ENTREVISTA

Vera Zimmermann fala sobre TV, teatro, vida, carreira, Nelson Rodrigues...
Uma publicação da Aver Editora - 1º a 15 de Julho de 2009 - Ano I Nº 6 R$ 5,00

Pág. 7

Dada a largada para o período de festivais
Celia Aguiar / Divulgação Divulgação

MARKETING CULTURAL

Agentes: tê-los ou não tê-los, eis a questão
Em um mercado cada vez mais fechado, presença do agente tem se tornado fundamental, embora nem todos pensem assim
Pág. 8

INTERNACIONAL

Divulgação

Teatro Maipo, o símbolo de uma época na Argentina
Conheça a história de um lugar mítico, considerado a catedral do Teatro de Revista Portenha, em meio a comediantes e vedetes.
Pág. 23
Vítima de câncer, Pina morreu dia 30

DANÇA

HOMENAGEM

Emoção à flor da pele no Festival Ballace Bahia, em Camaçari
Págs. 10 e 11

Teatro-dança perde sua criadora: Pina Bausch, aos 68 anos

Pág. 20

Canela (RS), Florianópolis (SC), Londrina (PR), São José do Rio Preto (SP) e Joinville (SC). Estes são os endereços dos principais festivais de teatro, de dança e de inúmeras outras formas de arte que acontecem nos meses de junho e julho. Motivo de alegria não só para os artistas, mas, principalmente, para a plateia (de todos os gostos e exigências), que poderá acompanhar bem de perto o talento de gente apaixonada pelo que faz e que se esmera para agradar e emocionar este respeitável público.
Pags. 12 a 18
Divulgação Anderson Espinosa

Carlos Roberto / Divulgação

Acrobacias no Festival de Londrina (PR)

Espetáculos de rua em São José do Rio Preto

José Wilker, Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Paulo Gracindo, Orlando Miranda e Maria Pompeo debatem a criação da Lei nº 6.533, em 1978

HISTÓRIA

A arte de uma lei que dá voz para os artistas
Decreto publicado há mais de 30 anos garante respeito à classe artística, que faz valer a sua dignidade, sua honra e seus direitos.
Pág. 22

As muitas faces do dramaturgo Tom Stoppard
Figura emblemática, Sir Tom Sttopard, um dos mais importantes nomes do teatro mundial, terá nova peça encenada no Brasil.
Pág. 21

VIDA E OBRA

Inovação na capital catarinense

Caras e bocas para agitar Canela (RS)

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1º a 15 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

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Jornal de Teatro

1º a 15 de Julho de 2009

Celia Aguiar / Divulgação

FESTIVAIS
Junho e julho marcam o período dos festivais de teatro, de dança e de todas as artes que emocionam o público em cinco cidade brasileiras Págs.: 12 a 18

Encontra a luz, arruma o cenário..

Editorial

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Índice
BASTIDORES.............................................................. 5
Teatro do Oprimido
Augusto Boal será homenageado em conferência internacional que acontece em julho no Rio de Janeiro

EDITAIS..................................................................... 9
Funarte
Fundação Nacional de Artes lança três editais para viabilizar 86 projetos no setor artístico

FESTIVAIS...............................................................14
FILO
Festival Internacional de Londrina discute “Acessibilidade Para a Democratização da Cultura”

É hora de aproveitar esse espaço nobre do jornal para agradecer as pessoas que encontramos até aqui. Uso o verbo “encontrar” não com o sentido de achar ou descobrir, mas com o signicado de tornar próximo. Encontros internos de uma equipe localizada em seis cidades diferentes e com experiências e formações variadas. Encontros de ideias artísticas espalhadas pelo Brasil. Encontros de referências e problemas brasileiros que também podem ser percebidos em outros palcos. Encontro de paixão e trabalho para um espetáculo que não se encerra com o aplauso. Enm, o encontro nunca esteve tão presente em uma edição do Jornal de Teatro, e isso acontece, em grande parte, pela presença marcante das matérias de Festivais. Para mim, este é um reencontro com estes eventos que sempre me fascinaram pela experiência oferecida de conferir espetáculos às vezes tão diferentes nos mesmos palcos. O principal dos Festivais são as pessoas que o formam, que deixam suas cidades (ora vencem diculdades) para divulgar ou projetar seus trabalhos para novos públicos. Essa edição vem também com essa proposta de encontrar – agora no sentido de descobrir e mais ainda, de redescobrir – novos públicos que tragam as ideias para novos trabalhos. Para isso, nada melhor que dedicar grande parte de nossas páginas aos maiores incentivadores do intercâmbio teatral brasileiro: os festivais, que fervilham pelo País principalmente nos meses de junho e julho; e as companhias que não tem os pés grudados no mesmo palco e se jogam atrás de novos encontros. Encontra a luz, arruma o cenário, embala os gurinos e cuida da caixa de maquiagem. Depois do jantar senta na cama do hotel, passa o texto ou ensaia mais uma vez a coreograa e faz as contas para ver como está a verba da produção. No dia seguinte, divulga o espetáculo e pensa na próxima turnê. Onde está a arte na rotina destes empreendedores culturais? Me atrevo a uma resposta: nos encontros que acontecem nesses intervalos, sejam fora ou dentro do palco.

Rodrigoh Bueno Editor do Jornal de Teatro

TÉCNICA .................................................................19
Theo Werneck
O multiartista fala de sua experiência com sonoplastia teatral. O músico está em cartaz com “A Vida Que Pedi, Adeus”

Cartas
PARABÉNS PELA EDIÇÃO DE 16 A 30 DE JUNHO À toda equipe de colaboradores do Jornal de Teatro, Parabéns pela edição que está linda e de excelente nível cultural e artístico. Em especial ao repórter Felipe Sil pela matéria sobre a Tônia Carrero que está incrível, um excelente texto. Atenciosamente Cia de Teatro Contemporâneo Rua Conde de Irajá 253 – Botafogo - tels.: 21 25375204 ou 31832391 www.ciadeteatrocontemporaneo.com.br
Email Redação: redacao@jornaldeteatro.com.br Arte: Ana Canto, Bruno Pacheco, Danilo Braga, Gabriela de Freitas e Keila Casarin. Marketing: Bruno Rangel (brunorangel@avereditora.com.br) e Diego Silva Costa Comercial: Washington Ramalho (ramalho@avereditora.com.br) Administração: Elisângela Delabilia (elis@avereditora.com.br) Colaboradores: Adriano Fanti e Luciana Chama Correspondência e Assinaturas: Redação São Paulo: Rua da Consolação, 1992 - 10º andar - CEP: 01302-000 - São Paulo (SP) Fone/FAX: (11) 3257.0577
Impressão: F. Câmara Gráfica e Editora

INTERNACIONAL.................................................... 23
Teatro Maipo
Histórias e curiosidades da “catedral da Revista”, a centenária casa de espetáculos de Buenos Aires

Redação Rio de Janeiro: Rua General Padilha, 134 - São Cristóvão - Rio de Janeiro (RJ). CEP: 20920-390 - Fone/Fax: (21) 2509-1675 Redação Brasília: SCN QD 01 BL F America Office Tower - Sala: 1209 - Asa Norte Brasília (DF) - CEP: 70711-905. Tel.: (61) 3327-1449 Redação Porto Alegre: Rua José de Alencar, 386 - sala 802/803 - Menino Deus - Porto Alegre (RS). CEP: 90880-480. Tel.: (51) 3231-3745 / 3231-3734 Redação Florianópolis: Av. Osmar Cunha, 251 - sala 503, Ed. Pérola Negra, Centro Florianópolis (SC). CEP: 88015-200. Tel.: (48) 3224-2388 Redação Salvador: Rua José Peroba, 275, sala 401 - Ed. Metrópolis, Costa Azul, Salvador / BA. CEP: 41770-235 Tel.: (71) 3017-1938

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w w w. j o r n a l d e t e a t r o . c o m . b r

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1º a 15 de Julho de 2009

Jornal de Teatro
CONSTRUÇÃO DO TEATRO MUNICIPAL GERA POLÊMICA EM BALNEÁRIO CAMBORIÚ Depois de conseguir passar por um abaixo-assinado feito pela própria população pedindo o m do projeto, o Teatro Municipal de Balneário Camboriú é motivo de nova polêmica: a obra não deve ser entregue dentro do prazo previsto. O prazo de conclusão, apresentado pela Prefeitura, foi para novembro deste ano, mas, segundo fontes da cidade, a obra está bastante atrasada e a empresa que venceu a licitação para o empreendimento requer um valor maior que os R$ 3,1 milhões liberados. Essa confusão retoma uma discussão que já havia entre os moradores e a Prefeitura. O teatro está localizado na antiga praça Bruno Nitz, que, segundo os moradores, era um dos poucos espaços públicos ainda existentes na cidade – e, segundo o projeto, o Teatro não contaria com estacionamento para o público. FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE DOURADOS SELECIONA ESPETÁCULOS A Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e o Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura (IDAC) publicaram o edital para seleção de espetáculos da edição 2009 do Festival Internacional de Teatro de Dourados/Mato Grosso do Sul (FIT - Dourados). O festival acontece de 8 a 16 de setembro e homenageará o diretor e dramaturgo Augusto Boal. O evento conta com quatro mostras: regional, universitária, nacional e internacional, sendo os espetáculos para as mostras regional e universitário selecionados por meio de edital, enquanto que para as mostras nacional e internacional serão convidados pela organização. Os grupos interessados poderão fazer suas inscrições pelo site www. ufgd.edu.br/proex/coc até o dia 15 de julho. A divulgação dos selecionados acontece até o dia 3 de agosto. OPINIÃO DE GENTE GRANDE NO RECIFE Um novo espetáculo de Ana Elizabeth Japiá Motta já está sendo produzido em Recife. E, para ajudar na dramaturgia da peça, a diretora foi a campo para saber o que as crianças pensam da “cidade ideal”. Contemplada com uma bolsa de estímulo à criação artística da Funarte, a pesquisadora coletou depoimentos de crianças de 8 a 10 anos de seis escolas do Recife, entre instituições públicas e privadas. No processo, convidava alunos para manipularem um jogo que contém pequenos blocos de madeira para construção de edicações em miniatura. Os jogos e as impressões de Ana Elizabeth e de seu grupo, o Marco Zero, resultarão em um espetáculo com estreia prevista para outubro.

Bastidores
Estreia dia 4 de julho, no Teatro Coletivo Fábrica, em São Paulo, a peça “Contos de Mulheres Sábias”, baseada em contos de tradição oral reunidos pela escritora Regina Machado no livro “O Violino Cigano e outros contos de mulheres sábias”.

Flávio Moraes

Fotos: Divulgação

CONTAÇÃO DE HISTÓRIA PARA MULHERES SÁBIAS

A montagem é da Cia. Pé na Porta e reúne quatro histórias que têm como tema central a mulher como arquétipo de qualidades e possibilidades humanas. “Contos de Mulheres Sábias” é encenado por três jovens atores (André Martins, Daniela Mota e Patrícia Sinhorini), e tem a direção de Simone Grande e Kika Antunes – famosas no gênero da Contação de Histórias. PORTO ALEGRE EM CENA SELECIONADO COMO EVENTO GERADOR DE FLUXO TURÍSTICO O Festival Internacional de Teatro Porto Alegre em Cena, realizado na capital gaúcha há 16 anos, está entre os 25 projetos selecionados no País pelo Ministério do Turismo, como Eventos Geradores de Fluxo Turístico. Em 2009, dez estados brasileiros inscreveram projetos: Bahia, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul. A 16ª edição do Porto Alegre em Cena acontece em setembro, entre os dias 8 e 21.

ZORRO – O MUSICAL A famosa marca da espada de Zorro estará nos palcos brasileiros com “Zorro – O Musical”, espetáculo ainda sem previsão de estreia, mas que já contou com audições no nal de junho, em São Paulo. O texto é uma versão da montagem londrina, que estreou com grande sucesso em março de 2009, na Inglaterra, baseado no livro de Isabel Allende. O ritmo cigano estará presente nas danças amencas e na trilha sonora – composta por canções novas e clássicas do grupo Gipsy Kings, como “Bambeleo,” “Baila Me” e “Djobi Djoba”.

Peça mostra folclore do Vale do Paraíba

MARIA PEREGRINA ENCERRA TEMPORADA NA FUNARTE SÃO PAULO O premiado espetáculo “Maria Peregrina”, de Luís Alberto de Abreu, segue com a temporada até o dia 19 de julho, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet. No palco, sob direção de Claudio Mendel, estão os atores Adriana Barja, Vander Palma, Conceição de Castro, Caren Ruaro, André Ravasco e Tamara Cardoso. O enredo, transitando entre o drama e a comédia, apresenta três histórias distintas que narram o universo da santa popular Maria Peregrina. Conhecida como Nega do Saco ou Maria do Saco, ela viveu mais de 20 anos nas ruas de Santana, um dos bairros mais antigos de São José dos Campos (SP). Após a sua morte, em 1964, passou a ser considerada santa popular, integrando o universo folclórico do Vale do Paraíba. A peça Maria Peregrina tem uma história de nove anos em cartaz e, após sua estreia, em junho de 2000, registra uma trajetória com 40 prêmios, 200 apresentações e um público estimado de 70 mil espectadores. Entre as premiações, destaque para o autor, que ganhou o Prêmio Shell 2003, e no 30º Festival Nacional de Teatro de Ponta Grossa (PR) 2002 como Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Atriz (Andréia Barros), Melhor Atriz Coadjuvante (Conceição de Castro), Melhor Cenário, Melhor Figurino e Melhor Autor Nacional. A peça viajou pelo interior de São Paulo e pela Capital com o sucesso de público e crítica, participando também de festivais importantes por todo o Brasil.

Festival é realizado há 16 anos no RS

“Mané Gostoso” tem músicas de Luiz Gonzaga em seu repertório

BALLET STAGIUM DE UM JEITINHO GOSTOSO Entre os dias 9 e 12 de julho é possível conferir, no Teatro Dança, em São Paulo, o espetáculo “Mané Gostoso”, produção do Ballet Stagium. O título “Mané Gostoso” é uma alusão ao boneco feito em madeira – brinquedo infantil facilmente encontrado nas feiras nordestinas – e que tem pernas e braços movimentados por meio de cordões. A coreograa de Decio Otero é uma leitura moderna da cultura popular nordestina, com trilha sonora assinada pelo grupo Quinteto Violado. Com direção teatral de Marika Gidali, a obra homenageia o pernambucano Luiz Gonzaga, com músicas como Asa Branca, Assum Preto e Forró de Mané Vito na trilha sonora. Confira a programação completa do Teatro Dança em www.apaacultural.org.br

Jornal de Teatro

1º a 15 de Julho de 2009

Bastidores
Divulgação

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AL-MANÃK COMPANHIA TEATRAL ESTREIA “ESTÓRIAS ORDINÁRIAS”
Está em cartaz no teatro anexo da Ocina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, a peça “Estórias Ordinárias”, sob direção de Jair Assumpção. A montagem é uma livre adaptação de três contos de “A Vida Como Ela É”, de Nelson Rodrigues: “Mausoléu”, “Diabólica” e “Selvageria”. A peça ca em cartaz até 9 de agosto, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Divulgação

Cia da Comédia: seis meses em SP

Em cartaz, no Teatro anexo da Ocina Cultural Oswald de Andrade, clássicos de Nelson Rodrigues como: “A Vida Como Ela É”

“COMO PASSAR EM CONCURSO PÚBLICO” PRORROGA A TEMPORADA NO TEATRO GAZETA, EM SÃO PAULO “Como Passar em Concurso Público” prorroga a temporada no Teatro Gazeta, em São Paulo. Depois das temporadas em Brasília e no Rio de Janeiro, a Cia. de Comédia G7 completa seis meses na capital paulista, com o espetáculo que já soma mais de dois anos em cartaz e 250 mil espectadores. No palco estão os atores Benetti Mendes, Felipe Gracindo, Frederico Braga e Rodolfo Cordón, responsáveis também pela autoria do texto e da direção. CURSO GRATUITO DO CRÍTICA TEATRAL Estão abertas as inscrições para o Curso de Crítica Teatral do Núcleo de Estudos do Teatro Contemporâneo da Escola Livre de Teatro (ELT). O curso tem coordenação do crítico Kil Abreu e vai de agosto a dezembro, às terças-feiras, das 14 às 18h. Programa: A prática da crítica teatral – sua função social, modos, questões e impasses. A história da crítica no teatro brasileiro moderno. A cena contemporânea, seus materiais e os métodos de análise. As inscrições vão até o dia 17 de julho, de segunda a sexta-feira, das 9 às 12h e das 13 às 17h, na ELT. Documentos necessários: cópia do RG e uma foto 3 x 4. Seleção: dia 4 de agosto, das 14 às 18h. Entrevista com o coordenador do Núcleo. Mais informações: (11) 49962164. Local: Escola Livre de Teatro de Santo André – Praça Rui Barbosa, 12. Bairro Santa Terezinha. As inscrições e o curso, assim como todas as atividades da ELT, são gratuitos. FESTIVAL DE TEATRO DE CUIABÁ Foram prorrogadas até o dia 4 de julho as inscrições para a 3ª Miti – Mostra Internacional de Teatro Infantil de Cuiabá. A mostra acontecerá de 28 de setembro a 4 de outubro e tem sua programação composta por espetáculos nacionais e internacionais, seminários, ocinas, show musical e exposições. Mais informações: (65) 3028-6285 ou contato@mostrainfantil.com.br.

RIO DE JANEIRO APRESENTA A CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE TEATRO DO OPRIMIDO
Evento, que acontece de 20 até 26 de julho, na capital carioca, será um tributo a Augusto Boal e um marco histórico para a continuidade de sua obra A Conferência Internacional de Teatro do Oprimido é uma realização do Centro do Teatro de Oprimido e contará com a participação de ativistas da Austrália, de Israel, da Palestina, do Nepal, do Paquistão, da Índia, da Suécia, da Holanda, da Áustria, da Alemanha, da Inglaterra, da França, da Itália, da Espanha, de Portugal, do Senegal, de Guiné-Bissau, do Sudão, de Moçambique, de Angola, do Canadá, dos EUA, de Porto Rico, da Argentina, do Uruguai e do Brasil. Ao final da Conferência, esses ativistas realizarão um encontro para discutir os desafios para o desenvolvimento de projetos locais e planejar ações de cooperação internacional. Com entrada franca, a reunião, que acontece na Caixa Cultural – Teatro Nelson Rodrigues, terá, ainda, painéis de discussão (política, pedagogia, educação, opressão contra a mulher, saúde mental, direitos humanos, zonas de conflito etc) sobre o impacto do Teatro do Oprimido em diferentes áreas temáticas e regiões do mundo; mostra internacional de vídeos (Alemanha, Paquistão, Canadá, Espanha, Moçambique e Índia). Na Caixa
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Conferência vai homenagear Augusto Boal

Cultural – Teatro de Arena, acontece apresentações de espetáculos (nacionais e internacionais) de Teatro-Fórum com sessões de Teatro Legislativo, a preços populares. Na sede do Centro de Teatro do Oprimido, acontece o Encontro Internacional de Praticantes do Teatro do Oprimido, exclusivo para grupos, projetos e instituições com reconhecida atividade com o método do Teatro do Oprimido em suas regiões e países. Nos três espaços haverá exposições de produções da Estética do Oprimido, última pesquisa realizada por Boal. A programação completa está disponibilizada no site ww.ctorio.org.br.

NOVA DATA PARA O PRÊMIO CAREQUINHA Foi prorrogado para o dia 10 de julho o prazo para as inscrições no Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo, premiação criada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). O objetivo é apoiar companhias, empresas, associações, trupes ou grupos circenses que queiram adquirir equipamentos, produzir espetáculos, realizar pesquisas, promover mostras e festivais ou homenagear artistas que tenham contribuído para o desenvolvimento do circo. Os interessados devem enviar seus projetos, via Correios, para a Coordenação de Circo da Funarte. Mais informações: circo@funarte.gov. br ou (21) 2279-8034.

FORMANDOS DA UFRGS APRESENTAM TRABALHOS
Começou no dia 29 de junho, a Mostra de Teatro Dad 2009/1, com o espetáculo “O País de Helena”, inspirado na obra do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Ao fim de cada semestre os formandos do Departamento de Arte Dramática da Ufrgs apresentam trabalhos que foram realizados no período, caso desta obra que ainda será apresentada, nos dias 6 e 7 de julho, e tem no elenco e direção estudantes do departamento. Elisa Volpatto e Priscila Colombi, por exemplo, cursaram a cadeira de Estágio de Atuação II e agora formam o elenco de “O País de Helena”. A direção é de Ana Paula Zanandréa, que cursou Estágio de Montagem II. A orientação é da professora Inês Alcaraz Marocco. Além desta produção, haverá montagens como “Fragmentos Lorquianos”, cujo objetivo é encontrar e levar à cena as mulheres que povoam a poesia do autor; e “Fina Flor”, que tem roteiro e atuação dos alunos Letícia Pinheiro e Thiago Pirajira. Na obra, duas senhoras se encontram e falam de lembranças, confusões entre realidade e fantasia, passado e presente. Haverá, ainda, o painel “Expressão Dramática na Educação Infantil: longa jornada “O País de Helena” escola a dentro”, de Eduardo Galeano apresentação do trabalho de conclusão de curso da formanda em Licenciatura, Daiane Frigo, orientada pela professora Vera Lúcia Bertoni dos Santos. Além disso, acontece a mostra paralela de alunos que não estão concluindo o curso. As peças ocorrem nas salas Qorpo Santo (Av Paulo Gama, s/n, Campus Central da Ufrgs) e Alziro Azevedo (Av Salgado Filho, 340 – Centro). A entrada é sempre franca. Informações completas sobre a programação em http:// mostradad.blogspot.com. Felipe Prestes
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4º FESTIVAL NACIONAL DE TEATRO DE JUIZ DE FORA Estão abertas as inscrições para o 4º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, que acontecerá entre 31 de agosto e 7 de setembro. As inscrições poderão ser feitas de 22 de junho a 17 de julho, via Correios, no endereço: 4º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora/ Av. Barão do Rio Branco, 2.234 – Centro, Juiz de Fora, Minas Gerais. CEP: 36016-310. Os grupos e companhias teatrais poderão inscrever espetáculos nas seguintes categorias: Adulto, Infantil e Espetáculo de Rua. Mais informações: (32)3690-7033 ou www.pjf.mg.gov.br.
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“Ói Nóis Aqui Traveiz” na Serra Gaúcha

Cena do espetáculo “O Amargo Santo da Puricação”, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz que estará nas cidade gaúcha de Viamão, dia 5 de julho, e em Bom Jesus, dia 18.

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Prêmio
Por Douglas de Barros Com 60 anos de carreira, a atriz Tonia Carrero será a homenageada da noite, durante a terceira edição do Prêmio APTR de Teatro. A festa, que promete ser uma das principais atrações do teatro nacional este ano, está marcada para o dia 6 de julho, às 21h, no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, e contará com a apresentação dos atores Thiago Lacerda e Zezé Polessa, além de roteiro e direção do autor Flávio Marinho. O Prêmio da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro estreia, em 2009, nova categoria, a de “Melhor Espetáculo”. Outra novidade é a categoria de “Melhor Produção” que, a partir deste ano, passa a ser escolhida pelos próprios associados da APTR. Ano passado, já foram criadas as categorias “Homenagem Especial”, além dos títulos de “Melhor Ator” e Melhor Atriz” em papéis de coadjuvantes. Ao todo, são 12 catego-

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Jornal de Teatro

Prêmio APTR de Teatro completa três anos com novidades
Festa da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro fará homenagem à atriz Tônia Carrero, que completa 60 anos de carreira
rias, com 48 indicações de espetáculos estrelados durante a temporada de 2008. Entre os jurados, nomes consagrados da crítica teatral, como Barbara Heliodora, Macksen Luiz, Lionel Fischer, Debora Ghivelder, André Gomes, Tânia Brandão e Mauro Ferreira. Os premiados receberão das mãos de colegas da ribalta uma estatueta idealizada pelo produtor Fernando Libonati. Os espetáculos “Ensina-me a Viver” e “Noviça Rebelde” receberam o maior número de indicações, sete cada um. Já “Traição”, dirigido por Ary Coslov, e “Clandestinos”, escrito e dirigido por João Falcão, concorrem em quatro categorias. Mesmo sendo realizado mais uma vez sem patrocínio (apoiado apenas pela seguradora Porto Seguro), a premiação, atualmente, é um dos principais eventos teatrais da cidade, segundo conta Flávio Marinho. “O Prêmio APTR surgiu da necessidade de se preencher um vazio. Historicamente, o teatro tinha vários prêmios importantes, como Molière, Mambembe, Ibeu de Teatro, Coca-Cola. No entanto, dos anos 1990 para cá, isso foi mudando e só restou o Shell. As empresas privadas e as esferas do governo se desinteressaram pela cultura, em geral, e pelo teatro, em particular”, lamenta. Marinho explica ainda que nunca existiu um prêmio cujo corpo de jurados fosse formado pelos críticos, os únicos que vêem todas as produções. “Criamos o Prêmio APTR de Teatro para celebrar e festejar o nosso meio de vida, dentro das nossas possibilidades. Será uma festa à la Oscar, com muita emoção, humor e glamour”, revela. Para cada categoria, um grande nome para a entrega do prêmio. Feras como Nathália Thimberg, Aderbal Freire Filho, Lúcio Mauro, Júlia Lemmertz, Alcione Araújo, Kalma Murtinho e Amir Haddad, entre outros. “É uma festa eminentemente teatral, rica em animação e amor pelo teatro”, completa Flávio Marinho.

“A Noviça Rebelde”, com Saulo Vasconcelos e Kiara Sasso

A LISTA COMPLETA COM TODOS OS INDICADOS VOCÊ CONFERE NO SITE DO JORNAL DE TEATRO (WWW.JORNALDETEATRO.COM.BR)

Jornal de Teatro

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Entrevista
Vera Zimmermann – atriz

Veraz!
[ve.raz - adj m+f (lat verace) 1 Que diz a verdade. 2 Em que há verdade; verídico. sup abs sint: veracíssimo] Dicionário Michaelis
Por Rodrigoh Bueno e Jarbas Homem de Mello Depois de 28 anos de trabalho no teatro, no cinema e na televisão, Vera Zimmermann reencontra nos palcos Nelson Rodrigues, o autor de sua primeira atuação. Em entrevista ao Jornal de Teatro, a atriz revela o que pensa sobre cada meio onde trabalha. E dispara: “Não há papel para mim no cinema brasileiro”. Jornal de Teatro – Há alguma diferença na sua visão de Nelson Rodrigues da primeira vez que você interpretou uma obra dele para agora, em cartaz com “Vestido de Noiva”? Vera Zimmermann – Muita diferença. Quando eu comecei com Nelson eu não sabia nada de teatro e caí de páraquedas naquela companhia maravilhosa (Espetáculo Nelson Rodrigues – O Eterno Reencontro, com direção de Antunes Filho). Aprendi coisas absolutamente incríveis. Eu era praticamente uma adolescente, mas, mesmo naquela época, já tinha alguma compreensão e curiosidade sobre o trabalho dele. Hoje tenho um aprofundamento maior do trabalho dele e do meu. Existe uma diferença imensa entre 1981 e 2009, e, claro, que eu já tinha visto várias coisas de Nelson, mas é diferente quando você vai fazer mais um espetáculo. Você estuda Nelson de outra maneira, principalmente junto com o Gabriel (Vilella) e toda nossa equipe, porque é um autor genial. JT – Seu trabalho teatral conta com grandes autores. Você acha importante fazer os clássicos? VZ – Acho fundamental. Graças a Deus, z vários espetáculos de autores clássicos, principalmente junto com o Gabriel. Ele tem essa necessidade de trabalhar com os gênios da dramaturgia universal. É um privilégio poder estudar um Fausto, Becket. Eu acho muito importante poder circular por todos esses tipos de cabeças que escrevem essas loucuras maravilhosas, que só acrescentam. JT – Como começou a parceria de trabalho com o Gabriel Vilella? VZ – “Vestido de Noiva” é o sexto espetáculo que faço com ele. Começou em 2000, quando a gente fez “Replay”. Ele me chamou através de um amigo, Léo Pacheco, que trabalhava com ele e logo a gente se apegou. O Gabriel tem um pouco esse hábito de trabalhar novamente com os atores que ele tem anidade. E eu tirei a sorte grande porque o Gabriel é um gênio, o tipo de teatro dele me interessa, a gente fala uma língua parecida. JT – Você tem uma maneira particular de conduzir sua carreira, “toma as rédeas” das negociações.. VZ – Eu acho que no Brasil, infelizmente, a gente não tem agente que ca brigando por nós, o melhor agente somos nós mesmos. Agora, é óbvio que quando você está em evidência, precisa de um agente. Evidência que eu quero dizer é que você está na novela das oito na Rede Globo, porque daí todo mundo quer você e você precisa de alguém para atender seu telefone e suprir em tudo que as pessoas querem oferecer, convidar e não sei o quê. Agora, comigo, eu realmente que falo. Tenho muitas amizades, vendo meu peixe. Não é que eu não tenha agente e co em casa parada, eu vou à luta, mostro minha disponibilidade, meu tempo e minha vontade de trabalhar com as pessoas. Se tem uma coisa que eu z, faço e vou fazer cada vez mais é estar em contato com esses prossionais. A gente tem que estar esperto nesse mercado competitivo. JT – Qual sua relação com o cinema? VZ – Acho cinema uma coisa meio complicada para fazer no Brasil para uma pessoa que tem meus traços físicos. A maioria dos lmes nacionais conta muita história do País, fala da pobreza, da favela, essas coisas. E eu, loira de olho azul, mesmo brasileira, acho que tenho um mercado restrito. Não há muito papel para mim no cinema brasileiro. Eu acho o cinema nacional maravilhoso, mas eu não tenho muito essa ilusão porque eu sei que não tenho cara de brasileira. JT – Mesmo já atuando no teatro sua projeção no início da carreira veio mesmo da televisão? VZ – Televisão é nosso ganha-pão e é um aprendizado de improviso. Não há tempo para se aprofundar no texto, a gente vai lá e faz. Ao mesmo tempo é um exercício muito difícil porque é imediato. Isso torna o trabalho muito legal, um desao instigante e um ganha-pão – porque se a gente for depender só de teatro para sobreviver é complicado. A televisão me ajudou muito. Fazer a Divina Magda (na novela “Meu Bem, Meu Mal”, da Rede Globo) foi um empurrão na minha vida, mas eu nunca deixei de ter a consciência de que eu precisava manter o trabalho no teatro, que eu não podia fazer só televisão. Na época da novela eu era muito jovem, tinha que aprender muita coisa. É o que eu tenho feito e vou fazer para o resto da vida: estudar e aprender. JT – Ao falar de Vera Zimmermann é difícil esquecer a música “Vera Gata”, do Caetano Veloso.. VZ – As pessoas falam “como você conheceu o Caetano?” e essa pergunta me arrepia, porque eu já a respondi milhão de vezes. Mas é uma honra eterna, não tem uma pessoa que não queria ter uma música feita pelo Caetano, um dos nossos melhores cantores, artistas e compositores.

João Caldas

Vera Ziemmermann em cena no espetáculo rodrigueano “Vestido de Noiva”

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Todo o universo do teatro em um só jornal

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Por Ive Andrade Para ser ator, talento é fundamental... Mas não o suciente. A prossão, há tempos, exige não somente os requisitos de formação cênica, mas envolve muita burocracia – através de contratos, testes e indicações de conhecidos – o que torna essenciais os famosos “contatos”. Para facilitar esses caminhos e deixar que o artista preocupe-se somente em mostrar a sua arte, existe o agente de ator. O agente é a gura que faz a intermediação entre diretores de elenco e atores, conduz a carreira do artista (marca testes, envia material e promove seu casting). Para isso, é consenso no mercado que esse prossional precisa ter amplo conhecimento cultural e não necessita ser artista para isso. “É muita responsabilidade ter a carreira de alguém nas mãos. O agente precisa ter uma visão de business, uma cabeça diferente da do artista, agendar os trabalhos certos para poder fazer seu trabalho bem feito”, explica o gestor cultural do grupo TMB, Oliver Callegali. “Hoje, o agente é um prossional necessário”, avalia Marcos Montenegro, da agência Montenegro e Raman, que tem um casting de 180 artistas e recebe cerca de 10.000 propostas por mês de gente que deseja ser

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Marketing Cultural

Agentes de ator se tornam fundamentais
Em um mercado cada vez mais fechado, o artista precisa ter alguém para gerenciar a sua carreira e orientá-lo profissionalmente
agenciada. Grandes agências como essas tem amplo portfólio não só de atores, mas de cantores, atletas e até mesmo de jornalistas, o que prova o valor desse prossional em diversos âmbitos da mídia. “Para ser um bom agente, ter os contatos certos é decisivo, além de saber fazer abordagens na hora certa, sem ser inconveniente”, diz Marcos. Apesar da relevância do agente na carreira do ator, o mercado não está em ampla expansão. “A demanda por agenciamento é muito grande, o mercado, então, cresce, mas não muito”, frisa Oliver. Para Montenegro, isso acontece porque “o mercado já não é grande de maneira geral”. Mas como o ator pode saber se seu agente faz o trabalho certo? Primeiro, é importante identicar o foco do agente, se ele trabalha com o tipo de área que o ator deseja. Depois, analisar quais são as pessoas que trabalham com ele, se há identicação com seus trabalhos passados. Cobrar o agente de forma excessiva, exigindo trabalhos, nunca é a opção certa. “O ator que começa a ‘pentelhar’ (sic) o agente pode ser queimado no mercado, que é uma área pequena, na qual todos se conhecem”, avisa Oliver Callegali, para quem é fundamental construir uma relação de conança com quem
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Relação de conança: o agente Marcos Montenegro com os atores Irene Ravache e Cacau Hygino

vai gerenciar sua carreira. “O prossionalismo é fundamental. Tratar com seriedade, mas depois de um tempo você se torna amigo, é como uma família”, explica Montenegro. Entre atores de teatro, de televisão e de cinema, para o gestor Callegali a função do agente é mais ou menos relevante. “Em teatro é menos válido, porque o artista precisa passar pelo

casting, não tem errou/voltou. Portanto, ca mais difícil o artista conseguir o trabalho apenas porque foi indicado”, arma. Mas essa opinião pode divergir. “Um agente é fundamental para qualquer ator hoje em dia”, observa Montenegro, acrescentando que o que de fato varia é a porcentagem do agente nos contratos para as diferentes áreas. “Existem números padrão

para contratos publicitários, de teatro, de televisão ou de cinema. Mas isso pode variar de agente para agente e contrato para contrato”, diz um dos donos da Montenegro e Raman.
Serviço Montenegro e Raman www.montenegroeraman.com.br Grupo TMB Telefone: (11) 3656 7672

Política Cultural
Rio Branco tem lei de incentivo à cultura, “mas ainda não é suficiente”
Por Renata Hermeto A criação de uma política pública voltada à Cultura em Rio Branco (AC) começou em 2005, com o I Fórum Municipal de Cultura, proposto pela FGB (Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil). A idéia era traçar um diagnóstico da situação dos setores ligados à cultura no município e fazer um levantamento dos principais problemas estruturais e sociais enfrentados e relacionar suas principais expectativas em curto, médio e longo prazo. A capital do Acre contava apenas com a Lei Municipal de Incentivo à Cultura, criada em 1993 e alterada em 1999. Em 2006, o trabalho cou pela coleta de referências bibliográcas e estudos sobre as políticas culturais propostas pelo Governo Federal, bem como sobre experiências de outros estados e municípios brasileiros. A partir destes estudos, a FGB montou um documento que propunha a criação de quatro novos instrumentos de gestão: Conselho Municipal de Políticas Culturais, Fundo Municipal de Cultura, Cadastro Cultural de Rio Branco e Lei Municipal de Patrimônio Cultural. O documento foi levado, em primeira mão, para o Concultura (Conselho Estadual de Cultura) e para a Fundação Estadual de Cultura. Ambos rmaram parceria para trabalhar na criação da lei. O público foi o primeiro a ter contato com o projeto. Por meio do site da prefeitura e do blog de cultura, o documento pôde ser analisado pelos interessados. De acordo com dados da prefeitura, foram realizados cerca de 300 downloads. Depois de três meses de análise, o município conseguiu, enm, a alteração da lei. O documento foi, então, encaminhado ao PROJURI (Procuradoria Jurídica do município), que aconselhou o desmembramento da nova lei. No m do processo, dois projetos de lei foram apresentados e aprovados pela Câmara dos Vereadores: a lei 1.676/2007, que institui o Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco, e a lei 1.677, a Lei Municipal de Patrimônio Cultural, ambas de 20 de dezembro de 2007, aprovadas, sem alteração, pela Câmara Municipal de Vereadores. LEI DE INCENTIVO À CULTURA Há uma orientação do Conselho Municipal de Políticas Culturais para revisão desta lei, uma das deliberações da I Conferência Municipal de Cultura, realizada em 2007. Na ocasião, foi formada uma Comissão de Revisão, vericando-se, mais tarde, a ausência de condições, naquele momento, de empreender tal ação. “Inclusive das Artes Cênicas, no sentido de termos mecanismos de nanciamento mais adequados à realidade local e mais signicativos para os produtores culturais locais”, informa Flavia Bularqui, responsável pelo setor de Informação. No que se refere aos mecanismos de nanciamento, a Lei Municipal de Incentivo à Cultura disponibilizou, em 2008, a quantia de R$ 566.678,74, concedendo recursos a 80 projetos culturais. A inovação do SMC foi o funcionamento do FMC (Fundo Municipal de Cultura). Ainda em 2008, o FMC trabalhou com a importância de R$ 300.000, distribuídos em quatro editais, três deles temáticos: Edital 1: Formação; Edital 2: Produção e Circulação; Edital 3: Intercâmbio. O último se encontra aberto até o dia 17 de outubro, unicado, ou seja, contemplando diversas naturezas de projetos. De acordo com Flavia Bularqui e Eurilinda Figueredo, chefe do departamento de Articulação, “a lei não atende com eciência, já que contamos com poucos recursos disponíveis para o nanciamento de projetos. Em 2009, por exemplo, foram R$ 780.000 para atender projetos nas áreas de arte (incluindo as artes cênicas), esporte e patrimônio cultural”. Ela acrescenta: “Em 2009, tivemos 13 projetos de Artes Cênicas apresentados e, desses, somente seis foram aprovados”.

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Editais
Funarte lança editais para viabilizar 86 projetos do setor artístico
Fundação apresenta três novos projetos de incentivo à arte e oferece prêmios de até R$ 50 mil para potencializar cada vez mais a área
Por Pablo Ribera A Funarte (Fundação Nacional de Artes) apresentou mais um apoio à cultura brasileira ao lançar, no último dia 30, os editais de três projetos de incentivo à arte: o do “Prêmio Interações Estéticas - Residências Artísticas em Pontos de Cultura”, o do “Bolsa Funarte de Produção Crítica sobre Conteúdos Artísticos em Mídias Digitais/Internet” e o da “Bolsa Funarte de Criação Literária”. O objetivo da fundação com esses projetos é impulsionar e potencializar a produção e difusão artística, a capacitação prossional e o debate de ideias no setor de cultura. Para cumprir essas expectativas, a Funarte viabilizará 86 projetos, através desses editais. Para o Prêmio Interações Estéticas, serão investidos R$ 2 milhões – do orçamento da Secretaria de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura – nas propostas vencedoras. Promovido em parceria com a Secretaria de Cidadania Cultural do MinC, o Prêmio, que vai para sua segunda edição, oferece a possibilidade de desenvolver projetos integrados à ações de Pontos de Cultura de todo o País, sendo que artistas de diversos segmentos podem concorrer. Serão concedidos 71 prêmios: 66 deles, com valores entre R$ 15 mil e R$ 50 mil, serão divididos entre as cinco regiões brasileiras; os outros cinco, de R$ 90 mil cada, estão destinados a projetos de “Abrangência Nacional”. A Bolsa Funarte de Produção Crítica sobre Conteúdos Artísticos em Mídias Digitais/Internet também chega à segunda edição e oferece condições para que pesquisadores, teóricos, artistas e estudantes possam criar, estudar e se dedicar à produção de conhecimento críti-

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Fundação pretende, com os três editais, impulsionar e promover a integração cultural no Brasil

co sobre a arte brasileira na atualidade e sua relação com as tecnologias digitais. Serão distribuídas cinco bolsas de R$ 30 mil, uma para cada região do Brasil. As propostas de trabalho devem estar relacionadas à análise de conteúdos artísticos – das áreas de artes visuais, de dança, de circo, de teatro, de performance, de fotograa, de música, do audiovisual e da literatura – que tenham sido criados

ou estejam expostos em websites, CDs, DVDs e celulares, entre outros. Já a Bolsa Funarte de Criação Literária tem como principal objetivo fomentar a produção de textos literários inéditos nos gêneros lírico e narrativo. A Funarte contemplará, por meio deste programa, dez autores brasileiros, dois de cada região. Cada um receberá uma bolsa de R$ 30 mil. Os prêmios e as bolsas darão viabilidade a

projetos de todas as regiões do País. Dessa forma, a Funarte cria integração cultural em todo o Brasil, valoriza a diversidade cultural brasileira e democratiza o acesso dos prossionais aos meios de produção artística e intelectual, colocando ao alcance do público trabalhos que nem sempre encontram espaço na grande indústria do entretenimento. As inscrições se encerram no dia 13 de agosto.

Opinião
Qual deve ser o envolvimento de um dramaturgo na encenação de um espetáculo? A peça ganha mais com a interferência do criador do texto, ou somente com a exploração do diretor e dos atores sobre o texto?

Sérgio Roveri
Tivesse eu o objetivo de atrair a ira de boa parte dos diretores brasileiros, eu começaria este pequeno artigo criando uma nova máxima: autor bom é autor vivo. Mas como respeito profundamente a classe dos diretores e tive o privilégio de me tornar amigo íntimo de quase todos com quem já trabalhei, me permito aqui uma pequena alteração nesta máxima recém-criada: autor bom também pode ser autor vivo. Ou vice-versa. Difícil é fazer com que alguns profissionais acreditem nisso. Muito estranha a figura do autor. Ela parece incomodar não somente durante os ensaios, mas também ao longo da temporada. Como se nós, autores, fôssemos uma espécie de inspetor geral interessado no livro-caixa da companhia. Quando, na verdade, acredito eu, queremos ver apenas como é a voz, o corpo, a emoção e, principalmente, como se equilibram em pé todas aquelas personagens que, ao escaparem do nosso computador e da nossa impressora, não passavam de figuras chapadas em branco e preto. Se somos mesmos os pais biológicos de tantas histórias, penso que nosso acesso ao berçário deveria ser irrestrito. Porém, respeito as barreiras. Assumo aqui que não sei dirigir. Não tenho uma visão cênica aprimorada, meu conhecimento de luz é primário, tenho uma queda, pequena, é verdade, mas ainda assim incontrolada para o melodrama e sinceramente não sei se conseguiria controlar um grupo de atores. Mais que isso: talvez eu já me sentisse satisfeito com a primeira visão do personagem que cada um deles me apresentasse. Por isso, minha admiração ao profissional que entende daquilo que eu não entendo: o diretor. Mas existe uma sutileza que se encontra mais em poder do autor do que nas mãos do diretor e do elenco: é a sutileza da intenção, é aquela filigrana de emoção que parecia concentrada unicamente naquela palavra que o diretor resolveu cortar, é o silêncio entre uma frase e outra que, num primeiro momento, somente o autor é capaz de ouvir. E então eu me pergunto: se é possível contar com esta ferramenta valiosíssima, que é a observação do autor, qual o sentido em desprezá-la? Não pareceria muito mais lógico e produtivo se, durante as leituras de mesa e, mais adiante, nos ensaios propriamente ditos, o elenco pudesse ter a chance de solicitar ao autor um hemograma completo dos seus personagens – ainda que os elementos oferecidos por ele fossem desprezados ao longo do processo? Imagino o imenso deleite que seria poder perguntar a Shakespeare se Hamlet é mais vítima de loucura ou de caprichos. Talvez não estejamos criando Hamlet, alguns podem argumentar, mas sabemos o que estamos criando. E andamos cada vez mais loucos para compartilhar este saber. Entendo que o processo de direção pode ser tão solitário quanto o é, na maioria das vezes, o processo de escrita de um texto. Mas, o que eu defendo aqui, é a possibilidade de uma democratização nestas relações. Que cada um tenha o direito de mostrar o que sabe e o que tem de melhor. Quem ganha com isso não sou eu, os diretores ou o elenco. Quem ganha com isso é aquela pessoa desconhecida, que sai de casa, enfrenta filas e deixa alguns reais na bilheteria como um crédito de confiança em nosso trabalho. A ela, devemos tudo. O resto a gente resolve nas coxias. Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo. É autor das peças Andaime, prêmio Funarte de Dramaturgia, e Abre as Asas Sobre Nós, prêmio Shell de autor. Duas peças de sua autoria estão em cartaz em São Paulo até o fim de julho: Dueto da Solidão, no Sesc Vila Mariana, e A Vida que eu Pedi, Adeus, no Teatro Cosipa

Ballet
representaram empecilho para quem tem vontade de vencer. Anal, estudar no Bolshoi do Brasil pode ser a oportunidade de mudar para melhor todo o percurso de vida. Na plateia, os sonhos dos participantes eram multiplicados pelos dos pais e familiares. Eles acompanharam, ansiosos, cada apresentação. Este ano, o evento – que teve apresentações paralelas incluídas ao festival, devido à grande demanda de público – registrou público recorde de 3.500 expectadores no Teatro Cidade do Saber. As audições foram acompanhadas pela coordenadora, Sylvana Albuquerque, e pela coordenadora artística do Bolshoi no Brasil, Maria Antonieta Spadari. A meta era selecionar os dois melhores dançarinos do Festival Ballace e mais uma criança que estude no complexo artístico, Cidade do Saber, para integrar o corpo do Bol-

Por Carla Costa Apresentações de dança moderna, de salão, popular e balé clássico encheram o calendário cultural da cidade de Camaçari (BA). Para a população local, o Festival Ballace Bahia é a oportunidade de ver de perto a beleza de coreograas cuidadosamente desenhadas para emocionar, e que tem como pano de fundo a história de vida dos integrantes das seletivas que nomeiam os três indicados para as vagas da Escola de Ballet Bolshoi para 2009. Este ano, 1200 bailarinos de todo o País se inscreveram na disputa, realizada entre 11 e 14 de junho, pelo terceiro ano consecutivo, na cidade baiana. Em meio a coreograas e passos precisos, eles mostravam a excelência do trabalho desenvolvido em classes sem muita estrutura, mas que nunca

da vida
shoi no Brasil. Para Sylvana Albuquerque, todos os participantes foram vencedores, pois muitas vezes eles não têm espaço adequado para ensaiar, nem condições nanceiras para investir até mesmo nos próprios vestuários. “A importância desse trabalho já fala por si só, pois tudo o que fomenta a cultura e a dança deve ser considerado primordial para o desenvolvimento de qualquer ser humano”, arma. Segundo ela, os bailarinos baianos mostram que sabem o valor da arte e se destacam em exibilidade, bravura e vontade de vencer. “Temos muito prazer em assisti-los”, conclui. Apesar do nervosismo e ansiedade dos participantes, eles não negaram a felicidade em poder participar de um evento tão importante e que lhes abre portas. Além de, também, terem oportunidade de fazer um intercâmbio de experiências com
Bailarina Mariana Gomes pretende um dia ser júri do Festival

Cristiano Castaldi

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Dança

prossionais e praticantes da dança de outros cantos do País. Quando é chegada a hora de conhecer os dois escolhidos pelos coordenadores, a Bahia – sede do festival – é nomeada, pelo segundo ano consecutivo, a grande vencedora (ca com as duas vagas do Bolshoi). As bailarinas Lara Pithon e Anelice Souza ganharam bolsas integrais, mas, para fazer o curso, terão que mudar radicalmente

o estilo de vida. Isso signica, inclusive, morar em outro estado, pois a instituição se localiza em Santa Catarina, na cidade de Joinville. O curso, que tem duração de oito anos, oferece aulas teóricas, técnicas de dança, curso de inglês, aulas de literatura, de piano e de pilates. Ao término desse período, os bailarinos sempre voltam ao Bolshoi para novos aperfeiçoamentos.

AUDIÇÃO É APENAS A PRIMEIRA BARREIRA ENFRENTADA PELOS DANÇARINOS
Além dos cursos de aperfeiçoamento, a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil oferece a todos os bolsistas ensino regular gratuito, uniformes, plano de saúde, transporte e alimentação. Mas não dá moradia aos bailarinos. O que, para muitos, como a bailarina Anelice Souza, de 11 anos, é um grande obstáculo para seguir em frente. “Rezo todos os dias para que Deus me dê a graça de conseguir ir para lá, pois tenho certeza que é a grande chance da minha vida, de seguir o meu sonho e ainda ajudar a minha família”, desabafa. A menina, agora, precisa vencer mais uma etapa: conseguir patrocínio para manter uma moradia durante todo o período que precisará car em Joinville para completar o curso. Criança humilde, que mora em uma região de classe baixa de Salvador, Anelice vive com os pais, garçons, e com sua irmã. Todos vivem em uma casa simples, com a renda de dois salários mínimos. A mãe, Márcia Souza, conta que, desde criança, Anelice dava sinais do quanto tinha vocação para o balé. “Ela sempre andou na ponta do pé e se destacava nas festas devido a forma de dançar”, revela Márcia. Márcia conta, ainda, que a boneca Barbie sempre foi a inspiração da sua lha, que tentava imitar os passos que a personagem fazia em comerciais e lmes. “Ela me pedia para entrar em uma escola de dança, mas, infelizmente, minha falta de condições nanceiras não permitia. Doía muito ver a minha lha cheia de potencial, mas sem oportunidades”, diz Márcia. Quando Anelice completou Vera Monteiro, percebeu que estava diante de uma excelente bailarina. “Ela tem grande potencial. Só precisamos lapidá-la para que ela se torne uma pérola preciosíssima. Anelice é uma criança que dança com emoção e é muito carinhosa”, avalia Monteiro. Anelice, que já ganhou diversos prêmios, diz que não esperava ser escolhida pelo Bolshoi, apesar de ter a consciência de que dança bem. Ela conta que, quando soube do resultado do concurso, cou muito feliz e só pensou que era chegado o momento de dar melhores condições de vida para sua família. Quando questionada sobre a saudade que sentirá dos familiares, Anelice responde que seria muito bom se todos pudessem se mudar para Santa Catarina com ela, mas, como já está sendo difícil a sua própria ida, a menina arma que irá segurar a emoção e seguir em frente. “Sei que deve ser difícil car tão longe, mas não vou me abater. Quero ir e aproveitar essa grande chance. Peço a ajuda de todos que possam me apoiar a conquistar o meu sonho”, frisa Anelice. O desempenho de Anelice fez com que os auditores adiantassem o início do curso da garota, que só deveria ingressar no Bolshoi em fevereiro de 2010. Assim, caso consiga patrocínio para comprar as passagens e pagar por moradia, a menina começará o curso no segundo semestre deste ano. Apoio: Quem quiser ajudar Anelice deve entrar em contato com a professora Vera Monteiro através do telefone (71) 8816-9028
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Anelice, de 11 anos: patrocínio para mudar para Joinville

9 anos, a mãe dela conseguiu colocá-la na academia de dança do bairro. Foi lá que a garota teve apoio para seguir em frente. Assim que começaram as aulas, sua professora de dança,

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HISTÓRIA DO FESTIVAL MOSTRA QUE A PARTICIPAÇÃO POPULAR É O MAIOR RESPONSÁVEL PELO SEU CRESCIMENTO Esta foi a quarta edição do Ballace, realizado na Bahia desde o ano de 2006. A primeira sede do festival foi Salvador. No entanto, depois da inauguração da Cidade do Saber, instituição pública que oferece aulas de dança para a comunidade carente da região, surgiu a viabilidade da transferência para um município da Região Metropolitana. A Cidade do Saber não oferece apenas espaço físico para a realização do festival. Dela saem, também, os dançarinos que, anualmente, emocionam e brigam com garra por uma vaga na seletiva. Este ano, 300 alunos da Cidade do Saber concorreram a apenas uma vaga. No entanto, de acordo com a coordenadora da seletiva na Bahia, Sylvana Albuquerque, após as audições, quatro estudantes foram selecionados. As crianças escolhidas – Débora Leal Santos de Carvalho, Elisa Bonfim Menezes, Pámela dos Santos Silva e Yasmin Ribas Ferreira – participarão da seletiva, nos dias 17 e 18 de outubro, em Joinville. Elas disputarão as 40 vagas com bailarinos de todo o mundo. No entanto, segundo as coordenadoras do festival realizado na Bahia, o número pode ser alterado pelo desempenho dos concorrentes e das performances. “Eles já são vencedores. Desejo aos selecionados muita garra e determinação. E que consigam vencer mais essa etapa, mas que, principalmente, não se frustrem se não conseguirem passar. Existem vários caminhos e o Bolshoi é apenas um deles”, finalizou Sylvana. Em 2008, o Ballace trouxe o diretor Pavel Kasarian, da Escola do Teatro Bolshoi , para selecionar alunos da comunidade, oferecendo-lhes duas bolsas de estudo completas. A expectativa inicial dos representantes do Bolshoi era a de selecionar crianças para a etapa nacional. No entanto, eles foram surpreendidos pela aptidão dos participantes e decidiram, de forma inédita, aumentar o número de vagas para aquele ano. Assim, oito alunos foram classificados e concorreram com mais 500 candidatos de todo Brasil. Finalmente, quatro crianças foram contempladas com as bolsas de estudo. Números que tem crescido com a realização de cada uma das novas edições. Para se ter uma ideia, de 2008 para 2009, o número de inscritos cresceu de 1000 para 1500, firmando o Ballace no calendário artístico nacional. Junto com os números, o festival chama a atenção de nomes de peso da dança, que se envolvem com o projeto. Assim, bailarinos brasileiros de destaque que participam de companhias e eventos consagrados nacional e internacionalmente, além de estudantes e praticantes da dança do Brasil, têm se reunido no palco e plateia do TCS. Isso contribui para inserir o Complexo de arte-educação camaçariense como parte importante do cenário da dança mundial.
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Festival realizado pelo Bolshoi movimenta calendário cultural de cidade baiana e alimenta sonho de prossionalização de bailarinos de todo o Nordeste

BAIANA REPRESENTA BRASIL NO BALÉ
De férias na Bahia, a baiana Mariana Gomes, única brasileira que compõe o corpo de dança do Ballet Bolshoi na Rússia, conta sua história, fala da saudade e sobre a vontade que tem de compor o corpo de jurados do Festival Ballace. A companhia da qual Mariana faz parte é considerada a mais tradicional do mundo, fundada em 1776, e conhecida mundialmente devido aos rigorosos critérios para a seleção, perfeição e precisão de todos os passos dos seus bailarinos. “É preciso muita coragem e determinação, além de técnica, muito caráter e inteligência”, explica Mariana. Com apenas 21 anos, ela é o exemplo de determinação e superação que inspira a maioria dos dançarinos brasileiros. A sua trajetória na dança foi iniciada aos 7 anos, quando começou a estudar na Escola de Ballet Adalgisa Rolim, na cidade de Lauro de Freitas (BA). Aos 14 anos, ela foi incentivada por sua professora de dança para fazer um teste na Escola de Teatro do Bolshoi, de Joinville, e acabou selecionada entre os 4.700 currículos enviados. Mariana passou a integrar o corpo de baile e a viajar por todo o Brasil, sempre com medalhas de honra como melhor aluna. Em 2005, nas avaliações anuais, feitas por professores de Moscou, foi
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DA RÚSSIA
eu sabia, porque sempre estudei tudo. Assim ganhei meu espaço”, diz. A bailarina admite que o caminho até o Bolshoi da Rússia é árduo, e, infelizmente, nem todos que estudam no Bolshoi do Brasil terão a mesma oportunidade. “Infelizmente não é fácil conseguir chegar lá e mostrar suas qualidades, mas, com certeza, a maioria dos bailarinos terá chance em outras companhias do mundo”, avalia Mariana. Ela conta que conhece e já ouviu falar muito do Festival Ballace. Para Mariana, é muito importante saber que, através deste evento, vários baianos são selecionados para o Bolshoi. “Eu ainda não participei, mas, assim que receber um convite, terei o maior prazer em realizar uma apresentação e de ser jurada também”. Mariana naliza a entrevista deixando para todos os bailarinos brasileiros uma mensagem de incentivo. “Sejam muito mais que bailarinos, muito mais que estagiários, muito mais que contratados, façam a diferença. Usem a inteligência e nunca percam a humildade. Dancem quando estiverem tristes e com saudades, quando estiverem de folga e até mesmo de férias. Dancem pra curar todas as dores, mas que seja sempre com amor”, nalizou a bailarina.

Mariana Gomes, a baiana de 21 anos que conquistou a Rússia

selecionada para o estágio remunerado e se mudou para a capital Russa. Mariana conta que teve problemas de adaptação e sofreu discriminação por ser brasileira, mas soube vencer os obstáculos, inclusive, o mais difícil deles: a saudade que sentia da sua família e dos amigos. “Aprendi a conviver com a saudade, e aprendi que tudo é uma questão de costu-

me”, conta. Com uma rotina intensa, ensaios diários, das 8h às 22h30, e intervalos de três horas com folgas somente na segunda-feira, Mariana teve sua grande chance ao substituir uma bailarina russa, 15 minutos antes da estreia do espetáculo Bolt. “Era uma apresentação difícil e nem todo mundo sabia fazer tudo, mas

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Festivais
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A proposta experimental do FIT será mantida em 2009

Em 1969, o Festival de Teatro de São José do Rio Preto surgiu com caráter competitivo

sentações, confraternização e troca de ideias, formando um dos ambientes mais esperados do festival. A extensa programação tem alguns destaques, como a intervenção do grupo mineiro As Obscênicas, com “Baby Dolls – Uma Exposição de Bonecas” e “Bolha Luminosa – Experimento Transapiens”, da Cia Teatro Lumbra e o Clube da Sombra. As artes plásticas também terão espaço com a instalação do artista Carlos Bachi “Árvorearbretreearbol”. Entre os espetáculos musicais estão o show de Karine Alexandrino, músicos argentinos apresentando uma fusão de ritmos latinoamericanos em “La Cartelera y sus Limones Domingueros” e o inglês Tetine apresentando seu último álbum. A variedade de estilos musicais está garantida durante as noites do espaço, com apresentação do DJ Bocka, do DJ Mabel, do DJ Cláudio Gorayeb, do DJ Fábio Lopes e do DJ Jefferson D’Melo. APRESENTAÇÕES NAS RUAS O FIT terá dois espetáculos gratuitos ao público nas ruas de São José do Rio Preto. A Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais apresenta “Miséria, Servidor de Dois Estancieiros”, adaptada livremente da commedia dell’arte “Arlequim, Servidor de Dois Amos”, de Carlo Goldoni. A principal história trata de um anti-herói que não conseguiu entrar nem no céu nem no inferno e decide arranjar um emprego. A segunda atração de rua é do Teatro que Roda. É a “Das Saborosas Aventuras de D. Quixote de La Mancha e seu Escudeiro Sancho Pança - Um Capítulo que Poderia ter Sido”, que fala sobre um executivo que se cansa de sua vida e mergulha em um mundo imaginário, imaginando ser

o famoso personagem de Miguel de Cervantes. COMPANHIAS INTERNACIONAIS Companhias internacionais terão espaço no festival deste ano. França, Chile, Estados Unidos, Espanha e Argentina estão entre os que poderão apresentar suas obras na cidade de São José do Rio Preto. O espetáculo francês “Arcane” é que fará a estreia, dia 16, trazendo uma relação acrobática entre homem e objeto. O grupo chileno Teatro en El Blanco apresenta “Neva”, peça ambientada em São Petesburgo, na Rússia, que trata sobre manifestações dos operários por melhores condições de vida. O norte-americano Avner Eisenberg mostra, através da comédia, sua simplicidade poética com um de seus grandes sucessos na Broadway, “Avner, the Eccentric”. Da Espanha, vem o grupo Los Cordelos.sc com a “Crónica de José Agarrotado (Menudo Hijo de Puta)” e “Sienta La Cabeza”, onde o público é o protagonista. Ainda com o idioma espanhol, os argentinos trazem o espetáculo “Tercer Cuerpo”, onde cinco personagens se unem através da solidão que os assola e a necessidade de amar. ATIVIDADES FORMATIVAS A organização do festival traz, nesta edição, diversas atividades de formação para os interessados nas artes cênicas com o objetivo de oferecer um espaço para o aprimoramento desses prossionais. Entre as atividades estão palestras, debates, ocinas, lançamentos editoriais, lmes e encontros de prossionais da área. O Painel Crítico funciona como uma forma de compreender melhor o trabalho dos críticos de teatro e contará

com o trabalho de seis leitores críticos, que publicarão seus textos no jornal do festival e no site ocial. São eles: Walter Lima Torres, da UFP, Curitiba (PR); Kil Abreu, da Escola Livre de Teatro, Santo André (SP); Bia Medeiros, da UNB, Brasília (DF); Lúcio Agra, da PUC São Paulo (SP); Clóvis Massa, da UFRSG, Porto Alegre (RS); e Luiz Marfuz, da UFBA, Salvador (BA). No Open Space, o tema do FIT, a subjetividade, será colocado em pauta em duas atividades. Primeiro a subjetividade contida nos processos de criação coletiva e depois a fruição subjetiva e leitura crítica, com a participação dos leitores críticos, dos alunos do Atelier de Crítica Teatral e dos críticos dos jornais, TVs e sites convidados pelo festival. DO DRAMA À COMÉDIA Companhias consagradas e inovadoras se apresentam em diversos espaços do FIT. O Grupo Macunaíma é um deles, com o espetáculo “A Falecida Vapt Vupt”, de Nelson Rodrigues. Outro texto do dramaturgo brasileiro, “Senhora dos Afogados”, ganha nova produção no festival, feita pelo Núcleo Experimental. Os baianos da companhia Dimenti Produções Culturais também terão Rodrigues como fonte de inspiração na peça “Batata!”. Isabel Teixeira, vencedora do prêmio Shell 2009 de melhor atriz, apresentará o espetáculo que lhe concedeu o prêmio, “Rainha[(s)] - Duas Atrizes em Busca de um Coração”, dirigido por Cibele Forjaz, com Georgete Fadel no elenco. Também merece destaque o monólogo “Eldorado”, de Eduardo Okamoto; “O Cantil”, da companhia cearense Teatro Máquina; e o espetáculo “A Margem”, da Companhia do Gesto, do Rio de Janeiro.

Serão quatro atividades para atores, diretores, bailarinos e até jornalistas A programação de Atividades Formativas no FIT incluirá diversas oficinas, debates, palestras e encontros, todos gratuitos e abertos ao público. As inscrições começaram no dia 1º de julho e seguem até o fim das vagas, que são limitadas. Os espaços, segundo os organizadores, serão dedicados à aprendizagem e aprimoramento não só de atores, mas de bailarinos, de diretores e até de jornalistas de arte. Serão quatro oficinas teatrais: A Teatro do Oprimido, nos dias 17 e 18 de julho, apresentará princípios básicos da teoria do teatro e experimentação prática através de jogos, exercícios e uma encenação. O diferencial é que crianças a partir de 13 anos já podem participar dessa oficina. O grupo argentino Los Corderos coordenará a oficina O Corpo Criativo no Teatro, no terceiro dia de festival. O foco ficará nas ferramentas do que o ator dispõe, como o preparo de sua voz, de seu físico e de sua composição espacial, fornecendo um treinamento no qual o ator poderá descobrir suas limitações. A oficina Princípios Excêntricos acontecerá no dia 25 e também terá presença internacional, graças ao norte-americano Avner Eisenberg, que irá explorar maneiras de encontrar personagens e criar materiais, abrangendo três áreas: balanceamento e controle do espaço, encontro e estabelecimento de cumplicidade com o público e parceiros e resolução de problemas como um método de trabalhar no palco. Voltada aos jornalistas e a quem gosta de escrever, o Atelier de Crítica Teatral terá a presença de Kil Abreu, hoje colaborador da revista “Bravo!” e com vasto currículo na área cultural. É a oficina mais longa, com quatro dias de duração, de 21 a 24. Para se inscrever em uma das atividades, basta comparecer à secretaria do FIT, no primeiro andar do Centro Cultural Daud Jorge Simão, localizado na praça Jornalista Leonardo Gomes, s/n (Praça Cívica). Mais informações pelo telefone (17) 3215-1770.

OFICINAS DE FORMAÇÃO FOMENTAM A EDUCAÇÃO DURANTE O FESTIVAL

FIT TRAZ LANÇAMENTOS DE LIVROS E EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA Dentro da programação de Atividades Formativas, o FIT traz o lançamento de produções editoriais que abordam a temática teatral. Um dos destaques é o livro Fotografia de Palco, da fotógrafa Lenise Pinheiro. Para realização desta obra, Lenise inspirou-se no trabalho de Fredi Kleemann (1927-1974), fotógrafo que registrou as produções do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e da Companhia Cacilda Becker. O diferencial de Lenise é a busca pelo “instantâneo não elaborado” e não apenas o retrato. O lançamento do livro é acompanhado de uma exposição fotográfica com as imagens presentes no livro. Na mesma noite, dia 17 de julho, também acontece o lançamento das obras: O Teatro da Morte, de Tadeuz Kantor; Revista Sala Preta – nº 8.

SERVIÇO: Festival Internacional de São José do Rio Preto Quando e onde? Entre os dias 16 e 25 de julho, em São José do Rio Preto, SP Quanto? Entre R$ 10 e R$ 2,50 Mais informações: www.festivalriopreto.com.br

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Divulgada a programação do

40º. Festival de Teatro de São José do Rio Preto
Com o tema Subjetividade, evento se divide em módulos por áreas temáticas Subjet
Por Ive Andrade O Festival Internacional de Internacio Teatro de São José do Rio Preto chega a sua 40ª edição, em 2009, com mais de cem apresen apresentações de grupos nacionais, in internacionais e regionais em su prosua gramação. Este ano, o F terá FIT como tema a subjetivi subjetividade e manterá o caráter expe experimental e não-competitivo que o caracteriza desde 20 2001. Os ingressos começam a ser vendidos, virtualmen no virtualmente, dia 7 de julho, atra através do site ocial do festiva (www. festival festivalriopreto.com.br). A parr tir do dia 11 de julh será julho possível também a adquirir as entradas pesso pessoalmente no Sesc Rio Pr Preto ou em 27 outras un unidades do Sesc no Esta Estado de São Paulo. Os preç das preços apresentações vari envariam tre R$ 2,50 e R$ 1 10. MÓDULO TEA TEATRO E CIÊNCI CIÊNCIA Em 2009, o Festival Internacional de Teatro de São José do R PreRio to trará uma comb combinação inusitada em um de seus módulos: a união do teatro com o tema ciência, apresentado pelo grupo paulistano Núcle Arte Núcleo e Ciência no Palc com Palco dois espetáculos. O primeiro é “Einstein que “Einstein”, já passou por m de mais 350 cidades pelo País e completa dez anos O enanos. redo apresenta um visão uma humanizada do gê gênio da física, com nuances de sua personalidade capta captadas no palco. Em São José do Rio Preto, a estréia da peç aconpeça tecerá no dia 21 de jul julho. Outra aprese apresentação que une o mundo c cientíco ao teatral é “Afte Da“After rwin”, que trata dos conitos de Charles Darwin com o capitão Robert Fitzroy. O espetáculo aproxima a teoria do u o p xim ima petáculo aproxima teo cientista ao contexto co contemporâneo. No FIT, sua estreia acontecerá no dia 24. MÓDULO OCUPAÇÃO No Módulo Ocupação, todos os anos um grupo de destaque nas artes cênicas ganha espaço exclusivo e pode trazer de volta suas criações e as melhores obras. No aniversário de 40 anos de criação do festival, o carioca Companhia dos Atores é o convidado. Com 20 anos de carreira, os artistas cariocas apresentarão em São José do Rio Preto quatro espetáculos, entre os dias 20 e 25 de julho. “Talvez” é um deles, onde um homem marcado pela introspecção e esquizofrenia tranca-se em seu apartamento e inicia uma relação curiosa com os espectadores. Nos dias 20 e 21, “Apropriação” discutirá temas como livre arbítrio, autoria e impotência do homem perante seu criador, através de trechos de obras, declarações e entrevistas do dramaturgo Harold Pinter. Situada nos anos 40, a peça “Esta Propriedade está Condenada” traz como pano de fundo o encontro de dois adolescentes no sul dos Estados Unidos e, a partir daí, desenrola uma seção de lembranças de clássicos cinematográcos e trechos de populares canções norte-americanas. Com direção de Gerald Thomas, o último espetáculo a ser apresentado pela companhia será “Bate Man”, onde a personagem é torturada e, durante a peça, constroi uma profunda análise do homem contemporâneo. ALDEIA FIT No módulo Aldeia FIT, dez grupos teatrais de São José do Rio Preto marcam presença no festival. Os artistas foram escolhidos através de uma seleção que tinha 21 candidatos, na qual foi levado em conta a qualidade técnica, o texto e a interpretação, entre outros aspectos. Entre os selecionados estão a Cia Teatral Só Riso, com o espetáculo “Liz, eu e o Pássaro Encantado”, onde a imaginação de uma menina e sua relação com um pássaro levam ao público referências de mundos diferentes. Já o Balé de Rio Preto apresenta “Alma Aprisionada”, onde o grupo se arrisca em uma performance entre a lucidez e a loucura, tratando da personalidade de Stela do Patrocínio. Dentro de um contexto popular, a Cia Forrobodó de Teatro apresenta “É Poesia Popular”, que conta a história de um casal de retirantes que chega à cidade grande em busca de uma vida melhor, mas seguem pelo Brasil cantando cordéis. O trabalho da Cia Palhaços Noturnos será “Melodrama”, onde o humor e o deboche se misturam em diversas pequenas histórias. Interpretando o clássico literário “Memórias de um Sargento de Milícias”, a Cia Fábrica dos Sonhos mostra com humor a conhecida história de Leonardo Filho, enquanto a Trupe Gato e Sapato conta a história de dois artistas de circo: o palhaço Pirueta e a bailarina Penélope, que perdem seus empregos e agora tentam montar o próprio show. As diculdades dessa empreitada tecem a história da peça. O espetáculo “As Noivas”, da Cia Livre de Teatro, é uma adaptação livre de três contos de Nelson Rodrigues, com um toque contemporâneo. Na peça, três mulheres com personalidades distintas, mas com o mesmo sonho: usar um vestido de noiva. Em “O Girassol”, a história é a do menino Brás não gosta de sua vida e quando adulto deixa o interior em busca de seus sonhos. O espetáculo é da Cia da Boca e trata da terra e sua relação com os seres humanos. Três empregadas domésticas acreditam ter matado sua patroa em “Três é D+”, da Curta Produções Artísticas. O espetáculo promete arrancar risos da plateia enquanto as mulheres tentam provar sua inocência. NÃO-LUGAR O espaço noturno NãoLugar é reservado para apre-

O espetáculo francês Arcane traz a relação acrobática entre homem e objeto

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Fo to s: C el ia

Ag ui ar

democracia real
Por Michel Fernandes* especial para o Jornal de Teatro A 41ª edição do FILO (Festival Internacional de Londrina), que acabou no nal de junho, entra para a história das artes brasileiras graças à redação de uma carta oriunda do debate Acessibilidade Para a Democratização da Cultura, em que o foco para a Arte Inclusiva, ou seja, aquela preocupada com a participação de todos os indivíduos de nossa sociedade na feitura e recebimento dos objetos artísticos, teve pioneiro destaque. Já havia participado de festivais nacionais realizados pelo Movimento Arte Sem Barreiras, como jornalista e ocineiro, como também do alemão Dancing Crossing Festival, como bailarino, e com o grupo português Dançando Com a Diferença, como pesquisador em dança inclusiva (que chamo de dança das diferenças), mas em todos esses eventos citados, a segmentação segregava os ditos inclusos do meio artístico a ser incluídos. Já o FILO 2009 agregou a sua seleta pauta de fomento artístico, de merecido reconhecimento no curso desses anos, a questão da chamada Arte Inclusiva. Mas, voltemos à carta: ela é endereçada a todos os festivais, sejam nacionais ou internacionais, para que estes reconheçam artistas decientes com igualdade de possibilidades de participação, desde que a arte a que se dedicam esteja dentro dos critérios de excelência artística exigidos por tais festivais. Outro quesito da carta, que exige uma reformulação mais complexa dos meios, diz respeito à acessibilidade da recepção dos espetáculos apresentados em festivais, ou seja, que através da tecnologia e de outros meios – como um intérprete em LIBRAS – seja possível a recepção por decientes visuais, auditivos etc. O DEBATE Quem participou das mais de quatro horas de duração do debate Acessibilidade Para a Democratização da Cultura, mediado por Paulo Braz – membro da Comissão Organizadora do FILO –, sabe que os apontamentos ali nascidos são apenas rebentos prematuros de discussões que ocuparão enorme parcela de nosso porvir, mas, na contramão de tantos projetos capazes de nos engravidar de questões para, na sequência, nos abandonar órfãos de espaços para a continuação das discussões, o FILO 2009, na pessoa do próprio Braz, se comprometeu com a continuidade do projeto nas próximas edições do evento. “Desde o princípio, o FILO é um festival preocupado com o processo, então, é natural a continuidade do projeto de Arte Inclusiva nas próximas edições do Festival”, completou Paulo Braz. A jornalista, empreendedora social, escritora, fundadora da Escola de Gente –Educação Para Inclusão e do grupo de teatro Os Inclusos e Os Sisos armou categoricamente: “sem se pensar na questão da acessibilidade não há evolução democrática”. Em miúdos, a palavra democracia – caracterizada pela participação de todos os cidadãos do povo, em que, por meio do voto, escolhemos nossos representantes, cuja missão é debater e legislar assuntos de relevância social – só atinge seu pleno signicado quando representantes de cada segmento social, preocupados em solucionar os problemas de forma comunitária, tiverem efetiva participação no debate social. O problema disso, também apontado por Werneck, é que os segmentos acabam por buscar soluções muito especícas e geram uma espécie de exclusão dentro da própria idéia de inclusão. Citou como exemplo as reivindicações de grupos de surdos com capacidade de leitura labial, batalhando por direitos especícos a sua classe, desconsiderando aqueles decientes auditivos sem a capacidade de leitura labial. Virou lugar-comum o discurso individualista em todas as instâncias. Nada a fazer, então? Não. Continuemos tentando interpretar o que nos dizem nossos representantes para assegurarmos um futuro mais comunitário, votando em quem nos parecer melhor representar. O debate Acessibilidade Para a Democratização da Cultura, como se pode perceber, alcançou escalas além do sentido objetivo da questão “acessibilidade”. Mas a apresentação do grupo carioca Os Inclusos e Os Sisos é referência objetiva no quesito recepção acessível (as representações do grupo procuram destinarem-se aos mais diferentes públicos, contando, para isso, com uma intérprete de LIBRAS, posicionada numa das laterais do palco de modo a car iluminada sem que isso interra na iluminação do espetáculo, fones de ouvido com áudio descrições, para que os decientes visuais possam acompanhar os detalhes da encenação, e um sistema de legendagem instantânea, na outra lateral do palco, destinado aos decientes auditivos alfabetizados). Segundo armou Cláudia Werneck, esse é o modelo do “teatro do futuro”, cuja recepção será pautada pela acessibilidade geral. ARTISTAS HERÓICOS POR SEREM DEFICIENTES OU, SIMPLESMENTE, ARTISTAS? Como deciente que já deu a cara a tapa nos palcos, dançando em Via Sem Regra, de Gerda König, com a alemã Din a 13 Tanzcompany comungo com a inquietação que preocupa sobremaneira o bailarino Edu O, que apresentou o interessante “Judite Quer Chorar, Mas Não Consegue”, no FILO 2009: o reconheci-mento de nosso trabalho está atrelado ao fato de nos-

Participação artística como arma para
sa deciência nos colocar num pedestal cerzidos com âmulas heróicas daquele que consegue uma vitória apesar de enfrentar todas as adversidades ou somos reconhecidos pelo nosso real valor artístico (única “vitória” que nos interessa obter)? Guardo uma lição de Henrique Amoedo, diretor-artístico do grupo português Dançando Com a Diferença: “O resultado artístico pode ser bom ou ruim independentemente da condição física de quem o apresenta”. Posto isso, devemos ater nosso foco de atenção no gesto, na fala, na melodia, na poesia, enm, no objeto artístico em si e não em quem o produziu para medirmos sua relevância e/ ou qualidade artística. Edu O., por exemplo, apresenta em Judite Quer Chorar, Mas Não Consegue uma bela obra de dançateatro sobre as dores e os sabores vindos com a transformação. *Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico e pesquisador de teatro. Editor do www.aplausobrasil.com.br.

Bailarino Edu O durante o espetáculo “Judite Quer Chorar, Mas Não Consegue”

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Teatro de animação estimula cultura catarinense
Terceira edição do Fita Floripa bate recorde de público e 20 mil pessoas vibram com as apresentações de 19 companhias de teatro e animação
Por Adoniran Peres Durante uma semana, visitantes que vieram contemplar as belezas naturais de Florianópolis, estudantes e a população em geral da região catarinense tiveram dias culturalmente animados. Representantes do teatro de animação do Peru, da Itália, da Espanha, da França e de várias localidades brasileiras estiveram na capital e zeram das ruas, das praças e dos espaços públicos da cidade grandes palcos de importantes espetáculos. O motivo de tanta manifestação cultural foi a terceira edição do Fita Floripa (Festival Internacional de Teatro de Animação de Florianópolis), que ocorreu entre os dias 14 e 20 de junho. O evento teve a participação de 19 companhias de teatro e animação e arrebanhou um público estimado em 20 mil pessoas, um recorde para os organizadores, cinco mil a mais que em 2008. “Isso signica a realização de um quarto FitaFloripa”, armou a coordenadora geral do festival, Sassá Moretti, que assina a coordenação executiva do evento junto com Zélia Sabino. No total, 41 apresentações nacionais e internacionais foram realizadas em 13 espaços da capital, gratuitamente ou a preços populares (de R$ 4 e R$ 8). O sucesso foi tão grande que houve necessidade de uma segunda sessão em um dos espetáculos, como é o caso da peça o “Hagënbeck”, da Cia. Experimentus Teatrais, de Itajaí. Os ingressos já haviam se esgotado quatro horas antes do início da apresentação. Entre os espetáculos mais esperados estavam os internacionais. A abertura do evento, dia 14, contou com a participação de grande público, que assistiu a companhia peruana Teatro Hugo & Inês, com “Cuentos Pequeños”, que se utiliza de partes do corpo para dar vida a personagens. Receberam muitos

Teatro Hugo & Inês, do Peru, em “Cuentos Pequeños”, durante a abertura do festival: partes do corpo dão vida aos personagens

aplausos a magia das sombras da Cia. Gioco Vita, da Itália, com “Pépé e Stella. Outro destaque foi “Passage Désemboîté”, da companhia francesa Les Apostrophés. O espetáculo invadiu as ruas do centro de Florianópolis e prendeu atenção dos transeuntes e curiosos. Quem parou para assistir, deu boas risadas. Homens de terno e gravata manipulavam objetos simples, fazendo deles personagens que ditavam o ritmo das ações dos quatros atores, com o sanfoneiro que conduzia o público entre as várias histórias. O encerramento, dia 18, cou por conta da Cia. Jordi Bertran, da Espanha, no Centro de Cultura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com “Antologia”. Mas não foi só isso: a magia

do teatro oresceu em outros pontos da cidade, com companhias nacionais, com destaque para os catarinenses. Os brasileiros mostraram igualmente ao que vieram, como a Cia. Circo de Bonecos, com o espetáculo “Circus – A nova turnée”, que encantou e lotou o auditório principal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Já o espetáculo “Socorro”, do Ronda Grupo de Dança e Teatro, de Florianópolis, lotou o teatro da Ubro, entre outros que entraram em cena, como as companhias Cirquinho do Revirado, com “O Sonho de Natanael”, o Anima Sonho com a “Bonecrônicas” e “Circus – A Nova Turnée”, da Cia. Circus de Bonecos, e o “Menino Maluquinho”, da Cia. Andante. Mais informações em www.taoripa.com.br

Passage Desemboîte, do Grupo Frances Les Apostrofes, invadiu, com muito bom humor, as ruas da Capital

Fotos: Divulgação

Desle de abertura do Fita Floripa 2009 pelas ruas de Florianópolis

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Por Adriana Machado Fotos Anderson Espinosa Criança ou adulto, não importa a idade, o olhar de encantamento é o mesmo. E este brilho nos olhos é um fenômeno que acontece há mais de duas décadas, em uma pequena e bucólica cidade serrana do Rio Grande do Sul. Todo ano é assim. O 21º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela não traz, apenas, os melhores espetáculos do mundo, as mais novas técnicas de manipulação e o talento dramático de atores responsáveis a dar vida às suas mais incríveis criações. O evento – o mais duradouro do gênero no País e também um dos mais longevos das artes cênicas – movimenta o município de inúmeras maneiras. Turistas vindos de várias partes do Estado lotam hoteis, restaurantes e o comércio local, que por sua vez, se “enfeita” para receber o público e os consumidores. Este colorido especial, capaz de remeter às travessuras da infância, está presente em todos os cantos: nas esquinas, nos bancos das praças, nas vitrines das lojas e nas janelas das casas. Vinda de Caxias do Sul, Simone Pellenz e sua lha, Amanda, de 9 anos, se deslocaram para o município especialmente para prestigiar o festival. “É difícil encontrar espetáculos como este durante o ano. Estou achando bem bacana, principalmente porque podemos escolher entre as programações fechadas e as de rua também”, diz Simone. “Ou seja, têm atrações para todos os gostos e em duas versões, o que demonstra a boa organização do festival”, completa.

FORMAS INOVADORAS O Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela contou com um público de mais de 30 mil pessoas durante os quatro dias de realização (de 18 a 21 de junho). Bonequeiros do Brasil, da Finlândia, da Espanha, da Argentina e da Itália, em um total de 120 artistas, apresentaram 50 espetáculos (a metade atrações de rua). As técnicas foram as mais variadas: sombras, os, luvas, varas, com bonecos grandes e pequenos, representando bebês, homens, mulheres, idosos e animais. Espetáculos lúdicos, nostálgicos ou simplesmente irreverentes e que nunca se repetem. Com exceção de um ou outro sucesso do passado. “Existe uma preocupação em trazer uma programação de vanguarda, alguns mais fáceis de serem aceitos pelo público, caracterizando-se por ser o mais puro entretenimento, outros mais densos e investigativos”, arma a diretora artística do festival, há 21 anos, Marina Meimes Gil, responsável pela curadoria em conjunto com os bonequeiros Nelson Haas e Beth Bado. Destes, existem grupos que preferem a improvisação e o contato direto com o público. Na praça, dezenas de crianças se acotovelavam para ver de perto os imaginários Malry e Halry, do “Circo de Pulgas”, do catarinense Marcio Correa, integrante do grupo Legião de Palhaços. Utilizando a técnica de manipulação e ilusionismo, o domador-clown divertiu pela simplicidade características da obra. “Este espetáculo existe desde 1998 e há muito tempo não faço apresentações em teatros fechados”, diz o artista.

Canela, na Serra Gaúcha, se enfeita todos os anos para receber os bonecos e fantoches

Os gaúchos Jeffersonn Silveira e Cícero Pereira, do grupo Giba, Gibão, Gibóia seguem a mesma linha. “As aventuras de pantaleão, o mágico trapalhão” existe há 15 anos e já foi apresentado em colégios, comunidades carentes, para menores in-

fratores, crianças portadoras de HIV e vegetativas. “Procuramos envolver o público e gostamos de levar alegria. Para nós, artistas, ver o sorriso desta garotada traz uma realização pessoal muito forte, sem querer ser demagogo”, confessa Silveira.

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Marcio Correa, da Legião de Palhaços, apresenta “Circo de Pulgas” no meio da rua para crianças de todas as idades

Espetáculos se notabilizaram pela irreverência

O melhor no mundo em teatro de formas animadas
O Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela contou com uma programação equilibrada, para atender a todas as idades e a todas as tendências da arte bonequeira. Foram 18 peças apresentadas nos teatros e nos espaços públicos. Além disso, o festival “veste” toda a cidade com bonecos, incluindo os ináveis, e até mesmo uma cobra de 40 metros. Outra atração foi a exposição dos bonecos do grupo Cia O Navegante, locados para a minissérie Hoje é Dia de Maria. Quem subiu a serra teve a oportunidade de assistir novidades recém-estreadas na Europa, espetáculos de vanguarda e encenações de grande porte, que exigiram 17 horas de montagem de cenário e infraestrutura. Casos de Pinocchio, do grupo Giramundo, de Belo Horizonte, e de Katoamispiste (Vanish Point), a atração pós-dramática da vez, vinda da Finlândia. Todos os espetáculos internacionais vieram ao Brasil pela primeira vez. Com direção e adaptação de Marcos Malafaia, Beatriz Apocalypse e Ulisses Tavares, os mineiros trouxeram a inserção do vídeo como elemento cênico, a composição da trilha sonora no sistema quadrifônico, o uso de madeira e objetos de demolições, a aproximação entre manipulação e dança e o uso simultâneo das técnicas tradicionais do teatro de bonecos. Tudo para reetir sobre a formação do ser humano através da restrição da liberdade e do prazer. Já a representante da Finlândia apresentou uma proposta pós-dramática, que misturou animação com muita tecnologia e elementos do cinema novo, circo e dança. O cenário foi formado por três telões que exibiam imagens urbanas e da natureza durante a en-

GRUPOS PARTICIPANTES: ESPETÁCULOS INTERNACIONAIS
Valéria Guglietti – “No Toquen Mis Manos”, Espanha. Técnica de manipulação: sombras chinesas WHS – “Katoamispiste”, Finlândia. Técnica de manipulação: objetos Pelmànec Teatre – “Don Juan, Memoria Amarga de Mi”, Espanha. Técnica de manipulação: direta Gioco Vita – Pepe e Estrella, Itália. Técnica de manipulação: sombras chinesas ESPETÁCULOS NACIONAIS Contadores de histórias – “Em concerto”, Paraty (RJ). Técnica de manipulação: direta Giramundo Teatro de Bonecos – “Pedro e o Lobo”, Belo Horizonte (MG). Técnica de manipulação: marionete Giramundo Teatro de Bonecos – “Pinocchio”, Belo Horizonte (MG). Técnica de manipulação: marionete/balcão/luva/sombra Bonecos Canela – Cultura Viva – “Sonho de uma noite de verão”, Canela (RS). Técnica de manipulação: luva APRESENTAÇÕES DE RUA Kossa Nostra – “Kruvikas” , Argentina. Técnica de manipulação: luva/vara/direta e mista Pia Fraus – “Bichos do Brasil”, São Paulo. Técnica de manipulação: direta de infláveis gigantes Legião de Palhaços – “Circo de Pulgas”, Rio do Sul (SC). Técnica de manipulação: ilusionismo Giba Gibão Jibóia – “As Aventuras de Pantaleão”, Porto Alegre (RS). Técnica de manipulação: luva/gatilhos/vara Cia. O Navegante – “Musicircus”, Mariana (MG). Técnica de manipulação: marionetes Cia. Bonecos da Gente – “Afro-descendentes”, Alvorada (RS). Técnica de manipulação: direta PREGANDO PEÇA – “O MACACO SIMÃO”, GRAVATAÍ (RS). TÉCNICA DE MANIPULAÇÃO: MAROTE COM VARA CALÇADA DI VERSO – “TRAPIZONGA”, CURITIBA (PR). TÉCNICA DE MANIPULAÇÃO: DIRETA E MARIONETES BANDO NÉON EXPERIÊNCIA CÊNICA – “TEATRO DE LAMBE-LAMBE”, JOINVILE (SC). TÉCNICA DE MANIPULAÇÃO: DIRETA DE CANELA: TEATRO DE BONECOS PADRE FRANCO – “A VIAGEM DE UM BARQUINHO”. TÉCNICA DE MANIPULAÇÃO: DIRETA BONEQUEIROS MIRINS – INSTALAÇÃO GRUPO PÉ GRANDE – “BONECOS GIGANTES”. TÉCNICA DE MANIPULAÇÃO: DIRETA GRUPO SÓ RINDO. TÉCNICA DE MANIPULAÇÃO: DIRETA EXTRAS: MOSTRA DE FILMES, DESCENTRALIZAÇÃO, CAIXA LAMBE-LAMBE E CINEMA 3D

Boneco gigante “imita” gestos humanos

cenação. Algumas performances apresentadas no palco também apareceram ecoadas nas projeções. Entre os efeitos, o ator animou um pássaro com as mãos, que saiu voando, surgindo num mergulho em imagens pré-gravadas. A programação, segundo a diretora artística Marina Meimes Gil, é luxuosa. Estética à parte, com certeza é um bom resumo do que acontece de melhor no mundo em teatro de formas animadas. Exemplo disso é o espanhol “Don Juan, Memória Amarga de M”i, que estreou no festival Titirimundo 2009, na Segóvia, onde se consagrou como o melhor espetáculo. Também recebeu o prêmio do júri popular do 10º Festival de Teatro de Bonecos de Belo Horizonte.

OS PREMIADOS DA NOITE DE ENCERRAMENTO, NA OPINIÃO DO PÚBLICO:
MELHOR ESPETÁCULO APRESENTADO NOS TEATROS: “NO TOQUEN MIS MANOS”, DE VALÉRIA GUGLIETTI, DA ESPANHA MELHOR ESPETÁCULO DE RUA DO BONECOS DO CHAPÉU, “BICHOS DO BRASIL”, DO PIA FRAUS, DE SÃO PAULO

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Cerca de 2.800 vagas são oferecidas para os seminários, cursos e workshops. A integração entre a professora e a aluna, durante a aula de balé clássico, contagia as demais bailarinas

Festival de Dança de Joinville investe na troca de experiências
Além das apresentações e mostras de dança, a aposta dos organizadores são os Cursos, Oficinas, Workshops e Seminários de Dança
Fotos: Divulgação

Por Adoniran Peres Não é exagero se afirmar que a 27ª edição do Festival de Dança de Joinville promete ser um sucesso, com muitas atrações de (rara) beleza e qualidade. Afinal, entre os dias 15 e 25 de julho, cinco mil participantes, entre bailarinos, coreógrafos, professores e pesquisadores da dança colocarão a cidade catarinense sob os holofotes do mundo da arte. Se, anteriormente, a mostra competitiva era a parte mais evidente do evento, hoje tudo é importante e cada atração ganha a sua projeção. A programação didática/pedagógica, por exemplo, é uma das apostas dos organizadores que, a cada ano, atrai milhares de estudantes e profissionais da dança que vêem nos cursos e oficinas, workshops coreográficos e seminários de dança oportunidades ímpares de se aperfeiçoarem. Cerca de 2.800 vagas são oferecidas para a reflexão e aprimoramento, um aumento de 39% em relação ao ano passado. Apenas nos cursos e oficinas são 2.040 vagas, em 59 turmas de 44 cursos, que englobam de balé clássico ao jazz contemporâneo, sapateado e dança de rua. Voltado ao meio acadêmico (universitários, mestre e doutores em dança), os seminários chegam à terceira edição e provocam uma reexão sobre o tema Dança e educação - como o dançarino aprende, com quem aprende e onde ensina. Com o título Algumas perguntas sobre dança e educação, as conferências e exercícios contarão com 17 prossionais convidados – todos pesquisadores renomados na área – que abordarão questões instigantes e polêmicas como Artes-educações: as abordagens são mesmo plurais?, Quem pode mesmo ensinar balé?, Grandes mestres – podemos duvidar deles? e Onde se produz o artista de dança?, Centros de formação – o que há para além das academias?, entre outros. Ainda nesta 21ª edição, os seminários ganham um dia a mais e serão rea-

das tradicionais batalhas de MCs FreeStyle, Popping, Locking e Hip Hop FreeStyle, com a inclusão de um novo estilo, o House Dance. A seleção dos participantes também mudou: os candidatos se inscreveram no processo seletivo postando vídeos com suas performances no YouTube. PROGRAMAÇÃO A programação ocial traz, ainda, a tradicional noite de abertura que contará, no dia 15 de julho, no Centreventos Cau Hansen, com a energia da companhia francesa S’poart e da companhia brasileira Discípulos do Ritmo. Em 11 dias, o Festival terá, ainda, Noite de Gala e dos Campeões à Mostra Competitiva, as apresentações do Meia Ponta ou Palcos Abertos, além da Feira da Sapatilha, a maior do setor no Brasil, que apresenta produtos, artigos e acessórios de dança e reúne mais de 70 expositores. Mais informações em www.festivaldedanca.com.br.

PRINCIPAIS ATRAÇÕES:
Noites especiais de Abertura, de Gala e dos Campeões Mostra Contemporânea de Dança Mostra Competitiva – balé clássico, clássico de repertório, dança contemporânea, danças populares, jazz, sapateado e dança de rua Meia Ponta – apresentações infantis Feira da Sapatilha
As inúmeras ocinas acontecem em auditórios, no palco e em salas de ensaio

lizados de 22 a 25 de julho. As palestras serão realizadas nos três primeiros dias do evento. No quarto dia o espaço se abre para a prática, com a apresentação de estudos produzidos nas universidades. Ao todo, 500 vagas foram abertas para os interessados. Durante o evento, também será lançado o livro Seminários de Dança 2 – O que quer e o que pode a técnica, resultados das discussões desenvolvidas em 2008.

ENCONTRO DAS RUAS Além das apresentações e mostras de danças, que já são referências consagradas mundialmente, outra aposta é o Encontro das Ruas. Voltado para a cultura urbana, a atração chega à quarta edição repleta de inovações. Neste ano, abre espaço para novas linguagens e estilos, amplia a Mostra de Grate, ganha uma comissão técnica composta por expoentes da cultura hip hop no País e no mundo e avança na organização

Palcos Abertos – apresentações gratuitas em centros comerciais, praças, fábricas e na Feira da Sapatilha Cursos e oficinas Seminários de dança Workshops coreográficos Encontro das Ruas Rua da Dança Visitando os Bastidores

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Técnica

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‘Tudo é música’ para Theo
Artista multimídia, em cartaz com a peça ‘A Vida Que Pedi, Adeus’ fala sobre o som dos palcos e das mesas, e de como caiu no mundo da coxia
Theo Werneck é um artista multimídia. Não só porque trabalha com áudio, mas, sim, por que é um multiartista: ator, sonoplasta, DJ, músico, pesquisador musical. Hoje atua no Theo Werneck Blues Trio e está em cartaz com “A Vida Que Pedi, Adeus” no Teatro Cosipa, onde é responsável pela trilha sonora inovadora – com uma só composição, a sonoplastia se dá através de texturas sonoras captadas no mundo real, ruidagens urbanas e sons verdadeiros das grandes cidades. O Jornal de Teatro subiu até a ilha de som e escutou o que Théo tem a tocar – ou melhor, a dizer. Jornal de Teatro – Se você tivesse que explicar para alguém sobre o que se trata o seu trabalho como sonoplasta no teatro, como você o faria? Theo Werneck – Comecei minha carreira no teatro aos 17 anos. Fui técnico, cenotécnico, assistente de cenograa, contraregra e operei bonecos. Um dia, trabalhando como contrarregra na peça infantil “Esqueci a porta da cabeça aberta”, um ator não foi avisado de uma mudança de horário e como eu sabia todos os textos fui chamado para substituí-lo. Na montagem seguinte do grupo, ganhei um personagem e passei da coxia para o palco. A música sempre caminhou lado a lado com a experiência no teatro, então, fazer a música de um espetáculo é parte natural da minha experiência. JT – Onde você busca suas referências para a criação da trilha teatral? TW – Em tudo. No cinema, nos shows, na televisão, nas artes plásticas, na moda, nos discos antigos (sou pesquisador de múJoão Caldas Divulgação

Por Danilo Braga

Theo Werneck: “Fazer barulho é a premissa para ser ouvido no universo”

“ A Vida Que Pedi, Adeus” usa gravações urbanas em sua trilha sonora

sica para cinema, z a pesquisa musical de “Carandiru”, o lme). JT – Na peça que está em cartaz, “A vida que Pedi, Adeus”, você usou recursos da vida real, gravações de sons urbanos e ruidagem para compor a trilha da montagem. Porque trazer o real como opção à uma criação articial? TW – A idéia é fugir do óbvio e trazer o ambiente urbano para dentro do teatro usando a trilha como textura sonora. JT – Que tipo de equipamento você utilizou? Quanto e como isso inuenciou no seu trabalho? TW – Trabalhei com muita gente que me inuenciou e me ensinou a ‘fuçar’ nas coisas e obter sons do que aparecesse. Trabalhei com o André Abujamra no grupo Boi Voador, com Ulisses Cruz e também fui diretor musical. Pude, então, entender que a música não é nenhum monstro de sete cabeças, mas algo que está no cotidiano das pessoas, dentro da cabeça delas (todo mundo, ou quase todo

mundo, cria uma trilha quando caminha ou quando está dentro do metrô, do ônibus...). Para as gravações usei um gravador e microfone digitais. JT – Qual a principal diferença, em se tratando do processo criativo, na concepção de “A Vida que Pedi, Adeus” e “A Alma Boa de Setsuan”? TW – São trabalhos completamente diferentes, na ‘Alma Boa...’ usei mais a composição e criação musical no sentido de trilha sonora mesmo, com temas para cada cena. Na ‘A Vida Que Eu Pedi...’ a pesquisa foi mais conceitual, no sentido de criar ambientes dentro das situações. JT – Na coletiva de “A vida”, você mencionou que só há uma composição musical na peça toda, o que se entende por “música”. O que é a música para você? TW – Aprendi com o meu irmão André Abujamra que tudo pode ser música, tudo... Até o nada é musica... JT – Você costuma transpor elementos de outros

sentidos (como a visão ou tato) para o seu trabalho? Ou você só se baseia no innito universo dos sons? TW – Cada trabalho é um trabalho. Quando trabalhei com o circo dos acrobáticos Fratelli tive que me ligar nos tempos coreográcos dos números do circo e, por vezes, acompanhar o movimentos dos artistas e trapezistas. É um pouco de tudo misturado. JT – Algumas de suas primeiras discotecagens caram famosas no Teatro Mambembe. Você acha que o fato de um teatro abrigar, de certa forma, suas origens inuencia o seu trabalho hoje? TW – A minha experiência com teatro e performances nos anos 80/90, sem dúvida, inuenciou e inuencia o meu trabalho como um todo, seja tocando, cantando, atuando ou discotecando. JT – E como ator, o que você usa dessa formação dramática para suas criações audiofônicas? TW – Na verdade, acho que

todos os atores poderiam, eu disse poderiam, aprender a desenhar, como exercício, para se colocar em cena, para entender o campo cênico. O desenho é matemática, assim como a música, e isso inuencia e modica tudo. Nós, que não somos só matemática, podemos sentir as coisas e interpretá-las. JT – Qual é o seu som preferido? E o seu ruído? TW – Adoro som de trovões, adoro sons inusitados e inesperados, bips e sons eletrônicos, batuque em banco de metrô ou de ônibus, batuques em latas de lixo. Guitarra distorcida. Tudo. JT – Você gosta de fazer barulho (em todo e qualquer sentido)? TW – Amo! Fazer barulho ou fazer um som é premissa básica para ser ouvido ou entendido no universo, seja o choro do nenê ou o violino do vizinho aprendendo a tocar, o seu lho aprendendo a assobiar, seu sobrinho tocando heavy metal, tudo é música.

Acervo do IBTT é aberto à comunidade para consulta
O IBTT (Instituto Brasileiro de Técnica Teatral) está com novidades. O acervo da biblioteca, em São Paulo, está aberto a qualquer pessoa que queira acesso à importante literatura da técnica teatral mundial: “O acervo está disponível a todos os interessados. É um patrimônio cultural que encaramos como público, do teatro brasileiro”, conta Cláudia Gomes, diretora de comunicação do instituto. A biblioteca conta com títulos importantes da técnica teatral. A lista completa você confere no nosso site, www. jornaldeteatro.com.br. Os livros em português incluem a obra de Osmar Rodrigues Cruz (O teatro e sua técnica), Hamilton Saraiva (Eletricidade Básica para Teatro), Função Estética da Luz, de Roberto Gil Camargo e o famoso Antitratado de Cenograa, de Gianni Ratto. O acervo conta, também, com programas de teatro (com datas de 1940), um banco de imagens com mais de 4.600 fotos e guras raras e inéditas. Também estão no acervo mais de dez títulos de revistas sobre tecnologia teatral, muitas delas fora de circulação e outras datadas da década de 1960. É possível encontrar a maioria desses títulos desde a primeira edição. Também a documentação de espetáculos internacionais (como Les Miserables, Cats e Chicago entre outras superproduções) estão disponíveis para consulta e pesquisa. Há, ainda, textos e obras em suas línguas originais. Entre eles estão o Manual de Iluminação e o Manual de Técnicas de Palco de Carlos Cabral (Portugal ); Diseño de la Iluminación Teatral, de Maurício Rinaldi (Argentina); Les Écrans sur la Scène, de Bátrice Picon-Vallin (Suíça) e Traité de Scéno Graphie, de Pierre Sonrel (França). Em inglês estão disponíveis, entre outros títulos The ABC of Stage Lighting (Francis Reid), Lighting the Stage: Art and Pratice (Willard Bellman), The Art of Stage Lighting (Frederick Bentham), Light Fantastic (Max Keller) e A Syllabus of Stage Lighting (Stanley McCandless). O IBTT está, também, construindo um novo site, que deve car pronto na segunda quinzena de julho.

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Homenagem

Precursora do teatro-dança, Pina Bausch morre aos 68 anos
Dançarina e coreógrafa alemã sofria de câncer e faleceu cinco dias após o diagnóstico. Circunstâncias da morte, porém, não foram divulgadas
A dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch faleceu na terça-feira, dia 30, aos 68 anos. Cinco dias antes, Pina havia sido diagnosticada com um câncer, mas as circunstâncias de sua morte ainda não foram divulgadas. Pina faleceu em sua residência, em Wuppertal, onde, poucos dias antes, estava nos palco com sua equipe. Pina Bausch nasceu na cidade de Solingen, oeste da Alemanha, em 27 de julho de 1940. Nasceu Josephine Bausch mas, logo no início da carreira, mudou seu nome. As primeiras apresentações lúdicas com o balé infantil ocorreram em Wuppertal e Essen. Com 15 anos, iniciou sua formação de dança na Folkwangschule de Essen, fundada pelo célebre coreógrafo Kurt Joos, em 1955. Pouco tempo depois, no início da década de 60, ganhou notoriedade na Metropolitan Opera de Nova Iorque e na Juillard School Music, aonde apresentou seus espetáculos de dança. Nos anos 70, Pina criou novas formas e estilos no teatro e na dança. Dez anos mais tarde, seu trabalho ganhou, na Alemanha, a mesma importância que o teatro falado e caracterizou o país como berço do segmento artístico. Pina Bausch era considerada a grande dama da dança contemporânea alemã, já que tinha um estilo expressionista único que, no início de sua carreira, provocou grandes polêmicas, antes de ser reconhecido mundialmente. O teatro-dança, como a maioria denomina, foi a principal contribuição dela. Pina, no entanto, se referia a uma abordagem psicológica individual. A companhia de Pina Bausch esteve pela última vez no Brasil em 2006 e deve voltar para shows em São Paulo, em setembro, quando mostrará duas obras importantes na carreira da coreógrafa: “Café Müller”, peça de 1978, e “A Sagração da Primavera”, de 1975, com música de Igor Stravinsky. Trata-se do mesmo programa que Bausch e seu grupo de Wuppertal apresentaram no Brasil em 1980, na primeira turnê da companhia no País.
Fotos: Divulgação

A Companhia de Pina Bausch esteve no Brasil pela última vez em 2006. O grupo deve voltar a São Paulo em setembro desse ano

Cada peça é um novo apelo para que o espectador cone em si mesmo, se enxergue e se sinta”, dizia ela. “Cada peça é diferente, mas profundamente ligada a mim.

Pina criou, nos anos 70, o que é chamado hoje de teatro-dança

Emocionado, Daniel Granieri fala sobre a personalidade de sua madrinha na dança
Por Rodrigoh Bueno Logo no fechamento do jornal tivemos a notícia do falecimento de Pina Bausch e ocorreu falar com o amigo Daniel Granieri, que esteve em dois trabalhos com a coreógrafa. A surpresa foi que o ator não sabia do ocorrido e, emocionado, revelou traços desconhecidos da criadora do teatro-dança. “Estive em dois trabalhos com a Pina Bausch no Brasil e me impressionou a forma como ela lidava com as pessoas. Para mim, ela é mais do que a criadora do teatro-dança, pois seu trabalho em performance também é único. Ela renovou a dança contemporânea e se tornou uma grande formadora de opinião mundial em artes do corpo”, disse. “Mas a principal característica que atribuo a ela é o poder de unir através da dança. Ela fez o que muitos estadistas não conseguiram: unir raças e difundir a cultura de povos tão diferentes. Dona de uma humildade impressionante, ela deixava claro para todas pessoas – e tratava todos absolutamente da mesma forma – que se o trabalho artístico não é feito com verdade, não vale a pena fazer. O que importa é levar para o palco a essência do ser-humano e isso ela fazia muito bem. Ela destacava nas pessoas o que elas tinham de melhor”, revela. O PROFESSOR DE FORRÓ Daniel relembra uma história ocorrida em 2002, enquanto estava em cartaz com o espetáculo “Brasil”, no Teatro Alfa. Depois do espetáculo, os bailarinos brasileiros resolveram levar os estrangeiros para conhecer a noite brasileira e acabaram em um forró. O entusiasmo do grupo foi tanto, que na noite seguinte Pina Bausch – que estava na companhia de Caetano Veloso nesta noite – quis conferir a dança e coube a Daniel ensiná-la. “Caetano foi junto e acabou dando uma canja de `Cajuína´. Foi uma noite incrível e, mais uma vez, Pina Bausch mostrou o respeito e admiração que tem pelos ritmos regionais, sempre segurando seu cigarro inseparável”, conta ele. Daniel Granieri é ator e seu trabalho em televisão poderá ser conferido no programa “Por Toda Minha Vida – Cazuza”, na Rede Globo, ainda sem previsão de exibição.

Acervo Daniel Granieri

“Ela destacava nas pessoas o que elas tinham de melhor”

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Vida & Obra

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A dramaturgia atrevida de Sir Tom Stoppard
No mês do aniversário do autor, Jornal de Teatro mostra por que ele é considerado um dos mais importantes nomes do teatro mundial
Por Daniel Pinton A origem histórica do título de “sir” remete a quem possuía domínio sobre um feudo, sobre o mercado de escravos ou era apenas uma forma de agraciar algumas personalidades da nobreza e da realeza nos tempos medievais. Com a modernidade e o avanço social, o título passou a pertencer àqueles que dominavam um conhecimento especíco sobre algum assunto. Foi assim, por exemplo, com o físico Sir Isaac Newton e com o cineasta Sir Charlie Chaplin. Mas a mesma regra não pode se aplicar a Sir Tom Stoppard. Muito além do papel de autor e dramaturgo, Stoppard oferece, desde 1958, quando começou a trabalhar como crítico teatral e colunista no Bristol Evening World (Inglaterra), trabalhos diversicados para reexão histórica e antropológica, obras que repercutem e elevam o pensamento daqueles que puderam ser atingidos pelo seu furacão de ideias. Para entender Stoppard e seu processo criativo é preciso voltar um pouco no tempo, mais precisamente 72 anos, idade completada por Stoppard dia 3 de julho. Nascido em 1937, na então Tchecoslováquia, presenciou sua terra ser invadida pelos nazistas e se mudou com dois anos de idade para Singapura. Mais uma invasão, mais uma mudança. Por conta da invasão japonesa à Singapura, foi com sua família para a Índia, onde recebeu educação inglesa e, enm, se estabilizou. Mas logo se desestabilizou. Ainda bem. Aos 17 anos largou os estudos e começou a trabalhar em jornais, onde se envolveu nalmente com as artes, para sorte do grande público. O escritor tcheco naturalizado inglês talvez seja mais conhecido no Brasil pela coautoria, junto com Marc Norman, de “Shakespeare Apaixonado”, blockbuster de 1998, vencedor de sete estatuetas do Oscar, incluindo melhor lme e melhor roteiro. Mas, muito antes, sua obra já havia encantado plateias em todo o mundo. Sua estreia no teatro foi em “Rosencrantz e Guilderstern estão Mortos”, de 1966, na qual Stoppard se inspira em dois amigos de infância de Hamlet, onde o príncipe é aparentemente secundário e toda a história parece invertida: era o início da recorrente utilização de personagens historicamente menores e de metalinguística teatral. Sua consagração, porém, veio com a montagem da trilogia é bastante desaador”, explica Pâmio. O encontro com Stoppard foi, segundo ele, imprescindível para que a tradução da peça fosse feita sem tirar o seu sentido original. Para a surpresa do tradutor, o escritor inglês se mostrou inteiramente solícito e aberto a tirar dúvidas comuns se tratando de um texto teatral metalinguístico. “Fui me encontrar com ele em janeiro deste ano. Ele é uma criatura adorável, uma pessoa de simplicidade no convívio. Ele foi digníssimo, solícito, sem qualquer ponta de esnobismo. Fomos ao teatro, tomamos um café e ele teve total disponibilidade para elucidar, discutir qualquer dúvida que eu tivesse no texto. O tempo que ele dedicou a mim foi algo que ele nem precisaria fazer, mas ele cou bastante impressionado com alguém de fora da Inglaterra fazendo sua obra considerada a mais difícil”, diz. Fica a dica do Jornal de Teatro para aqueles que já conhecem a obra de Sir Tom Stoppard e, principalmente, àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de entrar em contato com o universo de reexão daquele que é hoje em dia não “apenas” um dos maiores dramaturgos ainda vivos, mas também um iluminista contemporâneo. Um homem que, apesar de não ter um e-mail e sequer ter paciência para digitar em um computador, desenvolve em suas obras um espírito jovem-contestador incapaz de datar seu trabalho cada vez mais atemporal.
BIOGRAFIA TEATRAL (NOMES ORIGINAIS): 1966: Rosencrantz & Guildenstern Are Dead 1968: Enter a Free Man 1968: The Real Inspector Hound 1970: After Magritte 1972: Jumpers 1972: Artist Descending a Staircase 1973: Born Yesterday 1974: Travesties 1976: Dirty Linen and New-Found-Land 1977: Every Good Boy Deserves Favour 1978: Night and Day 1979: Dogg’s Hamlet, Cahoot’s Macbeth 1979: 15-Minute Hamlet 1979: Undiscovered Country 1981: On the Razzle 1982: The Real Thing 1984: Rough Crossing 1986: Dalliance 1988: Hapgood 1993: Arcadia 1995: Indian Ink 1997: The Invention of Love 2002: The Coast of Utopia 2004: Enrico IV 2006: Rock’n Roll
Arquivo Pessoal

Stoppard (à dir) recebeu Marco Antônio Pâmio, em Londres, para uma conversa sobre a sua peça ‘Travesties’

“A Fronteira da Utopia” (The Coast of Utopia), em 2002. A história, com vários intelectuais e revolucionários russos, passa a mensagem que a História nada mais é do que uma ironia em movimento a peça rendeu a Stoppard sete prêmios Tony – o Oscar do teatro. No Brasil seu trabalho passou a ser mais conhecido e reconhecido a partir de sua participação na edição de 2008 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). No evento, onde foi a principal atração, Stoppard falou, com mediação de Luis Fernando Veríssimo, sobre o processo criativo de suas principais peças, principalmente “Rock’n Roll”, de 2006, espetáculo que se passa durante a emergência do movimento democrático no leste europeu, pouco depois de eclodir a Primavera de Praga, chegando à Revolução de Veludo, sob a perspectiva dos defensores da liberdade e do proletariado. No embalo da vinda do escritor ao Brasil, o diretor Cae-

Trazido para o Brasil, ‘Rock’n Roll’ foi tema de debate na Flip de 2008

tano Vilella se movimenta para encenar, a partir de outubro, “Travesties”, obra de 1974 de Stoppard. A peça é uma paródia do livro A importância de ser Prudente, de Oscar Wilde. “Eu queria um autor contemporâneo que falasse do papel do artista na sociedade e tivesse o viés político. Aí, caiu no Tom Stoppard. Conheci o “Travesties” e vi que tinha muito sobre o que eu queria falar, então fui atrás. Ele queria me conhecer para saber qual seria a minha leitura da peça, pois, segundo ele, “Travesties” é o texto dele mais difícil de se traduzir. Tivemos um encontro no Aeroporto de Cumbica e nossa conversa durou quatro horas. Ele gostou e aprovou a minha proposta, falou que eu estava no caminho certo e me deu total liberdade. O medo de Stoppard era de a peça ter um viés mais comercial, ele não quer isso. Ele foi muito acessível, quei até sem graça. Não existe muito isso no teatro de o autor antes de ceder os direitos querer te conhecer

olho no olho, ainda mais partindo de um autor do porte dele. Após isso, trocamos correspondência por duas ou três vezes e o meu tradutor, Marco Antônio Pâmio, foi a Londres se encontrar com ele para resolver os últimos detalhes”, conta Villela. O tradutor da peça, Marco Antônio Pâmio, que também é ator, destaca o desao que foi traduzir o texto mais difícil de Stoppard. “O “Travesties” é muito verborrágico, ele mistura, em uma mesma obra, vários planos narrativos. Como é uma peça que se passa na cabeça de um personagem, há ashes de memória num jogo de ida e vinda misturando três planos históricos reais. Você tem que ter domínio de assuntos e eventos diversos para tornar viável a montagem desse quebra-cabeça na cabeça da plateia. Stoppard coloca tudo isso em um calderão com bastante sentido e lógica, porém, exige bastante atenção da plateia, do leitor”, diz. Pâmio lembra que teve de interromper seu trabalho diversas vezes para estudar a fundo os assuntos tratados e poder entender o que traduzia. “Travesties” é uma peça muito concentrada em conteúdo. Geralmente levo um ou dois meses para um trabalho de tradução e acabei levando sete, oito meses porque houve momentos em que tive que parar tudo para estudar. Fui elucidando um monte de elementos quase como charadas para aquilo ter sentido na tradução. Stoppard brinca muito com a linguagem, ela é muito atrevida. Ele faz um jogo de metáforas, sonoridades no inglês, que para o tradutor

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História

Dignidade regulamentada em lei
Como um decreto publicado há mais de 30 anos garantiu o respeito a todos os profissionais da arte
Dignidade, honra, respeito... Direitos conquistados na base de muita luta e perseverança. Enquanto algumas profissões, como a de jornalista, ainda sofrem com processos conturbados de regulamentação, os “artistas e técnicos em espetáculos de diversões” comemoram, ainda hoje, a Lei nº 6.533, de 24 de maio de 1978, regulamentada pelo Decreto nº 82.385, de 05 de outubro do mesmo ano, que coordena e dá as diretrizes legais para a classe. Parece difícil imaginar, mas trabalhar com a arte, antes desse período, era quase como assinar um papel na sociedade de vagabundo ou prostituta. É graças à luta de dezenas de grandes nomes do teatro no passado que, hoje, aqueles que alegram, animam, dão esperanças e também fazem chorar têm seus direitos e benefícios garantidos na Constituição. Lei elogiada efusivamente por especialistas e estudiosos, ela respeita o que diferencia os artistas de um trabalhador comum: a capacidade de fazer emocionar. Cada pessoa tem o poder e a capacidade de assumir um personagem e atuar em determinada cena. Carrega dentro de si um sonho de se transformar em outro alguém, talvez um melhor indivíduo ou um indivíduo mais feliz. Para cada profissão, porém, existe a necessidade de uma formação competente e séria. Atuar é uma arte, mas sem estudos, cursos técnicos e faculdades não se pode exercer o trabalho da melhor maneira possível. Lélia Abramo, Paulo Autran, Dercy Gonçalves, Nair Bello, Beth Pinho... Quando se iniciou a movimentação pela regularização e reconhecimento do trabalho de ator, em meados dos anos 1970, alguns dos maiores nomes do teatro brasileiro levantaram a voz para defender a classe. Era de se esperar. Afinal, os artistas não eram vistos pela população como verdadeiros profissionais e ficavam vulneráveis a pressões e decisões de cada novo governo autoritário, que tomava as rédeas do Brasil. Para se ter ideia, as mulheres que decidiam seguir essa carreira
Fotos: Arquivo Sated-RJ

Por Felipe Sil

20 anos do decreto: atores encenam a luta pela regulamentação

O ator Otávio Augusto discursa em assembleia no Sated-RJ

eram geralmente equiparadas às prostitutas. Chegavam a utilizar, inclusive, a mesma carteirinha de identificação. Após uma luta árdua e inabalável – só assim para explicar o porquê da demora na aprovação da Lei 6533, em 1978 – que, finalmente, foram garantidas as habilitações de ator, de diretor e de cenógrafo. Desde então, para exercer a profissão, é obrigatório o registro profissional na DRT (Delegacia Regional do Trabalho). Paulo Autran, até o final da vida, queixava-se da demora na regularização, lembrando, inclusive, de outros países subdesenvolvidos no resto do mundo que também passam pelos mesmo problemas. Tornar digna a profissão de artista: este é o principal benefício da lei, segundo Eugênio Santos, diretor da área de projetos do SatedRJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio). Embora a classe seja admirada atualmente pela sociedade, em meados da década de 1920, quem escolhia essa carreira era tido como homossexual ou prostituta. “Lembro que a Dercy Gonçalves comentava, a todo momento, que tinha uma carteira de serviço que era a mesma usada por garotas de programa. Não existia glamour nenhum em ser ator ou atriz. As mães advertiam aos filhos para que nunca esco-

lhessem essa profissão, pois era coisa de viado”, comenta. O ator Paulo Betti, que participou da luta pela regulamentação, quando ainda fazia parte do EAD-USP (Escola de Arte Dramática de São Paulo), em 1975, reforça os comentários dados pela saudosa Dercy. “Os artistas de teatro não eram reconhecidos como prossionais. O decreto regulamentou uma prossão e isso é muito importante, pois legitima e consagra. Anal, o estudo faz do artista um melhor prossional. A preparação do ator não termina nunca. Ele precisa estar sempre pronto e atento. É uma prossão muito difícil, já que envolve dois componentes explosivos: vaidade e insegurança”, avalia. ASSEMBLEIAS FUNDAMENTAIS As melhorias propiciadas pela Lei nº 6.533, aliás, não se restringem ao aspecto moral. Pela questão da especificidade do trabalho de um ator, até 1978 os profissionais da classe não se sentiam amparados juridicamente pelas regras trabalhistas vigentes. “Não temos um horário comum como o de outros trabalhadores. Precisávamos que as leis dessem atenção a esse fato. Aquele foi um momento especial. Lutávamos não só pela regularização de nossas carreiras, mas por melhorias políticas, já que estávamos na época da ditadura. As assembleias dos sindicatos viviam lotadas e todos

que tinham uma opinião formada iam lá jogar a sua”, recorda, com carinho, Eugenio Santos, que também é ator e diretor de teatro. Rosamaria Murtinho, atriz consagrada e atualmente em cartaz com o musical “Isaurinha - Samba, Jazz & Bossa Nova” , no Teatro João Caetano, foi uma das que mais lutaram pela regularização da prossão, nos anos 70. “Íamos sempre que podíamos a Brasília para realizar reuniões e debater o assunto com as autoridades da época. Não apenas eu, mas todos os grandes atores de então. A regularização é importantíssima não só quanto aos direitos trabalhistas, mas porque garante boa formação acadêmica, que é essencial para quem deseja seguir carreira. Não é qualquer um que começa a atuar e, sem mais nem menos, autodenomina-se ator. A pessoa precisa passar por uma provação. Uma faculdade ou um curso proporcionam mais conhecimento”, diz. Para a atriz, porém, a classe artística não tem conseguido apoio, atualmente, por parte do governo – mesmo após mais de 30 anos da regulamentação da profissão. “Não somos bem vistos pelo poder público. Sofremos pressões de governos autoritários, mas os dirigentes sempre frequentavam os teatros e entendiam de arte. Hoje nós somos vistos como polemistas por quem tem o poder e isso é uma prova de

que muitos estigmas do passado ainda não foram superados”, observa. Eugenio Santos, por sua vez, ainda vê brechas na lei que precisam ser superadas. “Toda lei tende a perder sua validade com o passar do tempo. Acho que essa regulamentação de 1978 ainda é válida, mas, hoje, há outros aspectos que precisam ser considerados. O principal é em questão ao direito de imagem. Antigamente só tínhamos VHS e o cinema. Hoje é possível ver imagens e filmes em diversos meios, como celular, computador e por aí vai. A lei não é clara quanto a isso e o sindicato precisa se sentar para debater o assunto”, revela. O ator Ricardo Blat foi um dos primeiros a conseguir o registro profissional como ator, mais especificamente o 616º, em 25 de maio de 1979. “No Brasil, há muita gente se achando muito inspirada e muito ator querendo alcançar sucesso financeiro rápido. É importante ter talento, mas ter estudos para entender e saber as ferramentas necessárias para se usar na profissão. A escola é um bom lugar para se filtrar e se eliminar aproveitadores. Em uma boa escola, quem for aproveitador entenderá logo do que realmente trata essa profissão. O ator é aquele que liga o céu e a terra, um porta-voz dos seres humanos e um repórter dos sentimentos”, declara.

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Internacional

O Grande Teatro Maipo: A Catedral da Revista
Era o centenário da Revolução de Maio e a Argentina se preparava para uma grande festa. Buenos Aires, a Paris da América do Sul, se converteu em um grande cenário, com avenidas iluminadas, esplêndidos edifícios públicos, grandes lojas e palácios. Em maio de 1908, praticamente com o início dos preparativos do Centenário, e em uma etapa de grande desenvolvimento artístico e literário, foram inaugurados dois grandes teatros: o Colón e o Scala. O primeiro seria o templo da música clássica e o segundo se converteria, com os anos, na Catedral da Revista, o Teatro Maipo. No dia 7 de maio de 1908, começou o teatro aristocrático, com a estreia de “La Revue de la Scala”. É o terceiro music-hall em Buenos Aires, depois de Casino e o Royal Music Hall. Os diários o classicavam como aristocrático porque se correspondia com uma concorrência de público de alto nível socioeconômico, típico da rua Esmeralda. O estilo do Scala foi a canção, o diálogo breve e o cancan. Apresentavam-se operetas, vaudevilles, revistas breves que alternavam com variedades, frente a um público masculino para o qual as vedetes insinuavam muito mais do que mostravam. Em 10 de dezembro de
Fotos: Divulgação

Por Daniela Rodriguez Revista Mutis X El Foro

1912, os diários mais importantes do momento publicaram uma frase que dizia: Última função e fechamento do teatro para efetuar com rapidez as obras de ampliação. Hoje, o diretor do espaço, Lino Patalano, conta que foram fechados por estarem ligados aos Lombardo, a maior família de prostituição daquele momento. Reabriram as portas em outubro de 1915 com outro nome: Teatro Esmeralda, como a rua aonde está localizado. Quiseram fazer uma concorrência mais familiar e a novidade foi a incorporação de um cinema. Durante esses anos, foi cenário para o debute de atração variada da dupla Gardel/Razzano, com um repertório muito variado. Em 14 de outubro de 1917, estrearam o tango “Lita”, logo chamado “Mi Noche Triste”, considerado na história como o primeiro tango-canção. ABERTURA Apenas em 1922, o teatro recebe o nome de Maipo. Nessa época, realizou funções a companhia parisiana Ba-ta-clan. Eram quadros breves de baile, canto e dança, com coristas bastante desvestidas para a época, coroadas de penas e brilhantes falsos. Este espetáculo inspirou novas ideias estéticas no conceito de Revista portenha. Em 1944, Luis César Amadori compra o teatro e Pepe Arias marca como maestro da

arte da sátira política. Realizou seu espetáculo no Maipo, até que Perón o fez calar-se. Este ano, se completaram cem anos desde que foi aberto o Scala. Cem anos de penas e lantejoulas, de comediantes e vedetes, de escadarias e telões vermelhos: o Teatro da Revista Porteña. O FANTASMA DO MAIPO No ano de 1950, Luis Cáceres chegava a Buenos Aires à procura de um trabalho e de um lugar para viver. Começou a trabalhar no Teatro Maipo como maquinista. Lembram seus colegas que ele era muito perfeccionista, chegava pontualmente e começava seu trabalho sem pausa até o m da jornada. Um sábado de 1985, depois de 35 anos, realizou todas as suas tarefas, cumprimentou ao pessoal e, às 18h, se enforcou no terraço, enquanto no palco o público batia palmas para alguma obra. Há 15 dias, Cáceres havia descoberto que sofria de uma doença terminal. Desde esse dia, ele se transformou no fantasma teatral mais famoso do Maipo. Às vezes, o escutam trabalhar na sala de máquinas. Da ocina do quinto andar do teatro, Lino Patalano conta: “Quando saio ao corredor para pegar o elevador, eu não aperto o botão para chamá-lo. Ele vem sozinho. Ao abrir a porta, eu digo “obrigado Cáceres”. (Tradução: Pablo Ribera)

O Maipo é o berço do tango-canção e abriga o espírito de Luis Cáceres

Alguns pensamentos insignicantes sobre a Broadway
Por Gerson Steves* Não é grande coisa: um amontoado de dez ou 12 ruas, cada uma com quatro ou cinco blocos em torno de uma avenida que corta Manhattan. A Broadway é a veia por onde circula o sangue daquilo que se conhece como Theater District. E o seu coração é a famosa Times Square, que de praça não tem nada. Ali ca a TKTS, onde milhares de pessoas formam diariamente las quilométricas para tentar um ingressinho mais em conta para um dos tantos musicais concorridos da cidade. Ao chegar ao alto de sua vermelha e iluminada escadaria, o primeiro pensamento que ocorre é o que seria daquilo tudo se Gilberto Kassab fosse prefeito de Nova Iorque. Provavelmente, a Lei da Cidade Limpa ceifaria daquela área o que ela tem de melhor: seus cartazes, painéis de LED, luminosos e fachadas de neon – um inconfundível festival de luzes e cores. O casamento da poluição visual com o glamour, da comunicação de massa com o entretenimento. Mas não podemos esquecer que, denitivamente, a Broadway não é aqui – embora tantos tentem impor a Sampa esse dever quase histórico de colocar em seus palcos os ecos culturais da grande Meca. E, como éis seguidores, nos voltamos em sua direção e nos curvamos reverentemente, para o bem e para o mal. O que não é de hoje. Desde sempre hospedamos reverentes as grandes companhias de teatro e ópera italianas, inglesas ou francesas. É cantada em verso e prosa a vinda da Divina Sarah às terras brasileiras. Muito depois, já nos tempos do TBC, aqueles grandes diretores, cenógrafos e iluminadores italianos colocaram em nossos palcos espetáculos que agradavam à burguesia da época que, por alguma razão, não podia ver os originais na Europa ou nos Estados Unidos. Talvez uma das causas seja o fato de que a burguesia, via de regra, é inculta e não domina outras culturas e línguas. Quem sabe a isso se deva o enorme sucesso dos musicais da Broadway por aqui e a quantidade tão pequena de brasileiros nas platéias do distrito teatral de Manhattan. Isso não quer dizer que não haja brasileiros em Nova Iorque. Claro que há. Todos procurando outlets e sales – uma horda de sacoleiros e sacoleiras loucos pelas griffes do Sex and The City. Nos teatros? Quase nenhum. Mas a Broadway sobrevive, apesar da crise que fez serem cancelados diversos shows e diminuiu as las do TKTS. Sobrevive graças ao turismo local e a um público quase careta, que força produtores e artistas a apostarem cada vez mais as suas chas no conservadorismo. Explico. Os espetáculos musicais de maior sucesso hoje são aqueles que investem em terrenos seguros e conhecidos: a diversão em família (com uma dose suportável de sacanagem), os remakes de antigos e garantidos sucessos, ou aquelas que têm por trás um fenômeno cinematográco anterior. A fórmula é a do bom e velho entretenimento: uma pitada de romance, uma mensagem crítica ou edicante com baixos teores de violência ou agressividade, muita cantoria, boas piadas e a preservação dos valores locais. Nessa esteira, estão grandes sucessos como: “Avenue Q” (Muppet Show pra gente grande, com mensagem edicante), “Billy Eliot” e “Mamma Mia” (com canções pra lá de manjadas do ABBA); os infantis “Shrek”, “Mary Poppins” e “A Pequena Sereia” (com seus cenários mirabolantes e efeitos especiais); e nossos velhos conhecidos “Hair”, “Chicago e South Pacic”. Claro que há oásis nesse deserto. Mas quem, por aqui, se interessaria por peças como “The 39 Steps” (que une Hitchcock com Monty Pyton), “Blythe Spirit “(uma saborosa comédia de Noël Coward) ou ainda a comédia de humor negro de Yasmina Reza, “God of Carnage”? Estão longe de cruzar o oceano e aportarem em terras tupiniquins. Todos são espetáculos deliciosos, que cam ainda melhores lá, em seu idioma original, com as piadas locais e elencos que dominam não apenas seu ofício, mas principalmente o contexto cultural em que a obra se insere e os públicos aos quais é dirigida. Por aqui, cabe a nós tentarmos formar plateias para um teatro brasileiro. Claro que não apenas

* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. Também é um grande fã de teatro musical.

de autores ou temas nacionais, mas produzido com brasilidade e olhos voltados não para o próprio umbigo, mas para a própria realidade cultural. E deixemos a Broadway com seu franchising onde está.

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1º a 15 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

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