Revista Adusp

Dezembro 1997

PARADOXOS DO JORNALISMO ECONÔMICO
Bernardo Kucinski

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No tratamento de temas não reza dessa economia. como se deu na derrubafundir e não explicar? Numa primeira aproximação.campo popular. a maioria grupos estrangeisatisfação do homem. habitação. na qual exis.candidatura alternativa oriunda do sendo governado por logicamente dividida. incluindo intelectuais. que no Brasil sofrem da de Collor.presidenciais constituem-se num do mais e mais espaço vergências existentes na sociedade. apesar do decaimento geral da reportagem.riscos especialmente no momento que normalmente não são estratélismo econômico.mente de “dinossauros.controle na mídia. As campanhas econômico foi ocupan. fortemente motipacotes — ou desgover. iniciada com a crise da dívida considerados pelo poder como estratégicos.contrário.cionais do noticiário.vem considerar estratégicos. co.tem várias correntes de opinião.externa. até se constituir em núcleo organi. e ideo.destacando nas duas últimas décamiséria e tanto desemprego. especialmente em relação aos te. são denúntica surpreendente.processo. como o aborto. e os temas naturalmente polêsistematicamente surpreendidos transferências devem somar cerca micos. Mas é principalmente nas depor crises e pacotes. a economia passou a legitimadora do jornalismo. chamados sumaria.seus autores.surgimento sistemático de uma cias que contribuem para a desmo- 14 . numa socieda. O jornalismo não vem refletindo. vem se reveapesar da extensão do lando cada vez mais espaço dedicado pela existentes na sociedade.cesso de entrega de patrimônio ja. te público.ros. estudantes e professores universi. produção”. violência. assume o papel de condutora do ou seja.mais verificado num país periféri. contrário.dições de reprodução” do sistema. nado de Fernando Henrique essas de. O vada pela polarização na base da nado — o jornalismo jornalismo não vem refletindo.Dezembro 1997 Revista Adusp À medida que o Brasil foi de socialmente polarizada. especialmente pluralista e crítica. Na denúncia da co é vítima de uma disfunção. ao canismo de compenPa r a d o x a l m e n t e . pouem relação aos temas que as classes Entre esses temas esca gente consegue então os problemas tender a natureza do dominantes devem considerar estratégicos.da sucessão presidencial.núncias de corrupção. Por que foi de US$ 100 bilhões. num cas a esse processo vem se dando das. vem suprimindo as di. “momento estratégico”. Ao mesmo tempo em notamos que o discurso do jorna.mônio do Estado para o setor pri. logo no seu início. Isso se gicas. mas que as classes dominantes de. de suas “condições de re.drogas. numa gantescas transferências de patri.de vista da manutenção das “conespecialmente na mídia impressa. ao estrutura social. voltada não à vado. como ao tinuidade do sistema. clássicos do transpor“mal-estar econômico”.mídia latino-americana vem se do? Principalmente. a mídia. criam-se chefias ra da política.temas são esses? Em primeiro lugar estão as gi. caracterís. a partir do reina. do ponto nos nossos meios de comunicação. mídia à economia. educação e saútários e até mesmo empresários. por que tanta co. mudam os procedimentos internos de zador do noticiário. e sim às ne. pois raramente colocam em do Fernando Henrique.” Outro objetivo estratégico é a corrupção a mídia freqüentemente mo tantas outras em nosso país? Ou sua verdadeira função é con.de poder do presidente.nantes. que toda a te”? Por que o câmbio está defasa. cessidades de acumulatalvez até por um meção do capital. o maior pronecessário este ou aquele “paco. A supressão de opiniões críti. vem suprimindo as divergências sação. erigindo a reportagem investipela simples desqualificação de gativa em um dos gêneros domipaís tão rico? Será que o jornalismo econômi. tornou-se deve tanto à grande concentração risco o modelo econômico e a contotalmente homogêneo.manutenção do próprio sistema. Somente no primeiro rei.e hierarquias especiais e filtros adiinversão ética agravada pela natu. De legitimado. Que e por isso.

Mais uma vez se escamoteou a natureza da crise. Uma crise que não afeta de forma decisiva o carro chefe da economia mundial. foram retratados como heróis de uma resistência nacional contra o “ataque especulativo” do exterior. a mídia esqueceu que o próprio governo havia assegurado que o Real era imune a um ataque especulativo. que não afetou grande número de economias importantes. Não foi o que aconteceu na substituição de Collor por Itamar e por isso a mídia somou na condução das denúncias.Revista Adusp ralização e portanto deslegitimação do político. a tal ponto que se colocaram efetivamente na defensiva. qual desses países foi decisivamente afetado? Nenhum. As oposições foram ignoradas em geral. Nunca se viu tanto Malan e tanto Gustavo Franco em fotos de quatro colunas como durante a crise. No entanto. Mas foi o que se deu no caso da compra de votos para a emenda da reeleição de Fernando Henrique. os espaços foram massivamente ocupados pelas fontes oficiais. um El Nino financeiro — expressão efetivamente usada pela mídia — contra o qual pouco se podia fazer. E a França. por não terem votado “as reformas”. Malan. Mailson da Nobrega. até com exuberância e. a economia americana. No entanto. com sensacionalismo. um fenômeno da natureza. A crise em si foi descrita como “global”. Foi abandonada pelo resto da mídia. Sem memória. pelo discurso oficial. O Plano Real é um dos mais notáveis exemplos desse . há momentos em que a denúncia de uma corrupção cria uma situação de risco para as condições de reprodução do sistema. não é exatamente uma crise global. Carlos Alberto Sardemberg. foi pouco lembrado. criou-se um outro momento estratégico. até então o principal patrimônio político da burguesia brasileira e garantidor maior de todo o processo de transferências patrimoniais. tanto do centro como da periferia. isolada . O que menos se viu foi a voz crítica da oposição. dizem alguns economistas. Até mesmo da oposição de direita. com medo de serem retratadas como traidoras. ora como jubilantes com o desastre. a Grã-Bretanha ou o Canadá. Durante toda a primeira fase da crise. Nunca se viu tanta entrevista com José Mendonça de Barros. e por isso a Folha ficou sozinha. logo diagnosticada pelo conjunto dos meios de comunicação como um “momento estratégico”. alérgica a uma temática que desgastaria a imagem do presidente. mas episodicamente retratadas ora como culpadas da crise. Com a crise do Real. que anunciava a crise há meses. E qual foi o comportamento da mídia? A crise foi noticiada. Tratou-se essencialmente de uma crise de determinado modo de inserção de um grupo de economias periféricas no sistema mundial. Delfim Netto. O jornalismo investigativo da Folha criou uma situação de risco. corvos que se alegram com a carniçaria geral. os principais culpados do desastre. empresários e banqueiros. Gustavo Franco e Dezembro 1997 Fernando Henrique.

que para confundir do que para expli. desde o cendo que no caso específico do zem o discurso oficial. que todo o processo sempre foi de que culpa o “outro”. Em geral. limitando início. a partir do acesso privi. ampla. 16 . precipitou-se a fuga de capitais. Uma crise recorrente zados na cobertura econômica.giados nos jornais. um desequilíbrio estrutural Brasil trata-se. A classequilíbrio foi se se média pediu sua acentuando. É apenas cerca de uma dúzia uma ruptura igualmente desinfornossos problemas .“ganham demais”.Bernardo Kucinski é professor de jorpela tese da “crise global”. por mais que tentem fazer peu definitivamente quando esse confisco se revelou inútil e a infladelo anterior. nos trabalhadores. ção voltou. A expressão mas que também escrevem colu. e se rommodelo é maior do que o do mo. quando a crise se zação. mais por crenças autoprofessadas. E LA NAVE VA. Quase todos. Foi tão eficaz esse truque. de suas críticas a questões pontuais.nais. o de. acima de tudo. zando a perspectiva o padrão se rompe de uma desvaloripartir do acesso privilegiado às fontes oficiais. às vezes. são jornalistas especialicapitais especulativos a juros altos.do real uma moeda forte. Às vezes fica vam as reformas”.legiado às fontes oficiais. o padrão se acontecer porque as remessas de co. reproduzidas em dezenas de na vítima. Mas. dependente.ra. Que se hamo se fazia nos via deixado levar tempos de Delfim. não rio descobre que guias de importapor simples coincidência. Uma das críticas freqüentes do grupo de formadores de opinião mesmo ajudou a construir e no campo conservador às esquerdas que vem ocupando espaços privile. Quase todos esses formadores campo popular se deixaram levar de opinião. Criou. que criaram uma mada e não conscientizadora. pelos são. limitando suas agrava muito e o Banco Central paspróprio empresásou a segurar as críticas a questões pontuais. Mas. pormídia atrelada ao discurso oficial identidade nacional pela televisão. Ao contrário. esque. são jornalistas estava mal inforção e escamotear mado ou desinforas estatísticas. Uma crise de um país periféri.depois realimentar. A crise do Sudeste asiático apenas uma vez verificou-se o papel cru. o padrão lucros do capital são crescentes e co. afetando a es. não por simples coinpaís que o governo cobria atraindo sência do mecanismo de sustenta. coespecializados na cobertura econômica. cuja moeda não é se tornou vulnerável a partir do o conteúdo importado do novo aceita em pagamentos internacio. ção do real.oriundas de um processo de reforcial desempenhado por um seleto ço do discurso oficial. A culpa é jogada “crise global” é usada muito mais nas.des e médias do interior e falam rios públicos. agudiQuase todos esses formadores de opinião.Quase todos. dá-se rialismo”. Mas na história do Brasil e que nada qualquer criança de oito anos sa. nos pagamentos internacionais do uma crise cambial.jornais em capitais e cidades gran.tem a ver com as reformas e mui. rádio e televi. reprodu.cidência. mado. que até em tantos lugares ao mesmo temmesmo alguns porta-vozes do po. Durante a crise do real. nos políticos que “não apromente usada como justificativa nacionais de rádio.escamoteação.confisco da poupança. que têm “privilépressão “globalização”.rompe.qual a mídia se alimentou para era a de sempre culpar o “impe. Mas hoje é a de jornalistas.nalismo econômico na ECA-USP. No caso Collor. nos sindicatos.várias vezes por dia em emissoras gios”. histórica do projeto neoliberal.determinam o padrão da cobertubia que essa reversão não podia to pouco a ver com o déficit públi. ou seja “o outro”. que ele acelerou essa fuga. Esses formadores de opinião Apostava-se numa reversão. difícil entender como podem estar que “defendem as estatais”. a cabeça.Dezembro 1997 Revista Adusp modo de inserção. nos funcionácar — um caso particular da ex. Quando o reproduzem o discurso oficial.

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