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Michel Foucault - Ditos e Escritos

se livro e estou muito contente com isso. É minha casa secreta uma história de amor que durou alguns verões. Ninguém soube disso.
- Nessa época, nos anos 60. você também estava interessado pelo movimento chamado o "novo romance"? - O acaso fez com que eu topasse com La uue. Se eu não ti-

1984

Outros Espaços

vesse sido condicionado pela leitura prévia de Robbe-Grillet. de Butor, de Barthes, não creio que eu tivesse sido capaz, por mim mesmo. lendo La uue, de ter esse estalo que imediatamente me ~a~vou. H~Via mais chance de me interessar por Commentj'ai ecrit certains des mes livres ou. por Les impressions d'Afrtque d,o que por La uue. Acredito verdadeiramente que esse condicronamento foi necessário. Pertenço à geração de pessoas que, quando estudantes, estavam fechadas em um horizonte que era marcado pelo marxismo. pela fenomenologia. pelo existencialismo etc. Coisas extremamenteJnteressantes, estimulantes. mas que acarretam depois de um cert? tempo uma sensação de sufocamento e o desejo de ver mais alem, Eu era como todos os estudantes de filosofia nessa époea, e. para mim, a ruptura se deu com Beckett. Enattendant GodotNumi espetáculo 'à.e tirar o fôlego. Depois li Blanchot, Bataille, Ro?be-Grillet - Les gommes, La jalousie. Le voyeur _ BUjQr.tambert:l;:Bart:4es - as Mythologies - e LéVi-Strauss. Todos esses auteresssão muíto diferentes uns dos outros, e não quero deforma: alguma cornparã-los. Quero dizer que eles marcaram uma ruptura para as pessoas de nossa geração, - Para você. a expressão da ruptura era o estudo sobre a loucura. Você Já ttnhafetto a mudança antes da leitura de
Roussel?

"Outros espaços" (conferência no Círculo de Estudos Arquitetõnicos. ·14 de março de 1967), Architecture, mouuement. contlnuité. n2 5. outubro de. 1984. ps.46-49.
M. Foucault só autorizou a publicação deste texto escrito na Tunísta, em 1967, na primavera de 1984.

- De fato. li Roussel no próprio momento em que escrevia esse livro sobre a loucura. Eu estava dividido entre a fenomenoIOgia ea psicologia existencial. Minhas pesquisas eram uma tentativa de ver em que medida se podia defíní-Ias em termos históricos. Compreendi que o problema devia ser colocado em outros termos que não o marxismo e a fenomenoíogia,

A grande mania que obcecou o século XIX foi. como se sabe. a história: temas do desenvolvimento e da estagnação. temas da crise e do cíclo, temas da acumulação do passado.grand~ sobrecarga de mortos. resfríamento ameaçador do mundo. E no segundo princípio de termodínâmíca que o século XIX encontrou o essencial dos seus recursos mitológicos. A época atual seria talvez de preferência a época do espaço. Estamos na época do simultâneo. estamos na época da justaposição. do próximo e do longínquo. do lado a lado. do disperso. Estamos em um momento em que o mundo se experimenta, acredito. menos como uma grande Via que se desenvolveria ~través dos tempos do que como uma rede que religa pontos e que entrecruza sua trama. Talvez se pudesse dizer que certos conflitos ideológicos que animam as polêmicas de hoje em dia se desencadeiam entre os piedosos descendentes do tempo e os habitantes encarníçados do espaço. O estruturalismo, ou pelo menos o que se reúne sob esse nome em geral. é o esforço para estabelecer. entre elementos que podem ter sido díspersos através do tempo. um conjunto de relações que osfaz aparecer como Justapostos. opostos. compr?metidos um com o outro, em suma-queesfaz-aparecer como uma espécie deeonfíguraçâouaa verqad~i,:Ílão,se .trata c@tl;l~~$~b,dfi negar o tempo; é uma!cettq\~âlp:~:i~~ çle,frat~J:"O{H:u~':~'e;.çh~a'de tempo. e o que se .chama de história, "-O , ,,'. ,.' " É preciso. entretanto. observar que-o.espaço-que-hoje aparece no horizonte de nossas preocupaçêes! demossa-teoría, de nossos sistemas não é uma inovação; o próprío.espaço na expe-

o posícíonamento substitui a extensão.:o de nossas.flltP.'apesàt de toda a rede de saber que permite.homens em tçrmos'de demografía: e esse último problemado pósicionamento humano não é simplesmente questão de saber se haverá lugar suficiente para o homem no mundo .412 1984 . lugares urbanos e lugares rurais (onde acontece a vida real dos homens). . De uma maneira atada mais CQ~cr:Çta'i{)'. determinação de elemen~os.D~tode oup-a forma. a partir de Galileu. entre o' espaço privado e o espaço público. q .são como íntrfnsecas.d(). o tempo provavelmente só aparece como um dos jogos de dístrtbuíçãe-possívets entre elementos que se repartem no espaço.localízação.<ie:itodas as 'técnicas nelednvestidas. o de nossos.Outros Espaços Mlchel Foucault .'JitàI .. para a teoria cosmológíca.contas. sem dúvida.' ora classificado de acordo com uma classificação plurívoca etc.fornializá~lo. o espaço contemporâneo talvez não esteja ainda inteiramente dessacralizado .. marcad?s ou codificados. 'L Ora. Estamos em uma época em que o espaço se oferece a nós sob a forma de relações de posícíonamentos.. pelo contrário. . no interior de um conjunto que e ora repartido ao acaso. para retraçar muito grosseiramente essa história do espaço.' de localização.prQblema. O posicionamento é definido pelas relações devizinh~ça entrepontos ou elementcszformalmente.·. o lugar de urna coísa não era mats <19 que'Jun p~~'to> em seu movimento. a partir doséculo XVII. havia os lugares onde as coisas se encontravam colocadas porque elas tinham sido violentamente deslocadas. te~ rede.diferentemente. ou melhor. esse entrecruzamento de lugares era o qu~ se poderia chamar bem grosseiramente de espaço medieval: espaço de localização. que tipo de estocagem. havia lugares supracelestes opostos ao lugar celeste.•as quaís a instituição e a prática ainda não ousaram atacar: oposiçõ~squeadmitimos como inteiramente dadas: por exemplo. pelo contrário... ~tualmente. por sua vez. abertos e sem defesa. podemse descreve-Ias como séries..paíxões possuem>IJ. cer. aextensão torna o lugar da. E talvez nossa vida ainda seja comandada por um certo número de oposições nas quaís ~ã..> O:~ .dolugar ou do posícíonamento se propõe-para. sabe~se.')': ° ./ Q.-::. mas .'/y. afinal de. grades. 4. fôrtrlá . essa oposição. e não é possível desconhec~r este entrecruzamento fatal do tempo com o espaço. mas.de Bachelard. muito ímportante -.tH~gi 'ar.qtiere:. o espaço de nossa perCepção primeir. enfim.ein. pedregoso. entre o espaço dafamilia e espaço social. ora classificado em uma classificação unívoca.apesar.. exatamente corno o rer>0'J~ode u~m~coisa não passava do seu movimento infinitam-e.en. .e lugares: lugares sagrados e lugares profanos.que. e depois os lugares. onde as coisas encontravam sua localização e seu repouso naturais. todos são ainda movidos por uma secreta sacralízação.. etêreo. e-o lugar celeste. círculaçâo de 'elementos discretos. A obra. Pode-se dizer.:da Idade 'Média 'se en'c' . deter:m1ná-lÜ'ou.: .'lJJneSpaçO que talvez seía.. espaço Infinito e infinitamente atiêrto.q'~' .I povoado de fantasme.problema. 'a. uma certa dessacralização teórica do espaço (aquela que a obra de Galileu provocou). na Idade Média.os. problemas do ~osiciona:nento na técnica contemporânea: armazenagem da informação ou dos resultados parciais de um cálculo na memória de uma. que substituía a localização.homogêneo e >V~io.J. entre o espaço de Jazer e o espaço-de trabalho. as descrições dos fenomenõíogos nos ensinaram que não vivemos em um espaço .os sons em uma linha telefônica).tamente. da tmportâncía dos.ser mantidos de preferência em tal ou tal situação para chegar a'tal ou tal fim.ose pode tocar . creio que a inquietação de hoje se refere fundamentalmente ao espaço. com saída aleatória (como muito simplesmente os automóveis ou.... se opunha aolugar terrestre. embaraçado:·éum·es. sem dúvida muito mais queao tempo. Houve.eles mesmos quaÍidades'. lugares protegtdos e lugares.espaço dos cumes: ou o! ..ç.máquína. .ontrava "" .Ditos e Escritos 413 rtêncía ocidental tem urna história. terco~~tituído 'um.que é.W~~?:letl~po. ' " Esse espaço de localização iniciou-se com Galíleu.•. pois o verdadeiro escândalo da obra de Galileu não foi tanto ter descoberto.. em um espaço inteiramente carregadQ."'J. .troensa..'"(' 0'" ~e uma certa' maneitadíssolvido. devaneios.a. De qualquer forma. é um espaçoleve. també.scoberto que a Terra girava em torno d() Sol.n. Toda essa hierarquia. transparJ:nte"pu então é um. .u~idade§. Iações de víztnhança. do tempo-em que ele foi dessacralizado no século XIX. -de círcul~ção.. espaço obscuro. um conjunto híerarquízado d. entre o espaço cultural e o espaço útil.~açQ. mas talvez não tenhamos ainda chegado a uma dessacralização prática do espaço. organogramas. ' Por outro lado. é também o problema:4e'sab. .. de classificação dos elementos humanos devem. pelo contrárío. un\l. que ele era.

embora fundamentais para a reflexã? contemporânea. No espelho. no momento em que me olho no es. na medida em que o espelho existe realmente. t. por serem absolutamente diferentes de todos os posícíonamentos que eles refletem e dos quaís eles falam. são de dois grandes tipos. afinal..' -':'.2êmo pô:áeda t_ descrevê-Ias. O espaço no qual vivemos. vivemos no interior de um conjunto de relações que definem posícíonamentos irredutíveis uns aos outros e absolutamente impossíveis de ser sobrepostos. Por exemplo. que por assim dizer estão ligados a todos os outros. do fundo desse espaço virtual que está do outro lado do espelho. Esses lugares. espelho funciona como uma heterotopia no sentido em que ele torna esse lugar que ocupo. esse espaço que nos corrói e nos sulca é também em si mesmo um espaço heterogêneo. Seria possível descrever. sem dúvida. já que é alguma: cOisa"·a:tr'a'trés da.idescrever o conjunto das relações que definem os posicionamentos de passagem. e isso provavelmente em qualquer cultura. é uma utopia. de qualquer forma. peIOfcti5tllúllto. eu os chamarei. namentos. em oposição às utopias.414 Míchel Foucault . além disso. e que tem. O espelho. lugares reais.qu1il se .~~PQr"hna~ digo uma ciência porqueé ~rr:a palavra W-Wt?<!~p'recia~~~tu~~ mente. todos os outros posicionamentos reais que se podem encontrar no interior da cultura estão ao mesmo tempo representados. contestados e invertidos.Ditos e Escritos 1984 . as utopias. em qualquer civilização. . todos os outros p081c10. uma espécie de experiência mista. para ser percebida. que seria o espelho. E do espaço de fora que gostaria de falar agora. não vivemos em uma espécie de vazíe. '" _A se ~ ". no interior do qual se poderiam situar os indivíduos e as coisas. é igualmente alguma coisa pel~. que me permite me olhar lá onde estou ausente: utopia do espelho. inicialmente. mas uma espécie de descrição sistemática que tería por o '1rt4<. embora eles sejam efetivamente Iocalízáveís. ""-" . e absolutamente irreal. sem dúvida. contradizendo. Esses espaços. qual se passa. é im. espécies de lugares que estão fora de todos os lugares. A partir desse olhar que (~e'qualquer forma se dirige para mim.elações que perrmtem deflní-los. de nosso tempo. que constituem a casa. "'l". o leito etc. um espaço que pode ser fixo. em relação . entre todas esses posícíonamentos. t. igualmente.'p<?$~lVel . haveria. buscando qual é o conjunto de relações pelo qual se pode definir esse posícíonamento. As utopias são os postcíonamentos sem lugar real. um espaço que pode ser corrente como a água viva. Q espaço que o envolve. as heterotopías. fechado ou semífechado. a passar por aquele pont? q~e esta lá longe. eu me vejo lá onde não estou. Mas o que me interessa são.ç. alguns dentre eles que têm a curiosa propriedade de estar em relação com todos os outros posicionamentos. eu retorno a mim e começo a dirigir meus olhos para mim mesmo e a me constituir ali onde estou. esses posícícnarrrentos 'de parada provisória: que são os cafés.e que são espécies de contraposícíonamentos. os trens (trata-se tanto de um extraordinário feixe de relações que um trem. Seria igualmente possível defínír. e acredito que entre as utopias e estes posicionamentos absolutamente outros.taspratas. mediana. de heterotopias. por sua rede de relações. neutralizam ou invertem o conjunto de relações que se encontram por eles designadas. É a própria sociedade aperfeiçoada ou é o inverso da sociedade mas. Entretanto. Há. já que~éla éobrtgada.ta4né~te~fllgum~1(t9j$a que .pelf? ao mesmo tempo absolutamente real. um espaço do limo. que sentido elasf~f!1? ~~np: . pelo contrário. lá onde não estou. Dito de outra forma.'" Quanto às heterotopías propriamente dità~. no lugar que ocupo.. 0$ cínemas. Não vivemos no interior de um vazio que se encheria de cores com diferentes reflexos.. São'posicionéillJentos que mantêm com o espaço real da sociedade uma relação geral de analogia direta ou inversa. lugares efetivos. o quarto.elas't. lugares que são delineados na própria instituição da sociedade .. de nossa história. começar a descrição desses diferentes pcsrcíonamentos. mas de um tal modo que eles suspendem. no entanto. é a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em que estou porque eu me vejo lá longe. em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfícíe. seria possível. . espécies de utopias efetivamente realizadas nas quaís os posicionamentos reais. . pelo qual somos atraídos para fora de nós mesmos. eu estou lá longe.Ç?~. pois é um lugar sem lugar.Outros Espaços 415 é. Mas é igualmente uma heterotopía. imóvel como a pedra ou como o cristal. as ruas. o posícíonamento de repouso. um espaço de baixo. se-referem sobretudo ao espaço de dentro. Há.!.passa).dÇ. no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida.P?de passar de um ponto a outro e. refletidas 'ou pensadas. essas análises. essas utopias são espaços que fundamentalmente são essencialmente irreais. uma espécie de sombra que me dá a mim mesmo minha própria visibilidade. Certamente. uma espécie de efeito retroativo.

ao lado da igreja. a análise. desses outros lugares. o cemitério estava situado no p~oprío centro da cidade.~~ despo: . cada heterotopia tem umfuncíonamento preciso e determinado no interior da socteeíadece. acrescentar as casas de repouso. que se localizava no espaço sagrado da tgreJ~.416 Mtchel Foucaull . . como se diz muito grosseiramente. "atéia".mulheres de resguardo.a mesma heterotopia pode. Correlatlvamente ~essa md}. . existia. como se gosta de dizer hoje em dia.. em uma dada sociedade. uma espécie de contestação simultaneamente mítica e real do espaço em que vivemos. já que cada mdívíduo. que estão de qualquer forma 'no lírníte da heterotopía de crise e da heterotopía de desvio. 't. cada família.fQi sp~ que se começou a coloç~. Esse cemitério. ora mausoleus com est~tu~s. .lma crise.tr~zemªs =r=: h /./' 1"':". Para as J:I1.~ ~_. bem entendido também.~ 'W'. pois. por outro. os velhos etc.tem parentes no. essas heterotopias de crise não param d~~çs~l?~r$i~. que o corP9éJJessascl~rá talvez seja preciso prestar muito mais atenção. as prtmeíras.t A1r~í''' >L'l' ._.~~b~lf!l delas ~e encontrem ainda alguns rest~s.na~. há uma certa forma de heterotopías .. já que. a ociosidade constitui uma espécie de desvio. ter um tunctonamento ou. naque!e mo~ent~'9 trem.e dí • 'l>.la. curiosamente.~s'. eles vivem. - . ou proibidos._ Em todo caso. essa heterotopía sem referências geográãcas.qo.' . /:rY r~. sem dúvida. É uma constante de qualquer grupo humano. era bem natural que na época em que se acreditava efetivamente na ressurreição dos corpos e na imortali~ade da alma não se tenha dado ao despojo mortal uma.O'ças. é um espaço que está.se está mais muito certo de ter uma alma. Na cultura ociden~.t.. .. que a cultura ocidental inaugurou o que se chama culto dos mortos. tmportan. o. l ~~ '-. uma sociedade pode Jazer funcíonar de uma maneira muito diferente uma heterotopia que existe e que não deixou de existir. Mas sofreu mutaçoes lll1port~teso Até o fim do séculoXvlll. e talvez não se encontrasse uma única forma de heterotopía que fosse absolutamente universal. em sua forma do século XIX.. que há lugares privilegiados. entretanto..Ditos e Escritos 1984 . afinal.-: • . a velhice é l. as prisões.~t. Mas as heterotopias assumem.Outros Espaços 417 objeto. no entant~. ou seja.em ligação com o conjunto de toda~ os posici~na~~ntos da cIdad~ ou da sociedade ou do campo. e depois havia sep.. Essas sepulturas eram de duas espécies. foi na época em que a cívílízaçâo se tornou. em relação à sociedade e ao me.:. em estado de crise. Pode-se. as clínicas psíqutátrtcasj-áão. cía capital. moça nfo poderia ocorrer em "nenhum lugar" e.. aí ' o segundo princípio dessa descrição .éemitério.ft. Tomarei corno exemplo a curiosa heterotopla do eemítérto. . . . ou o seryiçR mílítar par..up'qç-~ey. "'~" . Primeiro princípio é que provavelmente não há uma única cultura no mundo que não se constitua de heterotopias. Nas sociedades ditas "primitivas"." .a e:s.Vl u tzaÇ:ao a mor}e e a apropríaçâo burguesa do.. o estudo. reservados ~os indivíduos que se encontram. até meados do século XX.:1 -'0" ~ . formas que são muito variadas.~o. A defloraçâo d~. Na realidade. "_. . Pelo contrário" a partir do momento ernque'.. adquiriu nas civilizações modernas um aspect? ~~tal~ente díferente e. a "leitura". ela se encontra.cemítérto.. desses espaços diferentes. "~" Ulf!Ih/k\ti mundo e entre ás p~~vr~~?'t' r'!P!{Jr:X<l~Ü) '. um outro.das heterotopias ~ que.r.' Mas essas heterotopías de crise hoje desaparecem e são substítuídas.1.cçfD:i .Re OSlça<Ypesreíto à sua peque~~e~ B~tSUt·'. os rapazes certamente desempenharam u~ tal.. uma tradição que se cham~va a 'viagem re núpcias": era um tema ancestral. n al' . foi a partir' elo século XIX que~~aa lln: ~ev.! .que eu chamaria de heterotopias de crise.. papel. que~!m~en~Q umo 4'.' cidades. havía alguns túmulos individuais. .4).. evidentemente. de fato. O cemitério é certamente um lugar diferente em relação aos. São-os mortos. mas igualmente um desvio. Havia o ossuario no qual o~ cadáveres perdiam até o último traço de individualidade. ou sagrados.nasc~~ urna eb$essao' da morte como "doença".manífestaçôes da sexualidade viril dexenc. acredito. no curso de sua história. ' . nossa sociedade. essa descrição poderia se chamar heterotopología.que~.~x~~plÇ?. espaços culturais habituais.. segundo a sincronia da cultura na qual.i9 humano no íntertor do qual.cemitério praticamente sempre existiu. as ..tQoq)'1irerpr~c~sé!l11ente "fora" enão na família. São as casas de repouso. em nossa sociedade em que o lazer é a regra. soal: mas."Em. Ora mente lajes com uma inscrição.-". . o colégio. o hotel da viagem de núpcias eram bem esse Iugar de nenhum lugar.: ..' " tco traeo de nesse eXistência. s. as mulheres na época da menstruação. e seria preciso.np jomortal.ulturas de~tro das igrejas. classificá-Ias em dois grandes tipos."'." .''. O~ adolescentes.~.. por heterotopías que se poderia chamar de desvio: aquela na qual se localiza os indivíduos cujo comportamento desvia em relação à média ou à norma exígída..'. a descrição. .. Ali exi~~a toda uma híerarquía de sepulturas possíveis.

barrflf~s. elas dão para o que se poderia chamar . . eles eram. . seja o jardim. ROts. a recortes do tempo. tínhano Oriente significações muito profundas e como que sobrepostas. duas ve~~s por' a. o projeto de organizar assim uma espécie de acumulaçâo perpétua e infinita do tempo em um lugar que não mudaria. há as heterotopias que estão ligadas. onde cada família possui sua morada sombria.1se4s. O jardim é a menor parcela do mundo e é também a totalidade do mundo. é assim que o cinema é uma sala retangular muito curiosa.'?. mas é. por exemplo. Quarto princípio. reproduções de jardins.um lugar todos os tempos. e toda a vegetação do jardim devia se repartir nesse espaço.•. II?-41l}. pois bem." que se povoam.das casas. mais Ireqüentemente. e inacessível à sua agressão.in~~la: na. O mus. ínventou-se. Em compensação.tc. Os cemitérios constituem. a ídéía de constituir uma espécie de arquivo geral. O jardim é um tapete onde o mundo inteiro vem realizar sua perfeição simbólica.:~~la. para o indivíduo. e o tapete é uma espécie de jardim móvel através do espaço. e essa quase-eternidade em que ele não cessa de se dissolver e de se apagar. Quanto aós tapetes.9. . os museus. / " .} ~ ~. espantosa criação atualmente mílenar. com um espaço mais sagrado ainda que os outros que era como o umbigo. Diante dessas heterotopias.'< '.. vê-Se por aí que o cemitério é um lugar alta~efItehétetotópiCo. enquanto no século XVII. vê-se projetar um espaço em três dimensões.. todos os gostos. sobre uma tela em duas dimensões.eT um certo sentido P. as heterotopias do tempo que se acumula infinitamente. uma espécie de' heterotopía feliz e uníversalízante (daí nossos jardins zoológicos). Não se pode esquecer que o jardim. Tambérh muitorecéntemt. no início. que estão ligadas à acumulação do tempo. e foi símplesmente ao longo do século XIX que se começou a processar a remoção dos cemitérios para a periferia.oS'llil.çres-s~rp~ntes videntes.Outros Espaços 419 418 Míchel' Foucault . mas absolutamente . nessa espécie de mícrocosmo.Ditos e Escritos doenças aos vivos. já que o cemítérío começa com essa estra- nha heterotopia que é. a heterotopta se põe a funcionar plenamente quando os homens se encontram em uma espécie de ruptura absoluta com seu tem·~~t~adi'Cional. de mais passageiro. se abole o tempo.crôrrícas. ao lado da igreja. 4- < '~:. A heterotopia tem o poder de justapor em um só lugar real vários espaços. o exemplo mais antigo. essas cidades polinésias que oferecem três pequenas semanas de uma nudez prtmítíva e eterna aos habitantes das cidades: e alem disso vocês vêem que.uÍlbémo tempo que ~e enc9nfra. mostruários. a idéia de constituir um lugar de todos os tempos que esteja ele próprio fora do tempo.s bibliotecas e d. a perda da vida. vários posícíonamentos que são em si próprios incompatíveis..' . Assim são. no fundo da qual. e isso sob a forma dafesta. ou seja. Esse grande tema da doença disseminada pelo contágio dos cemitérios persistiu no fim do século XVIII.fX:~I}~f.i_ ~ '~':I . todas as épocas.~\.:. não mais o vento sagrado e imortal da cidade.yy e a biblioteca são heterotopias I>~óprías à cultura ocidental do século XIX. É assim que o teatro fez alternar no retângulo da cena uma série de lugares que são estranhos uns aos outros. -( uma espécie de grand~ s~R. pelo contrário. São heterotopias não mais eternizadas. todas as formas. é essa proximidade que propaga a própria morte.em . a vontade de encerrar em .reencontrando a vida pgI.n0~.nte.d~.. ao tempo no que ele tem de mais fútil.' O jardim é. mas talvez o exemplo mais antigo dessas heterotopias. e é a presença e a proximidade dos mortos ao lado. talvez.f. uma. lutadores. . de heterocronias. os museus e as bibliotecas eram a expressão de uma escolha individual.. esses maravilhosos locais vazios na periferia das cidades. as bibliotecas. uma nova heterotopía crônica que são as cídades de vercineio. até o fim do século XVIII ainda. Há.~\ pu r . ~s feiras. em uma sociedade como anossa. quase no meio da rua. heterotopia e heterocronía se organizam. inicialmente. o centro do mundo em seu meio (é ali que estavam a taça e o jato d'água). Terceiro princípio. desde a mais Iongínqua Antigüidade.'por pura simetria.e se arranjam de urna maneira relativamente complexa. museus e bibliotecas são heterotopías nasquais o tempo não cessa de se acumular e de se encarapítar no cume de si mesmo. as chouP~~flS ~ç Dj~rpasªo.1984 . O jardímtradícíonal dos persas era um espaço sagrado que devia reunir dentro do seu retângulo quatro partes representando as quatro partes do mundo.~~~m~di"\~9r. mas a "outra cidade". na forma de posicionamentoscontraditórios. de mais precário. e toda a hístórta da humanidade que remoÍ1tªà's~~ origem . pelas duas formas de neterotopías. então. Deuma maneira geral. objetos het~i9cl~tos. aídéía de tudo acumular. tudo isso pertence à nossa modernidade.. unem-se a da festa e a da eternidade do tempo qU se acv. As heterotopias estão ligadas.

se desenvolve entre ~ois poro~. posícíonamenms Jlo Interior dos quats a vida hum~~ é com?~i~imen.vou então purtfrcação puramente higiênica em aparêncía.".~'êo Míchel Foucault . Isso seria a heterotopía não d:eJihI:s~o. cii~mdo um de em~ ~. mas pelo Sino. não era verdadeírarnente o con! \TÍ~~do. A vida cotidiana dos indivíduos era regulamentada não pelo apito. ou é preciso se-submeter a ritos e' purificações. que patecem puras e simples aberturas mas que. semi-higiêniêa como nas casas de banho 'dós muçulmanos.jiesses f~ir1osos quai-to's'que'existiam nas grairdes fazell'dris do Brasil' e. elas desempenharam. se abria uma avenida que uma outra vinha cruzar em ângulo reto. na verdade. e me pergunto se não foi um pouquínho dessa maneira que funcionaram certas colônias.?osoSquartós'tíe motéis americanos no quaís 'se entracom ~. as famílias tinham cada uma sua pequena cabana ao longo dos dois eixos. o trabalho começava para todos na mesma hora. Os jesuítas do Paraguaí haviam estabelecido colônias em que a existência era regulamentada em cada um dos seus pontos.ie toda índíví4uç>q~e passa~se.. não é ffláW' que Uma tlusãõ. . " Em certos casos.mas de compensação.){tr~w<?s: Ou elas't~n: o papel de cri~i-'um espaço de iIusã~. todb. ~<' i~-~~:" . de outro. as refeições ao meio-dia e às cinco horas. que agora pratícamente desaparecêu' em. o papel de heterotopía. ou seja. um lugar sem lugar. tocando.db . todo mund? pode entrarnesses Iocatsheterotópíeos.-- t ~~iiJ-e outro espaço.ócômodo central'erÍl que 'Viviaa famílra. as isola e as torna penetráveis. afinal. no século XVII. da Améríca de. o cemitério. por exemplo.ai's o prÓprio núcleo da família. que vive por Sl mesmo' que é fechado em si e ao mesmo tempo lançado àd infihito q'o e que. ria~s'á~ 'C'iviÚi'::tçoes: talvez pudesse serreencóntrad<. peJo 'contrárro. excluído. '. purtfícaçãe semíreligiosa. de um lado. pelo próprto-rato de entrar. naquelas sociedades puritanas que os ingleses tinham fundado na América e que eram outros lugares absolutamente perfeitos. Em geral. com seu signo fundamental. mas. chegue até as colônias par~. em geral. todos cumpriam seu dever. havia o que se chamava de despertar conjugal.: _ ~. escondem curiosas exclusões.apad~p~a~a f~r. A cristandade marcava.~(lr~ó e sua amanteeonrír.é.~~zada. não se chega a um posícíonamento heterotópico como a um moinho. En~iIIl' otiltiimo traço dasheterotopías é que elas têm. éle era absoluta:bítôsped~ d'((p~sag(dIn. o caso da prisão. o espaço e a geografia do mundo americano. no momento da primeira onda de colonização. . nas quaís a perfeição humana era efetivamente realizada.Outros Espaços 421 QUinto princípio. Talvezeste seja o papel que desempenharam durante muito tempo ésses famosos bordéís dos quaís agoraestamos privados. tão perfeíte. de escapada em ~s. mteíiam~llté dêixcida ao ar livre'.Esse. Ou se é obrigado..s.'àcreôtta-se penetrar-e se é. à meía-notte. Bordéis e colônias são dois tipos extremos de heterotopta.S'êculoXVI aos so. géial. diante da igreja. Há mesmo além disso héterotopías que são inteiramente consagradas a essas atividades purifícação. no nível da organízação geral do espaço terrestre. absolutamente organizadas.~}1. O despertar era fixado para todo mundo na mesma hora.àjarlte tinha o direito de empurrar r. maldisposto e confuso.stão metícuíoquanto o nosso é -desorganízado. que o barco é um pedaço de espas:o flutuante. Penso. todos os.J. e~~~.~9l"ta~'ct:~.rcórno nas 'saunasescândmavas. tipo deheter'otopía.ro~llr~r ~ qiI~ elas encerram de mais precioso em seus jard!TIs:: v&ê co~pteenderá por que o barco foi para a nossa civilização. pelo contrárío.Ditos e Escritos 1984 . depois se dor~ia e. e assim se encontrava exatamente reproduzido o signo do Cristo. a sexualidade ilegal se encontraâomesmó tempo absolutaménteabrígada e absolutamente escondida."". ~ Penso também nas extraordinárias colônias de jesuítas fundadas na América do Sul: colõnias maravilhosas. Penso. de porto em porto. e se imaginarmos. assim.9ue:éleIiuricia: como mais Ilúsórto ainda qualquer espaço real. Só se pode entrar com uma certa permissão e depois que se cumpriu um certo número de gestos. e~ttaI"no'quarto e de '?Ormir ali uma noite. por exemplo.: -. em relação '~b'esp~ço'réstante. simultaneamente. tão bem-arrumado m~ .i~. SúL A porta para 'neles entrar d~V~:p~~â'. nos fan. As heterotopías supõem sempre um sístema de abertura e fechamento que.\rt. o colégio. Ora ê§'~ê"s. OU. E~ta. de bordel a bordel. Há outras. um eutroespaço real.:. como é o caso da caserna. A aldeia era repartida segundo uma disposição rigorosa em torno de um lugar retangular no fundo do qual havia a igreja. sem ser: no entanto. e além disso.~~1:trioser~~CtiIis 'ctlié'ü 'indivídddique por àlí passava' não a{~afíça?àJãtiI.linía função. mantída afastada. o sino do convento.

80 Ecce homo. 230. 40 . 179. 80. 151. 4. 138 La nouvelle -Justíne. 164 Été tndíen. 137. 152 As mil e uma nottes. 118. 153. 93. 228. 150.406. 15. 154. o maior instrumento de desenvolvimento econômico (não é disso que falo-hoje).62. 118. 146. 1.402.90. 55 Comment j'ai ecrít certaíns de mes livres. 120 Le bIeu du cíel. Índice de Obras A odisséia.238. ao mesmo tempo não apenas. 230. 159 Le pare.92.6. 165 Le schízo et Ies langues. 407 Bouvard et Pécuchet. 73 Le rêve et l'exístence. 121 La vue.87. 80·· La tentatlon.410 Les cloches de Bâle.240 Coelínà ou l'enfant du mystêre. 13.270 As palavras e as coisas.8. 231. 61. 229. 70. 46 La bíblíothêque de Babel. 152. 149. 116. 312 La soreíêre. 65.51 La seíence de Díeu. 76. 309 Le souffler. 117. 58 La chambre secrete.410 Da terra à lua. 214 Hístoíre de l'oeíl. 14. 154. 180 La jalousíe. 400. 225.Ditos e Escritos nossos dias. 232. 65. 212 Dom QuiXote. 40.73 Les larmes d'Eros.93. 11. 138. 236 Bíffures.95 La vocatlon suspendue. 240 Le dêsert de gíace. 57. Nas civilizações sem barcos os sonhos se esgotam. 231.83. 147. 228. 62. 80 La relígíeuse. 76 Celuí qui ne m'accompagnaít pas.400.Bf . 50. 228. 18 Lesimages.228. os corsários. 232. 410 La mtse en scêne.240 Le voyeur.3.4.422 Michel Foucault . 56. 42. 160. 64.2.122 Le três-haut. 180. 344 Les égarements du coeur et de I'esprtt. 136. 148. 10. 77. 12·9. 401. 96 Capríces. 211. 139 Hector Servadac.9. 43 Le derníer homme. 67. O navio é a heterotopia por excelência. 12. mas a maior reserva de imaginação. 402. 4. 213 Le maíntíen de I'ordre. 9. a espionagem ali substituí a aventura e a polícia. 48. 65 La doublure.240 Andrômaca. 405. 157. 137. 153. 322 Au moment voulu. 149 Aminadab. 82. 75. 180.410 Le baín de Díane. 299. 268. 245 Édipo reI 163. certamente. 228.91. 81.