O espaço-tempo do cotidiano

Erly Vieira Jr Nós mesmos, costumeiramente: talvez por ser “o que há de mais difícil a descobrir”, o cotidiano, segundo uma definição de Blanchot, é aquilo que escapa: “o cotidiano é o suspeito que sempre escapa à clara decisão da lei, mesmo quando esta busca perseguir, pela suspeita, toda maneira de ser indeterminada: a indiferença cotidiana” (BLANCHOT, 2007: 236). E talvez seu caráter de fugidio, inapreensível, decorra de sua ambígua condição: uma banalidade que “é não obstante também o que há de mais importante” ( BLANCHOT, 2007: 236), uma espontaneidade em que o estagnante e o corrente da vida se confundem, com suas variações mínimas em meio às aparentes repetições. Nunca visto, apenas revisto, estranho por dissipar o familiar sob o extraordinário, um movimento imóvel, não-dissipado, inapercebido (e só percebido quando já é outro). Uma experiência enraizada no presente, que nos remete, da mesma forma que ao caráter flutuante da flanêrie benjaminiana, também ao Livro do desassossego, do guardador de livros Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa: “Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada” (PESSOA, 2006: 129). Para Blanchot, o cotidiano, em sua irrepresentabilidade radical, dissolve estruturas e desfaz formas: recusa valor, é o sem sujeito e sem acontecimento. Incessante, não tem começo nem fim (ambigüidade: ao mesmo tempo estamos mergulhados nele e privados dele). Daí ser inacessível: por onde começar, qual a porta de entrada para se perceber e apreendê-lo, sem envolver a parcela percebida de uma aura de acontecimento, evento único, fechado em si? Ou ainda, como questiona Stephen Clucas (2000: 27), de que modo seria possível captar sua banalidade e insignificância sem cair também no banal? Como narrar tal instância, dotar-lhe de um início e de um ponto final, que lhe permita ser apreendida pelas formas discursivas? Seigworth (2000) retoma a concepção de Meaghan Morris, acerca do cotidiano como “puro processo em excesso”, numa espécie de dimensão construída e compartilhada coletivamente, para tentar responder à colocação de Blanchot: mais que escapar, o cotidiano excederia, produziria um excesso. Essa inesperada ligação (praticamente um oxímoro) entre banalidade e produção de uma intensidade, seria mediada por uma

espontâneo. num contexto de informalidade e ausência de um grande tema.acessibilidade tão intensa. 2007: 88). . também de maneira subjetiva e intuitiva 1. bem como a repetição. 2000). ele seria uma espécie de terreno sem chão ( “groundless ground”) da concatenação entre o já vivido e o que se está vivendo (SEIGWORTH & GARDINER. que caracteriza o cotidiano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1 Em seu artigo “Rethinking everyday life” (2004). ainda que num contexto teórico fortemente marcado pelo marxismo de viés luckacsiano. no entanto. “movendo-se lado a lado com todos os outros momentos do dia-a-dia” (2004: 142). amor. intimamente ligado ao sujeito que vivencia essa dimensão do corriqueiro (o “mistério do mundo” que surge esculpido na banalidade da rua. essa repetição e regularidade de hábitos e situações nos permitem compreender apenas uma das facetas da esfera cotidiana. de Pessoa) e que. Uma série de palavras-chave. o que. Além disso. Denilson Lopes (2007) nos lembra da incorporação poética do acaso. camaradagem e os processos comunicativos) são mais fluidas e dispersas no tempo e espaço do que as operadas nas instâncias oficiais/institucionais. as práticas e relações mais associadas à vida cotidiana (amizade. a rigorosa regularidade que se articula com essa espontaneidade apontada por Heller. de modo que deslizamos constantemente entre as conjunções espaço-temporais de uma dimensão a outra. como também afirma Burkitt. não deriva nem de um corpo ou de um mundo em isolamento. de maneira ondulatória. provisório (tal qual o rol de juízos práticos e ultrageneralizadores que ele engendra). mas da banalidade dos movimentos de seu próprio processo. Daí um excesso. Contudo. contribuiria para a “descoberta dos aspectos do absoluto na vida cotidiana” (LOPES. Principalmente se pensarmos que essa periodicidade obedece à uma percepção muito mais intuitiva que cronológica da temporalidade: como nos recorda Burkitt (2004). contudo repleto de flutuações polirrítmicas: multiplamente singular em sua totalidade. ao mesmo tempo um “nada” aparente. o ritmo fixo. Seigworth & Gardiner retomam a crítica ao cotidiano de Henri Lefebvre (em especial a ritmanálise e a “teoria dos momentos”) para traçarem uma leitura possível acerca dessa qualidade de indeterminável/não-reconhecível (unrecognized) inerente ao próprio cotidiano. noutra passagem do Livro do desassossego. 2004: 141). Citando Certeau. vista pela vidraça do café lisboeta. ao mesmo tempo operando nos níveis macro e micro. propostas por Agnes Heller (2008). a ponto de se configurar como algo “sem uma entrada definida”. talvez permita demarcar os contornos movediços do cotidiano: heterogêneo (porém hierárquico). existindo em termos de ma plenitude quase absoluta:“it exists at the level of ‘there is’”(SEIGWORTH. Essa totalidade se reconstituiria a cada momento. a experiência da cotidianidade é multidimensional.

p. A Experiência Limite. 2008. “A Fala Cotidiana”. LOPES. 42. In: Critical Quarterly. Michael. 2004. SEIGWORTH. Gregory. “The time and space of everyday life”. São Paulo: Escuta. O livro do desassossego.227/268. SEIGWORTH. MORLEY. 2006. 4.425/448. 235/246. 211-227. Ian. Volume 18. “Cultural phenomenology and the everyday”. São Paulo: Companhia das Letras. In: Cultural Studies. Maurice. São Paulo: Paz e Terra. A delicadeza: Estética. In: Cultural Studies. “Belongings”. CLUCAS. 18 ¾. 2004. BURKITT.39/59 . Vol. UnB/Finatec. Brasília: Ed. ¾.BLANCHOT. April 2000. Gregory e GARDINER. 2. 2007. David. p. O cotidiano e a história. experiência e paisagens. 2007. Stephen. p. Numbers 2-3/March/May. PESSOA. “Banality for Cultural Studies” . Number 1. Fernando. Numbers 2-3. Vol. Agnes. HELLER. “ Rethinking Everyday Life” In: Cultural Studies. 18. In: European Journal of Cultural Studies. 2004 . 2001. Denilson. In A Conversa Infinita.

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