sistematicamente denunciadas ao delegado do bairro ou ao substituto do promotor e reunidas em uma base de dados centralizada (graças a um programa de computador específico. os “cidadãos vigias” (esses sujeitos benevolentes que noticiam à polícia os problemas de seu bairro) e toda uma série de inovações jurídicas (apelo à lei. também criado por Sarkozy e dirigido por Alain Bauer. Seu comitê de direção não é formado por um único pesquisador. manifestação de imprudência de classe ou rixa de cor de recreação não mais como desvios de disciplina a serem resolvidos pela autoridade pedagógica da escola. juiz de proximidade. que fazem muita falta nos bairros populares).20 Ele é auxiliado nessa função pelo Instituto de criminologia de Paris. Seu trabalho é prolongado pelas atividades do Observatório sobre a delinquência. o programa Signa). A relação dos agentes e dispositivos que contribuem. a penalização da precariedade criada da realidade. os sindicatos dos delegados de polícia. mesmo que as pesquisas realizadas com os alunos mostram que mais de 90% se sentem totalmente seguros no ambiente escolar. por outro lado. A caixa de ressonância das mídias ao ajudar nessa “explosão” de violência serve. e uma realidade talhada sobre medida para legitimar a extensão das prerrogativas do Estado-penitência de acordo com o princípio da profecia que se auto-realiza. uma estrutura siamesa apresentada pelo Ministro do Interior. Uma ilustração: tratando a menor desordem de cor. Nicolas Sarkozy como “a escola de elite da segurança que a França precisa”. instauram uma justiça diferenciada de acordo com a origem de classe e de local de residência.

Les enseignants de Seine-Saint-Denis en greve. dependentes e perigosas situadas em seu território. que pratica o “laisser-faire e laisserpasser” no alto da estrutura das classes. 2004. – com as políticas penais. é que a Eric Debardieux. 21 Panóptica 19 (2010): 198-213 . habitação social. o estudo do encarceramento deixa de ser relevante apenas para a área especializada dos criminólogos e penalistas para se tornar um capítulo essencial da sociologia do Estado e da estratificação social. Paris. saúde pública. Se os mesmos que exigem um Estado mínimo a fim de “liberar” as “forças vivas” do mercado e submeter os mais despossuídos ao aguilhão da competição não hesitam em erigir um Estado máximo para assegurar a “segurança” no cotidiano. para quem pretende penetrar no destino das frações precarizadas da classe operária em suas relações com o Estado. alocações familiares.21 *** Não é mais possível. É preciso prolongar e completar a sociologia das políticas tradicionais de “bem-estar” coletivo – ajuda às pessoas e às famílias desassistidas. mas também educação. classificar e controlar as populações (julgadas) desviantes. Ela demanda que se adote uma perspectiva alargada. 43-50 e Franck Poupeau. in Les Annales de la recherché urbaine 75(Junho de 1997). e o paternalismo punitivo na base. no nível dos mecanismos de produção das desigualdades. A encenação das “violências escolares” permite aos administradores do Estado esconder a desvalorização profissional e os dilemas burocráticos criados no seio do sistema educativo pela quase universalização do acesso ao ensino secundário em maior tempo e pela submissão do sistema escolar à lógica da competição e aos imperativos da “cultura do resultado” importada do mundo da empresa. se contentar em estudar os programas de assistência social. pp. produto de um senso comum político e erudito ultrapassado pela realidade histórica.212 dos bairros periféricos em declínio à realização das missões de vigilância e de sanção da polícia. exige o abandono da definição tradicional do “social”. De fato. A partir de agora. Religar política social e política penal denota o que poderia aparecer como uma contradição doutrinária. redistribuição de renda. entre a diminuição do poder público sobre a área econômica e seu aumento naquela da manutenção da ordem pública e moral. no nível de suas implicações sociais e espaciais. etc. para albergar em uma única análise o conjunto das ações pelas quais o Estado pretende modelar. Insécurité et clivages sociaux: l’exemple des violences scolaires. a cristalização de um regime político liberal-paternalista. ou pelo menos uma antinomia prática do neoliberalismo. e mais especificamente da (de)composição do proletariado urbano na era do neoliberalismo ascendente. Contestations scolaires et ordre social. Syllepse.

Coordenador do Curso de Direito da PUC Minas Serro(MG). Hermenêutica e Argumentação Jurídica e Direito Administrativo I na PUC Minas Serro(MG). Teoria da Constituição. E que essa relação causal e funcional entre os dois setores do campo burocrático é tanto mais forte quanto o Estado se desincumbe mais completamente de qualquer responsabilidade econômica e tolera ao mesmo tempo um alto nível de pobreza e uma forte diferença de escala das desigualdades.213 miséria do Estado social sobre o fundo da desregulação suscita e necessita a grandeza do Estado penal. Professor de Teoria do Estado. Tradução de José Emílio Medauar Ommati** ** Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da UFMG. Panóptica 19 (2010): 198-213 .

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