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A Possibilidade Do Autoengano

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Comunicação de PORCHER, J.E.F. (2009)
José Eduardo F. Porcher
PPGFIL-UFRGS
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A possibilidade do autoengano1

José Eduardo F. Porcher
PPGFIL-UFRGS

Resumo
O autoengano, ou o enganar a si mesmo, é um fenômeno psicológico comum, que permeia a vida dos seres humanos tanto individual quanto coletivamente. Ele está presente quando uma pessoa dá assentimento a uma crença que – de acordo com suas próprias normas racionais – é falsa ou infundada, e o faz com certa motivação. Quando tentamos caracterizar precisamente esse fenômeno, entendido segundo sua acepção popular, encontramos dois grandes problemas de explicação: tanto o seu estado mental resultante – a crença em duas proposições contraditórias – quanto a sua dinâmica – o processo de esconder de si mesmo a verdade de uma proposição – parecem, à primeira vista, impossíveis. Propomo-nos à exposição e análise da principal família de estratégias de resposta a estes problemas. A partir disso sugerimos que filósofos e psicólogos podem ter – até pouco tempo – procurado em vão por uma descrição de um fenômeno cuja existência é implausível. Sugerimos também que ao abstrairmos o significado usual de ‘engano’ no nome ‘autoengano’, podemos descrever não-problematicamente um fenômeno que parece com sucesso suprir a lacuna conceitual em questão. Isso se torna visível ao aplicarmos a exemplos relevantes um modelo alternativo de explicação que pretende, sobretudo, dissipar as contradições das explicações prévias. Palavras-chave: autoengano; crença; viés cognitivo; irracionalidade; motivação.
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Este texto é uma versão levemente estendida de um texto apresentado na III Semana Acadêmica do PPG em Filosofia da PUCRS (25/06/2009) e no I Seminário Regional de Alunos de Pós-Graduação em Filosofia na Unisinos (21/08/2009).

1 Um conceito em busca de um fenômeno
‘Autoengano’ é o nome que se dá a um fenômeno psicológico que consiste em certa falha da racionalidade de um sujeito dada certa motivação. Isso quer dizer que o sujeito, ao invés de priorizar suas normas racionais, cede às suas inclinações na formação de uma crença. Manifestamente, o sujeito viola requisito de que, na formação de uma crença (com base em raciocínio, indutivo ou dedutivo; ou com base na percepção, ou na memória, ou no testemunho), leve em conta toda evidência de que dispõe. Até aqui podemos dizer que há consenso. Em que exatamente consiste tal fenômeno, isto é, quais estados mentais e processos cognitivos o caracterizam, é matéria de viva discussão. A questão que nos interessa é apenas uma entre muitas suscitadas pelo autoengano, mas pode ser considerada a mais fundamental: como é possível que um sujeito creia contrariamente às evidências às quais tem pleno acesso? Um elemento para responder a esse aparente ‘paradoxo da racionalidade’ também parece ser matéria de consenso: a irracionalidade de que estamos tratando é motivada. No conflito entre aquilo que é o caso (ou que no mínimo é indicado pela evidência disponível) e aquilo que se deseja, resulta vencedora a motivação sobre a racionalidade. Torna-se claro, portanto, que não estamos tratando do mero erro, que não é necessariamente irracional. Nem estamos tratando de pensamento desejoso (wishful thinking) – crer naquilo que se deseja que seja ou venha a ser o caso – porque em tal caso não se supõe o conflito com a evidência disponível. O fenômeno de que nos ocupamos é um caso mais preocupante e, muitas vezes, censurável, pois nele não há só ausência de justificação, mas presença de justificação para o contrário e, todavia, as meras inclinações do sujeito dão forma a representações que normalmente expressariam seu compromisso racional para com o mundo: suas crenças. Pode ser esclarecedor exemplificar instâncias do fenômeno cuja descrição precisa espera-se alcançar. É comum depararmo-nos com casos do seguinte tipo, que cremos que a maior parte daqueles que usam o termo ‘autoengano’ irá concordar que são típicos:    A mãe que aparentemente se recusa a crer que seu filho seja um usuário de drogas ilícitas; O esposo que aparentemente se recusa a crer que sua esposa esteja praticando adultério; O paciente que aparentemente se recusa a crer que está doente;

  

O alcoólatra que aparentemente se recusa a admitir seu vício; O profissional que aparentemente se recusa a aceitar a mediocridade do seu trabalho; O cientista que aparentemente se recusa a crer que os resultados da sua pesquisa sejam sua responsabilidade; etc.

O que torna casos desse tipo peculiares é, como mencionamos, a sua ocorrência na presença de evidência suficiente para convencer um observador imparcial da falsidade—ou, ao menos, da improbabilidade— das crenças que o sujeito autoenganado aparenta portar. No caso da mãe, podemos imaginar a presença manifesta de parafernália típica de usuários—ou até mesmo as próprias drogas—entre os pertences do seu filho. No caso do marido, certo perfume masculino detectável recorrentemente quando sua esposa retorna de reuniões de trabalho que, por sua vez, ocorrem em horários cada vez mais suspeitos. E no caso do profissional, a constante rejeição da qualidade do seu trabalho por especialistas reputados na sua área. Nosso uso do advérbio ‘aparentemente’ em nossa descrição dos exemplos quer sublinhar que, mesmo que o comportamento verbal dessas pessoas indique que estas portem a crença falsa—ou não autorizada—é uma tarefa em aberto determinar se isso é o caso, dado que o comportamento não-verbal do autoenganado frequentemente coincide com o estereótipo daquele que, de fato, crê no que é indicado pela evidência disponível. A tensão epistêmica característica do autoengano transparece no comportamento da mãe quando esta, por exemplo, trata o filho com o desdém que possui por usuários de drogas; ou no comportamento do esposo, quando este trata sua esposa com crescente frieza; ou no do profissional, quando este mostra cada vez menos entusiasmo pelo seu trabalho. Existe, é claro, um contínuo que engloba casos de níveis variados, dependendo do volume e relevância da evidência que depõe contra a crença do autoenganado. Mas todos eles têm em comum a característica tensão entre proposições contraditórias, uma das quais é apoiada pela evidência presente, e a outra pela motivação do sujeito. Tanto a primeira análise desses casos quanto o nome ‘autoengano’ sugerem que o autoenganado instancia uma dinâmica generalizável da seguinte maneira: 1. 2. O sujeito deseja que p seja o caso; ~p é o caso, ou: a evidência provê autorização para crer que ~p;

3. 4. 5.

O sujeito, portanto, crê que ~p; O desejo que p o faz engajar-se em processos que modulam seu encontro com a evidência; O sujeito, portanto, crê que p.

Ou seja, o desejo que p leva à crença que p, a qual, por suposição, é falsa. Sendo ~p a crença justificada, caracterizamos o sujeito como irracionalmente motivado. Essa primeira caracterização parece coincidir com uma acepção literal do termo ‘autoengano’, na qual este é uma forma reflexiva, intrapessoal, do fenômeno interpessoal do engano. Assim compreendido, onde no engano temos ‘X engana Y’, no autoengano teríamos ‘X engana X’. É oportuno lembrar que quando dizemos que uma pessoa engana outra (intencionalmente), queremos dizer algo como ‘X sabe que p e provoca intencionalmente em Y a crença que ~p’. Por exemplo, Iago sabe que Desdêmona é fiel e provoca intencionalmente em Otelo a crença na proposição contrária. O caso reflexivo do engano, portanto, constituiria no seguinte: ‘X sabe que p e provoca intencionalmente em X a crença que ~p’. Isso importa na coexistência de ambas as crenças, manifestamente contraditórias, na mente do mesmo sujeito. Denomina-se, por vezes, de problema estático do autoengano a dificuldade teórica de explicar como tal estado mental seria possível. Obviamente, crer que p e concomitantemente crer que ~p não equivale a crer na contradição ‘p & ~p’. Mesmo assim, não é de modo algum óbvio que e como seria possível crer em duas proposições contraditórias simultaneamente. Não obstante, essa caracterização foi aceita por psicólogos que reclamaram ter demonstrado empiricamente o autoengano, como Ruben Gur, Harold Sackheim,2 George Quattrone e Amos Tversky.3 A partir da acepção literal concluímos também que A engana intencionalmente a si mesmo. É esta a acepção de engano que interessa aqui, e não uma forma não-intencional ou acidental de engano, como quando provoco inadvertidamente em um passante a crença de que sou falante do idioma sueco ao reproduzir no original um trecho do hino recitado em Morangos Silvestres de Bergman. Contrariamente a esse tipo de situação, como vimos, o fenômeno que nos preocupa aqui sempre envolve alguma motivação. Deparamo-nos, assim, com o que é, por vezes, denominado de problema dinâmico do autoengano, o qual consiste na
Gur & Sackheim (1979). Quattrone & Tversky (1984).

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dificuldade de explicar como seria possível — e não francamente autoderrotante — um projeto intrapessoal de engano intencional, dado que o sucesso do projeto depende, por parte do enganado, da ignorância do propósito do enganador (e estes seriam, no autoengano, o mesmo sujeito). Estes são os problemas que incitam diretamente a especulação epistemológica sobre a possibilidade do autoengano. Sartre foi talvez o primeiro proponente dessa caracterização problemática, sugerindo que quando engano a mim mesmo, “devo como enganador conhecer a verdade que é mascarada de mim como enganado”.4 Podemos chamar literalista esse tipo de abordagem, pois esta supõe que o ‘engano’ em ‘autoengano’ deve ser entendido literalmente. A solução literalista tradicional aos problemas suscitados por tal caracterização—herdada sem solução por parte de Sartre—consistiu em dissolver a aura de paradoxo mediante a postulação de partições mentais à maneira de Freud. Esse grupo de estratégias inclui tanto a postulação de uma divisão extrema da pessoa—por Amélie Rorty5—onde a parte enganadora é um subagente relativamente autônomo, capaz de crenças, desejos e intenções, quanto uma divisão moderada—por David Pears6— onde a parte enganadora mesmo assim constitui um centro separado de agência. A idéia é que seríamos complexos de subagentes capazes de instanciar o engano interpessoal em um nível intrapessoal. É fácil perceber como isso resolveria os problemas pendentes: a caracterização ‘X engana X’, que criava dificuldades, é convertida na caracterização nãoproblemática ‘X engana Y’, onde X e Y são subagentes de um sistema presumivelmente unificado: a pessoa; e tais subagentes representam o papel de enganador e enganado, respectivamente. Todavia, esse tipo de explicação substitui uma descrição problemática por um conjunto de quebra-cabeças psicológicos, como observa Mark Johnston: “Como pode o subsistema enganador ter as capacidades para perpetrar o engano? … Por que deveria o subsistema enganador se interessar no engano? Ele simplesmente gosta de mentir? Ou ele supõe que sabe o que é melhor para o sistema enganado acreditar?”.7 Ainda, por assimilar o caso intrapessoal ao caso interpessoal, essa estratégia falha em explicar fatos motivacionais cruciais sobre o autoengano, como
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Sartre (1949, 87). Rorty (1988). Pears (1984). Johnston (1988, 64).

aponta Tamar Gendler: “Se uma das subpessoas crê (verdadeiramente) que p e não crê que ~p, e se essa subpessoa é incomodada por isso e deseja que isso não seja o caso, por que ela acharia psicologicamente frutífero fazer com que outro acredite no oposto?”.8 Em vista dessas complicações, mesmo que abordagens desse tipo resolvam os problemas com os quais nos defrontamos, elas o fazem por introduzir uma teoria da mente que levanta muitos outros problemas. Sobre esse ponto, parece haver consenso que o autoengano pode e deve ser explicado sem invocar divisões que já não sejam usadas para explicar outros comportamentos. Finalmente, a resposta literalista trivializa o problema ao transformar o autoengano em engano. Creio que isso nos autoriza a questionar se esses autores, em sua análise conceitual, não perderam de vista o fenômeno que queriam explicar. Um nível mais modesto de divisão foi proposto por Donald Davidson, o qual evita a abordagem homuncularista dos seus predecessores, no qual seria necessário apenas uma ‘barreira’ entre as atitudes conflitantes.9 A idéia é que não haveria contradição em crermos em proposições contraditórias se estas não possuíssem contato entre si. A confecção dessa barreira—cuja natureza Davidson infelizmente não especifica—entre nossas crenças contraditórias consistiria, portanto, no passo irracional envolvido no autoengano, que seria assistido pela inobservância do requisito de evidência total (cuja observação implicaria no colapso inevitável da crença irracionalmente formada). Nessa mais modesta entres as respostas tradicionais, Davidson sugere que em casos de autoengano “[o sujeito] possui evidência em cuja base acredita que p é mais apto a ser verdadeiro que sua negação; o pensamento de que p, ou o pensamento de que ele deva racionalmente acreditar que p, motiva [o sujeito] a agir de modo a causar em si mesmo a crença na negação de p”.10 Assim, a crença que p é mais apto a ser verdadeiro que sua negação motiva a produção, por um mecanismo de defesa, da crença contrária. Queremos sugerir que essa é uma boa descrição do fenômeno, contanto que não extraiamos dela a conclusão problemática de que a crença que motiva deva necessariamente coexistir com a crença contrária, isto é, que sua persistência seja necessária para sustentar a crença desejada.

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Gendler (2007, 235). Davidson (1985). Davidson (1985, 208).

2 Um fenômeno em busca de um conceito
A principal alternativa à postulação de crenças contraditórias é representada por um modelo de explicação, às vezes chamado deflacionário, cuja estratégia consiste não em uma nova tentativa de solução dos problemas suscitados pela caracterização literalista do fenômeno, mas no abandono total de tal caracterização. Em suma: a existência do fenômeno envolvido em mistério que instigou a busca por uma descrição precisa não seria plausível, e sua explicação seria materialmente inadequada. Teríamos até há pouco, portanto, não um fenômeno em busca de um conceito, mas um conceito em busca de um fenômeno, e tal busca, para todos os efeitos, resultou vã. Para os autores que, desde o começo do debate nos anos 1960, flertam com esse tipo de resposta, não devemos entender ‘engano’ em ‘autoengano’ literalmente, mas como uma metáfora, assim como ‘didata’ em ‘autodidata’.11 Didata é aquele que ensina, e o ensino é uma atividade que envolve, no mínimo, duas partes: aquela que ensina, e aquela a quem o ensinamento é transmitido. Portanto, não faria sentido tentarmos entender o autodidata como procedendo a uma forma reflexiva de ensino, no mínimo porque se pressupõe que aquele que ensina possui conhecimento a transmitir que aquele a quem o ensinamento é transmitido não possui (e a idéia de que alguém possua novo conhecimento a transmitir a si mesmo é um contrassenso). Portanto, o que queremos dizer quando nos referimos a alguém como um autodidata é que este tem autonomia intelectual suficiente para aprender sem um professor; mas pressupõe-se algo além dessa pessoa que seja capaz de transmitir-lhe o conhecimento, como um manual. O projeto de caracterização do autoengano literal redundaria, desse modo, em uma tentativa frustrada de fazer sentido de um contrassenso. Resta ao proponente desse tipo de explicação esclarecer o que seria, então, o autoengano, se não uma forma intrapessoal de engano. Tomemos a caracterização de Davidson apresentada antes: a crença que p é verdadeiro motiva a produção da crença contrária. Vimos que essa motivação é causada por um desejo de que o estado de coisas representado por p não seja o caso (ou que o estado de coisas representado por ~p seja o caso)—um desejo ansioso e emocionalmente

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Canfield & Gustafson (1962).

carregado, como apontam Anette Barnes12 e Ariela Lazar.13 A explicação deflacionária também caracteriza o autoengano como a aquisição (e subsequente manutenção) injustificada de uma crença falsa por determinada motivação. Ela o faz, todavia, sem postular a manutenção da crença justificada original. Essa abordagem pretende, não obstante, capturar a tensão epistêmica característica do autoengano: onde antes tínhamos um conflito entre atitudes contraditórias, cuja explicação produz embaraços, agora temos um conflito entre a evidência disponível e a crença ilegítima que a contradiz. Comparemos à nossa generalização anterior às condições conjuntamente suficientes para que um sujeito se autoengane, sugeridas por Alfred Mele:14 1. 2. A crença que p que o sujeito adquire é falsa; O sujeito trata informação relevante—ou ao menos aparentemente relevante—ao valor de verdade de p de forma tendenciosa; Esse tratamento tendencioso é uma causa direta (nondeviant) da aquisição da crença que p pelo sujeito; A evidência possuída pelo sujeito provê maior autorização epistêmica para ~p que para p.

3. 4.

Segundo essa abordagem, a chave para compreender a dinâmica do autoengano é, portanto, uma apreciação da nossa capacidade de adquirir e reter crenças tendenciosas mediante uma motivação. O autoengano redunda em nada mais que o estado mental resultante da ação do que psicólogos chamam de vieses cognitivos (cognitive biases). É fácil ver que nada há de misterioso em tal caracterização ao aplicarmos esse modelo a uma de nossas ilustrações: o autoengano do profissional medíocre, por exemplo, consiste na aquisição e manutenção da crença falsa de que ele seja um bom profissional frente à evidência contrária, o que é tornado possível pela maneira tendenciosa com que o profissional trata a evidência acessível.15 Esse tratamento pode incluir, dentre muitos outros, os seguintes mecanismos:

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Barnes (1997). Lazar (1999). Mele (2001, 50-1). Kunda (1990) é o locus classicus sobre o papel da motivação no raciocínio.

1. Atenção seletiva:16 nosso desejo que p pode levar-nos à evasão, isto é, a deixar de dar atenção à evidência que conta contra p, e a darmos atenção apenas à evidência que sugere que p seja verdadeiro; 2. Procura seletiva de evidência: nosso desejo que p pode levar-nos a negligenciar evidência facilmente acessível contra p e encontrar evidência para p que é muito menos acessível; 3. Má interpretação positiva: nosso desejo que p pode levar-nos a interpretar erroneamente como apoiando p informação que, na ausência desse desejo, seria facilmente reconhecível como contando contra p; 4. Má interpretação negativa: nosso desejo que p pode levar-nos a interpretar erroneamente como não contando contra p informação que, na ausência desse desejo, seria facilmente reconhecível como contando contra p; 5. Reativação seletiva de memórias:17 nosso desejo que p pode levar-nos a reativar memórias que sugerem que p é verdadeiro e a evitar a reativação de memórias que contam contra p, ou seja, pode levar-nos a efetuar procura seletiva de evidência na memória; 6. Criação de falsas memórias:18 nosso desejo que p pode levar-nos a confundir imaginação e memória, e a confundir memórias verdadeiras com memórias falsas; 7. Racionalização:19 nosso desejo que p pode levar-nos a construir justificações para nossa crença que p que visam contornar o fato de termos chegado a essa crença por outros processos mentais como, por exemplo, pelo desejo ansioso que p seja o caso. Essa lista não pretende ser exaustiva, mas é suficiente para nosso propósito de ilustrar como um sujeito pode ser influenciado por uma motivação. A sugestão da explicação deflacionária do autoengano, à qual subscrevemos, reside apenas em apontar que a lacuna conceitual deixada pelo autoengano pode ser preenchida com sucesso pelo fenômeno da formação e subsequente manutenção de uma crença falsa pela ação de mecanismos dos quais dispomos e com os quais fazemos com que a realidade venha apoiar nossa vontade. Sit pro ratione voluntas: que a minha vontade substitua a razão. Juvenal20 pôs estas palavras na boca de uma aristocrata caprichosa e autoritária, mas variações dessa atitude epistemicamente condenável são—tacitamente—onipresentes.

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Mele (2001, 26-7) é a fonte dos quatro primeiros exemplos. Balcetis (2008). Hirstein (2004). Bach (1981, 358-60). Sátiras VI, 223.

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Conclusão

A literatura filosófica sobre o autoengano, mesmo em seus melhores exemplos, parece padecer do que Wittgenstein chamou de anseio pela generalidade. Esse anseio será sempre malfadado enquanto permear a tentativa de esclarecer fenômenos psicológicos tão variegados e intrincados como o autoengano. Nossa aposta é que a explicação mais satisfatória será aquela que der conta da maior variedade de casos e que, por isso, será uma explicação fragmentária e dificilmente resolverá todos os problemas em um só golpe. Uma investigação aprofundada, a qual esta apresentação representa apenas um prelúdio, procurará fornecer uma taxonomia de diferentes formas de autoengano; determinar precisamente se é uma crença (ou outro estado doxástico) o produto do autoengano; e, finalmente, apontar até aonde podemos imputar a intenção ao sujeito, o que será, por sua vez, subsídio para uma discussão da sua responsabilidade moral pelos seus lapsos de racionalidade. Aqui espero ter apenas delineado os problemas conceituais envolvidos na própria caracterização do que é o autoengano, e sugerido que podemos explicá-lo sem levantar quaisquer paradoxos. Teremos alcançado nosso objetivo se, ao menos, conseguimos tornar visível que o autoengano é filosoficamente interessante, entre outras razões, por nos forçar a confrontar o fato de que nem sempre fundamos nossa visão de mundo em boas razões.

Referências
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