UNIVERSIDADE DE LISBOA

MESTRADO EM ENSINO
DE ARTES VISUAIS 2009/2010

EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DE ADULTOS

TRABALHO INDIVIDUAL
“Aprendizagem e Pensamento
em um Curso de Extensão Universitária”

FELIPE TEIXEIRA ARISTIMUÑO - 2109
JANEIRO DE 2009

Mais do que aprender a utilizar um software.ul. então. modificadores da percepção do estudante em futuros cursos profissionalizantes ordinários. que foi de forma autônoma mesmo estando em um curso de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e. minha reflexão é sobre a importância dos cursos de extensão universitária como impulsionadores da auto-aprendizagem e. Penso através da minha experiência. nesta experiência aprendi como aprender a “utilizar” (e pensar) o software. como a Universidade de Lisboa 1. oferecem essa modalidade de cursos. escrever sobre quando aprendi a utilizar o software Adobe Flash. “escrever sobre uma experiência de aprendizagem não-escolar significativa na sua vida adulta”. Muitas instituições de ensino. Com certeza foram várias. também. em como os cursos podem funcionar como ponto de partida ou de equilíbrio para que o estudante possa seguir o seu caminho e desenvolver o seu trabalho ou o seu objetivo em relação ao que lhe interessa (ou é necessário) conhecer. 1. mas qual delas foi mesmo um divisor de águas na minha vida? Pensei um pouco mais e cheguei à conclusão que as minhas principais experiências de aprendizagem tinham alguma ligação com instituições de formação. em um curso livre do Serviço Social do Comércio do Estado do Rio Grande do Sul. Após uma longa (e 1 Cursos Livres de Chinês disponível em: www.Introdução Quando foi proposto o tema para desenvolver um trabalho para a disciplina Educação e Formação de Adultos. logo.0 O que são Cursos Livres e de Extensão Universitária? É difícil encontrar uma definição confiável para o que são cursos livres.pt – Eventos académicos e científicos . mas a definição ou regulamentação não é fácil de encontrar. até mesmo. No fundo. Resolvi. logo comecei a pensar e tentar lembrar qual experiência tive que foi realmente marcante e importante.

wikipedia. secretariado. são cursos extracurriculares que representam a mais comum forma das universidades praticarem a extensão (p. atendimento. Médio. Ciencia. as universidades se estruturam sobre uma tríade: Ensino. Jacques. 2001 4 MARCOVITCH. Guilherme. Técnico e Superior. sem qualquer regulação institucional obrigatória. acabei encontrando a única definição na Wikipédia2. sendo essa última a integração da instituição e de seus trabalhos científicos com a comunidade. Ou seja. que atende público a partir do nível fundamental.” Ainda conforme essa definição. Sociedad e Innovación.fracassada) pesquisa na base de dados da biblioteca do Instituto de Investigação em Educação da Universidade de Lisboa. conforme Marback Neto3. Os professores investigadores trabalham com um conhecimento à longo prazo. La universidad (im)posible. cursos e conferências. os cursos de extensão. web design). o curso livre pode ser desenvolvido livremente por um educador ou grupo de educadores e oferecido à clientela por uma instituição de ensino. ES: Editora Hoper. o conhecimento fruto de investigações é completamente diferente do profissionalizante ou empresarial. com objetivo de oferecer profissionalização rápida para diversas áreas de atuação no mercado de trabalho (ex: informática. diferentemente dos cursos livres. enquanto que as escolas profissionais à curto. Nos centros de pesquisa universitários sempre se pensa de onde se está vindo e para onde se 2 www. relativa ao Brasil: “Além das modalidades de ensino Fundamental. Madrid: Cambridg University Press 3 .org – cursos livres MARBACK NETO.114). Tecnologia. Segundo Marcovitch4. são desenvolvidos por pesquisadores e professores ligados às atividades científicas acadêmicas. Pesquisa e Extensão. Sendo assim. apesar de não terem regulamentação quanto à carga horária. a legislação brasileira regulamentou a categoria Curso Livre. Vila Velha. não existe a obrigatoriedade de carga horária. disciplinas e certificação. Já os cursos de Extensão Universitária. pelo curso ser livre. Avaliação: Instrumento de gestão universitária. Segundo este autor. através da oferta de seminários.

o professor e seus pesquisadores/estudantes aprendem sobre as demandas sociais. objetos de aprendizagem e ferramentas de automação para educadores e estudantes da rede pública de ensino em Porto Alegre. que funciona como um sensor das necessidades comunitárias. Léa da Cruz Fagundes. Eu já conhecia o Adobe Flash na altura. em 2002 (então Macromedia Flash).0 Minha experiência no curso de extensão Uma nova maneira de aprender Meu primeiro contacto com um curso de extensão aconteceu em 2002 quando fui contemplado com uma Bolsa de Iniciação Científica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para o projeto Escola Conectividade. (MARCOVIRCH. Nesse projeto. porque desenvolvem os programas com a comunidade (acadêmica ou não) e a “transferência de conhecimento” acontece do grupo social para a equipa de pesquisadores.está indo.UFRGS) e começaram a promover cursos para educadores e estudantes sobre possibilidades das novas tecnologias na educação. O primeiro curso foi o de Criação e desenvolvimento de Objetos Educacionais com Flash.24) Nos cursos livres tradicionais a transferência é direta (professor/aluno) de forma técnica. relacionando o que se está a estudar com circunstâncias passadas. 2. Como fazia parte do grupo do LEC. sem a necessidade da resposta imediata (MARCOVITCH. p. há mais de 6 anos. resolvi participar. Dra. mas nunca tinha conseguido utilizá-lo por causa da complexidade de . p. em uma equipa multidisciplinar. Neste mesmo ano alguns colegas e professores fundaram o Centro Interdisciplinar de Novas Tecnologias na Educação (CINTED . desenvolvíamos. Numa atividade de extensão. Sociedade da Informação e Conhecimento (ECSIC) do Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC) sob a orientação da Prof.19). presentes e futuras.

As aulas mais técnicas eram dadas de forma bastante direta. com os colegas presentes em tempo real. fomos orientados a criar projetos (ou roteiros) para o desenvolvimento de um objeto de aprendizagem no Flash. Logo depois de entender as possibilidades e o que estava previsto para se estudar no curso. Cada exercício era publicado no ambiente (durante a aula) e comentado pelos colegas e professores.1 – Como funcionou o curso Logo no princípio do curso. capaz de criar aplicações interativas leves e efetivas. utilizar presencialmente o ambiente ajudou a familiarizar todos com a nova tecnologia. mas eu não conseguia passar do exercício básico da bola quicando. o Teleduc5. desde o ponto de vista formal/gráfico. Como a maioria dos alunos do curso nunca tinha utilizado um ambiente online antes (o curso aconteceu em 2002). até da relevância para os currículos das séries escolares a que se destinavam. Apesar disso. quando acionado. Inúmeras vezes tinha tentado aprender através do recurso “ajuda passo-apasso” do software. eu sabia do potencial do software. 2. A proposta na primeira aula foi a de pesquisar conteúdos disponíveis online que utilizassem essa tecnologia e como era possível identificá-los. Na parte da programação. que tornava a aula muito colaborativa.br/ . mas com diversos colegas investigadores 5 http://www.suas ferramentas de criação gráfica. Os trabalhos publicados eram todos discutidos sob os mais amplos aspectos. O que achei interessante foi o fato do ambiente ser utilizado sincronicamente.teleduc.org. além da extensa linguagem de programação nativa Action Script. em pequenos grupos ou individualmente. fazia a dita bola parar de quicar. notei que a abordagem dos instrutores/investigadores era bastante diferenciada do que eu já conhecia. Outra novidade foi o ambiente virtual de aprendizagem. Tratou-se também de estudar a evolução e a finalidade do Flash. o máximo que consegui aprender sozinho foi a fazer o botão que.

br/CESTA/artes/roupa/inicial. Paulo.swf FREIRE. Tínhamos um material didático todo pronto. apesar de ainda não ter me sentido totalmente confiante no domínio das ferramentas do software. sem interação em um ambiente virtual. sem a abertura de qualquer criação em aula.0 Indo mais além. O programa do curso previa explorar a maior parte das ferramentas do Flash em 25 horas aula. animações com som contando histórias e uma atividade prática (game). matriculei-me logo em seguida em um curso livre de Flash e Action Script do Serviço Social do Comércio do RS (SENAC). conforme os projetos propostos. conforme os interesses de cada grupo: se o grupo era composto por educadores ou estudantes de arte. Ao terminar o curso.3. compartimentado e bem-comportado” Objecto – Roupa Pra Quê . Desenvolvíamos os trabalhos individualmente. É possível relacionar esse curso livre ao conceito de Paulo Freire 7 de “educação bancária”.que desenvolviam os exercícios pelos grupos. . A diferença de abordagem do curso livre era completamente diferente da que tive na experiência de extensão universitária. . Educação bancária e educação libertadora. 1997. ed.http://penta3. 6 7 . por exemplo. o que se aprendia era bastante diferente do que outro grupo composto por investigadores da matemática. o curso Livre de Flash e Action Script no SENAC Na busca de aprofundamento técnico do que aprendi no curso de extensão universitária. onde a educação é “algo estático. os objetivos listados na ementa do curso eram vencidos de forma não-linear. por isso não havia a possibilidade de perder tempo com criação e desenvolvimento de projetos pessoais ou em grupo pelos alunos. com exercícios passo-a-passo (começando pela bolinha que quica). contando com as orientações projetadas pelo instrutor.São Paulo : Casa do Psicólogo. 3. senti-me bastante instrumentalizado para criar (ou projetar) um objeto de aprendizagem. Assim. eu e a colega Camila Nagy havíamos desenvolvido um objeto interativo sobre história da arte tendo como viés a evolução da roupa desde a préhistória até a alta-costura do século XXI 6.ufrgs. Após o curso. Desenvolvemos linhas de tempo. In Introdução À psicologia escolar / Maria Helena Souza Patto (org.

É por isso que custa tanto treinar médicos. o educador aparece como seu indiscutível agente.110mb. p. nem do que significava para a evolução das comunicações de massa a ferramenta que estávamos aprendendo a operar. 8 ROSENBERG. astronautas. p. New York : McGraw-Hill 9 www. “nela. atletas e pilotos. Aprender a gerenciar a informação exige reflexão.65). a “educação problematizada” se faz num esforço permanente onde os homens vão percebendo como eles “são” no mundo e como se encontram (FREIRE.)treinar pessoas para ter conhecimentos aprofundados ou a capacidade de interiorizar o que fazem é muito caro e pode tomar muito tempo e uma quantidade enorme de prática.com . strategies for delivering knowledge in the digital age. Marc Jeffrey.(p.... exige “problematização”.” (p. Segundo Freire. E-Learning. por exemplo. tendo a experiência que adquiri na minha vivência na extensão universitária e também no projeto de investigação que participava. Criei um mapa para o desenvolvimento do meu website pessoal 9.) Precisam os mecânicos de saberem tudo sobre carros somente para consertá-los? (. Mas. mas não ao conceito Freiriano de “Educação Bancária. Mas há muitos empregos onde toda essa perícia não precisa ser adquirida (.. comecei a desenvolver minha própria estratégia de aprendizagem a partir do que estava a ser “dado” no SENAC. na medida em que o técnico é confrontado com as situações onde necessita eleger e buscar os conhecimentos necessários para a determinada tarefa. Para além do curso livre. ao contrário do que recomenda Rosemberg. Não nos aprofundávamos nas questões históricas da multimídia.76) Esse pensamento sobre o curso técnico em parte pode ser relacionado ao curso do SENAC.” (ROSEMBERG.. cuja tarefa indeclinável é encher os educandos dos conteúdos de sua narração. como o seu real sujeito.aristimuno.61) Rosemberg8 fala do que se espera de um profissional técnico contemporâneo: “(.) a informação muda tão rapidamente de um modelo para outro que se torna perigoso para um serviço técnico basear-se na memória.. Segundo Freire.61). não aprendíamos a gerenciar a informação que estávamos recebendo.

Em mais duas semanas. mas fora do horário de aula. Fiz amizade com muitos colegas do curso do SENAC e. A página web foi concluída em duas semanas durante o curso. Atualmente não utilizo o software mais como ferramenta freqüente. infelizmente. além de ter sido apresentada no II Salão Nacional de Design de Superfície da Universidade em 2004. sobre a linguagem de programação Action Script. A minha experiência de aprendizagem foi marcante e serviu no estudo em muitos outros momentos da minha vida até hoje. por exemplo. Cheguei a decorar os comandos mais usuais do Action Script. ficava depois da aula para pedir orientações ao instrutor na realização do meu projeto. 4. Comecei a aprender o software de edição de vídeos Final Cut. adaptei tudo o que estava sendo ensinado em elementos e recursos harmoniosamente (no meu critério) dispostos na página. reencontrando alguns um ano e meio depois. a convite do professor de computação gráfica do Instituto de Artes. tinha um trabalho concluído que acredito ter sido um sucesso.http://www. Ainda viciado pela maneira de trabalho no curso de extensão. Depois. projetei um trabalho artístico pessoal totalmente multimídia 10. eu postava em fóruns online e tinha a resposta de vários usuários espalhados pelo mundo. A obra foi exposta no Museu de Arte da UFRGS. mas sei como procurar e reaprender a utilizá-lo.110mb.html . mesmo tendo sido desenvolvido durante a aprendizagem. Eu acabei utilizando o Flash como ferramenta principal do meu trabalho artístico até a conclusão do curso de Artes Visuais na universidade. O que ele não conseguia resolver. descobri que a maioria não tinha se aprofundado no software e não utilizaram o mesmo novamente depois do final do curso. estudando a 10 Labirinto Articulado . Indo além das bolinhas saltitantes.com/labirinto/index.aristimuno.com o desenho das janelas que se abririam e a informação que estaria disponível.0 O que aconteceu com a Aprendizagem. no segundo módulo do curso.

dependendo do fabricante. terá que ter a habilidade de procurar e reconhecer como úteis informações. Mais do que aprender. além de ser altamente adaptável às ferramentas tecnológicas que.obra de Sergey Eisestein. por mais que não tenha um conhecimento amplo da realidade do seu objeto de trabalho. penso que a tradicional forma de ensinar em um cursos livres (como o exemplo que dei do SENAC). os cursos de extensão universitária desenvolvidos pelo CINTED proporcionam (ou propõem) um aprofundamento ou um pensamento para além do simples fazer. na importância daquilo que estou fazendo para cultura em que vivo (global) e como aquilo pode ser contextualizado historicamente. religião. que desenvolveu a teoria das linhas de tempo de imagem e som sobrepostas muito antes da invenção dos computadores. entre outras coisas. esse profissional terá que ser crítico (possuir ou reconhecer critérios). . Para ser adaptável. com a apostila linear e os exercícios padronizados e mecânicos. Na medida em que tem a capacidade crítica desenvolvida para as ferramentas a que é treinado (por exemplo. O que aprendi foi a pensar. Conclusão A partir da leitura de Rosemberg (sobre a educação técnica contemporânea) e Freire (desenvolvendo os conceitos de educação libertadora e a bancária). um mecânico que pesquisa na internet sobre um novo sistema eletrônico em automóveis). O atividade técnica contemporânea aproxima-se cada vez mais da científica. tendo que pensar (refletir) para esse efeito. não é mais suficiente para formar um profissional de qualidade e produtivo. economia). muitas vezes possuem mecanismos diferentes de operação. na medida em que o profissional técnico. poderá estender essa capacidade para as demais áreas da sua vida (política.

ele poderá passar a construir a história. Quanto mais formado criticamente um profissional for. terá que ter a capacidade de participar de fóruns online sobre uma determinada ferramenta.Conforme Freire. Freire diz que a concepção problematizadora da educação acaba com a opressão. Para entender e discutir esses assuntos. tornando-se mais forte e ativo na construção de uma vida profissional mais justa. na medida em que uma “ordem opressora não suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: Por quê? Acredito que um bom operador de software (ou de muitas outras ferramenta ou atividades contemporâneas). o profissional pesquisará autonomamente sobre a história relacionada a sua profissão. como as questões salariais e do mercado de trabalho. mais buscará e construirá conhecimentos acerca da sua vida e atividade profissional. sendo agente das mudanças. . esse profissional une-se a outros e percebe de maneira mais ampla a realidade social e histórica a que faz parte. ou a realidade econômica e política da sua região. há a possibilidade de que a discussão se amplie para outros tipos de tópicos. Para além de pesquisar. desenvolver a capacidade crítica é o ânimo da “educação libertadora”. Na medida em que busca e constrói o conhecimento. No momento em que ele possui a habilidade de socializar o problema técnico com um grupo alargado de profissionais da mesma área. cooperando para a construção de um contexto maior. publicando informações a seu respeito. seja ele qual for.