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OS MUNICÍPIOS

DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Colecção: BIBLIOTECA – ESTUDOS & COLÓQUIOS (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. Diplomacia & Guerra: Política Externa e Política de Defesa em Portugal. Do final da Monarquia ao Marcelismo – Actas do I Ciclo de Conferências FERNANDO MARTINS (ed.) 2. Elites e Redes Clientelares na Idade Média: Problemas Metodológicos FILIPE THEMUDO BARATA (ed.) 3. Indústria e Conflito no Meio Rural: Os Mineiros Alentejanos (1858-1938) PAULO GUIMARÃES 4. Causas de Morte no Século XX: A transição da mortalidade e estruturas de causa de morte em Portugal Continental MARIA DA GRAÇA DAVID DE MORAIS 5. Concepções de História e de Ensino de História – Um Estudo no Alentejo OLGA MAGALHÃES 6. Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931) = = Elites y Poder. La Crisis del Sistema Liberal en Portugal y España (1918-1931) MANUEL BAIÔA (ed.) 7. D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437) NUNO SILVA CAMPOS 8. História e Relações Internacionais. Temas e debates LUÍS NUNO RODRIGUES e FERNANDO MARTINS (ED.) 9. Igreja, Caridade e Assistência na Península Ibérica (Sécs. XVI-XVIII) LAURINDA ABREU (ed.) 10. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos à reformas liberais MAFALDA SOARES DA CUNHA e TERESA FONSECA (ed.)

Colecção: FONTES & INVENTÁRIOS (Direcção: CIDEHUS.UE) I. Série GAZETAS (Direcção: CHC-UNL e CIDEHUS.UE)
1. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. I (1729-1731) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL 2. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. II (1732-1734) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL

II. Série GERAL (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz» TERESA FONSECA

Mafalda Soares da Cunha Teresa Fonseca (Ed.)

OS MUNICÍPIOS
DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Edições Colibri
CIDEHUS / UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

BIBLIOTECA NACIONAL – CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Os municípios no Portugal Moderno : dos forais manuelinos às reformas liberais. - ed. Mafalda Soares da Cunha, Teresa Fonseca. - (Biblioteca - estudos & colóquios ; 10) ISBN 972-772-526-0 I - Cunha, Mafalda Soares da, 1960II - Fonseca, Teresa, 1950CDU 352 94(469)"15/17"(042.3)

TÍTULO ED. EDITOR EDIÇÃO PAGINAÇÃO CAPA DEP. LEGAL

Os Municípios no Portugal Moderno: Dos forais manuelinos às reformas liberais Mafalda Soares da Cunha e Teresa Fonseca Fernando Mão de Ferro Edições Colibri e CIDEHUS-UE Albertino Calamote
TVM Designers 220 656/05

Lisboa

Maio 2005

Índice
Introdução .................................................................................... Francisco Ribeiro da Silva (FL-UP) Historiografia dos municípios portugueses (séculos XVI e XVII) .......... José Viriato Capela (Univ. Minho) Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua historiografia e nova História) .... Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII). Uma breve reflexão historiográfica ................................................................................ Teresa Fonseca (CIDEHUS.UE) O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas .............................................................................. Mafalda Soares da Cunha (CIDEHUS.UE) Relações de poder, patrocínio e conflitualidade. Senhorios e municípios (século XVI-1640) ................................................................... Fernanda Olival (CIDEHUS.UE) As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo ............................................................................................ Laurinda Abreu (CIDEHUS.UE) Câmaras e Misericórdias. Relações políticas e institucionais ............... Rute Pardal (CIDEHUS.UE) As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional ........................................................ Margarida Sobral Neto (FL-UC) Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes ................................................................................... Pedro Cardim (FCSH-UNL) Entre o centro e as periferias. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna ..............................................................
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.................6 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS José Manuel Subtil (Inst... 243 263 ............................. Politécnico Viana do Castelo/UAL) As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (Sécs........................ XVII-XVIII) .................................... Rui Santos (FCSH-UNL) Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais .........................................

Sancho I e os 500 anos da atribuição do foral de D. . O evento afirmou-se ainda como uma excelente oportunidade de reflexão sobre o municipalismo português. possibilitou a caracterização da sociologia e das práticas político-administrativas em diferentes contextos espaciais. Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. Dos Forais Manuelinos às Reformas Liberais ocorrido na cidade de Montemor-o-Novo a 6 e 7 de Novembro de 2003. E para o CIDEHUS. A sua realização revestiu-se de particular significado para Montemor-o-Novo. através de abordagens respeitantes às suas diversas vertentes. nomeadamente as do Sul do país.Introdução O colóquio Os municípios no Portugal Moderno. que nesse ano comemorou em simultâneo os 800 anos da concessão do foral de D. abarcando deste modo um auditório mais vasto e diversificado. a colaboração com a autarquia montemorense representou uma possibilidade de realização de um evento de particular interesse científico fora do âmbito académico. contribuindo assim para aprofundar o conhecimento das especificidades regionais. Manuel I. constituiu uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e do Centro Interdisciplinar de História. Permitiu efectuar o ponto da situação da historiografia relativa ao tema. E o confronto de perspectivas de análise e dos diferentes casos estudados.

Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. por isso. foram defendidos em provas públicas e permanecem inéditos. a matéria que me foi dada para estudo pode ser tratada e encarada sob diversas perspectivas e ângulos de observação. considerarei os trabalhos sobre forais manuelinos. Entendi dividir o tratamento dos trabalhos conhecidos em três grandes pacotes: no primeiro.Historiografia dos Municípios Portugueses (séculos XVI e XVII) FRANCISCO RIBEIRO DA SILVA (Universidade do Porto – Faculdade de Letras) Introdução O desafio que me foi proposto pela Prof. Posta em causa a inventariação total por ser praticamente impossível. 2005. no terceiro tentarei um ponto da situação dos estudos sobre concelhos e administração municipal. Para tal não dispus de tempo e. em listas bibliográficas contidas nas obras da especialidade e na web.ª Teresa Fonseca – o de fazer o ponto da situação da bibliografia portuguesa sobre concelhos e administração municipal referente aos séculos XVI e XVII – é muito mais difícil do que o que parece. . ensaiarei uma resenha das fontes publicadas. para além da pesquisa em catálogos de bibliotecas. no segundo. provavelmente vão ficar fora das minhas considerações estudos e trabalhos dos quais não tive notícia. I – Fontes Publicadas Num primeiro desenvolvimento pareceu-me oportuno fazer uma digressão pelo panorama das fontes impressas. deveria ter-me levado às Faculdades e Institutos de investigação para fazer o levantamento das teses de mestrado e outros trabalhos que têm sido escritos. 9-37. pp. Para ser executado cabalmente.

. – Leys e provisões que el-rei Dom Sebastião nosso Senhor fez depois que começou a governar. embora mais dia menos dia se torne indispensável aprender e calcorrear assiduamente os caminhos dos Arquivos. lembraremos as colecções de legislação. da C. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza. é possível recorrer a bons materiais que outros investigadores foram pondo à disposição dos vindouros em letra de imprensa. Mesmo assim arriscarei na esperança de que a minha lista seja o começo de uma recolha que irá engrossar com o contributo de outros até se tornar exaustiva. 1569 Para o século XVII – José Justino de Andrade e Silva. Mas as dificuldades para uma inventariação útil e completa são muitas. a correspondência ou os forais. Não será temerário da minha parte tentar um inventário? É com toda a certeza.. 1854-56. Uma coisa são as Actas de uma determinada Câmara. de que destacámos: Para o século XVI – Duarte Nunes de Leão. F. Coimbra. é necessário distinguir os tipos de fontes e a sua diversa natureza.10 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É sempre importante para quem se inicia nos segredos de Clio saber que. uma vila ou um concelho. Antes de mais. Lisboa.. – França. per mandado do muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião Nosso Senhor. códigos e leis.. Imprensa da Universidade. É uma dívida de gratidão para com esses beneméritos que nunca é demais realçar. vilas e lugares destes reinos. Lisboa. antigos e novos. outra as correições ou sentenças relativas a um certo Concelho. Lisboa.. outra as provisões e cartas régias que não abrangem senão uma cidade. outra ainda os capítulos particulares e gerais levados a Cortes. aparecida em Lisboa em 1955 por iniciativa do professor Marcelo Caetano sob os auspícios da Fundação da Casa de Bragança. os regimentos régios. 1570. . Para além das Ordenações Manuelinas e Filipinas. compiladas por. Quem sabe se de imediato as sugestões dos presentes não a irão completar? Numa primeira análise de fundo geográfico. Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado . farei referência às fontes que alcançam todo o Reino. Uma coisa são as leis ou normas gerais como as Ordenações do Reino. em edição facsimilada do texto impresso por Valentim Fernandes em 1504. 1819.. os alvarás válidos para todo o espaço nacional.. Francisco Correa. Foram-me úteis e por isso aqui deixo notícia do: – Regimento dos oficiais das cidades. São sobretudo as normas. Collecção Chronologica de leis extravagantes.

– Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Porto. 1815. Repertorio Geral. 1926. interessam-nos os vol. Porto.s 1 a 4. de Virgílio Correia. Lisboa. VI.º das Chapas. 1937.1938-1952 Livro 2.. 1962 – Góis. Filipe II de Espanha Rei de Portugal (Colecção de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses). Coimbra... Dizem respeito à época aqui considerada os vol. Lisboa. – Livro do lançamento e serviço (1565). s/d. 1818. Sobre o Porto – Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium. 2 tomos. há que referir as fontes dirigidas às localidades (que. Lisboa. 1882-1889. 2 vols. 1914-1915 Livro 1. de Raul Machado. Para além das fontes impressas de abrangência geral. – Manuel Borges Carneiro. Livraria Avelar Machado. 1878 .. publicadas depois das Ordenações. Câmara Municipal. com um suplemento. Porto. Livros de Reis. Descrição de Lisboa. As terras que dispõem de fontes históricas impressas (para o nosso período) são imensas: Sobre Lisboa – Eduardo Freire de Oliveira. Porto. cujos títulos são respectivamente os seguintes: Livro da Contenda entre a Cidade e o Conde de Penaguiam. 1947-1948. Lisboa. Imprensa da Universidade. 1953-1961 Privilégios dos cidadãos da cidade do Porto. Fundação Rei Afonso Henriques. Lisboa de Quinhentos. ou Indice Alphabetico das Leis extravagantes do Reino de Portugal. Elementos para a História do Município de Lisboa. Lisboa. – Livro dos Regimentos dos officiaes mecanicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa (1572). às vezes inesperadamente ultrapassam a dimensão local). – E já agora (perdoe-se a publicidade) de Francisco Ribeiro da Silva.s III a V. Damião de. publicadas desde 1603 ate 1817. Coimbra. Poderíamos incluir aqui os muitos Regimentos que foram publicados em colectâneas ou isoladamente.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 11 – Manoel Fernandes Thomaz. Mappa chronologico das leis e mais disposições de direito portuguez. Zamora. ed.º das Chapas. trad.

O Porto na Restauração. Sobre Évora – Gabriel Pereira. .12 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Guimarães. Sobre Portalegre – Sotto Maior. Livro 2. Viseu. esta obra em rigor não é uma publicação de fontes. 1941. mas sendo constituída por resumos de actas e de outros documentos municipais que. Índice do livro dos acordos do séc. Imprensa Nacional Casa da Moeda. Tratado da cidade de Portalegre. 1967. 1998 Sobre Braga – Frei António do Rosário. decidimos metê-la aqui. Frei Bartolomeu dos Mártires. Porto. Sobre Guimarães – Alberto Vieira Braga. de Leonel Cardoso Martins.º da Correia (Cartas. permanecem muito próximos dos originais. – Alexandre de Lucena e Vale. (Capítulos de Cortes) Sobre Coimbra – José Branquinho de Carvalho. 1943. (Na verdade. Sobre Viseu (Do mesmo modo e por maioria de razão entendemos colocar neste elenco os trabalhos que seguem) – Alexandre de Lucena e Vale. «Acordos e Vreações da Câmara de Braga no Episcopado de D. vol. 1984. Viseu.G. XVI. Aveiro. António Augusto Ferreira da. Lisboa. sem prejuízo de abaixo poder ser retomada). Notícia e índice do livro de registos da Câmara de Aveiro 1581-1792 in «Arquivo do Distrito de Aveiro». embora elaborados com mérito pelo seu Autor. A. 1559/82» in Bracara Augusta. Subsídios para a sua História. 1948 Sobre Aveiro – Madail. Coimbra. da Rocha. 1953. XXIII.s XX-XL Braga. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Guimarães. – Cruz. Câmara Municipal. Porto. O Porto seiscentista. provisões e alvarás régios registados na Câmara de Coimbra 1275-1754). Subsídios para a sua História. Um século de administração municipal. O livro dos Acordos de 1534. Documentos Históricos da Cidade de Évora. Diogo Pereira. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. Câmara Municipal. Viseu. 1605-1692. Fernando. Viseu. 1956 – Alexandre de Lucena e Vale. int. vol. 1955. 1970-1990. Lisboa. 1955.

Boletim do Arquivo Histórico Militar. . Ou os escritos de Manuel Severim de Faria. A descrição de Alexandre Massaii (1621). Sobre Esposende – Manuel Albino Penteado Neiva. revista. convém não perder de vista certos textos de narrativa histórica que. Por outro lado. Lívio da Costa. Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança. Luís Miguel e Machado. Sobre as Ilhas – Funchal – José Pereira da Costa. CEHA. Mas desses nunca será possível uma memória exaustiva. CEHA. Haverá por certo outros volumes contendo fontes. 1984 Sobre o Algarve em geral – Guedes. 1972-1974. pela sua antiguidade. João Alberto. Porto. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – primeira metade do século XVI. – Barros. o Anacrisis historial de Manuel Pereira de Novais ou as descrições de viagens como o livro de João Baptista Lavanha. S. Doutor João de. Biblioteca Pública Municipal. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. Filipe II. Posturas municipais de Esposende – séculos XVII a XIX. por exemplo. Francisco Ferreira. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. 2000. Loulé. Porto. Francisco Manuel. Funchal. é bom não esquecer que muitos historiadores e estudiosos conservam o bom hábito de publicar documentos em anexo aos seus trabalhos. Para além destas. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – segunda metade do século XVI.n. Funchal. Rodrigo da Cunha. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. 1988. o Catálogo e História dos Bispos do Porto de D. Sobre Bragança e Trás-os-Montes – Alves. vol. ed. Viagem da Catholica Real Magestade del-Rey D. Geografia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Lisboa. – Duarte. 1987. Câmara Municipal. Sobre Loulé. 1919. 1971. Actas das Vereações de Loulé. etc. 2002 – Luís Francisco Cardoso de Sousa Mello publicou um Tombo do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal na «Arquivo Histórico da Madeira». 1998 – José Pereira da Costa. s. N.s XV-XVIII. Aveiro. Esposende. ao Reyno de Portugal. acabaram por se converter em fontes. Abade de Baçal.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 13 – Neves. Estão neste caso. Afrontamento.

que englobavam ou podiam englobar mais que um concelho: exemplos terra da Feira ou de Ovar. mas apenas a apoiar logisticamente as inquirições preparatórias e a servirem de guardiães e fiéis depositários do documento final. Mas mesmo que apenas os concelhos em sentido estrito tivessem sido contemplados.14 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Como em tudo. Os forais de D. Vejamos: a questão da reforma dos forais punha-se no objectivo e no propósito de resolver bem uma relação triangular que se mostrava progressivamente mais difícil entre os lavradores e foreiros de um lado. o historiador terá que ter bem apurado o seu sentido crítico para se dar conta de que uns autores merecem mais crédito do que outros. A questão é esta: fará algum sentido introduzir o tema dos forais numa comunicação sobre a historiografia do municipalismo português? Julgamos que sim. Manuel não aproveitou a reforma dos forais para reforçar os poderes concelhios. Mais do que confirmar ou reafirmar expressamente capacidades de intervenção das autoridades concelhias. os forais manuelinos pressupõem-nas. Longe disso. chegaram as reclamações e protestos dos . Com efeito. apesar de não ignorar que muitos deles não foram dados a concelhos mas a territórios mais amplos a que se chamava Terras. É que. agrupavam-se em comunidades pequenas ou grandes inseridas e integradas em concelhos (ou elas próprias eram concelhos) cujos oficiais eram os porta-vozes das queixas e os Paços do Concelho a câmara de ressonância das mesmas. Foi às Cortes quatrocentistas e quinhentistas que. Dito de outra forma: D. Manuel nem na letra nem no espírito tocam nas estruturas tradicionais da administração concelhia nem mexem nas competências governativas dos oficiais municipais. embora trabalhassem a terra individualmente ou em família. Onde é que entravam os concelhos? No seguinte: é que os lavradores e foreiros. os donatários e senhores das terras por outro e o Rei-árbitro no cume do processo. através dos Procuradores dos Concelhos. os concelhos não são chamados para arbitrarem o que quer que seja nas matérias a introduzir nos forais manuelinos. precisamos estar de sobreaviso. a relação entre os forais manuelinos (é a esses que nos reportamos) e os concelhos é marcada mais por ambiguidades do que por cumplicidades aprofundadas. ao contrário do que se possa pensar. II – Forais É sabido que os concelhos se ufanam muito dos seus forais e quase se pode dizer que está na moda a sua publicação.

ainda que um pouco artificialmente. o terceiro confiava-se à guarda do Concelho. n.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 15 lavradores explorados. pode dizer-se que nos últimos tempos o estudos dos forais tem merecido a assinalada atenção dos historiadores que podemos caracterizar e fasear. Terminava aqui a relação do Concelho com o Foral? Não. para além de conservarem informações preciosas sobre toponímia. Outra razão para tal é que os forais podem fornecer elementos subsidiários para o estudo das relações de poder dentro de um determinado espaço. 1967. competindo aos Juízes e Vereadores conservá-lo em bom estado. Os Forais de Évora. como seriam estes em grande percentagem. E depois de elaborado e escrito o foral. outro fica na posse do poder central. Posto isto.º 8. E quando chegava o momento da decisão. sob pena de repreensão ou mesmo de punição por parte do Corregedor na sua correição anual. Embora muito desfasado no tempo. E quem é que aplicava essas penas? São exactamente oficiais locais de eleição ou confirmação concelhia: juízes. guardando-se no sítio próprio que era a Torre do Tombo e como era impensável fornecer um exemplar a cada foreiro. enquadro nesta lógica de interpretação global o tão breve quanto perspicaz ponto de vista . E quando Fernão de Pina vai pelo Reino recolher elementos para proceder à correcta reforma dos forais. embora seja a pensar nessa circunstância que acima caracterizei de ambígua a relação entre os forais e os concelhos. antroponímia. por exemplo. porque o mesmo foral previa mecanismos de punição do senhorio que abusasse ou levasse mais direitos do que os consagrados no diploma. Évora. mantém-se o triângulo na sua distribuição ou encaminhamento: um exemplar é entregue ao senhorio. Situo nesse enquadramento o ensaio de Marcelo Caetano. vintaneiros ou até quadrilheiros. Resta saber se oficiais rudes e analfabetos. publicado no Boletim Cultural da Junta Distrital de Évora. A Igreja quando estava presente fazia mais o papel de senhorio do que o de porta-voz dos foreiros. do seguinte modo: A – Um primeiro tempo de análise da reforma dos forais no conjunto da governação de D. faz as suas inquirições encontrando-se com a população em quadro municipal porque não havia outro com força representativa e capacidade de mobilização das pessoas. era o Rei que surgia através de peritos de grande competência e prestígio institucional por ele próprio nomeados. os Condes da Feira! Mas essa é outra questão. direitos e costumes tradicionais. Daí que os estudos sobre os forais se possam inserir numa visão genérica da historiografia municipal. teriam coragem e força para punir senhorios todos poderosos como. Manuel.

. Biblioteca Municipal. Eis a bibliografia que pude coligir. e de – Francisco Nunes Franklin. Os forais manuelinos – 1497-1520. normalmente com o apoio e o interesse das Câmaras Municipais. e revisão científica de Maria Helena Cruz Coelho. Dissertação histórica..ª ed. Maria José Mexia Bigotte. 1993. 2. Forais manuelinos da cidade e termo do Porto existentes no Arquivo Municipal. Memoria para servir de índice dos foraes das terras do Reino de Portugal e seus domínios. – Forais e foros da Guarda. Jorge. pp. Coimbra. Lisboa. entre 1961 e 1965. Imprensa régia. Academia das Ciências. de Margarida Garcez Ventura..16 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS assinado por Margarida Sobral Neto no vol. s. Câmara Municipal. Silves. Câmara Municipal. 5 vols. de Maria Filomena Andrade. de análise interna e de publicação textual facsimilada. um tempo que é simultaneamente de enquadramento histórico. III da História de Portugal dirigida por José Mattoso. 1990.. – Chorão. – Fonseca.l. 1940 e António Augusto Ferreira da Cruz. coord. Creio ser esse o tempo em que nos encontrámos o qual remonta aos fins da década de oitenta do século passado. O Foral Manuelino de Arraiolos. Mais tarde. Pinto Loureiro. A primeira fase remonta ao clima de exaltação patriótica que se viveu nos inícios da década de 40 do século XX. Lisboa. edição do autor. introd. Guarda. se não cronológica ao menos logicamente. estudo e transcrição de. C – Sucedeu-se.. 1999. Câmara Municipal de Arraiolos. 1825.. direcção. ainda que não sob o mesmo impulso. Provavelmente haverá omissões. Lisboa. apesar do esforço desenvolvido para que tal não aconteça. IANTT. (III. 1812. Enquadro nesse contexto os trabalhos de J. glossário de Maria do Rosário Morujão. Porto. – Foral (O) da Ericeira no arquivo-museu. Colibri. 2000. Forais manuelinos do reino de Portugal e do Algarve conforme o exemplar do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 171-174) Essa tradição remonta ao século XIX tendo expressão nos textos de – João Pedro Ribeiro. Câmara Municipal. 1993. Lisboa. 1940. surgiu o trabalho gigantesco de Luís Fernando de Carvalho Dias. 1961-1965. – Forais de Silves. Forais de Coimbra. jurídica e económica sobre a reforma dos forais no reinado do senhor D. estudo histórico de Manuela Santos Silva. B – A um tempo de análise sucedeu o tempo de publicação dos textos dos forais. direcção introd.. Manuel.

Francisco Ribeiro da. História. Manuel em 10 de Abril de 1518. 1998. 2001.. Guimarães. Câmara Municipal. 1994. Leiria. Póvoa de Varzim. «Os forais manuelinos da Comarca da Estremadura» in Revista de Ciências Históricas. Câmara Municipal. estudo de Nuno Campos. . Coimbra. de Inês Morais Viegas. Câmara Municipal. – Foral manuelino de Lisboa. Montemor-o-Novo. – Monteiro. – Neto. 1986 (mimeo). Joel Silva Ferreira.. pp. Filomeno. de Carlos Santarém Andrade. As cartas de Couto do Mosteiro de Arouca. Lisboa. Os forais da Póvoa de Varzim e de Rates. vol. Manuel. 1989. ISCTE. – Foral de Besteiros. 195-222. Os Forais do Burgo e de Arouca. Os Forais de Melgaço. V. Abrantes. ed. 2000. introd. – Foral de Colares..71-90 e vol. transcrição e notas de.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 17 – Foral concedido a Abrantes por D. Francisco Ribeiro da. Arouca. Forais e regime senhorial. VI. – Santos. de Eduardo Campos.. Câmara Municipal. Câmara Municipal.. 1991. 2001. Câmara Municipal. «O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais» in Revista da Faculdade de Letras. Lisboa. n. – Marques. 1992. vol. introdução.. Os contrastes regionais segundo o inquérito de 1824. 1990. pp. José Manuel. introdução. Melgaço. – Silva. Barcelos. vol. – Silva. Os forais manuelinos do Porto e do seu termo. 1989. – Martins. – Foral de Guimarães-1517. transcrição e notas de. «O foral manuelino de Ansião» in Actas do II Colóquio sobre História de Leiria e da sua região. pp. 2003. – Marques. de. Coimbra. Câmara Municipal. 1994. ed. ed. Margarida Sobral da Silva. Montemor-o-Novo Quinhentista e o foral manuelino.. 1995. 1991. 2003. – Silva. 161-186. fac-similada. José. Francisco Ribeiro da e Garcia.. – Silva. 1991 – Marques. VI. Porto. apresentação de Maria Calado. Nuno Gonçalo. Arquivo da Universidade. Sintra. transcrição de Maria Teresa Nobre Veloso. «O Foral manuelino da Terra de Paiva: uma preciosidade patrimonial» in Poligrafia. Arouca. Jorge/Branco. Cláudia Valle/Fonseca. INAPA. Câmara Municipal. IV (1989) pp. Lisboa. ed. ed. Câmara Municipal. José.. – Foral de Coimbra de 1516. Manuela Alcina Oliveira e Mata. II vol. José. Os Forais de Barcelos. Sociedade Martins Sarmento.º 3. Porto. 1998.. II série. fac-similada. 255-267.

Julho-Dezembro 2001. João Azevedo. estudo comparado e leitura. – Silva. «O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes» in Felgueiras – Cidade. a propriedade e o uso da terra.º 47/48. Os Forais manuelinos da Terra de Ovar e do Concelho de Pereira Jusã. Francisco Ribeiro da. n. Câmara Municipal. em 1999. da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que em 1998 defendeu uma tese de doutoramento (de que tive a honra de ser co-orientador). facsimilada do original. notas sobre antroponímia e toponímia. Ovar. Eu próprio ensaiei. Santa Maria da Feira. senão com sucesso ao menos com grande autosatisfação. estrutura formal e divisões internas. publicado em parte pelo Editor de Mirandela. O Foral dado por D. – Valério. sobretudo das terras banhadas por rios. glossário dos termos utilizados. 8-28. os foros e o seu significado económicosocial. as regras de uso e partilha dos meios de produção. D – Há ainda um quarto momento que foi inaugurado por Maria Olinda Rodrigues Santana. UTAD (policopiado) 1998. João António. ano 2.18 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. forais e senhorialismo. Edição. as relações foraleiras entre lavradores e senhorios. de que resultou um artigo a que chamei A pesca e os pescadores na rede dos forais manuelinos e foi publicado na revista «Oceanos». Os forais manuelinos de Alvito e Vila Nova da Baronia. Francisco Ribeiro da. enquadramento histórico e análise estatístico-linguística. tratou-se de combinar e cruzar cientificamente o estudo da história e do direito foraleiro com o tratamento linguístico do texto. Felgueiras. . Foi necessário examinar todos. Livro dos foraes novos da comarqua de Trallos Montes. 1996 Que temas em concreto é possível colher e apreender nestas publicações? Aspectos históricos e histórico-jurídicos dos forais. ed. não só os do litoral onde era suposto encontrar as informações que procurava mas também os do interior. Mas são possíveis e desejáveis estudos transversais. 2000. 4 vols. Como o título indica. introdução e estudo de…. Alvito. Câmara Municipal. – Silva. 1989. n. uma matéria que atravessa muitos forais manuelinos. Dezembro 1994.º 6. Manuel I à Vila da Feira e Terra de Santa Maria a 10 de Fevereiro de 1514. pp.. Francisco Ribeiro da. Câmara Municipal. Lisboa. Apliquei a mesma metodologia ao estudo sobre o peso do sal nos forais manuelinos. etc.

«administração». nomeadamente ao nível dos mestrados e até dos doutoramentos nos quais o tema do municipalismo é assíduo. De norte a sul têm sido elaboradas.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 19 III – Estudos sobre os Concelhos e a Administração Municipal Não são muito numerosos os estudos directos e exclusivos sobre os concelhos portugueses nos séculos XVI e XVII. as Actas do Congresso sobre o Município no Mundo Português realizado na Madeira em Outubro de 1998 que reuniu a maior parte dos investigadores que em Portugal (e no Brasil) se dedicam a estes temas. utilizando palavras-chave lógicas tais como «concelhos». apenas 10 se dedicaram em todo ou em parte aos séculos referidos. algumas de grande mérito e utilidade. onde tive oportunidade de apreciar o trabalho de Rute Maria Lopes Pardal. umas quantas sobre os séculos XVI e XVII. sendo bastante mais abundantes os dedicados ao século XVIII e aos finais do Antigo Regime. «municipal» ou «elites» indicaram-nos cerca de 30 títulos. Como se pudesse haver verdadeira e séria História Nacional ou Geral sem o contributo das monografias dos espaços mais . é possível apresentar aqui um ponto da situação que pode ser também uma espécie de balanço. revelam-nos que sendo 39 o número total das comunicações publicadas. E não só nas Faculdades de Letras e não apenas nas Universidades Públicas. Gostaria antes de mais de começar esse balanço por duas ou três notas que nascem da observação da realidade actual do panorama lusitano: 1 – A sensibilização do Ensino Superior para estas matérias Começarei por constatar uma realidade e me congratular com ela: todos os cursos de História das Faculdades de Letras têm dedicado atenção e inserido os estudos sobre História Local e Regional nas suas ofertas de pós-graduação. alguns de conteúdo muito vago face ao tema que nos foi sugerido. Provavelmente esta será uma tendência geral da historiografia portuguesa e não apenas da historiografia sobre o municipalismo. sítio da Biblioteca Nacional. De qualquer modo. O caso mais recente de arguição foi precisamente na Universidade de Évora. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640). As pesquisas que levamos a cabo na web. Por outro lado. orientado por Laurinda Abreu. directa ou indirectamente. mais próprio para amadores desocupados do que para universitários. De uma ou outra tive eu próprio oportunidade de ser arguente ou orientador. Sinal do renovado interesse pelos estudos locais e regionais e talvez do desaparecimento do preconceito de que a História Local era um assunto menor. discutidas e às vezes publicadas teses. «município».

(Lisboa. Nem sempre o que move os autarcas é o puro e desinteressado interesse científico. O exemplo dos forais acima lembrado é elucidativo. representação dos Concelhos em Cortes. . funções administrativas dos mesmos. em cada um dos 3 volumes que. aqui e ali. lugar que cada um dos concelhos ocupava na hierarquia dos bancos de Cortes.H. não serei eu a criticar quando da convergência dos interesses dos historiadores e estudiosos e dos governantes dessa terra resultam jornadas de divulgação e edições de livros. nos quais incluo as Histórias de Portugal e outros estudos de síntese e por outro as monografias e estudos locais e regionais específicos. promoção de vilas a cidades. força progressiva dos mesteres. Nogueira dedica pouco mais de meia página ao assunto da divisão administrativa do Reino. A única nota que vale a pena realçar é a afirmação. com o suporte científico das Universidades e. como se pode concluir dos repetidos colóquios e congressos sobre o poder local que têm patrocinado. A. mostravam sinais de decadência. 4. de Oliveira Marques (a de 1972 e a «Breve» mais recente) – embora não se demorando muito no que toca à administração municipal neste período. Também por esta via pode ser frutuosa a colaboração das Universidades com as Câmaras Municipais. no conjunto. segundo aquele eminente historiador. em capítulo assinado por J. A História de Portugal dirigida por Hermano José Saraiva no seu vol. Nem tem que ser. dialéctica entre a centralização e as pretensões autonómicas dos concelhos. distinguirei por um lado os estudos de âmbito geral. incidência da legislação central sobre a vida quotidiana dos municípios. são consagradas algumas páginas aos concelhos e ao «país profundo» de que destaco os seguintes aspectos: evolução relativa das áreas regionais. especialmente no Brasil onde as Câmaras adquiriram enorme importância. tocam os séculos XVI e XVII. pelo apoio que têm dado a publicações sobre a terra. Alfa.20 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pequenos e das micro-instituições ou como se entre uma e outras se pudessem estabelecer diferenças abissais de metodologia e de objecto. do desaparecimento das particularidades locais no período que nos ocupa. Quanto à História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão. começando pela de A. Um outro dado a reter (ao qual não é a primeira vez que faço menção) é o progressivo interesse das Câmaras pelos estudos municipais. Quanto às Histórias de Portugal. algo enigmática.1983). tem o mérito de chamar a atenção para a importância da implantação dos concelhos nas Ilhas Atlânticas e nas «conquistas» ultramarinas. Por isso. em contraste com a metrópole onde. Assuntos estudados Quanto aos assuntos estudados.

no volume seguinte. O vol. O autor. dedica-se um subcapítulo de 30 páginas aos Concelhos e às Comunidades. sem que isso signifique concordância ou discordância da nossa parte: a primeira é a de que cada unidade administrativa era completamente independente em relação às vizinhas. 1998). tal como Oliveira Marques. Duas ideias fortes de Romero de Magalhães devem ser destacadas. V coordenado por João Alves Dias. a matéria dos concelhos nesta História é relativamente abundante. Manuel cuja política interna analisa. Por sua vez. pp. de entre a bibliografia disponível. Nuno Gonçalo Monteiro. Em concreto. para além de alusões avulsas aos concelhos ao longo do volume. coordenado por António Manuel Hespanha. integradas num longo capítulo sobre os equilíbrios sociais do poder. discorre sobre o binómio poder central/poder local. Romero de Magalhães parte de D. consagra algumas linhas aos Concelhos ultramarinos. H. na pressuposição já referida de Romero de Magalhães de que «o poder em Portugal é arregional ou anti-regional» e que o papel principal pertenceu à oligarquia dos homens bons (texto de José Adelino Maltez. procura sintetizar nessas três dezenas de páginas os estudos publicados em Portugal sobre administração municipal. coordenado por Joaquim Romero de Magalhães. consagra 10 páginas aos Concelhos. Nelas . a segunda é a de que o poder em Portugal é a-regional e anti-regional. Mesmo resumida. sobre o processo eleitoral e. dedica algumas páginas às instituições concelhias e ao seu governo. no volume dedicado ao Alvorecer da Modernidade. 406-412). 2001) coordenado por Avelino de Freitas de Meneses. num longo desenvolvimento sobre a Arquitectura dos Poderes que. oferecendo-se uma série de temas sugestivos que poderão proporcionar inspiração para ulteriores desenvolvimentos: – Instituições e poderes locais – Câmaras e ordenanças – centro e periferia – instrumentos de fiscalização do centro – A hipotética viragem da segunda metade do século XVIII – As repúblicas municipais – governo económico local e finanças locais – poderes municipais e elites locais – entre oligarquia e comunidade A Nova História de Portugal (direcção de Joel Serrão e A. 56-68) ao tema dos concelhos. de Oliveira Marques – vol. consagra 8 páginas (pp. Lisboa.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 21 A História de Portugal dirigida por José Mattoso. assinadas por Maria Paula Marçal Lourenço. sobre competências próprias e delegações de poderes. VII da mesma Nova História de Portugal (Lisboa. A obrigação de síntese a que os Autores são constrangidos e provavelmente o plano geral do Coordenador leva-os a seleccionarem. pelo que se indica no título genérico do volume. os aspectos que mais substantivos lhes parecem. abrange um período que vai de 1620 a 1807. sobre o Antigo Regime.

fazendo alarde de boa capacidade de síntese. Nuno Gonçalo Monteiro. A progressiva influência do Corregedor em prejuízo das outras duas magistraturas (Juízes de Fora e Provedores). na minha opinião. na 1. Há algum desequilíbrio entre o espaço concedido ao Antigo Regime (isto é. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). José Vicente Serrão. Basta lembrar os títulos dos principais capítulos para evocar os conteúdos: 1 Com a colaboração pontual de Isabel dos Guimarães Sá. desenvolve dois itens: a «administração central periférica e os poderes delegados» e ainda «o poder absoluto e as cortes».dir. é muito mais profundo. Círculo de Leitores. Compreende-se que assim seja não só pelo número potencial de leitores interessados como também pela bibliografia disponível: muito mais abundante para os séc. utilizando com habilidade e originalidade boa parte da bibliografia conhecida. coordenador e principal autor1 dedica aos séculos XVI e XVII.ª parte. Embora se encontre nesta obra alguma coisa de comum com o capítulo que o Autor escreveu na História de Portugal. Ana Cristina Nogueira da Silva.s XV-XIX – cerca de 175 páginas) e o conferido aos séculos XIX e XX (mais de 400 páginas). sugestivo e inovador. dos Corregedores das Comarcas e dos Juízes de Fora e a problemática da centralização versus autonomia. de César de Oliveira.s XIX e XX do que para o Antigo Regime. Paulo Silveira e Sousa e Mafalda Soares da Cunha). . séc. Paulo Jorge Fernandes.22 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a autora. – Estruturas fundamentais da administração municipal e funções dos oficiais camarários e dos magistrados régios em relação aos serviços prestados e ao correcto ordenamento da vida quotidiana – Os oficiais das freguesias e aldeias. sublinharemos o interesse da História dos Municípios e do Poder Local. Nem isso é importante e se aludo aqui a tal é apenas porque a minha comunicação trata dos séculos XVI e XVII. Além disso. não é fácil estabelecer ao certo a percentagem de páginas que. dedicado aos finais do Antigo Regime no subcapítulo escrito por mim próprio – tratará da administração municipal numa perspectiva predominantemente institucional: – As divisões do território e o seu significado – As leis reformistas dos finais da época moderna e a sua incidência na administração municipal – A importância dos Provedores. coordenado por Luís A de Oliveira Ramos. Quanto a trabalhos gerais sobre o Municipalismo na época moderna. Lisboa. nesta obra. O vol. VIII da mesma Nova História de Portugal – em vias de publicação. 1996.

Não deverei passar à frente sem uma breve alusão a um texto-síntese muito citado e esgotadíssimo – O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes.. Coimbra. Em Portugal continental. CEFA. uns artigos e ensaios de ambição moderada. . A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640. de Maria Helena Coelho e Joaquim Romero de Magalhães (Coimbra. Esposende. Não me parece que deva enveredar aqui pela análise de pormenor dos textos que se debruçaram sobre terras determinadas. Santarém. Ponte de Lima. portanto. Lousã. Refiro-me a António de Oliveira. 1986). Braga. Évora. E de entre o conjunto do trabalho emerge para nós. 2 vols. Refiro-me a António Manuel Hespanha e à sua obra As vésperas do Leviathan. Aveiro. Almedina.. 1994). No entanto. há todo um acervo de obras de índole local no seu objectivo imediato ainda que possam conter sugestões metodológicas de largo alcance e até de valor universal. tanto dos Açores como da Madeira. outros teses e obras de maior fôlego. Dentro das obras de âmbito geral. 1972. Depois e para além disso. Coimbra. Há também que dar a devida importância ao incremento dos estudos sobre o municipalismo nas Ilhas. há uma que me marcou desde muito cedo. Em ambos os arquipélagos a apetência por estas matérias está em crescendo. Lisboa. Porto. Viana do Castelo têm sido objecto de vários estudos. Guimarães. o longo capítulo da Arqueologia do Poder e a sua visão integrada do poder político-administrativo em Portugal na época moderna. na qual desempenha papel de relevo o que ele chama a administração periférica da Coroa. pela inovação que introduz. Esta obra constitui. e quantas outras. Notas de história social. Vila do Conde. pode dizer-se que existem trabalhos valiosos dedicados a muitas cidades. especialmente àquelas onde existem Estudos Superiores: (continuo a ater-me aos séculos XVI e XVII). Instituições e Poder Político (Coimbra. Viseu. o local e o inexistente regional – O espaço político e social local. não poderemos deixar de lado uma tese de doutoramento que justamente tem constituído uma trabalho sempre citado.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 23 – A sociedade local e os seus protagonistas em que louvavelmente desce até às paróquias – O central. através de instituições de investigação como o Instituto Histórico da Ilha Terceira ou o Centro de Estudos de História do Atlântico que nos últimos anos promoveu dois Congressos sobre o municipalismo e já prepara o terceiro. Mas não apenas relativos a essas cidades: também Portimão. uma referência obrigatória para quem estuda o municipalismo em Portugal..

Mas há dois aspectos que me parece de justiça enfatizar neste apanhado: o primeiro é o facto de. • As actividades mesteirais e o controlo possível exercido pelas administrações municipais. por conseguinte. actividades económicas. e esse é o segundo aspecto. Festas e cerimónias rituais locais comemorativas de nascimento de príncipes e da morte de membros da família real. As representações públicas do poder. . dividiria assim as matérias: • A das infra-estruturas: aspectos geográficos. o primado da história económica e social era indiscutível e intocável. abastecimento de alimentos. Por outro lado. No tempo em que o Prof. • A da estrutura. profissões. • A das pessoas envolvidas e as estratégias do poder e das relações interfamiliares na perspectiva do acesso e do exercício do poder. de água. embora não fosse seu interesse imediato assumido o enquadramento institucional e administrativo ele não podia ser ignorado. recenseamento dos moradores. Têm tido lugar aqui os estudos sobre movimentos sociais e tumultos. • A das finanças: receitas e despesas. etc. António de Oliveira começou a investigar. A • participação cívica dos cidadãos e da plebe. propriedade da terra. Como o título indica não foram propriamente as matérias de governo local que preocuparam o Autor mas antes os problemas da economia e da sociedade. O problema da ordem pública. ter aberto caminhos com futuro para a história local e regional. de bens de consumo. organização da defesa. ao ter escolhido uma cidade e o seu aro como objecto da sua dissertação de doutoramento. • A dos serviços: obras públicas. quantas vezes atribuídos pelo poder central à inércia das Câmaras. diversificação e funcionamento das instituições e seus suportes materiais como os edifícios dos Paços do Concelho e Arquivo. Basta ler o seu primeiro longo capítulo sobre circunscrições administrativas e jurisdição municipal para se perceber o alcance destas matérias no conjunto do seu excelente e pioneiro trabalho. Sistemas de organização fiscal e pessoal envolvido. Parece.24 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rasgou caminhos e incentivou trabalhos de outros. questões de saúde e da higiene. Começando pelas grandes áreas temáticas estudadas. mais interessante e útil revisitar os conteúdos dos trabalhos académicos que ultimamente têm sido publicados. demografia. Os tempos de lazer e as festas na perspectiva dos que delas usufruem. As ordenanças. O património municipal.

Este novo enfoque interpretado por jovens historiadoras e historiadores parece-me muito promissor e justifica que se revisitem e provavelmente se reescrevam numerosas monografias sobre as Misericórdias portuguesas. mobilidade social.ª série. 4. nomeadamente o Brasil não só na época colonial como no período pós-independência. As procissões. Ligado a este. • Os diversos aspectos da vida quotidiana. 1997) – Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime – não só por constituir uma excelente síntese de tudo (ou quase tudo) quanto se escreveu ultimamente entre nós sobre o assunto mas também por oferecer uma quase completa bibliografia dos títulos publicados sobre o nosso tema – municipalismo na época moderna. • A religiosidade e a influência dos Mosteiros no aro concelhio. As práticas religiosas privadas e públicas. das freguesias e das suas relações com a cabeça do Concelho. Outro tema que se tem revelado extremamente fecundo é o da formação das elites e das oligarquias locais. Câmara e Misericórdias cruzam-se e complementam-se. vol.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 25 • A das relações com o poder central e as chancelarias régias. As confrarias e as práticas de sociabilidade. Outra pista a desenvolver será a do estudo da organização paroquial. História comparada dos Concelhos. estratégias de poder. É claro que mais uma vez se impõe referir o nome do Prof. sua múltipla caracterização. Outro provável caminho do futuro creio que poderá ser o do estudo comparado dos concelhos de Portugal e dos países colonizados por Portugal. • A geografia do poder e a importância e sacralização de certos espaços públicos. Não deixa de ser relevante que os nomes de topo das elites municipais se repitam nas listas dos nomes dos principais dirigentes das Misericórdias. (n. Há ou não . tais como o Corregedor da Comarca. ainda que o serviço público fosse a razão de ser de ambos. Entram aqui os estudos sobre o papel e atribuições dos agentes régios. tais como alimentação. o Provedor ou o Juiz de Fora. o poder municipal exercido no âmbito concelhio e o poder feito de honra e de prestígio no seio das confrarias eram de natureza diferente. higiene.º 141. Nuno Gonçalo Monteiro. analisando as Irmandades não apenas nos seus aspectos organizacionais internos e na lógica da assistência mas procurando situá-las e inseri-las nas redes e estratégias de poder local. • A da conflitualidade no interior do concelho e o choque com outras entidades eclesiásticas ou civis. XXXII. têm-se retomado em Portugal há uns anos a esta parte os estudos sobre as Misericórdias. questões de segurança. Impressionou-me fortemente o ensaio publicado na «Análise Social». em especial a do Corpo de Deus. Na verdade.

aliás. as Câmaras redigiam Capítulos gerais e particulares. Contudo. que eram ora pontos de vista e reclamações que se destinavam ora a ser discutidos pelo Terceiro Estado. Como é sabido. os temas da alfabetização e a sua relação com o exercício de cargos municipais. Para além de tudo isso. Mas que é isso de tudo e de total? A mim parece-me algo simultaneamente desejável e inatingível. – outro tema que gostei de ter tratado foi o das relações entre o poder central e o poder local na perspectiva da participação dos concelhos nas Cortes. como se fosse um jurista. o que estudar mais dentro da história do municipalismo? Eu diria «tudo». O meu posto de observação tem sido o Porto e daí talvez a provável sobreavaliação das capacidades de literacia dos investidos no poder municipal que. Um exemplo: . além de funcionar sobretudo a nível local e concelhio. às leis que as estruturaram e lhes fixaram as regras de funcionamento. Devo confessar que comecei por estudar as instituições municipais. Os livros das chancelarias régias fornecem muitos exemplos de contratação pelas Câmaras de Mestres de Ler e de Gramática que não têm sido aproveitados sistematicamente. desempenhou papel importante como factor de mobilidade social ascendente. ora a ser apresentados ao Rei na expectativa de uma resposta favorável. houve ou não reivindicações neste domínio? Os concelhos foram espaço de coesão interna ou antes de conflitualidades e clivagens? Para além destes áreas. perdoar-me-ão a imodéstia de lembrar alguns pequenos temas que tratei em artigos e ensaios que me pareceram interessantes e que podem ser desenvolvidos a nível municipal: – em primeiro lugar. e sobretudo nos séculos XVI e XVII. se tal fosse possível! A história total é o objectivo teórico final do historiador. Sobre que incidiam esses capítulos e qual o seu encaminhamento na perspectiva do diálogo institucional entre a Corte e os concelhos parece-me um problema interessante e que poderá revelar que as indicações de governo não eram de sentido único – do centro para a periferia – mas provavelmente também da periferia para o centro. Frei Bartolomeu dos Mártires. não podemos esquecer que a partir de 1697 não há mais Cortes em Portugal. me pareceu ainda mais favorável em Braga no tempo de D. por cada convocatória.26 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS um espaço de autonomia para as freguesias. recorrendo antes de mais às normas. – o tema da venalidade e da hereditariedade dos ofícios públicos parece-me sugestivo na medida em que sou levado a concluir que essa prática.

Pedro. Neste processo. Pedro Molas Ribalta2 que me seduziu com a sua teoria da História Social da Administração. Ou seja. dos comportamentos. apurando-se as circunstâncias económicas. Quem eram afinal esses senhores Procuradores? Quando esperávamos que todos fossem fidalgos provavelmente de tradições bem alicerçadas e antigas. da História Política. 66 do Livro 1. das atitudes. A História Social do Poder tenderá então a ser uma espécie de biografia colectiva. La Historia Social de la Administración in Historia Social de la Administración Española. surge a surpresa: alguns afinal eram netos de oficiais mecânicos e.º das Ordenações Filipinas (sobre os vereadores) foi importante como norma e como fonte para a fixação do perfil e do modelo institucional desses oficiais municipais tão típicos dos municípios lusitanos. 1980. Barcelona. tentando perceber a «estrutura efectiva do poder» inserida na comunidade até chegar ao reconhecimento da importância do exercício do poder como elemento determinante da estrutura interna dos estados e dos grupos.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 27 a leitura do tit. da História Económica e Social. chegaremos ao conhecimento das circunstâncias profundas da sedução e da conquista do poder e do seu exercício. Estudios sobre los siglos XVII y XVIII. . A História da Administração bem entendida tem que resultar da confluência da História do Direito. culturais. e outras dos indivíduos que povoaram e deram vida às instituições do poder local e regional e exerceram efectivamente esse mesmo poder. Foi esse objectivo que me moveu em grande parte na preparação do meu doutoramento e em vários trabalhos posteriores e mesmo em teses de mestrado que tive o gosto de orientar. da História das Mentalidades. A mesma preocupação esteve presente na minha Lição das provas de Agregação quanto aos Procuradores do Porto às Cortes do século XVII. Muito cedo interiorizei a frase de Jaime Vicens Vives – «a História das Instituições não é História propriamente dita»! Mas as instituições são feitas por homens e para pessoas concretas. Como? Indagando as relações entre a instituição e os grupos sociais. religiosas. veio em meu auxílio um historiador catalão. Mas um historiador depressa se dá conta que a realidade vivida é algo muito mais complicado que a realidade sonhada ou programada a qual às vezes tem pouco a ver com as normas. então talvez a história das instituições possa ser história propriamente dita. talvez fosse melhor tentar a história social da administração. Ou seja. sociais. por essa razão viram adiado ( por 2 MOLAS RIBALTA. Se nós conseguirmos ligar as pessoas concretas que serviram as instituições às pessoas concretas a quem se dirigia a sua acção. mais do que fazer história das instituições.

Não só nem sequer principalmente das instituições. Não só porque de repente o que é vivido à escala local. a sua habilitação para serem admitidos ao Hábito da Ordem de Cristo. Conclusão Há que concluir. Mas o que não pode nem deseja é apagar as regiões e as multímodas diversidades regionais Por isso. As circunstâncias do tempo presente pautadas pela ideia de globalização aparentemente privilegiam o universal e secundarizam o regional e o local. é num mundo globalizado que o interesse real pelo que é que local e regional se vem acentuando.28 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS algum tempo) o seu requerimento. Mas. e não valerão muito se não os situarmos na sua realidade existencial e institucional e na sua rede de relações. como que esqueletos sem carne. tenha utilizado 43 páginas com os «nomes das pessoas que animaram as Instituições». em virtude e por força das novas tecnologias. . Mas das pessoas concretas na sua inserção social e comunitária. É óbvio que os nomes sem mais são meras indicações. Não só os de fundo histórico. Os estudos sobre os concelhos e o municipalismo foram suficientemente atractivos para ocuparem historiadores de excelência no passado de que basta lembrar o exemplo de Alexandre Herculano. e para que não se percam as identidades e o gosto pela diversidade. Tal metodologia implicou que na Tese de Doutoramento tal como foi publicada. do modo como as famílias e os grupos se organizaram e que tipos de redes de relacionamento e que vias de desenvolvimento e de progresso conseguiram estabelecer. de cada pessoa. decorre normalmente em cenário local. pode adquirir e adquire valor global mas porque a vida real das pessoas. A Europa que se está a construir poderá esbater ainda mais as ditas soberanias nacionais. paradoxalmente. parece de incentivar os estudos locais e regionais.

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. 39-58. sem dúvida. A Historiografia da administração local. e ao qual se apresenta aliás no plano das realizações como instrumento.1. Concentrou-se sobretudo na História Municipal da 2. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Alguns tem mesmo sobre ele posições radicais ao ponto de afastar o Município do rol das instituições que propõem para a nova ordenação da nossa administração pública e territorial. ainda que a partir de um discurso mais político do que histórico. na prática. É em geral um discurso muito crítico ao papel e lugar que o Município tem no bloqueamento aos desenvolvimentos e reformas necessárias da Sociedade. pp. crise do Estado de Antigo Regime. para que aliás veio dar contributos essenciais pelo novo prisma de abordagem da questão.Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua Historiografia e nova História) JOSÉ VIRIATO CAPELA (Universidade do Minho – Dept. 2005. Breve perspectiva histórica 1. Administração Pública e Economia Portuguesa. O município como objecto por excelência dos estudos de História da Administração local A História Municipal e através dela a História da Administração Municipal é. Esta posição inviabilizaria. fraco desenvolvimento da investigação histórica sobre o município português. A abordagem da questão municipal está já largamente presente nos textos dos reformistas e ilustrados do século XVIII e seus finais. porque não estava em causa a sua legitimação e continuidade histórica. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Pós-Pombalismo. de reforma ou mesmo alternativa. um dos ramos da Historiografia Portuguesa que mais se desenvolveu nos tempos mais recentes. de História/Instituto de Ciências Sociais) 1.ª metade do século XVIII em diante. Pombalismo. Desenvolveu-se em forte articulação com a problemática da construção e reforço do Estado Moderno ou da sua crise e da Sociedade de Antigo Regime.

Deste modo. não tem porém lugar autónomo nas Histórias de Portugal de Oitocentos.40 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É verdadeiramente o século XIX – em particular da sua 1ª metade – que verá florescer a História do Município e emergir mesmo o ideário Municipalista. O ideário republicano. A República (1910-1926). Com A. Félix Nogueira e seus continuadores emergirão finalmente com grande desenvolvimento. se são esparsos os estudos históricos sobre o municipalismo dos Tempos Modernos em Herculano – que o Absolutismo segundo ele matara – com H. Lopes de Mendonça. ultrapassando de vez o «enclausuramento» romântico medieval e fixando mais desenvolvidamente a sua acção e adaptação dos Tempos Modernos. F. H. quer no plano prático quer até no historiográfico. Neste último ponto sem grande sucesso. A Reforma descentralizadora de Rodrigues Sampaio (1875-1890) promoverá sem dúvida um dos mais profundos desenvolvimentos das coordenadas da vida municipal portuguesa e também da História do Municipalismo. socialista. Sampaio. que a História do Município fará novos avanços. Mas será com Félix Nogueira. manter-se-á nas peugadas doutrinárias legadas pelos ideários de Oitocentos. o ideário corporativo anti-liberal e antidemocrático. e em grande medida como reacção aos excessos da Centralização promovida pela dinâmica das novas instituições liberais – a Divisão dos Poderes e o Código de 1842 – é a solução do municipalismo que se apresenta como alternativa global que emergirá em grande força no mito historiográfico do município medieval. Com significativo espaço na obra de políticos. consubstanciado por H. Nogueira no seu Município Novo teria por então uma das suas primeiras grandes aplicações – interrompida com a crise financeira de 1890 – e que a República intentará de novo retomar. que depois se continuarão. repondo o Código descentralizador de R. ensaístas e sobretudo de administrativistas. do Centralismo e Absolutismo Monárquico. os estudos do Município português em tempos da Monarquia Absoluta. fazendo também seu o programa da descentralização e municipalização da administração e território. Nas origens do Estado Novo. Rodrigues Sampaio quando o municipio se inserir mais realisticamente no jogo e na acção político-social dos equilíbrios e harmonias necessárias entre a centralização e a descentralização. Herculano. economistas. haveria de trazer um novo fôlego e novos horizontes às investigações sobre o Município pela intensa reflexão histórica sobre as origens e natureza da instituição municipal – designadamente a sua anterioridade . Intenta-se então também a elaboração de monografias sobre os concelhos e os municípios e obras de conjunto sobre a temática.

o sistema e os problemas da administração local em si e em correlação com a descentralização e a intervenção e coordenação dos serviços técnicos e administrativos do Estado. Deste resultará em particular o enorme trabalho de estudo e publicação das fontes e fundos da produção administrativa camarária. Na prática esse é também um período de grande discussão sobre a administração local autárquica no tocante a matérias que se referem a: problemáticas da centralização/descentralização. o que faz desenvolver particularmente os estudos posteriores ao século XV. Mas muitos deles alargar-se-iam também ao estudo das corporações dos ofícios nos Tempos Modernos e em relação com eles também dos concelhos e até ao fim do Antigo Regime do trabalho mesteiral e oficinal. (Problemas de Administração Local – Centro de Estudos Político-Sociais. a História do Município Moderno é estudada a partir das suas próprias fontes. tendo vingado a solução centralizadora do Regime contra as alternativas mais descentralizadoras de municipalistas e autarcas. revelar-se-ia com muito mais pormenor a vida de outras instituições locais muito articuladas aos Municípios e que aí deixaram muitas marcas e registos nos fundos arquivisticos. o desenvolvimento dos serviços municipalizados. Tais programas tiveram eco nas discussões à volta do Código Administrativo de 1936 do Estado Novo. Esta ideologia de base corporativa não deixaria ainda de se fazer sentir nos estudos de História municipal que se desenvolveram entre nós.ª vez. Pela 1.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 41 ou filiação no Estado Português – em correlação com a fundamentação das raízes e natureza corporativa da Sociedade e do Estado. Lisboa. Tal estará na origem de um novo reforço da análise da História e evolução histórica do Município. com um alargamento das temáticas que as novas questões a resolver exigiam. Ela está certamente em relação com a emergência da figura do poder local no nosso . com particular incidência no campo doutrinário mais do que no campo historiográfico. quando se localizam os fundos mais completos e desenvolvidos da vida municipal. E pela descoberta e exploração destes fundos. envolvendo-se no estudo histórico das corporações de ofícios medievais e também da “corporação” municipal. Este é um período de grandes evocações de História Municipal. 1957). A Historiografia municipal para os Tempos Modernos sofrerá no pós 25 de Abril de 1974 um extraordinário desenvolvimento. de um modo sistemático. pelos anos 30 e 40 do século XX em correlação com os programas de desenvolvimento regional que pretende suportar e fazer assentar no município (e outras instituições históricas) programa desenvolvimentista a que então se prendem as elites locais portuguesas municipais e distritais para tirar a Província do seu letargo e abatimento e por eles regenerar o país.

Mais decisivos ainda foram os desenvolvimentos da História Institucional. mas também nos seus territórios e até «regiões».42 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ordenamento político-administrativo revolucionário – que rompe com o conceito vindo do Estado Novo da administração local autárquica – e também com o seu particular desenvolvimento assente na mobilização social e política de que foi alvo. essa entronca já na referida renovação do papel do município como autarquia local na administração pública e territorial portuguesa das décadas de 50 e 60. certamente também pelo seu marcado cunho institucional. mercados e formação de preços. a que genericamente se vem apelidando de estadualista que privilegia o estudo do município nas suas relações e mútuas adaptações ao Estado. na História financeira e da contabilidade municipal. os mecanismos sociais no ordenamento social local e sua articulação com a Sociedade de Corte e nos elementos e agentes de articulação política pelo estudo do papel e acção dos magistrados régios para o governo da periferia. das finanças locais. a que lhe contrapõe o modelo corporativo. que iniciando-se pelo estudo da História Social da Administração Municipal – com contributos decisivos para a configuração social dos diferentes orgãos municipais – receberia contributos fundamentais do novo campo da História Social. Tal desenvolvimento continua as linhas de rumo tradicionais da historiografia municipal portuguesa. que estuda os mecanismos do reforço dos elementos da articulação económica e financeira dos municípios à Coroa e Fazenda Pública. com importantes estudos monográficos dirigidos aos grandes municípios portugueses nos seus quadros institucionais. Desta etapa histórica sai particularmente beneficiado o estudo histórico do município português na Época Moderna. próprio à organização da Sociedade de Antigo Regime. permitida e sustentada pelos 3 novos pilares constitutivos do seu desenvolvimento: a lei da autonomia. em correlação com ela. A matriz e a base de História económica e social com que se renovou a historiografia municipal mais recente. e agora. com mais força e vigor. Nestes estudos. que . Para a renovação da historiografia municipal concorreram poderosamente novos domínios de investigação historiográfica que lhe foram aplicados: a História Económica. mas também do papel das posturas e regimentos locais no desenvolvimento e enquadramento económico mais geral. sai particularmente beneficiada a perspectiva estadualista. o Metropolitano e logo também o Ultramarino. os novos horizontes da Historiografia económica europeia do Pós-Guerra e da História Económica e Social dos Annales. das Elites e também à História da Mobilidade Social e dos Sistemas Eleitorais. no funcionamento das almotaçarias. mas também. com desenvolvimentos particularmente notórios na História económica da administração municipal. da separação dos sectores.

1. sobretudo sociais. designadamente o das comunidades confraternais. Perspectiva e abordagem sem as quais nunca formaremos uma visão completa da História Municipal e muito menos da emergência das suas Reformas. provedores e as novas «instituições políticas» do Estado Moderno. 1971) mas sem grandes consequências futuras. 1970) aconselha a fazer adentro do quadro analítico conhecido que é o da construção do Estado Moderno e seus limites e constrangimentos. para a História municipal deste período. Menos consequências teve a nosso ver. no plano institucional e das realizações. para a abordagem social da História e vida do Município. designadamente para o estudo daquelas perspectivas que tão descuradas tem sido pela Historiografia Política e Institucional Municipal. para cuja abordagem se tem recorrido sobretudo e quasi em exclusivo à perspectiva da História do Estado e da Administração. os campos. de Joel Serrão. a perspectiva da Historiografia e do paradigma Corporativo. designadamente a territorial. a saber. a História da Administração. apesar disso. dos baldios. a mais antiga (do Estado Novo) e a mais recente. neles incluindo também os outros campos do exercício dos poderes sociais mais informais ou sem base territorial. Mousnier nos estudos integrados em La Plume. P. a vincular e sobretudo a paroquial e a eclesiástica. do Absolutismo e do Despotismo. A História e historiografia da paróquia O estudo histórico da administração territorial portuguesa tem sido configurado e reduzido à História Municipal. vista e vivida pelo lado dos administrados. os poderes e as instituições para a administração régia.2. naturalmente pela força e dimensão que a instituição municipal mas também o ideário municipal ganhou na Sociedade e Cultura Portuguesa. o estudo dos outros domínios da administração do território. História e perspectiva esta que já R. U. Mas. o das correntes anti- .ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 43 prestam atenção para além da acção dos juízes de fora. dos usos e costumes comunitários. não se pode perder de vista. e contribui para ajudar a definir um outro e novo modelo municipal. Se em geral forneceu novos enquadramentos e fixou outras coordenadas de abordagem e de percepção da chamada «estadualização» ou «politização» da Sociedade. E que Jorge Borges de Macedo aconselhou e seguiu no artigo “Absolutismo” do Dicionário de História de Portugal (dir. les Faucille et le Marteau (Paris. não contribui tão decisivamente como parece dever ser o seu papel. que é unilateral e insuficiente. profissionais ou religiosas. Para além dos Municípios. a eleitoral e da nova configuração dos poderes. ao longo dos tempos. F. a saber. também a dos corregedores. a senhorial. Mas também no plano dos ideários.

sob a ordem e a . por outro lado. designadamente com a acentuação no reforço da paróquia ou freguesia. induziram e configuraram mesmo tal opinião. Para o que concorrerá também. E nesse sentido os estudos demasiado configurados nas fontes e administração municipal e no estudo de casos onde a dimensão institucional. como se comprova pelo papel desempenhado pelas outras instituições que no território do município exercem a sua actividade. ou crítica dos abusos e excessos da concentração municipalista da doutrinação e programa descentralizador ou regionalizador. Porém a realidade é mais variada e complexa. alheia ou mesmo estranha e desconhecida. Só uma visão e acercamento mais amplo destas realidades dos poderes. a propor soluções alternativas ao município e a desenvolver ou propor outras soluções político-institucionais. delimitando bem os espaços de actuação e concorrenciando-o inclusive. é que nos permitirá avaliar a importância e predominância relativa das instituições que disputam o exercício dos campos do poder local.44 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -municipalistas ou o dos críticos de soluções político-administrativas assentes na exclusiva solução municipal. que em geral. Com efeito a particular concentração e desenvolvimento da Historiografia dirigida ao estudo do Município face às outras instituições locais tem feito passar a ideia de que o Município e o seu território de jurisdição são as instituições exclusivas ou por excelência da administração local portuguesa neste século XVIII e finais do Antigo Regime. Tal reflexão é possível e ainda mais necessária no período de forte emergência do poder e ordem municipal. das suas legitimações incluindo a historiográfica e dos seus assentimentos. Ou a crer definitivamente que a solução municipal é originária e matricial à nossa constituição político-social ou uma dádiva divina e portanto perenes e inquestionáveis e por eles a subalternizar as doutrinas e os ideários político-administrativos que não priviligiam ou não entram em linha de conta com a instituição e solução municipal. o papel político e administrativo da acção municipal ganharam particular vitalidade e envolvimento e apagaram. contestada. Como se comprova também pelos testemunhos recolhidos junto das populações paroquiais designadamente nas Memórias Paroquiais do século XVIII (1758) onde a presença e domínio da instituição municipal aparece aí descrita de um modo ténue e esparsa. reduziram ou subalternizaram mais fortemente o papel e a acção das outras instituições. e assim o foram sempre na História local portuguesa e o devem continuar a ser para o futuro. o estatuto e a força da argumentação do ideário e propaganda municipalista dos seus grandes e importantes doutrinadores e ideólogos que não deixaram de reduzir a força e o plano de actuação de outras correntes e doutrinas. E naturalmente também por uma atenção mais cuidada à força e continuidade da doutrina e argumentação das soluções que não as municipais e municipalistas.

sobretudo quando ela é feita em proveito dos estratos que suportam o Estado fidalgo e aristocrático que se contesta ou são incapazes de suportar qualquer projecto de desenvolvimento. Que prefiguram nos casos mais desenvolvidos. Com efeito subsiste ainda. a outra realidade municipal à margem destes desenvolvimentos: municípios que pela sua reduzida dimensão. máquinas e estruturas do poder ao serviço das velhas aristocracias e fidalguias.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 45 batuta do alargamento do Poder Real Absolutista e do Despotismo Esclarecido no século XVIII. segrega até. Que é uma crítica violentíssima ao seu pequeno papel para o desenvolvimento dos povos e do território. em certa escala para largos espaços do território nacional. no fim de contas da Sociedade e Estado com que as gentes das Luzes pretendem romper por finais do século XVIII. Sem este conhecimento não é possível seguir a emergência de outras soluções presentes no nosso pré-liberalismo e primeira vigência do regime liberal e suas soluções para a governação do território e seu enquadramento políti- . reforça a crítica político-social e também doutrinária. com profundas consequências para a instituição municipal que nos aparece no final desenvolvimento deste processo histórico – de profunda articulação e modelação com a ordem régia e os objectivos régios para o governo do território – com substancial limitação dos seus poderes “autónomos” e fortemente configurada ao exercício das tarefas que a Monarquia lhe impõe e distribui para o governo do território. E não apaga também. antes pelo contrário. a mais completa tutela e configuração político-administrativa que o Liberalismo lhe dará no quadro do novo Centralismo burocrático e da nova Divisão dos Poderes. é este ideário das Luzes. Ora. Tal realizou-se. vinda dos sectores contestatários a esta estadualização municipal. Ora tal desenvolvimento não apaga a outra realidade institucional que ela mantém. e utilizando em particular os maiores municípios portugueses. É este o caso das críticas da Ilustração a este Municipalismo Histórico. posição no território permanecerão no todo ou em parte ainda arredados destes mecanismos de Centralização e desenvolvimento institucional uniformizador induzido pelos progressos da Monarquia e do Estado. desenvolvimento orgânico e funcional. mas também a esta “miniaturização” e irrelevância de municípios rurais. e em grande medida “desautorará” politicamente. mas também as bases de soluções locais paroquiais e regionais que são tão pouco conhecidas. umas vezes “reformista” outras vezes “abolicionista” que sem dúvida lançara as bases e os fundamentos da grande amputação e reforma concelhia de 1832-36. nalguns casos autênticas ilhas no mar de um profundo localismo e isolamento político e social. circunscrevendo e limitando os outros poderes e jurisdições. em grande parte fortemente crítico do poder e organização municipal. naturalmente. vem nesta etapa conquistando e alargando os seus poderes no território.

Só com Alberto Sampaio. A ideia é pois. que fizessem o contraponto às monografias concelhias que por então também promovia M. valorizar esta instância local do enquadramento dos povos. desenvolver-se-á também com a historiografia eclesiástica o estudo da paróquia. a História paroquial ganhará também cidadania no panorama dos estudos locais portugueses. bem mais atentas ao estudo científico e positivo das comunidades de limites paroquiais estiveram por outro lado as demais Ciências Humanas. E é deste contexto do movimento das Luzes que se reforça a ideia da paróquia civil ou freguesia que só muito mais tarde vingará. a Geografia Humana. Depois no contexto da construção do ideário municipalista houve também quem pretendesse associar a freguesia ao concelho. Também para esta historiografia. E contudo e certamente por via disso. Com a crítica do município e seu fraco envolvimento e integração das comunidades locais emerge a vontade de valorização e afirmação política e administrativa da paróquia ou freguesia. Depois. Reforçar e revigorar a vida social com base na freguesia é o caminho a seguir para regenerar a política e a sociedade portuguesa. Na paróquia viu A. morta pelo Centralismo liberal de que os concelhos – sobretudo os das vilas e cidades – foram também agentes e suportes. A História paroquial continuaria.46 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS co-social e também a emergência do 1. em consonância com a importância política e social da paróquia. Caetano. isto é considerá-la na sua matriz histórica originária. O Padre Miguel de Oliveira bateu-se pela produção de monografias paroquiais. também um concelho.º ideário municipalista do século XIX (Herculano). está presente a valorização da paróquia religiosa na conformação e origens da sociedade portuguesa. ao modo de Alberto Sampaio. a Antropologia. Em paralelo da historiografia civil. administrativista e historiador estado-novista do Município medieval. no pós 25 de Abril de 1974 a ser a parente pobre da investigação historiográfica sobre o poder e administra- . a paróquia terá ainda um papel mais forte no enquadramento da vida das populações que os concelhos. Mas não se nota qualquer movimento de legitimação historiográfica desta instituição que permitisse fazer vingar a freguesia ao lado do concelho ou município como instituição autárquica para a administração e governo civil do território. a Sociologia. pois que em seu entender na paróquia se unem «vínculos quasi tão estreitos como os da família» e «sob o aspecto social excede em importância as instituições municipais». este é um quadro muito activo no enquadramento e organização comunitário local. no século XIX. desde as suas origens no século XIX. como a historiografia mais recente tem vindo a sublinhar. Sampaio as bases e a matriz da nossa constituição social que arranca e se articula às villae romanas. E para o padre Miguel de Oliveira.

tem também por via deles. Em busca de novas abordagens da História da Administração Local: o Município no Território 2. pela rede social de articulação à Sociedade de Corte.1. de áreas menos importantes ou contribuintes para a construção do Estado Moderno. seja ele marcado pela construção da rede político-administrativa (Judicial. agora ainda mais subalternizado dados os investimentos políticos e financeiros do 25 de Abril na administração municipal. Adaptações municipais A força dos vectores da centralização e mais ainda do paradigma da estadualização aplicado ao estudo da História Municipal Moderna tem privilegiado e acentuado sobretudo o estudo dos mecanismos da sua integração na ordem pública. 2. mais desenvolvidos organicamente e onde sedeiam os principais organismos e magistrados da Coroa para a administração e governo do território. na senda dos estudos anteriores. urbanos ou de vilas de maior dimensão. apesar de escassa. esta em estudos mais atentos às origens e papel da ordem religiosa e eclesiástica. concentrado os estudos nas manchas do território mais percorridos e articulados pelo processo centralizador. A abordagem e o estudo dos casos dos pequenos municípios rurais. continuaria a fazer-se. por via da uniformização institucional com a aplicação do modelo e da ordem legal régia e da acção corregedora e integradora dos magistrados régios à periferia. É uma análise e uma perspectiva que sai reforçada. da provedoria. Não pôde como o município beneficiar da larga tradição de investigação e doutrinação sobre a História Municipal e o Municipalismo e também – e por via disso – a freguesia continuaria a desempenhar um papel subalterno na nossa administração. de juízes ordinários. da Fazenda). A investigação sobre a freguesia – paróquia do Antigo Regime. E que para além de estudos individuais destes casos. na continuidade das abordagens de A. isto é. da comarca. também. pelo facto de se ter estudado particularmente a evolução política e institucional dos maiores municípios. Sampaio e a sociologia histórica (entre outros) e a paróquia eclesiástica. da Província. Centralização. ou pelos suportes político-económicos da construção do Estado Nacional Mercantilista. na tradição dos estudos sobre a paróquia civil. hierarquização político-administrativa do território e propostas de novas divisões administrativas. integrantes de vastas áreas à margem ou só marginalmente integradas no “território” do domínio régio ou em zonas de forte domínio ou concorrência do domínio senhorial. Militar. certamente contribuiria para conferir ao município uma realidade bastante dife- .ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 47 ção local.

48 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS rente. O percurso deste outro caminho. com efeito. os passos da sua modelação regional – comarcã e provincial. Por isso é necessário estudar o município no seu território. uma apreciação mais ajustada dos níveis e patamares de modelação e integração do Município ao Estado e Ordem Pública Nacional é necessário seguir-lhe. a do quadro mais vasto. em primeiro lugar. o quadro por excelência da ordenação política do território. Se se pretende. mas seguir as dinâmicas próprias induzidas e até construídas pelo Território e pela Sociedade que naturalmente são em última instância os agentes e suportes destas realizações e nova construção política e ordenamento territorial. para além da conformação institucional – por regra tão só orgânico-oficial – permitirá seguir os termos da sua configuração com o Território. neles se exprimindo de forma diferenciada as dinâmicas desta modelação mais geral. decisivamente com Pombal e os governantes de D. O estudo do Município no território permitirá fugir ao espartilho da explicação monista da modelação institucional realizada tão só do topo para a base. O governo monárquico do século XVIII. sofre as vicissitudes que o próprio território vai sofrendo nas suas dinâmicas de aproximação ou afastamento político aos marcos territoriais e políticos mais activos e dinâmicos da construção do Estado. Muito mais do que a partir dos concelhos é a partir do quadro comarcão que o Estado e o governo comarcão quer olhar e governar o território. O município fortemente arreigado e enraizado no seu território. progressivamente. a Sociedade onde se insere. a quem desde 1790 se pretende conferir maior desenvolvimento e racionalidade administrativa para nela reorganizar o quadro da divisão e administração concelhia. Maria desde 1790-92 . «regional» ou provincial. E não só a do quadro e termo municipal – que tem sido tentada – mas também e muitas vezes sobretudo. resultado de um Absolutismo e Centralismo como factor exógeno às instituições e territórios neles envolvidos. com desfasamentos significativos relativamente ao novo modelo e paradigma do “município régio”. Tal obriga necessariamente romper com um outro lugar comum que se fixou mais recentemente na historiografia municipal. Tal conceito. que tem de passar por um maior esforço de caracterização do município. o conceito de que o Município Moderno é a-regional e mesmo anti-regional. decorrente do paradigma estadualista e do município dominador do seu território. situá-lo nos “círculos” diferenciados da sua situação e centrifugação política e também no dos diferentes níveis do desenvolvimento social e institucional. de facto. A comarca volver-se-á. teve como consequência esquecer ou secundarizar as dinâmicas estruturais de carácter geográfico-político que sobre ele se exercem e que o continuam a modelar profundamente.

nele acabaram de produzir efeitos fundamentais. em especial os eclesiásticos. das Alfândegas. e organização político-estadual. O município e desde logo o município cabeça de comarca.. para proceder ao reforço do poder em mais vastos territórios “regionais” e articulá-los por seu intermédio mais fortemente ao Estado. Sobre as políticas é fundamental salientar algumas reformas pombalinas que embora não dirigidas directamente ao Município. as vozes dissonantes dos concelhos e dos seus diferentes membros nas Cortes. incluindo na sua base espacial. O corregedor do século XVIII promoverá num constante deambular pela comarca. não tendo tocado nas bases e divisão territorial. No período pombalino este processo seguirá sobretudo na senda de reformas políticas. Os problemas e petições concelhias serão conduzidos ao Rei e seus Tribunais superiores pela voz do corregedor. a uniformização e a unificação legal e administrativa do território da sua comarca. o principal suporte da nova organização do território que promoverá. das Superintendências fiscais (das Sisas e Décimas) a produzir movimentos do mesmo sentido de centralização (regional). Tal passa naturalmente por reforço sobretudo do papel dos municípios maiores onde a administração periférica do “Estado” está já mais desenvolvida. O concelho cabeça da comarca virá por isso a ser o pivot e ponto de partida e referência do novo referencial “autárquico” e regional. como é sabido. racionalização e uniformização institucional. na continuidade aliás da criação do . uma forte articulação e hierarquia do território.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 49 – adentro do mesmo espírito anterior – reforçam o papel dos corregedores e outros magistrados régios e com eles o quadro de unificação e racionalidade comarcã. suporte de muitas delas. e em particular nesta etapa decisiva no reforço do Centralismo e Absolutismo e logo do Reformismo pré-liberal. volver-se-á neste contexto. É o caso dos concedidos à cidade do Porto. de reforço e alargamento do poder e hierarquia de concelhos estrategicamente posicionados no território. Há muito que ele substituíra os braços dos concelhos. Entre essas reformas é de referir as da Justiça – com a afirmação do Direito e Lei Régia sobre os demais direitos a extinguir os donatários nas ilhas – a promover a mais forte integração dos concelhos de juízes ordinários nos de juízes de fora e de um modo geral a afirmar a supremacia e a tutela dos concelhos régios sobre os concelhos e coutos senhoriais. E a constituição de largos Privilégios em grandes municípios de centros urbanos que lhe concederam forte relevância e tutela regional sobre os outros territórios e municípios. que promovendo a forte hierarquização política nacional das instituições e por ela a sua mais forte integração institucional e territorial.. a Reforma da Fazenda.. com a criação da Companhia de Vinhas do Alto Douro neste caso de alcance Provincial que lhe concedeu os suportes do largo domínio regional às 3 Províncias do Norte de Portugal. nela envolveriam fortemente o Município..

dos letrados e magistrados régios em luta pela mais larga afirmação do Direito régio e pátrio. . em particular no domínio público. seus concelhos.50 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Tribunal da Relação ao tempo dos Filipes e que agora se manifestará particularmente activo a conduzir a si todos os processos de apelação e agravo de todos os Tribunais e em particular dos eclesiásticos (vg da Relação Eclesiástica de Braga). Elas terão sua origem em particular na Sociedade ilustrada dos economistas em luta pela livre formação dos preços. em particular as obras nas barras dos maiores rios. a sua canalização e navegabilidade que para estas obras faz contribuir os concelhos e terras limítrofes. ainda que os projectos e programas fossem definidos numa escala “regional” neste caso o das regiões hidrográficas. em particular pela geração de 1790 que produz a mais acérrima crítica ao papel e acção do município e o consideram em geral factor de bloqueio social. alargamento dos mercados. Pretende-se redimensionar os concelhos para os adequar ao nível das exigências e tarefas agora colocadas pelo Estado e reforçar a comarca. Da acção e directrizes dos juízes demarcantes de 1790 resultou essencialmente a proposta de um novo desenho das comarcas e dos concelhos. tirando-o dos interesses privados e particulares das velhas governanças. Esse programa é activamente impulsionado pelos reformistas e ilustrados do século XVIII. cadeiras. Essas críticas sustentam em grande medida o programa de reformas a que as leis de 1790/92 querem dar seguimento. das elites ilustradas locais que se querem impor nas governanças locais às velhas elites nobiliárquicas e fidalgas e colocar o município ao serviço da Pública administração e do Bem Comum e Felicidade dos Povos. desencadeados com as leis de 1790/92. Avanços para um programa de nova “divisão” administrativa do território só se realizará porém nos finais do século XVIII. político e económico ao desenvolvimento da Sociedade portuguesa e de uma adequada administração régia para o território. como instância político-administrativa mais actuante e presente em todo o território (com a extinção das Ouvidorias). liberdade da terra que permita o mais lato desenvolvimento económico. munícipes e oficiais. a ponte e outras obras do rio e da cidade. mas de que os principais e grandes beneficiários são os portos ou os cofres das vilas ou cidades da respectiva embocadura. que limite as jurisdições e poderes do direito senhorial e eclesiástico. Mas como não avocar aqui também o papel da Companhia das Lezírias para o Ribatejo (entre outras) e até a entrega do monopólio do Ensino Público à Universidade de Coimbra com a expulsão dos Jesuítas que faz conduzir para a cidade do Mondego os professores e estudantes e faz a Universidade e a cidade beneficiária de contribuições públicas gerais assentes nas Superintendências das Sisas do Reino com que pagam professores. E até outros grandes projectos de desenvolvimento regional promovidos pelo Estado.

Hoje a produção de elevado número de estudos de História municipal para amplos espaços regionais. que do plano da paróquia salta para o da Província. articuladas com os projectos e programas reformistas do Estado e com ele em luta por novos concelhos inserido numa mais vasta região. como a do Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho do círculo da Ilustração governamental que faz tábua rasa do município enquanto orgão de divisão administrativa e o apaga da sua proposta da divisão administrativa territorial do Estado. A força da coesão territorial e a modelação regional do município Mas para além das dinâmicas políticas e territoriais induzidas pela construção do Estado Moderno. onde se possam realizar mais intensa e extensivamente o programa do desenvolvimento económico e social e colocar as instituições ao serviço da Felicidade e Prosperidade Pública. Mas conta e nele se envolveram as novas forças sociais locais. é preciso também atentar nas condicionantes territoriais de assentamento dos municípios que os aproximam e modelam em conjunto nas suas bases sociais. da polícia. é certo. económicas e até instituições e incluindo a organização do espaço. ainda bastante “marginal”. retirando desde logo poderes judiciais aos municípios de juízes iletrados (isto desde Pombal) diminuindo ou apagando em definitivo o poder das câmaras nestas matérias. entre outros). Mas outras propostas de ilustrados pretendem também tocar no poder “absoluto” dos concelhos. Deste horizonte da crítica e das propostas de reformas ilustradas do século XVIII (desde Pombal e de novo activamente desde 1790/92) se configurarão o sentido e a matriz das reformas do século XIX e do Liberalismo. são em última análise o resultado da sua adaptação e envolvimento nas dinâmicas e coordenadas próprias do seu território. fortemente centralizadoras e esvasiadoras da instituição municipal. as Intendências (da agricultura. que sofrendo é certo a modelação político-institucional da construção do Estado. O novo concelho. inscrito numa comarca reforçada é um programa régio. que é preciso abordar neste desenvolvimento longo. que prefiguram os futuros serviços públicos gerais. propondo a constituição ao lado ou por sobre os concelhos. Há até propostas da nova divisão administrativa do território.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 51 Relativamente a estes procurou-se o seu redimensionamento territorial. 2. sem plano e estrutura intermédia que sempre foi e pretendeu ser preenchida pelo município.2. permite entrever e destacar essas dinâmicas e aproximações . iniciando mesmo a “desautoração” do poder municipal e uma primeira separação e/ou hierarquização dos poderes que prefigurariam em muitos casos uma primeira Divisão dos Poderes do Liberalismo e do Constitucionalismo.

Para além disso. a principal separação ou distinção que neste domínio.52 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS territoriais. Mas a acentuação do “tonus regional” afirma-se também nas diversificadas funções que os municípios são chamados a exercer em função da sua posição no território e corpo político da Nação. induzem os mercados na formação das rendas dos municípios que obrigam necessariamente desde logo à grande distinção nas estruturas político-administrativas e na base social das elites políticas entre municípios urbanos e municípios rurais sem núcleos ou pequenos núcleos urbanos. um certo “esboço” de divisão municipal de certas tarefas. dimensão e origem das rendas municipais está naturalmente na origem e na base do relativo desenvolvimento e aproximação das estruturas institucionais municipais. de lado. e até o transmontano. Tal é patente desde logo na constituição das receitas próprias com base nas quais é possível fazer distinções ou aproximações de base territorial. também em assumir os municípios de áreas fronteiras a rios de grande valor económico. da apetência social e das elites ao acesso e governo das câmaras e da sua integração na orgânica estadual por interesses mútuos. Idêntica natureza. importantes rendas sobre barcos de passagem. pescarias e direitos sobre usos de água. produzindo por vezes até nesse quadro. da governação central e das elites governantes. naturalmente. Deixaremos. praças e fortale- . moagens e pisões. piscatório e transitário que vieram a constituir para as câmaras (como para outros senhorios). da Beira. Tal é desde logo patente. E se não permitem configurar um município regional – pela forte e precoce construção em Portugal do Estado Central e Mercantilista que promoveu uma acentuada uniformização política e institucional do Município Português – conferem-lhe pelo menos uma forte modelação regional que os anima e articula. permite aproximar municípios como os do Alentejo. Que se exprime na definição de um sistema e regime municipal muito aproximado. a induzir também comportamentos típicos de senhorios foreiros e donatariais. a análise comparativa da estrutura e natureza das receitas municipais. numa relativa militarização dos cargos políticos das vereações dos municípios de fronteira onde por força da estadia de regimentos. Configuração singular virão. onde o peso das receitas provenientes de herdades e bens próprios agrários é muito importante e por isso lhe induzem comportamentos muito próximos dos dos senhorios fundiários. e também um conjunto de municípios de vastos termos rurais que vieram a constituir importantes rendas sobre os foros dos baldios (como aconteceu um tanto por todo o lado. Particular configuração e aproximação na sua base económica e natureza de rendas veio também a constituir o município das regiões de fronteira (terrestre e sobretudo marítima e fluvial) a realizar importantes receitas sobre as sisas mercantis (ou sobejos das sisas régias) e também rendas alfandegárias. mas em particular no Minho).

as burguesias mercantis e os letrados locais. expressas no diferenciado recrutamento social das elites políticas tradicionais: nobreza. meirinhos. por virtude da afirmação do Direito Pátrio. quando o afastamento é acentuado. nobreza e aristocracias locais ditas de campanário. em função. E também nas diferentes modelações que toma a presença das elites locais na câmara. Relativamente aos grandes municípios urbanos (mas não só) é ainda possível proceder a algumas aproximações.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 53 zas e papel militar e defensivo das terras. de um modo geral homens de Direito e letrados. cuja geografia da representação em câmaras e vicissitudes da sua aproximação ou afastamento das vereações. do desenvolvimento político e social das terras. é necessário seguir em relação com a evolução da conjuntura política e social mais geral e a do município e sua estrutura sócio-profissional em particular. mas agora já sem especial continuidade geográfica. que tem a ver com o da presença e representação dos mesteres na câmara. como se verifica de um modo geral nos municípios de mais forte envolvimento político e conjuntural nas revoluções políticas e sociais do Estado na passagem do Absolutismo ao Despotismo e deste à Revolução e Liberalismo.º quartel do século XVIII ser-lhe-á totalmente desfavorável. que dos seus locais próprios do governo camarário (procurador. da Lei da Boa Razão (1769) e no consequente afastamento do direito costumeiro e das práticas orais sem proces- . escrivães. exercendo um recrutamento que pode extravasar o concelho. almotaçarias) pretendem ascender às vereações. ou mesmo. Ou aos militares e sua mais forte entrada e participação nos governos municipais em tempos de guerra. E posteriormente o reforço e vontade do revigoramento das elites aristocráticas e fidalgas nos municípios ao longo do 3. magistratura e Sociedade de Corte quando o município está poderosamente integrado na Coroa. Como seria também bem ilustrativo seguir a sua ligação às câmaras nas crises políticas e sociais do tempo das invasões francesas. territorial. Ou na diferenciada presença ou concorrência aos cargos políticos do governo camarário de outros ou novos grupos que a eles pretendem ascender. a aristocracia militar local e regional estende o seu papel às câmaras e que se revigorou nos tempos de conflitos militares e guerras internacionais. do vintismo. mas também demográfico. urbano. Se de um modo geral o Pombalismo poderia ser favorável à presença dos mesteres em câmara em correlação aliás com as coordenadas do alargamento da representação social e popular da Ilustração – como se verificou em Espanha com a criação e entrada da magistratura popular do síndico personero para as câmaras – a sua envolvência no Motim do Porto (1757) quebrou tais expectativas. naturalmente. que poder-lhe-ão ser favoráveis e permitir passagens e acessos breves às vereações ou outros orgãos de poder político municipal.

o que exprime de facto a sua irrelevância política. ainda que à medida que se progride para os grandes municípios urbanos. naturalmente em relação muito directa com diferentes serviços públicos aí instalados e seu desenvolvimento e complexidade (justiça maior. tesoureiros e às vezes mesmo vereadores. Nestes municípios mais pequenos e inorgânicos não se verifica sequer qualquer intervenção do poder real.54 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS so escrito. Nos pequenos e minúsculos municípios as singularidades ainda são muitas. os de juíz ordinário que são construídos em dois modelos eleitorais também distintos. alfândegas. O município adapta-se aí às possibilidades e necessidades públicas e comunitárias da terra. num 1. em regra como se verifica nos municípios metropolitanos distribuídos por outras instâncias territoriais e magistrados. Ainda mais forte adaptação às realidades político-sociais do território é o que se pode observar com o município insular e colonial-ultramarino. por um lado. As situações podem ser as mais dispersas: nalguns casos onde é forte o poder real (sobretudo pela Fazenda) ou o poder donatarial (sobretudo o militar) estes assumem poderes que retiram aos concelhos. os honoráveis locais. juízes iletrados. que se fez de modo diverso pelos diferentes manchas do território. o de pautas e o de pelouros. Muitas vezes os eleitos – vereadores e os juízes servem todas as tarefas. os municípios de juíz de fora. organização militar. o inverso também se verifica. ensino.. onde é frequente não existirem em alguns concelhos alguns ofícios ou corpos como a almotaçaria. a saber. Os seus orgãos mal se distinguem dos das paróquias/freguesias. a afastar da administração camarária e da sua Justiça. expressões dessa acentuada diferenciação regional. As aproximações são cada vez maiores entre os municípios de juíz de fora. separados desde logo.) As aproximações de organização institucional fazem-se entre municípios de idêntica dignidade e hierarquia. servidos muitas vezes por escrivães vindos de outros concelhos. procuradores dos concelhos. É possível seguir ainda nas diferentes configurações orgânicas-institucionais que assumem os municípios modernos. onde os concelhos assumem totalmente os poderes régios e públicos. . cabeças de comarca – com Porto e Lisboa à parte – as diferenças se acentuem.º nível. em dois grandes conjuntos. por outro. saúde.. que é o testemunho da sua enorme “plasticidade”. que adopta ainda perfis e figurinos diferenciados em relação com os níveis mais ou menos acentuados de integração política e social no Reino.

sobretudo a fiscal. do lançamento e cobrança dos impostos régios e municipais. enfim. dos ricos e poderosos locais. É pois de um modo geral “violenta” a relação do poder municipal com esta população devassa dos termos concelhios. do lançamento dos serviços públicos e municipais forçados.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 55 3. da crítica aos poderes municipais. do território e termos rurais. mas também a “coimeira” é aí profundamente gravosa para os termos do concelho e suas populações rurais e faz-se em proveito das vilas e sua população política. A política municipal. urbana e senhorial. Como permite também fixar os termos da protecção e particular privilégio que o Município promove relativamente ao território urbano – sede de concelho – suas elites políticas e sociais urbanas. em especial naqueles domínios e esferas de actuação que mais podem afrontar as populações: no domínio do exercício e aplicação da justiça. da resistência. em especial nos municípios de assentamento urbano. A perspectiva dos administrados permite desde logo fixar mais claramente a conformação senhorial que adopta a generalidade dos municípios portugueses de Antigo Regime em meio urbano e sobretudo em meio rural e se exprime em particular. não tem com efeito estudado a História da Administração Municipal do lado dos administrados. de modo a permitir seguir os campos de oposição. A paróquia Os estudos da História Municipal. dos camaristas. estabelece uma absoluta separação entre o espaço urbano e o seu território rural do termo concelhio. da condução e colocação da instituição municipal ao serviço do Estado. das condenações fiscais. a . estabelece um conflito estrutural básico com as populações rústicas do termo. que circunscreve ainda mais as relações entre aquelas ordens políticas administrativas. Em busca de novas abordagens da História Municipal da Administração Local: a administração vista pelos «administrados». É um estudo que deve saber explorar de novos ângulos as fontes documentais da instituição municipal. de modo a confrontá-la com os seus críticos e sectores da população particularmente vexada com esta administração. na expropriação dos baldios e no sistema e rateação dos impostos em especial sobre as populações rurais e seguir as resistências e oposições dos grupos e territórios mais afectados. Daí decorre de um modo geral a dificuldade dos municípios levar e afirmar o seu poder e jurisdição nas aldeias. A vila é o território das elites sociais e políticas e dos privilegiados desta ordem social e espacial municipal. Às dificuldades decorrentes de natureza da estrutura do poder municipal – de carácter político-senhorial e fiscal – acresce o forte enquadramento e tutela da ordem religiosa sobre as paróquias. Por isso esta estrutura municipal. dos colonos. o poder e a organização municipal. Pela sua natureza. o termo e as aldeias é o território dos devassos.

dos aforamentos e partilha indiscriminada dos baldios – são muito frequentes por todo o território. É por isso necessário seguir melhor os modelos e as estruturas de aproximação das câmaras aos concelhos. Com efeito apesar dos esforços. surgem os “concelhinhos” e governos de freguesias com uma estrutura muito aproximada à dos concelhos – a que tão só faltam às vezes os vereadores – e se avençam e contratam com os seus municípios para fugir aos excessos e violências dos maiores municípios. pelo menos. sem qualquer significado para os povos. em particular aos termos rurais das paróquias ou freguesias para avaliar melhor as formas de articulação entre ambos os territórios e suas instituições político-administrativas. em grande parte por sobre a estrutura municipal. directamente ou indirectamente pela sua mais forte articulação e dependência dos concelhos. Contratos de moradores dos termos com os municípios – para fugir à violência dos impostos. É até muito desclassificado pelo papel dos seus juízes e rendeiros. poucos avanços se produziram na aproximação das paróquias e comunidades inscritas no aro concelhio aos con- .56 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS civil dos concelhos e a religiosa nas paróquias. esta organização concelhia e esta organização paroquial. Esta realidade. criam dificuldades intransponíveis à aproximação da Coroa e Municípios régios e da administração pública às populações. como se pode seguir pelas Memórias Paroquiais de 1758. o poder municipal é aí descrito muito periférico. Com Pombal para além das reformas dos concelhos para os configurar no ordenamento régio houve um esforço para valorizar socialmente o exercício dos cargos municipais nas paróquias. ou a fazer submeter os poderes próprios da paróquia ao ordenamento geral do Reino. e por outro a criar um poder civil na paróquia que se integrasse no ordenamento político geral. um poder muito forte sobre a comunidade. Sem grande sucesso. onde a organização paroquial é menor e menos forte. Como se pode seguir pelo rol das coimas e volume e montante das coimas. Eles são também a expressão do carácter opressivo desta organização. pouco influente. Pouco sucesso teriam também os Zeladores de Polícia instalados pós 1790 que o Estado pretendeu estabelecer para impor a ordem pública às terras. Mas também pela resistência a vir-se empossar às câmaras. por um lado. Ora a paróquia é. das fintas. o clima de resistência de aldeias às ordens camarárias e municipal é enorme. A Coroa no seu afã de aproximação e controlo de todas as esferas e espaços da Sociedade intentou as reformas necessárias para colocar os concelhos ao serviço de uma ordem pública. Nas terras do Sul. se arroga o direito de representar as comunidades fazendo frente ou condicionando fortemente o poder municipal ou seus representantes na paróquia. Por outro lado é preciso atentar na organização autónoma das paróquias que no Norte. das prestações de serviços. pouco envolvente.

relativamente à qual os outros poderes e jurisdições tem uma acção totalmente periférica. afirmação e autonomia. das elites e do . Mas a articulação social e política das comunidades à régia administração e poder municipal é uma tarefa localmente encomendada às câmaras. a comunidade paroquial atinge o pleno do seu reforço. O assalto à fortaleza de paróquia é realmente uma das tarefas a que a Monarquia e a Administração civil se envolverá activamente ao longo da etapa histórica. se articulam mais poderosamente com o poder camarário e de algum modo se dignificam as suas tarefas. da paróquia e dos paroquianos e na fixação de uma tutela e vigilância muito activa das autoridades diocesanas sobre a comunidade paroquial e de fiéis. O poder real. de 3 importantes confrarias que congregarão os esforços e os sentimentos religiosos da comunidade a saber. contra a dos moradores devassos das paróquias do termo rural concelhio. Mas tal foi sempre a excepção. sociais e sobretudo administrativos. O termo do concelho dificilmente constitui com os moradores de sede e vila uma comunidade de vizinhos. do Subsino e do Rosário. No Pombalismo fizeram-se avanços neste domínio. como se fizeram no neo-pombalismo (pós 1790-92) sob o signo do regalismo e do alargamento do direito régio. mais próximo mal entrara. Aqui porém as dificuldades foram maiores.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 57 celhos e às câmaras. sejam eles do subsino ou de vintena. altura em que os juízes das paróquias. com Pombal intentará ir o mais longe possível neste afã de controlar e integrar todo o território. O concelho está fortemente dividido entre a comunidade dos eleitos e dos privilegiados. da vila. com a instalação dos sacrários e sobretudo da constituição em regra. em especial desde meados do século XVIII. expresso designadamente na construção e embelezamento das suas igrejas e da animação da vida paroquial à volta da missa conventual. Com efeito a comunidade paroquial vinha de uma longa evolução de reforço dos seus suportes demográficos. e religiosos. Em regra as paróquias e seus oficiais mantém relativamente às câmaras uma atitude de hostilidade. que governam toda a paróquia no civil e eclesiástico. económicos. porque efectivamente não há continuidade de interesses entre esta ordem municipal tradicionalmente construída ao serviço das governanças. A paróquia é assim um quadro de extraordinária vitalidade. O Regalismo é sem dúvida o enquadramento privilegiado para tal submissão da ordem religiosa à civil na prossecução dos objectivos da Monarquia Cristianíssima. alicerçados na construção de equipamentos religiosos e sobretudo de uma muito viva e activa organização sócio-religiosa à volta da constituição de importantes confrarias ou irmandades para o governo material e espiritual da igreja. Para além da confraria do Subsino ou do Nome de Deus. aí onde o próprio poder municipal. ao pretender instalar-se no seio da comunidade paroquial. Por meados do século XVIII. indiferença. a das Almas.

particularmente vexadas com o processo de aforamento dos baldios – particularmente activo pós 1790 – do agravamento fiscal sobre a população não privilegiada dos termos. a distribuição da renda municipal. Momentos críticos houve. Que ganha particular expressão na etapa pombalina (propugnando sobretudo pelo seu enquadramento na ordem e Direito Público) e depois na fase posterior a 1789 em especial a 1790/92 (propugnando também agora pela sua colocação ao serviço do desenvolvimento e felicidade dos povos) assumindo a partir daqui por vezes um cunho particularmente crítico sobre o lugar e papel histórico e moderno do governo e instituição municipal ao ponto de alguns propugnarem pela sua abolição. suas ruas. a crítica política à instituição. em particular. E há também uma importante literatura que é particularmente rica de informações sobre esta matéria e onde é possível seguir. Os aforamentos e os aforantes. A leitura atenta dos registos camarários permite entrevê-los. dos excessos dos rendeiros e coimeiros municipais. os regimes das terças. os regulamentos e posturas e outros ordenamentos e deliberações permitem claramente seguir os destinatários e os beneficiários desta administração. com salários. em especial daqueles ilustrados que seguem de perto a actuação do governo e instituição municipal. as tabelas de preços. Aumentam. os radicalismos e as violências com que vem sendo avaliado e criticado o nosso município desde o tempo da Ilustração. rendeiros – apresenta em toda a sua nudez nos verdadeiros beneficiários. em particular a mais radical e revolucionária. espaço da nobreza mas também de muitas violências – exprime e mede de certo modo também. E em particular a literatura Memorialística vinda do seio da Ilustração. governo e ordem municipal que a constituição social dos orgãos de governo – câmaras. porque politicamente retrógrada e incapaz de regeneração. das coimas e condenações de câmaras. calçadas. seguir a sua evolução temporal e distribuição geográfica. vintenas permite quantificá-las. ao longo do século XVIII as razões de queixa das populações paroquiais contra as câmaras. em que se revoltariam mesmo em conjunto contra a prepotência dos senhores das câmaras e das vilas. propinas e emolumentos e demais gastos festivos e propagandísticos.58 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS marco urbano que se constrói e reforça com base no domínio sobre as populações rurais dos termos. da violência do recurso aos serviços a prestar nas obras e arranjos das vilas. almotaçarias. utentes e destinatários desta instituição. praças e equipamentos. almotaçarias. juízos fiscais. . o estudo quantitativo e diferenciado dos actos e decisões das vereações. Em grande medida o radicalismo da reforma dos concelhos em 1836 – que extingue cerca de metade dos concelhos portugueses – e lhes reduz os poderes e competências – designadamente retirando-lhe o judicial. nesta etapa. dos juízes gerais. com efeito. Múltiplos são os testemunhos por onde se podem seguir estas “violências” e “vexações” da administração municipal.

Manuel a Pombal.. mimeo. 2002 e José Damião Rodrigues. A Elite Municipal de Castelo Branco entre 1792 e 1878. remeto para Nuno Gonçalo Monteiro. . São Miguel no século XVIII. Mest. Absolutismo e municipalismo. Teresa Fonseca. na linha de alguns textos já antes publicados. Mas não deixa de revelar alguns impasses. A imensa informação recolhida permite que se façam novos pontos da situação e que se renovem as reflexões sobre o tema. Dout... pp. Évora 1750-1820. Dis. António Ventura dos Santos Pinto. O objecto deste breve texto. 2001. Lisboa. Dis. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Ponta Delgada. Nuno Pouzinho. Vila do Conde (1785-1800) : as gentes e o Governo Municipal. Ou seja.Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII) Uma breve reflexão historiográfica NUNO GONÇALO MONTEIRO (Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais) Ao longo das duas últimas décadas. mimeo. 2000. síntese recente de Isabel dos Guimarães Sá. 2 vols. 59-72. será.. entre os quais destacaria: Nelson Veríssimo. Lisboa. o de debater algumas vias complementares para o estudo das elites locais. Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE.. As Misericórdias Portuguesas de D. 2005. retomado de uma comunicação oral. as misericórdias) vêm recebendo a atenção dos estudiosos2. pp. 37-81. mimeo. Mes. Porto. in Elites e Poder. 2003. Lisboa. Lisboa. outras instituições locais (em especial. «Elites locais e mobilidade social em Portugal no Antigo Regime». Casa. para que a acumulação de nova informação alargue o horizonte das pesquisas e se não limite a fornecer mais um estudo de caso que ratifica tudo aquilo que se conhece. 2003. 2 Cf. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. assim. Dis. parece necessário propor e discutir novas questões e as metodologias adequadas para se lhes dar resposta. elites e poder. tentando apresentar. 1998. Mais recentemente. 2001. Outros trabalhos sobre o tema têm surgido que aí não se encontram referenciados. o estudo das elites municipais tem constituído um dos principais temas de investigação da historiografia portuguesa e objecto de diversas sínteses1. 1 Para uma bibliografia mais detalhada.

in L. Sérgio Cunha Soares. 1995. é bem provável que as formas de exercício dos poderes nas províncias no século XVI e no início do seguinte não fossem as mesmas. Maria Helena Coelho e Joaquim Romero Magalhães. Reflexões sobre a história e a cultura portuguesas. em particular os de Mafalda Soares da Cunha. Patriciado urbano quinhentista: famílias dominantes do Porto (1500-1580). in Notas económicas. Ora. Ferreira (coord. Ponta Delgada. Coimbra. são escassos os estudos na longa duração sobre elites locais.60 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS novos tópicos de análise. 1999.. cit. Idem.C. O Algarve económico 1600-1773. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial portuguesa». Lisboa. 1988. Lisboa.. 4 Cf. 1986.º 4. sugerem que até às primeiras décadas de seis3 Cruzando informação de: Pedro Brito. Os escassos estudos sobre elites locais na longa duração A primeira questão que se quer levantar parte de uma constatação: apesar de existirem algumas excepções parciais (o Porto3. Joaquim Romero Magalhães. por um lado. José Damião Rodrigues. diversos trabalhos recentes. São Miguel no século XVIII…. apesar da tendência apontada há muito por Romero Magalhães para a crescente elitização da vida política local7. entre outros.. Coimbra. História Social da Administração do Porto (1700-1750). Mimeo. O município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. . Romero Magalhães. n. Coimbra4 e. «As estruturas sociais de enquadramento da economia portuguesa de Antigo Regime: os concelhos». Poder e poderosos na Idade Moderna. n. 1986. Porto. Francisco Ribeiro da Silva. 1. Acresce que as ilações que deles se podem tirar não são unívocas. dout. 1997. tendência que se aprofunda na centúria subsequente. Com efeito. História do Porto. Joaquim Romero Magalhães. E. Porto. Revista de História Económica e Social. 5 Cf. idem. A ideia central é alargar o campo de inquirição das leituras institucionais (como sejam as que pontificavam nas câmaras e misericórdias) para outros terrenos. 7 Cf. Porto. 1988. «Os tempos modernos». A. séculos XVII e XVIII». Porto. O Porto e o seu termo (1580-1640).). Poder municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. a verdade é que a continuidade das elites locais ao longo da época moderna carece ainda de confirmação empírica.). Dis. sob alguns aspectos o Algarve5 e Ponta Delgada6). 1994. O poder concelhio: das origens às cortes constituintes. Ramos (dir. 2 vol. contra uma imagem demasiado decalcada do século XVII tardio e do século XVIII (a da municipalização do espaço político local).E. «A sociedade portuguesa. in M. e Ana S. Um aspecto que parece fundamental ponderar são as modificações da arquitectura dos poderes locais resultantes da erosão do poder senhorial no decurso do século XVII. 1995. 1994 e Idem. 1986. de Oliveira Nunes. por outro lado. 6 Cf. O.º16. e J.

Lisboa. 1996. pp. «Poderes e circulação das elites em Portugal. pp. 9 Cf.. que havia muitos fidalgos principais residentes nas províncias9 e que. in Portugal no tempo dos filipes. Representações (1580-1668). Nuno G. 2000. constitui uma excelente ilustração. eventualmente. António de Oliveira. que o cenário era distinto do que encontramos no século XVIII. exemplarmente estudado por Enrique Soria Mesa. «Os poderes locais no Antigo Regime». in Elites e poder. as redes clientelares destes tinham uma efectiva vitalidade e influência10. 1998. in César Oliveira (dir. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid». este elemento pode ter pesado também na composição dos grupos que nelas pontificavam. in Conde de Ericeira. Monteiro. Independentemente da legislação restritiva do século XVII sobre a elegibilidade para os ofícios locais. Lisboa. 49-54. 425-427. A casa e o património da aristocracia em Portugal (1755-1832). com evidentes implicações nos destinos individuais e familiares. uma viragem importante. A esse respeito um bom referente comparativo é nos fornecido pelos trabalhos sobre as elites locais dos territórios da coroa de Castela. É certo que a venda de ofícios locais e de mercês supe- 8 Cf. 10 Cf. Poder e oposição política em Portugal no período filipino (1580-1640). História dos Municípios e do poder local.. 11 Cf.A. nota D. pp. sobretudo pp.234-235. 207-256. pp. O Crepúsculo dos Grandes.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 61 centos os poderes senhoriais eram geograficamente muito amplos8 e efectivamente exercidos.). Nuno G. Política. Monteiro. 12 Ideia desenvolvida em Nuno G. . A Casa de Bragança (1560-1640). Porto. pp. «Os poderes locais no Antigo Regime».d. os poucos estudos disponíveis não são concludentes sobre a continuidade ou descontinuidade multissecular das famílias.. 49-54 e 153-161. pp. a gradual distensão dos laços clientelares que estas podiam estabelecer com as províncias pode ter dado lugar à emergência de novos protagonistas. Nuno Gonçalo F. Lisboa. Dória. s. Cultura. neste como em outros terrenos. História dos Municípios…. e A. Práticas senhoriais e redes clientelares. então coloca-se a questão de avaliar até que ponto antes e depois as lógicas de estruturação dos equilíbrios e dos poderes locais eram diversas. A Restauração de 1640 constituiu. Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. a efectividade do exercício das respectivas prerrogativas por parte dos senhores parecem ter recuado sem apelo11.). Mafalda Soares da Cunha. A migração por alturas de 1640 de muitas famílias principais para a corte. nova ed... Por outro lado. in César Oliveira (dir. 488-489. Se admitirmos que essa evolução representou uma efectiva mutação institucional12. quando quase toda a primeira nobreza do reino residia na corte e quando o número de terras sujeitas a jurisdição senhorial e. Monteiro. Monteiro. 2000. 1640-1820». O caso andaluz de Córdova. Ou seja. História de Portugal Restaurado. finalmente.105-138. 1990. Lisboa.

mas necessárias para lhes conferir o estatuto de membro de pleno direito do restrito grupo dirigente local. Poder y oligarquia urbana (Madrid. apesar disso.13 14 Idem. 17 Na verdade. «habrá transformaciones.. «Elites locais e mobilidade social…». em seu lugar foram ascendendo outras.101-103 16 Cf. 1996. para onde eram remetidos os das terras da coroa.. segunda metade de setecentos e início de oitocentos) indicam que a governança era controlada por um núcleo muito reduzido de famílias. Em Córdova.66 e seg.) a finales del XVII»15. El cambio inmóvil. em larga medida inventadas. Córdoba. mas sempre com uma «ficção de provas» e de genealogias que lhes asseguravam uma antiguidade e fidalguia.. O exemplo sumariamente descrito parece muito sugestivo. o que em parte explica a abundância de estudos centrados nessa etapa tardia17. de forma general. os arrolamentos da nobreza das terras) só se tornam profusas para finais do Antigo Regime. 2000.. cambio sustancialmente la composición social de la élite gobernante. ss XVI-XVIII). «seguramente. não apenas conhecemos.. 13 Enrique Soria Mesa. la ciudad más aristocratizada de España en la Edad Moderna»14. nueva sangre en las élites. Transformaciones y permanências en una elite de poder (Córdoba. p. los antiguós linajes.. Em todo o caso a comparação é legítima e possível.. ibidem. É certo que as fontes portuguesas (designadamente. se transformaron muchas cosas.) ya en le siglo XVI (.62 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS riores (senhorios e até títulos) introduzem uma componente que não tem paralelo no caso português. muitas histórias de ascensão bem sucedidas18. ibidem. empiezaron a abandonar el municipio (. as quais procuravam limitar de várias maneiras o acesso dos adventícios aos respectivos ofícios. en particular. traduziu-se no facto de «en la Monarquia Española. «las élites tradicionales. No entanto.) las grandes Casas nobiliarias cordobesas (. A la sombra de la corona. Também é verdade que muitos dos trabalhos já efectuados abrangendo centros urbanos de alguma relevância nesse período (grosso modo. alcanzaron el poder grupos oficialmente excluidos de los honores y las dignidades». E. Madrid. 1606-1808). pp.) las Casas medianas (. y en la Córdoba de los siglos XVI al XVIII.) para eso están los genealogistas»13. p.. . Nuno Gonçalo Monteiro. pero se mantendrá la ficción de que nada puede cambiar (.. quase sempre antecedidas por uma etapa de acumulação de capital económico no terreno mercantil ou outro. p.. o caso de Madrid não parece ser radicalmente diferente daquele que se acaba de apresentar16. apesar das diferenças. 18 Cf. é só depois de 1755 que os arrolamentos se tornam frequentes no Desembargo do Paço. Mauro Hernández. O que designou por «el cambio inmóvil». muitas com sangue converso.15 15 Idem.

o autor mostra-nos que esse processo foi a sequência da regressão das antigas famílias da fidalguia local dominantes nos séculos XV e XVII. «Para o estudo…». me foi dado consultar uma investigação sobre o Algarve que mostra bem as virtualidades dos estudos na longa duração19. para a qual Romero Magalhães chamou há muito a atenção. cruzando relações de vereações camarárias20 com o estudo do acesso de naturais do Algarve a cartas de brasões de armas e outras distinções da monarquia. 2003. certamente com fundamento. com um máximo percentual de 64% no século XVI». ao usar os róis de vereadores por causa das «omissões» desse tipo de fontes (cf. p. dita reino. corroboradas pelas investigações muito mais aprofundadas do próprio autor. que no texto «Elites locais e mobilidade social…» fui induzido em engano no que ao Algarve se refere.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 63 como parece indispensável estabelecer. depois. no entanto. «o Algarve foi um espaço característico da nobreza de sangue». no fim de contas. 53. Camarate. gostaria. modificou significativamente as perspectivas até agora prevalecentes sobre a evolução da elites locais na referida província. n. Aí se constata que «é de verdadeira nobreza a maioria das famílias que detêm o poder nos concelhos urbanos do Algarve até ao século XVII. associada à ruralização e decadência económica seiscentista. 2003. pp. até ao século XVII. e idem. a cronologia e os ciclos na longa duração de maior estabilidade e de maior renovação das elites municipais. Em síntese. «Para o estudo das elites do Algarve no antigo Regime. de sublinhar duas questões: desde logo. e. Tabardo. que as minhas conclusões acerca da escassa presença da fidalguia de sangue nas vereações algarvias no início do século XIX foram. Nos séculos XVIII e inícios do XIX «(a)ssiste-se à inversão da base sociológica do grupo dos vereadores nas principais câmaras do Algarve (…) o poder radica agora numa nobreza de função. portanto. 20 O autor afirma. o facto de o uso desse tipo de fontes constituir. Sem pretender refutar a crítica.: Miguel Maria Telles Moniz Corte-Real. já depois de elaborada a versão inicial deste texto. O seu autor. . Fidalgos de cota de armas do Algarve. no estado actual da investigação.51-110. contrariando a imagem da afirmação gradual de uma nobreza camarária sem raízes fidalgas numa província onde a nobreza de sangue teria sido sempre muito minoritária. que ascendeu graças à riqueza acumulada no trato mercantil». nota (3)). «quando inicia a sua ruralização e decadência». representando a nobreza de sangue nos mesmos concelhos principais antes recenseados apenas 19% do total dos vereadores . a única forma de comparar um grande número de municípios de distintas regiões. Fidalgos Nobres e demais privilegiados no poder concelhio». em cada contexto. Gostaria de acrescentar que. 19 Cf.º 2.

A monarquia vizinha vendia. Poderíamos. a partir de finais do século XVII. que só tem relevância a certos níveis. 21 Cf. nem tão pouco os títulos nobiliárquicos. mas as coisas são quase sempre mais complexas. 22 Cf. Como eloquentemente demonstrou Fernanda Olival22. a riqueza. está longe de nos resolver inteiramente o problema. ao contrário do modelo castelhano. não consta que se vendessem senão em casos excepcionais depois de 1640. são mesmo dois momentos distintos nas trajectórias das famílias ao longo de várias gerações. senhorios e até títulos. A história das famílias constitui um terreno ainda em larga medida por explorar Tal como já tive muitas vezes oportunidade de destacar.º 10. n.64 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 2. Só que o serviço ao rei tinha inexoráveis condicionalismos. não se podiam comprar as distinções superiores da monarquia. Em geral. não consta que se comprassem comendas. mas. pela riqueza – nesta se podendo incluir as alianças matrimoniais. pp. mas ainda ofícios locais nobilitantes. as diferenças com Castela são muito relevantes. frequentemente contraditória. 2001. Desta forma. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime». Nada de semelhante se verificava em Portugal. fidalgos e primeira nobreza de corte21. Honra. 15-51. . 1987. de resto sempre em número de cerca de meia centena até 1790. tal como os senhorios que antes se transaccionaram. Fernanda Olival. a legislação. «Notas sobre nobreza. De resto. para os efeitos agora considerados. daí para cima e de forma progressivamente mais apertada. mercê e venalidade: as Ordens Militares e o Estado Moderno. podia chegar a abrir o topo da pirâmide nobiliárquica. até certo patamar. Mas. como uma forma de acumulação de capital económico – e pelo modo de vida. aquilo com que nos defrontamos em Portugal é com uma miríade de distinções e hierarquias e com a extrema dificuldade em definir uma hierarquia nobiliárquica abrangendo todo o espaço geográfico e social da monarquia. 237 e seg. consagrada pelo tempo. ao invés da polarização entre nobres e não nobres (ou nobres e mecânicos). muito sumariamente. as quais só se alcançavam pelo real serviço. pp. A ascensão na hierarquia nobiliárquica podia fazer-se. não só outras distinções nobiliárquicas inferiores. Lisboa. in Ler História. Em resumo. Nuno Gonçalo Monteiro. pelo menos depois de meados de seiscentos. foi sempre possível comprar hábitos a quem já tinha recebido a respectiva mercê da coroa. quase só pelo serviço ao rei. distinguir entre simples nobres. Neste ponto.

no trabalho modelar de Pedro Brito26. in Francisco Chácon Jiménez e Juan Hernandez Franco (eds. as lógicas de reprodução social. 1668). Lisboa. como no plano das alianças matrimoniais. Deste ponto de vista. porque em larga medida apropriadas pelas da corte24. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». 1986. são os estudos de reconstituição de famílias ao longo de períodos razoavelmente dilatados no tempo. mais recentemente. uma imensa ruptura no equilíbrio entre grupos nobiliárquicos.. Uma das formas de apreender essas apropriações e. Instituições e Poder Político. a Restauração representou. a ascensão das elites locais em Portugal desde finais de seiscentos encontrava-se limitada pelas dificuldades que encontravam em aceder aos ofícios e às mercês do centro23. 25 Cf. e. títulos. XVII. F. tudo vinha de trás). se foi tornando cada vez mais difícil. no livro de Mafalda Soares da Cunha27. 2001. Familia. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. embora com limitações inexoráveis. quanto pelas novas apropriações sociais e institucionais que se fizeram das instituições existentes. Em termos muito sumários. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. no de José Damião 23 Cf.). habilitam-nos a medir até que ponto determinadas elites se enquistavam nas instituições locais ou se alargavam a espaços mais amplos. 2 vols. comendas. «Trajectórias sociais e formas familiares: o modelo de sucessão vincular». pelo menos a prazo (depois do fim da Guerra. cit. No puzzle das instituições locais e centrais disponíveis. e muito. Para além de só estes permitirem medir a difusão ou não do padrão da primogenitura (o que se pode designar de «modelo reprodutivo vincular». 27 Op.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 65 De facto. Monteiro. cit. de Murcia. morgadios. pois também aí pesava. a qualidade de nascimento. e ao invés de Castela. 24 O serviço no exército e.. mais globalmente. poderosos y oligarquías. senhorios. tanto em termo de produção de serviços à coroa ou de acumulação de capital económico. pp. Univ. Portugal – séc. Nuno G. . Há algumas aproximações a este tipo de abordagem – por exemplo. 26 Op. sobretudo. chamada de atenção para o problema em António Manuel Hespanha. que constituía em si mesmo um signo de capital social25). e esta é uma ideia forte que importa de reafirmar. cf. Murcia. porque tendencialmente monopolizado pela «primeira nobreza de corte». in Optima Pars. As vésperas do Leviathan. pode afirmar-se que o acesso aos ofícios e aos serviços que permitiam receber as tais mercês superiores da monarquia. Não tanto porque se criassem instituições novas (matrículas da casa real. no governo das conquistas foi uma das portas possíveis. 17-37. Lisboa (no prelo). etc. parece que estas últimas só dificilmente estiveram ao alcance das famílias provinciais.

as quais estavam longe de constituir o único centro de interesse para as principais famílias locais. Ora. 3. sem sombra de dúvidas. pelo menos para quem se ocupe de grupos fidalgos (mas não só)29. Os historiadores académicos pouco têm explorado as potencialidades dos fantásticos fundos de produção genealógica da época estudada. Não se ignoram muitas objecções que se podem colocar a esta escolha. Existia. Cit.66 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rodrigues28 –. o ponto de partida. Geografia da nobreza e fidalguia e construção de casas nobres Nas mais de oito centenas de municípios do reino. o estudo das elites locais a partir das famílias e das casas tem inequívocas potencialidades. 30 Op. a famílias principais e as «elites camarárias» nunca constituíram uma categoria social uniforme. Menos substantivas parecem as reservas sobre a informação conjuntural que se perde ou sobre as virtudes das análises de redes. com efeito. nas não ainda uma utilização sistemática desta metodologia clássica. O livro recente de José Damião Rodrigues constitui. bem como outros ulteriores.Miguel…. aos quais se poderiam acrescentar os das ilhas e até das conquistas. um bom exemplo: estuda as famílias principais enquanto «oligarquias municipais». das famílias e das respectivas estratégias de reprodução social30. Qual a base para a escolha? Qual o critério a eleger para reconstituir as famílias? A opção não é fácil e supõe sempre uma definição de critérios de hierarquização nobiliárquica. A maior dificuldade é. Uma boa base de reconstituição de famílias permite muitos tipos de tratamento. cit. matéria à qual se regressará. O exercício de comparação de arrolamentos camarários em finais do Antigo Regime permite concluir que genericamente as elites locais eram 28 29 S. Ir-se-ão resumir esses dados para depois discutir uma outra dimensão da questão. a esse propósito. Apesar das limitações apontadas. esboçou-se uma geografia dos níveis de riqueza e de nobreza das elites locais. existe um fantástico fundo de produção de genealogias que facilita muito o trabalho. Uma das quais é. . o de emancipar este território de pesquisa de um excessivo enquistamento nas instituições municipais. uma geografia diferencial das elites provinciais. O quadro que desenha fica assim muito mais completo e matizado. mas depois procede também à sua análise detalhada do ponto de vista das casas. evidentemente. acerca dos quais já antes se destacaram as dificuldades que levantam. Em trabalho anterior.

principiando por retomar a divisão distrital actual (18 distritos do continente). nesta matéria. do que as do interior (Lamego e Viseu). 217-230. verifica-se que. com 99 casas. No centro. na Beira Alta. Cf. os resultados apurados33 destacam. Portugal Chão. em apenas cerca de meia dúzia de terras do Alentejo. in José Portela e João Castro Caldas (ed. «A patrimonialização do espaço social rural e o património edificado. menos presente no Sul do que no Centro e no Norte) com a maior riqueza e alguma mobilidade social (muito dinheiro do Brasil foi parar às casas do vale do Lima. em muitas povoações alentejanas não havia um único fidalgo reconhecido. o peso esmagador da antiga província do Entre-Douro-e-Minho. O estudo das casas armoriadas no território do continente português edificadas ou restauradas dos séculos XVII e XVIII fornece um indicador da vitalidade e da densidade das fidalguias provinciais. como seria de esperar. ao mesmo tempo que sugere as dificuldade que estas tinham em aceder ao centro. de resto. Algumas notas». Num exercício efectuado a partir de uma amostra escassa (apenas 223 casas) sobre a distribuição geográfica desse património edificado no território português do continente32. mas agora concentradas em centros urbanos. por exemplo). no Douro próximo da região demarcada do vinho do Porto. que está longe de ser muito completa. Torres Vedras) tinham claramente menos importância.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 67 mais ricas nas mesmas terras onde eram também mais fidalgas. eram mais ricas e mais fidalgas no Minho. Globalmente. Leiria. embora nunca demasiado rápida e abrangendo quase sempre apenas certas famílias ou casas31. De acordo com a informação recolhida. as câmaras mais ricas e mais fidalgas não traduziam linearmente a presença de uma fidalguia muito antiga mas sim a confluência de uma herança de fidalguia anterior (dos seus símbolos e modos de vida. Também. encontrando-se aí dispersas por muitas povoações e até termos concelhios. pp. acabando as duas dimensões por tender a coincidir. Nuno Gonçalo Monteiro. Mas 31 32 Cf. «Elites locais e mobilidade social…». Nuno Gonçalo Monteiro.). quase 44% do total. Coimbra. as povoações sede de comarca do litoral (Aveiro. 2003. Oeiras. cit. 33 Distribuição de casas por distritos actuais Braga Porto Viana Viseu Guarda Coimbra 40 31 28 28 18 14 Évora Aveiro Bragança Leiria Castelo Beja 13 12 10 6 5 4 Faro Vila Real Lisboa Setúbal Portalegre Santarém 4 4 3 3 2 1 .

de resto. apesar de tudo. Armando Malheiro da Silva. Casas armoriadas do concelho de Arcos de Valdevez. num total de 226 casas. quer as tentativas de aproximação de conjunto. Uma vez mais. é possível.. retomarmos a geografia em comarcas existente em 1825. diversamente. Acresce que. 1989-2004. muito à frente do Centro Litoral e do Sul. As duas coisas parecem coincidir. Embora a coincidência não seja perfeita. Miranda Vila Viço. têm inequívocas potencialidades. cujas virtualidades importa explorar. em larga medida.. partindo dos elementos recolhidos. apesar da subavaliação do Sul e de todas as limitações das fontes. no sentido antes referido de «modelo reprodutivo vincular».68 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS depois vem claramente a Beira Interior. trata-se de uma via de investigação alternativa à análise centrada na instituição municipal. 6 5 5 5 NOTA: Os territórios encravados da comarca de Barcelos foram incluídos naquelas com as quais tinham contiguidade territorial. de acordo com as fontes consultadas. Para além da referida distinção entre nobres e fidalgos (explicita. em regimentos 34 As 16 comarcas de Antigo Regime com maior número de casas Viana Guimarães Viseu Coimbra 27 23 17 16 Porto Barcelos Braga Évora 15 13 13 10 Lamego Guarda Trancoso Feira 10 8 7 6 Penafiel Castelo B. Arcos de Valdevez. a história casas-edifícios confunde-se com a das famílias e das «casas e morgados». uma hierarquia nas nobrezas provinciais. detectar uma apreciável correlação positiva entre as zonas e as localidades nas quais detectámos elites locais mais ricas e com signos nobiliárquicos mais destacados e aquelas nas quais se detectam também maior número de casas armoriadas. No entanto. A hierarquia da nobreza das províncias Existia. as comarcas da Beira interior aparecem à frente do Centro Litoral. Se. será muito difícil identificar alguma vez todas as casas armoriadas ou inequivocamente fidalgas que existiram no continente português durante o Antigo Regime. por exemplo. que aqui não cabe detalhar. 123 ficavam em comarcas «do interior»34. 4. 5 vols. só parcialmente exploradas no caso português. quando existiam 48 comarcas. torna-se possível esclarecer algumas dimensões suplementares: verificamos que. portanto. como se acaba de constatar. Subsídios para o estudo da nobreza arcoense. quer os estudos monográficos35 que se prendem com o tema que estudaremos de seguida. 35 Cf. . bem espelhada no espaço. Uma vez mais. Luís Pimenta de Castro Damásio et al. Por razões várias. de resto.

. The Municipal Councils of Goa. 38 Francisco Roque de Freitas de Albuquerque da dita ilha pretendia contrair matrimónio com uma filha do personagem antes citado.) unidas no suplicante. ou em seu filho. 37 Cf. era imediato sucessor da grande casa que fora do avô materno e que administrava uma tia. pelo que «a antiga Nobreza destas duas casas (. Francisco Roque de Albuquerque também surge na mesma lista. tentar esboçar outros limiares. Em primeiro lugar. Desembargo do Paço. Joana Teresa do Carvalhal Esmeraldo Atouguia e Câmara. avultariam mais de cem mil cruzados por ano.. de cujas listas já constavam os seus antepassados pelo menos século e meio antes37. e Maternos. é possível. Charles Boxer. Nelson Veríssimo. Bahia and Luanda. e o 36 Cf. Uma exemplar é a da impugnação que em 1786 João do Carvalhal Esmeraldo da Ilha da Madeira. importa recordar duas questões sobre as quais muito se tem insistido. fez ao matrimónio da sua quinta filha com outro fidalgo arrolado na mesma lista e acabado de fazer sargento-mor. Entre outros argumentos. Op. Por outro lado. o pai da desejada noiva alegava que. Desde logo. além da casa que herdara de seu pai. Fidalgos muito distintos». tem 53 anos e é reputado «rico». embora muitas explicitamente o tivessem pretendido.º 1661). No entanto. Existiam na província seguramente mais de uma. Corte. é «fidalgo cavaleiro» (da casa real). Poder-se-iam retomar muitas histórias. Madison. D. tendo como referência sobretudo o século XVIII. tendo então 36 anos (IAN/TT. 1965. Portuguese Society in the Tropics. foram raríssimos os fidalgos de província que casaram os seus filhos ou filhas sucessoras com a prole dos Grandes do reino desde finais do século XVII a inícios do XIX. ele era e tinham sido «seus Avós Paternos. apesar das dificuldades apontadas.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 69 como os da câmara de Goa36). e da Cova. . maço n. Macao. talvez mais de duas dezenas de casas com um rendimento equivalente ao das menos afortunadas casas na primeira nobreza da corte. mas em quadragésimo segundo lugar e apenas com «bens suficientes». «aparentado com as casas de Unhão. Fidalgo da Casa Real e o primeiro arrolado para a Câmara do Funchal.. pelo lado materno. descendendo pelo lado paterno do (único) Conde de Vila Pouca de Aguiar. o que não desconheciam. «pelo motivo de desigualdade em qualidades»38. ao contrário do pretendido noivo. que. a pertença a um mesmo rol de elegíveis para a governança de um município não servia para criar uma identidade social comum. dos Mellos. No arrolamento dos elegíveis para vereador da câmara do Funchal em 1787 João Carvalhal Esmeraldo aparece em primeiro lugar. cit. como antes se disse. no divórcio que se foi cavando cada vez mais entre as elites da corte e as das províncias. assim como muitas outras da Primeira Nobreza». e sendo. de Belmonte.

. As lutas pelo acesso às vereações e aos arrolamentos de nobres recentes contra presuntivos fidalgos. É difícil. que veio a ser o 1. Nuno Gonçalo Monteiro. É importante destacar. o saldo da história não fugiu à expectativa: a filha acabou por casar como pretendia. 40 Cf.70 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS intitulavam a pretender nobres e distintas alianças. Fosse pela qualidade dos imputados ascendentes. 41 Cf. o que algumas vezes conseguiram (designadamente no exército e nas conquistas no século XVIII)41. pois apenas se reportando aos que tivessem o foro de «moço fidalgo e daí para cima». não duvidariam dar uma filha». principalmente para o seu filho mais Velho. morreu solteiro39. no entanto. fosse pelo rendimento respectivo. não nos deve fazer esquecer que no século XVIII cada vez mais as instituições centrais tenderam a fazer equivaler a fidalguia às matriculas da casa real. até pela consabida falta de controlo no acesso e uso das cartas de Brasão de Armas. Mas também nas habilitações da Ordem de Malta se tendia a fazer equivaler a fidalguia imemorial às matriculas da casa real. Curiosamente. e titulares famílias deste Reino. na regulação do acesso ao Colégio dos Nobres ou na lei dos casamentos de 1775 (há muito poucos moços fidalgos fora da corte)40. ICS. mas essa declarada pretensão seria dificultada pela aliança em causa. Litigiosidade inter-familiar e noções de nobreza em Portugal (1750-1832). a quem algumas das mais distintas. e o pai não conseguiu o que queria. estabelecer uma hierarquia das nobrezas abaixo dos Grandes e da primeira nobreza de corte. cit. mais antigos e que usavam armas nas fachadas das suas casas. num sentido ainda mais restritivo. que se pode circunscrever uma categoria ainda mais restrita que podemos definir como a da principal fidalguia das províncias. como disse. Curiosamente. «Elites locais e mobilidade social…». pois o único filho sobrevivente. Um indicador indirecto. mas significativo. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. Embora a variação dos critérios locais não se possa perder de vista (e a regra tenha. por isso excepções) existiriam nas províncias do reino algumas centenas de fidalgos da casa real que delimitavam um segmento superior das nobrezas locais. pode encontrar-se no recrutamento dos cavaleiros da Ordem de Malta. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». estas casas tinham uma geografia das suas alianças matrimoniais que se estendia a todo o reino e aspiravam a servir a monarquia em lugares de algum destaque. Isso é claro.º Conde do Carvalhal feito em 1835. cit. a única ordem efectivamente 39 Retomado da investigação em curso: Trinta Casamentos contrariados e outras histórias. a fronteira entre a nobreza antiga de pelourinho e a fidalguia de linhagem não é fácil de definir.

Os cavaleiros da Ordem de S.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 71 fidalga. ao mesmo tempo. Nota final Nas páginas anteriores percorreram-se alguns temas da historiografia recente sobre as elites locais em Portugal no Antigo Regime. Procurou-se. 5. aceder à corte. existia um pressuposto fundamental bem conhecido. que constitui. dispomos de informações para 174 cavaleiros. 92 (ou seja. os Pais do Amaral de Mangualde. Trancoso e Viseu) e 18 do Minho. estas casas e famílias casavam muitas vezes fora das províncias de origem. Maria Inês Versos. Mest. os Pereiras Coutinho de Penedono ou os Silva da Fonseca de Alcobaça. De resto. pp. Em síntese. Ou seja. É claro que não se trata de uma imagem de conjunto da primeira fidalguia das províncias porque a Ordem de Malta era uma questão de casas e famílias. não pertenciam à nobreza da corte. .. Mimeo. 2003. no sentido de que algumas casas nela criaram raízes e foram fornecendo recorrentemente maltezes (chegou a haver 5 irmãos maltezes!). os Pintos de Lamego (que deram um Grão-Mestre e depois o Secretário de Estado e Visconde de Balsemão). como. A Ordem de Malta não fornece. servir a monarquia e. Mas dá uma excelente amostra do conjunto. portanto. Ao todo. que foi estudada recentemente por Inês Versos42. Destes. 43 provinham da Beira. Na época estudada. uma relação de todas as casas da primeira nobreza das províncias. sugerir vias possíveis de renovação de um território muito explorado nos últimos anos. Dis.João de Malta em Portugal de finais do Antigo Regime ao Liberalismo. das mesmas zonas onde detectámos mais casas armoriadas! Entre os maltezes vemos filhos segundos de muitas das mais destacadas casas da primeira fidalguia provincial. no plano geográfico: dos 92 referidos maltezes. em particular. Desde logo. 324 e seg. Guarda. militar e religiosa (destinava-se a secundogénitos) existente em Portugal. Lisboa. uma dimensão axial da questão e uma 42 Cf. Os 92 indivíduos reduzem-se assim a 70 casas ou famílias ou até a menos (56) se considerarmos os laços de parentesco em primeiro ou segundo grau. 52%). quase só do que hoje chamamos Beira interior (sobretudo comarcas de Lamego. dentro deste segmento mais restrito da fidalguia principais das províncias. vamos encontrar precisamente muitos daqueles que mais buscavam fugir aos ofícios locais. nem mesmo as poucas centenas de fidalgos da casa real existentes nas províncias chegavam a definir uma categoria social uniforme. por fim. mas à fidalguia das províncias. E. para o período compreendido entre 1691 e 1826.

72 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS fonte quase perpétua de ambivalência: a cultura política prevalecente e a generalidade das intervenções legislativas da monarquia pretendiam que o governo local. Para os grupos em processo de acumulação de capital económico. o acesso à elite local podia ser a forma decisiva de serem reconhecidos como membros da elite social. de 18 de Out. . as famílias mais nobres e antigas podiam não estar interessadas no acesso aos ofícios locais. cristandade e desinteresse» (Alv. partindo do postulado de que estas seriam as mais desinteressadas e também aquelas cuja autoridade seria mais facilmente acatada. Em síntese. No entanto. na qual não tinham nascido. repousasse nas mãos dos mais nobre das terras. não coincidiam necessariamente. que as «elites políticas» locais fossem recrutadas nas «elites sociais» locais (para retomar uma outra terminologia). nos quais os seus antepassados pontificavam há muitas gerações. Inversamente. nas próprias disposições normativas da época. procurava. Alguns dos exemplos apontados nessa direcção parecem corroborar as suas indiscutíveis virtualidades. portanto. Esse modelo do que numa terminologia weberiana chamaríamos uma administração de honoratiores. Os dois planos confundiam-se. identificadas pelo seu grau de nobreza. 1709). das «pessoas da melhor nobreza. o que em larga medida se propôs nas páginas anteriores foi que se desloque o centro da análise dos grupos dominantes locais das «elites políticas» para as «elites sociais». assim. a todos os níveis.

reflectindo a escassez de quadros técnicos. pp. 1750-1830. administração e bloqueamentos estruturais no Portugal Moderno (tese dout. polic. No entanto. A designação. como a repartição e cobrança de impostos. p. a extensão e os habitantes dos municípios. Entre-Douro e Minho. entre a segunda metade do século XVII e o primeiro vinténio do século XVIII. Lisboa. auxiliando os seus agentes nas mais variadas tarefas da governação e assegurando o quotidiano camarário nos intervalos. Braga. o modo de provimento e até a origem social. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. João Pedro FERRO. 1987. as funções. 2005. reflectindo as especificidades administrativas concelhias da época. José Viriato CAPELA. a função de guias e caminheiros. consoante a categoria políticoadministrativa. p. vol. Nas vilas de Caminha e de Montemor-o-Novo era este precisamente o seu 1Este 2 3 reduzido aparelho administrativo era. divergiam consoante os concelhos.O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas TERESA FONSECA (CIDEHUS) O funcionalismo camarário constituiu um dos pilares da administração local do Antigo Regime.). . 43-48. os vencimentos. mais evidente no interior do país e fora dos grandes centros urbanos. no entanto. dotada de um sistema administrativo excepcional no conjunto dos municípios portugueses. mais ou menos longos e irregulares. gradualmente organizadas. um montante de funcionários excepcionalmente elevado: cerca de 6802. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. em serviços públicos. O seu número era também variável. possuía. Finanças. 73-86. I. o transporte de presos. aos munícipes. a partir da época liberal. a colaboração com materiais e mão de obra nas obras municipais e muitas outras. a média nacional do pessoal camarário nos municípios com juiz de fora não passava de sete elementos3. de um elevado número de funções. mantinha-se consideravelmente inferior ao actual. 373. das reuniões de vereação. 1996. Em qualquer dos casos. de longe a maior e mais populosa cidade do Reino. Planeta. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. mas também a debilidade burocrática da época1. Lisboa. compensado pela imposição.

Entre-Douro e Minho. p. 24 (1775-1814).). Colibri. constituíam uma média de doze para um conjunto de treze câmaras. Excluímos o juiz de fora. pp. 27... Borba três6 e Vila Nova de Cerveira apenas dois7. O município de Chaves entre o absolutismo e o liberalismo (1790-1834). Câmara Municipal. vol. Incluímos apenas os funcionários com ordenado pago pela edilidade. Évora. 8 J.. Mas Chaves e Arraiolos possuiam quatro5. 155-156. O Porto e o seu termo (1580-1640). 46.M. Montemor-o-Novo.H. Câmara de Estremoz (C.. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1820). A. Colibri. Lisboa. Lisboa.M. Porto. I. 11. Relações de poder no Antigo Regime. Braga.. E Lv. o segundo mais importante município da comarca de Évora e também sede da sua própria comarca até finais do século XVI. 12 Arquivo Histórico Municipal de Estremoz (A. (Câmara Municipal de Arraiolos). Sobre a questão da comarca de Estremoz. 13 J. veja-se António Henriques da Silveira. 373. Desconhecemos. (Arquivo Histórico Municipal de Arraiolos). I. 77. embora inferior. os aferidores dos pesos e medidas e o escrivão do real da água. as instituições e o poder. 48 e 52. Na região de Entre-Douro e Minho. C.M. 595-689. 7 José Viriato CAPELA. Entre-Douro e Minho . incluído nesta contagem do autor. Cx. f. e no segundo. o montante subia consideravelmente: 31 em Braga8. 2003. 37 em Vila Real9. Estão no primeiro caso os funcionários da almotaçaria.A. 1988. 528-532. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz». CAPELA. no entanto.E. . Elites. Receita e Despesa (1813-1838). I. 3. 9. f. sendo as principais funções exercidas por oficiais dos concelhos vizinhos13.E.. CAPELA...E. (Câmara Municipal de Borba). Nas localidades com categoria de sede de comarca. Os homens.. 9 José Viriato CAPELA. 4 Para Caminha veja-se J. V. 372. E para Montemor. Universidade do Minho. cujo ordenado provinha ou das receitas próprias dos serviços ou de entidades exteriores à câmara. 6 A. 2000. Entre-Douro e Minho. do terreiro do pão. aproximadamente o mesmo no Porto10 e 14 em Évora11. 5 Para Chaves veja-se Rogério Capelo Pereira BORRALHEIRO. 339. in Teresa FONSECA. . os que dependiam do juízo do geral ou do juízo dos órfãos. Vila Nova de Cerveira. 210. Câmara Municipal. II. 2002.038.A. CAPELA. “Memorias annaliticas da Villa de Estremoz”. se integrou neste cômputo outros magistrados régios sediados na cidade.037. que no entanto provia ainda um elevado número de funcionários. Receita e Despesa (1809-1817). Absolutismo e municipalismo. Mas a sul do Tejo o montante crescia.D. 25. 8.. a.B. 86-87. p. poder e governo municipal.H. 1995. vol. (Arquivo Distrital de Évora) / C. vol. p. Entre-Douro e Minho . p. p.M. Teresa FONSECA. 1997. possuía 812. era também variável.74 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS número4. p. 271. Nos municípios presididos por juizes ordinários o seu número. em virtude da maior extensão destas circunscrições administrativas e das distâncias entre as diferentes localidades. p. p. Braga.). V. E para Arraiolos. 11 Teresa FONSECA. 253 e 254. Receita e Despesa (1800-1812). 1750-1820. ed. . 10 Francisco Ribeiro da SILVA. Estremoz. V. p. p. / E / 001 / Lv. vol..

partilhava a Mesa do Senado da Câmara com o presidente.M. 103-108. Absolutismo e municipalismo. Universidade do Minho. O Minho e os seus municípios.M. A. 6. vol. Lisboa. Perfil de um poder concelhio. José. cinco em Évoramonte e no Vimieiro14. 038 (1791-1803). 1995.C. f.M. No Porto. quatro em Almada e em Cabrela15 e três em Lavre e em Cacela16.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 75 factores que inviabilizavam o aproveitamento de recursos humanos verificado a norte. Braga. 17 José Viriato CAPELA.M. p. 15 Para Almada veja-se Aires dos Passos VIEIRA.M. 1990. Administração. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). f. B / 001 / Vereações Lv. O Porto e o seu termo. Receita e Despesa (1782-1800). os vereadores e os procuradores da cidade e dos mesteres18..H. I. Para a história da administração. 035. que por isso mesmo se encontravam presentes na maioria das municípalidades.L.. T. p. Na impossibilidade de abordarmos exaustivamente esta complexa e diversificada rede de funcionários. C.. E para O Vimieiro. Em Évora.. Em Lisboa. Embora formalmente excluído do governo municipal. R. desfilava a seguir ao procurador do concelho e ao alferes da câmara20. 10v. 25. 387-388.A.. Évoramonte pertence actualmente ao concelho de Estremoz e o Vimieiro ao concelho de Arraiolos. assim. A importância do ofício patenteava-se no lugar de destaque ocupado em funções e cerimónias públicas e nos avultados ordenados e chorudas propinas auferidos nos grandes e médios concelhos. 18 João Pedro FERRO. economia e cultura (1580-1640). Receita e Despesa (1810-1819). (Câmara de Lavre). da SILVA. 19 F. 12 e 13. (1779-81)... Santarém durante o reinado de D.). (Arquivo Histórico Municipal de Montemor-o-Novo) / C.E. Almada no tempo dos Filipes.. / U. (Câmara Municipal do Vimieiro).N. e 11 v. Câmara Municipal. incluindo as presididas por juizes ordinários. No topo da hierarquia situava-se o escrivão da câmara.N. (Câmara de Cabrela).. p.N. sentava-se em cadeiras da vereação.H. 16 A. sociedade. (1782-87). Cacela no século XVII (Dez anos de governo autárquico). 1995. Id. Eram. F. Vila Real de Santo António.S. 145. p. em regra superiores aos do juiz de fora e muitas vezes também ao da totalidade dos restantes funcionários17. p. Na vila de Santarém. 41-42. . p. / C. Lv. José a 17 de Março de 14 Para Évoramonte veja-se A. E para Cacela. / Évoramonte. no cortejo da cerimónia da quebra dos escudos efectuada pela morte de D. Câmara Municipal. FONSECA. e Lv. em situação equiparada à dos membros da governança19.. 20 Maria Virgínia Aníbal COELHO.M. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). Hugo CAVACO. 036. p.M. 1993.U. diss de doutoramento (polic. / C. O antigo concelho de Cabrela faz hoje parte do de Montemor-o-Novo.. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal.V.. O antigo concelho de Lavre encontra-se presentemente integrado no de Montemor-o-Novo.H.H. L. 483. seleccionámos os mais significativos do ponto de vista político-administrativo. 2v. E para Cabrela veja-se A. 42-43. Almada. desempenhava nele um papel imprescindível. F1 D4.

49.. I. 493-494. “Forma por que se fés o quebramento dos Escudos nesta Cidade de Evora a 17 de Março de 1777. Terena31 e Évora32. Cf...T. como pudemos constatar no Porto23. O município de Chaves . Absolutismo e municipalismo. (Repartição das Justiças e Despachos da Mesa). Centro de Estudos e Formação Autárquica. f./D. Homens. Cf. nos finais de setecentos. foi exercido por cidadãos de precária condição económica. VIEIRA. p. dos P. Doc. Veja-se A.). O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. eleitos diversas vezes almotacés. mas o próprio procurador do concelho21. diss. O Porto e o seu termo. Livro 9º de Registos (1769-1828). caminhou imediatamente a seguir aos vereadores e juiz. embora de recursos modestos22. entre a Restauração e o Pombalismo. de doutoramento (polic. à aristocracia local. Eduardo MOTA. (Torre do Tombo) D. A. provisão de 16-4-1795. Publicações Gaudela. Emília Salvado BORGES. elevada à categoria de município em 1782. BORRALHEIRO.. Instituto Cultural.E. em 1812. p. Ponta Delgada26. seis dos quais chegaram a servir de vereadores e de procuradores. José Damião RODRIGUES. I. T. antecedendo não só o tesoureiro. p. 87.. no mesmo período.E. 25 Os de Chaves pertenciam.. no século XVII. 1986. foi sempre atribuído a indivíduos incluídos na categoria de cidadãos.C. Veja-se Sérgio da Cunha SOARES.-A. 2000.. Faculdade de Letras. Cf. sendo um cavaleiro fidalgo e outro moço de câmara. 23 No Porto no período filipino... os seus detentores eram homens de confiança do rei. Administração municipal em Gouveia em finais de setecentos. Das origens às cortes constituintes. ter já por diversas vezes “servido na governança” da mesma vila. Cuba29. dois criados do Rei. o único proprietário do cargo foi um fidalgo. p. Provisões. o lugar esteve nas mãos de “notáveis locais”. 19 e 323. Chaves25.). o segundo e o terceiro proprietários do ofício.. 28 Em Gouveia. 24 Em Almada.. José Iº”.M. 21 Arquivo Distrital de Évora (A. sendo até incluídos nos róis de elegíveis. Gouveia. Coimbra. fazenda e poder no Alentejo de setecentos. 499. eram elementos da nobreza local. 22 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. p.P.. em Almada24. Seda 30.79. 58. Almada no tempo dos Filipes . pela morte do Senhor rei D. Este prestigiado cargo era geralmente atribuído a pessoas nobres. Maço 634. entre 1770 e 1800. 1995. R. Ponta Delgada. o filho de um procurador da cidade e um vereador no período posterior à Restauração. Poder e poderosos na Idade Moderna 2 vols. O poder concelhio. sentenças e alvarás (1795).D. Lisboa. era da nobreza da vila e os seus parentes estavam “sempre na vereação”. pertenceram todos a uma única família da pequena nobreza da cidade. ainda nos finais do Antigo Regime. 4. J. livº 143. 30 O de Seda (comarca de Avis). entre 1750 e 1820. Maço 1525. p. Poder municipal e oligarquias urbanas. 27 Em Coimbra. p. nomeadamente um escudeiro fidalgo da Casa Real. pai e filho. Cf. 1990.. p. . Coimbra. 29 Na vila de Cuba. T. FONSECA. Cf. p. (Desembargo do Paço). 104-106.T. T. 26-26v. Coimbra27.P. 32 Os de Évora. Cf. Gouveia28. vol.. .) / Arquivo da Câmara de Évora (A. Veja-se Francisco Ribeiro da SILVA. vol.76 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 1777. 1994. C.D. Ponta Delgada no século XVII. 26 Em Ponta Delgada. 31 O escrivão da câmara de Terena afirmava. Colibri. 228. P.

vinha incluído anualmente na pauta régia. 228-229. em 1759. Campo Maior e Loulé até ao fim do Antigo Regime. / C. 40 Entre 1777 e 1816. Relações de poder.. Poder e sociedade em Vila Nova de Portimão (1755-1834). L. p. Registava os processos 33 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. Santarém36.. p. Assentava. FONSECA. p.. Abrantes37. todos pertencentes à mesma família da pequena nobreza local. 49.. Terena. 535. Registava todos os mandatos. Lisboa. o lugar foi ocupado sucessivamente por pai e filho. Em Évora. 1771-1800.. geralmente. Alberto de Sousa Amorim Rosa. p. até à extinção da donataria.. nobreza e povo. Anais do município de Tomar.M.. 58. uma “poderosa dinastia” de escrivães. 147-149. na centúria seguinte e em Elvas. Redigia as actas das eleições trienais dos agentes do governo local. Coimbra38. Cf. p. Vereações (1753-1770). A. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). .O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 77 A forma de provimento do ofício era variável. 34 T. Mas na maioria das localidades.N. FONSECA... VI. incluindo Gouveia35. Podia efectuar-se trienalmente. I. cit. acordos. / C. 174. 38 Em Coimbra. Montemor-o-Novo40.E.. entre a primeira metade do século XVII e a segunda metade do século XVIII. nos municípios directamente dependentes da coroa. No município de Lavre o provimento competiu ao marquês de Gouveia. nas terras de domínio senhorial33. pelo Desembargo do Paço. alvarás. Absolutismo e municipalismo. As funções do escrivão da câmara vinham estabelecidas nas Ordenações. Anotava o movimento do gado e passava certidão dos requerimentos formulados aos membros da edilidade.. p. 36 Maria Virgínia Aníbal COELHO.H. id. O município de Coimbra. 25. S.. termos de obrigação ou de fiança e outros similares. Cf. Estremoz41 e Évora (a partir de finais de quinhentos)42 era de nomeação vitalícia.. existiu igualmente. 35 E. Câmara Municipal. Administração municipal. 39 Em Tomar. vol.E. SOARES. 2000. 42 Entre 1733 e 1820. os detentores do cargo pertenceram a seis gerações da mesma família. juntamente com os membros da edilidade34. Joaquim Candeias da SILVA. mediante proposta camarária. nos séculos XVII e XVIII. Tomar39. Absolutismo e municipalismo. Veja-se T. o ofício conheceu apenas três proprietários. 37 Os cinco proprietários do ofício dos sessenta anos de dominação filipina.H. por Luís VIDIGAL.. 123. Colibri.M. Cf. Portimão. 41 A.. da C. em Viseu. respectivamente Teotónio Manuel de Melo e João Joaquim de Melo. ou pelo donatário.. as receitas e as despesas do concelho. F1 B2..M.. 77... 1993. O poder con- celhio.. p. 228. p. Abrantes – a vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640). pertenceram a três gerações da mesma família. p. p..T.. hereditária. Vereações (1815-1820). Câmara. Perfil de um poder. MOTA. FONSECA. em livro próprio. que na prática se tornava. durante grande parte do século XVI.

. e 500-501. competia-lhes ainda a elaboração das actas das reuniões camarárias e de outros actos públicos em que participassem os membros da governança. na prática. CAPELA.. tanto por particulares como pelas mais diversas instituições. passando as respectivas guias e certidões. Redigiam proclamações.. Com efeito. regimentos e tabelas de taxas. Elaboravam os manifestos do gado. L. privilégios e outra documentação importante43. Na primeira vereação de cada mês. E secretariavam as vistorias e outras visitas de inspecção promovidas pelos camaristas44. sentenças e alvarás (1793). J. 47 T. R. tanto de vintena como dos ofícios mecânicos. Absolutismo e municipalismo. de Aldeia Galega (actual Montijo)47. Elaboravam as escrituras notariais de arrendamento. Tal privilégio foi atribuído aos escrivães de Évora45.D. Provisões. Procediam a inquéritos para fins diversos. onde se guardavam as escrituras. Passavam a escrito todo o tipo de determinações municipais..M. Porém. principalmente de natureza económica e militar. Copiavam ordens.. 1. T. FONSECA.. Para cumprir eficazmente tão amplas obrigações. 140. forais. Organizavam os processos de aforamento dos baldios. Redigiam os termos da tomada de posse dos oficiais e funcionários camarários e dos juizes e escrivães.. e cerimónias festivas ou de quebra dos escudos. licenças e termos de juramento.. . tanto da cobrança das rendas régias e camarárias.. convocatórias. compra ou venda de bens do município. (Ordenações Filipinas). alvarás e provisões emanados das instâncias superiores do poder. azeite. devia ler aos oficiais da edilidade e almotacés os respectivos regimentos. Registavam os actos de arrematação. 230.P.. Participavam nas correições camarárias. 229-230. tombos. Passavam aos munícipes as cartas.. necessários ao exercício de certas actividades profissionais. p. p. provisão de 7-9-1793. como entradas régias ou de prelados. Actualizavam o tombo dos bens concelhios. tinham a possibilidade de requerer ao Desembargo do Paço a nomeação de um escrevente ou ajudante. da SILVA. vol. Maço 1523. T. FONSECA. I.78 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de injúrias verbais despachados em câmara. notificações e editais. de Valença 43 O. 46 F. / D. como do fornecimento de carne. Competia-lhe ainda a posse de uma das chaves da arca do concelho. 71. O Minho e os seus municípios .. 44 T. p. Absolutismo e municipalismo. as suas tarefas ultrapassavam largamente as estabelecidas na lei geral. O Porto e o seu termo. avisos.. ordenando a sua afixação em locais próprios.T. 487-488.F. p. preços e salários. carne e outros produtos. do Porto46. bem como a correspondência endereçada à municipalidade. vinho e outros produtos ao concelho. redigindo as respectivas actas. pão. 45 T.. V. que os auxiliassem nas tarefas não abrangidas por segredo de justiça ou outra matéria sigilosa. trigo. como posturas.

o pouco trabalho dos ofícios e o seu baixo rendimento económico. F1 B2. T....N. 230. dos órfãos e das sisas de Vila Nova da Erra. 51 T. Id. já então também escrivão da almotaçaria e distribuidor. exercia funções idênticas relativamente às sisas e aos direitos reais. Mas as acumulações ocorriam também nos municípios de superior dimensão e categoria. Provisões. 4v. Absolutismo e municipalismo. Absolutismo e municipalismo. atribuídas não por qualquer razão prática. além de escrivão do subsídio militar da décima da cidade e do termo escriturava também os reais da água da carne e do peixe53. onde os cargos eram mais trabalhosos e havia mais gente capaz de os exercer. 49 T. Maço 1527.. Porém. do juizo do geral e das armas50.. E o de Évora. sentenças e alvarás (1793). p. assim.. A categoria sócio-profissional destes escriturários confirma-nos o prestígio do cargo de escrivão..P. provisão de 29-5-1797. o escrivão da câmara. f.. mas antes em virtude do prestígio do cargo de escrivão. 13 – 13v. Nos pequenos concelhos. o escrivão da câmara de Pereira. provisões de 5-7-1794 e de 7-9-1793. juntando ainda a estes três cargos o de contador e distribuidor na mesma vila. vereações de 10-10-1753.. o que levava frequentemente à nomeação dos escriturários acima referidos. dispensando até a justificação prévia exigi48 Id. 50 A. p. foi investido no ofício de tabelião do judicial e notas51..H. mas até nefastas ao eficaz exercício das funções. as acumulações eram não apenas dispensáveis. Provisões. Dos três nomeados para assessorar.M. provisões de 8-8-1793 e 17-8-1793. dois foram procuradores da cidade e o terceiro era tabelião do judicial49. o escrivão da câmara era-o também do judicial e notas. f.D. FONSECA. E no mesmo mês e ano. 231. 53 T. . entre 1750 e 1820. comarca de Coimbra. Provisões.L. Em 1793. Provisões.. as razões mais invocadas nos pedidos de acumulação eram a falta de pessoas capazes. obteve provisão régia para juntar aos três ofícios o de recebedor dos direitos reais da mesma vila. / D. (1794).M. Maço 1523. o escrivão da câmara de Lavre servia simultaneamente os ofícios de tabelião de notas e os de escrivão da almotaçaria. Os escrivães exerciam frequentemente outros cargos públicos. contador e inquiridor dos órfãos. Maço 1525.. sentenças e alvarás (1793). Maço 1523. O seu congénere de Aldeia Galega. / C. estes oficiais camarários na capital alentejana. Eram... Em Lamego. No século XVIII.M.T. nestes concelhos importantes. FONSECA. O de Alcácer do Sal era igualmente escrivão do celeiro comum52. Vereações (1753-1770). sentenças e alvarás (1797). 52 Id. comarca de Santarém. provisão de 29-7-1794.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 79 do Minho48 e provavelmente de todos os concelhos onde se justificou a sua existência.. e de 12-11-1754.

delegava nestes oficiais prerrogativas excepcionais. o escrivão da câmara do Redondo. quando chegavam de novo a uma terra. Doc.H. numa evidente manifestação da sobreposição do critério do privilégio sobre o da racionalidade administrativa.) e dispotismo” sobrepunha-se a “todas as Leys e Ordenações”. redigiu uma nota no livro da receita e despesa camarária desse ano. 58 A. acrescentava a sua opinião. Nas reuniões do senado. o plenário camarário56.. p.. em muitos casos durante décadas...M. quando. de MENESES.. Elementos de estabilidade. 56 A. A assistência. Os Açores. Em 1793.P. FONSECA. I.T. considerava que o então detentor daquele cargo. Francisco José Guedes de Melo. 57 T. f. 55 T. Receita e Despesa (1809-1817). Absolutismo e municipalismo. Por isso.. 231. vol. na altura procurador do concelho de Évora. se devia limitar a redigir o que lhe era ordenado pela vereação54. . registado pouco antes no mesmo livro58. mais habituado a mandar que a obedecer. já ultrapassado. na câmara. no entender do procurador. durante longos períodos de tempo. pelos magistrados da comarca... se considerarmos que nas sete décadas decorridas entre a entronização de D. A. o advogado José António Xavier da Silva Sintrão. 88. era. E em 1816... influenciando antecipadamente as deliberações do corpo camarário...-A. tornando-os os principais depositários da memória camarária. compreensível. José e a revolução vintista. A sua “autoridade (. proporcionava-lhes um perfeito conhecimento dos assuntos municipais. a familiarizarem-se com a realidade local. contrária a um provimento do provedor. o congénere de Estremoz. eram naturalmente auscultados pelas 54 T./D. 159-160. no entanto. ajudando provavelmente os próprios juizes de fora.E.80 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS da aos pequenos concelhos. Maço 574. Vejamos apenas alguns exemplos da influência dos escrivães na vida municipal. / C. permitindo-lhes assim assegurar o normal funcionamento administrativo sem ter de reunir.. foi preso pelo jovem e recém chegado juiz de fora. enquanto lia as petições dos munícipes. “quem tudo governa”. o lugar foi ocupado apenas por três proprietários pertencentes à mesma família55. baseado num alvará seiscentista considerado. eram os escrivães quem estabelecia a ligação entre as sucessivas vereações.E. às vereações e outros actos administrativos.F. FONSECA. 232. 156. A maioria das edilidades açorianas da mesma época. Tal ascendente é. Absolutismo e municipalismo. por não cumprir uma ordem sua e lhe responder com arrogância57.. p. Em 1804. p.

Lagos. 65 Designadamente na Praia. evitando situações eventualmente caóticas ou de ruptura. em regra. 61 F. Topo. vereação de 31-12-1769. p. . I./D.H.. 63 Em Lavre. Lavre63. p. E. f. O processo de nomeação do tesoureiro variava consoante as terras. mesmo se para tal recebesse ordens dos ministros da comarca ou dos membros da edilidade “sob pena de a pagarem de suas casas”59.. cometendo até excessos e arbitrariedades. as suas funções eram. embora o tradicional sistema tivesse subsistido em diversas localidades. vol. – A. Lajes e Santa Cruz. 62 A. O Porto e o seu termo.M. em épocas de crise administrativa local e nos períodos conturbados da vida política nacional.M. Até ao século XVI. em Viseu67. R.L. vol. 1993. O Porto e o seu termo. 1. MOTA. p. apenas se nomeava um tesoureiro em situações excepcionais. O tesoureiro tinha a seu cargo a actividade financeira do município. No Porto66...P. como Gouveia60.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 81 autoridades locais. “por ser o procurador muito ocupado em andar por fora” . Doc. Velas. Universidade dos Açores. Sebastião. Universidade Portucalense. Évoramonte62. Autores. Competia-lhe receber as rendas do concelho e pagar as despesas ordenadas pelos vereadores. Receita e Despesa (1810-1819).. Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770) – I – Poderes e instituições. S. como sucedeu em 1769. nestes casos. da SILVA. com as do próprio governo camarário. 211. A. Albufeira64 e ainda nos Açores65. I. Madalena. Horta.T. T. Guimarães61. Usufruindo de uma situação privilegiada.. / Évoramonte. da SILVA. a eles devemos uma boa parte do que hoje conhecemos da administração municipal do Antigo Regime. F1 B2. em última instância.. Alverca. Também arrecadava a terça régia. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira NUNES.H. com discrição e alguma eficácia. O Porto e o seu termo. Avelino de Freitas de MENESES.. pela administração dos dinheiros públicos.-A. não a podendo dispender em coisa alguma.. L. 67 F.. da SILVA. Administração municipal. 503. 504. confundindo-se.N. ultrapassavam frequentemente as suas competências legais. asseguraram. Mas na centúria seguinte. 40. I.. 503.M. Porto.E. R. a maior parte dos municípios designava já uma pessoa para o desempenho específico do cargo. Vereações (1753-1770). No entanto.. 64 T. Calhete. / C. Maço 831. exercidas pelo procurador do concelho. R. p.F. 46. Albufeira e nas localidades alenteja59 60 O. 70. a gestão dos assuntos correntes. História social da administração do Porto (1700-1750). 1999. particularmente em situações de especial complexidade. p. vol. responsáveis. p. Ponta Delgada.. 146-148.. ou pelo menos responsáveis pela escrituração camarária.. 66 F. 225.

. era cobiçado nas de maior dimensão. FONSECA. A precária situação financeira da maioria das câmaras. e Escrivão da Camara e Thezoureiro .) o vereador mais velho. pouco apetecido nas pequenas localidades. 32 e 40. – A. O cargo de tesoureiro.”72. Doc. p.T. os provedores 68 T. exigia deste oficial abastança suficiente para compensar. burgueses enriquecidos pelo comércio. FONSECA. 72 T. sendo este último regime adoptado definitivamente a partir da centúria seguinte69. . verifica-se geralmente uma certa cumplicidade entre estes dois oficiais. agravada nas últimas décadas do Antigo Regime pela sobrecarga de tarefas e encargos fiscais impostos pelo poder central. no arrendamento de herdades e mais bens concelhios ou em outros negócios. tanto mais elevados quanto mais importante era o município. 231. Absolutismo e municipalismo. 233.. vinha anualmente incluído na pauta68.. que fica só entre (. Em Évora. Maço 831. mediante prévia apresentação da câmara.. FONSECA. rico. Além de conferir prestígio e possibilitar a almejada ascensão social da burguesia endinheirada. Absolutismo e municipalismo. na cobrança dos impostos régios. 236-238. o mesmo sistema vigorou até 1501. Odemira. FONSECA. O referido procurador Xavier Sintrão.. De facto eram.. Manuel. 70 T. extensiva aos próprios vereadores. e 394-399.. ou simplesmente as expressões “he abonado” ou “bastante abonado”. não obstante a responsabilidade que envolvia. denunciava o facto de as contas do município eborense constituírem “segredo. O perfil mais comum dos detentores deste cargo durante a Época Moderna havia já sido enunciado em 1501 por D.. o corregedor acrescentava-lhes ao nome o presumível valor do património ou do rendimento. passando a partir de então a ser de nomeação régia. à exploração fundiária e à produção artesanal ou manufactureira.. no fornecimento de carne e outros bens essenciais. nos grandes e médios concelhos.. Com efeito. proporcionava aos seus detentores a preferência na arrematação das rendas camarárias. 69 T.. os défices camarários.-A. 235.. e para o tal cargo e ofício mais apto”70. p.. Absolutismo e municipalismo. / D. no século XVII. o provimento efectuou-se tanto trienalmente como vitaliciamente. geralmente associado à usura.. p.. quando referia as características adequadas ao tesoureiro eborense: “um oficial dos que andam nos Mesteres.P. Estremoz e Montemor-o-Novo. Como a escrituração da contabilidade camarária constituía matéria da competência do escrivão. Quando arrolados nas pautas.82 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nas de Portalegre. Absolutismo e municipalismo. cujos lucros compensariam largamente o prejuízo inerente a uma função aparentemente ingrata71. p.. da sua fazenda.. Viana. 71 T.

O Porto e o seu termo. nos locais públicos habituais... p. de saber ler e escrever. às sessões camarárias. 271-272. a relutância dos dois funcionários em aceitar interferências nos seus tradicionais métodos de trabalho. FONSECA. / C. os diversos concursos e arrematações. as decisões camarárias cujo conteúdo se entendia necessário divulgar aos munícipes. Efectuava diversas compras por ordem dos camaristas. F. Colocava luminárias nas janelas e varandas dos edifícios municipais. Anunciava. 619-622. Receita e Despesa (1809-1817). II.E. dos paços do concelho para outros locais onde tivessem lugar cerimónias a que assistisse a vereação. R. a retenção. T.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 83 corresponsabilizavam frequentemente escrivães. associado à importância e visibilidade das suas funções. um obstáculo relativamente eficaz aos esforços dos magistrados régios. p. entre as mais vulgares: a utilização de métodos contabilísticos ultrapassados. total ou parcial. do exterior da sala.E. notificações e embargos. convocatórias. contando-se.. Procedia ao inventário do património municipal. do dinheiro dos impostos régios ou das verbas da comparticipação nos ordenados dos funcionários da administração central. conferia-lhe algum prestígio. Armava as igrejas para as cerimónias religiosas da iniciativa da câmara. salvaguardando naturalmente a diferença institucional dos cargos. Tal atributo. Afixava editais.. II. Efectuava. O porteiro da câmara exercia funções similares às consignadas nas Ordenações para o guarda-mor da Casa da Suplicação ou da Relação73. em nome da câmara. Preparava a aposentadoria dos ministros da comarca e da provedoria. vol. vol. R. o pagamento de propinas sem a correspondente provisão régia. constituiu. Absolutismo e municipalismo.. em muitos concelhos. Deste modo. a ocultação de ingressos paralelos. Apregoava. p. da SILVA. anunciando e encaminhando os munícipes que compareciam a prestar juramento perante a vereação ou para apresentar qualquer questão74. da SILVA. O Porto e o seu termo.. do mesmo modo. pelo menos..M. no sentido do cabal cumprimento das determinações do poder central em matéria de finanças locais. A. Assistia. De origem sócio-económica modesta. tesoureiros e eleitos locais pelas irregularidades cometidas na gestão financeira dos municípios. Superintendia na arrumação da sala das reuniões e no transporte de cadeiras. quando se deslocavam às localidades em serviço de correição.H. por ocasião de festas e comemorações. 619-620. este oficial subalterno tinha. . a imprecisão do registo das receitas e sobretudo das despesas... Como sucedia na generalidade dos ofícios públicos. o cargo era vulgarmente transmitido de 73 74 F.. conjugada e reforçada com o empenhamento dos dirigentes locais na defesa dos seus privilégios. Enviava recados a casa dos oficiais camarários.

E... E os congéneres das câmaras de Estremoz e Montemor-o-Novo eram auxiliados respectivamente pelo contínuo77 e pelo porteiro do geral78. no século XVI... L. p. devendo no entanto libertá-los imediatamente se tal lhe fosse ordenado79. Entre 1750 e 1820. 77. 271-272. frequentemente designado por alcaide pequeno81 ou simplesmente por alcaide. id. . ser confundidos com os funcionários judiciais. estes dois subalternos colaboraram com o porteiro principal em numerosas actividades: assinavam o termo de juramento das mulheres. 79 O. sujeitando-se a pesadas penas se deixasse fugir os presos. não podendo por isso considerar-se um funcionário municipal.. das peixeiras e das parteiras. Absolutismo e municipalismo. Não podia soltá-los sem um mandato judicial. Competia-lhe zelar pela ordem pública. T. Cf. 1. mais de vinte porteiros.. Vereações (1815-1820). Sendo de provimento camarário. porém. p. fica excluído deste trabalho. era atribuído a membros do grupo clientelar das famílias protegidas pelas oligarquias locais. Dada a abrangência do poder camarário. vol. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). como era o caso das medideiras do terreiro do pão. em simultâneo. e colaboravam em todo o tipo de serviços correntes de apoio à administração municipal. quase sempre analfabetas. cuja profissão as obrigava a prestar juramento. O segundo.. era ajudado por cinco “porteiros do geral”.. muitos municípios possuíam um ou vários oficiais menores cuja acção incluía as áreas da justiça e do policiamento. o porteiro da câmara possuía como coadjuvantes outros funcionários hierarquicamente inferiores. T. 82 O meirinho.. das padeiras. O Porto e o seu termo.. segundo as Ordenações. embora sujeito a confirmação régia. 78 T. p. Em muitas localidades..F. como se infere pelo mais baixo montante dos seus ordenados. Os mais frequentes eram o carcereiro e o alcaide da vara. O primeiro era. contava com sete75.E. o Porto.M. Relações de poder. / C. este cargo era também vitalício e hereditário80. FONSECA. 623.84 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pais para filhos. em meados do século XVII. ao longo de várias gerações. exercia funções de policiamento e fiscalização semelhantes às do meirinho82. 81 Sobretudo nas terras onde havia um alcaide-mor. o responsável pela cadeia. 82. Nas municipalidades de maior relevo. R. II. embora nesta cidade o carcereiro dependesse orgânicamente do corregedor da comarca. já nos finais da Idade Média. 80 Como por exemplo em Montemor-o-Novo e em Évora. não devendo. como funcionário judicial.. o da câmara de Évora. assinando o respectivo auto. na arrematação das rendas régias e camarárias. participavam. 75 76 F. da SILVA.H. FONSECA. reduzidos na centúria seguinte a um “contínuo” e a um “porteiro do juízo do geral”76. 77 A. Lisboa tinha.

L.M.N.H. . B / 001 / Vereações Lv.. vereação de 6-7-1757. Conduzia os cativos perante o juiz nos dias de julgamento e assegurava a manutenção da ordem no decorrer das audiências. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806).E. prioritariamente. / C. p. . T. 038 (1791-1803). minimizar os obstáculos que a natureza de tais ofícios constituía para o processo de modernização administrativa.. A semelhança de funções do alcaide e do carcereiro explica o facto de em Lavre e em Estremoz os dois ofícios se concentrarem na mesma pessoa86. E para Estremoz. 80. A patrimonialização dos ofícios da burocracia camarária conferia aos seus detentores um poder e autonomia difíceis de combater. T.C.H.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 85 tanto de dia como de noite. a quem deviam. 84 A. Relações de poder.1. (1779-81). frequentemente vítimas da contestação e até das ameaças dos comerciantes. (1782-87). R.H. favorecendo ainda o enraizamento de práticas anacrónicas incapazes de dar resposta às novas necessidades e exigências crescentes do reformismo estatal. do aboletamento dos exércitos e da manutenção do relógio.. / C.. na ausência do juiz. da SILVA. estes funcionários procuravam. f. Vereações (1753-1770). Receita e Despesa (1809-1817).. Podia prender infractores em flagrante delito e até. através da carta de lei de 23 de Novembro de 1770. 57 e 76. a partir do pombalismo. efectuar outro tipo de prisões. FONSECA.M. Id. não apenas o lugar. tocava o sino de recolher e cuidava das aposentadorias dos ministros da comarca e da provedoria. Nos municípios com um diminuto número de funcionários. F1B2. A coroa procurou. Este diploma decretava a abolição da hereditariedade dos cargos públicos.M... A. 036.. p. 669-672. 46. com ajudantes nomeados pela câmara. exercia ainda outras actividades: no Vimieiro. / C. No exercício da sua actividade.M. F. E montava guarda aos locais mais vulneráveis ao desencadear de conflitos. O Porto e o seu termo . mas ainda o acesso a outras ocupações públicas remuneradas ou a preferência em lucrativos negócios que envolviam a municipalidade. contando. / C.M. pra- 83 O.E. 75. a respectiva transmissão familiar e o prestígio social decorrente do seu exercício. vulgarmente conhecidos por quadrilheiros. Levava ainda presos para localidades vizinhas e quando necessário transportava o dinheiro dos impostos régios cobrados no respectivo concelho para a sede da comarca83..L.M. f. e Lv.H. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). Protegia as autoridades municipais.A. 85 A. para o efeito. 035.N.. como os açougues da carne e do peixe. F. especialmente os almotacés. funcionando como uma espécie de ajudante do porteiro84. servir a elite dirigente local. e em Cabrela acompanhava a vereação nas visitas de correição85. Lv.M. 86 Para Lavre veja-se A.V..

Os ministros territoriais tentaram. e ao mesmo tempo. no registo das coimas. no respeitante ao modo de exercício dos mesmos ofícios. as demoras na execução de determinações emanadas das instâncias superiores. responsabilizavam as autoridades camarárias pela sua condescendência para com os abusos e omissões destes funcionários. corregedores e provedores ameaçavam directamente os oficiais incumpridores ou no mínimo hostis às intromissões do reformismo estatal na sua actividade. convertendo os municípios em um dos mais influentes focos de resistência à implementação da política de absolutismo esclarecido. efectuadas com progressiva regularidade e a partir de 1790 num número sempre crescente de concelhos. nomeadamente na redacção das actas. Nas correições. Tal aliança determinou em boa parte o cariz predominantemente tradicionalista. Não obstante. os conluios com os grandes negociantes e outros poderosos. a velha prática subsistiria. e as exacções e arbitrariedades exercidas sobre os munícipes mais vulneráveis. entre os quais se destacavam: a falta de rigor e transparência na escrituração camarária. rotineiro. os atrasos na cobrança dos foros municipais e na transferência da terça régia e de outras verbas pertencentes à Fazenda Real. acompanhado da atestação. moroso e iníquo da gestão concelhia do Antigo Regime. na inventariação do património concelhio ou no lançamento contabilístico. Afonso V e considerada pelos legisladores esclarecidos uma introdução abusiva na lei e costumes nacionais e como tal atentatória da soberania régia. a acção do poder central e dos seus delegados na periferia arrostou sempre com a cumplicidade entre os agentes do poder camarário e esta sua fiel clientela. bastando para a sua concretização a formulação de um requerimento ao Desembargo do Paço. No entanto.86 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ticada desde o reinado de D. . da idoneidade e adequada preparação do candidato. por sua vez (embora com variável empenhamento) secundar os esforços do poder central. pelos órgãos competentes.

uma das principais lacunas da história do poder local em geral prende-se com a caracterização sociológica dos diferentes actores. de resto. uma investigação mais esforçada. Assim. impõe-se. sobretudo. patrocínio e conflitualidade Senhorios e municípios (século XVI-1640) MAFALDA SOARES DA CUNHA (Universidade de Évora – Dept. em meu entender. a fim de complementar as falhas das séries disponíveis. . pp. Pesem embora estes trabalhos. Mafalda Soares da Cunha.Relações de poder. de História /CIDEHUS) Temas e lacunas historiográficas Sendo o objectivo do encontro a reflexão alargada sobre os municípios na época moderna e o tema deste texto as relações entre os donatários e os poderes locais. de desigual interesse1. através dos apelidos e de breves apontamentos relativos ao estatuto social em que pontuam os títu1 Cf. 87-108. um breve ponto da situação historiográfica relativamente ao estado da situação dos estudos sobre os municípios senhoriais e sobre o grupo nobiliárquico primo-moderno. de há duas ou três décadas a esta parte. A sua identificação tem sido feita de forma sumária. contributos marcantes de historiadores como Joaquim Romero Magalhães. a tarefa impossível. 2005. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. podendo mesmo afirmar-se que para a primeira fase da época moderna acolheu. Requerem. “Poderes locais nas áreas senhoriais (séculos XVI-1640)”. Francisco Ribeiro da Silva. As razões são bastante óbvias e prendem-se com a maior escassez da documentação. ao século XVIII. Não tornam. 2005 (no prelo). É de todos conhecido que o tema do poder municipal não é novo. bem como a atenção de alguns estudantes de doutoramento e mestrado e de estudiosos locais. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. empenhada em cruzar informação de proveniência institucional variada. António de Oliveira e António Manuel Hespanha. no entanto. antes de mais. que se revestem. é importante sublinhar que os séculos XVI e XVII têm sido subalternizados em relação. Coimbra.

complementar esses indicadores superficiais com incursões micro-analíticas através da reconstituição das trajectórias vitais e das redes de parentela e dependência do conjunto do oficialato local. fundando essas afirmações na descricionariedade dos abusos dos donatários e dos seus aparelhos administrativos sobre as populações. Proveitoso seria. consolidação ou renovação. Diz-se habitualmente que os povos preferiam a tutela régia à tutela senhorial. por isso. Neste contexto concreto cumpre. destacar a quase ausência de trabalhos que evidenciem as especificidades das relações entre os poderes locais e os poderes senhoriais face às terras realengas. De fora ficam cronologias mais finas desses processos e até a confirmação dessas interpretações que são. o que permite uma análise apoiada da evolução dos patrimónios. 2000.88 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS los dos foros da Casa Real ou os graus académicos que auferiram. mais do que aproximações muito vagas relativamente aos níveis de reprodução endogâmica dos grupos familiares dominantes ou à tendência para a monopolização do poder por parte das elites locais. seja com os donatários das terras. Estas falhas decorrem. da falta de estudos sobre senhorios concretos e. na generalidade dos casos. Nela recolhem-se dados importantes relativamente à sua inserção familiar. laços de parentesco. Chega mesmo a referir-se a existência de uma reacção senhorial ou até refeudalização para o século XVII. CNCDP. neste âmbito seria ainda fundamental compreender de que modo as relações verticais. em boa medida. desenvolvimento e extinção de um fenómeno atlântico. Antecedentes. mobilidade geográfica e ainda das relações interpessoais desenvolvidas ao longo da vida. circunscrita aos membros das vereações. seja com a Coroa ou os seus agentes periféricos. O apoio empírico é. Não possibilitam. influíram nesses processos. opções de investimento familiar e económico. em muitos casos. Este tipo de abordagem permitiria também um esclarecimento mais cabal das fissuras e clivagens nos grupos de poder locais. E são também estas lacunas que condicionam 2 António Vasconcelos de Saldanha. de estranhar que os estudos sobre senhorios ultramarinos sejam também tão escassos. não obstante o estudo global elaborado há já alguns anos por António Vasconcelos Saldanha2. no entanto. excluindo a ampla panóplia do restante funcionalismo municipal. de monografias que abordem a questão das práticas políticas dos donatários. ainda mais. Lisboa. E. então. compadrio e até amizade. de resto. elaborada a partir da documentação dos registos paroquiais e notariais. Escuda-se a mais das vezes em um ou outro caso. repetidas sem suficientes evidências empíricas. bem como das estratégias desenvolvidas para a ascensão. por isso. As capitanias do Brasil. . faltando os enquadramentos gerais que permitiriam avaliar a representatividade dos fenómenos estudados. E. frágil. Não será.

Círculo de Leitores. A Família e o Poder. Todavia. Granada. atitudes e papel político do grupo nobiliárquico em Portugal reduzem-se a uns quantos chavões. Nuno G. Um débil aumento. pp. como referentes os já existentes estudos de síntese para a Alta Idade Média3.6% do total das câmaras do país estavam sob a jurisdição senhorial (leiga e eclesiástica). A amplitude das jurisdições senhoriais Comecemos por este último ponto. com particular destaque para o caso da Monarquia Hispânica5. especialmente pp. Bartolomé Yun Casalilla.. Infanções e Cavaleiros. assim. Idem. 2. Monteiro demonstrou que em 1527-1532. 6 Nuno G. Lisboa. Madrid. o valor crescerá para cerca de 70%. 4 Nuno Gonçalo Freitas Monteiro. ibidem.ª ed. in César de Oliveira (dir. A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750-1832). Editorial Estampa. Istmo.). Ricos-Homens. No que a este último tópico diz respeito. se incluirmos neste cômputo. 1992 (facsímile da ed. 49-55.RELAÇÕES DE PODER. Lisboa. «Os poderes locais no Antigo Regime». como pelas ideias sobre a centralidade da Monarquia na organização social dos diferentes poderes. 52.). 7 Idem. 2002. os senhorios das ordens militares que só incompletamente estavam sob dependência da Coroa. Ou ainda os resultados de abordagens de síntese sobre a evolução do peso das jurisdições senhoriais no conjunto do território português6. . e que esse número crescia ligeiramente para 57. 5 Antonio Dominguez Ortiz. Ediciones Akal. 17-175. Universidade de Granada. portanto. Na verdade. Monteiro (coord. História dos Municípios e do Poder Local. 1985 e Idem. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 89 decisamente a possibilidade de elaboração de trabalhos gerais sobre o próprio grupo nobiliárquico. La Sociedad Española en el Siglo XVII. Imprensa Nacional. Em trabalho já referido. 1981. La Gestión del Poder. 54. só estes valores (mais de metade dos concelhos) seriam suficientes para conferir primordial importância ao tema que aqui trago e até reflectir sobre a importância que as funções jurisdicionais exerciam no sistema de classificações dentro do grupo nobiliárquico.. 2 vols. 1996. 1998. Madrid. As reflexões de natureza geral que se têm proferido tomam. as afirmações que se fazem sobre a evolução. A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. não só muito fortemente marcados pelos impactos da gesta expansionista. No entanto. de 1963). Lisboa. A Nobreza Medieval Portuguesa. Lisboa. para a fase final do Antigo Regime4 e as considerações gerais sobre outras realidades europeias. Las Classes Privilegiadas en la España del Antiguo Régimen. p. Guimarães Editores. Corona y Economías Aristocráticas en Castilla (Siglos XVI-XVIII). sabe-se que conferiam preeminência 3 José Mattoso. O Crepúsculo dos Grandes.6% em 16407. 1973.

9 Alguns exemplos: a) 1520 in João Cordeiro Pereira. quer em termos económicos. Additionals. porém. Um senhorio disperso tinha custos económicos superiores e propiciava gestões absentistas o que normalmente favorecia níveis de controlo senhoriais menos eficientes. Imprensa Nacional.90 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS simbólica e direitos de representação política pela pertença. d) 1615 . Épocas Medieval e Moderna. entretanto. vol. Coimbra. ao braço da nobreza em cortes. b) 1577 . relativamente à composição desses rendimentos. H. História das Instituições. III. in Portugal do Renascimento à Crise Dinástica. História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII. De igual modo.026. Editorial Presença. 247v-249. Não se conhece. a distribuição das jurisdições pelos seus membros. Hespanha. Joel Serrão e A. Nova História de Portugal. todavia. o mesmo é dizer. começar a aprofundar-se um pouco mais o nível de análise. Mas significavam também um conjunto de funções políticas.BL. Se as doações genéricas criavam um ambiente comum. à percentagem que cabia à extracção fiscal decorrente dos direitos senhoriais sobre bens da Coroa. É que as jurisdições senhoriais não eram todas idênticas. por inerência.Luís Augusto Rebello da Silva. Existem listas coevas – muitas delas datadas do período da Monarquia Dual – que apontam valores globais dos rendimentos das casas9. 499. coord. João José Alves Dias. a partir do tipo de direitos e privilégios transferidos pela Coroa. Deve. nestas épocas. a contiguidade ou dispersão geográfica do senhorio pode ser significativa relativamente à eficácia da administração senhorial. 48. De Oliveira Marques. Ora estes vectores são relevantes do ponto de vista da avaliação da importância de cada um dos senhorios e são decisivos para compreender a importância que o controlo político sobre as terras e as gentes detinha para cada uma das casas. Lisboa. Já retomaremos a questão. 319. 497. quer demográficos. 1867 (reimp. Lisboa. 48. “A Estrutura Social e o seu Devir”. dizer-se que a posse de jurisdições era determinante na definição das hierarquias dentro do grupo nobiliárquico e que. c) 1587 . dir. pp. 1982. Já o veremos com maior pormenor. todavia. 1998. p. Additionals.026.BL. tenças e assentamentos doados pela Monarquia ou às diversas formas de exploração dos bens patrimoniais. vol. Livraria Almedina. O princípio a que 8 António M. o cume da pirâmide só incluía donatários. militares e capacidade fiscal sobre o território cujos contornos estão expressos nas Ordenações e foram já analisados por Hespanha8 e pelo próprio Nuno Monteiro. 503-504. fls. pelo que temos apenas uma ideia muito imprecisa sobre a configuração geográfica de cada um dos senhorios e a sua importância relativa. No que toca às jurisdições pode. as competências formais dos senhores sobre as terras e populações podiam ser extraordinariamente ampliadas pelas doações expressas. . fls. de 1967). V. 273-276. às mercês. Não nos elucidam.

todavia. O quadro anexo demonstra que a casa de Bragança usufruía de um conjunto muito amplo de privilégios. concedidos ás tais pessoas. que esgotem o universo dos principais beneficiados e este era um outro tópico que carecia melhor averiguação. assi nas doações e privilegios. Hespanha. História das instituições…. o que pode. pode afirmar-se de forma esquemática que tinha a ver com a combinação das qualidades de sangue e o capital de serviços prestados. fazer-se através da análise das cartas de doação contidas nas chancelarias régias. XLV das Ordenações Filipinas. Esta questão é importante porque explica a própria manutenção destes privilégios excepcionais. para se mostrar a maior affeição e amor. não imputável especificamente a um ou outro soberano ou a um ou outro duque. as de Bragança e de Aveiro e as freiras de Arouca10. Refere Hespanha que aqueles que tinham jurisdições exuberantes eram o arcebispo de Braga. costumaram os Reys pôr mais exuberantes clausulas. explicitando que as doações expressas perdiam validade quando não eram confirmadas e renovadas pelos sucessivos reis e que essas cláusulas perdiam validade quando a terra era doada de novo. e de maiores prerrogativas. em grande medida. Dizia-se “Como entre as pessoas de grande stado e dignidade e as outras. que lhes tinham”. pois. as casas da Rainha. sempre que possível. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 91 estas obedeciam está globalmente exposto no preâmbulo do tit. he razão que se faça differença.RELAÇÕES DE PODER. A preocupação régia era. limites ao seu usufruto. desde logo. O tipo de privilégios jurisdicionais a que me refiro pode ser melhor explicitado a partir do caso brigantino. com evidentes implicações nos níveis de autonomia dos concelhos. Chega depois a afirmar-se que nos casos das doações às rainhas. Ou seja. Pode mesmo dizer-se que correspondia praticamente ao caso de transferência total de jurisdição a que as Ordenações aludem. 10 António M. impondo. níveis bastante diferenciados de poder dos senhores sobre as terras. Relativamente a este ponto concreto haveria que apurar alguns dados que permitissem uma base de sustentação mais informada para algumas imagens historiográficas que se estabeleceram e para as quais seria importante estabelecer uma cronologia mais fina do peso do senhorialismo. Não creio. de aferir a validade dos direitos extraordinários em uso. o resultado de uma acumulação secular. 296-7 . aos infantes e a alguns senhores de terras a Coroa “não reservara para si parte alguma da dita jurisdição”. Eram. já que as Ordenações Filipinas acautelavam bastante este ponto. excepto “que fique reservada ao Rey a mais alta superioridade e Real Senhorio”. de resto. Ora esta disparidade de funções jurisdicionais criava. p.

Torres Novas e Vila Hermosa. aqueles.r. Linhares. Benavente. Alcochete. per que os hajam por privilegiados e escussos dos encarregos e servidões dos Concelhos (. de 03/01/1567).r. citado no quadro como a) António M. Hespanha.r... que passarem» a) «E não se chamarão Senhores das terras. marquês de Castelo Rodrigo e duques de Aveiro.. 285) Tabeliães – por norma são providos por carta régia e depois de examinados pelo Desembargo Paçoa)12 «(..r.. João. Livro II.. Azambuja. Arraiolos.) não levarão . 294 12 . XLV.. Borba e Alter do Chão (c. Castelo Melhor.)»a) Dízima novas do pescado não costumam ser doadas4 Não podiam ser doadas13 11 Ordenações Filipinas. Tit. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras» (alvará de 02/10/1617) «Que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio» (alvará de 02/10/1617) «Que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa» (alvará de 02/10/1617) Juizes de fora em: Bragança.. de confirmação de 28/09/1627) Poder para por meirinho: Portel (c. Calheta.r. que criarem.r.r.r.. de 09/04/1551).)»a) «(. salvo. Vila do Conde (c. Montalegre (c. nem os Juizes e Tabelliães se chamarão por elles» a) Prerrogativa régia (Hespanha. Meirinho (. Castanheira.. Portel (c. trazendoos a cavallo em sua casa» a) «(. Unhão. História das instituições…. e leuar os direitos della» (alvará de 02/10/1617) «Os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua» (alvará de 02/10/1617) Que seus ouuidores passem cartas de seguro (alvará de 02/10/1617) «Possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos.) que não ponham em suas terras...) de 15/05/1549). Monforte (c.. Monsaraz (c..) que não dêem Cartas nem Alvarás de privilegios à pessoas algumas.) [não] dará Cartas de Scudeiro a outras algumas pessoas. de 19/06/1608). Vale de Reis.r.) defendemos a todos os Senhores de terras que não ponham nellas Juizes de fora e deixem os concelhos usar de suas eleições (. Hespanha. de 24/06/1549).r. Alhos Vedros. Chancellaria alguma das cartas e sentenças. Samora Correia. Faro. 302 refere que este privilégio no séc. Vila Viçosa (c. Miranda..r. 06/03/1567). Lavradio e Barreiro (c. XVII era detido pelos condes de S. de 30/03/1566). de 01/10/1544) Ordenações Filipinas11 «(. e verdadeiramente tiverem por scudeiros. Povos. taballiães.. de 12/02/1530) Cobrar e despender as terças dos concelhos em todas as suas terras (c. Chaves e Barcelos (carta régia (c. 13 António M. História das instituições….92 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Alguns privilégios jurisdicionais extraordinários da Casa de Bragança Duques de Bragança «Possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. p. de 21/05/1579) Dízimas novas do pescado de: Vila Franca. nem em algua dellas. p..)»a) «(..

Esta tese foi acolhida por Fernando Bouza Álvarez. D. apoiada num caso. parecia que não havia dúvida que o duque D. mandava-se que se revissem os papeis16. tendendo a restringir os privilégios em uso pelos donatários. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). Desta feita. Em 1 de Setembro de 1590 dizia-se que se viram as doações e privilégios que tinha e usava o 3. Sabe-se que a Casa de Bragança manteve o essencial dos seus direitos. vol. 2. 1987. pp. D.º duque de Aveiro. p. 44-XIV-4. 16 Biblioteca da Ajuda (BA). revelador do signifi14 Jorge Borges de Macedo.º duque. 481-522. IV. Las Cortes de Tomar y la Genesis del Portugal Católico. O caso concreto refere-se à Casa de Aveiro que desde a década de 1580 viu uma série de alegados privilégios anteriores serem postos em dúvida pelos tribunais régios. «Nobreza na Época Moderna».º duque. Todavia não se estudaram as posteriores práticas dos Habsburgo relativamente a esta matéria. Lisboa. mas só após bem sucedidas demandas com a Coroa15. D. dir. 388. vol. 59v. publicados em Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa …. João. em 1580. havendo outros dados que sugerem que a Coroa levou a cabo uma política de fiscalização estreita. 2 de Outubro de 1617 (que abaixo se extracta) e que põem fim às demandas entre a Casa de Bragança e o Procurador da Coroa.RELAÇÕES DE PODER. e que por eles se demonstrava poder o duque usar dos privilégios e doações concedidas ao 2. . Álvaro. Joel Serrão. Iniciativas Editoriais. mas se iniciara muito antes. O pleito que ainda corria em 1621. 15 Podem citar-se a este propósito a carta régia de 18 de Novembro de 1615 e o alvará de Lisboa. fl. Álvaro podia gozar do privilégio que se questionava e que era o de deverem ir as apelações dos seus almoxarifados ao oficial da sua Casa que fosse juiz da sua fazenda e depois disso voltar à casa do Porto ou ir à Casa da Suplicação. pp. sempre que as provas apresentadas eram duvidosas e até a promulgar legislação geral mais restritiva. 183 e 258-259. que permitiriam avaliar a consistência de tais ideias e os ritmos evolutivos. Quanto à hipótese são conhecidas as assunções de que o período da Monarquia Dual teria compensado a nobreza portuguesa do afastamento da corte com o reforço do seu poder a nível local14. bem como a consulta de 1589 são outros exemplos do afã de controlo que a monarquia dos Habsburgo desenvolveu. in Dicionário de História de Portugal. Filipe II. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 93 Exponho uma hipótese. De qualquer modo e dada a importância do caso. I. Universidad Complutense. O que concorda com o já aludido aumento da área de jurisdicionalismo senhorial no Reino e também com outra imagem fixada pela historiografia que é a da proliferação de mercês régias como meio de persuasão do grupo nobiliárquico. Madrid. 1975. Jorge e este dos concedidos ao 1. Dessa forma.ª ed.

395-396. baseando-se na ausência de títulos e no facto de. depois dessa proibição. Mas essa alegação foi indeferida. 1982. 19 A afirmação era verdadeira como se comprova pelo conteúdo da carta régia de doação da jurisdição de Alenquer de Madrid. e por lhe fazer merçe ej por bem que elle possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. Université de Langues et Lettres de Grenoble. 113-115. Egerton. o duque de Aveiro mantinha há algum tempo um contencioso com a Coroa sobre a extensão dos direitos nas suas terras. O duque entendia que ele não se devia incluir nessa determinação “por razão da dita posse em que estaua”. e leuar os direitos della e que os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua e que seus ouuidores passem cartas de seguro nos casos em que os corregedores das comarcas as podem passar na forma da ordenação e que possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. adiantava o Aveiro. e que proueja nas mesmas suas terras os offi17 Um outro exemplo de fiscalização da extensão das jurisdições surpreende-se na consulta do Desembargo do Paço sobre a correição feita na vila de Alhandra para verificar o direito da jurisdição e dada de ofícios do arcebispo de Lisboa. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras. rei decidiu contra ele. taballiães. Não conseguindo este apresentar documentos comprovativos desses direitos.94 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cado político da dada de ofícios e que creio que tem uma incidência que transcende a casa ducal de Aveiro17. E entre essas provas estava o traslado da carta régia de 2 de Outubro de 1617 em que se concediam amplos poderes ao duque de Bragança que se extracta “avendo respeito a mo pedir por sua carta o duque de Bragança meu muito amado e prezado primo e a seus serviços e muitos merecimentos de sua casa. fls. Grenoble. e que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio. o rei tinha concedido ao duque de Bragança. como constava dos traslados e alvarás que anexava ao processo. Com efeito. ao marquês de Castelo Rodrigo e ao conde de Lumiares (filho deste) poder para prover serventes dos ofícios de justiça das suas terras. 44-XIV-4. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. L’action de Diego de Silva y Mendoza. Ora. 1136. dado as Ordenações haverem sido impressas 70 anos antes. 30 de Novembro de 1616 transcrita em Claude Gaillard. pp. não haver lugar a alegar “posse imemorial” como o arcebispo fizera. Na primeira situação18 estava em causa o facto de embora estando em posse do direito de prover as serventias de todos os ofícios de suas terras por si e pelos duques seus antecessores (ao abrigo das suas doações como constava da sentença). 18 British Library (BL). em finais da década de 1580. ao marquês de Alenquer19. BA. o monarca ter mandado proibir que os donatários as provessem. .

mas importante pelo teor contraditório das alegações dos juristas do Desembargo do Paço chamados a depor. excepto quando os ofícios vagassem por morte. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 95 çios de Procuradores do numero em pessoas aptas e sufficientes não excedendo nisto o numero que delles costuma aver Os quaes serão primeiro abellitados per mjm ou pello meu desembargo do paço. para análise pelo Procurador da Coroa que foi de parecer que não podia. 258-259. Antes de proceder à emissão da provisão. 2 de Outubro de 1617. o rei mandou que se vissem as cláusulas das doações do duque para certificar se ele detinha poderes para prover por renúncia. mandou-se. Egerton.RELAÇÕES DE PODER. como se fosse por morte. 1136. porque pelas doações parecia que não o podia fazer. e que neste costume e posse estavam os Duques seus antecessores”. por isso. 20 Alvará de Lisboa. “alegando muitas coisas e razões. privilégio idêntico ao dos citados senhores. calçadas. Visto na Mesa do Desembargo. estradas publicas e outras desta callidade // e que proueja as seruentias dos offiçios de justiça das suas terras assj e da maneira que seus antepassados o fizeram e que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa. mas tal não ocorria no caso em apreço. . por isso. ou que renunciando o proprietário nas mãos do rei. bem como o traslado da sentença da Relação de 15 de Fevereiro de 1603 em como se tinha achado por bem provida a serventia que o duque de Aveiro fizera de um ofício por estar em posse por si e por seus antepassados. Requeria. e que das duas partes dos Rendimentos dos conçelhos das suas terras possa mandar despender o que lhe parecer nas obras do bem publico dellas com declaração que as obras serão somente pontes. porém. O segundo caso dizia respeito ao provimento de ofícios por renúncia do anterior titular. fontes. Dizia respeito a um caso concreto e fora suscitado pelo pedido de confirmação régia do cargo de tabelião do público e judicial da cidade de Coimbra outorgado pelo duque de Aveiro. este lhe aceitasse tal renúncia e houvesse então o rei o tal ofício por vago. 8-8v. o duque poderia apresentar o dito ofício. após a renúncia que um outro oficial fizera nas mãos do duque. Nesta última hipótese. A outro desembargador. por onde diz que pode prover por renunciação. Como já se referiu José Justino de Andrade e Silva transcreve-o na íntegra em Collecção…. três desembargadores sustentaram que não. pp. BL. A descrição do episódio é longa. fls. O duque objectou. pareceu que o duque donatário podia apresentar os ofícios de tabeliães que estivessem vagos tanto por morte. e assj ey por bem que conforme a isto cesse a demanda que o Procurador de minha Coroa tem movido ao Duque o que tudo assj me praz sem embargo de quaesquer leis e ordenações que em contrario aya e mando as justiças offiçiaes e pessoas a que o isto pertençer cumprão…”20. Ora o caso oferecia dúvidas.

nem parecia que o contrário disto foi julgado na Relação porque se fez muita diligência sem se achar feito em que houvesse sentença em contra disto. E no que referia aos benefícios. 19. 23 António Vasconcelos de Saldanha. 1487. embora seja.96 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS como por renúncia. 44-XIV-4 (n. fls. precedendo para ela licença de Sua Magestade”. quem tinha poder para apresentar ou colar os vagos o fazia quer fossem vagos por morte ou por renúncia. As Ordenações fixaram este direito real e tinha valia mesmo nas donatarias ultramarinas. Pese embora esta longa alegação o caso foi indeferido pelo monarca que aceitou o parecer maioritário do Desembargo do Paço21. exigiria a análise dos privilégios e clausulado das novas doações e das confirmações régias feitas aos senhores de terras. trabalhosa. pois já o donatário não faz mais que apresentar no ofício que Sua Magestade há por bem que vague com efeito por renuncia do proprietário.º28). Por carta régia de Novembro de 1603. como aquela a que 21 22 BA. Outra questão onde a disciplina régia se fazia sentir com acuidade era a da criação de novos ofícios. ordenava-se que fossem extintos os ofícios que o duque de Aveiro criara de novo em suas terras e dera de serventia a várias pessoas22. E acrescentava: “e que os inconvenientes que se apontam que intervêm na apresentação do dito ofício vago por renúncia se são todos se mostrar licença de Sua Magestade para se fazer tal renúncia. Archivo General de Simancas (AGS). Parece assim que a análise na longa duração é indispensável. não é de crer que os desembargadores do paço antigos dessem aos reis passados seu parecer sem muita consideração. . pp. Secretarias Provinciales. 189-191. porque isso parecia conceder-se na doação antiga que se oferecia interpretada e declarada pelo costume que se usou sempre nas ditas apresentações como constava das certidões que se ofereceram e. As capitanias do Brasil…. porque em direito se igualava o poder de apresentar benefícios ao que se tinha no apresentar ofícios. Como disse antes. cód. nem parece em contra isto dizer-se as ditas certidões seriam acaso passadas. porque em negócios de tanta importância. onde o constante esforço de ocupação e desenvolvimento das terras o justificaria com maior pertinência23. fl. Tal avaliação poderia sugerir uma tentativa de limitar o tipo de territorialização do poder nobiliárquico. 41-42v apud Boletim da Filmoteca Ultramarina. claro está. antes se afirma por oficiais do juízo dos feitos da coroa que num feito que trouxe Francisco de Sampaio com o Procurador da Coroa se julgou que podia o donatário apresentar o ofício vago quer fosse por morte quer por renúncia. também.

Administração senhorial. A sua gestão era. num organigrama que não se distinguia particularmente do da Coroa. ocorria nos demais reinos peninsulares24. É verdade que a Casa ducal de Bragança detinha privilégios que lhe asseguravam a nomeação directa não apenas dos ofícios locais como também de ofícios de justiça e fazenda destinados a intermediar os assuntos das terras com o centro do senhorio. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 97 aludi relativamente à casa de Aveiro. Granada. Os diferentes tipos de mercês dispensados pela casa foram estratégicos nesse processo. de dotes. Ou seja. Utilizavam a mesma matriz formal. num modelo semelhante ao da administração régia. de resto. nos apoios financeiros ao estudo. de trocas e de negociação dos diferentes interesses em presença. mediada por agentes administrativos próprios. na concessão de tenças. também há que destacar que a estratégia de integração de membros de parentelas de elites locais na corte ducal em foros de moradores foi a este título absolutamente decisiva. mas com base territorial mais diminuta e menos poderes sobre as mesmas. É o que se verificava na confirmação das câmaras. mais senhores de terras. por isso. 1999. . quanto à aplicação da justiça e à capacidade tributária. a deslocações. mas dispersa área territorial. E é quase certo que exemplos similares se podem estender a outras casas senhoriais. de benefícios eclesiásticos. Muitos dos privilégios recebidos diziam justamente respeito à gestão dos espaços senhoriais. 24 David García Hernán. No caso dos duques de Bragança sabemo-los sediados em Vila Viçosa. De tudo um pouco. a compra de bens. na dada de ofícios locais. tanto no que respeita à nomeação de pessoas.RELAÇÕES DE PODER. refere-se à importância da governação presencial para promover o maior controlo político sobre as terras. Igualmente relevante neste ponto seria apurar a tendência para a maior ou menor dispersão na titularidade de senhorios. e ao qual já fizemos uma breve referência. no patrocínio às misericórdias. confrarias e conventos. Se esse fenómeno lhe assegurava os recursos humanos necessários para o exercício do poder. Exercitava-se a liberalidade para harmonizar relações interpessoais através de jogos de compensações. a partir de onde controlavam uma extensa. Que não governavam presencialmente. La Casa de Arcos. Esses elementos agilizaram a comunicação entre o paço e as terras e ajudaram a amortizar tensões com a sede do senhorio. de esmolas. tal como. com lógicas bastante similares. Universidad de Granada / Ayuntamiento de San Fernando / Ayuntamiento de Marchena. Paternalismo e conflitualidade O segundo ponto.

verificamos como no século XVI podia ser a própria Coroa a reforçar a influência política das casas nos respectivos senhorios.. pois a análise da chancelaria de D.98 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Será. Palmela. Com esta outra estratégia procurava-se garantir uma gestão dos recursos locais favorável ao donatário porque isenta das solidariedades de raiz local.»25. João II (futuro D. Cartas do Duque de Bragança a Gonçalo Soeiro de Azevedo (1632-1640). Manuel demonstra que os ofícios das terras do marquês de Vila Real que eram da dada régia foram providos em criados do 25 José Mendes da Cunha Saraiva. em que Cristina Pimenta revela como os ofícios locais das terras das ordens de Santiago e de Avis eram muito frequentemente atribuídos a criadagem da sua casa senhorial ou a cavaleiros das ordens. sep. comportamentos indisciplinados ou contrários aos interesses da casa.16. E que se assemelha à figura dos juízes de fora. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média. depois duques de Aveiro. GEsOS / Câmara Municipal de Palmela. mas talvez ainda mais interessante. e contraditória com o exemplo acima exposto. sem cuidar da sua naturalidade ou local de residência26. 26 Maria Cristina Gomes Pimenta. junto das populações. aquietar más vontades. o duque pedia a intervenção do seu procurador do concelho. correndo embora o risco de produzir relações mais tensas nas terras. 1942. Mas outra situação possível. por isso mesmo. um pouco na linha do trabalho sobre o governo de D. João IV) para sossegar os motins no Alentejo. dos marqueses de Vila Real ou mesmo do infante D. 2002. p. Numa abordagem um pouco distinta.. Luís. Em carta enviada para Sousel em Setembro de 1637. para mobilizar os seus parentes a fim de apaziguar os tumultos «cada dia me disem que ha nessa Vila motins ou esperanças de os aver e que o pouo trata de soltar presos e queimar cartorios liuros e papeis da Camara naõ sendo cousa de que elles possaõ alcanssar bem nenhum particular nem o pouo utilidade algua e por me paresser que so vos com vossos parentes podereis ser o meo para isso se aquietar vos quis escreuer esta. Lisboa. Publicações do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças. . por ocasião dos levantamentos anti-fiscais. Jorge. sem atender à naturalidade das pessoas em causa. Podem ser adiantados exemplos para o século XVI para as casas de D. diga-se. Neste último caso privilegiavam-se factores propiciadores do exercício da autoridade. Jorge. Gonçalo Soeiro de Azevedo. Um exemplo expressivo é o do meio utilizado pelo duque D. era a de a dada de ofícios ser utilizada pelos senhores para recompensar serviços prestados à casa senhorial. Jorge. natural esperar que os agentes senhoriais e o funcionalismo local de nomeação dos donatários tivessem maior capacidade negocial para. O governo de D.

Frei Bartolomeu dos Mártires:1580-1582. Egerton. fl. 1979 e Acordos e vereações da Câmara de Braga nos dois últimos anos do Senhorio de D. Talvez por isso. Mafalda Soares da Cunha. Braga. acatar ordens. o 1. fossem impedidas de servir juntas nos ofícios e cargos dos concelhos quando fossem eleitos. fosse para pedir instruções. 1136. neste caso associado às sociabilidades locais. 43. 31 Acordos e vreações da Câmara de Braga no Senhorio de D. 1566 (VIII)-1567. . 243-245. 30 Francisco Ferreira Neves. ms. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 99 marquesado numerosas vezes. Muitos outros existiriam seguramente e revelam de forma muito clara o elevado nível de controlo político dos senhores sobre os assuntos locais e também a importância da intermediação senhorial na obtenção de privilégios ou na solução de questões com a Coroa. Lisboa. Vejam-se 27 28 BL. a correspondência que as terras mantinham com os donatários é indiciadora de fluxos regulares de informação. um século mais tarde (1622). Em todo o caso. pp. As cartas do infante D. Câmara Municipal. Práticas senhoriais e redes clientelares. Câmara Municipal. a proximidade do arcebispo de Braga relativamente aos assuntos desse município31 são exemplos possíveis. quando constasse ao duque que as pessoas de Vila Viçosa conversavam e se comunicavam como amigos. Duarte para a câmara de Vila do Conde. por ocasião de uma das suas partidas para o governo de Ceuta. 1973. 31v. está de resto evidenciado na necessidade de obter em 1627 a confirmação régia do privilégio para que. mas sobre a qual não tinha jurisdição] son criados y paniguados suios. ms. 17. 2000. Um bom exemplo disso. A Casa de Bragança. Sua origem.º duque de Caminha não hesitava em afirmar que “todos los caballeros y personas principales de la ciudad de Leyria [era o seu local de residência. não obstante terem cartas de inimizade uns com os outros29. fl. dos duques de Aveiro para a de Aveiro30. evolução e extinção. Frei Bartolomeu dos Mártires. Mas a existência de canais de comunicação eficazes ocorria igualmente em outros senhorios. Seria então importante conhecer qual destes comportamentos era dominante nas relações entre as casas e os respectivos senhorios e avaliar depois se haveria modelos senhoriais mais e menos paternalista a fim de medir o impacto dessas diferentes atitudes na conflitualidade com as terras e os vassalos. 29 Arquivo da Casa de Bragança (ACB). Aveiro.RELAÇÕES DE PODER. Para a Casa de Bragança conhecem-se numerosas situações28 que denotam o elevado nível de conhecimento que os duques tinham das suas terras. 1972. 1560-1640. confirmar negócios. A Casa e Ducado de Aveiro. y todos quedan para seruiço de la duqueza”27. Estampa. Braga.

A Casa de Bragança… 36 Mafalda Soares da Cunha. Monteiro. «El Señor Avisado: Programas Paternalistas y Control Social en la Castilla del Siglo XVII». pp. 215-299 (primeiro editado em 1985 e 1986). 411-458. Idem. 155-204. teoricamente imparcial. Julgo. que os maiores focos de conflitualidade entre os donatários e as populações se reportavam às relações económicas. mas deve assinalar-se que tinham menos eficácia quando o mal-estar era provocado pelo rigor na cobrança dos direitos senhoriais. ou para fazer mercê a este ou aquele senhor. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II…. Ou ainda. afastado de vez que estava o uso medieval da coação física36. 30. . todavia. Veja-se um caso claramente difícil que opunha 32 33 Francisco Ferreira Neves. reiterando as constatações feitas por Nuno G. Lisboa. O que é interessante constatar é o quase sistemático recurso aos tribunais para resolução dos diferendos inconciliáveis por vias informais. «Pater Familias. Monteiro há alguns anos34 e no já citado trabalho meu sobre a casa de Bragança35. Ignacio Atienza Hernández. A Casa e Ducado de Aveiro…. A prová-lo estão as numerosas sentenças e despachos régios com fundamentação clara que deram razão aos senhores.º 9. “Poderes locais nas áreas senhoriais…” (no prelo). e usando as palavras do próprio duque de Aveiro na carta que em 1572 dirigiu ao juiz. Clientelismo y Patronazgo en el Antiguo Régimen» in Reyna Pastor (comp. importante sublinhar que o que se verificava em muitos destes casos era a reacção dos povos contra direitos efectivos dos donatários e não abusos na sua cobrança por parte destes. «Lavradores. Estas práticas paternalistas. pp. “quanto ao que me dizeis (…). Manuscrits.100 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS as numerosas cartas de privilégio a terras de senhores contidas nas chancelarias onde se faz expressa menção que a mercê foi concedida pela intercessão. destinado a avaliar a pertinência e validade jurídica dos argumentos em confronto.). 2003. Madrid. Imprensa de Ciências Sociais. frades e forais: Revolução Liberal e regime senhorial na comarca de Alcobaça (1820-1824)» in Elites e Poder Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Señor y Patrón: Oeconómica. sentenciando depois em conformidade. eu falarei logo niso a elRey meu senhor (…). F. p. mas porque todas estas cousas Requerem algum vagar quis fazer esta [carta] por que saibais que me he dado vosa carta E que trabalharei por fazer o que me pedis”32. 34 Nuno G. de Producción y Parentesco en la Edad Media y Moderna. pp. que muitos autores espanhóis também constataram existir nos reinos vizinhos33. 35 Mafalda Soares da Cunha. David García Hernán. vereadores e procurador do concelho da sua vila de Aveiro. n. 1990. Introduzia-se assim um mediador. amorteciam muitas vezes os descontentamentos. Relaciones de Poder. CSIC. Diga-se a este propósito.

porém. Os pareceres dos desembargadores do Paço dividiram-se: a) dois achavam que o rei devia confirmar “por ser em euidente proueito dos Bens da Coroa. quarto ou até oitavo da produção que eram cobrados nalgumas áreas). ou embargo a não pagar podera otrosj requerer sua justiça como lhe pareser e quanto a confirmação que a cidade Pede do concerto e contrato que fez com o governador do Duque de aveiro por o Duque aggora não consente antes antes o contradiz pareçe se lhe não deue confirmar espeçialmente pello dito contrato ser nullo sendo feito sem liceça e authoridade de Sua Magestade. Talvez também porque havia regiões onde os direitos que estavam estipulados eram de facto pesados. e Posto que fora valido. Não se tratavam. O demorado diferendo sobre a matéria fora resolvido entre as partes por um contrato perpétuo. . de abusos que se pudessem imputar aos donatários ou mesmo ao rei.RELAÇÕES DE PODER. Em 20 de Julho de 1591. Tal ocorreria. mais aos povos. trabalhos com quadros geográficos alargados à escala do reino e que permitam. Ora. ou mesmo muito pesados para os povos (penso no terço. sendo atée aggora a que pior se arrecadaua. 37 BA. a questão colocada nestes termos pode. a análise mais aprofundada destes tópicos. ou seja. e com mais clamor do Pouo. dando azo a oposições e conflitos. e que com isso auer effeito fica ao donatario aquella renda de melhor condição que todas as de seu estado. que admito carecerem de estudos globais. então. avaliações mais precisas do impacto dos diversos tipos de direitos senhoriais no desenvolvimento agrário e na paz social. O que nesse caso configurava um sistema opressivo. enquanto não há confirmação de sua Magestade se pode o Duque apartar delle”37. portanto. fls. e se lhe dá muito mais do que nunca rendeo e parese que o Duque deue ser pago conforme ao dito contrato”. talvez reorientar. sobretudo em épocas de maiores dificuldades económicas. O que talvez este tipo de comportamento indicie é atitudes de maior rigor na gestão dos direitos senhoriais que pesavam. b) outros dois alegavam desfavoravelmente. 44-XIV-4. colocava-se a questão de o confirmar ou não. 187v-188. em grande quietação da dita cidade e Pouo della”. tanto mais que ambas as partes o requeriam “e se auerem com isso de escusar as grandes oppresões e molestias que o Pouo de aquella cidade padecia nas execuções que se fazião pellos rendeiros das ditas jugadas com grande desordem e violensia. mas que não estava confirmado pelo rei. pois “não he justo impedir sse ao Duque a arrecadação dos dereitos de jugadas que lhe são deuidos e que assim os deue Pedir e arrecadar ordinariamente e se a Cidade tiuer algua duuida. até porque o duque mudara de ideias. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 101 o duque de Aveiro à cidade de Coimbra sobre a arrecadação das jugadas.

BL. 1980. Arquivo do Centro Cultural Português. O argumento colheu. procurando residir o maior tempo possível em Pinhel. Penso. 103. por exemplo. Livraria Sá da Costa Editora. Paris. 40 Cf. Sebastião em que se dizia que os corregedores da comarca lá deviam residir seis meses e outros seis meses em Trancoso. Lisboa. A capacidade financeira para assegurar a sua continuidade era desigual. pois enquanto muitos conflitos inter-senhoriais decorrem de partilhas. As possibilidades de influência também jogavam a favor dos senhores. 1988. senhor de Basto. sep. «A violência do poder dos cavaleiros de S. quer pelas 38 Alguns exemplos avulsos num tema que mereceria atenção e uma tipologia de análise. Subsídios para o estudo da sua vida e da sua obra. Egerton. entre os senhores e os procuradores da Coroa. por os julgadores que faziam a residência ao corregedor e provedor de Tomar obrigarem os moradores de Abrantes a deslocar-se a Tomar para testemunharem. sobretudo aqueles que disponham já de uma estrutura judicial própria. não obstante a existência de algumas excepções significativas40. 26v-27. pelo que desembargadores opinaram que um terço do tempo das residências fosse passado em Abrantes. embora de natureza distinta. no entanto. 50-90 que correu pelo menos entre a década de 1590 e a de 1620. vol. fls. quer pela capacidade de dissuasão de testemunhas menos favoráveis. tenho topado mais com registos de conflitos inter-senhoriais38. outros prendem-se com rivalidades locais. beneficiando claramente os donatários. . desta vez da câmara de Abrantes. em particular. 39 Dois exemplos a partir de consultas do Desembargo do Paço (BA. António Pereira Marramaque. Já o disse em anterior trabalho e creio dever reiterá-lo. Pleito entre o duque de Pastrana e o marquês de Alenquer sobre Chamusca e Ulme. Os elementos explicativos dessa escassez reivindicativa podem assentar na eficácia desta gestão paternalista. pp. João no período filipino» in Estudos e Ensaios em homenagem a Vitorino Magalhães Godinho. fls.. XV. podem colaborar na ocultação dos conflitos. inter-municípios e inter-instituições locais ou até entre municípios e a administração periférica da Coroa39 do que com queixas de municípios e de vassalos das casas senhoriais contra os seus donatários. 1136. O rei deu então despacho favorável (1590/11/27). outros com disputas de preeminências: António Dias Miguel. embora se não devam descartar dois outros factores que. verdade que não se encontram registos de queixas contra senhorios muito numerosos. Na realidade. António de Oliveira. 44-XIV-4): 1) Após queixa da câmara de Pinhel justificada por uma provisão de dada por D. ficando eles muito mais tempo em Trancoso. mas que o corregedor devia atender ao caso. o rei decide que a provisão era antiga e já desadequada. fl. 263-276. o que não ocorria.102 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É. 2) Queixa. nos solicitadores e advogados das casas senhoriais sediados junto dos tribunais centrais. sobretudo se os processos se prolongavam com embargos e recursos sucessivos. Um primeiro está associado ao preço da justiça. (1689/09/23). Sabe-se que a litigância tinha custos económicos elevados. pelo que sugere que os sindicantes sediassem quinze dias em Abrantes.

reguengueiros de Evoramonte. “advertir disto os desembargadores do Paço pera que não aião nunca as partes uista das informações que se fiserem sobre suas pertenções”41. O argumento expresso por um desconfiado litigante contra os duques de Bragança. o rei acrescentava um alerta relativo à irregularidade que se havia cometido no Desembargo do Paço ao dar vista dos papeis do Procurador da Coroa ao duque de Aveiro e mandava. O segundo argumento. o duque objectara das alegações apresentadas pelo Procurador da Coroa. peremptorias. por isso. Dizia que tinha fundadas suspeições. 19. iniciado em 1596 com sentença favorável à Casa em 1605 no processo contra um tal Bento Fernandes Bota e sua mulher. acusando-o de. 42Processo . dilatorias. Esta situação torna difícil a avaliação dos níveis e tipo de litigância exis- 41 BA. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 103 pressões junto do corpo de juristas dos tribunais. invocando ainda o amor de vassalos que tinham para com Sua Magestade43. havia cinco anos e sete meses que o povo perseverantemente requeria justiça. y embargos” para atrasar a justiça. Na carta régia de 8 de Outubro de 1589 que deu despacho ao caso. advertência. 44-XIV-4. O que gerava casos de suspeições e os necessários pedidos de substituição dos juizes ou desembargadores.RELAÇÕES DE PODER. Quanto ao outro queixava-se o povo de Alenquer do Marquês. fl. ACB. 43 BL. no que já gastara muitos mil ducados. O negócio já fora interrompido três vezes e queria o marquês interromper mais uma. declinatorias. 1135. Arraiolos e Evoramonte onde deveria decorrer o inquérito e onde «elle daua os officiais e os aprezentaua e lhe fazia delles merce e erão todos seus vaçalos e escriuaes e Almoxarifes juizes e mais pessoas da dita vila e todos lhe obedecião e fazião tudo o que elle lhes mandaua e era seruido»42. ms. Egerton. Pediam. é também particularmente impressivo. Há casos conhecidos que o revelam com amarga clareza. visto o autor da queixa (duque de Bragança) ser senhor das vilas de Vila Viçosa. contribuindo nisso os pobres trabalhadores que deixavam de comer. 37v. com as demoras e custos inerentes. Citamos três. 19. ou melhor. outro à casa de Bragança e outro à de Alenquer: No já citado processo analisado no Desembargo do Paço por causa dos direitos do duque de Aveiro a prover um ofício por renúncia. algures entre 1596 e 1605. Ora. Um associado à casa de Aveiro. 338. fl. está associado à escassez da documentação de natureza judicial disponível para estas épocas. utilizar todos os estratagemas jurídicos possíveis e imaginários “excepciones. através do seu advogado. por isso. fls. particular atenção por esse dinheiro ser ganho com o suor do rosto e sangue de mãos.

Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino (1580-1640). até porque os temas do Império têm sido demasiadas vezes tratados de forma desligada dos do reino de Portugal continental. confirmam as ideias de um poder nobiliárquico muito territorializado que. no entanto. seja contra os oficiais da Coroa. explica-se demorada e detalhadamente os fundamentos jurídicos. nos senhorios ultramarinos. pp. pelo menos até meados do século XVII. Territorialização do poder senhorial e sociologia das elites políticas locais O terceiro e último ponto prende-se com o perfil social dos titulares dos ofícios locais. Clientelas pode dizer-se. Esta territorialização do poder senhorial verificada no continente e até nos arquipélagos da Madeira e Açores não ocorreu. complementados com o enquadramento privilegiado que a Coroa lhes proporcionara. Lisboa. como se disse. sobreviveram alguns códices do Desembargo do Paço (sobretudo relativos ao Período da Monarquia Dual e aos quais. tomando-as como um fenómeno atlântico.104 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tente. seja contra senhores. Monteiro e Teresa Fonseca referiram nos textos que integram este livro e que. a meu ver. mas uma conflitualidade muito mais plural e multifacetada44. O que aqui importa trazer é que. Sem pretensão de acrescentar quaisquer novos dados a este tema. . Difel. de resto. e que o Arquivo Geral de Simancas contém abundante e riquíssima informação relativa às decisões da Monarquia e dos seus conselhos. já fiz algumas referências). se articula também com o tema da territorialização do poder senhorial. apesar de tudo. raramente os seus senhores aí residiram. práticas políticas e a evolução histórica das capitanias. Camaristas e não só. 1991. ou melhor nas capitanias-donatarias. Viu-se que os níveis de conhecimento das terras (recursos económicos e pessoas) que os donatários mais antigos e com maior amplitude de privilégios jurisdicionais detinham. No já referido estudo de Saldanha. O que significa que a análise de processos é possível. parece-me. porém. É uma chamada de atenção que reforça o que atrás se disse e um pouco no sentido do que Nuno G. e o que deles sobressai não é a litigância entre senhores e terras ou vassalos. pese embora a extensa transferência de jurisdições por parte da Coroa. 43-44 lista-nos uma série de confrontos e reivindicações lideradas por populares de muito variado cariz e com variados oponentes. caracterizan- 44 António de Oliveira. pertinente chamar a atenção para esta questão. em que avultam as queixas fiscais. mas deve dizer-se que. se apoiava em redes sociais locais e que lhes permitia transformá-las facilmente em redes de criaturas suas.

RELAÇÕES

DE PODER, PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE

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do-se a administração senhorial por um quase total absentismo. O exercício dos poderes judicial e fiscal, bem como a gestão corrente dos territórios, eram subdelegados em agentes senhoriais, nomeados pelos capitães-donatários – os capitães loco-tenentes. Os poderes de nomeação do oficialato local e de confirmação das câmaras constituíram-se, por isso, em instrumentos que reforçavam os poderes destes loco-tenentes, embora estivessem sempre sujeitos a sindicância por parte das justiças do Reino. Na verdade, para além das razões económicas, a posse dos títulos dos senhorios pouco mais interesse despertava junto dos capitães-donatários. As suas relações com os vassalos eram quase sempre mediadas pelos capitães loco-tenentes, sem que estes últimos dispusessem, todavia, da autoridade social que caracterizava os donatários. Eram na maior parte dos casos gente com origens sociais modestas, que se havia distinguido na guerra com os índios ou com os invasores franceses e holandeses e tinham acumulado património fundiário. Transformados em senhores de engenho, formavam as elites locais e foi à sua sombra que se constituíram importantes redes clientelares (de parentela, compadrio, vizinhança, etc.), que às vezes transcendiam até os limites das próprias capitanias. Há relatos de comportamentos bastante arbitrários de bandos de parentelas suas, ofensivos do direito e das instituições reinícolas, e que deram muitas vezes azo a reivindicações, confrontos e revoltas, sendo conhecidos numerosíssimos episódios de protestos armados das populações contra os loco-tenentes que conduziram até a bem sucedidas deposições do posto. Percebe-se então que estes senhorios ultramarinos só importavam aos donatários em função dos rendimentos que deles se podiam retirar. E, na realidade, a própria estrutura de delegação de poderes e de exploração do território tornou muitas dessas donatarias em negócios verdadeiramente ruinosos. É que os rendimentos mais significativos não provinham da cobrança de direitos jurisdicionais, mas sim da exploração fundiária, mineração e comércio de escravos e o absentismo senhorial dificultava a exploração eficaz dessas oportunidades. Daí o abandono a que os seus titulares votavam essas capitanias e até o interesse em se desfazerem delas. Existiam excepções, todavia, que respeitavam, sobretudo, a capitanias nos arquipélagos do Atlântico Norte e algumas do Brasil. Nesses poucos casos (em que se complementavam normalmente as jurisdições com as actividades mais rentáveis atrás referidas) os altos proventos serviram de meio para promoção e ascensão no Reino, apesar de, em boa verdade, tal só se verificar com as fortunas brasileiras (e não foram mais que dois ou três casos) na segunda metade do século XVII. Tal quadro não era exactamente análogo, porém, ao da posse das capitanias hereditárias nas praças do Norte de África. Embora com rigor estas não configurem senhorios jurisdicionais, o certo é que a natureza dos poderes regimentais dos capitães-mores, associada às doações desses cargos

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em propriedade ou em vidas, permitia práticas políticas muito semelhantes. E estas, do ponto de vista formal, podiam até ser abusivas, mas não deixam de traduzir a extensão dos poderes efectivamente exercidos e a importância que os capitães hereditários lhes conferiam. Demonstro-o com uma situação muito expressiva. D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, nomeado para ocupar o cargo de capitão-mor de Ceuta em 1624, explicava ao rei por carta de 23 de Abril de 1625 que os fundamentos dos conflitos ocorridos durante a sua administração da praça eram o de ter tentado cercear as irregularidades cometidas pelo duque de Caminha ao que este reagira mal, levantando-lhe, logo no primeiro ano de funções, vários pleitos judiciais. Dizia “foi acudir eu pela jurisdição real de Vossa Magestade que ele tinha usurpado e fazer eu conhecer a Vossa Magestade por senhor dessa força fazendo guardar as provisões reais de Vossa Magestade e não as do duque”. Dava como exemplos o caso de um capitão de Infantaria que tinha provisão ducal e régia para servir, mas que usava sempre a do duque, pelo que D. Fernando fizera rasgar essa, pondo-o a servir pela provisão régia, e outros similares relativos aos tabeliães do público, judicial, órfãos e notas. Acrescentava que Diogo Nabo, adail, quisera servir pela provisão do rei e não do duque e “o duque lhe o encontrou de modo que correu a demanda na relação de Lisboa aonde se deve sentença por Vossa Magestade e com isto ser tão claro, o tem o duque hoje embaraçado de maneira que a pessoa que hoje serve esses ofícios é por data do duque e não tam somente os serve por provisão sua, mas tem alvará de lembrança para os poder vender. E destes alvarás tem o duque passado muitos não podendo porque isso só toca a Vossa Magestade em resolução”. Mais dizia “que o duque se havia de maneira que dos moradores desta praça foi tido até agora por rei e senhor dela, e porque eu lhe tenho feito entender que em Espanha não há mais rei que Vossa Magestade me tem o duque capitulado com opróbrios alheios de meu procedimento”. Concluía, por isso “pretendo com isto que Vossa Magestade me tire desta força antes dos três anos e lhe conceda a ele vir a ela, quiça não com tenções de servir a Vossa Magestade senão de tornar a pregar e fazer crer a estes cavaleiros e soldados esta falsa seita em que viviam”. Referia depois serem estas práticas habituais nos capitães hereditários de Ceuta e que os reis passados já tinham tido que se confrontar com elas: “lembrando mais a Vossa Magestade que por outras semelhantes a estas, sendo o marquês de Vila Real pai do dito duque que hoje chegado a esta força com sua mulher e família de mui poucos dias o mandou elrei D. Sebastião que Deus haja ir daqui para Portugal e o veio tirar Dom Lionis Pereira e não mais tornou a esta praça” 45.
45

BN, Ms. 206, fl. 264. Esta carta está transcrita em Isabel M. R. Mendes Drumond

RELAÇÕES

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É claro que, diversamente das capitanias-donatarias, nas praças do Norte de África a raiz dos seus poderes era militar e, talvez por isso mesmo, tais funções geravam muito prestígio social e político no Reino. A reputação que a posse desses cargos hereditários conferia equiparava-se quase à posse de senhorios jurisdicionais no continente. Permitia, para mais, acumulação de fortunas através dos direitos sobre as razias, resgates e até pirataria, bem como a estruturação de redes clientelares relevantes. De gente que aí servia momentaneamente hábitos ou comendas das ordens militares, mas também de grupos familiares enraizados localmente e que de há muito ocupavam os ofícios principais das praças. Com efeito, o esforço para tutelar e controlar a acção desses oficiais era evidente e está quase de certeza associado ao governo das praças durante os períodos de ausência do capitão hereditário no Reino e, portanto, da gestão de outros capitães-governadores como é o caso com o conde da Torre. Se estas situações são claras em Ceuta com os Meneses, julgo serem seguramente extensível a outros casos. Queria, por isso, chamar a atenção para a necessidade de investigar o tópico da territorialização do poder senhorial mais detalhadamente, não apenas para avaliar a importância (ou não) dos donatários, dos loco-tenentes e dos capitães e governadores na composição e mobilidade social dos grupos de poder locais, como para apurar o impacto ao nível do controlo político sobre as terras. Referi anteriormente que esta questão também pode estar dependente da própria configuração física dos senhorios, uma vez que a descontinuidade territorial podia fomentar uma administração menos presencial e, portanto, mais autónoma dos controlo directo dos senhores. O pedido que em finais da década de 1580 o conde de Sabugal formulou ao Desembargo do Paço espelhava-o e não constituía de forma alguma uma excepção. Solicitava o dito conde que fosse ouvidor de suas terras o corregedor que ficasse mais perto de seus lugares, uma vez que eles estavam muito distantes uns dos outros, em diferentes comarcas, e um só ouvidor não poderia administrar justiça em todas elas. E argumentava: “E se em cada lugar houver de fazer um ouvidor não pode achar tantos letrados em que seguramente desencarregue sua consciência”, chamando a atenção que tal pedido era em proveito evidente das partes46. Parece de facto óbvio
Braga e Paulo Drumond Braga, Ceuta Portuguesa (1415-1656), Ceuta, Instituto de Estudios Ceutíes, 1998, pp. 220-221. Diga-se, de resto, que o apêndice documental contém documentação muito interessante que lamentavelmente os autores pouco exploram no corpo da obra. 46 BA, 44-XIV-3 (n.º299), fl. 256.

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que a sindicância ao ser efectuada por um corregedor da Coroa poderia estar menos enfeudada aos interesses directos do donatário, reduzindo assim a pressão que estes podiam exercer sobre os denunciantes e as testemunhas. Igualmente relevante seria apurar o destino social dessas clientelas com a redução da territorialização do poder que vai progressivamente ocorrendo. Como se desfaziam as conexões, que efeitos sociais e políticos a nível local produziam ou se haveria algum mecanismo informal que mantivesse certo tipo de relacionamento entre essas periferias senhoriais e os donatários já transformados em cortesãos. Outra área a carecer de maior investimento de estudos são os casos em que os donatários detinham poderes jurisdicionais menos exuberantes. A hipótese que apoio é a da possibilidade de maior conflitualidade com maior autonomia. Resta confirmar.

Conclusão
Em síntese, julgo importante sublinhar que sob a aparente capa de uniformidade institucional, os municípios ocultavam uma imensa diversidade de realidades políticas e sociais. Algumas delas têm de há uns anos a esta parte vindo a ser sublinhadas pelos estudiosos. É o caso da dimensão física, do peso demográfico, da importância económica. Não se tem, todavia, atendido suficientemente aos impactos que a diversidade de tutelas quase forçosamente gerava, sobretudo do ponto de vista da história social dos poderes. Ora este tipo de abordagens permite, como espero ter demonstrado, oferecer visões bem mais complexas, dinâmicas e matizadas das realidades sociais e das práticas políticas municipais.

As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo
FERNANDA OLIVAL
(Universidade de Évora – Dept. de História /CIDEHUS)

1.
Quando, em 1551, os Mestrados das Ordens de Avis, Cristo e Santiago foram perpetuamente unidos à Coroa, a nível local ainda era relativamente fácil identificar as jurisdições destas Ordens. Se o quadro destas não está traçado, deve-se apenas à falta de investimento em estudos com esse objectivo. Restam, todavia, nos arquivos portugueses materiais que o permitem fazer de forma aproximada, nomeadamente para as Ordens de Avis e Santiago. A doação medieval das terras é um ponto de partida importante, bem como as mercês de jurisdições feitas posteriormente. O numeramento de 1527-32, as visitações, as chancelarias das Ordens, os tombos de comendas e as Memórias Paroquiais de 1758 oferecem também contributos essenciais para os séculos XVI, XVII e XVIII, que devem ser explorados de forma crítica e comparada. Desde logo um dado fundamental a ter presente é que uma comenda nem sempre implicava a jurisdição da terra. Só em poucos casos seria assim. Há até descrições de várias épocas que apontam para tantas comendas e determinadas vilas sob a tutela de uma Ordem. Assim, acontecia, por exemplo, nas Notícias de Portugal de Manuel Severim de Faria. A Ordem de Avis é referida nos seguintes moldes: “(...) ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche, até Alandroal, e Juromenha; em gratificação do qual [serviço] lhe deram os Reis 18 vilas, que são Cabeção, Mora, Juromenha, Alandroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Avis, Galveias, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a vila de Coruche, o Concelho de Serpa1, Alcanede, e 48 Comendas, que rendem passante
1 Não

parece correcta esta referência a Serpa. Cf. sobre a jurisdição da Vila, J. M. Graça
Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa, Edições Colibri – CIDEHUS-UE, 2005, pp. 109-126.

Lisboa.000 réis. de bens urbanos e de uma parcelas de certos dízimos. I. e o Batel de Santa Ana. Disc. 3. a Ordem de Cristo teria recebido 21 vilas e lugares e 454 comendas. Havia comendas compostas por apenas dízimos. com introd. Colibri / Escola Sec. Colibri . como era o caso da comenda espatária de Mouguelas. por conseguinte. fac-similada. Claro que algumas destas povoações constituíam uma ou mais comendas das mencionadas. § 17. que além de bens rústicos.cf. actualização e notas de Francisco A. outras apenas por bens rústicos de diferente natureza ou por rústicos e urbanos. pp. 29-62. Neste caso. Relativamente a Santiago. Affreixo. ANTT. religião. A Ordem de Santiago em 1611 teria cerca de 85 comendas. Na Ordem de Santiago havia até comendas que equivaliam ao rendimento de fornos (quase todos de pão e um de olarias)5. 250-263. 6 Cf. Câmara Municipal. pp. Serpa. 49-IV-31. mas nenhuma detinha a tutela do concelho. in Ordens Militares: guerra. 1884). 1655). havia comendas de mais do que uma Ordem Militar. de todas. Francis A. § 17. Não faltavam também exemplos de comendas que aglutinavam recursos diversificados. India e Ilhas Adjacentes e outras particularidades. elevado a cidade em 1513. Dutra.110 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de 23 contos”2. Memória historico-económica do Concelho de Serpa. em Setúbal.. Lourenço Vaz. A Ordem de Malta teria em Portugal 21 vilas “e lugares” e 24 comendas4. 1859. “Os fornos da Ordem de Santiago e seus comendadores. 179-183. todavia. pp. fl. Tombos de comendas. de Isabel Cristina Fernandes. Outros casos igualmente atípicos eram as comendas que se traduziam apenas por uma tença em dinheiro. As situações eram. Mç. 3 (decreto régio de 20 de Setembro de 1762). nomeadamente das três comendas estabelecidas na Casa da Índia. cit. incluindo Malta. ANTT.ª ed. em Alcácer do Sal) e outras equivalentes à renda dos tabeliães. Conselho da Fazenda Vedoria e Repartição do Reino e Assentamento . . 2. 1993 (1.ª ed. indicavam-se 47 vilas e lugares e 150 comendas3. 2 Ed. como era o caso de várias na Ordem de Cristo. que era da Ordem. Faltava. Imprensa Nacional. não incluindo nestas as da Mesa Mestral . Lisboa.º de ordem 344-345. Disc. 3 Seria este um número muito irreal. 1999. Lisboa. Uma comenda era antes de mais um rendimento com tal título que permitia ao encartado na mesma designar-se comendador. coord. tinha um padrão de juro de 22.. 4 Manuel Severm de Faria. Nalgumas localidades. 2003 (1.Câmara Municipal de Palmela.Decretos. n.ª ed. 5 Cf. outras ao rendimento de transporte naval (Barca de Tróia. a Vila de Benavente. Severim de Faria. 1550-1777”. BA. assente no almoxarifado da Távola Real da Vila de Setúbal6. poder e cultura: actas do III Encontro sobre Ordens Militares. 407-456 e Luiz de Figueiredo Falcão. Livro em que se contém toda a Fazenda e Real Patrimonio dos Reinos de Portugal.2. Op. como Elvas. Vol.

na Ordem tomarense tal situação abarcava apenas algumas comendas que vinham da época dos Templários. em 1538. quer num caso. segundo se escrevia em 15657. havia também comendas fortemente descontínuas. o segundo em 1517-1519. Assim se mantinha na segunda metade do século XVIII. além do juro. quando foram criadas as “comendas novas” e quando foram instituídas as ditas “comendas da Casa de Bragança”. No entanto. 3. 2. Com base no numeramento demográfico mandado fazer por D. Em relação à Vila de Cabeço de Vide. em Óbidos e um ramo “aprestemado na comenda dalhos Vedros que vale quorenta mill reis”. Do ponto de vista territorial. Não só porque em geral os bens estavam dispersos por diferentes freguesias de um mesmo concelho. Afonso (na qualidade de Bispo de Évora) e o Cabido eborense. Assim. o comendador de cada uma e por vezes o Cardeal D. além de terras da Ordem de Cristo e de Malta no Alentejo. Retome-se de novo a comenda de Santa Maria de Mouguelas: reunia bens no termo de Setúbal (Mouguelas). pertencia sempre à Ordem. . Quer nestas.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 111 muito variadas. Manuel. L. é possível ter uma ideia tendencialmente clara das jurisdições das Ordens de Avis e Santiago a Sul do Tejo (com excepção do Algarve). É possível observar que os rendimentos das Vilas dos dois Mestrados nas mãos de D. o número de comendas aumentou muito no reinado de D. descreveram-se 14 vilas da Ordem de Avis e 30 de Santiago. quer no outro. quando pertencia à Ordem. Ordem de Santiago – Convento de Palmela. João III. as distâncias eram consideráveis. Quanto ao senhorio jurisdicional. Em 1532. pois não se situavam num só município ou zona. O primeiro processo iniciou-se em 1514. por vezes. as chamadas comendas “velhas”. as comendas não abrangiam as jurisdições das terras implicadas. No caso da Ordem de Cristo. quanto. Estas duas últimas figuras marcavam maior presença nas comendas de Avis. escrevia-se: “a Jurdição do cyvell e cryme da dita vylla he da ordem e a eleyção dos Juyzes e ofycyaes se faz pelo ouvydor do mestrado e os Juyzes ordenayros são comfyrmados pelo mestre noSo senhor a quall eleyção se faz de tres em 7 ANTT. a Ordem. indicando de quem era a jurisdição e as rendas. A milícia espatária dispõe de um excelente conjunto de visitações para a primeira metade do século XVI.º 203. quer nas de Avis da mesma época referia-se quase sempre a jurisdição do lugar. Jorge de Lencastre eram em geral partilhados entre a Coroa. fl.

Comissão organizadora das Comemorações do 480. O prior-mor podia também apresentar os restantes oficiais da Câmara que eram providos por carta da Ordem. na visitação de 1523. a partir de 154713. 1994. 38v-39v. 2002. ou com o prior-mor do convento palmelense em relação à Câmara de Cabrela. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D. entre outros exemplos citáveis. n.. ANTT. p. Seguia-se a enumeração dos oficiais postos pela Ordem e a indicação das rendas da mesma (geralmente dízimos) e o elencar das propriedades. dos quais quem detinha a comenda ratificava 3. 13 Cf. Só por concessão do Mestre. seria o comendador a fazer a escolha seguinte11. um lugar que numa consulta da Mesa da Consciência desse ano se considerava que “deve tocar a VMgde. contador. ANTT. Nem sempre. ibidem. Em 1565. “Memórias sobre a Ordem de Santiago no tombo velho da Vila de Sesimbra: a jurisdição de Coina (1330-1363).43.112 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tres años e asy he o custume em todo mestrado”8. pp. o Prior-mor ainda conseguia apresentar a própria alcaidaria-mor de Cabrela. Fernando Pires. L. n. 1991. fl. L.Papéis Diversos. juiz dos órfãos. 12 Cf. 11 No caso da comenda de Alhos Vedros. escrivão da almotaçaria. Bernardo Sá-Nogueira. distribuidor e inquiridor. fl. sabe-se que cabia ao comendador. Ana de Sousa Leal. escrivão dos órfãos. o Duque de Aveiro. um servia na Vila de Sesimbra e os outros dois em Azeitão (um deles em Coina. fl. doc. a confirmação dos juízes ordinários. . 45v-46v. Mç 24. Palmela. Palmela. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. Ordem de Avis.Ordens Militares . relativamente à comenda de Sesimbra. Esta modalidade do povo apresentar seis juízes seria corrente noutras comendas de Santiago da primeira metade de Quinhentos. 9 Cf. 65v. fixava-se a regra: “A jurdiçam do ciuel e crime da dita Villa e seus termos he da Ordem. ANTT. 10 Cf. fl. Destes. partidor e avaliador dos órfãos) à Ordem pertencia também ao poder do comendador10. in As Ordens Militares em Portugal: actas do 1. Em 1641. Câmara Municipal. como aconteceu com o Duque de Aveiro12. GESOS – Câmara Municipal de Palmela. 76v (visitação de 1516). Estes poderes são-lhe reconhecidos por uma provisão de 1627.º 14. Jorge. Maria Cristina Gomes Pimenta. Mesa da Consciência . A apresentação dos oficiais (escrivão da câmara. de acordo com uma composição feita com o Mosteiro de Santos)9. 176.º de ordem 163.33-36. como as das mais villas dos mestrados das ordens melitares”.º 18. 3 tabeliães do judicial e notas. e a eleiçam dos juízes e ofeciaes se faz pell nosso Ouujdor ou quem nos pera jso ordenámos. com base nestes poderes.º Aniversário do Foral de Alhos Vedros. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. 8 ANTT. Eram eleitos seis.º Encontro sobre Ordens Militares.º de ordem 205.157. Alhos Vedros. p. porém. Alhos Vedros nas visitações da Ordem de Santiago. E os juizes ordenairos sam comfirmados per nós ou pello Comendador que nosso poder tem e pera ello ho povo dar em cada huum anno seis juizes eleitos e nós escolhemos delles dous ou o dito Comendador que confirmámos ou o dito Comendador comfirma e tal he o custume da dita Villa e Mestrado”.

Tenha-se presente o seguinte: em 1600. Relativamente ao período posterior a 1551. Uma a uma inventariaram as comendas. A mesma atenção mereciam os diferentes tipos de benefícios eclesiásticos que tutelava. 15 Cristina Gomes Pimenta. através do Ouvidor. Seria através dele que se fazia a defesa da jurisdição da Ordem15.º 26). Quanto à jurisdição específica de cada uma das terras. E outros titulos do Reino. Era das Ordens ligadas à Coroa a que tinha menos comendas. mesmo no tempo de D. nada era dito . resultantes dos definitórios de 1619-1620. A possibilidade do comendador apresentar outros oficiais da comenda (tabeliães. 163.. p. equivaliam às mais rendíveis dos três Mestrados. a preocupação com os corregedores seria grande por parte da Coroa. E dadas em suas terras os Marquezes de Villareal. aliás. Era este poder que havia que acautelar em 1619-20. impressos em 1631. E da maneira que tem estas jurisdições. o normal parecia ser o Mestre dar a comenda a alguém. Assim se designava se a comenda estava sujeita ao Ouvidor do Mestrado ou aos corregedores da Coroa. as melhores fontes que restam nos arquivos são documentos que foram produzidos pela Ordem de Avis ou que a ela pertenceram. Em razão do seu título nobiliárquico solicitava a jurisdição da vila. no entanto.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 113 No caso da Ordem de Avis. etc. também acontecia em Santiago14. Os estatutos desta milícia. eventualmente a outra entidade. seria um tópico ao qual a Ordem dava muito relevo no início de Seiscentos. Op. nos inícios do século XVII. cit. mas o senhorio jurisdicional permanecer nas suas mãos. ou. A resolução a esta consulta. E isto de Juro conforme a Ley mental. E pedia nos seguintes termos: “a dada dos offiçios que nella ha de haver. Jorge († 1550). . Como. E CastelRodrigo. n.) também seria escassas vezes atribuída. o Conselho de Portugal discutia uma petição do Conde de Ficalho. L. Em sentido inverso. com a letra e rubrica de Pedro Álvares Pereira foi a seguinte e com a qual esteve de acordo o rei: “Pareçeo que se lhe de a jurisdição de ficalho de juro conforme a ley mental com a dada dos officios de escrivães da camara almotacaria E orfãos E tabaliães das notas E possa dar per suas cartas com todas as mais preminençias com que estão dadas jurisdicoes a outras pessoas tirando o privilegio de não entrar corregedor por correição na dita villa por estar junto da raya de castella E ter tam pouca povoação que se não for visitada se pode recear que se acolhão a ella mal feitores de ambos Rejnos” (AGS. E se houverem de Criar de novo na forma. foram cuidadosamente preparados. Secretarias Provinciales. assi Como tem a propriedade da dita villa antes de ella o ser”. Pelo frequência com a qual se insistia neste ponto. o mesmo será dizer na Ordem.o que não deixava de ser um silêncio inquietante. 14 Cf. escrivães da câmara e dos órfãos.º 1460. recém criada pelo monarca. indicando se a jurisdição estava incluída “no Mestrado” ou “fora dele” (ver mapa). Seria um dado adquirido? O que se destacava como significativo era a possibilidade de controlo mais global.

Cód. Seria colocado do mesmo modo. portanto. cap. Moura. – os corregedores não podiam actuar nas terras do Mestrado. Borba. tít. Nesta salientava-se que. Fernando ampliara o senhorio jurisdicional da Ordem de Cristo em todas as vilas e lugares que lhe pretenciam. um Ouvidor deste mestrado e assim foi ao longo do tempo.114 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Os mesmos estatutos esclareciam que. entrava o corregedor com poderes de ouvidor. Numa junta de reforma da Ordem de Cristo que encerrou em 1589. jurava na Chancelaria da Ordem. a Ordem tomarense passava a usufruir do seguinte: – os tabeliães poderiam ser dados e confirmados por cartas do Mestre e da Ordem.I. . Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. Lisboa. O ouvidor de Avis.cf. como era usual nos processos crimes. apenas enquanto servisse de corregedor de Santarém . D. antes de exercer. Sousel. Alpedriz e Rio Maior entrava em 1631 o corregedor de Santarém como Ouvidor da Ordem16. Só havia. mas também as havia no Arcebispado de Évora (Freiria de Évora. A partir daí. – nos feitos cíveis. 18 BN. mas deixava de se poder apelar desta instância para o rei. 17 Em cartas passadas pela Chancelaria da Ordem de Avis chegava-se mesmo a dizer que determinado magistrado serviria de ouvidor nesta zona. sem que pudessem tais poderes ser revogados posteriormente. ANTT. fl. 16 Cf. fl. salvo se houvesse prévia denúncia ou querela contra o Mestre e o seu ouvidor. Bento de Avis. Serpa. Yorge Royz. A anexação das Ordens à Coroa facilitou a aproximação de jurisdições e de pessoas em actividades que deviam ser diferenciadas. L. Estremoz. Nesta altura. 1631. de uma situada na arquidiocese de Braga e da comenda algarvia de Albufeira. Quanto ao mais. que residia habitualmente em Avis. Beja e Mourão) e no bispado de Elvas (Olivença e Santa Maria da Alcáçova de Elvas). Nas outras terras. fez-se um balanço “da jurisdição secular que a Ordem tem em determinados locais”18. XII. Vila Viçosa. em 1373. dos juízes ordinários apelava-se para o Mestre e para o seu ouvidor. 206v (ano de 1753). Pernes. Chancelaria da Ordem de Avis. cerca de 51% das comendas não estavam sob a tutela do Ouvidor do Mestrado. como era o caso de todas as comendas do bispado de Coimbra e da Guarda. mas que a pouco e pouco deixaram de o ser.º 37. no caso de Alcanede. 13216. 114-118v. A maioria destas equivaliam às mais distantes da sede da Ordem. exercia o cargo durante três anos e em nada se diferenciava de outros magistrados da carreira de Letras da Coroa. uma situação que se manteve ao longo do tempo17.

º 302.. 1628). cuja intenção não he que se tomem á Ordem suas terras legitimamente adquiridas por serviços”. fl..ª ed. na sequência de um pedido feito pela Vila de Tomar. os magistrados já só obtinham uma única carta de corregedores. 108v. outra como ouvidor. Nota-se. em 1589. com maiores ou menores dificuldades. & com cargo da cõciencia de sua Magestade. 364 (1682). que o Ouvidor teria um papel meramente secundário. Pte. pp. Na Chancelaria da Ordem não foi emitido qualquer 19 Alberto de Sousa Amorim Rosa. pp. Ioam da Costa. criando-se uma nova. Tal queixume passou para os Definitório impressos. 358 (1679). a ouvidoria de Tomar foi dividida em duas. Mesa da Consciência. Dizia-se que o corregedor de Tomar e o de Castelo Branco serviam também. tinham sido mantidas até 1532. Anais do Município de Tomar. sobre estes procedimentos. Nessa altura. porém.) irão a quem directamente pertencerem”19. Vol. passada pelo monarca na qualidade de Governador da Ordem e feita por um escrivão da Mesa da Consciência20. 3. Nada se sabe sobre as eleições concelhias nas terras da Ordem de Cristo depois de 1551. L. todavia. e as outras que não couberem (. Em períodos posteriores. D. Alberto de Sousa Amorim Rosa. nas Cortes de Almeirim de 1544. O cargo de Ouvidor do Mestrado era. porém. Cf. 1671(1. emitida em nome de Sua Majestade como rei. 1971. casos de duas cartas para a mesma pessoa21. exercido apenas enquanto o magistrado servisse de Corregedor da Comarca de Tomar.VII. Por isso. onde se afirmava textualmente que a Ordem fora “esbulhada de suas jurisdições cõtra direito. Vol. com cabeça em Castelo Branco. na sequência do Capítulo Geral de 1619.. que estas jurisdições. Salientava-se que eram doações remuneratórias e como tal não podiam ser retiradas ao património da Ordem – Definicoens e Estatutos dos cavalleiros. protestava-se contra a perda destes poderes e contra a confusa e indistinta jurisdição da Coroa e das Ordens. Como se afirmava na citada junta. Câmara Municipal de Tomar. limitaram-se os poderes do respectivo ouvidor do Mestrado. João III. circunscrevia as apelações que o Ouvidor podia receber às “que couberem em sua Alçada sòmente. 20 .III. IV. como governador da Ordem de Cristo. cit. X. Lisboa. conhecem-se. 291 (1658). Mais tarde. Deviam tirar duas cartas separadas no Desembargo do Paço: uma de corregedor. de ouvidores do Mestrado. tít. pela escassa documentação camarária de Tomar disponível. Tomar. ANTT. em comparação com o Corregedor. 21 Cf. 256-257 (com um erro de data). em 1589. e freires da Ordem de Nosso Senhor Iesu Christo com a Historia da Origem e principio della. e simultaneamente.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 115 Apontava-se. Op.

quando foi redigida a primeira versão dos definitórios impressos como estatutos da Ordem 22 ANTT. como ninguem cuidava de os inteirar. terras. através do Desembargo do Paço.116 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS diploma a confirmar oficiais camarários eleitos ou não eleitos. mas ainda alguns officios. muitos estam confundidos. Apontava que a jurisdição de Mértola era da ordem de Santiago. D. Afonso de Lencastre. Sobre este processo são muito esclarecedoras as palavras do Prior da Igreja Matriz de Mértola quando respondia. Por um lado. Por aquele diploma era-lhe feita mercê vitalícia da confirmação dos ofícios das vilas da Ega e Dornes. puchando sempre os Ministros de El Rey para excluirem de tudo a Ordem (. na Ordem de Santiago. à segunda pergunta do interrogatório. como he o Juiz dos Orphaons.1995]. o Juiz dos Direitos Riaes. e outros mais sam providos pella secretaria do Mestrado da dita Ordem. E nestes termos he esta villa da Ordem de S. pp. Aliás. nos seguintes moldes “e assim se conservou em sua posse a dita Ordem com todos os seos actos e provimento de justiça athé que encorporadas as ordens na Coroa lentamente se foram descahindo os exercicios da dita posse. receava-se o efeito dos processos poderem eventualmente cair no alçada do foro privativo dos membros das Ordens Militares. que o antecederam na dignidade. com a consequente perda de competências dos tribunais régios. Seria um dos problemas nos concelhos dependentes destes institutos.º 22. as serras. Sobre esta atribuição impõem-se dois comentários. em bom rigor não se sabe verdadeiramente quais eram os ofícios referidos. porém. L.Tiago. em 1758.. passado em nome do comendador-mor da Ordem.lit. fl. não é de afastar a hipótese de muitas jurisdições terem sido assimiladas pela Coroa. ao delegar poderes no comendador. então enviado aos párocos.). A julgar pelas aparências. a ingerência do Desembargo do Paço seria clara já no século XVII. mas em parte está da Coroa”23.59-60. Mértola. [D.L. 23 As Chancelaria da Ordem de Cristo. Tal documento. encerrava com uma valiosa ressalva: “cõ declaracao que não UZará Nunca de Conservatorias Nem Cemsuras E Sendo lhe necessario algum Requerimento o fara nos tribunais Seculares”22. 257v. os rios: as memórias paroquiais de Mértola do ano de 1758. de Joaquim Ferreira Boiça e M. Campo Arqueológico. O reparo feito é muito claro a este propósito. É provável que não incluísse os elementos da câmara propriamente dita. talvez por volta de 1620. A única excepção até agora identificada reporta-se a um alvará.. Por outro lado.ª de Fátima Rombouts de Barros. ed. por deixados. com a separação do que hera Coroa. de 1623. Em forma que. como a tiveram o seu progenitor e o seu avó. .

que nenhuma peSsoa nem ordem pode Competir. 26 ANTT. e em sua falta ao contador do Mestrado. L. 25 O facto de se tratar da comenda-mor terá de longa data correspondido a uma situação especial. tal facto não era era con- 24 Regra. Contadores. L. como Governador perpétuo da Ordem. & datas. 319v. consultas. 300. De acordo com a mesma opinião. & aggravos das terras do Mestrado. Desembargo do Paço. Juizes de fòra. Enqueredores. & assim os pilouros das eleyções dos Officiaes das Cameras se apuravaõ. vão à Mesa das Ordens.º 69. Sem expresa doação de Vmag. que estão fòra do Mestrado. & provião os Ouvidores. estatutos. e de Dornes tocão ao Comendador môr. No definitório em causa. definição e reformação da Ordem e Cavalaria de Santiago de Espada. que ao menos pusesse em substituição destes um juiz de fora letrado com o mesmo estatuto. & apure as outras como faz. 1694. Def. datada de 1744.de Cujas doacoens Se expedem pello Desembargo do Paço”26. pelo que diffinimos. “vagas” por morte do Infante D. & o Ouvidor confirme. & que nas terras da Ordem. Pedro usasse de tais poderes nestas comendas. Tabeliões dos Officiaes. fl. 86” – ANTT. Mesa da Consciência. 9 de Novembro 1624 e fl. chegou-se a propor que se a Ordem não nomeasse os juízes ordinários das terras do Mestrado. Nestes fez-se registar o seguinte: “Os Mestres tiverão sempre o poder. & dentro das comarcas dos Corregedores. & confirmavaõ por elles. Miguel Manescal. & disto se naõ guardar se tem seguido perda à Ordem. conforme a provisão que para isso hà. tivesse permitido que o seu irmão D. Num livro de notas de Lázaro Leitão Aranha registou-se: “O provimento dos Officiães da Vila da Ega. Lisboa. & se goarda por costume immemorial. & conheça das novas acções. em 1742. embora D. No que respeita às eleições camarárias das terras do Mestrado da Ordem de Cristo. Francisco. & confusão na jurisdicção. vale a pena ponderar uma consulta do Desembargo do Paço sobre o assunto. fl. & todos os mais Officiaes de Justiça tocantes à sua jurisdicção.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 117 de Santiago. Pretendia o contador do mestrado25 confirmar as eleições das já apontadas comendas da Ega e de Dornes. não possão elles entrar sem provisão do Mestre. No parecer deste indicava-se que “o Comfiar as doaçõens das Camaras hé Regalia da Coroa. Para solucionar o caso foi consultado o desembargador que servia de Procurador da Coroa. & ordenamos que se peça a vossa Majestade mande que assi os provimentos. & jurisdicção nas terras do Mestrado. dos dittos officios como as eleyções dos Officiaes das Cameras. porque os faça seus Ouvidores. Afonso VI. por do contrario se seguir alienação da jurisdicção da Ordem”24. LXXVI. que costumaõ vir ao Desembargo do Paço. .º 302.

244v. 305-305v. A partir de 1681 há pedidos regulares dos eleitos anualmente para este município30. Desde logo. 148v. noutros locais. fl. 29 Cf. Até 1620 é fácil atestar a confirmação para a Câmara de Alpedriz. Aberto o pelouro.º 11. do monarca. fl. como se chegou a classificar no discurso da época. 108v. ambas situadas nas Beiras28. fl.º 302. Francisco. Nesta mesma consulta. 236v. na Estremadura29. E este era considerado o ponto crucial. Ibidem. Ibidem. Havia. o ouvidor de Avis não acumulava funções. o diploma com a anuência do 27 Cf. como os de Seixo do Ervedal e da comenda do Casal.º 1. ANTT. 30 Cf. Do mesmo poder dispôs o comendador seguinte: o Infante D. inclusive. A situação na Ordem de Avis parece ser um pouco diferente. a Ordem confirmava as câmaras de diversas terras. 32 Cf. os que saíam para os lugares de juiz. o Desembargo do Paço apropriou-se da regalia. Logo após a anexação. Nestas casos. Será que. 20. na Ordem de Santiago27. as referidas são as únicas que aparecem a fazer confirmações das câmaras na Chancelaria da Ordem de Avis. confirmação de 1552. mesmo para o cargo de vereador32.º 17. 19v. Segundo historiava o procurador da Coroa. L. passim. mas não a confirmação dos eleitos: era competência. Ibidem. 28 Cf. eleitos em Alcanede e Alpedriz que pediam nas décadas de 50 e 60 do século XVIII para serem dispensados de servir.º 39. mas. . A Câmara de Alcanede e lugar de Pernes tinham idêntico comportamento. poder. pela proeminência do Infante D. 255. quando morreu. em 1552-1553. fl. Nos séculos XVII e XVIII. Ibidem. Pedro não fora feita oposição a este poder. 32-32v. 472.118 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS siderado grande argumento. seria o facto de disporem de um “verdadeiro ouvidor” que dispensava tal atitude? É uma pergunta para a qual não temos resposta. em ANTT. Nos anos de 1760 ainda se fazia o mesmo e é de crer que se continuou a fazer31. L. L. vereadores e procurador tratavam de ratificar na Mesa da Consciência tal facto. Mesa da Consciência. mas apenas por isso. como se comprova pelo registo das cartas na respectiva Chancelaria. 23v. L. O mesmo parecia acontecer com os Setúbal e Messejana. fl. Chancelaria da Ordem de Avis. marcavam presença neste registo. Mesmo municípios afastados do centro nevrálgico da Ordem. Estes seriam os “verdadeiros ouvidores do Mestrado”. 31 Cf.300v. L. fl. que se admitia pudesse ser delegado. distinguia-se claramente entre o poder de fazer as eleições.

Ibidem. Alegava-se. L. ANTT. Até que ponto a proximidade da fronteira e o facto de ter sido comenda do Duque de Aveiro também não terão contribuído para essa manutenção? Não se sabe.º 17. A última das quais teria ocorrido em 20 de Março de 1680. com os privilégios daí decorrentes. 157.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 119 monarca. indicava que se devia mandar fazer nova eleição. 35 Excepto em 1681. 33 Ibidem. a confirmação dos eleitos para as câmaras pelo Governador perpétuo da Ordem seria um assunto por diversas vezes discutido e julgado favoravelmente no Juízo da Conservatória das Ordens Militares. 34 Cf. é bem possível que muitas das comendas que implicavam a tutela das vilas tivessem pautas confirmadas pelo Desembargo do Paço. não é possível esclarecer o problema.º 373. L. Tombos de Comendas. Mesa da Consciência. fl. na figura de Mestre. O reforço da ligação ao Mestrado seria um hipotético ponto de fuga. eram problemas com os corregedores e outras autoridades de Leiria. Pelo que mando aos officiaes da Camera do dito Lugar. assim. L. O que parecia estar em jogo em Alpedriz. Também em Noudar.º 8. 305. fl. Pondo de lado estes casos. no século XVII. escrevia-se: “Achou o dito Juis do tombo que a Jurdicam da Justiça do crime E civel E governo da terra he do comemdador que he agora o comde de linhares E a teve tambem o duque daveiro Seu amtecesor porque esta comemda E terras dellas foram da igreiJa E da ordem de cystel E amtiguamente Sohya Ser E amtes delRey dom denis quãdo Eram de castella E vieram a Este Reino de portugal por virtude de hua demarquaçam”36. fl. . 427. também. uma observação que todas as cartas de confirmação de Alpedriz e Alcanede referiam a partir dos anos 80 do século XVII35. 255. 202v. e a quem mais tocar lhe cumprão e guardem esta Provisam Sendo paSsada pela Chancelaria da mesma Ordem”33. fl. fl. e Sem iSso não terá effeito. privilégios que isentavam a Vila da jurisdição régia34. Alegava-se assim com a origem das terras para justificar a situação jurisdicional. No século XVII. com os seguintes reparos: “cuja nova eleição virá a confirmar ao meu Tribunal da Mesa da Consciencia e Ordens. feito em 1607.º 12. Como se perdeu a documentação do citado Juízo. 36 ANTT. até quando se prolongou no tempo esta particularidade. no tombo da comenda. L.

pois a palavra “Mestrado” raramente era 37 ANTT.5. 112. Estas negociações ainda duraram mais três anos. E provisão dos offiçios do Mestrado de Christo porque alem de ser isto cousa muy grande E que não he justo tirarsse da Coroa estando Ja nella. 4v. 84. Passado um mês nova carta régia insistia na negativa. “a dada E provimento dos offiçios dos lugares do mestrado de Christo que foi de seu pay aVoos E visavoo que os governadores que forão destes Reinos lhe derão Em Setuvel ~a Certidão do Comde de Matosinhos que deu como diZ que consta de hu Em Elvas a V. E tendo dissistido della cõ a dita satisfação que ora logra o Comde. numa carta régia de Junho de 1588 dizia-se que era “cousa muy grande (. pois se conçedeo a seu pay cõ declaração que a averia Em sua vida somente”39. porém. Primeiro. teria solicitado à Coroa. Nessa altura estaria ele em necessidades. .º Conde de Linhares († 1608). Parte 1.) que por ser de Jurdição foi sempre de tanta consideração neste Reino que sou informado que a Rainha que Deus tem largou á das suas terras a ElRej pera cõ isso se moverem pessoas particulares a fazer o mesmo”38. fl. 4. Mç. pois gastara muito na Jornada de Alcácer-Quibir.ª. entre outras mercês. E pay a dita dada senão como Chançareis da dita ordem.. nos seguintes termos: “E também pareçe que não ha que diffirir a dada. 38 Ibidem. sabe-se um pouco mais. Sobre o que se terá passado na Ordem sedeada em Tomar. Corpo Cronológico. e as justificações dadas são esclarecedoras.. Vedor da Fazenda e partidário de Filipe II. sem que o Conde alcançasse o seu intento inicial. E de que sabe dom christovão [de Moura]”37.. não pareçe que o Comde tem a isso aução porque sendo esta dada do Comde seu pay como ChançareL do dito mestrado dessistio delle cõ declaração que lhe ficasse em hua vida a dada dos ditos officios E se lhe derão em satisfação disso cõ çem mil réis de tença en sua vida. a dúvida se estes documentos se reportavam aos postos das comendas da Mesa Mestral e não aos das restantes comendas. E por sua morte os ouve o dito Comde. fl. Resta. Mde. A Coroa ao longo dos anos apontados reagiu-se sempre mal a este tipo de aspiração. E se lhe passou padrão delles pello que não tendo os Comdes seu avoo. não pareçe que ha aução para a pretender. E por sua morte para seu filho mais velho os quaes elle açeitou. doc. é importante atender à pretensões do 3.120 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 4. Não sabemos se o exemplo teria sido efectivamente imitado. No que respeita aos restantes ofícios das terras da ordem de Cristo e Avis. entre 1588 e 1591. fl. 39 Ibidem.

ter-se-ia concedido a apresentação ou a data dos ofícios a uma ou outra personagem. como actualmente se tende a fazer. tinha perdido terreno. apesar de ser terra de uma Ordem Militar. ANTT. mas os procedimentos só revelam o quanto as aparênciam por vezes iludem. Assim se fez. onde pagava os direitos. todavia. escrever e capacidades. Cabia a este examinar o provido apenas na suficiência de ler. poder. Deste modo. As cartas de provimento emitiam-se. em 1664. como se comprova pela situação invocada Em qualquer das três Ordens Militares. O diploma passava depois pela Chancelaria da Ordem. . fl. Não se sabe desde quando. fl. as atribuições mais exorbitantes que se conhecem são as da comenda das Galveias (Ordem de Avis). L. A Mesa da Consciência. 41 Cf. as cartas de ofícios continuavam a ser emitidas pela Chancelaria da Ordem. Recebera também uma mercê idêntica para as “suas terras” que constituíam bens da Coroa. com o facto de Dinis de Melo e Castro (162440 Cf. Nestes casos. Justificou-se a atribuição do senhorio das Galveias. ultrapassou-se largamente a questão da apresentação dos oficiais. pelo escrivão da Câmara e Secretaria de Avis na Mesa da Consciência e assinava-as o Chanceler da Ordem.111-112. E provavelmente na manutenção de alguns formalismos teriam contado muito os ajustes quanto aos emolumentos e imposições afins.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 121 usada como sinónimo de “Ordem Militar”. que também consultava sobre a atribuição do ofício. Em termos globais. Ibidem. Averiguar a qualidade do sangue era uma das responsabilidades do Desembargo do Paço. Embora o provimento dos oficiais das terras das Ordens pertencesse à Mesa da Consciência. apenas significado económico. e com ela as Ordens Militares. todavia. quem decidira o provimento fora o Desembargo do Paço. No caso da Ordem de Avis. 320. Assim ocorria na data invocada. Sua Majestade mandara que o passasse a fazer o Desembargo do Paço. em nome do rei como administrador do Mestrado. cerca de 1731. por exemplo. não prejudicando esta instituição40. O cargo invocado tinha. num caso ou noutro. esclareceu-se a tramitação processual. Mesa da Consciência. Em 1690. e a de Fronteira na década seguinte. porque fora provido um cristão-novo no lugar de juiz dos órfãos da Vila de Albufeira e o monarca terá pedido contas do sucedido. apesar da carta figurar na Chancelaria e ser redigida pelo escrivão da Ordem. que podia nomear almoxarife nas suas comendas enquanto as administrasse41.º 302. com a Marquesa de Arronches.

ed. Chancelaria da Ordem de Avis. com as prerrogativas que habitualmente podiam dispor os donatários da Coroa. Já antes disso. Typ. n.º 16. pp. a doação foi sucessivamente reno42 Sobre este General. ainda o facto do II Conde das Galveias nomear as justiças da Vila causava problemas ao Ouvidor que as pretendia explusar dos lugares45. se tentara dar a D.º 15. sôbre o seu reinado.diario de factos mais interessantes que succederam no Reino de 1662 a 1680. 48 Segundo as Monstruosidades do tempo e da fortuna . esclarecia-se perfeitamente que se incluía a data de todos os ofícios.. pagara Dez Cruzados Cada anno por Reconhecimento.Alexandre da Paixão (Lisboa. fl. que ficara sendo Em utilidade da Ordem. para que não fosse prejudicada47. s. A Mesa conseguiu demover Filipe III de Portugal deste intento46. do Conselho de Estado e Guerra dos Serenissimos Reys D.n. O facto na época suscitou eco e mal estar. Ver também ANTT. fl. Rezervando o Dominio direito â mesma ordem.374v-375. Livraria Civilização.º 302.º 245. para que tenha sômente o Dominio Util. Mesa da Consciência. 1940. 122.179-180. Lisboa. que equivalia a uma quinta sua. L. 62. Porto. cujas cartas seriam passadas pela Mesa da Consciência. fl. 43 ANTT. em Alcácer do Sal. ser capaz de a defender e fortificar no contexto da guerra que se vivia. 1721). Em 1736. pp. para melhor Conservação da dita Sua Villa”43. Manuscritos da Livraria.122 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -1709)42. Tombos de Comendas. Pedro II e D. Eduardo Brazão (apresentação e ed. 1995 (1. Cabia também ao agraciado apresentar os ofícios. António Mascarenhas o título de Conde de Palma. fac-similada da de 1744. nem a ameaça do uso da força fora suficiente para demover a população. 1888. primeyro Conde das Galveas. Mas sômente huma merce Em Vida. 345.º 168. 45 ANTT. a qual se Entende. 47 Cf.ª ed. Com declaração Expressa que por isto senão Entenda fazerselho prazo Em que tenha Lugar Renovação. Chancelaria da Ordem de Avis. . em 1670. 46 Cf. L. que em 1691 se tornaria no I Conde das Galveias. da viuva Sousa Neves .segundo um manuscrito da Biblioteca da Ajuda.128-129). pelos anos de 1620. terra espatária. L. No caso da doação de Fronteira ao Marquês do mesmo título. ANTT. fl. Dinis de Melo e Castro ficava logo autorizado a impetrar diploma papal a corroborar a mercê. 44 Cf.Ed.. Afonso VI . fl. até hoje attribuido infundadamente ao benedictino Fr. esclarecia-se que a jurisdição delegada era a ordinária. D. Historia panegyrica da vida de Dinis de Mello de Castro. então General da Cavalaria do Exército do Alentejo. a Cuja meza mestral. Ficava com “sua Jurisdição. João V. Apesar dos protestos iniciais da população que não queria passar para a tutela de um particular48.142v. Na carta citada.). E datas de officios tudo Em sua vida. ver Julio de Mello de Castro. L. excepto os das sisas e os de provimento da Câmara. pois alienavam-se bens de teor eclesiástico44.

Fazer passar muitos poderes para as mãos dos comendadores era uma prática que suscitava receio ao centro político. 301. fl. ANTT. alguns municípios das Ordens Militares caracterizar-se-iam por apresentarem um duplo e hierárquico senhorio jurisdicional: o Mestre e abaixo dele. Em que medida constituiriam excepções? A Ordem de Santiago era aquela que dispunha de maior número de terras com jurisdição. Desde logo. quando os comendadores e os senhores eram absentistas nas suas terras. sobretudo nos século XVII e XVIII. porém. A Ordem de Avis. muito por esclarecer neste âmbito. o comendador.º 27. em 1727-1730. ainda confirmava alguns ofícios nomeados pelo donatário49. importa aprofundar o problema da actuação concreta dos ouvidores. No começo de Seiscentos. L. Seriam os municípios das Ordens diferentes? Note-se. todavia. antes da tutela perpétua da Coroa sobre os três Mestrados.º 28. fl. Valerá a pena saber se o sucedido em Mértola teve paralelo em todas as vilas espatárias. O rei era o Mestre. com poderes delegados. a anexação das Ordens à Monarquia facilitou que se confundissem as jurisdições locais das Ordens com as Coroa. “verdadeiros” ou não. pois o poder local – designadamente no caso das Ordens Militares – não se circunscre- 49 Cf. Em síntese. Os casos de Alpedriz e Alcanede merecem ser retomados. se bem que em muitos casos quem tomara a decisão fora o Desembargo do Paço e não nenhuma instâncias dos três Mestrados. pois nem todas seriam iguais. No entanto. L. que analisar as possíveis especificidades envolverá equacionar outras áreas. tendo em vista apurar o significado real do exercício de poderes deste teor a nível local. os ouvidores eram encarados na época como ministros essenciais na defesa da património de jurisdições locais das Ordens Militares. nomeadamente a religiosa e o direito de visitar igrejas e comendas.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 123 vada na mesma família. Resta. Não será também descabido comparar os poderes exercidos nestes municípios e nos senhoriais (no sentido dos administrados por donatários laicos ou religiosos). 92. ainda se temia a raiz eclesiástica destes institutos e o seu foro privativo. não houve verdadeira incorporação. Chancelaria da Ordem de Avis. Ou terá ocorrido apenas onde não havia “verdadeiro ouvidor”? Será fundamental analisar a documentação local das terras das Ordens e a efectiva composição das várias câmaras. a emissão dos diplomas procurava assinalar a marca das Ordens Militares. mas não obstante tal facto. Quanto mais não fosse. . Por parte dos seus membros.

Em anos de escassez frumentária. mesmo sem abarcar a jurisdição da vila. eram palco de conflitos porque a população e as câmaras impediam a saída dos cereais. obrigando os comendadores a vendê-los na zona. Na realidade podia não ser um elemento inócuo. apesar do absentismo típico dos comendadores a partir do século XVI. vide Joaquim Romero Magalhães. 50 Sobre estas questões. Lisboa. Algumas comendas espatárias do Algarve. pp.124 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS via apenas ao direito de confirmar as câmaras e os restantes oficiais concelhios. estavam autorizados a vender fora das terras de origem dois terços da receita50. . 1988. constituíam bons exemplos. formadas essencialmente por dízimos. 246-247. No século XVIII. Estampa. Enfim. apenas nos bons anos agrícolas. O Algarve Económico: 1600-1773. Por fim. convém pensar que a presença de uma comenda numa dada localidade. podia matizar a vivência local. problemas que só a documentação local pode ajudar a aclarar.

em meados do século XVI Vila Alandroal Albufeira Alcanede Alpedriz Alter Pedroso Avis Benavente Cabeço de Vide Cano Casal Coruche Figueira Fronteira Galveias Juromenha Mora Noudar Seda Seixo do Ervedal Vieiros Observações Mesa Mestral em 1532 Mesa Mestral Mesa Mestral Mesa Mestral em 1532 Elevada a Vila em 1538 .AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 125 Anexos Vilas onde a Ordem de Avis teria seguramente a jurisdição.

.126 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Comendas da Ordem de Avis C. Bento de Avis. tít.I. 1631. cap. XII. Yorge Royz. 1619-1631 FONTE: Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. Lisboa.

127-138. Uma particularidade a que não será alheio o facto de.). de que resultou o livro Igreja. as atitudes e os discursos relativos à pobreza e à miséria terem transformado estas questões num fenómeno político. Laurinda Abreu (ed. Esclareça-se. desde cedo. Relações políticas e institucionais* LAURINDA ABREU (Universidade de Évora – Dept. São precisamente estas duas instituições que constituem o objecto principal deste texto. as atenções centram-se. aliás. Cabidos e Assistência na Península Ibérica (Séculos XVI-XVIII). Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Lisboa. 2004. as de âmbito local. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs.Câmaras e Misericórdias. . realizado na Universidade de Évora em Junho de 2003. de História /CIDEHUS) Apesar de a recente historiografia sobre caridade e assistência se mostrar empenhada na reabilitação das formas de apoio e inter-ajuda ditas informais. este pressuposto que esteve na origem do Colóquio Ibérico. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. pp. XVI-XVIII). como bem se sabe – sobretudo devido ao quase desconhecimento das reais dimensões do papel que a Igreja desempenhou neste sector1 –. já que se sabe que foi no seio das comunidades que se encontrou a maioria das respostas aos sucessivos problemas criados pela transformação da economia e da sociedade que o Ocidente viveu ao longo do período moderno. nas Misericórdias e nas Câmaras. contudo. Muito especificamente. Edições Colibri e CIDHEUS-UE. Nomeadamente. 2005. que os poderes se apressaram a gerir mais de acordo com os seus próprios interesses do que com as necessidades dos pobres. Bispos. a que esteve a cargo da sociedade civil. No contexto português. que não é nossa intenção ava* Investigação realizada no âmbito do projecto POCTI/1999/HAR/33560: O papel das Misericórdias na sociedade portuguesa de Antigo Regime: o caso da Misericórdia de Évora. É aliás por esta razão que a análise das políticas assistenciais e de saúde pública requer o estudo prévio das estruturas do poder e das relações sociais estabelecidas entre as diferentes organizações que o detinham. é ainda a assistência institucionalizada aquela que melhor se conhece e sobre a qual se possui informações mais consistentes. 1 Foi.

sobretudo. e nalguns casos controlou. dentro das limitações existentes. Poverty and Policy in Tudor and Stuart England. em termos muito directos. 1988.128 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS liar os fundamentos jurídicos das relações desenvolvidas entre as Santas Casas e os municípios. pela oposição que as caracteriza. Lisboa. estrutura política ou sector económico. acabou por a interditar2. questionar as consequências sociais de tais decisões. um longo período de profundas mudanças que não deixaram incólume nenhum grupo social. Expansão urbana e reorganização da caridade: as linhas de intervenção da Coroa portuguesa A partir da segunda metade do século XV o Ocidente viveu. vejam-se os trabalhos de P. avaliando.. finalmente. A. destaquem-se a de Bronislaw Geremek. dos incontroláveis fluxos migratórios. Um trabalho que desenvolveremos a partir da identificação das linhas que orientaram a reforma da assistência iniciada em Portugal nos finais do século XV e dos objectivos políticos da actuação régia. Refira-se. de forma mais ou menos organizada. De entre as transformações registadas merecem destaque. diversificaram a oferta em termos de institutos assistenciais apostando na sua especialização. Especificamente para a realidade inglesa. as implicações decorrentes de um modo de actuação cujas directrizes emanavam da Coroa que. como é do conhecimento geral. tornando mais violenta a legislação que. condicionou. Foram as cidades. o carácter meramente introdutório de todas as considerações realizadas. da mendicidade.História da Miséria e da Caridade na Europa. que. de saúde pública que as cidades enfrentaram – estas a cargo das autoridades locais. as tendências políticas – claramente centralizadoras – e a procura de soluções para os problemas sociais decorrentes das novas situações de pobreza. nem mesmo caracterizar os mecanismos político-institucionais que sustentaram a interdependência entre ambos e fortaleceram a sua capacidade de intervenção nas respectivas comunidades. para. 2nd ed. 1995 e a de Robert Jütte. Cambridge. A Piedade e a Forca . London. Slack. Basicamente o que nos interessa é identificar as principais competências das duas entidades no que respeita à saúde e ao bem-estar das populações – num tempo em que estes serviços eram organizados localmente mas não municipalizados –. e reforçaram o controlo da mendicidade. a forma como o sistema evoluiu. consequentemente. Poverty and Deviance in Early Modern Europe. . 1996. e. de facto. nalguns casos. assumidas aqui como mero ponto de partida para uma investigação de maior envergadura. todavia. experimentaram novas formas de assistência e novas políticas sanitárias. 2 Das imensas obras que abordam esta questão.

CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 129 Sendo esta uma forma de actuação comum à maioria dos Estados Europeus. procurando dotar o país de uma rede de confrarias especialmente vocacionadas para o apoio aos presos e aos pobres. Com esse objectivo a monarquia convocou «os melhores das terras». Assim aconteceu com a reforma geral dos hospitais ordenada por D. VI. História. 420-421. que esteve na origem de vários Hospitais Gerais – uma reforma que foi precedida de inquéritos (1499 e 1501) que avaliaram o estado do património dos hospitais e demais institutos pios e aferiram do cumprimento da vontade dos seus instituidores –. uma vez que aqui as políticas “modernas” de assistência aos pobres emanaram da Coroa e tiveram uma dimensão nacional. o das Misericórdias. com a fundação das Misericórdias – que o rei incentivou também em 1499. O mesmo é dizer. confrarias que nasciam com uma renovada dinâmica de intervenção social. ainda que marcada pelos particularismos locais. Das linhas mestras da intervenção manuelina nos mecanismos de caridade e assistência apenas se alteraria a que conduziu a reorganização hos- 3 Cf. que eram agora chamadas a associar-se a um projecto novo. com a assistência às crianças desprotegidas. Laurinda Abreu. “A especificidade do sistema de assistência pública português: linhas estruturantes”. 2ª série. Arquipélago. Um elemento que seria matricial no processo a que agora se dava início era a não articulação entre as diferentes instituições detentoras de responsabilidades assistenciais e de saúde pública. 2002. Não nos princípios ideológicos ou nos objectivos programáticos mas sim na forma como foi conduzido. e. o processo teve em Portugal características próprias que o individualizaram dos restantes modelos. tratou-se de uma reorganização das estruturas assistenciais e das suas competências de âmbito social alargado. que tinha a particularidade de ser centralizada e orientada a partir da Coroa. as suas incumbências institucionais eram diferentes conforme o lugar que ocupavam. Manuel I no início do seu reinado. Ponta Delgada. Como temos vindo a defender já há algum tempo. . ao mesmo tempo que pretendia mobilizar os poderes locais para a sua execução. mas também com atribuições ao nível da repressão da mendicidade (diploma de 8 de Julho de 1503) –. ainda que os responsáveis pelas Misericórdias e pelas Câmaras pudessem ser os mesmos – frequentemente em sistema de rotatividade entre as duas instituições –. que pela primeira vez viam reconhecido na lei (Ordenações Manuelinas) o seu direito à protecção3. pp. distinção que os visados respeitavam muito particularmente quando as suas atitudes tinham repercussões económicas. ainda. as elites já representados nas Câmaras Municipais.

Jorge Fonseca a indicação deste documento). “ Poor relief in Counter-Reformation Castille: An overview”. pp. 5 Cf. Almansor – Revista de Cultura. a Igreja lutava pela recuperação do controle dos hospitais. 1983. pp. Laurinda Abreu. 2003. João III. na Europa católica. 7 Cf. que foi durante a regência de D. Se este for estrita4 Conforme se pode concluir da leitura do alvará de 6 de Janeiro de 1518 pelo qual o rei retirou à confraria do Espírito Santo de Montemor-o-Novo o hospital que ela administrava entregando-o à Misericórdia com justificação de que a Santa Casa era a instituição melhor vocacionada para a administração do referido hospital . . E também Jon Arrizabalaga. n. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. Recorde-se. Ler História. Lisboa. 30-31. Tendência que depois seria continuada pelo monarca espanhol que reforçou em Portugal as condições de intervenção da Coroa nos diversos ramos da assistência institucionalizada enquanto lançava em Castela o processo de centralização hospitalar7. Um movimento que se reveste de uma importância crucial dado o facto de ocorrer num momento em que. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Manuel mais marcaram o rumo da assistência portuguesa no século XVI – o Cardeal D. por exemplo. 1990. 110-111. dos hospitais para a sua administração6. Henrique que o direito nacional incorporou o privilégio das Misericórdias como confrarias de tutela régia5.º 44.) Health Care and Poor Relief in Counter-Reformation Europe. 64 e ss. sistemática e continuada. pp. n. Os dois governantes que depois de D. Andrew Cunningham and Jon Arrizabalaga. numa orientação que de resto o próprio inflectiu acabando por reconhecer estas confrarias com vocação específica para a gestão dos hospitais4 – e a relativa ao combate à mendicidade e vagabundagem. Linda Martz. 5-24. pp. 151-176. quando se intensificou a promulgação de diplomas que as submetem a rigorosa regulamentação. Cambridge University Press. pp. 1999. “Misericórdias: patrimonialização e controle régio (séculos XVI e XVII)”.º 8. a que se seguiu a transferência. 1990.130 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pitalar – que D. Henrique e Filipe II – não só não se afastariam das orientações iniciais como reforçaram as intervenções centralizadoras verificadas no início do século. Cambridge. Consequências da intervenção da Coroa nos mecanismos assistenciais Em termos de resultados sociais a avaliação da eficácia da actuação da monarquia portuguesa nas matérias referidas apresenta indicadores diferenciados consoante o ângulo de análise adoptado. London and New York. (Agradecemos ao Dr. (ed. 6 Conforme chamámos pela primeira vez a atenção no nosso trabalho. Cf. Poverty and welfare in Habsburgo Spain. Setúbal. Manuel começou por separar das Misericórdias. in Ole Peter Grell. competência que a Coroa já tinha recuperado no reinado de D.

e bastante mais negativa.História da Miséria e da Caridade na Europa. 1999. XVI. A Piedade e a Forca . mesmo conciliatória. nesse sentido. a mesma provisão que reconhecia a tutela régia sobre as Misericórdias (2 de Março de 1568) reforçava a posição da Igreja na sociedade portuguesa8. Lisboa. a acção centralizadora da Coroa conseguiu não só o apoio de alguns prelados como impediu. com plena propriedade e menores custos políticos. 9 Citado por Bronislaw Geremek. que escorava economicamente as instituições assistenciais. Em Portugal. respondia assim ao pedido que os estados gerais lhe haviam dirigido solicitando apoio económico para o combate ao problema da pobreza: “sua majestade não pode dar dinheiro algum para o sustento dos ditos pobres pois essa é uma questão que depende da caridade e da piedade que os bons cidadãos. Duarte Nunes do Lião. Relevam de uma ordem diferente. E. . ao centralizar nas Misericórdias a assistência a vastos sectores da sociedade e ao fazer depender da Coroa a legislação relativa à mendicidade. Viseu. Dependente da caridade e piedade dos cidadãos sim. Paralelamente. mas também. Isto porque. tit. Palimage Editores. o mesmo é dizer. da Santa Sé que permitiria aos hospitais a utilização dos bens deixados para a celebração das missas pelas almas do Purgatório para o financiamento das suas actividades assistenciais10. as opções da Coroa podem ser consideradas como uma solução de compromisso. e realizado numa perspectiva de longa duração. a monar- 8 Cf. Na nossa perspectiva. lei 2. pelo menos em Portugal. tratou-se de um jogo de equilíbrio de forças que foi capaz de evitar. Isto porque. parte I. que em 1586. por exemplo. Os benefícios daqui recolhidos pela Coroa são evidentes. devem exercer para bem do próximo”9.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 131 mente político. ao que cremos. pp. pp. 10 Assunto que iniciámos em Memórias da Alma e do Corpo – a Misericórdia de Setúbal na Modernidade. Fundação Calouste Gulbenkian. as consequências destas políticas ao nível das comunidades locais. as polémicas que o tema da assistência estava a suscitar no resto da Europa. o surgimento de conflitos liderados por leigos contra a aplicação das determinações do concílio de Trento. entre a sociedade civil e a Igreja. nomeadamente em relação à reforma dos hospitais e demais instituições caritativas. (a publicar na revista Penélope). os reis portugueses poderiam. Leis Extravagantes e Reportório das Ordenações. se é verdade que o rei confiou aos leigos a responsabilidade por uma parte considerável da assistência institucionalizada à pobreza. ligada à caridade. 177-178. 153-171 e desenvolvemos em “A difícil gestão do Purgatório: os Breves de Redução de missas perpétuas do Arquivo da Nunciatura de Lisboa (séculos XVII-XIX)”. também é certo que a manteve sob os princípios religiosos tradicionais. 1987. tomar para si as palavras do monarca francês. como bons cristãos.

na maioria das cidades portuguesas a criação de hospitais temporários para os pestilentos foi fruto da iniciativa privada e da intervenção da Igreja12 e raramente dos municípios.132 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS quia condicionou a actividade das autoridades municipais. 13 A questão da hospitalização esteve longe de ser pacífica no tempo em estudo. Além do mais. o caso da criação dos expostos que muitas câmaras transferiram para as Misericórdias assim que lhes surgiu a primeira oportunidade. por exemplo). o seu papel em termos sanitários. e ao impedir a tributação específica para custear esse tipo de despesas – a não ser se os impostos se destinassem aos enjeitados – . o poder local tendia a esquecer. Sobre . a existência de tais profissionais não permite afirmar que as municipalidades administravam uma estrutura de assistência social minimamente consistente. Contudo. quase sempre de peste. O mesmo aconteceu com os hospitais para convalescentes. “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. a propósito. no entanto. ao não financiar o sistema criado. Rellaçam sumaria da vida do Illustrissimo senhor Dom Theotonio de Bragança. a correlação directa que se estabelecia entre a pobreza e a dimensão das epidemias. no auge das crises. É certo que a maioria mantinha à custa das rendas dos concelhos um médico. 12 Importantes informações sobre o assunto podem colher-se em Nicolau Agostinho. Évora. em Évora. entre 1579 e 1637”. pelas razões aduzidas. 11 Para o caso de Évora. 1614. os monarcas facilitaram a desresponsabilização dos municípios em relação a esta questão. temas recorrentes nas actas das sessões camarárias. A frágil situação financeira de muitos concelhos assim o determinava. Veja-se. O receio do contágio e da propagação das doenças tornava importante a limpeza dos espaços públicos e a manutenção da salubridade das águas. Aqui sim. veja-se o nosso texto. perante situações de epidemia ou de ameaça de epidemia. uma parteira e uma sanguessugadeira. Só para dar um exemplo. e de forma particularmente activa. tão importantes em termos sociais e de saúde pública como os anteriores. Comunicação apresentada no VII Congreso ADEH. para além da duvidosa eficácia da maioria das medidas tomadas11. logo que a situação acalmava tais projectos eram abandonados13. As provas de que as câmaras procuraram não se envolver demasiado na organização da assistência pública são múltiplas e bastante elucidativas. Diferente era. Porém. Granada. Abril de 2004. cerceando-lhes quaisquer hipóteses de intervenção na escolha dos meios mais adequados à especificidade de cada espaço (como aconteceu em França. a actividade e intervenção dos centros urbanos faziam-se sentir. Embora as edilidades reconhecessem a sua utilidade e necessidade e. elaborassem planos para a sua construção. um sangrador – que quase sempre acumulava as funções de cirurgião –. Francisco Simões.

p. p. dos vereadores e dos mesários das confrarias. uma actuação concertada como ocorreu noutros espaços europeus? Não nos referimos. e como já mencionámos. Vejam-se alguns casos que arrolámos em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. mas à conjugação de esforços tendo em vista um fim que era do interesse da comunidade e dos seus líderes. . das Câmaras e das Misericórdias. 2002. Como bem se sabe. 15 Como aconteceu em Lisboa e é abundantemente documentado por Eduardo Freire de Oliveira. Mormente. Do meu ponto de vista essa articulação não existiu por duas razões principais. uma questão bastante pertinente se impõe: porque é que não houve em Portugal. Les Hommes et la peste en France et dans les pays européens et méditerranéens. à realização de acordos prévios entre o poder político e o religioso – ainda que eles pudessem existir. 63. João V”. 173.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 133 Chegados a este ponto. Não significa isto que os senados não respondessem aos pedidos de ajuda financeira que as Santas Casas lhes dirigiam ou que ignorassem completamente os problemas em análise. naturalmente. vide Jean-Noel Biraben. porque sendo confrarias. estas instituições não tinham representação política. 1887 e 1888. quase sempre. no caso da criação dos enjeitados. Typographia Universal. este assunto. Em primeiro lugar. e centrando-nos exclusivamente no caso das Misericórdias. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. regra geral. Elementos para a história do município de Lisboa. depois de muito pressionados pelo poder central – que várias vezes obrigou as Câmaras a concederem esmolas às Misericórdias14 – e pelas próprias confrarias. Todavia. quando os atendiam. 1975. Mouton. Lisboa. por opção da monarquia. frequentemente governadas pelos mesmos homens. Lisboa. procurando que as municipalidades respeitassem os acordos financeiros estabelecidos tendo em vista a partilha das despesas16. as suas reivindicações não tinham peso nas decisões camarárias. 14 São muitos os exemplos de alvarás régios encontrados nas Chancelarias Régias onde se ordena às Câmaras que concedessem determinadas esmolas às Misericórdias. em termos de assistência pública. tomos II e III. muito especificamente quando os seus hospitais soçobravam ao peso dos surtos epidémicos15 ou. porque. a assistência foi mantida demasiadamente ligada à «doutrina religiosa da caridade» que assumia a pobreza como uma questão ideológica. eram caritativos os pressupostos em que assentavam as estruturas das principais instituições assistenciais e eram religiosos os princípios registados nos estatutos que as governavam. o que aqui quer dizer. como aconteceu em Évora –. 16 Os casos que melhor conhecemos são os de Setúbal e Lisboa mas muitos outros poderiam ser apresentados. muito mais frequente. Em segundo lugar. faziam-no a título de esmola e. Universidade Católica/União das Misericórdias Portuguesas. Ou seja.

os notáveis locais agiam como políticos. desse ónus. esperava-se que actuassem como “bons cristãos. O financiamento da assistência pública é. e graves. o cerne da questão. pp. em prejuízo do bem público19. para bem do próximo”. de resto. com responsabilidades específicas. colhendo os benefícios que a lei lhes concedia por exercerem tão importantes funções. Sem 17 18 Cf. é que se assiste a acções harmonizadas entre a Coroa. para voltar a utilizar a expressão atribuída a Henrique III. A partir da obra de Eduardo Freire de Oliveira. entre as autoridades municipais e as Santas Casas por questões económicas e de gestão patrimonial. e estas não privilegiavam a assistência. Do “Alvará em que se determinou que os provedores e officiaes da Mesa da Misericordia e hospitaes não podessem arrematar para . como claramente se infere do diploma filipino de 6 de Dezembro de 1603 – que junta vereadores e responsáveis pelas Misericórdias na mesma acusação de usurpadores dos bens das referidas instituições. 19 Um diploma praticamente esquecido dos historiadores mas que contêm importante informação para o problema em análise. finda a crise. Elementos para a história do município de Lisboa. “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. não parece terem existido em Portugal conflitos jurisdicionais a propósito da assistência como houve em outros pontos da Europa. Enquanto mesários. Na verdade. 47-77. como os que recolhemos da documentação que neste momento estamos a tratar para Lisboa18. E alguns deles verdadeiramente extraordinários. libertando as suas receitas. regressava a normalidade. quase sempre reduzidas. só em situações que poderiam ser consideradas de calamidade pública. pelo menos no meu entender. quando estavam nas Câmaras. E nesta imbricada relação institucional entre as Câmaras e as Misericórdias nem sequer se pode falar na existência de contradições. através da imposição de tributos às populações. Sempre que possível. Houve-os sim. se tentar controlar a miséria urbana e as elevadíssimas taxas de mortalidade hospitalar. E. a Câmara e a Misericórdia para. como as que se viveram em Lisboa na passagem do século XVI para o século XVII. As disposições eram provisórias e excepcionais e não alteravam o sistema instituído nem a forma como estava organizado17. João V”. cit. não raras vezes. O resultado destas duas circunstâncias (natureza caritativa da assistência e ausência de representação política por parte das Misericórdias) parece-nos previsível: as Câmaras não se consideravam economicamente responsáveis nem pela assistência hospitalar nem pelas demais valências assistenciais asseguradas pelas Misericórdias ou pela Igreja. Todavia. São inúmeros os exemplos que o documentam. Isto porque.134 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A bem da verdade. ultrapassando o permitido e o eticamente correcto.

publicadas em 1603. A primeira porque cerceou a capacidade de intervenção das autarquias. Por outro lado. 17-18. atente-se. Tomo I. à Coroa e às elites locais. . trazem usurpadas as mais propriedades da Misericordia. Coimbra. porque não reclamaram poderes neste campo a não ser em tempos de crise ou em questões de índole sanitária. de que resulta mui grande prejuizo ás rendas dos concelhos e obrigações das ditas confrarias da Misericordia. pelo menos. os centros urbanos portugueses não tiveram ao longo do Antigo Regime uma política estruturada de assistência aos pobres ou mesmo de saúde pública. A ausência de regulamentos que definissem prioridades assistenciais e. como para as dos concelhos (…)». em simultâneo. 1819. e que tomão sobre si as rendas das correntes. a ideologia que estava subjacente ao sistema criado. Para concluir. conforme demonstrámos em trabalhos anteriores.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 135 esquecer o manancial de informações sobre as irregularidades de gestão patrimonial cometidas pelos irmãos que nos são transmitidas pelas actas e contabilidade de muitas Santas Casas20. os alvos a atingir e os métodos a usar. repartindo-as entre si e seus parentes. dificultava a gestão racional das capacidades assistenciais das Misericórdias e de outras instituições similares. villas e lugares deste reino repartem entre si e as pessoas que costumão andar na governança. Dezenas de documentos das Chancelarias Régias atestam situações semelhantes registadas um pouco por todo o país. 20 Conhecemos vários exemplos desta situação. na Real Imprensa da Universidade. o que he causa de faltar sempre dinheiro para as cousas necessárias. Todavia. pagando pouco ou nada ao concelho. faltam-nos estudos comparativos que nos permitam avaliar se. ao defender o direito da liberdade da esmola e da mendicidade. na minha opinião. si cousa alguma”. por sua vez. e estas. sobretudo. dando-as uns aos outros com título de arrendamento. em termos de resultados sociais. que são de minha protecção. em nada contribuiu para a excelência desse mesmo sistema. no seu preâmbulo: «Eu ElRei faço saber aos que este alvará virem que sou informado que os vereadores e officiaes das camaras de muitas cidades. As formas institucionais de apoio que existiram nas duas áreas pautaram-se pela desorganização e ineficácia. assi para as despesas da Misericordia e hospitaes. e os sobejos dellas gastão sem ordem alguma. Collecção Chronologica de Leis Extravagantes posteriores á nova compilação do reino das Ordenações do Reino. pp. ainda que mais em pormenor o da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. as propriedades do concelho. a realidade portuguesa foi efectivamente mais negativa que a de outros países onde se desenvolveram formas de organização e de financiamento da assistência que a tornaram mais profissional e menos permeável às contingências das doações particulares. E que outrosi os provedores e officiaes das confrarias da Misericordia. devendo as responsabilidades serem acometidas. dos lugares aonde a ha.

detectamos que. contudo. que tenhão pera isso hospitaes»24. “Reclusão e controle dos pobres: o lado desconhecido da assistência em Portugal”. vol. uma preocupação recorrente nos escritos de D. in Instituicoes e regimentos que pertencem ao padroado do arcebispado de Évora mandados collegir pelos senhores Deão e Cabido sede vacante em Junho de mil e seiscentos e trinta e quatro annos. beneficiou. mas. a mulher e controlo social: o colégio de S. que o Hospital do Espírito Santo. Laurinda Abreu. em Évora – uma experiência de reclusão e controle de pobres em Portugal”. na verdade. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs.527-540. e não curar as infirmidades dos doentes. . 2002/2003. melhor dizendo. XVI-XVIII). “Revista Portuguesa de História”. pelo menos durante três ou quatro décadas. pp. 275-289. O seu objectivo não era. se não contou com a participação do município. Mas as generalizações são potencialmente perigosas e comportam riscos demasiado elevados. quando nos centramos em Évora. pp. Faculdade de Letras. às prostitutas – Recolhimento da Madalena22 e aos pobres e mendigos – Hospício e Irmandade da Piedade (1587)23. a cidade cumpriu um projecto assistencial que. administrado pela Misericórdia. Por exemplo. por exemplo. potenciar resultados. A necessidade de separar competências foi. Manços”. 5-VIII – Livro dos estatutos desta casa. e hospedaria dos pobres de Nossa Senhora da Piedade da cidade de euora. Universidade do Porto.136 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aparentemente parece-nos que sim. Nunca doentes «de qualquer infermidade das que em o dito hospital costumão curar. Transcrição apresentada no nosso texto “O hospício e irmandade da Piedade. Manços21 –. I. demarcar esferas de influência ou afirmação de poderes. se dedicasse mais especificamente ao tratamento dos doentes e perdesse durante algum tempo a 21 Sobre as vicissitudes inerentes a este Recolhimento leia-se Marco Liberato. porque o intento desta hospedaria he remediar as necessidades dos saos. autor de várias reformas no domínio da assistência que dotaram a cidade de estruturas com algum grau de especialização ao nível da assistência às raparigas de elevado estatuto social – Recolhimento de S. pelo menos. pelo contrário. O seu principal mentor foi o Arcebispo D. Tomo XXXVI. peregrinos e convalescentes. Teotónio de Bragança (1578-1602). que a deixou registada de uma forma clara nos Estatutos da Piedade: ao Hospício cabia o acolhimento temporário dos pobres. 24 Arquivo do Cabido de Évora. em publicação no volume de homenagem ao Professor José Marques. entre o arcebispado e a Misericórdia. Teotónio de Bragança. Cec. “Trento. Coimbra. 22 Continuamos à procura da documentação deste instituto que complemente as dispersas informações que sobre ele possuímos. da existência de relações institucionais minimamente organizadas. A existência do Hospício da Piedade permitiu. com consequente partilha de responsabilidades entre a Igreja e a comunidade. 23 Cf. Igreja.

conforme se conclui da análise dos registos de entradas no referido hospital nos anos que se seguiram à criação do hospício25. problemas de maior importância para as urbes. uma terceira. era assegurada pela Igreja e ministrada nos Recolhimentos da Piedade27. São Manços e Madalena e. um cirurgião e um sangrador. chamemos-lhe. and its relationship with the city”. 26 Conforme os dados que já coligimos para os recolhimentos da Piedade. in Évora. de assistência social institucionalizada. fundado pelo cónego Manuel de Faria Severim. podemos afirmar que a intervenção de D.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 137 valência de albergue para pobres. 28 Basicamente tratava-se de um sistema de apoio domiciliário em que a cidade era dividida em “quadrelas”. “O recolhimento de Nossa Senhora da Piedade de Évora: uma instituição de assistência pós-Tridentina”. no Colégio dos Órfãos. pp. mais material. “The Hospital do Espírito Santo. particularmente interventora em tempos de desordem do quotidiano. em tempos de peste29. . centrada nas questões de saúde pública. ou seja. Manços. A primeira de cariz educacional. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. o nosso texto. comunicação apresentada ao I Encuentro de Demografía Historica de la Europa Meridional. circunscrita a um pequeno grupo de naturais de Évora26. Maio de 2003. Igreja. O seu propósito era procurar garantir a sobrevivência dos seus pobres: os milhares de migrantes sazonais que anualmente acorriam ao Hospital do Espírito Santo. mas que estava quase exclusivamente sob o controle da Coroa. E. as mulheres sozinhas que eram subvencionadas regularmente. finalmente. A estas vertentes da assistência acrescia ainda a questão da mendicidade e da vagabundagem. desde 1649. assente em três realidades de certa forma distintas ainda que complementares. Menorca. 291-298. as órfãs dotadas para casamento. os presos ou os doentes das quadrelas28. XVI-XVIII). Colégio dos Órfãos e Colégio de S. ainda que com algum anacronismo. 27 Algumas informações sobre esta instituição já exclusivamente com funções de recolhimento para raparigas pobres podem encontrar-se em Sílvia Mestre e Marco Loja. da responsabilidade da Câmara Municipal. Teotónio contribuiu para a fixação de um sistema. pedagógica e moralizadora. Os inúmeros registos de “doentes da Piedade” que se encontram no hospital e as referências a “convalescentes da Misericórdia” existentes na documentação da Piedade mostram bem até que ponto foram cumpridos os propósitos dos mentores deste projecto. Ainda que analisada à escala local. 25 Cf. as crianças que eram depositadas no Hospital de S. Uma segunda. cada uma delas entregue a uma equipa constituída por um médico. cobria um vasto leque da população e estava a cargo da Misericórdia. Lázaro.

nomeadamente. 31 Veja-se uma síntese da evolução da legislação relativa a esta questão em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. Já representadas nas Câmaras. Igreja. ainda em curso. anulava as deliberações camarárias. elas seriam igualmente chamadas a gerir os destinos das Misericórdias. muitas vezes sem consultar os vereadores. Ou seja. durante os surtos de peste. mas sem capacidade para procederem a mudanças estruturais. 29 Como escrevemos. em “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. o que conduziu. “O relacionamento do Arcebispado com a Misericórdia de Évora entre 1552 e 1643”. também não é menos correcto que as linhas mestras que enquadraram a sua actuação tinham sido definidas pelo governo central. 30 Para o caso especifico de Évora consultem-se os trabalhos de Rute Pardal. João V”. permitiu-nos dar fundamento documental à tese que temos vindo a defender segundo a qual as medidas de carácter centralizador tomadas pela monarquia portuguesa durante o século XVI foram determinantes para a forma como o sistema evoluiu ao longo dos dois séculos seguintes. nalguns casos. E se é verdade que poucas cidades terão beneficiado de uma intervenção tão dinâmica e abrangente como aquela que D. Com relativa autonomia. entre 1579 e 1637”. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. 49-51. 225-237. é indiscutível. cit. pp. É certo que a capacidade de a Coroa impor as suas políticas a todo o país era bastante limitada e. O que se repetia quando. como bem demonstram as sucessivas interferências régias no quotidiano de muitas Misericórdias.138 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Este trabalho de reconstituição das estruturas assistenciais da Évora moderna. Neste sentido. não só por razões financeiras. como aconteceu frequentemente desde o início do século XVIII31. o não incentivo à partilha de responsabilidades assistenciais entre os dois principais órgãos do poder local não pode deixar de ser visto como uma afirmação de poder por parte da monarquia. . e justificámos. Teotónio protagonizou em Évora nas décadas finais de Quinhentos. pp. em Évora. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. à imposição dos próprios provedores. XVI-XVIII). também para as questões da assistência o rei estava dependente do bom desempenho das elites locais30.

Rute Pardal. Comecemos. Cf. referimo-nos. Nesta linha de pensamento. 1 Cf.As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional RUTE PARDAL (CIDEHUS) 1. nomeadamente a nível administrativo/jurídico. Livro I. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580/1640). naturalmente. quando nos referimos às similitudes entre Câmaras e Misericórdias. (dissertação de mestrado policopiada). 2. dos processos eleitorais. Universidade de Évora. pelas Câmaras. financeiro. 34. que abrange nesses dois domínios toda a população residente1. Évora. 139-148. A importância desta competência revelou-se na irrevogabilidade das suas decisões quer por parte do representante local do rei – o Corregedor2 –. consubstanciada na liberdade de promulgação das posturas ou acórdãos de cariz organizativo da realidade local. 2 Assim se infere da leitura das Ordenações. o que mais se destacava era a capacidade legislativa que possuíam. ao nível administrativo/jurídico e financeiro. um universo muito mais restrito que o das edilidades. as Misericórdias são. . por exemplo. 2003. Título Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Ordenações Afonsinas. em termos jurídicos e jurisdicionais. também sabemos que as duas instituições partilhavam características semelhantes. e da base de recrutamento social dos seus órgãos directivos. à autonomia que ambas gozaram – embora esta fosse tutelada pelo rei. Isto apesar das diferenças óbvias entre ambas. pp. Em termos administrativos. pois. Se são bem conhecidas as relações institucionais entre as Câmaras e as Misericórdias. 2005. e por isso relativa. p. quer por parte do próprio rei.

assim como de todas as manufacturas produzidas pelos artífices5. Ou seja. Belchior da Maia foi . 4 Cf. documentos para a História do Porto. a acção das Câmaras alargava-se à tributação e ao tabelamento dos produtos cerealíferos e. a acção concentrava-se. estradas e pontes. A nível urbano. XLVI. a regulamentação do quotidiano. ainda. a tarefa não era fácil uma vez que se. em sectores vitais para a comunidade. nomeadamente o importante sector do abastecimento3. Título XLVI. 5 Apesar de alguns destes aspectos já estarem conformados nos forais. Arquivo Histórico. Na sessão de vereação de 5 de Janeiro de 1618. Lisboa. De facto. (José Mattoso dir. 1993. a alçada do concelho estendia-se àquilo que definiríamos como «sector das obras públicas»: ou seja. Todavia. Francisco Ribeiro da Silva. sobre o despejo de detritos nas ruas devido às consequências que tais actos poderiam ter em termos de propagação das doenças. preocupações maiores para comunidades demograficamente carentes e financeiramente debilitadas. Ordenações Filipinas. 179. Competia-lhe também zelar pela higiene e saúde pública. Porto. e acabavam por taxar praticamente todos os géneros alimentares. chafarizes e fontes6. prioritariamente. O Minho e os seus municípios. em matérias agrícolas. a falta de hábitos de higiene era generalizada.140 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O âmbito desta autonomia dos concelhos foi. Ordenações Manuelinas. 2002. Livro I. Círculo de Leitores. §16. 1995. Braga. os arranjos das calçadas e arruamentos. regra geral. Título LXVI. especialmente temidas em tempos de peste. sanitárias e de policiamento. por outro. E. Teresa Fonseca. sem ir mais longe. pp. Daí a preocupação dos concelhos em lançar posturas e vigiar o seu efectivo cumprimento. das carnes e do peixe. História de Portugal. XXVII. Por outro lado. 1988. Ainda no domínio agrícola.). temos a evidência dessa mesma dificuldade em vigiar cabalmente a limpeza da cidade. Lisboa. reservando-se normalmente para as posturas a fixação do custo das obras dos mesteres4. § 9. por um lado. Joaquim Romero Magalhães. O Porto e o seu termo (1580 – 1640). vol. Em termos práticos seriam os Almotacés que tomariam contacto diário com os vendedores de todos esses produtos. p. 3 O assunto já foi referido por vários autores: Entre eles. Universidade do Minho. «Os concelhos». entre outros. Absolutismo e Municipalismo em Évora: 1750-1820. Edições Colibri. as especificidades das situações e o subsequente desajuste dos mesmos exigia um constante preceituar regulamentador. Livro I. as instituições e poder.III. Câmara Municipal do Porto. 629-630. 6 Cf. vide José Viriato Capela. Os homens. cabia à vereação providenciar de modo a fornecer a população dos bens alimentares e manufactureiros. § 28. a fragilidade ou mesmo inexistência de um sistema de saneamento público não só dificultava o trabalho legislativo. como também a obrigação do cumprimento das posturas por parte dos oficiais concelhios7. 7 No caso de Évora.

8 Nestas Ordenações estabeleceu-se uma espécie de hierarquização de responsabilidades relativamente à criação dos enjeitados. foi nas Ordenações Manuelinas – a primeira vez que em Portugal se legislou sobre esta matéria –. 11 O rei respondeu. Lisboa. (Cf. por exemplo. Em Évora. que os concelhos foram chamados a intervir a favor das crianças desprotegidas8. fls. fl.º 47. pp. Mas a autonomia administrativa dos concelhos seguia lado a lado com a autonomia financeira. que pedia «que lhe desse renda» para que pudesse criar os enjeitados comodamente. (Cf. Título CXVII. ou se quisermos da assistência. Esta consubstanciava-se na faculdade dos próprios admoestado por se constar que as ruas da cidade estavam muito sujas. Todavia. E. a Câmara também teria demonstrado anteriormente que estava interessada em assumir novamente a administração do Hospital de São Lázaro e a criação dos enjeitados. 679). ainda da saúde pública. e aí ficaria até 1586. os concelhos tiveram competências importantes. 1990.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 141 Sobre outro domínio. p. 54-55). ano em que regressou novamente para a alçada da Câmara11. 9 Apesar da responsabilidade dos enjeitados ter passado para as Misericórdias. 2001. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. por ordem de prioridade. 77. na sua ausência. Geneva Medical School. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora (doravante ADE. Livro I. (Cf. (Cf. Idem. Isabel Guimarães dos Sá. n. 55-66. . JNICT. ainda. ou. Setúbal. seriam responsabilizados. A circulação de crianças na Europa do sul: o caso dos expostos do Porto no século XVIII. Livro dos Privilégios do Hospital. nomeadamente no que respeita à criação dos enjeitados. que abrangia as respectivas amas.º das actas da Câmara. § 10). Esta seria. fl. que ficaria com esse serviço até que a legislação liberal lho tirou. a criação dos expostos seria transferida para a alçada destas últimas9. ASCME. pouco depois da sua criação. em primeiro lugar. ADE. Health and Child Care and Culture in History. ASCME). Na verdade. à missiva da Misericórdia. ACME). Livro 9. Por outro lado. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Livro dos Privilégios do Hospital. o que incluía a assistência médica.º 47. os parentes. n. Laurinda Abreu. e quase sempre associada ao movimento de anexação dos hospitais às Santas Casas da Misericórdia. «The Évora foundlings between the 16th and 19th centuries: the Portuguese public welfare system in analysis». obrigação dos pais e. juntamente com a administração do Hospital de São Lázaro10. o cuidado dos expostos foi entregue à sua Misericórdia em 1568. em alternativa lhe retirasse o encargo da criação. 10 Apesar das tentativas de embargo por parte do reitor do mosteiro de São João. September 13th-16th. Arquivo Distrital de Évora. antigo Provedor do dito Hospital. Paulatinamente. European Association for the History of Medicine and Health – 5th Conference. Arquivo da Câmara Municipal de Évora (doravante ADE. Ordenações Manuelinas. os hospitais ou albergarias. alguns concelhos acordaram em comparticipar nas despesas com as crianças. Em 1618 retornou à Santa Casa. ADE. e os concelhos. 1995. desta forma. nem sempre o dito acordo foi cumprido. Cf. Fundação Calouste Gulbenkian. 21-22).

ora cerceando-lhas. no essencial. tinham jurisdição privativa em relação aos Corregedores e maior alçada que os Juízes da terra. Os Juízes de Fora eram nomeados pelo rei. que lhes conferia variados privilégios em diversos domínios. onde de se refere que. o judicial. pp. cit. a autonomia administrativa das Misericórdias também decorria da faculdade de serem as próprias. ora outorgando competências fiscalizadoras aos Provedores das comarcas. depois de aprovados pelo Desembargo do Paço. É de facto. as suas competências eram semelhantes às dos Juízes de Fora. ASCME. os Juízes Ordinários12. Como referimos. Assim sendo. o que. nomeadamente no que se refere à eleição. à semelhança das Câmaras. Livro I. Título LXV). As vésperas do Leviathan. em muitos dos municípios era executada por indivíduos eleitos localmente. Lisboa. . 2 vols. Portugal – século XVII. em favor da Misericórdia de Lisboa. Livro I. 13 Tal como o demonstra.. Apesar disso. ou seja.. quando a actuação régia se pautou pela ambiguidade. os colocava sob a tutela régia. Por isso. Ordenações Filipinas. (Cf. Título XLIV. como por exemplo. 1986). Mas no seio dos concelhos existiam ainda outros domínios relativamente autónomos. não foi nem permanente nem definitiva.. a justiça. o alvará régio de 24 de Janeiro de 1582. facto que. esta prerrogativa. em grande medida resultante da imediata protecção régia. Para uma visão mais aprofundada sobre esta questão veja-se Rute Pardal. Instituições e poder político.º48. Livro I. (Cf. ou de autonomia jurisdicional. Como é do conhecimento geral.. não dependendo de nenhuma outra instituição para fazer aprovar o seu orçamento. com base nas Ordenações Filipinas que António Espanha corrobora as semelhanças nas atribuições dos Juízes de Fora e Juízes Ordinários. o conteúdo da sua influência restringia-se apenas aos feitos cíveis que envolvessem bens móveis e imóveis. fl. e ainda no domínio das rendas. 67-68. ainda que não abrangessem um universo social tão vasto quanto o das Câmaras. António Manuel Hespanha. Por outro lado. a Coroa só muito tardiamente conseguiu estender uma rede de Juízes de Fora a grande parte do país. (Cf. s. n. o privilégio fundamental era o de poder aceitar e excluir irmãos sem dar satisfação a quaisquer tipos de justiças e oficiais13. Ordenações Filipinas. estes últimos eram eleitos localmente e eram inspeccionados pelos Corregedores.142 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS municípios arrecadarem as suas receitas para fazerem face às despesas. 14 Todavia. em pri12 Enquadrando-se a matéria da sua acção na matéria da autonomia judicial de que os concelhos dispunham. “ o mesmo poderão fazer e farão no que tocar a receber irmãos ou os despedir quando lhes parecer sem serem obrigados a dar conta nem rezão aos que assi despedirem nem a nenhumas minhas justiças nem oficiais (. menciona que subsistem algumas diferenças. por exemplo...n. as Misericórdias também usufruíram de uma apreciável autonomia. (Cf. Todavia este autor. em última análise. no plano jurisdicional interno. Livro de privilégios da Santa Casa da Misericórdia de Évora. limitava a actuação dos Provedores das comarcas14.) ”. Para além disso.. Título LXV). ADE. Pelo contrário. 36). Ordenações Manuelinas. As elites de Évora. a cobrar as receitas.

o processo de escolha dos seus dirigentes mais importantes ser feita de forma colegial. ou incumprimento dos processos eleitorais18. tanto os municípios como as Santas Casas tinham liberdade de escolha dos seus magistrados e oficiais. tal como os seguintes. As Misericórdias também não estariam isentas da tutela e da intervenção régia. 1986. Tipographia da Academia Real das Sciencias. (Cf. nas Misericórdias ele foi contemplado logo de início no compromisso de 151617 da Misericórdia de Lisboa – que serviria.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 143 meiro lugar. (cf. de um Juiz privativo como executor das suas rendas e esmolas. p. não tinham a obrigação de verem aprovadas as pautas das eleições que anualmente faziam. elas tinham a possibilidade de arrecadar as suas dívidas via executiva. 129). Victor Ribeiro. aos finais da Idade Média16. se o processo de afunilamento da escolha dos oficiais camarários remontou. p. eles passaram também pelos processos eleitorais. jurídicos e financeiros. da mesma maneira que os almoxarifados e recebedores do rei arrecadavam a fazenda real. e apesar de não ser um movimento simultâneo em todas as Misericórdias15. Maria Helena da Cruz Coelho. p. anexo IX. 17 Cf. Mas. Lisboa. 15 Com efeito este foi um privilégio que as Misericórdias foram solicitando ao rei. os monarcas puseram na clarificação do processo eleitoral das magistraturas municipais. com base na sua obtenção por parte da Misericórdia de Lisboa. Este rei estabeleceu. e. Joaquim Romero Magalhães. Uma liberdade condicionada nas Câmaras pelo facto de essas escolhas terem de ser sancionadas pelo rei ou pelo donatário. por isso se procedeu à restrição do número dos considerados capacitados a intervir no processo. Livros Horizonte/Misericórdia de Lisboa. 321). Ainda no campo eleitoral. em Portugal. os pontos de contacto entre estas duas instituições não se ficaram pelos aspectos administrativos. ou seja. João I. apesar do plano de actuação das Câmaras e Misericórdias ser diferente. 1999. Em segundo lugar. Não obstante. Coimbra. 18 Tal como aconteceu em Setúbal e Évora. através do alvará de 12 de Junho de 1391. A Misericórdia de Lisboa. o mais importante a reter parece-nos ser o facto de. Laurinda Abreu. de forma indirecta e não de modo a permitir a participação alargada dos irmãos ou dos munícipes. as Misericórdias podiam dispor. desde D. . A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: subsídios para a sua História. 1902. Joaquim Veríssimo Serrão. 16 Por isso. Lisboa. Neste ponto. 598 e passim. Viseu. em Maio de 1558. Centro de Estudos e Formação Autárquica. (Cf. não podemos deixar de parte o empenho que. essencialmente quando havia suspeitas de distúrbios. que a eleição dos oficiais concelhios se fizesse pela maneira dos pelouros. Quinhentos anos de História. ou seja. Neste documento dá-se a entender nitidamente que a eleição dos oficiais locais não era de modo nenhum pacífica. 1998. O poder concelhio das origens às cortes constituintes. de modelo paras restantes Santas Casas. Memórias da alma e do corpo: a Misericórdia de Setúbal na modernidade. Palimage Editores. Não obstante.

As elites de Évora … cit. Análise Social. a circulação de indivíduos entre as duas instituições. pp. 19 Sem pretender-mos entrar em conceptualizações. pp. parece-nos importante porque cremos que foram elas que facilitaram aquele que sabemos ter sido um comportamento habitual ao longo do Antigo Regime. com o objectivo explícito de se autoperpetuarem na governação de ambas as instituições20.º). vol. E ainda. mas seria apenas em finais dos anos 80 que ele seria quantificado no estudo sobre a misericórdia de Setúbal21. Sobre estas questões veja-se. ou oligarquização. 21 Cf. XXVIII (121). . «Elites e mobilidade social … cit. Círculo de Leitores. pp. 1993.IV. Maria Helena da Cruz Coelho. p. é importante referir que.. 143-150. Quando o rico se faz pobre: Misericórdias.». Nuno Gonçalo Monteiro. «Elites Locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime». 1993 (2. um factor que nos pode remeter para a formação de oligarquias locais19. XXXII. pp. veja-se Joaquim Romero Magalhães. 20 Sobre a essência da perpetuação nos cargos por parte das elites locais. pp. 81. 1997. «Senhores da terra. Rui Santos. regra geral. A Santa Casa da Misericórdia cit …. controlavam o poder nas Câmaras e nas Misericórdias. Vejam-se ainda os exemplos apontados em Isabel dos Guimarães Sá. Lisboa. Idem. 1997.339-345. Lisboa. isto é: governo de poucos e predomínio de um pequeno grupo de pessoas e famílias. como é óbvio. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Análise Social. entre outros. vol. senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII». O poder concelhio … cit. 143-150. O mesmo é dizer. ou seja.144 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 3. pp. «Os concelhos e as comunidades. grupos formados por um número restrito de indivíduos. (Cf. ao utilizarmos o termo oligarquias estamos conscientes dos recentes debates que tem suscitado o seu uso. que. A identificação destas características. Esta é uma situação recorrente. História de Portugal. tendo surgido vários trabalhos que demonstram que a maior parte dos irmãos das Misericórdias pp. p. quando aqui nos referimos a oligarquias. pp. 341). Rute Pardal. que são do domínio comum. Laurinda Abreu.25-50).50-51. É certo que a denominação “oligarquias municipais” tende a conferir uma identidade social a uma categoria institucional «a dos vereadores camarários» cuja existência como grupo social carece de demonstração”. 333-338. 345-369. pretendemos fazê-lo no sentido estrito da palavra. caridade e poder no império português – 1500/1800. 324-325. 22 Ibidem. Nele ficava bem vincada a rotatividade entre os cargos concelhios e da Santa Casa. vol. Contudo. válida para todo o Antigo Regime e para todos os espaços até agora estudados – com oscilações locais. Os primeiros estudos sobre esta problemática surgem já na década de sessenta do século XX. Nuno Gonçalo Monteiro. Este estudo teve continuidade nos últimos anos. mas também entre outros ofícios régios e da ordem de Santiago22.

28 Cf. Lisboa. pp. o sistema de reprodução vincular e as redes clientelares exerciam um papel determinante. O mesmo se verificou no caso do Porto. em última análise. a rotatividade entre estas duas instituições constituía. A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho. 23 Cf.l. tão característicos da sociedade de Antigo Regime30. 236-244. Mário José da Costa Silva. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes. os 71. apesar de não fornecerem dados percentuais sobre esta estreita ligação. Coimbra. Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa. 1994. Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e de Ponte de Lima. Poder Municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII.111-128. 2000. pp. onde a endogamia. 130. 30 Este processo de elitização percorreu não somente as Câmaras e as Misericórdias. Maria de Lurdes Rosa. 27 Américo Fernando da Silva Costa. 370-382. Faculdade de Letras. 29 Sobre este assunto veja-se Nuno Gonçalo Monteiro. Ainda para Vila Viçosa. um dos elementos que permitiam a autoperpetuação daqueles que controlavam estes órgãos do poder local. Braga. O crepúsculo dos grandes (1750-1832). Porto Universidade Portucalense.. As elites de Évora … cit. 4. (Cf. A Casa de Bragança – 1560/1640: práticas senhoriais e redes clientelares. p. Lisboa. Estampa. Lisboa. Assuntos que. Mafalda Soares da Cunha. 138. Poder e conflito. não podemos desenvolver aqui29. O morgadio em Portugal. p. (dissertação de mestrado policopiada). 1998. 1995. pela sua complexidade. Como já referimos. (dissertação de mestrado policopiada) 1996. 24 José Damião Rodrigues. Estampa. 177. e de Ponte de Lima. Instituto Cultural de Ponta Delgada.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 145 ocuparam cargos nas Câmaras.1% em Ponta Delgada24 e os 71% em Évora25. vejam-se os dados indicados em Mafalda Soares da Cunha. s. Já os trabalhos sobre as Misericórdias de Vila Viçosa26 e Guimarães27.. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 57-199.. mas . onde cerca de metade dos mesários eram também oficiais camarários28. espa- ço de sociabilidade. 25 Rute Pardal. A Casa de Bragança … cit. A Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (1650-1800). pp. devido à influência da Casa de Bragança no panorama político local. pp. 26 Apesar do caso de Vila Viçosa ser específico.. História social da administração do Porto (1700/1750). poder e conflito (1546-1803). 77-85. (séculos XIV-XV). 2000. reiteram o facto de a maior parte dos irmãos das respectivas Santas Casas estarem quase sempre em maioria na ocupação dos cargos na “República”. p. pp. em percentagens que chegam a atingir os 75% em Montemor-o-Velho23. 1997. no entanto importante abordar o sistema eleitoral enquanto factor que contribuiu para manutenção do poder local e para a elitização. 1999. as estratégias de controlo alargavam-se a variados campos. Modelos e práticas de comportamento linhagístico. Parece-nos. Na verdade. Ponta Delgada. Maria Marta Lobo de Araújo.

veja-se José Viriato Capela. Ordenações Afonsinas. que estavam proibidos de participar nos órgãos administrativos e nos actos religiosos públicos das Misericórdias. o alvará e regimento de 12 de Novembro de 161133. José Justino de Andrade e Silva. Livro I. estabelecia regras mais rigorosas no apuramento das magistraturas municipais. Braga. ou seja.) ”34. Título XLV. Construction d’un gouvernement municipal: élites.. 35 Ibidem. Silva.. neste particular. mais a confirmação da legislação Manuelina. A. mas que gozavam dos restantes privilégios materiais e espirituais. Em primeiro lugar. pp. obrigado. e que os demais mesários... Ordenações Filipinas. como por exemplo.. Exigia o dito alvará que os elegíveis no futuro fossem “ (. 314-316. 33 Cf. «As Misericórdias portuguesas de .146 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Nas Câmaras a regulamentação da eleição dos seus oficiais encontrava-se definida desde as Ordenações Afonsinas31. 32 Ainda que estas constituam. 1854. sem raça alguma (. Universidade do Minho. Título LXVII. Ordenações Manuelinas. 598-599. sendo o Corregedor. 24-25. Anos mais tarde o rei restringia ainda mais o universo de elegíveis. 36 Joaquim Veríssimo Serrão. «Estudo prévio». também as Misericórdias seleccionavam os seus membros. o compromisso de 1577 já apertava a malha de recrutamento social. 37 Todavia. existiam algumas excepções no que se refere à admissão de cristãos-novos. Ao mesmo tempo. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa … cit. determitambém outras instituições da sociedade do Antigo Regime. Título LXVII). 314. de idade conveniente. Livro I. Lisboa. ou houvessem sido seus pais e avós. Livro I. J. Colecção chronologica da legislação portuguesa – 1603-1612. Em segundo lugar porque a evolução destes textos normativos nos indica que houve uma a progressiva elitização dos seus cargos administrativos. À semelhança dos municípios. e da governança della. Imprensa de J. Um processo que se foi complexificando até chegar às Ordenações Filipinas32. em primeiro lugar e antes de apurar o colégio eleitoral. 2000. 34 Ibidem. Se o compromisso de 151636 não era ainda muito claro em termos de definição da qualidade dos seus membros – requerendo apenas que o Provedor fosse nobre. p. 31 Cf. Veja-se sobre esta temática Laurinda Abreu.) pessoas naturaes da terra. élections et pouvoir à Guimarães entre absolutisme et libéralisme (1753-1834). que reiteravam que a eleição se devia fazer pelo método dos pelouros de forma colegial. (Cf. 6 fossem oficiais e 6 de outra condição –. pp. Com efeito. 315. pp. p. do que propriamente uma inovação sobre o tema. de entre os homens bons do concelho. porque se constituíam como irmandades cujo número de irmãos estava delimitado nos compromissos. ou o Ouvidor. Sobre este assunto. a tirar informações junto de duas ou três pessoas “das mais antigas e honradas”35. doravante restrita a cristãos-velhos37. as corporações de ofícios.

a composição social desta nobreza variava de lugar para lugar. p. foram determinantes para a configuração das suas elites locais44. 116-118. Manuel de Oliveira Barreira. ao Escrivão e ao Tesoureiro exigia que fossem honrados. a pertença social daqueles que conduziam os destinos municipais situava-se na esfera da aristocracia de projecção local. no que ao exército concerne. vol. 188. pp. 1995.53. p. já eram essencialmente donos de marinhas. Elementos para a História da Misericórdia de Lagos. O Porto e o seu termo … cit.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 147 nava que o Provedor fosse fidalgo. ainda que. os eleitos eram fidalgos oriundos das mais antigas linhagens ao serviço da casa de Bragança42. Todavia. p. Poder municipal e oligarquias … cit. Aqui. nas duas instituições. Já no compromisso de 1618 ao Escrivão e ao Tesoureiro exigir-se-lhes-ia que fossem nobres38. as suas origens. 42 Cf. Laurinda Abreu. aqueles que controlavam o poder nas Câmaras e as Misericórdias pertenciam ao estamento social da nobreza. Com efeito. Santa Casa da Misericórdia de Lagos. p. onde tivemos oportunidade de verificar que os ocupantes dos cargos da vereação e das mesas da Misericórdia Filipe I a D. estivessem em ocupações como as de mesteirais e comerciantes39. Em Setúbal. por exemplo. 86. 39 Cf. Portugaliae Monumenta Misericordiarum: fazer a História das Misericórdias. Francisco Ribeiro da Silva. para controlar a Câmara e a Misericórdia. Como Francisco Ribeiro da Silva afirma. 428. se terá passado em Ponta Delgada no século XVII43. 150. serviriam. em Vila Viçosa41. 40 Cf. Uma situação semelhante. 78. proprietários de ofícios da ordem de Santiago. ou ainda homens que se tinham nobilitado pelas armas40. segundo a tessitura social e económica do meio.. não muito remotas ao século XVII. Maria Marta Lobo de Araújo. A Santa Casa da Misericórdia … cit. Desta maneira verificamos que. O que já não acontecia em Évora. As mesmas armas que. 2002. e todas as actividades mercantis.. José Damião Rodrigues. p. Mafalda Soares da Cunha. Lagos. 44 Cf. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dissertação de mestrado policopiada). p. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro: pobreza e solidariedade (1600-1750). A Casa de Bragança … cit. 43 Cf. João V». Dar aos pobres e emprestar a Deus … cit.. 88. 377. não eram raros os casos de mesteirais que eram tidos como gente nobre na cidade do Porto. a partir do século XVIII. pp. Lisboa. 1998. . Isto sem esquecer que em Setúbal e Aveiro o mar. o sal. Mas sobre Vila Viçosa pairava a Casa de Bragança. I. União das Misericórdias Portuguesas. com autoridade e virtude. 38 Fernando Calapêz Corrêa.. 41 Cf.. sendo que. Coimbra.

essencialmente devido ao crescendo simbólico.148 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – entre 1580 e 1640 – provinham de antigas famílias de proprietários fundiários. As elites de Évora … cit. foi a partir da segunda metade do século XVI que as relações entre as duas instituições se intensificaram. Pelas semelhanças com as estruturas camarárias. as Santas Casas constituíram um desses campos. p. . protagonizando doravante a característica mais destacada deste relacionamento. 133. a vontade do poder central em uniformizar sistemas institucionais e políticos. Rute Pardal. Sugerem ainda. económico e político que o poder central conferiu às confrarias. isto é. Em suma. Um facto que atraiu o interesse das elites locais por estas instituições – apesar de tudo emergentes –. estas comunicações entre as Câmaras e as Misericórdias surgem como uma característica marcante na sociedade do Antigo Regime. que apresentámos atrás.. Todavia. a circulação entre os cargos da vereação e os cargos administrativos nas Misericórdias. fixando-se na região após a crise de 1383/138545. 45 Cf.

1986. . 380-438. 149-165. Coimbra – Fac. Quanto aos direitos de natureza tributária tinham origem em doações régias. Estatuto nobiliárquico Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. os denominados direitos reais. consignados em doações régias e forais. Os bens podiam ser de natureza patrimonial. 2005. justiça. in César de Oliveira (dir. Editorial Caminho. Das Origens às Constituintes. Nuno Gonçalo Monteiro – “Poder senhorial. provenientes de doações concedidas pelos monarcas. pp. saúde. Lisboa. Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Letras / Centro de História da Sociedade e da Cultura) Na época moderna. Instituições e poder político. constituída por casas nobres e eclesiásticas2. volume III. H. 1 Sobre as competências das câmaras vide. Dicionário de História de Portugal. XVII. exercidos num determinado território. Os direitos podiam ainda ser de natureza jurisdicional.Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes MARGARIDA SOBRAL NETO (Univ. compras ou trocas. 1994. 1996. ou em contratos realizados entre as entidades senhoriais e as pessoas que assumiam o compromisso de exploração agrícola das terras ou a posse de casas ou de outros bens. “O espaço político e social local”. cível ou crime. o território português estava coberto por uma rede de concelhos. António Hespanha – As vésperas do Leviathan.) – História dos Municípios e do poder local. ou de natureza régia. dotados de uma estrutura administrativa e judicial. 121-135. para além dos estudos monográficos. Nuno Gonçalo. 1971. CEFA. Coimbra. Monteiro. Coimbra. pp. adquiridos através de doações de particulares. de Oliveira Marques – “Regime senhorial”. Almedina. de entidades nobres e eclesiásticas ao longo das épocas medieval e moderna. pp. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Estes bens e direitos constituíram a base material de sustentação. enquanto fontes de renda e de poder. as seguin- 2 tes obras de síntese: Maria Helena da Cruz Coelho. Os senhorios eram constituídos por um conjunto de bens e direitos. Portugal -séc. 1992. Círculo de Leitores. Armando Castro – A Estrutura Dominial Portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834). Sobre os senhorios portugueses ver as sínteses elaboradas por: A. Lisboa. instrução – constituindo-se também como intermediária entre o poder central e as populações1. Sobrepondo-se e imbricando-se nesta rede concelhia encontramos uma rede de senhorios. que exercia o governo das terras em múltiplas áreas – economia.

etc. os dois mais importantes corpos do “sistema tradicional de poder” a nível local. Propomo-nos nesta comunicação reflectir sobre os condicionamentos. mas com particular incidência na Idade Média. Lisboa. pp. ouvidores. Entre o Antigo Regime e o liberalismo.cit. cit. pp. os oficiais periféricos da coroa tornavam-se agentes de donatários (Nuno Gonçalo Monteiro – As Câmaras no equilíbrio dos poderes: funções sociais e dinâmicas locais. Mafalda Soares da Cunha – Práticas do poder senhorial à escala local e regional (fins do século XV a 1640). in Nova História de Portugal. escrivães. Elites e poder. IV. H. in História de Portugal. 4 Em 1640.) – “História dos Municípios e do poder local”. e em regimentos publicados posteriormente. ICS.. in César de Oliveira ( dir. XVII.. in César de Oliveira ( dir. alcaides. na época moderna. Maria Rosa Ferreira – “Senhorios”.5 De acordo com o estabelecido nas Ordenações. no exercício do poder e na apropriação de recursos dos espaços em que dominavam. 380-438. pp. aos juízes de fora ou aos ordinários a condução e supervisão dos processos eleitorais. 143-153. os conteúdos dos seus poderes. algumas casas senhoriais de instrumentos de natureza jurisdicional susceptíveis de lhes assegurarem o controlo político e social das comunidades locais que tutelavam3. de acordo com os titulares dos senhorios. 554 – 584. Instituições e poder político. III (Portugal em definição de fronteiras. como em outros casos. Op. 584-602.150 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Senhorios e concelhos foram. juízes dos órfãos. Lisboa. coord. Em algumas terras senhoriais essas funções eram asseguradas pelos donatários. Idem. 2003. 3 Maria Helena da Cruz Coelho – “Concelhos”. de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena da Cruz Coelho). bem como com os instrumentos ao dispor dos donatários e que lhes permitiam ser mais ou menos eficazes no exercício do poder senhorial. 1996. que exerciam funções similares às dos corregedores. vol. almoxarifes. Neste. ou os bloqueios. 5 António Hespanha – As vésperas do Leviathan. ao longo do tempo. 1996.) – “História dos Municípios e do poder local”. Esses instrumentos consistiam no privilégio de nomearem juízes de fora4.cit. ao exercício do poder concelhio decorrentes das presenças senhoriais nos territórios concelhios. 333-357. O domínio senhorial sobre a vida concelhia terá assumido formas muito diversificadas. Marreiros. de apresentarem. confirmarem ou apurarem os elencos dos governos concelhios – os juízes. 16% dos juizes de fora eram nomeados pela Casa de Bragança. Círculo de Leitores. Op. . Joel Serrão e A. concorrentes. 150-151). pp. de Oliveira Marques. Op. Os monarcas dotaram. no entanto. pp. os vereadores e os procuradores – bem como de apresentarem ou nomearem diversos oficiais que exerciam funções no seio dos concelhos – tabeliães. Lisboa. Círculo de Leitores. vol. dir. Lisboa. pp. competia aos corregedores. ouvidoe aristocracia”. 1993. in Nova História de Portugal. Do condado portucalense à crise do século XIV.. Portugal-séc.

do autor. no entanto que. Administração. 141-144. Com efeito. Sociedade e Economia. do seu poder de apresentar. mas por favas. 6 Maria Helena da Cruz Coelho. pp. 1997. favoráveis à prossecução dos seus interesses. as eleições não eram feitas por pelouros. regimento aplicável às terras cujas pautas não iam apurar ao Desembargo do Paço. e saber igualmente se esses instrumentos geraram “sujeições e obediências”. nomeadamente o facto de se colocarem no governo das terras pessoas que não tinham as “qualidades para servirem”6. Braga. “Análise Social”. segundo Rogério Borralheiro. bem como a forma como esses processos decorriam. A intervenção senhorial na escolha dos elencos camarários decorria. 7 Rogério Capelo Pereira Borralheiro – O Município de Chaves Entre o Absolutismo e o Liberalismo (1790-1834). XXVIII (121). fazia com que o sistema de escolha das vereações fosse auto-reprodutivo8. o processo eleitoral em vigor nas terras da Coroa. 345-369. Op. De notar. a legislação que regulava os processos eleitorais. circunstância que podia interferir na selecção das pessoas que eram integradas em pauta. de fora ou ordinários. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. tornando muito mais difícil a penetração de novos membros no seio das oligarquias fiéis às casas senhoriais. cit.. 8 Rui Santos – Senhores da terra. apresentava como principal objectivo impedir “subornos e desordens” ocorridos nos processos eleitorais. nas terras da Casa de Bragança o processo eleitoral não seguia o modelo das terras régias e senhoriais. no entanto. A forma como se processavam as eleições nas terras da Casa de Bragança reforçava essa característica do sistema. como é que os senhores utilizaram os instrumentos de que dispunham. Estes instrumentos estão há muito identificados pela historiografia construída com base em fontes legislativas e doutrinárias. Na prática este regimento aplicou às terras senhoriais. ou às integradas nos termos dos concelhos. bem como atribuía um papel mais interveniente da vereação cessante na escolha da nova vereação7. nomeados pela entidade senhorial. inserindo-se assim num processo de uniformização de práticas judiciais e administrativas locais. conferia uma “forte autonomia ao Duque face ao Rei”. método que. . 1993 (2. Como bem observou Rui Santos. nos concelhos cujas pautas eram apuradas pela chancelaria desta casa.º). O regimento para a eleição dos vereadores de 1611. Das Origens às Constituintes. bem como em documentos que enunciam os poderes senhoriais. ed.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 151 res ou por juízes. confirmar ou apurar os oficiais das governanças. O que importa saber é. Senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII. pp. igualmente.

exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. à intervenção na escolha das elites concelhias. A intervenção do poder senhorial nas eleições foi. na primeira metade do século XVIII. porém. substituíram o oficialato local na governança da terra (Maria do Rosário Castiço de Campos – Redes de Sociabilidade e Poder. concelho integrado na ouvidoria de Montemor-o-Velho. suscitando a contestação das comunidades. e enviadas à casa de Aveiro. a passagem do domínio da Casa de Aveiro para o da Coroa levou a uma reconfiguração social das vereações. A acção dos donatários não se confinava. dissertação de doutoramento policopiada). Afirmavam “que as eleições deveriam ser feitas só pelos povos e o mosteiro abusando mandava a ellas presidir dois religiosos e nellas faziam votar as pessoas que os ditos religiosos lhe parecia sahindo eleitos todos os seus afilhados”11. 160-165). com as confirmadas por esta Casa levaram o mesmo autor a concluir que o Duque não se limitava a confirmar as listas decorrentes dos processos eleitorais locais. Com efeito. 2003.152 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Outro caso em que se evidencia um forte controlo senhorial dos governos concelhios é o do município da Lousã.. . As pessoas “principais da terra”. Por sua vez. 2 vols. o escrivão do couto Brito Aranha era “ o mais grosso detentor de terras arrendadas” ( Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. 1979. Propriedade. o confronto entre as listas das pessoas nomeadas em pauta. quatro carneiros e 12 galinhas. Com efeito. os moradores do couto de Tibães denunciaram as intromissões do donatário nas eleições. detentoras de propriedades vinculadas em morgadio. Alguns acompanharam muito de perto as práticas de governo. a partir de meados do século XVIII verificou-se um processo de elitização dos elencos camarários. por vezes. pp. devendo o juiz fazer oferta ao mosteiro de 4 leitões. Lousã no século XVIII.º 11-12. Porto. 58 10 De notar ainda que. pessoas indicadas pelo donatário que não constavam das pautas. exerceram o cargo de vereadores. o procurador e outros oficiais concelhios. 1630/80-1813. p. “ARUNCE”. Na sua dependência. neste município. n.. 11 Neste couto o juiz era escolhido com base em dois nomes eleitos pela população. na Lousã. 9 Sérgio Soares – O ducado de Aveiro e a vila da Lousã no século XVIII (1732-1759). o que evidencia a intervenção directa da casa senhorial na selecção dos elencos camarários10. ficavam os vereadores. dependente da Casa de Aveiro. policopiada. Sérgio Soares num estudo referente a este município concluiu que o governo concelhio era exercido pelo oficialato local provido pelo Duque de Aveiro que se comportava como uma clientela na estreita dependência da casa senhorial9. Por sua vez. A cerimónia de investidura realizava-se na Abadia. Em 1718. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. considerada abusiva.

14 Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. Op.. nomeando ouvidores. a jurisdição em Montemor-o-Novo foi exercida por entidades senhoriais. 15 FONSECA. Teresa – Administração senhorial e relações de poder no concelho do Vimieiro (1750-1801). Para além da fruição de prerrogativas concedidas pelo monarca.cit. p. os frades determinaram que não se deixasse “abrir monte sem licença de quem presidir no Mosteiro e de nenhuma sorte se conceder licença a Camara do Couto para os abrir” (Op. Por sua vez. Propriedade. VI.cit. Separata da “Revista da Faculdade de Letras”. o 12 Para a época medieval vide Maria Helena da Cruz Coelho – Entre poderes – Análise de alguns casos na centúria de quatrocentos. juízes ordinários. substituindo-se às justiças locais na decisão de matérias de interesse para o senhorio – caso da gestão dos espaços incultos18. Um dos donatários. os abades de Tibães. p. 1989. Montemor-o-Novo.] de modo que quem julgava era o frade e os officiais viam-se metidos a testemunhas” (Op. facto que motivou um pedido do concelho ao monarca no sentido de o manter “em sua antyga liberdade” quando se conseguiu libertar da tutela senhorial17. 18 Em 1718 os moradores do couto afirmavam que “a Abbadia se intrometia nas correições que a camara fazia 2 vezes por anno mandando juntamente um religiozo[. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. este senhor ultrapassou os limites do seu poder. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. . 67. Porto. 103-135. 166). p. 1998. em capítulo realizado em 1770. II série. entretanto.cit. 168).SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 153 O conhecimento histórico sobre as relações entre donatários e câmaras é ainda escasso. testemunham um “efectivo domínio das instituições concelhias por parte de donatários”16. de Aurélio de Oliveira acerca dos coutos beneditinos de Tibães na época moderna14 e o estudo de Teresa da Fonseca relativo à administração senhorial no concelho de Vimieiro na segunda metade do século XVIII15. D.. diversas articulações entre poder senhorial e concelhio. p. Neste couto. 13 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. Os estudos de Jorge Fonseca sobre Montemor-o-Novo no século XV13. Aguardam-se os estudos monográficos que permitam esclarecer a forma como interactuaram estes dois poderes.. ao longo da época moderna. 16 Idem.. exerceram um controlo apertado sobre as governanças concelhias do couto. pp. João de Bragança. nos diversos municípios com tutela senhorial12. 1998. As investigações já realizadas revelam-nos. 1630/80-1813.. Op. cit. Por sua vez. Câmara Municipal de Arraiolos. 17 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. tabeliães e dando posse às vereações e outros oficiais. vol. Arraiolos. 64. No século XV. desempenhou todos os direitos inerentes à jurisdição cível e crime. a partir dos finais do século XVII.

tendo sido os vereadores ameaçados com penas pecuniárias e de prisão se não executassem as ordens do ouvidor. A intervenção senhorial na governação concelhia foi. 21 Idem. 19 20 Op. Sancho de Faro e Sousa conferiu “alguma regularidade e disciplina à administração municipal”19. 260 . uma intervenção autoritária nas práticas de governo concelhio. no entanto. a atitude “vigilante e autoritária” do conde D. neste caso. a distância terá condicionado o exercício do poder senhorial. Segundo a mesma autora. Teresa Fonseca defende ainda que as práticas esclarecidas de exercício do poder dos senhores de Vimieiro se caracterizaram pelo respeito pelo poder régio e pelo empenhamento no cumprimento das leis. Assumindo posição idêntica aos abades de Tibães. este autor considera ter existido “compatibilidade entre o domínio senhorial e o municipalismo” e “que a dinâmica municipal pôde processar-se na dependência directa de um senhor de vassalos sem que as instituições concelhias fossem bloqueadas”20. Neste condado. p. atitude que motivou. devido à proximidade física dos donatários das terras que dominavam. cit. p. impondo a observância da lei. 1989. algumas vezes requerida pelos próprios vereadores vimieirenses em matérias que lhes suscitavam dúvidas ou naquelas em que era difícil obter consensos. por vezes. 65.154 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS donatário deixava para a câmara apenas as matérias relativas à regulamentação do comércio local. A perda de autonomia municipal terá sido. defendendo a jurisdição do Donatário e os direitos dos vassalos”21. “denunciando ilegalidades. Outro tipo de relação entre donatário e concelhos é o evidenciado no estudo de Francisco Ribeiro da Silva sobre a “Estrutura administrativa do condado da Feira”. Francisco Ribeiro da Silva – “Estrutura administrativa do condado da Feira no século XVII”. IV. o exercício do poder senhorial foi desempenhado pelo ouvidor que acompanhou “muito de perto a acção governativa” da câmara. Os ouvidores deste senhorio revelaram um particular empenhamento na defesa dos interesses das populações. os donatários do Vimieiro apropriaram-se das funções administrativas da câmara esvaziando-a das competências exercidas por outros municípios. pp. 255-271. nos casos atrás enunciados. Com efeito. O controlo apertado da actuação das vereações e a “usurpação” das suas competências foi possível. Com efeito. como acontecia com o poder régio. vol.. Revista de Ciências Históricas. favorável às boas práticas da governação concelhia e à prossecução do bem comum.

Percursos bem sucedidos podiam mesmo conduzir ao cargo de desembargador da Casa”24. em 1587. 9 e 15. Ora um percurso bem sucedido de ouvidor podia decorrer. José de Mascarenhas. na casa de Bragança. de um bom desempenho na cobrança de rendas. defendendo as suas jurisdições contra as investidas das justiças régias”. O Governo e a administração económica e financeira. podia condicionar a prossecução das suas próprias carreiras. na escolha dos elencos camarários. De notar ainda que mesmo a 22 O Município de Braga de 1750 a 1834. 1991.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 155 Como decorre do atrás exposto. 291. D. 2000. já exerceu o seu poder em articulação com a “política nacional”. Dom Gaspar. 25 Tomé de Mesquita. Mafalda Sousa Soares afirma que “a maioria ascendia a ouvidores depois de exercer o cargo de juiz de fora em vários concelhos do senhorio. no reinado de D. o poder senhorial com o poder régio na submissão do poder concelhio. convinha apurar se as práticas dos governos concelhios que passavam pelo crivo da selecção das casas senhoriais se pautaram ou não pela defesa dos interesses dessas casas. p. Nesta matéria. bem como no cumprimento de outras funções. as atitudes do donatário do Vimieiro e dos ouvidores do condado da feira actuaram no sentido da aplicação das leis e ordens régias. José Viriato Capela demonstra que. função que recorrentemente assumiram25. Práticas senhoriais e redes clientelares. Braga. caso dos ouvidores. em estudo relativo à Lousã. o Arcebispo de Braga. Lisboa. pp. Sérgio Soares. 24 Mafalda Soares da Cunha – A Casa de Bragança (1500-1640).. no entanto. João V. bem como a obtenção de outros recursos senhoriais.59. Estampa. Para além do papel mais ou menos interveniente dos donatários e dos oficiais por eles providos. recebeu. governou “o senhorio temporal da cidade e seus coutos com poder soberano e postura de príncipe. o seu sucessor. seria novamente recompensado com a quantia de 12 mil réis pelos arrendamentos feitos na Comarca de . assim. 20 mil réis “pelos arrendamentos que fez a favor do Duque”. Referindo-se aos juízes de fora providos pelo duque de Bragança. 23 Cit. comportando-se os ouvidores-provedores nomeados pelo donatário como magistrados régios22. Em 1589. concluiu que o grupo de oficiais que estava dependente da distribuição dos “recursos senhoriais” da casa de Aveiro se constituía como um núcleo de “obediências e fidelidades senhoriais”23. o comportamento dos donatários podia. variar em função da conjuntura e dos seus interesses pessoais. Compreende-se que assim fosse se tivermos em conta que o bom desempenho das clientelas senhoriais no exercício do governo concelhio. convergindo. ouvidor das comarcas de Barcelos e Bragança. p. Por sua vez.

os deputados da Junta da Fazenda protestaram contra a nomeação do juiz de fora de Viseu para o exercício do mesmo cargo em Lamego. Nestes. As “obediências e fidelidades senhoriais” podiam. enquanto vereadores. 27 Nuno Gonçalo Monteiro – O espaço político e social local. Frades e Forais: Revolução Liberal e Regime Senhorial na Comarca de Alcobaça (1820-1824). relativamente à defesa dos interesses das casas senhoriais de que estavam dependentes.Lavradores. cit. A Universidade de Coimbra possuía o privilégio de poder recorrer aos juízes de fora e corregedores para executar os seus devedores. Nuno Gonçalo Monteiro . situação que se revelaria propícia à desobediência às entidades senhoriais das quais estavam dependentes. um beneficio para se constituir como um pesado encargo a que muitos tentavam fugir. recursos que seriam significativos nas vilas e cidades. . De facto. nos finais do Antigo Regime. Ponta Delgada no séc. p. pelo facto de este não ter tido um bom desempenho na execução das dívidas da Universidade. Bragança (cf. o exercício do governo concelhio ao longo do século XVIII deixou de ser. Manuel Inácio Pestana – Barcelos nos Arquivos da Casa de Bragança. Instituto Cultural de Ponta Delgada. José Damião Rodrigues demonstra que “o compadrio e o clientelismo” são factores a ter em conta na compreensão das relações entre poder senhorial e poder municipal em Ponta Delgada no século XVII26. 274-318. considerava que devia ser ouvida quando se avaliava o desempenho desses oficiais no momento do apuramento das residências. decorrer do relacionamento pessoal entre as vereações e os donatários. eram também os seus. n. 46. sublinhe-se. concluiu que as casas senhoriais não tinham capacidade de controlo sobre os governos das terras27. Lisboa. 31-87. p. em 11 de Novembro de 1786. Ponta Delgada. A atitude das vereações concelhias. Mercês do Duque D. Devido a esta circunstância. em “Ler História”. Separata de “Barcellos-Revista”. 26 José Damião Rodrigues – Poder municipal e oligarquias urbanas.156 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS carreira dos oficiais régios podia ser afectada pela forma como desempenhavam determinados serviços às casas senhoriais. XVII. Teodósio I. 159.1985. muitas câmaras assumiram no movimento de contestação anti-senhorial a defesa dos interesses das comunidades que governavam – interesses que.º 4. pp. seria naturalmente condicionada pelos recursos que estas tinham para distribuir. 1(2) 1983. Nuno Monteiro invocando o comportamento dos oficiais concelhios nas terras do mosteiro de Alcobaça. e enquanto pagadores de direitos senhoriais – em detrimento das instituições que os tutelavam.. em muitos casos. ainda. 1994. De acordo com este entendimento. pp. de menor monta nos pequenos concelhos.

ao longo dos conflitos. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. 21-30). por exemplo a perda das terras que agricultavam ou o pagamento de indemnizações às casas senhoriais ou custas de processos29. bem como a identificar algumas variações na atitude que manifestaram durante os processos de contestação. por norma.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 157 Uma análise detalhada das atitudes das governanças. dos pequenos concelhos. por parte dos membros da vereação. originado pela recusa de pagamento de direitos senhoriais e contestação de domínio directo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Licínio Gomes Neves – A comunidade rural de S. 1700-1834. Coimbra. Já os juízes ordinários se manifestaram. pp. Palimage Editores. O mesmo tribunal condenaria. 2003. por norma. ao pagamento de uma indemnização ao convento (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. os moradores de S. em 7 de Janeiro de 1749. Viseu. tese de mestrado policopiada. Faculdade de Letras. pelo tribunal da Relação do Porto. se revelaram mais rebeldes assumindo protagonismo em alguns movimentos. 179-320. a introduzir alguns matizes no comportamento dos diversos membros das vereações. porque se podia apoiar em múltiplos argumentos jurídicos. pp. tese de mestrado policopiada. tentando. entretanto. 1997. Com efeito. como era. confrontar uma vereação concelhia “rebelde” com um documento em que vereações anteriores tinham reconhecido 28 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. 2003. no momento da realização de um tombo. Estruturas. alguns consagrados em forais. alguns moradores foram condenados. Não era. 29 Por terem recusado reconhecer o mosteiro de Celas (Coimbra) como donatário de Eiras. Um deles era o que registava os “reconhecimentos” feitos pelos oficiais concelhios no momento da elaboração dos tombos. . as desistências da contestação. mais prudentes no apoio explícito às populações28. assim como de outros poderosos locais. a posição dos senhorios era. salvaguardar-se das represálias motivadas pela desobediência às casas senhoriais. pp. assim. sobretudo aqueles que seguiam as vias judiciais. 177-183. Região de Coimbra. portanto difícil. redes e dinâmicas sociais. Em momentos de contestação. mais forte do que a dos concelhos. e consequentes proclamações de obediência. aquando da realização dos tombos os oficiais concelhios eram chamados a reconhecer o domínio das casas senhoriais. João do Monte ao pagamento das custas de um processo judicial.João do Monte: propriedade e relações sociais (1786-1820). pelo menos dos pequenos concelhos. quando se apercebiam que não conseguiam atingir os seus objectivos. De notar ainda que são muito frequentes. Os estudos que tenho elaborado sobre esta matéria levam-me a concluir que os procuradores dos concelhos. pessoas que por norma tinham uma condição social inferior à dos vereadores. Faculdade de Letras. em 9 de Julho de 1814. bem como os direitos que lhe eram devidos. Coimbra. leva-nos.

Senhorio e propriedade: 1520-1720 (formação. Porto. um dos lugares do termo de Coimbra. e consequentes conflitos. nos estudos que realizaram sobre o município de Coimbra. a jurisdição cível e/ou crime. 1700-1834. De facto. . doada a Dom Luís de Meneses. 89-95. 28. A concorrência. 1985. 31 António de Oliveira – A vida económica e social de Coimbra. confrontou-se ao longo do século XVIII com idêntico problema.I. I. Conflitos de jurisdição ocorreram igualmente entre a câmara do Porto e os donatários que senhoreavam no termo da cidade33. Atitudes mais radicais das vereações ocorreram. tese de doutoramento policopiada.158 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a obrigação de satisfazer ao senhor tributos. situação que provocava frequentes conflitos de jurisdição32. por vezes reconhecida pelas câmaras. em alguns lugares do termo. 30 Margarida Sobral Neto – Regime senhorial em Ansião. foi particularmente evidentes nos termos das vilas e das cidades em que a sede concelhia estava na dependência régia. I. Coimbra. intensificou-se. Faculdade de Letras. entretanto. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII. Problemas que se materializaram na tentativa de apropriação da jurisdição crime por parte dos donatários que apenas detinham a cível. as instituições e o poder. 1971. e outras “opressões”.cit. 33 Francisco Ribeiro da Silva – O Porto e o seu termo (1580-1640). Coimbra. evidenciaram os múltiplos problemas com que a vereação coimbrã se deparou nos lugares do termo em que exercia apenas a jurisdição crime. Região de Coimbra. Sérgio Cunha Soares – O Município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. “Revista Portuguesa de História”. 32 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Um dos conflitos ocorreu com o mosteiro de Grijó (Inês Amorim. foi desmembrado deste concelho para assumir o estatuto de vila. pp. Poder e poderosos. ou na dificuldade em cobrar impostos municipais nas áreas em que detinha apenas jurisdição cível31. foi um poderoso argumento invocado pelas casas senhoriais em momentos de conflito com as comunidades locais. Faculdade de Letras. entre casas senhoriais e câmaras. assumindo a vereação um evidente protagonismo30. vol. 1997. Braga. 59-94. a contestação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. O mosteiro de Grijó. senhorio territorial deste lugar. quando um concelho em luta contra uma casa senhorial. contava com o apoio de outro senhor. pp. Op. A partir do momento em que Ansião. António de Oliveira e Sérgio Soares. que eram objecto da sua contestação. exercendo os senhorios. 1995. Os homens . A posse alicerçada na tradição imemorial. argumento que lhes ditou muitas sentenças favoráveis. vol. vol. 1993. concelho em cujo termo senhoreavam também vários senhores leigos e eclesiásticos. Coimbra. na maioria dos concelhos do termo apenas exercia jurisdição crime. estrutura e exploração do seu domínio). A vereação de Montemor-o-Velho.

juiz privativo de várias casas senhoriais. Op. Op.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 159 O facto de os juízes de primeira instância das localidades do termo concelhio não serem confirmados pelas vereação da sede concelhia.. I. Poder e Poderosos na Idade Moderna... por norma. pp. Op. Entre eles destacam-se as regalias em matéria de abastecimento de carne. cit. p. Por sua vez. pp. várias são as queixas contra o conservador da Universidade. vol. De notar que as vereações das sedes concelhias dispunham de instrumentos de coacção das justiças dos concelhos do termo. As pastagens de animais pertencentes a comunidades religiosas suscitaram também frequentes conflitos37. cit. que poderiam ser accionados contra quem contestasse o seu poder. em 1750. Absolutismo e municipalismo. Teresa Fonseca. peixe e água.. que podiam ir até à prisão de juízes ordinários em casos de clara desobediência34. pp. Sérgio Cunha Soares – O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. por ser “cabeça de motim em os juizos das sete varas de Poiares se levantarem contra a jurisdisam do Senado da Camara”. 1700-1834. 121-124. na cadeia de Coimbra. Sobre o relacionamento entre a câmara de Évora e outras instituições da cidade cf.) Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. Região de Coimbra. na região de Coimbra. 341-351. estatuto nobiliárquico e aristocracia. foram presos o procurador do concelho de Algaça e os juizes do concelho de Canedo e Hombres (Cf. Os senhorios não jurisdicionais possuíam outros instrumentos. por elas confirmadas. Entre eles destaca-se a prerrogativa de possuir juiz privativo35. Acrescente-se ainda que o conservador da Universidade chegou a contradizer posições assumidas pelo ouvidor da mesma instituição. ou pelos seus representantes. As instituições senhoriais sediadas sobretudo nas cidades usufruíam de outros privilégios que colidiam com o exercício das competências das câmaras. que julgava. Mas os concelhos não foram condicionados apenas pelas entidades que detinha direitos jurisdicionais nos seus territórios. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Nos finais do século XVIII. era a capacidade de intervenção na escolha de oficiais das orde- 34 35 36 37 Em 1724 estava preso. mas serem investidos pelos donatários. ..cit. in “História de Portugal”. e que podia condicionar o jogo de forças a nível local. Op. o procurador do concelho de Algaça. cit. 352-353. Outro poderoso instrumento que detinham algumas casas senhoriais. 62. facto que se repercutia muito negativamente no exercício do poder concelhio. anulando assim funções de controlo do exercício do poder senhorial assumidas por aquele36. Évora 1750-1820. em desfavor das populações. traduzia-se numa perda efectiva de controlo e de capacidade de dominação sobre o governo dos termos concelhios. “subtraindo-o” às câmaras. conferidos pelos monarcas.

Argumento pertinente. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816.160 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nanças. entretanto. p. in César de Oliveira (dir. . cf. os capitães de ordenança efectuaram a cobrança de rendas assegurando. O excesso do zelo com que pautou a sua acção. as receitas que alimentavam as casas senhoriais. Um dos principais alvos de contestação das populações foram os cobradores de rendas das casas senhoriais. assumiram-se como zelosos defensores dos interesses dos senhorios (que eram também os seus) contra os das comunidades. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Maria Helena da Cruz Coelho. em tempos de instabilidade. que se distinguiu pela sua capacidade de vencer a resistência da população e da câmara de Cantanhede ao pagamento dos pesados direitos senhoriais. levaria. separata de “O Faial e a periferia açoriana nos séculos XV a XX”. 31-32. 1995. de alguns agentes senhoriais rompiam equilíbrios que os donatários queriam preservar. Ora. bem como outros privilégios de que os monarcas dotaram as casas senhoriais. deste modo. em defesa dos interesses do donatário.) – História dos Municípios e do poder local. rendeiro do Marquês de Marialva. Das Origens às Constituintes. Op. Horta. Montemor-o-Novo. Nuno Monteiro invocando o papel de liderança dos capitães de ordenanças no movimento de contestação anti-senhorial afirmou que o facto de o cargo ser vitalício conferia aos capitães uma margem de liberdade relativamente às entidades que os tinham nomeado. 1998. 39 Nuno Gonçalo Monteiro – “Os Poderes Locais no Antigo Regime”. revelaram-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos nas áreas con38 Sobre os poderes e a organização das ordenanças. os poderes jurisdicionais. Nestes casos. pp. pensamos que a situação de conflito não seria a desejada por instituições que viviam num sistema marcado pela coexistência de múltiplos corpos e poderes. pp. as mãos do poder senhorial que invadiam os campos. ou a avidez. cargos muito requeridos a nível local pelo prestígio que conferiam e também pela capacidade de domínio sobre as populações38. 152-163. Mas no movimento de contestação anti-senhorial os capitães de ordenanças assumiram atitudes diversas. o excesso de zelo. se o conflito marcou muitas vezes o relacionamento entre poderes concelhios e senhoriais. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.. José Damião – Orgânica militar e estruturação social: companhias e oficiais de ordenança em São Jorge (séculos XVI-XVIII). cit. 352. Um exemplo paradigmático é revelado por Nuno Monteiro: o caso de um capitão-mor. Como já afirmámos. os celeiros e os lagares esbulhando os camponeses de uma parte substancial do produto do seu trabalho. Na verdade. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. o próprio Marquês de Marialva a afastá-lo do exercício da actividade de rendeiro39. Com efeito. Rodrigues.

mas um deles. Op. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. Por 40 José Viriato Capela – O Minho e os seus municípios. Os privilégios senhoriais. Como é sabido. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. diminuindo a matéria colectável dos concelhos. . Luís Nuno Rodrigues – Um século de Finanças Municipais: Caldas da Rainha (1720-1820). Os historiadores que se têm dedicado ao estudo das finanças concelhias são unânimes em concluir que as dificuldades financeiras das câmaras foram um fenómeno estrutural no Antigo regime. 1995. estradas. e talvez o de maior peso. Alguns destes traduziam-se num conjunto de isenções relativas às obrigações concelhias: isenção do exercício de cargos concelhios. Entre as dificuldades económicas das câmaras. Braga. municipais ou sobejos de tributos régios. Constituíam fontes de receitas das câmaras tributos. nomeadamente no que concerne à realização de infra-estruturas: construção de estradas. em manifesto prejuízo do governança concelhia. A sociedade de Antigo Regime estruturava-se no privilégio.. em múltiplas áreas. e de pagamento de coimas e de tributos. assumiam-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos económicos das comunidades. nas áreas de domínio de senhorios. Esta concorrência podia assumir diversas formas que passarei a explicitar. cabia às câmaras a gestão corrente da vida das comunidades. o que se reflectia negativamente nas finanças concelhias. cit. 1992. nomeadamente as praticadas contra a legislação municipal40.º 7. pontes. Este financiamento provinha de recursos gerados pela riqueza que se produzia no seio das comunidades. Uma das estratégias utilizadas pelos senhores. 106-151. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. condição de diferenciação social transversal aos diversos grupos sociais. Universidade do Minho. coimas decorrentes de transgressões. caso das sisas. pp. de participação em trabalhos exigidos pelas câmaras. foi a concorrência feita por estes na apropriação de recursos. para além do seu peso político e simbólico. na Idade Média. destacava-se a de custear a reparação ou construção de caminhos. Esta gestão pressupunha a existência de uma máquina administrativa que para funcionar necessitava de financiamento. n. Podem ser invocadas diversas explicações para os problemas financeiros das câmaras. constituindo-se como um factor de bloqueio ao desenvolvimento das políticas concelhias. para atrair gentes aos seus territórios foi a concessão de privilégios aos seus “caseiros”. Foi em matéria de captação de proventos económicos que a concorrência senhorial foi particularmente evidente. rendimentos provenientes da gestão dos bens dos concelhos. pontes ou fontes. reparação de edifícios camarários ou de cadeias. “Penélope”.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 161 celhias.

no Séc. por vezes. Outro dos privilégios dos foreiros das casas senhoriais era a isenção de coimas. tentavam obrigar os habitantes da comunidade que viviam do seu trabalho. Ana Isabel Ribeiro – Um conflito entre poderes na Gândara da Bunhosa no início do século XVII. nomeadamente as áreas de pastagem. Imprensa da Universidade. ou jurisdicional. “O Distrito de Braga”. volume III da 2.cit. Nos conflitos entre senhores e câmaras motivados pela posse de áreas incultas – alguns deram origem a longos processos judiciais – estavam em causas motivações de natureza política. principalmente nas zonas onde se concentravam muitas casas senhoriais. mas também no país.. p. o que podia confinar a área do património concelhio a escassas terras42.162 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS este motivo. as câmaras a realizar contratos de aforamento de terras incultas para preservar áreas de utilização comunitária. que era ciosamente guardado por aqueles que o usufruíam.. à partida. 2. reflectia-se no quotidiano das comunidades. “Revista Portuguesa de História”. pp. as áreas incultas cobriam percentagens sig- 41 A existência de privilegiados. Op. 43 José Viriato Capela – Tensões Sociais na Região de Entre-Douro e Minho. Julho-Dezembro. 1978. 1858.186). vol. 14. Porto. Lisboa. 1700-1834.Uma Provisão sobre Foros e Baldios: problemas referentes a terras de logradouro comum na região de Coimbra. a prestar serviços gratuitos. 183-223. Ora os senhorios reivindicavam por norma o domínio directo sobre toda a área cultivada e inculta situada nas suas áreas de domínio. exploração e produção agrícola (1570-1834). e de natureza económica. Em 1618. Ora do universo dos potenciais prestadores de trabalho gratuito excluíam-se. Um conflito em que por norma saíam vencedores os senhores. o procurador da Câmara de Coimbra invocava a existência de muitos privilegiados na cidade para se eximir ao pagamento de uma finta para as obras do Reino (Aires de Campo – Questões forenses. 91-101. as pessoas que possuíam o domínio útil de terras das casas senhoriais. . XXXII. como era por exemplo a região centro41. Este privilégio. susceptíveis também de gerar receitas para os municípios. Coimbra. Muitas destas eram aplicadas às pessoas que transgrediam os regulamentos concelhios de utilização de áreas incultas. Região de Coimbra. A apropriação dos recursos das áreas incultas constituiu um dos principais motivos de confronto entre senhorios. pp. 42 Margarida Sobral Neto . 587-631. t. XVIII. 2000 (dissertação de doutoramento policopiada).. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito.ª série (VII). e câmaras43. jornaleiros ou lavradores. abarcando agora um leque mais amplo. obrigando. pp. sobretudo eclesiásticos. Com efeito. bem como pelas casas senhoriais que lho haviam concedido.. “Revista de História Económica e Social”. traduzia-se num forte constrangimento da acção camarária. Salvador Mota –O senhorio cisterciense de Sta Maria de Bouro: património. propriedade.1984.

após a consulta das vereações. Muitos forais manuelinos que reconheciam o domínio senhorial sobre as terras incultas. intervinham. Tendo em conta a complementaridade existente entre áreas cultivadas e incultas as alienações destas. Com efeito. A cobrança era intermediada através de contratadores de rendas que. também. aliás. seriam os grandes negociantes de pro- . isto é. Mas os prejuízos mais visíveis eram de facto os de natureza económica: a impossibilidade de utilizar as terras incultas como fonte de receita significava uma enorme perda para as receitas municipais. que se pautavam pela auto-suficiência. Com efeito. por parte dos senhorios. alienando os espaços incultos sem consultar as vereações. as câmaras para além de intervirem na agricultura. no entanto. o domínio das casas senhoriais sobre os incultos era abusivo. enquanto entidades a quem competia salvaguardar o bem comum. Ora. Estas eram assim detentoras de produtos agrícolas para consumo nas próprias casas. directamente aos senhorios. no entanto.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 163 nificativas dos territórios concelhios. determinavam que a sua alienação fosse feita “em camera”. como afirmou Aurélio de Oliveira. sector no qual o abastecimento se assumia como principal preocupação. nesta área as políticas concelhias podiam ser afectadas pelos interesses dos senhores. Ora a impossibilidade de controlar os usos dessas áreas acarretava uma perda efectiva de poder sobre o território concelhio. destinando-se. como senhoras absolutas do que consideravam os seus domínios. no sentido de evitar a saída de produtos necessários ao consumo do concelho. base da alimentação das populações. situando-se parte delas nas zonas fronteiriças entre concelhos. a diminuição das áreas de pastagem provocava uma diminuição da criação de gado o que interferia igualmente no abastecimento. o grosso a ser comercializado. também. Este facto repercutia-se negativamente no exercício de uma das principais competências dos concelhos: o governo económico. As casas senhoriais comportavam-se. provocaram um desequilíbrio susceptível de afectar a produção e produtividade agrícola bem como a criação de gado. Este pagamento não era feito. o que estava disposto na lei. contrariando. no comércio de géneros alimentares. num tempo em que a renovação da fertilidade da terra passava pela utilização de adubos vegetais e animais a subtracção de terras que eram o suporte para a criação desses fertilizantes afectava os níveis de produção e de produtividade com repercussões directas no abastecimento em cereais. uma parte significativa da produção agrícola destinava-se ao pagamento de diversos direitos às casas senhoriais. por norma. e também das câmaras. Em articulação com as políticas de abastecimento. Por sua vez. Em muitos casos.

46 A população de Eiras e o mosteiro de Celas confrontaram-se. p.cit). Ora. redes e dinâmicas sociais. Com efeito. nomeadamente os decorrentes da subida de preços. bem como o movimento de contestação anti-senhorial. o concelho de Montemor-o-Novo solicitou a D. “se confundia com a cobrança de direitos e não com as jurisdições”47. apesar dos protestos das populações e das câmaras46. 47 Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. Alguns estudos sobre rendas agrícolas. n. Alguns aspectos e problemas. pelo menos na zona de Entre Douro e Minho44. Ora. pp. 67). de acordo com o estabelecido nas Ordenações um terço da produção teria que ficar sempre no concelho em que era produzido. pertencente ao município. ao longo do século XVIII. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. E observou ainda que “tanto para os donatários leigos como para os eclesiásticos o 44 Aurélio de Oliveira – A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Regime (Séculos XVII-XVIII). p. com as necessárias consequências negativas para alguns estratos da população. Mas teriam os contratadores de rendas respeitado sempre esse princípio? Esta é uma pergunta que eu venho a colocar aos documentos há já algum tempo. Com a mesma política colidiam os monopólios senhoriais de fabrico de azeite. “Revista de História Económica e Social”. provocada pela diminuição da oferta. Op. in “História de Portugal”. privilégios ciosamente preservados pelos senhores. o facto de uma parte significativa da riqueza produzida numa comunidade ser canalizada para as casas senhoriais. não se verificando retorno em investimento. o sistema de cobrança de rendas utilizado pela maioria das casas senhoriais poderia contrariar a política de autarcia económica prosseguida pelos municípios. tal como ela se exprimiu de uma forma particular nos finais do século XVIII. comprometeu a vida económica das comunidades e consequentemente as políticas concelhias. Estruturas. Julho-Dezembro de 1980. atestam bem esta realidade. por causa do exclusivo senhorial do fabrico do azeite (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro.º 6. vinho ou pão. 1-56. o principal problema residia no excessivo peso da tributação senhorial que asfixiava a vida económica local. mas para a qual não tenho encontrado muitas respostas45. . João II “que lhe permitisse tomar posse de certa quantidade de cereal. Em 1483. Nuno Monteiro observou que a “questão senhorial”. estatuto nobiliárquico e aristocracia.164 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dutos agrícolas. de que o marquês se tinha apoderado”( Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. 357. Mas o problema não residia apenas no eventual desvio de produtos necessários ao abastecimento local. 45 Conhecem-se casos de câmaras que mandaram colocar cadeados em celeiros dos senhores para impedir o desvio de cereais em tempos de carestia.

1997. Lisboa. poder local. tendentes a libertarem-se das presenças senhoriais nos territórios concelhios. .o-Novo. poder. na última década do séc. 65-84. será cerceada pelo poder central50. Uma perspectiva histórica”. ao longo da época moderna. Margarida Sobral Neto – Poder central e poderes locais na época pombalina. e sobretudo recursos. o exercício dos poderes senhoriais constitui-se como um factor limitador da autonomia das câmaras e fortemente condicionante do exercício das políticas concelhias.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 165 número de concelhos em que recebiam direitos com jurisdição era idêntico ao daqueles em que cobravam direitos sem jurisdição”48. nomeadamente provedores e corregedores49. Consideramos que o atrás exposto pode sustentar a tese de que o exercício do poder concelhio foi fortemente condicionado pelo poder senhorial com quem teve de partilhar jurisdições. 1999. no momento em que a autonomia dos concelhos. in “Poder central. in “Origens do Estado Moderno (Revista Século XVIII)”. agora reduzidos em número. A força do poder senhorial resistirá. pp. Câmara Municipal de Montemor. 50 Sobre as transformações ocorridas na vida municipal no período liberal vide. poder regional. 2000. A libertação dos municípios da tutela senhorial ocorrerá apenas na sequência da revolução liberal. 48 49 Idem. que se intensificou na época pombalina decorrente das políticas. Esta situação explica a conflitualidade que. 356-357. No quotidiano da vida das comunidades o poder senhorial mais sentido pelas populações era. se gerou entre senhorios e municípios. Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII. Lisboa. Com efeito. entretanto. o desempenhado pelos cobradores de rendas ou pelos executores das casas senhoriais. à aplicação integral da legislação que. promovidas pelas vereações. Do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851). Cosmos. XVIII aboliu os direitos jurisdicionais concedidos aos donatários. pp. de facto. Paulo Jorge da Silva Fernandes – Elites e finanças municipais em Montemor-o-Novo. políticas que foram coadjuvadas pelos oficiais periféricos da Coroa. Reexame de um tema. Luís Nuno Espinha da Silveira – Estado liberal e centralização.

Assim. os trabalhos de Luis González Antón. Grande parte dos estudos que foram realizados incidiu nas instituições representativas dos reinos ibéricos que integraram a Monarquia Hispânica. Acerca das instituições representativas de Navarra. Os órgãos representativos de Aragão e da Catalunha também mereceram alguma atenção. destacando-se. de J. Convém frisar que o interesse pelas assembleias representativas não é exclusivo dos historiadores que trabalham sobre a Península Ibérica19. de Xavier Gil Pujol10. para a Galiza cumpre ter em conta as investigações de Manuel Artaza Montero17 e de María del Cármen Saavedra Vázquez18. de José Ignacio Fortea Pérez2. de Oriol Oleart i Piquet13 ou de Joan Lluis Palos Peñarroya14. de Charles Jago7. entre os muitos estudos que poderiam ser citados. de Juan Luis Castellano6. por exemplo.Entre o centro e as periferias. de Luis González Antón5. de José Manuel de Bernardo Ares8 ou de Juan E. por fim. pp. de História) Após duas décadas de significativos desenvolvimentos historiográficos. Carretero Zamora4. 2005. de I. assistiu-se também ao surgimento de uma série Notas no final do trabalho. . e para o País Basco os trabalhos de Jon Arrieta Alberdi16. A. são hoje uma referência obrigatória os trabalhos de Pablo Fernández Albaladejo1. mas também as investigações de Ernest Belenguer Cebrià11. A. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna* PEDRO CARDIM (Universidade Nova de Lisboa – Dept. 167-242. Trata-se de investigações que muito contribuíram para esclarecer o papel político desempenhado pelas assembleias de Cortes. Thompson3. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. veja-se os estudos de Fernando de Arvizu y Galarraga15. Em Inglaterra. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. M. Gelabert9. hoje dispomos de um conhecimento bastante razoável acerca as assembleias representativas da época moderna. e no que toca às Cortes de Castela-Leão. de Angel Casals12.

de António Manuel Hespanha42. a recente historiografia manifestou algum interesse pelo estudo das assembleias representativas do Portugal da época moderna. neste renovado interesse pelas Cortes da época moderna. Todavia. Mark Kishlansky22 e. ainda que indirectamente. a Flandres26 ou o Sacro Império27. não há dúvida de que muito subsiste por estudar. em particular enquanto espaço de articulação entre os poderes locais e a Coroa. tendo em vista captar a percepção que os povos peninsulares tinham das assembleias representativas realizadas nos reinos vizinhos. dos debates desenvolvidos. Tirando partido das questões levantadas em trabalhos pioneiros – como os de João Pedro Ribeiro28 ou do Visconde de Santarém29. continuam à espera de um estudo aprofundado. posteriormente. de Fernanda Olival44. nomeadamente. de que resultou uma volumosa bibliografia. A historiografia portuguesa participou. ainda não existem estudos abrangentes sobre o conjunto das reuniões dos séculos XVI e XVII. nos contributos de Joaquim Romero Magalhães38. também foram objecto de aturado estudo. de Luís Reis Torgal41. das reuniões de Cortes. As instituições representativas de outras partes da Europa moderna. de Armindo de Sousa35. do contexto em que cada uma delas se realizou. também. de Francisco Ribeiro da Silva43. de Paulo Merêa32 ou de Marcelo Caetano33 –. os Estados Italianos25. antes de mais. à escala ibérica. demasiado vasta para ser aqui apresentada. sobretudo. Pensamos. a compreensão do papel desempenhado pelas Cortes no conjunto da administração central da Coroa. de Eduardo Freire de Oliveira31. etc. dos estudos de Henrique da Gama Barros30. das decisões tomadas. de Fernando Bouza Álvarez39. na linha daquele que foi efectuado por Fernando Bouza para a assembleia de 158147. algumas das mais importantes investigações sobre a história política e administrativa do Portugal Moderno contribuíram para uma compreensão aprofundada do lugar das Cortes no sistema político. Importa aprofundar. está por fazer a análise. e a despeito do trabalho que foi realizado. e. urge levar a cabo o estudo comparativo. como a França24. caso a caso. Todavia. As Cortes do século XVI. Conrad Russell23. Por outro lado. No que toca às reuniões celebradas no período Seiscentista. assinadas por historiadores como Blair Worden21. dos seus participantes.168 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de obras dedicadas ao Parlamento dos séculos XVI e XVII20. de Maria Helena da Cruz Coelho36. Seja como for. e ao contrário do que sucede para as Cortes da Idade Média – período para o qual dispomos dos trabalhos de José Mattoso34. . de António de Oliveira40. de Amélia Aguiar Andrade e de Rita Costa Gomes37 –. de Pedro Cardim45 ou de Ângela Barreto Xavier46.

Questão importante é. de molde a reconstituir o sentido das intervenções dos participantes. assim como o impacto das suas decisões no mundo político das periferias48. José I.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a da influência das autoridades senhoriais no comportamento dos procuradores oriundos de vilas situadas nos seus senhorios. as várias alusões à «assembleia dos três estados» nos reinados de D. Fundamental será. igualmente. 169 Cada uma das actas das sessões. Trata-se de um universo político onde o principal quadro de referência não era a divisão administrativa implementada pela Coroa. também. a fim de se perceber. uma iniciativa sistematizada de publicação da documentação produzida pelas Cortes do século XVII50. As Cortes no ambiente político do Antigo Regime A fim de compreender o papel político das Cortes no quadro das relações entre o centro e as periferias. e cumpre estudar. seria merecedora de um “estudo de caso” altamente contextualizado. tendo em vista compreender a relação entre as sucessivas configurações do discurso político e o maior ou menor protagonismo das Cortes. por seu turno. o mesmo se podendo dizer de questões como a hierarquia entre as cidades e vilas com voto em Cortes. trata-se de um corpus que continua à espera de uma análise de conjunto.. também. mas sim o laço de pertença que resultava do próprio . temática largamente negligenciada pelos historiadores portugueses e de cujo estudo depende a compreensão cabal do significado político das Cortes da época moderna49. João V e de D. A participação do «estado da nobreza» e do «estado eclesiástico» nas sucessivas reuniões de Cortes é outro tema que ainda não foi objecto de um estudo sistemático. abordagens na linha da história das ideias políticas. etc. É igualmente imprescindível dedicar alguma atenção à articulação entre as Cortes e o mundo local. os processos de selecção e o estatuto dos procuradores. urge avaliar o verdadeiro significado do debate sobre as Cortes na segunda metade de Setecentos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. e num contexto social onde coexistiam distintos sentimentos de pertença à comunidade política. Como se pode verificar nesta breve enumeração. por exemplo. igualmente. os processos de decisão. a realização de investigações sobre a história da fiscalidade. igualmente. está por cumprir toda uma vasta agenda de investigação sobre as Cortes do Portugal da época moderna. é indispensável ter em conta que se trata de uma assembleia que operava num quadro comunitário eminentemente corporativo. ou do papel de Lisboa como «cabeça» do reino.. Falta. Urge efectuar. Quanto ao vasto conjunto de petições existente nos arquivos portugueses. o funcionamento das sessões. Por último.

A urbe. a comunidade territorial de ordem superior que englobava. A malha administrativa da Coroa desenvolveu-se mais lentamente. também elas estavam presentes. o qual lhes concedia uma margem de autonomia mais ou menos ampla. um conjunto político plural. ordem essa que atribuía a cada uma das instituições locais um lugar preciso na escala de dignidade política. e a cidade ou vila onde se residia constituía o núcleo central da sociabilidade. Os princípios fundamentais que regiam a coexistência no espaço do «reino» eram a partilha recíproca – entre o rei e o reino – de direitos e de deveres. escalonadas segundo uma ordem fortemente hierárquica. por sua vez. embora a sua entrada em cena seja posterior à das divisões que acabámos de referir. Cada um dos «reinos» que povoava a paisagem da época moderna era. adaptando-se à realidade social e jurisdicional que a precedia. num primeiro momento. y el Reyno hazen un cuerpo mixtico. perante um ambiente de pluralidade de pertenças e de identidades políticas. resultante da progressiva incorporação e agregação de territórios. assim. segundo uma escrupulosa ordem hierárquica. assi la deue auer en el mixtico de la Republica. e fê-lo. Em termos administrativos. de resto. a comunidade local era o elemento que precedia as demais unidades políticas. encontrava-se bem expressa na titulatura régia. do conceito de autoridade no Antigo Regime51. as . O quadro de referência da Coroa era o «reino». por conseguinte. entre el Rey y sus vassallos…»52. Tanto uns como os outros formavam comunidades tendencialmente completas. todos os domínios que estavam sob a alçada do soberano. Tal heterogeneidade. O rei surgia. «el Rey. territórios esses que apresentavam perfis e estatutos bastante diversos.170 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tecido social em que cada pessoa estava integrada. entre cabeça y miembros. Estamos. era tida como uma comunidade de famílias. Apesar dos inevitáveis contrastes regionais. Nesse quadro. No que respeita às divisões administrativas da Coroa. estruturante. Todos esses territórios estavam sob a égide de um rei. como se sabe um atributo essencial. em especial o de administração da justiça. pequenas «repúblicas» virtualmente auto-governadas. Convém não esquecer que a sociedade da época moderna assentava em corpos de todo o tipo. assim. como a cabeça de um conjunto de territórios. e o reino como uma comunidade de cidades. el cabeça. Nas palavras do jurista João Salgado de Araújo. assim como os variados corpos em que estava estruturada a sociedade. cada um deles titular de uma diversa gama de poderes. toda uma série de comunidades locais. y los vassallos miembros. era este o cenário que caracterizava toda a Península Ibérica53. no seu seio. as principais instituições actuantes sobre o terreno eram os senhorios – eclesiásticos e seculares – e os municípios. e com combinações de natureza bastante diversa. y como en el cuerpo phisico ay correspondência de amor. onde sempre se enumerava.

até. a uma vila ou a um bairro. tanto na Europa como fora dela55. Faltava uma base para o surgimento de obrigações comuns. também ela senhora de vastos domínios. depois a uma aldeia. D. Fizeram-no . Contudo. que não favorecia o desenvolvimento espontâneo de deveres para com organizações políticas mais vastas e de natureza artificial. avultava. A par destas pertenças. reuniram-se as condições para a reconfiguração dos laços de associação política. no século XVI. era-se habitante de uma cidade. depois. de uma solidariedade geral. as obrigações associadas à condição de parte integrante do «reino» eram pouco consensuais e pouco mobilizadoras. No ambiente político do Antigo Regime a assembleia das Cortes era o momento em que estas várias partes que compunham a comunidade se reuniam com o rei.. mas também em obrigações inerentes à condição de parte integrante da comunidade reinícola54. a um reino. Verificou-se que os sentimentos de ligação à comunidade local já não eram completamente compatíveis com a realidade cada vez mais extensa de entidades como a Coroa Portuguesa. Quanto aos reis. O mesmo se poderia dizer da Coroa de Castela. a qual por essa altura se assumiu como a cabeça de um império pluricontinental.. por último. 171 quais não eram necessariamente contraditórias. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a inserção em corpos como o estado social ou o grupo sócio-profissional. falando-se em «bem comum do reino» e em direitos. Pertencia-se. porque predominava um sentimento de pertença eminentemente orgânico e particularista. João III e D. podia-se também fazer parte de uma monarquia ou. Por fim. sobretudo quando comparadas com os deveres para com a família. adicionando-os aos pré-existentes laços de natureza orgânica e de cariz particularista. bem se esforçaram por aprofundar o significado da pertença a unidades políticas mais vastas. a uma família. ou para com a entidade corporativa de que se fazia parte. de um império. para com a comunidade onde se residia. primeiro. e em que o «reino» se tornava momentaneamente visível enquanto enquadramento de pertença comum a todos os diversificados membros que o integravam. No cenário político do Antigo Regime. de seguida. importa ter em conta que as obrigações inerentes à pertença ao «reino» estavam longe de possuir a força que caracteriza os actuais deveres de cidadania.. igualmente. mas sim complementares. No decurso das «reuniões dos três estados» eram invocados sentimentos de pertença a um corpo político a que se dava o nome de «reino». Sebastião I em Portugal. Todavia. a partir daí pertencia-se a uma cidade-província. todos estes quadros de pertença estavam englobados naquele que era o elemento identitário por excelência: a inserção na Respublica Christiana.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. As várias casas reais procuraram forjar outro tipo de vinculações e de sentimentos de pertença. com a expansão das monarquias. Carlos I e Filipe II nos domínios dos Habsburgo.

D. cumpre referir que. Em Portugal. secular e eclesiástica. a primeira assembleia que contou com a presença de procuradores das cidades parece ter sido a que se realizou em 1254.172 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desenvolvendo uma pujante acção mecenática. Miguel da Paz são reveladoras da hipótese de entrada de Portugal para uma união com Castela e Aragão. e os seus membros também fomentaram projectos de constituição de unidades políticas de carácter mais vasto. no início. Todavia. Assim. nessa ocasião um segmento da sociedade portuguesa não escondeu o seu temor perante as consequências que poderiam advir da entrada do reino lusitano para uma unidade política tão vasta57. na primeira fase do seu percurso histórico as Cortes funcionaram sobretudo como o espaço de articulação entre a Coroa e a elite nobiliárquica. Como se sabe. incrementando o seu dispositivo administrativo. numerosos foram os castelhanos que manifestaram reservas face aos propósitos imperiais de Carlos I e de Filipe II56. e vários territórios resistiram a esta dinâmica. em certos momentos. como é sabido. os nobres foram o único dos «três estados» a comparecer na . Aliás. congregando. muitos questionaram as grandiloquentes visões régias de conversão do Reino lusitano na cabeça de um potentado pluricontinental. Seja como for. Em Portugal. Manuel levou muito a sério a hipótese de liderar um projecto de união com Castela e Aragão sob a égide da Coroa portuguesa. Curiosamente. mas também o «bem comum do reino»? Convém lembrar que as Cortes começam por ser uma forma alargada de conselho régio. os representantes das cidades começaram a ser chamados às Cortes a partir de meados do século XIII. também. Fizeram-no. Em Castela. de forma cada vez mais insistente. para que tivessem em conta não só o seu «bem particular». os sentimentos particularistas de que atrás falámos revelaram-se muito resistentes. Nos derradeiros anos de Quatrocentos. A orgânica das Cortes Qual foi o papel desempenhado pelas assembleias de Cortes nesse período em que os líderes políticos do ocidente Europeu apelaram aos seus vassalos. onde as obrigações inerentes à pertença a esses espaços políticos surgiam cada vez mais associadas às causas comuns da Cristandade. e durante muito tempo essa assembleia foi dominada pela nobreza. a fim de conferir mais homogeneidade à acção da Coroa. as movimentações em torno do príncipe D. Cumpre não esquecer que a família real de Portugal – a Casa de Avis – acalentou planos dinásticos. apenas as figuras mais proeminentes do reino. o projecto de conversão da Coroa lusitana na cabeça de um grande império também não se revelou consensual e.

natural. Não devemos esquecer que. apenas. sem dúvida. a assembleia instava os vassalos a apresentar problemas. o qual. também as Cortes actuavam segundo uma matriz jurisdicionalista. em vez de exercer uma jurisdição eminentemente voluntária. no processo governativo. e que incluíam questões de alcance mais geral. actuando o rei a pedido dos vassalos. nesse período.. fundamentalmente. portanto. mas sobretudo como uma espécie de instância judicial. por isso mesmo. que as Cortes começaram por ser compostas. as Cortes foram-se tornando menos relevantes para o grupo nobiliárquico. designadamente os emergentes conselhos palatinos e alguns sectores da cada vez mais desenvolvida administração da Coroa. Assim. os quais. como um tribunal. e ao contrário do que sucedia com o clero e com a nobreza. todos os presentes assumiam a posição de autoridades imparciais chamadas a verificar a admissibilidade jurídica de pretensões e de contra-pretensões. com uma prática de governo (e uma correlativa teoria) que tendia a conceber o poder antes de mais como instrumento para a conservação da ordem. tendo como principal finalidade a manutenção dos equilíbrios pré-existentes. uma vez reunidas as Cortes. assim.. Nessa fase as Cortes eram. faziam eco dos problemas «particulares» de cada comunidade local. 173 reunião.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. E à semelhança do que se passava com todos os órgãos administrativos da época. Porém. como o seu próprio nome indica. as Cortes actuavam segundo uma técnica que estava pensada não tanto para evitar que a desordem se registasse. de resto. mas também jurídica. mais esbatida. produzidos pelos «três estados» na fase inicial de cada assembleia. pelos membros dos grupos privilegiados. e os «capítulos gerais». podendo. e que só mais tarde esta assembleia abriu as suas portas ao chamado «terceiro estado». Enquanto órgão dotado de uma matriz judicial. com o desenvolvimento dos vários órgãos da administração da Coroa e com a afirmação da corte régia como palco principal da política58. Assim. a missão primordial do poder político consistia em reconhecer a ordem e garantir um equilíbrio inscrito na natureza das coisas. os representantes do reino pensavam-se a si mesmos não só como conselheiros. Nas Cortes deparamos. sobretudo enquanto espaço de comunicação política com o rei. uma modalidade alargada de conselho régio. Paralelamente. Nesses pedidos gerais a visão particularista surgia. desenvolveu outros canais para estabelecer a sua interacção com a Coroa. mas sim para repor a ordem depois de rompida a natural disposição das coisas. Por outras palavras. Esses pedidos eram formulados em dois principais tipos de documentos: os «capítulos particulares». É fundamental não esquecer.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. desde reivindicações corporativas até advertências acerca de temas da actualidade do reino. intervir. . a assembleia representativa foi-se tornando mais importante para as corporações urbanas.

Vários chegavam mesmo a alegar que o parecer do conselho régio podia substituir o diálogo com as Cortes. Seja como for. no espaço da Monarquia Hispânica. em princípio. aos poucos. fruto da situação atrás mencionada: a aristocracia encontrara outros canais de influência e de articulação com a Coroa. A. não fosse delegável59. dependente do arbítrio régio. e o mesmo se terá passado em juntas de cidades da América Espanhola61. a consulta das Cortes era como que um acto de «graça». enquanto que em Portugal este princípio foi sempre respeitado.174 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS De acordo com o costume. pelo contrário. pois. só o rei em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. enquanto que. É certo que o encontro físico entre o monarca e os «estados» do reino só tinha lugar na sessão de abertura solene e nas cerimónias de juramento que eventualmente tivessem lugar. entre o rei e os seus vassalos. foram deixando de comparecer nas reuniões de Cortes. Os únicos que continuaram a marcar presença foram os representantes das cidades. o costume mandava que o rei deveria permanecer na localidade onde decorriam as Cortes até ao final dos trabalhos. assim como resolver problemas governativos que estivessem pendentes. reino onde o clero e a aristocracia. A finalidade era «tornar presente» o reino ao rei. durante os séculos XVI e XVII. sobretudo em Castela. os vice-reis presidiam a Cortes napolitanas e sicilianas. estava em curso um processo de gradual afastamento dos magnates da nobreza em relação às Cortes. Assim. No fundo. e era precisamente essa proximidade física face ao monarca que fazia com que a assembleia fosse tão valorizada pela sensibilidade coetânea. Todavia. deparamos com alguns territórios cujas assembleias representativas foram frequentemente convocadas pelos representantes locais do monarca: nas possessões hispânicas de Itália60. o que fazia com que. a partir de meados do século XIV o perfil dos órgãos representativos sofreu uma importante mudança. já nessa altura. Todavia. para alguns o rei tinha a obrigação de chamar a assembleia representativa antes de tomar qualquer decisão governativa de maior importância. De qualquer modo. Trata-se de uma indefinição que remonta ao período medieval. A. Como sugerimos atrás. importa referir que a situação constitucional das Cortes não era completamente clara. e como notou I. as Cortes eram encaradas como o encontro. A prerrogativa de convocar os «três estados» era vista como uma marca de soberania. desde a segunda metade do século XIV os únicos nobres e clérigos que participavam na reunião eram aqueles que desempenhavam algum cargo na corte régia ou que. por exemplo. por excelência. por . para outros. Esta indefinição marcará todo o percurso histórico da assembleia62. Thompson63. a fim de renovar o compromisso entre a Coroa e o reino.

A ASSEMBLEIA DE CORTES. controlo administrativo). a gestão das clientelas locais. também em terras lusitanas. no período tardo-medieval. Um outro indicador a ter em conta é o elevado ritmo das suas convocatórias: na centúria de Quatrocentos realizaram-se mais de quatro dezenas de reuniões67. Por isso. oficiosamente. Para além disso. as Cortes evoluíram no mesmo sentido dos demais reinos ibéricos. altura em que as convocatórias se tornaram muito menos numerosas. uma instituição dotada de uma só câmara. . foi em 1254 que os procuradores das cidades e vilas participaram pela primeira vez nas Cortes. facto que aponta no mesmo sentido da valorização da importância da assembleia. Os trabalhos de Armindo de Sousa sugerem que. a assembleia representativa desenvolveu uma considerável actividade de produção normativa. ao mesmo tempo que interveio na política local. na reunião celebrada em Leiria... 175 acaso. De acordo com A.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Além disso. Quanto ao «estado do povo». a nobreza compareceu em apenas 23 das 44 reuniões realizadas entre 1385 e 1490. enquanto que o clero marcou presença em 24 reuniões. Trata-se de uma solução que tinha em vista agilizar os processos de decisão. Acresce que as Cortes portuguesas continuaram a decidir sobre matérias de “alta política”. Sousa. embora o distanciamento da nobreza e do clero seja menos pronunciado. embora se registe um certo desinteresse dos grupos nobiliárquicos. ou seja. as Cortes portuguesas de finais da Idade Média terão contado com a participação regular de representantes de cerca de oito dezenas de cidades e vilas65. etc. sobretudo em áreas como a fiscalidade (cobrança. o recrutamento militar.. podemos afirmar que as Cortes de Portugal mantêm o seu perfil de assembleia com «três braços». um valor muito superior ao que se registou no século posterior. aquela que reunia os representantes das cidades. os representantes dos núcleos urbanos costumavam ser os mais entusiastas na afluência às Cortes. Assim. pode dizer-se que. se encontravam nas proximidades do local onde se realizava a reunião. em Portugal. e em 1477 surgiram as chamadas «comissões de definidores». No tocante a Portugal. A partir da assembleia de 1331 os diversos «estados» passaram a reunir separadamente64. grupos restritos de procuradores constituídos por iniciativa dos oficiais régios e que ficariam incumbidos de assegurar o andamento dos trabalhos. entre as cidades registaram-se conflitos de precedência relacionados com o lugar em que participavam na «assembleia dos três estados». no quadro da resposta às petições. ou seja. sendo sistematicamente chamadas para intervir em certas áreas fulcrais do governo do reino como o juramento do rei ou a fiscalidade régia66. No que respeita ao afastamento dos grupos privilegiados. em 1480 as Cortes de Castela eram já.

Em 1538. Até ao último chamamento das Cortes de Castela durante o século XVII (registado em 1664). estava a cair em desuso naquele reino. participavam na reunião enquanto entidades que administravam territórios habitados por uma população mais ou menos significativa. a 1 de Fevereiro de 153968. cumpre assinalar que essa foi uma das raras ocasiões em que os «três braços» actuaram de forma concertada contra a fiscalidade régia. Todavia. em vez de apoiar os projectos de Carlos V. mas também o clero. essa assembleia jamais contaria com o «braço da nobreza» formalmente reunido. esses dignitários par- . A. e ao fazê-lo estava de algum modo a reeditar um modelo de reunião que. como dissemos. as Cortes de Castela converteram-se numa assembleia de procuradores de cidades e vilas. por Carlos V. e terá sido esse o motivo que levou o imperador a ordenar a sua dissolução. formas razoavelmente diversas de representação política70. a representação possuía. as Cortes activaram. de facto. marcou o fim da convocatória dos nobres e do «estado eclesiástico» para a assembleia castelhana. ao longo da sua história. mas também como uma opção da aristocracia e do clero. Como assinalámos. facto que deve ser visto não só como uma forma de a Coroa evitar uma oposição mais concertada entre os «três braços». no período medieval. e como notou I. O imperador desejava que esses grupos sociais tomassem parte. A. Tanto os nobres como os clérigos. a assembleia tornou-se no principal pólo de oposição aos novos impostos que a Coroa desejava introduzir. o mesmo se podendo dizer da sua capacidade de intervenção em questões da alta política69. em 1538 Carlos V tomou uma decisão marcante: exortou a nobreza e o clero a comparecer nas Cortes. para a nobreza as Cortes tinham-se tornado pouco relevantes. E com o abandono da aristocracia. Como dissemos. A. sobretudo.176 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS No que concerne a Castela. Thompson. I. Aliás. A. os quais. a resposta da aristocracia castelhana ao apelo do Imperador foi muito expressiva: 80% dos titulares e do alto clero responderam à chamada. na assembleia. A dissolução das Cortes. Uma coisa é certa: a não comparência da nobreza retirou alguma força às Cortes de Castela. Thompson71 e José Ignacio Fortea Pérez72 assinalaram que. Assim. em 1539. um carácter senhorial. razão pela qual a sua função consultiva diminuiu consideravelmente. As formas de representação política nas Cortes Enquanto órgão representativo. à data. vinham-se desinteressando das Cortes desde meados do século XV. encontraram canais alternativos para exercer a sua influência política e para defender os seus interesses económicos. a nobreza. e também as cidades.

parece que as Cortes se assumiam como uma assembleia que representava o conjunto do reino. e he cousa que não padeseo numqua de comtrouersia». Enquanto que no «estado da nobreza» e do clero o princípio da maioria suscitou algumas reservas. No caso da assembleia de Castela-Leão.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. No entanto. a propósito deste tema.. O caminho percorrido até se chegar a essa situação tinha sido longo. no «terceiro estado». chegou a integrar mais de uma centena de urbes. costumavam vincar que participavam nas Cortes não tanto por obrigação para com o rei. Discutiu-se. que o entendimento atomista de representação prevaleceu até ao final do Antigo Regime: em questões de política global do reino. fazia com que os seus processos decisórios fossem algo diversos daqueles que vigoravam no «terceiro estado». mas sim como um direito que lhes assistia. No que respeita ao «terceiro estado». Hespanha notou. . como figuras que detinham uma margem de autoridade administrativa sobre parcelas significativas do território e sobre conjuntos populacionais nada desprezíveis73. representavam a nobreza enquanto corpo. respondendo a alguns procuradores que. quando compareciam nas Cortes. os membros do «estado da nobreza» não eram eleitos nem recebiam qualquer procuração. também. se o voto da maioria dos membros do «estado da nobreza» obrigava aqueles que tinham decidido noutro sentido76. em princípio. em questões como pedidos ou «serviços». Além disso. apesar da resistência de alguns procuradores. com regularidade. tendo perdido uma votação sobre questões fiscais. após 1539. não era claro se os nobres. A ASSEMBLEIA DE CORTES. entre outras coisas. permaneceu a ideia de que cada participante se representava a si mesmo. às Cortes. se recusavam a acatar a decisão maioritária77. A nobreza e o clero. só a partir de finais do século XIII é que as comunidades urbanas começaram a ser chamadas. e em seu nome concordava ou não com o que lhe era pedido74.. não podiam falar pelo conjunto do «estado da nobreza». vimos atrás que. para além disso. escreve D. tanto cidades de grandes dimensões como vilas e. comparecendo um total de dezoito cidades. esse princípio parece implantar-se: «o que se assenta e vence pela maior parte se assina e segue pela menor. até. Como dissemos. o que. ou seja. António M. Seja como for. João IV em Fevereiro de 1646. mas também como senhores de terras. a questão jamais reuniu consenso. as quais assumiram a tarefa de representação do conjunto da Coroa de Castela. 177 ticipavam nas Cortes não só como membros do «estado eclesiástico» ou do «estado da nobreza». De facto. as instituições urbanas passaram a ser o único «braço» chamado às Cortes de Castela. razão pela qual.. e ao longo de toda a existência das Cortes discutiu-se até que ponto os juramentos ou os votos nas assembleias obrigavam aqueles que não estavam presentes75. pequenos lugarejos.

e uma no reino de Múrcia (Múrcia). tendo sido esse o factor que ditou a fraca participação. De um modo geral. dependia de Zamora. em Portugal a procedência geográfica dos procuradores também não obedece a nenhum critério de proporcionalidade aritmética. a força do regime senhorial a norte do Mondego explica esta disparidade. Zamora. as áreas melhor representadas nas Cortes de Castela-Leão. Córdova. León. Segóvia. a cidade de León desempenhava idêntico papel para o Principado de Astúrias. dos concelhos das regiões situadas a norte do rio Mondego81. pois. assim como os territórios das Ordens Militares. o factor que motivava a participação das cidades nas Cortes era a forte tradição de governo participativo que existia em toda .178 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS com o passar do tempo o número de municípios representados nas Cortes de Castela foi claramente diminuindo: das 101 cidades presentes em 1315 passou-se para 17 em 1435. enquanto que regiões muito menos povoadas. há também a registar a presença de um número considerável de procuradores enviados por cidades e vilas situadas na proximidade da fronteira. vastos territórios ficavam privados de representação nas Cortes. Desse modo. a opção por não comparecer foi tomada pelas próprias localidades. Para Luís Miguel Duarte. Refira-se que. situação compensada pelo facto de o município de Burgos representar oficiosamente a zona Cantábrica. Valhadolide. A região mais densamente povoada do reino – Entre-Doutro e Minho – estava sub-representada. enquanto que Salamanca falava por toda a Extremadura80. I. nas juntas específicas completamente independentes das Cortes de Castela). tal como os nobres. quatro em terras de La Mancha (Madrid. Sevilha e Granada). José Ignacio Fortea Pérez79 notou que mais de metade dessas cidades se concentravam no interior de Castela: nove em torno da bacia do rio Douro (Burgos. Por outro lado. o norte peninsular carecia também de representação na assembleia castelhana. Salamanca. então conhecia por «La Montaña». Sória). Fortea Pérez. contavam com um grande número de assentos em Cortes. nas Cortes. quatro no reino andaluz (Jaén. Ávila. e como assinala o mesmo J. as quais. À semelhança do que sucede nas demais Cortes ibéricas. coube a dezoito cidades falar em nome do conjunto da Coroa de Castela. encararam a assembleia como uma instituição pouco relevante para a protecção dos seus direitos78. de um modo geral. Toledo. como o Alentejo. Quanto ao reino da Galiza. A distribuição geográfica das urbes com voto em Cortes é também reveladora de que a representação política activada nessas reuniões não reflectia um critério de proporcionalidade geográfica ou demográfica. Desse modo. Leão. Para além destas regiões. entre os quais avultavam as províncias bascas (que contavam com a sua própria estrutura representativa. Castela-a-Velha e Castela-la-Mancha eram. Toro. Cuenca e Guadalajara).

também desempenhou o seu papel na persistência dessa tradição participativa. verdadeiras «comunidades de privilégios» (T. uma série de autores lembrava insistentemente que o povo – e não o rei – era o depositário do poder originário de Deus85.. com toda a sua exaltação do governo republicano. após a derrota dos comuneros a linha doutrinal de sentido regalista ganhou novo alento.. desprovido de competências decisórias de maior alcance. A ASSEMBLEIA DE CORTES. lembrava que a pessoa régia não estava sozinha na decisão sobre questões governativas. . durante séculos. e a situação de auto-governo em que viveram. 179 a Península Ibérica. garantindo à população que estava sob a sua égide toda uma série de liberdades e imunidades. empenhados no processo de consolidação das bases do seu poderio. No entanto. e o ideário «republicano» teve menos espaço para se desenvolver84. pois. facto que também terá contribuído para consolidar a presença das cidades nas Cortes. e em muitos momentos as Cortes assumiram-se como um dos principais momentos de defesa desses privilégios ante as investidas da Coroa. como por exemplo no movimento das Comunidades de Castela83. o exercício da autoridade régia era visto como parte de um sistema de poderes e de contra-poderes que se equilibravam. Todavia.. persistindo uma forte tradição discursiva que insistia na importância incontornável do consensus populi. desse modo. no fundo. Quanto aos monarcas. manifestaram uma menor disposição para convocar um órgão que. ainda mais contribuiu para enraizar tais processos de decisão. A influência de Itália e do chamado «humanismo cívico». É muito significativo que os escritos de teoria política em circulação a partir desse período retratem as Cortes como um mero fórum de debate. Era. Segundo Xavier Gil Pujol. Formavam-se. Para além disso. De facto. por seu turno. as autoridades municipais reforçavam a sua identidade e constituíam-se como pequenas repúblicas locais. Acresce que as concepções políticas predominantes no mundo ibérico apontavam muito mais para um exercício do poder partilhado. Desde tempos ancestrais os municípios vinham desenvolvendo formas colegiais de decisão. E ao mesmo tempo que se desenvolvia esta tradição de governo participado. Herzog82). doutrina acolhida nas obras dos principais teólogos e juristas daqueles anos86. no quadro deste imaginário político que a Coroa concedia a certas cidades a «honra» de tomar parte nas assembleias. é possível escutar ecos deste ideário em alguns momentos da história ibérica do século XVI. é interessante verificar que o facto de a cultura política ibérica ser intrinsecamente regalista não foi necessariamente incompatível com o reconhecimento de que as Cortes tinham um determinado lugar na relação entre o rei e os seus vassalos. do que para modalidades decisórias mais individualistas. dos valores cívicos e do individualismo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.

mais tarde. política essa que cada vez mais exigia o contributo de todos para o esforço conjunto da Monarquia. de medidas impopulares – como os novos impostos – poderia contribuir para tornar mais aceitáveis esses sacrifícios. perante a afirmação da Coroa de Castela no conjunto da Monarquia. facto que favoreceu o discurso que via nas Cortes a única sede com legitimidade para aprovar novos tributos.180 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Assim. viram na assembleia representativa um bom palco para zelarem pelos seus direitos e pelas suas liberdades face ao crescente voluntarismo régio. a partir de meados de Quinhentos. essa comunidade política alargada que comportava uma nova gama de obrigações e de sacrifícios. em Cortes. recorreram a alguns elementos do ideário republicano para potenciarem a defesa dos foros reinícolas e para amplificarem os seus protestos sempre que consideravam que tais foros estavam a ser postos em causa pelo centro político. O facto de reinos como Aragão. Nas diversas partes dos domínios dos Habsburgo os apelos régios para que se aumentasse o contributo fiscal tiveram o condão de fomentar o desenvolvimento de um discurso que vincava a natureza auto-governada das várias partes da Monarquia. portuguesas. assim como a sua ancestral autonomia decisória87. altura em que se acentuou a faceta das Cortes como verdadeiros bastiões dos foros reinícolas e como pólos de obstrução à política régia. desta feita como uma espécie de símbolo dos foros de cada uma das partes desse conjunto político compósito. de que a aprovação. Quanto aos vários grupos sociais. e uma parte significativa dessa comunicação acabou por ter como palco a assembleia representativa. as assembleias representativas voltaram a desempenhar um papel mais interventivo na política. e ao contrário do que seria de supor. bem pelo contrário: o maior voluntarismo da Coroa traduziu-se na intensificação da comunicação política entre o rei e o reino. Nápoles ou Sicília integrarem os domínios dos Habsburgo também contribuiu para vincar o papel político das Cortes. . Foi assim que. O aumento das solicitações dos Habsburgo incidiu sobretudo no terreno fiscal. também. Na realidade. os diversos reis aperceberam-se de que as Cortes poderiam desempenhar um papel importante enquanto espaço de inculcação de sentimentos de pertença ao «reino». a afirmação do projecto político da Coroa não teve como consequência imediata o desaparecimento das Cortes. napolitanas. as elites aragonesas. Na verdade. Esta tendência manteve-se no século XVII. Pode então dizer-se que a pertença à Monarquia Hispânica também contribuiu para que as Cortes assumissem um maior protagonismo. Aperceberam-se. sicilianas e.

apesar de sabermos muito pouco acerca da interferência da Coroa portuguesa na escolha dos procuradores. reino onde a assembleia representativa continuou a ter uma afluência bastante numerosa de procuradores. impondo algumas regras também elas bastante vagas: as eleições deveriam ser realizadas da forma costumeira.. e a Coroa limitava-se a fazer recomendações gerais. O mesmo estudioso sustenta que as disputas em torno da selecção dos representantes aumentaram no século XVII. ser avalizada pelo juiz de fora. existia uma norma que impedia que um mesmo regidor exercesse a função representativa em duas Cortes seguidas89.. o que pode estar ligado a um crescente interesse das oligarquias castelhanas em estarem presentes nas . Em Castela. observando o que estava disposto nas Ordenações e abrangendo apenas os residentes na localidade que iria enviar os procuradores. é a partir do século XV que se regista a tendência para a generalização da regra de dois representantes por urbe88. a procuração tinha de obedecer a certos requisitos formais. no contexto castelhano. a documentação de que dispomos sugere que os oficiais régios procuravam garantir que os representantes das principais cidades seriam coniventes com os projectos régios. o primeiro dado a assinalar é o facto de não existir uma normativa geral que definisse o modo de proceder na sua selecção. até porque a escolha do procurador era um processo que costumava extremar posições entre «parcialidades» locais ou «bandos» rivais. o mesmo sucedendo em Portugal. Cada cidade tinha os seus costumes electivos. para além de um certo património. os municípios começaram por contar com apenas um representante. até ao final de Seiscentos as Cortes lusas contaram com a participação de representantes de cerca de uma centena de cidades e vilas. Acerca do reino de Castela. Fortea Pérez afirma que a interferência régia nos processos de selecção dos representantes terá sido relativamente frequente até ao final século XV. o escolhido deveria possuir o perfil moral adequado ao desempenho de um ofício. e conter a afirmação de que o procurador fora investido de «poderes bastantes» para decidir sobre a matéria que motivara a convocatória das Cortes.. o eleito deveria ser escolhido entre a «gente da governança» e de forma pública. ou seja. 181 Os procuradores. De facto. Formas de selecção e poderes O número de procuradores enviado por cada cidade variou ao longo da existência histórica das Cortes. Importa referir que as eleições nem sempre eram pacíficas. devendo incluir o nome daqueles que haviam participado na escolha do representante. com o conhecimento de todos os residentes. Quanto ao reino português. Além disso.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. A ASSEMBLEIA DE CORTES. No início. tendo retrocedido a partir dessa data. passando depois para dois procuradores por cidade. No que respeita aos processos de escolha dos procuradores.

Talvez resida aí uma parte da explicação para o facto de algumas cidades manifestarem pouca confiança nos seus representantes. na carta de convocatória para as Cortes de 1583. as cidades «dos primeiros bancos» – com destaque para Lisboa. depois da entrada de Portugal para a Monarquia Hispânica. Tentou-se impor. convém recordar que. Coimbra e Évora – também costumavam contar com uma representação bastante selecta em termos de estatuto social. encarando-os como figuras que. e a título de exemplo. reduzir a reunião a esse assunto . trata-se de uma questão que jamais foi debatia com o calor que caracterizou a polémica castelhana92. Filipe I. mas sim individualmente. a Coroa tentou transferir do voto decisivo para as Cortes. especificou que os procuradores deveriam trazer. «poderes bastantes para jurar o príncipe». D. Todavia. Quanto ao limite decisório dos procuradores. é preciso ter em conta que a governança das principais cidades era frequentemente composta por aristocratas e por membros da nobreza de corte. Em finais de Quinhentos. ficando-se. Desejoso de partir para Castela quanto antes. enquanto que as demais cidades e vilas com assento em Cortes tinham representantes de muito menor qualidade de nascimento. Por outro lado. o direito a participar na assembleia representativa podia ser rentabilizado. a questão do controlo que as cidades exerciam sobre os seus procuradores suscitou bastantes discussões. e tendo em vista superar a representação atomista de que atrás falámos. os Habsburgo tentaram limitar o âmbito de intervenção das Cortes. de um modo geral. a matéria nem sempre se revelou pacífica. que os procuradores votassem não propriamente por cidades. passavam a estar mais ao serviço da Coroa do que da cidade que os enviara.182 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Cortes. pelo «voto consultivo». Esta disparidade repercutia-se no desenrolar das sessões. Com efeito. Contudo. proposta que também enfrentou forte resistência91. Nas Cortes portuguesas. Em Castela. o que significa que uma parte do chamado «terceiro estado» era muito pouco “popular”. desse modo. apenas. designadamente através da venda da procuração90. tal proposta levantou problemas não só no terreno das relações com as cidades. uma vez nas Cortes. em parte para defender os direitos da cidade que os enviara. mas também porque acabou por não garantir à Coroa a docilidade da assembleia representativa. e as autoridades urbanas mostraram-se sempre relutantes em conceder aos seus representantes o «voto decisório». no mesmo sentido. mas também como fonte de rendimento. medida que se inscrevia num esforço mais vasto de reestruturação da administração fiscal. Porto. designadamente através de uma restrição explícita dos poderes dos procuradores. Assim. o monarca procurava. pois as principais cidades eram frequentemente olhadas com desconfiança por parte das demais.

no reinado de Carlos I. As reuniões das Cortes de Portugal no século XVI Apesar do ritmo de convocatórias ter baixado. outro momento importante foi a assembleia que se celebrou na cidade de Lisboa. uma referência aos chamados «Procuradores dos Mesteres». deparamos com longos intervalos entre as convocatórias de Cortes. fenómeno que se deveu. 1599) praticamente não se refira às Cortes. e no tempo de Filipe II registaram-se 11 reuniões.. antes mais. os quais também podiam apresentar petições ao rei. durante o século XVI as Cortes continuaram a reunir com uma certa assiduidade: em Castela. e nelas é possível encontrar. por exemplo. de discutir uma matéria da mais alta transcendência política: a entrada de Portugal para uma união dinástica com Castela e Aragão. Por último. a expressão do protesto dos mesteres. autor de um dos mais importantes tratados sobre o governo e os conselheiros (El Concejo i consejeros del Príncipe…. corria o ano de 1499. Das negociações que tiveram como palco essa reunião resultaram os «Artigos de Lisboa de 1499». habitualmente. os chamados «procuradores dos mesteres». para além dos procuradores do concelho.. pelo contrário. sobre matérias especificamente relacionadas com o quotidiano das corporações mecânicas. celebraram-se 15 assembleias. Tais petições versavam. com toda a pertinência. e vários foram os núcleos urbanos que manifestaram o seu descontentamento por essa «novidade». ao facto de o monarca estar cada vez mais tempo ausente desses reinos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. tendo em vista converter as Cortes numa assembleia muito mais ágil e rápida.. esses hiatos contribuíram para o enfraquecimento do potencial político das assembleias representativas. A decisão foi mal acolhida. Em quase todas as petições mesteirais advinha-se um ambiente tenso entre as corporações artesanais e a chamada «gente da governança». 183 e evitar debates sobre outras matérias. No que concerne às Cortes de Portugal. que é muito significativo que o aragonês Fadrique Furió Ceriol. ou «Capítulos de el rey Dom . Nessa ocasião foi dada a oportunidade. e o mesmo estudioso nota. Antuérpia. Tal silêncio é provavelmente o resultado do número diminuto de reuniões então realizadas. Em Aragão e na Catalunha. pelo facto de as principais decisões locais serem tomadas pela Câmara sem que eles tenham sido consultados93. naquela altura. com grande frequência. Segundo Xavier Gil Pujol. A ASSEMBLEIA DE CORTES. mas também do facto de. caber cada vez mais ao Conselho de Aragão o principal papel representativo e de defesa dos foros reinícolas94. Algumas cidades com maior tradição mesteiral tinham o direito de enviar às reuniões de Cortes. aos «três estados». para além da decisiva reunião de 148295.

Outro indicador da importância das Cortes é toda a atenção concedida ao seu cerimonial.Cortes de Almeirim 1562 . uma quebra em relação ao ritmo anteriormente registado. a partir desta altura qualquer alteração ao cerimonial tendeu a ser encarada como um agravo e como uma ofensa aos direitos de cada um dos participantes no evento.184 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Manuel».Cortes de Lisboa 1579 . da parte dos círculos régios. assistiu-se.Cortes de Almeirim 1581 . também. com minúcia. a um gradual incremento do número de petições – «gerais» e «particulares» – enviadas pelas autoridades urbanas. já que no período de Quatrocentos tinham-se realizado mais de quatro dezenas de reuniões. é o facto de o juramento do príncipe herdeiro. do papel que cabia aos «três estados» na decisão sobre matérias que tinham a ver com a sucessão na Coroa e com o «bem comum do reino». ter voltado a estar muito associado à assembleia representativa97. em Lisboa. Reuniões das Cortes de Portugal no século XVI 1502 .Cortes de Lisboa 1580 .Cortes de Lisboa Um dos dados que ressalta da trajectória das Cortes de Portugal. Além disso. a dimensão da cida- . em termos quantitativos. o cerimonial mais correcto para as diversas solenidades ocorridas no decurso das Cortes98. no século XVI. o qual já era herdeiro jurado das Coroas de Aragão e Castela96. Tal opção era motivada por vários factores: antes de mais. Tal evento representou o reconhecimento. Na verdade. Um último indicador da importância desta reunião tem a ver com o facto de ela se realizar.Cortes de Tomar 1583 . o que representou. os séculos XVI e XVII legaram-nos vasta documentação que atesta a preocupação dos coetâneos em definir. o que aponta para a já referida maior intensidade da comunicação política entre centro e periferias. pelos «três estados».Cortes de Évora 1544 .Cortes de Lisboa 1525 .Cortes de Torres Novas 1535 . No século XVI as Cortes de Portugal reuniram 9 vezes. Na mesma linha. Miguel. com maior frequência. uma série de garantias acertadas com os «estados» antes do juramento do príncipe D.

Castilho assevera que D. para o Verão de 1525. O mesmo cronista recorda-nos que só treze anos mais tarde se deu resposta aos muitos pedidos apresentados nessa assembleia. Manuel I reuniu as Cortes. especificamente para o juramento do príncipe D. o cronista António de Castilho lembra que por três vezes convocou os «três estados».. As petições entregues nesta assembleia. João III. pelo reino. aproveitando a ocasião para negociar mais um serviço fiscal99. Catarina de Áustria101. as Cortes de Torres Novas (1525) reuniram fundamentalmente para tratar de um serviço fiscal a conceder.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. inclusive depois da realização das outras Cortes que o mesmo rei convocou para Évora.. em 1544. As Cortes voltariam a ser chamadas anos mais tarde. gesto inédito até essa data. . consultivas e decisórias que antes cabiam às Cortes.. antes de lançar novos impostos. Paralelamente. Depois desta reunião. Depois. como «cabeça do reino» – o seu procurador falava em nome dos «três estados» na abertura solene das Cortes. Até ao final do seu reinado D. nos seus Anais de D. Frei Luís de Sousa. assim como as leis delas resultantes. E no que respeita ao controle da actuação governativa do monarca e à protecção dos direitos dos vassalos face a decisões da Coroa. É também por esta altura que se começa a difundir a ideia de que as leis resultantes de debates realizados nas Cortes tinham uma força especial. 185 de. e que voltaria a ser repetido em algumas reuniões subsequentes102. corria o ano de 1535. Quanto ao monarca que se seguiu – D. devido aos gastos crescentes da sua casa. que a habilitava a receber o grande número de pessoas que participava na reunião. D. e não o contrário. João III –. em Lisboa (nos Paços do Castelo). A ASSEMBLEIA DE CORTES. Assim. à Coroa. acabando por desempenhar muitas das funções representativas. João como herdeiro da Coroa de Portugal. mas não menos importante. uma vez mais motivadas pelas necessidades financeiras da Coroa. em 1502 D. De facto. foram impressas. o facto de Lisboa se assumir cada vez mais. João III relata que o rei decidiu chamar os «três estados». Finalmente. João III não voltaria a convocar os representantes dos «três estados». o dispositivo governativo da Coroa foi adquirindo uma maior institucionalização. a opção por realizar as Cortes em Lisboa era a forma de o rei demonstrar aos «três estados» que era o reino que ia ter com a Coroa. só podendo ser revogadas em nova reunião da assembleia. tendo uma vez mais em vista solicitar apoio financeiro ao reino. e o costume mandava que os procuradores lisboetas presidissem às sessões do «terceiro estado». e também para custear a vinda da rainha D. Manuel I não voltaria a chamar a assembleia representativa. esse papel foi sendo desempenhado pelo cada vez mais desenvolvido sistema judicial. teve sempre o cuidado de fazer «pesar» os tributos pelas Cortes100.

para além de terem estabelecido uma série de condições que deveriam ser observadas pelo novo governante do reino105. Sebastião não atingisse a maioridade. declararam que só concederiam um novo serviço fiscal depois de o rei ter respondido às suas petições. porém. que tinham de reunir o Senado para saber qual seria a vontade do povo. a rainha D. Sebastião I. alegando a sua naturalidade castelhana. D. as Cortes voltavam a ter uma intervenção na mais alta política: a entrega da regência do reino ao Cardeal D. Catarina voltou a reunir as Cortes em 1562104.186 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aquando da morte de D. e até ao final do seu reinado jamais convocou as Cortes. discutiram mais um serviço de 100 mil cruzados à Coroa. Instados a dar a sua opinião. Evitava-se. Quanto a D. acrescentando. Nessa reunião estavam também presentes os vereadores da câmara de Lisboa. Não tivesse este reinado conhecido o desfecho trágico que todos conhecemos. e talvez as Cortes de Portugal acabassem então por cair no esquecimento. empenhados em obter a resposta régia a esses pedidos. Ao tomarem essa decisão. algo de . e alguns dos que nela participaram manifestaram a sua oposição a D. os casamentos da família régia. também eles votaram a favor da entrega do governo a D. a pretensão da rainha acabou por ser aceite. Todavia. Henrique. assim. e nessa mesma tarde celebrou-se. Nesta assembleia foi produzido um significativo conjunto de «capítulos gerais». no Paço da Ribeira. foram também entregues numerosos «capítulos particulares». Para além disso. a 11 de Junho de 1557. e que tal reunião se celebraria no dia seguinte. tinha manifestado a intenção de que o governo fosse confiado a D. a convocatória das Cortes num período sempre delicado: a menoridade do rei. Catarina. assumiu as rédeas do governo a 20 de Janeiro de 1568. antes de falecer. a reforma dos principais tribunais. de algum modo a representar o conjunto dos poderes urbanos do reino. A rainha D. e nessa ocasião o secretário de estado Pedro de Alcáçova Carneiro terá afirmado que o rei. durante as quais anunciou a sua disposição de renunciar ao governo. a reunião na câmara foi mais agitada do que se previa. a cerimónia que formalizava a constituição da regência. incluindo recomendações sobre temas como o governo geral do reino. e os procuradores. Catarina manobrou para que as Cortes não reunissem para a aclamação do jovem D. Catarina terá chamado ao Paço Real alguns dignitários da nobreza e da Igreja103. o modo de organizar a administração central e a casa real. De acordo com a documentação da época. devido à sua crescente marginalização da alta política. os representantes do «terceiro estado» procuravam evitar algo que até aí vinha acontecendo de uma forma mais ou menos sistemática – o atraso da Coroa na resposta aos pedidos entregues nas Cortes106. Ao cabo de uma longa discussão. Depois de longos debates acerca do modo de transmissão do poder. Catarina enquanto D. João III. Além disso. etc. Catarina. Todavia. Sebastião.

entre os finais de 1578 e boa parte de 1579. Segundo Bouza Álvarez.. em contextos de crise sucessória. Afonso III109.. em 1579. a disputa suscitada pela crise dinástica. fora aclamado rei.. 187 diverso aconteceu: a crise sucessória provocada pela morte prematura do monarca contribuiu para relançar o papel político das Cortes. as Cortes de 1385. a sua faculdade decisória em matérias sucessórias. lembrando episódios do passado português em que os «três estados». nas quais D. Como dissemos. Mafalda Soares da Cunha reconstituiu. aquando do juramento do príncipe D. Conta Fernando Bouza Álvarez107 que.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. em certos momentos da história do reino. e reunidos entre Abril e Junho de 1579 – nunca se decidiram. Catarina de Bragança e D. assinalando que a coexistência de vários regimes sucessórios dificultou a avaliação dos fundamentos jurídicos invocados pelos vários candidatos ao trono português. foram recordados alguns precedentes da história portuguesa: o caso de D. cada um à sua maneira. D. vários foram os oficiais de Filipe II que estiveram ocupados com a preparação das várias alegações e pareceres jurídicos para sustentar a candidatura do Habsburgo ao trono português. Prior do Crato – socorreram-se. primeiro rei de Portugal. em Setembro de 1578 Filipe II escreveu a Cristóvão de Moura pedindo-lhe que procurasse na Torre do Tombo papéis que provassem «como y cuándo». a despeito destas revelações. podia «el pueblo eligir Rey»108. os diversos candidatos em presença – com destaque para Filipe de Habsburgo. Trata-se de uma série de garantias que tinham sido estabelecidas nas Cortes de Lisboa de 1499. de uma forma taxativa. o episódio em que o rei D. António. no sentido de levar por diante a eleição. com grande clareza. O mesmo Fernando Bouza assinala que. Miguel. tanto mais que os teólogos de Salamanca e de Alcalá que tinham sido consultados sobre a . da tese da eleição do rei pelas Cortes. Afonso Henriques. Henrique I para Lisboa. A ASSEMBLEIA DE CORTES. no seu conjunto a crise sucessória de 1578-80 contribuiu para potenciar do papel das Cortes de Portugal. mestre de Avis. Nesse contexto. tal documento reforçava a tese de que as Cortes de Portugal tinham exercitado. os «três estados» – convocados por D. João. Assim. tinham intervindo. No essencial. Porém. Cristóvão de Moura encontrou um documento importante no arquivo da Câmara de Lisboa: os «Artigos de Lisboa de 1499» ou «Capítulos del rey Dom Manuel». Sancho II fora declarado rex inutilis e substituído pelo seu irmão D. em Portugal. e como assinala Mafalda Soares da Cunha. aos «três estados» reunidos em Almeirim foi novamente dada a oportunidade de se pronunciarem sobre uma matéria crucial: a sucessão no trono. em Outubro de 1578. Para além da mobilização de um complexo argumentário jurídico.

a que alguns deram a denominação de «Cortes» – a 19 de Junho de 1580112. decidiu precipitar os acontecimentos. entretanto. exercido fora do controle da Coroa. a questão sucessória. cidade onde se situava a sede da prestigiada Ordem de Cristo. Apesar de se tratar de uma reunião que congregava apenas uma parte dos representantes do terceiro estado e que contava com uma reduzida representação do clero e da nobreza. Henrique. de não existirem candidatos e de a «república» se encontrar em necessidade extrema111. outros juristas alegaram que só havia lugar para a intervenção das Cortes em última instância. Este acontecimento preocupou Filipe II e terá precipitado a acção militar que culminaria na derrota das forças apoiantes de D. Filipe de Habsburgo fez a sua entrada em Portugal. escolhendo um dos candidatos e colocando de parte os demais113. esse evento atemorizou bastante Filipe II e os seus apoiantes. D. fundamentalmente. deixando o reino entregue a cinco Governadores. Ao optar por realizar o seu primeiro encontro com os «três estados» portu- .188 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS matéria haviam declarado que as Cortes não tinham o poder para eleger reis110. Nas sessões que se seguiram os «estados» debateram. contando com a comparência do monarca. fazendo-se aclamar – numa cerimónia atípica. mantendo uma acalorada discussão sobre o futuro da Coroa. E num contexto em que era cada vez mais evidente que Filipe de Habsburgo pretendia dar início à intervenção militar sobre Portugal. e uma parte dos presentes manifestou-se a favor da capacidade electiva das Cortes – solução que. e pouco tempo depois convocou as Cortes para a localidade de Tomar. prior do Crato e um dos pretendentes ao trono português. falecia a 31 de Janeiro. Na sequência destes eventos. Já bastante debilitado e muito pressionado pelos vários pretendentes ao trono português. ou seja. no caso de o trono estar vago. nesta fase. Enquanto decorriam estas indagações. a 30 de Abril de 1580 os cinco Governadores voltaram a convocar o «reino» para Santarém. Pela mesma altura. depois de vários dias de agonia. António. e terá sido nessa altura que D. António. em finais de 1579 o rei convocou os «três estados» para uma reunião em Almeirim. Filipe de Habsburgo desejava evitar. um gesto que visava transferir para os «três estados» a responsabilidade de uma decisão tão melindrosa. por estar na posse de informações de que os demais pretendentes contavam com muitos apoiantes no seio do «braço do povo». A abertura solene das Cortes realizou-se a 11 de Janeiro de 1580. pois foi um exemplo concreto de voluntarismo do «reino». Em meados de Junho estava já em Santarém um número considerável de procuradores. o que não impediu que as Cortes continuassem reunidas até 15 de Março. os acontecimentos precipitaram-se. Aqueles que estiveram presentes no evento de Santarém manifestaram a sua vontade.

como o suo. pois era para todos evidente que os portugueses – ou pelo menos parte deles – tinham pegado em armas contra Filipe II e. Para além disso. A convocatória dos «três estados» surpreendeu alguns observadores coetâneos. a saber: o reconhecimento. pela nego- . 189 gueses nesta localidade. e me fazerem preito e menagem de vassalagem. em terras lusas as Cortes só eram legítimas desde que fossem convocadas pelo rei.. os seus costumes. na sequência disso.116 Quanto à manutenção da assembleia representativa portuguesa. o «rei prudente» optou pela via do compromisso. o que está consagrado no «Estatuto de Tomar» de 1581.»114. o artigo 2. convocando as Cortes. semelhante opção envolveu uma cedência. ao invés de seguir por esse caminho. Contudo. tratar ni determinar cosa alguna que toque a los dichos Reynos»117. uma vez que. É isso. especificava o motivo da convocatória: «Pera me jurarem por verdadeiro Rey e senhor destes Reynos e senhorios delles. A resistência antoniana dera a Filipe II a oportunidade de aplicar o direito de conquista a Portugal.. Tal significava que o monarca Habsburgo tivera a oportunidade de aplicar a Portugal o direito de conquista e de fazer tábua rasa dos privilégios reinícolas da Coroa portuguesa.. Filipe de Habsburgo optou por negociar. Através desse gesto Filipe II procurou atingir dois objectivos: pretendeu mostrar que actuava já como rei de Portugal. como a meu verdadeiro e legitimo suçessor. local de onde emanava uma intensa memória do passado português. No entanto. mas sim como mais um reino a agregar àqueles que já faziam parte dos seus domínios115.. um articulado onde ficou estabelecido o status de Portugal como reino agregado à Monarquia Hispânica.º do «Estatuto» era muito claro: «Que quando ubieren de hazer Cortes tocantes a estos Reynos sean dentro de Portogal y que en otras qualesquier que ouieren fuera dellas no se pueda proponer. ao optar por chamar os «três estados». pela solução pactuada. etc. por Filipe II. como assinalámos no início. e assy ao Principe Dom Diogo. o seu espaço jurisdicional. datada de Janeiro de 1581. haviam sido derrotados.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. de resto. as suas instituições. meu sobre todo muito amado e muito prezado filho primogenito. fidelidade e obediencia em forma de direito. em termos que permitiram aos lusos preservar a sua dignidade reinícola. de fazer tábua rasa dos foros portugueses e de implementar um novo modelo de governo. as suas leis. do estatuto reinícola de Portugal e dos seus correlativos foros. A ASSEMBLEIA DE CORTES. bem como tirar partido da força simbólica do Convento de Cristo. A carta que enviou aos «três estados». a sua língua. Como é evidente. Filipe de Habsburgo dava a indicação aos seus novos vassalos portugueses de que não pretendia tratar Portugal como uma simples conquista. Filipe de Habsburgo procurava transmitir um sinal de continuidade face à dinastia cessante.

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ciação e pela cedência de contrapartidas aos seus novos vassalos portugueses. Todavia, é importante frisar que Filipe II, ao mesmo tempo que apostou numa solução de continuidade, quis deixar bem claro que o «Estatuto de Tomar» era algo que decorria da «graça real», e não de uma obrigação régia de respeitar os foros portugueses. Como assinalou Fernando Bouza, Filipe II procurou apresentar o “seu” Portugal como a continuação do «modo y manera» que D. Manuel havia idealizado para o seu filho D. Miguel, embora frisando que tal correspondia a uma decisão sua, e não ao eminente direito ou vontade dos portugueses118. No que respeita ao lugar constitucional das Cortes, como vimos a crise sucessória acabou por ser algo ambivalente. Por um lado, ao convocar as Cortes para sancionar a sua entrada em Portugal, Filipe II de alguma maneira concedeu a essa assembleia um protagonismo que ela tinha perdido durante o governo de D. Sebastião I. Esse relançamento das Cortes, associado às atribulações dos anos de 1579 e 1580, poderia até ter dado o mote para um movimento que visasse reequacionar o papel constitucional da assembleia, por exemplo consagrando a sua capacidade para vigiar, de forma permanente, a actuação do rei no que concerne ao respeito pelo estatuto reinícola de Portugal. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Na verdade, ao mesmo tempo que concedeu esse protagonismo aos «três estados», Filipe de Habsburgo frisou que a intervenção das Cortes em matérias tão transcendentes como a sucessão no trono ou o estatuto de Portugal no seio da Monarquia Hispânica era limitada e circunscrita àquela ocasião excepcional. Aliás, convém não esquecer que as Cortes de Tomar foram, essencialmente, um evento cerimonial, uma vez que o fundamental da negociação se realizou previamente. Além disso, pouco depois de efectuado o juramento, Filipe II manifestou pouco empenho em que as reuniões de trabalho prosseguissem, revelando mais preocupação por seguir para Lisboa, onde, já na qualidade de soberano jurado pelos «três estados» portugueses, iria ser recebido com grande solenidade119. Além disso, importa ter presente que o monarca, até ao final do seu reinado, só por uma ocasião voltou a convocar as Cortes de Portugal, e fê-lo numa altura em que se preparava para deixar as terras lusas. Trata-se da reunião de 1583, especificamente pensada para que os portugueses jurassem o príncipe D. Filipe como novo herdeiro, e que teve como principal particularidade o facto de os procuradores terem sido chamados única e exclusivamente para jurar o príncipe. O rei tencionava partir, quanto antes, para Castela, razão pela qual desejava umas Cortes rápidas. Por isso, e como recordaria, anos mais tarde, o conde de Salinas, as cartas de convocatória para a cerimónia de 1583 incluíam a seguinte indicação:

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«Embiaréis vuestros procuradores con poder bastante para que juren al Príncipe Don Phelipe, mi hijo mayor, por Rey y Señor destos Reinos después de mis dias»120 – ou seja, a carta de convocatória circunscrevia o âmbito das matérias a debater na assembleia, um gesto pouco comum na tradição das Cortes de Portugal121. Depois desta reunião, Filipe II partiu para Castela e não voltou a visitar Portugal até ao final do seu reinado. Como consequência, até 1598 as Cortes portuguesas não voltaram a reunir. Ainda assim, cada vez que o monarca católico tomou a iniciativa de introduzir um novo imposto ou de repor uma taxa que tinha sido levantada – caso dos portos secos, abolidos em 1581 mas repostos em 1592 –, os descontentes fizeram-se ouvir, apresentando as Cortes como a instância competente para decidir sobre essa matéria122. Convém notar que estas e outras queixas similares continuaram a ser escutadas nas décadas subsequentes. Mais do que a expressão de um confronto “nacional”, eram, antes de mais, a reacção de uma sensibilidade política eminentemente jurisdicionalista, a qual não escondia a sua repugnância por modalidades decisórias mais voluntaristas e que não passavam pelos canais costumeiros.

As Cortes nos finais do século XVI e na primeira metade do século XVII
A partir de finais do século XVI os monarcas hispânicos cada vez menos se ausentaram de Castela. Em parte por causa disso, o número de reuniões das Cortes castelhanas aumentou, realizando-se aproximadamente de três em três anos: Filipe III convocou as Cortes por 6 vezes; quanto a Filipe IV, reuniu a assembleia representativa por 8 ocasiões. Importa frisar que quase todas as reuniões então efectuadas incidiram sobre a problemática fiscal. Viviam-se tempos em que as dificuldades financeiras da Coroa eram cada vez maiores, facto que levou o rei a optar por abandonar a fiscalidade directa-pessoal, adoptando, como substituição, a fiscalidade indirecta, através de impostos sobre o consumo. Assim, em Castela os servicios estagnaram, ao mesmo tempo que se dava um crescimento significativo das alcavalas e dos millones123. Tal opção fez com que as Cortes de Castela se tornassem num dos principais espaços de negociação da política fiscal. Como sugerimos atrás, a partir de meados do século XVI a Coroa tirou partido das reuniões de Cortes para incutir, nos representantes dos «três estados», novos sentimentos de pertença. Aproveitando a circunstância de estarem presentes representantes de todas as partes do corpo político, os oficiais régios lembraram que o facto de pertencerem à entidade política «reino» comportava obrigações e até mesmo sacrifícios – como por exem-

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plo o pagamento de impostos, o recrutamento militar, o apoio logístico às forças militares, etc. – que deveriam ser aceites sem qualquer questionamento. A estes apelos os representantes deram uma resposta plural. No que toca ao desempenho dos procuradores no decurso das reuniões, J. I. Fortea Pérez sublinha que, no quadro das Cortes de Castela, é evidente um forte contraste entre, por um lado, a perspectiva mais geral, à escala do reino, patenteada pelos oficiais régios e, por outro, a visão localista dos procuradores. Aliás, o facto de os custos inerentes à participação nas Cortes terem sido sempre suportados pelas finanças locais contribuía, certamente, para manter este apego dos procuradores às suas questões «particulares». Segundo J. I. Fortea Pérez124, esta distinção jamais foi superada, tendendo até a acentuar-se a partir do momento em que a Coroa procurou elevar o estatuto das Cortes de Castela e convertê-las num órgão superior (e autónomo) face às cidades. Tal sucedeu no final do século XVI, e nessa ocasião as cidades esforçaram-se por impedir que essa proposta régia fosse posta em prática. Terá sido precisamente neste contexto que se tornou mais visível a ambiguidade no modo como eram entendidas as relações entre o rei e o reino, e o papel que cabia às Cortes desempenhar. Para alguns o reino era contemplado como uma comunidade integrada, superior e distinta da soma das suas partes. Nesse âmbito, as Cortes eram vistas como o órgão de representação institucional, e a prioridade seria concentrar processos de tomada de decisão e homogeneizar procedimentos, através de uma assembleia única. Para outros, pelo contrário, o reino era visto como um agregado de comunidades autónomas, sendo as Cortes tidas como uma mera junta de cidades. Neste quadro as atribuições das cidades saíam claramente fortalecidas, uma vez que previa o controle, pelos poderes urbanos, das principais funções administrativas. De acordo com Fortea Pérez125, a Coroa castelhana, a fim de evitar o poderio das cidades e a sua estratégia de bloqueio da política fiscal, procurou potenciar as Cortes e colocá-las numa posição intermédia entre o rei e as cidades, mas em qualquer caso acima destas últimas. O objectivo era autonomizar as Cortes e libertá-las da obrigação de conferirem com as cidades cada uma das decisões que era necessário tomar. Paralelamente, os ministros régios actuaram no sentido de captar o favor dos procuradores e de dificultar a comunicação destes com as cidades de onde eram oriundos. No fundo, aquilo que interessava à Coroa era que os procuradores (e as Cortes) falassem em nome do conjunto do reino, e não como meros representantes dos seus lugares de procedência. Segundo A. M. Hespanha, foi esse o momento em que se começou a adquirir a ideia de que o reino era algo de diferente do conjunto das partes, caminhando-se para a representação do conjunto do corpo político por apenas alguns126.

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O debate em torno desta questão conheceu o seu auge nos últimos anos do século XVI e na primeira metade de Seiscentos, altura em que a Coroa – e alguns procuradores – tentaram instaurar uma maior distância entre as Cortes e as cidades. Porém, e como seria de prever, as urbes moveram uma tenaz resistência a estas medidas. De qualquer modo, o resultado esperado não se concretizou, pois apesar de mais potenciadas e independentes face às cidades, as Cortes de Filipe III e de Filipe IV revelaram-se morosas e difíceis de gerir por parte dos ministros da Coroa. Além disso, a transferência do «voto decisivo» das cidades para as Cortes, em 1632, não livrou a Coroa de negociações muito árduas com os procuradores127. Acresce que algumas urbes castelhanas encetaram processos de negociação em paralelo às Cortes. Na verdade, várias cidades preferiram negociar directamente com a Coroa em vez de o fazerem na assembleia representativa, pois, por essa via, alcançavam acordos bilaterais, evitando desse modo os pactos estabelecidos entre a Coroa e a maioria das cidades. Outro fenómeno que importa destacar é o facto de, em pleno período de Seiscentos, os aristocratas voltarem a manifestar um certo interesse pelas Cortes. Os nobres, em especial os de ascensão mais recente, verificaram que a assembleia podia ser usada como uma forma de captar oportunidades de serviço ao rei, assim como para consolidar a sua influência na corte régia. Dignitários poderosos como o duque de Lerma, o condeduque de Olivares ou D. Luis de Haro, por exemplo, tiveram lugares nas Cortes enquanto representantes de cidades. Contudo, este regresso dos aristocratas voltou a gerar tensões, pois determinadas cidades eram hostis a membros da nobreza que desempenhavam a função de procuradores128. Algo de semelhante se passava nas Cortes portuguesas, onde, como dissemos, foi sempre notória uma clivagem entre, por um lado, as cidades do primeiro banco, representadas em geral por membros da nobreza de corte que detinham um fácil acesso ao rei ou aos seus principais ministros, e, por outro, as restantes cidades. Com o acentuar da centralidade de Castela no quadro da Monarquia Hispânica, a corte régia permaneceu nesse reino por períodos cada vez mais longos, e os castelhanos assumiram, nessa fase, o papel de liderança dos territórios dos Habsburgo espanhóis129. Foi de Castela que partiram algumas das principais iniciativas de reforma, as quais visaram, fundamentalmente, inverter a tendência recessiva das décadas anteriores. O monarca hispânico efectuou muito menos visitas aos seus reinos, o que, consequentemente, levou à realização de um menor número de reuniões das Cortes de Aragão, de Portugal e da Catalunha, para já não falar das assembleias representativas dos reinos italianos que estavam na órbita dos Habsburgo.

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Como não podia deixar de ser, a dinâmica reformista que se viveu sob Filipe III e Filipe IV influenciou as relações entre o centro da Monarquia Hispânica e os demais reinos que integravam os domínios dos Habsburgo. Vários interesses estabelecidos foram afectados pelo voluntarismo político dos ministros régios, e os sinais de descontentamento não tardaram em surgir. No conjunto dos seus trabalhos, John H. Elliott demonstrou que, no quadro da cultura política do Antigo Regime, quando as pessoas se sentiam ameaçadas a típica atitude de defesa era o refúgio atrás de barreiras protectoras como os seus costumes, as suas leis, as suas instituições e as suas tradições. É precisamente nesse contexto que, em Aragão, em Portugal, na Catalunha e também nos territórios italianos da Monarquia, se procede a uma revalorização das Cortes enquanto símbolo dos foros reinícolas. Com efeito, no contexto da ofensiva fiscal da primeira metade de Seiscentos, as Cortes dos vice-reinados simbolizaram o estatuto reinícola e a defesa dos direitos dos vassalos contra os cada vez mais insistentes pedidos do rei para que aumentassem a sua contribuição fiscal. Por outras palavras, a maior agressividade da política fiscal da monarquia concorreu para que as Cortes – tanto as de Castela como as dos demais territórios da Monarquia – voltassem a estar no centro do debate político. Os portugueses também sentiram a nova dinâmica integradora das primeiras décadas de Seiscentos, e à semelhança do que se passou em outras partes da Península, os lusos também se voltaram para a assembleia de Cortes, encarando-a como o principal símbolo do estatuto reinícola de Portugal130. Aos apelos chegados da corte régia para que fossem mais solidários com a Monarquia, respondiam os lusos com o argumento de que Filipe III, enquanto rei, ainda não havia jurado os foros portugueses, e que as iniciativas fiscais que se anunciavam teriam necessariamente de passar pela aprovação das Cortes de Portugal, alegando que tal correspondia ao costume seguido no reino desde os tempos mais ancestrais. Quanto a Filipe III, rei mais voluntarista do que é costume pensar, deu a entender que só viajaria até Portugal para reunir as Cortes desde que os portugueses chegassem a acordo quanto ao montante da sua contribuição fiscal para a Monarquia131. A invocação das Cortes como argumento de resistência dos lusos contra as solicitações fiscais da Coroa dos Habsburgo tornou-se de tal modo insistente que, em Janeiro de 1613, D. Diego de Silva y Mendoza, conde de Salinas e figura proeminente no Conselho de Portugal132, apresentou ao rei um «memorial» sobre «las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Trata-se de um parecer que se inscreve nos debates sobre a ida de Filipe III a Portugal para reunir as Cortes, e nele se discute não só

representava os portugueses e a sua condição reinícola – ter sido temporariamente suspenso e substituído por uma junta restrita. «todas las otras juntas que los pueblos hicieren. porque é a pessoa régia quem confere poder a «todas las personas que tienen voto en ellas. sin preceder convocación y voluntad expresa de S. y mandando que no se trate de otros». Contudo. Salinas critica o Senado de Lisboa. no se llaman Reino de Portugal. Filipe. 195 a conveniência da viagem. quando Filipe II ordenara que se desse aos procuradores única e exclusivamente o poder para jurar o príncipe D. quando as Cortes são legitimamente convocadas. por causa desse precedente histórico. também.. particulariçando los cassos para que comboca. ao ponto de. por esta instituição se ter apresentado como uma entidade que falava em nome do «Reino». Foi neste ambiente que D. por isso mesmo. o Conselho de Portugal – o órgão que.. sem que. tivessem voltado a activar o Conselho de Portugal. Salinas recorda a convocatória de 1583. que puede convocar generalmente. em especial o facto de esta instituição ter insinuado que poderia jurar o príncipe Filipe (futuro Filipe IV) em sua ausência. cuya soberanía en la Corona de Portugal es tan grande. a pretexto da vinda de Filipe III. Devido à sua importância para o tema que estamos a analisar. na corte. mas sobretudo até que ponto era o monarca obrigado a fazer essa jornada. equivalia a uma despromoção do reino no quadro da Monarquia Hispânica. a prolongar-se. Salinas sustenta que. uma vez que o juramento de 1583 continuava perfeitamente válido. este documento é merecedor de uma análise detalhada. futuro Filipe III. ni que por ningún camino tengan el nombre de Reino. ni conuiene que las hagan. Para Salinas. não carecia de se deslocar a Portugal para ser jurado pelas Cortes deste reino. o monarca e os seus ministros hesitaram quanto à oportunidade da jornada. A ASSEMBLEIA DE CORTES. ni las pueden hazer. lacuna que. o rei não deveria ter qualquer dúvida de que havia sido jurado enquanto príncipe. alguns portugueses manifestaram o seu descontentamento pelo facto de Portugal não contar com um conselho próprio junto do rei. ou seja.. M. o que – segundo o conde de Salinas – transcendia em . Para provar esta última afirmação. Diego de Silva y Mendoza produziu o seu parecer sobre as Cortes de Portugal. Salinas começa por afirmar que só se pode falar em «Reino». durante esse período de indefinição.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. No seu interessantíssimo «memorial» Salinas critica também o desejo de protagonismo manifestado pela Câmara de Lisboa. No seu parecer. na previsão de uma estadia mais ou menos próxima do rei em terras portuguesas. em Portugal. y con poderes bastantes suyos»133. quando é o rei quem convoca a assembleia. e que. A viagem esteve mesmo para ter lugar no início da segunda década do século XVII. no início do seu reinado.. Perante essa situação.

Salinas afirma que Portugal não era uma dessas «coronas en que el Reyno se puede congregar por propia autoridad y sin mandato real. ao reunir as Cortes e ao contemporizar com os portugueses. não estava previsto no juramento que Filipe II efectuara em Tomar.». De acordo com D. con ocasión del juramento. y para el Reino. em 1580. i congregado. Com base nestes dados.. corria o ano de 1581. no quadro da crise sucessória. a principal preocupação de D. sem que tivesse sido chamada por um rei legítimo – «Porque si el delito fué juntarse el Reino. que. son solos los que la restitución y gracia declara». declara que Filipe II. Salinas recorda que o privilégio de a população poder juntar-se com o nome de «Reino». logo. sem convocatória régia. qué pena se pudo proporcionar a este delito. no que concerne a Portugal Salinas era da opinião de que a questão se colocava de uma maneira completamente diferente: «en Portugal. sobre matérias tão transcendentais como a sucessão na Coroa. efectua uma análise muito sugestiva das implicações do juramento efectuado em Cortes. pues para el heredero es cirimonia el juramento. preueniendo de paso otros semejantes. Diego da Silva era negar a Lisboa a legitimidade de. uma postura mais afirmativa do rei. sin que preceda juramento. le haga . fê-lo não propriamente porque sobre ele pesava a obrigação de respeitar os foros portugueses. voluntariamente e sem o prévio consentimento do monarca. afirma Salinas que «los Reinos que toman armas contra sus Reys pierden. por ser através dele que o rei via a sua situação legitimada. aya quien le congregue. Diego de Silva. sin convocación del Rey para eligir a Don Antonio. nalguns reinos a «utilidade» do juramento era recíproca. fora um gesto resultante da vontade régia e. Prosseguindo na sua digressão pelos acontecimentos de 1581. revogável em qualquer momento que o monarca assim o decidisse136. sustancia. desde aquel punto. Ou seja. mas sim por «graça real». y quando se les restituyen. A esse respeito. más justa i más bien considerada que la que prohibe que semejantes juntas no pueden tener nombre de Reino. Salinas manifesta a sua veemente oposição à ida do monarca hispânico a Portugal naquele momento tão delicado. defendendo.. viene a ser el juramento en mayor utilidad del Reyno que del Rey. António e a assembleia que se reuniu. Salinas relembra o caso de D. acrescentando que a reunião de Cortes sem que a convocatória procedesse da vontade régia poderia ser equiparada a um gesto de rebelião. No fundo. i que sólo le tenga el que fuere ligitimamente congregado por su Rey en Cortes?»135. assumir o título de «Reino em Cortes» e tomar decisões. Em face desta questão. donde se prosupone que el heredero es Rey. sus priuilegios. sendo também mediante essa cerimónia que o reino conseguia que os seus privilégios fossem jurados pelo monarca.196 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS muito a jurisdição da dita câmara134. de motu proprio. em vez disso. Todavia. De seguida.

que haze el Reyno de Portugal. As Cortes não só não foram convocadas como. durante a qual os ministros régios tiveram de escutar uma série de queixas acerca da violação de algumas das condições do «Estatuto de Tomar»138. razão pela qual os monarcas não estavam tão limitados como em França pela vontade dos seus vassalos. Como seria de prever. em vez disso. acrescentando que. numa reunião praticamente reduzida à cerimónia do juramento do príncipe herdeiro e a uma rápida negociação sobre matérias fiscais. aliás. Para Salinas. apoiando-se. o caso de França e o facto de os seus reis serem ungidos e jurados. nesse reino. em expedientes representativos mais ágeis – na linha. Em Portugal. nos anos que se seguiram. nestas duas últimas condições. plasmado em propostas. também. o monarca se juntou com os «três estados» portugueses. no seu reinado.. nessa ocasião. a resposta a muitas das petições que foram entregues nas Cortes139. A despeito destas observações. tornando-se também necessário ser jurado e ungido. Jean-Frédéric Schaub chamou recentemente a atenção para a importância do Memorial de la preferencia. 197 parte para que pueda pedir al Rey que le jure sus preuilegios»137. No reinado que se seguiu. esse contexto de crescente voluntarismo régio reforçou um processo que já se vinha fazendo sentir: a identificação entre as Cortes de Portugal e a condição reinícola de Portugal. as Cortes. cada vez que surgiam planos de introdução de novos tributos. a falta de resposta às petições de 1619 será relembrada pela publicística apoiante do duque de Bragança. al de . impedindo. Salinas sustenta que bastava a condição de herdeiro para se ser rei. para um dignitário chegar a rei não bastava ser herdeiro. Filipe III acabou mesmo por viajar até Portugal.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Recorda. a qual viu nesse gesto um sinal do mau governo dos Habsburgo em Portugal. do que estava a suceder em outros pontos da P. arbítrios e memoriais difundidos a partir de finais da década de 1620. Anos mais tarde. Ibérica140. pelo contrário. a propósito. bem pelo contrário. Foi a única vez que. o monarca apressou-se a abandonar Portugal. Tais apelos não parecem ter comovido o conde duque de Olivares e os seus ministros. Filipe IV e Olivares lançaram várias iniciativas fiscais sem consultarem as Cortes de Portugal. o que inviabilizou o debate sobre outras questões governativas. mas apenas em 1619. incluindo Castela) lembravam que em Portugal existia o costume imemorial de os novos impostos não serem introduzidos sem o consentimento dos povos reunidos em Cortes.. convocando. as instituições lusas (à semelhança do que se passava noutras partes da Península. como é bem sabido. y su Consejo.. Na década de 1630. floresceu um discurso de desvalorização da assembleia dos «três estados». Talvez para evitar essas críticas. A ASSEMBLEIA DE CORTES. os pretendentes dependiam dos vassalos.

da autoria de João Salgado de Araújo. desde as origens de Portugal como unidade política independente.. Como não podia deixar de ser.. a maior liberdade de manobra do monarca constituía um factor de preeminência para o reino. na obra Ley Regia de Portugal. ao contrário do que se passava em Aragão. Assim se compreende os apelos à reunião de Cortes escutados durante a década de 1630. y de las dos Sicilias (Lisboa. assim como a oportuna revelação das «actas» das Cortes de Lamego. de forma célere. um documento – apócrifo – que. Pouco tempo depois. Contrariando de uma forma flagrante o estabelecido pelo «Estatuto de Tomar». as «actas» da assembleia de Lamego alegadamente provavam que.. Para além do citado tratado de Barbosa de Luna. Salgado de Araújo defende a legitimidade dessas juntas. um impresso da autoria de Pedro Barbosa de Luna e que surge no contexto da disputa de precedência entre a Coroa de Aragão e a Coroa de Portugal. sustentando também que a Coroa lusa era mais «absoluta» do que a aragonesa. Este exemplo demonstra que. proporcionava o aval histórico ao protagonismo político que muitos desejavam atribuir à «assembleia dos três estados». Atribuídas ao período fundacional do reino. 1627). Entre os muitos argumentos esgrimidos nesta obra há um que se relaciona directamente com a «assembleia dos três estados»: para provar a preeminência de Portugal. Durante o valimento de Olivares sucederam-se os escritos – boa parte deles assinados por portugueses – onde se expressava uma opinião desfavorável sobre as Cortes lusitanas e acerca do seu papel no sistema político. Barbosa de Luna afirma que em terras lusas o rei era «mais absoluto». Juan Delgado.. 1627). Para o autor do Memorial. para alguns. Não tardou a correr o rumor de que se planeava a supressão das Cortes. estes escritos tiveram algum impacto em Portugal. encarando-as como um tribunal ad hoc. o mesmo Salgado de Araújo volta a defender as juntas.. Geraldo de Vinha. um outro bom exemplo do que acabámos de afirmar é um breve manuscrito de meados da década de 1620. entre outras coisas. (Madrd. onde se discute até que ponto era legítimo organizar. juntas ad hoc para despachar. para além de ter funcionado como elemento galvanizador para todos aqueles que foram atingidos pelas iniciativas de Olivares142. os negócios de Portugal. factor que conferia mais dignidade a Portugal no quadro da sua “competição” com os demais reinos que integravam a Monarquia Hispânica141. o rei de Portugal podia revogar leis de Cortes sem reunir os «três estados». o que foi interpretado como um indício seguro de que estava em curso um processo de despromoção do estatuto reinícola de Portugal. os «três estados» tinham o direito a pronunciar-se sobre matérias governativas. sem necessidade das Cortes. pois fazia corpo imediatamente com a Coroa.198 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aragon. como um aperfeiçoamento pontual da administração da Coroa. . em Madrid.

é importante ter em conta que o apelo à convocatória dos «três estados» podia servir vários propósitos. Como se não bastasse. afectando grupos – e respectivos privilégios – que até esse momento tinham sido poupados. rompia. embora tivesse também a finalidade de encontrar uma forma de atenuar o descontentamento vivido em Portugal. Para além de constituir um instrumento de defesa da condição reinícola do reino português. pouco tempo depois Olivares decidiu levar a cabo uma medida ainda mais drástica: a dissolução do Conselho de Portugal. Recorde-se que o conde-duque. como uma instância cuja actuação se inspirava no modelo judicial de gestão administrativa. Em meados de 1638. Convém não esquecer que se vivia uma conjuntura em que era cada vez mais forte a presença de Olivares e da sua clientela. implementou uma fiscalidade particularmente extensiva.. já que muitos viram na decisão de Olivares de consultar os notáveis do reino fora de Portugal a confirmação de que o valido estava mesmo apostado na revogação do «Estatuto de Tomar» e na despromoção de Portugal. A pressão fiscal do período de Olivares amplificou o ressentimento contra a sua pessoa e a sua clientela. os principais responsáveis pela agitação social que se registou ao longo de toda a década de 1630. órgão que se assumira como um dos principais obstáculos à sua política fiscal em terras lusas. para além do seu carácter ancestral. com a consequente subalternização dos nobres e dos letrados até aí preponderantes. como forma de resistência ao regime decisório eminentemente executivo instaurado pelo valido de Filipe IV. em muitos aspectos. Terão sido estes. Além disso. o conde duque de Olivares decidiu convocar. e na sequência das perturbações ocorridas no ano antecedente. Quanto à linha de actuação do valido de Filipe IV. uma espécie de reunião restrita das Cortes de Portugal. delegando a aplicação das decisões num conjunto de oficiais régios de carácter comissarial e revestido de uma considerável margem de poder. A reunião visava encontrar uma solução para a substituição da duquesa de Mântua. e muitos daqueles que lutaram contra o seu estilo de governo – por se afastar do tradicional e muito mais consensual paradigma jurisdicionalista – usaram as Cortes como o símbolo da maneira consuetudinária de governar em Portugal.. em matérias de governo o valido concentrou a faculdade decisória no seu círculo de confiança.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. para Madrid. podia funcionar. para além de se ter recusado a reunir Cortes. 199 Todavia.. com essa lógica de actuação. se auto-representava como um tribunal. e que atingiu o seu ponto culminante no ano de 1637143. A ASSEMBLEIA DE CORTES. O valido de Filipe IV pretendia substituir esse conselho por um organismo con- . a junta realizada em Madrid acabou por não surtir o efeito desejado. Importa não esquecer que a «assembleia dos três estados». Todavia. precisamente. também.

estudados. por Fernando Bouza148. escreve Agostinho Manuel algumas palavras que vão claramente no sentido da desvalorização dessa assembleia: «es de advertir que la precision que los principes comunmente platican en las promesas que hacen en Cortes nunca es tan exacta ni tan indispensable que sobreviniendo en la ejecuccion inconvenientes no queden con libertad de emendar-las interpretar-las i aun derogar-las porque parece que siempre llevan la tacita condicion de que las cumplira no obstando al bien publico del imperio»145. Schaub bem reconheceu. Xavier Gil Pujol recorda que. Convém lembrar. J. Entre os vários escritos que então circularam. chegando mesmo a propor a celebração de uma reunião de Cortes comum às duas Coroas – Castela e Portugal – em Madrid. ou então a convocação de uma vasta junta de personalidades portuguesas a realizar na corte régia146. No «Discurso juridico-politico sobre el derecho que el Rey nuestro señor tiene en el reino de Portugal y union de su gobierno a la . os escritos do português Diogo Manuel de Orta. Pretendia Olivares que as Cortes deixassem de ser símbolos do particularismo reinícola. outro caso a reter são. nos anos de 1638 e 1639 Olivares recebeu numerosas propostas – muitos delas da autoria de portugueses – que apontavam no sentido da reconfiguração do estatuto de Portugal no quadro da Monarquia Hispânica. uma Junta General ou um Consejo Supremo. nenhuma dessas propostas foi avante147. de motu proprio. Convém assinalar que esta não foi a única proposta de criação institucional onde os limites jurisdicionais entre Portugal e a restante Monarquia Hispânica surgiam algo esbatidos. o que estava basicamente em jogo era afirmar que o monarca tinha o poder de alterar. Vasconcelos vai mais longe. esta decisão foi tudo menos pacífica. e que se convertessem em órgãos fomentadores de sentimentos de pertença ao conjunto da Ibéria.-F. Sobre as Cortes de Portugal. sem dúvida. uma espécie de États Généraux de França. no contexto das grandes dificuldades financeiras de 1599. Como J. sobretudo. Voltando aos papéis sobre Portugal em circulação na corte régia no final da década de 1630.200 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS junto luso-castelhano e estreitamente controlado pela Coroa. também se propôs a criação de uma grande assembleia de toda a Espanha. Todavia. Como assinalou Jean-Frédéric Schaub144. Dessa forma. Contudo. que a proposta de convocatória de uma assembleia geral dos reinos da Península Ibérica não apareceu apenas em arbítrios que tinham a ver com matérias portuguesas. Como facilmente se imagina. esperava-se conseguir fomentar um mais intenso sentimento de pertença entre as várias partes que compunham a Monarquia. Schaub destaca as sugestões que foram avançadas por Agostinho Manuel de Vasconcelos. a este respeito.-F. as decisões tomadas pelas Cortes.

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Real Corona de Castilla»149, o argumento principal de Orta é que o contrato feito nas Cortes de Tomar, em 1581, não tinha qualquer validade, dado que o rei já era senhor do reino antes das Cortes. A acreditar em Orta, Portugal era um reino herdado, e a natureza separada do reino português desaparecia com a herança castelhana, o que levava o autor do «Discurso juridico-politico» a afirmar que as leis castelhanas podiam ser impostas em Portugal. Numa digressão pelo passado recente da Monarquia, Diogo Manuel de Orta aproveita para criticar Filipe II pelas concessões que havia feito e por ter sido demasiado contemporizador para com os lusos, os quais, convinha não esquecer, tinham resistido militarmente contra a entrada na Monarquia Hispânica. Além disso, lembra que os levantamentos de 1637 tinham de ser interpretados como uma revolta, devendo ser retiradas todas as consequências desse facto, ou seja, tais acontecimentos significavam a quebra unilateral do pacto entre os dois reinos, ficando Filipe IV livre de qualquer obrigação de respeitar os foros portugueses150. Como notou J.-F. Schaub, o que estava subjacente a este texto era a redução de Portugal à jurisdição da Coroa de Castela, ou seja, o desaparecimento da Coroa portuguesa enquanto entidade juridicamente separada da restante Monarquia Hispânica151. É importante não perder de vista que as iniciativas de Lerma e de Olivares têm lugar numa época em que, em termos da cultura política dominante, ainda não era socialmente aceitável a ideia de uma gestão governativa puramente executiva, tal como não era nada pacífica a actuação governativa que não estivesse confinada aos moldes da iurisdictio152. Assim, em Portugal, tal como noutras partes da Monarquia (incluindo Castela), boa parte dos apelos para que as Cortes fossem convocadas, no quadro da resistência a Lerma ou a Olivares, foram o resultado da repugnância pelas práticas governativas extra-judiciais e de sentido eminentemente executivo, e não propriamente o simples e espontâneo produto de factores nacionais. Muitos letrados demonstraram-se agravados com este estilo de governo, pois sentiam que os novos ministros favorecidos pelo valimento estavam a atropelar tanto a sua hierarquia profissional quanto o seu cursus honorum. Um número não negligenciável de disputas foi pois motivado por magistrados ciosos do seu ofício, os quais, dando corpo ao seu sentido de estrito cumprimento da jurisdição, reagiam contra intromissões jurisdicionais, independentemente da nacionalidade daquele que levava a cabo essa acção. Quanto à aristocracia, nestes anos também ela clamou a favor das Cortes, não só por ter sido relegada para segundo plano pela clientela do valido, mas também porque, do seu ponto de vista, a privança introduzia um grave desequilíbrio na «justiça distributiva»153. Um dado parece certo:

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o acumular desses episódios de tensão fez com que, aos poucos, a ideia do pacto rei-comunidade deixasse de ser um assunto abstracto e só discutido por teólogos ou por juristas, para se tornar num tema de debate quotidiano, perdendo muita da sua conotação metafísica e adquirindo uma feição histórica cada vez mais nítida154. Foi assim que, aos poucos, ficou criado o ambiente propício para o deflagrar de uma ruptura política de grande alcance.

As Cortes em Portugal sob a dinastia de Bragança
Poucos dias depois da revolta de 1 de Dezembro de 1640, os apoiantes de D. João, duque de Bragança, decidiram convocar os «três estados». À semelhança do que acontecera noutras ocasiões, a assembleia representativa foi nessa conjuntura encarada como uma instância que poderia dar alguma legitimidade ao movimento português de secessão da Monarquia Hispânica. Assim, em Janeiro de 1641 as Cortes reuniram em Lisboa, juntando uma pequena parte do «estado da nobreza» e do clero, bem como um número significativo de procuradores em representação das cidades e das vilas do reino. A assembleia decorreu sem grandes sobressaltos, acabando por sancionar a escolha que já havia sido feita a 8 de Dezembro – o duque de Bragança foi aclamado rei D. João IV pelos «três estados», e o seu filho D. Teodósio foi jurado príncipe herdeiro. Numa altura em que o apoio à causa brigantina era incerta, recorria-se assim ao juramento como mais uma forma de vinculação, numa época em que o comprometimento moral, devido às suas implicações religiosas, tinha muito mais força obrigante do que os pactos, os contratos ou a lei positiva. A assembleia de 1641 foi um acontecimento ímpar na história portuguesa, pois representou o momentâneo potenciar da capacidade política das Cortes. De facto, nesses breves momentos reconheceu-se às Cortes uma série de atribuições: antes de mais, a capacidade para avaliar a governação do rei D. Filipe III. Por outras palavras, as Cortes comportaram-se como um tribunal, como uma instância judicial titular de uma jurisdição excepcionalmente ampla, tão ampla que habilitava os «três estados» a julgar o comportamento do rei. E como se tal não bastasse, a reunião de 1641 reconhecia ao «reino», reunido em Cortes mais duas outras excepcionais faculdades: a capacidade para se eximir voluntariamente da obediência a um soberano a quem tinha sido efectuado um juramento de fidelidade; e, além disso, reconhecia-se também aos «três estados» a capacidade para escolher, voluntariamente, um novo soberano. Como se pode facilmente imaginar, aqueles que se decidiram pela reunião de Cortes, em 1641, moveram-se num terreno altamente melindro-

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so. Antes de mais, porque era do conhecimento de todos que a quebra do juramento tinha seríssimas implicações morais e religiosas. Não devemos esquecer que muitos reprovaram a revolta de 1640 porque representava uma ruptura com um compromisso moral assumido nas Cortes de 1619, altura em que Filipe IV – à data príncipe herdeiro – havia sido jurado pelos portugueses. Como se pode ler numa instrução entregue ao embaixador de Filipe IV em Roma, logo após 1640, «[na rebelião portuguesa] se considera en primer lugar la transgression del juramento de obediencia y fidelidad, solemne y publicamente hecho a Dios por el mismo Duque de Bragança, y todos los tres Estados a favor del Rey Don Felipe, que le acetó en Cortes Generales de todo el Reyno ligitimamente convocadas...»155. Para além da quebra do juramento, o melindre da situação tinha também a ver com a situação interna da realeza. Com efeito, na sequência desse evento a Coroa brigantina ficava numa posição particularmente débil, porquanto admitir que os «povos» podiam romper com o soberano a quem tinham jurado fidelidade e escolher um outro líder representava, sem dúvida, um precedente muito perigoso, pois fragilizava bastante a posição dos futuros titulares da Coroa. A justificação doutrinal da revolta de 1 de Dezembro encarregou-se de frisar todas as implicações constitucionais do sucedido. Francisco Velasco de Gouveia, autor de uma das principais obras legitimadoras da revolta de 1640 – Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão o IV… (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644) – foi muito claro ao enunciar aquilo que estava em jogo: «Que Ainda que os Povos transferissem o poder nos Reys, lhes ficou habitualmente, & o podem reassumir, quando lhes for necessario para sua conservação»156. De seguida, Velasco de Gouveia analisa o caso português, alegando que a revolta de 1640 era justificada e legitimada pela inequívoca tirania de Filipe IV. Quanto à capacidade electiva das Cortes, Velasco de Gouveia defende-a apoiado em duas linhas argumentativas: por um lado, na ideia de soberania popular e no conceito de pactum subjectionis; por outro, numa argumentação histórico-jurídica fundada nas já citadas «actas» das Cortes de Lamego, bem como no precedente histórico das Cortes de Coimbra, realizadas em 1385. No que toca ao imaginário da soberania popular, António Barbas Homem157 assinalou recentemente que o conceito de pactum subjectionis está presente no Assento das Cortes de 1641, uma vez que os redactores deste texto – que constitui o documento que fixa e publicita as decisões tomadas na assembleia – aceitam a ideia de mediação popular na transmissão do poder político de Deus para os príncipes. Cumpre lembrar que desde, pelo menos, o século XVI, o conceito de pactum subjectionis era

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mobilizado pelos juristas defensores do direito de defesa que assistia à comunidade face a uma governação mal exercida, classificada como «tirania». No quadro dessa leitura, a titularidade do poder pertencia ao povo, cabendo ao príncipe apenas o exercício desse poder. Uma vez aceite esse princípio, o povo, reunido em Cortes, ficava habilitado a exercer várias faculdades: avaliar a qualidade da governação; eximir-se da obediência devida ao seu Rei sem quebra do juramento, nos casos em que fosse dado como adquirido que o rei era tirano; e, em situações extremas, escolher – em sede de assembleia representativa – um novo soberano. Para além do imaginário da soberania popular, o Assento das Cortes de 1641 recorre, também, à argumentação histórico-jurídica, lembrando os princípios estabelecidos quer nas já referidas Cortes de Lamego158, quer nas Cortes de Coimbra de 1385, ocasião em que D. João, Mestre de Avis, fora aclamado rei de Portugal. O precedente histórico de 1385 foi sistematicamente invocado para justificar as opções de 1640, tendo-se também usado as apócrifas «actas» das Cortes de Lamego para consolidar essa pretensão. Este imaginário está presente na referida obra de Velasco de Gouveia, nela se apresentando a cerimónia inaugural do reinado como um pacto de atribuição do poder, como um pacto que tinha como objectivo não propriamente estabelecer a forma do governo, mas sim efectuar a transferência do poder do povo para o príncipe. E tal como sucede em qualquer transferência de poder, trata-se de um processo que envolve condições reciprocamente assumidas159. Além do livro de Velasco de Gouveia, a imagem das Cortes como «tribunal de reis» e como uma assembleia com capacidade electiva pode ser encontrada em boa parte da literatura favorável a D. João IV publicada nas décadas de 1640 e 1650, sobretudo porque a propaganda apostou nesse argumentário como forma de tornar legítima, tanto para o interior quanto para o exterior do reino, a ruptura de 1640. Procurava-se desse modo demonstrar que a separação da Monarquia Hispânica e a adesão a D. João IV eram sentimentos partilhados pela generalidade dos portugueses. Foi também por essa altura que se investiu na ideia de que a reunião de Cortes correspondia à forma como os reis portugueses, desde tempos imemoriais, costumavam tomar decisões governativas. Paralelamente, procedeu-se à demonização do governo de Filipe IV, recorrendo-se, de um modo bastante sistemático, ao tema da marginalização de que as Cortes haviam sido alvo. Fulgêncio Leitão, por exemplo, em Reduccion, Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Iuan IV… (Turim, Iuannetin Pennoto, 1648), relembra a década de 1630 e as várias fases da política fiscal de Filipe IV, denunciando os «acordos particulares» que a Coroa estabelecera com os povos no

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campo tributário, sem que o reino junto em Cortes tivesse podido dizer uma palavra sobre esse assunto. Nos escritos de Fulgêncio Leitão, as Cortes são elevadas ao estatuto de único órgão autorizado para decidir sobre questões fiscais. Logo, a opção de não chamar as Cortes para decidir sobre fiscalidade era apresentada como um sinal inequívoco da tirania de Filipe IV e do seu valido160. É interessante verificar que o olhar de alguns estrangeiros sobre as Cortes de Portugal, durante a década de 1640, também sublinha o poder que esta assembleia momentaneamente adquiriu. Lívio Giotta, em Raggioni del Ré di Portogallo D. Giovanni IV… (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1642), traça o seguinte retrato da assembleia representativa portuguesa: «Li tre Stati cioè gli Ecclesiastici la Nobiltà, e Popoli delli Regni di Portogallo ragunati nelle Corti doue rappresentano in vn corpo tutti li sudetti Regni, e tutta l’auttorità, e potere, ch’essi tengono, hanno risoluto per buon principio delle medesime Corti douersi con publica Scrittura da tutti sottoscritta decidere, estabilire, como il Ius d’essere Rè, e Signore loro spettaua, & spetta al potentissimo Rè Don Giouanni, il quarto di questo nome....». Acrescenta Giotta: «I supponendo per cosa chiara in Iure ch’al Regno, & alli tre Stati d’esso compete il giudicare, e dichiarare la legitima successione del medemo Regno, ogni volta che nasce qualche difficoltà, e dubbio trà i pretendenti per diffetto di descendenza dell’vltimo Rè possessore...»161. Quanto ao número de petições enviadas às Cortes realizadas após 1640, ele cresceu muitíssimo, e o monarca instruiu os seus oficiais para que respondessem, de forma diligente, a esses pedidos, tendo em vista demonstrar que, no que toca à comunicação com os seus vassalos, a dinastia de Bragança era fundamentalmente diferente dos Habsburgo, revelando uma constante disponibilidade para escutar as suas queixas e para os ajudar a resolver os seus problemas. O grande manancial de petições então apreciado proporcionou aos oficiais régios uma visão bastante detalhada da situação do reino, das suas localidades e dos seus habitantes162. Todavia, é curioso verificar que os oficiais régios tiveram dificuldade em interpretar essa informação, já que nalguns casos era nítido que os pedidos reflectiam a opinião generalizada da população que os enviara, enquanto que noutros casos era evidente que constituíam uma óbvia manobra para mobilizar os recursos régios a favor dos interesses de uma determinada parcialidade local163. Como sugerimos, D. João IV e os seus sequazes nutriam sentimentos ambivalentes face a toda esta ênfase na capacidade política das Cortes. Por um lado, partiu deles a opção de instrumentalizar a «assembleia dos três estados» e fomentar o uso propagandístico das Cortes enquanto instância legitimadora da mudança dinástica; por outro, ao potenciarem as facul-

nessa fase. ou pelo menos de uma tentativa de reequacionamento do lugar constitucional ocupado pelas Cortes. regente) D. as Reuniões das Cortes de Portugal no século XVII Ano 1619 1641 1642 1645-46 1653-54 1667-68 1673-74 Reinado D. contribuição fiscal 1679-80 1697-98 . contribuição fiscal para a guerra Contribuição fiscal Contribuição fiscal Juramento do príncipe D. Pedro. À excepção de movimentos muito pontuais de contestação a certos aspectos da governação dos anos de 1640 e 1650. A situação tornava-se tanto mais delicada quanto era para todos claro que a Coroa. de uma forma sustentada. declaração ou derrogação da lei sucessória. As assembleias de Cortes que se seguiram à histórica reunião de 1641 confirmam esta tendência. sabiam perfeitamente que corriam o risco de contribuir para o surgimento de um movimento de cariz “republicano”. Pedro como regente e governador do reino. Afonso VI (D. Todavia. contribuição fiscal Juramento do infante D. como por exemplo uma pujante tradição histórica de ideias e de práticas republicanas165.206 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dades políticas da assembleia. João. Não devemos esquecer que o regime monárquico estava profundamente enraizado na cultura política. Filipe II D. Isabel com o primogénito do duque de Sabóia Juramento do príncipe D. Isabel Luísa Josefa. Pedro II Motivo Juramento do príncipe D. Ao contrário do que se poderia prever. Afonso. contribuição fiscal Dote para o casamento da princesa D. Afonso VI D. João IV D. tinha uma margem muito reduzida para resistir a qualquer desafio interno164. João IV D. João IV D. Filipe Juramento e levantamento do duque de Bragança como rei de Portugal. Teodósio. mais poder à assembleia representativa. acabou por não surgir qualquer movimento concertado que tivesse como finalidade atribuir. nem sequer as cidades mais poderosas enveredaram pelo caminho da afirmação da capacidade política das Cortes. e na história lusa faltavam ingredientes que pudessem galvanizar um processo de afirmação pactista. em vez disso. muito mais preocupadas em preservar os seus privilégios e em travar as iniciativas da Coroa que violavam o seu espaço jurisdicional. João IV D. Afonso VI (D. Pedro. revelando-se. a verdade é que. a despeito de todo o ambiente que foi criado a favor das Cortes. juramento do príncipe D. regente) D. contribuição fiscal Juramento da princesa D.

foi um dos muitos que notou esta renovada disposição do rei em escutar o parecer dos povos sobre questões governativas: «Continuavão os Reys da Europa. para vincar a diferença face à dinastia dos Habsburgo. no entanto. sempre que convocara as Cortes. para cuja comprehensão. 2. 207 Cortes foram-se dedicando a um leque de questões cada vez mais restrito. que a assembleia tenha perdido a sua relevância política. A ASSEMBLEIA DE CORTES. no seu Tácito Portuguez. Pelo contrário.. não bastavão os dias inteyros…»166. porém. com grande frequencia ouvir em publico a seus vassalos. Francisco Manuel de Melo. e os de Portugal.. Acrescenta que «a resão a meu ver he manifesta: porque […] juntos os povos em Cortes parece que em certo modo fica algum tanto coarctada aquella soberania que os Príncipes tem no seu governo Monárquico…»167. Nessa missiva.. drasticamente. [trata-se das cortes que deveriam ter reunido em 1649]». O aparente contentamento sentido por D. a negociação sobre novas imposições fiscais acabou por monopolizar grande parte das assembleias de 1642-43. acabando por ficar sobretudo associadas à política fiscal. João. o marquês confidencia que D. A consulta frequente dos «três estados» foi nestes anos retratada como a modalidade decisória que mais estava de acordo com os princípios constitucionais que regiam o reino. Tanto mais que. tendo funcionado. após 1640 reforçou-se a noção de que a decisão régia em conjunto com as Cortes correspondia à forma costumeira de tomar decisões governativas em Portugal.. João IV em dialogar com os «três estados» é rotundamente desmentido. e elleytos Procuradores se não celebrarão. numa carta enviada ao secretário de estado Francisco Correia de Lacerda. A despeito destas dúvidas. que a El rey acodião. quanto mais despacho. pedindo o remedio delles e como nos novos reynados os subditos tem mais confiança. de 1645-46 e de 1653-54. fizera-o «com grande repugnancia tanto assim que estando convocadas humas para Tomar. que por papel lhe aprezentavão a informação de seus negocios. também. e os Príncipes mayor paciencia.. Tal não significa. em nenhuma dessas reuniões se vislumbrou qualquer esforço consistente para tirar partido do élan de 1641 tendo em vista reconfigurar.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. algumas décadas mais tarde.. João IV e os seus seguidores convocaram as Cortes com uma regularidade inusitada. D. que o rei reunia as Cortes sempre de bom grado. uma entidade politica que trans- . era sem número o número das petiçoens. Tal não significa. João da Silva. por D. de reflexão e de discussão sobre as medidas governativas. Significativamente. Assim. como um alfobre de decisões onde se vislumbra a emergência de um novo sentimento de pertença ao «reino».º marquês de Gouveia. é inegável que as Cortes continuaram a representar um momento importante de introspecção colectiva. o regime de relações entre o rei e o reino.

por exemplo. de que só uma parte do reino pagava os impostos. tais apelos não tiveram qualquer acolhimento. Outra valência política das Cortes decorria do simples facto de essa assembleia reunir um número considerável de dignitários – cerca de três centenas – e poder ser facilmente instrumentalizada. em muitos casos. das necessidades em que se encontrava o reino.208 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cendia os limites das comunidades locais ou corporativas e que impunha sacrifícios nem sempre fáceis de aceitar. a Coroa procurou garantir que. não deixa de ser significativo que as sessões de Cortes tenham sido o palco desse tipo de afirmações. como forma de pressão. tendo em vista alcançar determinados objectivos. e alguns procuradores queixaram-se. os oficiais régios costumavam associar a essas obrigações para com o «reino» todo um discurso com ressonâncias religiosas. da agilização dos procedimentos administrativos e. de um modo extremamente exaltado. Assim. procurando desse modo assegurar a colaboração das elites locais na implementação das decisões tomadas pela assembleia. gerou-se uma situação de pré- . fizeram-no não só através da repetição. Para isso. a fim de que a Coroa abdicasse dos seus propósitos fiscais. A fim de tornar esses apelos mais consensuais. Quanto aos demais grupos sociais. Como sugerimos. As manobras de influência junto das Cortes foram uma constante. nos debates das Cortes foram escutadas numerosas intervenções em defesa da igualdade fiscal. deveres esses que o rei e os seus oficiais se esforçaram por colocar acima das obrigações intrínsecas à pertença familiar. mas procurando associar o imaginário religioso aos sacrifícios que procuravam impor aos «três estados». o alargado conjunto de pessoas que participava na assembleia. sobretudo. durante o período em que as Cortes estavam reunidas. Como acabámos de ver. da uniformidade jurisdicional. até à exaustão. Na sequência disso. e as várias entidades políticas em presença por diversas vezes tentaram utilizar. também eles se aperceberam do potencial da reunião dos «três estados» como forma de pressão política. local ou corporativa. Em 1642. os pregadores que celebrassem missas na cidade onde a assembleia decorria profeririam sermões cujo conteúdo estaria orientado para convencer o auditório a ser conivente com os pedidos da Coroa. dos deveres inerentes à condição de membro dessa comunidade política “vasta” que era o «reino». por vezes os oficiais régios viram nas Cortes uma boa oportunidade para fomentar a unanimidade face aos planos – sobretudo fiscais – da Coroa. É certo que. Um grupo de representantes das câmaras tentou mobilizar as Cortes para exercer pressão sobre o monarca. a contestação aos planos fiscais da Coroa tornou-se especialmente forte. fazendo identificar as intenções da Coroa com os desígnios de Deus168. De qualquer modo.

ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. etc. A ASSEMBLEIA DE CORTES. as quais costumavam alegar. É muito sintomático que os apelos para a convocatória de Cortes a fim de aprovar novos tributos raramente tenham sido lançados por membros do clero e da nobreza. A Coroa também participava nesta exploração conjuntural do capital simbólico (e político) das Cortes. pelo contrário. Como vimos. Quando antevia dificuldades na negociação com as Cortes. em princípio o «terceiro estado» era aquele que mais veementemente insistia na reunião com o rei para decidir sobre novas imposições fiscais. de um modo geral estas manobras a favor ou contra as Cortes costumavam surgir em conjunturas de aprovação de novos impostos. os apelos mais sonoros para que a assembleia fosse convocada partiram. foi a da alegada obrigatoriedade do rei em consultar as Cortes sempre que tinha de tomar qualquer decisão na área fiscal170. em finais de 1642. custos inerentes à reunião. a lentidão do processo decisório. obrigar o clero e a nobreza a contribuir.. demonstrou uma aberta relutância em chamar os «três estados». são um excelente exemplo do que acabámos de dizer169. os representantes do «terceiro estado» foram os primeiros a opor-se à convocatória da assembleia. podia suceder que as facções cortesãs usassem as Cortes como forma de pressão contra os seus inimigos – as manobras de descrédito movidas contra o secretário de estado Francisco de Lucena. Mais do que um assunto encerrado. em certos momentos. alegando motivos como o dispêndio inerente a cada nova reunião. Uma questão que permaneceu em aberto. 209 -motim que muito atemorizou a Coroa.. Todavia. em determinadas conjunturas mostrou-se interessada em reunir a assembleia. é curioso verificar que. a própria Coroa prescindia de dialogar com os «três estados» e optava por realizar consultas restritas às principais cidades. razão pela qual os procuradores mais radicais não tardaram em ser presos.. etc. ou seja. Por esse motivo. receio de que os povos vissem na convocatória das Cortes um sinal de que a obrigatoriedade de pagar tributos tinha cessado. esta matéria foi um pretexto para infindáveis debates entre a Coroa e os diversos grupos sociais. em defesa da sua reivindicação. encarando-as – sobretudo à Câmara de Lisboa – como uma instância de mediação com o resto do . na expectativa de que dela resultariam decisões que seriam socialmente muito mais consensuais. risco de motim. Da parte do reino. durante toda a segunda metade de Seiscentos. Noutros casos. pois acreditava que essa seria a melhor forma de instaurar uma situação de relativa igualdade fiscal. em geral. Como sugerimos. Noutros momentos. que alguns dos princípios constitucionais do reino seriam violados pelo monarca caso não consultasse os representantes do reino. das autoridades urbanas. curiosamente invocando motivos aos quais os povos não eram indiferentes: lentidão dos processos decisórios.

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reino. A esse respeito, cumpre reconhecer que a dinastia de Bragança acabaria por ter uma actuação bastante semelhante à dos monarcas Habsburgo, tão duramente criticados pela propaganda pós-1640 precisamente por terem levado a cabo iniciativas fiscais sem a consulta prévia da assembleia representativa171. Após 1640 várias exacções fiscais foram introduzidas sem que as Cortes tivessem sido consultadas, registando-se, também, alguns casos em que os tributos foram automaticamente aprovados por mais três anos, invocando-se o facto de continuar presente o motivo que tinha justificado a sua imposição172. Na linha do que já vinha sucedendo desde meados de Quinhentos, o Senado de Lisboa continuou a assumir-se como interlocutor privilegiado do rei, chegando mesmo a arvorar-se em representante das restantes cidades do reino. Convém notar, no entanto, que esse papel de que se arrogou Lisboa nem sempre foi bem aceite pelas demais cidades e vilas com assento em Cortes, tanto mais que, muitas vezes, os procuradores lisboetas se revelaram mais próximos do interesse da Coroa do que dos interesses das comunidades que compunham o reino. Após a morte de D. João IV – em 1656 –, a situação pouco se alterou. A 22 de Novembro de 1657, o conde de Comminges (embaixador francês em Lisboa) relatava, numa das muitas cartas que enviou para a corte francesa, que a regente D. Luísa estava a esforçar-se para reunir o dinheiro pedido por Mazarin para aceitar uma aliança com Portugal. Acrescentava que «o povo não tinha relutância em contribuir, mas os fidalgos faziam tudo para fugir ao pagamento, e [a rainha] não se atrevia a pedir nada ao clero». A acreditar em Comminges, o «povo» desejava a convocação de Cortes e a rainha estava de acordo, mas «o clero a desfavorecia e os fidalgos e os ministros se esforçavam para impedi-la, porque os primeiros teriam de pagar e os segundos de responder pela sua administração»173. Nos anos de 1650 e 1660 assistiu-se ao aumento exponencial da pressão fiscal, recrudescendo, também, a discussão acerca da margem de manobra da Coroa em matérias tributárias. Como assinalámos, a atitude mais frequente era o apelo para que as Cortes fossem consultadas sempre que se planeasse a introdução de uma nova exacção. Todavia, em certos casos eram os próprios «estados» a lembrar ao rei que o motivo do imposto continuava presente, não havendo por isso necessidade de convocar os «três estados». No entanto, convém ter presente que a renovação trienal de impostos sem a consulta das Cortes nem sempre foi uma solução pacífica, e momentos houve em que gerou autênticas tempestades políticas. A par desta profusão de debates sobre a competência das Cortes na área da fiscalidade, a «assembleia dos três estados» continuou a intervir, pontualmente, em matérias sucessórias, marcando presença em alguns dos

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momentos mais transcendentais para a Coroa, como por exemplo o levantamento de cada novo rei ou o juramento dos príncipes herdeiros. Os círculos régios condescenderam com esta pontual actuação da assembleia dos «três estados» nesse terreno tão importante, embora procurassem frisar que essa intervenção era circunscrita e localizada. Assim que o debate tocava em temas mais sensíveis, logo intervinham os oficiais régios, tudo fazendo para moderar as intervenções e para desmobilizar a discussão. Os próprios participantes nas Cortes parecem ter consciência de que havia certos temas que, pela sua delicadeza, não convinha discutir abertamente na assembleia portuguesa. Francisco Ferreira Rebelo, jurista e diplomata na agitada Londres da década de 1650, testemunhou as sucessivas reuniões do Parlamento inglês e as resoluções aí tomadas, e, nas cartas que enviou para Lisboa, observa que a assembleia representativa inglesa discutia matérias de grande transcendência político-constitucional, acrescentando que seria difícil ver as Cortes de Portugal debaterem, tão abertamente, temas tão sensíveis. Refere, a título de exemplo, a ampla discussão em torno do título que Oliver Cromwell deveria assumir174. É, em parte, verdade, que os debates nas Cortes portuguesas não costumavam ir tão longe. Seja como for, alguns anos depois de Ferreira Rebelo ter feito este comentário sobre o radicalismo das discussões que tinham lugar no Parlamento inglês, as Cortes de Portugal voltaram a tocar nesse transcendental tema que era a capacidade governativa do monarca. Tal sucedeu nas Cortes de 1667-68, reunidas em plena crise governativa motivada pelo descrédito em que a governação de D. Afonso VI tinha caído. Convocada numa altura em que estava já em curso o afastamento do rei e a sua substituição pelo seu irmão D. Pedro, a assembleia de 1667-68 constitui, sem dúvida, um momento ímpar, pois essa foi a ocasião em que as Cortes mais se envolveram na discussão sobre as questões do trono175. Tal como sucedera em 1641, em 1667 as Cortes foram convocadas tendo em vista sancionar uma situação que já estava praticamente consumada: o afastamento do rei D. Afonso VI. Os representantes dos «três estados» discutiram longa e acaloradamente a questão, apresentando diversas propostas para a resolução da crise. A par dos muitos debates que então tiveram lugar, circularam também vários pareceres de teólogos e de juristas acerca da aflitiva situação em que se encontrava a Coroa, o que ainda mais contribuiu para alargar o âmbito do debate. Exceptuando os contextos de ruptura dinástica, nunca antes se havia discutido, com tanta publicidade, matérias tão cruciais, e vários foram os oficiais régios que se aperceberam do melindre da situação. Depois de muitas hesitações, as Cortes acabaram por ser determinantes para sancionar a solução encontrada: D. Afonso VI

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manteria o título de rei, mas seria dado como incapaz para o governo, sendo por isso mesmo substituído nessas funções pelo seu irmão, o qual, por sua vez, foi jurado pelos «três estados» como «regente e governador do reino». O aval das Cortes serviu, de novo, para tornar socialmente mais aceitável essa situação profundamente anómala e que roçava a imoralidade. Uma vez mais era dada a oportunidade aos «três estados» para se pronunciarem sobre matérias da mais alta política. Contudo, e à semelhança do que sucedeu após 1640, da reunião de 1667-68 também não resultou qualquer iniciativa de relançamento do papel das Cortes no sistema político português. Na assembleia que se seguiu – celebrada em 1673-74 – alguns procuradores ainda tentaram pronunciar-se sobre a situação política que se vivia no reino, embora sem grande êxito, uma vez que os oficiais régios rapidamente circunscreveram o debate. A assembleia realizou-se em Lisboa, num momento em que corriam rumores de que o embaixador espanhol congeminava uma conspiração, facto que contribuiu para exaltar os ânimos176. A reunião terminou abruptamente, por ordem de D. Pedro, numa altura em que os debates ameaçavam provocar um tumulto, sobretudo porque a juntar aos rumores de que estava em curso uma conjura, vários foram os procuradores que fizeram declarações inflamadas sobre a situação em que se encontrava o governo do reino, reclamando o regresso de D. Afonso VI. Tendo em conta estes acontecimentos, compreende-se facilmente porque é que, nos anos que se seguiram, a Coroa favoreceu a identificação entre a assembleia de Cortes e a problemática fiscal. Ao concentrarem a atenção dos «três estados» na questão dos tributos, os oficiais régios evitavam que os debates tocassem em matérias consideradas demasiado sensíveis para serem discutidas na “praça pública”. Para além disso, a Coroa tinha plena consciência de que o aval das Cortes poderia ser decisivo para tornar socialmente mais consensuais as propostas fiscais, assim como para garantir que os influentes locais colaborariam com a Coroa no seu esforço para arrecadar o produto fiscal. Ainda assim, e apesar de ficarem cada vez mais centrados na questão fiscal – algo que ia ao encontro dos desejos da Coroa após 1640 –, os debates ocorridos nas Cortes nem por isso deixaram de contar com intervenções mais acaloradas, nas quais os vassalos não hesitaram em lembrar aos governantes do reino as suas obrigações, chegando mesmo a acusá-los de mau governo. Seja como for, no último quartel de Seiscentos assistiu-se a um gradual esvaziamento da capacidade das Cortes para intervir em matérias de alta política, com a excepção da fiscalidade, área que praticamente monopolizou as discussões. Tal não significa, no entanto, que a «assembleia dos três

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estados» se tivesse tornado na única instância competente nessas matérias. De facto, a par das Cortes, a Coroa foi explorando outras formas mais céleres de negociação fiscal. Assim, para além de ter confiado cada vez mais à Câmara de Lisboa o papel de principal interlocutor, favoreceu órgãos mais ágeis e politicamente mais controláveis pela Coroa – como a Junta dos Três Estados –, opção que acabou por ditar o esvaziamento de algumas das competências da «assembleia dos três estados». No que respeita à política tributária, convém ter presente que a grande questão se jogava no controle sobre a administração fiscal. Inicialmente, os municípios lograram manter nas suas mãos a gestão do fisco. Todavia, tal gerou numerosas situações de desvio de dinheiro e de cobrança fiscal muito abaixo das expectativas, o que levou à criação de uma série de órgãos vocacionados para o controlo da própria administração tributária da Coroa, de que um dos melhores exemplos é a referida Junta dos Três Estados, a qual desenvolveu uma tenaz luta com as câmaras das principais cidades do reino tendo em vista dominar os mecanismos de gestão dos impostos cobrados nessas urbes. Essa junta começou por ser composta por representantes dos «três estados», mas com o tempo foi deixando de contar com deputados directamente nomeados pelo «estado dos povos», o que suscitou algum descontentamento. O confronto entre as cidades do reino e a Junta dos Três Estados – órgão fundamental e que continua à espera de um estudo aprofundado – representa, afinal, o esforço da Coroa em penetrar nessas «comunidades de privilégios» que eram os núcleos urbanos.

Os territórios ultramarinos e a sua representação no centro político
Como é bem sabido, a tradição jurídica vigente na época moderna previa que a soberania sobre um reino poderia ser adquirida através das seguintes vias: por herança; por acordo de todos os representantes do reino, que livremente manifestavam a vontade, em sede de assembleia representativa, de se sujeitarem a um senhor, transferindo-se de um soberano para o outro; por casamento; por outorga do Papa; e, finalmente, por conquista. Cada uma destas formas de incorporação territorial previa determinadas consequências ao nível da dignidade e dos direitos políticos gozados pelas instituições que administravam as terras que eram objecto da incorporação. Vários destes mecanismos agregativos foram postos em prática pelas casas reais ibéricas, tanto na Europa, no quadro do processo de alargamento dos seus domínios, como fora dela, no âmbito do desenvolvimento dos seus impérios ultramarinos. Como começámos por sugerir, cada uma das unidades políticas mais “vastas” – como um reino, uma monarquia ou um império – era vista

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como uma comunidade de comunidades, como um conjunto de corpos políticos agregados por laços de natureza diversa e escalonados segundo uma ordem fortemente hierárquica, ordem essa que conferia a cada uma das partes direitos políticos desiguais. Tal desigualdade era bem visível no interior da Península Ibérica, onde, como verificámos, prevalecia uma rigorosa hierarquia entre os vários reinos e, dentro destes, entre as diversas cidades. É essa hierarquia que explica o facto de apenas uma pequena parte das urbes ter assento nas Cortes. No que toca aos territórios extra-europeus das Coroas ibéricas, esse escalonamento hierárquico também marcou presença, não só ao nível das relações entre as várias cidades ultramarinas, mas também dos laços que estas mantinham com as suas congéneres peninsulares. Assim, na fase inicial da colonização das possessões ultramarinas, a dignidade das instituições situadas nessas terras era muito inferior à das comunidades peninsulares, realidade que, desde logo, tinha uma consequência bem visível na «assembleia dos três estados»: as cidades ultramarinas começaram por estar ausentes da reunião que congregava as principais urbes do reino. Importa não esquecer que os domínios extra-europeus das Coroas Ibéricas foram inicialmente tratados como «conquistas», termo que, de resto, surge frequentemente na documentação coetânea. Como assinalámos, o estatuto de «conquista» evocava o modo como esses territórios tinham ingressado nos domínios dos monarcas ibéricos, envolvendo sérias consequências quanto aos direitos políticos gozados pelas suas instituições e pelos seus habitantes: eram territórios escalonados numa posição inferior face aos domínios europeus das Coroas ibéricas, estando as suas populações desprovidas de alguns dos mais substantivos direitos políticos, como por exemplo a «honra» de tomar parte na assembleia de Cortes. Tal não significa, porém, que as instituições representativas estivessem ausentes dos domínios ultramarinos das Cortes ibéricas. No caso das possessões extra-europeias da Coroa de Castela, por exemplo, o seu ordenamento jurídico admitiu a realização de reuniões entre cidades da América para a resolução dos conflitos surgidos entre elas, estabelecendo-se uma hierarquia que, de alguma maneira, evoca aquela que existia nos reinos de Castela entre as urbes com assento em Cortes e as restantes povoações. Como assinalou Carlos Dias Rementeria a propósito da administração da América Espanhola177, já em Junho de 1530 se contemplava a possibilidade de se celebrarem congressos de cidades da Nova Espanha, de entre as quais a cidade do México teria o primeiro voto. Anos mais tarde, em Abril de 1540, estipulava-se a realização de reuniões similares no ViceReinado do Peru, considerando-se a cidade de Cuzco como a principal entre as que integravam essa circunscrição administrativa. Importa frisar,

assinala algo de muito interessante sobre a capacidade política das cidades americanas: «Si bien reconozco que en las Indias no hay Junta de Cortes. Previa-se também que esses representantes aproveitassem a vinda à Europa para tratar de outros assuntos178. a qual denota uma assembleia de menor dignidade do que a reunião dos «três estados». tendo em vista reforçar o laço de ligação entre a metrópole e suas possessões ultramarinas. Esta declaração do conde de Chinchón reveste-se de um grande interesse. y que así la potestad real de S. e. Y a esto será mucho provecho la esperanza en unos y certidumbre en otros de ser remunerados»180. numa das suas missivas que enviou ao Real Consejo de las Indias. pois remete para a questão a que atrás aludimos: a diferença de hierarquia entre as cidades europeias e as urbes americanas. todavía creo que lo que importa a su real servicio es.. Brazos. a própria Coroa tomou a iniciativa de as chamar. e algumas urbes chegaram mesmo a reivindicar o direito a tomar parte na assembleia representativa que reunia as cidades de Castela-Leão. tendo em vista envolver os territórios ultramarinos no esforço de defesa da Monarquia Hispânica179. es libre y absoluta. em vez desse termo. Assim aconteceu sob o valimento de Olivares: numa carta régia de Maio de 1635. sino en la calidad dellos. que a estas reuniões jamais foi dada a denominação de «Cortes». suelen ser los que tienen menos mano en ayudar a estos arbitrios. coloca-se a possibilidade de que quatro procuradores. Estamentos ni Parlamentos. À medida que as instituições urbanas do continente americano se consolidaram. a palavra «congresso». [sublinhado nosso] Que aunque hay caballeros de calidad. A resposta que o Consejo de las Indias deu ao Vice-Rei do Peru não é menos sugestiva. foi um dos governantes incumbidos de pôr em prática essas medidas. sino que se reciban y paguen por sus vassallos con obediencia y gusto.. Como já foi referido. 215 contudo. en quien caben todo este género de mercedes. no sólo en el poder que los vasallos tienen en estos casos. O vice-rei do Peru. A ASSEMBLEIA DE CORTES. O Consejo de las Indias afirma que «las Indias son muy diferentes de los otros reinos. no quadro da «Unión de las Armas» a Coroa dirigiu insistentes apelos no sentido do aprofundamento da integração entre as distintas partes da Monarquia. M. as suas pretensões políticas alargaram-se consideravelmente.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Por vezes. os coetâneos utilizavam. no sólo que se imponan los tributos. deliberadamente. pois nela o vice-rei constata a ausência de uma assembleia que servisse de fórum de negociação para estabelecer alguma concertação às iniciativas da Coroa em terras americanas. sorteados entre as províncias integrantes desse Vice-Reinado. Y se suele hallar más ayuda . acorressem às reuniões das Cortes de Castela e Leão onde fossem jurados príncipes. conde de Chinchón.. dirigida ao Vice-rei da Nova Espanha.

da sua população e das suas instituições. Na verdade. entre outros. e tal como sucedia no império espanhol. sino que hacen los virreys juntas de ministros y llaman algunos vecinos. por exemplo. assumindo-se como interlocutores com a Coroa. tendo sido necessário encontrar formas de tornar presentes. com a realeza comunicavam os titulares dos cargos governativos e administrativos das regiões ultramarinas. este problema tornou-se especialmente premente. falando em nome dos habitantes que estavam sob a sua alçada e «representando» – tornando presente ao rei – os problemas que afectavam essas populações186. Algo de semelhante se passava no reino de Portugal e nas suas possessões ultramarinas. são muitas as petições assinadas por um conjunto de municípios. Y no hay votos en Cortes ni junta de ayuntamiento. como meio de as comprometer com o esforço conjunto do reino. fácilmente se introduce la materia en los cabildos eclesiásticos y seglares. No caso português. também as câmaras municipais desempenharam esse papel. Para o Brasil de finais do século XVI e do século XVII. y con aquellos acuerdos. os quais eram. Todavia. tanto do reino como dos territórios extra-europeus sob a jurisdição dos monarcas portugueses183. os interesses dos vários corpos sociais. direitos e liberdades-imunidades. cuales les parece. Eram escritos com um fundo reivindicativo muito marcado. mas também política. cuando conviene y se halla dispuesta»181. Dificilmente encontraríamos uma declaração mais taxativa da “menor qualidade” social. y comunicándolo con los corregidores y los prelados. também a Coroa portuguesa tinha consciência de que era necessário criar formas de participação das elites ultramarinas. . No período de Quinhentos e de Seiscentos. dos territórios americanos. os poderes municipais do ultramar foram relativamente céleres a adquirir uma identidade política mais vincada. com o contínuo processo de expansão territorial. muitas vezes. o principal desafio consistiu em encontrar expedientes representativos que fossem capazes de espelhar os territórios cada vez mais vastos e as populações cada vez mais variadas que estavam sob o comando dos monarcas lusos182. Os trabalhos de Charles Boxer184 e de Evaldo Cabral de Mello185. junto da Coroa. Além disso. têm contribuído para esclarecer o modo como se processava a comunicação política entre a corte e os territórios ultramarinos. Assim. pois reclamavam prerrogativas. portavozes das aspirações e das reivindicações dessas terras.216 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS en el consulado de los mercaderes y en otros hombres de trato. aludindo a lendas fundadoras e enaltecendo os serviços militares desempenhados pelas gentes que aí viviam. concorrendo para fortalecer a identidade política local e para reafirmar a auto-suficiência das câmaras187. Tais textos vinham muitas vezes acompanhados de longos escritos onde se descrevia a história local.

. também explica esta camada das câmaras extra-europeias para as Cortes. importa ter em conta que algumas câmaras americanas. ou seja. uma maior capacidade de comunicação com a Coroa. Já no século XVII. sobretudo quando comparados com a menor projecção dos poderes locais da América Portuguesa. No que respeita à presença de representantes de cidades americanas nas Cortes portuguesas. podendo indiciar uma mudança de estatuto desta possessão ultramarina190. A preocupação por manter a ligação entre a Coroa portuguesa e os territórios ultramarinos. honras e liberdades que tinham sido conferidos aos cidadãos do Porto em 1490. manifestaram a vontade de participar nas Cortes convocadas para 1619188. muitos deles ainda em fase embrionária. em privado. adquirindo. numa época em que estes eram cobiçados por outras potências europeias. com o rei. Convém notar que estes procuradores não só participaram na abertura solene. .. deparamos com Jerónimo Serrão de Paiva a actuar como «procurador do Brazil». devido ao papel por elas desempenhado na luta contra os neerlandeses. E nas assembleias realizadas após 1640 há representantes de câmaras municipais da cidade de Goa. «cabeça do reino»). para resolver os assuntos pendentes. bem como da América Portuguesa.. A importante temática do estatuto de cada cidade – peninsular e ultramarina – carece ainda de um estudo aprofundado. Seja como for.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. e onde o único caso mais saliente era o da câmara da Bahia. Trata-se de um tema importante. 217 Além disso. Após 1654 algo de semelhante terá ocorrido com algumas câmaras de Pernambuco e das capitanias limítrofes. outras cidades brasileiras vão ver o seu estatuto dignificado: em 1642 os cidadãos do Rio de Janeiro recebem os mesmos privilégios. Durante o período de Quinhentos os municípios da parte Oriental do Império – de que o melhor exemplo é Goa – desfrutaram de um estatuto claramente destacado. por exemplo. os trabalhos de Fernanda Bicalho e de Fátima Gouvêa sugerem que este fenómeno tem de ser associado ao aparecimento do título de «Príncipe do Brasil». acompanhando o selecto grupo das cidades do primeiro banco que reunia. como assumiram um grande protagonismo na sessões de trabalho das Cortes. chegando mesmo a ser nomeado «definidor». pois denuncia alguma mobilidade e algum voluntarismo. Na assembleia de 1653. tudo indica que a “dignidade” das diversas partes do Império era algo de dinâmico e oscilante. A ASSEMBLEIA DE CORTES. ao contrário do que era predominante no caso das câmaras do reino191. o mesmo se podendo dizer da equiparação dos privilégios de alguns municípios ultramarinos àqueles que eram gozados pelos habitantes das principais cidades do reino (com a excepção de Lisboa. dessa forma. ao saberem que estava para breve a vinda de Filipe III a Portugal. membro da comissão incumbida de acompanhar a reunião até ao seu termo189.

Assim se compreende porque é que os nobres castelhanos raramente escolheram as Cortes como principal espaço de confronto com a política da Coroa. as reuniões dos «três estados» foram deixando de opinar sobre questões do governo geral do reino. enquanto corpo social. A. da «assembleia dos três estados». no seu conjunto. na negociação fiscal. a oposição aristocrática no mundo ibérico tinha um cunho menos constitucional. na Catalunha. cada vez mais. com a Coroa. como vimos. porquanto os diversos sectores do «estado eclesiástico» desenvolveram os seus próprios canais de influência e de comunicação com os círculos régios. afectando. sobretudo. acabaram por ser os conselhos régios e as próprias instituições judiciais193. e como bem notou I. Como assinala o mesmo Thompson. na corte e nos conselhos palatinos192. ao . pois. É certo que o caso português se reveste de alguma especificidade. como vimos. cada vez menos faziam parte do seu elenco de tarefas. Thompson. A. O afastamento entre a aristocracia e as Cortes contribuiu para desviar dessa assembleia o debate sobre uma série de matérias da alta política. prescindindo. O fenómeno que acabámos de descrever é comum aos vários reinos da Península Ibérica. Com o tempo. favorecia a convocatória assídua das Cortes. facto que. era muito mais pessoal. nessa época. A aristocracia cada vez menos viu na assembleia representativa o seu principal fórum de diálogo. em Valência ou nos demais reinos peninsulares – com a óbvia excepção de Castela –. ao contrário do que se passou em Aragão. pela sua complexidade. após 1640 Portugal passou a contar com um rei permanentemente residente no seu território. traduzindo-se em reivindicações de carácter pontual. a comparência de uma parte considerável da aristocracia e do alto clero nas Cortes portuguesas.218 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O fim da convocatória das Cortes No final de Seiscentos. as principais instâncias de protecção da nobreza e de garantia dos seus direitos. Quanto ao clero. quando comparada com outros contextos europeus – como Inglaterra –. ou a recusa em aceitar a nomeação para um determinado cargo195. Para os aristocratas de finais do século XVII a política jogava-se. as Cortes também estavam longe de ser o seu principal espaço de articulação com a Coroa. Importa notar que os procuradores não se opuseram a esse processo. Além disso. sobre a política dinástica ou sobre as relações internacionais da Coroa. como por exemplo a exigência de que o rei fosse libertado da influência de um valido que se revelara mau ministro194. e de um modo geral aceitaram que essas questões. tornava-se cada vez mais evidente que tanto a Coroa como os vários grupos sociais estavam a desinvestir nas Cortes. concentrando-se. todas as suas assembleias representativas.

Fortea Pérez reconhece que. No que respeita à alegada competência legislativa das Cortes. ao lado destas assembleias foram surgindo. J. Com efeito. mas também autoridade moral196 e. sobretudo. Quanto à vigilância sobre o governo. a partir de finais de Seiscentos. uma vez que também ela participava – e dependia – desse imaginário jurisdicionalista197. tal como em Castela. em todas as leis produzidas pelas Cortes era enunciado. consequentemente. Além diso. através das petições.. a presença do «estado eclesiástico» e do «estado da nobreza» proporcionava às Cortes não só publicidade. nessa função. perante os conselhos e tribunais . órgãos que contavam. por si só. 219 longo de toda a segunda metade de Seiscentos. Em Castela. por exemplo. Seja como for. deixando de exercer uma função consultiva e sendo paulatinamente substituídas. também em Portugal as Cortes foram perdendo protagonismo. de forma clara. conferiu a este órgão alguma força e prestígio. por um sistema jurisdicional bastante independente. nas suas fileiras. as Cortes lograram exercer uma assinalável influência sobre a legislação do reino. uma maior capacidade de pressão sobre a Coroa. I. De qualquer modo. em Portugal. pelo Conselho de Estado e pelos demais conselhos palatinos. Como assinalámos. ao longo dos séculos XVI e XVII várias normas resultantes de Cortes acabaram por ser alteradas sem que os «três estados» tivessem podido pronunciar-se198. tanto com figuras do «estado eclesiástico» como com elementos da nobreza. as assembleias de Cortes tenham sido postas à margem do principal processo político200. cuja função era velar pelo cumprimento dos acordos de Cortes e gerir. desde o século XVI. A ASSEMBLEIA DE CORTES. que cabia ao monarca o mais eminente poder legislativo. órgãos de natureza diversa. ou seja. o que. Também isso contribuiu para que.. o que. Cumpre notar que as Cortes não foram as únicas instituições representativas a actuar nos diversos reinos ibéricos. contribuiu para que os municípios deixassem de acreditar na eficácia dessa assembleia para resolver os seus problemas199. por um mecanismo de procedimento administrativo materializado nos diversos tribunais.. o controle constitucional foi cada vez mais desempenhado pelos conselhos palatinos e. e apesar disso. Acresce que os oficiais régios tenderam a ser cada vez mais relapsos na resposta às petições entregues nas Cortes. funcionava como factor de “resistência cultural” a iniciativas governativas mais voluntaristas e puramente executivas da Coroa. indirectamente. em geral desprovidos de um carácter parlamentar e com uma composição menos numerosa. facto que os tornava mais ágeis em termos de gestão dos assuntos governativos. Carlos V estabeleceu – em 1525 – uma Diputación del Reino. Acresce que a cultura política do tempo continuava a ter no seu centro o primado da justiça.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.

Fortea Pérez nota que. da já referida Junta dos Três Estados (1643). É importante frisar que a pluralidade de formas representativas a que temos vindo a fazer alusão estava intimamente relacionada com a heterogeneidade do espaço sócio-político dos séculos XVI e XVII. É esse o caso de alguns dos conselhos palatinos. os ministros régios conseguiram penetrar nesse órgão. onde cada um tinha direitos diferenciados e onde tudo o que era semelhante em status se devia unir e ser tratado com os seus semelhantes. o direito de representação não podia assentar num único expediente representativo. e. Tais partes eram muito diferentes entre si.220 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS régios. Como sugerimos no início deste ensaio. eviden- . acima de tudo. também concorriam com as Cortes. igual para todas as partes do corpo social. passou a existir uma duplicidade de órgãos representativos com competências na área fiscal202. Já no início do século XVII. porém. e profundamente hierarquizado no que toca ao estatuto de cada uma das partes que integrava o corpo político. quando negociavam directamente com o rei. um órgão inicialmente composto apenas por comissários nomeados pelas cidades. representar o reino nos períodos em que as Cortes não estavam reunidas. A esta lógica se opõe. a pluralidade dos canais representativos coetâneos espelhava um ambiente profundamente heterogéneo em termos jurisdicionais. Como assinalou Giovanni Levi. Por surgir num corpo social extremamente diversificado. os problemas cuja resolução as cidades lhe confiavam201. lidamos com um espaço social não-homogéneo e não-uniforme. onde o princípio da igualdade pesava pouco. por uma justiça típica de uma sociedade aristocrática e hierárquica. J. As cidades. entre outras atribuições. e em 1658 a Comisión acabaria por ser integralmente absorvida pelo Consejo de Hacienda da Coroa de Castela. o mesmo se podendo dizer do município de Lisboa. sobretudo quando o seu Senado se apresentava como «cabeça do reino» e falava em nome das demais cidades. e a pluralidade de órgãos representativos de que falámos reflectia. a justiça distributiva das sociedades do Antigo Regime era governada por uma «igualdade geométrica». Na realidade. I. Portugal também assistiu à paulatina criação de órgãos que desempenhavam funções representativas e que eram titulares de atribuições potencialmente esvaziadores das competências das Cortes. foi criada a Comisión de Millones (1611). Com o tempo. das juntas restritas do tempo de Filipe III e de Olivares. e que em 1639 se converteria num tribunal supremo sobre matérias fiscais. e onde o direito de representação tinha mais em conta a qualidade do que a proporcionalidade aritmética entre as partes que compunham o todo203. também. e também em Castela. Cabia à Diputación. a partir da entrada em cena da Comisión de Millones. essas diferenças.

. Pedro. John H. a verdade é que nenhuma das assembleias representativas ibéricas funcionou como um órgão que congregasse. e em 1667-68. exerceram o principal papel de vigilância e de controle constitucional sobre a acção da Coroa. conjunturalmente. pelo menos. Os conselhos palatinos. aquando do afastamento do rei D. as Cortes não ficaram totalmente desprovidas de poder. quando da ruptura com a Monarquia Hispânica. determinados interesses de corpo207. No entanto. No caso de Castela. para que as Cortes jamais se tivessem tornado no principal palco de defesa dos direitos de cada um dos grupos sociais face às investidas da Coroa.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. que as assembleias. o controle do novo imposto dos millones tornou-as capazes de desenvolver uma oposição de cariz mais constitucional. duas excelentes oportunidades para o fazer: em 1640. foram as instâncias que. de forma homogénea. que não aceita diferenças de status e que se baseia na justiça comutativa204. embora tivessem tido. a abertura das Cortes de 1646 também foi acompanhada por disputas com a Coroa. o conjunto do sistema administrativo-judicial. estes dois grupos nunca encararam a assembleia como o seu principal palco de interacção com a Coroa. demonstrou. A luta pela preservação dos privilégios corporativos teve lugar em outros órgãos e em outros sectores da vida política. a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática. embora o confronto geral entre a Coroa e os poderes urbanos estivesse iminente em 1647. Não obstante a concorrência que sofreram. um ano muito difícil para a monarquia206. de forma muito clara. de uma forma geral. momento em que foi concedido. Afonso VI e da afirmação do seu irmão D. os procuradores acabaram por não levar até ao limite a sua acção. Seja como for. no entanto. Tal contribuiu. outros foram os motivos que concorreram para a marginalização das Cortes: a reunião dos «três estados» foi frequentemente substituída por conselhos (função consultiva e . e ao contrário do que sucedeu com os Parlements de França. mesmo nesta fase de perda de protagonismo. em última análise.. Quanto a Portugal. Para além do que acabou de ser mencionado. Em plena crise. No que toca aos procuradores. não há dúvida de que o facto de o clero e a nobreza continuarem a comparecer nas Cortes proporcionou força moral a esta assembleia. e como assinalámos. Elliott. os tribunais e. por causa da concessão de plenos poderes aos procuradores. não foram completamente inoperantes205. sem dúvida. Após a queda de Olivares. um excepcional protagonismo político às Cortes. 221 temente. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. vimos atrás que jamais manifestaram muito empenho em usar a reunião dos «três estados» como instrumento para reconfigurar o regime de relacionamento que mantinham com o monarca português.

convém lembrar que a decisão de 1667 tem também a ver com a circunstância de Carlos II ser um rei menor e de se recear que a assembleia se pudesse converter num foco de oposição ou de desestabilização210. adiar sine die a sua convocatória. ao «donativo». Talvez por causa disso. o certo é que os anos foram passando sem que as Cortes tives- . Depois dessa data o monarca não voltou a convocar as Cortes. cada vez mais encararam a participação nas Cortes como um dispêndio pouco compensador. Quanto às contribuições fiscais estabelecidas em Cortes. os reis e os seus ministros.222 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS executiva). mas sim. apenas. o que fez com que a Coroa olhasse para a assembleia como um órgão cada vez menos eficaz na criação de consenso em torno da fiscalidade. como vimos. a Coroa. nos eventos cerimoniais que contavam com a participação do soberano. A par disso. Em Portugal as últimas Cortes do Antigo Regime celebraram-se em 1697-98. e em vez disso. para o clero a assembleia também foi perdendo peso no seu relacionamento com a Coroa. mas a maioria dos seus membros acabava por participar. aos poucos. já que. o «estado eclesiástico» desenvolveu os seus próprios canais de influência. por seu turno. da sua parte. a Coroa recorreu. Nessa data decidiu-se não propriamente suprimir as Cortes. até porque. As cidades e as vilas. a 25 de Julho de 1667. para alguns. para não suscitar reacções adversas. a prática negocial com a Coroa à margem das Cortes estava já amplamente implantada. com cada vez mais frequência. Seja como for. A nobreza e o clero continuaram a responder à convocatória. e em vez disso. os oficiais régios tornaram-se mais relapsos na resposta às petições. abandonando a reunião assim que podia. preferindo investir em outros canais de comunicação política e em outras formas de fiscalidade mais fáceis de introduzir sem a aprovação das Cortes. sempre que introduziu novas exacções recorreu ao argumento de que o que estava em jogo não eram novas contribuições mas sim. a renovação das contribuições já existentes. caso das taxas alfandegárias. de não reunir as Cortes que o falecido Filipe IV havia deixado convocadas. dispensava a convocatória da assembleia representativa. facto que. Por último. ficaram sempre muito aquém do prometido. embora jamais tenha declarado que não voltaria a convocar os três estados. reunião que praticamente se limitou a debater questões fiscais. Por outro lado. Perante tudo isto. um expediente fiscal que não carecia de aprovação das Cortes209. por juntas (administração fiscal) e pela comunicação directa entre a Coroa a as cidades (negociação directa)208. compreende-se melhor a decisão tomada pela regente de Castela Mariana de Áustria. Da parte das cidades não se registou nenhuma reacção hostil a esta decisão. mostraram-se cada vez mais relutantes em chamar as Cortes.

encarando-as como repositório de elementos limitadores do poder régio. embora se tenha falado dessa assembleia a propósito de algumas das novas exacções que a Coroa foi impondo. Seja como for. na viragem para o período Setecentista. sustentava que em Portugal nenhum órgão limitava o poder do rei. Depois de um longo debate. facto que travou a aprovação da reforma211. 223 sem sido chamadas. era para todos claro que. postulava um conceito «absoluto» de realeza. Ribeiro dos Santos defendeu as Cortes. e não obstante todo o avanço das doutrinas regalistas. no século XVIII as Cortes de Portugal jamais foram convocadas. No entanto. pelos círculos régios. não foi só nesse momento que as Cortes voltaram a estar no centro do debate político-jurídico de finais de Setecentos e de início do século XIX. facto que. no qual a convocatória dos «três estados» começou a ser encarada. nem sequer para a inauguração de cada novo reinado. agora sim. foi-se instalando um ambiente político mais regalista. os tribunais e o conjunto do sistema jurídico-administrativo eram garantias suficientemente fortes para resistir a iniciativas mais voluntaristas da Coroa. uma atitude governativa mais abertamente voluntarista e executiva. as Cortes passam a ser apresentadas como uma assembleia que reunia por mera opção do rei. Pascoal de Melo Freire. No contexto das revoluções liberais. nem como uma situação que punha em risco o equilíbrio de forças entre o rei e os estados sociais. foi . Pascoal de Melo Freire. no momento em que se projectou alterar o Livro II das Ordenações Filipinas. Nesse contexto. ao passo que António Ribeiro dos Santos pugnava por um entendimento mais tradicional de monarquia.. sintomaticamente.. a doutrina de um poder régio moderado e alegadamente fiel à tradição portuguesa acabaria por vingar.. A «assembleia dos três estados» voltou a estar no centro do debate político no final de Setecentos. à medida que se avançou no período de Setecentos. a ausência de «assembleias dos três estados» não foi encarada como um atentado aos direitos dos vários corpos do reino. A ASSEMBLEIA DE CORTES. referindo-se às leis fundamentais e ao seu «carácter sagrado». recusando-se a esse órgão qualquer veleidade de controle constitucional ou de limitação dos desígnios da Coroa. Como tal. Na verdade. como uma cedência cada vez menos aceitável da parte de monarcas que se distinguiam por assumir. por seu turno. Bartolomé Clavero recordou que. projecto esse que suscitou uma polémica pública sobre o «absolutismo» régio. também não provocou qualquer escândalo. na Espanha dos primeiros anos de Oitocentos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Como acabámos de dizer. vários foram aqueles que continuaram a evocar as Cortes e a apresentá-las como um órgão que controlava a acção do monarca. as Cortes do Antigo Regime voltaram a polarizar o debate político-constitucional. cujo poder era partilhado com os demais corpos sociais. autor do Projecto de alteração do dito Livro II. Todavia.

1 (1984) pp. La crisis de la hacienda real a fines del siglo XVI. 477-499. Elliott & A. 63-90. as sessões das Cortes. afirmavam. 1989. Centro de Estudios Políticos y Constitucionales-SEENM. «Las Cortes de Castilla y su Diputación en el reinado de Carlos II. 2 José Ignacio Fortea Pérez. Salamanca. 1990.224 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS constituída uma Comissão que tinha como objectivo restabelecer a assembleia representativa212. García Sanz (orgs. «Entre dos servicios. pp. vol. de uma forma sólida e clara. Fernández Albaladejo e J. Universidad de Valladolid. 53-82. 1997. Política y Hacienda en el Antiguo Régimen. La España del Conde Duque de Olivares. 113-208. Junta de Castilla y León. 117–138. 11 (1991) pp. Cremades Griñán (orgs. VV. Monarquía y Cortes en la corona de Castilla. pp. . «Reino y Cortes: el servicio de milliones y la reestructuración del espacio fiscal en la corona de Castilla (1601-1621)» in J. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla» in José Alcalá-Zamora & Ernest Belenguer (orgs. Valhadolide. Era toda uma nova leitura da política – e dos princípios constitucionais – que estava a ganhar forma. também. 779-803. Las ciudades y la política fiscal de Felipe II. Além disso. de P. Las alternativas fiscales de una opción política (1590-1601)». NOTAS 1 Pablo Fernández Albaladejo. Valhadolide. Santander. Cortes y “cuestión constitucional” en Castilla durante la edad moderna».. Cortes de Castilla y León. 421-445. Fragmentos de Monarquía. Nas Cortes da época moderna prevalecia «una forma de vana representación y una sombra de libertad». 11-34. 17 (1997) pp. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. pp. pp. desde tempos ancestrais. 1990. 1992. Estates and Representation. las Cortes y el problema de la representación política en la Castilla Moderna» in Imágenes de la Diversidad. em boa medida. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. A. 1992. «Cortes y poder real: una perspectiva comparada» in AA. à inexistência desse texto escrito. Alianza. Para os membros da dita comissão.). El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s.). acrescentando que os procuradores das cidades «nunca representaban la Nación»213. 1988) pp. territorio sin Cortes (siglos XV-XVII)». o lugar das Cortes no sistema político do Antigo Regime. Revista de las Cortes Generales. 2001. a fraca representatividade das Cortes e a sua falta de liberdade na escolha dos representantes. Fortea López & Carmen M. Veja-se. I.). Ao analisarem as assembleias dos séculos antecedentes. I. Calderón de la Barca y la España del Barroco. «Monarquia. Madrid. Madrid. Salamanca. Universidad de Murcia. Múrcia. Historia Moderna. 15 (III cuatrimestre. essa comissão procurou reconstituir o modo como se processavam. Universidad de Cantabria. 317-337. os membros da dita comissão destacaram alguns dos aspectos que mais negativamente os impressionaram: antes de mais. Parliaments. «La resistencia en las Cortes» in John H. Trabajos de Historia Política. «The Cortes of Castile and Philip II’s Fiscal Policy». XVI-XVIII). a debilidade das Cortes do Antigo Regime devia-se. «Las Ciudades. Pardos «Castilla. Studia historica. os membros da dita comissão ficaram também impressionados com a ausência de um articulado escrito e de natureza constitucional que estabelecesse. pp. Reunida a partir de 1809. Revista de las Cortes Generales.

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Santander. actas do Colóquio: Évora. Revista de Ciências Históricas. . Thompson. Ramada Curto (org. cit. Novembro de 2001 (no prelo). desde há alguns anos. Difel. I. 1998. Acerca deste tema cumpre consultar. 2 (1987) pp. pp. Pietro Costa. pp. 44 Fernanda Olival.). 2000. 2003. El Imperio de Carlos V. XVI-XVIII).A. O Tempo de Vasco da Gama. 1969. Xunta de Galicia. Primera Parte… (Madrid. Thompson. o foral manuelino e o devir quinhentista. Traditio. Editorial Complutense. 1627) f. pp. o magnífico trabalho realizado por J. Iurisdictio. designando simplesmente o espaço dependente das principais cidades – cfr.). de Rita Costa Gomes. também. 111v. tratase de um vocábulo que não tinha uma correspondência administrativa muito clara. I.). 1998.” nello stato della Chiesa del seicento (secondo il pensiero di G. consulte-se. 45 Pedro Cardim. 1996. «As Cortes de Torres Novas. 475-496. cit. «Patronato Real e Integración Política en las Ciudades Castellanas Bajo los Austrias» in J. Giuffrè. consulte-se. «Doctrinas y prácticas fiscales» in Roberto J. & não aonde quer. 1996. Fortea Pérez (org. Ermini. Apesar de o termo «província» surgir na documentação. Para o contexto português. 49 (1970) pp.. in genere.). 1998. pelo Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. também. 1997. 46 Ângela Barreto Xavier. pp. Santiago de Compostela. 1986. Itinerários e Problemáticas». La proyección europea de la Monarquía hispánica. Milão. 56 M. 17-175. pp. as Cortes de Évora e as reformas administrativas dos inícios do século XVI». 1973-2001. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada.A. 53 No caso de Portugal. O Poder Concelhio…. pp. 4 (1946) pp. Razões da política no Portugal seiscentista.. um dos principais elementos a destacar é a inexistência de corpos intermédios entre as cidades e o reino. 50 Na linha do trabalho de edição de fontes históricas que está a ser efectuado. Rodríguez-Salgado. Romero Magalhães. 34 segs. Madrid. I. «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. Lisboa. González Lopo (orgs. Semantica del potere politico nella pubblicistica medievale (1100-1433). Fundación Carlos de Amberes. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. «As Cortes de 1481-1482» in D. Cosmos. 55 Cfr. 196-251. Lisboa. Rivista Storica della Accademia. 54 Gaines Post. veja-se. 48 Sobre este tema cfr. 1621-1700. Lisboa. Madrid. Círculo de Leitores. Universidad.). Imágenes de la Diversidad. Procesos de Agregación y Conflictos. Junta de Castilla y León.. 1987.. também. Fortea Pérez. López & Domingo L. de Beatriz Cárceles de Gea. 51 Consulte-se. «A romano-canonical maxim: “Quod omnes tangit”». 2000. G. 276-300. Bernardo García (dir. 52 João Salgado de Araújo. Cortes e Cultura Política no Portugal do século XVII. Juan Delgado. Balance de la Historiografía Modernista. Portugal en la Monarquía Hispánica. Valhadolide. Lisboa. Ley Regia de Portugal.230 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS III a Portugal. Colibri. História dos Municípios e do Poder Local (Dos finais da Idade Média à União Europeia). 489-514.A. em especial «Os Poderes Locais no Antigo Regime» in César Oliveira (org. os estudos de Nuno Gonçalo Monteiro. J. 49 Cfr. El rei aonde póde. Fraude y Desobediencia Fiscal en la Corona de Castilla.. 223-260. tanto nos domínios europeus da Coroa lusitana quanto no ultramar.A. «Patriotismo y política exterior en la España de Carlos V y Felipe II» in Felipe Ruiz Martín (org. 258 segs. Maria Helena da Cruz Coelho & J. Battista de Luca)». 49-104.). I. 47 Fernando Bouza Álvarez. «Il principio “quod omnes tangit etc.

W.. Xavier Gil Pujol.. 57 Fernando Bouza Álvarez. 2000.). 2 (1982) pp. Blom. Thompson & Pauline Croft. «El parlamento del reino de Nápoles bajo Carlos V: formas de representación. 59 Em Portugal. Giuffré Editore. 181-204. Ciaurro.A. porém. Thompson & Pauline Croft.. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der Staten-Generaal in de Nederlanden. 75. porquanto o costume e a lei estabeleciam que só o monarca em pessoa podia chamar e presidir às Cortes.. 1964. 464-465. Anuario de Estudios Americanos. Milão. as quais se realizaram com uma notável frequência. 1529-1664» in W. Difel.. Valhadolide.. 1992.A. cit.A. vol. 113. 435-463. SECCFC. «Aristocracy and Representative Government…. pp. H. 66 Vide Iria Gonçalves.. 329-387. pp. Bisson. Rappresentanze e Territori. 1990. «La Unión de las Armas en el Perú.. pp. 543-609. 1988. As Cortes Medievais Portuguesas. Tweekamerstelsel vroeger en nu. 1990. Haia. «Rappresentanza politica» in AA. pp.. de Schepper (orgs. 1133-1176. As Cortes Medievais Portuguesas. 121-134. As Cortes Medievais Portuguesas. continuaram a fazê-lo. Enciclopedia del Diritto. 70 Gaines Post. Lisboa. 65 Armindo de Sousa. ..VV. A Corte dos Reis Portugueses no final da Idade Média..El Tratado de Tordesillas y su Época..VV. Tal princípio foi respeitado excepto em Navarra e na Península Itálica (Nápoles. pp. «Celebration and Persuasion: reflections on the cultural evolution of medieval consultation». Unión de Coronas Ibéricas entre Don Manuel y Felipe II» in AA. «Rappresentanza (Diritto intermedio)» in AA. VII.. 1995. 75. Journal of maedieval studies. 1453-1463.. Bicameralisme. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. cit. cit. pp. cit. Congreso Internacional de Historia . Cfr. 67 Armindo de Sousa. «Republican Politics in Early Modern Spain…. VV. Nocilla & L.A. pp. 1992.. 62 Thomas N... estudo que contém muitos dados sobre a percepção da política internacional nutrida pelos procuradores às Cortes de Castela. 2002. pp. e também D. «Roman Law and early representation». p.. 231 VV. La monarquía de Felipe II a debate. Paolo Cappellini. 1988. pp. Madrid.. Pedidos e empréstimos em Portugal durante a idade Média. «Aristocracy and Representative Government…. cit. 68 I. cit. Carlos José Hernando Sanchez. 1992.. 75 segs. quer por meio do seu ascendente sobre o governo de algumas cidades – I. Ministério das Finanças.. Thompson & Pauline Croft. As Cortes Medievais Portuguesas. Forum. Aspectos político-legales». 142 segs. que os nobres tenham deixado de interferir nos trabalhos da assembleia. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht.. 24 (1967) pp. cit.. onde deparamos com vice-reis a convocar e a presidir a assembleias.. facciones y poder virreinal» in Laura Casella org.). 69 Tal não significa. Armindo de Sousa. Enciclopedia del Diritto. «De un fin de siglo a otro. 2003. p. 1990.A. 18 (1943).A.. Blockmans. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 111 segs. vol. vide. Legislative Studies Quarterly. pp. 60 A ausência do rei levantava problemas tanto para as Cortes de Aragão quanto para as da Catalunha. Giuffrè Editore.. Udine.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 61 Fred Bronner. Lisboa. XXXVIII. Milão. ou na sua menoridade. na falta do rei. o regente podia convocar as Cortes – cfr. «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament. XXXVIII. 64 Armindo de Sousa. 279 segs. 58 Rita Costa Gomes.. também. 63 I.P. p. Sicília e Sardenha). mas de uma forma indirecta. 1990. quer através dos canais cortesãos de influência política. 1995. Speculum.

brown. cód. 134v. Yale University Press.. 72 José Ignacio Fortea Pérez. I. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. 81-101. Palência conseguiu realizar uma antiga pretensão: separar-se da cidade de Toro.mas nenhuma alcançou os seus objectivos. «Los abusos del poder: el común y el gobierno de las ciudades de Castilla trás la rebelión de las Comunidades» in J.caso de Écija. 3722 f. cit..edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue2 /pdf/duarte. 1997. 781 segs. I. I. Thompson & Pauline Croft.A. 1992. a troco de 80 mil ducados. 75.pdf (Março de 2003).232 71 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS I. E-Journal of Portuguese History. 79 J. em especial porque em Castela a Coroa usou a venda de lugares nas Cortes como fonte de rendimento. Dessa forma. Volume 1.A.. p. a oferta voltou a ser feita em 1650. Assim. 183-218. Porque nenhuma urbe se mostrou interessada. 1998. 2003. Mantecón (orgs.A. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». na sua versão final as Cortes de Castela contavam com 21 cidades com direito de voto – J. Thompson & Pauline Croft. Juan Gelabert & T. «Aristocracy and Representative Government….A. Seja como for. Pedro Cardim. Rappresentanze e Territori. Málaga.. segundo J. p. em 1625 a Galiza conseguiu um voto em Cortes a troco de um serviço de 100 mil ducados.. Luís Miguel Duarte. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 2 (Winter 2003) p. outras cidades negociaram o seu direito de voto . 424.. Penélope. New Haven y Londres. pp. p. 84 J. Manuscrits.. 82 Tamar Herzog. 83 Xavier Gil Pujol. las Cortes…. As Cortes Medievais Portuguesas. pp. Jerez de la Frontera ou Oviedo . I. «Aristocracy and Representative Government…. Assim. «O Governo dos Áustria e a “Modernização” da constituição política portuguesa».º 2 (Fevereiro de 1989) pp. pp. «Las Ciudades. 77 Biblioteca Nacional. 80 Cfr. Fortea Pérez. 2003. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 75 Rita Costa Gomes. 74. 74 António M. pp. Fortea Pérez.). Fortea Pérez. p. Violencia. No século XVIII. 74. Udine.). cit. n. 1992. p. 78 I. 76 I. Thompson & Pauline Croft... Hespanha. Universidad de Cantabria. Furor et rabies. «Ciudadanía.A. Forum. «Aristocracy and Representative Government…. 215-236.artigo disponível na Internet no seguinte sítio: http://www. Immigrants and Citizens in Early Modern Spain and Spanish America. 2002.. 52 segs. «As Cortes de 1481-1482…. Este dispositivo conheceu algumas modificações. 251 segs. cit. n. 73 Cfr. Em 1639 a Coroa decidiu vender outros dois votos às cidades que quisessem comprá-los. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 199. Nessa ocasião. 780 segs. Fortea Pérez.. cit. cit. cit. 1992. cit. 1990.A. cit. 81 Armindo de Sousa. 7 . Fortea Pérez. as Cortes de Castela deixaram de ser convocadas antes que Palência pudesse exercer o seu direito de voto. 781 segs. um dos votos foi adquirido colectivamente pelas cidades da Extremadura. cit. «The Portuguese Mediaeval Parliament: Are We Asking the Right Questions?». Santander. pp. «Le forme di rappresentanza nel sistema politico del Portogallo dell’Antico Regime» in Laura Casella org. Defining Nations. enquanto que o outro foi comprado por Palência. Lisboa. Fortea. pp.. 19 (2001) pp. I. conflicto y marginalización en la Edad Moderna. J. Fazer e desfazer a história. . I.

Penélope.como Andreu Bosch . Carretero Zamora. I. e como recorda Armindo de Sousa. Cardim. a este respeito. também. Madrid. Estudios en Homenaje a Don Claudio Sánchez Albornoz en sus 90 años. pp. É esse o caso de episódios em que certas comunidades fizeram demonstrações de voluntarismo.. Fortea Pérez. Desde há muito que o principado se auto-representava como uma comunidade política de base contratual (origens carolíngias. 439 segs.. e escolheram colocar-se sob a soberania e protecção de Filipe II. 227 segs. consulte-se. Barcelona.d. Homenaje al Prof. pp. cidade localizada entre os Países Baixos espanhóis e a França. coexistentes umas com as outras.ENTRE 85 A O CENTRO E AS PERIFERIAS. eleição original.T. 784 segs.. Fortea Pérez. A ASSEMBLEIA DE CORTES. En torno a unos documentos de la ciudad y el Rey» in AA. 2002. para o espaço galego vide.. para o contexto portugués. I.º 4 (1989) pp.. cit. Facultad de Filosofia y Letras. desde o período tardo-medieval debateu-se a questão do voto imperativo dos procuradores – As Cortes Medievais Portuguesas. De facto. «Republican Politics in Early Modern Spain…. «Cortes e Procuradores do reinado de D. Centralismo y Autonomismo en los siglos XVI-XVII. «Las Ciudades. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. João IV». a fidelidade de um outro monarca. Universidad de Barcelona. aceitava. abdicando de um rei e escolhendo abraçar. I. «Formas de elección de los procuradores de Cortes en Murcia (1444-1450). A crise sucessória de Portugal também suscitou o mesmo tipo de reflexões. O mesmo Filipe II que negava às cidades ibéricas estas formas de voluntarismo. cumpre notar que não existia apenas uma visão do “constitucionalismo catalão”.. Bethencourt Massieu. pp. Obradoiro de Historia Moderna. na condição de que os seus privilégios fossem respeitados. M. Instituto de Historia de España. Homenaje al Profesor Jesús Lalinde Abadía. As autoridades urbanas de Cambrai rejeitaram o seu anterior soberano.. «Da Antiga Organização dos Mesteres» in Franz-Paul Langhans. alguns acontecimentos concorreram para perturbar a situação. las Cortes y el problema de la representación política…. 1989.F. «La interferencia del Rey en la designación y poderes de los procuradores en las Cortes castellano-leonesas (siglos XVI-XVII)» in A. La soberanía entre la práctica y la teoría política (1595-1677). no caso de Cambrai. n. 92 O que não significa que o assunto não tenha vindo a lume. 1997. E. cit. 173-194. pp... Gil Pujol cita. Buenos Aires. etc. 89 J. mas sim várias leituras do tema. Cerdá y Ruiz-Funes.VV.. Este interessantíssimo episódio foi estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai: el consenso del pueblo. 233 par destas reflexões de carácter “abstracto”. 87 Na Catalunha estas alusões tinham uma especial ressonância política.). 90 J. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 782 segs.tinham uma leitura eminentemente popular. cit.º 8 (199) pp. I. acerca deste tema consulte-se.. SECCFC. 782 segs. 1999. de J. 93 Marcello Caetano. cit. cit. «Republican Politics in Early Modern Spain…. cit. 2002. a manifestação da sua vontade política. Cfr. s. Fortea Pérez. pp.). 99-120. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. de J. n. «Organización e Integración Política de la Ciudades Gallegas en Tiempos de Felipe II». pp. 86 Xavier Gil Pujol. consulte-se P. 267 segs. cit. 88 J.. e. 279 segs. As . Fortea Pérez. o arcebispo local.. 91 J.. pp. encarando as Cortes catalãs e a Generalitat como as instâncias representativas por excelência. Fazer e desfazer a história. Alguns . «Régimen electoral de Madrid a las procuraciones en Cortes: Las ordenanzas electorales de los siglos XVI y XVII».. por sua livre vontade. Sarrión Gualda. Xavier Gil Pujol.º 9/10 (1993) pp. Iglesia Ferreirós (dir. também. 63-71. Todavia. o exemplo de Cambrai. 1990. n.. de J. de María López Díaz.

... 50 segs. M. cit. 73-78. 1992.. Livraria Sá da Costa.. «As Cortes de 1481-1482…. Sebastião. Sebastião. Romero Magalhães (coord. filho de D. 245-264. 1454. Anais de D. Lisboa. Rodrigues Lapa. 1990. noutras conjunturas... consulte-se..) No Alvorocer da Modernidade 1480-1620). 1992. «Lembrança do que sucedeu na morte de D. 1995. 256 segs... Memorias para a Historia de Portugal. cit. 105 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. Arquivos do Centro Cultural Português. Lisboa. (Lisboa. L.. Sebastião.. 18 segs. Fundação da Casa de Bragança.234 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Corporações dos Ofícios Mecânicos. vol.. vol. «As Cortes de Lisboa de 1502» in AA. cit.VV. 1453-1463. que comprehendem o Governo del rey D.. p. dir.. cit.. Cardim. cit. 94 Xavier Gil Pujol. nesta ocasião. Maria. porém. Ramada Curto. História de Portugal. Officina Ferreyriana. Sebastião. pp. Duarte lembra que. cit. pp. «Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. pp. todo o processo decorreu sem que as Cortes fossem consultadas – As Cortes Medievais Portuguesas. Manoel de Menezes. Acerca das Cortes do tempo de D. 1998.. (Lisboa. pp. as Cortes foram chamadas para exercer uma função até aí pouco frequente: o juramento do herdeiro ao trono. 340 segs. capítulo 2. Rita Costa Gomes. 1992.N. A única excepção foi a reunião de 1390-91. 100 Joaquim Veríssimo Serrão. M. «A “Crónica de D. As Regências na Menoridade de D. 355 segs. e da rainha D. Chronica do Muito Alto. 340 segs. 103 Cfr. seu neto…». João III” de António de Castilho». 107 Fernando Bouza Álvarez. Manuel de Menezes. com prefácio e notas do prof.. vol. pp. p. Vila Viçosa. «De un fin de siglo a otro…. 317-347. .. Subsídios para a sua História. P. Germão Galharde. de D. pp... As Regências na Menoridade de D. cit. 377. 271 segs. I-LXXXIII. 96 Fernando Bouza Álvarez. As Regências na Menoridade de D. 104 Acerca das Cortes de 1562 consulte-se. 95 Cfr. cit. 1986. Joseph Antonio da Sylva. 190-191.).. Manuel. Imprensa Nacional. 1736-).. Chronista mòr deste Reyno. II. Manuel de Menezes. pp. Círculo de Leitores. «De un fin de siglo a otro….. 1730). 162 segs. 99 Saúl António Gomes. Chronica do Muito Alto. pp. 97 Como notou Armindo de Sousa.. Centro de História da Universidade de Lisboa.-C. 1995. João 3.. Elementos para uma história estrutural. 289 segs. 1938. E Muito Esclarecido principe D. Lisboa. 1. Mss. e levantamento do principe D. 1730. cit. 1539). 2002. 98 Cfr. durante a Idade Média a intervenção das Cortes em matérias sucessórias não era vinculativa. pp. 108 Fernando Bouza Álvarez. pp. 102 Capitolos de Cortes E Leys que sobre alguuns delles fezeram… (Lisboa. 1993. e Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz.. Primeiras Jornadas de História Moderna. D. 101 Frei Luís de Sousa. 1943. f. 106 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. Lisboa. pp. «De un fin de siglo a otro…. cit. composta por D. Sebastião Decimosexto Rey de Portugal. «O Estado Manuelino: a onça e o elefante» in O tempo de Vasco da Gama. João III. E Muito Esclarecido principe D. de Joaquim Romero Magalhães. Cortes e Cultura Política.M.... João III.. II (1970) pp. e Diogo Barbosa Machado. 1998. Nalguns casos os três estados foram chamados para decidir ou sancionar a mudança de reinado. Vol. e Conquistas em sua menoridade. I. de D. Sebastião. «As Cortes» in J. 1998. Luís Miguel Duarte. Difel. I. Lisboa. Lisboa. 199 segs. pp. III de José Mattoso (dir. e pp. 54-57v. pp... pp.. Sebastião por Rei de Portugal. 1995.

Biblioteca da Ajuda. 61 segs. cit. 120 Erasmo Buceta. 1992. Ver também. 213 segs. p. pp. Rex Inutilis in Medieval Law and Literature. no Paço da Ribeira. Madrid. Romero Magalhães (coord. IAC. The Shadow King. 236 segs. Portugal nas cartas de D. 113 José Maria de Queirós Velozo. Felipe II. 116 O melhor estudo sobre esta temática é o de Fernando Bouza Álvarez. 1993. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 1997. Coimbra. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 121 O príncipe D. Poder e poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). o «Parecer sobre se podia El rey fazer mercê aos Povos. Anuario de Historia del Derecho Español. de Letras. O reinado de D. José Maria de Queirós Velozo. Romero Magalhães (coord. 557 segs. I.Cartas a duas infantas meninas. 1999. Henrique. 122 Consulte-se.... 1953. cit. 114 «Carta régia à cidade de Lisboa». 1946. António. Faculdade de Letras. Lisboa. 123 I. Fortea Pérez. cit. las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. nem he couza para se duvidar» (sem data. las Cortes y el problema de la representación política…. 1595). Lisboa. 1999.. Lisboa. 1903. 1933. Romero Magalhães (coord.ENTRE 109 O CENTRO E AS PERIFERIAS. cit. Universidade de Lisboa. policopiados). «Dictamen del Conde de Salinas en que se examinan las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». 124 J. 1458 segs. Elvas. 1956.. Empresa Nacional de Publicidade. Universidad Complutense.).. Dom Quixote. 51-VI-46 f. Academia Portuguesa da História. Yale. como fez nas Cortes de Thomar de os desobrigar dos direitos dos Portos Secos. 1987. New Haven. pp. CML. cit. Mafalda Soares da Cunha. 1953. 174v. 427-428. O Interregno dos Governadores e o Breve Reinado de D. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 111 Mafalda Soares da Cunha. «A questão jurídica na crise dinástica» in J.). 235 Edward Peters. Eduardo Freire de Oliveira (org. Dom Quixote. 1999. Fernando Bouza Álvarez..). 112 Cfr. tese de dout.. Legajo 415. Poder e Poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581).. António Prior do Crato. ca. O Interregno dos Governadores. pp. 8... No Alvorocer da Modernidade….). Lisboa. 1993. 117 Archivo General de Simancas. 1970. Em carta de 1 de Maio. Filipe I às suas filhas e os tempos de um Príncipe Moderno» in Cartas a duas infantas meninas.Cartas a duas infantas meninas. pp. «De un fin de siglo a otro…. e se resolue que sim podia.A. Lisboa. pp. p. cit. Carlos Margaça Veiga.. «Introdução.. p. 558 segs. 76. Elementos para a História do Município de Lisboa. duas semanas mais tarde. cit. dirigida às suas filhas. 183. Filipe foi jurado a 30 de Janeiro de 1583. Universidade de Lisboa. p. «Aristocracy and Representative Government…. 1999. Lisboa. Dom Quixote. 1987.. «Las Ciudades. No Alvorocer da Modernidade…. cód.. cit.A. Filipe manifestava já a intenção de viajar para Lisboa . 1995. pp. pp. Portugal en la Monarquía Hispánica. No Alvorocer da Modernidade…. Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. 115 Cfr. 110 Mafalda Soares da Cunha. 56 segs. D. .. XII.. 118 Fernando Bouza Álvarez.. pp. em Lisboa. 1993. O reinado do Cardeal D. p. Fac. Thompson & Pauline Croft. pp. Estado. o monarca hispânico partia para Castela . de Carlos Margaça Veiga. 22 segs. por exemplo. 552-559. idem. Lisboa. 4 de Janeiro de 1581. 14. Lisboa. 1999 (2 vols. Joaquim Veríssimo Serrão.. 119 O juramento teve lugar a 16 de Abril.

p. pp. cit. Spain. Lisboa. 1995. cit. 1982. cfr. Pizarro Gómez. pp.. ao reyno de Portugal e rellação do solene recebimento que nelle se lhe fez… (Madrid. I. dissertação de doutoramento.A. S. F.. pp. Acerca desta reunião de Cortes consulte-se F. cit. Sá da Costa. 126 António Manuel Hespanha. pp. Coimbra. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. 1933. «Un viaje conflictivo: relaciones de sucesos para la Jornada del Rey N.. . 1987. As relações artísticas entre Portugal e Espanha na época das Descobertas. pp.. Revista de Ciências Históricas. cit. cit. 128 I. 223-260. Apesar de as Cortes de 1619 terem ficado aquém do que os portugueses esperavam. n.. 1580-1640. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). p. 1997. Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D. 1994. Livraria Minerva. S. 6. cit.A.. Cambridge. pp. 1933. La Revolución de 1640 en Portugal.. 134 Acerca do protagonismo da Câmara de Lisboa no período filipino. 107 segs. p.J. 1988. «Dictamen del Conde de Salinas…. Filipe II e os seus vassalos de Portugal – cfr. Revista de Estudos Ibéricos. 133 Erasmo Buceta. 131 Claude Gaillard.. cit. Filipe II. «O Governo dos Áustria…. 1933.. «Entre dos servicios. 19 (1991) pp. D. «Castile. Francisco Ribeiro da Silva. Editorial de la Universidad Complutense. «La jornada de Felipe III a Portugal (1619)» Chronica Nova. 135 Erasmo Buceta. Jacobo Sanz Hermida. Itinerários e Problemáticas». Ribeiro da Silva. 63-90. 136 Cfr. 55 segs. 138 Fernando Bouza Álvarez. 1987. A Cultura Política em Portugal (1578-1642).. Península. p. Thomas Iunti. Cambridge University Press. 1982.A.. 826 segs. 130 Ernest Belenguer Cebrià. 137 Erasmo Buceta. «Dictamen del Conde de Salinas…. «O Governo dos Áustria….. Europe and the Atlantic world. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. pp. 140 segs. 223-260. 123-146. 321 segs. N. Essays in honour of John H. «La Jornada de Felipe III a Portugal en 1619 y la arquitectura efémera» in Pedro Dias (coord. 1987. Kagan & G. «A viagem de Filipe III a Portugal. «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña…. ritos e negócios. maxime.. «A viagem de Filipe III. 1998. 1991.. 201-265. 4. L’action de Diego de Silva y Mendoza. cit. Lisboa.VV. 311 segs. Portugal en la Monarquía Hispánica. Parker (orgs. Madrid.º 0 (2003) pp.).. Fortea Pérez. El Consejo de Portugal. Santiago de Luxán Meléndez. I.Thompson. Fernando Bouza Álvarez. 407-431. pp. Université des Langues et Lettres de Grenoble. «Ritos e cerimónias da monarquia em Portugal (séculos XVI a XVIII)» in AA. al Reyno de Portugal (1619)». pp. 792-795. cit. cit. 289-320. 35. 139 Claude Gaillard.. «Aristocracy and Representative Government….. 5-6. pp. Ramada Curto.. a propaganda régia encarregou-se de apresentar o evento como um momento de intensa comunhão entre D. 2 (1987) pp.).. 1622). D.236 125 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS J. A Memória da Nação. pp. 129 I. 1989.. Pedro Gan Giménez. 1989. Elliott. «Dictamen del Conde de Salinas…. sus fundamentos sociales y sus caracteres nacionales. Thompson & Pauline Croft. 127 J. pp. cit. Comportamentos. a gravura da sala de Cortes inserida na famosa obra de João Baptista Lavanha. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne…. 53 segs. António Manuel Hespanha. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…... Universidade Nova de Lisboa. Fortea Pérez.A. Ramada Curto. cit.. La crisis de la hacienda real…. 78. Don Felipe III deste nombre. 1987. cit. pp. Grenoble. 1992. pp. 346 segs.. 132 Acerca do Conselho de Portugal consulte-se.

«1640 perante o Estatuto de Tomar. António de Oliveira. «El conde-duque de Olivares y los tribunales de la Corte: oposición política y conflicto constitucional». «Giustizia e amministrazione». n. pp. 2001. em Outubro de 1595. pp.«Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. 207 segs.. Casa de Velázquez. Peter Thomas Rooney. 1 (1994) pp. 146 Fernando Bouza Álvarez. de Jesús Morales Arrizabalaga. Estudios de historia comparada. Schaub. Lo Stato Moderno in Europa... 423 segs. Universitat de València. 145 Archivo Historico Nacional.. Fernando Bouza Álvarez. Relaciones. 1991. 545-562. Journal of European Economic History. in Fioravanti. pp. 135 segs. 2002. pp. Le conflit de juridictions comme exercice de la politique.. Movimentos Sociais. Beatriz Cárceles de Gea.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Madrid. onde os «Fueros de Sobrarbe» exerceram um efeito galvanizador semelhante ao das «actas» das Cortes de Lamego. 154 Algo de semelhante ter-se-á passado em Cambrai. 2002. 237 140 António Manuel Hespanha. 390 segs. 865 segs.. 52 (1976). Poder e Oposição Política. pp. Madrid. 231-233. cit. 152 Luca Mannori y Bernardo Sordi. cit. Pedralbes. J. Memória e juízo do Portugal dos Filipes». Cultura.. 953. o Protectorado também implementou um parlamento britânico com uma só câmara (1654) . 239-291. Portugal en la Monarquía Hispánica. 17-27. 236 segs.. Para uma boa comparação com a Coroa de Aragão. cit.73 (1998) pp. consulte-se. Valência. «Habsburg Fiscal Policies in Portugal. Cuadernos de investigación histórica. 149 Biblioteca Nacional. Elliott. 161-188. 143 Cfr.. 141 Jean-Frédéric Schaub.. Revista de la Facultad de Ciencias Humanas y Sociales de la Universidad Pública de Navarra. Fernando Bouza Álvarez. pp. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares (1621-1640).. 2002. 144 Jean-Frédéric Schaub.. 201 segs. 153 John H. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid entre 1630 e 1640. de Antonio Álvarez-Ossorio. «Los Fueros de Sobrarbe como discurso político. 7130 – Memorial de Don Agustín Manuel de Vasconcelos sobre las advertencias a la juridizion y a la hazienda del reyno de Portugal. 868 segs. pp. Mss. «Dinámicas políticas en el Portugal de Felipe III (1598-1621)»... Nobres e luta política no Portugal de Olivares» in Portugal no Tempo dos Filipes. 1987.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 13 (1990) págs.. Penélope. Juan José de Áustria y el reino paccionado de Aragón (1669-1678)».. também. 61 segs. idem. I. «Fueros. cit.-F. Madrid. 2001. 2000. México.. Istituzioni e diritto. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. f.º 12 (1992) pp. 147 Xavier Gil Pujol nota que em Inglaterra. 9-10 (1993) pp. Veja-se. Escritos seleccionados. cit. leg. Fazer e desfazer a história. vol. Biblos. um episódio estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai. 1999. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares…. 1580-1640». 1989.. 1987. pp. pp. Representações (1580-1668).. Serie: Derecho. 148 Fernando Bouza Álvarez. Maurizio (org. revista do Colegio de Michoacan. cit. Política. 23 83) (1994) pp. 7-35.. . Lisboa.. 150 Cfr. «1637: motins da fome». 151 J.. Consideraciones de método y documentos para su interpretación» in Huarte de San Juan. cit. 17 de Outubro de 1638.. 130 segs. 161 segs. cit. «O Governo dos Áustria…. pp.. 50-73. 169-211. pp.. Bari. anos mais tarde.. pp. Romero Magalhães. Cosmos. Ideologia Política e Teoria do Estado…. quando os seus habitantes habitantes optaram por aclamar Filipe II como o seu novo soberano. cit. 142 Luís Reis Torgal.). Consejos. Cortes y clientelas: el mito de Sobrarbe.. n. Laterza.. Portugal en la Monarquía Hispánica. 2002.

242 segs. I. che il suo Ambasciatore mandato in Roma deue esser accettato del Pontefice..). 1981. I. e divulgado em nome do mesmo reyno. Martim de Albuquerque. Hespanha. Iuan IV. 165 Segundo Xavier Gil Pujol («Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. 238. pp. 2002. Cardim. Lourenço de Anvers. 1644). O Poder Político no Renascimento Português. Reduccion. Análise Social. 1642). Cardim. Direito Constitucional. Fernando Dores Costa. 2002. Cortes e Cultura Política. Universidade de Lisboa. cfr. quando Olivares resolveu convocar as Corts tendo em vista fazer aprovar um novo pedido fiscal. vol. pp. Faculdade de Direito. Retenção. Lei Fundamental e Lei Constitucional. y Político: Por Iuan Baptista Moreli Doctor in Vtroque. (Lisboa. y en la Sagrada Teología. o IV. 1968. Iuannetin Pennoto. 1985. Ideologia Política. 156 Francisco Velasco de Gouveia. p. vol. pp. 2372. Acerca deste livro. (Turim. Mss. Discurso Moral. Fortea Pérez. 164 Cfr. cit. XXXVI (161) (2002) pp. José Mattoso. Coimbra. dir. f. 1642). Estas «actas» foram oportunamente impressas em 1641: Cortes Primeiras que el Rey Dom Afonso Henriquez celebrou em Lamego aos Tres Estados depois de ser confirmado pelo Sumo Pontifice por Rey deste Reyno. y causa de la Confederación. cap. Biblioteca Nacional. Con vna breue relatione del successo nell’elettione del nuouo Rè. M. Lourenço de Anvers. pp.. 184 segs. 351-368.. pp. cfr. coord. na Catalunha existia uma forte memória de governação republicana. que celebró con el Rey christianissimo. Actas Editorial.. 386 segs. Lisboa.. Cardim. Lisboa. P. P. Las Jurisdicciones. O Antigo Regime (1620-1807). Tratado analytico diuidido em tres partes. 32 segs. Relatório apresentado no Curso de Mestrado. pp. Tradotto dalla Lingva Portvghese nell’Italiana per Informatione de Signori Italiani da Liuio Giotta (Lisboa. Rey de dicho Reyno.238 155 «Deste OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS papel se há de formar la platica del Embaxador de Roma al Pontifice para que no admita la Embaxada del Obispo de Lamego y proceda en causas contra Portugal». 1996. Lisboa. 38 segs.. «Principios de gobierno urbano en la Castilla del siglo XVI» in Enrique Martínez Ruiz & Magdalena de Pazzis Pi (coords.. 160 Fulgêncio Leitão. 261-308. de A.). Restauração de Portugal. pp. 158 159 Acerca da presença do conceito de pactum subiectionis na paisagem política ibérica. 67 segs. e 244 segs. de Luís Reis Torgal.) Religious Cerimonials and Images.. (Lisboa. 162 Cfr. 163 P. 1641). ISCSPU. «Ceremonial. Giovanni IV.. VIII. As cortes de Lamego são «a verdadeyra instituição do Reyno» escreve João Pinto Ribeiro em Uzurpação. f.. vol. 231 segs. Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. 1998.. Contributos para uma história do Direito Público. J. pp. Col Stabilimento Fatto nella Corti dalli tre Stadi di quel Regno et Alcvne Allegationi Giuridicopolitiche. Madrid. Paulo Craesbeeck. A Formação do conceito de Constituição. p. «O processo político (1621-1822)» in História de Portugal. em justificação de sua acção… (Lisboa. A convocató- . 4. António Alvarez. 1147-1181. consulte-se. 1-3. y otros Principes. cit. Madrid.. con las razones. «As forças sociais perante a guerra: as Cortes de 1645-46 e de 1653-54». Power and Social Meaning (1400-1750). ordenado. political allegiance and religious constraints in 17th century Portugal» in José Pedro Paiva (org.. Palimage – European Science Foundation. Raggioni del Ré di Portogallo D.... e tal memória terá sido determinante em Junho de 1640. Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão 157 António Barbas Homem. con le quali si proua. Lexicoteca. 1648). 19. cit. 161 Lívio Giotta. 2002.

Ciudades y Villas.. 175 Cfr. vol. Abril. The Revolt of the Catalans. João da Silva. quarta. 1673. não chegando a nenhuma conclusão taxativa. 1655). em especial A Parenética Portuguesa e a Restauração. 172 E. alegando que não poderiam votar com liberdade encontrando-se um exército régio em território catalão. Arquivo da Universidade. Ivizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia: Debaxo de la conducta del Muy Alto. seguido de Tomo Segvndo del Iuizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia. Rey de Suecia. Centenário da Restauração. edição de Manuel Lopes de Almeida. 1982. . Lisboa. pois os representantes recusaram-se a comparecer. com introdução.C. 170 O livro de António da Silva e Sousa. in genere a obra de João Francisco Marques. Coimbra. 1655) inclui um capítulo sobre impostos intitulado «Apunta se las condiciones que deven currir para imponer nuebos pechos. 49-X-6. & conseruação de seus Reynos. 719 segs. cfr. y quinta parte de la segunda. Esta reunião – que não foi convocada pelo rei – desenvolveu uma actividade muito intensa. 169 Cfr. Limencop. Acerca deste tema é imprescindível a consulta do estudo clássico de John H. y la tertercia de la obra.. cód. p..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 166 Francisco Manuel de Melo. 132. Cambridge University Press. 1940. Johannes Jansson. 562-587. Biblioteca da Ajuda.N. 408 segs. Todavia. 1926. Rodolfo Garcia e Pedro Calmon. 105. pois nas décadas que se seguiram a assembleia representativa perdeu boa parte da projecção política de que momentaneamente gozara. (Estocolmo. «Correspondance diplomatique de François Lanier résident de France à Lisbonne. 239 ria foi expedida. 1642). Johannes Jansson. notas de Afrânio Peixoto. 35 174 Correspondência diplomática de Francisco Ferreira Rebelo. 168 Um bom exemplo: Avizo Exortatório aos Fidelíssimos Três estados do felicíssimo Reyno de Portugal. 1642-1644». Acerca da articulação entre a pregação e a política.)..A. A Study in the Decline of Spain (1598-1640).R. Disputa sse si deven imponer se de consentimiento de los tres Estados del Reyno (Cortes)». Madrid. P. Vida. 29-50. Imprensa da Universidade. Bravo Losano (org. Arquivos do Centro Cultural Português. 15 (1972) pp. Cardim. 222v. Lourenço de Anveres. Brown.. «Cessante Causa and the taxes of the last Capetians. 133 segs. e Morte. segundo apógrafo inédito da Biblioteca Nacional. in genere Ângela Barreto Xavier. para as Corts catalãs a conjuntura de 1640 representou um breve momento de protagonismo. Lisboa. The political applications of a Philosophical Maxim». & Senhorios… (Lisboa. «La Corona y las Autoridades Urbanas en el Portugal del Antíguo Régimen. Cortes. Cambridge. 141 segs. (Estocolmo. Coimbra.. 2. para o secretário de Estado Francisco Correia de Lacerda. Contiene la tercia. Razões da política no Portugal seiscentista.. Tacito Portuguez. 122 segs. Londres 1655-1657. 171 Cfr. Elliott. 1998. Stvdia Gratiana. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Rio de Janeiro. pp. (devo esta sugestiva referência a Rafael Valladares Ramirez).. f. Diplomata e Político. mas a reunião não chegou a celebrar-se. 1640-1668. 22. Frei Domingos do Rosário. 173 Citado por Edgar Prestage. Espacios de Poder. I. no qual o autor analisa as várias opiniões sobre o tema. XXXII (1993) pp. informação. embaixador em Madrid. p. Lisboa. y Poderoso Principe Carlos Gustavo. Em vez da Coroa.. pp. 2002..I. 1963. Ordenado por Ioão Rabello Vellozo que muito dezeja o seruiço de Deos & o de sua Augusta Magestade el rey D. revisão de Lígia Cruz. 1989 (2 vols. foi a Diputació a entidade que conseguiu congregar os representantes do Principado. Dittos e Feytos de El-Rei Dom João IV. Ioão IV para paz.).º marquês de Gouveia. 167 Carta de D. em especial pp.. Entre los Habsburgo y los Braganza» in J. El rei aonde póde. Colibri. & não aonde quer.

. cód. 2001. vol. 177 Carlos Dias Rementeria. estas atitudes coexistiam com tomadas de posição eminentemente particularistas e completamente desprovidas de qualquer sentido de solidariedade para com os problemas que afectavam o resto do «reino e conquistas». 1510-1800. 182 A. Madrid. São Paulo. «A concessão do Foro de Cidade em Portugal dos séculos XII a XIX». Olinda Restaurada. org.. p. Historia del Derecho Indiano. 345-347. Marques. La Rebellión de Portugal. org. org. 285 segs. «La Unión de las Armas en el Perú.. Dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de Portugal». cit. 30 segs. cit.. portanto. «O Estado do Brasil na União Ibérica. 187 Guida Marques. 2003. 1998. de Rodrigo Bentes Monteiro. de João Fragoso. M. também. 261 segs. Topbooks. Portugaliae Historica. 1138. «La Constitución de la sociedad política» in Ismael Sánchez Bella. Rio de Janeiro. 183 Consulte-se in genere a Historia da Expansão Portuguesa. 179 Fred Bronner. 184 Charles Boxer. 185 E. pp. Biblioteca da Ajuda. A Cidade e o Império. de Maria Fernanda Bicalho. Guerra. Maria Fernanda Bicalho.. veja-se. «Poder Político e administração do complexo atlântico por- 191 Acerca do tema consulte-se. O Antigo Regime nos Trópicos. 1135 segs. Cabral de Mello. pp. Rio de Janeiro. Lisboa. Chauduri.. Revista de História e Ciências Sociais. 1139. A dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). 1992. Hespanha. Rio de Janeiro. p. 184. 7-36. Alberto de la Hera & Carlos Dias Rementeria. Revisão de alguns enviesamentos correntes» in AA. Junta de Castilla y León. pp. Guerra e Açúcar no Nordeste. A Monarquia Portuguesa e a colonização da América. 2001. pp.. 2002. Mapfre. Madison.. Em algumas das sessões de Cortes é possível detectar sinais de concertação entre procuradores oriundos de uma mesma região. 2002. cit. tuguês (1645-1808)» in AA. O Antigo Regime nos Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). conflicto y poderes en la Monarquía Hispánica (1640-1680). pp. 180 Carta escrita em Lima.). «O Estado do Brasil na União Ibérica…. 190 Maria de Fátima Gouvêa. VV. 1967. Do Índico ao Atlântico (1570-1697). 1998. n. denotando. O Rei no Espelho. Cardim. de F. VV. 27 (2002) pp. «Política cortesana y administración en Portugal durante la segunda mitad del siglo XVII» in José Javier Ruiz Ibáñez (org. 1640-1720. a 14-3-1628 – cfr. 1630-1654. 1967. uma certa capacidade para articular posições à escala regional. 181 Fred Bronner. fs.. Todavia. Fred Bronner. O Rio de Janeiro no século XVIII. 165-188.. Civilização Brasileira. Penélope. Hucitec. 178 Carlos Dias Rementeria. Bethencourt & K. 188 Guida 189 «Procuradores que estão por definidores com voto e declaração dos que estão com alternativa em as Cortes que se comessarão em 22 de Outubro de 1653». 1998. «A constituição do Império português. A Cidade e o Império. e. 186 As cidades e vilas do reino também costumavam preparar petições conjuntas.. pp. 13-80. The Municipal Councils of Goa. Portuguese Society in the Tropics. 51-VI-19. cit. 1980. Rio de Janeiro. Lisboa.. «La Unión de las Armas en el Perú…. 167-190. 1967. Macao. Consulte-se P. cit.. pp. Seminario Extraordi- 192 . Valhadolide. «La Constitución de la sociedad política…. 1992.. Bahia and Luanda. de Joaquim Veríssimo Serrão.240 176 Rafael OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Valladares.. «La Unión de las Armas en el Perú…. cit. de João Fragoso. I (1973) pp.

200 Não raras vezes eram as próprias Cortes a não revelar grande empenho em debater questões de alta política. tais respostas tinham força de lei e eram incorporadas nas sucessivas edições da Nueva recopilación. pp. 196 I.A. recusando-se a dar resposta às petições até que as Cortes aprovassem os servicios que o monarca reclamava. Servicio de Estudios del Colegio de Registradores. 194 Acerca das críticas ao valimento. 1598-1621. Thompson & Pauline Croft.. 345-410. p.. terem continuado abertos vários outros canais de comunicação entre a Coroa e as cidades. p.. pp. pp. pois a Coroa continuava a carecer da assembleia enquanto cenário natural de negociação entre o rei e o reino.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….A. Thompson em «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. 789 segs. Historia de la Propiedad. XXXII (1962). cit. J. pp. Fortea Pérez. Madrid. 7-125. Antonio Álvarez-Ossorio. European History Quarterly. por vezes. «Ceremonial de la Majestad y Protesta Aristocrática. 1982. Música y ritual de corte en la Europa moderna. Carreras & Bernardo García García (orgs.. I. 788.A. consulte-se. 347-469. História das Instituições. 2000.. Fortea Pérez. Equidad y orden desde la óptica del Ius Commune» in Salustiano de Dios et al. 91 segs.. 221-234. I. 198 Acerca desta problemática é imprescindível a consulta de A. como mostrou I. Fortea Pérez. 2000. VV. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 25 (Abril-Junho de 1999) pp. Além disso. M.A. 195 Cfr. a par das Cortes. 193 Cfr. Legislação. . cit. Essa coexistência de várias vias de diálogo foi uma constante. Madrid. 53-60. cit.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. «Introdução Histórica à Teoria da Lei – Época Medieval». usou essa matéria como forma de pressão..A. Cambridge University Press. e. «The rule of law in early modern Castile». Departamento de História (no prelo). cit. consulte-se. 2002. Kingship and Favoritism in the Spain of Philip III. 1992. 197 Para uma excelente exposição sobre a eficácia conformadora do Direito no contexto do Antigo Regime. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Universidade de Múrcia. pp. 199 A questão da resposta aos «capítulos» merece também alguma atenção. La Capilla Real en la corte de Carlos II» in J. de I.. 202 J. 78-79. 201 Francisco Tomás y Valiente. Cambridge. cit.A.A. «La Diputación de las Cortes de Castilla (1525-1601)». 1992. A ASSEMBLEIA DE CORTES. também. de resto.). pp. o que obrigava a Coroa a antecipar-se à negociação fiscal na resposta aos pedidos. cfr. pp. 14 (1984) pp... uma colaboração activa no terreno fiscal – J. J.. SECCFC.. Patrimonio Cultural. Cadernos de Ciência de Legislação. La monarquía de Felipe II a debate. e no início não retirou força às Cortes. La Capilla real de los Austrias. Fundación Carlos de Amberes. cit. Com a implementação do novo regime dos millones. de António Barbas Homem. Entre Clío y Casandra. Fortea Pérez chama a atenção para o facto de. do qual se esperava. pp. 2001. «Aristocracy and Representative Government…. Hespanha. 230 segs. 241 nario Floridablanca. o que dava novo alento à capacidade das Cortes para influenciar o corpus normativo da Coroa. Anuario de Historia del Derecho Español.. Thompson. «Derecho como cultura. estabeleceu-se que o rei deveria incluir na escritura de los millones as respostas às petições. «Aristocracy and Representative Government…. Antonio Feros.A. O excelente artigo de I. 790 segs. Thompson & Pauline Croft. pp. 121-134. Madrid. de Jesús Vallejo. A Coroa castelhana. 374. I.

1983. Universidade Católica Editora. Cortes de Castilla y León. 237 segs. 204 .. pp. p. Giovanni Levi. 210 J..). Valência. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. «Una sociedad no revolucionaria…. Marcial Pons. pp. 140 (décembre 2001) pp. 207 John H. 1990. pp. pp. 209 Para J. 153.. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España» in AA. Las Cortes de Castilla y León. 117-152. 211 Maria da Glória Ferreira Pinto Dias Garcia. Gelabert. pp. 21 (1999) pp.). Actes de la recherche en sciences sociales.. Valhadolide. 149-195. consultes-se. pp. tenham manifestado o interesse em recorrer a modalidades alternativas de financiamento – J. Da Justiça Administrativa em Portugal. «La configuración de lo ordinario en el sistema fiscal de la Monarquia (1505-1536). António Ribeiro dos Santos. de Juan E.. Lisboa. O modelo do servicio – entendido como auxílio temporário. cit... 207 segs. 205 John H. Studia Historica. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España….. Historia Moderna. Roma. Acerca deste tema consulte-se. a decisão de 1667 inscreve-se no quadro mais geral da reformulação do sistema fiscal castelhano. Una o dos ideas». pp. 2002. 801-802. Sua origem e evolução. 208 Este fenómeno registou-se em toda a Península Ibérica. de Olivier Christin. The Value of the Norm. Biblink editori. também. 208.. Estudios de historia comparada. «Reciprocita mediterranea» in Renata Ago (org. Castilla convulsa. Imprensa Nacional. de David Alonso García.. 1188-1988. 2001. 213 Bartolomé Clavero. pp. I. 2002. O Pensamento Político em Portugal no século XVIII. 801-802. 21-30. 37-72. cit. «À quoi sert de voter aux XVIe-XVIIIe siècles?».. Fortea Pérez. Lisboa. p. Fortea Pérez. Elliott. Madrid.. cit. Elliott. Universitat de València. Escritos seleccionados. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. «La Corona de Aragón a finales del siglo XVII: a vueltas com el Neoforalismo» in Pablo Fernández Albaladejo (org. 187-188. 206 John H. 1990. pp. 1994.. para fins específicos e baseado em determinadas condições – estava a debilitar-se. 2002.242 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 203 Acerca deste tema consulte-se. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Daí que tanto a Coroa como o reino. cit.. Dinastía y Memoria de Nación en la España del siglo XVIII. I. Elliott. «Una sociedad no revolucionaria. Los Borbones. Fortea Pérez. 109 segs. 2002. 207 segs. como lembra Xavier Gil Pujol. cit. cit. José Esteves Pereira. I. 2002. VV. 212 Bartolomé Clavero.

são as questões quando se invocam outros poderes para além dos régios e muniOs Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa.As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (sécs. estratégicos ou efémeros. implicam alguma indeterminação na configuração global do sistema de poderes e estruturas de probabilidades consoante os espaços onde se tecem as obediências. ainda. Todavia. . E outras. pp. quando decidia no quadro do seu regimento. XVII-XVIII) JOSÉ SUBTIL (Universidade Autónoma de Lisboa / Instituto Politécnico de Viana do Castelo) “E sendo tudo visto. 2005. Ou. os recursos disponíveis e as motivações dos vários actores sociais. dos organismos envolvidos nas relações de poder. Parece à Meza o mesmo que ao Ministro Informante” A fórmula de despacho em portada foi a que. As excepções vão para pretensões fora do ordinário ou quando os ministros deixam os pareceres em aberto com o acostumado “Faça-se justiça” (fiat justitia). as propostas historiográficas para a caracterização do modelo de relação entre o centro e a periferia tenderão sempre a reconhecer fundamentos para apoiar a perspectiva centralizadora ou autonomista do poder. valorizando o poder local ou as intenções centralizadoras. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. na maioria dos casos. responde nos despachos “Como parece”. Acontece. provedores ou de outros ministros como o do Procurador da Coroa. que o conhecimento mais recente da realidade administrativa e política do Antigo Regime é complexa demais para se deixar classificar de forma tão simplista. O rei. o tribunal do Desembargo do Paço seguiu para submeter à apreciação superior as consultas relativas aos assuntos das câmaras depois de ter obtido as informações e os pareceres dos corregedores. por sua vez. as desobediências e. os dispositivos disciplinares. porém. 243-261. Os objectivos. portanto. o plano doutrinário. as tradições que envolvem as práticas sociais. então.

Será uma mudança com resultados. E as respostas que se procuram ou que se querem encontrar são imaginadas de acordo com a perspectiva em que nos coloquemos. Não há dúvida que a persistência continuada e exclusiva de arquivos municipais e centrais. provavelmente. em primeira instância. unidades que serviam para circunscrever as funções de execução política e administrativa dos corregedores e/ou provedores na sua relação com a Corte e os concelhos. para o final do Antigo Regime.244 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cipais. surpreendentes para avaliar. atentemos nalguns detalhes que dizem respeito ao Desembargo do Paço. tanto o papel desempenhado pela burocracia na maneira de exercer o poder. Do lado de quem manda ou pretende mandar. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. ao nível periférico. Imprensa das Ciências Sociais. os problemas relacionados com o exercício do poder obedecem a interesses e mecanismos próprios de dominação bastante diferentes conforme o lugar que nos dispomos ocupar. como os poderes senhoriais. da Igreja e das comunidades com juízes ordinários1. como memórias dos actos praticados. 2003. o verdadeiro papel da Coroa e dos municípios na conformidade da vida política e social. revela que as comarcas e as provedorias não constituíam espaços sociais de relações de poder mas. 1 Sobre o poder local ver referências aos mais recentes trabalhos em Nuno Monteiro. Lisboa. isto é. alguns corregedores as comecem a invocar como novos pólos de territorialidade política. como foi sugerido para as paróquias por José Viriato Capela neste mesmo colóquio. Naturalmente que uma geografia política que equacione. em simultâneo. O significado dos arquivos Através da forma de organização dos arquivos administrativos e do seu conteúdo técnico podemos reconhecer. como os circuitos para a tomada das decisões. No discurso historiográfico. sendo ignoradas as freguesias embora. como unidades que podiam sustentar. qualquer movimento reformista. por exemplo. . apenas. tribunal que assegurava a comunicação política entre a Coroa e os poderes periféricos. A hierarquia do lugar que ocupam os concelhos em relação às freguesias não resulta imediatamente das relações estabelecidas pelos concelhos com a Coroa. Elites e poder. isto é. ou do lado de quem obedece ou pretende obedecer. a periferia tem sido identificada com os concelhos. a relação entre a Coroa/concelhos e concelhos/freguesias recentra a geometria dos campos de domínio do poder e torce os lugares políticos e sociais. Entre as diversas componentes destas lógicas.

igualmente. que se destinava aos assuntos referentes aos concelhos. não se encontram no Desembargo do Paço. ou dos Corregedores. como mesmo para outras indagações. De acordo com a estrutura e a organização do arquivo do Desembargo do Paço. Juízes. nem as pautas das eleições nos arquivos concelhios o que nos mostra que as possibilidades de controlo estavam reservadas aos oficiais comarcais através dos quais o monarca podia chegar ao maior número possível de informações. tanto para as de carácter mais técnico. no facto das provas documentais do exercício do poder estarem nos arquivos municipais ou nos arquivos dos tribunais e conselhos da administração central. Minho e Trás-os-Montes. eram do interesse destes. com excepção de alguma correspondência. os interesses da instituição produtora da documentação. um outro. As actas das vereações. Neste sentido. não deixa de ser surpreendente como. pedidos que. Quando as circunstâncias o justificassem era. accionado o mecanismo dos traslados cujos custos. . O corregedor e/ou provedor. públicas ou mais ou menos secretas. eram suportados pelos interessados. o conteúdo dos arquivos municipais e dos arquivos centrais não repetem.º do Regimento Novo do Desembargo do Paço (27 de Julho de 1582). a informação. que a produção documental servia. Mas vejamos outros pormenores. relacionado com o despacho régio. com os processos relativos a consultas. e Alentejo e Algarve) cada uma 2 Parágrafo 8. podemos distinguir dois tipos de expediente. aliás. na maioria dos casos. Isto significa. ou ao bem commum”2. como funcionários volantes que exerciam. também. Um. a cargo da Secretaria das Justiças e do Despacho da Mesa. uma grande economia de recursos humanos e financeiros uma vez que a duplicação da informação era demorada e implicava trabalhos acrescidos. da responsabilidade da Secretaria das Comarcas onde se deviam tratar os que tocarem “às Cameras dos Lugares das suas Comarcas. Estremadura e Ilhas. por exemplo. de uma forma geral. então. agilizava as suas acções e permitia. tendo em vista formar a decisão régia.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 245 Uma das evidências desta particularidade reside. o processamento burocrático se fazia de forma razoável para a época. no que tocar a seus officios. ou seja. um poder de indagação da verdade não precisavam de uma secretaria de reserva que duplicasse a informação disponível nos arquivos referidos o que. apesar destas características e das limitações da comunicação. Beira. portanto. assim. em primeiro lugar. Esta secretaria era constituída por quatro repartições (Corte. e Justiças dellas. revertiam em receitas de emolumentos para os magistrados e para a Coroa e. sobretudo. Em qualquer caso. para além do mais.

sobre a estrutura e funcionamento arquivístico do tribunal é. por assuntos ou por toponímia3. portanto.246 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS remetendo para a respectiva comarca cujos processos se organizavam em maços. distribuídos pelas repartições das comarcas. Formam uma interminável fonte de informação sobre o poder local. doações e heranças. desde os mais simples requerimentos dos particulares até aos mais complexos. O que se pode dizer. . a forma como se constituíam as redes entre os procuradores e advogados espalhados pelo Reino e os que tinham escrivaninhas na Corte. dos concelhos e dos donatários leigos. Alguns oficiais e escrivães do Desembargo do Paço foram acusados de cumplicidade com alguns destes procuradores para influenciarem ou acelerarem processos. Universidade Autónoma de Lisboa. relacionados com a administração da justiça e da magistratura. uma prática que veio a ser abandonada por se mostrar inconsequente. higiene pública. Trabalhavam. posteriormente. obras. porém. Lisboa. As funções e o papel político desempenhado por estes procuradores que. da boa organização do tribunal está expressa na forma como o arquivo funcionava apesar de tratar dos mais variados assuntos. A confirmação. para um advogado com quem repartiam os honorários. cultivo das terras. asseguravam a relação dos particulares com o monarca. estão por conhecer como. por esta secretaria mas sim pela Casa do Expediente através. Os assuntos dos particulares não entravam. No que diz respeito ao governo das câmaras. em primeiro lugar. nos municípios. normalmente. os processos mais importantes tinham a ver com os actos eleitorais (pautas) e com a fiscalização sobre as comissões de serviço dos magistrados régios (autos de residência). etc. exclusivamente. também. que as unidades administrativas do Reino 3 Ver pormenores da estrutura do arquivo em José Subtil. dando conta aos seus clientes dos passos que foram e estavam a ser dados. sobretudo. em grande medida. administração dos bens da Igreja. A certa altura foi adoptado no tribunal a numeração do registo de entrada dos processos. Tudo parece indicar que os procuradores formavam uma verdadeira corporação profissional que exercia pressão sobre o andamento dos processos e a sua resolução final. dos procuradores das partes que se encarregavam de organizar o dossier com os documentos necessários aos processos sendo. O Desembargo do Paço (1750-1833). Ou melhor dizendo. eleições municipais. porém. II). 1996 (cap. conflitos jurisdicionais. O acesso aos processos podia fazer-se por nome próprio do requerente. o fomento económico. recebendo gratificações em troca. que não existiam arquivos comarcais ou de provedoria o que nos remete para uma noção de periferia política e administrativa consubstanciada.

os corregedores e provedores constituíam magistraturas muito especiais uma vez que as suas funções se destinavam a cumprir ordens dos tribunais superiores. todavia. os concelhos4. sobretudo do Desembargo do Paço. Apesar das Histórias de Espanha recentemente editadas. Tanto para os processos documentalmente bem preparados como para os que precisavam de ser complementados com mais informação. desde logo. 79-119. A arte da explanação dos assuntos e a materialização da realidade objectiva em documentos. ou seja. continua a ser fundamental . o local e o inexistente regional”. História dos Municípios e do Poder Local (direcção de César de Oliveira). E. exigindo regras e rigores discursivos indispensáveis à apreciação régia. Para o efeito. A lógica das relações e da decisão política Os corregedores e provedores eram. constituíam o signo de entendimento do poder régio que não reconhecia outros sentidos fora destas estruturas de modelização.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 247 eram constituídas. Muito raramente tomavam iniciativas próprias. Em segundo lugar. emitirem pareceres para submeter à Mesa do Desembargo do Paço. isto é. A acção da Coroa em relação à periferia apoia-se. uma poderosa imagem do poder da Coroa porque obrigavam a descartar procedimentos que não estavam ao alcance de qualquer um. por cair nas competências dos corregedores e provedores para. depois de procederem às indagações e inquirições necessárias. como já se disse e se sabe. Enquanto os primeiros dispunham do mecanismo político e administrativo assegurado pelos serviços destes magistrados. ou a exercerem o poder em sua representação. os oficiais de ligação entre o centro e a periferia. assim. Círculo de Leitores. em quaisquer dos casos. Ao contrário de Espanha. os assuntos particulares estavam dependentes das iniciativas tomadas pelos procuradores e advogados. Lisboa. mais tarde. 1996. a cargo destes profissionais. o processamento destes casos acabava. apenas. “O central. pp. estes delegados do poder régio foram sempre magistrados togados e nunca de capa e espada5. por um grupo cujo poder de intervenção dificultava a relação directa com o monarca. deve registar-se que há uma clara distinção no tratamento burocrático de assuntos públicos e privados. 4 5 Sobre a organização do poder à periferia ver Nuno Monteiro. pelos tribunais centrais da Corte e pelos senados das câmaras. em profissionais especializados que conferem pelas suas práticas um carácter institucional aos procedimentos administrativos. a organização processual e o corpus documental constituíam. o Reino estava dividido em comarcas e provedorias que incluíam. Nesta medida. dentro das suas áreas jurisdicionais.

receber queixas contra as autoridades locais. um cartório onde se lançavam os provimentos dos corregedores. logo suprimidos por Carlos IV6.. também. 6 Sobre a carreira dos magistrados ver José Subtil. 10 Estes estudos só serão possíveis através do cruzamento de fontes. Apesar do que hoje já se conhece sobre o corregimento9. La España del Antiguo Regímen. 8 Idem. I. visitar os cárceres. op. Desdevises du Dezert. 9 Sobretudo com os trabalhos de José Viriato Capela em especial para este tema. destinadas a informar o ministro do que seria justo a bem do povo. O provedor tinha a seu cargo o controlo e fiscalização dos cofres da comarca e provedoria. das capelas. O corregedor estava encarregue de tirar devassas. A este propósito. Universidade do Minho. tomar posse dos bens da Coroa quando vagassem. fazer a eleição dos vereadores e almotacés. ainda não é possível termos uma imagem clara sobre as efectivas funções e acções no terreno dos corregedores. conhecer da imunidade da Igreja. 1997. corregedor. procurador do concelho. 58. Fundacion Universitária Española. fiscalizar os oficiais das sisas e fazer o seu lançamento na ausência dos juizes de fora. proceder à cobrança da décima. momentos de trabalho com as vereações. Política de Corregedores.248 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Depois de diplomados. particularmente. Madrid. vereadores. eram objecto de um auto assinado por todos os presentes. cit. órfãos. Braga. 62. 1989. albergarias e hospitais bem como o cumprimento das vontades dos testamentos e obras pias. informar sobre as actividades dos juizes de fora e juizes ordinários que não cumpriam as leis e conhecer as apelações das sentenças dos juizes ordinários. dar conta dos crimes e mendigos. actos das vereações. As audiências gerais das câmaras. examinar obras. tít. liv.10. frequência das visitações por localidades e períodos. para uma visão de conjunto deste período a obra de G. I. capítulo IV. etc. Tomavam conta das despesas e receitas dos concelhos e inspeccionavam as remessas para o Conselho da Fazenda8. tít. autos de residência. tinham de realizar um exame de acesso à carreira e fazer um tirocínio para obterem o encarte na correição o que só viria a acontecer no país vizinho durante o reinado de Carlos III. tempos das aposentadorias. seria muito interessante termos estudos que nos permitissem reconstituir a actividade de um corregedor ao longo do seu mandato. zelar pelo ordenamento da floresta. informações solicitadas pelo Desembargo do . nobreza e povo chamados a pregão e toque de sino. entre outras tarefas ocasionais7. utilização de meios de transporte. 7 Ver Ordenações Filipinas. liv. confrarias. Na câmara existia. locais e formas de inquirição de testemunhos. escrivão.

através do Secretário de Estado dos Negócios do Reino. desta forma. De notar. as câmaras não esperariam pela reunião com o corregedor. a cartografia e cronologia das correições bem como o significado que as sedes das comarcas. E tão pouco estamos em condições de podermos comparar o desempenho destes cargos para concelhos de diferente dimensão e estatuto o que nos permitiria. em grande parte. as solicitações do centro. por exemplo. a agenda dos corregedores. pautas eleitorais. dentro do possível. as reacções municipais aos pedidos régios para as agravar como. avaliar em que medida o corregimento se limitava. a este respeito. problemas das casas para aposentadoria. desempenhavam na vida profissional do corregedor. . económica e política. em contrapartida. Neste caso. o lançamento de segundas terças.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 249 Desconhece-se. os corregedores assinalam a data e a localidade em que se encontram e os autos indicam os funcionários ao serviço. assim. aleatoriamente. ou indirectamente. se outras variáveis (tempo. Pode ser uma boa razão para se admitir que a relação com a centralidade polí- Paço e respostas às mesmas (ou de outros organismos centrais). à resolução de problemas suscitados pelos tribunais superiores forçando. Saber quais as câmaras que raramente acolhiam o corregedor e as formas usadas para receber os munícipes na sede do concelho ou obter informações sobre a vida social. Merecem. Compulsando algumas destas situações. A fórmula a adoptar para estes estudos consistiria em delimitar no tempo os seus mandatos e correr a informação disponível nos tribunais superiores e nas câmaras de forma a estabelecer-se uma cronologia das suas actividades. Ou se o planeamento anual da correição obedecia a algum calendário standard ao qual se acopulavam. verifica-se que a grande maioria se reporta a grandes ou médios concelhos abaixo do Mondego. muito provavelmente. ou não. O mesmo se dirá das apreciações que fizeram sobre as apelações dos juizes ordinários. estado das estradas. aos procuradores dos concelhos quando se deslocavam à Corte. inventário das presenças destes magistrados nas diversas corporações locais. indicia que existiam formas alternativas cujas razões e mecanismos ignoramos mas que podemos presumir tenham sido usados com recurso. embora raros. particular atenção as modalidades regionais utilizadas para os concelhos requererem sobras das terças e sisas destinadas a concertos e reparações de obras devido às despesas que implicavam ou. os casos em que estas se dirigiam directamente ao tribunal. sindicâncias. etc. Mas se o Desembargo do Paço comunicava com as câmaras através dos corregedores e provedores. situadas no principal concelho. também. que na maioria das contas que dão aos tribunais superiores. a sua gestão. escrivães e meirinhos de apoio.) influenciavam. por exemplo. etc.

emblemático desta conformidade diz respeito ao pedido (24 de Novembro de 1788) formulado pelo poderoso e influente Intendente Geral da Polícia. Outra situação. isto é. o princípio de que todas as partes se deviam pronunciar para aferir dos privilégios. e Cabelo”. Contudo. Um exemplo limite e. por isso. que o Desembargo do Paço não modificou o seu modo de proceder relativamente às decisões sobre o poder local. Uma vez que a câmara . regalias e direitos adquiridos de tal sorte que os despachos não contradissessem a ordem estabelecida ou a viessem perturbar. também. nunca se enraizariam nos procedimentos habituais do tribunal. nos casos que conhecemos. Por outro lado. que pretendia aforar ou comprar umas terras em Arronches. de imediato. ou seja.250 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tica é. com a excepção para outras modalidades de comunicação que emergiriam após o consulado pombalino mas com outros contornos políticos como adiante se verá. Temos. ser posta de lado na medida em que. exclusivamente com a opinião do magistrado. igualmente rara. sempre que tal se verificava. com o argumento de possuir uma lavoura interessante tanto em “sementeira como em criação de Gados de Lãa. Mas a hipótese de que tal expediente pudesse corresponder a uma forma expedita de relacionamento com o tribunal deve. elegeu sempre o modelo jurisdicionalista como norteador das suas tomadas de decisão. refere-se aos pareceres que os corregedores decidem remeter para o tribunal sobre matérias de governo camarário sem que a iniciativa tenha pertencido aos senados. Estas três formas de relacionamento entre o tribunal e o poder local (apenas através do corregedor. introduzindo tipos de relacionamento forçados por factores que não faziam parte das lógicas políticas do regime. o Desembargo do Paço envia os requerimentos para o corregedor ouvir a Câmara. instruir o processo com as opiniões das partes envolvidas. porém. o tribunal dá instruções para o corregedor ouvir sobre a matéria todos os interessados não decidindo. desembargador do tribunal do Desembargo do Paço e Conselheiro de Sua Majestade. por conseguinte. Não se verificam situações em que o tribunal despache. assim. Também nestes casos. Diogo Inácio Pina Manique. indirectamente por intermédio da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino ou directamente pelos procuradores dos concelhos) e a consequente instrução processual mantiveram-se inalteráveis até ao final do Antigo Regime e a extinção do Desembargo do Paço (1833). fomentada pela proximidade territorial a Lisboa ou por facilidades de comunicação. Nobreza e Povo. o ganho de tempo podia ser grande uma vez que eram suprimidos os tempos de correio entre o corregedor e o tribunal. compostas pela herdade de Tagarrães e o baldio de Lopo da Mouta. instruções para as mesmas câmaras ou que as remeta por intermédio dos corregedores e/ou provedores.

de determinação de resultados e garante da não arbitrariedade política. Na lógica dos nossos procedimentos seria óbvio que nos casos em que o corregedor pudesse recepcionar as petições. inculcava em todos estes actores fórmulas universais e disciplinas processuais que contribuíam para a aceitação de uma linguagem especial. No que respeita aos particulares. ganhava com o expediente uma certa centralidade que não podia assumir se aligeirasse os procedimentos. maço 340. desconhecendo-se as razões que a impediram. ao contrário do que pudesse parecer. o que afirmava não ter acontecido com os anteriores rendeiros.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 251 tinha vindo a arrendar essas herdades. Ministério do Reino. e as criaçoens dos seus Gados” que. ao alimentar com este modelo um conjunto numeroso de oficiais e profissionais encarregues da redacção dos textos e traslados. embora se saiba que ficou retida na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. previsíveis. cotava o tribunal como um lugar de escolhas. os do território onde se encontrava ou se presumisse que iria estar. desde logo. tanto pelo tempo que acabava por demorar como pelos custos que implicava. ao repetir-se. também “interessa ao Estado”. aliás o podia fazer. o facto do expediente não ser canalizado pelo corregedor que. O requerimento deu entrada directamente no tribunal mas a Mesa deliberou que não podia tomar qualquer decisão sem ser ouvida a Câmara. significa que do cálculo dos peticionários não constava este tipo de procedimentos nem os mesmos se configuravam. Neste sentido. Digamos que o modelo. portanto. No mínimo. por parte dos peticionários. Nobreza e Povo para se conhecer a verdadeira justiça e não poder vir a ser sujeita aos embargos de obrepção e subrepção de outros interessados ou lesados11. própria de um certo poder indisponível à 11 IAN/TT. A gestão do tempo. de procuradores das partes para levar os requerimentos à Corte parece significar que o papel do corregedor é. pelo menos. Este tipo de comunicação entre a Coroa e a periferia. sobretudo. o desembargador pretendia “aumentar a sua Lavoura. o uso. pode dizer-se que este género de expediente era tudo menos económico. no âmbito do corregimento. retirasse as informações que da praxe eram exigidas e remetesse para o tribunal o processo já instruído para ser ultimado. de certo modo. se tivermos em conta que durante a correição podia recolher os mesmos. ao repetir os actos e a homogeneizar as decisões. A decisão final acabou por não ser tomada. mesmo que fossem. . instrumental do tribunal e que a Corte. no seu entender. fundamentava o acto jurisdicional. dos circuitos e a escolha dos actores.

assim e sobretudo. . ficaria sempre sujeito ao embargo das suas decisões o que de todo era de evitar pelas consequências que acarretava. ao recorreram aos que as tinham. reage sempre a acontecimentos ou factos e não cria. Limitar o poder do rei e limitar o poder das câmaras. pela via passiva. de uma forma global. o poder que exigia a formatação dos discursos adequados era. nem factos. a suspensão da mesma. pela habilidade retórica para a construção de verdades. o seu estatuto político e social. De facto. para nós que hoje somos movidos pela economia das acções. Em contrapartida. desde logo. ficando reservado aos oficiais régios. de facto. Nestas circunstâncias. por um lado. que permitiam o autogoverno dos senados. por outro. ou seja. é atestada. essencialmente. pelo facto do tribunal não ter por hábito remeter ordens sobre o governo das câmaras ou tomar iniciativas políticas. e nos poderes jurisdicionais delegados ou normativos. Digamos que o tribunal age. Por isso. nada fazia supor para o governo das câmaras que o tribunal tivesse uma estratégia de ocasião ou objectivos obscuros na apreciação que fazia dos processos. pelo ganho da celeridade e da eficácia. os despojados destas competências. Mesmo que o viesse a fazer. na regularidade discursiva e na constituição de corpus documentais. tantas repetições de procedimentos. tal era o fundamento e a promessa do modelo jurisdicionalista que o Desembargo do Paço garantia como instituição central do sistema. a jusante ou a montante. fundada na previsibilidade dos textos e procedimentos. se investisse demasiado em actos de duvidosa consequência prática. Deste modo existe uma enorme desproporção entre o aparato discursivo dos actos administrativos e a dimensão da acção política. se fizessem tantas coisas da mesma forma. achamos incompreensível e estranho que. assegurar o prosseguimento desses princípios. Desta forma. neste período. A consolidação deste estilo de governo. por sua vez.252 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS extravagância. A estratégia de dominação do centro sobre a periferia residiu. a razão de ser de todos estes oficiais que não tinham interesse algum em o destruir dado que no conhecimento que possuíam destas tecnologias residia. arbitrariedade ou estratégias de surpresa. nem acontecimentos. tanto legitimavam as suas autoridades como reconheciam que ao usá-las podiam aceder ao sistema de legitimação política. também. deliberadamente ou não. a eficácia dos actos administrativos e de governo dependiam desta disciplina dos textos e da sua organização e nunca da excelência dos argumentos ou da exuberância literária como acontecerá a partir do pombalismo.

1982. Gallimard. E como. consagrar o monopólio das produções discursivas por uma elite e evitar.. Firenze. Só para o final do século XVIII começaram a surgir documentos impressos que correspondem a um novo entendimento da produção documental. com L’ archéologie du savoir. também. . Cosmos. procede a uma análise sobre a cultura impressa e manuscrita durante a época moderna onde acentua. ao vulgarizá-lo. promovendo uma tecnologia de dominação que privatizava o conhecimento o que não acontecia com o documento impresso que. evidentemente. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII). Diritto e Potere nella Storia Europeia. “Les magistratures populaires dans l’organisation judiciaire d’Ancien Regime au Portugal”. 13 Ana Isabel Buescu. Este facto mostra que a imprensa não terá assumido um papel inovador nos actos administrativos do tribunal e. sobretudo. ela integra um carácter sacrificial e um significado transcendente (. a dominância do manuscrito sobre o impresso (transcrição p.) Com o aparecimento da imprensa. 1969. É certo. nomeadamente quanto à dominância de certos padrões e tipologias documentais. justamente. Desta forma inculca-se a ideia de que as competências linguísticas.. a elitização dos letrados na medida em que se tornavam elementos decisivos na manutenção das condições de produção discursiva. 2000. pelo contrário. na formulação dos enunciados e na utilização da retórica14. a revolução tecnológica constituída pela criação dos caracteres metálicos permite a fixação das normas linguísticas e ao aparecimento de gramáticas e tratados ortográficos. 14 Sobre o mundo jurídico não letrado ver António Manuel Hespanha. repetidamen- 12 Sou aqui. e implica o definitivo desaparecimento do carácter “sagrado” da escrita”13. os grupos profissionais que tinham o domínio da escrita favoreciam. Paris. afirma Ana Buescu a “Escrita manual. por isso. o prestígio simbólico do manuscrito terá resultado da singularidade do documento enquanto objecto único para. sobretudo. o manuscrito implicava um ditado feito pelos magistrados ou escrivães. Por outro lado. que sendo a época dominada por uma cultura oral e exigindo o acto administrativo uma cultura escrita. em Memória e Poder. 32). a banalização das mesmas. particularmente. referências a conceitos e fórmulas. pp. 806-822. verificamos que uma das constantes que impregna a actividade burocrática diz respeito à permanência da cultura manuscrita que cobria todos os momentos processuais e de expediente. individualizada. por vezes criadora. influenciado por Michel Foucault. facilitava os actos administrativos. também.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 253 O discurso manuscrito12 Se compulsarmos o discurso produzido pelo tribunal onde se materializavam os seus actos. Lisboa.

a probidade. igualmente. para o “respeito que todos devem”. Na presença do rei. nem ter casa 15 Algumas destas disposições estão já consagradas no Alvará de 30 de Junho de 1652. Na altura dos votos. pareceres e deliberações (tenções). gerador de suspeitas de um saber quase misterioso exercido na inacessibilidade dos gabinetes ou em procedimentos ocultos. por isso. Um saber recheado de qualidades indisponíveis à maioria. pelas suas próprias mãos como que transmitindo ao documento a originalidade irrefutável e inquestionável das suas autoridades e conhecimentos. não tomarem afilhados de género algum. estarem proibidos de frequentar casas de jogos. O acto que realizava e definia estas classificações era. eram obrigados a cobrir as cabeças em sinal de recolhimento e meditação. Por isso. serem obrigados a fazerem-se acompanhar da mulher e dos filhos. uma ordem final que regulava o certo e o errado. como a prudência. não poderem morar fora da cidade. as insígnias e as composturas deviam contribuir. fundamentalmente. os desembargadores do Paço obedeciam a um ritual apertado e cerimonioso no exercício das suas funções quando estavam reunidos para despacho. garantindo uma certa permanência física dos trabalhos que começavam cedo e terminavam cedo. também. depois da publicação das Ordenações Filipinas. não podendo trazer capa sobre a beca15. Ao mesmo tempo. ou declarações. Por tudo isto. . desde as sete horas de Verão e oito de Inverno até ao final da manhã. Estavam. o domínio que o governo dos togados detinha para produzir taxonomias na apreciação de processos já examinados estabelecia. as portas dos gabinetes eram fechadas e mesmo os escrivães só podiam entrar desde que chamados pelo toque das campainhas. uma competência com carácter “sagrado” a que até o próprio monarca ficava submetido. portanto. ser interrompidos nem vistos enquanto trabalhavam. tanto nas deslocações dentro do Reino como fora dele. não podiam acumular com outras funções dentro do tribunal. por exemplo. a legislação vai continuando a dar conta de algumas virtudes. Não podiam. o rigor e a imparcialidade vertidas em textos cuja ordem do discurso era insuspeita pela ilustração das evidências conclusivas. Para evitar intimidades estavam proibidos de prover ofícios ou serventias nos tribunais em criados ou parentes até ao quarto grau. gorra ou carapuça”. obrigados a fazer os despachos.254 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS te inscritos nos discursos eram. As providências sobre os trajes. no trabalho dos tribunais ou em quaisquer actos públicos deviam usar “togas talares descobertas. também. só poderem fazer visitas uns aos outros. Quando começavam a trabalhar. também. Ao longo do século XVII. Como. deveres e direitos dos desembargadores.

O Conselho não dispunha destes dispositivos nem. o ritual das audiências das câmaras decorria em ambientes semelhantes e. Estavam isentos das responsabilidades recorrentes de sentenças injustas e não podiam dar consulta sobre mercês a parentes até ao quarto grau16. ainda. suspensos ou despedidos sem expressa autorização régia. muitos sem instrução para saberem ler e escrever. Embora em menor escala. formação de comissões volantes para inspeccionarem as comarcas ou até a chamada ao tribunal de vereadores ou representantes da Nobreza. Em conclusão. regra geral. ou. através dos documentos. Por isso mesmo. e Practico. os magistrados régios obrigavam os vereadores e os procuradores a escutar a leitura. abusos. Esboço de hum Diccionario Jurídico. que a relação entre o Desembargo do Paço e a periferia foi uma relação fundada em realidades discursivas mediatizadas pelos corpus documentais produzidos pelos corregedores. os corregedores queixavam-se da falta de cerimonial dos senados e da rusticidade dos vereadores. 16 Encontra-se referência a esta legislação em Joaquim Caetano Pereira e Sousa. a acção do Desembargo do Paço nunca se revestiu com carácter de indagação sobre a realidade política local com recurso a procedimentos de observação directa por parte dos desembargadores. 1843. testemunhos falsos ou preponderância de pareceres. . 1825. etc. exclusivamente. ou seja. em altura alguma. em Manoel Fernandes Thomaz. por vezes. em voz alta. Theoretico.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 255 na cidade e a família fora. Imprensa da Universidade. sequer o imaginou como necessário e indispensável para velar pelo bom desempenho dos corregedores e. fazia depender a confiança política nestes magistrados num qualquer fiscal das suas actividades. ou Índice Alphabetico das Leis Extravagantes. Repertório Gera. podemos dizer. com raridade. a este respeito. um trabalho sobre textos. Com alguma frequência. Lisboa. Typographia Rollandiana. E todo este trabalho realizado no Desembargo do Paço era. muito raramente. o tribunal tomava a iniciativa de solicitar novas informações referindo os reparos que foram feitos. críticas ao Desembargo do Paço por parte das câmaras. exclusivamente. Coimbra. de certas passagens das Ordenações e dos Regimentos lidas pelo seu escrivão. E nestes casos. uma forma de trabalho que se destinava a formar uma opinião meditada acerca das coisas sobre as quais os textos não se deviam equivocar. o que é sempre referido são a falta de informação. Clero ou Povo para serem ouvidos ou confrontados com opiniões favoráveis ou desfavoráveis. Em circunstância alguma podiam ser presos. Quando encontramos. nem mesmo através de artifícios indirectos como podiam ser visitações às câmaras. continuando a observar os acontecimentos.

e que o mesmo he irmão do actual vereador Leonardo Ferreira”. pp. Ao contrário do complexo conhecimento das coisas “divinas” e “humanas” que pedia um governo com prudência e justiça para assegurar uma ordem capaz de cumprir o desígnio transcendental. miseráveis povoaçoens. os novos fundamentos ideológicos e políticos da segunda metade do século XVIII acabariam por interromper a influência absoluta dos teólogos e juristas da tradição do período do ius commune e atribuir o papel principal de governo aos políticos que se esforçavam por produzir modelos racionais de compreensão do social. efectivamente.256 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A nova centralidade pombalina Vila Flor que “he huma das mais piquenas. juntar “sete. passava a admitir a autonomia dos homens para se governarem. 199 . IV. sendo que o último. que o quadro doutrinário não vocacionava os corregedores para procedimentos que tivessem em vista desestruturar estas realidades18. o governo das câmaras estava confinado a uma corte provinciana e local cujas lógicas emparedavam os limites da autoridade régia e controlavam os efeitos de qualquer estratégia que pretendesse invadir a soberania que detinham sobre os seus territórios. também. Círculo de Leitores. “tinha servido de Vereador. 18 Ver síntese sobre os contornos dos modelos de representação em Ângela Barreto Xavier e António Manuel Hespanha. Lisboa. vol. . João Ferreira. com muito sacrifício. apesar de outros dois candidatos terem tido mais votos17. dotado de vontade e de razão. e. naturais e indisponíveis à interpretação arbitrária da razão humana. de se legitimar em princípios que transcendiam a vontade dos homens. “A representação da sociedaded e do Poder”. Este relato do corregedor de Portalegre expressa a imagem. que tem o titulo de Villa”. campo de manobra política para a acção dos corregedores. o modelo de representação social fundado no indivíduo. A formulação dos novos enunciados discursivos deixava. Como tem vindo a ser conhecido. História de Portugal. cada vez com maior detalhe e expressão regional. Os vereadores normalmente acabam em juízes. por esta via. 121-156. na altura em que se procede à devassa da correição consegue-se. Todavia. até oito testemunhas”. tendencialmente. E é verdade. apezar de haver pouco que deixou de guardar cabras. global da situação que se vivia na maior parte dos concelhos e que retirava. maço 800. doc. com regras e leis de governação. Esta libertação da natureza e do social em relação ao divino produziu a possibilidade de o pensamento social se poder constituir como pensa- 17 Relato do corregedor de Portalegre (IAN/TT. repartição do Alentejo e Algarve. 5). Desembargo do Paço.

RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 257 mento político autónomo e. no inverso. o Erário Régio e as novas secretarias de estado que elegeram para os seus programas políticos a usurpação funcional dos poderes corporativos. também. de mais autoridade sobre as câmaras e os magistrados locais para poderem dar sentido político efectivo às suas presenças. concomitantemente. medido por resultados práticos. a este respeito. aliás. iremos assistir a abertura de conflitos entre o tribunal e outros organismos criados na matriz política como sejam. Estes pressupostos significam. A razão passava agora a ser invocada para criar. a Intendência Geral da Polícia. em contrapartida. aceleração na tomada de informações. acabaria por ser. apresentação de inquéritos e relatórios capazes de mapearem e cartografarem os problemas da governação. alterando os condicionalismos da imobilidade onde se fundavam as particularidades locais para. Contudo. ao deslocaram-se. Como. mais e mais rapidamente. imaginada por alguns magistrados tradicionais que recorreram para o Desembargo do Paço dispostos a distinguir pela positiva as vantagens . criar doutrina sobre a ordem social mais adequada. ver mais e ler menos. também. a reforma das vias de comunicação permitiria maior rapidez na comunicação. o domínio da observação sobre o do relato. o modelo de grande mobilidade aumenta o domínio do território por parte dos agentes do poder central que tenderão a diminuir a autonomia dos poderes locais. também. os oficiais régios podiam aumentar as possibilidades da sua presença física directa impondo. construir e não conformar. Do ponto de vista social. construção de estradas. Do ponto de vista dos poderes centrais. A razão de tudo isto é. oficial encarregue de uma determinada área de governação com jurisdição plena mas disponível à vontade do príncipe. Curioso que. permitir o movimento de pessoas e bens. à oportunidade das suas missões e ao bom desempenho dos cargos. o modelo dominante continuou a ser o da legitimação pela tradição pelo que. também. E esta foi. embora claramente sedutora para os políticos. a mudança preconizada. ou seja. evidentemente. doravante. precisavam. na segunda metade do século XVIII. nesta medida. os poderes locais tendem a autonomizar-se enquanto que. que os novos agentes do poder central. criarem um dinamismo na governação e racionalização dos espaços e territórios. encanamento dos rios e melhoramento dos portos. efectivamente. pelo menos. o melhoramento dos meios de comunicação tinha em vista. a lógica da figura do intendente. conservar. manifesta porquanto numa situação em que a mobilidade política e social é de baixa intensidade. Um dos tópicos mais emblemáticos desta mudança de perspectiva é o continuado apelo às reformas dos meios de comunicação. por exemplo.

que se permitiu. talvez porque cada hum de per si não adquiria a gloria de ser util ao público. do provedor de Torres Vedras. E assimilava o efeito da mobilidade do comércio ao da virtude de um poder regional superior ao dos próprios corregedores. inclusive. se as Estradas se achavam praticáveis (. confundindo-se esta no concurso de todo o Corpo”. comparando-a. curiosamente. por exemplo.. e sobre que a Camera podia fazer Postura guardada a forma da Ordenação do Reyno: Que isto pelo que respeitava a imposição sobre os carros. ao tombo das que existiam. E afirmava. porém. mostrava a necesidade de se adoptarem. Ministério do Reino. e que quanto ao Suprimento dos sobejos das Sizas. É o caso.) Que todo o 19 6 de Novembro de 1787 (IAN/TT. Evidentemente que a proposta do provedor colocava um problema sério ao Desembargo do Paço que tinha a ver com a criação de um superintendente particular com poderes para intervir na esfera tradicional das competências das câmaras e dos corregedores. Na sua proposta reconhecia. como sejam o dos juízes de vintena. ainda. onde não chegasse a dita imposição era igualmente do expediente desta Meza”. Chega mesmo a apresentar um plano para a construção e conservação das estradas a cargo de uma superintendência que procedesse. atendendo ao “Grande Espírito com que V. para além de ser marcada pelo entusiasmo nos novos ventos de mudança uma vez que não se eximia a dizer que a “Ovra do efeito que tinham produzido as Superintências particulares em cada objecto. igualmente. e quem augmentva o Real Erário” pelo que. que olhassemos para o Reyno cheyo de Cameras e de Corregidores e que vissemos.. que tais proposições “Concorriam igualmente ao bem do Estado na exportação e importação” o que não se verificava na comarca de Torres Vedras que “Estava ao abandono da sua Policia”. o provedor encontrou como justificação para as suas ideias o facto destas “Providências parecia serem todas do Expediente desta Meza porque todas erão da Economia dos Povos. maço n. não só da sua provedoria mas das que se encontravam contíguas. no seu entender. de ser um magistrado do Desembargo do Paço. promovia o Bem dos seus Vassalos” defender que era “Princípio certo que o Comércio interior do Reino era.º 340). era necessário separar a sua jurisdição de uma intendência que reformasse as estradas. M. Manuel Inácio da Mota e Silva19.258 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desta nova administração. e senão. . com a ineficácia do corregimento. Não deixando. quem felicitava os Povos. acusando os poderes camários “Vista a tristíssima experiência de que os officiaes das Cameras já mais olhavam para obra alguma pública. a importância dos pequenos poderes na relação com a autoridade do intendente.

2002. “Governo e Administração”. A conclusão a retirar deste processo é.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 259 Objecto grande e público. que julgasse a propósito Que elle não avançava a que se tirasse às Cameras a economia que a ley lhe dava. dias conturbados durante a implantação do liberalismo. Lexicultura. neste novo figurino e expediente político. A partir de então. após a extinção do tribunal. História de Portugal. também. vol. particularmente. a nível central como. isto é. foi dando ordens aos corregedores e provedores sem informar o Desembargo do Paço passando. não fez seguir a consulta para despacho régio. sem dúvida. não coincida com as comunidades e com os limites dos poderes instalados teria que ser marcada pela implantação no terreno dos intendentes e superintendes com obediência directa às secretarias de estado e não ao Desembargo do Paço20. claro está. o pólo de coordenação da nova centralidade para com as câmaras deslocou-se para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino que. o Erário Régio (22 de Dezembro de 1761) e a Intendência Geral da Polícia (25 de Julho de 1760). 199-234. o provedor defendia uma política de centralização administrativa a nível regional e o arbítrio do superintendente para administrar com total liberdade. entre os mais importantes. a de que o tribunal estava claramente contra a corrente do centralismo pombalino que advogava que a relação entre território e jurisdição. devia ser tratado com muita Política prudencial. mas que no estado apoletico. mas que por hua só cabeça e que ella estabelleceria os braços. Com o apoio de outros organismos. estava criada uma outra administração que coabitaria com a do modelo tradicional em evidente ponto de ruptura. como se depreendeu. a disponibilidade para que o espaço administrativo. por o Desembargo do Paço concordar com o parecer e não atender às súplicas do seu provedor. VII. A estratégia de consumação dos poderes tradicionais passaria. como que desautorizando o tribunal. Escusado será dizer que o Procurador da Coroa foi contra esta fantasia do provedor ao dizer que as Ordenações já regulavam estes assuntos na competência das câmaras e dos corregedores acabando. a aliança do tribunal e das câmaras contra estes novos funcionários mostrou a lenta agonia do modelo de liberalidade nas relações entre o centro e a periferia que teria. Mas a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. a assenhorear-se da tramitação burocrática do próprio tribunal com o monarca. . sobretudo. E. Uma só cabeça. em que se necessitava do Socorro dos Povos. em crescendo. pela técnica de esvaziamento funcional 20 Ver síntese deste modelo em José Subtil. pp. em que estavao as Estradas do Reyno. Lisboa. entretanto criados. só remedios extraordinarios lhe convilhão” (o sublinhado é nosso).

amiudadamente. que as audições da Câmara. o poder das câmaras mas. Conclusão Durante o Antigo Regime. a esta última. Nobreza e Povo deviam ser manifestas quanto às decisões tomadas para não se pôr em causa a justiça e o bem público.101-112 22 Sobre o disposto nestas reformas e as suas consequências na alteração do mapa político do Reino. em informações escritas preparadas pelos mesmos. como freguesias e paróquias. As câmaras perceberam tanto o rodeio destas inovações como a intromissão da secretaria de estado nas suas jurisdições privativas21. para o efeito.260 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS do Desembargo do Paço e pelo afrontamento político. ainda mais longe. As unidades orgânicas mais pequenas. Destas reformas resultaria. criação do Superintendente Geral das Estradas (1791) e incorporação do Correio-Mor na Coroa (1797). Estampa. Já no final do Antigo Regime. câmaras de Pombal e Oeiras. Lisboa. “A Reforma do Governo e da Administração (1750-1777)”. demarcação das comarcas (1790)22. aos seus pareceres e fundou-se. aos senados das câmaras através das magistraturas dos corregedores e provedores e foi. por esta via. As respostas do tribunal à actuação destes magistrados obedeceu. a nível local. a relação do Desembargo do Paço com a periferia resumiu-se. mediatizavam a relação com o tribunal por intermédio do poder camarário que. consultadas. Separando a acção destes magistrados no terreno da que estabeleciam com o Desembargo do Paço e referindo-nos. 1998. por outro lado. essencialmente. pp. de um modo geral. as alterações das relações entre a Corte e a periferia foram. ainda mais. praticamente. por um lado. durante o período neo-pombalino liderado por José de Seabra da Silva (1784-1799). O Modelo Espacial do estado Moderno. ver Ana Cristina da Silva. 2001. a abolição das ouvidorias. O discurso do Desembargo do Paço expressa e assinala. a perda da influência do Desembargo do Paço na comunicação política com as câmaras. Actas do colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal. 21 Para uma síntese da reforma do governo pombalino ver José Subtil . exclusivamente. podemos dizer que. o tribunal e os seus os corregedores e/provedores tenderam a moderar. regra geral. um papel determinante na organização e composição destas unidades. apenas. desempenhou. os corregedores e os provedores. a que assegurou a comunicação política entre a Corte e o Reino. . também a proteger e a valorizar as suas opiniões quando eram. com a regulação das jurisdições dos donatários.

liberdade para governarem e mais território para intervirem. pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. por isso. foi a da criação de condições para uma maior mobilidade dos agentes de poder régio. outra activa) que concorrerem em conflitualidade pelo monopólio do poder. em assegurar tipologias. especialmente. a manutenção dos privilégios e regalias consolidadas ou que. ao tribunal interessava-lhe. Intendência Geral da Polícia e. o papel desempenhado pelos mesmos magistrados no domínio comarcal onde tinham de agir para resolver abusos da administração municipal como sugerem muito dos capítulos das correições já estudados. como fundamental. regularidades discursivas e habitus burocráticos que promovessem o direito como tecnologia de decisão. a importância que revestiu para o tribunal a nomeação e o controlo das suas carreiras de forma a garantir que os seus serviços promovessem a paz e evitassem a discórdia. A produção e reprodução dos mecanismos de dominação do centro à periferia consistiu. pelo menos. Mas estas actividades não enchem a documentação que chega ao tribunal. das suas alterações. porém. o constrangimento do poder local. A questão do efectivo controlo da periferia pelo centro viria a ser assumida. pela geração liberal. embora com outros contornos. O surgimento de novos oficiais com competências para exercerem funções em áreas regionais que cobriam territórios de diversos concelhos e comarcas bem como o controlo da centralidade na comunicação com as comarcas e concelhos pelo Erário Régio. Entre esses problemas é de salientar a alteração das regras de intervenção política que passaram a considerar. Afinal todos esperavam ganhar com este expediente ou. uma das quais. até à sua extinção (1833). Ou seja. o rumo tradicionalista pelo que. bem referenciada e assumida. novamente. a partir de meados do século XVIII. sobretudo. outras estratégias e outras tecnologias de dominação que passaram por várias inovações. não perderem. Compreende-se. Estavam em causa outros problemas. O tribunal sentiu a mudança e a perda de autoridade mas não mudou. não resultassem prejuízos graves para a ordem estabelecida. sobretudo. veio colocar problemas à autoridade do Desembargo do Paço. . no essencial.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 261 Outro terá sido. os poderes locais foram confrontados com duas centralidades (uma passiva.

sobre a necessidade de corrigir enviesamentos dos resultados obtidos. Nova de Lisboa – FCSH – Dept. também mais reflexão sobre o que ficou por fazer ao longo deste percurso. Agradeço à organização do encontro o ter-me prontamente facultado as gravações das sessões. procurarei extrair e discutir os pon1 Este texto desenvolve. sobre novos problemas e novas hipóteses de resposta. que muito facilitaram o êxito desta iniciativa. procurando reflectir as comunicações e as discussões. a comunicação de encerramento apresentada no encontro. Sociologia Histórica) Antes de mais. pelo que não incorpora eventuais modificações entretanto introduzidas nas versões escritas. pp. Há muito mais estudos. Não sendo especialista na matéria. 263-274. Em vez disso. . Se nos reportarmos ao encontro que teve lugar há uma dúzia de anos.Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais1 RUI SANTOS (Univ. em termos de orientações analíticas. à Câmara Municipal e à Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo o convite para participar neste encontro. tal como decorreram oralmente. bem como a eficaz organização e o excelente acolhimento facultado aos participantes. há muito mais pensamento e análise. Por isso mesmo. mas também de maturação dos temas. sobre poderes centrais e poderes periféricos numa perspectiva histórica. pesem embora incursões pontuais lançadas a partir de investigações centradas em outros domínios. o que é ainda mais importante. dificilmente este balanço poderia ser uma síntese competente da rica diversidade de informações e de pistas de trabalho deixadas pelas comunicações e pelos debates que tiveram lugar. podemos hoje verificar um enorme contraste que denota uma grande progressão e um amadurecimento desta área temática. no essencial. mas também. 2005. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. gostaria de começar por agradecer ao CIDEHUS. em Reguengos de Monsaraz. de diversidade de assuntos. Sociologia / Instit. Foi elaborado sem conhecimento dos textos finais dos restantes autores. também do ponto de vista académico.

Abordarei consecutivamente três aspectos: primeiro. Seria necessário alargar os horizontes cronológicos para aferir melhor as continuidades e descontinuidades. mas ao mesmo tempo do carácter pouco estruturado dessa acumulação que coloca problemas de representatividade. e mesmo na fase final do antigo regime. com vista a generalizações empírica e conceptualmente relevantes. o que me pareceu ter ficado por tratar. apesar de o considerar imprescindível numa agenda de investigação sobre as instituições municipais e as suas práticas no contexto do antigo regime.264 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tos que me parecem especialmente interessantes para a definição actual de problemáticas de investigação sobre o tema. a minha. Consensos Da perspectiva em que me coloco. de comparabilidade e portanto de síntese e generalização. Em primeiro lugar. fá-lo-ei a partir de uma perspectiva. . como a influência da contiguidade das áreas estudadas às implantações universitárias detectada por Francisco Ribeiro da Silva. sobre os pequenos municípios rurais. o que me pareceu terem sido os pontos principais de ruptura e debate manifestos. e têm-se generalizado para os séculos XVI e XVII imagens centradas no século XVIII. bem como dos processos de reprodução e de mudança social. São escassos os estudos longos. os consensos mais interessantes revelados por este encontro relacionam-se com o diagnóstico de uma acumulação de estudos de caso – veja-se o rico inventário apresentado por Francisco Ribeiro da Silva – que denota grandes ganhos de conhecimento. mas também a necessidade de os projectar na longa duração. Foi sobejamente notada por vários intervenientes a carência de investigação sobre casos anteriores ao século XVIII. 1. que padece de uma excessiva concentração nos grandes municípios. Em segundo lugar. sem ilusões de exaustividade nem de imparcialidade do ponto de vista adoptado. ancorada na sociologia histórica e como tal privilegiando a análise comparativa das configurações e das instituições sociais. especialmente no Continente. terceiro. destacou-se a necessidade de um alargamento da representatividade territorial. Inevitavelmente. da falta de estudos sobre os municípios de fronteira e de áreas interiores. o alargamento também da representatividade cronológica. e pensar mais em termos de contrastes e de mudanças. embora práticos. segundo. Espero assim dar um contributo para a clarificação e o debate das muitas e interessantes questões levantadas no encontro. o que me pareceu terem sido os grandes consensos emergentes das comunicações e das discussões. e até da interferência de factores cientificamente espúrios. as omissões.

seleccionados e arquivados com que construímos as fontes. as próprias actas de vereação. existem corpos documentais nos próprios arquivos municipais onde alguma visibilidade pode ser recuperada. Terceiro alargamento de representatividade. As posturas camarárias repetindo ad nauseam durante décadas a proibição desta ou daquela prática (como a de criar porcos pelas ruas da cidade. o estudo da importância do funcionariado concelhio e do oficialato das ordenanças nas configurações efectivas de exercício do poder. o quase vazio do nosso conhecimento sobre as funções judiciais de primeira instância das câmaras. avanços e recuos nas decisões camarárias em confronto com os administrados ficaram frequentemente registados. outra documentação largamente inexplorada. Desde logo. o alargamento da representatividade institucional. 265 não apenas de semelhanças – pese embora a estabilidade dos discursos jurídicos que moldavam as relações de poder no decurso do antigo regime. se as perguntas de investigação forem bem colocadas. infracções e sanções. mas talvez parcialmente superável pelo estudo sistemático dos seus rastos nos processos depositados nos tribunais de segunda instância. para além das fontes peticionárias e dos recursos para segunda instância. Mas é inegavelmente do maior interesse historiográfico e. dos fluxos da periferia para o centro e da influência . Em primeiro lugar. conterá provavelmente informação preciosa para este interrogatório. que José Subtil sublinhou. como apontou Nuno Monteiro. por exemplo) não revelam bem a capacidade de resistência das populações nas suas práticas quotidianas? Mas também. nomeadamente a carência de estudos sobre as instituições do ponto de vista dos administrados. ao menos em filigrana. por outro lado. como os livros de coimas. alegações e contra-alegações. por vezes com surpreendente pormenor. Será necessária uma melhor caracterização.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA.. o da hierarquia burocrática e militar dos concelhos: concretamente. que não fariam menos parte da vivência dos subordinados. em termos de exercício e de relação entre os poderes. como lembrou Teresa Fonseca. Finalmente. da resistência e do conflito – a que acrescentaria a anuência e a conformidade. e nas oportunidades de acesso a status sociais conferidos por essas hierarquias enquanto vias de mobilidade ascendente para elites subalternas. os de licenças e os de fianças. devido à transferência dessa documentação dos arquivos municipais para os tribunais durante as reformas liberais do sistema judicial.. onde conflitos. Um quarto alargamento de representatividade identificado foi a correcção do que poderíamos chamar o enviesamento sociológico salientado por José Viriato Capela. é uma perspectiva que mais facilmente suscita interrogações do que respostas. Dadas as assimetrias sociais dos actos discursivos escritos ou transcritos.

por um lado. párocos. José Subtil questionou a oposição corrente entre as instituições centrais (nomeadamente. de instituições e de acção política de escala regional. podemos começar por reflectir em três problemas levantados para discussão nas intervenções. Tal oposição fundamenta-se nas tensões de poder pela decisão . o Desembargo do Paço) e os agentes da Coroa. Uma segunda ordem de problemas tem a ver com as articulações entre a história das instituições e dos poderes locais e a história social. como o Desembargo do Paço. reciprocamente. provedores e mesários das misericórdias). Debates Em articulação com o último ponto de consenso inventariado na secção anterior. por outro. partilha. e os poderes locais. como notaram Francisco Ribeiro da Silva e Pedro Cardim. em parte por problemas de fontes. sobre a esfera dos poderes municipais. e o da coexistência e do conflito entre poderes municipais e senhoriais. em várias intervenções. corregedores – e de outros poderes supra-municipais. tendo sido salientado por Mafalda Soares da Cunha o panorama muito rarefeito. Várias intervenções questionaram a acção dos agentes da Coroa – provedores. foi constatada a necessidade de analisar mais sistematicamente a articulação.266 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dos municípios na política da Coroa. tanto ao nível de instituições (freguesias. as intendências e as secretarias de Estado. como pólos de uma relação de concorrência. concorrência ou conflito entre os poderes concelhios e outros poderes locais. Foi ainda bastante sublinhada. as relações de colaboração. e para resumir. o da existência. eventualmente parte de uma estratégia da Coroa para a consolidação da entidade política Reino. todos remetendo para as configurações e a variabilidade das relações inter-institucionais e para os modos de as abordar teoricamente: o das relações entre instâncias de diferentes escalas institucionais. Em geral. ou não. como ressalta da comunicação de Fernanda Olival –. 2. Importante também se torna caracterizar e operar com a distinção institucional entre municípios de jurisdição régia e de jurisdição senhorial – incluindo a ambiguidade de que a este respeito parecem revestir-se os municípios das ordens militares sob a alçada da Coroa. este último sugeriu como hipótese de trabalho a função dessa representação no tecer de uma consciência supra-local nos actores políticos locais. dos estudos sobre municípios senhoriais nos séculos XVI e XVII. a necessidade de serem mais consideradas unidades de análise infra-municipais e não-municipais. através da representação em cortes. senhoriais e supra-locais. misericórdias como na comunicação de Laurinda Abreu e Rute Pardal) como de actores (juízes de vintena.

estáveis e reciprocamente previsíveis. pondo em causa as instituições tradicionais. primeira instância e instâncias de recurso. no quadro do discurso jurídico tradicional assente nas categorias de justiça e de graça. o económico e o financeiro) que escapavam à lógica do discurso jurídico tradicional inventando novos objectos. que anularia a acção voluntária sob um modelo decisório tradicional completamente formatado pelo discurso jurídico. De acordo com esta perspectiva. de uma tensão entre o centro e a periferia. intendências). e pela crescente intromissão em torno desses novos objectos de agentes da Coroa externos à ordem tradicional e que escapavam à sua lógica discursiva (secretarias de Estado. dos seus capitais sociais e culturais. nomeadamente. O problema fica em aberto. na arquitectura tradicional de poderes do Antigo Regime as várias instâncias eram organicamente complementares. instigando ao estudo das intervenções e (des)articulações destes poderes. apenas interviria quando a ordem local era perturbada. de novos discursos (o administrativo. 267 jurídica legítima entre poderes centrais e poderes periféricos. encobrindo e legitimando processos de decisão que decorrem de margens de liberdade dos actores. como conceptualizar um dispositivo institucional assente na execução e na apreciação de “actos linguísticos” procedendo à total elisão da autonomia. em todo o caso intérpretes)? À parte esta dúvida teórico-metodológica. dos actores (emissores.. não teria uma estratégia de intervenção sobre os poderes locais. e minando a estrutura e os equilíbrios de poder do antigo regime.. A mudança das relações centro-periferia em fins do antigo regime teria antes que ser entendida pela emergência.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. mas entre discursos e agentes tradicionais e “modernos” no próprio centro. desde finais do século XVII. o Desembargo do Paço. relativa que seja. parece-me um problema especialmente estimulante para uma sociologia política do antigo regime – suspeito que o seu interesse poderá transcender muito a fase final daquele –. deslocando-o de uma lógica dos actores e das “vontades” – subjacente à noção de concorrência – para uma lógica dos discursos. De facto. tanto locais como centrais. o de perspectivar as relações entre poderes centrais e periféricos à luz das tensões institucionais . fiscalizadores e fiscalizados. e invoca mudanças da relação centro-periferia em finais do antigo regime por efeito de um reforço das instituições e dos actores políticos centrais. Não se trataria. receptores. assim. Os discursos normativos podem ser apropriados como recursos da acção. Na sua comunicação. o autor propôs repor o problema a partir de um ângulo diferente. decerto variáveis em função das suas posições. como um dos vectores de uma crise do municipalismo. não sem levantar reservas o apelo à passagem de uma análise centrada nos actores para uma outra centrada nos discursos.. etc. sobrepondo-se como diferentes camadas com lógicas de funcionamento próprias.

a sua aparente contradição com o apoio dos oficiais da Coroa à acção anti-senhorial dos municípios na época pombalina. e de empreendimentos de desenvolvimento regional envolvendo os recursos de múltiplos concelhos. Parte dos argumentos aduzidos por José Viriato Capela referem-se. No entanto. da hierarquização e da racionalização político-institucionais. Resumindo. económicas e sociais tendiam por sua vez a criar fortes homogeneidades. de facto. variável capacidade de gestão dos fluxos económicos inter-concelhios). as hierarquias inter-municipais na agenda da investigação sobre a história local poderá certamente trazer perspectivas de articulação em espaços mais amplos. não só do ponto de vista institucional como também do social (pensemos nas eventuais relações entre mobilidade social e mobilidade geográfica. e de obrigar a transcender o quadro fortemente localizado e por assim dizer auto-contido de grande parte da historiografia municipal.268 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS no centro. merecem mais reflexão algumas ambiguidades em torno da operacionalização do conceito de região. numa lógica de acção política. de forma não problematizada. estas tendências teriam levado a uma crise dos pequenos municípios – que seria a expressão fundamental da chamada crise do municipalismo – e a uma concentração de poderes. ao menos “regionalizantes”. a homo- . as funções. particularmente no século XVIII. levantada no debate por Margarida Sobral Neto. da contextualização dos discursos iluministas anti-municipais que fundamentam a ideia de uma crise do municipalismo no final do século XVIII. e elucidar. referida pela mesma autora. nas redes familiares supra-municipais das gentes da governança. José Viriato Capela contestou a tese do carácter a-regional ou mesmo anti-regional do município moderno. No plano das configurações espaciais. se não regionais. Esse questionamento permitiria talvez equacionar melhor a questão. duas definições teoricamente distintas: a região como recorte definido pela homogeneidade ou pela polarização (que implica heterogeneidade e dominação). nomeadamente por efeito da legislação pombalina e mariana no sentido da concentração. porque nesta discussão coexistem. Este questionamento apresenta as indiscutíveis virtudes de pôr na primeira linha do debate sobre o municípios os processos de mudança social e institucional de finais do antigo regime. Salientou as dinâmicas políticas que favoreceram fortes homogeneidades regionais. Colocar mais decididamente as relações. Por um lado. cujos poderes e privilégios lhes confeririam verdadeiras tutelas sobre territórios cujas configurações físicas. apenas para dar alguns exemplos) e do económico (hierarquias de mercados. funções e recursos nos grandes municípios que assim teriam acentuado o seu peso relativo e constituído pólos. na detenção trans-municipal de propriedades ou de direitos.

no sentido da redução do arbítrio. diversamente. ou entre os municípios beneficiários e os envolventes contribuintes. ou pouco interesse em interferir com a esfera de autonomia dos concelhos) e de controle funcional (os poderes senhoriais exerciam um controle político “moderador” sobre a actuação das câmaras. pela apropriação do território e dos recursos económicos.. característica geopolítica que intersecta muitas outras de diferentes índoles). Hierarquias que induziriam polarizações de dominação política do território. não deveria falar-se de um aumento da hierarquização. ora as consequências de âmbito supra-municipal da implantação e da actuação dos grandes municípios. que realmente definiriam a escala regional no plano político? Se a crise dos municípios na segunda metade do século XVIII é sobretudo perceptível nos pequenos municípios. da manutenção do bem comum e do bom governo dos povos. e faziam-no em proveito próprio. com acréscimo do peso relativo dos grandes municípios mas sem mudança da sua escala de acção institucional. Outra parte refere-se. tipo ideal de algum modo subsidiário da ideia de domínio oligárquico dos municípios). não correrá o risco de confundir. tinham efectivo interesse e capacidade de colocar bloqueios e constrangimentos à autonomia das câmaras. de resto nem sempre correlacionadas (como é o caso dos municípios de fronteira. corpos e mecanismos de poder ou de representação intermédios entre o município e o reino. A exacção das rendas . a hierarquias de poderes entre municípios. Margarida Sobral Neto contrapôs aos tipos ideais que poderíamos denominar de domínio senhorial limitado (os poderes senhoriais tinham escassa capacidade. 269 geneidades territoriais criadoras de semelhanças sócio-institucionais. a que poderíamos acrescentar Lisboa com a Corte e os seus privilégios de abastecimento). Por outro lado.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. e sendo o problema do carácter regional ou a-regional dos municípios de natureza essencialmente política. mais do que de um carácter regional daqueles? No que respeita à relação entre os poderes municipais e os poderes senhoriais. ou de Coimbra com a Universidade. e que seriam bem complementadas pela polarização mais estritamente económica do peso dos mercados das grandes cidades nas suas áreas de influência. Os poderes senhoriais. com a existência de identidades. seja a dotação de grandes municípios com sedes de instituições com importantes poderes supra-municipais (como no caso do Porto com a Real Companhia. seja a diferenciação entre concelhos com juiz de fora e com juiz ordinário. ora as continuidades de características territoriais relativamente homogéneas. o da concorrência e conflito institucional. sem dimensão nem recursos para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas pelas reformas políticas.. mas não beneficiários de obras promovidas pela Coroa. em concorrência pelo exercício do poder.

particularmente em torno da história social das elites e. teoricamente pouco profícuo. impedindo a capacidade de governação camarária e o desempenho das funções municipais na provisão de bens públicos.270 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS senhoriais e as isenções de coimas ou de taxas camarárias. Nuno Monteiro sustentou. como tem feito em escritos passados. ambos por Nuno Monteiro: a discussão. nem que as hierarquias adscritivas codificadas em normas são fixas e se aplicam exaustivamente nas situações e nos processos sociais – ambas premissas sociologicamente insustentáveis –. dos melhores). reflectem situações-tipo não generalizáveis e cuja variabilidade. quer a interferência de privilégios jurisdicionais como os de juízo privativo. que a conceptualização em torno do conceito de oligarquia resulta tautológico e. por isso. Como decorreu da discussão. Passando por cima das questões de terminologia (na realidade. em torno da caracterização dos grupos detentores do poderes locais como elites ou como oligarquias. haverá aqui a distinguir. Se não presumirmos que a relação entre normas e práticas sociais é transparente e imediata. mais genericamente. esta posição enferma ela mesma de uma fragilidade teórica. da estratificação. as intervenções no debate deram a entender que os três tipos ideais. já que um tal carácter tautológico remete tão-só para a dimensão normativa da cultura política. dada a definição caberia mais falar de uma aristocracia. que não eram especificamente senhoriais. tendo proliferado em fins do antigo regime entre um variado tipo de instituições. que é em parte semântica e em parte substantiva. Dois temas foram levantados a este respeito. nomeadamente. mais do que teoricamente contraditórios. então há que verificar “no terreno” não só a hipotética dominância do modo de governo oligárquico decorrente da pauta nor- . como disse. ao passo que os privilégios jurisdicionais subvertiam a jurisdição camarária de primeira instância. A segunda grande temática em debate tem. quer a diversidade e o peso relativo dos direitos senhoriais exercidos pelas casas (por contraste com direitos de propriedade). Encerrarei esta secção do texto com uma recapitulação crítica dessas propostas. e a proposta de transformação da análise predominantemente institucional dos municípios pela sua subsunção numa problemática da história social das elites locais. tanto territorial como conjuntural ou mesmo situacional. da reprodução e da mobilidade sociais. carece ela própria de investigação e de explicação comparativa. empobreciam os concelhos. deixando de lado a sua tradução nas práticas sociais e políticas. a ver com a relação da história dos municípios e das instituições locais com os problemas e conceitos da história social. Na realidade. devido ao carácter “natural” da governação oligárquica no quadro da cultura política do antigo regime: a governação era por definição uma responsabilidade dos maiores numa hierarquia de honra e nobreza.

famílias. se diferenciam e reproduzem (ou não) o seu status. A questão que verdadeiramente interessa colocar é a de qual o valor analítico e hermenêutico de oligarquia e elite como conceitos de análise histórica e sociológica. podendo por isso assumir conotações ideológicas por oposição a ideais de governação municipal democrática. e podem variar segundo as escalas de observação. mais ou menos correlacionadas entre si. O conceito de elite. por seu turno. casas.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. pode haver variações nas fronteiras sociais de acesso aos lugares de poder (na definição dos maiores). que os compõem. é no entanto um conceito fundamentalmente descritivo. tal como aconteceu ao de aristocracia). não sendo por isso teoricamente alternativos. no sentido de fechamento social da estrutura de oportunidades de acesso aos cargos de poder político (estreitamento social do grupo dos maiores legitimamente elegíveis. cabendo talvez delimitar as circunstâncias em que será teoricamente preferível designá-los como processos de aristocratização.. então tem cabimento teórico a análise de processos de oligarquização.. pelos actores e pelos grupos (o que de resto me parece convergir com a sua segunda proposta. etc. que retomarei abaixo). bem como as lutas em seu torno: em suma. As unidades de análise são aqui os grupos sociais e os indivíduos. porventura mais livre de conotações ideológicas e de juízos de valor implícitos do que o de oligarquia (ou tão-só portador de ideologias e de valores . O conceito de oligarquia releva da teoria política. 271 mativa. Mas se admitirmos que. da distribuição social das oportunidades de acesso ao poder. Denota a restrição do status de governante aos maiores. verificar e explicar histórica e sociologicamente as apropriações e interpretações da pauta normativa pelas instituições. Deste ponto de vista. mais do que a designação de um grupo ou de um conjunto de grupos sociais (pese embora a vulgarização do seu uso neste último sentido. no espaço e no tempo. como as variações. toma como unidades de análise entidades políticas e remete para um modo de governo e de exercício do poder. remetendo para a definição de grupos que ocupam o topo de múltiplas dimensões de diferenciação e de hierarquização de status. releva da teoria da estratificação social. Podendo ser usado com conotações normativas. e para a análise dos processos e mecanismos sociais pelos quais esses grupos se constituem. pela imposição de parâmetros de diferenciação mais exclusivos e/ou redução das probabilidades de mobilidade para o seu interior). embora relacionados. É na análise histórica de processos deste tipo que radica a associação dos conceitos de oligarquia e de oligarquização das instituições municipais às teses sobre a cristalização e o bloqueio da estrutura social do antigo regime. cuja validade empírica no contexto do antigo regime é evidentemente muito discutível. dentro dos cânones de uma governação de tipo oligárquico. creio que os dois conceitos recobrem campos de aplicação distintos.

por exemplo. tal dever-se-á mais ao paradoxo já sugerido de uma “acumulação não cumulativa” (i. em favor da abordagem unilateral da sua função como instrumentos de mobilidade social (ou de defesa contra ela). sem critérios de comparabilidade ou organizados em torno de categorias teoricamente pouco profícuas) e ao efeito contínuo e não corrigido das tendências de enviesamento identificadas acima. apenas um ângulo analítico distinto e mais amplo. nem ainda potencialidade explicativa. necessário reinventar a problemática. nesta escala de observação. segundo o qual cada novo estudo sujeito a este “fetichismo” pouco acaba por acrescentar ao que já se sabia. Mas isto não é contraditório com a noção de processo de oligarquização. nem unidade analítica do ponto de vista processual. por actores provenientes de diferentes categorias sociais não lhes retira. Pergunta. como meio de ultrapassar uma espécie de efeito ricardiano dos rendimentos marginais decrescentes. onde. que lugar representavam as instituições locais – entre outros meios de mobilidade ou de defesa da posição social – nas metas e nas trajectórias sociais das elites locais. cargos que uma categoria social enjeita são definidores de uma posição de elite e de oportunidades de mobilidade social para outras categorias sociais (cf. substitui-se a de uma estrutura de oportunidades estratificada. do que resulta uma deriva interessante e enriquecedora a partir de um interrogatório ancorado na história social. mas como disse acima. O remédio . Mas o interesse inegável desta problematização não deve fazer esquecer o questionamento específico das realidades políticas e administrativas enquanto tais. Seria.272 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS hoje mais consensuais?). a vantagem de obrigar a pluralizar. O facto de esses processos poderem ser protagonizados. Nuno Monteiro propôs também uma descentração daquilo a que apelidou de “fetichismo” das instituições locais. relativamente a fenómenos de estruturação social mais amplos. agregação de casos isolados. distribuindo posições de destaque relativamente a diferentes grupos de referência. nem validade comparativa numa análise das dinâmicas sociais e políticas.. Passando ao segundo tema. através do alargamento da perspectiva para uma história das elites locais. na sua dimensão política e administrativa formal. quando este é usado para designar o grupo detentor do poder e não a forma de governo. elegendo as casas ou famílias como unidades de análise. o conceito de elite tem sobre o de oligarquia.e. Se na realidade há rendimentos marginais decrescentes. numa duração multi-geracional. por isso. Dada a diversidade das dimensões de classificação social e dos grupos de referência relativamente aos quais os actores se posicionam. à escala local. não o substitui. exemplos nas comunicações de Mafalda Soares da Cunha e de Teresa Fonseca). À imagem homogénea de uma oligarquia.

BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. quer directamente enquanto produtoras – de património edificado. Não deveria ser esse o desafio a lançar por um evento que comecei por caracterizar como de amadurecimento da área temática? 3. mas sim no de espaço socialmente marcado e apropriado.. de vias de circulação. ou agendas. uma vila ou cidade. bem como os referentes espaciais e cronológicos que permitam transcender o âmbito local dos somatórios de conclusões e eventualmente reinterpretar o que já foi feito para trás. decerto em coexistência ou em concorrência com outras pertenças ou reivindicações identitárias. Não tendo sido objecto de reflexão no encontro. Em primeiro lugar. Refiro-me aqui a território. Actividades em que as instituições municipais detinham um papel fundamental. o que permitirá encerrar este balanço final numa nota de desafio. ou. . reprodutoras ou cristalizadoras de identidades sociais simbolicamente representadas por atributos de pertença: a um espaço geográfico. quando referidos. território no sentido sociológico. decerto o da mobilidade e da reprodução das elites –. não procurarei aqui dar-lhes um desenvolvimento que resultaria marginal aos resultados substantivos que se verificaram. o foram de forma lateral e incidental. um termo. Em segundo lugar. Trata-se de temas que se diria serem estruturantes e que. foram flagrantes três ausências. os problemas – entre os quais. etc.. os conceitos. por outro. Limitar-me-ei a inventariar brevemente essas omissões. funções de provisão de bens públicos que Margarida Sobral Neto brevemente mencionou na sua comunicação – quer enquanto reguladoras e fiscalizadoras. por um lado. Omissões Num encontro muito marcado pela relação e pelas tensões entre as perspectivas institucional-política. e das hierarquias e mobilidades sociais. a um nome. a um povo do concelho. investido de significado. Pouco ou nada sabemos sobre o eventual exercício desse poder simbólico pelas instituições municipais e sobre a sua eficiência. edificado e funcionalmente diferenciado. de investigação comparativa assentes em modelos analíticos explícitos que definam as lacunas. e não como objectos específicos de estudo ou sequer de problematização.. a questão das actividades de produção e apropriação de território e de paisagem. as dimensões e os indicadores. paisagem no sentido clássico da geografia humana. entretecido com instituições e com rotinas sociais. a um conjunto de símbolos edificados. a questão das instituições municipais como produtoras. não no sentido administrativo. 273 estará mais na negociação científica de uma agenda. ou ficaram de todo omissos.

nas matrizes problemáticas que foram seminais deste campo de estudos. mas também interrogar reflexivamente os modos de fazer história que têm vindo a conduzir à sua perda. Não exclusiva. enquanto jurisdições de primeira instância. mormente se pensarmos que foi em grande parte em torno dela que se definiu o discurso iluminista sobre as “vexações” aos povos e os entraves ao progresso alegadamente protagonizados pelos governos municipais. e provêem (ou sonegam) bens públicos. nem essencialmente como legisladores. que dentro dos seus territórios definem quais são os mercados. Agentes que gerem recursos económicos próprios. que. em equilíbrios de poder variáveis com outros agentes. sancionam direitos de propriedade.274 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Finalmente. e contratos. sob formas e com pesos variáveis. também por ser o tema que me interessa mais. os preços e a circulação. . impostos e coimas. as trocas e os actores legítimos. que intervêm nos mercados fazendo uso das suas prerrogativas. Estando estas dimensões inscritas. que através das concessões de licenças e da exigência de fianças intervêm nas actividades económicas. para manipular as ofertas de bens. a questão das actividades de intervenção económica directa e de regulação económica das instituições municipais. públicos e privados. creio que seria interessante. e redefinem conjunturalmente essa legitimidade. arrematam rendas. O estudo das práticas económicas concretas na esfera local – a exemplo do trabalho empírico pormenorizado apresentado por Laurinda Abreu e Rute Pardal sobre uma outra instituição – é uma dimensão crucial da sociologia económica do antigo regime. mas como instituições de enquadramento ou agentes activos nos mercados locais e regionais. não só recuperá-las.

/Fax: 21 796 40 38 www.qxd 06-07-2011 23:39 PÆgina 275 Colibri – Soc.pt colibri@edi-colibri.edi-colibri.pt . de Artes Gráficas Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Alameda da Universidade 1600-214 LISBOA Tel.Colof.

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