Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO Oficina de produção de texto I Professor: Gustavo Naves Franco Letras 2011

.3 Aluna: Tamires Braga

Só poderia ser em quadrinhos Não é usual uma história em quadrinhos, que no caso traz como tema os campos de concentração - o relato de um ex-detento de Auschwitz mais especificamente - conquistar um importante prêmio da literatura. Essa conquista tornou a cena underground mais respeitada quanto manifestação cultural e artística. A originalidade e perspicácia de Art Spiegelman fizeram de Maus um sucesso de público e de crítica, popularizando o mundo da HQ. Tudo isso devido à habilidade de Art de transformar uma situação não ficcional em quadrinhos. A partir de interessante grafia e estilo de apresentação Art Spiegelman faz de sua obra uma bela forma de documentação, bela embora realista, de um acontecimento terrivelmente desumano. Tão desumano é, que seus

personagens são representados de maneira metafórica, onde judeus são caracterizados como gatos, alemães como gatos, americanos como cães e poloneses como porcos. A escolha desses animais não foi nada aleatória. Vale lembrar aqui as palavras de Hitler: ”Sem dúvida, os judeus são uma raça, mas não são humanos”, citação que está totalmente de acordo com a caracterização do judeu como rato, tal como todo o contexto da Alemanha nazista, que associava o judeu a sujeira e obscuridade. Essa metáfora possibilitou mostrar as relações hierárquicas de domínio existentes naquele período de guerra utilizando-se do recurso mais típico e próprio do quadrinho. A escolha por substituir as feições humanas também foi um recurso inteligente para se comportar através de imagens registros tão pesados. Mostrar o horror da realidade escondendo os rostos de aflição

suaviza o teor agressivo do livro e permite que o leitor siga em frente em sua leitura e traga o tema para o seu círculo social. Essa diferença entre mostrar feições humanas ou não pode ser compreendida ao se analisar a tira que Art faz sobre sua mãe, publicada em uma revista underground e reproduzida em Maus. Ali fica fácil perceber como a expressão facial no quadrinho pode mudar totalmente o tom do escrito servindo como ferramenta para o autor sinalizar maior ou menor drama em um quadro. A tira aborda o tema do suicídio, que é tão sombrio quanto o extermínio nazista em Auschwitz, mas naquela ele consegue afetar o leitor de forma muito mais agressiva do que nesta. Diversas são as ferramentas disponíveis no quadrinho e elas são utilizadas de acordo com a intencionalidade do autor. Isso só é possível porque a história em quadrinhos pode ser entendida como constituída dos seguintes fatores: a estrutura (os limites do quadro), o escrito (não necessariamente), a imagem e a imaginação do leitor. Este último elemento se dá de forma diferente em um livro de histórias comum (sem quadrinhos). Enquanto em um livro comum as imagens são formadas na mente de quem lê através do material que o livro fornece, o quadrinho parece criar um local paralelo à realidade apresentada pela imagem. Talvez isso ocorra pela utilização de elementos gráficos que servem como indícios para a constituição imaginativa, forçando o pensamento a se enquadrar a um tipo de linguagem diferente da concreta no mudo físico. Ao invés das imagens se desenrolarem como em um filme em nossas mentes (como quando lemos), ela se desenvolve através de padrões fora da nossa materialidade através dos grafismos desenvolvidos pelo desenhista, grafismos esses que nos tiram mais ainda da realidade se forem brutos. Esse mecanismo possibilita a maioria das diversas ferramentas, entre elas uma impressão de multivocalidade que é potencializada pelo fato de o autor se utilizar de uma história para contar outra, possibilitando a alternância dos pontos de vista, principalmente entre Vladek e seu filho. Essa alternância gera lacunas que permitem uma leitura mais subjetiva do leitor, que é forçado por esse mecanismo a ver as implicações do ocorrido no período da guerra em

um paralelo na relação entre o pai e o filho. Quando essa multivocalidade é analisada sob um contexto mais amplo mantém-se esse espaço para as inferências do leitor, mas também se percebe como essa mudança de perspectiva contribui para que a obra mantenha sua fidelidade com o que de fato ocorreu. Toda essa riqueza de utensílios que o quadrinho tem em mãos para tornar sua narrativa mais apropriada ao que pretende o autor, gera um livro tão múltiplo em seus caracteres que sua classificação se torna bastante difícil. Maus possui ares de biografia, autobiografia, registro histórico, romance, quadrinho, entrevista, testemunho, entre outros sendo considerada, portanto, uma obra única, só possível de ser tão bem realizada por meio da linguagem dos quadrinhos. Só o quadrinho permite a dosagem entre a força e a sutileza necessária para tratar de um assunto tão perturbador, e isso inclusive comicamente em alguns momentos. Claro que saber utilizar-se de elementos que mexem com a subjetividade do leitor, sendo esta quem define o rumo do livro, exige a proeza de um maestro, que da possibilidade do caos faz sinfonia.

Bibliografia: Spiegelmann,Art. Maus – A história de um sobrevivente, Cia das Letras,SP, 2010.

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