G. BARRACLOUGH
da Universidade de Cambridge

Introdução à HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA
Tradução de Álvaro Cabral

Digitalização: Argo www.portaldocriador.org

ÍNDICE
Prefácio

I
Natureza da História Contemporânea Mudança Estrutural e Diferença Qualitativa

II
O Impacto do Progresso Técnico e Científico Industrialismo e Imperialismo Como Catalisadores de um Novo Mundo

III
Uma Europa Menor O Significado do Fator Demográfico

IV
Do Equilíbrio Europeu de Poder à Era da Política Mundial Transformações no Ambiente das Relações Internacionais

V
Do Individualismo à Democracia das Massas Organização Política na Sociedade Tecnológica

VI
A Revolta contra o Ocidente A Reação da Ásia e da África à Hegemonia Européia

VII
O Desafio Ideológico O Impacto da Teoria Comunista e do Exemplo Soviético

VIII
Arte e Literatura no Mundo Contemporâneo A Mudança nas Atitudes Humanas

A base do presente livro são as conferências por mim proferidas no "Ciclo de Conferências Charles Beard" do Ruskin College. e (uma forma revista) na Universidade da Califórnia. gostaria de expressar minha gratidão à Fundação Rockefeller. Los Angeles. Várias circunstâncias durante os cinco anos subseqüentes impediram-me que eu o desenvolvesse ainda mais e estou profundamente grato àqueles cujo incitamento e ajuda me habilitaram a retomar o assunto. John's College. na primavera de 1963. por seu generoso apoio. por seus convites. está completo em si mesmo e espero que quantos crêem ser importante explorar os fundamentos históricos do mundo contemporâneo considerem esta obra útil e digna de interesse.PREFÁCIO A primeira tentativa de desenvolvimento do tema do presente livro foi feita em uma conferência lida. Ao tentar destacar o que me parece constituir alguns dos principais temas da História Contemporânea. ao Reitor do Ruskin College e ao Diretor do Departamento de História. um ano mais tarde. que tenho atualmente em elaboração. Pareceu-me que um enquadramento teórico. perante o Oxford Recent History Group. desde 1900. Cambridge. da citada universidade da Califórnia. Mas o presente livro. Oxford. pela viva atenção que me dispensaram. uma de minhas finalidades foi preparar o caminho para a história narrativa do mundo. Barraclough Maio de 1964 . De modo especial. bem como ao público presente em ambos os lugares. por sua hospitalidade. em 1956. também. Estou muito reconhecido. que tentasse esclarecer as idéias básicas e colocar os acontecimentos em sua competente perspectiva. G. evidentemente. seria uma preliminar essencial para qualquer exame cronológico. bem como ao Reitor e Corpo Docente do St.

Do que necessitamos. A mera reprodução escrita do curso dos acontecimentos. Estaremos interessados. . o surto do fascismo e do nacional-socialismo. automaticamente. muito mais no mundo novo que surge para a vida do que no velho mundo que se extingue. chinês. adicionando alguns capítulos sobre questões extraeuropéias. Os historiadores do passado recente partiram do princípio. uma explicação sobre a maneira como o novo mundo surgiu. melhor das forças em jogo no mundo de hoje se não possuirmos também e simultaneamente uma perfeita noção das mudanças estruturais subjacentes. Nossa pesquisa fará que percorramos alguns caminhos estranhos ou menos habituais. Como ocorreram essas mudanças? Quais as influências formativas e diferenças qualitativas que constituem as marcas distintivas da era contemporânea? Estas são as perguntas de que este livro se ocupa e por essa razão lhe dei o título de Introdução à História Contemporânea. eles se cruzam nas linhas tradicionais. de que. mas de reexaminar e rever toda a estrutura de suposições e preconcepções em que se fundamentava esse conceito. a partir de 1945. semelhante critério me parece inadequado. estavam fornecendo. vivemos hoje num mundo diferente daquele em que viveu e morreu Bismarck. talvez enganador. de certo modo. durante os últimos sessenta ou setenta anos. até. mesmo quando relatados em escala mundial. sobretudo. e. na maioria dos casos. Eis o que este livro pretende fornecer.I NATUREZA DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA Mudança Estrutural e Diferença Qualitativa Em quase todas as suas precondições básicas. e basta-nos olhar em redor para observar que algumas das características mais salientes do mundo contemporâneo têm sua origem em movimentos e desenvolvimentos ocorridos longe da Europa. Por razões que adiante surgirão. uma compreensão. isto significa não só a necessidade de suplementarmos nosso conceito convencional do passado recente. é de um novo enquadramento e de novos termos de referência. e a História moderna tem consistido amplamente. já provoca dúvidas sobre a propriedade dos velhos padrões. em relatos das duas guerras mundiais. e este fato. sugerindo a necessidade de um novo planejamento básico. africano. provavelmente. Um dos fatos característicos da História contemporânea é que é História mundial e que as forças que lhes dão forma não podem ser compreendidas se não estivermos preparados para adotar perspectivas mundiais. ao explicarem os fatores que levaram à desintegração do velho mundo. não acarretará. neste livro. o acordo de paz de 1918. o conflito dos mundos comunista e capitalista. Não se trata de uma introdução naquela acepção corrente de fornecer um relato elementar e narrativo dos acontecimentos na Europa e para além da Europa. indiano e outros da História extra-européia se interpõem no passado num diferente ângulo. Precisamente porque os ramos americano. portanto. por si só.

Behthand Russell. pois foi então que tomaram forma aquelas forças que moldaram o mundo contemporâneo. Iluminismo e Revolução Francesa. deparamos subitamente com o fortuito e o imprevisto. antes. o dinâmico e o revolucionário. History and Human Relations (Londres.3 De fato. que "o universo é todo feito de pontos e saltos". Um desses momentos foi o grande levante social São sucintamente discutidos em meu livro History in a Changing World (Oxford.Uma das principais afirmações deste livro será que a História contemporânea é diferente. 98. 1 . págs. os argumentos comuns de causalidade "de maneira alguma bastam para explicar a fase seguinte da História. principalmente. da vantajosa posição presente. Olhando para trás. 4 e segs. certa vez. em gênero ou qualidade da História anterior. 2 e a impressão que tenho da História é bastante análoga. 3 Cf. pág. De um lado. com efeito. 2 Cf. de um processo contínuo e. 1 Deve-se dizer imediatamente que muitos historiadores talvez a maioria dos historiadores atuais — poriam em dúvida a validade da distinção que estabeleci entre História "moderna" e "contemporânea". do conceito de "contemporâneo". e 1961. receosos de admitirem que é diferente. quase nebuloso. simplesmente. H. Para a maioria dos historiadores. Em todos os grandes momentos decisivos do passado. reside na tendência atual da História escrita para salientar o elemento de continuidade histórica. e negariam a existência de um "grande divisor" entre as duas. como Herbert Butterfield salientou um vez. Não é preciso entrarmos em longa discussão dos motivos porque acho essa atitude difícil de ser aceita. com seus píncaros familiares: Renascimento. Há certo número de razões para isso. The Scientific Outlook (Londres. há pouca dificuldade em identificar momentos em que a humanidade salta de seus velhos rumos para um novo plano. Outra. é encarada. 94. 1955).1 Em minha opinião. do que se conhece como História "moderna". É desse grande divisor entre duas épocas da História da humanidade que este livro se ocupará. que ainda está em seus primórdios. de modo algum. Buttsmteld. podemos verificar que os anos decorridos entre 1890. a próxima virada dos acontecimentos". indefinido. como aquela parte da História "moderna" que está mais próxima de nós no tempo. a continuidade não é. o novo. Bertrand Russell disse. Uma delas consiste no caráter vago. quando abandona a estrada demarcada e toma nova direção. do outro. como fase mais recente. quando Bismarck se retirou da cena política. esses historiadores tratam-na. 1951). quando Kennedy tomou posse como Presidente dos Estados Unidos. situa-se a idade contemporânea. alarga-se o vasto panorama da História "moderna". em qualidade e conteúdo. 1931). constituíram um amplo divisor de águas entre duas épocas. pig. tal como vulgarmente se usa. a característica mais saliente da História. em tais momentos. a História contemporânea não constitui um período separado com características próprias. que é mais fundamental.

e intelectual da transição dos séculos XI e XII, a que tão inadequadamente chamamos a Querela das Investiduras; outro momento, como é do consenso geral, foi o período do Renascimento e Reforma. A primeira metade de século XII tem todas as características de um período semelhante de transformação e crise revolucionárias. E neste ponto, ainda, somos levados a observar um dos problemas centrais na elaboração da História escrita — o problema da fixação de períodos — o qual nos levaria demasiado longe no exame das questões teóricas que suscita. Mas se encararmos os cinqüenta ou sessenta anos iniciados por volta de 1890 a partir desse ponto de vista, será difícil evitarmos certos e importantes corolários. O primeiro é não poder ser o século XX encarado, simplesmente, como continuação do século XIX; não ser a História "recente" ou "contemporânea", meramente, a ponta mais próxima da chamada "História moderna" a fase mais recente de um período que, segundo as divisões tradicionais, principiou na Europa ocidental com o Renascimento e a Reforma. E aceitando isto como certo, deve seguir-se a conclusão de que os padrões de avaliação que aplicamos à História contemporânea devem diferenciar-se dos que se aplicam a eras anteriores. O que devemos considerar como significativos são as diferenças e não as semelhanças, os elementos de descontinuidade e não os elementos de continuidade. Em resumo, a História contemporânea deve ser considerada como um distinto período de tempo, com características próprias que a diferenciam do período precedente, de modo bastante parecido àquele como a chamada "História medieval" — pelo menos, de acordo com a maioria dos historiadores — se diferencia da História moderna. Se essas proposições tiverem algum grau de validade, será razoável concluir, pois, que uma das primeiras tarefas dos historiadores interessados na História recente será a de estabelecer suas características específicas e suas fronteiras. Ao fazê-lo, claro, devemos acautelar-nos contra as falsas categorias (que se aplicam a toda a obra histórica); devemos recordar que todas as espécies de coisas perduram de um para outro período, tal como todas as espécies de coisas reputadas "tipicamente medievais" persistiram na Inglaterra elisabetiana; e não esperemos atribuir datas fixas a mudanças que, em última análise, são apenas alterações no equilíbrio e na perspectiva. Mas, ainda assim, continua sendo verdade que, se não mantivermos nossos olhos alertados para o que é novo e diferente, todos perderemos, com a maior facilidade, o que é essencial, a saber, o sentimento de viver em um novo período. Só quando tivermos definido com precisão, em nossos espíritos, o abismo real entre os dois períodos, poderemos começar então a construir pontes sobre o mesmo. Não será preciso dizer que só podemos considerar a História contemporânea dessa maneira quando estamos certos do que queremos dizer com o termo "contemporâneo". O estudo da História contemporânea sofreu, indubitavelmente, por causa da imprecisão de seu conteúdo e nebulosidade de seus limites. A palavra "contemporâneo" significa, inevitavelmente, coisas diferentes para pessoas diferentes; o que para mim é contemporâneo não o será, necessariamente, para todos vós. Ainda é possível encontrar pessoas que conver-

saram com Bismarck,4 e (para só mencionar uma recordação pessoal) meu antigo colega em Cambridge, G. G. Coulton, que morreu em 1947, era um menino de escola na França, antes da Guerra FrancoPrussiana; e ainda tinha em seu poder um uniforme escolar com képi e pantalon tipo saco — uma versão diminutiva do uniforme da infantaria francesa daquela época — que certo dia retirou de seu armário para que meu filho mais velho o provasse.5 Por outro lado, existe já uma geração para quem Hitler é uma figura tão histórica quanto Napoleão ou Júlio César. Em resumo, o termo "contemporâneo" é muito elástico e afirmar — como freqüentemente se faz — que a História contemporânea é a história da geração que atualmente vive é uma definição nada satisfatória, pela simples razão de que as gerações se sobrepõem. Além disso, se a História contemporânea for encarada dessa maneira, ficamos na presença de limites em constante flutuação e de conteúdo em permanente variação, com um tema ou assunto em fluxo também constante. Para algumas pessoas, a História contemporânea começa em 1945, com um relance, talvez, até 1939; para outras, é essencialmente a história do período entre as guerras ou, um pouco mais amplamente, do período de 1914 a 1945; e os anos depois de 1945 pertencem a uma fase que ainda não é História. O instituto alemão de História contemporânea, por exemplo, ocupa-se primordialmente do nacional-socialismo, das origens do nacional-socialismo durante a República de Weimar e dos movimentos de resistência que o nacional-socialismo provocou,6 e é possível encontrar inteligentes e habilidosas soluções dos problemas práticos de escrever história de acontecimentos contemporâneos, as quais ignorem — de modo claramente intencional — tudo quanto ocorreu depois do fim da Segunda Guerra Mundial.7 Os problemas envolvidos não só no escrever, mas também na concepção da História contemporânea, deram origem, desde 1918, a uma longa, litigiosa e, finalmente, exaustiva controvérsia.8 A própria noção de História contemporânea é uma contradição em termos, assim foi sustentado. Antes de podermos adotar uma visão histórica, devemos colocar-nos a certa distância dos acontecimentos que investigamos. Já é bastante difícil, em todas as épocas, "desligarmonos" dos eventos e olharmos para o passado desapaixonadamente, com o olho crítico do historiador. Será possível, então, agir dessa maneira no caso de acontecimentos que exercem influência tão íntima em nossa própria vida? Devo dizer imediatamente que não tencioCf. Gold Mann, "Bismarck and Our Times". International Affairs, vol. XXXVIII (1962), pág. 3 5 Coulton fala-nos de seus três anos escolares em St. Omer, in Foursccre Years. Cambridge, 1943), págs. 39-47; foi em 1866-7. 6 Cf. H. Rothfels, "Zeitgeschichte als Aufgabe", Vierteljahrshefte für Zeitgetchichte, vol. I (1953), pág. 8; a mesma atitude é adotada por B. Scheuiug, Einführung in die Zeitgeschichte (Berlim, 1962), págs. 30-1. 7 Cf. M. Bendiscioli, Possibilita e limüi di una storia critica degli avvenimenti contemporanei (Salerno, 1954). 8 Essa polêmica pode ser acompanhada nas páginas do Jornal History, começando com a controvérsia entre E. Barker e A. F. Pollard, em 1962 (vol. VII); seguiu-se a argumentação de R. W. Seton-Watson favorável ao estudo da História contemporânea (vol. XIV), renovada por G. B. HenJerson em 1941 (vol. XXVI) e novas contribuições por David Thomson (vol. XXVII), Max Beloff (vol. XXX) e F. W. Pick (vol XXXI).
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no discutir essas questões metodológicas.9 Sejam quais forem os problemas de escrever História contemporânea, permanece o fato de que — como R. W. Seton-Watson assinalou há muito tempo10 — desde Tucídides até hoje, muito da História escrita, realmente grande, foi História contemporânea. Com efeito, se dissermos — como os historiadores algumas vezes dizem — que a idéia de História contemporânea é uma noção recentemente forjada e introduzida depois de 1918 para saciar a curiosidade de um público desiludido, ansioso por saber o que estaria errado, afinal, na "guerra para acabar com todas as guerras", não será descabido responder que o erro não estava num conceito de História firmemente radicado no presente, mas, pelo contrário, na noção de História em voga no século XIX como algo inteiramente dedicado ao passado. O que é zeitgebunden — o que, por outras palavras, é um produto de circunstâncias identificáveis de uma determinada época — não é a crença em que os acontecimentos contemporâneos estejam dentro do âmbito do historiador, mas a idéia de História como estudo objetivo e científico do passado, "por seu próprio interesse".11 Por outro lado, seria ocioso negar que quantos rejeitam a História contemporânea, com base no fato de não se tratar de uma disciplina séria, freqüentemente provaram, na prática, estar dentro da razão. Muita coisa que pretende ser História contemporânea — seja ela escrita em Pequim ou Moscou, em Londres ou Nova York — resulta, bastantes vezes, não passar de propaganda ou de comentários desarticulados sobre "questões correntes", refletindo, habitualmente, uma obsessão por um ou outro aspecto da "guerra fria". São óbvias as armadilhas em que tais escritos podem cair. Quais são, por exemplo, as perspectivas de uma apreciação realista da revolução de Castro, em Cuba, se a considerarmos, unicamente, como manifestação do "comunismo internacional" e não a relacionarmos com os movimentos paralelos, em outras regiões do mundo subdesenvolvido, ou com a longa e intrincada história das relações entre os Estados Unidos e Cuba desde 1901? Se quisermos que ela tenha algum valor perene e duradouro, a análise de acontecimentos contemporâneos requer "profundidade", nunca menor — talvez, de fato, uma boa dose mais — do que qualquer outro gênero de História; nossa única esperança de discernir as forças efetivamente em ação no mundo que nos cerca é alinhá-las, de maneira firme, de encontro ao passado, para que o contraste lhes dê o devido realce. Infelizmente, é raro que assim se proceda. Quando eclodiu a guerra da Coréia, em 1950, por exemplo, os comentaristas trataram-na, simplesmente, como um episódio no conflito pós-guerra entre os mundos "livre" e comunista; e o fato dela fazer parte de uma luta bem mais antiga por uma posição dominante no Pacífico ocidental, remontando a quase um século atrás, exatamente, foi passado por alto

São analisadas, sucintamente, por H. Rothfels, Zeitgeschichtliche Betrachtungen (Göttingen, 1959), págs. 12 e segs. 10 History, vol. XIV (1929), pág. 4. 11 Isso foi demonstrado, com grande verve e conhecimento, no brilhante artigo de Fritz Ernst, "Zeitgeschehen und Geschichtsschreibung", Die Welt als Geschichte vol XVII (1957), págs. 137-89.
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desde 1864. ou a Revolução Industrial. mas distinguir os diversos padrões em que foi urdido. La Corée et la politique des puissances. se não compreendermos que aqueles "aspectos da ordem comunista que constituem os assuntos usuais da prosa contemporânea". 13 Cf. Mas estamos justificados para descrevê-los como tendências "objetivas". o critério genético ou causal. o colapso (ou transformação) de antigos imperialismos — britânico. pág. Há lugar para divergências de opinião sobre todos esses assuntos. Além disso. são habitualmente de "significado mais duradouro na explicação da marcha dos homens e acontecimentos". A História contemporânea segue — ou deveria seguir — um procedimento quase oposPara uma análise resumida da questão coreana. a História contemporânea só pode justificar sua pretensão a ser considerada uma séria disciplina intelectual e algo mais do que uma crítica desarticulada e superficial da cena contemporânea. na análise da História recente. o aparecimento dos Estados Unidos e da União Soviética como "superpotências". 1959). 12 . (Genebra. em sua grande parte "só são importantes como símbolos". A tal respeito. a História contemporânea não é diferente.12 Nem seria preciso dizer que uma apreciação válida deve ter em devida conta ambos os aspectos.e sem comentários. porém.ª ed. são partes de um processo que jamais poderá ser plenamente entendido se o retirarmos de seu contexto histórico. traçando um desenvolvimento contínuo segundo as diretrizes fixadas a partir desse ponto de partida escolhido. 1960). A História do tipo tradicional principia num determinado ponto do passado — a Revolução Francesa. francês e holandês — o ressurgimento da Ásia e da África. no sentido de que. Em especial. freqüentemente esquecidas no meio das crises e paixões do dia". a revolução estratégica ou termonuclear. em seus requisitos. New Age and New Outlook (2. o reajustamento de relações entre povos brancos e de cor. Para ele. China. que se tornou tradicional entre os historiadores que escrevem sob a influência do historicismo alemão. Penguin Books. de outras espécies de História.13 A longo prazo. Em outros aspectos. cada um de nós é livre para formular sua própria apreciação sobre o significado dos mesmos. 9. por exemplo. ou o acordo de 1815 — e opera sistematicamente para diante. não é esse o caso.. Ping-Chia Kuo. tomados em conjunto. mas não iremos longe. se decidir esclarecer as mudanças básicas de estrutura que deram forma ao mundo moderno. e que "mais profundas tendências históricas. é instrumento inadequado para o historiador contemporâneo que procura definir o caráter da História contemporânea e estabelecer critérios que a distingam do período precedente. ver Lee In-sang. Um simples exemplo ilustrará o que essa diferença significa na prática. todos requerem estudo e análise em profundidade. Exemplos delas são a posição alterada da Europa no mundo. o importante não é demonstrar (o que todos nós sabemos) que a túnica de Clio é um tecido sem costuras. dão à História contemporânea uma qualidade distinta que a separa do período precedente. Essas mudanças são fundamentais porque fixam o esqueleto ou armação em torno do qual a ação política se enquadra e desenvolve.

Assim. mediante suas interações. 14 15 . particularmente nos impérios Habsburgo e otomano. a coisas diferentes. o pan-eslavismo — questões que. podemos recuar. desde seus primórdios tradicionais com o tear de Hargreaves. Cf. parou para recordar que os russos já tinham ocupado Berlim em 1760? Evidentemente. O historiador que parte. com a Europa. O historiador que se situar não em 1815. Assim.14 No campo da história política internacional. tanto no choque de imperialismos na Ásia central e no Pacífico ocidental como nos Bálcãs e na África. 44. cf. adiante. como seria mais exato dizer. 1957). as diferenças não são menos claras. ainda. isso não é História contemporânea ou sê-lo-á tanto quanto as campanhas dos exércitos de Suvorov na Itália e na Suíça. 5. Embora o historiador contemporâneo dê atenção. Para um entendimento coberto da mutação de um sistema político europeu em um mundial. Bloomington. exceto quando podem ser abrangidos pelo título de "expansão européia". mas fá-lo-ão com diferentes objetivos em mente e distintos padrões de julgamento. até à Guerra dos Sete Anos. não se segue daí que seu critério tenha de ser mais superficial ou sua perspectiva mais reduzida do que a de outros historiadores. as principais questões serão a unificação alemã e italiana. mas será um passado diferente. por exemplo. verá o mesmo período em proporções diferentes. na estrada de ferro transiberiana quanto na ferrovia de Berlim a Bagdá. Bemis. pareceram culminar. estará tão interessado no Oregon e no Amur como na Herzegovina e no Reno.to. a máquina de fiar de Crompton. foi descrita como um avanço inédito dos eslavos para o oeste. que é das mais evidentes características da era contemporânea. Seu ponto de partida será o sistema global de política internacional em que hoje vivemos e sua principal preocupação será explicar como ele surgiu. é quase inevitável que se preocupará. talvez. Ambos os métodos podem levar-nos até bem longe. em 1945. mas é importante estar-se ao corrente desses Voltarei mais tarde a este ponto. Ambos os tipos de historiador examinarão o mesmo setor de passado.. quando a ocupação russa de Berlim. Para ele. em relação ao desenvolvimento da moderna sociedade industrial. o historiador contemporâneo estará menos interessado com a extensão gradual dos processos industriais. fase por fase. necessariamente. S. por exemplo. e. a roda hidráulica de Arkwright. a qual foi descrita como "o primeiro conflito mundial dos tempos modernos". problemas europeus. The Diplomacy of the American Revolution (2. a chamada "Questão Oriental". durante as guerras napoleônicas. culminaram (ou. Pág. mas no presente. no passado. pág. o impacto do nacionalismo. principalmente.ª ed. visto os problemas que surgiram diretamente do acordo de 1815 serem. F. a máquina de vapor de Watt e o tear mecânico de Cartwright do que com as diferenças substanciais entre a "primeira" e a "segunda" revolução industrial.15 Ou quem. quando vistas por esse prisma) na guerra de 1914 — e os acontecimentos em outras partes do mundo tendem a ser observados como periféricos. primordialmente. portanto. da situação em 1815 e progride passo a passo. do seu ponto de vista. tais diferenças são mais significativas do que o indiscutível elemento de continuidade que liga os séculos XVIII e XX.

ou melhor. Existem bastantes provas. cujo efeito cumulativo sugere que os anos imediatamente anteriores e posteriores a 1890 constituíram importante ponto decisivo. pela primeira vez. de fato. hostilmente insinuado — nada mais do que analisar superficialmente os acontecimentos recentes e interpretar erroneamente o passado recente à luz de ideologias correntes. Por outra parte. W. Tal como as raízes das mudanças que tiveram lugar na época do Renascimento podem levarnos até à Itália de Frederico II. 2 Se associarmos o conceito de História contemporânea. se quisermos ver os acontecimentos recentes em perspectiva. indica que houve um longo período de transição. começa com as mudanças que nos habilitam. e. que os historiadores salientam quando estabelecem uma linha divisória entre a Idade Média e a História "moderna" na passagem dos séculos XV e XVI. E. verificaremos nas páginas seguintes que estamos envolvidos. mas faremos bem se nos acautelarmos sobre a indicação de datas precisas. que nos compelem a dizer que entramos em uma nova era — a espécie de mudanças. 1960). em larga escala. na atualidade. e o espantoso avanço pela Ásia que levou os exploradores e aventureiros russos até à costa do Pacífico. o "contemporâneo" e o "moderno". ou em 1898. A História contemporânea começa quando os problemas que são reais no mundo atual tomaram. como já sugeri. como creio que deveríamos fazer. Só agora parece estarmos começando a sair dessa transição para um mundo cujos contornos não podemos delinear ainda. R. mesmo brevemente que seja. assim as raízes do presente podem situar-se até no século XVIII. van Alstyne. antes do ethos de um período ser substituído pelo ethos do outro. Para compreender a posição da Rússia na Ásia — o que. . uma forma visível. mas esse fato não elimina a possibilidade de distinguirmos duas eras nem invalida a diferenciação entre elas. numa era de transição em que dois períodos. sem olhar para além de 1890 e das guerras filipina e cubana. seria idiota esperar entender a política dos Estados Unidos. é uma das precondições da era moderna — pode ser necessário recapitular. em redor de 1580. ou em 1917. ou em qualquer outra data específica que possamos escolher. tal qual a expansão dos Estados Unidos através do continente americano até o Pacífico.eventos e tomá-los em devida conta. The Rising American Empire (Orford. dificilmente coexistem. por vezes. a fim de examinar as primeiras fases do imperialismo americano que o Professor van Alstyne tão brilhantemente averiguou. uma vez mais. as campanhas siberianas de Yermak. que mais adiante realçarei.16 Esse punhado de exemplos é bastante para mostrar que a História contemporânea não significa — como historiadores têm. com o arranque inicial de uma nova e16 Cf. Mas também mostram — o que é fundamentalmente mais importante — por que não podemos dizer que a História contemporânea "começa" em 1945 ou 1939. cerca de 1649.

ra, que rótulo deveremos pôr-lhe? É certo que o termo "História contemporânea" é provisório e ambíguo, mas também é incolor; e, atualmente, como emergimos de um longo período de transição, é mais seguro fixarmo-nos numa denominação incolor, mesmo sem significado, do que adotar uma que seja precisa, mas inapropriada. Quando pudermos ver mais nitidamente a nova constelação de forças que emergem, será então momento de pensar num termo que represente com maior exatidão o mundo em que vivemos. É verdade que já houve uma série de tentativas para encontrar uma nova fórmula, mas nenhuma é completamente satisfatória. Foram feitas por historiadores que perceberam, muito corretamente, como a tripla divisão convencional em idades "antiga", "medieval" e "moderna" se tornou raquítica. Em especial, foi sugerido que, tal como à era mediterrânica sucedeu uma européia, assim a era européia foi, ou está sendo agora, substituída por uma era atlântica.17 Este esquema, que implica ter a História contemporânea como tema central a formação de uma comunidade atlântica, é plausível e atraente; mas existem três razões para que hesitemos, antes de endossá-lo. Primeiro que tudo, é um conceito mais político do que histórico; tomou forma como uma projeção para trás da Carta do Atlântico de 1941 e não era corrente, na medida em que pude averiguar, entre os historiadores de antes da Segunda Guerra Mundial.18 Em segundo lugar, a seqüência "Mediterrâneo-Europa-Atlântico" é tanto um reflexo do ponto de vista europeu quanto a seqüência "antiga-medieval-moderna", que pretende substituir, e só por essa razão constitui já uma denominação duvidosa para um período cuja característica mais óbvia foi um declínio no predomínio da Europa e uma transferência de ênfase da Europa para outras regiões. E, finalmente, embora não haja razão para negar a existência de "uma economia atlântica histórica", da qual os países de ambas as margens do Atlântico são "partes interdependentes", tornou-se bem claro, para além de qualquer dúvida razoável, que a tendência, em tempos recentes, foi mais para um enfraquecimento do que um fortalecimento dessa comunidade econômica.19 Uma investigação cuidadosa mostra que foi no período de 1785-1825 que os laços econômicos entre a Europa ocidental e a América foram mais estreitos; daí em diante, afrouxaram lentamente até 1860 e, depois desse ano, o afrouxamento ganhou um ritmo mais rápido.20 Hoje, apesar da aliança atlântica, as duas margens do Atlântico encontram-se "economicamente mais distantes entre si do que estavam, há um século"; certamente — e do atual ponto de vista, significativamente - "a décaCf. O. Halechi, The Limits and Divisions of European History (Londres, 1950), especialmente págs. 29, 54, 60 e segs., 167 e segs. 18 Entre os que o popularizaram, conta-se o comentarista político americano Walter Lippman; dele passou, em 1945, para os historiadores Carlton Hayes, Garrett Mattingly e Hale Bellot, após o que se converteu num conceito bastante divulgado Para um breve relato de sua evolução, cf. Cushing Strout, The American Image of the Old World (Nova York, 1963), págs. 221 e segs. 19 Esta é a conclusão de J. Godechot e R. R. Palmer, em seu brilhante reexame de toda a questão, "Le problème de l'Atlantique du XVIIIe au XXe siècle publicado no vol. V do Relatório do 10.º Congresso de Ciências Históricas (Florenca 1955), págs. 173-239. 20 Ibid., pág. 199.
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da de 1890" foi "o fim de uma época e princípio de outra" na história da economia atlântica.21 Parece existir, pois, pouca justificação, para o historiador que examine sobriamente os fatos, em adotar o critério de que a História contemporânea é, em seus contornos genéricos, intermutável com a história do aparecimento de uma nova era "atlântica". Com efeito, se baseássemos nossas conclusões no curso dos acontecimentos desde 1949, seria tão fácil e justo quanto plausível argumentar, precisamente, que o mundo estava passando, não para uma era atlântica, mas para uma era do Pacífico. A guerra da Coréia, a partilha do Vietnam, o conflito no Laos — questões que, desde 1945, estiveram mais próximas do que qualquer acontecimento da Europa de fazer deflagrar a Terceira Guerra Mundial — a arrastada e insolúvel questão de Formosa, as tensões no Sudeste asiático entre a Indonésia e a Holanda e entre a Indonésia e a GrãBretanha, além da estupenda transformação que ocorreu na China depois de 1949; o que é tudo isso, poder-se-á pensar, senão a prova de que o eixo da História mundial, que os filósofos do século XVIII viram deslocar-se do leste para o oeste, deu novo impulso na direção oeste e completou o círculo? Mas tais especulações metahistóricas, ainda que fascinantes como, por vezes, são, é melhor que as deixemos de lado. O fato é, simplesmente, que não possuímos conhecimentos bastantes para decidir em tais assuntos. O novo período a que chamamos "contemporâneo" ou "pós-moderno" está em seu começo, e não podemos ainda afirmar onde é que seu eixo se fixará, finalmente. Todos os rótulos que colocamos em períodos históricos são ex post facto; o caráter de uma época só pode ser percebido por aqueles que olhem para trás, vendo as coisas de fora. Eis por que devemos contentar-nos, para o presente, com um nome provisório para o período "pós-moderno" em que vivemos. Por outro lado, precisamente porque estamos fora dele e podemos observá-lo de fora, é possível vermos o período a que ainda chamamos de "História moderna" — a era européia que Pannikar declarou ter começado em 1498 e terminado em 194722 — como um processo com princípio e fim; e o próprio fato de estarmos habilitados a formar certa noção da estrutura e caráter desse período anterior propicia-nos o estabelecimento, por contraste e comparação, dê pelo menos algumas características diferenciadoras do período que se lhe seguiu. São essas características peculiares, tal como as compreendo, que constituirão o tema dos próximos capítulos.

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É verdade que nenhuma linha nítida divide o período a que chamamos "contemporâneo" do período denominado "moderno". Nisto conÉ esta a conclusão de Brinley Thomas em Migration and Economic Growth A Study of Great Britain and the Atlantic Economy (Cambridge, 1954) págs 118 235; cf. também Godechot e Palmer, op. cit., pág. 235. 22 Cf. K. M. Pannikar, Ásia and Western Dominance (Londres, 1953), pág. 11.
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cordamos com os defensores da doutrina de continuidade histórica. O novo mundo alcançou a maturidade à sombra do antigo. Quando primeiro temos consciência disso, perto do final do século XIX, pouco mais era do que uma agitação intermitente no ventre do velho mundo; depois de 1918, adquire uma identidade separada e uma existência própria; avança em direção à maturidade, com uma velocidade inesperada, depois de 1945; mas só nos anos mais recentes, a partir de 1955, aproximadamente, é que se emancipa da tutela do velho mundo e afirma o inalienável direito de decidir seu próprio destino. Portanto, sua história é bastante menos do que a história global do período envolvido — de fato, nos primeiros anos, é tão-só uma parcela diminuta dessa história — e constitui um fator de complicação a que voltaremos a aludir. Mas se nossa finalidade é compreender as origens da era em que vivemos e os elementos constituintes que a tornam tão diferente do mundo centralizado na Europa do século XIX, dificilmente erraremos ao dizer que se trata da parcela que mais nos interessa. Quando procuramos isolar aqueles rumos, na história do período, que nos encaminham para o futuro, logo se torna evidente — seja qual for o rumo determinado que escolhamos seguir — que todos convergem, com surpreendente regularidade, na mesma data aproximada. É nos anos imediatamente anteriores e posteriores a 1890 que a maioria dos acontecimentos que distinguem a História "contemporânea" da "moderna" começaram a ficar visíveis pela primeira vez. Seria sem dúvida imprudente exagerar o significado dessa — ou qualquer outra — data como linha divisória entre dois períodos; mais se parece à linha de um gráfico, representando uma média estatística com uma considerável margem de flutuação de um e outro lado. Mesmo assim, está substanciada excessivamente bem para que a ignoremos. Antes de terminar o século XIX, novas forças estavam produzindo mudanças fundamentais em praticamente todos os níveis da existência e em praticamente todas as regiões do mundo habitado, sendo notável, se examinarmos a literatura do período, como havia tanta pessoa com uma noção exata do rumo que as coisas estavam levando. O idoso Burckhardt, na Basiléia, o jornalista inglês W. T. Stead, com sua visão sobre a "americanização do mundo", americanos como Brook Adams, até Kipling, no sombrio "Recessional" por ele escrito para o jubileu da Rainha Vitória, em 1897, são apenas alguns exemplos de figuras mais proeminentes entre muitas que pressentiram o impacto perturbante de novas forças: seus prognósticos particulares, os temores e esperanças que ligaram às mudanças ocorrendo em torno deles, podem ter resultado errôneos, mas a percepção, freqüentemente débil mas algumas vezes nítida, de que o mundo estava caminhando para uma nova época não era, simplesmente, uma ilusão. Quando procuramos identificar as forças que puseram as novas tendências em movimento, os fatores que sobressaem são a revolução industrial e social nos derradeiros anos do século XIX e o "novo imperialismo" que tão intimamente se lhe encontra ligado. A natureza e o impacto desses movimentos interligados, muito debatidos em anos recentes, serão examinados no capítulo seguinte; por enquanto, basta dizer que só distinguindo o que foi novo e revolucionário neles — por outras palavras, realçando as diferenças en-

1925). que um novo período chegara na história da humanidade. o fim de uma época não coincide necessariamente com o início de outra. no fim de contas. 23 . para além de toda a discussão. nem uma só foi bastante para provocar a mudança de um para outro período. Só quando a constelação de forças políticas. Hoje. É partindo desse ponto de vista que os vários acontecimentos selecionados como marcos indicadores das fases de transição de uma época para outra têm de ser considerados. Entre eles. que levou algum tempo antes que essas conseqüências se tornassem explícitas. B. Tanto para os escritores contemporâneos como para os mais recentes. Mas poucas coisas foram mais notáveis do que a velocidade com que. depois de 1919. pode haver — e. de seus velhos padrões. Decisivas foram suas interações. há — um período intermediário de tendências confusas e incertas. 165. A guerra de 1914-18 aliviou as tensões ocultas e não-solucionadas que tinham vindo a ganhar força desde os últimos anos do século XIX. o que não era ainda o caso em 1914. Em segundo lugar. nem o surto da "democracia da massa". Nenhuma das mudanças que analisaremos nas próximas páginas — nem a transição de um padrão europeu para um global de política internacional. a ameaça de uma radical subversão social foi banida. Hendrick. só quando o conflito entre povos e governos se entrosou com o conflito de classes. J. a guerra de 1914-18 foi o primeiro. numa extensão) que era desconhecido no período dos Estados nacionais. enfraqueceu a estrutura da sociedade e tornou mais fácil o caminho para que as novas forças se fizessem sentir. The Life and Letters of Walter Hines Page. vol. nenhum outro acontecimento anunciou com maior clareza o fim de uma época. pág. nem mesmo o desafio aos valores liberais — foi decisiva por si própria. é óbvio que essa ânsia de regresso às condições anteCf.tre a "primeira" e a "segunda" revolução industrial. em outubro de 1914. "Já não é o mesmo mundo que era em julho último". de maneira substancial. é hoje evidente que eles exageravam a velocidade da mudança. se imiscuiu com outras constelações de forças políticas em outras partes do mundo. e entre o antigo e o "novo" imperialismo — é que poderemos esperar medir completamente as conseqüências do impacto desses movimentos. só quando os movimentos sociais e ideológicos atravessaram fronteiras de um modo (ou.23 "nada é idêntico". com as deslocações sem precedente que acompanharam sua marcha. que estava ainda limitada à Europa nos dias da ascensão de Bismarck. Também é verdade. claro. Em primeiro lugar. só então se tornou claro. A pressa em regressar à "normalidade" — uma pressa que revelou a vitalidade das forças conservadoras oriundas do velho mundo — foi uma das características mais salientes da década entre 1919 e 1929. Mas ainda que muitos ecoassem suas palavras. e foram bastantes a retirada dos Estados Unidos para o seu isolamento e eliminação da Rússia Soviética pela revolução e a guerra civil para convencer os estadistas europeus de que a política internacional não se afastara. o poder de recuperação do velho mundo centralizado na Europa era formidável. disse o embaixador americano em Londres ao Presidente Wilson. de fato. III (Londres. pelo menos.

Hölzle. Nesse aspecto. VI (1955). Se não estivermos cientes do conservantismo do pensamento político na década de 1930 e da medida em que ele estava ainda assente nos pressupostos do velho mundo.riores a 1914 e a crença.25 Mas as ilusões foram um poderoso fator na história do período — particularmente a ilusão de que a Europa retinha a posição dominante que pretendera ocupar nos tempos anteriores à guerra. se olharmos para trás. mais verdadeiro é ainda. também págs. Embora. o nível de 1913. 1959). "Formverwandlung der Geshichte. A Diplomatic History of Europe (Londres. a guerra acarretara mudanças substanciais e irreversíveis no equilíbrio do poder econômico e. só rivalizada. Economic Survey. foi estarem os responsáveis pela política britânica da década de 1930 tão obcecados com Hitler e Mussolini que não deram a devida atenção a Hinota e Konoye. eram as coisas que se passavam na Europa. entre muitos. mas jamais deixou de ser a realidade subjacente e é hoje difícil acompanhar os cálculos e manobras da diplomacia européia nos anos entre as guerras — desde a Pequena Entente de 1921 à Comissão de Não-Intervenção de 1936 — sem experimentar uma sensação de futilidade. 24 25 . e quando. Ninguém que se preocupe com o exame do período. mesmo em 1939. poderá permitir-se ignorar a persistência dos velhos rumos de pensamento e a resistência conservadora a toda mudança. o Reino Unido. se não ultrapassado. o mundo estava. cf. a maioria dos índices econômicos tivesse atingido. A. marchando em frente. E. será difícil acreditarmos em que qualquer estadista sereno desse mais importância à Itália fascista e seu ditador do que ao Japão. Rothfels. pág. o Grande. a mutação no equilíbrio foi mascarada pela ausência temporária dos Estados Unidos e da União Soviética. por exemplo. Foi uma "idade de ilusões". os países que estavam à frente no mundo anterior à guerra — a Alemanha. 301-4. págs. era muito semelhante. no domínio da política internacional. W. 385. pág. Através do período de transição. Isso só era possível então — e ainda só é possível agora — em virtude da errada crença de que as únicas coisas significativas que ocorriam. talvez. havia poderosas forças "restauradoras" em ação e somente o fracasso Cf. por volta de 1925. Zeitgeschichtliche Betrachtungen (Gottingen. vol. o avanço dos novos conceitos foi obstruído pela força retardadora dos antigos. os mesmos políticos nem sequer tiveram consciência de que a Segunda Guerra Mundial já começara. Mas mesmo depois de 1945. a França e a Bélgica — começavam a retroceder. Em cada marco do caminho podemos ver. págs. 139. os japoneses deram início à Segunda Guerra Mundial que provocou a derrocada dos impérios europeus. 1958). Das Jahr 1917". mais verdadeiro é verdade a respeito do ano de 1917 que mais de um historiador elegeu como o verdadeiro ponto decisivo26. predominante entre 1925 e 1929. relativamente ao descalabro financeiro de 1929. de modo bem nítido.24 A posição. 329-44. H. 34-5. pela futilidade da política ateniense nos tempos de Alexandre. Um dos resultados. em julho de 1937. foram ilusórias. 1949). Fossem quais fossem as aparências em contrário. de que ele fora alcançado. Saeculum. Lewis. A frase é de René Albrecht-Carrié. 26 Por exemplo. em relação ao progresso global. de fato. que as elegeu como o verdadeiro ponto decisivo. 1919-1939 (Londres. depois de 1918. 11.

em 1956 e o discurso de Macmillan sobre os "ventos da mudança". predominantemente. a longo prazo. Tudo o que podemos dizer é que existem como fatores de contrabalanço na situação contemporânea. tudo são provas evidentes de um desejo de liquidar a velha firma. 4 Se a influência retardadora das forças conservadoras. Ambas as características demonstraram ser notavelmente persistentes. pode razoavelmente afirmar-se que o longo período de transição estava concluído. é possível que se mantenham — transformados. não devemos pensar em termos de uma quebra radical. de um modo bastante parecido àquele como as sociedades germânicas do princípio da Idade Média européia incorporaram elementos transmitidos por Roma. na Gália franca. O sepultamento da tradicional rivalidade franco-alemã. para preservar o máximo possível do velho mundo centralizado na Europa. Suportaram o vendaval de duas guerras mundiais e são ainda fatores com que se deve contar no mundo de hoje. é um novo mundo com raízes no antigo. foram transportados até hoje como componentes de uma sociedade essencialmente distinta da de 1914. questões novas. o reconhecimento da divisão entre a Europa ocidental e a oriental que está implícito naquele. o resultado da guerra de Suez. refletindo uma situação que não existia há apenas alguns anos antes.das mesmas deu o impulso para o salto decisivo com que atingimos o novo mundo. Nenhum outro . de classe média em sua estrutura. outro fator foi o desmantelamento do coração da Europa mediante as rivalidades e conflitos das potências européias entre 1914 e 1945. meras sobrevivências que desaparecerão no decurso de algumas gerações. Conceitos tais como soberania. perto do final do século XIX. sem dúvida. Entretanto. se encontrava solidamente ancorado em dois pontos fixos: o Estado nacional soberano e uma ordem social firmemente estabelecida e estabilizada por uma próspera classe média proprietária. o novo mundo entrava em órbita. mas ainda poderosos e ativos — como elementos constituintes da nova sociedade. e adaptados a novas condições. por fim. embora ampliados pela absorção de vastos segmentos da classe operária. antes que ela se dissolvesse em falência. isso aconteceu num mundo que. por toda a sua expansividade e apesar dos sintomas de mal-estar do fin de siècle. Mas o mais importante. Estado nacional e democracia de propriedade privada. a busca de um novo estatuto para a Europa ocidental. Quando as mudanças decisivas principiaram. foi um fator que influiu no processo de transição. No final de 1960. em 1960. É possível que se trate de elementos moribundos. tal como a maior parte da herança romana se tornou obsoleta. foi o fato de que as questões que agitaram o mundo eram. Eles indicam — o que qualquer historiador com experiência de mudanças semelhantes no passado esperaria — que o mundo em formação não está radicalmente desligado do mundo do qual emergiu nem é uma simples continuação do mesmo. como elementos de continuidade que compensam os elementos de descontinuidade e mudança.

aspecto da História recente terá sido mais completamente analisado. Para a maioria dos historiadores europeus, as rivalidades e disputas que atingiram o auge depois de 1905 marcaram o início da grande guerra civil em que a Europa, colhida nas árduas tarefas de seu passado, engendrou sua própria destruição; e foi o malogro da Europa em resolver seus próprios problemas — em especial, os crônicos problemas dos nacionalismos — que gerou uma nova era. Ninguém poderá negar que esse conceito de História contemporânea, com o realce na Europa e na continuidade dos desenvolvimentos no seio da Europa, ilumina certos aspectos da história do período. A verdadeira questão é saber se ele é adequado como chave para o processo de transição como um todo. Os anos entre 1890 e 1960 defrontam-nos com dois processos interligados, o final de uma época e o início de outra, e os conflitos das potências européias desempenharam, sem dúvida, um importante papel no primeiro. O que deveremos indagar é se os historiadores que fizeram da Europa o fulcro de sua estória não se terão concentrado excessivamente no velho mundo que agonizava e prestado reduzida atenção ao novo mundo que nascia. É indubitavelmente certo que, não fossem as guerras que provocaram a derrocada do velho mundo, o nascimento do novo mundo teria sido mais demorado e difícil. O curso e resultado dessas guerras também projetam luz sobre a situação do pós-guerra na Europa. Mas logo que estendemos nossa vista da Europa para a Ásia e África, a posição é diferente. Aí, como veremos mais adiante,27 os conflitos e rivalidades das potências européias foram um fator contribuinte; mas não nos ajudam a compreender o caráter do novo mundo que surgiu depois de 1945, tanto quanto não contribuem para explicar as origens e crescimento das forças que o modelaram durante os cinqüenta anos precedentes. Uma interpretação que se concentre na situação européia, em resumo, é demasiado estreita para um processo em escala mundial; pode não estar errada, dentro de seus próprios limites, mas é enganadora em equilíbrio e perspectiva. Nem entenderemos o curso dos acontecimentos na própria Europa se o dissociarmos do processo mundial de mudança que começou por volta de 1890. Os conflitos europeus da primeira metade do século XX foram mais do que uma continuação dos conflitos europeus anteriores. A partir do final do século XIX, a Europa viu-se envolvida, simultaneamente, nos problemas herdados de seu próprio passado e num processo de adaptação a uma nova situação mundial; ambos esses aspectos de sua história devem ser devidamente considerados. Por essa razão, é fácil dar uma ênfase desproporcionada aos problemas não-resolvidos do nacionalismo, tal como se desenvolveram na Europa a partir de 1815. Esses problemas, particularmente o desenvolvimento do nacionalismo alemão, constituíram um fator na situação; mas igualmente importante foi a consciência — predominante nos espíritos de escritores como Hans Delbrück, Rudolf Kjellén, Paul Rohrbach e Friedrich Naumann — de que a posição da Europa no mundo estava mudando e de que estaria irremediavelmente perdida a menos que se fizesse algo para restaurá-la. Podemos ver essa convicção surgindo e ganhando vitalidade na Alemanha — especialmente
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mas não exclusivamente na Alemanha — entre 1890 e 1900, como reação ao novo imperialismo do período, e também podemos observar como foi absorvida e identificada com a realização dos objetivos nacionais alemães. Mas não foi, simplesmente, uma expressão do nacionalismo alemão; pelo contrário, sua base era a convicção de que a política que pretendesse, meramente, defender posições estabelecidas estava empenhada numa batalha perdida, pelo que seria necessário uma reação mais positiva. Essa reação foi denominada "a última tentativa para reorganizar a Europa moderna".28 A forma que adotou foi uma tentativa para fundir, no coração da Europa, o núcleo de um império, sob domínio alemão, bastante poderoso para concorrer em termos de igualdade com as outras grandes potências mundiais da época, a Rússia imperial, os Estados Unidos e o império britânico. Seu resultado foram as guerras de 1914 e 1939. Teremos mais a dizer, adiante,29 sobre o modo como essa tentativa alemã de remodelar a Europa afetou a transição de um sistema europeu para um sistema mundial de política internacional. Por ora, apenas nos interessa projetar luz sobre as origens dessas forças que posteriormente ganhariam forma como fascismo e nacionalsocialismo. Tais forças eram um característico produto secundário do velho mundo em declínio. Em 1914, eram ainda muito mais débeis do que as forças provenientes do passado, em especial as do nacionalismo europeu. Mas, à medida que a desintegração progredia, mais essas forças ganhavam em vigor. Divididas, no princípio, entre certo número de pequenos e excêntricos grupos fragmentados em disputa com a sociedade burguesa — os chamados "revolucionários da direita" ou "radicais da extrema direita", dos quais Moeller van den Bruck é, talvez, o exemplo típico30 — foram buscar energias no tumulto e miséria reinantes na Europa, depois de 1918, até que, finalmente, com o início da depressão de 1929 e a acuidade do antagonismo entre capitalismo e comunismo, converteram-se numa força política de primeira ordem. A resistência a Hitler, dentro da própria Europa, foi incomparavelmente mais fraca em 1939 do que a resistência à Alemanha em 1914. A razão foi que o espírito nacional, sustentáculo da Europa de 1914 a 1918, perdera seu ímpeto e as idéias fascistas tinham ganho adeptos em quase todos os países europeus. Seu aparecimento obscureceu e complicou os problemas centrais da época. Daí em diante, encontramos alinhados contra as forças conservadoras que lutam tenazmente por manter o velho mundo europeu não só as forças da esquerda, cujo objetivo era substituílo por uma nova sociedade, mas também as da extrema direita, cuja finalidade era remodelar a Europa numa forma mais apta a enfrentar e agüentar a investida impetuosa das condições revolucionárias; e entre esses pólos havia espaço para uma infinita variedade de agrupamentos e reagrupamentos. A tentação de tratarmos as complicações subseqüentes como verCf. Halecki, op. cit., pág. 182. Pág. 106-11. 30 Os primeiros capítulos de O. E. Schüddekopf, Linke Leute von Rechts (Stuttgart, 1960), contêm um elucidativo relato sobre a "rebelião da juventude da Europa contra a tradição, a convenção e a ordem petrificadas", e mais especificamente sobre as origens do radicalismo da extrema direita na Alemanha; quanto a Moeller van den Bruck, cf. págs. 35-7.
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dadeira substância da História contemporânea é muito grande. Mas fazê-lo corresponderia a não vermos a floresta por causa das árvores. O impacto do fascismo, em suas várias formas, multiplicou as possibilidades de manobra tática; mas é duvidoso que tenha afetado, substancialmente, a transição de uma para outra época da História. No que respeita à situação mundial, as conseqüências do nacional-socialismo e do fascismo podem colocar-se sob três capítulos, todos eles indiretos. Primeiro, dividiram as forças que lutavam para defender a antiga ordem e, assim, enfraqueceram e, finalmente, aniquilaram a ação retardadora que constituíra um freio tão eficaz para a mudança radical durante os dez anos anteriores a 1929. Segundo, apareceram entre 1930 e 1940 como o maior desafio ao status quo — muito mais imediatamente perigoso do que o radicalismo da extrema esquerda ou o descontentamento colonial — resultando daí terem provocado o alinhamento das duas outras forças, a direita conservadora e a esquerda socialista (e comunista), numa aliança temporária que foi uma razão principal para o poder exaltado que a última passou a exercer depois de 1945. E, por fim, ao desviar a atenção de outros problemas, focalizando-a na "ameaça fascista" da Europa, ajudaram a acelerar a mudança em outras regiões do mundo. Assim, a longa série de concessões no Extremo Oriente, resultantes da preocupação britânica com Mussolini, no Mediterrâneo, e Hitler, na Europa, encorajou e facilitou a política do Japão, que demonstraria ser um dos mais poderosos solventes da velha ordem na Ásia. Foi através desse triplo processo que o fascismo e o nacionalsocialismo, embora pretendessem constituir os únicos instrumento efetivos de resgate e salvação do velho mundo — e que por isso ganharam um apoio maciço — acabaram por converter-se, graças a uma peculiar ironia da História, em instrumentos do colapso europeu. Desempenharam uma função no processo de transição como fatores que forçaram a marcha dos acontecimentos; mas sua contribuição positiva para um novo mundo que surgia entre as ruínas do antigo foi pequena. Só a mais superficial analogia, por exemplo, poderia pretender derivar a "democracia orientada" da Indonésia do Estado corporativo fascista, ou explicar a estrutura política da Argentina, depois de 1945, como conseqüência da visita de Perón à Itália entre 1939 e 1941, em lugar de observarmos o contexto das mudanças sociais, na América Latina, inauguradas pela revolução mexicana de 1910. Se desejarmos entender por que, entre as muitas possibilidades abertas pelo colapso da Alemanha e do Japão, em 1945, algumas se concretizaram e outras não, devemos debruçarmo-nos sobre acontecimentos que os historiadores rechaçaram para as margens exteriores da História e que só agora começam a encontrar, lentamente, seu caminho de regresso ao centro. Hoje, é evidente que muita coisa que nos ensinaram a olhar como central é, na realidade, periférica, e que muitas outras coisas usualmente postas de lado como periféricas comportam em si as sementes do futuro. Encarado pelo prisma de Dien Bien Phu, por exemplo, Amritsar situa-se em nova e invulgar proeminência entre os acontecimentos de 1919. É verdade, sem dúvida, que até 1945 o final do velho mundo constituía o mais saliente aspecto da História recente; açambarcou a atenção dos contemporâneos e cegou-os para a importância de ou-

de modo geral. o mundo caminhou para um novo período histórico. Não esqueceremos que o final de uma época e o nascimento de outra foram acontecimentos que ocorreram simultaneamente. como um verdadeiro todo. até muito recentemente. de certa distância. Fazer isso é. de outro lado. Por essa razão. ela dará reduzida importância a muitos dos tópicos que absorveram a atenção das últimas gerações. A geração nascente irá. 5 Há muitos indícios de que o longo período de transição. incluindo a Rússia. já terminou. de um lado. com diferentes dimensões e problemas próprios. Sem dúvida. então deixará de ser impossível restaurar o equilíbrio entre o velho mundo que passou e o novo que surgiu. em vez de ampliar. Mas hoje já não é esse o caso. a longa transição de uma era para outra atingiu agora seu termo. Se. a América e os povos da Ásia e da África. dentro do mesmo mundo cada vez menor. Tentaremos aqui estabelecer um diferente equilíbrio. os historiadores têm feito pequeno uso de suas oportunidades. também se deve ao fato de que. uma urgente necessidade prática. e é importante recordar que. de maneira mais fundamental. também. Situada num mundo em que — como todas as indicações atuais nos sugerem — os principais problemas não serão as questões européias. de que este livro basicamente se ocupa. que eles sentem mais profundamente do que as dores de parto do novo. por exemplo. nosso entendimento das forças de mudança. corrigir as perspectivas comuns e chamar a atenção para acontecimentos cuja influência. éramos incapazes de colocar-nos fora do período de transição e olhar para trás. mas as relações entre a Europa. A tendência dos historiadores para se fixarem naqueles aspectos da História do período que têm suas raízes no velho mundo por vezes parece obstruir. Até o presente. entre 1955 e 1960. mas preocupar-nos-emos primordialmente com a nova época que está alcançando sua maturidade à sombra da antiga. a longo prazo. se podemos dizer que. e de que os acontecimentos do mais recente passado pertencem a uma nova fase da História. mais pontos de contato no mundo de Mao e Nehru do que no de Coolidge e Baldwin. Mas a função do historiador é.tros aspectos. enquanto Mussolini e Hitler faziam trejeitos e ademanes no centro do palco europeu. inevitavelmente. não é de esperar que o observador comum enxergue. observando em retrospecto os acontecimentos. isso é devido em parte ao fato de que muitos historiadores encontram-se ainda emocionalmente envolvidos nas agonias da morte do velho mundo. encarar o século XX com prioridades diferentes das nossas. cujo exame detalhado ainda não é possível. O estudo da História contemporânea requer novas perspectivas e uma nova escala de valores. . como tentei explicar. abranger um panorama mais vasto do que o de seus contemporâneos. para dar forma aos acontecimentos vindouros. na autobiografia de Nkrumah do que nas memórias de Eden. Encontraremos mais indícios significativos. observando tudo em conjunto. mudanças ocorriam no mundo mais vasto que contribuíram.

o âmbito de possibilidades ainda abertas é tão amplo que qualquer tentativa para examiná-las está destinada a ser hipotética ou especulativa. o período de História "contemporânea" no sentido rigoroso da palavra — pode ser colocado. e a tentação é para tomar o princípio da administração Kennedy. a frente comum estabelecida em Bandung. dez anos depois. F. Na Europa ocidental. No bloco comunista. Isso não quer dizer que eu ignore o fato de os acontecimentos. com certa dose de segurança. explodiu em 1959. O mais evidente foi a proeminência Cf. de 1957. Não é difícil selecionar alguns dos processos pelos quais o novo padrão difere do antigo. 1963). surgiram novos problemas que tinham diminuta relação com os problemas característicos do período de transição. em todas as áreas do mundo. Foi a primeira ocasião em que o poder de decisão em nível supremo passou para as mãos de uma geração que não estava envolvida na política anterior a 1939 nem estava condicionada — da maneira. que eles ainda não estão em condições de receber uma avaliação histórica. 1956-1958 (Londres. The New States of Ásia (Londres. 400 e segs. cf. pág. as mudanças que vinham tomando forma desde a morte de Stalin. A espécie de obra que tenta espremer o último grama de significação de tais acontecimentos como o conflito ideológico entre a China e a URSS excede os limites da análise histórica. em muitas áreas do mundo. No Sudeste asiático. Em meados do século. significa. terem progredido para além do ponto — por volta de 1958-59 — que eu tomei por terminal. deu origem a disputas territoriais entre a China e a Índia. No começo de 1961. por exemplo. tinham atingido uma fase de cristalização.não será feita aqui qualquer tentativa de tratar tais eventos e muito menos de estabelecer previsões sobre a configuração que as coisas venham a adquirir. Não obstante.31 Na África. o mundo estava ainda a braços com os problemas da transição. Ao mesmo tempo. nos Estados Unidos. seria um erro dar demasiada atenção ao fator pessoal. entre o final de 1960 e o começo de 1961. Wall em Survey of International Affairs. uma questão de tendências cumulativas que chegaram a um ponto máximo por volta da subida de Kennedy ao poder e. Na Ásia. O que havia de comum entre todas essas questões eram marcarem elas a emergência de um novo mundo. estava estabelecendo um novo padrão. registraram a conclusão da primeira fase na marcha para novas formas de integração regional. O ano de 1958 foi um ponto decisivo em outros aspectos. a controvérsia ideológica entre a China e a União Soviética. antes. como um ponto adequado para registrar a separação do período anterior. M. que vinha fermentando desde 1957. 1962). como as reações de Sir Anthony Eden estavam condicionadas em 1956 — por atitudes e experiências do período anterior à guerra. os tratados de Roma. em 1953. O início desse novo período — que é. em 1955. págs. estaria mais perto da verdade considerálo mais como um reflexo do que como causa de uma nova situação. o desmantelamento do colonialismo europeu mal se completara ainda quando os problemas econômicos e políticos da independência se fizeram sentir. Birmânia e Paquistão. o ponto decisivo ocorreu em 1958. na medida em que seu governo registrou uma mudança. 73. Foi. R. 31 . correspondendo a um "clímax dos anos de crise política nos novos Estados" daquela área. claro. apenas. Brecher.

World Order and New States (Londres. pág.Calvocoressi. o estabelecimento da paridade em armas nucleares afastara a hipótese. a expansão do comunismo na China e na Europa oriental poderia ser ainda encarada como um avanço temporário e reversível. no mundo árabe e na África. como se viu no estabelecimento do "Comecon" e do Mercado Comum da Europa ocidental. inequivocamente. seriam os problemas da pobreza. uma mudança devida não à liquidação de questões pendentes ou atenuação de diferenças ideológicas. do atraso e do excesso de população. em quase todas as suas precondições. a Ásia e a África eram continentes no fim do colonialismo. em qualquer caso. a que ninguém podia eximir-se. Também foi característico o aparecimento do "neutralismo" como novo princípio político. Não nos cabe tentar delinear as diretrizes de desenvolvimento desse novo mundo ou o provável impacto de outras mudanças mais fundamentais. progredindo. mediante o recurso à guerra. 100. distinto. Mais fundamental foi a mudança nas relações entre os mundos comunista e não-comunista. finalmente. o súbito aparecimento de novos problemas. E. verificou-se a compreensão geral de que. em conseqüência da emancipação afro-asiática — sobretudo. o impacto de tais progressos e seria inútil tentar fazê-lo. os novos padrões não poderiam ser alterados. Assim pareceu surgir um mundo de grandes blocos regionais. já tinham transitado para uma era pós-colonial. não havia alternativa prática para uma determinada forma de coexistência. a ciência eletrônica e a automatização venham a afetar nossas vidas ainda mais radicalmente do que a revolução industrial e as mudanças científicas do final do século XIX. Mas basta comparar a situação mundial em meados do século e a de hoje. . mas a compreensão de que as velhas questões tinham já deixado de ser as mais prementes e de que. uma década depois. exatamente. por exemplo. de nenhum modo substancial. a possibilidade de guerra nuclear podia ser seriamente considerada. Em 1950. os problemas causados pela crescente disparidade entre países industrializados e subdesenvolvidos — tendeu para anular antigos alinhamentos e produzir novas divisões sem paralelo no velho mundo. não podemos ainda esperar medir. em 1957. na época da morte de Dulles. Contudo. tal como se encontrava o mundo. Em 1949. Há toda a probabilidade de que a energia atômica. do mundo de nações-Estados de há trinta ou quarenta anos antes — um mundo em que o comunismo e o capitalismo figurariam mais como sistemas alternativos do que como ideologias conflitantes e em que as questões predominantes. Ainda em 1954. para a posição de uma potência mundial. tornara-se claro que o comunismo chegara a essas regiões para ficar e a esperança de o obrigar a recuar. 1962).32 Além disso. para compreendermos que atravessamos o pórtico de uma nova era. E ainda a tendência para a formação de novos agrupamentos regionais — uma tendência que refletiu a deficiência da tradicional unidade nacional em condições contemporâneas e que em breve funcionava não só na Europa. que era o tema predominante do período entre 32 Cf.da China. F. mas também na América Latina. enquanto se mantivesse o existente equilíbrio de poder termonuclear. onde muitos dos novos Estados "adotaram a idéia federal ainda antes de gozarem de total independência".

Os valores da época do nacionalismo europeu estavam-se desmoronando. Começou. com segurança — como Valéry33 — é que. mas. os resultados falsificarão todas as previsões e atraiçoarão todas as expectativas. não porque as novas idéias triunfassem — em sua grande maioria. do que a liquidação do que. como base para um modus vivendi. A linha de desenvolvimento do mundo afro-asiático foi bastante parecida. Nas páginas que se seguem. Nada é mais óbvio. Comparando com os problemas prementes do excesso populacional e de subdesenvolvimento na Ásia e na África. Marcaram o ponto de partida de novas diretrizes de desenvolvimento. deu lugar a especulações sobre a possibilidade de evolução. como em muitos outros. X (Londres. não o conseguiram — mas através de um desgaste de acontecimentos e da pura necessidade de chegar-se a termos com as novas cir- 33 Cf. começou uma nova fase. o relaxamento da tensão gerou uma nova situação. por exemplo. 6 Se a expressão "História contemporânea" for usada numa acepção rigorosa. 113. Só descrevendo a história da luta contra o comunismo — e. Paul Valéry. Collected Works. no rumo de uma nova era. 71. págs. o novo mundo parece caminhar em direções quase opostas ao antigo. Mesmo assim. . começando aí uma nova fase. a Holanda e a França forneceu um laço comum. fora encarado como problemas essenciais do século XX. A tal respeito. 116. tudo o que podemos afirmar. era natural que existisse solidariedade entre a União Soviética e a China. da resistência das antigas filosofias sociais às novas — é que podemos ver como. É fácil especular sobre o curso de desenvolvimento que essa nova fase assumirá. enquanto os comunistas "acreditavam ter de enfrentar um mundo capitalista hostil. do outro.1917 e 1958. Por exemplo. em redor de 1958. os problemas radicados no passado europeu perdiam urgência e havia uma nova relação — de paridade. essa luta chegou a uma ponto morto. se a experiência histórica constitui algo de respeitável. 1962). existiria um resíduo de problemas transmitidos pelo velho mundo. mais do que de domínio — entre a Europa. com o fim do colonialismo. de um modo mais amplo. ou mesmo tentar forçá-lo a seguir rumos específicos. Tais mudanças foram mais do que superficiais. de um lado. A luta anticolonial contra a Inglaterra. e por que. dentro do próprio mundo comunista. questões como a unificação da Alemanha passam para segundo plano. é que podemos compreender as precondições do estabelecimento da era póscolonial. Somente acompanhando o curso da revolta contra o colonialismo. vol. até aquela época. examinaremos algumas das principais mudanças que produziram essa nova situação. a Ásia e a África. Mas o equilíbrio mudara e a ordem de prioridades deixara de ser a mesma. então é evidente que deve ficar confinada ao novo período que começou por volta de 1960.

1960 (Nova York. The United States in World Affairs. As opiniões que tenhamos sobre este mundo podem divergir. Stesbins. um período de novas e explosivas dimensões. e. foi o resultado de mudanças básicas na estrutura da sociedade nacional e internacional e no equilíbrio das forças mundiais. Mas. Seu emblema é a nuvem em forma de cogumelo que se elevou sobre Hiroxima e Nagasáqui. que até 1939 estivera confinado a um só país e a cerca de oito por cento dos habitantes do mundo. a pilha nuclear onde as velhas certezas foram incineradas para sempre. e quando o capitalismo. nos colocou face a face com a possibilidade de auto-extinção. É um período de reajustamento em escala continental. acima de tudo o mais. 34 . mas é preciso compreendê-lo tal como ele é e as mudanças que lhe deram origem. pois foram essas mudanças que estabeleceram as condições históricas segundo as quais as decisões do presente determinarão a forma do futuro. R. quando. em uma escala inconcebível há apenas cinqüenta anos. tanto no mundo. em resumo. mas que. É um período em que as lealdades tradicionais de classe e país perderam sua magia e a ineficácia da soberania nacional está à vista de todos. simultaneamente. que entre as guerras controlara direta ou indiretamente nove décimos do mundo. converteu-se no sistema político de quase um terço da população do globo. a Europa passou a ter menos peso do que em qualquer momento dos últimos quatrocentos anos e povos de há muito deprimidos emergiram da submissão política para a independência política. a qual tem poderes para transformar para sempre as bases materiais de nossa vida. É a essas mudanças básicas que dedicaremos aqui nossa atenção. é um período que assistiu ao espetacular progresso no conhecimento e realizações científicas. São importantes porque constituem uma introdução a um período que nos defronta com novas exigências e desafios. como um todo. ficou reduzido. os Estados Unidos e as democracias ocidentais já não controlavam mais as Nações Unidas". a uma posição minoritária.cunstâncias. o fim do fardo de excessivo trabalho e escassos ócios que tem sido o destino do homem desde a aurora da História. em cujo início estamos situados. no mapa relativo dos acontecimentos mundiais. irracionalidade e inumanidade. É um período que está testemunhando um formidável incremento de população e produtividade. cf. É. bem como à aliança entre a ciência e a tecnologia. Adlai Stevenson reconheceu que "devido à admissão de tantos países novos. pág. no qual fomos transportados com velocidade vertiginosa para as fronteiras da existência humana e depositados num mundo onde convivem as potencialidades sem paralelo e também as correntes surdas de violência. B. No final de 1960. Quando o comunismo. É um período que assistiu ao colapso das formas tradicionais de arte e a uma onda de experiências em todos os ramos da expressão artística. pelo surto do bloco neutralista. 1961). O novo período. 357. quanto nas Nações Unidas — o que já era um fato por volta de 196034 — a velha estrutura política ficou irremediavelmente espatifada. como o acesso à automatização.

1 . seu caráter revolucionário está fora de discussão. se completou a primeira estrada de ferro a cruzar o continente americano. Mesmo na Europa continental. todo o continente com um novo sistema de comunicações. em 1865. a industrialização foi um produto mais do último quartel do que dos dois primeiros terços do século XIX. A revolução industrial. mas é uma distinção real. por volta de 1870. Palmer. uma simples expansão do processo de industrialização que começara na Inglaterra um século antes. mulheres e crianças em fábricas. desde que ampliemos nossa visão para abranger o mundo inteiro. num ponto remoto de Utah. a natureza fundamental das mudanças. vol. e do intranqüilo interlúdio pós-guerra que se alastrou pelos períodos de mandato presidencial do General Grant (1868-76). V (Florença. a transformação bastante nítida de uma população principalmente formada por Cf.1 O que sucedeu nas décadas finais do século XIX não foi. transformando para além de toda a possibilidade de reconhecimento aquela sociedade que Tocqueville conhecera e descrevera. a guerra civil demonstrara ser um importante estímulo para a industrialização. foi mais uma conseqüência do que uma concomitância da "era da estrada de ferro". Quando.º Congresso Internacional de Ciências Históricas. e aí paramos. ou (como por vezes se lhe chama) entre as revoluções "industrial" e "científica". em 1869. Na Inglaterra. para se converterem em uma nação continental" de um novo e altamente industrializado padrão. até tornar-se mundial. a revolução do carvão e do ferro — implicou a extensão gradual do uso de máquinas. depois de 1870. 186. na mais estrita acepção — ou seja. somos levados de volta à última década do século XIX. Já fiz referência à distinção entre a primeira e a segunda revolução industrial.II O IMPACTO DO PROGRESSO TÉCNICO E CIENTIFICO Industrialismo e Imperialismo Como Catalisadores de um Novo Mundo Quando pretendemos assinalar as mudanças estruturais que se situam nas raízes da sociedade contemporânea. é menos evidente do que em qualquer outra parte. mas foi depois do fim da guerra civil. que começou a grande expansão industrial. Godechot e R. Do outro lado do Atlântico. 10. pág. o emprego de homens. Trata-se. porém. onde a revolução industrial começara cedo e avançara em firme progressão. a qual dotara. "Le problème de 1'Atlantique". de uma distinção rudimentar. 1955). J. Até o mais resoluto defensor da teoria de continuidade histórica não pode deixar de surpreender-se pela extensão de diferenças entre o mundo de 1870 e o mundo de 1900. R. os Estados Unidos "deixaram de ser um país atlântico. Relazioni. talvez com a única exceção da Bélgica. mas. evidentemente. que faz muito pouca justiça à complexidade dos fatos históricos.

os fundamentos teóricos foram estabelecidos pelas descobertas de Becquerel. Foi uma mudança que "se introduziu" como "de surpresa"2 e seu impacto imediato. ao aeroplano. Para começar. que o fator primordial de diferenciação. a uma fase posterior. 2 . Seria difícil negar. depois de 1870.trabalhadores agrícolas numa população especialmente dedicada a produzir coisas em fábricas e em distribuí-las. contudo. quer nacional. 3 Do mesmo modo. os primeiros plásticos sintéticos. mas. A segunda revolução industrial foi diferente. a bicicleta. 27. Madame Curie e J. Até no nível mais baixo da vida prática cotidiana. dificilmente poderá ser exagerado. foi mais profundamente científica e menos dependente das "invenções" de homens "práticos". houve necessariamente um compasso de espera antes que fossem solucionados os problemas de produção em larga escala e muitas das coisas que passamos a encarar como normais — o rádio e a televisão. obviamente. do petróleo e dos produtos químicos. a possibilidade de adaptar o motor de explosão. foi o impacto do progresso científico e tecnológico na sociedade. a lâmpada elétrica. Foi também mais rápida em seu impacto. exceto na medida em que sejam necessários para compreendermos seus efeitos fora das esferas da indústria. o uso industrial de partículas atômicas e a exploração da energia atômica. finalmente. Two Cultures and the Scientific Revolution (Cambridge. separando a primeira idade da segunda. evidentemente. Neste campo. movido a gasolina. A idade do carvão e do ferro fora substituída. e embora só depois de 1914. Thomson no final do século XIX. se é o que possuíam. como Sir John Clapham tornou claro. E. as primeiras fibras sintéticas. é certamente significativo que muitos dos objetos correntes que hoje encaramos como concomitâncias normais da existência civilizada — o motor de explosão. entre outras — pertencem. 1 Não nos interessam aqui os aspectos técnicos dessa revolução. como em todos os demais. a Física atômica. pela era do aço. a radiotelegrafia. o microfone. são criações do século XX. da ciência e da tecnologia.3 Cf. F. da eletricidade. se iniciasse o intensivo progresso aeronáutico. os pneus. os transportes públicos mecanizados. J. bastante mais revolucionária em seus efeitos sobre a vida e perspectivas das pessoas. a baquelite — todos apareceram no decurso desse período e muitos deles nos quinze anos entre 1867 e 1881. quer internacional. em resposta a requisitos militares. tanto para fins bélicos como pacíficos. já fora demonstrada com êxito pelos irmãos Wright em 1903. logo que fabricadas. 1959). ainda neste domínio. o gramofone. muito mais prodigiosa em seus resultados. a seda artificial. pág. o telefone. embora o carvão e o ferro ainda fossem a base. já não se lhe poderia chamar a revolução do carvão e do ferro. Snow. cujo treino científico básico era escasso. a circulação maciça de notícias impressas a baixo custo. a máquina de escrever.

Com a introdução do processo eletrolítico. uma procura escassa. que em si próprios constituíam a base de futuros progressos. mediante a adição de níquel — um resultado só possível graças ao processo de extração de níquel descoberto por Ludwig Mond em 1890. Era uma fonte de energia equivalente ao carvão e à eletricidade e. em descobertas científicas. a resistência do metal foi amplamente melhorada. transformaram completamente a situação e. Uma terceira nova indústria com as mesmas qualidades revolucionárias foi a do petróleo. a introdução da eletricidade como nova fonte de luz. Ao mesmo tempo a qualidade ou. portanto. pode-se dizer justamente que. especificamente. de Siemens e de Gilchrist e Thomas. a esmagadora maioria resultou de novos materiais. a produção de alumínio tornou-se uma proposição comercialmente válida e um novo material de construção que. a matéria-prima do vasto e cada vez mais amplo domínio da petroquímica. A razão básica dessa diferença é que poucas das invenções práticas acima descritas foram conseqüência de um firme desenvolvimento ou melhoria. O mesmo se aplica. encontrar-se-ia em terreno familiar. tão importante na extração do cobre e do alumínio. e a transformação da indústria química. numa escala tal que hoje é quase impossível entender até que ponto mesmo os acomodados de gerações prévias eram obrigados a arranjar-se como pudessem. Assim. das quais a Grã-Bretanha produzia metade. em 1900. a fundação da Standard Oil Company. como símbolo de uma nova era. em breve. com uma produção básica de oitenta mil toneladas. peça por peça. mas. no Ocidente. de processos existentes. Esses progressos e outros de caráter semelhante. só se converteu numa proposição prática quando a energia elétrica se tornou geralmente acessível. de Rockefeller.Não obstante. ao alumínio. e o mesmo se pode afirmar em relação a outros progressos eletroquímicos. bem como na produção maciça de soda cáustica. para todos os fins práticos. não só as primeiras indústrias originadas. A eletrólise. Desse ponto de vista. calor e força. mais tarde. seria da maior importância — por exemplo. a produção atingia 28 milhões de toneladas. novas fontes de energia e. Em 1850. Em resumo. evidentemente. tanto na rapidez com que seus efeitos foram sentidos como no âmbito e variedade de outras indústrias por elas afetadas. mesmo na industrializada Inglaterra. desenvolvido em 1886. embora já tivesse antes. no nível puramente prático da vida cotidiana. As descobertas de Bessemer. por exemplo. além disso. da aplicação do conhecimento científico à indústria. Em . ao passo que se retrocedesse a 1870. as diferenças seriam provavelmente mais flagrantes do que as semelhanças. de muitas maneiras. na nascente indústria aeronáutica — se tornou prontamente acessível pela primeira vez. foi por volta de 1900 que a industrialização começou a exercer sua influência nas condições de vida das massas. em 1870. foram o resultado de mudanças ainda mais fundamentais: nomeadamente. uma pessoa vivendo hoje e que fosse subitamente colocada no mundo de 1900. o aço "era quase um material semiprecioso". o níquel pode ser considerado como uma nova adição na linha de metais industriais. sobretudo. melhor. cujo emprego corrente fora até então excessivamente dispendioso. ainda mais diretamente. exerceram um impacto sem precedente. pode ser encarada. As indústrias elétrica e química do final do século XIX foram.

em 1909. publicação de Zahar Editores). pela inauguração da primeira usina de força elétrica do mundo.5 Outro setor em que o progresso alcançado durante esse período foi de inestimável importância futura foi o da medicina. em 1867. mudou a face do mundo. e pela construção da primeira usina hidrelétrica no Colorado. a qual. em 1879. era o fato de que a modernização da farmácia teria de esperar a conclusão de progressos mais importantes na Química. A aspirina foi lançada pela primeira vez no mercado em 1899. o clorofórmio só começou a ser lentamente empregado na segunda metade do século XIX. em 1902. 4 . com uma produção anual de perto de seis milhões de toneladas. talvez seja verdade que as décadas finais do século XIX constituíssem uma época menos definida. Simultaneamente. o uso de antissépticos só se generalizou depois de Lister começar a empregar o fenol em Glasgow. Em breve Lênin diria: "O comunismo é igual ao poderio soviético mais eletrificação". Ainda em 1850 ninguém poderia predizer a exploração da eletricidade como fonte de energia em larga escala. pela invenção da lâmpada incandescente. Lênin e a Revolução Russa. a anestesia. porém. Dooley. G. embora já estivesse descoberto desde 1831. por Siemens. deve seu impulso ao desenvolvimento de novos corantes com base na anilina. 1947). mas quando passou à fase de uso corrente. em meados do século XIX. foi depois de 1870. em Nova York. a produção dos Estados Unidos estava ainda bastante atrás da Rússia. Mas a principal razão pela qual a medicina. E. estava revolucionando a prática médica. associada aos nomes de Pasteur e Koch. a Bioquímica e a Bacteriologia surgiram então como novas ciências e entre os seus resultados mais significativos situa-se a produção dos primeiros antibióticos. por métodos de diferenciação por coloração. 199. Nesses ramos do conhecimento.4 O impacto da eletricidade foi ainda mais espetacular. registrava metade da extração total no mundo. o salvarsan. em sua maior parte. e por essa altura — embora o motor de explosão estivesse ainda em sua infância — os Estados Unidos já exportavam petróleo no valor anual de 60 milhões de dólares. depois de 1870. a posição em outros ramos estreitamente relacionados do conhecimento era semelhante. em 1882. em 1865. os quais tornaram possível a identificação de uma vasta gama de bactérias. mas. Em virtude dos preconceitos e resistências no que dizia respeito ao corpo humano. (Tradução brasileira. O novo conhecimento químico e fisiológico provocou também uma Nessa época. 5 C. Hill. na Alemanha. em 1883. de acordo com o famoso tipo americano. suas fases de progresso ficaram marcadas pela invenção do dínamo. A grande era da Bacteriologia. A Microbiologia. pág. higiene e nutrição. embora o ácido carbólico fosse descoberto em 1834. em grande parte. a Standard Oil tinha uma sucursal em todas as povoações da América. pela fundação da A. era ainda précientífica. Mr. Lenin and the Russian Revolution (Londres.1897. em 1890. em conjunto com o uso generalizado das técnicas antissépticas e assépticas. por Edison. do mesmo modo. a descoberta das vitaminas e hormônios. se em alguns casos as experiências básicas tinham sido realizadas antes. e a identificação do mosquito como agente transmissor da malária em 1897 por Sir Ronald Ross. que sua aplicação prática teve lugar. da costa do Atlântico à do Pacífico.

expedições de carne argentina estavam à disposição dos mercados europeus. adquiria seus novos rumos e a venda de produtos vegetais enlatados subia de 400 mil caixas em 1870 para 55 milhões em 1914. constituem o ponto de partida para o estudo da História contemporânea. a pasteurização do leite para consumo geral tornou-se corrente a partir de 1890. e o tráfico por ele admitido triplicou entre 1876 e 1890. tais como o chá da Índia e o café do Brasil. de dias para horas. baseados nos princípios de esterilização e pasteurização utilizados na prática médica. resumidamente. Entretanto. o primeiro embarque de carne de carneiro congelada. A partir de 1874. a conclusão em 1885 da Canadian Pacific Railway franqueou o acesso às grandes planícies. auxiliada por um novo processo de estanhagem da lata. a abertura do Canal de Suez. das frutas e vegetais do sul e subtropicais. Vagões refrigerados encontravam-se em uso por volta de 1876. A indústria de alimentos enlatados. Os produtos coloniais e ultramarinos. Novos métodos de conservação de aumentos. Criaram a sociedade industrial e . chegou ao mercado inglês em 1882. Atuaram como solvente da antiga ordem e catalisador da nova ordem. Na Europa. da Nova Zelândia. reduziu a jornada da Itália e do Mediterrâneo para a França e a Alemanha. os Estados Unidos forneciam mais de metade do consumo total de trigo da GrãBretanha. Seria difícil exagerar a importância desses melhoramentos numa época em que os progressos industriais estavam modificando a estrutura da sociedade e todo o padrão de vida cotidiana. que era vitalmente necessária para contrabalançar a tremenda ascensão da curva demográfica provocada pelo avanço da medicina. O resultado conjunto foi pôr-se em marcha algo não longe de uma revolução nos métodos de alimentação de uma população industrializada e urbanizada. reduzira a distância entre a Europa e o Oriente. A produção maciça de adubo básico como fertilizante artificial tornou-se possível como subproduto dos novos processos de fabricação de aço. convertendo-se a Argentina em um dos principais exportadores de carne. o desenvolvimento da construção de navios de grande tonelagem e o aperfeiçoamento das técnicas de refrigeração. tornaram possível a conservação maciça de alimentos e o fornecimento de mercadorias baratas e estáveis à crescente população mundial. transportando carne congelada de Kansas City para Nova York. em boas condições. a perfuração dos Alpes pelos túneis de Mont Cenis e St.revolução na agricultura. tecnológicas e industriais que recapitulei. 2 As mudanças científicas. No Canadá. e permitiu a importação maciça. Outros fatores que facilitaram o fornecimento de alimentos baratos para as crescentes populações industriais foram a realização dos principais sistemas ferroviários. A partir de 1877. no norte industrializado. Gotthard. Em conseqüência das pesquisas de Pasteur. em 1869. enquanto navios refrigerados a levavam para a Europa. em 1871 e 1882. apareceram em massa nos mercados europeus.

em 1873. que em fins do século XIX estava ainda limitada. as realizações médias. 42. ao passo que as fábricas maiores. a crise. ao contrário das antigas. 1936). págs. P. tornara-se. empregando uma dúzia de trabalhadores. o número de pequenas indústrias. por outras palavras.6 é o ramo da experiência humana que as pessoas podem aprender mais facilmente e com resultados previsíveis. Além disso. Assim. As novas técnicas industriais. 290-1. e. Brunner e Mond estavam lançando as bases do vasto empório das Imperial Chemical Industries. que ainda constituíam um elemento considerável nas indústrias têxteis alemãs nos primeiros tempos do segundo império — em 1875. em 1901. já foi observado. ao colossal empório de J. um anacronismo. empregando cinqüenta ou mais operários. no período entre 1880 e 1914. na Grã-Bretanha. empregando cinco homens ou menos. a introdução do alto-forno significou que a pequena empresa individual. que fora típico da primeira fase do industrialismo. pág. Clapham. como na química. Carnegie estava produzindo mais aço do que toda a Inglaterra somada quando vendeu sua organização. a grande organização siderúrgica Krupp. Sua correspondente na França era a Schneider-Creusot. foi um incentivo para a criação das grandes organizações industriais e para a formação de trustes e cartéis. por exemplo. declinou o número de unidades industriais. tal como hoje a conhecemos.. Para o que se segue. com dez mil operários em 1869. são também os instrumentos por meio dos quais a sociedade industrial. nessa época. Além disso. necessitaram de criação de empresas em larga escala e da concentração da população em vastos aglomerados urbanos. O negócio familiar em pequena escala. e o processo de concentração. e em 1913. era a organização VickersArmstrong. em muitos aspectos. nem dispunha sempre dos meios de financiamento necessários à instalação da nova. ao favorecer a racionalização e a administração unificada. para todos os fins práticos. quase dois terços Snow. Nos Estados Unidos. mas as que ficaram eram substancialmente maiores e empregavam nada menos do que quatro vezes o número de trabalhadores industriais registrados em 1880. que em 1846 empregava apenas 122 operários. 1815-1914 (Cambridge. cf. a United States Steel Corporation. The Eoonomic Development of France and Germany. mas em breve se espalhou em todas as direções. o processo de consolidação industrial foi acentuado pela crise de superprodução que era uma conseqüência das novas técnicas e causa imediata da "grande depressão" entre 1873 e 1895. mais complexa e dispendiosa maquinaria. tal como ilustradas pelas estatísticas alemãs. Na indústria siderúrgica. duplicou. op. rapidamente. Na Alemanha. 6 7 . cit. 297. Na Inglaterra. declinou em metade. os artesãos e tecelões caseiros. era irreversível. A tecnologia.urbana. Morgan. à Europa ocidental e aos Estados Unidos. Mas estes eram os gigantes e. tinha mil e seiscentos homens em suas folhas de pagamento.7 Nesse país. Avançou mais rapidamente nas novas indústrias. J. 294. 287-8. tinha na maioria dos casos uma base demasiado estreita para suportar o embate da depressão. uma vez iniciado. se expandisse em regiões industrialmente subdesenvolvidas do mundo. empregava um total de quase setenta mil. eram mais esclarecedoras. H.

a população da Europa — não contando com a emigração. de vinte e dois para um pouco mais de quinze por mil — e a população aumentou vertiginosamente. Calcutá e Osaca. Outro fator de aceleração e acentuação do influxo urbano foi a crise rural causada pela importação em larga escala de produtos alimentares baratos. no fim do século. e é significativo que a emergência dos grandes centros metropolitanos tivesse sido mundial. nos Estados Unidos! Buenos Aires e Rio de Janeiro. a Eu- . na América do Sul. O processo de encurralar a mão-de-obra e os operários fabris em menos. embora três milhões de milhas quadradas estivessem ainda disponíveis para colonização. entre 1870 e 1900. que fora virtualmente estacionaria entre 1840 e 1870. em quase um terço. Em conseqüência do progresso da higiene e da medicina. e a "Região Negra" do centro da Inglaterra converteram-se em faixas tentaculares de desenvolvimento urbano contíguo. provenientes do ultramar. Na Rússia européia. Ao passo que. nos Estados Unidos. em 1900. organizações. Petersburgo e Moscou. mas sem qualquer solução visível de continuidade. na Europa. o número de cidades em idêntica situação passara. As cidades devoraram as vilas e as grandes metrópoles cresciam mais rapidamente do que as cidades menores. havia trinta e três nessas condições. todas alcançaram a marca do milhão. Alterou-lhes por completo a fisionomia. Áreas como o vale do Rur. divididas teoricamente por fronteiras municipais artificiais. quase metade da população do país estava concentrada em um por cento do território disponível. Paris e Londres eram as únicas cidades com uma população superior a um milhão. os trabalhadores eram reunidos em fábricas e as fábricas concentradas em cidades industriais e áreas urbanas. por exemplo. que drenou quarenta por cento do aumento natural — subiu nada menos de cem milhões. S. Nova York. mas muito maiores. pelo que. pelo menos. antes da revolução de 1848. Berlim. na Ásia. Comparada com o aumento de trinta milhões entre 1850 e 1870. em 1910. onde o censo de 1871 registrava apenas oito cidades de mais de cem mil habitantes.dos tecelões de algodão trabalhavam em suas próprias casas — foram virtualmente eliminados — por volta de 1907. Viena. as grandes metrópoles convertiam-se agora no núcleo da sociedade industrial. era prática comum em todos os países industrializados. a tal respeito. vivendo um oitavo nas dez grandes cidades. O resultado foi uma proliferação de condições sociais ignoradas em qualquer época pregressa. na Alemanha. declinou abruptamente nos trinta anos seguintes nos países mais avançados da Europa ocidental — na Inglaterra. Na Alemanha. cujo surto tem sido usualmente designado como "sociedade de massas". e quarenta e oito. de seis para dezessete. Chicago e Filadélfia. Por essa época também um décimo dos habitantes da Inglaterra e País de Gales tinha sido atraído para a voragem de Londres e. Tóquio. O fato de que a totalidade desse imenso incremento demográfico foi absorvida pelas cidades é uma confirmação impressionante da mudança que estava ocorrendo. quando a concentração industrial ganhou novo ritmo. a taxa de mortalidade. Em resumo.

das crescentes populaTais desenvolvimentos são examinados em minha colaboração para Propyläen Weltgeschichte. a Austrália e a Nova Zelândia. Assim. em 1900. seria necessário incluir o estímulo ao desenvolvimento nos territórios ultramarinos e tropicais. sem dúvida. a mina de cobre e ouro de Mount Morgan foi aberta em 1882. e a industrialização do Japão. incapaz. entre 1874 e 1914. Die imperialistische Idee in der Gegenwart (Dresden. ou mesmo de fornecer escoamento para as crescentes indústrias de ferro e aço. foi o segundo aspecto mais saliente da revolução que estava tendo lugar. vol. ficaram para trás. o ano de 1883 viu a descoberta e exploração das vastas jazidas de níquel canadenses. 1960). a maior jazida de chumbo-zinco do mundo. e Broken Hill.400. o Canadá. com fantástica velocidade. 1912). Na Austrália. Essa conferência foi transcrita sob o titulo "Die imperialistische Idee zu Beginn des 20 Jahrhunderts". que a Europa perdera. já em 1903. continuou pequena pelos padrões europeus até depois de 1914. preenchia três quartos da produção total do mundo. Mnnner und Zeiten (Leipzig. pelo contrário. a procura de estanho pelas indústrias de laminagem de folha-de-flandres e de enlatados.. a rapidez e extensão da industrialização aumentaram a capacidade de liderança das potências européias e robusteceram suas forças e autoconfiança com a única exceção. Ao mesmo tempo.000 toneladas. 9 E. bem como o rápido desenvolvimento do uso de borracha na indústria elétrica e nos transportes rodoviários. mais do que nunca. em sua nova forma. incrementou o comércio da Malásia em quase cem vezes. resultante dos requisitos. Já deixava de ser uma questão de trocar manufaturas européias — predominantemente têxteis — pelos produtos tradicionais do Oriente e dos trópicos. Escreveu ele: "O mundo está mais difícil. o Chile. a segunda foi a realização. Se a mudança para sempre da estrutura social da sociedade industrial foi sua primeira conseqüência. dos Estados Unidos. rapidamente engoliu o mundo inteiro. em aditamento. no segundo volume dos ensaios de Marcks.ropa já não se situava em plano excepcional. ou estivesse perdendo. ainda que importante. até os chamados domínios "brancos". ou 1. ibid. começou a ser explorada no ano seguinte. tornando-a um dos mais ricos entre todos os territórios coloniais. afetando todas as áreas do mundo. mediante a construção de estradas de ferro. necessárias aos novos processos de produção de aço. o abismo entre as potências européias e o resto do mundo foi ampliado. é agora uma grande unidade em que tudo interage e afeta todas as outras coisas. VIII (Berlim. mas na qual também tudo colide e se entrechoca". 1903). que trinta anos antes não produzia nitratos. pelo historiador alemão Erich Marcks. 8 . Essa foi notada.9 Isto não implica. da integração mundial.8 Isso. também. Em 1900. sem os quais. Marcks. sua posição predominante. com conseqüências do maior alcance. 271. mais belicoso e mais egoísta. já acima mencionados. pág. por exemplo. é claro. Mas também é verdade que o apetite voraz do novo industrialismo. A indústria saía pelo mundo em busca dos materiais básicos. de extrair suficiente sustento dos recursos locais. por sua própria natureza. embora notável em seu próprio contexto. Este catálogo poderia ser consideravelmente ampliado e. pontes e obras parecidas. pág. não poderia existir. Foi uma transformação fundamental. cf. 709.

D. do que em qualquer outra época anterior. vol. págs 187-209. P. e A. como todos sabemos. pela primeira vez na História. A zona exterior de produtores primordiais ampliou-se dos Estados Unidos. mas de forças subitamente libertas e com efeito revolucionário. "The Economic Factors in the History of the Empire". 6. em especial.ções industriais. Koebner. "Imperialism: An Historiographical Revision" ibid vol. com efeito. Thornton.11 No período em redor de 1880. as provas não indicam. Cf.10 Os melhoramentos na construção naval. 10 11 . mas um afrouxamento das pressões imperiais e que o imperialismo "irregular" do período de livre comércio. 3 Teria sido surpreendente se essas novas forças não tivessem procurado uma saída política. tem-se notado uma tendência crescente para desafiar a validade dessa interpretação. contudo. Outras interpretações recentes encontram-se em R. 119-44. paradoxalmente. The Imperialism of Free Trade vol. R. argumentou-se. pág. vol. da Romênia e da Rússia para as terras tropicais e subtropicais. a maior parte do mundo estava mais estreitamente interligada. 1-15. a Argentina e a África do Sul. indo mais longe ainda. K. em qualquer caso. econômica e financeiramente. Fieldhouse. por novas pressões econômicas. embora meNew Cambridge Modern History. claramente. VII (1937). Gallagher e R. 1-29. Robinson e J. págs. 2ª série vol II (1949). que a direção da expansão imperial tenha sido influenciada. Economic History Review. Robinson. 1961). Até há bem pouco tempo. produto não de um lento e contínuo progresso. dentro do âmbito de vida de uma curta geração. Mais recentemente. tal como se manifestou até os anos intermédios do século XIX — era uma situação inteiramente nova. em que as duas últimas décadas do século XIX não testemunharam uma concentração. Em termos de História mundial — mesmo em termos da expansão européia. R. foi uma transformação das condições mundiais sem paralelo no passado. chegaram a ponto de insistir. que tentei descrever nas páginas precedentes. The Imperial Idea and its Enemies (Londres. "áreas e linhas de comércio que previamente se encontravam condicionadas e confinadas em seus próprios limites dissolveram-se numa única economia em escala mundial". XIV (1961). um mercado mundial governado por preços mundiais. "The Concept of Economic Imperialism". Alguns autores recentes. no tocante a fornecimentos baratos e abundantes de produtos alimentares. Pares. Gallagher. Africa and the Victorians (Londres. persistentes ou impulsionadoras influências". constituía uma expressão ou conseqüência lógica dos progressos econômico e social nos países industrializados da Europa e nos Estados Unidos. No final do século XIX. J. De fato. Economic History Review. faltavam as "novas. assim fizeram. O resultado. que era de características tão distintas do que existia nas décadas finais do século XIX. 1959). poucos historiadores teriam negado que o "novo imperialismo". págs. de qualquer modo nítido. o declínio de tarifas de frete marítimo e a possibilidade de movimentar artigos em massa fizeram nascer. XI (1962). VI (1953) págs. até atingir a Austrália.

12 Segundo. 12 . não fora menos ávido e agressivo. em Mythes et réalités de 1'impérialisme colonial français. simplesmente. Não é difícil demonstrar que os argumentos específicos de Hobson e Lênin. em 1889. desfaz a crença geralmente aceita de que "o desejo de ganho econômico" era o fator motriz das iniciativas de Rhodes. em virtude da preocupação deles em refutarem os argumentos econômicos de Hobson e Lênin. evitaram abordar as principais questões. ao tratarem o problema segundo um ponto de vista quase exclusivamente britânico. Em qualquer caso. 4.13 Nem é difícil demonstrar. même si.nos preocupado com o controle político. O. ou a intervenção de Bismarck na África em 1884 — que as causas imediatas de ação foram estratégicas ou políticas. no qual parece estar implícito que o fato da companhia fundada por Rhodes. em que todas as nações industrializadas. Isso. "The Anti-Imperialism of Free Trade". em relação a qualquer ponto determinado — por exemplo. 2.. 489. incluindo os Estados Unidos e o Japão. seus estadistas eram resultantes em adquirir novos territórios e quando o faziam a sua finalidade era. substituir as velhas dificuldades conceptuais por novas. "Il apparut que des particuliers pouvaient s'enricher aux colonies. seria difícil negar que lhe teria sido difícil prever uma intervenção na África se não Cf. a ocupação do Egito em 1882. não são confirmados pelo que se conhece sobre o fluxo de capital. O fato central a respeito do "novo imperialismo" é que se trata de um movimento mundial. J. porém. ordenada por Gladstone. se envolveram. é fácil subestimar sua força e novidade. Hanna. não constitui razão para supor que os motivos econômicos não desempenharam também seu papel. basta dizer três coisas. encararam a questão por um ângulo excessivamente estreito. E. vol. 106. segundo os quais o imperialismo era uma luta por mercados lucrativos de investimento. como a maior potência imperial que existia. Se o abordarmos segundo o prisma da Grã-Bretanha. dipoint de vue general. necessariamente. salvaguardar a integridade de possessões já existentes ou impedir que o controle de rotas estratégicas passasse para as mãos de outras potências. Economic History Review. usualmente. de certo modo. negativa. pág. Mas essa atitude defensiva e. porquanto o novo imperialismo não era. XTV (1962). eram fundamentalmente defensivas. 13 Por essa razão é difícil acompanhar o argumento de A." série. 1961). 1960). MacDonagh. o malogro em pagar dividendos não significa. mas não era típica. um produto de cálculos racionais e os interesses econômicos podiam ser suplantados por um otimismo que acontecimentos subseqüentes desaprovaram. pág. 1871-1914 (Paris. ter sido "incapaz de pagar quaisquer dividendos" até 1923. no caso de Bismark. Foi de outras potências que o impulso subjacente no "novo imperialismo" partiu _ de potências que calculavam ser o vastíssimo império britânico a fonte de seu poderio e pensavam que suas próprias e recentemente fundadas forças industriais lhes davam o direito e criavam a necessidade de adquirirem um "lugar ao sol". A respeito desses argumentos. como os historiadores estão amplamente inclinados a fazer. European Rule in África (Londres. visto que as reações britânicas. em terceiro lugar. Brunschwig disse. pág. em última análise. contava nas circunstâncias especiais da GrãBretanha. mas essas considerações de ordem estratégica são apenas metade da história e. A primeira é que esses autores fizeram pouco mais do que.. que um empreendimento não seja lucrativo para os seus promotores. Como H. elles n'étaient pas rentables pour 1'état.

foi um brilhante complemento da evolução de acontecimentos que homens como Chamberlain acreditavam terem estado a se consolidar ao longo dos últimos vinte ou trinta anos anteriores. a distinção entre política e economia é irreal. o crescente poderio industrial da Alemanha imperial e dos Estados Unidos. recentemente. O que tem de ser explicado são os fatores que distinguiram o imperialismo do final do século XIX do imperialismo de eras precedentes. págs. 1-39. vol. os estadistas estavam cônscios de novas pressões. a causa dessa súbita revolução. cit. 17. as inovações técnicas e as novas formas de organização comercial tinham aumentado incomensuravelmente as possibilidades de exploração dos territórios subdesenvolvidos. promanando do coração da sociedade industrial. bem como a rapidez adquirida pela industrialização na Rússia — eram um incitamento às potências para procurarem compensação e pontos de apoio no resto do mundo. que davam a explicação das novas reações a uma relação de poderes que estava substancialmente ultrapassada. exatamente. Africa and the Victorians. 15 Fieldhouse . era "como se uma dinâmica totalmente diferente governasse as relações entre as potências".15 a breve resposta é que. 208. exploraram muito o fato de que a doutrina do imperialismo só tenha sido claramente formulada "mesmo no final do século de cujas últimas décadas insinuava ser intérprete". "Deutsche Weltpolitik". 14 Quando nos dizem que o novo imperialismo foi "um fenômeno especificamente político. 18 Koebner. 425. O impacto da prolongada depressão entre 1873 e 1896 agiu no mesmo sentido. Die Welt als Getchichte. Frauendienst. em 1871. Em primeiro lugar. a ciência e a tecnologia tinham perturbado o equilíbrio existente entre os Estados mais desenvolvidos e as alterações que ocorreram em suas forças relativas — em particular. 14 .18 mas o surpreendente seria se tivesse acontecido de outro modo. Como escreveu o historiador alemão Oncken. pág. e eram essas pressões.contasse com um novo estado de espírito. a revolução industrial criara uma enorme distinção entre as partes desenvolvida e subdesenvolvida (como hoje diríamos) do mundo. na Alemanha. A teoria seguiu-se aos fatos. desde sua compreensão. resultante do rápido desenvolvimento industrial do Reich. W. de que "um novo mundo" surgira. Ao mesmo tempo. em sua origem". 6.16 Sua percepção instintiva de que ocorrera uma transformação brusca de estado de espírito e temperamento foi bastante sólida. vol. 17 H. op. em 1872. em tal contexto. mas ela aí está". op. . Oncken.. Lorde Salisbury disse em 1891: "Não conheço. depois de 1871. com "novas influências em ação" e "novos e desconhecidos objetivos e perigos a defrontar". e isto não pode ser feito sem se levar em conta as mudanças sociais e econômicas básicas do período posterior a 1870. A indústria viu-se confrontada por razões imperativas para Cf. XIX 1959. pág. pág. 16 M Robinson e Galagheh. II (Leipzig.17 Só era de esperar que o impacto da mudança científica e tecnológica levasse algum tempo a consolidar-se. 1933). Os historiadores.. Das deutsche Reich und die Vorgeschichte des Weltkrieges. Desde o discurso de Disraeli no Palácio de Cristal. e as melhores comunicações. pág. cit.

depois de 1897. Esse aspecto da economia do imperialismo. o "neoimperialismo" refletia a obsessão com a magia da grandeza. as questões de prestígio. era necessário — de acordo com os argumentos neomercantilistas — para cada país industrial. desenvolver um império colonial dependente de si mesmo. 199.19 A posição era ainda mais clara em outros lugares — por exemplo. produziu rendimentos no total de 66 milhões de francos-ouro. da concorrência externa. Ainda que só uma proporção marginal do investimento ultramarino fosse para territórios coloniais. que era a réplica do novo mundo de cidades tentaculares e máquinas gigantescas.buscar novos mercados. em relação aos fornecimentos ultramarinos de produtos alimentares e matérias-primas. protegida. De muitas maneiras. "O dia das pequenas nações já passou há muito. 206) os substanciais benefícios econômicos indiretos que convergiam nos soldados. tanto na própria época como depois. administradores. a finança para obter saídas mais seguras e mais lucrativas para o capital. Unidos. a longo prazo.20 De outro ponto de vista. e a ereção de novas barreiras alfandegárias — na Alemanha. op. As falsidades inerentes a essa doutrina têm sido freqüentemente apontadas. 19 . 71). e finalmente na Inglaterra dos tempos de Joseph Chamberlain. as motivações econômicas e as puras manobras políticas combinavam-se todas entre si e seria um erro tentar selecionar um ou outro dos fatores concedendo-lhe prioridade. prestígio e crus argumentos econômicos. que também assinala corretamente (pág. O mesmo amálgama de motivos foi característico da "política mundial" alemã. pág. depois na Rússia e nos Estados. op. O neomercantilismo criou raízes. com rapidez notável. disse Chamberlain. cit. Nada fizeram. cit. ser auto-suficiente. as somas envolvidas de maneira alguma eram negligíveis. na nova era industrial. Thornton. no Congo Belga. e é evidente que a finança britânica encontrou âmbito para investimento e lucro em alguns. os discursos de Jules Ferry revelam uma curiosa mistura de política. por exemplo. Nos argumentos dos neomercantilistas. evidentemente. nenhuma nação poderia esperar.. chegou o dia dos Impérios". pág. em que a restauração da posição internacional da Franca. Uma vez que. a crescente dependência das sociedades industrializadas européias.. dos territórios tropicais recentemente adquiridos pela GrãBretanha. Seu resultado mais evidente foi a popularização das doutrinas "neomercantilistas". entre 1878 e 1908. caçadores de concessões e empreiteiros do governo. cf. na França em 1892 — aumentou a pressão para a expansão ultramarina. no estrangeiro. em 1879. pág. 20 Nesta colônia belga. e na qual o país metropolitano forneceria os produtos manufaturados em troca de produtos alimentares e matérias-primas. era um poderoso estímulo ao imperialismo. Na França. cujos advogados encaravam uma "dilatação" da "base econômica" da AlemaIsso é admitido por Fieldhouse. naquela última data (Brunschwig. op.. pelo menos. um investimento de 50 milhões de francos-ouro durante um período de trinta anos. 99. para atenuar seu impacto psicológico. sempre foi realçado. deprimida pelas derrotas de 1870 e 1871. sobressaía com destaque. porém. formando uma grande unidade auto-abastecida. primeiro na França e na Alemanha. se necessário. por tarifas alfandegárias. cit. "que pululavam em todos os novos territórios".

os ingleses afirmaram seus direitos exclusivos em toda a bacia do Yangtse.nha como meio essencial para garantir-lhe um lugar de liderança na constelação global que parecia estar então ocupando o lugar do velho equilíbrio europeu de poder. com mais de metade da população total do império. Yunnan. desencadeou o assalto aos Estados-vassalos da China e. contendo uma população superior a sessenta milhões. Kwei-chow e Szechwan. Witte. a civilização européia derramara-se por todo o mundo. M. exigindo as colônias espanholas nos interesses do comércio e dos excedentes de capital. 21 . no grande avanço russo através da Ásia central. Em 1900. e garantindo o controle político da China setentrional. arrogavam-se a posse de cinco milhões de milhas quadradas de território africano. nessa fase. Em 1876. perto de vinte vezes a superfície da França. enquanto a Rússia lançara suas vistas para a ocupação da vasta província setentrional da Manchúria. abrangendo um quarto da área total e quase um quinto da população. Na Ásia. fixou suas idéias em grande escala. Nos Estados Unidos. a ocupação francesa de Aname. A maior área. um quinto da área terrestre do globo e um décimo de seus habitantes encontraram-se reunidos nos domínios imperiais das potências européias. em 1892. A França reclamou as províncias meridionais de Kwangsi. a Rússia ocupara na Ásia central um terriSobre as idéias de Witte. na última década do século. Quanto à Rússia. No famoso memorando que ele dirigiu ao Czar Alexandre III. os motivos econômicos certamente contavam pouco. Tunes. que ao mesmo tempo ampliavam e consolidavam suas posições no Taiti. Madagascar e Novas Hébridas. todos os vaticínios pareciam assinalar a partilha do próprio império chinês. mas revolucionaria o comércio mundial. à qual os ingleses reagiram com a anexação da Birmânia. e. num período de vinte anos.21 Com idéias como essas em ascensão. em resposta. Snukow. cf. não surpreende que a corrida para conseguir colônias adquirisse um ritmo sem precedente. um continente cujas dimensões são quatro vezes as da Europa. J. não só acarretaria a abertura da Sibéria. assim não fosse — mas depois de 1893 a posição já era diferente. Em menos de uma geração. ultrapassando o Canal de Suez como principal rota para a China. em 1900. iniciado em 1864. era um expoente convicto e declarado dos princípios neomercantilistas. 1955). o grande ministro russo das finanças. se é que influíam alguma coisa. seu monumento é a estrada de ferro transiberiana. Estrategicamente. A África. em 1883. entre 1858 e 1876 — seria surpreendente se. nove décimos do continente já se encontravam sob controle europeu. pág. disse Witte. reforçaria a esquadra russa do Pacífico e tornaria a Rússia potência dominante nas águas do Extremo Oriente. Já anteriormente. A nova estrada de ferro. 50. habilitando a Rússia a inundar o mercado chinês de têxteis e artigos de metal. mas os "expansionistas de 1898" tinham poucas dúvidas ou hesitações sobre as causas econômicas. durante a década seguinte. talvez seja verdade que a administração estivesse primordialmente interessada em garantir bases navais para fins estratégicos. estava dominada pelos franceses. não mais de um décimo da África era controlado por potências européias. foi repartida entre aquelas. Tonquim. Die internationalen Baziehungen im fernen Osten (Berlim. em 1886.

135. até que o mundo inteiro. Hortzsch. um movimento estupendo. Era. no desbravamento de seu próprio continente. 639. pág. se encararmos o curso dos acontecimentos de um simples ponto de vista de causas e origens. argumentar. estivesse sob a autoridade dos conquistadores europeus. O primeiro movimento americano foi na direção das ilhas do Havaí. Havia. W. mas absorvidos. Poucos historiadores discordarão da opinião de que 1898 foi um ano predestinado. os Estados Unidos não devem sair dessa linha de conduta". "As grandes nações estão absorvendo rapidamente. ocuparam Porto Rico. Guam. em parte. mas de "contração e declínio". nas relações externas americanas. dizer que a partilha da África "não constituiu a manifestação de um urgente e revolucionário impulso para o império" mas. impelidos.tório tão grande quanto a Ásia Menor e estabelecera para si própria "o mais coeso império colonial da terra". a parte que tocara à Alemanha imperial era diminuta. como alguns historiadores fizeram recentemente. na Ásia central. Pratt. um processo em que não existia retrocesso nem ponto morto. ao que parece. Foi. Pode ser um argumento sustentável.22 Comparada com aquisições nessa escala. assinalou o envolvimento dos Estados Unidos na dialética do imperialismo. Quando. com a população de treze milhões. que não houve "quebra de continuidade depois de 1870" ou. algo de febril e essencialmente instável nesses "pomposos impérios alinhavados" dessa maneira naquela época. a vitória do novo imperialismo foi completa. por considerações estratégicas e. cuja anexação fora planejada durante a presidência de Pierce. 24 New Cambridge Modern History. antes. 138. os governos estavam sendo colhidos em toda parte. sem paralelo na História. Em 1887. todavia.23 E não saíram.24 com exceção dos ganhos territoriais da Rússia. na China. de há muito interessados no Pacífico. Desde 1875 que constituía. sem dúvida. estabelecendo um protetorado em Cuba. um protetorado americano. Cf. virtualmente. incluindo mesmo as regiões polares que Nansen explorou entre 1893 e 1896. escreveu Henry Cabot Lodge em 1895. 1936). as ilhas Marianas e as Filipinas. os Estados Unidos adquiriram Pearl Harbor com base naval e em 1898 anexaram formalmente a república havaiana. XI. pelo temor de que o estabelecimento de esferas exclusivas de interesses. em parte. poucos seriam os territórios adquiridos nessa época que se converteriam em possessões tranqüilas por mais de três quartos de século. para sua futura expansão e sua presente defesa. 22 23 . embora esta tivesse adquirido territórios na África e nas ilhas do Pacífico totalizando perto de 1. prejudicasse seu comércio. ainda mais. 206. A última nação a entrar em cena foi os Estados Unidos. que modificou por completo a forma dos acontecimentos futuros. apenas um inexorável movimento para diante. o "clíO.000 milhas quadradas. Ao mesmo tempo. todos os lugares desperdiçados da Terra". constitui flagrante injustiça à importância do evento. "sendo uma das grande nações do mundo. os Estados Unidos reverteram à política expansionista da década de 1850. pág. nos últimos anos do século. 1949). Expansionists of 1898 (Baltimore. vol. na qual depois de 1885. pág. desde a guerra civil. J. declararam guerra à Espanha. antes da guerra civil. Grundzüge der Geschlehte Russlands (Stuttgart. que era uma época não de expansão.

porque suas conseqüências foram sobremodo decisivas. sem respeito por pessoas ou por instituições estabelecidas. Demorei-me bastante no exame desse período e tentei realçar suas principais características. e que. era evidente que a revolução iniciada na Europa era uma revolução mundial. sustado ou restringido. pág. Em muitos aspectos. as condições de vida mudaram de modo fundamental. social ou política. No final o século XIX. Do âmago das novas sociedades industriais. o mundo do final do século XIX estava apenas elaborando. esse ímpeto poderia ser defrontado.25 Mas se trocarmos as causas e origens pelo impacto e conseqüências. a quebra de continuidade e os efeitos revolucionários das mudanças operadas são irrefutáveis. criaram-se novas tensões e novos centros de gravidade iniciaram seu processo de formação. 25 Ibid. do lado econômico. foram desencadeadas forças que circunscreveram e transformaram o mundo inteiro. "em escala muito mais vasta. Tanto para os habitantes das nações industrializadas como para os que viviam fora delas. foi o divisor de águas entre a História moderna e a contemporânea. Delas procede a maioria dos traços característicos do mundo contemporâneo. a lógica dos métodos herdados de uma época anterior".max de um longo processo". 49. os capítulos seguintes pouco mais vos oferecerão que um comentário sobre os efeitos das mudanças que acabamos de analisar.. tecnológica. que em nenhuma esfera. .

embora mais especificamente econômica. encontramos não só a chave da glória e da riqueza. Até Bernard Shaw diria que. para "a defesa de seus interesses comuns e o desenvolvimento de uma civilização comum". não era diferente. não alimentavam qualquer dúvida de que a difusão do império teria como resultado a rápida disseminação da civilização européia em todo o resto do mundo. págs. de uma questão de domínio. Em sua opinião. Thohnton.1 Era inútil exportar as capacidades européias para países retrógrados sem. As ambigüidades e incoerências desses desígnios imperialistas. 80. 72. e Milner via o império britânico como "um grupo de Estados. constituindo em al1 2 Cf. simplesmente. Para a maioria dos pessoas. a irresistível expansão de sua civilização à custa das civilizações "estagnadas" do Oriente. o novo industrialismo transbordou da Europa para os quatro cantos do mundo. P. ao mesmo tempo. 76. Escreveu Curzon: "No império. introduzir as autoridades européias que garantissem o emprego adequado daquelas. particularmente a disparidade de tratamento entre os domínios "brancos" e as colônias "de cor". Não se tratava. "uma unidade econômica". não são difíceis de perceber. eram artigos de fé. uma vez que as raças nativas eram incapazes de manter normas civilizadas para elas próprias. que promovessem o comércio pacífico e a vida civilizada. The Imperial Idea and its Enemies. o governo das dependências pelas potências imperiais era uma necessidade do mundo moderno. pág. mas o apelo ao dever e os meios de servirmos a humanidade". independentes entre si em seus assuntos locais". o imperialismo poderia ter a aparência de uma exploração crua e descarada. Em certo nível. tais condições. a superioridade de seus valores. . abriu uma era de mudanças cujas conseqüências pouco contemporâneos podiam prever mesmo superficialmente.III UMA EUROPA MENOR O Significado do Fator Demográfico Quando. Ibid. para eles. se os chineses eram incapazes de estabelecer condições. o império formaria uma "grande república comercial".2 A visão imperial de Joseph Chamberlain. mas os líderes do movimento imperialista iam-no de outra maneira. mas o padrão geral. O que as pessoas previam era uma época em que os povos europeus se espalhariam por toda parte. mas ligados "numa permanente união orgânica".. o pressuposto que lhes era sub-acentemente implícito. era dever das potências européias estabelecer. está claro. ocupando e estabelecendo-se nos novos territórios coloniais. na Europa. com as fábricas na Grã-Bretanha e as fazendas no ultra-mar. e um constante fluxo de população garantiria sua prosperidade e poderio.A. em seu próprio país. no final do século XIX.

II (Londres. Qual seria a posição se. que afirmava: "O homem ou mulher que deixa a Grã-Bretanha não está perdido para o Império. 5 K. isto ficou demonstrado. Hancock. quando se uniram para suprimir a rebelião Boxer em 1900. pág. pág. na Ásia e na África.. no último século. pelo menos. por exemplo. na Inglaterra. não vislumbrava qualquer razão por que. no século seguinte. A confiança das potências européias em sua capacidade de manterem a posição no mundo que tinham ganho para elas próprias. praticamente ninguém duvidava de que o sistema europeu e o controle pelas potências européias se estavam expandindo em círculos cada vez mais vastos sobre toda a superfície do mundo.5 Mas a manutenção da superioridade européia pela força dependia da existência de. que a superioridade técnica dessas potências tornou fácil a imposição da vontade delas pela força. Essa doutrina foi explicitamente formulada por uma comissão governamental em 1917. "para trezentos milhões de população branca no império". líderes australianos como Bruce e Dooley faziam seus cálculos em termos de uma Austrália com uma população branca de cem milhões e. Ásia and Western Dominance (Londres. e desse total não chegava a um quarto a que vivia no império ultramarino. uma relativa unidade de propósitos. W. pág. em 1900. uma potência européia deliberadamente explorasse as forças nacionalistas e agitasse a rebelião. mas foi constituir seu esteio e força em outras GrãBretanhas ultramarinas. 1953). 3 . a confiança própria e o sentido de superioridade européia. de cinco para cem milhões. e a Rússia depois de 1917? Durante as duas ou três décadas posteriores a 1880. 128. Na realidade. no século XIX. 4 Ibid. na Ásia Cf. se os Estados Unidos tinham passado. por que não manteria uma corrente de colonos para povoar seu próprio império colonial? Mesmo depois da Primeira Guerra Mundial. cerca de 52 milhões. em outros. era consideravelmente menor do que a da Alemanha imperial. Survey of British Commonwealth Affairs. como a Alemanha fez entre 1914 e 1918. K. membro do "jardim da infância" imperialista de Milner. com a maior clareza. Os dez anos entre a liquidação da sociedade Boxer e a queda da dinastia manchu constituíram "o apogeu da autoridade ocidental na China". mantendo um indispensável laço com o todo imperial. a fim de enfraquecer seus inimigos. 149. Pannikar. em qualquer caso. evidentemente. M. Se. a Grã-Bretanha não aumentaria. 198. porém. a população branca do império britânico. ao lançarem-se na conquista de possessões e territórios na África. um sólido quadro administrativo."3 É certo que. Em primeiro lugar. que as rivalidades européias tendiam a anular.4 Hoje é difícil dar crédito aos cálculos otimistas que os êxitos fáceis do novo imperialismo alimentaram no final do século XIX. É verdade. parecemnos agora não passar de uma série de ilusões. a Grã-Bretanha fornecera perto de dezoito milhões de emigrantes para as terras do Novo Mundo. vol. Leopold Amery. Mas a confiança na manutenção de um fluxo de emigrantes suficiente para revestir o esqueleto imperial com carne e sangue britânicos não foi abalada. 1940). a situação era algo mais complicada.guns a maioria da população. mas. pelo menos.

Na França. Desse ponto de vista. 1 O próprio imperialismo. a Nova Zelândia. de laços orgânicos ou de unidade orgânica. Na Inglaterra. Entre a crise de Suez de 1882 e a crise de Suez de 1956. ao passo que o comércio colonial. as potências européias tinham posto em movimento no mundo extra-europeu uma série de acontecimentos que não podiam sustar. a transição de um período da História para outro teve lugar. a própria emancipação. o império colonial alemão foi um notório desapontamento. o "lar de todos os saxões" — a idéia que Chamberlain tentou formular em termos institucionais como federação imperial. na mesma data. de unidade imperial. uma "vasta nação inglesa". marcaram simultaneamente o apogeu e a queda da era européia. fazer retroceder nem controlar. Mas o mais desconcertante de todos os acontecimentos foi a resistência encontrada no seio do próprio império — no seio do império "branco" que. em primeiro lugar. os resultados do imperialismo demonstraram ser desconcertantemente diversos do que prometiam. Em segundo lugar. demonstrou ser um cavalo difícil de montar. na conferência colonial de 1897 — parecia aos domínios autogovernados. Esta é a razão por que os anos de imperialismo. subseqüentemente. não estavam dispostos a entregar seus interesses nacionais a "um vasto supernacionalismo exigindo para si próprio o equipamento coercivo . A idéia do império como "uma Inglaterra em constante expansão". mas custara ao contribuinte alemão cerca de cinqüenta milhões de libras. Além disso. para o domínio europeu. as potências européias tinham-se excedido e exorbitado de suas próprias forças. tal como os lucros do império eram muitas vezes ilusórios e ganhos a muito custo. no intervalo. sua "dinâmica de expansão autoconfiante" se esvaziou quase como um balão furado. "um pesadelo".e no Pacífico. com demasiada freqüência. a roda fez uma rotação completa. Finalmente. aos olhos dos imperialistas. e os esforços dos colonialistas "brancos" para controlarem suas próprias questões forneceram um precedente ou modelo quando as populações "de cor" das colônias procuraram. e. os interesses da população metropolitana e da população colonial raramente corriam em paralelo. constituía o próprio nervo do corpo imperial — às doutrinas do imperialismo. correspondia a apenas 0. e. O Canadá. depois. sob os esforços e violências da guerra sul-africana. em vez da procura de lucros. e tais acontecimentos foram fatais. Até 1913. nas palavras de Sir Keith Hancock.5% do comércio total alemão. absorvera apenas 24 mil emigrantes alemães. a Austrália. já em 1899. a África do Sul não alimentavam desejos de uma federação imperial. tinham abocanhado mais do que podiam mastigar e digerir. a partir de 1882. havia queixas clamorosas contra o crescimento da concorrência das indústrias coloniais e pedia-se a imposição de tarifas alfandegárias discriminatórias. a longo prazo.

em 1903. Laurier protestara pelo envolvimento dos domínios nas aventuras militares britânicas. O que "exijo para o Canadá". Keith. Nenhum desses domínios "brancos".. 1933). 135-6. foi percebido ainda mais claramente na atitude dos domínios "brancos" em relação a questões econômicas e relações externas. Life and Letters of Sir Wilfrid Laurier. II (Londres. para um texto mais completo dos debates na Câmara dos Comuns do Canadá. 9 Ibid. já desfrutados pelo Canadá. 1922) pág.7 Na conferência de Ottawa de 1894. a emancipar-se "dos últimos vestígios de disciplina imperial em sua liberdade econômica". "o país tenha a liberdade de agir ou não agir. e que nos seja reservado o direito de julgar se existe ou não uma causa para que o Canadá entre em ação". vol. o primeiro-ministro neozelandês. de proceder como lhe agrade. cit. de intervir ou não intervir. M. a Austrália e a Nova Zelândia queixaram-se. 19001936 (Londres. op. a Nova Zelândia exigira também os limitados direitos. de negociar seus próprios tratados de comércio. por exemplo. William Lane. durante a Guerra dos Bôeres. pág. A partir de 1882. vol. o qual declarou. 39. "os poderes de que atualmente dispomos não serão suficientes para a salvaguarda de nossos direitos. 156. é que no futuro. anunciou em 1911. pág. B. Selected Speeches Documents on British Colonial Policy. estavam determinados. protestou o então primeiro-ministro canadense. Em ambos os aspectos. dos obstáculos constitucionais que lhes impediam a instituição de direitos alfandegários diferenciais.9 Essa atitude foi mais moderada do que a do líder trabalhista australiano. e ainda antes. Sir Wilfrid Laurier."8 Já três anos antes. a mesquinhas considerações da política britânica na Europa. como o Canadá. cada um e todos. fora da área australiana. disse ele. 1937). Elas foras renovadas e ampliadas. 8 O. 251. págs. mostraram-se muito ciosos de suas independências respectivas. os representantes australianos exigiram ser libertados. estava disposto a abdicar dos poderes essenciais à maturidade econômica e política. em Londres. I (Londres. e ainda antes. A. R. quando em 1871 parecia que a Grã-Bretanha estava subordinando os interesses do Canadá à realização de uma détente com os Estados Unidos. vol. em 1887.de um Estado soberano". separadamente. no Pacífico..6 Isto ficou evidente através de toda a história das conferências coloniais e imperiais realizadas a partir de 1887. "Enquanto o Canadá continuar sendo uma dependência da Coroa britânica". não mais aceitariam as velhas relações de "mãe e criança". As diretrizes assumidas por esses acontecimentos são relativamente bem conhecidas e tornam-se ainda mais nítidas no domínio da política estrangeira do que na esfera econômica. amargamente. queixas semelhantes foram levantadas pelos líderes canadenses. págs. estava sacrificando os interesses vitais dos domínios. 1937). Skelton. II (Londres. cf. de que o governo imperial. em resumo. como Sir Joseph Ward. 6 7 . franHancock. D. The Development of Dominion Status. com Estados estrangeiros. 105. Dawson. pela solução do litígio sobre as fronteiras do Alasca em termos que os canadenses reputaram indevidamente favoráveis aos Estados Unidos. quando a França estabeleceu o controle sobre a Nova Caledônia e a Alemanha sobre Samoa e Nova Guiné. 1763-1917. 32.

em 1918-19. de acordo com a exclusiva autoridade de seu próprio Cf. pela força das armas. que era a política externa do império britânico. a participação deles na Conferência da Paz. 431. op. A crise de Chanak. ou descentralizada. Sir Robert Borden: "Quando a Grã-Bretanha deixa de assumir a responsabilidade exclusiva pela defesa no alto-mar". e o fato de serem membros independentes na Liga das Nações. pág. 12 Keith. coroou essa cadeia de acontecimentos e tornou estes irrevogáveis foi a intervenção dos domínios na Primeira Guerra Mundial. pág. M. A. desde que "os tambores se mantenham bem longe de nosso litoral". vol. pelo primeiro-ministro canadense. Negativamente. a Austrália decidiu estabelecer uma força naval separada. Riddel. Como escreveu então Sir Keith Hancock. 302. pág. 1958). exemplo que foi seguido pelo Canadá três anos depois. 74. O "tratado do bacalhau". do outro lado". em geral. bem como o controle dos exércitos e marinhas. insistiu ele. em 1922. 10 .13 e o que é válido para o Canadá aplica-se igualmente à Austrália. I (Londres. assinado no ano seguinte. disse ele.. cit. Pág.. foi significativo. formulavam uma petição de autonomia. que "transformou o sistema de relações entre o Canadá. mas porque assinalou "a primeira ocasião em que um ministro canadense das relações exteriores negociava e assinava um tratado com uma potência estrangeira. também. cit. que mesmo do ponto de vista interno do Canadá era de importância secundária. 1870-1939. ou delegada. op cit. pág. 1917-1939 (Toronto. vol. W. 309: Dawson. op. a assumir a responsabilidade e controle exclusivos da política externa. o Canadá enviara emissários ao Japão. com toda a firmeza. entre os Estados Unidos e o Canadá. foi uma sugestão "melodramática" do erro de cálculo sobre. quando Lloyd George apelou para que os domínios apoiassem a política britânica. O corolário desses atos foi estabelecido. ou "se o sol se põe ou deixa de pôr ao rufar de tambores britânicos". 11 Keith. XLIII. não pelo seu conteúdo. 162. "foi o desafio lançado pela Guerra Mundial e a reação do Canadá ao mesmo". que aos australianos pouco importava se "funcionários públicos russos substituíam ou não a aristocracia falida britânica nos departamentos oficiais hindustânicos".10 Mas as duas atitudes tinham algo em comum. ambas estabeleceram uma distinção entre os interesses britânicos e os dos Domínios. recusando subordinar estes àqueles. a serviço de objetivos australianos e sujeita a controle australiano. positivamente. I. especialmente nos assuntos externos. evidentemente. Em 1907. 13 Op. por exemplo.. The Shaping of the Modern World. cit. "deixa de poder comprometer-se. a solidariedade imperial."12 O que. de um lado.camente. o império britânico e o mundo. afirmando assim seu próprio lugar na política do Pacífico. 1962). de cuja posse decorria uma política externa independente. pág. No mesmo ano. Essa autonomia foi formalmente negada por Asquith em 1911. era a política externa do Reino Unido. Bruce. Documents on Canadian Foreign Policy. Nova Zelândia e África do Sul. Se havia uma coisa. que não podia ser compartilhada.11 Mas já antes disso tal princípio se encontrava em vias de ruptura.

Ainda assim. 28-9. embora a Marinha Real fosse capaz de defender o Atlântico ou o Pacífico. contudo. Underhill. a tendência popular era para voltar-se. Se o pior acontecesse.governo". era uma "grave dúvida" saber se poderia dar conta simultânea de ambas as tarefas. como base de apoio no caso de um acontecimento grave no Pacífico. Gordon. cit. ibid.. a Austrália e a Nova Zelândia não devem contar com o apoio naval da Grã-Bretanha. e foi sob pressão da Austrália e da Nova Zelândia que. op. em detalhe. 1931-1952. Documents and Speeches on British Commonwealth Affairs. é que a Grã-Bretanha nem sequer foi convidada a participar nele. em março de 1914. A. já na Nova Zelândia se exprimia a opinião de que... 19 E. a Grã-Bretanha foi induzida. conseqüentemente. II (Londres. cf. págs. a partir de 1923. op. pág. Gordon.. essa tendência robustecia e. estava fora de sua cogitação permitir uma divisão das forças navais britânicas no caso de guerra. The British Commonwealth (Durham. em 1927 e 1928. a Nova Zelândia e os Estados Unidos. 1956). op.. com relutância. vol."19 Era um resultado bastante distinto do previsto pelas pessoas de mentalidade imperialista nos tempos de Chamberlain. ao destino dos Estados Unidos"18 e alguns anos depois um canadense resumiu o curso dos acontecimentos nesta frase prenhe de significado: "Todos os caminhos da Comunidade conduzem a Washington. a fortificar Singapura. cit. págs.. foi outro passo decisivo no mesmo rumo. N. o ministro das relações exteriores da Austrália declarara que os australianos tinham consciência de que seu destino estava ligado "para sempre. cit. mas também de exercer pressão em Londres para alinhar sua política com os interesses dos domínios. 353. Em 1908. B. Em sua qualidade de Primeiro Lorde do Almirantado. Durante o Riddel. págs.. por exemplo.14 A decisão de Ottawa. no presente contexto.15 À medida que a Primeira Guerra Mundial se acercava. XVIII. Por essa altura.16 Assim. Mansergh. 1171-3. 78-87.17 O significado desse tratado. vol. mais conhecido como Pacto ANZUS. não era apenas uma questão de afirmar (na frase de Mackenzie King) a "igualdade de posição". e tanto na Austrália como na Nova Zelândia. 30. International Affairs. N. disse Churchill. nos domínios do Pacífico. 1960). 1953). "a única solução para os cinco milhões de brancos no Pacífico seria procurar a proteção dos Estados Unidos". pág. já antes da guerra de 1914 estava preparado o caminho que conduziria à assinatura em 1951 do Pacto de Segurança do Pacífico entre a Austrália. 16 Keith. Paris e Tóquio. 18 Cf. cada vez mais. 157. Estes problemas foram examinados. New Zeland becomes a Pacific Power (Chicago. K. foi confirmada nada menos do que por uma personalidade como Winston Churchill. pág. C. 99 14 15 . sobre se a ligação imperial seria bastante firme e poderosa para salvaguardar seus interesses essenciais. Já no ano anterior. Foi sob a pressão tanto do Canadá e da África do Sul como dos Estados Unidos que em 1921 a Grã-Bretanha renunciou à sua aliança com o Japão. págs. cf. cf. 17 Para o texto do acordo. nomeando representantes diplomáticos em Washington. persistiam as crescentes dúvidas. XXVII (1951). para os Estados Unidos. pág. XXV. onde o ressurgimento do Japão vinha dando origem a preocupações desde 1894. no Evening Post (Wellington) de 7 e 8 de agosto de 1908.

Não se tratava. que era sua mais acalentada crença. as aspirações dos domínios à autonomia e a manutenção da unidade imperial. estava no fato de que o problema a solucionar não era. simplesmente. os domínios "brancos" tinham aspirações nacionais próprias. era uma questão de enfrentar os fatos de um mundo revolucionado pelo caráter explosivo do novo conhecimento científico. a maior número de pessoas. um exercício de teoria política. teriam livremente escolhido. afrouxou os laços do império. deixados a si mesmos. que os dias do predomínio europeu já estavam contados e que um grande momento decisivo fora atingido e ultrapassado.primeiro quartel do século — em alguns círculos. 2 Para muitas pessoas o aspecto mais impressionante da mudança foi a crescente importância dos Estados Unidos da América. de fato. eram leais ao desígnio imperial. Hoje. foi ficando cada vez mais claro. como a resposta pronta. da nova tecnologia e do novo imperialismo. não foram seus desejos ou atitudes relativamente à ligação imperial que contaram. claro. Em todas as décadas posteriores a 1900. Mas. nas guerras de 1914-18 e 1939-45. freqüentemente de maneira contrária àquela que. Pelo contrário. Foi um paradoxo do neo-imperialismo ter desencadeado pressões que tornaram inoperáveis seus próprios princípios. até 1939 e mais além — a convicção geral é que o "gênio britânico de negociação" encontraria um "meio-termo" que satisfaria. pareceu que essa confiança fora corroborada pelo relatório Balfour de 1926 e o Estatuto de Westminster de 1931. Um novo mundo estava em gestação. Essas pressões foram o fator decisivo. de um só golpe. de uma questão de enquadrar uma fórmula constitucional que substituísse o governo direto por uma "influência". mas os acontecimentos revolucionários no mundo em volta deles e a que foram obrigados a reagir. são escolhidas como base dos comentários históricos. tal como a Grã-Bretanha. apertados por fatos de uma realidade crua. muito mais do que as modificações constitucionais que levaram do Império à Comunidade Britânica e que. mas no Pacto ANZUS. apenas. mas seria um erro imaginá-los como lutando desesperadamente para fugir ao látego imperial. A longo prazo. que os futuros centros de concentração populacional e de poderio estavam sendo edificados fora da Europa. As sementes do futuro não estavam alojadas no Estatuto de Westminster. Ao agitar as atividades do mundo exterior. A razão. habitualmente. foram colhidos por um torniquete. muito mais fundamentalmente. tal como abalou a posição preeminente da Europa. mas. amplamente demonstrou. Sem dúvida. e pelo prazo aproximado de uma geração. reconciliando os termos de imperium e liberdade. Não foi . esses dois documentos são muito menos impressionantes do que pareciam há um quarto de século aos comentaristas seduzidos pela sutil alquimia que (assim acreditavam) habilitava o império britânico a encontrar maneira de sair de dilemas a que outros imperialismos tinham sucumbido. a que não podiam fugir.

E. 187. W. 1903). disse ele em S.23 Essas atrevidas previsões refletiam as especulações dos imperialistas filosóficos americanos. T. pelo Demographic Year Book of the United Nations (cuja edição mais recente.ª.24 A expansão européia. pág. pág." ed. van Alstvne."20 Mas o aparecimento dos Estados Unidos como (nas palavras de Stead) "a maior das potências mundiais" foi só um aspecto de um processo muito mais amplo. disse Roosevelt. Köllmann Raum und Bevölkerung in der Weltgeschichte (geralmente mencionada como BevolkerungsPloetz). Em 1900. para anos mais recentes. 325. Seward. estava atento às potencialidades do Pacífico para os Estados Unidos. Würzburg. Nova York. 270 22 Cf. A. declarou o Senador Albert J. The Rising American Empire (Oxford. a transferir-se uma vez mais para o ocidente.. 96. "a era atlântica está agora no auge de seu desenvolvimento e deve em breve esgotar os recursos de que dispõe. Francisco. Stead redigiu seu tão lido panfleto The Americanization of the World. os volumes anuais do States20 . o segundo volume (neuere und neueste Zeit. 21 Cf. 1956) contém os dados relevantes. H. R. Buchholz e W. Laserson. 1898-1914 (Filadélfia. "A potência que governar o Pacífico é a potência que governa o mundo". pág. tais como Alfred Thayer Mahan e Brooks Adams. é a 13. The United States as a World Power (Nova York. em 1898 — que para a maioria das pessoas colocaram os problemas do Pacífico em súbita proeminência. era impossível ignorar o fato de que uma alteração importante na população mundial estava começando a ganhar forma e que o equilíbrio demográfico se estava desfazendo em prejuízo da Europa. The American Impact on Russia. comentava: "O centro de gravidade da raça está aqui e nós teremos de reajustar-nos. num discurso pronunciado em 13 de maio de 1903. R. pessoas de visão tinham percebido a existência de certas tendências que estavam convertendo o Pacífico em "um oceano predestinado". a conquista americana das Filipinas. M. Heindel.22 e suas palavras foram imediatamente aproveitadas e retransmitidas pelo Presidente Theodore Roosevelt. em 1902. 1961). C. 2. o brilhante exilado russo Alexandre Herzen descreveu sucintamente o Pacífico como "o Mediterrâneo do futuro". Conan Doyle. 1784-1917 (ed. pág. e quatro anos mais tarde. Kirsten. 1960).por acaso que o influente jornalista inglês W. Deverá ser suplementada. The American Impact on Great Britain. a era do Pacífico. Já em 1898 ele escrevera a Lorde Morley: "Sinto como se o centro do mundo de fala inglesa estivesse derivando para oeste". no momento em que escrevo. na Europa. mas também expressavam a primazia que a Ásia e o Pacífico tinham adquirido no pensamento americano sobre questões estrangeiras. Coolidge. Na América. o Secretário de Estado de Lincoln. 23 Cf. 1940)." Californian Addresses (São Francisco. em 1894. Já anteriormente. a melhor fonte histórica geral para cifras populacionais e mudanças de população é a obra de E.21 Mas foram os acontecimentos da última década do século XIX — o ataque japonês à China. "O império que se transferiu do Mediterrâneo". Beveridge. rumo do Pacífico. 1908). no século XIX. Era um tema a que Roosevelt recorria constantemente. 130-1. "está votado. de 1962). está apenas em seu alvor". nessa altura na América. W. 53. Havia sólidas razões para essa mudança de ênfase. págs. "O Mediterrâneo morreu com o descobrimento da América". 24 Provavelmente. destinada a ser a maior de todas. na vida daqueles que hoje ainda são crianças. baseava-se num fenomenal Cf. or the Trend of the Twentieth Century.

No Japão. em relação aos demais continentes. se destaca como importante momento decisivo — notava-se um firme decréscimo na taxa de natalidade da Europa industrializada. cit. estavam em linha com a Europa industrial. cit. op. e 1910. isto é. de W. e a população duplicou entre 1872 e 1930. por um ainda mais brusco declínio na taxa de mortalidade. Dessa tendência. significativamente. etc. de W. 1890. onde a população parece ter estabilizado no século e meio anterior a 1872. 1946). pág.26 Mais especificamente.. um declínio no saldo líquido de reprodução não mais cessou até cair abaixo da unidade na década 1920-30. 27 O crescimento da população japonesa é examinado com certo detalhe por Thompson. também Ryoichii Ishii. 1940). cit. 25 Borrie. 1936). na Alemanha. da irrigação. com um índice de crescimento de 1. Thompson. particularmente úteis para as regiões em causa. mas também de um mais alto padrão de vida e. principalmente como resultado do decréscimo na taxa de mortalidade. entre 1930 e 1940. de A. mas desde. mesmo assim. são. 93_i7g. p4gs. op. embora flutuando violentamente até 1920. foi disfarçado. os quais constituíram tão notável característica do período. Carr-Saunders (Londres. cresceu com rapidez daí em diante. M. da longa depressão econômica. uma exceção. Reenhabd. na Suíça. pág. da recuperação de terras. Histoire de la population mondiale (Paris. o incremento nos vinte anos seguintes (oitenta e três milhões) sendo equivalente a dois terços da população total dos Estados Unidos nessa época. op. nas populações da Europa e dos territórios ultramarinos "brancos". mas de maneira alguma fenomenal. mas por volta de 1930 tanto os Estados Unidos. 1937). D. 26 Borrie. 1905. estava abaixo da taxa de substituição. esse índice de crescimento estava abrandando. por outra parte. uma igualmente dramática tendência para o aumento entre os povos da Ásia e da África. visivelmente. em certo grau. 373.incremento de população que duplicara o censo demográfico continental e habilitava a Europa. como as colônias "brancas" do ultramar. 240. contudo. no total da população do mundo.. Durante as duas décadas seguintes. 299-301. da introdução de melhores técnicas agrícolas. conseqüência não só da disseminação da prática contraceptiva. op. simultaneamente. As obras Population Trends and Policies. Borrie (Sydney. que no princípio do século tiveram um elevado aumento líquido.98%. cf.. uma vez mais. a exportar quarenta milhões de emigrantes. a população da Índia. era uma conseqüência dos importantes progressos feitos no campo da higiene e da medicina. págs. a Rússia. subiu sua proporção. 1948) e Population and Peace in the Pacific. estava. que atenuaram os efeitos de fomes intermitentes. De maneira direta. era esse um "resultado da política imperial" exercida durante as últimas décadas do século XIX. S. aproximadamente. Nos Estados Unidos. Desde 1890 — um ano que.25 Em contraste com essa tendência para a queda demográfica.. exceto no caso da França. págs. o saldo liquido de reprodução em tempo algum excedeu 0. A. Na bibliografia. melhoramento dos transportes e facilidades de armazenamento alimentar. particularmente a Austrália e a Nova Zelândia.7% constituía. .27 man's Year Book. Assim. na Inglaterra. M. cit. Cf. de um quinto para um quarto. Population Pressure and Economic Life in Japan (Londres. não existe ainda uma obra geral que exceda World Population. aumento. Thompson (Chicago. 66 e segs. os sessenta anos subseqüentes assistiram a um firme. Por volta de 1900.

por exemplo. Carr-Saunders acreditava que o incremento absoluto na África. a segunda. 35).28 Mas o que interessa é menos apurar qual era a população do que qual seria ela. o assinalado efeito no incremento total que apenas uma diminuta melhoria na taxa líquida de reprodução podia exercer. na realidade. correspondente a muito mais do que a população total dos Estados Unidos em 1953. que a taxa diferencial de crescimento populacional. a falta de provas idôneas torna todos os cálculos de valor duvidoso. A primeira. tal como registrou o censo de 1953 — nomeadamente. estava levando à formação.No caso da China. 286-90.8% de aumento. A população da China continental. mas. de novos centros de população. que estava ocorrendo uma dramática alteração no equilíbrio entre as raças "branca" e "de cor". 34-42. Porém. que a população se manteve estática no "limite malthusiano ou próximo dele". foi menor do que a da Inglaterra e País de Gales e da Rússia durante o mesmo período. o índice de crescimento populacional na Ásia.. coberta de neve durante cinco meses cada ano. é estéril e inóspita. no primeiro quartel do século XX. a densidade média de população. mas a densidade de população na Ásia e.8 por milha quadrada. em 1949. 28 . 583 milhões — estava muito à frente dos cálculos mais liberais aceitos nessa época (que orçavam por 450 milhões) e equivalia. bem longe da Europa. Mesmo a porcentagem de crescimento da população do Japão. não era o índice de crescimento em si. entre 1900 e 1923. cit. a cifra média de Carr-Saunders. com uma taxa líquida anual de 2. uma vez que a introdução de medidas de higiene e outras formas de modernização se lançaram a caminho. contudo. habitualmente. supõe-se. comparada com uma densidade média na Europa (excluindo a União Soviética) de 184 pessoas. produção e poder. 3 Dessas tendências demográficas podemos extrair duas conclusões. por volta de 1930. como sucedeu na China após o término da guerra civil. se atendermos que a ilha setentrional de Hocaido. a um índice de crescimento demográfico superior a dezesseis milhões por ano. No Japão. e a Europa não só manteve. ou um acréscimo. o primeiro foi o que atraiu imediatamente as atenções gerais. em conjunto com a migração e movimentos de população em escala continental. O que impressionava os contemporâneos. na União Soviética de um pouco mais de vinte e nas áreas habitáveis da Austrália de 3. durante o século XIX. Em ambos os casos. Desses dois acontecimentos. num período de dez anos. em resultado das epidemias de peste e fome. como no da África. era de 439 pessoas por milha quadrada. págs. ou até que tenha realmente havido um declínio na China. entre 1870 e 1920. conseqüentemente. pode ter sido da ordem de 25 milhões (pág. estava longe de ser excepcional. op. Na realidade. aumentou sua proporção no total calculado da população mundial entre 1850 e 1930.

439 por milha quadrada é enganadora. a intervenção européia na Ásia e na África pusera em movimento correntes ocultas que. o significado do decrescente índice europeu de natalidade e as conseqüências prováveis da decrescente mortalidade na Ásia tornaram-se matérias de conhecimento geral. sem o saberem. 553 pessoas por milha quadrada. em resultado de um aumento fenomenal. redução da mortalidade). na falta de restrições à natalidade. fora induzir a melhoria da primeira fase do ciclo demográfico (ou seja. onde. em vista de censos demográficos mais recentes. Como. quando viessem à superfície. a densidade atingiu 817 pessoas por milha quadrada. esse cálculo é provavelmente baixo. segundo os números calculados no início do século XX. talvez. a migração dos continentes "superpovoados" para os "subpovoados". implicam uma pressão sobre os recursos ao nível de subsistência ou. Índia e Japão. Como seria possível encarar de outro modo e fazer frente a um incremento anual de população que. a industrialização dificilmente era ainda concebida como uma solução para o "dilema malthusiano".29 O fato significativo que resulta desses números é que. mas. desde 1900. mas não da segunda (ou seja. a densidade populacional no Japão estava muito abaixo de Java. adotado pelo imperador alemão na altura da revolta Boxer e estimulado pela vitória do Japão sobre a Carr-Saunders. pág. 29 . ao passo que na província chinesa de Kiangsu não era provavelmente inferior ao milhar e na planície de Chengtu calculava-se que tivesse atingido 1700 pessoas. pois na ilha principal de Honxu. fornece o número de 900 por milha quadrada para Kiangsu. seria bastante superior? O resultado do impacto do ocidente. em 1930. em suas imediações. avolumou-se. 287. começaram a indagar a si mesmos como poderiam ter alguma esperança de evitar serem esmagados pelo simples peso dos números? Foi. tendo como único remédio. pelo que se viu. evidentemente. desde 1850. aproximadamente. só para a China.. apesar do exemplo do Japão. 4 Um dos primeiros sintomas da crise demográfica foi o grito penetrante de "Perigo Amarelo". declínio da fertilidade) e. em face de uma Ásia em expansão. Finalmente. de uma compreensão instintiva de que. dificilmente seria inferior a sete milhões e meio e. de fato. a densidade atual é da ordem de 1 150 pessoas por milha quadrada. cit. forçariam a corrente da história mundial entrar em novos canais. o número comparativo foi. uma percepção quase neurótica da natureza precária de sua posição. o primeiro sintoma de apreensão íntima. op. entre europeus e descendentes de europeus no ultramar. Apesar de tudo. com toda a probabilidade.

e unicamente sete mil e quatrocentos europeus na África Ocidental Britânica. onde esbarraram contra a corrente de colonização russa vinda do oeste. sobretudo. "a população do litoral ocidental da América do Norte seria principalmente asiática". pág. 190 30 . expressou a A mais completa e competente descrição do terror do "Perigo Amarelo". parece quase certo que. pág. 1917). pág. Dacca e Chittagong. mais de um milhão — foram para a Manchúria. The Peril of the White (1925). 3. 32 James Marchant. Na Austrália. com uma população de dezessete milhões e meio. entre 1920 e 1940 — estabeleceu-se no Sudeste asiático. no Canadá e nos Estados Unidos. Sua eficácia não oferece dúvida. Destes.31 Mas. mas. Die gelbe Cefahr (Gottingen. A Índia era o coração do império. vol.. da qual o livro de Sir Leo Chiozza Money. Birth Rate and Empire (Londres. abundavam as provas evidentes da realidade de pressões demográficas oriundas da Ásia.32 Podemos sorrir pela extravagância de linguagem que era uma característica das obras desse tipo. como Money acentuou. contra os congestionados milhões de povos de cor. a maior parte — em alguns anos. pág. quando. só havia 304 mil ingleses na Ásia. como Carr-Saunders observou em 1936. 14 Ibid. medidas semelhantes foram postas em vigor na Nova Zelândia. 34 Ibid.Rússia em 1905. O tema de todos esses livros era a fragilidade da posição européia no mundo. por essa altura. pois aí — como um escritor disse a respeito da Austrália em 1917 . o governo federal. face a uma população total de 334 milhões (ou menos de um por mil). mas uma quantidade substancial — talvez dois milhões. mesmo ali do outro lado do mar". V (1932). Cambridge History of the British Empire. 294. Não fossem essas restrições. introduziu em 1901 leis que impunham uma rigorosa política de "Austrália branca".34 Mas ninguém supôs que a exclusão pudesse ser uma solução a longo prazo e já em 1904 uma comissão real. que mesmo um observador tão prudente quanto CarrSaunders comparou a uma "esponja saturada". Gollwitzer. baseado na legislação anterior dos Estados individuais. World Population. num nível mais sóbrio. havia em 1907 apenas vinte e um servidores públicos britânicos contratados e doze agentes policiais também britânicos. pág. ante uma população nativa de perto de vinte e três milhões. criada para investigar o declínio da taxa de natalidade em Nova Gales do Sul. estruturados de maneira a excluir os não-europeus. mas nas extensas divisões administrativas de Bengala. era na Austrália e na Nova Zelândia que a atenção se concentrava.30 Deu rapidamente origem a uma literatura semipopular e largamente sensacionalista. em suas ramificações internacionais. onde ajudaram a aumentar a pressão da já densa população que se lançava sobre a Austrália e a Nova Zelândia.33 contava com um vasto e contínuo escoamento de emigrantes. 252. 33 Carr-Saunders. em especial. encontra-se em H."uma população inferior à da esvaziada Escócia" estava "lutando pateticamente por manter um continente como terra de homem branco. 31 Cf. A reação imediata dos países afetados foi levantar uma paliçada de rigorosas leis e regulamentos de imigração. 1962). com sua mensagem "Renovação ou Morte!" pode ser considerado como exemplo característico. A China. 190.

37 pois tudo o que ele revelou foi um dilema insolúvel. da distribuição do poderio armado". Sem dúvida. bem como as medidas necessárias para enfrentá-la. "Se a Austrália não duplicar sua população".... o qual. uma conclusão: "a manutenção das barreiras dependia. sustentou. pág. que a capacidade de defesa de suas áreas contra rebelião interna ou ataque de fora estava sendo desgastada.38 A única esperança de manter a posição imperial e o predomínio das potências ultramarinas européias (assim discorria o argumento) era manter sem desfalecimento o volume de emigração. 149-77. mediante o emprego pelas raças de cor dos métodos científicos de destruição criados pelos europeus. pois em seu critério não eram precisas "armas para destruir a vida e civilização européias. pág. cit. em última análise. de que a manutenção dessa estrutura dependia. a "ameaça" dos "ubérrimos milhões da Ásia" à Austrália e outras colônias sob controle europeu. pág. II. "dentro de uma geração nossos filhos estarão puxando jinriquixás". 30. por si mesmo. op cit. embora desprezando a afirmação de que "o fuzil ou a metralhadora. duas coisas ficaram desde logo claras: primeiro. págs. cit. Quando as potências imperiais que tinham até então exercido o controle nas áreas dependentes da Ásia e da África se viram a braços com um declínio absoluto em seus contingentes humanos. contudo. cit. op. o aeroplano ou a "química" podem armar um ataque amarelo contra o Ocidente". 83). prognosticou R. i. O Borrie.35 Dessa época em diante. o fator demográfico fez então valer seus direitos.opinião de que.39 Mas poderia confiar-se na Europa para fornecer o poderio armado necessário à defesa de seus territórios ultramarinos ? A triste realidade parece apontar na direção oposta. Pelo contrário. que "a possibilidade da Europa perecer. que o perigo real estivesse nessa direção. nenhum dos países coloniais do Ocidente podia-se gabar — nem mesmo a Alemanha nazista — de um índice substitutivo de natalidade. Só havia. tornaram-se um tema constante. debatido repetida e inconclusivamente por comitê após comitê. Casey em 1951. portanto. XXVII (1951). não deve ser inteiramente menosprezada". Assim foi que Sir Leo Money (op. cit. que existia um escasso limite para as reservas de potencial humano disponível para as funções normais de policiamento e administração em tempo de paz. quando os próprios brancos. estão instigando o suicídio da raça". fracassando um elevado índice de natalidade e uma imigração "branca" em larga escala.. era necessário encarar a possibilidade de que "a Austrália podia estar perdida para os britânicos". excetuando a Itália. G.. vol. porém. com o acompanhamento de prognósticos pessimistas lavrados por "especialistas" e publicistas. International Affairs. na Europa e em toda parte. vol. 38 Borrie. 37 Resumido por Hancock. pág. seria preciso algo mais do que o desgaste para demolir a estrutura imperial estabelecida. 200. comissão após comissão. mas quando a Segunda Guerra Mundial despedaçou o periclitante equilíbrio internacional. op. 35 36 . pág. Mas. 58. debatiam-se com uma crise de mão-de-obra e era completamente utópico procurar neles um fluxo de emigrantes. segundo. 39 Hancock op. constituía o malfadado e inesperado "produto final do imperialismo praticado pelas potências ocidentais. no século XIX". 177. Não acreditou.36 Seria ocioso acompanhar o curso do debate. Esse pessimismo converteu-se em tema constante.

do que a nova ênfase dada à Á- Borrie. 43 Eram fatos de grande importância e vasta aplicação. 45 Ver pág. Nada. verificou-se como já foi observado. págs.descalabro dos impérios europeus na Ásia.40 5 Tem sido afirmado que os "diferenciais no crescimento populacional" atuaram contra a Europa e a favor da Ásia. cf. 236. e ele prosseguiu concluindo que. e não há dúvida de que os fatores demográficos também desempenharam seu papel.. uma "mudança nas condições estratégicas". 44 Borrie. Thompson. Mas. também. é mais significativo na história russa. pág. pág. op. em 1896. quiçá com maior contundência. em vista da alteração no "equilíbrio do poder mundial". como a política americana tomava. 219 43 Ibid. 29. nos anos seguintes. não só a fidelidade dos Estados Unidos à economia atlântica enfraquecia. Mackenzie King chamara a atenção para o fato de que o "comércio canadense com o Oriente é hoje maior do que o comércio do Canadá com o Reino Unido. "uma mudança nas necessidades econômicas e na capacidade industrial relativa". O que Mackenzie King dissera a respeito do Canadá aplicava-se também à Austrália..44 E uma vez concluída a grande estrada de ferro trans-continental. ao provocarem a retirada britânica da Índia. primordialmente. era necessário que o Canadá "mantivesse presentes em seu espírito tanto suas costas do Pacífico como as do Atlântico". que podem ou não ser verdadeiros. cit.45 semelhante mutação no eixo econômico e demográfico dos Estados Unidos. simultaneamente. pág. em 1914.41 Uma conclusão freqüentemente mencionada diz que "os europeus ocidentais" vão ficar "do lado perdedor de um duelo de poder no futuro próximo". cit. 281. foi essencialmente um malogro demográfico. à parte semelhantes prognósticos. op. cit. os fatos são bastante eloqüentes.. Não foi por acaso que acontecimentos paralelos se observaram. pág. nesse período. 40 41 . op. Os australianos também foram forçados a "compreender que constituíam.42 Mais de uma década antes. pág. ao tempo em que Sir Wilfrid Laurier assumiu o cargo". e que "toda a questão de política nacional" deve ser considerada num contexto do Pacífico. 42 Ridell. na Rússia. Como Mackenzie King disse em 1939. 286-7. cit. a holandesa da Indonésia e a francesa da Indochina. porventura. 28.. uma orientação especificamente baseada no Pacífico. que ligou Nova York a São Francisco. op. isto é. 341.. à medida que o grande movimento de expansão para oeste progredia. uma nação do Pacífico". houve uma "alteração no equilíbrio mundial de poder".

em Illinois.. Na Califórnia. é que se encontram as esperanças da Rússia para o futuro. 46 . aos centros industriais americanos do Centro-Oeste. perto de quatro milhões. aí.5 milhões. aumentou a um ritmo fantástico para 15. The Diary of a Writer (trad. se bem que menos espetacular. Mas isso era apenas um começo e o verdadeiro salto para diante veio mais tarde. também neste caso. enquanto a população total. atingiu quase milhão e meio em 1900. o resultado foi um rápido incremento na população dos territórios asiáticos.5 milhões de emigrantes partiram para as terras além dos Urais. entre 1900 e 1914. A colonização da Sibéria e da Califórnia foram importantes acontecimentos demográficos. cit. não como um império de tribos nômades a ser conquistado e governado. Também aí o século XIX presenciou um substancial movimento de emigrantes. Para Dostoievski. um aumento de quinze vezes em cinqüenta anos. mais tarde intensificado pela reinstalação de indústrias a leste dos Urais. a Ásia central e do Casaquistão aumentou Cf. depois dos recuos provocados pela guerra e pela revolução que o desenvolvimento em larga escala das terras além dos Urais realmente se iniciou. 56) dá 3. a população da Ásia soviética aumentou em cerca de dez milhões. somando. outras estimativas atingem 4. de 3. Carr-Saunders (op. em 1848 e 1849. entre 1939 e 1959. Na Sibéria e na Ásia russa. Entre 1920 e 1940. Os cálculos são complicados pelos emigrantes que regressaram e pelo fato de que o número para emigrantes registrados constitui. o crescimento de população foi enorme e em ambas se operou um fenômeno essencialmente do século XX. entre 1940 e 1960. a população mais do que duplicou. mais do que na Europa.4 milhões para 6. o padrão demográfico. correspondentes. mas como um território a colonizar e desenvolver. Em primeiro lugar. 1048. e o movimento de uma vasta corrente de colonos para a Sibéria é paralelo à migração.7 milhões para 1800-1900. a população ainda era inferior a cem mil. Londres. Assim. Entre 1926 e 1939. em certos aspectos. Em ambas as regiões. a Califórnia converteu-se no estado mais populoso da União. finalmente. até que. certamente. uma estimativa feita por baixo.9 milhões. em resultado das perdas sofridas durante a guerra.7 milhões. a marcha para leste foi acentuada ainda mais. medidas oficiais foram tomadas para encorajar a emigração para leste. em 1861. forneceu um vasto reservatório de mão-de-obra para a colonização e. a Ásia era "a América ainda por descobrir" da Rússia. em 1963. 47 Os cálculos variam. 1949). através das Montanhas Rochosas para a Califórnia. A partir de 1929. para o inglês por Boris Brasol. pág.sia. contudo. Michigan e Ohio. o progresso mais importante ocorreria no século seguinte. disse ele.46 De fato. aumentou na União Soviética em apenas 9. onde mesmo depois da corrida do ouro. foi curiosamente semelhante. depois de 1939. o ritmo foi acelerado após a conclusão da estrada de ferro transiberiana e. Foi. com toda a probabilidade. após a eclosão da guerra com a Alemanha em 1941. a colonização e a industrialização da Ásia soviética converteram-se no objetivo primordial da planificação soviética. nos Estados Unidos. pág.5%. o rápido surto de população que se seguiu à emancipação dos camponeses. depois de 1881. O resultado foi o estabelecimento de novos centros a leste dos Urais. isto é.47 mas. provavelmente mais 3.

o processo de urbanização não foi menos intenso. Na Ásia soviética. tinham mais de doze milhões e meio um século depois. pela crescente importância do hemisfério sul. a modificação populacional foi acompanhada por uma mutação industrial e pelo aparecimento de novos centros fabris. a população alcançara dez milhões e em 1960 voltava a duplicar. a população era inferior em perto de vinte e seis milhões à dos Estados Unidos.9 milhões em 1900. particularmente. da Sibéria oriental 34% e a das províncias do Extremo Oriente não menos do que 70 %. que se desenvolvera mais cedo. Aqui. com perto de cinco milhões e meio de habitantes em 1850. em 1959. que tinha apenas trinta e sete famílias de pastores seminômades em 1926. em 1920.3 para 4 milhões. 48 . durante a década seguinte à introdução do primeiro plano qüinqüenal em 1928. 6 Essa grande revolução demográfica foi também uma revolução econômica. Segundo as estatísticas oficiais. 10.5 milhões em 1960.000. embora a população da América do Norte tivesse entretanto aumentado também de 117 para 199 milhões no mesmo período. triplicou a população para dezessete milhões em 1900 e a partir de então disparou. por P. Siberien als Zukunftsland der Industrie (Stuttgart.48 De fato.38%. com efeito.000 para 740. a de São Francisco. mas em 1960. mediante a criação de novos centros industriais no leste. A população de Los Angeles passou de 102.000 habitantes em 1939 e 284. registrava 145. Na Argentina. Por altura da Primeira Guerra Mundial. ou de 2.000 habitantes em 1896. pág. O crescimento da população da Argentina e do Brasil foi algo de fenomenal. Suas implicações foram reforçadas por mudanças paralelas em outras regiões. as modificações demográficas nos Estados Unidos e na União Soviética significaram uma transferência do litoral atlântico para o pacífico. já em 1935 um economista alemão afirmava que o governo soviético só seria capaz de levar adiante seu programa de "socialismo em um país". que até então absorvera apenas uma fração insignificante da população do mundo. em 1920. Tanto na Ásia soviética como no Oeste americano. ultrapassando os vinte milhões. o número subira para 887. Novosibirsk (anteriormente Novonikolaievsk). a produção industrial aumentou 277% na Ásia central e 285% na Sibéria.000 pessoas em 1900 para 2. tinha 5.000. 1935). a população de apenas três quartos de milhão existente em 1850 aumentara mais de seis vezes para atingir 4. Magnitogorsk. especialmente no século XX. de 342.000 em 1956. ultrapassara-a por sete milhões. Berkenkopf. Mas o incremento mais notável verificou-se nas Américas Central e do Sul. longe da Europa e fora da esfera européia de interesse. mais quatro milhões tinham sido adicionados. com apenas um quarto de milhão de habitantes em 1860. O Brasil. capital da Sibéria ocidental. A Austrália e a Nova Zelândia. Também nessa região estava surgindo um novo centro populacional.

mais de 37%) estão na Ásia. Tailândia. Em 1960. . onde houve uma subida vertical no número de cidades da categoria de 250-500 mil habitantes. cinco estavam na Europa (excluindo a Rússia européia). uma taxa de crescimento que nos Estados Unidos levou quase trinta anos a ser alcançada e na maioria dos países europeus pouco menos de um século. a distribuição fora radicalmente alterada. Nada menos de vinte e seis (isto é. realizou-se a uma velocidade muito maior do que tudo o que até então se vira e seu resultado foi intensificar a tendência existente para remover da Europa ocidental o centro econômico de gravidade. dessas. indicavam a crescente importância do hemisfério sul. em 1960. Petersburgo e Moscou) estavam situadas na Europa. as cidade da União Soviética mais do que duplicaram sua população. a revolução urbana na União Soviética e. três na Ásia. De vinte e oito cidades com mais de dois milhões de habitantes (em 1960). na ordem dos trinta e três milhões e. o total na América Latina subiu para oito (contra sete nos Estados Unidos e no Canadá) e mais três cidades de população superior a um milhão. Em especial. quatro na América do Norte. quando o total subira a sessenta e nove cidades. de 32 para 48% do total. 342-3 e 345-6. não fazem justiça ao desenvolvimento urbano na Ásia soviética. Paquistão. Indonésia) Europa (excluindo URSS) URSS (Europa e Ásia) América do Norte (EUA e Canadá) América Central e do Sul Oriente Médio (Egito. Distribuição de Cidades Com Mais de Um Milhão de Habitantes 1960 Ásia: Extremo Oriente (China. além disso. duas na Austrália e uma na África do Sul. Esses números são. voltara já a duplicar de novo. Japão. evidentemente. como já notamos anteriormente. Turquia) África do Sul Australásia Acima de 2 milhões de habitantes 7 4 5 2 4 4 1 1 28 1-2 milhões de habitantes 9 6 14 1 3 4 2 1 1 41 Total 16 10 19 3 7 8 3 1 2 69 49 Há listas úteis em Bevölkerungs-Ploetz. subseqüentemente. Coréia. havia quatorze cidades com uma população de um milhão ou mais. seis (incluindo S. O significado desse processo de redistribuição é realçado se considerarmos. o progresso da urbanização. três na América do Norte e duas na América do Sul. duplicara. e entre 1939 e 1959 a população urbana subiu ainda mais. págs. na China. Com efeito. onze na Ásia. com mais de setenta milhões de habitantes. Em 1900.49 Entre 1926 e 1939.volta de 1930. arbitrários em relação ao processo de urbanização como um todo. Pérsia. quatro na América Latina e duas na União Soviética. Filipinas) Ásia: Sul e Sudeste (Índia.

XII.....5 100 18.. Mas "imperceptivelmente. que as novas tendências demográficas levaram seu tempo a definir-se.. cinqüenta anos depois.7 199 6.5 16 100 2 995 Existe algo de irônico nesse processo.5 1 360 7. 1943).. era já evidente que as potências européias. The Passing of the European Age (Cambridge.. em última análise.5 6.3 214 55. Essa derivação. evidentemente. civilização e. declinou (como a tabela seguinte mostra) em 3. que se iniciou na transição dos séculos XIX para XX. que subira em 5% entre 1850 e 1913.. Fischer.0 1 679 8.8%. estimulados pelo capital europeu..8 199 6..6 6. A princípio.5 206 0.1 393 8.. dessa maneira.. haviam despertado na Ásia e na África forças que não ficariam contentes enquanto não E. Total da População Mundial 328 158 967 140 117 91 9 1810 % 1950 milhões % 1960 milhões % 14.5 13 100 2 476 15.. a expansão do poderio e tecnologia europeus parecia significar "uma ampliação de fronteiras bem distantes de um centro que se tornava cada vez mais forte. foi uma conseqüência do imperialismo que caracterizou a nova era industrial.. É certo. entre 1920 e 1960...... 50 . inaugurada por volta de 1870. que é impossível passar despercebido.. pelo potencial humano europeu e pelos padrões de vida europeus.. mas também a crescente importância de centros não-europeus de produtividade. Ásia África América do Norte América Central e do Sul Australásia e Oceania.. O centro "deslocou-se e transferiu-se para outros continentes" e. pelas invenções européias..5 168 5... está derivando "para países fora da Europa". Os chineses e japoneses. de poder. pág... que estavam operando contra a Europa.0 8.. O significado dessa evolução populacional é que indica não só a ação de diferenciais no crescimento populacional. escreveu ele. Mass.9 427 7.... essa evolução mudou de caráter"... puseram em marcha movimentos demográficos que não puderam sustar.A parcela da Europa no cálculo total da população do mundo. novos centros não-europeus e extra-europeus passaram a existir. A conclusão a que esses fatos parecem conduzir-nos foi assinalada por um historiador americano já em 1943.2 56. longe de terem criado (como muita gente esperava) um mundo à sua própria imagem e semelhança. só pediam que lhes fosse permitido evitar todo o contato possível com o mundo exterior e viver por seus próprios recursos à maneira tradicional. As potências ocidentais forçaram-nos a abrir seus países à penetração do Ocidente e.... URSS... e é digno de nota que o declínio se acentuou na década 1950-60. 1920 milhões Europa.0 254 6.7 181 53. em meados do século XIX. quanto mais ampla fosse a área dominada".3 7.50 O centro de gravidade.0 162 0..9 0. Mas.

desafiassem a hegemonia política da Europa. Ao mesmo tempo. Durante os cem anos que decorreram entre 1815 e 1914. na realidade. pelas diferenças de capacidade industrial. em terras não-industralizadas. Por si só. as vantagens que tinham garantido o predomínio europeu — nomeadamente. se a Grã-Bretanha tivesse continuado a ser um país de doze milhões de habitantes. em considerável parte. é bastante óbvio que. também. as diferenças de população foram neutralizadas. visto que em breve se evidenciou não serem as habilitações técnicas um monopólio de qualquer parte do mundo. Mas esse predomínio. que no caso de uma necessidade urgente o capital podia ser acumulado a grande velocidade — embora à custa. . e o significado da mera quantidade é freqüentemente discutido. um fator temporário. o período de hegemonia política européia aproximava-se do seu final. nem sequer um alto grau de industrialização tê-la-ia habilitado a atingir a posição dominante que ocupou na segunda metade do século XIX. apenas. estava sendo ultrapassado pela era da política mundial. o monopólio da produção de máquinas e o poderio militar conferido pela industrialização — retrocediam e os fatores demográficos subjacentes reafirmavam sua importância. e o equilíbrio de poder na Europa. com relativa facilidade. Não é exagerado afirmar que a revolução demográfica do meio século entre 1890 e 1940 foi a mudança básica que marcou a transição de uma era da história para outra. os fatores demográficos são antes uma condição prévia do que uma causa do poder político. Assim. era. como em 1801. sendo fácil transferi-las de um país para outro. Não obstante. e países industriais como a Inglaterra e a França puderam ganhar o controle de populações muito maiores. que durante tanto tempo governara as relações entre os Estados. tanto pela Rússia Soviética como pela China. de grandes sacrifícios humanos. à medida que o século XX avançava. que parecia constituir uma permanente desculpa. Também foi demonstrado.

sendo. um sistema multilateral de equilíbrio.2 Cf. e.1 Hoje isso já deixou de ser há muito. 1961). a época de Khruschev. F. foi substituído por um sistema de bipolaridade global entre duas grandes potências extra-européias. Hudson. somos hoje confrontados pela existência de duas grandes superpotências. o livro de Dehio foi subseqüentemente traduzido para o inglês. mas não eliminado.IV DO EQUILÍBRIO EUROPEU DE PODER À ERA DA POLÍTICA MUNDIAL Transformação no Ambiente das Relações Internacionais Para alguém que observar o mundo de 1960 e o comparar com o de 1870 ou 1880. o colapso do antigo sistema de equilíbrio de poder foi algo de evidente para todos e também foi claro que esse colapso não resultou apenas da própria guerra. e o enfraquecimento da Rússia Soviética pela revolução e pela guerra — tinham disfarçado. 1494-1945 (Londres. os Estados Unidos e a União Soviética. Hölzle. No fim da Segunda Guerra Mundial. a União Soviética e os Estados Unidos. do lado histórico. depois de 1919. em termos gerais. Há setenta e cinco anos. embora a Rússia tenha um pé na Europa. cujo centro era a Europa. cuja proeminência se baseia no quase-monopólio de armas nucleares e dos sistemas de expedição para lançamento de armas nucleares. Gleichgewicht oder Hegemonie (Krefeld. pelo contrário.: Traduzido para o português e publicado por Zahar Editores. págs. Paris e Berlim. A estrutura da política das grandes potências e suas modalidades. nada será mais impressionante. Die Revolution der 1 . quiçá. The Far East in World Politic (2. 1939). do que a mudança que se operou na estrutura das relações internacionais. Assim. são essencialmente distintas das da época de Bismarck. não podendo nenhum deles ser realistamente classificado como europeu. Em vez de um arranjo de forças. mesmo aproximadamente. 168-84 (N. E. do E. foi a obra de Ludwig Dehio. é significativo que ambas as superpotências sejam grandes Estados federados. verdadeiro. consideradas as mais úteis: Geschichte der zweigeteilten Welt (Hamburgo. Entre suas obras sobre o assunto. The Politics of Power in Europe. talvez.ª ed. Londres. com o título The Precarious Balance. G. as seguintes poderio ser. 1964). o problema tem sido analisado de diversos ângulos por outro autor. 1955). 74 2 No mundo de fala inglesa tem havido bastantes discussões sobre a bipolaridade como problema da política contemporânea. 1948). o mapa político da Ásia e da África era traçado por estadistas em Londres. que "as questões do Extremo Oriente eram decididas na Europa". A primeira tentativa para tratar o assunto. pág. no espaço de meio século. a conseqüência de um muito mais remoto processo de erosão que circunstâncias anormais — o isolacionismo dos Estados Unidos. maliciosamente. Rio. para elucidar sua origem. 1963).. em proporções continentais. Desde então. e O general russo Dragomirov estava apenas ecoando a crença de sua época ao anunciar. mas muito pouco se fez ainda. cujos argumentos resumi para os leitores ingleses em History in a Changing World (Oxford. a supremacia das potências européias não sofria contestação.

Desde o princípio do século XIX. Encarar a divisão do mundo em dois grandes blocos de potências como simples resultado da decadência da Europa é uma interpretação demasiado negativa. Muito antes de se poder pensar no declínio europeu — de fato. págs. 111. porventura. 90. citase a sua fragmentação num crescente número de unidades pequenas e médias. durante um século. e a que usualmente se destaca. ao tempo da independência da América Latina. um impulso máximo — a política internacional já vinha abrindo caminho no quadro europeu. demasiado pequenos e divididos. 208. na época em que suas energias estavam desenvolvendo. 234. já foi assinalado. a Rússia e os Estados Unidos emergiram como protagonistas. 237. ficaram para trás. outra. em escala mundial. os objetivos tradicionais da política européia já não constituíam o único nem necessariamente o principal critério. com os quais as potências européias só indiretamente estavam relacionadas. em que. primeiro. 3 resultou em maior divisão. Historische Zeitschrift CLXXXVIII (1959). justapondo-se. "Das Ende des europäischen Staatensystems". embora a auto-destruição da Europa através de suas lutas intestinas seja habitualmente destacada como causa principal de seu declínio. toda a guerra colonial. O primeiro deles foi a concentração de poder nos dois flancos — um processo. os familiares conflitos entre as potências européias. "Der Dualismus der heutigen Weltreiche ais geschichtliches Problem". exemplo mais claro do que o acordo feito em 1915 para entregar Constantinopla à Rússia — um acordo que invertia o que. págs. págs. é possível distinguirmos duas esferas políticas. Somado a isso. independente do que se passava na Europa. 566-93. Archiv für Kulturgeschichte XL (1958). Disso não existirá. mais decisivos. Em última análise. e depois a França. 346-68. a qual radicalmente alterou o caráter e as condições das relações internacionais. o maior conflito global. quando a Espanha. . na criação da cadeia de Estados da Europa oriental — Estados que eram demasiado fracos.1 Não há dúvida de que a mudança verificada na posição política da Europa foi uma revolução de primeira grandeza. Mas. 194. 1963). fora considerado o princípio básico da política européia. 3 Dehio. nos ajustamentos de paz de 1919. a GrãBretanha. em maior coesão. o acordo de 1915 foi uma zweigeteüten Welt (Hamburgo. que culminou. realmente. Toda a guerra européia. O segundo foi o surto de novos centros de gravidade política e novos campos de conflito na Ásia e na região do Pacífico. é a exaustão da Europa em duas guerras mundiais. para poderem manter sua independência. a longo prazo. The Precarious Balance. O advento da era da política mundial significou que novos interesses entravam em jogo e que os antigos eras vistos a uma nova luz. mas distintas: uma. dois outros fatores foram. em muitos aspectos. Como foi que isso aconteceu? A explicação mais óbvia.

fora a transformação do equilíbrio de poder na Europa. num sistema mundial. P. 359. Taylor. gradualmente. o admirável resumo das opiniões alemãs em L. No século XIX. 42-60. 1954). afinal. 1959). de modo flagrante. em seus esforços para manterem o equilíbrio. A Europa.5 Os acontecimentos dos últimos cinqüenta anos mostraram que essas opiniões se baseavam numa ilusão. o Grande. cf. "as forças motrizes eram ainda as mesmas". J. A. simplesmente. o que principiara como sistema europeu parecia fundir-se. à medida que as mais antigas potências. o qual. simplesmente.4 Quando. mobilizavam novas áreas e novas forças para contrabalançar as antigas. em "um equilíbrio que envolvia o mundo inteiro". a Turquia já fora mobilizada contra Carlos V.conseqüência da ocupação britânica do Egito. por outras palavras. Não foi ele confirmado. levaram o equilíbrio de poder para o ultramar. Durante os anos intermédios do século XIX. que não se aplicava a uma geração antes e deixou de se aplicar uma geração depois. com medo de que sua posição relativa no concerto de forças diminuísse. mas ninguém duvidava de que "as decisões finais continuariam sendo tomadas na Europa". tal como se desenvolvera durante os últimos quatro séculos. impunha-se a necessidade de repartir a África a fim de que o equilíbrio de poder continuasse funcionando como antes. de um plano europeu para um mundial. em 1882. agora não só num plano europeu. o resultado. pela partilha da África? Não se tratava simplesmente de que cada nação européia reclamava uma parcela nos despojos da África. seria transpor. no coração da Europa. esse processo evoluiu ainda mais. Desde o século XVI. Já em 1895 Salisbury dissera que estava disposto a entregar Constantinopla à Rússia. págs. em conseqüência da luta das potências para impedir a hegemonia da França. para o estadista. a abertura dos Estreitos "não alteraria. mas global. Dehio. The Struggle for Mastery in Europe. inundando o mundo.A Rússia entrou no concerto europeu na época de Pedro. de acordo com o Comitê de Defesa Imperial. 1848-1918 (Oxford. o grande movimento de expansão e invasão européia na Ásia e na África atingiu o auge. Assim. quando o equilíbrio de poder gravitava em torno do domínio da Itália. como acontecimentos desenrolados fora da Europa influíam na política tradicional européia. Esta era a opinião que prevalecia quando começou o século XX. 5 Cf. "a projeção do sistema europeu no mundo exterior". em 1895. Germany and World Politics in the Twentieth Century (Londres. Os conflitos da Inglaterra e da França no novo mundo. no século XVIII. o equilíbrio europeu de poder. Quando Salisbury se desinteressou pelos Estreitos. 382. 4 . a atitude predominante em relação ao futuro da Europa fora caracterizadamente pessimista. 540-3. no final do século XIX. fundamentalmente. desde Tocqueville a Para a questão de Constantinopla e dos Estreitos. mais do que isso. págs. acreditava-se geralmente. Concretizaram uma constelação temporária de forças. a presente posição estratégica no Mediterrâneo". extravasara de seu leito. em 1903. o círculo em que ele se exercia vinha-se ampliando gradualmente. tudo o que acontecera. demonstrou. Embora a fase de política internacional incluísse agora o mundo inteiro. foi porque a posição adquirida pela Grã-Bretanha no Canal de Suez assegurava a ligação com o império ultramarino. era o interesse essencial da Inglaterra.

6 Depois de 1870. dando origem a uma extensa literatura de considerável interesse intrínseco. enquanto a expansão industrial na Rússia — embora arrancando. abalarao até os alicerces. a força dinâmica da industrialização e da tecnologia não estava. A Guerra da Criméia. confinada à Europa. págs. entre 1870 e 1914.Constantin Frantz. essa opinião superestimava o feito de Bismarck. de maneira firme. relativamente lento. apesar do papel que desempenhou na Europa. até então. no mesmo período. mas. Se. seus rivais europeus. como em grande parte da Europa ocidental. por volta de 1871. Estados Unidos. excedendo a de qualquer outra potência. a característica mais significativa. Bismarck era exímio na arte de explorar um impasse entre as grandes potências existentes a fim de ganhar vantagens e melhorar a posição da Prússia. rapidamente. jamais atingiu.8 Têm-se verificado. o mesmo nível ou grandeza das grandes potências mundiais. 707-8. estava bem longe de ser esse o caso.7 Além disso. Houve duas razões principais para isso.A primeira foi a imensa vantagem que pareceu resultar para as potências européias da grande revolução industrial e tecnológica que estava em marcha. de um nível muito inferior — revelou uma taxa anual de crescimento. 217. Bismarck criara um Estado bastante forte não só para dominar a Europa. incluindo os Estados Unidos. e a dos Estados Unidos para quase 80 milhões. recentemente. Ao mesmo tempo. Em primeiro lugar. Golo Mann). Criando o novo império alemão como sólido e poderoso bloco no próprio centro do continente. a tendência para destacar a famosa declaração de Tocqueville em sua conclusão de Democracy in America (1835) como excepcional. Dehio. no princípio do século XX. mas também para desafiar e competir em termos de quase-igualdade com as grandes potências extra-européias. A população da Alemanha de 56 milhões ultrapassou a de todos os demais Estados europeus. A segunda foi a restauração aparente do sistema europeu. Como as tentativas alemãs de 1914 e 1939 para ingressar nas fileiras das potências mundiais demonstrariam. muita gente assim o julgou. foi o ritmo acelerado de produção industrial na Rússia e nos Estados Unidos. págs. mas. The Precarious Balance. realmente. Não menos significativo foi o crescimento diferencial das populações. havia outros fatos importantes na situação. A análise do futuro da Europa era contínua e vivaz. sua taxa de natalidade começara a declinar antes de 1914. 7 Cf. 1960). e não podia estar. não está de todo errada. Bismarck reequilibrara a situação e dera à Europa um novo acesso de força. vol. 8 Reuni alguns números em Propylaen Weltgeschichte (ed. ao invés do que se esperava. o pessimismo deu lugar ao otimismo. Essa opinião. Se neste último país o avanço fora. entre 1890 e 1914 não só igualou como ultrapassou. evidentemente. as grandes nações industriais da Europa ocidental tinham progredido. A população do. o sistema pareceu ficar restabelecido. ao passo que a população da Rússia subia de 72 para 116 milhões. Contudo. A produção americana de carvão era bastante inferior a da Grã-Bretanha em 1890. escritor após escritor predissera a decadência da Europa. Tal como Frederico II. nos vinte anos após 1870. mas o Reich por ele criado. 212. excetuando a Rússia. claro. a par da ascensão da Rússia e dos Estados Unidos como as duas grandes potências mundiais. mas em 1914 igualava as produções somadas da GrãBretanha e da Alemanha. VIII (Berlim. 111. depois de 1890 — além do início da industrialização nipônica —. era ainda um pouco mais apenas do que dois terços das da 6 .

a ascensão da Rússia ao plano de potências mundiais foram. esperava que a federalização salvasse a Europa e a habilitasse a reter a paridade com as duas grandes potências mundiais que a flanqueavam. e não acabar como "uma segunda Holanda ou uma segunda Suíça". numa posição precária. Quanto à Inglaterra. antes dele. argumentou Hitler em 1928. É impossível subestimar a importância dessa mutação. até aos dias de Hitler.10 A Rússia e os Estados Unidos. encontrava-se também. uma nova potência de tais dimensões nasceu que só ela ameaça subverter todo o antigo poder e hierarquia dos Estados". consciente de suas grandes potencialidades. R.ª ed. Seeley esperava. 103. págs. em 1888. a longo prazo. disse Seeley. ao mesmo tempo. em virtude do crescente poderio dos Estados Unidos e da Rússia. desde o acesso ao trono de Guilherme II. a partir de 1890. Já em 1883. "com a União Americana. paralelamente. era devido à força recuperada pela Alemanha de Alemanha e Inglaterra somadas. transformando o império colonial em uma "Bretanha Maior". insignificantes e de segunda ordem". aproximadamente. e esse fato insuflou uma qualidade explosiva à política alemã. 100. Hitler's Secret Book (Nova York. uma vez que seus potenciais sejam mobilizados pelo "vapor e eletricidade" e uma rede de estradas de ferro. mas. 9 Cf. a Rússia e a América voltavam a alcançar a Europa. mas sua produção industrial já excedia o total conjunto registrado por aqueles dois países. pois. Em parte. Seeley. no apogeu da época de expansão européia. de fato. exatamente como Frantz. pudesse juntar-se "à Rússia e aos Estados Unidos na primeira fila". J. Entre os contemporâneos de Seeley. aparentemente. tal como já fora previsto. 1919). já são "enormes agregados políticos". 1961). contudo. mas.9 2 A ascensão dos Estados Unidos e. tem de agir rapidamente. The Expansion of England (2. os acontecimentos decisivos que propiciaram o advento de um novo período na política mundial. sustado. "reduzirão completamente as dimensões de Estados europeus como a França e a Alemanha e empurrá-los-ão para uma categoria secundária". cônscia de que dispunha de um prazo definido para explorar sua superioridade. Se a Alemanha quiser ocupar seu lugar "na ordem futura dos Estados mundiais". nitidamente. qualidade essa que desempenhou importante papel na determinação do curso real dos acontecimentos. mas Seeley tinha a percepção nítida de que se a Inglaterra não lograsse concretizar essa transformação estaria também votada a cair nas fileiras dos países "inseguros. 18. Londres. 158. havia três razões principais. que por meio de uma espécie de "união federal". poucos houve que compartilhassem dessa visão.. . págs. Embora suas vitórias em 1870 e sua rápida industrialização tivessem levado a Alemanha a novas eminências. Para isso. 83. 10 Cf.Assim. o eclipse da Europa fora previsto por Sir John Seeley.

projetou suas vistas para a Ásia. cf. sempre foi encarada em relação à política do Pacífico e não. e a aquisição dos litorais oeste e noroeste. era devido a uma tendência inata para subestimar os Estados Unidos como fator de influência nas relações internacionais e. em Studies in Diplomatic History. como um arredondamento do território continental. tenha explodido subitamente — e sem precedente — em 1898. Confinamos com ilhas que têm relação com a costa noroeste idêntica à das Índias Para mais detalhes. para considerar a emergência dos Estados Unidos. assim aconteceu em 1854. nas quais seus concorrentes na política mundial se envolvessem. 1961). através do Pacífico. na altura da Guerra da Criméia. Sarkissian (Londres. a tal respeito. uma determinação de desempenhar parte ativa na política internacional. a China. Mas a política americana. como freqüentemente se sugere. O. concentrara-se em obter para os Estados Unidos o controle do continente norte-americano. As tradições imperialistas e. Nem queria dizer que os Estados Unidos não estivessem preparados para usar quaisquer complicações na Europa. fluíram ocultas durante uma geração. Em parte.Bismarck e à última grande erupção do expansionismo europeu. meu artigo "Europe and the Wider World in the Nineteenth and Twentieth Centuries". Nenhuma dessas suposições resistirá a um exame mais atento. México e Canadá foram seus objetivos imediatos. durante a guerra de 1812. que se aventurara no Pacífico. é certo que. depois da compra da Luisiana. escrevia ao Presidente Madison: "Nós confinamos com a Rússia. e ainda mais ostensivamente em 1901. organ. pag. depois da guerra civil. o Capitão David Porter. Quanto aos Estados Unidos. Cuba. mas não se tratava de algo que. o Japão. o Texas. quando a Inglaterra estava empenhada na Guerra dos Bôeres e confrontada por uma Europa hostil. finalmente. sempre fora um princípio estabelecido da política americana manter-se alheia às complicações européias. enquanto os Estados Unidos inauguravam um período de consolidação e davam início ao desenvolvimento intensivo de sua economia interna. e assim ocorreu novamente em 1871.11 Nada poderia ser mais enganador. em sua perspectiva. em suas primeiras fases. ainda predominante. nunca foi exclusivamente continental. que parecia contradizer todas as previsões de decadência da Europa. Já em 1815. da Califórnia e do Oregon. para considerá-los desinteressados de todas as questões situadas fora do continente americano. de seu isolamento continental. o Oregon. delas extraindo vantagens para seus próprios interesses. era também devido à tendência dos europeus para só encararem as questões européias como de importância decisiva para os problemas mundiais. remontam aos princípios da História dos Estados Unidos. 11 . como um fenômeno do passado mais recente. mas esse princípio. É verdade que o imperialismo americano. especialmente. de modo algum corresponde a renunciar à intervenção em questões de outras áreas do mundo. aliás. desde os tempos de Washington. E. Desde o início. do que a tendência. embora por um prisma estreitamente europeu possa parecer isolacionismo. conjugada com estas. simplesmente. por A. Já vimos que os efeitos da unificação alemã realizada por Bismarck foram limitados no tempo. em busca de presas britânicas. a Califórnia. 368.

em nenhuma parte essa concepção foi mais luminosamente expressa do que num artigo escrito pelo jornalista do Sul. sobre a América do Sul. van Alstyne. a marinha americana punha uma esquadra operando ao largo da costa ocidental da América do Sul. 14 Cf. colocou o crescente império americano em contato — e freqüentemente em conflito — com os outros imperialismos do século XIX: francês e espanhol. com efeito. evidentemente. o caminho para o poder mundial. Foi no Pacífico que os Estados Unidos trilharam.. 152. Em última análise. pág. e um sucessor de Washington ascenderá ao trono do império universal!13 Esse exuberante e fervoroso expansionismo. 12 13 . e os arrogantes déspotas japoneses. mas. J. Mas embora as inter-relações políticas. britânico e russo. serão iluminados nas doutrinas do republicanismo e da lei do voto. O conflito anglo-russo na Ásia central — na Pérsia e no Afeganistão — acrescentou novas dimensões extra-européias. A águia da república pousará no campo de Waterloo.. 125. o intercâmbio com a China e as Índias Orientais tinha atingido um ponto que justificava a criação de uma esquadra autônoma para aquela zona.. As portas do império chinês devem ser derrubadas pelos homens de Sacramento e do Oregon.Orientais com os estados atlânticos. depois de traçar seu vôo entre os desfiladeiros do Himalaia ou dos montes Urais. 14 e era possível observar que era na esfera mais ampla. em 1835. Europabild und Europagedanke (Munique. em meados do século. na época da Guerra dos Sete Anos15 — a fusão das diversas áreas em um só sistema político global ocorreu já no final do século XIX. pág. fossem plenamente discerníveis muito cedo — já existiam. o equilíbrio de poder entre os Estados europeus podia agora ser alterado "não só no Eider e no Pó. mas também no Amur e no Oregon". Como Constantin Frantz observou em 1859. seus olhares estendiam-se para além do Pacífico. The Rising American Empire (Oxford. pela primeira vez. 1951. onde o papel da Europa era relativamente restrito. e não no cada vez mais exíguo palco europeu. 377. 1960). "12 Foi um tema que não esmoreceu. 20. como Seeley assinalou. Em 1821. R. A Europa não deixou de ser logo. a rivalidade das potências no Extremo Oriente adicionou ainda outras. que em seus múltiplos impulsos e arremetidas não reconhecia limites geográficos. em diferentes áreas ou regiões. D. B. Ibid. 15 Cf. em 1850: Temos um destino a cumprir. O resultado foi um desvio no eixo da política mundial. Os americanos tinham ganho consciência da unidade das forças em busca de expansão e de seu significado em termos de um império americano universal. inimigos da cruz. As ilhas Sandwich são tão necessárias para o nosso comércio oriental quanto as ilhas do Golfo para o ocidental. um centro principal de rivalidades internacionais.. H. um "destino manifesto" sobre todo o México. De Bow. a mutação para um sistema global de política internacional foi uma conseqüência do desenvolvimento das comunicações mundiais — um desenvolvimento que. que as grandes decisões do futuro seriam tomadas. sobre as Índias Ocidentais e o Canadá. W. Gollwitzer. pág. pág. mas já não era o único e cessaria rapidamente de ser o decisivo. acima.

os Estados Unidos estavam ainda confinados ao primeiro. op. que eclipsavam as outras. mas uma comunidade de poder. Parry.19 ele estava anunciando. pág. na realidade. o que resultou. II. 3 Quando ocorreu essa mudança ? Ouvimos falar muito de "política mundial" nas décadas finais do século XIX. do sistema tradicional europeu.16 Esta a grande mudança que se observa ao comparar-se o mundo de 1815 com o de 1900. 1926). Depois de 1815. intercomunicantes mas separados. nas esferas em que elas operavam. o Presidente Wilson proclamou que "não deve haver um equilíbrio de poder. o caso já deixara de ser o mesmo. n (Nova York. The Precarious Balance. as deixava em posição de melhor regularem as questões mundiais em seus próprios interesses. no início de 1917. em 1900. Mesmo a ocupação russa da imensa região de Amur. de simples pano de fundo. Cassius Clay. o europeu. pois como disse o embaixador americano em São Petersburgo. não perturbou as amistosas relações entre os Estados Unidos e a Rússia. E. com uma nova fase da expansão européia. Baker e W. (1943). foi encontrarem-se face a face com potências de estatura continental. segundo os princípios do equilíbrio europeu de poder.17 E entre os distintos teatros — isso é uma explicação da natureza geralmente pacífica das relações internacionais. em 1860. 179-80. 54. vol. págs. pág. no último.18 Mas. mas seria um erro tomar o novo slogan demasiado ao pé da letra. com efeito. A. na China. que a velha estrutura de relações internacionais ficara obsoleta numa época de política em escala mundial. "Cassius Clay's Glimpse into the Future". Cf. e enquanto as duas grandes potências nos flancos da Europa.. 16 17 . Dodds). os acontecimentos políticos eram representados em dois palcos. as potências mundiais não aceitaram a validade.teve o significado de que o oceano Atlântico "encolhera até o ponto de nos parecer escassamente maior do que o mar entre a Grécia e a Sicília". 19 The Public Papers of Woodrow Wilson (R. cit. a Inglaterra e a Rússia. não rivalidades organizadas. durante muito tempo. apenas. 18 Cf. pág. 410. S. na maior parte do século XIX — havia espaço para acomodar todo mundo. por exemplo. o Extremo Oriente era bastante vasto para os dois países. 345. desempenhavam seus papéis em ambos os palcos. ao passo que as potências continentais européias atuavam. ao colocar o mundo inteiro ao seu alcance. outro passo na ampliação do equilíbrio europeu de Seeley. do qual o primeiro não passara. mas uma paz comum organizada". The New Democracy. total ou predominantemente. Além disso. Quando. Os espaços entre os diversos teatros tinham sido ocupados. o palco mais vasto da política mundial emancipou-se do mais exíguo. O que designamos por era do imperialismo principiaria. e embora para as potências européias parecesse que essa contração. Russian Review. as áreas do globo tinham encolhido. Dehio.

Estavam diretamente interessados porque todos eles eram potências do Pacífico. em termos de Cf. incitou à ação as potências extra-européias. atingindo as poucas áreas que restavam ainda livres de controle europeu. Os três países imediatamente interessados eram o Japão. demonstraram constituir um ponto decisivo. foi realizada com o objetivo puramente europeu de enfraquecer a pressão russa sobre a fronteira oriental da Alemanha. pág. o temor de que o continente chinês caísse sob controle europeu. Taylor. Japão e Estados Unidos. é improvável que sua sorte exercesse grande efeito no existente equilíbrio internacional. em 1895. 21 Cf. as mesmas potências voltaram os olhos para a China e iniciaram o processo de reproduzir aí o modelo africano. Na Ásia. como na África. finalmente. Geschichte der zweigeteilten Welt. pág. Tal foi o significado. S. mas encontravam-se "tanto em sua casa como em Moscou". o fator condicionante era ainda o equilíbrio europeu e todo o movimento político na Ásia ou na África era friamente julgado à luz das repercussões que pudesse ocasionar na Europa. As potências européias tinham podido intervir na África e reparti-la de conformidade com suas idéias próprias de equilíbrio de poder. os acontecimentos no Extremo Oriente. davam cartas. a posição da Rússia. porque nem os Estados Unidos nem a Rússia estavam diretamente envolvidos nas questões políticas africanas. II. 125. não eram só as potências européias que. No Extremo Oriente. pág. 486. a primeira grande intervenção da Alemanha no Extremo Oriente.21 Se a China e o Extremo Oriente redundassem. cit.poder em regiões até então inatingidas. op. entre 1898 e 1905. O resultado foi o aparecimento de um sistema de política mundial que acabou por deslocar. depois de 1895. vol. pois na Ásia — como o conhecido publicista Michael Katkov se preocupou em sublinhar — os russos não eram "intrusos estrangeiros. pontos de apoio contra rivais europeus ou contornar-lhes os flancos. como a África. com uma contínua fronteira terrestre e uma costa no Pacífico tão extensa quanto a da Noruega. um derradeiro e precipitado esforço para conseguir. constataram rapidamente que enfrentavam uma situação política radicalmente distinta. de novo. o sistema europeu.. numa espécie de dependência repartida entre as potências européias. como a Inglaterra na Índia". 20 .20 O que provocou a mudança decisiva foi a entrada em cena do Japão e dos Estados Unidos. Quando. Aí. entre 1895 e 1905. pág. 357. Assim. 1954). sua participação no protesto das potências européias contra o tratado de Shimonoseki. que não estavam dispostos a ficar à margem enquanto as potências européias dispunham a seu bel-prazer de áreas que ambos consideravam vitais para sua prosperidade e segurança próprias. Assim. a Rússia e os Estados Unidos. pertencia ainda ao futuro. A ameaça de partilha da China. O que impediu que tal acontecesse foi a reação das potências não-européias. era basicamente distinta da de qualquer outra potência européia. Oncken. A. vindos de longe. Jerussalimski. Das Deutsche Reich und die Vorgeschichte des Weltkrieges. na acepção em que hoje entendemos o termo. a Rússia agia na função de potência asiática. E. Holzle. Die Aussenpolitik und die Diplomatie des deutschen Imperialismus (Berlim. A era da política mundial. 431.

Para medir com rigor a importância da crise no Extremo Oriente. para descrever a situação de 1882 a 1895 ou 1898. talvez. 257. do que a própria Europa. por enquanto. The Political Collapse of Europe (Nova York.história mundial. Holbohn. os Estados Unidos vinham ativamente interferindo nas questões do Extremo Oriente. um centro de rivalidade e conflito internacionais. 1963). visto partir da suposição. tiveram cinco importantes conseqüências. em muitos aspectos. tinham para as potências extra-européias. no Extremo Oriente. Hinsley. em 1905. em quarto lugar. embora as potências européias pudessem encarar isso como secundário e subordinado. de que a Europa era ainda o centro.23 que "a procura de equilíbrio e poderio" se estivesse "ampliando para além do apertado círculo das potências européias". o qual. na maioria dos casos. Que havia de novo na situação que se processou no Extremo Oriente.22 Anteriormente. simplesmente. o mundo sobre o qual a Europa fizera pressão. é claro. Nem foi. O mundo recebeu. uma questão de conhecimento comum — mas através da mais ampla perspectiva da história mundial. entre 1898 e 1905. Primeiro. 24 Cf. H. até que. há mais de duas ou três gerações. sem dúvida. F. H. dos acontecimentos da Ásia. uma importância maior. 146 e segs. Power and the Pursuit of Peace (Cambridge. dado que. começava agora a exercer pressão sobre a Europa. Segundo. sobretudo. entre 1898 e 1905? Não foi o fato de que. durante esses anos. pág. esses acontecimentos implicaram. Também não foi o fato de ter resultado na primeira guerra entre uma grande potência ocidental e uma não-ocidental. cuja validade se extinguiu rapidamente. que sua esfera de ação se contraía à medida que novas potências extra-européias passavam ao primeiro plano. devemos examiná-la não só em termos de política européia — embora suas repercussões nos alinhamentos europeus sejam. o estímulo que deram ao nacionalismo chinês24 — pode-se dizer que os acontecimentos no Extremo Oriente. estabeleceram. do presente livro. devemos olhar para outros lugares mais distantes. quando a realidade nos mostrava que a primazia da Europa estava chegando a seu termo. Esta última fórmula será adequada. o primeiro vislumbre da futura era global. Desse ponto de vista — e deixando de fora. colocando-os face a face como rivais no Pacífico. importantes eventos na história das relações entre a Ásia e a Europa. "A Revolta contra o Ocidente". os Estados Unidos terem saído do isolamento. como tantas vezes se afirma. 22 23 . conforme afirmação recente. como rivais da Grã-Bretanha. Capítulo VI. marcaram o final da longa amizade e entendimento recíproco entre a Rússia e os Estados Unidos. especialmente os Estados Unidos. por fim. finalmenCf. propiciaram a formação de um vínculo permanente entre os problemas europeus e mundiais e. a subordinação gradual dos primeiros aos segundos. americanos e asiáticos conhecera tal tipo de intercepção. a perda da primazia européia. 1951). mas é insatisfatória como descrição da situação criada depois de 1898. e que o sistema de equilíbrio da Europa deixara de determinar a estrutura da política mundial. Logo. págs. Terceiro. pág. durante um século. como já ficou observado. nunca a política de europeus. 69. embora a ascensão japonesa ao plano de grande potência e sua vitória sobre a Rússia fossem. a longo prazo.

das bases russas de engenhos teleguiados. habitualmente. 351-2 26 Tem havido muitas discussões sobre a origem da política de "porta aberta". sobre questões situadas fora do continente americano. quando anexaram as Filipinas e Guam. págs. da simpatia e benevolente neutralidade. R. Esse foi o resultado mais significativo da guerra russo-japonesa. alguns anos depois. Keith. A nota de "porta aberta" subscrita por Hay. Churchill podia confiadamente predizer que o Japão ficaria na dependência da Grã-Bretanha por muitas décadas vindouras. podemos observar alterações fundamentais na situação mundial.te. o que fez foi gerar uma força que não podia controlar. em 1962. Por volta de 1905. Dulles. em caráter geral. e foram os Estados Unidos que. é digna de registro como a primeira ocasião em que os Estados Unidos se pronunciaram. foi como se.e não o contrário. tivesse engendrado uma hábil. a Europa. astuciosa manobra contra a Rússia. C. cf. cf. The Far Eastern Policy of the United States (Nova York. America's Rise to World Power (Nova York. europeu em sua origem e dependente para a sua continuação da hegemonia da Europa. E. Griswold. Estou inclinado a concordar com F. 1954). no ano seguinte. advertiram as potências para se manterem afastadas da China. Depois de 1905. P. Até então. II. na realidade. por último. onde se anunciava o princípio da integridade e inviolabilidade da China. passou a ser o apêndice de duas potências mundiais. a Rússia e o Japão. de 1961. No final desse processo e simbolizando a mudança operada. deu lugar ao sistema de polaridade mundial. daí em diante. pela primeira intervenção americaEm seu discurso de 17 de março de 1914. e a ação dos Estados Unidos para forçar a retirada de Cuba. Rockhill (Urbana. especialmente A. Open Door Diplomat The Life of William W. Varg. 151-79. As forças motrizes já não eram as mesmas de antes. 1898-1903 (Baltimore. págs. na Câmara dos Comuns. Anglo-American Understanding. 1952). na altura da crise do Marrocos. quando não do apoio ativo dos Estados Unidos. S. vol. págs. observando as coisas em mais ampla perspectiva.26 É significativo que tenha sido seguida. e a divisão entre uma multiplicidade de interesses concorrentes e autocompensatórios foi substituída pelo estabelecimento de grandes blocos herméticos e continentais de potências. Quando em 1902 o governo inglês aliou-se com o Japão. as três potências diretamente interessadas no conflito do Extremo Oriente eram os Estados Unidos. de que o conceito de política de porta aberta ter sido inspirado pelos ingleses não se ajusta aos fatos. dos quais todas as potências estranhas foram excluídas por rígidas cortinas de ferro. mas. os Estados Unidos e a União Soviética. e esta se beneficiara. houve um ponto decisivo no processo pelo qual o sistema de equilíbrio de poder. de 6 de setembro de 1899. ergue-se a muralha de Berlim. ao passo que as potências européias eram gradualmente postas à margem. W. 1957).como o faria ainda mais eficazmente depois da eclosão da guerra na Europa em 1914 . os protagonistas no Extremo Oriente tinham sido a Inglaterra e a Rússia. aparentemente. Speeches and Documents on Colonial Policy. 25 . foi o Japão que. usou a aliança com a Grã-Bretanha para promover seus próprios interesses . as decisões finais já não eram tomadas na Europa. Campbell. 1938). 36-77. que tentara converter o mundo num apêndice dela.25 mas. Os Estados Unidos tornaram-se uma potência do Extremo Oriente em 1898.

forma de tácito apoio americano ao Japão e de reaproximação anglo-americana. vol. Durante cem anos. embora servisse de aviso geral de que os Estados Unidos não estavam dispostos a ver a Ásia oriental converter-se em campo de batalha das potências européias e suas respectivas políticas. porém. ao Sudeste asiático e ao Oriente Médio. Cf. no presente contexto. Só quando olhamos em retrospecto é que o significado mais vasto dos acontecimentos de 1898-1905 se nos apresenta com nitidez.27 Não obstante. agora. A rivalidade entre a Rússia e os Estados Unidos. as duas potências tinham-se apoiado mutuamente contra a Inglaterra. na Ásia oriental. H. 1946). Não vem ao caso. até acabar por dividir o mundo em dois campos hostis. foi também. Zabriskie. Embora o período após 1898 constituísse o início da era póseuropéia. que os Estados Unidos começaram a assumir seu papel de potência mundial — e foram seus interesses no Extremo Oriente que originaram o conflito com a Rússia. não era ainda direta e franca. XL. Archiv für Kulturgeschichte. elas colocavam-se frente a frente. 1895-1914 (Filadélfia. pág. nas relações internacionais. Hölzle. Foi modificada e atenuada. Em sua grande parte. e as potências da Europa não entregaram sua herança de hegemonia sem luta.na em questões européias. a única potência que. 354. é um período da máxima confusão em que um novo sistema luta para nascer e um antigo sistema luta ferozmente pela vida. E.29 o final da era européia. American-Russian Rivalry the Far East. como já acentuamos antes. afinal. 29 Pág. podia efetivamente desafiar os Estados Unidos na região do Pacífico. como um conflito ideológico — a chamada "guerra fria" —. a única potência capaz de ameaçar os interesses americanos naquela área. examinar em detalhe a longa e intrincada história desse período confuso. Assim. que o poderio inglês ultrapassara seu zênite. Assim começou um conflito de interesses que finalmente se alastraria à Europa. demonstrou que a Rússia não era. a partir de 1898. de um lado e outro do Pacífico. foi no Extremo Oriente. antes. também é importante não exagerar seu efeito imediato. teve suas origens na nova constelação de poderes que começou a adquirir forma concreta no início do século XX. Aquilo que hoje simplificamos. com excessiva facilidade. levaram à cristalização final da rivalidade russoamericana em 1947. em 1905. quando a inesperada vitória nipônica. tomou. nessa época. a primeira metade do século XX. 17 27 28 . era primordialmente dirigida contra a Rússia. os historiadores inclinam-se para sublinhar o segundo asCf. De qualquer modo. onde seus interesses estavam diretamente em jogo. 4 Se é importante estar ao corrente dos fios condutores que. assinalou uma revolução diplomática de primeira grandeza.28 A nota de Hay de 1899.

pecto. e se bem que. viram a situação internacional entre 1905 e 1914. pode-se dizer com certa dose de justiça. era o equilíbrio de poder no Pacífico ocidental. a ameaça. incluindo a Inglaterra e a Rússia. se a Alemanha conseguisse os seus intentos na Europa. 372. do estabelecimento da hegemonia japonesa. a questão do equilíbrio europeu de poder continuaria sendo. capaz de fazer frente aos vastos impérios transcontinentais americano e russo — e nisso. que constituíram as características peculiares da situação. por parte dessas duas potências. os Estados Unidos no hemisfério ocidental. como um todo. O surto da nova Alemanha. a Alemanha unificada e a Itália unificada — prejudicara a capacidade. de manterem sua A questão. foram em si mesmos conseqüências da rivalidade entre a Rússia e a Grã-Bretanha fora da Europa. o golpe de Bismarck dificilmente teria sido possível. a uma luz distinta das potências européias. O que estava acontecendo — se encararmos a situação entre 1905 e 1917 de um ponto de vista mais global do que estritamente europeu — não era. O papel que a Alemanha e o Japão começaram a desempenhar nos primeiros anos do século XX estava em função da nova situação mundial. e foi a justaposição desses problemas. que os americanos começaram a vislumbrar depois de 1907. 1848-1871 (Cambridge. que não afetava de modo vital os interesses americanos. um problema secundário e local.a preocupação dos Estados Unidos com a "ameaça" alemã. e as grandes potências extraeuropéias. em novas formas. eles refletiram apenas o que constituía. particularmente pelo fato de que as primeiras jamais tinham feito parte do sistema europeu. ou melhor. que realmente abrange as causas da entrada americana na Primeira Guerra Mundial. isto é. Parece-me importante deixar isso claro. até 1917. inevitavelmente. Mose The European Powers and the German Question . A Europa era apenas um elemento no sistema internacional de uma complexidade incomensuravelmente maior. Para os americanos. 31 Cf. é demasiado extensa para poder ser aqui examinada. europeu — nomeadamente. 30 . págs. o intento alemão de reorganizar a Europa como um império continental. mas creio que a afirmação no texto é uma figuração justa das conclusões articuladas pela maioria dos historiadores americanos. do que o equilíbrio de poder na Europa. sem dúvida. com seus interesses mundiais. apesar de tudo. o próprio êxito de Bismarck ao criar o novo Reich em 1817. o aparecimento de novos e poderosos Estados nacionais na Europa — nomeadamente. contra uma oposição unida. E. estaria desafiando. para os Estados Unidos. do equilíbrio no Extremo Oriente. em virtude da recente tendência para tratar o entendimento anglo-americano como um elemento básico da política dos Estados Unidos a partir de 1902. W. bem como suas interligações. simplesmente.31 Por outro lado. mais tarde ou mais cedo. tanto da Rússia como da Inglaterra. 1958). nessa mesma época.à luz da situação de 1941 . do ponto de vista americano.30 Mais significativo. 374. Isso é ler a história da frente para trás. e para exagerar . era muito menos nítida do que se julga. mesmo antes de 1914. a ameaça tangível do poder marítimo britânico era mais real do que a ameaça hipotética do poderio terrestre alemão. mas também um audacioso intento de reestruturação. uma tentativa de impor uma nova situação à Europa. a posição dos Estados Unidos em relação à Grã-Bretanha e à Alemanha. e em relação aos problemas europeus. existisse nos Estados Unidos uma pequena minoria argumentando que. a principal preocupação das potências européias. aproximadamente.

num Estado asiático. Apesar disso. O crescente poderio da Alemanha trouxe a Inglaterra de volta à Europa. é que tanto a Inglaterra como a Rússia estavam embaraçadas. Proceedings of the British Academy. depois de 1898. cf. op. em 1883. entre os quais não era difícil. Historische» Zeitschrift CLXXXVII (1959). eliminarem a influência britânica da zona do canal do Panamá e consolidarem suas posições nas Antilhas."34 O que se observa. em parte. simplesmente.32 Foi uma observação aguda. pág. B. Procurando uma razão para o êxito da Inglaterra em seus conflitos com a Espanha. que nenhum país — nem mesmo o Japão — estava em posição de desafiar. visto que a sólida posição russa na Ásia central. a jactância de Disraeli deixara de ser verdade. do conflito franco-britânico em Faxoda e da rivalidade naval anglo-alemã para enunciarem uma doutrina Monroe mais ambiciosa. "caso contrário. para as potências hostis. mas de que não soubera extrair a conclusão certa. tal como os Estados Unidos se aproveitaram da guerra da África do Sul. Londres. F. converter-nos-emos. II (2. "Tsardom and Imperialism in the Far East and the Middle East. pelo fato de não serem distraídos Seeley. tal como a política russa. já constitui outra questão. ao passo que a posição mundial da Inglaterra dependia de uma preponderância marítima que já não era absoluta. 1929) 34 Cf. a observação de Seeley. H. na Ásia. considerando as perspectivas abertas ao país. pelo menos. É certo que a Rússia era menos seriamente afetada que a Inglaterra por essa ambivalência. é outra questão. Monypenny e G. pág. bem como de uma tênue camada de autoridade sobre povos recalcitrantes.ª Ed. The Life of Benjamin Disraeli. observou Izvolsky em 1907. que. vol. fornecia uma base firme para seu poderio mundial. págs.posição no resto do mundo. Wittram. "dos cinco Estados que concorriam pela posse do novo mundo". pela necessidade de zelar por seus interesses fora da Europa. Um dos melhores historiadores vivos da Rússia sugeriu. Disraeli proclamou. 108-13 Cf. Em 1866. 32 33 . "Devemos colocar nossos interesses na Ásia num plano razoável". pelo contrário. cit.. "Das russische Imperium und sein Gestaltwandel". 591. o que seria o maior desastre para a Rússia. 1880-1914". Buckle. 1941. não perdeu seu valor. depois dos reveses da guerra com o Japão. como generalização que era. o êxito recaiu "naquele que estava menos tolhido pelo Velho Mundo". Se o juízo formulado por Izvolsky era ou não correto. a política russa entre 1907 e 1914 era "excessivamente européia". provocar agitação e desafeto. W. 64. resumidamente. E. era uma situação de que Seeley tivera meia noção. era uma potência mais asiática do que européia. mas se a Inglaterra foi ou não uma exceção à regra. Holanda e França. para "a posse do Novo Mundo". sustentou ele. Portugal. Foi explorando as preocupações de russos e ingleses com os perigos que acreditavam ameaçá-los na Europa que o Japão consolidou sua posição na Ásia. que a Inglaterra se apartara do continente europeu. Seeley chegou à conclusão de que a explicação residia no fato de que só a Inglaterra não estivera "profundamente envolvida nas lutas da Europa". O que se processava.33 Mas. em sua política européia. É verdade que a Alemanha e o Japão puderam continuar sua marcha. com clareza. R. orgulhosamente. voltou-se novamente para a Europa. tanto quanto a capacidade de defesa dos últimos era afetada pela necessidade de vigiar o que acontecia no continente europeu. Sumner.

nem o envolvimento das grandes potências extra-européias em suas rivalidades. num sentido literal.ao invés dos anteriores rivais pela hegemonia européia — não era européia. sublinharam que a guerra deflagrada em 1914 não era. a estrada de ferro de Bagdá —. 37 Mas. no ultramar — Tânger. ocorreram. ajudou bastante os Estados Unidos. pág.35 Em particular. 263 38 A declaração de Plehn é citada por Dehio. Como as circunstâncias e sua própria força acumulada habilitaram a Alemanha a desempenhar um papel cada vez mais importante nas relações internacionais. mas . pág. os incidentes em que a Alemanha se envolveu. a política mundial recaiu em suas velhas formas. "Vom Imperialismus des europäischen Staatensystems zum Dualismus der Weltamächte. pois indica que a guerra. op. ainda em 1914 as questões européias retinham sua primazia. e. Germony and World Politics in the Twentieth Century 35 36 . a concentrarem-se em seus interesses mundiais. A guerra de 1914 é vulgarmente encarada como parte de uma longa série de lutas. é verdade. o que levou à guerra não foi o imperialismo europeu. essencialmente. primeira crise marroquina. 37 Esta é a tese subjacente no livro de Dehio. sua finalidade . mas. especialmente em relação à Grã-Bretanha. 243. embora a diplomacia alemã chefiada por Bülow e Bethmann Hollweg navegasse com a bandeira de "política mundial". era "obter a liberdade de participar na política mundial". pág. porém. só passando a mundial em 1917. isso constitui uma explicação apenas parcial dos objetivos de guerra da Alemanha em 1914. Assim. seja qual for a verdade que possa existir aí em relação às lutas anteriores pela hegemonia. portanto. Archiv für Kulturgeschichte XLII (1960). Agadir. que continuava sendo o foco da política alemã. argumenta-se. para encontrar uma solução para o problema em que se digladiava desde o século XVIII — o de criar um equilíbrio entre seus interesses mundiais e europeus. Conseqüentemente. fora desde o início concebida como Holborn. é verdade que o declínio do poderio britânico foi um reflexo da inaptidão da Inglaterra. talvez.36 Apesar dessa opinião. nem a expansão dos interesses econômicos e coloniais das potências européias. de início. como Plehn formulou em 1913. cit. na generalidade dos casos. um anacronismo — a série completa dos velhos antagonismos europeus. embora travada em sua maior parte na Europa.. iniciadas com Carlos V e Filipe II da Espanha e encerradas com Hitler. os historiadores estão de acordo. também. mas uma grande guerra européia. que sua capacidade para se dissociar das complicações européias. finalmente.por essa altura. em que. uma guerra mundial. Kessel. Que a Alemanha procurou estabelecer seu domínio sobre a Europa. 70. The Precarious Balance. por exemplo. para estabelecer a hegemonia de uma potência sobre toda a Europa. com o propósito de facultar ao governo alemão maior predominância na Europa. embora verdadeira. depois de 1890. na década posterior a 1905. 38 A diferença é importante. E. não resta dúvida. era natural que os problemas europeus voltassem a impor-se destacadamente. cf.por interesses fora das respectivas esferas de ação.. convém notar que determinados fatores importantes foram deixados fora de consideração.

1961). págs. outro na África central. estabelecendo um império alemão que ombreasse com o império britânico e se igualasse aos nascentes impérios mundiais da Rússia e dos Estados Unidos. procurando conter a Alemanha. seus planos estavam traçados: intervenção na Índia. Não foi só o fato de que o Japão. assentava em que o desalojamento de uma estrutura mais antiga de poder por uma nova provocava uma nova reação.40 Embora a guerra de 1914 começasse na Europa. págs. tal como um século antes procurara conter Napoleão. como Tirpitz e os construtores da marinha alemã perfeitamente sabiam. mediante a perspectiva de anexação do Canadá. podemos afirmar que a Primeira Guerra Mundial foi a reação da Alemanha a uma nova constelação de forças mundiais — como. Mas. Além disso. Assim. eram a criação de dois vastos impérios: um no coração da Europa. antes de principiarem as hostilidades. imediatamente ocupou as concessões alemãs na China e as ilhas pertencentes à Alemanha no Pacífico setentrional. e a reação inglesa. Além disso. e a aliança russo-japonesa de 1916 como garantia contra a interferência dos Estados Unidos.39 A realização desses objetivos. é fácil menosprezar seus efeitos na Ásia. apoio ao Japão e promessa de uma esfera de interesses exclusivamente japonesa no Extremo Oriente. por exemplo. portanto. Geschichtliche Kräfte und Entscheidugen. em 23 de agosto de 1914. 266-85. 173-95. explicados minuciosamente em 9 de setembro de 1914. evidentemente. ao declarar cedo a guerra. "Deutschland und die Wegscheide des ersten Weltkrieges". mediante uma coalizão continental. Os objetivos de guerra alemães. 1914-1918 (Dusseldorf. foi sobretudo o fato de ter explorado em cheio a circunstância da Rússia e da Grã-Bretanha estarem manietadas na Europa. 1955). M. 107-12. A. Göhring e A. Hülzle. E. mas garantir a participação alemã no "futuro concerto de potências mundiais". J. Shukow. estava destinada a colocar a Alemanha frente a frente com a Inglaterra. o surto das grandes potências mundiais criava um novo desafio. desde o início. págs. no curso do processo. desde o início. Whitnev Griswold. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deustchland. para exigir da China os famosos "vinte e um pontos". forçou a deflagração do conflito nos moldes clássicos de uma luta pela hegemonia européia. foi. A razão. 41 Cf. Die internationalen Bezichungen im fernen Osten. 41 O certo Os detalhes completos dos planos alemães foram compilados de documentos oficiais alemães e publicados por Fritz Fischer em seu importante livro Griff nach der Weltmacht. embora esses fatos pudessem tornar necessário meter na ordem a Inglaterra. como Napoleão quisera.. Levar-nos-ia muito longe um exame minucioso das manobras diplomáticas realizadas pelo Japão — suas negociações secretas com a Alemanha. o projeto de um bloco germano-russo-nipônico. foi a guerra de Hitler um quarto de século depois.uma guerra mundial. é provavelmente verdade que o propósito da Alemanha não era a destruição da Inglaterra. pág. Já em 2 de agosto de 1914. inclusive um projeto de sedução dos Estados Unidos. Echarff (Wiesbaden. The Far Eastern Policy of the United States (Nova York. Essas obras men39 . de fato. 176-222. 1954). 1938). Egito e Pérsia. 93-4. uma guerra mundial em concepção e nos planos. 1870-1945 (Berlim. págs. insurreição na África do Sul. a Alemanha conduziu a guerra em plano mundial. M. 40 Ibid.

seriamente. Depois da revolução bolchevista na Rússia. em novembro de cionam a maioria da literatura especializada no problema. H.43 Por outra parte. em conseqüência da revolução de 1917. o medo das potências ocidentais de uma infiltração comunista. por si só. assinalou a fase decisiva na transição de uma era européia para uma era mundial da política. M. . Não tive possibilidade de compilar a obra de O. Europa. era incapaz de desempenhar a função para que fora criado. o efeito da guerra foi destruir para sempre a base do equilíbrio europeu de poder. impedindo uma paz negociada conciliatória.é que os efeitos da guerra sobre a situação das forças no Extremo Oriente — particularmente quando a revolução russa. não se cuidou de restaurar um sistema europeu compacto e em si mesmo completo. fizera-se uma tentativa para assegurar a estabilidade. o cordon sanitaire em redor da Alemanha. Holborn. Der ferne Osten und das Schicksal Europas. constituiu um ponto importante na História. em 1919 não foi esse o caso. Becker. 12. Por volta de 1918. em 1917. tal como em 1945. 1963) págs. mesmo se incluirmos a GrãBretanha na Europa. pág. em conseqüência da retirada americana para uma posição isolacionista. mas só o desmembramento da Alemanha poderia conseguir um equilíbrio real e já nessa época o incipiente conflito mundial. tal como existira antes da guerra. Erbe und Aufgabe. 1907-1918 (Leipzig. a derrota total da Alemanha nazista foi devida aos Estados Unidos e à União Soviética. 9. resumindo. criaram a ilusão de que o equilíbrio europeu de poder ainda existia. deixara de ser capaz de resolver seus próprios problemas. Wilson já se preparava para desafiar. após a queda de Wilson. Foi importante ainda em outro sentido. a expansão nipônica. já deixara de ser viável. Kochan. impediu esse desmembramento. 42 Cf. 5 Não é exagero. 5-6. foi o resultado da esmagadora superioridade dos Estados Unidos. A Europa. Na conferência da paz. 1956). portanto. L. depois das guerras napoleônicas. Em 1815. "Die amerikanische Aussenpolitik und das Problem der europäischen Einigung". e a dos Estados Unidos. deu ao Japão novas possibilidades para consolidar sua ascendência — não foram menos revolucionários do que na Europa. Göhring (Wiesbaden. em Paris. em 1917. 1940). provavelmente. mesmo antes de terminar a guerra européia. construído e dirigido pela França. The Struggle for Germany 1914-1945 (Edimburgo. A derrota total da Alemanha dos Hohenzollern. Em 1918. 303 43 Cf. afirmar que a entrada dos Estados Unidos na guerra. Na Europa.42 É certo que a ausência da Rússia. o poderio das nações européias desvanecera-se e o papel decisivo passara para as mãos das duas grandes potências extra-européias situadas em seus flancos. como a subida meteórica de Hitler em breve demonstraria. mediante a criação de um novo equilíbrio de poder.

34. Wilson descria do mecanismo. as anexações. van Alstyne. W. onde o impacto revolucionário de Wilson e Lênin é analisado em pormenor. tradicional na Europa desde a derrota da Revolução Francesa. pág. 307. em janeiro de 1918.45 Também esta foi uma ruptura decisiva. Schaper. Ambos rejeitavam a diplomacia secreta. por essa época os princípios revolucionários enunciados por Lênin e Wilson já tinham feito seu trabalho. Assim. inspirados por ideologias manifestamente irreconciliáveis. Embora. Embora dois anos antes. tendo ambos abandonado a antiga diplomacia e seu conceito dominante. o conflito entre as potências européias viu-se transformado. J. Depois da Revolução Russa e da entrada dos Estados Unidos na guerra. "os profetas da nova ordem internacional". R. em vez de o restaurarem. A. W. aos velhos métodos da política de força. Lênin e Trotsky. sem perturbar acentuadamente o status quo interno em qualquer das principais nações beligerantes. Mayer. 1959). de uma guerra de objetivos limitados. 46 Cf. e foi para impedir que Lênin ganhasse o monopólio dos planos de edificação do mundo de pósguerra que. França. tal como formulados em tratados secretos. Uma Escolha a Fazer". 1917-1918 (New Haven. e os três estadistas planejaram terminar com o equilíbrio de poder. 216. pag. reciprocamente. Lasswell. as reclamações dos Estados soberanos. 175-6. "Democracia ou Bolchevismo. ambos se alhearam do equilíbrio de poder. essa suposição deixara de valer. 290. ambos denunciaram o "peso morto do passado". recusaram aceitar a manutenção de um sistema de Estados independentes que. Wilson publicou os seus famosos Quatorze Pontos.44 Mas. processos e objetivos da diplomacia do século XIX foi irreparavelmente quebrada. Os objetivos de guerra da Inglaterra. os historiadores atribuíram a rejeição por WilCf. por meio do qual as potências conduziam suas questões ajustando. "Wilson ou Lênin". 33. em luta revolucionária e ideológica de âmbito mundial.. pags. ele e Lênin sabiam desde o princípio que estavam competindo pelo sufrágio da humanidade. págs. Wilson e Lênin tinham uma coisa em comum: a rejeição por ambos do sistema internacional existente. m sua maior parte. Desde os princípios de 1917. tomou forma tangível a divisão do mundo em dois grandes blocos de potências rivais. Harold D. Albert Thomas (Leiden. a discriminação comercial. apesar dessa rivalidade. o equilíbrio de poder. confiando na revolução universal. pouco mais ou menos. Eram "os campeões revolucionários da época". 1927). na prática. tanto a União Soviética como os Estados Unidos retornassem. tinham como pressuposto que a guerra conduziria ao restabelecimento de um equilíbrio europeu de poder. a continuidade no estado de espírito. Rússia czarista e Itália. 22. Um dos mais importantes frutos da guerra foi a emergência simultânea de Washington e Petrogrado como dois centros rivais de poder. International Affairs. 1953).46 O caráter dessa revolução tem sido freqüentemente mal julgado. XXXVII (1961). 44 45 . posteriormente. estabeleciam o pretendido equilíbrio.1917. "Woodrow Wilson and the Idea of the Nation State". B. Political Origins of the New Diplomacy. Propaganda Technique in the World War (Londres.. à medida que iam aparecendo. entre uns e outros. o Presidente Wilson se identificasse com os cruzados antibolchevistas no Ocidente. escreveu o socialista francês Albert Thomas.

Mayer. significou o aparecimento em cena de uma potência que. os países europeus que aí tinham sido até então os dominadores. Sonnino ou Lloyd George. com Lênin e Trotsky. tinha escasso interesse no velho sistema político europeu. não trazia conseqüências de maior. no sentido em que não aumentava a segurança americana nem melhorava sua posição estratégica. não — como os estadistas aliados se iludiam em pensar — a mobilização. mas também ao desenvolvimento de centros de poder extraeuropeus e a um despertar colonial que debilitaria. que a nova diplomacia — a diplomacia de apelos ao povo por sobre as cabeças dos políticos — serviria melhor a seus propósitos num mundo em rápida transformação. 298-300. 60. Na realidade. Diplomacy (Londres. o mundo árabe. Constantinopla. a Dobruja -. a adição de uma pedra decisiva no xadrez político existente. daria um impulso decisivo não só ao amadurecimento de uma crise revolucionária na Europa. como Lênin percebera também. ambos apreenderam o método de apelar para todos os povos do mundo. no estado de esgotamento a que as potências européias de ambos os lados contendores tinham ficado reduzidas. mas as realidades com que tratavam é que eram distintas. em que os estadistas europeus confiavam. a China. Do ponto de vista dos Estados Unidos. portanto. como um observador perspicaz notou. de outro beligerante todo-poderoso. Enquanto a segurança da Rússia estava em jogo. anexações e compensações territoriais. pág. Tal como Wilson. em resumo. fixando este de modo a consubstanciar a doutrina e estratégia bolchevistas.. pelo contrário. Os bolchevistas repudiaram também o velho sistema de equilíbrio de poder. Por volta de 1915.48 A guerra. abrangendo o mundo inteiro: quer dizer. essa rejeição foi "menos devida a qualquer alteração dos padrões étnicos do que a uma transferência do centro de poder. A participação dos Estados Unidos na guerra significou. Quando a Rússia revolucionária. quer se ampliasse 47 48 Harold Nicolson. págs. mas de um ponto de partida diferente. para impor seus pontos de vista. a política de ajustamentos. pelo qual ele tem sido ao mesmo tempo louvado e condenado. pensou ele. no momento crucial. a característica mais significativa dos programas de Wilson e Lênin era não tomarem a Europa como centro. como Stalin faria em 1944 e 1945. op. Bucóvina. Lênin ficara convencido de que o poderio da Europa estava em decadência. adotou um caminho paralelo. Cf. através de graduais anexações de territórios — Prússia Oriental. por razões históricas. cit. 1939). que não estava disposta a subscrever o equilíbrio europeu de poder e que dispunha de meios quase irresistíveis. decisivamente. não pensaram em anulá-lo. Lênin. Ambos subentenderam a negação do precedente sistema europeu. o Japão e os Estados Unidos —. sob o impacto da guerra — uma guerra mundial que envolvera a Índia. .47 Wilson e Lênin não eram menos realistas do que Clemenceau. quer se confinasse à Europa (como sucedera durante a geração precedente).son do conceito de equilíbrio de poder a um moralismo utópico. pura e simples. mas por meio da revolução mundial. Em muitos aspectos. independentemente de raça ou cor. e Wilson estava certo quando percebeu. encaminhou-se de um critério europeu de política internacional para um critério mundial. o rompimento com o passado tornou-se irreparável.

49 50 . o enfraquecimento da Rússia Soviética. por uma parte. E ambos caíram. 1952). em sua estrutura e modalidades. é esta a situação com que deparamos atualmente. do modelo "clássico". a solidariedade do proletariado e a revolta contra o imperialismo foram contrabalançadas pela autodeterminação e o voto do homem comum. ibid. apesar de um grupo neutralista desligado de qualquer dos lados e apesar das divergências entre a Rússia e a China. pode agora estar passando. cf. Trata-se. foi debatido por outros autores. simplesmente. viera ocupar o lugar do antigo e excluíra a idéia. ainda ocasionalmente aventada. Mas é evidente que qualquer novo sistema multipotencial será fundamentalmente diferente. por outra parte. rapidamente. A bipolaridade. Estes eram os slogans ao som dos quais um novo sistema internacional. distinto em todos os seus princípios básicos do que lhe antecedera. mas o mesmo ponto. op. à divergência de interesses políticos que começara a influir nas relações russo-americanas. não virá restaurar o velho sistema "multinacional". a sua desintegração num sistema de potências múltiplas pode. Os apelos de Lênin para a revolução mundial provocaram. sob o esforço violento da guerra civil — não diminuiu a importância desse ponto decisivo. mas. e entre os Estados Unidos e seus associados na Europa ocidental. claro.. concebivelmente. em suas conotações contemporâneas. 50. 1959) pags. que o sistema de bipolaridade em que hoje vivemos não é.. págs.49 Dessa maneira. no final do século XIX. que imprimiu sua marca no período após a Segunda Guerra Mundial. H. e cada campo ergueu um estandarte em redor do qual reuniu suas forças. estar em gestação. 156-8. International Politics in the Atomic Age (Nova York. de que se tratava. ainda mais definitivamente do que antes. mas o resultado foi o estabelecimento da primazia da União Soviética e dos Estados Unidos. Permitiu ao Japão de Tojo que formulasse e à Alemanha de Hitler que renovasse a exigência de um lugar entre as potências mundiais. com não menor segurança. A emergência gradual da Rússia e dos Estados Unidos como superpotências e a decrescente importância dos Estados europeus são acontecimentos com raízes situadas para além do começo do século atual. J. simplesmente. cf. da melhor análise da questão. constituem um dos mais nítidos sintomas do início de uma nova era.50 Também é possível afirmar. Hinsley. A inversão que se seguiu — a retirada dos Estados Unidos para o isolamento. pág. Herz. 34-5. a divisão do mundo entre a Rússia e a América prosseguiu rapidamente. pág. 557. cit. Hans Morgenthau. Depois de 1945. In Defense of the National Interest (Nova York. provavelmente. com sua escala graduada de "poderes" comparados e "qualquer novo sistema multipotencial que assim surja terá aspectos muito distintos daqueles que são preconizados por quem fala em termos de um "regresso" ao sistema de cinco ou seis potências". o resultado das condições criadas pela Segunda Guerra Mundial. os Quatorze Pontos de Wilson. num contragolpe deliberado. somou-se uma profunda divergência ideológica. "do mesmo sistema de Estados em nova fase de sua evolução". 153. Seria um erro supor que a separação resultante do mundo em dois blocos de potências antagônicas seja final. em áspera concorrência.pelo mundo inteiro. Cf.

tinham atraído para a cena forças tais que eclipsariam os próprios dominadores. num mundo em que as áreas de livre manobra desapareceram e as posições de poder congelaram: tudo isso. pág. ao instalarem-se na Ásia. 51 Dehio. na nova situação mundial que tomou forma no final do século XIX. e a consolidação de grandes. o fim do sistema de equilíbrio — um "mecanismo peculiar da história européia. Na realidade. as potências européias. The Precarious Balance. O eclipse da Europa. que se tornou tão familiar nos últimos quinze anos. sem paralelo em qualquer outra parte do mundo"51 —.. estabilizados blocos continentais.Quando. nem um nem outro caso subsistiu. 268. se ainda não claramente visível. em 1898. de ambos os lados. . acreditou que o que estava em jogo era se a hegemonia imperial penderia a favor da Alemanha ou da Grã-Bretanha. estava implícito. a Alemanha positivou seu novo programa naval.. a ascensão das grandes superpotências extra-européias. Embora na época poucos o compreendessem. uma maioria de pessoas. na África e no Novo Mundo.

Ortega y Gasset. La Rebelión de las Masas (Madri. o excepcional tornava-se normal. 1 . O resultado foi o nascimento de uma nova filosofia de intervenção J. o filósofo espanhol Ortega y Gasset proclamou que "o fato mais importante" da época contemporânea foi a ascensão das massas. mais amplamente. todo o caráter da estrutura social mudou. os anos entre 1870 e 1914. Basta olharmos em redor para ver quão radicalmente o advento da sociedade das massas alterou não só o contexto de nossa vida individual como também o sistema político em que nossa sociedade está organizada. Também neste aspecto as décadas finais do século XIX ou. tornaram-se subitamente urgentes — como seria possível. talvez. requerendo a concentração das populações em tentaculares áreas congestionadas. evidentemente. As questões de sanidade e saúde pública. por exemplo. uma vasta. impedir que epidemias originadas nas favelas se espalhassem e dizimassem milhares e dezenas de milhares. de fábricas fumegantes e ruas sujas. situam-se como divisor entre o final de um período histórico e o início de outro.V DO INDIVIDUALISMO À DEMOCRACIA DAS MASSAS Organização Política na Sociedade Tecnológica Num famoso "diagnóstico do nosso tempo". publicado em 1930. Nos novos aglomerados urbanos. Madri. Condições semelhantes já tinham existido.1 Não é necessário adotar a interpretação de Ortega y Gasset sobre o significado desse fato para compartilharmos de sua crença na importância do mesmo. Agora. substituindo-os por novas formas de organização política e social. mas mesmo na Inglaterra tinham sido casos excepcionais. Glasgow ou Sheffield —. por exemplo. Vol. transcrito em Obras. 1930. sem respeito por classe ou pessoa? — e os governos foram obrigados a agir e construir novo equipamento que tornasse possível uma ação efetiva. de outro modo. 1946). durante algumas gerações. VI. bem como a filosofia liberal que os sustentavam. gerando imediatamente uma série de problemas fundamentais que a existente aparelhagem de governo era incapaz de enfrentar. Quando foram introduzidos os novos processos industriais em larga escala e surgiram novas formas de organização industrial. maleável sociedade 120 INTRODUÇÃO À HISTORIA CONTEMPORÂNEA de massas nasceu e a cena ficou montada para desalojar os então predominantes sistemas social e político burgueses. nas poucas áreas de industrialização mais adiantada — em Manchester. impessoal.

3 O governo. a maior parte da classe trabalhadora. em princípio. antes da introdução do voto secreto. uma vez que lhe eram facultadas funções positivas e ativas. o programa radical patrocinado por Chamberlain em 1880 soou como "o dobre de finados do sistema do laissez-faire" e o mistério de Gladstone. em sua moderna acepção de regulamentação. 45. Era inevitável que. a Grande Lei de Reforma de 1832 acrescentara apenas 217. V. Em primeiro lugar. no interesse da liberdade individual. uma vez que o âmbito político era ampliado até abranger. não excedia muito mais de um terço do Reino Unido como um todo. K. 1905). existência humana. Na Inglaterra.000. cit. foi o necessário produto de uma nova sociedade industrial. de longe. no meio século depois de 1815. de compulsão dos indivíduos para fins sociais. ou à introdução do sufrágio universal masculino na Confederação da Alemanha do Norte. a legislação social de Bismarck. Uma vez que o Estado deixara de ser encarado como um vigia noturno cujas atividades se restringiam ao mínimo. como Sir James Graham assinalou em 1859. A descrição clássica da transição.4 Na Inglaterra e no País de Gales. em lugar de simplesmente supervisoras e repressivas. também a aparelhagem política existente até à altura da Segunda Lei de Reforma..do Estado. controlados e investidos de poder. B.2 Na Alemanha. 2 . em 1867. Assim como os recursos à ordem dos governos. e embora a crescente população e riqueza do país provocasse novo aumento de cerca de 400. de controle estatal. pág. de 188085. op. os efeitos dessas mudanças se fizessem sentir em todo o âmbito da vida e organização políticas. 212 4 Smellie. foi "a ponte entre dois mundos políticos". mas que também ainda era fácil — particularmente. era apenas uma questão de tempo para que o mecanismo por meio do qual os governos eram eleitos. Até então. aproximadamente. marcou o ponto de transição. Isso significava não só que cinco em cada seis adultos masculinos e. mais cedo ou mais tarde. estavam privados de voto. Smellie. eram inadequados para resolverem os problemas criados pela industrialização. as condições para que fora engendrada a existente maquinaria política eram inteiramente diferentes. pelo menos. na Inglaterra. de planejamento final. o eleitorado. não era de um modelo que permitisse a mobilização das forças da democracia das massas e sua aplicação efetiva. a representação baseara-se na "propriedade e inteligência".000 eleitores. envolvendo o desenvolvimento de uma elaborada aparelhagem de administração e execução. toda a. encontra-se em A. por volta da Segunda Reforma. A Hundred Years of English Government (Londres. Lectures on the Relation between Law and Public Opinion in England during the Nmeteenth Century (Londres. de 18839.000. pág. se adaptasse às novas circunstâncias. 3 Cf. em 1872 — manipular as eleições pelo jogo de influências. visto constituir uma reação às condições que só atingiriam desenvolvimento em plena escala depois daquela data. mesmo então. ao eleitorado já existente de 435. 1937). era praticamente inexistente antes de 1870. Dicey. no que respeita à Inglaterra.

à semelhança da democracia ateniense. Coulton. Bastid. onde o sufrágio universal masculino foi introduzido. Modern Democracies. A democracia liberal do século XIX. cf. do eleitorado. a partir dos "estados" (ou classes soExiste um relato engraçado das eleições de 1868 em Lynn .em G. respectivamente. 1893. Hesse e Württemberg.suborno e intimidação. 5 . págs. por toda parte se edificara na base de um direito de voto limitado ao detentor de propriedade. Nos Estados Unidos. 352. era realmente uma "oligarquia igualitária"."a primeira eleição parlamentar de que me lembro" . descrito em poucas palavras. Na Itália. M. na qual "a classe dominante de cidadãos repartia os direitos e os cargos do controle político". quase em toda parte. em resumo. onde se permitia o funcionamento de instituições representativas. o voto feminino fora parcialmente homologado em 1918. Segundo a lei eleitoral em vigor na França de 1831 a 1848. 1896 e 1898. Tanto no império alemão como na nova república francesa. 7 R. embora o princípio de sufrágio universal masculino tivesse de esperar pelo reconhecimento até 1918 e o sufrágio não fosse ampliado às mulheres senão em 1928. não atingia 100. evidentemente. Bélgica. Les institutions de La monarchie parlementaire françoise (Paris. onde o sufrágio masculino foi estabelecido em 1879. seguiram o exemplo em 1874. sem contraditar diretamente a emenda constitucional de 1870. Depois de 1869. a grande maioria dessa população". MacIver. The Modern State (Londres. Fourscore Years (Cambridee. até que em 1920 uma emenda constitucional concedeu direito de voto à mulher em todos os estados da União. o mesmo resultado foi atingido pela Terceira Lei de Reforma. págs. James Bryce. 50 188 199 295 339. Na Nova Zelândia. Foi esse o caso da Nova Zelândia. na Grã-Bretanha. que não surpreende. entre 1820 e 1840. 1954). no mundo antigo. mas a desproporção. por exemplo —. conseguiram excluir. 227-8. "quase todos os estados sulistas" (nas palavras de Lorde Bryce) "promulgaram leis que.000. a situação era essencialmente idêntica. além disso. págs. G. para ocorrer bastante mais cedo. pág. 1932).000 em 1831 para 247 000 em 1847. II (Londres. 1921). cf. onde uma ampliação muito limitada no direito de voto fora concedida em 1882. 22-4. 6 O número passou de 166. as condições ao tempo de Luís Napoleão eram excepcionais. 1890. P. de 1884. fora ainda maior. Nas áreas de colonização européia ultramarina. A Suíça. praticamente. na Suíça.8 O efeito dessas mudanças. o sufrágio foi gradualmente ampliado às mulheres. Holanda. muitas vezes copiadas do modelo francês. as mulheres receberam direito de voto em 1893. foi tornar impraticável o velho sistema de democracia parlamentar que se desenvolvera na Europa. Na Inglaterra. a Carta Constitucional de 1814.5 Na França. o eleitorado limitava-se a perto de duzentos mil cidadãos. a ampliação do direito de voto mostrou uma tendência. dos Estados Unidos da América. Noruega. designada para dar o direito de voto à população de cor. anteriormente. as mulheres ainda não têm voto. Austrália. Espanha.6 E no relativamente restrito número de Estados alemães — Baden. 1943). com efeitos imediatos no mecanismo político. 225. vol. antes de 1831. a maioria da população masculina recebeu voto mediante uma lei promulgada em 1912. numa população de quase trinta milhões. Canadá e. 8 Para detalhes.7 A situação foi radicalmente alterada pela expansão do direito de voto. o sufrágio universal masculino foi um fato consumado a partir de 1871.

mas são extraídos de uma vasta sociedade amorfa. Essa afirmação de maneira alguma pretende menoscabar o sistema multipartidário ou rejeitá-lo como simples paródia da "verdadeira" democracia (uma abstração que jamais existiu). Nos Estados Unidos e na Europa ocidental. da democracia liberal do século XIX. poderá existir um só partido. em comparação com o sistema de partido único que prevalecia nos países fascistas e comunistas. simplesmente. criado em grande parte nos últimos sessenta ou setenta anos e distinto. não leva em conta o fato de que o comunismo. o fascismo e o moderno sistema multipartidário ocidental são todos eles respostas diferentes ao colapso da democracia liberal do século XIX. permanece o fato de que o partido é não só a forma característica da moderna organização política. pelo fato de que a pessoa mais importante no Estado é o primeiro secretário do partido. em breve prazo de tempo. visto que. Na Inglaterra. Em certos casos. ou mesmo há séculos. em sua maioria ocupados na tarefa de ganhar o pão de cada dia e que só podem ser mobilizados para a ação política através das altamente integradas máquinas políticas dos "partidos". sob a pressão da sociedade das massas. que quase parecia uma tradição indagar até que ponto todas as modernas formas de governo assinalavam uma ruptura em relação à democracia representativa de há um século. é despropositado. em particular. todos economicamente realizados e compartilhando de um mesmo fundo social. O primeiro desses fatores foi terminológico. por exemplo. e inaugurar uma série de inovações estruturais que resultaram. em seus pontos essenciais. abrangendo todos os níveis de educação e fortuna. a vulgar distinção popular entre democracia liberal e totalitária de modo algum é satisfatória. Em segundo lugar. em aparente continuidade. que a mesma deve ser classificada e justificada em seus próprios termos e não com base nos padrões políticos do século XIX. Certo número de fatores combinaram-se para ocultar a natureza revolucionária dessa transformação. seja qual for seu valor em termos de teoria política. as pessoas estavam de tal modo preocupadas em demonstrar que a prática democrática era a única salvaguarda idônea para os direitos e liberdades individuais. mas apontar. os correntes conflitos ideológicos obscureceram a questão. O tipo de democracia que hoje predomina na Europa ocidental — a que resumidamente chamamos "democracia das massas" — constitui um novo tipo de democracia.ciais) do fim da Idade Média e princípio dos tempos modernos. É novo porque os elementos politicamente ativos de hoje já não constituem um corpo relativamente pequeno de pares ou iguais. mas deixara intacta a essência da antiga estrutura. noutros países dois ou mais. no desalojamento do sistema representativo liberal e individualista. A tal respeito. mas também seu âmago. o simples fato de que a história dos partidos políticos e o próprio termo "partido" remontavam ao século XVII. substituindo-o por uma nova forma de democracia: o estado dos partidos. nas "democracias populares" da Europa oriental. a mudança é . foi bastante para criar a ilusão de que nada mais ocorrera senão um processo de adaptação que ampliara os fundamentos. Isto demonstra-se. no sistema comunista de partido único. noutros países. em qualquer caso. Falar da defesa da democracia como se estivéssemos defendendo algo que possuíssemos há muitas gerações.

Também neste domínio. The Engliih Constitution. H. que adotava ainda uma atitude ambivalente em relação ao sistema de partidos — tratou estes como elementos integrais da estrutura constitucional (Art. ao estabelecer a posição oficial do líder da oposição. 10 Cf. tal como os conhecemos. tais como a ameaça à soberania parlamentar pela lei administrativa e pelos tribunais ministeriais. Bagehot. 39-40. Crossman (Londres. Duverger. 2 Já se disse que os partidos políticos nasceram quando a massa da população começou a exercer um papel ativo na vida política. conquistar o poder e exercê-lo —. essa afirmação parece um paradoxo. mas em toda parte por uma estrada de mão única. Inglesa Political Parties (Londres. trad. as imensas máquinas partidárias. 21). a Carta Fundamental da República Federal — ao invés da constituição de Weimar. os partidos políticos. 1961). com seus escritórios centrais e staffs assalariados. mas não menos real.. os quais. 1954). um processo fundamental da moderna sociedade de massas foi obscurecido pelo realce dado a fenômenos secundários. o que ele previa era mais um clube do que uma moderna máquina partidária. 426. nas constituintes onde havia eleições. os comitês dos chefões locais. em todos os demais aspectos as diferenças entre elas excedem as semelhanças. W. só na última geração — na maioria dos casos. mas não devemos permitir-nos sermos confundidos com nomenclaturas.menos clara e menos completa. pág. os clãs e clientelas agrupados em torno dos condottieri da Itália do Renascimento. ou está deslizando. com uma Introdução por R. S. Na realidade. enfim. 9 . págs. ou mesmo uma perigosa meia-verdade. Les partis politiques (4. não tinha sequer um pressentimento do moderno sistema partidário. depois de terminar a Segunda Guerra Mundial — é que os partidos políticos escaparam do limbo de órgãos extraconstitucionais ou convencionais. 9 À primeira vista. escrevendo em 1867. durante as monarquias constitucionais do princípio do século XIX. pág. do parlamento para o partido — a diferentes velocidades e por estradas diferentes. que durante o período de democracia liberal estava investido no parlamento e que deslizou. e foram explicitamente admitidos no mecanismo constitucional. os clubes onde delegados se reuniam durante a Revolução Francesa. a mudança foi registrada pelos Ministers of The Crown Act de 1937. 1963). Paris. que formam a opinião pública e arregimentam votos nos modernos Estados democráticos. em nível nacional. ao M. têm menos de um século de idade. Na Inglaterra.ª ed. Na Alemanha.10 Com efeito. É certo que encontramos a palavra "partido" usada para descrever as facções que dividiram as cidadesEstados da antiga Grécia. 426. implicitamente reconheceram e sancionaram o sistema de partidos. O ponto essencial é o controle final. Mas se todas essas instituições possuem uma coisa em comum — ou seja. Bagehot. sem lugar legalmente definido no sistema de governo.

1928).. segundo a lei constitucional (Art. Bulmer-Thomas. 4. a existência de grupos soltos de deputados. op. como a monarquia ou o ministério. a ação recíproca dos partidos foi encarada como uma útil "convenção" para ajudar o governo a funcionar sem atritos. British Political Parties (Londres. T. ibid. adaptada a modernas condições. com efeito. 1955). 1934). 13 I. pág. no máximo. unidos apenas por tendências e afinidades comuns. folhear os raros trechos (4. no período entre as guerras. Duguit. Hoje. uma real e substancial mutação. Leibholz. pág. apenas. R. qui ne correspondent à aucune organisation dans le corps electoral". 141). o reconhecimento formal. e uma rápida investigação pelas histórias constitucionais correntes do período mostrará que o caso de Laski não era uma exceção. Barthélemy. 43-4. 14 Na França. 16. vol. pelo contrário. 91. a noção de que eles tivessem qualquer pretensão a um lugar no Direito Público. G.13 Na Alemanha. Ambos comentaram também que "apesar de suas dimensões e importância os partidos britânicos são quase por completo ignorados na lei" e que "não havia um reconhecimento formal da função deles". que poderiam "desejar manter contatos a fim de concertarem suas ações em uma direção comum no tocante a questões legislativas e políticas". pág. McKenzie. Der Strukturwandel der modernen Demokratie (Karlsruhe. porém. págs. especificamente. 27). especificamente. 318-24) em que o sistema partidário aparece analisado para se perceber que as questões realmente centrais são omitidas. na Inglaterra e alhures. 826. Cf. 313-14. a construir uma nova teoria do Estado. a existência de partidos foi ignorada por Laband. sob a influência de Dicey.. 49) e na constituição brasileira de 1946 (Art. Traité du droit constitutionnel. 1939). Cláusulas semelhantes foram incorporadas nas constituições de certos Lander alemães — por exemplo. 15 J. 15 Hoje é impossível manter essas ficções convenientes.. 3. Leibholz. J.. 1952). 120) — na constituição italiana do pós-guerra (Art. as tarefas que competem aos partidos. Não será por acidente que a palavra "partido" não figura no índice. o conceito de partido organizado brilhava por sua ausência nos manuais clássicos de Barthélemy. 11. relativamente à constituição de Weimar. 12 Um interessante exemplo é a Grammar of Politics. pois este livro dispôs-se. Sabemos. pág. II (Paris. pág. Barthélemy desvia-se de seu caminho para evitar a palavra "partido". também L. para verificar que esse reconhecimento legal assinalou. Basta.ª ed. de uma situação que de há muito já existia de fato. que admitiam. e que a função por eles desempenhada não é certamente menor do que a dos órgãos mais antigos de governo.12 Na Inglaterra. evidentemente. págs.11 Essa legalização ou constitucionalização do sistema partidário foi. Essai sur le travail parlementaire (Paris. 14 Cf. 264-6. mas também a substância do sistema parlamentar. pág. Esmein e Duguit. Baden (Art. que o impacto dos partidos organizados transformou não somente a infra-estrutura. 12. onde o moderno sistema partidário evoluiu de maneira particularmente lenta. 1953). 1941. de H.passo que a constituição de Berlim menciona.. e Jellinek rejeitou. publicada pela primeira vez em 1925. cit. especificamente. Em seu manual Le Gouvernement de la France (Paris. mas não como parte essencial do mesmo. falando apenas de "groupes politiques. The Party System in Great-Britain (Londres. a cena política britânica é dominada Cf. e ainda em 1953 era possível escrever-se que "a constituição ignora o sistema partidário britânico". 11 . Laski. basta atentarmos nos manuais de Direito Constitucional e teoria política usados. Não obstante. pág.

não tardou muito que as grandes famílias da costa oriental americana. onde o poder político. perdessem suas posições predominantes. como "contrária às instituições republicanas e perigosa para as liberdades do povo". Aquilo que ainda imaginamos como um Estado parlamentarista converteu-se. de início. 54. os contornos do mecanismo partidário que iria dominar no futuro — o mecanismo de patrões. a mudança encontrou resistência. por sua própria e legítima iniciativa. em Survey of Contemporary Political Science. a forma americana de democracia das massas fizera sua entrada definitiva. e a partir dessa mesma data. e de Polk. pág. gerentes e camarilhas atuando mediante negociatas. Essa mudança resultou do aparecimento de uma massa eleitoral que não podia ser alcançada pelas antigas formas de organização política. de fato. Polk era o protótipo do candidato de última hora — o homem em torno de quem as massas podiam unir-se. Thomson. do governo em qualquer outra parte.17 De maneira característica. que se apoderaram e dividiram entre si a maioria dos poderes soberanos que Bagehot atribuía à Câmara dos Comuns. os Estados Unidos. aproximadamente. foi literalmente empurrado para o cargo por uma esmagadora votação. a imigração maciça da Irlanda. que tinham obtido o controle nos anos revolucionários e pós-revolucionários. um terço de século — ou mais — à frente do resto do mundo. com um andamento variável. Alemanha e Escandinávia consubstanciou um vasto eleitorado amorfo. uma das "mais centrais e decisivas entre todas as instituições do governo britânico"16 como. em cada país. e seu progresso foi afetado. manipular comitês e convenções — já eram plenamente visíveis. 546. II (Londres. estava concentrado nas mãos de uma pequena camada de ricos plantadores. mas Harrison. em diferentes países. conCf. Mas. 41 e segs. em 1840. 1950). e os partidos são. Ocorreu essa mudança. antes dele. 17 Sua ascensão foi descrita por M. personificando todos os ideais do pioneirismo no Oeste. Excetuando o Sul. 18 IBID. Democracy and the Organization of Political Parties. seguiam à frente da Europa.por duas grandes oligarquias de partido. sendo denunciada como "um estratagema ianque" para impedir os indivíduos de se apresentarem. o sufrágio universal (para os brancos. hoje em dia. só ganhando expressão continental depois que a guerra civil o levou para o Sul. vol. e desde a época da eleição de Andrew Jackson. muito naturalmente. em 1844. cujas condições eram mais fluidas e o progresso menos obstruído por privilégios e precedentes. extorsão e imposição para conquistar o voto nas eleições primárias. por ser suficientemente desconhecido ou excessivamente apagado para suscitar antagonismos —. pelas condições preexistentes. em 1828. Como já mencionamos. na verdade. antes da Guerra Civil. e para privar os eleitores da liberdade de votarem em candidatos de sua própria escolha. Ostrogorski. mas não para os negros) estava já generalizado por volta de 1825.18 Também foram precisos vinte e cinco anos para que o sistema ficasse completamente elaborado. 66 16 . num Estado partidarista. Nos Estados Unidos. Págs. com a eleição de Harrison. publicado pela UNESCO (Paris. págs. organizar a "chapa". D. como candidatos ao Congresso. à semelhança do que sucedera a Jackson. 1902).

21 Os partidos burgueses nada mais podiam fazer do que segui-lo. em 1890. foi bastante forte para vencer a resistência conservadora e consumar a mudança. reunindo perto de um milhão e meio de votos. 127. em 1903. T. propriedade e influência. pág.19 Na Alemanha. 22 Cf. para a democracia das massas.22 O mesmo se passava na França. Schieder. talvez a notoriedade do alemão Alfred Hugenberg. inaugurou uma nova era. sabia bem que só uma permanente e bem organizada máquina profissional poderia ressuscitá-lo. o momento decisivo foi a revogação das leis anti-socialistas. de 1883. ingleaa. pág.siderado. Friedrich Naumann. e da Terceira Lei de Reforma. 90 (trad.. do Corrupt Practices Act. no período depois de 1870. Staat und Gesellschaft im Wandel unserer Zeit (Munique. o Partido Social-Democrático alemão constituía. cit. algo não muito distante de um Estado dentro de outro Estado. op. logo depois da promulgação da Segunda Lei de Reforma. CLXXXV (1958). até hoje. mais de dois milhões.20 Seu resultado imediato foi a rápida expansão do Partido Social-Democrático. em 1867. pág. em 1914. pig. fundado em 1875. a estrutura social. Na Alemanha. que era um fato consumado nos Estados Unidos. Cf. de 1884. como Balfour imediatamente percebeu. As novas atitudes e métodos políticos manifestaram-se. como no resto da Europa. 578. com mais de um milhão de filiados inscritos e um orçamento superior a dois milhões de marcos por ano. e as classes médias alemãs estavam bastante divididas. Talvez a primeira vitória nítida para a nova democracia industrial tenha sido a eleição de 1906. com sua forte base em um campesinato proprietário de terras e numa pequena burguesia bastante vasta. primeiramente. 226. A transição do circunspecto liberalismo. a qual. Duverger. 19 20 . pág. inglesa. 66). e 4 milhões e 250 mil votos. entre os quais nenhum terá granjeado. trad. socialmente. cit. constituiu um processo muito mais hesitante na margem européia do Atlântico. era hostil ao advento de poderosos partidos nacionais. Em 1929. apelando em 1906 para um renascimento do liberalismo. em 1912. embora só depois do Ballot Act. como Max Weber mais tarde o qualificaria. em 1890. pág. Quanto a Martin van Buren. T. que se colocava agora à frente de todos os demais partidos. 1958). foi a esquerda socialista que liderou a marcha no desenvolvimento de novas formas de organização política. o "líder carismático". Nipperdey "Die Organisation der bürgerlichen Parteien in Deutschland vor 1918". foi o antepassado de uma longa dinastia de chefes de partido e intrigantes políticos com uma prole mundial. claudicantemente. de 1872. três milhões. só o impacto da industrialização. em 1898. The State and Society in our Times (Edimbureo. em 1850. vol. mas sua limpidez de visão e propósitos era excepcional. o Smellie. com seu respeito pelo nascimento. Historische Zeitschrift. que elevou o eleitorado a perto de cinco milhões. na Inglaterra. Aí de fato. op. 1962). se possa dizer que essa democratização do direito de voto foi realmente garantida. 98-9. Aqui.. com sua ênfase na diferenciação regional e na antítese entre Paris e as províncias. de um eleitorado de nove milhões. para formar o partido de massas que Naumann pedira. o organizador da vitória de Jackson. 21 Cf.

mesmo então. significativamente. propondo ao país rumos claramente definidos de ação. uma de 1900. Cf. em 1903. grupos de militantes. "um processo de diferenciação" estava ocorrendo e. Sua natureza foi indicada por duas declarações significativas e representativas. estivesse longe de completa. ou ligas". foi na primeira década do século XX que os novos partidos se organizaram: os radicais. 23 . dessa maneira. e o partido socialista (SFIO). mais do que qualquer outra coisa.. comitês. cada indivíduo votará sem erguer os olhos para além dos limites da aldeia onde vive. naquela primeira data. "trabalhada pelo novo fermento democrático". a formação de eficientes organizações partidárias. 1961). von Alberttni. no ano seguinte (embora. passara a ser utilizada para definir "uma associação fundada para manter essa opinião". 9. isso porque tais organizações não existem. escreveu um competente observador. Não existe bandeira que ele possa seguir. assim foi assinalado. a massa da nação está-se erguendo e estabelecendo associações. ligas. capazes de disciplinarem os eleitores e controlarem os deputados. 594. Hist. na Revue politique et parlementaire. 1789-1940. federações. o affaire Dreyfus desacreditou o oportunista patriciado burguês. no período entre as guerras. repudiou a noção de fidelidade partidária: "Não pertenço a qualquer dessas mistificações a que o povo chama partidos. 24 Artigo de Deslandres. Ainda que. a fédération républicaine. Miquel. dando à esquerda e à pequena burguesia centro-esquerdista uma oportunidade de desempenhar ativo papel político.. sob sua tutela. Como escreveu Maurice Deslandres num amplamente divulgado artigo de 1910. agiu como catalisador nesse processo foi o caso Dreyfus. "Nas grandes massas homogêneas e desorganizadas". Cada deputado foi eleito separadamente. Não existem aí partidos.25 Assim. "A palavra partido. op. o caso já não era esse.termo "partido" ainda era descrito como uma "agradável ficção". págs. vol. "Parteiorganisation und Parteibegriff in Frankreich. o país "estava ganhando consciência de si próprio". cujo propósito é ativar as instituições políticas e colocá-las. e até um parlamentar tão eminente. vol. a aliance républicaine et démocratique. Assim. 123. outra de 1910. E no próprio parlamento a situação é semelhante. cit. 566 e 567. pág. em 1901. formado por um amálgama de pequenos grupos rivais já existentes. disse ele. citado por Albertini. "não irão encontrá-la nas organizações nacionais de caráter permanente. no que concerne à França. 565 25 Cf. como André Tardieu. a França também foi levada na corrente de um progresso que era universal. R.26 "Se os eleitores estão procurando orientação".. P. a mudança fora considerável. tanto quanto possível. nenhum líder a quem se unir e que o dirija. Zeitschrift. que antes era usada para designar uma opinião". LXV. não podem existir. Eclipsando a política francesa entre 1896 e 1899. L'affaire Dreyfus (Paris." Em 1910. na França. que monopolizara o poder desde o início da Terceira República. pág. CXCIII (1961). 26 Citadas por Albertini.24 O acontecimento que. chega de sua aldeia com um programa essencialmente local. uniões. disse ele. págs. em 1905. só em 1911 a palavra "aliança" fosse substituída por "partido").23 Todavia.

28 3 Quais eram as mudanças necessárias para satisfazer às condições da democracia das massas e como concretizá-las ? No que respeita à Inglaterra. 29 Esses acontecimentos foram primeiramente analisados por Ostrogorski. em 1879. vinte anos antes. fundada em 1881.30 Na França. a formação da National Liberal Federation. os radicais tentaram organizar-se em base nacional. (ed. op. na Alemanha. as breves escaramuças eleitoreiras deram lugar às sistemáticas campanhas eleitorais a longo prazo. Nipperdey. The American Impact on Russian. M. pág. entre os marcos de maior ressonância que se lhe seguiram. por Schnadhorst e Chamberlain. procurando ao mesmo tempo uma base entre os artesãos.27 Como na Alemanha.. em muitos aspectos. págs. depois dele. mas também aí a necessidade de apoiar os partidos pela ampliação de suas bases populares não podia deixar de ser reconhecida. cit. mas já não eram mais organizações reunidas ad hoc. Págs. os velhos métodos e os velhos mecanismos já não eram capazes de enfrentar um eleitorado de muitos milhões. o processo de renovação foi levado a cabo muito menos energicamente do que na Inglaterra. os fatos são razoavelmente conhecidos e já foram relatados com algum detalhe. em 1837.. para lutar em determinadas eleições. I. pouco depois da morte de Disraeli. "o fator psicológico do individualismo era demasiado forte para que os partidos pudessem ter a rigidez e precisão de máquinas". O ponto de partida foi a Lei de Reforma de 1867. 1912). 161-272. págs. através da habilidosa manipulação de uma variedade de associações católicas. 579.29 Na Europa continental. op. os conservadores. L. 30 Para maiores detalhes. Assim. em órgão da Liga Agrária. op. cit. destacam-se a organização do comitê eleitoral radical e Birmingham. essas inovações eram contrabalançadas pelas associações dos trabalhadores conservadores e pela Liga Primrose. Laserson. com seu aumento de sufrágio nas cidades.. Há uma crítica de Ostrogorski e sua obra em M. na França. em 1877. cf. e. 473-84. pela combinação de comitês locais em federações regio- Cf. e embora a história tenha sido freqüentemente recontada. pags. através da chamada Bürgervereine. Jacques. sua ampliação a outras cidades importantes. vol. Do lado conservador. cit. 1962). 581-90. intermitentemente. a partir de 1893. Les partis politiques sous la III République (Paris.Era verdade que. e a campanha midlothiana de Gladstone. enquanto o Centro Católico se consolidava como partido das massas. 28 e segs. converteram-se. que até então haviam dispensado o apoio popular. se bem que a maioria dos autores se incline a tratá-los como um processo de desenvolvimento contínuo e a omitir a natureza e conseqüências revolucionárias dessas mudanças. seu relato ainda é inexcedível. 28 Nipperdey. 27 . visto poderem contar com a proteção do governo.

. O primeiro partido realmente das massas. O caucus foi a principal inovação política do novo período. foi o Partido Comunista. tudo isso mudou. em particular. em vez de cima para baixo — por outras palavras. o segundo. é o exemplo mais conhecido). algo foi criado com as características de um partido das massas. 22 (trad. ou situado à testa da máquina partidária. 33 Duverger. significativamente. não sofreu discussão na França.nais e com o congresso do partido no cimo. cit. alimentava desígnios de se constituir em corpo permanente.. págs. sua permanência ou continuidade. ou eram convocadas para lutar em determinada eleição. na Alemanha nem na Inglaterra. Com a ampliação e redistribuição do direito de voto. Em circunstâncias normais. págs. também. forneceu. os quais se organizavam. pág. cuja adoção refletiu a assimilação das idéias e práticas políticas da América. "um poder regular no Estado". A doutrina enunciada por Burke e Blackstone. em vez de um pequeno grupo influente no governo. usualmente os chefes das grandes famílias dos condados. nenhuma.32 No que dizia respeito à sua organização. numa época em que os sociais-democratas alemães somavam um milhão. op. devia-se quase certamente mais ao "admirável sistema" de organização do que aos atrativos da doutrina marxista. conseqüentemente. a imposição da disciplina partidária. Todos os quatro pontos assinalaram uma ruptura radical com o passado. na Inglaterra. o terceiro. sem necessidade de qualquer autorização. e era responsável. Nenhuma dessas organizações extraconstitucionais. 5). apenas. já foi corretamente afirmado. sobressaindo por nascimento ou fortuna. e o principal instrumento de mudança foi o dispositivo conhecido pelo nome de caucus (convenção partidária) — uma palavra. era um partido das massas sem as massas. na França.33 Quatro fatores principais distinguiram as novas formas de organização política. como Ostrogorski observou. não o mandatário de um partido. D. Contudo. pág. op. Albertini. o controle da orientação política pelos membros do partido e seus delegados. Democracy in France (Londres. seu êxito fenomenal. op. o SFIO ajustava-se ao novo modelo. decidira exercer controle sobre os membros do parlamento ou deputados por ela eleitos. segundo a qual o deputado era o representante da nação. págs. cit. para formar um comitê ad hoc. inglesa. ou em redor deste (o Carlton Club. nas palavras de Lorde Randolph Churchill. mas o total de filiações em 1914 registrava. ou uma filiação em massa. 572-5. dispersando-se no dia seguinte à votação. para um conspecto mais genérico. 1946). 592-3. o quarto (e o mais difícil de conseguir) foi a organização de baixo para cima. mas o êxito foi limitado. As organizações anteriores tinham sido quase todas intermitentes. a pequenez do eleitorado significava estar ele controlado por um punhado de chefões locais. existiram — como a Anti-Corn Law League. só perante sua própria consciência. na França.31 pelo que. com uma filiação total orçada em um milhão de membros. somente com a formação do SFIO é que. Thomson. 31 . por exemplo — para propagar um determinado objetivo e sumiram logo que o mesmo foi alcançado. de origem americana. 105-7 32 Albertini. em Londres.. cit. noventa mil. O primeiro foi uma ampla base popular. cf.

Alemanha e Itália. A razão básica. era a relutância da classe média. I... 39 (trad. 37 Ostrogorski. Nipperdey. pág. com surpreendente rapidez. Na Inglaterra. cit. a liderança partidária era exímia em impor disciplina. em virtude de seu poderio. O caso Cowen é analisado detalhadamente. pág.. instalando no lugar dos velhos e negligentes métodos e dos grupos aristocráticos "um novo tipo de cesarismo plebiscitário. mas por um imenso sindicato". em satélites dos líderes.34 Tal como projetado por seus organizadores. 231-42."inegavelmente.. op. cit. onde as conclusões de seu estudo são resumidas. e que. pág. vol. Na França. e Harcourt disse a Morley que tudo o que havia agora a esperar dos ministros é que jurassem lealdade a um credo formulado pela federação.40 na Alemanha. pág. Assim. ao passo que as organizações das várias cidades estavam ligadas entre si pela Federação Liberal Nacional. construído de células em cada bairro e cada rua. op. op. tendiam. cit. existindo e funcionando continuamente e não só em períodos eleitorais. Pág. inglesa. Na prática. os radicais fracassaram completamente em seus esforços para impor uma disciplina partidária. nitidamente definido. cit. 40 Albertini. a recuar. I. Schnadhorst e Chamberlain. 34 35 . Lorde Randolph Churchill praticou com os conservadores. 38 Cf. tal coOstrogorski. cit. 322-3.. 21). as organizações representativas converteram-se. 584 e segs. estava habilitada a exercer pressão e mesmo controlar membros do parlamento. 36 Smellie. 38 Além disso. Cowen tinha razão.37 Em princípio. O que Chamberlain fez com os liberais. foi criada uma máquina que.. Quando em 1886. 302-4. podia influenciar e. ibid. Hartington também se queixou de que Chamberlain organizara um poder externo para rebaixar o parlamento. o aparecimento do caucus marcou uma ruptura radical com o passado. orientar e dirigir grandes massas de eleitores". bem como a falta de um interesse de classe.. seu comentário foi que necessitavam de uma máquina. pág.35 Não há dúvida de que em substância. o caucus era um mecanismo partidário de caráter permanente. págs. ditar até uma orientação política. pág. não de um homem. com suas tradições individualistas. Em vez de se tornarem astros principais do sistema partidário. pág. cit. cf.39 e o resultado foi bastante parecido na França. para todos os fins e propósitos.. op. vol. op. diz Ostrogorski. cit. o caucus obrigou o radical independente Joseph Cowen a abandonar a vida pública. 282. cujos delegados formavam o comitê executivo e geral para toda a cidade. Tendo avançado tão longe. 578. em sujeitar-se a uma rigorosa disciplina partidária. págs. e posto em prática em Birmingham. sob o domínio autoritário dos líderes partidários. a única forma de organização política que pode reunir.36 O vento que soprava do lado tory não era menos forte do que o ciclone desencadeado pelas alturas radicais. não foi bem assim. se fosse possível. A lentidão e relutância com que os partidos burgueses se adaptaram às condições da democracia das massas foram notáveis. analisada com maior detalhe por McKenzie. tanto a Associação Liberal como a Associação Conservadora foram colocadas. 39 Cf Ostrogorski vol I. para a fundir em uma só peça. Essa evolução foi subseqüentemente. 198. sem dúvida. op. e Duverger. op. 594.. exercido não por um indivíduo. por vezes. 275.

585. a substituição do capitalismo industrial — do qual o negócio independente. pág. cit. só depois do aparecimento em cena dos partidos socialistas é que os últimos obstáculos foram superados. só o temor de revolução e o progresso do comunismo convenceram as classes médias de que suas formas tradicionais de organização eram inadequadas e de que era necessário criar partidos de massas. entre 1870 e 1890. 88. Cf. organizavam antecipadamente seus temários e transformavam-nos em dóceis instrumentos de um grupo governante. em 1932. Em primeiro lugar. provocou. desconhecidos dos patrões a quem jamais viam. o aparecimento da fábrica ou usina. do qual o multimilionário americano John Pierpont Morgan pode ser apontado com figura típica.. págs. era imensa. Duverger.42 Entrementes. 90-1 (trad. passou a representar um elemento básico na sociedade. Em segundo lugar. cit. fosse por meio de adesão direta ou (como na Inglaterra) através do apoio das trade unions. em toda parte. o partido da pequena-burguesia par excellence — com 800 000 membros e mais de treze milhões e meio de votos. O crescimento fenomenal do Partido Social-Democrático alemão já foi assinalado. o resultado foi o aparecimento. Sobretudo. e o surto dos partidos socialistas assinalou a adaptação da política a esse fato. Ingl. e o Partido Socialista francês. op. No fundo. era a forma característica — pelo capitalismo financeiro.41 Assim. desde o princípio. 07). do ponto de vista de organização de partido.mo na Inglaterra. como os contemporâneos desses acontecimentos perfeitamente sabiam. como classe. antes anulada pelo predomínio de pequenas fábricas em que o patrão e seus empregados trabalhavam lado a lado. ao registrar em suas fileiras Nipperdey. que professavam ser partidos "nacionais". em aceitar essa divisão básica. gerido por uma família. A vantagem. a força dos partidos socialistas assentava em sua firme infra-estrutura social. mas. os líderes parlamentares dominavam os congressos dos partidos. embora a tendência para o desenvolvimento de partidos das massas fosse grande. 43 Ver pág. os partidos socialistas não tinham hesitado. o apelo aos interesses da classe trabalhadora acarretou pela primeira vez uma filiação em massa. a indústria e urbanização em grande escala — provocaram alterações profundas na sociedade capitalista. o Partido Trabalhista britânico.. preconizara. um grupo direitista algo inarticulado. eram partidos de uma classe. desde 1899. e que a divisão entre os donos e os que acionavam o mecanismo da produção. op. desde 1905. depois. tinham sistematicamente adaptado e aplicado os princípios e métodos que a organização do caucus. alterou a estrutura do próprio capitalismo.43 Na Grã-Bretanha.. do Partido Nacional Socialista — originalmente. com milhares de operários em suas folhas de pagamento. 41 42 . significou que os trabalhadores. Em comparação com os partidos burgueses. Ao invés dos partidos burgueses. representando um interesse homogêneo de classe. Os mesmos fatores que tinham levado ao surto da democracia das massas — nomeadamente. pág. representando todas as classes. o Partido Social-Democrático alemão. tendiam cada vez mais a ficarem reduzidos à posição de "mão-de-obra" anônima. na ala oposta. desde 1891.

págs. 196-7). pág. que distribuía as quotas a suas agências locais. Smellie. todos os partidos socialistas adotaram medidas para garantir a subordinação dos deputados ao partido e. na França. os partidos socialistas. cf. cit. Nipperdey. disciplinado. págs. 576. cit. Em vez de uma associação frouxa de comitês. op. op. Quanto ao aspecto financeiro.foi fixada em 30 francos. cit. pág. pág.47 Não há dúvida de que esse tipo de organização propiciava maior coesão e maior dose de disciplina. os socialistas 3.45 A diferença observava-se também no progresso da organização interna do partido. Bélgica e Áustria. 47 Para o contraste entre a seção (ou ramificação) — "une invention socialiste" — e o comitê (ou caucus) — "um type archaique de structure" — cf.... Em 1907.44 A diferença era claramente visível na França. op. não tinham uma idéia precisa do montante de filiados. cit. 198: "Elaboramos uma luta de pares do reino e deputados a quem podemos solicitar que contribuam. os senadores e deputados radicais. cit.. 222 (págs. 192-3). Enquanto nos partidos burgueses era norma que o partido fosse dominado pelo grupo parlamentar.o alistamento das uniões sindicais. em vez de ser o contrário. pelo contrário. inglesa. 211-32 (trad.. 596. 21-2. 124-5). 579). constituídas segundo o princípio de "centralismo democrático" e ramificadas em "seções" que funcionavam como subdivisões do conjunto. Duverger. pág.48 Na França. 4-5. op. cit. 158-9 (trad. no funcionalismo assalariado do quartel-general. Quando a introdução de carteiras de membros foi discutida. embora formalmente aceita em 1913. 23-5). ao passo que os socialistas supervisavam suas filiações através de uma organização central e coletavam as quotizações através de uma tesouraria central. ainda em 1927. Nesse ponto. só 527 em 838 tinham liquidado seus pagamentos. que tinham dificuldades em organizar seus adeptos como membros ativos do partido respectivo. págs.. 15% de seus adeptos. 45 Albertini. no máximo. organizados em base local ou regional. todo candidato tinha de O Partido Nacional Liberal alemão.. não foi posta em prática até 1923. 48 A posição é analisada por Duverger. onde os radicais.. a que faltava coesão e dispunha de escasso poder de controle dos líderes parlamentares do centro. Cf. Para alguns dados sobre as subscrições liberais e conservadoras na Inglaterra. 589. Mais importante era a existência de um quadro ativo. op.originalmente nada pagavam . para impedir que assumissem o controle tanto do congresso partidário como do seu comitê executivo. na França. Albertini.000 filiados. para a Austrália e Grã-Bretanha." Havia 114 e foi-lhes solicitado "quinhentas libras por cabeça". dependiam grandemente de iniciativas locais que pudessem resultar de constituintes individuais e confiavam. ibid. op.. op. 37-9. A subscrição dos comitês radicais locais . aspecto este em que os socialistas constituíam também o modelo.000 francos. só em 1929 os radicais nomearam um secretário-geral (Albertini. pág. págs. Itália. cf. 228 (págs.. também McKenzie.. 575. cf. págs. págs. os socialistas estavam muito à frente dos partidos da classe média.. ou seja. em 1912. pág. eram organizações unitárias. 182-202). cit. só conseguiu organizar. inglesa págs. por exemplo. 20-1.46 A conseqüência dessa compacta e eficiente organização foi um maior controle. op. o Partido Trabalhista contava já em 1902 com 860. organizado a partir do centro e pagando contribuições regulares. inglesa. para a França. op. 44 . págs. em especial. mas em 1929. 46 Dados para a Alemanha em Schieder. menos em contribuições regulares do que em subvenções de abastados doadores. 594-7. cit. para suas finanças. reclamou-se que 50 centavos era uma quota excessiva e. 41-3 (trad. pagavam 200 francos. cit.

64. por motivos táticos. um dos mais claros sintomas de quão radicalmente o impacto da democracia das massas modificara todo o sistema político. representa. 190). enquanto o Partido Trabalhista britânico insistiu. o Estado multipartidário. a conferência do Partido Trabalhista decidiu que não seria mais solicitado aos candidatos que assinassem o compromisso (ibid. determinar exatamente onde reside o controle da política de qualquer partido — mesmo de um partido comunista — em determinado momento. Esses fatos. 1962. assim constituído para impedir o domínio dos líderes parlamentares. os partidos socialistas são controlados por um congresso do partido. págs. 86.assinar um compromisso em que declarava respeitar as decisões do congresso nacional do partido. em muitos aspectos. como tão freqüentemente sucedeu. págs. é ainda. Os Estados Unidos. Political Parties. pág. os primeiros repudiaram. mas com limitado êxito. sua base de classe e resolveram. estabelecer-se como partidos "nacionais". na prática. 1. foi. op.ª ed. podem parecer. op. como em muitos outros.. com seu sistema presidencialista. tal qual hoje existe. 50 Op. se o compararmos com a teoria clássica de representação formulada por Blackstone e Burke. cit. Em 1911.51 Neste aspecto. acima delineada. desde o princípio. 49 . por exemplo. aos partidos burgueses. 50 Teoricamente. inglesa. em que os candidatos devem "submeter-se às decisões do grupo.. cit. a persistência das tradições históricas e a resistência do conservantismo inveterado resultaram em compromissos. pág. Na prática. A Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of Modern Democracy (ed. pág. 387. 51 Estes aspectos. porém. passou a vigorar. é extraordinariamente difícil. 219 (trad.. mas é fato notório que. sendo particularmente evidentes nos casos em que. na Alemanha em 1911).49 Assim. para arguAlbertini. como se sabe. podem ser encaradas como típicas da democracia das massas. 474). o princípio do mandato. e não requerem maior exame aqui. as instituições que. Noutros países. cit. McKenzie. em parte alguma se encontram em uma forma não-diluída e precisa. uma casa entre duas povoações — não pertence a uma nem a outra. à primeira vista. de modo que.. como foi assinalado por Duverger. teoricamente consideradas. seguiram seu próprio rumo. como seus equivalentes burgueses. que o caucus tentara impor. 590. se não impossível. as diferenças estruturais entre os partidos proletários e burgueses são menores do que. o desenvolvimento de rígidas oligarquias partidárias reduziu o controle dos filiados comuns a proporções nominais. 4 Devemos sublinhar que a revolução nas práticas políticas.. ou demitir-se".. em sua maior parte. uma revolução incompleta. e outros semelhantes. tornaram fácil manter uma confortável doutrina de continuidade constitucional. foram pormenorizadamente estudados por Robert Michels. democraticamente eleito.

58 (para Inglaterra.53 O que sucedeu foi que o lugar do parlamento na constituição se modificou de modo substancial. Um fator que acelerou esse processo de concentração foi o esforço exigido pela guerra. está claro que nos encontramos no meio de acontecimentos que nos afastam da supremacia do parlamento e nos aproximam de alguma forma de democracia plebiscitária. mas que elas não esgotam. e sua centralização a cargo do Secretário do Tesouro. Sabemos. tanto em relação à liderança governamental quanto em relação ao eleitorado. op. 182. "o centro de gravidade da constituição fora totalmente deslocado".55 Desde essa época. pouco mais é do que um "lugar de reunião em que delegados partidários. pág. assim "removendo o centro de gravidade política do parlamento para a plataforma". O resultado foi colocar um poder grandemente aumentado nas mãos do primeiro-ministro e seus conselheiros profissionais. E. no processo. quando escreveu. o processo avançou. de qualquer modo. através dela. 52 . o qual. op.5. apesar das aparências em contrário. para prosseguir mais vigorosamente no esforço de guerra. perguntas relevantes.. nos comitês ou conferências dos partidos". avolumou o poder pessoal tanto de Lloyd George como de Churchill e levou este último. Seja qual for o ponto que tenhamos alcançado. que o poder pessoal do primeiro-ministro britânico é hoje menos substancial do que o de Gladstone. 19. quando observou a respeito da Lei de Reforma de 1867 que. de um modo concludente. por cima do parlamento. a ignorar o parlamento e o governo numa série de questões importantes de política e administração. 54 Smellie. na Inglaterra. Outro fator foi a reforma do funcionalismo civil por Lloyd George. que a decisão de prosseguir com a produção da bomba atômica foi tomada por Attlee. rigorosamente controlados. 53 Leibholz. assim foi já dito. 17. 54 Foi registrada por Salisbury. por exemplo.52 Hoje em dia. em seu auge? Poderá razoavelmente sustentar-se que a supremacia do parlamento. as mudanças que ocorreram durante o século passado não afetaram a estrutura fundamental de governo. o problema e deixaram mesmo de ser. pág. o parlamento. apelou para o eleitorado. por exemplo. A mudança foi iniciada por Gladstone em 1879 quando. 1958). pág. Fraenkel. cit. 193 55 Ibid. e não foi revelada ao parlamento senão depois da primeira bomba ter sido testada em 1951. e já fora prevista por Goschen. é hoje um fato menos verdadeiro do que no século XIX? A resposta a essas perguntas é que seria difícil provar ou reprovar uma e outra das proposições. em 1919. 16-18). em sua famosa campanha midlothiana. O efeito dessa meCf. o qual era diretamente responsável ante o primeiro-ministro.mentar que. se juntam em assembléia para registrar decisões já previamente tomadas em algures. Poderá ser demonstrado. expressa no sistema partidário e através dele. sem consulta ao ministério. por sua própria iniciativa. auxiliado pela crescente complexidade do governo e a natureza altamente técnica das decisões que era preciso tomar. provavelmente. Die repräsentative und plebiszitäre Komponente in demokratitchen Verfassungsstaat (Tübingen. em 1895. Págs. que "o poder saíra das mãos dos estadistas". que Dicey descreveu como característica dominante da constituição britânica. cit.. págs.

op. Do ponto de vista do eleitor. 38). cit. foi alterada em muitos aspectos fundamentais. 463 (trad. Para o que segue. se observarmos as coisas por esse prisma. Com o desaparecimento do sólido núcleo de membros independentes — e de mentalidade independente — o papel do parlamento como um freio e controle impostos ao Para um resumo desses acontecimentos. págs. cf. como disse Duverger.dida foi acarretar "um imenso acréscimo de poder ao primeiroministro". cit. an Aufträge und Weisungen nicht gebunden und nur ihrem Gewissen unterworfen" (Art. pág. Mas isso não diminui o impacto revolucionário dessas modificações nem torna menos importante registrar suas conseqüências e efeitos. vinculado apenas aos ditames de sua própria consciência.58 é evidente que a posição real se apresenta bem diferente. é a lealdade partidária. suas opiniões próprias. equivale. Se tentarmos resumir as mudanças. O resultado das mudanças operadas nos últimos cinqüenta anos foi uma firme e. sem a obrigação de submeterem-se a quaisquer outras ordens que não as de sua própria consciência. o representante ou membro do parlamento. acima. de 1949. finalmente. o eleitor só pode votar em candidatos indicados pelo partido ou partidos. cf. 54-5. pág. mas também de uma igualmente centralizada e imensamente mais poderosa máquina administrativa". mantinha ainda que os deputados no Bundestag eram "Vertreter des ganzen Volkes. Não podem votar contra o partido a que pertencem.60 Contudo. 59 Op. desastrosa decadência no prestígio e reputação do parlamento. cf. sem referência ao fundo histórico das mesmas. 423). tal como hoje as vemos. op.56 Não podemos prever que forma de governo resultará. os pontos que prevalecerão. Embora se preste ainda uma atenção meramente superficial à teoria de que o deputado é o representante da nação inteira. deixou de ser tomada em linha de conta. Leibholz. dessas mudanças. Na realidade. em muitos aspectos. a uma perda do direito de voto. n.. citada por Leibholz.57 Primeiro. 32. se não obedecerem às diretrizes do partido. provavelmente (ou com certeza). se o aferirmos pelos padrões do século XIX.") Sobre as dificuldades suscitadas por essa teoria. págs. provavelmente. não podemos sequer dizer se o processo alguma vez se completará. 58 Assim.. Crossman. e sabem que. e as queixas levantadas contra tal sistema. acionados pelos diretórios dos partidos". em alguns casos. que se convertia agora "na cúpula não só de uma máquina política altamente centralizada. segundo a qual os eleitores escolhem um candidato por sua capacidade e personalidade. inglesa. pág. 16-27. 48-51. de 23 de outubro de 1952. nenhum dos quais representará. a constituição de Bonn. do T. foram. cit. serão os seguintes. 60 Cf. 128 56 57 . quando pela primeira vez surgiu nos Estados Unidos. inteiramente justificadas. págs. e aquela teoria da democracia representativa clássica. o resultado. em questões de substância. não poderão esperar a reeleição. 59 "os membros do parlamento estão sujeitos a uma disciplina que os transforma em simples máquinas de votar. em resumo. (N. não têm o direito de formular um juízo independente.: Representantes de todo o povo. não podem sequer abster-se. A única qualidade indispensável que se lhes exige. foi do ponto de vista do próprio parlamento e do sistema parlamentar que as conseqüências se apresentaram mais flagrantes.. a posição do deputado. a sentença do tribunal constitucional da Republica Federal. 37-8.

Assim. as máquinas partidárias — encorajadas pelo mais desanimador material — procurarem promover seus líderes escolhidos como "personalidades da TV" e coisas parecidas. quando as questões foram decididas antecipadamente nos conclaves secretos dos partidos. Como foi acentuado. bem como as tendências que eles refletem. 62 Assim. pág. não por um indivíduo. da televisão e de todos os outros métodos disponíveis de persuasão em massa. como o verificado na Inglaterra no verão de 1963 — se baseiam em conclusões previamente estabelecidas. cada vez mais.61 "é determinado pelo debate e pela divisão no parlamento. cit. escreveu Bagehot. O resultado foi a transferência de ênfase do parlamento para os partidos. Adenauer. "Se o governo cai ou fica". com o objetivo de impressioná-lo e corroborar sua fé no partido a que pertence. fazem parte da barragem de propaganda dirigida ao eleitorado por meio da imprensa. em conseqüência. anteriormente. as eleições estão-se convertendo em concursos de popularidade e só os muito ingênuos ficarão surpresos se. atualmente. a opinião tradicional de que o sistema de ministério habilita o parlamento a controlar o governo está muito próxima do oposto à verdade. mas por uma lista do partido. pág. as principais questões políticas dependiam do equilíbrio e o destino dos governos podia ser resolvido pelo resultado que para aquelas se obtivesse. o lugar onde os ministros eram feitos e desfeitos. por W. 61 62 . de um plebiscito pró ou contra o Dr. mera ficção. ao eleitor fora do parlamento. por exemplo. com efeito. por exemplo.executivo tornara-se. Os partidos existem para conquistar o poder: seria uma imbecilidade esperar deles excessivos escrúpulos quanto aos meios de o conseguirem. por uma parte. Se. Crossman). o caso é ainda mais óbvio. Armado com um mandato do eleitorado. os discursos parlamentares já não têm como finalidade abalar o critério dos membros. 143. 5 Esses fatos. a eleição de 1958 na República Federal. de atos plebiscitários. uma vez que os resultados — mesmo num momento de crise de confiança." Hoje. nem mais nem menos. I. mas a favor ou contra um programa partidário e os líderes escolhidos pelo partido para executarem o mandato. não votam a favor ou contra um candidato. Onde. Em resumo. The Law and the Constitution (Londres. como no tempo de Bagehot. os discursos parlamentares são os mais antiquados e menos eficientes. Jennings. e para o governo. os debates parlamentares perderam seu caráter constitutivo e de modo algum surpreende que só em casos muito raros consigam suscitar o interesse popular. mas são dirigidos. o governo não precisa prestar grande atenção ao parlamento. os eleitores. (ed. o eleitor vota. por outras palavras. 73. não passou. foram Op. no decurso dos acontecimentos. dos alto-falantes. como na Alemanha. mas de todos esses diversos meios. por outra. 1933). isto sim. Também deixara de ser. as eleições parlamentares tendem a aproximar-se.

como veremos adiante. ocupando um lugar central na estrutura política. sustentaria que a perspectiva de um governo cair nas mãos de uma elite partidária. transportaram os partidos da periferia para o centro da vida política não são acidentes que possam anular-se. porém. é porque. cit. nas condições atuais. alterando todos os seus postulados básicos. Leibholz. op. o advento da democracia das massas desmontou a estrutura existente da sociedade política. Cf. esteja pronta a enfrentar os problemas e condições que a ascensão do moderno Estado partidário provocou. Desnecessário seria dizer que isso não faz parte de minhas intenções. Tudo o que procurei fazer foi indicar. Como Ostrogorski percebeu tão rapidamente.. Se. as quais refletem uma alteração básica na estrutura social subjacente. mas fundamentalmente cínica e egoísta. problemas inerentes. são parte de uma revolução que imprimiu à História contemporânea um caráter próprio e distinto. pág. é o Estado de partido único. em toda parte. constituem também mudanças irrevogáveis. mediante exemplos. a natureza das mudanças que ocorreram em conseqüência do impacto da democracia das massas. 63 64 Ver págs. sobretudo. . sob o sistema comunista e. O próprio fato de que foram mudanças generalizadas. rechaçando termos de referência que já deixaram de ser relevantes. 32. ignoram o fato de que a única alternativa prática para o Estado bipartidário ou mutipartidário. e é significativo verificar que o novo tipo de governo partidário imediatamente se instalou nos novos países independentes da África. por exemplo. como todos os outros sistemas políticos. para desenvolverem um rígido e pesado mecanismo oligárquico.64 As mudanças que. comportam em si perigos inerentes ou. O que necessitamos é de uma nova ciência política que. vivemos numa nova era política e não deve surpreender ninguém o fato de que as velhas fórmulas exerçam tão pouca influência prática em nossa atual situação. mas em melhorar seu funcionamento. Como todas as transformações que implicam mutação nas forças sociais elementares. o partido constitui o único meio acessível de articular as imensas massas populares para fins políticos. em todo o mundo contemporâneo — nas democracias ocidentais. Aqueles que se revoltam contra um moderno partido de massas e clamam por um regresso às antigas formas de democracia representativa estão cedendo a uma perigosa forma de nostalgia. nos territórios ex-coloniais da África e da Ásia também — encontramos partidos altamente organizados. não consiste em denegrir o sistema e tentar retroceder. Hoje. por medidas que reforcem o controle democrático e neutralizem a tendência. pelo menos.freqüentemente usados para formular uma acusação condenatória do governo de partidos. tecnicamente proficiente. agora. não confinadas a qualquer país determinado. 180-84. nos últimos sessenta anos. O remédio. está exposto a abusos. indica que faziam parte integrante de um processo histórico geral. nas condições de sociedade de massas que surgiram desde o fim do século XIX. seja outra coisa senão inadmissível e importuna. Ninguém. inerente a todos os partidos.63 Em minha opinião. O governo partidário.

assim parecia. revoltaram-se contra o colonialismo e obtiveram sua independência. Sessenta anos depois. pelo impacto do Ocidente na Ásia e na África e pela revolta da Ásia e da África contra o Ocidente. "é o problema da barreira da cor — a relação das raças mais escuras com as mais claras. na América e nas ilhas do mar. simultaneamente. a revolta foi uma reação contra o imperialismo que atingira seu auge no último quartel do século XIX. poucas dúvidas restarão de que nenhum tema singular será mais importante do que a revolta contra o Ocidente. . acima de tudo o mais. Quando principiou o século XX. em grande parte como resultado de suas pró1 Cf. em toda a história da humanidade. A história do século atual foi marcada. nenhuma nação. disse o famoso líder negro americano William E. A mudança na situação dos povos asiáticos e africanos. Entre os fatores que facilitaram o surto de movimentos de independência na África e na Ásia. para a maioria dos historiadores. 1962). devemos incluir o enfraquecimento do pulso das potências européias. ocorrera uma inversão tão revolucionária. por Mussolini. que." 1 Foi uma notável profecia. da ciência e indústria ocidentais. Pan-Africanism (Londres. pelo fascismo e pelo nacional-socialismo. num ritmo crescente. 1 É certo. Jamais. 25. pág. a uma tal velocidade. começaram a ter. apenas restavam alguns vestígios do domínio europeu. com uma população de 800 milhões — mais de um quarto dos habitantes do mundo —. evidentemente. em 1900. O impacto foi o resultado. que a emancipação da Ásia e da África e o progresso da crise européia marcharam de mãos dadas. estava em condições de fazer frente à superioridade das armas e comércio europeus. era o sinal mais certo do advento de uma nova era. Colin Legum. Bughardt Du Bois. os mesmos efeitos criadores e deletérios sobre as sociedades de outros continentes. e em suas relações com a Europa. Entre 1945 e 1960. está ainda dominada pelas guerras européias e pelos problemas europeus. e quando a história da primeira metade do século XX — a qual. o poderio europeu na Ásia e na África mantinha-se no apogeu. dos homens na Ásia e África.VI A REVOLTA CONTRA O OCIDENTE A Reação da Ásia e da África à Hegemonia Européia "O problema do século XX". nada menos de quarenta países. tendo transformado a sociedade ocidental. Hitler e Stalin — acabar por ser escrita em maior perspectiva.

ao desencadear a revolução persa de 1906. 29 2 3 . em 1920. E. O primeiro foi a vitória do Japão sobre a Rússia.2 e seu impacto. D. mas ainda não na África tropical. a revolução turca de 1908 e a revolução chinesa de 1911. Desde a Primeira Guerra Mundial que os incipientes movimentos nacionalistas no mundo não-europeu tiravam proveito. os quais possuem uma forte tradição anticolonial. nos primeiros anos do século XX. uma vitória aclamada pelos povos dependentes. foram poderoso estímulo para tal surto. na Ásia. embora. na Europa. 646. G. e não se mostravam dispostos a ficar à margem.prias rivalidades e desavenças. A onda de intranqüilidade estendeu-se até ao Vietname. com maior êxito. por exemplo. bem como da drenagem de recursos motivada por suas guerras. em 1907. 1955). agitaram o nacionalismo árabe na Síria. as próprias potências européias encorajaram os movimentos nacionalistas em territórios coloniais no intuito de causarem embaraços a seus inimigos. ou pressões. em 1922. dez anos mais tarde. nem os ingleses. O segundo acontecimento foi a revolução russa de 1905 — uma revolução que na Europa quase passou despercebida. A History of South-East Asia (Londres. e o súbito colapso dos impérios europeus. Hall. enquanto os ingleses e os franceses. na Índia. e na África Negra cinqüenta anos mais tarde do que na Ásia. Seu impacto duplicou quando. e as vitoriosas campanhas de Kemal Ataturk contra a França. I. enquanto o colonialismo empurrava os povos asiáticos e africanos para o lado da União Soviética. ao movimento do Congresso. Os alemães. O nacionalismo chegou na Ásia um século depois do que na Europa. substancialmente. entre 1941 e 1945. das rivalidades entre as potências coloniais. e contra a Grécia. à sua maneira. Na Ásia. Spector. como vitórias asiáticas contra o poderio militar ocidental. pág. como um golpe para o ascendente europeu e uma prova de que as armas européias não eram invencíveis. na Mesopotâ- Cf. foi de tal ordem que suas conseqüências têm sido comparadas. pág. por volta de 1914. havia grupos radicais ou revolucionários prontos a tirar partido do conflito entre as potências européias a fim de obterem concessões e vantagens por meio de ameaças. mas que. provocou um efeito eletrizante em toda a Ásia. na África e no Oriente Médio.3 O resultado foi que. encarada como luta de libertação do despotismo. fossem contidos e forçados à retirada pela pressão dos Estados Unidos — agindo diretamente ou por intermédio das Nações Unidas —. ou negociações. Its Impact on Ásia (Englewood Cliffs. na guerra de 1904-5. os japoneses derrotaram os alemães em Xantum. Cf. foi em grande medida uma conseqüência de pressões externas e do impacto da política mundial. foram acolhidas. do mesmo modo. Dois acontecimentos externos. nem os franceses ou os holandeses recuperaram-se jamais dos golpes infligidos pelo Japão. 1962). incitaram os nacionalistas do Magrebe a levantarem-se em armas contra a França. em toda parte. na maioria dos países asiáticos e no mundo árabe. com as da Revolução Francesa de 1789. The First Russian Revolution. bem como ao insuflar novo ímpeto. depois de 1947. Depois da eclosão da guerra.

1953). Pannikar. Griff nach der Weltmacht (Düsseldorf. A propaganda dos objetivos por que se fazia a guerra não podia ficar confinada à Europa. 1961). a declaração de Lloyd George. as denúncias do imperialismo por Lênin e o exemplo dos revolucionários russos. em 20 de agosto de 1917. encontrava-se o futuro líder comunista chinês. The Middle East in World Affairs (Ithaca. Asia and Western Dominance (Londres. 1962). pág. o problema de administrar um país efervescente ainda se mantinha. mas. desviou o grosso de seu exército colonial — 25% dos oficiais franceses e 40% dos graduados (sargentos e cabos) — para a luta com os nacionalistas na Indochina. uma geração depois. 1952). relata sumariamente as negociações britânicas com os nacionalistas árabes. Lenczowski. As tropas não podiam estar em toda parte. Na China. Chou-En-Lai. J. The Asian Century. 6 Cf.mia e na península arábica contra os turcos. a famosa declaração do governo britânico. cf. da Índia. A History of Modern Nationalism in Ásia (Londres. de que o princípio de autodeterminação era tão aplicável às colônias quanto aos territórios ocupados da Europa. ao declararem que os povos subjugados do império czarista eram livres para escolher a separação. a revelação dos acordos secretos realizados durante a guerra — o acordo Sykes-Picot entre a Inglaterra e a França para a repartição do império otomano e o acordo de fevereiro de 1917 para ceder as antigas possessões alemães na China ao Japão — desacreditaram as potências ocidentais e provocaram violentas reações. 5 Cf. como Allenby logo descobriu. M. 4 . 57-9. As tropas levadas da Síria quebraram o ímpeto da insurreição egípcia. K. foi uma conseqüência direta da revolução russa. F. 262. Para as intrigas alemãs na África do Norte. por exemplo.4 Foram também forçados.6 Outro fator que agitava o sentimento antieuropeu era o malogro das potências européias em cumprirem suas promessas do tempo de guerra. as brechas no edifício do imperialismo europeu na Ásia e na África tinham assumido já graves proporções e havia limites. págs. depois de 1919. Os Quatorze Pontos de Wilson. G. Mesmo quando a França.5 A guerra mundial também ajudou a disseminar as idéias ocidentais. 73-7. prometendo "o desenvolvimento gradual de instituições autônomas". entre os que regressaram. As tropas alistadas para combater na Europa pelos franceses. 146-7. governo autônomo e independência nacional. pág. a qual ameaçou abrir o caminho de um avanço turco e alemão para a Índia num momento em que os bolchevistas estavam incitando os povos asiáticos a derrubarem os "salteadores e escravizadores" de seus países. pela pressão dos acontecimentos. Fischer. e pelos ingleses. o resultado imediato foi o "movimento de Quatro de Maio" de 1919. 137. Na Índia. págs. para o que a repressão e medidas militares podiam conseguir. em 1918. No Oriente Próximo e na China. No final da Primeira Guerra Mundial. oriundas da Indochina. e uma firme decisão de não mais aceitarem a antiga situação de inferioridade. como os ingleses constataram no Egito. tudo isso criou uma fermentação mundial. a fazer concessões a seus próprios países súditos. regressaram a seus países de origem com novas noções de democracia. Romein. tudo quanto pôde fazer foi reter o controle das grandes cidades e das principais estradas.

1959). 1962). se necessário. N. pois na África tropical e central. 188. 12 Um exemplo é o Sudan Graduates Congress. As realizações do Congresso Indiano eram seguidas com viva atenção. 10 Cf. 1960). seriam precisos ainda muitos anos para que os efeitos da intervenção européia. op. na Malásia e nas Índias Orientais Holandesas. ou que na Tunísia o mesmo ano fosse também escolhido para. Nkrumah. em sua Autobiography (Edimburgo. assinalando-se a existência de uma nova sensibilidade.9 O ano de 1919 ainda testemunhou a convocação do primeiro Congresso Pan-Africano que se reuniu em Paris com o objetivo de persuadir os membros da Conferência da Paz sobre os direitos dos africanos em participar do governo. e organizações semelhantes surgiram na África e em outras regiões como núcleos da revolta.7 No mundo árabe. 133-4. iniciada por Gândi. Nationalism and Revolution in Indonésia (Ithaca. o Partido Destour tomasse forma como grupo de atividade clandestina. Como Hodgkin sublinhou. 65-6. e Legum. págs. na forma de estradas de ferro e de rodagem. Nationalism in Colonial África (Londres. foi indicativo do despertar que o fermento da Primeira Guerra Mundial estimulara e da maneira como as idéias de governo autônomo e de autodeterminação estavam-se espalhando. Ziadeh. no Egito. 28-9. 146. em um movimento das massas para exigir a independência completa. o impulso nacionalista era igualmente forte. tem óbvias associações indianas". 1958).8 Na Indonésia. não seria preciso dizer. assim procede. a Primeira Guerra Mundial dera início a um rápido desenvolvimento econômico. a estratégia de resistência passiva. fundado em 1911 com objetivos limitados ou apenas semipolíticos.. VI) conta como. seguido de outros em 1921. 8 Cf.12 Os bolchevistas que estaCf. pág.. The May Fourth Movement (Cambridge. em sua autobiografia (pág. pág. págs. foi rapidamente adotada como modelo. 121. págs. começassem a produzir modificações substanciais. dado que uma conferência anterior fora realizada em Londres. 1952). um progresso semelhante dificilmente se poria em marcha antes da Segunda Guerra Mundial. S. fundado em 1937. 1956). o Congresso Pan-Africano de 1919. em cada parte do mundo dependente. pela força. Cada golpe em prol da independência reverberava numa área cada vez mais ampla. J. Kwame Nkrumah. Coleman. aos progressos políticos conseguidos por outras. Nigeria: Background to Nationalism (Berkeley. G. 21 e segs. pág. pág. pág. Origins of Nationalism in Tunisia (Beirute. o mesmo período viu também a transformação do Sarekat Islam. da introdução do ensino ocidental. cit. A. Na Índia. mas isso é contrario à prática habitual e a maioria dos africanos considera o de 1919 como o primeiro de uma série de congressos. 1923 e 1927. a ser obtida. foram nulos. e com um número de membros que subiu de 360 mil em 1916 para quase dois milhões e meio em 1919.10 Seus resultados práticos. Não foi por mera coincidência que se fundaria também em 1919 o Partido Wafd. "a palavra congresso. etc. Kahin. aqui e em qualquer parte da África colonial. por exemplo. onde a maioria dos territórios só depois de 1885 passara a estar sob domínio europeu. Legum designa a conferência de 1919 como o segundo Congresso Pan-Africano. mas na África ao sul do Saara. Mass. de exploração industrial dos recursos minerais.11 Todavia. antes de sair a campo como organização legal.ponto decisivo na revolução chinesa. 9 Of. 44 11 Ver adiante. em 1920. M. 91. "após meses de es7 . Chow Tse-Tsung.

uma nova onda de nacionalismo furou a barreira do Saara e espalhou-se. 137-50. A conferência de Bandung simbolizou a recém-encontrada solidariedade da Ásia e da África contra a Europa. em 1956. Nenhuma previsão poderia ter sido mais infundada. como disse Nehru. Gibb. os movimentos nacionais da Ásia e da África transformaram-se. 1947). Quando à vitória do nacionalismo indiano em 1947 e ao colapso dos impérios europeus na Ásia se seguiu o fracasso da Inglaterra e da França. tais pressões não poderiam ter gerado os resultados que se viram se não existissem movimentos revolucionários nacionalistas. R. vol. H. 15 Sobre a conferência de Bandug.vam cônscios das potencialidades revolucionárias da Ásia. facilitando a cooperação entre os diversos grupos nacionalistas. a alijar o fardo de colônias que para elas se tinham transformado mais num valor passivo do que ativo. XXIX (1951). Foreign Affairs. ver adiante. Modern Trends in Islam (Chicago. fosse qual fosse a posição na Ásia. se não para as intransigentes minorias de colonizadores brancos na África — que a era imperialista acabara. a África do Norte francesa e a Índia. A tudo da política de Gândi". págs. 1960). esforçaram-se por alimentar a fermentação. Survey of International Afairs. The British Problem in Africa". só serviram para acelerar um processo de desmantelamento que de há muito vinha reunindo forças. impetuosamente. M. os movimentos pan-islâmicos formaram um elo entre países tão distantes como as Índias Orientais Holandesas. págs. A. 36. onde se mencionam as principais fontes documentais relativas ao acontecimento. e o Congresso dos Povos do Oriente. reuniu delegados de trinta e sete nacionalidades. dentro dos territórios coloniais. tornou-se claro — para os governos da Europa.13 No mundo muçulmano.15 Ainda em 1950. sob pressão externa e interna. 119-20. Mas as pressões do exterior. págs. expressou o "novo dinamismo" que se desenvolvera nos dois continentes. por eles organizado em Bacu. . 204. por toda a África tropical. A autora pensou não ser uma "especulação demasiado temerária acreditar" que os territórios coloniais britânicos na África "poderão vir a ser nações-Estados autônomas por volta do final do século. 1955-1956 (Londres. estava distante ainda o dia em que os povos africanos seriam capazes de organizar Estados independentes e. Depois da guerra de Suez. em sua guerra com o Egito. 59-65. 16 Cf. 32. gradualmente. 27-8. chegou à conclusão de que "podia ser a solução para o problema colonial". Perham. durante o meio século precedente. 13 Para a política de Lênin em relação à Ásia. experimentados observadores ocidentais — Margery Perham. prontos para obterem vantagens das dificuldades em que se debatiam os governos imperialistas. embora em grande parte expliquem a precipitação da retirada final. e as potências européias apressaram-se. por implicação. em 1956. em 1920. 14 Cf. pág. Não há dúvida de que as pressões externas e a nova posição das potências européias no mundo contribuíram para essa grande reviravolta. numa revolta universal contra o Ocidente e numa rejeição do domínio ocidental que encontraria expressão na conferência afro-asiátíca de Bandung em 1955. por exemplo16 — expendiam a reconfortante doutrina de que. cf.14 Dessa maneira. o controle imperial e uma esclarecida administração colonial paternalista continuariam sendo necessários por um período indefinido.

longo prazo. No império otomano. que resultaram no final do domínio europeu. com excessiva facilidade. Os novos movimentos nacionalistas eram de uma diferente categoria. foi a derrota catastrófica pelo Japão. O primeiro fator foi a assimilação por asiáticos e africanos das idéias. e a ameaça de partilha pelas potências ocidentais. o processo de desmembramento. sua conseqüência imediata. ou a rebelião Senussi que se seguiu ao estabelecimento do protetorado francês na Tunísia em 1881 — tinham constituído explosões negativas de ressentimento e desespero. mediante a erosão e o desgaste interno. embora em suas primeiras fases elementos muito díspares se encontrassem agindo em suas fileiras. como generalização. levá-lo à exaustão. que lhe sucedeu em 1892. Olhavam mais para o futuro do que para o passado. Na China. é justo dizer. Foram esses fatores. que podiam ser aproveitadas contra as potências ocupantes — um processo em que eles demonstraram ser mais aptos que a maioria dos europeus tinha previsto. o movimento antiocidental foi desencadeado pela subida ao poder de Arabi Paxá. e começou a abrir caminho sob o governo do jovem quediva. como a rebelião Boxer na China demonstrara. em 1885. às últimas duas décadas do século XIX. No Egito. técnicas e instituições ocidentais. que provocaram uma nova reação nacionalista. O segundo foi a vitalidade e capacidade de auto-renovação de sociedades que os europeus tinham. passo a passo. 2 A história dos movimentos nacionalistas antiocidentais na Ásia e na África leva-nos de volta. facilitou o caminho para a concretização de uma consciência nacional depois de 1905. que o objetivo desses movimentos não era expulsar o domínio europeu através da insurreição armada — um objetivo sem esperança. Uma geração posterior viu nessas reações uma nítida mudança de maré. Contudo. uma vez que o fanatismo não é força que se possa opor às metralhadoras Maxim — mas debilitá-lo. tal política só era praticável onde as condições sociais e outras fossem favoráveis. Eram . porém. e não foi por acidente que os primeiros movimentos nacionalistas ocorreram em países que possuíam uma forte tradição de antiga civilização e uma autêntica consciência de realizações passadas nas quais se apoiarem. em conjunto com a formação de elite que sabia como explorá-los. em 1894. a fundação do partido do Congresso Nacional. dois outros fatores foram mais fundamentais do que as pressões resultantes da ação recíproca das diretrizes políticas adotadas por várias potências. tinham representado a última resistência convulsiva. heróica. Abas II. Na Índia. decrépitas ou moribundas. da antiga ordem. agitou a atividade do movimento patriótico dos Jovens Turcos. desesperada se bem que. em 1882. e. no Congresso de Berlim em 1878. Revoltas anteriores — o motim indiano de 1857. muitas vezes. considerado estagnadas. por exemplo. que redundaria em 1908 numa revolução.

o impacto do investimento europeu de capitais foi reduzido. a escancarar suas portas ao comércio europeu e que. ou do tradicional sistema chinês de inspeções — e a consciência da necessidade de adaptação ao novo mundo a fim de sobreviverem. até depois da Primeira Guerra Mundial.17 Revelaram o despertar de reações positivas ao impacto dos bárbaros do Ocidente. 640. Os movimentos revolucionários que se destacaram nos últimos anos do século XIX constituíram uma resposta aos efeitos deletérios da intervenção européia. pág. nessa região. Palmerston forçou o sultão otomano e o paxá egípcio a abrirem seus domínios ao comércio livre. Na África tropical. em conseqüência do impacto do capitalismo europeu. nomeadamente o delta do Niger e a Costa do Ouro. provocaram. não precisando de maior descrição. Foi também o caso da Turquia. dos quais dependiam o fornecimento de capitais e o pagamento das dívidas. os quais tinham sido todos forçados. as condições existentes no final do século XIX não eram ainda propícias para o surto de movimentos nacionalistas. mas misturadas com reações mais primitivas e ainda não orientadas nem organizadas em movimentos efetivos que pudessem tomar e manter a iniciativa. Mas na África ao sul do Saara foi difícil. os empréstimos externos. despertaram dúvidas sobre a competência das instituições e crenças tradicionais — da ética aceita do Islã e de Confúcio. Foi esse o caso da Índia. a maioria dos movimentos e partidos nacionalistas organizados. da China e do Egito. entre 1838 e 1841. quando. antes de 1930. inevitavelmente. New Cambridge Modern History. data da Segunda Guerra Mundial e mais recentemente ainda. pelo tratado de Nanquim. vol. a mesma política foi imposta ao Filho do Céu. a intervenção imperialista para sustentar os regimes vacilantes. parcialmente. a bancarrota próxima. a mudança social. em 1881. onde estabelecimentos europeus de comércio há muito tempo existiam. o desequilíbrio econômico através do influxo de mercadorias estrangeiras. tudo isso são aspectos familiares de uma situação que se repetia.também países onde a intervenção ocidental já abalara e enfraquecera a antiga ordem. depois de 1884. mas não produziram uma reação coerente. já forçadas a angariar uma escassa subsistência e colocadas à beira da revolta. os deficits. em geral. todos os três países foram lançados numa era de mudanças que nenhuma das dinastias reinantes estava em condições de enfrentar. Assim aconteceu com a revolta de Arabi Paxá. As exceções foram algumas áreas costeiras. o ressentimento e ódio ao estrangeiro. e as formas de administração indireta enfraqueceram. em 1842. anteriormente. XI. Mas criaram um fermento. Quatro elementos 17 Cf. Noutros países. esses primeiros movimentos foram denominados "protonacionalistas" em vez de nacionalistas. Por isso. As fases observadas em sua progressiva decadência. no Egito. Quando. o peso esmagador de impostos sobre as classes camponesas. a primeira reação em face da nova situação. já tinham passado por uma geração ou mais de fermentação social. que só fora colhida na rede européia já na última fase de expansão imperial. por exemplo. . a formação de um consciente programa político africano. sendo significativo o fato de que aí se registraram as primeiras agitações de consciência nacional.

enquanto diversos grupos de reformadores procuravam soluções para o dilema da China. Confucian China and its Modern Fate (Londres. só viam a salvação num rompimento radical com o confucionismo. 20 Cf. Arabic Thought in the Liberal Age (Londres 1962). e coronéis que sofriam sob a política de redução militar imposta pelas potências ocidentais. cujo declínio já era visível na época da rebelião de Taiping. sob pressões internas e externas. na prática. Cf. ao passo que os adeptos de Liang Chi-chao. Africa and the Victorians (Londres. Levenson. conservadores muçulmanos. meio século antes.20 Era uma sociedade em véspera de se reconstituir. à luz das condições modernas. 1958). outros desejaram adotar as técnicas ocidentais. pareceu apenas confirmar a inépcia da China para se adaptar ao mundo moderno. convencidos da falência da tradição chinesa. viu-se abandonada ainda pelas forças construtivas numa escala correspondente. A. proprietários rurais descontentes. Para um brilhante relato moderno da revolta árabe. acreditavam eles. Liang Ch'i Ch'ao and the Mind of Modern China (2. 106-7 18 . leal à dinastia. 1958). Founders of Modern Egypt (Bombaim. tal como no Egito.ª ed. Franke. significou. duas décadas depois. liderados por Xerife Paxá. 133. mas aos grupos dissidentes faltavam liderança unificada. 87. sem perturbar as crenças e valores estabelecidos e aceitos. págs. também. tanto quanto Mohammed Abdu. apenas. alarmados pela expansão do cristianismo e do desleixo religioso da classe dominante. sob o disfarce de limparem o país de estrangeiros. a destruição.18 Na China. Chang Chih-tung. a proclamação da república viu a China repartir-se entre generais antagônicos. R. pág. pois entre os escombros as forças conservadoras permaneceram intactas e. A eliminação do último dos imperadores manchus. do velho conceito confucionista de um império unitário com um chefe supremo. tanto militar como no resto. longe de se iniciar uma mudança para melhor. 1962). no Egito. não produzindo qualquer modificação na estrutura social. Robinson e J. pág. lutaram por manter os valores essenciais do sistema confucionista.. lutou pela restauração islâmica através do expurgo de seus elementos reacionários. Londres. 1959). insatisfeita com a deficiência do governo. cf. do mesmo autor. uma classe de jovens e ambiciosos oficiais. daí resultaria. Os que rodeavam Kang Yu-wei. Rowlatt.díspares se cristalizaram em torno de Arabi: pequenos grupos de reformadores liberais. durante esse período. coesão e objetivos precisos. Das Jahrhundert der chinesischen Revolution (Munique. no espírito do grande vice-rei. Gallagher. lutando por conservarem seus antigos privilégios fiscais. a situação era bastante parecida. Até a queda da dinastia manchu. em 1911. W. cf. M. da autoria de J. A esterilidade de uma tentativa de renovação dentro do sistema vigente foi evidenciada pelo fracasso da reforma dos Cem Dias de 1898. Hourani. 19 Há uma brilhante análise das correntes intelectuais na China. R. as conseqüências desastrosas de se encaminhar o descontentamento popular contra o estrangeiro ficou patente no resultado da rebelião Boxer em 1900.19 Por trás desses e outros grupos intelectuais permaneciam uma sofredora massa de camponeses e. os quais pretendiam uma constituição ocidental e a regeneração que. Aí a dinastia manchu. Hsuan-tung. tentou explorar o sentimento xenófobo para readquirir apoio interno. 1961).

Vol. houve alguns indivíduos.21 Na época do avanço francês na Indochina. em 1885. as potências européias encontraram-se em última análise. nascera um movimento revolucionário. 1958). pág. 12-13. Ao impedi-los para um contato com a economia de concorrência e com formas alheias de governo.Subsiste o fato. uma vez envolvidas na Ásia e na África. 817. sem uma defesa eficaz. como no Egito. 597. não tinham outro remédio senão incentivar e fortalecer esses elementos. inaugurou uma era de rápida mudança social.essa mudança sobreveio. Contra a força crescente do nacionalismo asiático e africano. era reconhecidamente moderno. 3 Desde o início do neo-imperialismo. The Shaping of the Modern World (Londres.22 Mas não é fácil ver como e onde o ímpeto europeu. em 1882. XI. poderia voluntariamente parar. apesar de toda a sua desorientação e do conflito de seus elementos heterogêneos. pág. enquanto outras ampliavam seus territórios. com um conhecimento íntimo do Oriente. 22 Romein. págs. por acontecimentos externos . recuperando o poder mediante uma ação conduzida na mesma língua que os ocidentais falavam. Bruce. antes de passarem cinqüenta anos. Índia e Turquia. finalmente. que em breve se seguiu. cit. as potências européias não estavam preparadas para ficar passivamente à margem.. como vimos. e todos esses movimentos refletiam uma evolução comum. todos continham em si grupos que olhavam para o futuro e estavam decididos a reconstituir suas personalidades segundo linhas modernas. o qual. M. por acontecimentos externos — essa mudança sobreveio – advertiram os governos ocidentais sobre os perigos do caminho que estavam seguindo e predisseram o desenvolvimento de um "movimento antieuropeu". O surpreendente não foi o resultado. 21 . "destinado a converter-se em fanatismo" e a "encontrar sua expressão na mais selvagem fúria". Jules Delafosse declarou na Câmara francesa que "estavam sonhando com uma utopia" e que. "não existiria uma única colônia em toda a Ásia". Obcecadas por suas próprias rivalidades. corroborando a crença ocidental de que esses países eram incapazes de proceder à transição para condições modernas. New Cambridge Modern History. que previmos. e nenhuma delas se dispunha a retirar ou deixar um vazio onde um inimigo potencial pudesse instalar-se. op. a voltar-se contra o domínio europeu. quebraram o equilíbrio existente sobre o qual assentava a estabilidade das sociedades africana e asiática. porém. Se os resultados imediatos dos mesmos foram freqüentemente negativos. empurrado para a frente por sua própria lógica intrínseca. E a ironia da situação estava no fato de que as potências européias. e a própria intervenção ativa dos ocidentais. a qual — independentemente da linha política que escolheram seguir — estava destinada. mas a rapidez com que — auxiliada. de que na China. Considerando sua esmagadora superioridade em armas Cf.

a repressão e o emprego de força constituíam resposta eficaz.000 numa população de. na Inchochina. Finalmente. XII. as quais foram postuladas com base na existência de "uma classe de pessoas. portanto. Como. quando. vol. Quase oposta a essa foi a política empregada pelos franceses na África do Norte. na esperança de abortar as exigências de independência — a política expressa no Government of India Act de 1919 — ou mesmo de parecer dar satisfaPág. houve a política de oferecer autonomia governamental interna. poderia a Grã-Bretanha garantir uma estabilidade duradoura em suas possessões asiáticas. na maioria dos casos. o problema não pode ser aqui tratado em detalhe. talvez.25 nas quais o governo confiava para apoio.23 os ingleses na Ásia somavam pouco mais de 300. págs. adiante. e suas enormes vantagens tecnológicas. 215. o mesmo fator e a vantagem de uma fronteira contínua era uma razão — ainda que não fosse a única — em favor do êxito relativo da colonização russa na Ásia. na China em meados do século XIX. A explicação. em face da persistente desobediência civil. New Cambridge Modern History. pág. 334 milhões? Somente onde havia uma substancial camada de colonos brancos. antes e depois da revolução de 1917. a manutenção das sociedades tradicionais como baluarte contra a ocidentalização e a hostilidade que esta poderia engendrar. com apoio a príncipes e chefes que estivessem dispostos. como já vimos. 23 24 . recurso que os ingleses usaram na África Ocidental. aproximadamente. a colaborar com as potências ocupantes. em último caso. mas. na Índia. de modo geral. mas inglesas pelo gosto.24 Mas tais condições eram a exceção e em todas as outras regiões do mundo as potências imperiais eram forçadas a apoiar-se numa política de conciliação e concessão. na Indonésia.e equipamento. o aspecto mais paradoxal da situação. 210-11. 25 Cf. a suposição implícita nas reformas MorleyMinto de 1909. Embora existissem muitas variantes locais. Primeiro. apoiando-a em sua luta contra os rebeldes de Taiping. em prestações. como se esperava. alinhariam com a progressista potência colonial contra o nacionalismo reacionário. as concessões eram o produto de esclarecimento autêntico. em bases humanitárias ou outras. contra qualquer forma de exploração colonial. Esta foi. é de ordem demográfica. por exemplo. e implicara. pois sempre houve elementos na sociedade ocidental prontos a erguerem suas vozes. as concessões feitas eram uma conseqüência inevitável da situação que deixara as potências dominantes sem uma alternativa prática. 52 Para a política russa na Ásia. indianas pelo sangue e cor. os expedientes a que as potências coloniais recorreram para conservar sua supremacia obedeceram a padrões muito simples. onde o perigo parecia vir das conservadoras forças tribais e religiosas e onde. houve a política de governo indireto. parecia boa tática formar uma elite de évolués educados no Ocidente. os franceses. Por vezes. como na África do Sul e na Argélia. com efeito. opinião. moral e intelecto". em seus próprios interesses. cf. Fora um elemento da política ocidental desde que as potências européias se colocaram por trás da dinastia manchu. e freqüentemente conseguiram que a pressão por eles exercida influísse nas decisões. esse foi. os quais. e os holandeses.

mas reservando certos direitos essenciais — a solução desejada pela Grã-Bretanha. "Ele era extremamente orgulhoso de sua cor. e costumava explicar isso dizendo: "Você pode tocar uma espécie de melodia nas teclas brancas. As potências européias. mas se se quer dizer que o nacionalismo na Ásia e África ficaria satisfeito com a obtenção de concessões. Autobiography. Kwegyir Aggrey. é necessário acrescentar que se trata de uma suposição inverificável. mas opunha-se. pareciam ser uma questão de imediata preocupação prática. à falta de independência. mas para conseguir harmonia você deve tocar com as brancas e as pretas. o primeiro adjunto do vice-reitor do Achimota College. e pode tocar uma espécie de melodia nas teclas pretas. o Dr. nem o liberalismo de Ripon ou Minto. Hoje. pelo menos. talvez. certa dose de êxito." (Nkrumah. a breve data. pág. isso foi mais flagrante do que na história da índia britânica depois de 1876.27 Mas não existe motivo para pensar que a situação tivesse podido estabilizar-se nessa base. pela concessão de uma quaseindependência. para quem os subseqüentes líderes nacionalistas. Certamente existiam. na época. 12. apenas. no Iraque. numa base temporária. a cooperar com as potências imperialistas. como Kwame Nkrumah. em toda parte. que não ofereciam uma solução e eram. por exemplo — uma notável personalidade. Mas também se viu nitidamente. pág. esses expedientes obtinham. pareceram audazes e radicais mudanças de orientação política. de qualquer maneira substancial. A cooperação entre negros e brancos foi a pedra angular de sua mensagem e a essência de sua missão. na sua maior parte. os méritos ou deméritos relativos de "associação" e "assimilação". veementemente. toda ação que encetassem para o fim de governar e desenvolver os territórios que tinham anexado tornava sua própria posição mais difícil e é evidente não ter havido uma diretriz política por meio da qual pudessem escapar a essa inelutável situação. foram colhidas por uma dialética de sua própria lavra. elementos dispostos. Numa determinada fase.26 Isso pode ser verdade até certo ponto. o nacionalismo era uma reação a fatos. desviaram o nacionalismo indiano de seu curso. um adiamento do ajuste final de contas. por exemplo. sob qualquer forma. de domínio "direto" e "indireto". olhavam com afetuosa devoção — acreditava sinceramente em cooperação. pouco interessa discutir pormenorizadamente os diversos critérios seguidos pelas várias potências européias. Nem o conservantismo de Lytton. e isso porque. não só por razões egoístas. fundamentalmente. foram mais de ordem "legal do que Ibid. é evidente que tais distinções.. com freqüência. para o Egito e o Iraque. A curto prazo. não à política. quando intervieram na Ásia e na África. para Nkrumah. Em parte alguma. E nada é mais claro do que a ineficácia daquilo que.ção às exigências nacionalistas. garantiram a manutenção da influência britânica até 1958. à segregação racial. Tem-se afirmado muitas vezes que o erro das potências imperialistas residiu no fato de que as concessões por elas feitas às exigências nacionalistas eram "sempre demasiado exíguas ou demasiado tardias". nem o paternalismo de Curzon.) Todavia.. Nessas circunstâncias. ou de outros sistemas alternativos.. 209. ele "foi o mais notável homem que jamais encontrei e tive a mais profunda admiração por ele" 26 27 . em 1922. ao abordarem o problema de governar suas dependências coloniais.

prática".28 "Na prática, associação significava, meramente, dominação", e Léopold Senghor, o líder senegalês, colocou o dedo no defeito central das teorias de assimilação quando disse que o que era preciso — mas não de imediato — era "assimiler, non être assimilés".29 Se o efeito imediato do governo indireto foi atenuar o impacto do colonialismo, também é verdade que, ao conceder o reconhecimento a certos chefes ou príncipes, apenas, e não aos demais, os governos coloniais propenderam, numa perspectiva mais ampla, para criar novos e rígidos padrões e para isolar o governante, como agente da autoridade imperial, de seus súditos.30 Por conseqüência, o efeito do "governo colonial, em qualquer forma ou modalidade", foi causar "um deslocamento de autoridade, atuando contra o governante tradicional".31 Onde as potências ocidentais tentaram impulsionar as dinastias existentes, como baluartes contra o nacionalismo da classe média — por exemplo, no Egito — só conseguiram desacreditá-las e envolvê-las na derrocada das posições ocidentais; sempre que procuraram obter a colaboração das elites ocidentalizadas, enfraqueceram as únicas forças que tinham algum interesse duradouro na permanência do domínio europeu. Mesmo no plano inferior do interesse próprio, chegaria o tempo em que os negociantes ocidentalizados, na Índia, na China ou na África Ocidental, que por certo período podiam estar dispostos a aceitar o domínio ocidental, em virtude das vantagens comerciais e industriais que ele proporcionava, acabariam por ver maior lucro em desalojar o estrangeiro e estabelecer uma posição monopolística própria; um tempo em que os políticos ocidentalizados se revoltariam contra o fato de terem de continuar compartilhando os benefícios dos cargos com os funcionários da potência ocupante. Mas a oposição ao imperialismo ocidental nunca foi, evidentemente, uma expressão pura e simples de grosseiro egoísmo. O desejo de independência era em toda parte expresso com desinteressada devoção; e uma vez que o domínio europeu, por muito temperado que fosse de concessões, implicava necessariamente a dependência de uma ou outra espécie, as manobras e contorções levadas a efeito pelas potências imperialistas, até ao fim, as ofertas, as concessões e compromissos que continuaram fazendo na esperança de encontrar alguma fórmula que salvasse o próprio predomínio, satisfazendo simultaneamente as ambições nacionalistas, eram totalmente inconsistentes. Ao mesmo tempo, tinham de enfrentar o exemplo dos domínios e colonos "brancos", os quais, por mais resolutamente que afirmassem sua própria superioridade em relação às populações nativas, estavam não menos decididos a afirmarem seus interesses independentes.32 No final, a diferenciação entre dependências "brancas" e "de cor", tão popular no início do século XX, tornou-se cada vez mais difícil de sustentar; e logo que a Índia, em 1947, garantiu a paridade de tratamento, a represa sofreu uma ruptura irreparável.
Hall, op. cit., pág. 644. Cf. A. J. Hanna, European Rule in Africa (Londres, 1961), págs. 24-5. 30 Cf. H. J. van Mook, The Stakes of Democracy in South-East Ásia (Londres, 1950), pág. 76 31 F. Mansur, Process of Independence (Londres, 1962), pág. 26. 32 Ver págs. 41, 43 e segs.
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A mesma lógica interior que levou a expansão da Europa até os limites da Terra não só suscitou oposição e revolta entre os povos colocados sob o domínio europeu, mas também colocou novas armas nas mãos deles. Tanto na Ásia como na África, a intervenção européia teve três conseqüências necessárias. Primeiro, atuou como solvente da tradicional ordem social; segundo, acarretou substanciais transformações econômicas; finalmente, levou à criação de elites educadas segundo os padrões do Ocidente, as quais assumiram a liderança na transformação do ressentimento existente contra o estrangeiro e a superioridade estrangeira em movimentos nacionalistas organizados em escala maciça. Todos esses acontecimentos eram necessários e inevitáveis se as potências coloniais desejassem — como desejavam, naturalmente — explorar suas aquisições coloniais ou até, na maioria dos casos, se pretendessem evitar que as colônias redundassem num encargo financeiro. Uma vez tomada a decisão de intervir, a inação era impossível; e qualquer gênero de ação, inclusive a forma mais branda de governo indireto, resultava na cristalização de forças contra o Ocidente. O que se disse dos holandeses na Indonésia aplica-se às potências coloniais, em geral: "os meios escolhidos para defender o regime colonial... transformaram-se em uma das mais poderosas forças de desgaste subterrâneo do regime".33 A primeira das conseqüências da intervenção européia — a ruptura do equilíbrio existente no qual assentava a estabilidade das sociedades asiáticas e africanas — foi observada desde logo na Índia. Aí, até que a experiência de seus resultados provocou uma reação, depois de 1880, o domínio inglês minara deliberadamente as antigas fidelidades e solapara o poder dos príncipes; atuara como uma grande força niveladora, demolindo as instituições independentes da vida política local, drenando a autoridade para um centro comum, substituindo pelas britânicas as formas indianas de lei e administração e enfraquecendo as religiões, crenças e costumes tradicionais.34 O impacto ocidental numa sociedade mais simples, muitíssimo menos diferenciada, talvez não tenha sido em parte alguma expresso de melhor maneira como na declaração comedida e digna feita pelos chefes de Brasse depois do incidente de Akassa, no delta do Niger, em 1895.35 Primeiro, declararam eles, tinham sido impedidos de ganhar a vida com a venda de escravos para a Europa, como antigamente, decisão essa que eles tinham lealmente acatado. Em lugar disso, dedicaram-se a negociar com azeite-de-dendê e o fruto desta palmeira. Mas quando o governo britânico abriu o coKarin, op. cit., pág. 44. Cf. E. Stokes, The English Utilitarians and India (Oxford, 1950), págs. 249 e segs., 257 e segs., 268 e segs., 313 e segs. 35 Cf. Sir John Kirk, Report on the Disturbances at Brass (Command Paper C. 7977, Stationery Office, Londres, 1896), págs. 6-8.
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mércio, igualmente, "a homens brancos e negros", também concordaram, "vendo que não poderíamos fazer outra coisa". Finalmente, porém, apareceu a African Company, com um alvará real que lhe dava poderes para fazer o que quisesse no rio Niger, e o resultado foi os homens das tribos terem sido expulsos dos mercados "com que nós e nossos antepassados vínhamos negociando há muitas gerações", terem sido obrigados a requerer licenças e pagar pesados impostos, de modo que — como concluíram — foi "a mesma coisa como se estivéssemos, pura e simplesmente, proibido de comerciar". O relatório sobre os distúrbios de Brasse fornecem-nos uma descrição, nos mais simples termos, de um processo que ocorreu em todo lugar onde os europeus se impuseram a um povo estrangeiro. O que sucedeu aí, e em inúmeros pontos semelhantes de contato na África, foi a destruição de uma subestrutura econômica de sociedade tribal, a erosão da autoridade dos chefes, a transformação dos homens das tribos, privados de seu modo de vida tradicional, em criados ou servos assalariados do estrangeiro, o afrouxamento dos laços sociais, à medida que eles abandonavam suas aldeias em busca de uma alternativa de trabalho algures, e, finalmente, sua transformação num proletariado urbano e industrial. O reverso de semelhante processo e, usualmente, sua próxima fase, era a remodelação da economia, sob o impulso da iniciativa européia. E esta foi a segunda conseqüência geral da intervenção européia. Evoluiu a diferentes velocidades, em diferentes regiões, mas em toda parte as duas guerras mundiais constituíram importantes e decisivos momentos. Na África colonial, onde, excetuando as áreas mineiras da Rodésia e Catanga, o investimento europeu era notoriamente lento, só a Segunda Guerra Mundial pôs termo à estagnação do meio século precedente. Na Ásia, por outra parte, foi a Primeira Guerra Mundial que imprimiu o impulso decisivo ao desenvolvimento da moderna indústria. Na China, a inatividade forçada dos comerciantes europeus, cujas indústrias, nos países de origem, estavam concentradas na produção de guerra, propiciou uma oportunidade para que a indústria chinesa progredisse em setores tais como os têxteis, fósforos e cimento; cidades como Xangai, Hankow e Tientsin foram industrializadas, e novos centros manufatureiros surgiram em importantes entroncamentos ferroviários, tais como Tsinan, Hsuchow e Chichiachuang.36 Na Índia, foi política deliberada do governo britânico estimular as manufaturas, a fim de reduzir a necessidade de importações provenientes do Reino Unido e transformar a Índia numa base fornecedora da Mesopotâmia e outros teatros de guerra.37 O resultado foi um amplo impulso para as nascentes indústrias indianas de ferro e aço, que só tinham começado a produzir entre 1911 e 1914. Ao mesmo tempo, no Sudeste asiático, as minas de volfrâmio da Birmânia foram desenvolvidas até produzirem um terço da extração mundial, enquanto as necessidades urgentes de transporte militar exigiam uma importante expansão na produção de borracha da Malásia e das Índias Orientais Holandesas. Na África, os resultados da Segunda Guerra Mundial foram semelhantes. A brusca interrupção das antigas linhas de abastecimento e a extraordinária procura de
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Cf. Franke, op. cit., pág. 145. Cf. Cambridge History of British Empire, vol. V (Cambridge, 1932), pág. 483.

N. com interesses ampliados aos setores de financiamento e bancário. preparando o caminho para uma expansão em larga escala.38 O montante das exportações do Congo aumentou quatorze vezes. de um imenso valor econômico. R. A Short History of Africa (Londres. para determinados produtos essenciais. da substituição dos chefes tradicionais pelo aparecimento recente de uma camada Cf. sogro de Sun Yat-sen e de Chiang Kai-shek. Oliver e J. em forma sumária. o da Rodésia do Norte nove vezes em poucos anos. e de comunidades comerciais suficientemente ricas para financiarem os movimentos de independência. a Tata Iron and Steel Company. que fundou a famosa usina de algodão "Empress". que a África podia fornecer. depois na África. Nos portos internacionais — nomeadamente em Cantão e Xangai — desenvolveu-se uma abastada classe comercial e industrial chinesa. pág. e o Colonial Development Act de 1940 — ele próprio um resultado direto das condições bélicas — garantiu que o impulso fomentista dos anos de guerra não se perderia. quando este lançou o movimento Swadeshi. Na África Ocidental britânica. D. 38 . nem que fosse apenas pela crescente necessidade de funcionalismo barato e abundante nos escalões inferiores da administração e do comércio. primeiro na Ásia. significaram que as colônias africanas passaram a ser. em Nagpur. a dos chamados "capitalistas nacionalistas". contudo. que se colocou ao lado de Sun Yat-sen. de repente. 1962). depois de 1905. a intervenção européia dera vida a uma classe que estava vitalmente preocupada em garantir seus interesses econômicos e que se colocou ao lado do Congresso. em 1887. Fage. Um dos mais flagrantes paradoxos da situação foi o fato de que as potências coloniais. foram coagidas. Tata. J. foi apenas um aspecto do processo de rápido reagrupamento social desencadeado pelo impacto do Ocidente. A conseqüência. Uma vez mais. a figura típica era J. Na Índia.matérias-primas estratégicas. a criar uma nova classe de líderes e também as condições materiais e morais que garantiram o êxito da revolta antiocidental chefiada por essa mesma classe. onde o impacto econômico britânico se fez sentir mais cedo. A figura típica dessa classe era C. um processo mais complexo do que usualmente se supõe. Soong. o estabelecimento de agências governamentais de compras. A formação das novas elites nacionalistas foi. bem como de mão-de-obra especializada na indústria. tendo assim interrompido a ordem social existente. 221. como os óleos vegetais e o cacau. e seria um erro pensar que se tratava. simplesmente. de uma classe de operariado fabril que podia ser mobilizada para a ação. em Behar. seus filhos fundaram. conhecedora das técnicas da civilização ocidental. era uma classe que aí as potências coloniais não podiam deixar de criar. na esperança de um governo mais forte que defendesse seus interesses contra os dos concorrentes estrangeiros. por suas próprias necessidades. Uma elite asiática e africana educada. O advento de uma nova classe média comercial e industrial. Esta foi a terceira conseqüência de vulto da intervenção ocidental. em 1907. desfez o antigo ascendente que as companhias de comércio européias exerciam sobre a economia dos camponeses e agricultores indígenas. foi o desenvolvimento da urbanização.

depreciativamente). sobretudo. muitas vezes em resultado de uma educação ocidental. se encontravam temperamentalmente aptos para as novas condições. reservados apenas para os europeus. Azikiwe e Awolowo são usualmente plebeus reconhecidos.40 Não obstante. Embora os antigos grupos dominantes sobrevivessem e fornecessem alguns dos mais notáveis líderes nacionalistas. foi a capacidade deles para repudiarem seus tradicionais preconceitos de classe e trabalharem em conjunto com outros grupos. em sua maioria. (N. isso era igualmente verdade. 40 Nkrumah. op. teve ainda duas outras conseqüências principais: primeiro. a subversão social gerada pelo impacto colonial foi de importância decisiva. embora seja digno de nota o fato de que Nkrumah. op. op. pág. embora seja apenas um entre muitos. 21. que a ocidentalização arrancara a seu ambiente tradicional. Mantive no texto a expressão inglesa para facilitar sua identificação com a abreviatura "Wogs".. A educação ocidental. provenientes de uma sociedade diversificada pelo impacto colonial — homens que surgiram de grupos ou classes até então politicamente inativos — mas constituíam um setor da tradicional classe dominante.41 Foi esse amálgama. muitas vezes uma geração mais jovem. A tradução é: Cavalheiros Orientais Ocidentalizados. verificam-se mais abundantes provas de descontinuidade na liderança tradicional. pela determinação de sacudir o jugo estrangeiro. págs. fomentou uma cada vez mais vasta classe de asiáticos e africanos descontentes. com os advogados e negociantes que. em sua Autobiography. anteriormente. 162. trazendo para o primeiro plano aqueles indivíduos que. traduz-se por Rapazes do Grau Sete em alusão ao fato da maioria deles não ter cursado mais do que o ensino secundário. Importante. provavelmente. Aí. educados ou semi-educados — os "Westernized Oriental Gentlemen" (ou. 64.) 39 . líderes como Houphouet-Boigny e Sekou Touré são chefes e filhos de chefes tribais. os "Wogs" da Índia e os "Standard VII Boys" de Gana e da Nigéria — a quem estavam vedados os melhores cargos. e Jinnah. 65. não foram criadas ao acaso. Assim. fruto da ocidentalização. O exemplo mais edificante. por exemplo. pelo menos. unidas.39 Na África.) Expressão usualmente irônica. foi a colaboração estabelecida entre Liaquat Ali Khan. indicada entre parênteses. além de seu efeito óbvio de disseminação de toda a gama de idéias ocidentais.social de classe média. cit. por Mansur. aluda especialmente a sua alta linhagem e sua "pretensão a dois tamboretes ou chefias tribais". apesar de suas origens díspares. do T. freqüentemente. Mansur. onde o cristianismo atuou como influência democratizante. com bastante exemplo. mas com menor regularidade. filho de um modesto comerciante. cit. pelo menos. pág. Na Ásia. mas homens como Nkrumah. 41 Cf. do T. fora das áreas muçulmanas. de elementos oriundos de distintos grupos e classes sociais.. (N. 16. um rico proprietário de estirpe real. e que. a ocidentalização deu lugar a uma transformação significativa dentro das fileiras desses mesmos grupos. que levou à formação de novas elites. desde o cristianismo ao leninismo. cit. não tinham acesso Isto está ilustrado. 21. as novas elites.. não tinham desempenhado qualquer papel na vida política. mas para quem a ocidentalização abrira novas possibilidades.

por exemplo. tão visível na Indochina. sob domínio francês. mas também como um passo inicial na transformação do modo tradicional de vida. Jawaharlal Nehru. mas que trabalhara ainda mais por aquela "porque. acarretou bruscas e rápidas mudanças no equilíbrio social. técnicas e instituições européias.43 Estava ainda preocupado em salvar o que pudesse ser salvo do antigo. por exemplo. seriam capazes de regeneração. onde a abolição do sistema tradicional de inspeção. numa sociedade em que as barreiras à mobilidade social estavam sendo derrubadas. Nehru "fez da primeira um passo no sentido de se atingir a última". e ocorreu de maneira muito semelhante na China. pág. segundo. O nascimento do nacionalismo pode ser encarado. Também tornou clara a necessidade de novos métodos e estratégias. contou que trabalhara pela independência "porque o nacionalista existente em mim não pode tolerar a dominação estrangeira". deslocaram gradualmente a antiga e menos adaptável classe dominante. cada vez mais poderosa à medida que o tempo decorria. 108. através da assimilação de idéias. solapara a posição das classes nobres que. 401. a tendência. não só como uma reação contra o domínio ocidental. A primeira pode ser identificada com o "protonacionalismo". Assim. 182. é justo dizer que a nova elite assumiu o poder porque se encontrava melhor equipada para representar o novo padrão de forças sociais. os elementos mais qualificados. constituía um passo inevitável na mudança social e econômica": em todos os seus discursos sobre independência política e liberdade social. haviam sido os pilares do Estado chinês. e uma de suas princiCf. não mais de acordo com as modernas condições. visto que. 1941). Nehru.a qualquer emprego compatível com suas habilitações. Foi um processo universal. 1936). era para combinar a transformação social com a emancipação política. cujo tradicionalismo e falta de adaptabilidade eram tidos como responsáveis pelo malogro em manter à distância os bárbaros ocidentais. pág. Não foi por acaso que na China e no império otomano. e Toward Freedom (Nova York. durante mil e quinhentos anos. pág. já aqui analisado. em 1905. O impacto do imperialismo europeu nas sociedades asiática e africana não só produziu a necessidade imperativa de mudança e apontou o caminho da modernização. independentemente de suas origens. 42 . An Autobiography (Londres. com treino ocidental. assim.42 5 O progresso dos movimentos nacionalistas na Ásia e na África realizou-se em três fases. em meu entender. hierárquicas e estratificadas. quanto na Índia e na África britânicas. quase o primeiro passo dado no processo de restauração nacional tenha sido o banimento das dinastias reinantes. pois sem a primeira a segunda seria diminuta. 43 Cf. Sendo mais que duvidoso se as sociedades tradicionais da Ásia e da África.

na maioria dos casos. 1962). Pakistan and the West (Londres. e a consolidação dos laços entre os líderes e o povo. observa-se um padrão comum em todos os movimentos nacionalistas. um maior liberalismo na prática e uma maior participação no governo para os indianos educados. deu-se a ampliação da base de resistência à potência colonial estrangeira. Congo. e mais rapidamente em países onde os movimentos nacionalistas. Em sua primeira fase. 63-4. págs. cit. menos de quatro anos antes de se tornar independente. os nomes representativos eram Gokhale. Spear. 44 45 . análoga. pág. o Congresso pouco mais era do que uma sociedade de debates. My Country (Londres. como outros líderes iniciais do Congresso. esse reMansur. aos três períodos da história do Congresso: 1885-1905. em sua autobiografia (por exemplo. mais lentamente em países como a Índia. satisfeitos por elaborarem resoluções em que propunham determinadas reformas graduais. op.pais características foi a tentativa de reexaminar e reformular a cultura indígena sob o impacto da inovação ocidental. Não surpreende que tais progressos tenham decorrido em ritmos distintos nos diversos países e fossem complicados pela influência tremenda de uma personalidade excepcional. mediante a organização de uma massa de adeptos. dentro da estrutura do colonialismo belga. A segunda fase foi o advento de uma nova liderança de tendências liberais. que dificilmente se ajustava a qualquer categoria reconhecida de liderança revolucionária. 48-9. em sua essência. os acontecimentos nacionalistas que na Índia duraram quase três quartos de século se desenvolveram aceleradamente numa década. Finalmente. o Mouvement National Congolais. Cf. 1905-19 e 1920-47. puderam beneficiar-se do precedente e do exemplo abertos pelas áreas mais antigas de descontentamento. 200.45 Todavia. Nehru. em larga escala. O processo de transformação observa-se com maior nitidez na Índia. pois. 137. solicitando. depois de subir a uma posição de proeminência. entre camponeses e operários. India. entre 1905 e 1909. as três fases de desenvolvimento podem-se identificar com a política e ações de líderes determinados. tem muito a dizer sobre os preconceitos de classe média do Congresso nesse período e posteriormente. Decorreram. de maneira bastante precisa. 46 Cf.. e só em 1958 é que ele fundou o primeiro partido das massas numa base territorial.44 ao passo que no Congo Belga. e as três fases de desenvolvimento correspondem. 366. em 1960.46 Com Tilak. cuja seqüência visível na Ásia e na África parece ser. como a de Gândi. a evolução política de Lumumba é analisada por Colin Legum em seu prefácio para esse livro revelador. tendo aparecido depois do processo de descolonização já estar iniciado. simplesmente. aceitaram o domínio britânico como "insondável desígnio da Providência". Patrice Lumumba. Lumumba contentava-se ainda em solicitar "medidas um pouco mais liberais" para a pequena elite congolesa. que fora pioneira nas técnicas revolucionárias. 83. P. Tilak e Gândi. também. entre seus membros de classes superiores. entre 1935 e 1945. 182. pág. 416). Gokhale. 1961). pág. Na Birmânia. Aí. usualmente com a participação da classe média — uma transferência de liderança e objetivos não inadequadamente descrita pela historiografia marxista como "nacionalismo burguês". por exemplo.

1957). relativamente exígua. que envolveu toda a população e. se propagado por todo o subcontinente e se convertido. com exceção das áreas dominadas pela Liga Muçulmana. é justo acrescentar ter sido Gândi quem lhes chamou a atenção para a importância das mesmas.49 Um resultado significativo foi ter o movimento nacionalista. um soberbo dirigente político. com os estudantes descontentes servindo de ponta-de-lança e diminuto esforço na mobilização sistemática das massas. Mas não há dúvida de que sua contribuição mais notável. foi Nehru que combateu os elementos da ala direita.47 Ele não agiu. pág. sozinho. em 1920. porventura. e manteve o impulso para as reformas sociais sem as quais o apoio popular podia ter fraquejado. 41-65. nas questões sociais. que galvanizaram e levaram à ação as massas de camponeses. não devem ser subestimados. 71. também rejeitou o constitucionalismo e advogou o emprego de métodos violentos. com a chefia suprema. O que impeliu o movimento do Congresso para uma nova fase foi o regresso de Gândi à Índia em 1915.formismo da classe média superior foi abruptamente desafiado. Park e I. 7. postulado por uma ética hindu purificada. em 1920. Tinker. marcou uma fase intermédia — a fase de agitação nacionalista numa base de classe média. no Congresso. reconciliar e unir os muitos e díspares interesses de que o Congresso estava composto — uma tarefa que é altamente improvável poder ter sido realizada por qualquer outro. fazer dele um movimento das mesmas massas. Contudo. Mansur. cit. servidores públicos. de fato. em especial Vallabhai Patel e Jawaharlal Nehru. em muitos aspectos. por exemplo. Não é este o lugar apropriado para analisar o complexo e. 47 48 .48 Mas embora fosse a nova elite radical quem tomou a seu cargo organizar politicamente as massas. com ramificações que ligavam as aldeias com os distritos e províncias e. sua ascensão à liderança no ano seguinte. Tilak rejeitou a reforma liberal sob dominação britânica e exigiu nada menos do que a independência. outro resultado M. enigmático caráter de Gândi. que afetou apenas alguns grupos especiais — advogados. Tilak. págs. por fim. assim. num movimento de toda a Índia. na obra de R. a partir destas. do propugnado pelo mais velho Nehru — era retrógrado. 87-99. Há boas achegas sobre o papel desempenhado por Patel e Nehru no movimento. A longo prazo. Foi quando Gândi lançou sua primeira campanha nacional de desobediência civil. sua maior realização terá sido. Tilak era essencialmente conservador. a adoção da política de não-colaboração. foi levar o Congresso até junto das massas e. op. Weiner. L. professores e cargos semelhantes — o início do movimento de desobediência civil em massa. que ele opunha à ética do Ocidente. Leadershipl and Political Institutions in Índia ( Princeton. em resultado da qual o Congresso se converteu num partido integrado. na fase imediatamente a seguir à Primeira Guerra Mundial. a reorganização do Congresso pela constituição de Nagpur. que nascera em Bengala e por muito tempo retivera o caráter bengali. que a "Índia ingressou na era da política das massas". 1959). pág. os esforços de seus lugar-tenentes. Foi Patel. 49 Cf. Party Politics in India (Princeton. quem organizou as campanhas de Kheda e Bardoli. evidentemente. ao passo que seu nacionalismo — ao invés.

Sobre o Cinco de Junho. teve dificuldade em manter um reduto em Cantão e o principal papel no movimento revolucionário parecia ter-se transferido para os chefes do movimento de Quatro de Maio. um liberal e um intelectual. a questão agrária. colocava agora a questão econômica no início de seu pro- Cf. antes de 1919. em 1892 ou 1894. nessa fase. organizou um grupo revolucionário que foi precursor do Partido Nacional. 50 51 . particularmente. desempenhavam reduzido papel. os problemas sociais e. que esperava reformar a China dentro da estrutura da monarquia manchu. págs. Sun era.. cit. na história da China. mostrou as limitações desse critério "moderado". Sun foi um pronunciado e aberto antiimperialista. É certo que. Também revelou a essencial grandeza de Sun como líder. em 1905. ou Kuomintang. Decepcionado com as potências ocidentais e estimulado pelo entusiasmo nacionalista do Quatro de Maio. Mas Sun era um daqueles raros homens — a tal respeito. "uma elite flutuante mas vocal. pregando a resistência passiva. ele não era hostil às potências ocidentais e estava disposto a deixar intactos os injustos tratados. as três fases da evolução nacionalista podem ser identificadas com Kang Yu-wei. em seu programa. Sun abandonou definitivamente os métodos constitucionais e. Mas o malogro da república. importante por ser a primeira greve política realizada pelos trabalhadores urbanos. em 1924. cit. cf. 185. op. bem como pelas greves operárias que se seguiram a esse movimento. 151-8. até às aldeias.e.51 Sun reorganizou seu partido no final de 1919. segundo o modelo indiano. Seus objetivos eram essencialmente políticos — a expulsão dos manchus e o estabelecimento de uma república . e como um elo entre os movimentos patrióticos intelectual e proletário. a 5 de junho. crente em que a salvação política da China estava na realização da democracia segundo o padrão ocidental. A partir desse momento.50 O padrão que podemos identificar na Índia pode ser observado. de fato. ter adquirido por volta da Segunda Guerra Mundial "uma efetiva estrutura de organização. a revolução de 1911 e a reforma e reorganização do Kuomintang.foi o Congresso. e o boicote das mercadorias estrangeiras. a seqüência é representada pelos Cem Dias (1898). Chow Tse-tsung. que era na época da Primeira Guerra Mundial.. embora já em 1907 Sun fizesse referência ao terceiro de seus três famosos princípios. Em termos de realização concreta. depois de 1911. a "subsistência do povo" (Min sheng chu-i). pág. Ao invés de Kang Yu-wei. estabeleceu contatos com os bolchevistas russos e lançou-se ao trabalho de rever seu programa. semelhante a Gladstone — que se tornam mais radicais com a idade. Sun Yat-sen era um verdadeiro revolucionário. Sun Yat-sen e Mao Tse-tung. embora com algumas variações de monta. mas depois da desilusão de 1898 e da supressão sangrenta da revolta Boxer. através dos múltiplos níveis de organização territorial. Mais importante. na China. na prática. fundara uma sociedade reformista que não tinha outra finalidade senão o estabelecimento da monarquia constitucional. em 1900. indo do Comitê Executivo. Park e Tinker. Sun pouca intervenção exerceu nos primeiros anos da república. op. Aí. com poucos elos reais entre ela e seus adeptos".

52 53 . Palmer. 157. os elementos divergentes do partido nacional. sob controle de grupos reacionários. dessa maneira. nos quais os pobres e os camponeses sem terra tinham importante voz. todos os comunistas ao seu alcance. liderados por Mao. onde estavam fora do alcance dos exércitos nacionalistas. sob a chefia de Mao Tse-tung. distribuíram terras expropriadas aos latifundiários. Chiang liquidou. a retirarem-se. significou que não existia ninguém capaz de manter unidos. Pág. Organizaram os governos locais em sovietes. para uma área remota do noroeste. 208. ganhará os camponeses para seu lado". Shao Chuan Leng e Norman D.52 Porque Mao conseguira traduzir essa convicção em prática. a combinação de nacionalismo e reforma social. e que dez anos depois levaram do refúgio montanhoso de Yenan para Hopei e Shansi. contudo. como Gândi fez na Índia. pôs de lado todos os planos de reforma agrária e. O próprio Kuomintang. Eram resumo. foi ele. nomeadamente. já foi dito corretamente. redigido poucos dias antes de sua morte. A reorganização de 1924 foi um ponto decisivo no movimento revolucionário chinês. entregando-as a esse proletariado rural. em lugar de Chiang. Em seu testamento. "Quem obtiver apoio dos camponeses".grama. fundiram-no em um exército revolucionário que deflagrou um movimento de guerrilhas contra os grupos e classes privilegiadas. Franke op. deram vazão ao grande reservatório humano da China e. Sun Yat-sen escrevera que uma experiência de quarenta anos lhe ensinara que a China só alcançaria a independência e a igualdade quando as massas fossem despertadas. forçando os restantes. os homens de negócios. "obterá a China. dotado de um exército revolucionário como sua força de choque. "foi o fator primordial que determinou o êxito dos comunistas e o fracasso do Kuo- Cf. e levou a efeito uma reorganização completa do Kuomintang. por fim. na China. com o objetivo de convertê-lo num partido de massas. cit. em 1925. Cf. a iniciativa passou para as mãos dos comunistas. A morte de Sun Yat-sen.53 Na revolução agrária que desencadearam em 1927. quem apareceu como verdadeiro e legítimo herdeiro de Sun. no Norte. gradualmente. em 1927. os comunistas dotaram os camponeses de uma liderança e organização sem precedente na história chinesa. Sun Yat-sen and Communism (Londres. Sua força residia. bem como a ampliação da base de resistência pela mobilização das massas camponesas. pág. em organizar os camponeses de Hunan. em não terem abdicado da revolução social. levaram a efeito uma irreversível transformação social que deu à obra iniciada por Sun sua conclusão lógica. de fato. declarou Mao. Assinalou a chegada à terceira fase. "O significado político da organização das massas". o movimento revolucionário na China divergiu do indiano. que se ocupava. A partir desse ponto. 1961). os financistas e proprietários da ala direita do movimento aliaram-se com os exércitos sob o comando de Chiang Kai-Shek e voltaram-se contra os comunistas e a ala esquerda. Encorajado e financiado por um grupo de negociantes de Xangai. em 1934-5. quem resolver a questão agrária. nas áreas rurais fronteiriças de Kiangsi e Hunan. O resto é bastante conhecido. aliou-se com o partido comunista chinês.

fundada em 1922. não se concretizou um "proletariado agrário e revolucionário". op. 103. estudante de Engenharia no Bandung Technical College.58 Mas não existia um órgão capaz. a prática colonial holandesa obstruía e retardava o crescimento de uma classe média indonésia. ou. mas a transição para a terceira fase — ou seja.. 54 . Foi a infiltração de elementos da extrema esquerda que impulsionou o primeiro movimento nacionalista. 56 Cf. pág. op. cultural e religioso. Embora o número de trabalhadores agrícolas sem terra aumentasse rapidamente durante as últimas décadas de domínio holandês. de manter coesos os diversos gru- Cf. as duas primeiras fases da evolução do nacionalismo desenrolaram-se de acordo com o padrão. págs. O quadro que apresentam não seria muito distinto.. o Sarekat Islam. por exemplo. cf. que aceleraram o que poderia ter sido. 471. Hatta e Sjahrir regressaram da Holanda em 1932. Na Indonésia. tal como existia na China. as divergências sejam consideráveis. mesmo durante a depressão iniciada por volta de 1930. cit. e assim — ao contrário da China e da Índia — não existia um elemento substancial. embora no caso dos movimentos nacionalistas mais recentes. para sustentar o movimento revolucionário em sua primeira fase "burguesa". 661.. mesmo em seus contornos esquemáticos. 63.mintang. 58 Ver pág. em 1917. pág. pág. viu-se envolvido no conflito ideológico desencadeado pela revolução russa de 1917. Karin. Para isso havia uma série de razões específicas. Kahin. 18-19 57 Sobre a organização dos estudantes. a comunidade aldeã ainda fornecia uma segurança social básica. revista. 29. cit. onde a seqüência tende a ser precipitada e afetada por acontecimentos externos. terem regressado à Indonésia no final da década57 — significou que. pelo menos. Assim. como o Congresso indiano. para o terreno político e o levou. e esse fato continuou a agir como um freio eficaz à intranqüilidade política. ibid. não pertencia a esse grupo. da evolução verificada em outros países da Ásia e nas terras árabes do Oriente Médio e África do Norte. págs. capitalista ou empresarial. também nesse aspecto as condições eram desfavoráveis."54 Levar-nos-ia muito longe seguir o curso. desde seu início. op. cit. parece razoável afirmar que foram os japoneses que impeliram a Indonésia para a independência. New Age and New Outlook (ed. um lento e difícil processo. a Perhimpoenan Indonesia. o desenvolvimento relativamente tardio de um consciente movimento nacionalista antiholandês — mal estava articulado antes dos membros da união dos estudantes indonésios na Holanda. China. 1960). Em primeiro lugar. 55 Cf.56 Além disso. Penguin Books.55 Isso significava que a única base possível para que um movimento nacionalista indonésio tivesse êxito residia no estabelecimento de uma ligação efetiva entre os intelectuais que compunham a liderança nacionalista e as massas indonésias. Sukarno. de outro modo. Hall.. 88. em substância. a exigir a independência. Ping-Chia Kuo. a mobilização das massas por um programa social econômico revolucionário — dificilmente abriu seu caminho antes que os acontecimentos internos fossem envolvidos pela ocupação japonesa de 1942-5. Contudo. 60.

eram neutralizados por um sentimento de solidariedade. As tentativas de contato organizacional com a massa dos trabalhadores rurais foi quase completamente frustrada. dos estudantes. que assim continuou dependente do funcionalismo. págs. promanando da adesão comum ao Islã. À medida que o movimento nacionalista se propagava.59 Sem o apoio organizado das massas rurais. de Bourguiba. Partai) Nasional Indonésia. em muitos as- 59 60 Cf. porém. e os líderes nacionalistas jamais conseguiram. a política holandesa registrou certa dose de êxito. a invasão nipônica. Na Tunísia. e as dissensões entre os nacionalistas resultaram desastrosas.pos. o movimento nacionalista tinha poucas probabilidades de êxito contra o poder repressivo dos holandeses. depois da supressão da revolta comunista de 1926. ou Partido Constitucional. na Índia. Sjahrir e outros dinâmicos chefes nacionalistas — e dissolvendo as uniões sindicais. na forma de movimento revolucionário espontâneo entre os camponeses. Se o líder do Sarekat Islam. professores e atividades congêneres. até que se obtivesse a independência. durante o domínio holandês. que de outro modo poderiam ter sido fortes entre os povos das outras ilhas. embora o PNI. a partir de seu berço em Java. cit. o Xeque Abdul-Aziz alThaalibi. Prendendo os líderes — Sukarno foi deportado de 1933 até 1942. Tjokro Aminoto. pág. 37-8 . A conseqüência foi que. a falta de uma base sólida. pode ser comparado a Gokhale. 63 Ibid. que destruiu o poder holandês. foi um momento decisivo. então pode-se dizer que Sukarno corresponde a Nehru e a Jinnah. entrar em contato suficientemente assíduo com os camponeses para organizá-los e enquadrá-los efetivamente no movimento nacionalista. Mas. fundado em 1920 por um reformador islâmico. e em breve seguido por Hatta. ao fundirem os povos de vários idiomas e culturas que habitavam o arquipélago indonésio. A segunda fase surgiu com a fundação. pelo menos.60 O movimento nacionalista do Norte da África ficou também devendo seu impulso inicial ao Islã e sua evolução verificou-se quase simultaneamente com os progressos feitos na Indonésia. do Persarikatan (mais tarde. Kahin. incutisse ao movimento nacionalista uma unidade que ele jamais possuíra. Mas também é verdade que os holandeses. Outro fator foi o elevado grau de homogeneidade religiosa que predominava na Indonésia. depois de 1929. o antigo Destour. ajudaram a converter o que principiara como patriotismo javanês num movimento nacionalista que abrangeu toda a Indonésia. Assim. as tendências sectaristas e os patriotismos locais. op. com um programa de reforma administrativa em colaboração com a França. o movimento nacionalista foi jogado na defensiva. tornou difícil fazer frente às contramedidas holandesas. em 1927. foi suplantado depois de 1934 pelo Neo-Destour. chefiado por Sukarno. facilitando a intervenção holandesa. liderado por Sukarno — um movimento nacional deliberadamente modelado segundo a campanha de não-cooperação de Gândi e que procurou reunir todos os grupos nacionalistas existentes em uma só organização. um radical e secular partido de massas. por exemplo.

vol.. Nas colônias francesas. também T. Bourguiba et La naissance d'une nation. o desenvolvimento do nacionalismo na África tropical seguiu um curso algo divergente.. que era tribal e étnico. A razão para isso é que os africanos não possuem uma civilização única e global. cit. Julien. op. Com essas exceções. preocupados — como Nkrumah se queixou mais tarde64 — com um "nacionalismo negro em oposição ao nacionalismo africano". pág. No todo.66 e foi dentro desse padrão que o nacionalismo africano evoluiu. pág. ao penetrar na África. 44.61 E tal como a ocupação japonesa tornou possível ao movimento de independência indonésio sair a campo aberto. foi o Ocidente que "criou o modelo de nossas esperanças e. C. Na África central faltava uma intelligentsia desse tipo. pág. 79 e segs. págs.. um Sun Yat-sen africano. Nkhumah. 411. 62 "La présence américaine exalta le nationalisme". Hodgkin. Continha uma multiplicidade de povos situados em níveis diferentes de vida social e o objetivo dos líderes nacionalistas emergentes não podia ser um regresso ao passado. assim também. pelo contrário. Foreign Affairs. mas almejando. cit. nunca foi muito forte na África. também a Segunda Guerra Mundial foi um ponto decisivo. defender uma herança cultural ameaçada de fora.. Na África ao norte do Saara. em particular. Hodgkin. A. o Comité d'Action Marocaine (1934-7) e o Parti National pour la Réalisation du Plan des Reformes (1937-9). nem uma base comum de cultura escrita a que se reportarem. 64 Cf. 179. L'Afrique du Nord em marche (Paris.62 Na África tropical. (Paris. Não existe um Gândi africano. em 1943. a criação de uma nova personalidade africana. porém. Ziadeh. ou Partido da Independência. depois de 1942.. 53. 52. pág. op. 66 Cf. Julien. os "franceses livres" tiveram de prometer substanciais mudanças a fim de obterem o apoio das populações nativas contra Vichy. Como Nkrumah escreveu em 1958. 98-102. F. 61 . pode-se dizer. 1961). XXXVII (1958). 1952) págs. 342. a contra-revolução cultural foi mais um produto do que uma causa do desenvolvimento de um movimento nacionalista autoconsciente.63 Os primeiros intelectuais. Garas. Du Bois e Blyden. no Norte da África. portanto. 63 Cf.pectos paralelo ao PNI de Sukarno. 78. os nacionalistas africanos não eram "nativistas culturais"65 e a reação contra a civilização ocidental. impôs-nos esse modelo". porém. a presença das tropas anglo-americanas. cf. que a reação africa- Cf. com todo o seu poderio.. A tal respeito a África tropical estava mais próxima da Indonésia do que da Índia ou da China. 1956). pág. sobre o Xeque Thaalibi. Garvey. que acompanhou a rejeição do domínio político ocidental na Ásia. African Political Parties (Londres. portanto. como na Índia e na China. cit. cf. pág. como na Indonésia. eram oriundos das Índias Ocidentais. no mais amplamente alicerçado Istiqlal. Autobiography. op. tornou possível a transformação dos mais rudimentares movimentos políticos marroquinos de antes da guerra. a exigência de independência surgiu dos primeiros movimentos conservadores islâmicos e as primeiras reações contra o Ocidente foram deflagradas por intelectuais que desejavam. Nationalism in Colonial Africa. pág. 65 Coleman. Na África central. Em outros aspectos.

portanto. depois com o Conselho Nacional da Nigéria e dos Camarões (1944). 352. marcou a abertura de uma nova fase. The Road to Independence. mas. págs. 69 Na opinião de Coleman. Danquah e Nkrumah. em 1951. Apter. modernas técnicas de campanha e um programa claramente formulado.na ao domínio estrangeiro e ao estímulo da ocidentalização obedeceu a um padrão histórico". com uma liderança de base universitária. não alcançava mais do que o "governo autônomo dentro do império britânico" e as tentativas feitas depois de 1948 para o impulsionar no sentido da militância produziram uma reação que redundou num período de inatividade. contudo. Ibid. 173 e segs. de fato. como organizações paralelas. Cf. pág. págs. 307-8. até chegarmos ao Grupo de Ação fundado pelo Chefe Obafemi Awolowo. para reformas dentro do sistema colonial vigente. pág. Ghana. que a função do Grupo de Ação. e para os objetivos mais restritos do CNNC. é uma evolução característica. E. Sobre o revés do movimento zikista e o conseqüente declínio do CNNC. Na Costa do Ouro. pois aí a situação foi complicada pelas persistentes divisões regionais e tribais. 1955). ibid. com efeito. não era um movimento das massas — até 1952. com limitados contatos populares. 409. cf.. começara na África o período em que a Índia ingressara no final do século XIX e abandonara nos anos imediatamente a seguir à Primeira Coleman. poucas dúvidas subsistem de que o Grupo de Ação representava uma forma mais avançada de organização política... ibid. por volta de 1950-1. 166. Boukbet. págs. cit. na maior parte. com apoio mobilizado pela combinação de objetivos nacionais e sociais. Tal evolução é nitidamente paralela à que. o padrão foi mais complexo.69 O que observamos. uma derivando sua força da região oriental e a outra da região ocidental do país. por outra parte. 54-5. 167 e segs. fundado em 1923 sob a liderança de Herbert Macaulay. É justo dizer. 1960). estavam representadas pela Sociedade de Proteção dos Direitos dos Aborígines. 398. pags. pela Convenção Unitária da Costa do Ouro e pela Convenção do Partido do Povo.67 Também aqui não é difícil distinguir três fases de desenvolvimento.68 Na Nigéria. The Gold Coast in Transition (Princeton. identificando-se cada uma dessas fases com os nomes de Casely-Hayford. Nigeria: Background to Nationalism. M. mas não deixa de haver. págs. partindo da associação frouxa e freqüentemente não formalizada. 1919-1957 (Londres. op. com a fundação do Congresso Nacional da África Ocidental. tal como foi formulado em 1944. o Grupo de Ação "diferenciou-se de todas as anteriores organizações políticas nigerianas".. cf. ao norte. para a consecução dos quais a população inteira podia ser agitada e chamada à ação. 146. em que Azikiwe foi a figura predominante. bem como pela força do Islã. uma linha definida de evolução. tem-se dito que.. em 1951. 40. D. 35-7. já ocorrera na Ásia. F. Sobre a pressão que exerceu para a independência. 61-2. até se alcançar a fase dos partidos das massas. através dos partidos de classe média. não tinha filiados individuais — e fracassou em obter a adesão do Movimento da Juventude ou do operariado organizado. iniciando-se no Partido Nacional-Democrático Nigeriano. 67 68 . Assumiu também uma posição mais irredutível na questão da independência. em 1920. na Costa do Ouro e na Nigéria. 264-7. seu programa original. Além disso. O CNNC e o Grupo de Ação consideram-se. freqüentemente. O CNNC. 350.

cit.74 Daí resultaram quatro conseqüências principais.Guerra Mundial.000 habitantes em 1945 para 300. Segunda.71 três ou quatro décadas antes na Europa. Só resumidamente é possível descrever os passos pelos quais essa transformação teve lugar. op. em 1947 e 1944.. respectivamente. dos quais Nkrumah é. colocou a África Ocidental Britânica na estrada percorrida pelo Sudeste asiático nas duas décadas do período entre as guerras. E. atuaram como novos focos de unidade nacional. 70 71 . 74 Para estas e outras cifras. exigido pelo fomento econômico. Elisabethville quase triplicou a população entre 1940 e 1946.70 Existem. forneceram audiências maciças. as cidades geraram uma nova camada de homens politicamente ativos. "uma elite da classe média. durante e depois da Segunda Guerra Mundial. op. 163. 72 Autobiography. 67. capacitou os líderes a forjarem orgaCf. de vários modos. pág. que soubesse o que queria e para onde ia.72 Por outras palavras. pág. e as novas cidades geraram tanto uma vida social própria. Como disse Nkrumah. baseados nos censos de 1931 e 1948. simultaneamente. igualmente. 56 Cf. nítidos paralelos entre a evolução dos partidos políticos africanos e o movimento para a democracia das massas que principiara. 177. só teria possibilidade de se realizar completamente por meio de novos líderes. Primeira. Existem números respeitantes à Costa do Ouro. quanto um espírito de radicalismo africano. Hodgkin. a revolução social era a contra-parte necessária da emancipação nacional. Nesse período. o que não se verificara até então na África. cf. nesses continentes. O cenário foi o período de rápida mudança social e econômica. Bamako duplicou e Leopoldville registrou mais do dobro no mesmo curto prazo. em Apter. finalmente. Nationalism in Colonial Africa. 73 Cf. do que as antigas lideranças. o desenvolvimento dos partidos de massas não era prejudicado pela sobrevivência de mais antigas tradições de governo parlamentar. Terceira.73 O mais espetacular aspecto do período — paralelo. 113. o tremendo progresso nas comunicações. Mas o movimento avançou mais e com maior lógica na Ásia e na África. reduzindo as divisões tribais e formando uma rede urbana que unia as dispersas comunidades rurais da África. e que a fundação da Convenção Unitária da Costa do Ouro e do Conselho Nacional da Nigéria e dos Camarões. sem o aríete das massas iletradas" jamais "poderia ter esperança de esmagar as forças do colonialismo". Todavia. como já vimos. págs. prontos a obedecerem a uma liderança corajosa. só dessa maneira e através da rigorosa disciplina de partidos nacionais rigidamente organizados. contra a qual os governos coloniais se encontrassem. pois. mais que duplicou a população de Kumasi. a que já fizemos alusão. que forneceu matéria pronta para a nova geração de líderes nacionalistas. pág. tanto em suas relações com o governo colonial quanto em suas concepções sociais. ao que se passava. ao passo que Acra e Sekondi-Takoradi quase duplicaram o número de habitantes. pág. Pág. por fim. Dacar subiu de 132. Mansur. menos inibidos. impotentes. pertinazes e emancipados. cit. porventura. 86 e segs. na Ásia soviética — foi o crescimento de cidades. era possível construir uma resistência maciça..000 em 1955. o exemplo típico.

op. confiantes em sua capacidade para manejarem as técnicas políticas ocidentais e cônscios das potencialidades da nova situação. também. cit. 57. cit.77 Tal como Azikiwe. cit.. fundando seções e filiais. pelo West African Pilot. 81 Mansur. estabelecera já quinhentas filiais da UCOC.. pág. mas não podem agir com um propósito se não forem orientados por um partido político colocado na vanguarda". 77 Sobre "Zik". op. 88. Como um deles confessou. Renascent Africa (Acra. organizando comícios. N. proferindo discursos. pois. consciente de que a mobilização política das massas debilitaria a própria posição deles. pág. VII.81 O êxito do PCP em Gana é apenas um dos mais notáveis exemplos de uma política que outros líderes estavam aplicando em toda parte. 220-4. na Ásia e na África. sobre uma coalizão tradicionalista. Cf. em 1948. 17. págs. em 1937. 79. em campanhas através do país.. págs. Autobiography. 82.. As gerações mais antigas eram tolhidas por um sentimento de insuficiência. Simultaneamente — também como Azikiwe — Nkrumah lançou-se. em 1948. O próprio Nkrumah contou como. Treinados nos Estados Unidos.75 Receavam. na Nigéria. mas não era apenas isso. Apter. "marcou a ascendência de um partido de massas. págs. tal como o retorno de Azikiwe à Nigéria.a a seus membros. cf.nizações que abrangiam os países de ponta a ponta. 80 ibid. quando ocupou o cargo de secretário-geral da UCOC. como Nkrumah disse. regionalista e hierárquica". Como foi desdenhosamente comentado por Nkrumah. 178. este rompeu com eles "e formou o Partido da Convenção do Povo".76 O regresso de Nkrumah da Inglaterra. procurar o apoio popular. op. em 1949. sua vitória em 1956 foi devida à sua organização das massas e à rigorosa disciplina impôs. abrira um novo período.79 O PCP foi desde o princípio um partido de massas. "os movimentos de massas são legítimos e precisos. 84. só duas seções filiadas haviam sido criadas "e ambas estavam inativas". Azikiwe.78 Seu jornal Accra Evening News desempenhou a mesma função de inflamar o sentimento racional e nacional em Gana que fora desempenhada. de Azikiwe. Coleman. com intensa energia. pág. "o sistema de partidos era-lhes estranho" e conta como. 1937). 78 Cf. emitindo carteiras de filiação partidária. como esse alistamento maciço do homem comum alienou o comitê executivo da UCOC — "foi inteiramente contra seus conceitos mais conservadores" — e como. com estudos políticos. igualitário e nacionalista.80 Contudo. sob o governo colonial. 61. em Londres. durante o debate constitucional na Costa do Ouro. Como na Indonésia. preconizada por Nkrumah. 79 Autobiography. Nkrumah compreendeu que "não existe melhor meio de levantar povos africanos do que o uso da pena e da língua". que tornou possível explorar essas mudanças. dentro de seis meses após sua chegada à Costa do Ouro. 75 76 . foi o regresso do estrangeiro de uma nova geração de líderes. seus membros tinham ficado "atrofiados pela falta de uso" — "queremos fé e confiança em nós mesmos". ao recusar o dito comitê endossar a política de "Ação Positiva". pág. 61. marcou assim um ponto decisivo na política da Costa do Ouro.

VII. foi apenas "o primeiro objetivo". que o Kuomintang perdeu sua melhor oportunidade na China. No todo. comum entre os comentaristas políticos ocidentais. como Nkrumah referiu em sua autobiografia. no Tanganica. J. da União Nacional Africana. mas também do Grupo de Ação. 6 Ninguém que estude as sucessivas fases no progresso dos movimentos nacionalistas da Ásia e África pode seriamente duvidar da influência exercida pela prática e exemplo da política ocidental. No final. A independência política. Ibid. de Julius Nyerere. em Moscou. helicópteros. do Rassemblement Démocratique Africain e do Bloc Populaire Sénégalais. assim. o resultado foi inverso. Na Índia. porque o Congresso. bandeiras e slogans. estabeleceu contatos com as massas camponesas e. a revolta contra o Ocidente. Como Sir Hamilton Gibb escreveu. o êxito dependia da organização adotada".83 o que lhe deu força e obteve seu esmagador apoio popular foi a firme determinação de utilizar a independência para edificar uma nova sociedade. Essencialmente. algumas vezes. foi por não ter sabido enfrentar o problema agrário e. lutando com temor da agitação das massas e da ação social. na Ásia e na África. formaram partidos de massas modelados pelo que tinham observado no Ocidente. podemos afirmar que os que mobilizaram as novas forças sociais triunfaram e os que se retraíram. Seus líderes sabiam. Este foi o tipo não só do Partido da Convenção do Povo. Autobiography.. ir de encontro às necessidades básicas do povo. e com automóveis. Foi essa percepção que os distinguiu de uma geração anterior de líderes e os habilitou a mobilizarem as forças que o impacto da ocidentalização liberara na sociedade asiática e africana. Mas devemos ser cuidadosos quanto aos corolários a extrair desse fato. emblemas. seus próprios jornais. de que o impacto da Europa foi o catalisador que provocou o ressurgimento da Ásia e da África. até ser esta obtida. em apoio à luta pela independência. criou uma máquina partidária que mobilizou o povo. pág. . na Nigéria. sendo suplantado pelo Partido Comunista chinês de Mao Tse-tung e Chou Enlai.82 Tinham razão. através do gênio organizador de V. como o Kuomintang. como Nkrumah disse. e especialmente cuidadosos antes de aceitarmos a conclusão. tanto no campo como nas cidades. "que qualquer que fosse o programa para a solução do problema colonial. embora tendo sua origem na classe média. caminhões com alto-falantes e todo o demais apetrecho da organização e propaganda políticas. planejada para servir às necessidades do povo no mundo moderno. com um escritório central e um secretariado permanente. pág.Paris e. Patel. os efeitos exte- 82 83 Nkrumah. 37. em Gana. fracassaram. com uma pirâmide de unidades funcionando desde as seções locais até as conferências nacionais. fundiu-se numa revolta ainda maior: a rebelião contra o passado.

pela adoção dos processos avançados de industrialismo e tecnologia ocidentais que os asiáticos e africanos se ergueram da sujeição para a independência: tomaram as armas forjadas na Europa e voltaram-nas contra os conquistadores europeus. contra o que consideravam uma exploração em benefício dos interesses europeus. antes do advento dos europeus. H. Na realidade. democracia e nacionalismo. cit. pág. F. mesmo um Estado que fora tão poderoso e expansivo como o império Ming. Mas também é verdade que a tendência corrente para considerar a ocidentalização como a chave do renascimento afro-asiático deixa de fora alguns fatos relevantes. A transformação da sociedade asiática e africana pela indústria e tecnologia ocidentais foi um fator dominante na situação. Existe. 327. Gibb. por exemplo.. em primeiro lugar. mediante a assimilação de idéias. em grande parte. Logo se tornou óbvio que as sociedades tradicionais da Ásia e da África. não constituíam barreira para os conquistadores europeus. elas permaneceriam baseadas no passado. A sociedade japonesa estava em vésperas de mudança muito antes da chegada de Perry. evidentemente. Cf. no século XVIII. Quanto mais conhecemos das sociedades asiáticas e africanas. e facilitou esse processo pelo enfraquecimento das fundações das sociedades tradicionais. págs. A. com seus armamentos poderosos e sua nova tecnologia. R. embora possa ter criado as condições e fornecido os meios. Japan's Century (Londres. e na China também estava em marcha um explosivo processo de ajustamento social no início do século XIX. Modern Trends in Islam. 1964). assinalou o caminho para a modernização. pág. não influiu na vontade de obter a independência. e seria um erro supor que. Wall. contra o fato de estarem relegados a uma situação de inferioridade racial.. "as forças de pensamento agora atuando no mundo muçulmano são forças geradas no seio da própria comunidade muçulmana". o movimento waabita. R. se não fosse a pressão européias.riores da expansão mundial da tecnologia e aptidões ocidentais são de tal modo óbvios que é fácil supor uma expansão paralela do pensamento ocidental. a compreensão brutal de que a única alternativa para a modernização era soçobrar. em 1853. Ao mesmo tempo.85 Em qualquer caso. Também forneceu os meios e criou as condições para uma revolta bem sucedia. foi prova evidente de restauração espontânea. na China. que foi pela exploração das idéias européias de autodeterminação. foi um motivo: quer dizer. Ping-chia Kuo op. pág. 1962). 109. asiáticos e africanos reagiram contra a dominação européia. muitas vezes. No mundo árabe. Daí resultou afirmar-se. mas não teria restaurado por si mesma uma posição independente no mundo. embora sua emergência tenha sido causada. Gibb. 23. técnicas e instituições européias. tanto mais claro se torna que elas não eram estáticas nem estagnadas. mas tal suposição seria "inteiramente injustificada". grande dose de verdade nessa análise. 84 85 . 6 e segs. e a tendência de sua evolução tenha sido parcialmente determinada por influências ocidentais. O impacto da Europa despertou a necessidade imperativa de mudança. se não fosse acompaCf. o contato com a Europa. pelo impacto ido Ocidente.84 O que o Ocidente forneceu. Studies on the Civilization of Islam (Londres.

a respeito da África.. ou remodelarem. onde suas raízes culturais eram tão profundas quanto as da Europa. no século XVI. Todos os movimentos nacionalistas.. e ocidentalização. mas "uma instituição exótica. talvez a mais importante fosse a determinação dos asiáticos e africanos de manterem. ao imperador do Mali no século XIV e a notáveis pensadores como Ahmad Baba. quando necessário. Essa consciência pode. à cadeia de Estados que floresceram no Sudão medieval. deliberadamente importada do Ocidente". cit. moderna e viável". Depois da primeira fase. mas por sua assimilação e adaptação. Toynbee. estava uma consciência aguda de ser não-europeu. quase poderia dizer-se que o problema essencial por eles defrontado era como modernizar sem ocidentalizar. "surgisse uma cultura africana. "não constituindo uma parte e parcela do sistema social indígena". The World and the West (Londres. op. em Timbuktu. particularmente nos países onde a tradição hindu ou muçulmana era poderosa. a finalidade não era "o africano tradicional nem o negro europeu. Cf. incorporar bastantes elementos míticos. que. Como um escritor disse. Essas forças também desempenharam sua função no redespertar político. O nacionalismo. 86 87 . Que os movimentos nacionalistas da Ásia e da África adaptaram as técnicas e recolheram os meios de expressão do Ocidente não está em questão. em ambos os continentes. 88 Hall. essa reação conservadora e acentuadamente estéril foi de pouca duração. Entre elas. que ensinou na universidade de Sankore. cit. Legum.nhada por outras forças que não dimanaram do Ocidente. J.86 Por trás disso. antes da intrusão européia.87 Até que ponto essa generalização é válida está sujeito a dúvida. ou. págs. como forma de alienação. 617-19. Com efeito. Em certos períodos. pág. de modo que. tinha de ser evitada.. op.. Foi esse sentido de diferença que caracterizou o novo nacionalismo da Ásia e da África. Em seu todo. criarem sua "personalidade" própria. também foi verdade na África. págs. era estranho às sociedades afro-asiáticas. e isto seria conseguido não pela resistência e rejeição "daqueles elementos europeus que os tempos modernos exigem". mas não é menos evidente que o próprio nacionalismo "não nasceu da revolta contra o domínio europeu". contudo. parece mais provável que qualquer sociedade em crise de modernização sofra um processo de concentração nacional. mas a maioria dos líderes asiáticos e africanos distinguiu entre modernização. mas o africano moderno". a resistência à modernização foi diminuta. 19S3). No todo. aos heróicos reis como Mansa Musa. argumenta-se. porém. 70-1. derivaram uma grande parte de sua força motivadora de uma consciência de seu passado histórico. 102-3. A. que eles compreenderam ser necessária. mas o apelo às antigas civilizações africanas do vale do Nilo. uma noção exata da herança cultural que não derivava do Ocidente e que era importante reter e integrar na vida moderna.88 Isso foi verdade na Ásia. essa determinação tomou a forma de uma fuga para o passado. constitui um elemento vital no nacionalismo Cf. combinando-os com os elementos do passado africano. como em tão grande parte da história ocidental.

a qual constitui. op. como qualquer pessoa.. Nationalism in Colonial Africa. e tendes visões". ao exemplo ocidental. as civilizações do império de Gana existiam. como qualquer pessoa. "Eu expliquei".africano. escreve Nkrumah em sua autobiografia (pág..90 A história do século XX foi a história dessa mudança de condições. Seu resultado foi uma revolução na posição relativa ocupada pela Ásia e África no mundo. mas o outro e mais significativo é o progresso dos povos da Ásia e África — e. vêm dizer-nos que nada podemos fazer. a profunda motivação humana das atitudes pessoais. durante a rebelião Boxer. pág. quase certamente. que sustentaram a revolta contra o Ocidente. artes e sabedoria tinham suas obras traduzidas para o grego e o hebraico e. fazia-se intercâmbio de professores com a universidade de Córdova. 90 Cf. na antiga cidade de Timbuktu. como qualquer pessoa tendes aspirações. a determinação e a coragem. "que muito antes do tráfico de escravos e rivalidades imperialistas começarem na África. 173-4. cit. O ressurgimento da Ásia e África inculcou uma qualidade à história contemporânea diferente de tudo o que ocorrera antes: o colapso do império é um de seus temas. a coragem. Como foi assinalado pelo grande Vice-Rei Li Hung-chang. ao mesmo tempo. págs..89 É importante ter em mente as raízes indígenas do nacionalismo asiático e africano. não eram bastantes. Nessa época. enquanto as condições não mudaram. mas com uma segurança não inferior. da América Latina — para ocuparem um lugar de nova dignidade no mundo. Hodgkin. Romein. A vontade. — Estes eram os cérebros! — declarei orgulhosamente. 8. Mas acaso tereis esquecido ? Vós tendes emoções. se acaso devem alguma coisa. tendes sentimentos. os africanos versados em ciências. 153). mais lentamente. — E hoje. a mais significativa das revoluções de nosso tempo. pouco devem... por si só. a resistência ao Ocidente foi mais do que inútil. na Espanha. Cf. 89 . Mas a vontade. a firme determinação.

O conflito ideológico não é uma característica assim tão distinta da história contemporânea. L. as ideologias estão de tal modo conjugadas a interesses. A expansão do alfabetismo e o aparecimento. F. a emancipação dos povos afro-asiáticos — e sua importância para as condições do período mais recente do século XX e para tais e tão prementes problemas como a alimentação de uma crescente população mundial é cada vez mais discutível. e os temores soviéticos do mundo capitalista ampliaram-se. Por outra parte. The Cold War and its Origins. 1961). 1952). no Ocidente. um choque de ideologias. é provavelmente verdade que o medo ao comunismo.1 Na realidade. em seu rastro. D. se prestarmos a devida atenção aos fatores geopolíticos subjacentes. J. o drama da história contemporânea vem sendo descrito como um tremendo conflito de princípios e crenças.VII O DESAFIO IDEOLÓGICO O Impacto da Teoria Comunista e do Exemplo Soviético Desde a revolução russa de 1917. 1. pág. foi intensificado quando se identificou com o formidável poderio militar alcançado pela Rússia na Europa. do mesmo modo. apenas. embora já existisse antes. 1 . XI 2 Cf. que o papel por elas desempenhado nos acontecimentos é extremamente difícil de apurar e avaliar. Para usarmos apenas o exemplo mais óbvio. quando o conflito ideológico foi reforçado pelo monopólio americano das armas atômicas. 71. na época da Reforma. é evidente que o conflito. 1917-1960 (Nova York. pág. ainda que a revolução bolchevista não tivesse ocorrido. "o grande e permanente conflito do século XX". começamos agora a ver. ou entre católicos e protestantes. no campo prático. Além disso. Talmon. nem é sempre algo mais do que uma útil propaganda para a perseguição de outros objetivos. O significado duradouro da luta ideológica. a situação é bastante mais complicada do que tais formulações sugerem. é difícil fugir à conclusão de que as forças que levaram os dois países à colisão como potências mundiais teriam agido da mesma maneira. pág. foi preparar o palco para mudanças muito mais profundas — por exemplo. depois de 1945.2 com efeito. depois de 1947. Fleming. mas uma luta de interesses concorrentes. levaram sem Cf. The Origins of Totalitarian Democracy (Londres. entre os Estados Unidos e a União Soviética não foi. cujas origens podem ser localizadas muitos anos antes da revolução bolchevista de 1917. de novos métodos e doutrinação em massa. Tem-se feito a comparação com a luta entre o cristianismo medieval e o Islã. um choque entre ideologias irreconciliáveis. como por vezes se supõe. e tem-se visto nele "o problema mais vital de nosso tempo".

foram. assim como as doutrinas características do liberalismo europeu do século XIX podem ser localizadas no iluminismo e ainda mais para além. evidentemente. a qual passou a ser identificada. O marxismo foi menos a causa do que um produto de uma nova situação mundial. O que é errôneo é encarar a questão como se fosse o problema central a que tudo o mais deva estar subordinado. As idéias ponderadas por Marx eram compatíveis com múltiplas formas de socialismo e suscetíveis de interpretações amplamente variáveis. assim.dúvida. dessas formas específicas. produziu também uma nova filosofia social. a um acentuado incremento no poder da propaganda. afetaram profundamente a história contemporânea. que o comunismo. Foi uma expressão das novas forças que a mudança social e econômica libertara. os europeus ocidentais lançaram diatribes contra o "despotismo asiático" dos czares. um século antes. descendeu. para usarmos a grosseira combinação consagrada pela ortodoxia comunista. uma doutrina definida para fazer face às necessidades de uma nova era. tal como hoje o conhecemos. bem como o subseqüente conflito entre a nova ideologia e a antiga. depois de 1917. num sentido muito real. visto ser com o primeiro. mas em todo o século XIX. no começo do século XX. não menos virulentas do que as desencadeadas depois contra os comunistas. o marxismo-leninismo surgiu como a ideologia da esperada revolução proletária e um desafio aos valores liberais dominantes. Não obstante. Ou. que estamos fundamentalmente preocupados neste trabalho. Mas as formas específicas do marxismo-leninismo eram novas e foi. e não houve um só aspecto do ódio aos "vermelhos sem deus" que não tivesse já sido expresso. em vez da mais ampla tradição do socialismo marxista. com a Rússia soviética. o leninismo era um "marxismo da era do impe- . Foi a prova final de que um novo período da História começara. como ideologia da revolução burguesa e desafio à autocracia e ao privilégio. no pensamento socialista. suas origens podem remontar bastante longe. como Stalin diria mais tarde. em relação aos revolucionários franceses. enquadrada em rudimentares diretrizes ideológicas. à propagação dos novos conceitos de Estado e suas funções e ao surto da sociedade de massas. está fora de dúvida o fato de que o advento de uma nova ideologia. Mas não foi por acaso que o período que assistiu ao súbito e revolucionário avanço da tecnologia industrial. As novas doutrinas não nasceram prontas. depois de 1789. ao passo que as doutrinas de Lênin. por outro lado. uma reação às novas condições que em toda parte surgiam na transição do século XIX para o século XX. e dificilmente erraremos se descrevermos o advento de uma nova ideologia como o derradeiro componente de uma nova situação social que estava surgindo nas últimas décadas do século XIX. Tal como o liberalismo emergira. com efeito. 1 Fiz referência específica ao marxismo-leninismo e não ao marxismo.

168. que os dois panfletos que contêm a essência de seus ensinamentos. 1934).5 havia "pouco em comum". 8 Plamenatz.7 Além disso. sendo desnecessário reatar aqui a discussão. de Plekhanov. 1960). existem razões históricas específicas. pág. op. o ponto de partida dos acontecimentos modernos. em parte. Plamenatz. 1962). também Talmon. mas deixaram toda a superestrutura arquitetônica à sabedoria e gosto dos construtores". em vez do marxismo "puro". em sua maior parte. 1958). antes da era democrática". um resultado do desapontamento provocado pelo resultado das revoluções de 1848 e 1849. A. O importante foi ter sido o marxismo-leninismo. mais próximas da primeira do que da segunda dessas datas — ostentam a inconfundível marca de seu próprio tempo. 225. de Marx (Londres. págs. nos dos próprios Marx e Engels — em uma doutrina de gradualismo. The Communist Manifesto (1848) e The Address to the Communist League (1850). Leninism (Londres.4 As pessoas com propensão para as comparações históricas talvez pensem que o marxismo-leninismo está para os escritos de Marx na mesma relação do cristianismo paulino para os evangelhos cristãos. cit. págs. págs. Essa evolução foi. já foi afirmado. cf. 3 4 . foram escritos numa época de ilusões e coloridos por esperanças mal fundadas. pág. subseqüentemente. em menor grau. forneceram "o alicerce para uma comunidade que almejasse atingir o socialismo. a corrente afastara-se do fervor da era revolucionária e o marxismo foi com aquela. pág. O marxismo. op. 294-5. 16. Wetter. pág. Russia in Flux (Nova York. é uma explicação tão boa quanto qualquer outra.. cf. principalmente notável por sua hostilidade a todas as formas de ativismo revolucionário. Não seria injusto afirmar que. 1940). cit. Entre as especulações de Marx e a filosofia oficial do bolchevismo. porém ainda mais uma conseqüência da rápida melhoria de condições das classes trabalhadoras. Talmon. o marxismo se convertera — nos espíritos dos seus expoentes cotidianos e. antes de Lênin. escreveu Sir John Maynard. 13. 6 J. entre os intelectuais da extrema esquerda.rialismo e da revolução proletária". 217. 224. embora desvendasse uma "visão magnífica". propriamente dito. o que parecia justificar o gradualismo como tática altamente apropriada. Na Rússia. 5 G. 1954). J. 7 Os princípios de Marx. Para isso. A primeira foi que Marx. e tanto Marx como Engels admitiram.8 Depois de 1851. Na mais momentosa de todas as questões — o problema da liderança numa sociedade democrático-socialista — Marx nada tinha de preciso a dizer-nos e não fez qualquer tentativa para descrever o tipo de governo ou organização que seria necessário para levar a cabo uma vitoriosa revolução comunista. sua característica mais flagrante era a oposição ao terroJoseph Stalin. 2. as doutrinas básicas do marxismo — formuladas entre 1846 e 1867 e. Dialectical Materialism (Londres. 35. German Marxism and Russian Communism (Londres. depois da publicação de O Socialismo e a Luta Política. foi "uma filosofia nascida no Ocidente. Political Messianism (Londres. em 1883.6 estava mais preocupado em analisar as forças dialéticas e as contradições íntimas que levariam à superação do capitalismo do que a estrutura da sociedade que deveria suceder àquele. onde o marxismo começou a ter algum impacto.3 Muito se escreveu sobre a relação entre marxismo e leninismo.. introdução de Engels a The Class Struggles in France. L.

pelo governo.10 A obra de Lênin assentava em duas proposições. H. uma elite revolucionária de trabalhadores endurecidos e disciplinados a serviço do partido. o grande Partido Social-Democrático alemão. O que E. no final do século XIX. Duas Táticas da Democracia Social. E. por métodos parlamentaristas. Lênin conseguiu ver a ditadura do proletariado inscrita no programa do Partido Social-Democrático dos Trabalhadores. que ele escreveu em 1902. a Mais Elevada Etapa do Capitalismo (1916). e condenasse as doutrinas de Bernstein. sob a influência de Bernstein. foi simultaneamente o epílogo da filosofia política da geração anterior e o prólogo à ação política da geração seguinte. 1937). e que o requisito preliminar de uma ação política bem sucedida era "um pequeno e compacto núcleo". tinham constituído a prerrogativa de governos e. insistindo em que a transição do capitalismo só poderia conseguir-se por intermédio da ditadura do proletariado.9 Na Alemanha. em 1899 e 1903. escassamente. 11 Cf. com problemas e perspectivas novas. De fato. constituiriam os princípios fundamentais do bolchevismo revolucionário. a segunda. uma nova doutrina para uma nova era. um fragmento de um movimento revolucionário já fragmentado. somavam. a título de antídoto contra os conspiradores revolucionários. o bolchevismo foi uma criação do gênio de Lênin. The Bolshevik Revolution. H. 16. Michael Bakunin (Londres. Nesse e em seus dois folhetos subseqüentes.rismo dos populistas. que uma consciência revolucionária de classe. ao seu marxismo. lançou os alicerces do Estado revolucionário disciplinado". pág. nessa época a única organização de envergadura.11 A primeira dizia que. pág. no final de 1904. de 1875. Carr uma vez escreveu sobre Marx aplica-se ainda com mais razão a Lênin: ele "introduziu na teoria e prática revolucionárias a ordem. por consideráveis períodos. H.. Que se Deve Fazer?. 1950). 293. uma nova era política tinha início. 440. estão fixados os conceitos que. só podia chegar à massa de trabalhadores "de fora". de fato. daí em diante. longe de ser um desenvolvimento "espontâneo". nascido em 1870. Carr. O primeiro panfleto importante de Lênin. assim. mais de trezentos. Tanto como teoria política quanto na acepção de movimento político. até então. a tendência era nitidamente favorável ao revisionismo. com Lênin. Carr. que proclamava ter suas bases em Marx. em maquinismo de defesa e propagação dos interesses da classe trabalhadora numa sociedade capitalista. no mundo. O próprio Marx. nas convenções do partido. bem como de transformação evolucionária dessa sociedade. op. "sem uma teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário". pode-se dizer que. e Imperialismo. em teoria. Embora se amparasse. por isso. Os bolchevistas eram apenas uma facção. da Rússia. Quando. a partir do marxismo. Maynard. 1917-1923 (Londres. o método e a autoridade que. entrava em cena. A primeira grande realização de Lênin foi cercear essa excrescência evolucionária. pág. cit. mas foi Lênin quem elaborou as técnicas de revolução e criou. sendo tolerado. e só depois Cf. em 1903. estava-se convertendo. escrito na época da revolução russa de 1905. 9 10 . em sua famosa Critique of the Gotha Programme. atacara o gradualismo dos sociaisdemocratas alemães. às quais ele revertia repetidamente. uma nova geração.

308. Carr. H. a fim de manter toda a corrente em seu lugar e preparar-nos para avançarmos. reintroduziu — o que no período do revisionismo escasseou bastante — uma doutrina ativa de revolução. op. 2 Não é necessário. levá-los a sério. com o decorrer do tempo. A primeira é que o bolchevismo. num movimento mundial. e de 1917 a 1921. Mas sua fidelidade ao Estado russo existente. A segunda é que o estabelecimento do Estado comunista na Rússia acarretou a polarização do mundo em dois campos ideológicos. sem apoio material. por uma força econômica e mili- 12 13 Cf. são diferentes. assim a associação de comunismo e União Soviética transformou-o. págs. partindo desse critério. cit. mas rejeitando também seus princípios e ideais básicos. até o próximo elo".13 Raros homens na História igualaram Lênin e nenhum o excedeu nessa qualidade essencial. que a revolução se fez e por que foi o bolchevismo. de doutrina de uma pequena minoria subversiva. para nossos propósitos. seu impacto foi insignificante e o reduzido numero de seus adeptos não tomou necessário. Assim como as "idéias de 1789" passaram a ser poderosas quando se identificaram com o poderio da França. Lançou um desafio aberto à ordem social existente e atacou a democracia liberal da cabeça aos pés.12 Mas o passo decisivo fora dado e fixada a linha de orientação de que Lênin jamais se desviaria — apesar das divisões na frente revolucionária. Interessamo-nos menos pelas origens do que pelo impacto do bolchevismo e. Lênin escreveria mais tarde: "Não é suficiente ser revolucionário e advogar um socialismo em geral. não só expondo suas deficiências e instando para que fossem remediadas. The Bolshevik Revolution. ou leninismo. E. como quase com toda a certeza Marx esperava.de 1912 surgiram como partido separado e independente. 1917-1923. resolutamente. como encontrar um determinado elo na corrente. mas os problemas que nos preocupam. neste trabalho.. período durante o qual a guerra civil e a intervenção estavam próximas do fim e a posição do governo comunista se encontrava mais ou menos garantida. que prevaleceu na Rússia. transformou a situação de um dia para outro. Maynard. 318. alongarmo-nos na história dos anos transcorridos de 1903 até à revolução russa de 1917. 25. existem três considerações essenciais. que deva ser agarrado com toda a força que possuímos. da depressão e desintegração ocorridas durante a reação posterior a 1905. a todo momento. apoiado. por parte governos existentes. são questões de considerável interesse histórico. pág. embora debilitado como estava pela derrota e a guerra civil. Por que foi na industrialmente retrógrada Rússia e não na Alemanha. . também é necessário saber. Enquanto o comunismo se manteve como um "ideal". e não uma das outras formas de marxismo.

Lênin "desejava que Moscou fosse o centro do Comintern. mas. no caso de conflito. dispor de precedência sobre os interesses. em sua preocupação profundamente ética de justiça social. mas talvez mais sintomáticos sejam a lamentável história da manipulação soviética do comunismo chinês. de um manto para ocultar Cf. Mayer. Como Seton-Watson declara. entre 1917 e 1949.14 O terceiro ponto a considerar. depois de 1920. págs. ao fundá-la. Seton-Watson. 85-9. pois estes foram inexoravelmente expostos por autores anticomunistas. é uma comprovação de ordem histórica o fato de que. o rígido controle exercido sobre as repúblicas populares da Europa oriental entre 1946 e 1956. Não há dúvida alguma de que. The Pattern of Communist Revolution (Londres. J. como ideologia universal. Pelo contrário. Lênin não tinha a intenção de subordinar permanentemente os outros partidos comunistas ao partido russo. ainda menos ao Estado russo. mas Seton-Watson tem razão quando diz que. No âmago do comunismo. pág.tar cada vez mais formidável. Então. 14 15 . mas em nome de grupos e classes oprimidos em todo o mundo. em 1919. Nenhum exemplo é mais notório do que o pacto nazi-soviético de 1939. analisou estes e outros episódios. do qual nenhum país portador de qualquer convicção ideológica poderá jamais escapar completamente. como poderia ser negado que a imediata necessidade tática de manter a posição da União Soviética devia. no sentido de nãodiscriminação com base no sexo. a longo prazo. dentro da União Soviética. do comunismo internacional? Não é preciso enumerar exemplos. Marx e Lênin não falaram em nome de um país contra outros. foram a origem de tensões e até de incompatibilidade. pela natureza do caso. Political Origins of the New Diplomacy. apesar de sua identificação com a União Soviética. pela primeira vez. depois de 1929. cf.15 Nenhuma pessoa sensata desejaria desculpar esses erros e suas conseqüências. e essa universalidade foi sem dúvida. 248-63. raça ou classe. 390. 16 Ibid. disse ele próprio em 1919. 242-4. na prática.. particularmente ibid. o bolchevismo foi. Isso não significa que as pretensões do comunismo.. a força propulsora consistia. em 1923 — o mais conhecido de todos -. desde o seu início — e nunca abdicou na pretensão de o ser — universal em suas concepções e apelos. de igualdade entre homem e homem. cor. simplesmente porque lhe proporcionava a segurança como capital do único país de governo comunista". pág. Os comentadores hostis especularam muito sobre esse fato. para Marx e também para Lênin. 1960). um fator principal para lhes assegurar a influência. Lênin viu rapidamente a situação: agora. freqüentemente. e seu papel como doutrina oficial da Rússia fossem facilmente ajustados. em muitos momentos críticos. H. 75. o bolchevismo foi "encarado como uma força mundial". 138-46. porém — e para muitas pessoas o mais difícil e paradoxal — é que. a política da Internacional Comunista (ou Comintern) foi amplamente ditada pelos interesses da Rússia. a dissolução do Estado soviético teria acarretado o fim do comunismo como força política estabelecida. após 1917. A. Durante uma geração. dificilmente poderia ter sido de outra maneira. depois da morte de Lênin. que a respectiva ideologia não passa. Mas também é importante observar que eles nasceram de um dilema inevitável.16 Os adversários do comunismo afirmam. os equívocos e reveses que marcaram as relações com as nacionalidades não-russas.

a impressão que deu — sejam quais forem as objeções que se levantem. usualmente. à medida que o novo regime se consolidava. foi um fator da máxima importância. Como outros grandes movimentos históricos. especialmente em contraste com o argumento ocidental de que certos países não estavam "maduros" para o governo autônomo democrático. de fato. . R. chegara à "sua fase final". págs. mas também ao desmoronamento interno da ordem contra a qual se dirigia. excedendo. tivesse perdido seu impulso moral e sua capacidade para inspirar dedicação e auto-sacrifício. durante a maior parte do período. 21. por outro lado. e a prova convincente. fornecida pelo exemplo e experiência da União Soviética. The Theory and Practice of Communism. terceira.o que. À semelhança da maioria das opiniões cínicas sobre política. no estado de desapontamento que prevaleceu depois de 1919. sua adequação peculiar como reação às condições nascentes da civilização das massas. de auto-suficiência e compreensibilidade. é extremamente complexa. conjugado às suas indiscutíveis realizações no campo econômico e a seu triunfo na guerra de 1941-45. e. era como se. de outro modo. 1963. ed. ficaria exposto como um puro desígnio de política de força. o bolchevismo deveu seu êxito não só a seu próprio poder e ao entusiasmo que suscitou entre seus discípulos. no plano da teoria — de coerência sistemática. insistiu Lênin. mas o certo é que o comunismo não teria podido exercer jamais uma influência tão vasta e poderosa se — como tantas vezes se alega — nada mais fosse senão um complemento ideológico dos interesses nacionais russos. como se. Carew Hunt. segunda.17 As ideologias não funcionam no vazio e a relação entre os fatores ideológicos e os de poder. foram adicionadas duas outras considerações de natureza mais prática: a evidente força e eficiência da organização comunista. pela análise de um leninista. o que fez enorme impressão nos líderes políticos da Ásia e da África. sua aplicabilidade universal. Pelican Books. tivesse perdido o talento para solucionar seus próprios assuntos. isso é uma simplificação. A essas razões. 3 O 17 bolchevismo dividiu o mundo porque era um credo revo- Cf. 171. cada êxito registrado pela Rússia parecia demonstrar a validade de sua pretensão de oferecer-nos uma alternativa atualizada para o sistema capitalista que. A democracia liberal. de que se tratava de uma doutrina capaz de funcionar. N. em qualquer situação. depois do descalabro de 1929. três razões fundamentais para o impacto do marxismo no plano ideológico: primeira. que eram possíveis na fase corrente da História do mundo — o comunismo parecia apontar o futuro e o liberalismo estar fundado no passado. Das duas ideologias conflitantes — as únicas duas. nossa capacidade de destrinçar. Houve. encontrava-se na defensiva. O simples fato da existência na Rússia de uma nova ordem política.

1950). como Engels previra. The World of Crisis of 1914-1918 (Oxford. págs. pág. ou a forma leninista de marxismo. O recrudescimento das filosofias revolucionárias foi. Marx. e C.20 mas é certo que. uma rejeição ainda mais drástica do gradualismo do que Que se Deve Fazer?.. The Eighteenth Brumaire of Louis Napoleon (trad. Paul. publicada em 1905. de 1871. demonstrou. 209. pág. que é a característica predominante da História contemporânea. 25. J. cit. um traço característico do período. mas do fascismo. assinalara o final de um período. tal como Lênin o criou. 21 Wetter.21 O gênio The Class Struggles in France. 18 19 . trad. foi. radicou-o no que para seus adeptos parecia ser um irresistível sistema lógico e dotou-o de novas formas de organização. Judgements on History (Londres. que em 1914 "nenhum estadista responsável. e algumas evoluíram na direção não do socialismo. nem uma só deixava de se caracterizar por uma reação contra o liberalismo progressivo e uma derivação para o ativismo político. Em sua primeira fase. outras de Proudhon. Também Trotsky e Rosa Luxemburgo propunham conceitos semelhantes. Buckhardt. 21. forneceu a estratégia para a nova crise provocada pela guerra de 1914-18. 135. quase só entre os pensadores não-socialistas de sua geração. Nem todas eram marxistas. outras ainda de Lassalle. op. de 1791 e 1792 . Reviveu o espírito revolucionário que estivera fraquejando desde 1849. Halévy. (edição brasileira de Zahar Editores. a partir de 1905. Sorel pregou a inevitabilidade da guerra de classes e a necessidade de que a revolução proletária trouxesse uma sociedade sem classes. N. que finalmente emergiu como grande antagonista do liberalismo. 111. Na França. cuja obra Réflexions sur la violence. em certos aspectos.e corroborou sua conclusão de que uma nova revolução só seria viável "na senda de uma nova crise". algumas derivavam de Bakunin. digamos. o termo do "interlúdio no grande drama" que o historiador suíço Burckhardt. Londres.19 Será um exagero afirmar. As razões por que foi o leninismo. que passara o tempo de remodelação da sociedade "mediante um simples ataque de surpresa" – pela estratégia.. pág 27 (onde langer Katzenjammer foi traduzido por "longo interregno de entulho"). pág. 1926). E. 20 E. Significaram o fim do que Marx denominou o "longo mal-estar" que se seguiu à revolução burguesa. no plano das idéias. De Leo Gilson Ribeiro. 1961. 13. o desafio ao liberalismo. O que praticamente ninguém negaria é que isso nunca teria ocorrido sem a "poderosa e extraordinária personalidade do próprio Lênin".18 O bolchevismo..). sentia-se seguro contra os perigos de uma ou outra espécie de explosão revolucionária". são muitas e têm sido largamente discutidas. 19. previra sombriamente em 1871. independentemente de Lênin. do T. foi apenas um de uma série de movimentos revolucionários que prenunciaram a nova era. A derrota da Comuna de Paris. como Halévy. 1930). de fato. Todavia. como Lênin. com o título Reflexões Sobre a História. Foi proeza de Lênin fazê-lo baixar à terra. nesse mesmo período. de Lênin. advogou a "ação direta" sob a liderança de uma "audaciosa minoria" e o uso da violência para destruir o Estado burguês. o rumo foi indicado por Georges Sorel. a última e talvez a maior de inúmeras revoltas de trabalhadores parisienses. aproximadamente. já pairava no ar.lucionário de caráter universal.

na Rússia. Ninguém. Lenin and the Russian Revolution (Londres. XI. tal como foi preconizada por Stalin. existe. 36. "em sua luta pelo poder. o bolchevismo. 22 23 . quando chegou o momento. tal como por Lênin foi moldado. Roots of Revolution (Londres. Tsereteli afirmou não haver um partido na Rússia que se atrevesse a assumir a autoridade exclusiva: "Oh. mesmo à custa de fragmentar seu partido. designando-o como "individualismo intelectual burguês". foi uma reação às condições específicas existentes na Rússia czarista.25 Este fato explica por que o socialismo russo divergiu do ocidental e por que foi na forma leninista do marxismo que o desafio revolucionário à ideologia liberal acabou por se implantar. op. Na Rússia. no final do século XIX. A doutrina de "socialismo segundo cada país". Como ele escreveu em 1904. que o habilitaram a forjar um instrumento capaz de receber o poder. um reflexo de sua férrea determinação de levar a revolução da teoria à prática. 26 Cf. sua inquebrantável recusa de acomodação. cit. Hill. XIII. 12. depois de 1924. mas. sobretudo.24 A ênfase posta por Lênin na organização e disciplina foi. em junho de 1917. também. pág. não havia lugar para o marxismo evolucionário e revisionista que estava ganhando terreno no Ocidente. como marxismo russo é não compreender a envergadura nem o impacto do gênio revolucionário de Lênin. nas condições modernas com todas as cartas de trunfo nas mãos do governo. 49. op. Ele quis a revolução na Rússia e trabalhou para ela. teria dado a famosa resposta quando.revolucionário de Lênin foi um fator primordial que não é possível deixar de lado. onde o governo dificilmente tolerava o liberalismo de Miliukov e Struve. 1960). não Christopher Hill. o que por vezes se faz. 225.. cit. 24 Carr. representou "a organização e disciplina proletárias". pessoalmente. 25 Seton-Watson. paralisavam sua capacidade de ação. pág.. o marxismo recebido do Ocidente fundiu-se com a tradição revolucionária russa de Chernyshevsky. sim. XXIV. em parte. em parte. sua clara percepção do essencial.23 Censurou energicamente o marxismo dos mencheviques. 1947). Ventury. ainda em parte. em qualquer momento. XXIX.22 Foi devido a Lênin. já não estava mais em questão (como Engels sublinhara) a conquista do poder "por simples ataque de surpresa". que o socialismo russo foi arrancado ao labirinto de reflexões especulativas que. F. págs.. sua indomável vontade revolucionária. pág. Em Lênin. para assumir todo o poder". senão Lênin. Tkachev e Nechaev. 26 Mas descrever o bolchevismo. Foi sua insistência na integridade doutrinária. o proletariado não dispõe de outra arma senão a organização". mas jamais concebeu a revolução russa isolada nem o marxismo limitado à Rússia. um resultado de sua compreensão de que. por realçarem os aspectos científicos e evolucionários dos ensinamentos de Marx. op. "a natureza do sistema político e social impeliu quase todos os russos educados para a oposição". Nosso partido está preparado. cit. e. pág.

págs. quando Stalin. 217.. como viria a ser formulado. O conceito de "coexistência pacífica". que ele estava errado — nunca deixou de ser um discípulo de Lênin. com efeito. Carew Hunt. estavam comprometidos. principiaram a se concentrar. 1961). confrontado pelo crescente poderio da Alemanha. "não pode viver lado a lado com uma vitoriosa revolução soviética" — "um ou outra sairá finalmente vencedor". e as interpretações divergentes por eles dadas as palavras de Lênin. em face das circunstâncias. mas promover a mudança em todos eles. "O imperialismo mundial". mas com a classe a que pertenciam. talvez. Em sua análise da situação — uma análise que os acontecimentos provaram estar errada — o efeito da grande guerra era criar uma tensão intolerável nas potências industriais nela empenhadas. e. flagrantemente transgredido. I. cit. evidentemente. O objetivo não era mudar a ordem social de país em país. Deutscher. na tarefa imediata de garantir a segurança da União Soviética num mundo hostil. 29 Cf.fazia parte dos cânones leninistas. pág.. desprezado muitas vezes e. Lênin e Stalin. a intenção original de Lênin nunca foi repudiada. pertencia ainda ao futuro. Este princípio foi. Através de todas as manobras políticas que se seguiram. Quanto mais tempo Stalin se mantinha no poder. 281-93. para dissolver o movimento. 262. A democracia social tropeçara no rochedo do nacionalismo.29 Sobre o "socialismo segundo cada país". cit. por Khruschev. o de Lênin — do qual Stalin compartilhou . depois dele. estava convencido de que os sociais-democratas russos. ou abandonados. segundo se ajustavam ou não à política soviética e quase toda a geração de "velhos revolucionários" foi convocada a Moscou e liquidada. pelo contrário. decidiu em 1935 ordenar um "alto" na revolução em favor da "frente popular". sem abandonar a doutrina da revolução mundial. 27 .era um marxismo postulado na revolução mundial e no ataque incessante ao sistema capitalista. Os movimentos revolucionários em países estrangeiros eram preparados. disse Lênin em 1919. Os comunistas. que destruíra a Segunda Internacional. No princípio de 1919. as controvérsias doutrinárias entre Stalin e Trotsky. em fase posterior. qualquer que fosse a nacionalidade deles não com a nação. por necessidade. e poucos fatos terão feito mais. algumas. tanto mais a política comunista parecia ocupar um segundo lugar nos interesses nacionais russos. op. Zinoviev confiantemente previu que "dentro de um ano toda a Europa será comunista". cf. pág. vindo da Suíça. precipitariam a revolução social no Ocidente e levantes anticoloniais no Oriente.28 Só quando os acontecimentos falsificaram essa predição é que a posição comunista começou a mudar e. tendo como único resultado possível a revolução proletária. primeiro. Sejam quais forem as outras interpretações possíveis do marxismo. op. 28 Plamenatz.27 Quando Lênin chegou a Petrogrado em abril de 1917. Stalin (Londres. Mas embora Stalin tenha considerado seu primeiro dever preservar e fortalecer a União Soviética — e seria difícil argumentar. ao conquistarem o poder em nome dos trabalhadores. não poderia ser repudiada sem traição aos conceitos básicos do marxismo-leninismo.

quando em 1917 foi transformado de doutrina que era em força política. refletiu uma nova situação mundial. J. pela primeira vez depois do esfriamento do ardor revolucionário suscitado pela Revolução Francesa. em dezembro de 1917. rapidamente. em 1917. e logo no início da revolução bolchevista. op. Era uma ideologia mundial. pela primeira vez na História. À emergência de um novo mundo correspondia o aparecimento de uma nova ideologia. em revolução mundial. págs. o liberalismo. escrito em 1923. Trotsky declarou. Escassamente menos importante foi o fato de que. com sua perspicácia habitual. ele e Stalin publicaram um apelo aos povos do Oriente para que derrubassem os "salteadores e escravizadores" imperialistas. constituem a vasta maioria da humanidade" e.32 Foi um passo significativo numa nova direção. proclamou ele que "o resultado da luta depende. que a "guerra transformara toda a Europa num barril de pólvora da revolução social". e. Stalin escreveu: "Quem quiser a vitória do socialismo não Mayer. nesse mesmo período. Lênin sabia perfeitamente quão importantes eram as "centenas de milhões de asiáticos" que estavam a ponto de se converterem em "participantes ativos nas decisões pertinentes ao destino do mundo". 17. Índia.31 Essas predições subestimaram o poder de resistência da antiga ordem. estava-se na presença de uma ideologia que ultrapassara todas as fronteiras geográficas. exceto sobre as ruínas da sociedade burguesa".4 O primeiro resultado do bolchevismo. na prática. os homens estavam divididos por um princípio revolucionário ativo. Soviet Documents on Foreign Policy. I (Londres. e na Alemanha os espartacistas predisseram que "não haveria paz mundial.. etc. Degras. vol. confiantemente. mas continuou sendo verdade que. Lênin. para a Ásia. 24. à medida que a guerra se arrastava. em último recurso. Lênin já voltara suas atenções. não com esperança mas com maus presságios — homens de índole e temperamento muito diferentes. Czernin e Stresemann tinham compreendido já que o que principiara como guerra européia se estava convertendo. já em dezembro de 1914 percebera que a guerra européia poderia perfeitamente redundar "no início de uma nova época". 32 Cf. consistiu em lançar sua marca revolucionária num mundo de onde. Ibid. do fato de que a Rússia. Num de seus últimos artigos. Abstraindo das características que a teoria possa ter tido. como em inúmeros outros aspectos. O bolchevismo ignorou semelhantes limites de espaço e raça. 32. a maioria dos homens acreditava que o espectro da revolução mundial fora banido. à mesma conclusão chegaram — embora. com notável presciência. pág. Mesmo antes da eclosão da guerra de 1914. cit.30 O curso dos acontecimentos na Rússia confirmara esse diagnóstico. muito mais do que as "idéias de 1789". à Europa e às terras colonizadas por europeus. 30 31 . Em 1917. Nisso. pág. 31. estava ainda limitado. nessa altura. Rathenau. a China. de novo. até 1914. 1951)..

de que "a fase capitalista de desenvolvimento" era "inevitável para as nacionalidades atrasadas". que influiu nas diferenças básicas das reações ao marxismo russo na Europa. cit. 283.37 Poucos discutirão a veracidade dessa sentença. em termos quase totalmente negativos. 165. que Stalin esperou ter como aliados incondicionais da União Soviética. Já em 1920 Lênin realçara que a "organização soviética" era uma simples idéia que podia "ser aplicada não só ao proletariado. com a aceitação da marca russa de comunismo". Communism and Nationalism in the Middle East (Londres. de uma reserva da burguesia imperialista.. pág. talvez.33 Era necessário. mas também ao camponês e às relações feudais e semifeudais". 209. por outra parte.. mais pertinentes do que esse.. evidentemente. com a coletivização da agricultura e o primeiro plano qüinqüenal — mostraram que os trabalhadores do Ocidente. pág. 127. 342. Laqueur. Como um comentarista. mais. acrescentou.35 Olhando agora em retrospecto.36 Quando nos dispomos a investigar o impacto da teoria comunista e do exemplo soviético. escrevendo em 1954. Deutscher. Disse um observador que a Ásia tinha "menos a perder e. pág. op. cit. portanto. o período que começou com a subida de Stalin ao poder supremo. 34 Seton-Watson. 33 . os últimos vinte cinco anos — ou seja. op. 36 Plamenatz. disse Lênin. tanto menos gostavam dela". na Ásia e na África. podem ter servido a uma finalidade tática — era o período em que o bolchevismo sofrerá derrotas na Alemanha e na Hungria e fora rechaçado na Polônia — mas eram uma indicação significativa das implicações universais das doutrinas bolchevistas. 270. pág. op. "quanto mais a conheciam. pelo menos. podia articular seu progresso. contentemo-nos se um ou dois dos pontos mais salientes forem brevemente assinalados. exprimiu o caso. existem poucos comentários de Lênin que tenham sido. numa reserva do proletariado revolucionário".. não tinham sido muito atraídos por ela. por uma parte. é necessário. no Ocidente. 1957). do que qualquer outro fator. cit. observar primeiro a Europa e depois a Ásia e o mundo subdesenvolvido. 5 É habitual descrever o impacto da teoria comunista e do exemplo soviético. pág. como apreciação genérica. na época em que foram proferidas.34 Essas declarações.. Não devemos partir do princípio. talvez. Não será preciso dizer que um tema tão vasto e discutido não pode ser analisado com todo o detalhe que merece. W. op. cit. "converter os países dependentes e coloniais. 37 Ibid. pág. contrariamente à opinião dos mencheviques. mais a ganhar do que a Europa. Z. 35 Hill.deve esquecer o Oriente". que impedia outros povos "atrasados" de seguirem esse exemplo? Foi essa promessa de rápido avanço econômico e social. atingindo o socialismo sem ter de passar por todas as fases do capitalismo. Se a Rússia.

Na maior parte. pág.Mas também é fácil. em torno do perímetro ocidental da União Soviética. Seymour. vol. 64. Lloyd George. 1938).. vol. I. pág. Baker. Field-Marshal Sir Henry Wilson. D.. C.38 Especialmente depois do levante comunista na Hungria. estava impregnado de temor do bolchevismo. Pág. Hungria e outros países da Europa oriental estavam condenados ao fracasso. 42 W. 1927). descobrir as razões por que os movimentos revolucionários na Alemanha. 405. e o famoso memorando de Lloyd George. 38 . Ray Stannard Baker. "sem estarem representados em Paris. disse Lloyd George aos estadistas ocidentais. Nem se deve subestimar seu impacto inicial.41 mas os planos de Lênin para transformar "a guerra imperialista" numa "guerra civil internacional" estavam longe de constituir um sonho sem sentido. II (Londres. II (Londres. sublinhou que os bolchevistas. 39 C. a possibilidade de que os comunistas obtivessem uma posição predominante exerceu uma assinalada influência no curso dos acontecimentos. mas os bolchevistas.. Houve certamente períodos em que o comunismo foi uma poderosa força política na Europa ocidental — na Alemanha. op. olhando em retrospecto. sendo o principal argumento para conceder termos contemporizadores à Alemanha. vol. subseqüentemente."39 "O imperialismo bolchevista não ameaça apenas os Estados situados nas fronteiras da Rússia". Não é difícil. pág. "mas ameaça toda a Ásia e está tão próximo da América quanto da França. págs. puderam parecer. o espectro de uma revolução que se propagasse a partir da Rússia dominou os espíritos e moldou as decisões dos estadistas ocidentais. antes de 1933. um cordon sanitaire com que esperavam conter o bolchevismo e imunizar a Europa central e ocidental. cuja importância era incalculável". cit. nosso perigo real não são os boches. Churchill. as probabilidades da revolução alastrar-se para o Ocidente não eram de maneira alguma desprezíveis. "Estamos sentados sobre um paiol aberto e. S. a partir de uma opinião genérica. 276. em 1919. 1928). ou na França e Itália. sucintamente: "Agora. The Truth about the Peace Treaties. do ponto de vista ocidental. vol. cit. S. simplificar um processo complexo. Áustria. e Winston Churchill tinha sólidas razões para argumentar que a política de intervenção propiciara. nessas épocas. IV (Londres. E. Woodrow Wilson and World Settlement. págs. exigindo positivas medidas sociais em cada país. 412. por exemplo. pág. depois de 1945 — e. Callwell. "uma pausa para respirar."40 Esses temores eram menos exagerados do que. que imobilizou os bolchevistas no momento crítico. V (Londres. escreveu o Coronel House.. 1953). vol. Não fosse a intervenção ocidental na Rússia. constituíam poderosos elementos. The World Crisis. vol. quando o Partido Comunista obteve mais de cinco milhões de votos em eleições.42 Os líderes ocidentais aproveitaram essa pausa para estabelecer. 1929). 404-16. 41 São enumerados por Seton-Watson. 53-68. I (Londres. um dos assistentes do Presidente Wilson na conferência da Paz. algum dia. uma centelha pode fazê-lo deflagrar". a todo o momento". e Sir Henry Wilson notou. e enquanto a Rússia estivesse inferiorizada pela R. 40 Lloyd George. de 25 de março de 1919. não encaravam ainda o comunismo como desafio interno. op. The Intimate Papers of Colonel House. 148.

em três fases bem definidas. para satisfação dos estadistas ocidentais.43 o contraste provocou uma tremenda impressão. mas de conteúdo mais positivo. L. 1962). foi quase totalmente negativa. funcionou bem até 1929. A reação ao impacto soviético divide-se.guerra civil e miséria econômica. Teve por base a compreensão de que. pois. no todo. era a incapacidade do capitalismo liberal para resistir ao desafio comunista. com o New Deal nos Estados Unidos — a terceira fase só atingiu pleno desenvolvimento depois da guerra de 1941-45. por meio do primeiro Plano Qüinqüenal.44 Embora seu início possa discernir-se mais cedo — por exemplo. mas um sistema econômico que funcionava. se o problema era dar combate ao marxismo. a qual sofrera uma grave crise de desemprego durante o período da Nova Política Econômica. foi também uma reação de medo. 274. com uma limitada importância prática. também. O fervor moral que tanto Mussolini como Hitler procuraram inspirar entre seus adeptos foi instigado como antídoto ao fervor do bolchevismo e muitos dos métodos bolchevistas foram invocados na tentativa para o gerar. as realizações russas pareciam demonstrar que o comunismo — quaisquer que fossem os requisitos cautelares que os economistas ortodoxos pudessem antepor — não era um credo revolucionário. pág. pela depressão de 1929. Antes de 1929. de elementos influentes na sociedade capitalista não-fascista. apenas. enquanto. Dentro das circunstâncias da época. como para muitos outros. O que as classes trabalhadoras no ocidente observavam era que a União Soviética. essa reação negativa estava à altura da situação. 43 44 . The Making of Modern Russia (Londres. sobretudo propiciCf. a economia capitalista ocidental funcionasse com uma razoável dose de eficiência. A primeira. Suas expressões características foram o fascismo e o nacional-socialismo. se não a simpatia. bastante parecida à reação de Metternich ante a Revolução Francesa. enquanto a produção industrial nos principais países capitalistas caíra abaixo do nível de 1913. seu instrumento foi a política externa e. Iniciado o desastre econômico de 1929. precisamente. o nacional-socialismo pouco mais fora do que um grupo fragmentado de extrema direita. Essa foi a fisionomia que o fascismo mostrou ao mundo depois de 1929 e lhe assegurou a tolerância. enquanto o mecanismo capitalista estalava rangendo nas juntas. Mesmo que fosse meramente uma coincidência o fato dos líderes soviéticos parecer estarem. "dominando seu destino no mesmo instante. de 1929 a 1941. seria necessário demonstrar que a sociedade liberal podia ombrear com as realizações dele. a pequena-burguesia — que se sentiam mais diretamente ameaçados. Para as vítimas da Grande Depressão. de 1918 a 1929. A segunda fase. estava enfrentando agora uma crise de mão-de-obra — e isso numa época em que o desemprego no Ocidente atingira proporções assustadoras — e que. Kochan. em que o resto do mundo caía vitimado pela Grande Depressão". fomentado em ambos. a da Rússia Soviética mostrava um aumento próximo a quatro vezes no mesmo período. não surpreende que se desse maior atenção às proezas soviéticas do que ao custo delas. cujo pressuposto básico. e em grande escala. O nacional-socialismo dedicou-se a reunir os elementos da sociedade capitalista — sobretudo. Tentou conter o bolchevismo isolando-o. essas condições deixaram de ser sustentáveis.

ao iniciar-se o século XX. 1963). os quais tinham atingido o auge na crise de 1929. Não é este o lugar para se fazer uma análise do caráter dessa nova orientação social e econômica. Como disse E. "se todos somos agora planejadores. a partir de meados do século XIX. em comparação com 1914. 512. Political Messianiam. 44. não foi o único fato a provocar mudanças radicais na estrutura da sociedade ocidental. em sua maior parte. foi descrito como ponto para a Ásia. o desemprego — tornou imperativo que os governos não-comunistas se voltassem também para o planejamento. N. 48 Ibid. ou da "sociedade abastada" a que. A demonstração soviética de que existia uma resposta aos problemas endêmicos do capitalismo. outrossim. 20. consciente ou inconsciente.45 — bem. 47 Cf. aquele deu origem. verificamos que a incomunistas é muito mais direta. pelo contrário. definidas em passado muito recente. isso não resultou do fato das "antigas tradições liberais da Europa" terem reatado "seu desenvolvimento evolucionário". É possível argumentar que a transição da democracia liberal e do capitalismo de laissez-faire para o Estado do bem-estar social teria de qualquer modo ocorrido sem o impacto do exemplo soviético e o medo de contágio comunista. Como Trotsky assinalou. o conceito geral de uma economia planificada deve muito ao exemplo soviético. Carr. 1946). isso é em grande parte o resultado. De um modo particular. pág. em comparação com o que fora anos antes 46 — sendo. E. à crise econômica de 1929 e à aceitação da economia keynesiana. do impacto da prática e realização soviéticas". H. pág. O Qüinqüenal na União Soviética.48 6 Quando passamos da Europa fluência do exemplo e teoria lançamento do primeiro Plano 1928. The Soviet Impact on the Western World (Londres.47 e seu êxito em eliminar a pior maldição do capitalismo — ou seja. dos méritos ou deméritos do "Estado do bem-estar social". 45 46 . pág. H. Se é certo que o comunismo "não estava destinado a ganhar preponderância" na Europa ocidental. seria mais correto dizer que. pág.. que teria surgido em qualquer caso. uma conseqüência da adoção deliberada de novas diretrizes da política social e econômica. no consenso geral. "Liberalism in Nineteenth-Century Europe".ando segurança e mais alto nível de vida aos trabalhadores. é possível sustentar que o Estado do bem-estar social foi uma reação. o liberalismo era uma "força exausta". Cf. Medlicott (Londres. Carr. em decisivo no assalto à posição esta- Talmon. mas certamente foi um dos mais importantes. em From Metternich to Hitler. W. 44. o sistema soviético foi o primeiro que levou "uma finalidade e um plano à própria base da sociedade". Irene Collins. Mas tais argumentos são algo difíceis de manter.

a mais objetiva das descrições sucintas é a de G.53 49 50 T. 1951). pág. Dois fatores principais influíram no vigor relativo do impacto comunista na Ásia. La révolte de L'Ásie (Paris.. . suficientemente extensos e estáveis. The Nationalities Problem and Soviet Administration (Londres. Wheeler. nas repúblicas asiáticas — no Casaquistão. pág. 253-380. das suas origens e primeiras fases. não foi seguida coerentemente. depois da revolução. seja por ambos. suas existências são mais confortáveis. por comparação com outras nações européias — ingleses. Pág. O que a União Soviética demonstrou foi que o problema de nacionalidades era "solúvel em um plano de igualdade econômica". como credo. franceses. o marxismo "adaptava-se admiravelmente.51 A esclarecida política das nacionalidades. Mas seu impacto imediato foi considerável. op. H. os interesses antagônicos tinham fundamentos muito mais restritos e estavam desacreditados. cit. suas liberdades mais harmoniosas e atraentes do que tudo o que se possa imaginar sob um regime comunista. 10. op. anunciada nos primeiros tempos da revolução. em muitos aspectos. 52 Cf. em Carr. Reflections on the Revolution of our Time (Londres. Wheeler. será difícil convencer as classes trabalhadoras do Ocidente de que têm mais a ganhar do que a perder com o comunismo. Schlesinger. teria fatalmente de enfrentar obstáculos quando fosse traduzida na prática. 51 A questão da "política de nacionalidades" soviética está cercada de controvérsias. 339. aqueles que esperavam ganhar alguma coisa do comunismo eram muito mais numerosos. 1962). Mas demonstrou uma flexibilidade invulgar na maneira de fazer-lhes frente. seja por oligarquias autoritárias ou como aliados dos interesses coloniais. Na Ásia e na África esses obstáculos não existem ou. pág. K. 209. ou no Usbequistão —. suscetíveis de resistirem à pressão revolucionária. Um foi que.belecida das potências européias na Ásia. Em seu todo.49 Certamente a resistência ao comunismo nunca foi tão forte na Ásia quanto na Europa e no Ocidente. 1943). 1951). vol. por exemplo. o nível de vida dessas classes é superior. em certa medida. manteve-se a mesma "perspicácia. 56. portugueses. Enquanto o "Estado do bem-estar social" continuar funcionando eficientemente.50 O outro foi que. também. Racial Problems in Soviet Muslim Asia (Londres. cit. e R. Há um relato completo.. 1956). holandeses. J. mas em certos pontos incompatível com os princípios críticos. págs. 53 Cf. às necessidades" dos povos subdesenvolvidos. a Rússia Soviética lograra. belgas —. A intervenção ocidental derrubara a barreira das tradicionais estruturas de classes. Para começar. pelo menos. British and Soviet Colonial Systems (Londres. mas não conseguira estabelecer novos interesses. The Bolshevik Revolution. Stahl. Laski. a União Soviética tivesse evitado os problemas de nacionalismo e das reações anticoloniais com que as outras potências européias tiveram de se enfrentar. a invulgar compreensão russa dos problemas e atitudes asiáticos já era amplamente comentada. Plamenatz. publicou uma série de documentos tratando dos acontecimentos subseqüentes. em qualquer caso. evitar o estigma de colonialista. não existem numa escala comparável. Isso não quer dizer que.52 Mesmo antes da revolução de 1917. I. cf. Menbe. originalidade e imaginação".

E se o assustador custo humano de planejamento. por exemplo. "O capitalismo". The Soviet Economy (Londres. 54 55 . 284. 60 Laqueur. The Great Contest. 57 Cf. onde pode mais do que manter seu predomínio — que o Ocidente notou ser sumamente difícil igualar o avanço soviético."55 Apesar dos "enormes erros de cálculo" que ocorreram tanto na planificação soviética como na chinesa. Como Isaac Deutscher sublinhou. Kwame Nkrumah. 338. dar excessiva ênfase aos aspectos econômicos da influência soviética na Ásia. que uma "economia livre" podia conseguir tanto e mais. Nove. medidas drásticas em larga escala acarretariam danos irremediáveis. aos olhos de asiáticos e africanos.59 foi nos domínios da política social e da educação — não em riqueza e produtividade. Principles. for apontado. Russia and the West (Londres. "é um sistema excessivamente complicado para uma nação recentemente independente. 59 Cf. cit. pág."Os comunistas". 1962).. op. 1960). foi afirmado. nas condições afroasiáticas. Harris. freqüentemente. I. R. 454. está quase certamente votado ao próprio malogro"." Até certo ponto. é que oferece aos povos subdesenvolvidos um manual e um plano preestabelecido de desenvolvimento. pág. 56 Cf. este juízo é bastante sólido. também — o custo humano de planejamento em larga escala não será por certo maior do que o custo de não se planificar de maneira alguma. Um dos atrativos mais destacados do comunismo. "com o tempo". pág. 58 Cf. Independence and After. associado com a "livre iniciativa. a resposta é que — nas condições verificadas na maior parte da Ásia e. pág. cit.58 mas tempo era precisamente o que faltava. op. Revolution in Underveloped Countries (Londres. 294. na escala soviética ou chinesa. no comunismo. Higgins. o que o Ocidente fez em muitos séculos tinha de ser feito na Ásia em duas ou três gerações. provavelmente. Problems and Policies (Nova York. 78. em primeiro lugar. Para as economias sofisticadas do Ocidente. se a independência arduamente ganha tem de ser preservada. foram de muito maior importância" do que os econômicos. 1961). H. Argumenta-se.56 a maioria dos líderes nos países subdesenvolvidos endossaria aquela opinião de Nkrumah. estão os felás do Egito ou do Iraque e os trabalhadores dos arrozais da Birmânia — as restrições e coações conseqüentes eram um pequeno preço a pagar. 57 Se a massa do povo tem de ser erguida da lama. pág. Seria um erro. mas na Ásia eram capazes de propiciar benefícios imediatos a milhões de pessoas. E Walter Laqueur insistiu em afirmar que "os elementos éticos e religiosos. "o critério gradualista". que os Plamenatz. O impacto da União Soviética foi devido.60 Dificilmente poderia escapar à atenção dos líderes asiáticos e africanos. 45. neste caso. 1959). 1959). VII. B. Economic Development. Concordariam que. à prova prática por ela fornecida de que isso era exeqüível. na América Latina e na África. disse uma vez Nkrumah. por exemplo. Autobiography (Edimburgo.54 "têm uma grande virtude na Ásia: não receiam a ação simples e drástica em escala gigantesca. pág. contudo. pág. Deutscher. A.. Para povos que pouco conheceram das tradicionais liberdades ocidentais — e.

tal como foi usada por Aristóteles: isto é. pág. democracia para as classes proprietárias"." 62 Cf. os realizadores do novo país e dos novos homens. pág. em tudo isso. Para eles. em vez de corpos estranhos em suas antigas comunidades.russos fizeram mais num quarto de século pela educação dos povos que habitam no círculo polar ártico e no Cáucaso. na prática. tecnologistas e gerentes que — em associação com oficiais do exército. quanto mais homogênea a nova estrutura crescer. ajustar-se melhor às condições asiáticas do que qualquer alternativa praticável. idealizar a sociedade soviética nem minimizar sua crueldade para com as minorias. cit. op. Além disso. como antítese de aristocracia ou plutocracia. oriundos de semelhantes camadas sociais — surgiam como elemento dominante nas sociedades asiática e africana. em vez de protegerem e salvaguardarem os direitos individuais. e o que poderiam ter de abandonar como indivíduos — na sociedade asiática não seria muito. 14. Mende. não podemos pressupor que as instituições democráticas do tipo ocidental sejam necessariamente eficientes sob as condições asiáticas. pág. o comunismo oferecia perspectivas de liderança e realização autêntica. The Soviet Impact in the Western World.. a muitos dos interessados. usualmente — ganhariam em posição profissional. 61 . ou de predomínio de qualquer outro e estreito interesse de classe. tanto mais elevado será o lugar deles na pirâmide de funções que eles próprios têm de organizar.64 Não será preciso. ou sua ineficiência e desperdícios. 93.. imediatamente acessível — de garantir a democracia na acepção original da palavra. do que os ingleses fizeram na Índia numa ocupação de quase duzentos anos. os construtores. Harris (op. estarão abundantemente equipados com todas as facilidades que possam promover seu trabalho. Carr. Não se segue que deva ser o sistema sovié- Como foi expresso por Laqueur (ibid. a ditadura pode ser o único método — ou. 63 Cf.62 Por outra parte. nem sequer possuíam uma língua escrita.63 Em países onde o contraste entre riqueza e pobreza é ainda extremo. Estamos simplesmente interessados em descrever uma situação histórica. cientistas. cit. pág. e faz parte dessa situação que um sistema derivado de Marx e Lênin parecia. op. 7. 11.. págs. médicos. e onde as instituições parlamentares podem ser facilmente manobradas nos interesses das classes ricas.61 As formas comunistas de organização política têm afinidades acentuadas com o sistema tradicional asiático de um Estado autoritário que é a encarnação da lei absoluta. Mende. os quais em 1917. "onde não existem fortes barreiras tradicionais ao progresso da democracia". exercendo seu poder na base do controle de propriedade. está apta a condizer com a descrição feita por Stalin da democracia nos países capitalistas: "democracia para os fortes. Também seria disparate subestimar a atração política do comunismo entre os advogados. Por outro lado. os mestres. 11) realça a diferença entre o autoritarismo da Ásia oriental e a situação na Ásia meridional. A democracia asiática. as liberdades civis e políticas do tipo ocidental têm menos peso do que podemos imaginar em sociedades onde sempre foi encarado como natural que os governos imponham deveres e obrigações. serão os centros em redor dos quais uma nova comunidade se cristalizará. cit. 273): "Eles estão destinados a serem os patrões. pelo menos. 64 Cf. o único método prático.

Mais importante. 1937). que parecia constituir a marca do critério ocidental. e afetou principalmente a Ásia. ao passo que o conteúdo da democracia ocidental era predominantemente político. a evidência indicaria que a adoção de um sistema segundo o modelo russo deixou de ser muito provável. visto que os acordos de 1953 e 1954 apenas reconheceram um status quo já existente antes da eclosão da guerra. Primeiro. com um lugar para todos no sistema. em 1949. Quando Lênin disse que "a política começa onde estão as massas" — "não onde há milhares. aí é onde começa a política séria"66 —. cf. que atraía especialmente as classes médias. Lênin.65 Isso não significa. porém.tico ou russo. assim. a maioria dos movimentos nacionalistas na África tiveram um forte elemento marxista em suas origens. Com exceção da Índia. seria um erro medir a força do marxismo como ideologia pelo êxito ou fracasso dos partidos comunistas asiáticos. a longo prazo. Suas soluções radicais. mais nenhum Partido Comunista ganhou o controle de qualquer país na Ásia. elevaram o comunismo. ao invés da democracia ocidental. mas foi na Ásia. no dia 7 de maio de 1918. Assim. não da Ásia. 295 65 . em face dos problemas asiáticos. vol. mas onde há milhões. a soviética estava em condições de comunicar-se com todas as camadas sociais e oferecer-lhes um novo sentido de solidariedade. O comunismo oferecia um novo princípio de ordem a sociedades que a intervenção ocidental lançara em efervescência. onde o nacionalismo fizera substanciais progressos antes da revolução russa de 1917. I. rejeitaram o comunismo como sistema político. com seus numerosos milhões. e que afetou principalmente a Europa. 7 Basta comparar a situação mundial em 1900 com a de sessenta A Coréia do Norte e o Vietname do Norte não constituem exceções. foi o fato de que o papel missionário desempenhado. estava falando da Rússia. seu conteúdo era primordialmente social e. tal como interpretado por Lênin ou Mao Tsetung. que o marxismo. depois da Primeira Guerra Mundial. E assim aconteceu por dois motivos. na África ou na América Latina. sob a inspiração do Presidente Wilson. Selected Works. Segundo. sua prontidão em desfazer meandros. ligado ao respeito paralisante pelos interesses entrincheirados. foi preenchido. para fins asiáticos. 66 A afirmação de Lênin foi proferida no decurso do Sétimo Congresso do Partido Comunista Russo. e a força ideológica do marxismo continuou sendo muita para líderes que. correspondia às aspirações despertadas em toda a Ásia de uma reforma social. Depois do estabelecimento da República Popular da China. que sua sentença produziu frutos. sua crença dinâmica em si mesmo e em sua missão. V. pág. acima do cauteloso pragmatismo. como Nehru. depois da Segunda Guerra Mundial. com efeito. pela democracia soviética. pela democracia americana. sobretudo. tenha perdido seu atrativo intelectual. III (Londres.

A. no intervalo. J. com certo grau de planejamento no cimo. Sob o governo de Khruschev. Como Schumpeter escreveu. o atrativo de suas doutrinas continua sendo poderoso entre os povos subdesenvolvidos. Cf. para vermos de que maneira profunda. os elementos conservadores consolidaram-se mais e o fervor revolucionário das primeiras gerações bolchevistas tornou-se coisa do passado. A crença nas leis inexoráveis da economia capitalista foi quebrada e até no Ocidente o conceito de economia "livre" deu lugar ao tipo predominante de economia "mista". Nessas circunstâncias. o impacto da nova ideologia alterara o equilíbrio existente. Enquanto. somos tentados a argumentar que o conflito ideológico. talvez não muito distante. no princípio do século. Estes fatos eram significativos. no final da sexta década do século XX. Um terço dos habitantes do globo encontrava-se fora da sociedade capitalista e integrado num sistema rival. em gozar os benefícios da abundância do que em prosseguir numa cruzada ideológica. talvez seja esse o caso. Não é apenas o fato de que a sociedade ocidental se emancipou dos extremos capitalistas do laissez-faire. tão poderoso entre 1917 e 1956. pág. já terminou e a transição de um estado de escassez para um estado de abundância está gerando significativos progressos sociais e políticos. que "um dia". por essa razão. a massa do povo estava mais interessada. e a produção deixara de estar regulada pelo motivo-lucro. "confundir a questão russa com a socialista" é "ter uma concepção errada da situação social no mundo". aproximava-se de seu término. Schumpeter. op. Mas importa não exagerar nem interpretar erroneamente o significado de tais fatos. é que a sociedade soviética também ingressou num período de rápidas transformações. parecia progredir sem dificuldades. onde o completo planejamento econômico e social era a regra. 405 67 68 . Foi esta a conseqüência mais vasta da influência marxista-leninista. 1961). na União Soviética. os dois sistemas "se encontrem a meio caminho um do outro". semelhante em muitos aspectos à camada diretiva que emergiu no Ocidente depois do desenvolvimento das indústrias ter retirado a propriedade e controle ativo das mãos do empresário e tê-los transferido para um corpo anônimo e amorfo de acionistas.68 Mesmo que a União Soviética esteja evoluindo para converter-se numa sociedade conservadora . radicada num sistema econômico de laissez-faire. a ordem democrática liberal. característica do período de transição. a um crescente "setor público" e uma dose de regulamentação governamental que seria inconcebível sessenta anos antes. Capitalism. Nove. em 1960 o mundo encontrava-se dividido. Tal como no Ocidente.67 No que respeita à União Soviética. gastou suas forças. A fase de "primitiva acumulação socialista". na maior parte do mundo os problemas debatidos por Marx e Lênin continuam por solucionar e. Já durante o governo de Stalin nascera uma tecnocracia administrativa.tanto quanto a França se tornou uma sociedade conservadora depois de terem sido alcançadas as finalidades básicas da Revolução Francesa — . Cf. cit. Indicavam — em conjunção com acontecimentos tais como o impasse termonuclear — que a "guerra fria".anos depois. Socialism and Democracy (Londres.

1936). Ao avaliar a nova situação. o aparecimento do "comunismo nacional". a aceitação da possibilidade de "estradas separadas para o socialismo".. págs. e enquanto a falsidade dessa crença não for demonstrada. os acontecimentos. em suas diferentes formas. Galbraith. O comunismo soviético ainda é. sob o governo de Stalin. por exemplo. K. Isso estava de acordo com as próprias convicções de Lênin. evidentemente. 140-4. De um lado. o impacto do marxismo como força mundial terá poucas probabilidades de diminuir. mas o impacto do marxismo. foram duplos.. cujo ímpeto precedeu a revolução russa. Nehru. na medida em que for procurada. do qual descende toda uma categoria de literatura. é importante distinguir entre países industrializados e países subdesenvolvidos. onde mais declarações de um caráter semelhante são reunidas. o "subdesenvolvimento de alto nível" e a "parcial estagnação tecnológica" possam dar lugar a apreensões. é mais amplo. 57. cf. para o bem público". 1958). Os efeitos da experiência russa. em escala mundial. o conflito ideológico. evidentemente. declarou que. 71 A análise clássica desses problemas é. op.Depois do Vigésimo Congresso do Partido Soviético. entrou em nova fase. o marxismo e o leninismo deixaram de ter a aparência. "só existe uma solução: o estabelecimento de uma ordem socialista. aos líderes. An Autobiography (Londres. demonstraram a capacidade da sociedade capitalista para se ajustar às condições do mundo moderno. Narasimha Char. pág. Também não se limita a países situados dentro do bloco comunista. a atração do marxismo-leninismo foi intensificada pela demonstração. repugnou a maneira como essa transformação foi manobrada na Rússia. Seu advento como uma das ideologias predominantes de uma nova era foi o reflexo da convicção de que o capitalismo liberal era incapaz de resolver os problemas da sociedade moderna. a ideologia marxista conservará sua força. também K T. Como já foi sublinhado. The Quintessence of Nehru (Londres. em 1956. Com o advento da China comunista. 523. The Affluent Society (Londres. pág. Schumpeter. a obra de J. Schumpeter também se mostrou cético sobre a capacidade do neocapita69 . Em qualquer caso. Lênin sempre realçou o caráter universal do marxismo. cit. a tal respeito. 1961). com uma produção e distribuição controladas da riqueza. há tanto associado com a luta pelo poder entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus associados. de doutrinas especificamente russas. obtida — "a fênix socialista é capaz de não ressuscitar de suas próprias cinzas"70 . para a índia. Embora a inflação persistente. No que respeita aos países industrializados do Ocidente. e o fato de que. uma poderosa força no mundo.. mais variado e menos monolítico do que nos tempos de Stalin. a partir de 1945. por outro lado. estivera intimamente relacionado com a União Soviética — e com a realização dos objetivos soviéticos da Rússia — não passava de uma conseqüência de circunstâncias históricas que já não procediam agora. sequer. de sua capacidade para transformar as condições de vida de uma sociedade atrasada. 70 Cf.mas. a experiência e o exemplo russos não contam para o atrativo emocional e intelectual do marxismo.71 poucas pes- Jawaharlal Nehru. nos trinta ou quarenta anos depois de 1917.69 Tal solução não será. necessariamente. na União Soviética. embora suas formas possam mudar. em muitos países afro-asiáticos.

antes. Não se trata de que. tal como interpretado por Lênin e Mao Tse-tung. mais importante ainda. 164-5. o marxismo começa a modificar ou a rejeitar suas características especificamente russas. 2. sob condições adversas na Ásia. como um todo. antes de 1939. os argumentos de Myrdal foram retomados e desenvolvidos. acentuar.soas poderão negar que a economia keynesiana. quando passamos ao mundo subdesenvolvido. Myrdal. tal como se desenvolveu entre 1928 e 1953. Porém. a coesão global e a atração emocional que a situação desses povos solicitava. a manutenção do pleno emprego.73 Não seria realista supor que exista qualquer solução simples para os problemas apresentados por essas desigualdades... o capitalismo baseado no motivo-lucro não funcione. o marxismo. ninguém cometeria o erro de subestimar o papel desempenhado pela União Soviética na história dos tempos mais recentes. 119 e segs. ajudas e assistência técnica. e muitas vezes. parecia estar à beira do colapso. An International Economy. meramente. 419). mas.72 Tomando o mundo como um todo. os serviços sociais e a redistribuição de rendas por meio de impostos restauraram a estabilidade do sistema de empresa privada que. tanto mais provável é aumentar o desequilíbrio social e dar margem a uma tensão social revolucionária.. 1960). Beyond the Welfare State (Londres. e há muitas indicações de que. também Joan Robinson. Mas. Rio. a situação é inteiramente distinta. Nationality and Wealth (Londres. cit. Historicamente. Mas está aí uma razão de fato para que o marxismo-leninismo continue sendo uma força ativa no mundo de hoje. Pelo contrário. está ainda abaixo do nível de 1900. cf. Considerá-lo. à medida que evolui e é adaptado a outras circunstâncias. G. largamente situada na América do Norte e na Europa ocidental. é o fato de que o resultado dos altos padrões de vida alcançados nas sociedades abastadas do Ocidente — como Gunnar Myrdal acentuou — foi perpetuar. Desde que estas páginas foram escritas. que quanto melhor ele funcionar e mais eficiente se tornar. 72 Cf. a cujas condições o sistema econômicoliberal do Ocidente bem como as instituições políticas e sociais a ele associadas não se adaptavam facilmente. 1964). o abismo entre os povos industrializados e os subdesenvolvidos estáse ampliando. como se diz freqüentemente. Problems and Prospects (Londres. Mas o significado do marxismo transcende sua importância como ideologia do Estado soviético. Myrdal. não se reduzindo. 149. Querendo avaliar seu impacto. só uma pequena minoria privilegiada. não devemos encalismo para "sobreviver indefinidamente" (op. as crônicas desigualdades na distribuição mundial de bens e serviços. desfruta as vantagens da abundância e. em outras partes do mundo. Não foi o único sistema alternativo concebível. págs. Filosofia Econômica. uma arma ideológica do governo soviético seria desvirtuar seu papel histórico. Evidentemente. foi um reflexo de condições especiais que não é provável repetirem-se. págs. 73 Cf. África e América Latina. 1956). é significativo na medida em que fornece uma alternativa para os povos emergentes. o comunismo russo. . 1964. com mais provas estatísticas. Com exclusão dos países no bloco comunista. mas foi o único que possuía o dinamismo. 62% da riqueza total do mundo encontram-se nas mãos de apenas 15% da população e tudo indica que o padrão médio de vida da humanidade. por Evan Luard. apesar de empréstimos. pág. Zahar Editores. G.

Já deu à sociedade do século XX uma forma elaborada segundo diretrizes distintas de tudo o que era conhecido no passado. o marxismo como ideologia soviética russa. . como Lênin a viu. e sua força ainda não está esgotada. simplesmente. uma força universal cuja missão era também universal.rar. mas.

A. 50. políticas. religiosas. será razoável esperar que essa mudança espelhe-se não só no ambiente social e na estrutura política. pág. 1926). na maioria de suas precondições básicas. 38-40. G. Tivemos uma fartura de moralização sobre a decadência da arte e música modernas. daquilo que chamamos História "moderna". Mas seria também surpreendente se a índole da literatura e de outras formas de auto-expressão humana não tivesse sido afetada pela nova ordem social produzida por uma nova civilização tecnológica. 1904). como foi propósito deste livro demonstrar. e C. Engels também protestou. a importância de distinguir entre "a transformação material das condições econômicas de produção" e as formas "legais. podemos discernir os elementos de uma nova síntese. evidentemente — como Marx teve sempre o cuidado de realçar — que a relação entre a infra-estrutura social e a superestrutura de "sentimentos. 1950). é examinar. 186. pelo menos. algumas das mudanças mais notáveis nas atitudes humanas dos últimos três quartos de um século e ver até que ponto elas indicam o advento de uma nova perspectiva do mundo e um novo critério no tratamento dos problemas humanos fundamentais. 1959). 55. G. é extremamente complexa. depois da morte de Marx. Nosso ponto de partida será a "desintegração da síntese burguesa"2 que se nos depara quando o século XIX se aproxima de seu final. em particular. se o período contemporâneo marca o início de uma nova época na história da humanidade. Trata-se de questões que têm sido calorosamente debatidas. Nineteenth-Century European Civilization. 12. freqüentemente em termos de juízos de valor subjetivos e largamente irrelevantes. E. direta e incondicionalmente a condições econômicas. cf. 1815-1914 (Londres. contra a acusação de que ele e Marx mantinham a opinião de que a superestrutura ideológica respondia. É verdade. a História contemporânea é diferente. erguida sobre aquela. hábitos de pensamento e concepções de vida". em conclusão. Como é bem sabido.VIII ARTE E LITERATURA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO A Mudança nas Atitudes Humanas Se. portanto. págs. Paul (Londres. sobre o abismo que pretensamente as separa da vida cotidiana. 2 Cf. sobre a erosão espiritual da civilização ocidental Cf. O que tentarei fazer. mas também nas atitudes humanas.1 e seríamos insensatos se esperássemos qualquer coordenação direta entre ambas. Dialectical Materialism (Londres. Bruun. trad. Dois pontos. exigem atenção: um deles é o grau em que nossas atitudes foram remodeladas pela revolução na ciência e o impacto da tecnologia. pág. o fulcro de nosso inquérito será averiguar se alguma nova síntese lhe sucedeu ou se. estéticas ou filosóficas" também foi assinalada por Marx num famoso trecho de seu prefácio para The Critique of Political Economy (ed. 1 . Karl Marx. Wetter. pág. o outro é saber até onde a nova sociedade de massas de nossa época terá chegado na criação de formas distintas de expressão própria. ilusões. The Eighteenth Brumaire.

sobre as carências dos povos ressurgentes da Ásia e África. depois um período de crescente inquietação. resta ainda uma questão real. estava a desilusão com o próprio humanismo e foi a discrepância entre suas convicções . será ou não sucedida por algo que se lhe possa comparar em âmbito e influência. No respeitante a nossas atitudes humanas fundamentais. marcando uma ruptura entre dois períodos. o respeito pela dignidade e o valor do indivíduo . O que a levou a um ponto culminante. Mas quando tudo isso ficou dito. foi o colapso exceto na educação formal. no terceiro. mas que pode estar começando agora. a desumanização e despersonalização das classes trabalhadoras . sobretudo. Quando atentamos na extensão do levante que ocorreu no passado meio século e na magnitude dos ajustamentos a fazer. foi um período de grandes experiências em novos modos de expressão. em seu âmago. foi a . que se estende desde 1880. que a História não pode simplesmente ignorar com base na falta de qualificações técnicas. A difusão de um novo padrão cultural requer um período de estabilidade que ainda não tivemos desde 1914. Mesmo que assim seja. com alguma confiança. Tais juízos escurecem mais do que esclarecem as questões e tentarei evitá-los. mas. à medida que ele afeta as atitudes humanas. mas abrangendo a última década anterior a 1914. muitas das experiências do período entre as guerras foram abandonadas. O fato central. três fases ou períodos principais. mais ou menos equivalente aos anos entre as guerras. que foi a marca do século XIX. na conformação de novos termos políticos de referência — podemos afirmar.e. O pessimismo que encara todas as mudanças como mudanças para pior é um tema invariável da História e que esta invariavelmente refuta. podemos distinguir.nomeadamente. que a transição de uma era para outra já se completou. Ao acompanharmos o processo de mudança.que deu inicio à revolta. ficou marcado. O ataque ao humanismo assumiu inúmeras formas e partiu de várias direções. Em outros aspectos — por exemplo. mas não foi fácil perceber ainda a cristalização de uma nova perspectiva do mundo.e sua prática nomeadamente. iniciado a seguir à Segunda Guerra Mundial. o segundo. devemos esperar um progresso mais lento. mais recentemente. com bastante facilidade. que ficou por isso cada vez mais desligada da corrente principal de desenvolvimento social . 1 Para o historiador é mais fácil descrever a desintegração das antigas atitudes e padrões do que a formação de novas. até a Primeira Guerra Mundial.da tradição humanista que dominara o pensamento europeu desde o Renascimento. O primeiro. Isso não deveria constituir surpresa. seria utópico esperar o rápido advento de uma nova cultura unificadora. não está em causa se a velha síntese liberal. pela reação contra as tradições dos passados quatrocentos anos. aproximadamente.

pág. era determinar a relação entre coisas.. falsificara a realidade e degradara a vida. a contradição implícita no âmago da filosofia liberal. Na Inglaterra. despedaçando o véu ideológico erguido para esconder a estrutura de poder em que a ordem social estava baseada e reiterando o brutal truísmo da vontade de domínio. Henri Bergson. à medida que o tempo transcorria. na suposição de que o homem. III (2ª Ed. de 1885. é um reservatório infinito de possibilidades e de que tudo o que se necessita é reajustar a sociedade para que essas possibilidades prevaleçam. com sua afirmação da superioridade da intuição sobre a inteligência. Sobre essa deterioração . de Platão a Hegel. Os Tecelões (1892). The Mind of Germany (Londres. A moralidade era.5 a Filosofia. 527 6 Cf. para o declínio daquelas certezas que sustentavam a imagem comumente aceita do homem e do universo. Germinal. K. capacidade de resistência. Werke (Ed.. na fácil crença num progresso automaticamente garantido pela seleção natural e pela sobrevivência dos mais aptos. Munique. entre a dignidade e igualdade humanas. desemprego e miséria que marcou a geração entre Progress and Poverty. Nietzsche penetrou fundo no otimismo de seu tempo.atacava furiosamente suas pretensões morais. 214 3 4 . e Unemployment. escuridão. tudo o que podia fazer. Encontrou sua expressão mais eloqüente no melhor da obra de Zola. 917 5 Friedrich Nietzsche. "ela própria. resultante do novo industrialismo. "Procurais um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas ?."6 Foi esse ataque frontal aos valores e pressupostos em que se fundamentava a cultura ocidental que fizeram de Nietzsche. proclamou Nietzsche. Hans Kohn. Este mundo é a vontade de domínio — e nada mais. na prática. Nietzsche — o amadurecido Nietzsche de Assim Falou Zaratustra (1883-5) e Além do Bem e do Mal (1885-6) . Obras tais como Germinal expuseram o vazio das convicções humanistas. o indivíduo. vol. 1961)."4 Com uma acuidade sem paralelo antes dele. com um vigor cada vez maior. o profeta inspirado da nova geração na Europa. "Nada foi comprado por mais alto preço". depois de 1890. A influência desagregadora de Nietzsche. e a desigualdade e indignidade humanas. em teoria. de William Beveridge (1909). com um insistente martelar nos temas de privações e sofrimento. dono voluntarioso de seu próprio destino. foi reforçada pela obra de um filósofo francês. uma forma de imoralidade". págs. ibid.brusca deterioração de condições na cidade e na fábrica. concepção semelhante do mundo. O matemático francês Henri Poincaré negou que a ciência pudesse jamais saber algo sobre a realidade. em seu maior romance. pág. cf. Ao mesmo tempo. afirmou ele. 50-52 Friedrich Nietzsche. notadamente.. ação das massas e padecimento das massas. Ambas contribuíram.3 e foi incentivada pela nova preocupação com as pragas da pobreza. 1960). pág. "do que o pedacinho de razão humana e senso de liberdade que hoje constitui a base de nosso orgulho. de Henry George (1879). Algo de uma qualidade semelhante infundiu-se no maior drama de Gerhart Hauptmann.. Schlechta). Foi corroborada ainda pelas novas tendências na ciência física e pelo impacto das novas concepções psicológicas. acima. sobre a imagem do intelectual do século XIX.

e desenvolvida por Whitehead e os relativistas. idéia essa que herdamos da metafísica grega. deve ser colocado a par de Lênin como o arauto de uma nova era.ª Ed. uma esquiva realidade externa. assevera Bradley. Londres. por destruir a imagem do homem como indivíduo coordenado. Appearance and Reality (2. sabe- Cf. manteve Bradley. situada além da experiência comum e suscetível de ser apenas conceptualizada abstratamente. em si. intercalada com um vácuo absoluto". ao entrarem numa circulação mais vasta. 91 10 A. não tem realidade". Eddington.10 Tais conceitos. em Apperance and Reality (1893). 1902). na frase de Dewey. operou na mesma direção. num "mundo perdido de símbolos". "não passa de um concurso fortuito de átomos".7 O espaço. a idéia de que a natureza era "composta de matéria sólida. S. são por demais óbvios para necessitarem de algo mais do que exemplos ilustrativos. destruiu a ilusão individual de autonomia. converteu-se em intrincada rede. de relações e funções. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu.. é apenas "uma relação entre termos que nunca poderão ser encontrados". Bradley. e que o homem. A descoberta por Freud de que as ações do homem podem ser motivadas por forças "Sobre as quais ele tudo ignora. 2 Os efeitos dessas mudanças revolucionárias de perspectiva. The End of the Modern World (Londres. Se a ciência deixou o homem procurando. R. Freud era uma figura de extraordinária envergadura e influência. sem sentido e acidental. na frase de Eddington. é insustentável e deve ser rejeitada. págs.. pág. em todos os campos da expressão literária e artística. The Nature of the Physical World (Cambridge. pág. sobretudo. 293 Ibid. reagindo inteligentemente e de maneira prognosticável aos acontecimentos. H. foi expendida por F. 251 7 8 . "A natureza. 1928). A teoria freudiana do subconsciente exerceu uma influência incomensurável. Embora sua principal influência não fosse sentida senão depois de 1917.como estrutura de relações emergentes. só Einstein podia comparar-se. por fim. às apalpadelas. 288. e a Sociologia. Este último.8 Assim. H. com quem. concebeu "a mente individual como função da vida social". até dissolver-se.9 A tendência da ciência moderna é sugerir que o universo é ininteligível. pág. 38 9 Cf. Guardini. Bradley. no terreno científico. cuja Interpretação dos Sonhos fora publicada em 1899. só podiam exercer um efeito deletério — e o mesmo se aplica à nova psicologia de Pavlov e de Freud. que. Sabemos que escritores como Henry James e Virgínia Woolf deram-se rapidamente conta das novas concepções psicológicas. que desde o tempo de Giordano Bruno fora sempre um ponto fixo de referência — a totalidade das coisas e acontecimentos que o homem encontrava em torno e sobre ele — começou a retirar-se para a inacessibilidade. 1957). a natureza.

Tais casos são. já estava em marcha. do qual são estas as palavras de abertura. está editado em tradução por W. entretanto. suas novas relações com o mundo que o rodeava. sabemos que Eliot. ela torna as coisas visíveis". pág. a literatura e a música adotaram diretrizes deliberadamente revolucionárias. Pissarro. enquanto viviam no Bateau Lavoir. 21. do simbolismo ao expressionismo e ao cubismo. Levou. desde Debussy a Schönberg. até Kandinsky. escreveu Gide em 1895. XI. É certo que os impressionistas — Monet. "que se conformem à verdade. mais intimamente do que na realidade acontece. Sisley — não eram revolucionários rompendo com o passado. sfumato e chiaroscuro — que dominara a arte européia desde o Renascimento.12 A partir de 1874. Degas. 1958). Paris. o efeito das últimas foi influir e acentuar um processo de desintegração nas primeiras. Renoir. Não cabe aqui seguir esse processo passo a passo.13 Foi quando surgiu o problema de preencher o vazio. Picasso e Jackson Pollock. contudo. "A Natureza está usualmente errada!". 1926). afinal de contas. 105. Paul Klee (Londres. 97. e. Princet. pág. Di San Lázaro. Grohmann. que os efeitos dissolventes do impressionismo deixaram para trás. nas ladeiras de Montmartre.mos que os primeiros cubistas. o qual. raros — e realçá-los seria enganador. A preocupação com a forma foi característica. quando se realizou em Paris a primeira exposição dos impressionistas. A confiança no poder da arte para refletir a verdadeira natureza da realidade já estava declinando e a ciência apenas confirmou a consciência existente de que a verdade não se ajusta. como estudante em Harvard. "Organizo os fatos de maneira tal". 13 Cf. Paludes (ed. com as novas emoções que o ocupavam."11 "A arte não reproduz o que se pode ver. 1957). e. estava o repúdio da preocupação com a natureza — com o espaço tridimensional. desde Van Gogh. estabelecia o repto de uma nova geração a toda a tradição existente. pág. ocorreram simultaneamente e. mas. vol. a perspectiva científica. foi impossível deixar de notar a desintegração das tradições artísticas que vinham mantendo sua autoridade desde o Renascimento. pág 158. agora era "um realismo que se evaporava na realidade imaterial do ar e da luz". por trás disso. O ensaio de Klee. visto ter sido a falência das antigas formas e a necessidade de novos métodos de entendimento com um novo tipo de ser humano. leu e escreveu a respeito de Bradley. aos sentimentos instintivos ou percepções imediatas. também G. a pintura. New Cambridge Modern History. cf. travaram conhecimento com os novos conceitos científicos através de um matemático amador. Klee: A Study of his Life and Work (Londres. como disse Gauguin. quase simultaneamente. O propósito central dos André Gide. desde Mallarmé e Rimbaud até Éluard e Ezra Pound. 11 12 . em grande parte. Cézanne e Gauguin. disse Paul Klee. inexoravelmente. Tudo o que podemos fazer é selecionar algumas tendências. bem como as mudanças na filosofia e na ciência. independentemente. eles "conservaram as algemas da representação" e permaneceram dentro da tradição do realismo. que acabou por tornar-se explícita a necessidade de novos padrões e de ruptura com o passado. A exclamação de Whistler. das quais a mais óbvia foi a rejeição das formas artísticas consagradas. Bartok e Webern. que dominaram a expressão artística. 1920. As mudanças na literatura e na arte.

pág. vol. Na França. 288. enquanto na música era Schönberg o primeiro a abandonar o centro tonal e introduzir a técnica da atonalidade. Mas foi o cubismo que se aproximou mais de uma nova visão do mundo. pintores como Paul Klee e escultores como Henry Moore rejeitaram a arte representativa. que não era real. S. estava uma determinação consciente e firme de enfrentar a "tarefa de dominar de novo a realidade". pelas conclusões que o espírito humano extraíra dessas novas revelações.cubistas e dos expressionistas alemães era afastarem-se do visual. a questão da natureza da realidade já evoluíra para o problema de averiguar se realmente existia uma realidade que pudesse ser apreendida e como poderia ser apreendida. 276. 287. Segundo essa concepção. em Rococo to Cubism in Art anda Literature (ed. Nova York. para romper através das aparências até alcançarem uma verdade "mais verdadeira do que a verdade literal". 1962). As primeiras composições musicais de Stravinsky empregaram métodos semelhantes para fins semelhantes. 1963). era "pintura concebida como formas relacionadas. Por trás dessas experiências com a forma. 11) em 1908. marcou o nascimento do expressionismo. XI. Os diferentes estilos. que era ou podia ser. Jaffé. L. 12 16 Cf. contrastes violentos e distorções brutais. e a rejeição feita por eles de um simples ponto de vista revelava uma visão mais plena da realidade do que seria possível em qualquer arte baseada no artificialismo da Geometria Euclidiana. Expressionism (Londres. os fauves. o cubismo surgiu como um movimento consciente e coerente em 1907.14 Da mesma maneira. eram como os artistas do Renascimento. A pintura cubista foi "uma pesquisa feita na natureza emergente da realidade". B. "uma análise da identidade múltipla de objetos". Nolde e Kandinsky utilizavam cores discordantes. a extremamente lúcida interpretação de Wylie Sypher. Agora. Twentieth-Century Painting (Londres. expressionistas como Heekel. Myers. Na Alemanha. na Alemanha. "a pretensão de encerrar na linguagem a realidade material das coisas". Schönberg publicou suas revolucionárias Três Peças para Piano (op. 43 17 Cf. explicitamente. que se seguiram. Todos foram impelidos pelo colapso da velha crença em que a verdade positiva estava contida na percepção sensorial e pelos problemas da realidade revelada pelas descobertas da ciência e da técnica. que não são determinadas por qualquer realidade exterior a essas formas relacionadas". "um exame da realidade em suas múltiplas contingências". 1963). New Cambridge Modern History. o mundo existia. Em Paris. finalmente. seguido pela "nova cisão" (1910) e Der blaue Reiter (1911).1616 Para os cubistas. a arte cu14 15 Cf. págs 270. a formação do grupo conhecido como Die Brücke (1905). . Mallarmé rejeitou. 130 Cf. H. pág.17 O universo que os cubistas descreveram era um em que as coisas não têm localizações simples. Nisto. pág.15 Foi o resultado de uma crise de padrões e valores que se generalizou pouco depois de 1900. C. Fê-lo porque era mais intelectual e estava menos envolvido em "uma transcrição emocional ampliada das reações do artista" do que o expressionismo. mas sob o impacto da nova teoria científica era concebido de um modo distinto. para alcançarem a essência. que também procuraram assimilar a arte com as descobertas científicas do tempo. o que não acontecia com os simbolistas. representavam tentativas diferentes para abordar esse problema. maneirismos e técnicas.

19 ou iludiram-se a si próprios. deixara de ser aceitável. 21 Jaffé. "Iludiram-nos eles". assim. desonesta". Lifer and Work (Londres. Não foi por acaso que o dadaísmo e o surrealismo atingiram o auge entre 1919 e 1921. de Picasso. o cubismo foi apenas uma parada momentânea no caminho. Mondriaan. Tal pintura exprimiu "uma concepção mundial em que o objeto Ibid. Parecia uma "exaustão. págs. A segunda razão foi o choque provocado pela Primeira Guerra Mundial. indagaria depois Eliot. um recibo de desilusão? Para os poetas e artistas que se reuniram nos movimentos modernistas. mas do sistema de valores de toda uma civilização. como no famoso "Homem com Violino" (1911).20 pelo que Mondriaan tomou a peito a tarefa de criar formas que exprimissem essa nova situação. aquilo a que os cientistas chamam o "campo" se torna mais importante do que os objetos situados no campo. em particular. cf." Contudo. Collected Poems. Daí ter o surrealismo tomado a forma de uma "recusa dos modos de pensar e sentir do humanismo tradicional". em suas composições geométricas abstratas. a busca de um equilíbrio harmonioso. 142 e segs. A vida do homem moderno. Piet Mondrian. a par de uma intenção deliberada de provocar o choque e o escândalo. ao decomporem os objetos em seus mais simples elementos — ou. meramente. cit. A primeira foi que os próprios cubistas. 1963). No mundo pós-Hitler e pós-Hiroxima. a carnificina entre 1914 e 1918 e a paz falsificada que a rematou significaram a falência não só da ordem existente. "As idéias subentendidas na pintura cubista". Julgando-os por seus resultados. extraída da primeira edição do periódico De Stifl. M. 26 18 19 . apesar de seu impacto. Mas a tentativa de encontrar uma nova concepção de realidade através da abstração não sobreviveu à Segunda Guerra Mundial. cf. op. 198. não encontraram mais qualquer motivo para usar tais valores.18 "estão refletidas em todas as artes modernas. pág. como já se disse.21 e a ênfase derivou de uma tentativa de retratar a realidade para uma tentativa existencialista de exprimir um novo sentimento de vida.. houve duas razões principais. Legando-nos. levada a efeito por Mondriaan. Para isso. 20 Para uma tradução do artigo programático de Mondriaan. os anciãos de voz calma. 1909-1962 (Londres. Na pintura "unificada" de Pollock e Appel. para a arte abstrata e uma nova onda de iconoclastia. pág. pág. resolvendo-os em uma série de planos — destruíram os objetos e abriram a porta. "estava-se divorciando gradualmente dos objetos naturais". a luta pela descoberta de novos caminhos para apreender a realidade nunca foi abandonada. expurgada do "peso morto do objeto".bista possuía a acuidade e clareza de uma análise científica.. escreveu ele em 1917. e "tornava-se cada vez mais uma existência abstrata". 1957). Seuphor. Mas em toda a experimentação do período de 1920 a 1930. 265 Em East Coker (1940). procurou exprimir a "realidade pura". O choque e a desilusão da guerra abalaram toda a fé numa realidade significativa e deram lugar tanto ao amargo protesto expressonista de Georg Grosz e Otto Dix quanto aos pesadelos surrealistas de Salvador Dali.

ou como o Ulisses. pág. cit. um mundo em que o Bem não faz bem e o Mal não causa danos. basta considerá-los como representantes da transição de uma fase para outra da civilização.. Erich Heller. surgiu como o poeta de um mundo do qual a dúvida desalojara todas as certezas. desejando perpetuar por um ato de memória padrões e relações que se dissipavam. 22 23 págs. foi o maior de todos os romancistas do período. "podia rechaçar mais efetivamente a crença romântica na liberdade. nada. mesmo enquanto eram pensadas. normas. em que os amantes desejam a separação. que constituiu a estrutura da arte e literatura dos anos anteriores e posteriores à Primeira Guerra Mundial. dadaismo e pintura abstrata. e O Castelo. 151. em que toda a ordem aceita de correspondência desmoronou-se como um castelo de cartas. padrões. Penguin. no presente contexto. no final da transição. não sendo o homem uma simples pessoa unificada cujo destino seja decidido por suas próprias ações ou porque as forças da natureza são demasiado poderosas para que ele consiga sobrepujá-las — caindo o homem à Sypher. O presente — Ortega escrevia isso em 1930 — não reconheceu no passado coisa alguma que lhe pudesse servir de possível modelo ou padrão. Evaporaram-se quaisquer remanescentes do espírito tradicional. As peças de Ibsen e Chekhov e romances como Os Buddenbrook. de Kafka. o século XIX está vinculado ao passado. e a importância do ato decisivo". op. Ortega y Gasset. Como escreveu Ortega y Gasset. estavam completamente alheios ao mundo do século XIX. Temos de resolver nossos problemas sem qualquer colaboração ativa do passado. tal como a música de Bartok e Schõnberg.23 Foi esse sentimento de alienação.22 3 Cubismo. fomos subitamente deixados sozinhos sobre a Terra..24 Proust. ção em sua obra A 1925 24 Cf. acima de todos os outros.. Ortega já analisara essa mesma situaDesumanização da Arte.desaparece nos padrões de comportamento". nem desenvolvimento causai. de deserdação.. publicada originalmente em Madri.. foi o descarregar da bagagem herdada de cultura européia. no individualismo. . Não é de minha competência. Modelos. eram um requiem. de gestos fúteis. homens atuais. Rilke. considerava-se a si próprio como o apogeu de eras passadas." Sentimos que nós. retrataram a crise da antiga sociedade. em certo sentido. 326-7 A Rebelião das Massas. e não a união. de Joyce. em The Disinherited Mind (ed. O que aconteceu. 1961). assim foi dito. Igualmente remotos se encontram do mundo de hoje. tentar uma apreciação artística de todos eles. nada disso tem utilidade. da solidão incomunicável do indivíduo. Não existindo seqüência lógica. sobre cujos ombros pensava estar situado. mesmo que a tivesse para fazê-lo. A Renascença revelou-se como "um período de estreito provincianismo. de Thomas Mann (1901).

Nesse aspecto. A Study in the Imaginaria Literature of 18701930 (ed. pág. em seus propósitos. por exemplo. pelo interesse histórico de que se revestem. certamente falharam na produção de uma nova síntese.26 Alguns dos maiores artistas. por exemplo. jogado ao acaso na escuridão vazia do espaço —. tão individual e tão divorciada de toda a relação com a humanidade que era quase ininteligível". E. Isso é verdade. Picasso abandonou. Londres. 126 25 . as experiências características da primeira metade do século XX não lograram chegar a resultados positivos. eles "exprimem.beira do caminho. Gertrude Stein e E. em suas linhas gerais." Em todo caso. a reductio ad absurdum — foram as seqüências surrealistas de palavras. recuaram. H. E. porque a vida é vazia de sentido. e nos artistas e escritores para se reunirem em "panelinhas" cujos pensamentos eram demasiado esotéricos para ferirem qualquer corda sensível. os símbolos "são inúteis na vida cotidiana.28 "revelam um comovente desamparo. pois. A Short Story of Music (6ª ed. é a irrelevância da mesma para o mundo contemporâneo. simplesmenCf. disse que Gertrude Stein. "Suas tentativas para se ajustar ao novo mundo". para se fazer o necessário ajustamento ao novo mundo que surgia. Como disse Kafka. Londres. não alcançaram êxito algum. 20l 27 Cf. A. nada mais resta. aparentemente a esmo.. simplesmente. porém. Seria um erro tomar esse fracasso de maneira excessivamente trágica. Cummings. Mas. que estavam intimamente associados com aqueles. op. e não tinham qualquer ambição reconstrutiva. atualmente. O simbolismo e o expressionismo também não agüentaram suas posições. Um escritor. 435 28 Guardini. nos primeiros trinta anos do século XX. O resultado. limpar o terreno e romper com o passado. Einstein. desertou. cit. depois de 1923. um hostil desamparo nas Elegias. Gombrich. E. em um poema como o Soneto a Orfeu. na generalidade dos casos. foi que muitas de suas obras foram retidas. seu objetivo era. Também de Schönberg se disse que sua música "tornara-se tão abstrata.. ou porque ele não passa de um feixe de átomos sem finalidade. na arte. havia uma tendência evidente. com referência específica a Rilke. de seu anterior "dinamismo" para se fixar no neoclassicismo. Axel's Castle. pág. afirmouse. Stravinsky. 26 Cf. Londres. suas "aventuras nas fronteiras do impossível"27 e recusou vincular-se a qualquer fórmula individual. senão comunicar. 1961). as tentativas. de James Joyce. tudo aquilo que a sensibilidade do escritor traz à superfície em dado momento. fora "tão longe que nem mais sugeria". e de escritores como Heinrich Mann e Ernst Toller. pág. Quanto ao resto. apenas. Wilson. pág. percebendo que caminhavam para um impasse. de tendência não desfavorável. que é a única vida que temos". rapidamente. ao usar as palavras para fins puros de sugestão. a respeito do amargo comentário social dos expressionistas alemães. Em sua maior parte. O refinamento supremo — alguns diriam. 1959). 195. É uma observação feita. o que notamos a respeito de sua obra. por exemplo. Muitos dos escritores e artistas do período foram francamente demolidores. 25 É uma crítica que se pode aplicar na generalidade. Rilke de maneira alguma foi uma exceção solitária. para degenerar em maneirismo. 1960). The Story of Art (10ª ed..

" (Heller. num ou noutro caso. Isso não foi contraditado pela aguda percepção das implicações de uma nova realidade. pouco foi assimilado. uma terra prometida. através delas. a direção em que uma nova perspectiva do mundo poderia ser encontrada. "A este respeito. mas não ergueram as cortinas. 1959). sendo esta a característica mais acentuada da época. 29. 70. "Todas as atividades culturais de nossa época". Igualmente notório foi o fracasso das correntes artísticas e literárias predominantes em transpor o abismo que as separava da revolução científica e técnica. Ao que o primeiro retorquiu: . continuou Kafka. mas transitório no tempo? Era certamente uma revolta estranha a uma geração cônscia de que o industrialismo se tornara a base da única sociedade de que eles tiveram experiência. o fato de que o incompreensível é incompreensível. assim. simbolicamente. escreveu ele. 31 Cf. de que constava senão de um romantismo invertido. págs.31 fracassaram em sua principal função. P. C. um tanto obscuramente. infelizmente. contra a tenebrosa desolação de The Waste Land. 188-9) 30 C. como Lucrécio fez com os de Demócrito. Ninguém negaria que. 1948). pág. Nem a pintura nem a literatura lograram chegar a um ponto de vista positivo e suficientemente definido. um fútil protesto compreensível na época.29 Quanto à revolta contra a era da máquina. indicaram. e nós já sabíamos isso". você perdeu. Mas dos efeitos positivos da ciência natural em mudar a face do mundo e as condições totais de nossas vidas. habilitando-nos a contemplar. Snow. A posição foi resumida por um cientista que escreveu nos primeiros meses da Segunda Guerra Mundial.. cit. não surgiu qualquer poeta capaz de exprimir os conceitos básicos da ciência moderna. Outro disse: . C. P. então: . op. testemunhada nas últimas obras de Eliot — em Burnt Norton (1935) ou em The Dry Salvages (1941). 29 . Snow notou a lentidão dos romancistas. observam-se reflexos da moderna teoria científica. E o segundo comentou. Waddington.Você ganhou. olhando para o período decorrido entre as duas guerras. contra todo o progresso intruso da civilização padronizada. digno sequer de ser considerado como base para uma nova sociedade. O primeiro respondeu: . que foi tema constante desde Baudelaire a Verhaeren e Garcia Lorca.30 Mais fundamentalmente. The Two Cultures and the Scientific Revolution (Cambridge.te. em concordarem com os fatos da moderna sociedade industrial. por exemplo — e na pintura cubista ou abstrata. "um homem disse. ou Pope com a Física newtoniana. de um malogro em aceitar fatos inevitáveis. na América e outros países.ª ed. converter-nos-emos nós próprios em símbolos e. libertar-nos-emos de todas as preocupações cotidianas. limparam o caminho de uma porção de lixo de que todo o mundo queria ver-se livre.. na realidade.Não. Foram muito úteis. só ganhei de maneira simbólica. H.Aposto ser isso também um símbolo.Mas. pág. certa vez: Por que tanta relutância? Se apenas seguirmos os símbolos. The Scientific Attitude (2.

para um mundo íntimo e privado. constitui a unidade básica da sociedade. à sombra da bomba atômica. E a tendência pessimista. pode ser encarado como a medida de uma transformação básica nas atitudes humanas. fora tão intensamente explorado e especulado que todas as suas possibilidades pareciam exaustas.32 Entre os fatores que provocaram essa mudança de ponto de vista encontramos o progresso da Sociologia e a impregnação do pensamento. escrita em 1952. num mundo desolado. Também aqui se verificava uma tentativa de afastamento do critério negativo. quando a bomba de hidrogênio já se tornara tão familiar quanto a mesa de cozinha. Deixou de partir do indiPara este assunto. cuja obra pressupôs um universo de valores relativos. distantes das do século XIX. que fora característico dos positivistas lógicos. A Sociologia ensinou que o grupo.. 1959). em todos os níveis. a única corrente filosófica do período com ampla influência. o indivíduo estava só. onde não havia santos nem heróis. que começavam a aprender. que função desempenha. verificou-se uma considerável mudança de base: As preocupações dos anos entre as guerras. não admitia valores transcendentes. de Beckett. A incessante especulação de Eliot e Valéry sobre o que constitui Poesia. as pessoas tinham aprendido. cuja mensagem era negativa.ª ed. se existe alguma utilidade em escrevê-la. de Kafka. Paris. não o indivíduo. a de revolta. 452-3. Jaspers e Sartre. de errantismo desamparado. Talvez sua derradeira grande expressão. 32 . Similar atitude refletiu-se na Filosofia existencialista de Heidegger. Esperando por Godot foi o final do capítulo que começara com O Castelo. mas em que a vida humana tinha como finalidade superar o estado precário e provisório da sociedade humana. tenha sido Esperando por Godot. sem amarras num mundo vazio de esperança. L'époque contemporaine.4 Depois de 1945. 462-3. págs. por noções derivadas da investigação sociológica. cf. de Proust. pelo momento em que "toda a vontade se desvanecerá e nós estaremos novamente sós. deixara de despertar o mesmo interesse. no curto prazo entre Huis clos (1944) e Les chemins de la liberté (1945). a figura típica da década seguinte foi Brecht. estava por um fio. com efeito. M. Se a personalidade intelectual dominante da década a seguir a 1945 foi Camus. estavam igualmente distantes das preocupações do mundo de pós-guera. 466-7. O existencialismo. a aceitar as incertezas do novo mundo como parte da vida. A La recherche d'une civilization nouvelle (2. embora fosse elemento passivo em sua criação. o homem não podia evitar pela evasão. como os simbolistas. na qual os dois protagonistas esperam desamparadamente. no meio do nada". O mundo introspectivo da imaginação individual. Não se tratava tanto de uma rejeição quanto de um abandono pelo caminho. envolvido numa situação que. O ajustamento do pensamento sartriano. Crouzet. mas só entre outros. de desespero e resignação. um desvio do ponto de vista da consciência individual para um em que o indivíduo é absorvido por uma realidade social que é intensificada pelo ritmo acelerado dos novos processos técnicos. Dez anos depois.

afastado de toda a subjetividade. monótona preocupação com o destino pessoal do indivíduo e a enfermidade. . A civilização das massas. pág. nas quais as transformações dos últimos sessenta ou setenta anos tinham mergulhado o mundo. A tendência predominante era amplamente pessimista. era incompatível 33 34 Cf. Raymond Williams. que se generalizara depois de 1870. 5 A questão de arte e sociedade. em última análise. deixaram de ser típicos. começando um movimento. a intranqüilidade da alma européia. O homem preferiu igualmente a questão. Tem sido discutida e debatida desde a Revolução Industrial. é". e. cit. apesar de sua complexidade e das tensões que provoca. que já estava ocorrendo. rumo à objetividade. Culture and Society. por mais refinadas e brilhantes. o problema tornara-se a preocupação de toda uma geração. não é nova.. Para alguém que reveja agora as subseqüentes controvérsias sobre o problema. a principal impressão que se recebe é de esterilidade e. seria suficiente para tornar a vida digna de se viver — inclusive para a minoria em posição de desfrutá-las. se a cultura sobreviveria num novo ambiente social. e se.34 Mas adquiriu uma nova dimensão quando os resultados da introdução do ensino universal obrigatório. em termos do qual a sociedade deve ser explicada. começaram a ser sentidos. pouco se ganharia seguindo aqui seu curso em pormenor. H. por exemplo – contornaram o antigo labirinto da introspecção. Tinha dois aspectos: primeiro. ou de cultura e civilização. Cf. da "reintegração da arte na vida comum da sociedade". é ou não possível chegar a um acordo com a sociedade industrial. afirmava-se vulgarmente. A literatura de protesto e revolta — produto característico de uma velha ordem em declínio — parecia ter dado o último suspiro. que lhe foi lançada pela mudança social e pela propagação do alfabetismo.víduo como conceito central. no seio das novas sociedades técnicas e industriais das massas. no caso de falhar essa tentativa. Penguin. de Valéry.Robbe-Grillet. e viu nos padrões de comportamento do grupo a norma determinante da ação individual. de uma egocêntrica e. 1780-1950 (ed. Sypher. A importância dessas concepções reside no estímulo que inculcaram para a mudança. 1961). 329. se a sociedade poderia sobreviver sem a força aglutinadora de uma "cultura comum". e as pessoas preferiram encarar a questão de saber se. op. "muito simplesmente. segundo. Os escritores da nova geração . Whyte — mas não a sua efetividade. procurando mostrar que o mundo. Depois de 1930. a existência de algumas obras-primas.33 Os poetas e artistas que fizeram eco ao "je ne suis curieux que de ma seule essence". para os problemas suscitados pelas relações sociais. É possível pôr em dúvida as conseqüências sociais de tal critério — foram severamente criticadas nos Estados Unidos por escritores como W. por essa razão.

Nunca houve qualquer razão para que isso assim fosse. a disseminação da cultura existente por todo o mundo. agindo silenciosamente. B. Notes towards the Definition of Culture (2. e o domínio das massas. os padrões literários. Toynbee — em particular no nono volume (1954). Richards. 26. Science and Poetry (Londres. 1930). que atingiu o auge com o Study of History. 50. à arte comercializada. Mass Civilization and Minority Culture (Cambridge. Agora. Eliot. também não era plausível. ou se teriam perdido contato. daquela elite razoavelmente homogênea à qual os escritores e artistas antigamente se dirigiam. 1962). A Vision (Londres. 1926). W. em seu idioma e valores. em conjunto com o "nivelamento". Mas a suposição de que a queda do prevalecente esquema de valores. tão comum entre os intelectuais de espírito liberal do princípio do século. 35 . S. é que o novo público. reduzida ao nível de uniformidade medíocre e mecânica. escreveu F. 214. implica a decadência da civilização. O que é certo. 107. Londres. A. sob o impacto da transformação social. 1926). pág.36 Mas a maior das queixas.. artísticos e morais antigos era contrária a toda a experiência histórica. mas isso não é peculiar à sociedade moderna e sua existência nada prova. 39. de que a propagação do alfabetismo provocaria. Era fácil acusar as massas de indiferença pelas sérias atividades literárias e artísticas e censurá-las pelo alegado abismo entre cultura e civilização. de um Deus sujeito à teoria da relatividade não é possível esperar que forneça inspiração a um poeta. 37 Cf. era que a "cultura das massas" seria sempre um "substitutivo da cultura" e que em toda a sociedade de massas existe sempre "uma influência constante. com seus lamentos sombrios sobre os males da civilização ocidental —. S. The Idea of a Christian Society (Londres. pág.com a cultura. para a depressão dos padrões". era sinônimo de declínio de toda a cultura. Leavis em 1930.ª ed. J. "Civilização e cultura".35 Escritores e artistas recuaram ante a oca fachada da vida urbana e de rotina da civilização mecânica. privara o homem de sua herança espiritual. 1939). é diferente. Richards. em relação à comunidade. simplesmente. e Yeats profetizou "a cada vez maior separação das classes cultas.37 Esse pessimismo cultural. que a propagação da alfabetização criou em escala mundial. de A.. com as novas realidades sociais. à literatura escapista e à música medíocre. R. expressa com veemência especial por T. A ciência. mas era igualmente importante indagar se os artistas e escritores tinham algo a dizer que fosse relevante para o seu novo público. necessariamente) dedicado a entretenimentos triviais. desdenhosaCf. A expectativa de que as classes recentemente ativadas absorveriam. Leavis. Yeats. "estão-se tornando termos antitéticos". R. as bases sociais eram muito mais vastas e os problemas que atraíam sua atenção tinham deixado de ser os mesmos que cativavam a atenção das minorias culturais do passado. como Yeats. pág. Eliot. acreditando. declarou I. automaticamente. a padronização e a comercialização. pág. por outra parte. pág. Ninguém nega que há um vasto público (não de uma só classe. como um todo". foi compreensível como reação contra o complacente pressuposto. em seus gostos e preocupações. A cultura é obra das minorias. I. A. Quando Jimmy Porter disse.. que o mundo da ciência e da política era algo de fatal para a visão poética. T. F. 36 Cf.

que voltou as costas às convenções da vida da classe média do pré-guerra e lançou-se na investigação do panorama social da fábrica. tinha dificuldades em conseguir uma nova audiência. Refletia uma básica mutação na estrutura de classes e preocupava-se com problemas tais como a tensão das relações humanas numa sociedade onde faltam os vínculos tradicionais. Mas a partir de 1955. As formas clássicas de expressão artística — excetuando. exprimiram com precisão o "espírito" — bem como as potencialidades e limitações — da nova civilização tecnológica. a música — tiveram grandes dificuldades em superar o abismo e encontrar um novo idioma. a novelística e o drama. bairros pobres. com uma boa dose de Eliot. Talvez não seja acidental o fato de que os meios que em primeiro lugar procuraram chegar a bom termo com as novas realidades tenham sido o cinema. quase uma década antes. com seu mundo intensamente pessoal. pelo menos. talvez. Foi sustado. que escrevera um poema "embebido na teologia de Dante. ele invadiu o cinema britânico. também. Tal avanço já tivera expressão. poder-se-ia afirmar — apesar da rápida comercialização e rebaixamento dos novos estilos — que a arquitetura foi que tomou a liderança. estava falando em nome de uma geração para a qual os rarefeitos valores estéticos de 1930 eram uma portentosa "conversa fiada". quanto Uma Casa de Boneca fora em 1879 ou O Cerejal. e degenerou com excessiva facilidade em clichês. Grandes projetos de engenharia civil. ou os amplos viadutos rodoviários entrelaçados de cidades como Los Angeles. Foi marcado na Inglaterra por Look Back in Anger (1956). quaisquer que fossem seus méritos literários. pelas deslocações. Como Isaac Deutscher acentuou. mas era uma arte relevante. por exemplo — havia sintomas de um recomeço e na Rússia. em 1904. enxertando-os no "mundo novo do anonimato tecnológico". também".mente. restrições e frustrações que caracterizaram o rescaldo da Segunda Guerra Mundial. no final da Segunda Guerra Mundial. tão característico como expressão de uma nova situação social. os divertimentos e problemas dessas classes. no neo-realismo do cinema italiano. Em 1958. Pasternak falou em nome de uma geração que "estava fazendo sua retirada de cena" e cuja atitude perante a vida não era a das pessoas mais jovens: Yevtushenko representou o advento de uma nova perspectiva do . parecia que. na Europa ocidental. sob a inspiração de Frank Lloyd Wright e Walter Gropius. admitamos. já descobrira formas de expressão funcionalmente adaptadas a uma era tecnológica. como o Rockefeller Center. A arquitetura. dos apartamentos de operários. Não era uma grande arte. em particular. uma nova fase era iniciada. ela esgotara todos os seus recursos. de Osborne. sob muitos aspectos. os quais eram comprovadamente "contemporâneos". de Nova York. retardado — pelas tentativas persistentes para salvar os remanescentes da antiga cultura. tornou-se evidente o avanço numa vasta frente. à sua maneira. A poesia. O aparecimento de formas literárias e artísticas capazes de exprimirem os resultados de meio século de rápidas transformações sociais foi retardado — e ainda está. de fato. depois de Stalin. Mas em outras regiões — na América de língua espanhola.

1960). Eliot. pág. de uma reação negativa para uma positiva e de uma rejeição da civilização tecnológica. Guardini. pelo menos em parte. mas esta passava ao largo das classes cultas e só um reduzido círculo de especialistas deu-se ao trabalho de estudar sua linguagem. As pessoas tinham deixado de aceitar. o impacto da tecnologia estava transformando a face do mundo. 85 41 Ibid. sem discussão. Nesse sentido. para cujo entendimento até o público mais seleto e sofisticado a que eram dirigidos tinha de munir-se de um glossário. sem dúvida — e nisso os pessimistas que lamentavam a decadência dos antigos valores estavam certos — foi uma atitude revulsiva contra o humanismo tradicional e o culto da personalidade que se situava em seu âmago. uma geração ins- Cf. cheios de alusões. págs. perguntou Brecht. de T. 34. meramente. poderia o artista esperar retratálas. Era. 38 . cit.41 Em fins do século XIX.39 quando imensas inovações estavam sendo forjadas em toda parte. deixara de ser encarada como "uma norma útil e idônea de ação". ao fato de que "recebera seu cunho histórico das atitudes de um culto da personalidade". 1963). S. The Anatomy of Soviet Man (Londres. The Great Contest (Londres. e a cultura. 39 Cf. sobre Yevtushenko. 168. E. para a aceitação do seu desafio. 114. pelo menos. por incompatível com a cultura. o qual deixara de ser relevante. cf.mundo. é legítimo — desde que ignoremos os exageros stalinistas de tom. originada entre as gerações mais novas em 1957.. se ele estava limitado aos antigos recursos artísticos? O resultado. I. ligados à frase — falarmos de um retorno ao realismo social. na União Soviética — com resultados absurdos — durante o período stalinista. na época do Renascimento. Mesmo trinta anos depois. op. na acepção em que fora entendida ao longo da História moderna. Mehnert. 40 Cf. Fischer. The Necessity of Art (ed. como figura. na inexistência de um público capaz de continuar apreciando os versos. no sentido em que a ratificação era exigida dos artistas. Quando o surto da civilização tecnológica trouxe novos tipos sociológicos para o primeiro plano. sugerem. K. Isso não implica a ratificação da nova sociedade. o antigo pressuposto de que "o sujeito autônomo é a medida de perfeição humana". a natureza básica da transformação — nomeadamente. representativa de uma nova "onda criadora". Nenhuma criação do espírito humano era mais original do que a Matemática moderna. a cultura européia estava ainda sob o jugo das tradições humanistas e dos valores literários estabelecidos.38 Essas poucas indicações do progresso de novas atitudes. embora inadequadas. escutava e associava de maneira distinta de seus predecessores. pág. Depois. mas seus efeitos nas atitudes humanas fundamentais eram insignificantes. A razão não estava. Como.. antes. na década da Segunda Guerra Mundial. A crise por que passou a sociedade. Deutscher. acentuou Romano Guardini40 foi devida. porque o conteúdo e o estilo de vida da sociedade moderna deixaram de estar diretamente relacionados com os antigos métodos poéticos. 96. finalmente. mas implica o reconhecimento de sua inevitabilidade. as precondições mudaram. porque a nova geração via. 1961). Penguin. pág. pág. em condições totalmente diferentes. 76.

84-5. Naturalmente. pelo menos. A investigação atômica. Foi uma vitória irreversível. de submeter a natureza e dominar o universo. "a camaradagem restará ainda". como em tudo o mais. o velho e intratável problema do indivíduo e suas relações com o mundo em seu redor não ficou solucionado — como poderia sê-lo. "Quando todos os outros valores substanciais se tiverem desintegrado". da expansão da industrialização. ao mesmo tempo. ela "será o supremo valor humano". foi necessária uma nova escala de valores. págs. anteriormente rejeitada por incompatível com a dignidade humana. no mundo contemporâneo. outrora consideradas como específicas da Europa ocidental e da América do Norte. da produção em massa e das modernas formas de comunicação.. As conseqüências potenciais dessas mudanças e. o velho culto da personalidade. na nova sociedade que surgiu no final de uma longa transição entre a História moderna e a contemporânea. disse Guardini. 78. . Porque as exigências feitas à humanidade por tal tarefa eram imensas. ligados à grande tarefa. a cooperação e a camaradagem são. Implicou o aparecimento de novos critérios. em resultado do que as características básicas da civilização tecnológica. que a própria ciência iniciara.42 6 Se desejarmos avaliar o impacto da transformação nas atitudes humanas que tentamos esboçar — uma transformação resultante da aceitação das implicações sociais da ciência e da tecnologia — será importante compreender que. O homem já não inculcava à liberdade de ação externa ou à liberdade de julgamento interior o mesmo valor transcendente do passado. os programas espaciais e outros projetos comparáveis foram muito menos o resultado de iniciativas individuais do que de uma planificação global e de uma combinação de aptidões que só era possível conseguir mediante o trabalho de equipe — ou seja. Com efeito.pirada pelas potencialidades da ciência e da tecnologia logrou abrir caminho através da barreira humanista e apoderou-se do terreno. O resultado foi uma nova atitude em relação ao lugar do homem no universo. alguma vez ? — mas foi posto em novo contexto. da propagação do alfabe- 42 Ibid. Sabia que. nem aspirava mais a viver sua vida de acordo com princípios unicamente seus. o antropomorfismo subjacente da tradição humanista deixou de ser crível e. com ele. 73. tão importantes quanto aquela. se as pessoas estivessem prontas para aceitar certa medida de disciplina e conformidade. No universo expansivo de Hoyle. ela não se limitou à Europa. na complexa. estaria certo dizer que o aspecto mais significativo da nova perspectiva é seu caráter mundial. altamente articulada sociedade em que vive. da vida urbana. em última análise. Isso foi uma conseqüência. a antiga ética individualista deixara de fornecer padrões relevantes e que a solidariedade. estão rapidamente tornando-se universais.

hábil. a cultura tradicional — seja a própria ou a da Europa ocidental — é resposta suficiente. hoje. 1953). ainda no princípio. aponta as enormes potencialidades humanas de que se dispõe. no Egito. não do indivíduo. esse processo de diversificação avançou de novo. mas constituem uma indicação suficiente de que a transformação social. seria ilusório esperar uma "reintegração da arte na vida comum da socieda- Cf. toda a sua escala de valores foi baseada na atividade. Como Alfred Weber acentuou. São Paulo e Brasília são inexcedíveis em qualquer parte do mundo. 169. e a transformação. poderá ser um sintoma de renovação. Alfred Weber. na África e outras regiões. já deixou de ser esse o caso. São progressos. pundonoroso. "apesar de todas as idéias em contrário". a antiga cultura literária. Mais recentemente. em resultado de uma rápida propagação do ensino e da educação. seja qual for a sua profundidade. (Londres. cidades como o Rio de Janeiro. América como consciência (México. seu néant e sua nausée. Mesmo na Europa ocidental. na planificação urbana e na arquitetura. Orozco e Rivera. no prazer dos ócios em companhia de outros — e uma ética social que idealizava a individualidade comporta uma diminuta relação com os fatos da experiência vivida por essa gente. há uma tradução inglesa. pág. os países em ressurgimento recente já marcham na vanguarda. A grande escola mexicana de pintura. 1946). para nenhum desses povos recentemente despertados. Nos anos entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. 43 . págs. afeta a vida da gente comum em demasiado poucos pontos. os Estados Unidos já tinham afirmado uma nova proeminência no mundo de fala inglesa e foram escritores americanos da envergadura de Faulkner e Hemingway que estabeleceram o novo rumo. O mesmo será ainda mais verdadeiro em relação aos trabalhadores recentemente emancipados e alfabetizados em outras partes do mundo As especulações e preocupações do tipo que os escritores e artistas europeus se inclinavam a tratar são alheias à experiência daqueles. o existencialismo. etc. 160. nos inevitáveis e íntimos laços da unidade familiar. Zea. e. 1947). Abschied von der bisherigen Geschichte (Hamburgo. 237. págs. com o título Farewell to European History. na África. 239.44 Nessa ordem de idéias. os movimentos artísticos e culturais significativos se irradiavam todos da Europa. e podemos observar já os primórdios de significativos movimentos literários na América Latina. em pouco mais de uma geração. com a realidade americana. L. 170-1. E claro está que. pouca relação tem.43 Hoje. teremos de contar com uma transformação semelhante das classes trabalhadoras na China. não é absolutamente verdade.tismo. que o trabalhador industrial nos Estados Unidos ou na Inglaterra tenha sido "despersonalizado". representada por Siqueiros. o Japão conquistou um lugar de distinção na arte do cinema. já provocara impacto antes da Segunda Guerra Mundial. com suas intensas preocupações pessoais. mas do grupo — na camaradagem do escritório ou da oficina. nunca de colapso. 44 Cf. com suas angústias. ainda não foram inteiramente apreendidas. Há cinqüenta anos. evidentemente. do mujique russo num operário industrial receptivo. Em outros domínios. como foi assinalado por um escritor mexicano. com um imenso apetite por literatura.

talvez possamos esperar que a arte e a literatura interpretem o "mito" da era contemporânea e dêem expressão a suas crenças e modo de vida. Uma das características mais significativas da era contemporânea foi o estímulo que as revoluções do século XX. mas essa idéia. enquanto "os cientistas têm o futuro em seus ossos". amputada da tradição nativa. 11 45 . Freqüentemente se argumenta que a Europa. embora amplamente propagada. cit. Snow sustentava que. que traduzimos literalmente: "we" 1ª pessoa do plural subjetivo e "Us". forneceram a base para uma civilização que. o contraste significa: de nós (uma parte de todos) para nós (todos.46 Se observarmos quão recentemente o mundo contemporâneo se tornou plenamente visível. que estivera em constante ampliação desde a Revolução Industrial. Essa prova de renovação cultural. mas não exclusivamente. sobretudo. assim também devemos esperar que reflitam a mudança no equilíbrio de forças do mundo. Quem se lembre do grau em que a literatura européia. from "we" and "They" to "Us". por formas européias e o estímulo de idéias européias. esse atraso não deve surpreender ninguém. sem exceção. por volta de 1939. pág. Com a nova consciência social.. Em 1959 C. é verdadeiramente universal em suas conotações. com formas estéreis e temas tradicionais. e foram influenciados. de fato. muitas vezes no sentido de que tudo o que apareceu não passa de uma versão pálida e imitativa dos modelos europeus. Enquanto. do T) 46 Cf. Estão geralmente associados — como o nascimento da literatura européia esteve associado. a expressão usada foi. volta agora a fechar-se. Em inglês. alguns dos mais persistentes obstáculos foram removidos. às do simbolismo francês — foi apreciada e interpretada de várias maneiras. forma objetiva do mesmo pronome. Finalmente. reteve e continuara retendo sua liderança cultural. Portanto. incluindo eles). 286. sem perder seus modos específicos de expressão. Só é possível dar a mais esquemática indicação do âmbito e do impacto dos novos movimentos culturais. op. na África. cit. Mas tal como seus temas serão novos. no período do Renascimento. P. embora perdesse sua hegemonia política. de "nós" e "eles" para "nós".com o vernáculo. novos impulsos despertavam na Ásia. dos modelos Cf. Williams. e mesmo antes. em escala mundial. séculos atrás . a poesia da maior parte dos países ocidentais estava evidenciando sintomas de exaustão. pág. O contraste pronomial usado por G. (N. a mudança de prisma. pessoa e número. Essa reação às influências européias — freqüentemente. A consciencialidade e a interpretação não podem preceder a criação. pouca base. op.. que foi o mais nítido resultado dos acontecimentos da primeira metade do século. tem. é um dos aspectos mais significativos da cena contemporânea. incutiram à vida artística e cultural de outros continentes. Simultaneamente. Snow.45 Mas as transformações acima esboçadas indicam que um ponto decisivo foi alcançado e que o abismo entre o desenvolvimento cultural e o social.de". libertando-os de seus vínculos com o passado. em suas formas e temas. "a cultura tradicional reage desejando que o futuro não exista". estava dependente. na América Latina.. a mutação do indivíduo isolado para o indivíduo em sociedade e. B requer um esclarecmento. também.

258. Literary Currents in Hispanic America Mass. Henríquez-Ureña. J. Hensman (Community. R.50 eram os "precursores" e sua importância está menos no que realizaram do que na influência que exerceram e nas novas correntes que puseram em movimento. 16. por volta de 1925.49 Mas estes. 127. 53 Cf. vol. Ceylonese Writing. 47 1962).. sobretudo. na América do Sul.52 O que os novos movimentos literários da Ásia adquiriram do Ocidente . "O que os exemplos estrangeiros fizeram". 286. através da imitação de modelos ingleses. como Sir Hamilton Gibb escreveu. 49 Cf. 25. na emancipação de obsoletas imagens e rígidas convenções. Foi neste aspecto. como Sir Hamilton Gibb disse a respeito da moderna literatura árabe. até chegar a um ponto morto".cit. pág. Tal ocorreu. mas. R. a literatura dos primeiros tempos foi derivada e de pouco mérito literário intrínseco.incluindo a Rússia . 50 Op.53 A própria sinCf. Keene. 67. 292 51 Cf. hesitará antes de aceitar como boa aquela avaliação. 52 Keene. perifrástico e obscuro — era algo divorciado da realidade presente. mas. a publicação de The River Sumida. págs. "o problema pouco tem a ver com uma deliberada imitação do Ocidente". Na realidade. 298. que "evoluiu. C. em 1909. o velho estilo literário — rebuscado. era a criação de uma pequena elite. A. . um modelo para um idioma flexível. Some Perpectives. num compartimento separado que dividia a arte da vida. Levenson. Modern Japanese Literature (Londres.foi. D. lombo. 192. 5.48 Apesar disso. "se os japoneses não sentissem a necessidade de criar uma nova literatura. "foi facultar aos japoneses os meios de exprimirem suas novas idéias e sua consciência de serem homens da esclarecida era Meiji". em todos os países onde o impacto ocidental se fez sentir. sobretudo. foi assinalada como ponto de transição "de um período em que as obras européias eram subservientemente imitadas para outro em que a compreensão e receptividade para com elas não permitia. 1963). 48 Cf. e da primeira literatura anglo-cingalesa. pág. um mistério em que só os educados escolasticamente podiam participar. de Nagai Kafu. é indiscutivelmente verdade que. R. Confucian China and its Modern Fate (Londres.clássicos. é igualmente válido para a literatura japonesa anterior ao grande período de criação. porém. faltavam-lhe recursos para dar expressão ao pensamento e ideais da sociedade moderna. pág. Em breve uma nova fase era atingida. na literatura árabe do século XIX. por exemplo. encerrando-os. Isso aconteceu não só com os primeiros sinais de novas correntes. Studies on the Civilization of Islam (Londres. que a influência ocidental foi mais vigorosa. 1945). através do qual se exprimissem os pensamentos e ideais da civilização moderna. entre 1905 e 1915.. com alguns desvios ocasionais e agradáveis. P. cit. 1956). pelo contrário. pág. Em todo o Oriente. que obscurecessem nossa herança nativa". não haveria influência alguma estrangeira que interessasse". pág. op. Co- (Cambridge. H.47 Essa afirmação pode ser interpretada mais genericamente. pág. Gibb. disse um escritor americano sobre o Japão.. 1958). quando começou a pesquisa "de uma expressão artística que fosse nossa e não subserviente da Europa".51 e no Japão.

55 Mas foi na China que as questões ficaram formuladas com maior clareza.57 O ponto essencial é que a reforma literária fez parte do próprio despertar nacional. pag. da literatura e das belas-artes — seria "incapaz de transformar a nossa sociedade". 299. Daí a ênfase no vernáculo como meio de criar uma literatura viva. 274.54 O resultado foi uma revolta — à qual resistiam os conservadores e os tradicionalistas — contra as antigas formas literárias e. como único veículo apropriado para as novas idéias. um uso deliberado do idioma coloquial ou vernáculo. em 1927. a fim de "acelerar seu radical despertar". Mass. Ortent. Além disso. na China. onde. serve de epítome às transformações subentendidas no renascimento cultural do mundo extraeuropeu.. O grupo Hsin ching-nien. também. O escritor egípcio."tous. 1953). à custa do espírito e da realidade". visto que. encontrava as expressões inglesas e francesas apropriadas formando-se em seu espírito. as três metas da revolução literária que Chen formulou da seguinte maneira: 1.. op. "uma revolução puramente política" — desde que não trouxesse mudanças nos domínios da ética. Huang Yuan-yung já afirmara que o necessário era "colocar o pensamento chinês em contato direto com o pensamento contemporâneo do mundo". da moralidade. Hu Shih denunciou o chinês literário como língua morta. tal movimento pode redundar num acontecimento de maior significado na História chinesa do que muitas revoluções políticas em que os historiadores procuraram as chaves explicativas de eventos recentes.cf. Gibb. seu sentimento de rebeldia quando era incapaz de exprimir. 272. em vez disso. empoada e obsequiosa literatura de um Cf.56 A revolução literária. Um escritor. 57 Para o que se segue. inaugurou uma revolução cultural cuja importância será difícil exagerar. sobre Abdel-Malek Nuri e os escritores de pós-guerra do Iraque . a teoria em que se baseava a literatura chinesa clássica — ou seja. n. 504. Chow Tse-tsung. e acrescentou: "devemos cuidar para que os ideais do pensamento mundial se relacionem com a vida do homem comum". Decaíra por causa da "superênfase no estilo. 1960). a língua correntemente falada.. como na China e no mundo muçulmano. hantés par les problèmes de l'actualité politique ET sociale" . por exemplo. em 1916 e 1917. op. 56 K. os princípios morais) — era demasiado restrita. para o historiador do futuro. que seu propósito era "transmitir o tau" (quer dizer. 271 e segs. a "nova juventude" reunida em torno de Chen Tu-hsiu e Hu Shih. explicou amargamente. foi a ponto de sugerir que. pág. Pannikar. particularmente. cf. págs. M. 18. como o iraquiano Abdel-Malek Nuri. em seu próprio idioma. 254. cf. porque "já não era falada pelo povo". Hussein Haykal. com efeito. Para o Egito. 294. cit. The May Fourth Movement (Cambridge.ª 4 (1957). e daí. de fato. a língua literária já deixara de ser. 54 55 . Gibb. pág. Ana and Western Dominance (Londres. como escreveu Chen Tuhsiu. aquilo que sinceramente sentia e.. há muito.. poderia afirmar-se que foi sua parcela mais importante. Esse retorno ao vernáculo começou cedo no Egito e foi continuado por escritores em todo o mundo árabe. cit. Derrubar a pintada.taxe requeria ser ajustada de maneira a corresponder aos modernos métodos de raciocinar e sentir. págs.

Polônia. e criar a fresca e sincera literatura do realismo. As influências européias forneceram o estímulo literário original. Daí em diante. os pensamentos e sentimentos que ele expressa "devem ser comuns às massas. os anos de fermentação revolucionária que encontraram uma saída no movimento de Quatro de Maio. Turguenev e Gorki. Entre os autores franceses estavam incluídos BArbusse.. Levenson. Chow Tse-Tung. foram aqueles em que os princípios de Chen entraram em vigor. especialmente a literatura dos "povos oprimidos". a expressão de sentimento pessoal e de "arte pela arte". op. num veículo de expressão para uma nova realidade social. os aspectos sociais da literatura iniciavam sua ascensão. Gogol. o pessimismo. Estados Unidos. Tolstoi. ininteligível e obscurantista literatura do eremita e do enclausurado. Mas os efeitos mais significativos da influência ocidental não foram literários e sim sociais. Mao Tun (n. Rússia. comuns à humanidade inteira. França Grã-Bretanha. O espírito da época. nos países em causa. Os novos horizontes revelados pela literatura do Ocidente. Maupassant e Zola. estava agonizante. e o tom dominante. Rabidranath Tagore também foi traduzido. "Depois de 1919". transformou a nova literatura. Israel. falando claro. na China. da sociedade em geral. a Sociedade para Estudos Literários. as comparações que foram então possíveis. Holanda. o curso dos acontecimentos na China representava o que estava ocorrendo em outros lugares. 1896). Bjornson. de um tipo literário derivado e subalterno. constituíram poderoso fator no abrir de olhos de toda uma nova geração para as realidades da cena social chinesa. p ág. mas em breve o impacto de movimentos nacionais. "a literatura vernácula propagou-se como se calçasse as botas de sete léguas". simples e expressiva literatura do povo. Anatole France. incluindo a Alemanha. 128. Baudelaire. sociais e religiosos. a literatura criadora. E com ela disseminou-se uma nova consciência social e uma nova atitude em face dos problemas chineses. cit. da novelística tâ- Ibid. Espanha. Pág.59 Em todos esses aspectos. Foi esse o caso. impele o escritor para a busca da verdade social. Por volta de 1925. Noruega. Os anos de 1918 e 1919. Seus efeitos foram reforçados. 284 58 . que o contato com a literatura européia estimulara. Dostoievski. op. anunciou Mao. cit. e não só para o próprio escritor". e criar uma direta. Estavam representados mais de vinte países. pelo trabalho de uma nova organização. os russos incluíram Andreyevdranath-Artzybashev. Áustria-Hungria. Derrubar a pedante. 59 Cf. 285. fomentado pela nova figura literária. por exemplo. dos escandinavos. para o individualismo. Ibsen e Strindberg. escreveu Hu Shih mais tarde.. 2. Itália e Bolívia. passou a ser modelada pela literatura do Ocidente e tinha pouca ou nenhuma relação com os clássicos chineses. Boler.. era contra o esteticismo e a favor do realismo. Dos Indianos. p ág. que empreendeu em larga escala a tradução da literatura ocidental.punhado de aristocratas. e criar a literatura popular. Bélgica. 3. Derrubar a estereotipada e superornamental literatura do classicismo. depois de 1921. a primeira tendência. Suécia.58 O resultado foi o colapso da língua literária arcaica e das antigas formas literárias estereotipadas.

quando rechaçou sua dependência dos modelos europeus. e na índia tornou-se dominante através da influência exercida pela Associação dos Escritores Progressistas. op. que se tinham retirado da política e dedicado à literatura "pura". pág. Henríquez-Ureña. 185-98. pelo realismo social de suas criações. pág. fundada em 1935. A partir de 1920. a luta com a selva. pág. op. o mesmo empenho profundamente social e político constituiu elemento poderoso na poesia da África (na apreciação de Sartre.. Evolução semelhante já ocorrera na Hispano-América. destinada a ecoar na África. "uma cultura de progresso". Hensman.mil. Keene. sem uma religião tolerada. na China e no Japão desse período. op. 505 63 Para o seguinte. foram suplantados. op. sua intensa preocupação com os problemas desesperados da sociedade. 65 Cf. nas palavras do poeta peruano José Santos Chocano. 286. 287.. Chow Tse-tsung. os modernistas. Gibb. 27. os modernistas egípcios foram inspirados pela convicção de que um "renascimento literário. a literatura hispano-americana afirmava sua situação de independência. cit. op. 60 61 ..63 Aí. pág. até ao limite extremo de possibilidades". Com poetas da estatura do chileno Pablo Neruda (n. a ser despertada sob a influência vigorosa dos índios ocidentais Aimé Césaire e Léon Damas. 168-73. págs. op. como disse Pannikar. entre 1918 e 1922. as violências e choques de condições ignoradas na Europa e. 64 Cf. em particular. por escritores e pintores que lutaram por relacionar a arte com os movimentos sociais de seus países. mas "vigor de pensamento e coerência com o presente". mas uma cultura natural. cit. cf. prepaCf. 260 Gibb. Depois de 1925."índio que labras con fatiga tierras que de otros duenos son".. ocupava-se de problemas especificamente hispano-americanos. Pannikar.61 Na Índia. 1914). cit. 1904) e do mexicano Octavio Paz (n. sem uma cultura própria reconhecida e sem poder ou influência nas novas sociedades mistas que foram edificadas com seu trabalho. cit. discípulos dos simbolistas franceses. profundamente diferenciadas do estilo predominante na literatura ocidental da década de 1930. cit. cit. Encontramos as mesmas características. refletindo unia revolução nas idéias e concepções do povo. não era criar uma cultura intelectual. 505. é preliminar necessária a uma renovação completa da vida nacional".64 No mundo árabe. cit. até ganhar plena expressão no volume que marcou uma época. pág. pág. "a verdadeira poesia revolucionária de nossa época"). "uma cultura de decadência e meras palavras". segundo as palavras de Abás Mahmud Al-Akad. apareceu em Puerto Rico e Cuba: uma poesia de imensa beleza que — por exemplo.. 260 62 Op.65 E. cit. Não só a literatura hispano-americana foi notável. uma poética sobre a vida do negro. os problemas sociais do negro e do índio . finalmente.. nas obras de Nicolás Guillén exprimia o dilema do negro condenado a um permanente estado de exílio. op. A finalidade deles.. 282.62 "não era a Europa" mas a "Vida Nova" que se refletia na nova literatura — na "poesia e na prosa em que as condições de nossa existência são constantemente relatadas. sem um nome tribal.60 O que os modelos ocidentais forneceram não foi conteúdo. no Ceilão. págs..

antieuropeus em conteúdo. 44.68 e em sua hostilidade contra o mundo branco: Escutem o mundo branco como se ressente de seus grandes esforços como seus protestos se quebram sob as rígidas estrelas como a velocidade de seu aço azul é paralisada no mistério da carne. Piedade! Piedade pelos oniscientes conquistadores ingênuos. se desprende o eco de suas derrotas. particularmente na de expressão francesa. Escutem o lamentável tropeçar nos grandes álibis. também na África. 23-24 os quais afirmam que "o manancial da negritude está ficando seco". págs. expressas por poetas como David Diop. cit. Hurra por quantos nunca inventaram coisa alguma Hurra pelos que nunca exploraram coisa alguma Hurra pelos que jamais conquistaram coisa alguma Hurra pela alegria Hurra pelo amor Hurra pela dor de lágrimas encarnadas. 94-103. pág. com freqüência. a questão é tratada por Legum. "o ritmo do pulso negro da África.70 O problema da África. Para uma seleção mais recente e mais representativa. Escutem como. em resumo. Não é necessário discutir aqui o problema. 1962). Pan-Africanism (Londres. a atitude dos poetas africanos de expressão inglesa é diferente.. mas subentendida numa similaridade de forma estava uma experiência diversa: a grande experiência de um despertar histórico. 58. 69 Os temas de negritude e protesto não são. encontrara pela frente uma contrarevolução cultural africana. uma redescoberta e reafirmação de valores africanos. numa época em que a poesia européia estava assombrada pela desintegração do antigo modo de viver. cit. 66 . de Césaire. evidentemente. págs. no tema da négritude: Sofre. para exprimirem idéias e sentimentos profundamente não-europeus e. 67 Moore e Beier. e não admite uma resposta simplista. op. como foi assinalado pelo poeta ganes Michael Dei-Aneng. de suas vitórias. autores como Senghor e o poeta malgaxe Rabéarivelo mantêm-se na tradição do simbolismo francês. Negro tão negro quanto a Miséria. é o de um continente "situado entre duas civilizações". cf.rado em 1948 por Léopold Senghor: a Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache. tal como Césaire faz um soberbo uso do idioma surrealista. em língua inglesa. pág. 1956). Mas sua influência é de tal modo pujante que A antologia de Senghor não é fácil de obter. Certamente.66 Assim. 70 Isso é realçado por Moore e Beier. 68 Citado por T. 1963). de uma tradução do Cahier d'un retour au pays natal. Tecnicamente. na neblina de aldeias perdidas". 69 Citado por Colin Legum. Nationalism in Colonial Africa (Londres. op. Gerald Moore e Ulli Beier. Os temas de Senghor e de seus seguidores eram "o travo amargo da liberdade". págs. Hodgkin. pobre negro. depara-se-nos o padrão já familiar na Ásia e ao norte do Saara: o uso de formas e imagens de origem européia. 93.. Modern poetry from Africa (Penguin Books. o conteúdo exclusivo da literatura africana.67 A revolução cultural européia.

um conceito definido de vida estabelecido em contraponto consciente ao da Europa. ao norte e ao sul do Saara. op.72 Neste ponto. a evidência literária revela uma coerência notável. *** 71 72 Ibid. são inequívocas. as respostas serão dadas "pela humanidade como um todo — não um país ou uma cidade. e a civilização do futuro. págs."crentes e ateus. as provas evidentes. como um todo. na Europa? Se. na qual todos os continentes desempenharão sua parte. como a política. no campo literário e artístico. a literatura e arte européias também se reconciliarem com a nova civilização da máquina.71 Essa é a característica particular da literatura renascente. no Amazonas e no Rio da Prata. A poesia africana está impressionantemente isenta de Kulturmüdikeit. Observando no conjunto. de novas energias procurando expressão. que se impôs como uma venda nos olhos da geração anterior. está tomando forma como civilização mundial. com ela. Essa fase não é também uma coisa do passado. Sabem que tudo quanto exprimem não constitui o sentimento de um povo. "se encontram todos mais ou menos comprometidos". como no passado". seus escritores e artistas estão empenhados em dar tudo quanto podem a fim de contribuírem para a edificação de uma nova civilização. se à disposição de espírito refletida na rejeição e resignação seguir-se uma disposição de afirmação e de exploração das novas potencialidades que a ciência gerou. então.. pág. Cf.escritores e artistas de todas as categorias . muçulmanos e comunistas". cristãos. rompeu com seus vínculos europeus. tanto na Ásia e na América do Sul como na África. . como sugeri. 27. o predomínio da antiga escala européia de valores. cit. na literatura européia. quiçá não seja ilusório prever a síntese que ainda nos foge: o "desenvolvimento de uma cultura comum" e a "reintegração da arte na vida comum da sociedade". A literatura. cuja gênese tentei traçar nas páginas precedentes. A era européia — a época que se estendeu de 1492 a 1947 — terminou e. da tecnologia e do "homem comum". nas terras dos Andes. Jaffé. 98-9. agora. e a experiência que ela traduz.. serão muito mais vastas do que jamais o foram. No Extremo Oriente e no Oriente Médio. traz-nos um conjunto de novos povos que surgem. como Alioun Diop certa vez se exprimiu. mas é precisamente nisso que eles vêem sua contribuição para o futuro. ou cansada desilusão. mas as concepções de uma minoria que luta por interpretar os acontecimentos do presente para o povo. Mas sua base.