Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa

Campus da Justiça Avenida D. João II, nº1.08.01 – Edifício G – 6º piso Parque das Nações

Exmo. Sr Dr. Juiz de Direito

Processo nº 21112013

O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E DO MAR, com sede na Praça do Comércio, 1149-010 Lisboa, vem, por este meio, à presença de V. Exa, CONTESTAR a Ação Administrativa Especial de Impugnação das Normas do “Regulamento do animal doméstico” nº X/2013, de 1 de Abril, promovida por NOÉ DAS ARCAS, residente em Lisboa na Rua da Alegria, nº1, 3º D, doravante designado por AUTOR, pelos factos e fundamentos de direito que passa a expor:

I – Da competência

1º Recordamos que o Ministério responsável pela redação deste Regulamento era o anterior Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento de Território, que à luz do Decreto do Presidente da República n.º 92-B/2013, de 24 de Julho foi dividido em: Ministério da Agricultura e do Mar, a cargo da Prof.ª Doutora Maria de Assunção Oliveira Cristas Machado da Graça, e Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e Energia, a cargo do Eng.º Jorge Manuel Lopes Moreira da Silva. (Anexo 1)

2º Com base no exposto, a matéria versada no Regulamento em questão, era da competência do antigo Ministério supra referido à data da sua entrada em vigor, 1 de Abril de 2013, pelo que não tem razão o AUTOR ao alegar a incompetência do ministério (Cfr artigo 1º e 2º/1 al e) e g) do Decreto-Lei n.º 7/2012).

1

3º Contestam-se portanto os quesitos 1.º, 2.º e 3.º da Petição Inicial.

4º Ainda que assim não fosse, esclarecemos que matérias referentes a Veterinária continuam na esfera de competências do atual Ministério da Agricultura e do Mar, como pode comprovar a permanência da Direção-Geral da Alimentação e Veterinária nos serviços compreendidos na Administração Direta do Ministério em questão, conforme o disposto no artigo 17º/2 e 16º-A do Decreto-Lei n.º 119/2013 de 21 de Agosto e artigo 4º/1 al d) do Decreto-Lei n.º 7/2012 que continua a vigorar em tudo aquilo que o Decreto-Lei n.º 119/2013 não revogou.

5º O referido Decreto-Lei transfere alguns dos serviços do anterior Ministério para o atual Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, entre os quais não se encontra compreendida a Direção-Geral da Alimentação e Veterinária, o que comprova o acima disposto (art. 4º/1, alínea d) do Decreto-Lei n.º 7/2012).

6º Por maioria de razão, a norma que regula a possibilidade de entrada de animais domésticos em transportes públicos, cumpridos certos requisitos (art. 3.º do Regulamento X/2013 de 1 de Abril) cai também no âmbito de competências do RÉU, à luz de princípios de coerência, eficiência e celeridade (arts. 10º e 4º CPA, respetivamente) impostos à Administração Pública, no exercício das suas funções. 7º Exceciona-se portanto o quesito 4º da Petição Inicial.

II – Dos factos

8º Ainda que a limpeza dos espaços comuns seja de saudar, a verdade é que nas “três vezes” ao dia em que são levados a passear, os cães contactam com crianças, e mesmo com adultos o que desde logo propicia a transmissão de doenças bem como o aparecimento de alergias.

2

9º O RÉU admite os factos relevantes dos quesitos 1.º, 2.º, 3.º e admite parcialmente o quesito 4.º do Capítulo I (Dos Factos Relevantes) da Petição Inicial. 10º A limpeza do espaço por funcionária não qualificada/formada para o efeito, não evita a transmissão de doenças por via aérea, o que constitui uma realidade. É o caso da psitacose. (Anexo 2) 11º Excecionam-se perentoriamente portanto os quesitos 6.º e 7.º.

12º O facto de subsistir um regulamento de condóminos que permite a existência de animais no prédio, não invalida ele próprio a regulação da matéria por via administrativa. É aliás certo que a existência da última prevalecerá sobre o primeiro.

13º Em adição, não parece que seja a presença de tal regulamento que define ou não a existência de condições objetivas de risco para a saúde, segurança e sossego dos condóminos.

14º A existência de animais pressupõe desde logo um risco acrescido de doenças. A transmissão fecal-oral é aliás um dos meios pelos quais se propaga um maior número de doenças e parasitas e é extremamente comum principalmente quando há crianças envolvidas. Podendo, no limite, ser o animal o veículo de doenças do AUTOR para qualquer um dos vizinhos que com ele contacte. (Anexo 3) 15º Podemos aliás elencar um conjunto de zoonoses associadas aos animais detidos pelo AUTOR. (Anexo 4)

3

16º Quanto ao sossego dos condóminos, é absolutamente duvidoso que este se concretize quando o autor tem à sua responsabilidade: 4 sagui-pigmeus cuja característica principal é guinchar compulsivamente; 4 cães de raça chihuahua cujo temperamento ativo e excitado é exteriorizado por latidos repetidos, em particular na presença de outros seres da mesma espécie (o que constitui o caso); 4 periquitos australianos, espécie que é conhecida por poder aprender a falar, o que significa a emissão de ruídos.

17º O chihuahua é uma espécie conhecida por ser intolerante com crianças, parecendo, por maioria de razão, que não vinga o argumento de auxílio ao tratamento do autismo. É igualmente relutante a ordens, não se vislumbrando portanto de que forma estará silencioso a partir das 21h30. 18º Quanto ao Sagui-pigmeu, é uma espécie que, quando em grupo, envolve-se em disputas por poder, de caráter violento e barulhento.

19º O facto de o AUTOR ter tomado as devidas precauções em termos de insonorização do espaço não invalida a existência de barulho até porque, como é normal, as janelas abrem-se e fechamse, o que é aliás aconselhável até porque o número de animais faz prever uma quantidade de matéria fecal que tornaria pouco aconselhável a vida em local fechado.

20º Quanto a isto acrescente-se que os odores são também uma forma de prejudicar o bem-estar e conforto dos condóminos. Para além de toda a matéria fecal, o próprio odor de cada animal é ainda acentuado em virtude da especificidade da cobra natrix, que em caso de toque lança pela cloaca um fluido malcheiroso difícil de sair mesmo depois de n lavagens.

21º Impugnam-se portanto os quesito 8º, 34º, 35º, 36º.

4

22º Parece fisicamente impossível que tenha o AUTOR em sua posse primatas da espécie saguipigmeu desde 1989, esclareça-se, com aproximadamente 24 anos. Conforme comprova o ANEXO 5, a idade limite em cativeiro desta espécie (nas melhores condições) é de 18 anos.

23º Ora, neste seguimento, parece-nos pois que em relação ao Decreto-lei nº 114/90, de 5 de Abril que proíbe a detenção desta espécie, estava já o AUTOR em situação de ilegalidade. Pois se a espécie só dura, nas melhores condições, 18 anos, significará isto que o AUTOR terá adquirido espécimes vivos entre 1994 e 1995, altura na qual já vigorava o Decreto-Lei supra referido, sendo de condenar portanto esta atuação contrária a Lei expressa.

24º Acrescente-se que este Decreto-Lei foi já alvo de atualizações, inteligentemente omitidas pela parte contrária.

25º O Decreto-Lei nº 114/90, de 5 de Abril, que entrou em vigor a 6 de Abril de 1990, com o objetivo de transpor para o nosso ordenamento jurídico a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (doravante CITES), aprovada para ratificação em Portugal pelo Decreto-Lei nº50/80, de 23 de Julho, a fim de garantir e regulamentar a sua aplicação, foi revogado pelo Decreto-Lei nº 211/2009, de 3 de Setembro, que entrou em vigor a 18 de Setembro de 2009.

26º Tal revogação deveu-se à insuficiente regulamentação e não acompanhamento pelo DecretoLei nº 114/90, de 5 de Abril, das várias alterações introduzidas no CITES.

27º O Decreto-Lei nº 211/2009, de 3 de Setembro assegura a execução do CITES, do Regulamento (CE) nº338/97, do Conselho, de 9 de Dezembro e do Regulamento (CE) nº865/2006, da Comissão, de 4 de Maio, ambos com as devidas alterações.

5

28º O art. 2º/2 do Decreto-Lei nº 211/2009 estatui a proibição de detenção de espécimes vivos nas espécies constantes da lista a aprovar posteriormente por portaria. 29º Ao abrigo do disposto no nº 2 do art. 2º do Decreto-Lei nº211/2009 foi publicada a Portaria nº1226/2009, dentro do prazo estabelecido pelo art. 33º do Decreto-Lei nº211/2009, Portaria esta alterada pela Portaria nº60/2012, de 19 de Março. 30º A Portaria nº 1226/2009, alterada pela Portaria nº60/2012, por sua vez, concretiza os animais não suscetíveis de detenção no seu art. 1º. No Anexo I encontram-se todas as espécies da ordem dos primatas (onde se inclui, entre outros, o Calhithrix Pigmea, mais comummente conhecido por Sagui-Pigmeu). 31º A aprovação destas medidas de proibição da detenção de determinadas espécies é motivada por questões relacionadas com "a conservação dessas espécies, com o bem -estar e a saúde desses exemplares e com a garantia da segurança, do bem -estar e da comodidade dos cidadãos em função da perigosidade, efetiva ou potencial, inerente aos espécimes de algumas espécies utilizadas como animais de companhia". 32º Não se aplicará ao AUTOR o art. 2º da Portaria nº 1226/2009, por não se encaixar em nenhuma das categorias das suas alíneas. 33º Estabelece, também, a Portaria nº 1226/2009 que os detentores legais das espécies constantes no Anexo I, à altura da entrada em vigor da Portaria, devem proceder ao seu registo no ICNB, I.P., no prazo de 90 dias, prazo este alterado pela Portaria nº 60/2012 para até 180 dias após a sua entrada em vigor (art. 1º/1, alínea a)), ou seja, 180 dias a partir de 20 de Março de 2012. 34º Apesar da situação de legalidade do Autor até ao Decreto-Lei nº 211/2009, pela conformidade com o art. 13º/4 do Decreto-Lei nº 114/90, de 5 de Abril, tal não invalida nem afasta a obrigação do registo no ICNB I.P. e respetiva sanção pelo seu não cumprimento, como regulado pelo Decreto-Lei nº 211/2009.

6

35º Não se verificam os requisitos de aplicação do art. 2º da Portaria nº 60/2012 quanto à dispensa de registo por, ao abrigo da legislação enumerada, não possuir título, licença ou autorização de detenção. 36º O Decreto-Lei nº 276/2001, de 17 de Outubro, que regulamentou o Decreto nº13/93, de 13 de Abril, que aprovou a Convenção Europeia para a Proteção dos Animais de Companhia, alterado pelo Decreto-Lei nº 315/2003, de 17 de Dezembro, exclui do seu âmbito de aplicação "espécies da fauna selvagem autóctone e exótica e os seus descendentes criados em cativeiro, objeto de regulamentação específica", art. 1º/2, como o são toda a espécie de primatas regulada pela Portaria nº 1226/2009. 37º É, para além do mais, considerado "animal de companhia", para o presente Decreto-Lei, qualquer animal destinado a ser detido pelo homem. Ora, se a detenção de um certo animal é proibida por diplomas vigentes no nosso ordenamento jurídico, não se vê como poderá este ser um animal de companhia. 38º São por isso falsos os quesitos 11.º, 12.º, 13.º, 14.º, 15.º, 16.º e 17.º.

39º Não obstante os motivos elencados nos quesitos 24º, 36º e 37º, não pode o RÉU deixar de recordar que não foram consideradas as principais características de uma pessoa com autismo, que em muito inviabilizam o contacto com um grande número de animais, podendo mesmo ter o efeito inverso do alegado pelo AUTOR. (Anexos 6 e 7) 40º A ratio do Decreto-Lei nº 314/2003, de 17 de Dezembro não passa, em primeira linha, pelas condições de higiene existentes nos prédios alojadores de animais de estimação, mas pela (tal como o diz, e muito bem, o AUTOR no quesito 32º da Petição Inicial) proteção e luta contra as zoonoses transmissíveis pelos carnívoros domésticos, através do controlo destas populações. 41º Como tal, não se percebe porque estará o Autor isento da aplicação do Decreto-Lei nº 314/2003, de 17 de Dezembro. As condições de higiene dos prédios urbanos, rústicos ou mistos são requisito da própria possibilidade de detenção de algum animal doméstico e não

7

critério de determinação do número de animais que podem ser alojados nos ditos prédios, tanto por razões de Saúde Pública como por razões de bem-estar e saúde dos animais. 42º Só é legal a detenção de mais de quatro animais, até um máximo de seis por prédio, mediante parecer vinculativo do médico veterinário municipal e do delegado de saúde, parecer esse que não existe. É, também, manifesta a falta de competência do AUTOR para averiguar as condições de higiene existentes no seu prédio. 43º Não podem proceder, portanto, os argumentos invocados nos quesitos 25.º, 26.º, 27.º, 28.º, 29.º, 30.º, 31.º, 32.º e 33.º. 44º Não obstante, cumpre referir que o Regulamento X/2013, de 1 de Abril, não revela somente preocupações no âmbito da saúde humana, mas também animal. 45º Quando o AUTOR se refere ao habitat dos animais, está a importar um conceito técnicocientífico que corresponde, em termos concretos, a condições ambientais que permitam o estabelecimento viável de espécies, neste caso, animais. Ainda que possam existir habitats artificiais, criados pelo Homem, estes têm de conter os elementos que permitam aos seres o aumento de população, por exemplo, o que não é claramente o caso aqui presente. 46º Vejamos, as condições detidas pelo AUTOR, por muito que aprovadas por entidade administrativa competente, nunca se poderão equiparar à reprodução no seu habitat natural. Sucederá portanto que, por vezes, poderão estes animais estar expostos a eventualidades, tais como correntes de ar, que podem constituir causas de morte desta espécie.

47º Assim, o argumento que o AUTOR pretende invocar no quesito 39.º da PI funciona em seu desfavor, na medida em que o mesmo, ao manter, especialmente, os animais exóticos referidos em cativeiro, não lhes assegurando as devidas condições semelhantes às do seu habitat natural, está a privá-los de um desenvolvimento sustentável e não promove o aumento populacional da espécie.

8

48º É comprovado que os animais, em especial animais selvagens, têm um enorme sentido de autonomia. Isso implica que, ainda que ligados de alguma forma àquele que os mantém em cativeiro, estes animais, em especial os primatas, sobreviveriam tão bem ou melhor num ambiente que lhes proporcionasse maior independência, tendo em conta que são animais selvagens. 49º A ser verificado, após inspeção, que os animais exóticos têm de ser retirados do Lar onde se encontram (neste caso, casa do AUTOR), estes não poderiam ser devolvidos, sem mais, ao seu habitat natural. Estava prevista pelo Regulamento X/2013 a criação de um Centro de Apoio ao Animal, que já se encontra em funcionamento, a que pertencem diversos profissionais especializados que aferem para onde e de que maneira devem ser deslocados os animais, tendo sido também criadas as infraestruturas necessárias a uma acomodação temporária dos referidos animais (paralelamente aos canis/gatis) e feita uma parceria com Jardins Zoológicos que possam acolher os mesmos. (Anexos 8 e 9) 50º Estão portanto refutados os quesitos 39.º, 40.º, 41.º e 46.º.

III – Do Direito 51º Qualquer regulamento administrativo está sujeito ao Princípio da Legalidade, na vertente da reserva de lei formal (cfr artigo 3º CPA e 112º/7 CRP e 199º/1 al.c) CRP). 52º O Regulamento x/2013, de 1 de Abril, foi aprovado ao abrigo do Decreto-Lei n.º 314/2003, constituindo este norma habilitante suficiente, não sendo de acolher o argumento do AUTOR. (Anexo 10) 53º Os argumentos utilizados pelo AUTOR no sentido da preterição de formalidades prévias, essenciais à emissão do Regulamento, são improcedentes. Revelam estes falta de atenção por parte do AUTOR, visto que o respetivo Processo Administrativo em ANEXO contém toda a documentação comprovativa do cumprimento pela Administração das referidas formalidades.

9

54º Competia ao Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, no exercício das suas funções administrativas, a prossecução do Interesse Público (cfr art. 4º CPA). 55º Este conceito abrange, nos termos da lei, a proteção da saúde e segurança públicas, bem como a garantia do bem-estar e comodidade dos administrados. 56º Por assim se considerar, foi aprovado o Regulamento em causa, cuja ratio passa pela avaliação da perigosidade efetiva ou potencial decorrente da pluralidade de animais em ambiente doméstico, e a sua limitação a fim de garantir a segurança, saúde, bem-estar e comodidade dos cidadãos abrangidos. 57º Os princípios vigentes no nosso ordenamento jurídico, embora coexistam entre si, implicam, em caso de confronto numa situação concreta, uma ponderação que passa pela prevalência de um em detrimento do outro. 58º Assim sendo e na medida do acima exposto quanto à ratio do regulamento aprovado pelo Ministério do Ambiente, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, decorreu que os princípios da prossecução do interesse público, proteção da saúde e segurança públicas (arts. 64º e 66º CRP) e outros valores relacionados com estes, quando confrontados com os princípios da propriedade privada, intimidade da vida privada e habitação e família, prevalecem. 59º Não significa o exposto uma total supressão dos princípios invocados pelo AUTOR, mas sim uma limitação que decorre da vida em sociedade. 60º É de aplicar ao caso a velha máxima: “A nossa liberdade termina onde começa a dos outros”. 61º Daqui decorre portanto, um total respeito pelos princípios constitucionais, não procedendo uma vez mais o argumento invocado pelo autor, nos quesitos 55.º, 56.º, 57.º, 58.º, 59.º, 60.º, e 61.º.

10

62º A norma regulamentar que limita o número de animais que podem habitar com as pessoas em frações de prédios urbanos, não tem como finalidade a restrição ou supressão do direito de propriedade do dono dos animais, mas tão-somente a garantia de condições mínimas aceitáveis em que esse direito pode ser exercido. 63º Recordamos uma vez mais que os direitos não são absolutos no confronto com outros valores constitucionalmente tutelados. 64º Não vemos como poderá estar em causa uma violação do direito à reserva da intimidade da vida privada do AUTOR, tendo em conta que a esfera íntima de um sujeito não engloba, por regra, situações tão básicas como o ter, ou não, animais de estimação em casa e, bem assim, muito menos englobará uma situação que pode ser tão prejudicial à saúde pública, como seja as condições de higiene em que um cidadão vive. 65º O número de animais que cada pessoa tem e as condições de higiene em que cada um convive, não fazem parte exclusivamente da vida privada, ao contrário do alegado pelo AUTOR! Muito menos, quando este vive num apartamento, o que implica obrigatoriamente um cuidado extra em todos os comportamentos que contundam direta ou indiretamente com o bem-estar dos restantes condóminos. 66º É aliás contraditória esta afirmação, quando o AUTOR revela conhecer a legislação substantiva que lhe é aplicável no âmbito das relações de vizinhança. 67º Não vemos como funciona a favor do AUTOR a invocação do direito à habitação no quesito 61.º, na medida em que o que este regulamento visa proteger é também a existência de condições mínimas de higiene e conforto não só para aqueles que têm a seu cuidado animais, como para aqueles que com eles diretamente interagem. 68º O Regulamento x/2013, não pretendendo uma regulação exaustiva de situações já previstas em outros diplomas legais, como seja o regime das relações de vizinhança em sede de Direitos

11

Reais (Código Civil), também reconhece que existe uma insuficiência de regulamentação pelo mesmo ao nível das matérias versadas no referido Regulamento. 69º Neste sentido, a existência de normas de proteção de relações de vizinhança em nada obsta à regulação autónoma pela Administração Pública, não vendo o RÉU em que medida tais normas condicionam a vigência destas. 70º Além do mais, o Regulamento x/2013 não respeita apenas, como deve ser do conhecimento do AUTOR, ao número limite de animais por fração autónoma. Associado a este limite, são impostas certas condições mínimas, como já foi até aqui suficientemente alegado, que garantem uma coexistência condigna entre donos e animais. 71º A dificuldade de fiscalização não é argumento para deixar de disciplinar determinadas matérias. De outra forma, teria o Direito de deixar de se imiscuir em claras violações de direitos, apenas por não ser possível a constante vigilância. 72º Ainda assim, está pensado para a concretização da referida norma do Regulamento um sistema que se baseará na denúncia dos casos em que se suspeite a existência de um incumprimento das regras estabelecidas no diploma, onde se inclui o dever de passear os animais pelo menos duas vezes por semana (artigo 1º/2, alínea c) do Decreto-Lei n.º 21/2013 e artigo 2º/1/c) da Comunicação de Criação do Centro de Apoio ao Animal). 73º Enfim, esta norma não é de se aplicar sem mais, devendo ser ponderada em relação ao caso concreto, na medida em que existem situações de impossibilidade física de cumprimento. 74º Em relação à norma que regula as condições de admissão de animais domésticos em transportes públicos, a sua fiscalização deverá ser assegurada pelo motorista do veículo. De outra forma não poderia ser, aliás, na medida em que esta norma está redigida à semelhança da regra já existente de controlo, por parte do referido motorista, da entrada de passageiros, que está portanto reservada a admissão. 75º A densificação dos critérios de admissão dos referidos animais em transportes públicos, como já decorria do anterior diploma em vigor (Portaria nº 968/2009) deve ser feita em

12

parceria com as empresas de transportes públicos de passageiros, na medida em que são umas das principais interessadas na fixação dos ditos limites. 76º Devemos alertar o EXMO SR JUIZ DE DIREITO que o AUTOR não definiu quais os pontos da sua petição inicial serão provados pelas testemunhas arroladas, não permitindo deste modo o exercício do Princípio do Contraditório (1ºCPTA ex vi 3º-A CPC) por parte do RÉU. 77º Solicitamos portanto que o arrolamento das mesmas seja indeferido, tal como é exigência do Direito, a fim de o Réu não ser prejudicado por impossibilidade de defesa em contrário.

III – Do Pedido Atendendo ao alegado pelo RÉU, e com base nas imposições de Direito e Justiça, deve o Exmo. Sr Juíz de Direito julgar improcedente a respetiva ação, absolvendo o RÉU do pedido, com todas as consequências legais que daí advêm.

IV – Da Prova 1. Documental Anexo 1: Decreto do Presidente da República n.º 92-B/2013; Anexo 2: Declaração de ciência de médico; Anexo 3: Esquema explicativo de doenças; Anexo 4: Zoonoses associadas aos animais; Anexo 5: Parecer do médico veterinário especializado; Anexo 6: Declaração médica sobre o autismo; Anexo 7: Estudo de Harvard sobre o autismo; Anexo 8: Decreto-Lei que procede à criação da Comissão Nacional de Regulação do Estatuto e da Posse do Animal Doméstico; Anexo 9: Comunicação da criação do Centro de Apoio ao Animal Doméstico; Anexo 10: Processo Administrativo, conforme ao art. 84.º/1 do Código de Processo nos Tribunais Administrativos (CPTA). 2. Testemunhal José das Almas, solteiro, maior, portador do Cartão de Cidadão n.º 123456789, com o NIF 101112, residente na Rua General Leman, n.º 5, 3.º esquerdo, 1600-101 Lisboa, exvizinho do AUTOR, quanto aos quesitos 16.º a 19.º da Contestação;

13

Ana Banana, solteira, maior, portadora do Cartão de Cidadão n.º 141756456, com o NIF 191817, residente na Avenida 25 de Abril, n.º 15, 4ºB, 2825-099 Corroios, médica veterinária especialista em animais exóticos, quanto aos quesitos 47.º a 49.º da Contestação.

JUNTA: - Anexo 1 a 9. - Procuração Forense; - Processo Administrativo de elaboração do Regulamento x/2013.
Os advogados,

14