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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

«Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.» Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética V
© António Pedro Ferreira

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Cayatte) (1ª ed. Os seus volumes destinados ao público infantojuvenil. A reflexão sobre a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. maravilhoso e recriação histórica. com um lirismo muito particular que resulta de uma contemplação atenta e delicada da natureza na qual os sentidos se revelam especialmente apurados. mas também espada. . os Contos de Sophia de Mello Breyner Andresen fazem dela uma das autoras de referência do panorama literário português para a infância. simultaneamente resistente e interventiva. algumas vezes internacionalmente. é unânime em sublinhar. Com obra diversas vezes premiada. Nessa busca. a par de um estilo contido e rigoroso a que sempre se manterá fiel. poesia e ensaio (com uma incursão no género dramático através de O Bojador1) tem como destinatários preferenciais tanto o público infantil como o adulto. a Poesia é bordão e amparo. Os heróis dos seus contos e os sujeitos poéticos dos seus poemas ilustram os principais motes da poética de Sophia de Mello Breyner Andresen: a demanda da Perfeição e Pureza originais e também da Justiça e da Verdade como valores absolutos e universais. A Noite de Natal (1960).. O Tesouro (1978) e A Árvore (1985)). influenciaram de forma visível a produção literária posterior e marcaram várias gerações de leitores. A Floresta (1968).S ophia de Mello Breyner Andresen é justamente considerada uma das figuras maiores da literatura portuguesa contemporânea. com o Prémio Camões em 1999 e com o Prémio Reina Sofia de Poesia Iberoamericana em 2004. galardoada. é muitas vezes esquecida nas Histórias Editorial Caminho (ilustrações de Henrique da Literatura e nos ensaios sobre a autora. Sophia de Mello -juvenil. desde o seu primeiro livro – Poesia (1944). A sua obra. O Bojador. acabando relegada para segundo plano e analisada |2| em breves e insuficientes linhas. com particular incidência na segunda metade do século XX.: 1961). repartida pela prosa. 2ª ed. a sua produção de potencial recepção infanto1 Confrontar com ANDRESEN. Combinando fantasia e intervenção social. tornando-se referência obrigatória nos programas escolares de diferentes níveis de ensino. cuja publicação se iniciou em 1956 com O Rapaz de Bronze (seguindo-se-lhe A Menina do Mar e A Fada Oriana em 1958. entre outros. a depuração do universo poético da autora e a sua associação a um conjunto muito pessoal de linhas ideotemáticas que percorrem a sua poesia e que identificam uma singular personalidade poética e humana. O Cavaleiro da Dinamarca (1964). reeditada em edições sucessivas ao longo Breyner (1998). Lisboa: de décadas.

Várias foram as adaptações de que os contos infanto-juvenis desta autora foram alvo. o nome deste mundo dito por ele próprio. edénicas. como Távola Redonda e Árvore. Sophia de Mello Breyner compila um conjunto de narrativas de forte pendor alegórico e ético. onde revisita afectiva e literariamente. alguns lugares particularmente significativos do seu percurso. marcadamente original. Em Contos Exemplares (1962). Iniciou a sua actividade poética nas páginas dos Cadernos de Poesia e colaborou com outras revistas literárias. para o teatro e para a ópera. chamado Nau Catrineta. obviamente. As referências clássicas que caracterizam as suas composições poéticas e as suas narrativas articulam-se de forma ágil e inovadora com uma dimensão profundamente humanista. Coral (1950). alguns dos principais motes que norteiam a poética de Sophia de Mello Breyner Andresen (e que ultrapassam. constituindo uma referência para uma larga franja de público de todas as idades. e também da Justiça e da Verdade como valores absolutos e universais. Geografia (1967). Avessa a entrevistas e a mediatismos.R. que culminou com a sua acção como deputada da Assembleia Constituinte. Os heróis dos seus contos e os sujeitos poéticos dos seus poemas ilustram. nessa busca. pois. mas também de espada que acompanhará aquele que a ousar empreender. Nascida no Porto em 1919 e desaparecida em 2004. a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Dual (1972). Livro Sexto (1962) – que alguns estudiosos da sua obra consideram o seu melhor livro. a própria literatura) e que têm a ver com a demanda da Perfeição e Pureza originais.» Sophia de Mello Breyner Andresen. Este imaginário é parcialmente recuperado em Histórias da Terra e do Mar (1984). que eram a respiração das coisas. ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português. | A. No Tempo Dividido (1954). ocupando. onde se revêem algumas das suas principais preocupações. | 3 | «Na minha infância. Mar Novo (1958). Navegações (1983) e Ilhas (1989). De entre as suas obras de poesia. destacam-se os títulos seguintes: Dia do Mar (1947). sem esquecer a realidade e o contexto em que vive. não ignora esta dimensão que se encontra retratada em muitos textos de denúncia social e política e de resistência na luta contra o fascismo.Os seus textos narrativos de potencial recepção infantil caracterizam-se por serem protagonizados preferencialmente por personagens infantis capazes de encarnarem uma áurea de perfeição e de originalidade que as liga umbilicalmente à Natureza. antes de saber ler. às vezes de cunho cristianista. esta autora fez estudos universitários na área da Filologia clássica que não chegou a concluir. Sophia de Mello Breyner ficou conhecida pela sua verticalidade ideológica e poética. após a Revolução de 1974. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas.M. Arte Poética V . A sua obra. a Poesia (em sentido lato) o papel de bordão e de amparo. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral. O seu percurso foi marcado por uma intensa actividade cívica e política. mas também ao Bem e à Arte. mas julgava que eram consubstanciais ao universo.

*** SE TANTO ME DÓI QUE AS COISAS PASSEM Se tanto me dói que as coisas passem É porque cada instante em mim foi vivo Na busca de um bem definitivo Em que as coisas de Amor se eternizassem SE TANTO MI DUOLE CHE LE COSE PASSINO Se tanto mi duole che le cose passino È perché ogni istante in me fu vivo Nella ricerca di un bene definitivo In cui le cose per Amore si eternizzassero.AUSÊNCIA Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. . ASSENZA In un deserto senz'acqua In una notte senza luna In un paese senza nome O in una terra nuda Per quanto grande sia la disperazione Nessuna lontananza è più profonda della tua. *** ESCUTO Escuto mas não sei Se o que oiço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho Solenidade e risco.

La vita moltiplicata e brillante. PROMESSA Sei tu la Primavera che io aspettavo. *** AS ONDAS As ondas quebravam uma a uma Eu estava só com a areia e com a espuma Do mar que cantava só para mim.ASCOLTO Ascolto ma non so Se ciò che sento è silenzio O dio Ascolto senza sapere se sto sentendo Il risuonare delle pianure del vuoto O la coscienza attenta Che nei confini dell'universo Mi decifra e fissa So appena che cammino come chi È guardato amato e conosciuto E per questo in ogni gesto metto Solennità e rischio. LE ONDE Le onde s'infrangevano una ad una Io stavo sola con la sabbia e con la spuma Del mare che cantava soltanto per me. Em que é pleno e perfeito cada instante. *** PROMESSA És tu a Primavera que eu esperava. *** TERROR DE TE AMAR Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. In cui è pieno e perfetto ogni istante. A vida multiplicada e brilhante. .

*** VI A noite abre os seus ângulos de lua E em todas as paredes te procuro A noite ergue as suas esquinas azuis E em todas as esquinas te procuro A noite abre as suas praças solitárias E em todas as solidões eu te procuro Ao longo do rio a noite acende as suas luzes Roxas verdes e azuis Eu te procuro. . Á agitação do mundo do irreal. E na face incompleta do amor. VI La notte apre i suoi spicchi di luna E in tutte le pareti ti cerco La notte erge i suoi angoli azzurri E in tutti gli angoli ti cerco La notte apre le sue piazze solitarie E in tutte le solitudini ti cerco Lungo il fiume la notte accende le sue luci Rosse verdi e azzurre. o límpido esplendor Que me foi prometido em cada hora. Irei até às fontes onde mora A plenitude. *** AS FONTES Um dia quebrarei todas as pontes Que ligam o meu ser vivo e total. E calma subirei até às fontes.TERRORE DI AMARTI Terrore di amarti in un posto così fragile come il mondo Pena di amarti in questo luogo di imperfezione Dove tutto ci spezza e ammutolisce Dove tutto ci mente e ci separa. Io ti cerco.

Andrò a bere la luce e l'aurora. enorme. Irei beber a voz dessa promessa Que às vezes como um voo me atravessa. . profondo. A luz cai implacável como um castigo. fundo. E nela cumprirei todo o meu ser. Andrò sino alle fonti dove risiede La pienezza. E nel volto incompleto dell'amore. Non ci sono fantasmi né anime. *** MEIO-DIA Meio-dia. enorme. *** UM DIA BRANCO Dai-me um dia branco. E il mare immenso solitario e antico Sembra che applauda. All'agitazione del mondo irreale. il limpido splendore Che mi fu promesso ad ogni ora. um mar de beladona. aberto. LE FONTI Un giorno romperò tutti i ponti Che legano il mio essere vivo e totale. Tornou o céu de todo o deus deserto. adormecido Como um só momento. In alto il sole. Ha reso il cielo di ogni dio deserto. E calma salirò sino alle fonti. La luce cade implacabile come un castigo. Um canto da praia sem ninguém.Irei beber a luz e o amanhecer. Não há fantasmas nem almas. Andrò a bere la voce di questa promessa Che a volte come un volo mi attraversa. aperto. O sol no alto. MEZZOGIORNO Mezzogiorno. Eu quero caminhar com quem dorme Entre países sem nome que flutuam. E o mar imenso solitário e antigo Parece bater palmas. E in essa realizzerò tutto il mio essere. Un angolo di spiaggia senza nessuno. unido. Um movimento Inteiro.

*** REGRESSAREI Eu regressarei ao poema como à pátria à casa Como à antiga infância que perdi por descuido Para buscar obstinada a substância de tudo E gritar de paixão sob mil luzes acesas. Odiei o que era fácil Procurei-me na luz. unito. Um dia em que se possa não saber. no mar. no vento. BIOGRAFIA Tive amigos que morriam. . outros que partiam Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.Imagens tão mudas Que ao olhá-las me pareça Que fechei os olhos. outros que partiam Outros quebravam o seu rosto contra o tempo. Un giorno in cui si possa non sapere. addormentato Come un solo momento. no mar. un mare di belladonna. RITORNERÒ Io ritornerò alla poesia come alla patria alla casa Come all'antica infanzia che persi per trascuratezza Per cercare ostinata la sostanza di tutto E gridare di passione sotto mille luci accese. *** BIOGRAFIA Tive amigos que morriam. Immagini così mute Che nel guardarle mi sembri D'aver chiuso gli occhi. UN GIORNO BIANCO Dammi un giorno bianco. Io voglio camminare con chi dorme Fra paesi senza nome che fluttuano. Un movimento Intero. no vento. Odiei o que era fácil Procurei-me na luz.

Somos capazes de percorrer parágrafos inteiros de informação de como é a casa onde transitam as personagens. Também descreve uma mesa e todos os acessórios que ali o leitor é obrigado a conhecer: “O “hall” era enorme e tinha no meio uma palmeira nostálgica. A Velha Alegoria do Bem e do Mal A narrativa da escritora tem uma tendência objetiva. MARE Di tutti gli angoli del mondo Amo con amore più forte e più profondo Quella spiaggia estasiata e nuda Dove mi unì al mare. A decoração era de 1920. al vento e alla luna. cobertas até ao meio por grades de . aos objetos. Nos bancos verdes. encostados às paredes brancas. num estilo especial que só existia naquela terra. mundo exterior constitui o objeto que nos é dado a conhecer de forma pormenorizada. dando passagem às coisas. ao vento e à lua. a narradora desaparece por completo do centro das atenções.*** MAR De todos os cantos do mundo Amo com amor mais forte e mais profundo Aquela praia extasiada e nua Onde me uni ao mar. aos lugares.

está o exemplo claro de uma narrativa convencional. surgindo o inesperado e o inovador). estar sempre divertida. ser um belo exemplo de virtudes. quase que de influência de uma época de mudança de estilos de moda. toda a gente dizer bem dela. Assim. fazer ginástica todas as manhãs. ser sócia de todas as sociedades musicais. com uma palmeira ao meio. paredes brancas cobertas de grades de madeira verde e mesas também verdes. dar muitos jantares. não envelhecer. ser pontual. XVII. cujo conceito é visto pela possibilidade de certas mensagens provocarem um efeito de surpresa.” . não fumar. tão tipicamente cinematográfica. os contos de Sophia de Mello Breyner Andresen apresentam uma linguagem quase estética (não confundir com o termo informação estética. uma mera redundância. comer iogurte. deitar-se tarde. coleccionar colheres do séc. gostar de pintura abstracta. Havia três grupos escuros de homens e dois grupos mais claros de senhoras de uma certa idade. vamos encontrar o segundo equívoco: “Retrato de Mónica”: “Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família. ter muito sucesso e ser muito séria. estavam pequenos grupos de pessoas sentadas em frente das mesas verdes. onde à partida. o leitor fica a saber que o “ hall” era grande. Que havia bancos verdes. ser chiquíssima. gostar de toda a gente. Continuando a percorrer as páginas dos “Contos Exemplares”. o sujeito que a relata é perfeitamente distinto do objetivo relatado. onde há uma quebra de ruptura narrativa. ajudar o marido nos negócios. jogar golfe.” Neste conto intitulado “A Praia”. Quase a enterrar o desgastado neo-realismo português pela presença do fantástico. ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”.madeira verde. ir a muitos jantares. O que a autora quis dizer com “grupos escuros de homens” e “mais claros de senhoras”? Talvez nada. Uma narrativa mais racional do que emocional. levantar-se cedo. fazer ioga. ter imensos amigos.

Aqui estamos diante de uma crônica. nem mesmo a si própria. Aí ficou. Paisagens Além do Mar Português . do diabo. seu principal amo. que é intitulada de conto. Histórias da Terra e do Mar. Outra vez o sentido da catequese. para quem vende a imagem. onde nem os seus pés cabiam. Outra vez o castigo das trevas para quem brilha. Será que a mulher para ser atuante precisa ser fútil? Mónica está ao serviço de todos os amigos e principalmente. Devemos ressaltar a beleza do conto “A Viagem”. mas nada é real. Tudo está al alcance deles. para vencer. O estilo da autora é inconfundível. de lado. procuram comida. onde as formas das coisas adquirem um realismo fantástico. Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. quando as raízes se rompessem. Mónica é tida como uma mulher vencedora. onde podemos ter uma sensação de percorrermos as páginas de Kafka ou de Egard Alan Poe – sem a certeza se iríamos encontrá-los. procuram água. Pois era ela própria o que ela agora ia perder. é visto como futilidade. As personagens procuram uma saída. pela cultura. Estão perdidos e sem saída. Sentia que as ervas e as raízes a que se segurava cediam lentamente com o peso do seu corpo. Estarão mortos? Novamente a sensação de “O Purgatório” de Dante está presente: “Mas o carreiro tinha desaparecido. Tal como “O Jantar do Bispo”. Novamente o tema anda às voltas da moral burguesa e católica da autora. Aqui as personagens perdem-se por uma estranha estrada. em “Retrato de Mônica” estamos ante uma pequena crônica. Um rebordo sem saída. é descrita como fútil.” Neste conto caminhamos à procura do fantástico. porém. Em Mónica o interesse pelas artes. com os pés um em frente do outro. não se poderia agarrar a nada. Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia. com aspecto de pequena novela e não de conto. Viu que.

torna-se poderosa. vinte anos depois. ou seja. a personagem muda-se para a casa da madrinha rica. as telenovelas chegaram à televisão portuguesa. decide que será uma mulher de sucesso. o castigo vem sempre. de 1965. houve as rosas de maio. Mesmo no seu livro “Histórias da Terra e do Mar” (16 ª edição – Texto Editora – 1997). mudou-se o Papa. a evolução das personagens foi mínima. vinte e dois anos depois de “Contos Exemplares”. Em vinte e dois anos a autora lutou intensamente para defender as suas convicções políticas. em que a primeira edição data de 1984. Ele exige-lhe o sapato de brilhantes que ela trazia e a vida. que dança com a infeliz mulher na noite da humilhação. Quis gritar mas a sua voz estava muda. A catequese também: “Lúcia quis fugir mas o seu corpo estava rígido e ela não pôde move r nenhum dos seus membros. houve a Revolução dos Cravos.Definitivamente o lado estético de Sophia de Mello Breyner Andresen pouco pode ser comparado com outros contistas portugueses. . volta ao salão onde acontecera o seu primeiro baile. Que jamais será humilhada uma outra vez. Depois da escolha. é uma continuação dos anteriores. Novamente a figura do diabo aparece na forma de um belo homem. Novamente a certeza de que a mulher para tornar-se vencedora precisa vender a alma ao diabo. uma mulher rica e poderosa. casa-se com um homem rico. mas os contos de Sophia de Mello Breyner continuaram intactos. a primavera em Praga. o Salazarismo findou. A moça pobre e humilhada no seu primeiro baile. um misto de “Alice no País das Maravilhas” com “Cinderela”. Um estilo que vem das suas eternas histórias para crianças. Ali reencontra o belo homem que lhe proporcionara o sucesso. Um dia. o homem foi à lua. o sucesso é fútil. O primeiro conto de “Histórias da Terra e do Mar” é “A História da Gata Borralheira”.

irá nos levar ao mundo imaginário da autora. de 1972-1981. Viajamos quase que por uma aquarela de natureza morta em forma de palavras: “Entre a casa e a cidade longínqua estendem-se as dunas como um grande jardim deserto. as cores da casa confundem-se com o cheiro da brisa do mar. a personagem central é a casa. com lírios com perfume de jasmim. o curso de Filologia Clássica. que seria de grande influência em toda a sua obra. corta o perfume árido e vítreo das areias. Filha de uma tradicional e aristocrática família portuguesa. somos transportados para uma realidade quase da época em que lemos “Robson Crusoé”. Ali crescem também os lírios selvagens cujo o intenso perfume.” No conto “A Casa do Mar”. Percorremos jardins inatingíveis. secas e finas faz voar em frente dos olhos o loiro dos cabelos.” “Saga”. não reconhecemos as personagens como as das vilas. Freqüentou de 1936 a 1939. Sentimo-nos verdadeiras aves tontas nas alturas. é a essência portuguesa que nos foge entre a estética do mar da autora. Dessa infância feliz veio grande parte do material que a escritora usaria em seus contos infantis. Um conto de parágrafos e parágrafos a nos mostrar o estético. tirou-lhe do pé o sapato de brilhantes e calçou-lhe o sapato de farrapos. ou “Gullliver”. na Faculdade de Letras de Lisboa. Estudar Sophia de Mello Breyner Andresen torna-se agradável. as das aldeias de pescas. Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto. passou toda a infância no Porto. Quase como uma vertigem da paisagem que nos chega com os parágrafos. de 1970. Sophia de Mello Breyner Uma das mais conhecidas escritoras portuguesas do século XX. mas faz com que saibamos perceber porque um Miguel Torga é inatingível como contista. com frutas recheadas de cores. no dia 6 de novembro de 1919.O homem inclinou-se. pesado e opaco como o perfume de um nardo. adquirindo paixão pelo clássico grego. Não nos sentimos em Portugal. O vento perde a cor nos bancos (sempre verdes) da varanda. Os . inculto e transparente onde o vento que curva as ervas altas.

Sophia de Mello Breyner tornou-se uma das maiores opositoras à ditadura salazarista. sendo essa edição paga pelo seu pai. Sua literatura infantil fez parte da imaginação de várias gerações de crianças portuguesas. aos 84 anos. Sophia de Mello Breyner morreu no dia 2 de julho de 2004. tendo uma tiragem de 300 exemplares. arrematada pelo emblemático mar português. foi publicado em 1944. OBRAS: Poesia 1944 – Poesia 1947 – O Dia do Mar 1951 – Coral 1954 – No Tempo Dividido 1958 – Mar Novo . Ao longo da sua vida sempre foi uma lutadora empenhada pelas causas da liberdade e justiça. conhecido jornalista português. Depois da Revolução dos Cravos. que pôs fim ao Estado Novo. com quem viria a morar definitivamente em Lisboa. Antes do 25 de Abril. pertenceu à Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Poesia. Ao lado do marido. O primeiro livro de Sophia de Mello Breyner. Em 1946 a escritora casou-se com o advogado. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões. o ideal de beleza. jornalista e político Francisco Sousa Tavares. impregnam a obra de Sophia de Mello Breyner. continuou a sua militância política. entre eles Miguel Sousa Tavares.mitos gregos. Do casamento nasceriam cinco filhos.

1962 – Livro Sexto 1962 – O Cristo Cigano 1967 – Geografia 1970 – Grades 1971 – Poemas 1972 – Dual 1975 – Antologia 1977 – O Nome das Coisas 1983 – Navegações 1989 – Ilhas 1994 – Musa 1994 – Signo 1997 – O Búzio de Cós 1999 – Primeiro Livro de Poesia (infanto-juvenil) 2001 – Mar (antologia organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares) 2001 – Orpheu e Eurydice Ficção: Contos 1962 – Contos Exemplares 1984 – Histórias da Terra e do Mar Contos Infantis 1958 – A Menina do Mar 1958 – A Fada Oriana 1959 – Noite de Natal 1964 – O Cavaleiro da Dinamarca 1965 – O Rapaz de Bronze 1968 – A Floresta 1985 – Árvore Teatro 2000 – O Bojador 2001 – O Colar Ensaio 1956 – A Poesia de Cecília Meireles 1960 – Poesia e Realidade 1975 – O Nu na Antiguidade Clássica .

Poesia. na Faculdade de Letras de Lisboa. Este livro é uma escolha. 1954 – Publica No Tempo Dividido. . 1939 – Regressa ao Porto. Em 1975 seria reeditado pela Ática. que integra alguns poemas escritos com 14 anos. paga pelo pai. 1958 – Publica Mar Novo. altura em que se muda definitivamente para Lisboa. 1931 – Aos doze anos escreve os primeiros poemas. até aos 17 anos. 1947 – Publica pela Editora Ática. uma edição de autor de 300 exemplares. quando uma criada lhe recita A Nau Catrineta. A Menina do Mar (infantil) e A Fada Oriana (infantil). mas não leva a licenciatura até ao fim. no Porto. 1944 – Publica o primeiro livro. Mesmo antes de aprender a ler. O Dia do Mar. 1926 – Freqüenta o Colégio do Sagrado Coração de Maria. 1950 – Publica Coral. 1922 – Primeiro contacto de Sophia com a poesia. onde vive até casar com Francisco Sousa Tavares. o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero.CRONOLOGIA: 1919 – Nasce a 6 de Novembro no Porto. 1956 – Publica o livro de literatura infantil O Rapaz de Bronze. 1946 – Casa-se com Francisco Sousa Tavares. pela Livraria Simões Lopes. aos 3 anos. Escreve um ensaio sobre Cecília Meireles. que sairia em Coimbra por diligência de um amigo: Fernando Vale. onde passou a infância. Entre os 16 e os 23 tem uma fase excepcionalmente fértil na sua produção poética. 1936 – Estuda Filologia Clássica. que aprenderia de cor.

2004 – Morre. da Fundação Casa de Mateus e Inasset-INAPA (1990). . na IV Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia. cuja 5ª edição (1985 – Figueirinhas) é prefaciada por Eduardo Lourenço. é distinguido com o Prêmio da Fundação Luís Miguel Nava. Publica o ensaio Poesia e Realidade. 1972 – Publica Dual. atribuída em Itália. 1961 – Publica O Cristo Cigano. 1964 – Livro Sexto é distinguido com o Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. 1975 – Publica o ensaio O Nu na Antiguidade Clássica. Publica O Cavaleiro da Dinamarca (infantil). 1977 – Publica O Nome das Coisas. integrado em O Nu e a Arte. 1999 – É a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões. 1985 – Publica Árvore (infantil). 1962 – Publica Livro Sexto e Contos Exemplares (ficção). com a chancela da Editorial Caminho. 1967 – Publica Geografia.1960 – Publica Noite de Natal (infantil). um livro/disco com poemas lidos por Luís Miguel Sintra. 1970 – Publica Grades. no dia 2 de Julho. distinguido com os Prêmios D. 1983 – Publica Navegações. 1998 – Seu livro O Búzio de Cós. Publica Signo. 1992 – Grande Prêmio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças. 1968 – Publica A Floresta (infantil) e Antologia. Sophia de Mello Breyner. Dinis. 1989 – Publica Ilhas. 1984 – Publica Histórias da Terra e do Mar (ficção). recebe o Prêmio da Crítica do Centro Português da Associação de Críticos Literários. uma edição dos Estúdios Cor. 1995 – Placa de Honra do Prêmio Petrarca. Eleita deputada pelo Partido Socialista à Assembléia Constituinte. 2003 – Recebe o Prêmio Rainha Sofia de poesia ibero-americana. 1994 – Publica “Musa”. Recebe o Prêmio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. distinguido com o Prêmio Teixeira de Pascoaes. 1990 – Reúne toda a sua obra em três volumes: Obra Poética. 1996 – Homenageada do Carrefour des Littératures. é distinguida com o Grande Prêmio de Poesia Pen Clube.

Começa por ler os contos A Viagem e O Homem clica nestas hiperligações. E começou a chamar. . tornam a avançar por outros caminhos.  Narrador. como têm de FAZER elas próprias o seu caminho. Mas.Compreensão das ideias do texto na sua globalidade. Nele um casal que vai numa estrada é constantemente confrontado com o desaparecimento dos caminhos. mesmo nesta situação limite a mulher pensa: — Do outro lado do abismo está com certeza alguém. Aquele conto da Viagem. O homem cai e pouco depois também a mulher irá cair no precipício. narrativo. Diz Sophia de Mello B. p. Os dois pensam que se enganaram.  Tempo ( cronológico. 111) . sócio-económico).Identificação das inter-relações de ideias. e de desaparecimento. portanto. Para compreender melhor o conto A Viagem: "Bem eu liberto-me como posso. psicológico. voltam atrás. (C Ex.Análise do texto do ponto de vista da unidade temática e estrutural.Compreensão do significado de palavras. . a morte. . Através de uma belíssima alegoria Sophia apresenta-nos todos estes problemas no seu conto A viagem. Ambos pedem indicações e ajudas mas essas pessoas também desaparecem. Orientações de análise Analisa Os Contos referindo-te aos seguintes aspectos:  Caracterização das personagens. de sentimentos e de pontos de vista expressos no texto.  Valores estético-estilísticos.Identificação das categorias da narrativa e dos modos de representação e expressão. expressões ou estruturas frásicas contextualizadas.  Temáticas abordadas e intencionalidade da autora.Distinção das ideias básicas das secundárias.  Espaço (físico. Andresen O conto ―A Viagem‖ configura-se precisamente como uma alegoria da vida humana e do modo como as pessoas têm de escolher um caminho. .Texto Narrativo COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DOS CONTOS " A Viagem e O Homem" de Sophia de Mello Breyner Andresen Objectivos: Verificar a capacidade de: . . Até que chegam a um abismo — simbolicamente o fim da viagem e.Dedução de ideias. ou melhor. .  Acção e divisão em partes. e aí foi bastante catártico". escrevi-o para me libertar de uma certa sensação de morte e de perca. psicológico).

vence claramente a esperança. o homem está como se estivesse no centro do mundo.9 Profundamente enraizada.uc. LESTE E OESTE nos dão a dimensão do espaço. Deste modo. o homem tem de inventar a si próprio.Dois temas dominantes se degladiam neste conto: o absurdo e a esperança. Ele tem quatro caminhos. mas também demonstra aquilo que Sarte dizia: ―não é necessário ter esperanças para fazer‖. Mesmo perante a falta de sentido com que a vida muitas vezes nos galanteia. a ideia da escolha aparece representada recorrentemente na situação do sujeito perante a encruzilhada. a simbologia da encruzilhada tem já uma longa tradição em inúmeras culturas e espalha-se pelo mundo todo: Os pontos cardeais: NORTE. e um deles é o seu. de quem acredita que existe alguém depois da morte.. Eis porque é fundamental essa outra ideia-chave do existencialismo que é a acção. diante de um universo de alternativas. SUL.. Parado no cruzamento entre dois caminhos. Simbolicamente.pdf) . este conto contém uma lição sobre como lidar com o ABSURDO da vida : pressupõe a atitude do crente.pt/MJAFS/Palestra_Sophia. (. tem de criar o seu caminho – tem de inventar o amor porque não há amor já feito. quatro destinos. O espaço das possibilidades a seguir. No final.) (Adaptado do site: http://figaro.fis. para criar.