TRA ANDO FRONTEIRAS

:
Florestan Ferandes
e a Marginalização do Folclore
.
Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti
s estudos atuais de sociologia e
atplogia que lidm de algum
Ümcom a temática do ppular
referem-se feqUentemente à ótica do
folclor co reutor dos fatos d cultra
a sobrevivencias do passado. A
preoupal cm Õcontexto e com Õsn­
tido ou f unção de um determinado
fenôÜ Yopr-s a Ô fla de
abrdgem .¯
Apnt-se, também, a incapacidade
0 Nde etdos em s Car reo­
Mr cmo ciência ¯De uma ma ou de
outa, a idtia de folclore é sistmatcmente
inv0ginic uma a1tridade.
Do pnto de vist acdmico, o esttuto
d folclor como disiplina é problemátco:
%conS d cWculo das faculddes de
ciêcia h W e WO, embr apN
n de eucção fica. trismo e W. A
dnoio folclorst pem dC ,
embr Qova-s ainda no pais fe­
tivais de folclore, grupos se intilulem
Luf Rodolo da Paião Vilhena
folclóricos, alguns estados mantenham
ativa comisss de folclore e o órgl da
Fudação Naional de Pno qual uaba­
lhamos NNo noe d Instituto Naionl
do Folclore.
Esses fatos, alinhados esquematica­
mente, indica, a nosso ver, a evolução
histórica pculiar de um determinado
cap intelectual. O folclore é um dos
tema já em voga no pís quado s inicia
o proes de intitucionalizção no ensino
suprior das chamadas ciênias siais. A
déada de 50 em pcula - tmando
como referência a criação da Comis
Naional de Folclore (1947) e da Campa­
nha de Dfe do Folclore Brileir (1958)
-expressa, sb o pnto de vist de i­
ciativas e realizçOs, o momento de su
apgeu. Folclore, soiologia e atoploga
de en1  Æness píoo intrloutore
próximos; e o proeso de consll de
seus respctivos CI)ps de ação pe sr
vislumbrado num jgo de atibuiçOs e
autodefniçOs.

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7ó ÇT5HMNC~1�
Neste artigo, apesntmos inicialmente
algumas características do Movimento
Folclórco, espificamet aquela que
emb a puis d folclore. Uo
nos, ento no diálogo, yveus aclorado,
mleido et Floret Feade, ex­
pnte d esola de siologia paulist, e
essa área de estudos. Em seguida,
sugrimos, a p da anális emprendida;
uma interretção para o dbate tavao.
A movimentção em tomo do folclore
no Brasil é liderada pela Comissão
Naional de Folclor (CN), criada em
fins de 197.1 A comiss vinculava-s ao
instilto Braileiro d Educação, Ciência e
Cultu (lBECC), do Ministério do Ex·
terior, e Iigava·s à LCO.4

No contexto do pós-guera, a pro­
cupção com O folclore enquadra:s na
atução da LCO em prol 0pa m U~
dial. O folclore é um instrumento de
comprenso ente os pvos, compreenso
est que, na viso braileira, bm ao gosto
de Mário de Andrade, s datravés de uma
ênfase no particular, permi tindo a
constrção de identidades diferenciadas
ente os pvos. O Brail de ento orgu·
Ihava·s de sr o primeiro país a atender à
recomenda 0UESCO no sntido da
criação de uma comisso pa lt do
assunto.
Tomando pr referência a vislo d uma
das vertentes desses estudos sobre si
mesma, hegemOnica, n medida em que
l i dera o processo aqui indicado, a
movimentção encontva cermente um
solo fértil. O interesse pelos estudos
folclóricos ou das tradições populares
remont ao finl do século XIX, com os
lbalhos de Silvio Romero (1851·1914),
sobre poesia popular. Posteriormente,
Amadeu Amaral (1875·1929) e Mário de
Andrade (1893-1945), estudiosos do lema,
já enfarizavam a ncessidade de alguma
fora d atução organizda nessa N.¯
Tratava·s, entao, não ½ de establecer
critérios de psquis do asumo, em uma
M em que s dettva a falt de "cien­
tific;d", ma de promover uma a
plltico-idelóic æ c  de um
m nional" (Cavalct Uæ,198).
A Com;so surge N 1j e é
um dos expoentes do Movi mento
Folclórco, ctegoria pla qual os agetes
envolvidos designava o conjunt ds in­
iciativa em pol d "salva etud e
psuis d folclore naional" µSea
Nacional do Folclore, 1950). A L
promove diverss encontos ncionais e in­
teracionais, em too o pís São eles:
-I Semana Nacionl de Folclore -de
22 a 28 de agosto d 1948 -Rio de Jaeiro;
- Í¡ Semaa Nacionl de Folclor -
de 16 a 22 de agosto de 1949 -São
Paulo;
-III Seman Nacional de Folclore -
de 22 a 29 de agost de 1950 - Poro
Alege;
¬ l Semana Naional de Folclore­
de 3 a 10 de janir de 1952 -Maceió;
- I Congress Braileiro de Folclor
-de 22 a 31 de agosto de 1951 -Rio de
Janeiro;
¬ Í¡ Congress Brsileiro de Folclor
-d22a 29 d agosto de 1953-Curitib;
- III Congrss Braileiro d Folclor
-de I a 7 de agosto de 1959 -Salvador;
-IV Congrss Braileiro de Folclor
-de 19 a 26 de julho de 1959 -Pro
Alege;
-V Congrss Braileiro d Folclor
-de 21 a 2 de junho de 193 -For-
talez;
-Congesso Intercional de Folclor
-de 16 a 22 de agoslO d 1954 -Slo
Paulo.6
Desde o início organizam-se, em vários
estados da federação, subomissõs es­
tduàis de folcloe, vinculadas à C. E,
em 1958, atendendo a um aplo feito no
Congress de 1951 ao então presidente
Getúlio Varga, no sntid da "criaçãO de
t K5 ANtËÑMÅËbËANA ÇÂO Ë
7
U orgaismo de caráter naional, d­
tindo a defender o pa
t
rimônio folclórico
do Bril e a proleger a ates ppulaes",
Juselino Kubilcheck cria a Campanha
Brasileira de Dfe d Folcloe (CBDF),
no Ministério da Educação e Cultura. com
verbas próprias e autonomia µ a as­
sinatnra de convênios.
A dÓ de >, pr sinl, pd pa­
tculamenl ativa do pnto de vist da
organizção de eventos e surgimento de
iniciativas. Datam dela, também, os
primeiros congressos de antoplogia e
soiol ogia. A I Reunião Brasileira de
Antroplogia é realizada em 1953 no
Mueu Nacional, no Rio de Janeiro (sob o
patíio do MC, via Universidade do
Brsil). A sgunda, na qual se constitui a
Assiação Brasileira de Antopologia, é
de 1955, realizada na Universidade da
Bahia, em Salvador. O I Congresso
Brasileiro de Soiologia é de 1954, na
Universidae de São Paulo. Nessa déada
tmbm surgem, ou s estrutU, centros
de formação de psquisadores fora do en­
sino oficial, como o Centro Brasileiro de
Pesuis Educacionais e o Cento Ltino­
Americano de Pesquisas em Ciências
Soiais, ente outs.
A organizaçlo do Movimento
Folclórico guard alguma rlaçõs com os
cap da atplogia e da siologia. A
atução da LSCO, pr exemplo, está
tmbm na orgem da crialO do CBPE,1
com a propst, de 1952, de realizaçlO de
um 8wQ sobre a situção educacional
brasileira em prol da "reconstruçlo
educcionl" do país.8
A idéia d urg�ncia de uma aã é ex­
pres nos dois camps. Nos congresss de
folclore a ação, contudo, é pmem cero
sentido cota o Iemp, contr o pro§ o
avassalador: nlo tanto reonstuir, mas
sobretudo preservar.9 Embora as
concpOs de aã e �nas dmgua­
dem diferença signifctva (cuja anális
cWÜ s prpitos do momento),
a idéia de urgência, µ implic W
moalidad comum de Qu a Cmnm
Anísio Teixeira (Revista da C8PE,
1956:19), sugere ao enllo ministro d
Educação a orgaizção d "uma camp­
nha extorinária de educaã", detnaa
a proeder aos levatents e inquéts
em cada estdo da federaã. A CIEM
(Campanha de Inquéritos e Levataents
no Ensino Médio e Elementr) é crada em
1953.
Um dos projetos des<  campaha era a
realizçlo de um mapa cultural do Brasil,
no lerreno da "antropologia saciar. (op.
Cil) No g� d estudos que s constitui
em 1955,t Manuel Diégues Júnior,
apresentado como especializado em
sociologia regional, é encarregado da
psquis "Estdo básico Qa delimitçãO
das regiOs culturais do Brail". Diégues
Júnior, ativo participante dos con§ s de
folclore, é um prsonagem cental na
articulaão para a criação da CDFB.t1
O trânsito de prsnagens e asunts
ente CMpe ser atestdo tbm
pelas reuniOes de antropologia. Da
comisso orgaizaora d I Reuniã d
Antoplogia faiam pae Manuel Diégues
Júnior e Édison Careiro. O temário
propst QII Reuniã de An0loga
(& 2 do regulaento� destc o folclor
como ilem espífco.
t
Diégues participa da ¡ ¡ Reunilo
Brasileira de Antplogia, U m M
menção ao nome de Édisn Caeiro. Na
categoria dos que "nlo pndo com­
pareer enviaam lele@a de aplans�",
desta-s "de paricula significaçlo ( ... )
as mensagens de apoio recebidas do
mahal Cândido Rodon, presiden� do
Conslho de PµW Inio, e d n­
nislrO Renato Almeida, presidente da
Comissã Naioal de Flclore." A æ
"Antroplogia Cultural" 0 AN8 do
referido con@µp\Wte
indicativa da compiçã do cmp in­
telectual de entlo. Nela apresentam
78 EâÃâmMkO19
0hos: Hildegadc Viana, da Comisso
Bahiana de Folclore ("O breviário das
apaadeiras e sendeironas"); Thales de
Auvedo ("Aculturaçã e uizçao");
m lsura Pereira de Queiroz ("USP, o
movimento mesiânico do CoJtdo e o
folclore"); Otávio !anni e Feando Henri­
que Cados ("A relaçõ riais enJe
pretos e brancos no Brasi l"). Na
comunicaã de Casto Fara sobre o curo
de aprfeiçoaento e anlropologia cul­
lural, relizdo em 1955 no Museu do
índio, com o apio da Caps, os enca­
regados d aulas de Inlrodução dAnlro­
plogia Brasileira so, além de Dary
Ribiro, dois expntes do movimento
folclórico: Diégues e Caeiro.
O Congs Brasileiro de Soiologia
Gunhde 1954), no qual Caeiro est ente
os panicipnts, tem o mesmo palroindor
do Congreso Intercional de Folclore: a
Comis<ão do IV Centenário da Cidade de
São Paulo. O congresso interacional é, na
oaião, o cento d comemoraçOs do
centenári o, del e fazendo parte a
inauguraão do Parque do Ibirapuer, uma
expição de art ppular e um concorido
festival folclórico.
A décad é tmbm pae do que Corêa
(1987) chama de "a épa dos projetos".t3
A autora coment que, d cera forma, os
projetos "represntam a lransição enle um
primeiro momento da história da Ciência
Soiais ( ... ) que períamos chamar de o
momento das 'grandes sínteses', as
avaliaçOs globais da soiedade brasileira
feitas pelos seus intelectuais (Oliveira
Vian, Sérgio Buaque, Gilbrto Freyre), e
o terceiro moment, que será inauguado
com a refora do ensino universitário no
final da década de be cuja expresso

Æos curss de ps-graduaçao" (p. 21). E
ness príoo intens e cheio de cruzamen­
tos que a área dos estudos de folclore
conhce su apgeu.
De um primeiro exame da docu­
mentação relativa 8semanas e congressos
de folclore, destamos aui a questl da
prátc de conhimento e puis evol­
vida no estudo do folclore. Ë pnt, que
estabelece a mediação necessária na
relaçao ente "inteletais" e "pvo". W
uao tma do relaionaento 0 á
com a antropologia e, basicamente, a
soiologi de então. Ocon\unto d ap­
tos envolvidos pla qust  , Ntmos,
Qbreve exame, a disuconceitai da
noã de folclore, pesnte Wlongo de to
o proess. Afinal, prgunt-s reiteraa­
mente os parcipanJ do enontos, o que
é folclore? Como estudá-lo?
A busa de uma bas conceitual s d
num encont de falas divers. Ao longo
dess prcurs, é pssível prcebr, na
heterogeneidade de posiçOs englobada
pla idéia do Movimento Folclórico, o
delinemento de tnttiva de definiçã de
quem está "denlro" e quem está "foa", ou
de conciliaçã.
A mesa-redonda organizada na I
Semaa e uma comunicação da III Semana
ilustam es argumento. Na me-redon­
da, a fala de antoplogia e da siologia
de ento definem claramente um luga su­
brdinado W folclore. Arur Ramo defen­
de a visão do folclor como uma divis0 da
antropologia cUltural,lS "verdadeira
ciência do Homem, nos seus quadros
naturais e culturais". Ao folclore cabria o
estudo "dos aspeclos da cultura de qulquer
povo que dizem respeito à literatura
tradicional: mitos, conto, fábulas, adivin­
has, música e Qæ,provérbios, sbdoria
tradicional e anônima".
Essa definição, que não é, como
veremo, consnsual enle os folclorists,
reconhece, contudo, uma espcifcidade
própria ao estudo do folclore. Essa
espcificidade, prém, é logo anulad pla
afi rmação enfát i ca de que "não é
recomendável sua coleta quando feita
separdamente do conjunto culturl de que
é parte funcional". Gilbrto Fryre afirma o
interesse do estudo do folclore paa o
¡LO b51 AN¡bKANDb5bA A O 7¥
"siólogo genético" preoupado com a
reconstituição das origens soiais e da cul­
tura de U grup.
As tês outas falas vêm do folclore.
Joaquim Ribiro afirma sr o folclore uma
ciência de recursos mais amplos do que a
elDOgrafia. Mariz Li prp a efetivação
de um calendário folclórico com o objetivo
"cívico e patriótico de preservar as
U'adiçOes populaes". Alceu Maynard
l
6
prop uma distinção enU'e duas foras de
colet: a doumenlária e a cientfica. A
última, que ½ pe ser realizda Q ps­
soas com a neessária formação Irica, é
mais sletiva. Da primeira, esprava· s que
"o material recolhido sirva a toda a sor de
indagaçõs." A colet doumen
l
ária é vist
como a mais imprtante para a atual fas do
desnvolvimeOo dos estudos folclóricos,
pois pode ser feita por pessoas sem
formação teórica, e, dess modo, um grande
número de colaboradores poerá ser envol­
vido nessa atividade. A comunicação de
Rossini Lima, na III Semana, vem acres­
ceOla a essa idéia a de que, mais do que
qualquer interretação ou preoupação
teórica, importa no momemo garantir a
purez da coleta de material. Como um
naturalista recolhe espécimes bLnicas
para posterior estudo, cab ao psquisdor
recolher o folclore da forma mais integrl
possível.
Nes conjunto de fala, reivindica-s
autonomia ao folclore, define-se um
critério próprio de "cientificidade"
loalizado na pureza da colet e indica·s
uma forma de atução pcula. Ente o
caçador de borbolet e oapstolo, interes­
sa, no momemo, ao folclorist pvoar o
-Brasil' de adeptos. Renato Almeida, presi­
dente d L,encerra signincativameOle
a mesa-redonda citada afL ando:
"Não se U'ata apenas de ciência. É
preciso, por igual, desprtr imeress
para OU'adicionJ, cuja regressão é evi­
dente. Nesse sentido, o rumor é
indispnsvel ( ... ). A obr que Mo de
Andrade comeou Ktido pucos Ü-
tinuadores. Muitos dos disos que
gravou esllo perdidos, porque nlo
houve verba para a impresslo ( ... ).
Deram puca impnia W ¢ t.
Por iss precismos mosU'ar a nO
sidad dess esforço, pism? O
uma mentlidade propícia ( ... )."'
A neessidade de conceitua, entelt,
permanece. O Congresso Brasileio de
Folclore, de 1951, tem pr objetivo ¨Üæ
elementos essniais da psquis científIa
para prmitir sua anális, imerpretl Õ
comparação" .
O congress prouz ðCaa d Folclore
Brasileiro, que estblee a ba� co­
ceituis do "fat folclórico" e de su estudo,
e U'aça o Plano Nacion!l de Pesquis
Folclórica, que maará a atuaçl da M
nas décadas subseqüentes: pretende-s
realizar um mapa folclórico do país,
realizr mi8asistenciais no los de
romaria, orgaizar grups de psquis H
universidades, esolas normais e colégios,
incluir cançõs folclórics nos po@a
esolares e snsibilizr O govero no sn­
tido da criação de um órgão esttal de
defes do folclore.
A cart, cuja elaboração sups acirdas
discussõs, establece:
"I. O I Congress Braileiro de Folclore
reconhee o estudo d flclore como in­
tegrante das ciências antopológicas e
culturais, condena o preonceit de ½con­
siderar folclórico o fato espit-tual e
aconslha o estudo da vida pputa em k
sua plenitude, quer no æto materal,
quer no aspcto espiritual.
2. Constituem o fato folclórico as
maeiras de pnsr, sentir e agir de um
povo, presrvadas pla tadição ppula e
pela imitão, e que Msjam diretent
influenciadas plos círulos eruditos e
instituiçõs que se dedica ou à renvação
8û 8äT äHMÓkCOä1½Ö
e consrvação do palimônio cientílico e
artístico humano ou à fixação de uma
orientação rligioa e rilosófica.
3. São também reconhecidas como
idôneas a observaçõs levadas a efeito
sobre a relidae folclórica, sem o fun­
damento ladicional, batando que sjam
respitadas as características de fato de
aceilção coletiva, anÔnimo ou não, e es­
sencialmente ppular.
4. Em face da natureza cultural das
psquiss folclóricas, exigindo queos fatos
culturais sejam analisados mediante
métodos próprios, aconselha-se, de
preferência, o emprego dos métodos
históricos e culturalisla no exame e anális
do Folclore:
A psição da carla com relação aos
limits do estudo do folclore consagra a
ambigüidade. Por um lado, coloa-se clara­
mente o estudo do folclore no camp da
antropologia cul t ural . Por outro, a
arlrfiação de que a tolalidade da vida da
camadas ppulares é objeto do folclore in­
Slla uma brecha para a reivindicaçõs de
autonomia de uma ciência do folclore,
pmo de discórdia enlre folclorislaS e cien­
tiSlaS soiais.
O III Congesso Brasileiro de Folclore,
realizado na Bahia em 1957, retoma à
questlo_ Os folclorislas divergem quanto ao
objeto de sua disciplina e Thales de
Azevedo (1957),
18
membro da Comissão
Bahiana de Folclore, apresenta, como
"anloplogisla, desejoso de esclaecimen­
to", comunicação sbre o tema "Folclore e
Ciências Soiais"_
A divergência teria uma base inter­
nacional, pois "enquanto que para os
anglo-sxOs o folclore é um dos camps
de estudo da cultua e se integr na et-

nologia ou anlroplogia cultural, como a
tecnologia, a lingüística, ou O estudo da
organizção soial, para os europus e seus
seguidores é uma disciplina ou mesmo uma
ciência autônoma com objeto e método
- próprios", No primeiro L, m M coo­
nitos, o estudioss não reivindica uma
categoria à parte paa Sua cialidade,
nem insistem de modo expresso na
exislênciade um métoo puliar Qa sua
disciplina_ Os fatos folclóricos sAo,
sobretdo, cultuais, O confrnt s dcm
os eurous e latino-ameDos qu "alon­
gam o domínio da disciplina Q m a
cultura ppula, deixado a etnogrI, Q
as ppulaçõ primitivas" (leva, þK
"o folclore como disciplina a U os que
outros consideram próprios da Anto­
plogia Cultural e da Soiologia")_
No Brasil, a disiplina sria compren­
dida pr alguns como "aquela pae da
etnologia que se ocupa de maneira
autárquica com a subultur ppla", o
que Qite, sgundo Tales, a "voll d
velhas confusOs da reivindicaçã, (.__ ), do
folclore como "uma ciência auua do
tip anirOplógic"_
Thales de Azevedo (1957) disoda da
reivindicaçã de autonomia. Su piçã é
clara -"s U ciência s espcinca pr
sua abrdagem d detrmiado material e
não pela naturez pulia dess materal,
julgo não cabr dúvida de que o material
folclórico é de ordem cultl" , H,
falando como "anlroplogisa", em L
sentido comp com o çap do folclore,
que é µ tanto da an  oploia culturl
quanto da soiologia, ou, ainda, æ "cul­
turologia" _
Do campo da sociologia, contdo,
paree parir maior empnho d distinção_
Na abnura do I Con@ o de Soiologia,
em 1954, Ferndo de Azevedo discurs
sobre a necessidade de uma "cien­
tificidade" e, sobretudo, da "reaçAo
conSlante e, pr Kas foM, conl a
tendências ao dil et ant ismo e à
improvisação que ainda constituem enie
nós, dois dos maiores obstáculos aos
progressos de nossa ciência_"
Floresln Ferandes é Udos expnteS
desse empnho ordenador.
^
HIM ANI8kANuëäEAtNAL �O 81
Segundo a interpretção de Mariza
Peirano (1980:71), a chamada "escola
paulist d soiologia" desenvolveu, ness
mesmo período, uma concepção de
ciência soiais que oupu uma psição
hegemôica em nss país durante mais de
25 ano. Neste momento, os tericos da
CNFL 0volveram uma relação de cres­
cente tns com os "siólogos paulistas".
O clímx é represntado pr u artigo de
Édison Caeiro, no qual Aorestan Feran·
des, Roger Batide e sus disípulos so
criticados por, em seus trabalhos,
demonstrarem um constante "desprezo
plo labr do folclorista e a sgurança de
que ½ a sociologia pode entender os
fenômenos folclóricos em sua plenitude"
(Cairo, 1959: I).
No plano inteletual, esta foi a mais
poderosa oposição que o projeto do
Movimento Folclórico encontrou na ten·
ttiva de legitimar a su disiplina. Porém,
como é comum nesses contextos de
plêmica, os arguments de Careiro e a
descrição que fornece da "guerra de
sutilezs dess siólogos paulist" tende
a um cero exagero. Uma leitura cuidados
das psiçõs de AOre5tan Ferandes, sem
dúvid O siólogo que mais s preoupu
em disutir a psiça do folclore no quadro
ds ciência siais, nos revela a questõs
em jogo ness debate.
Mais d que em qualquer outo repre­
sentate da eola paulist, em Ferandes
aµ constantemente a preoup de
deÜ a fronteira da siologia em
relação Mdmais ciência. Exemplar neste
stido é O artigo intitulado " A unidade das
ci ências soci ai s e a antropologia"
(1970:202-22), apresntado na V Reunião
Brasileira de Antoplogia, n qual, pr
exeplo, critcva a idéia, muito comum no
meio antoplógico nore-americano, de
que est disiplina peria ser definida
como "a ciência do homem".
Também a produção brasileira no
cap da ablogia foi objto de outro
artgo de Aorest Ferde (1975:119-
90). Nele reapW a utilizção d "mt
institucionl", a p d qual FWds,
como demonsta a conhecida crítica de
Waderley G. ds Satos (1978), tria 0-
ganizado a históri daquilo que Oúltimo
preferiu cha�a de "imaginação scial
brasileira". Como no demais atigos d
Feandes comentds pr Sato, neste
último "a aceitção de critéros estitmente
conectados ao anesanato intelectual, como
medida suficiente de avaliação da
qualidade de espulação soial" (. 23)
leva-o a qualificr de "pré-científica" a fas
anterior à "insti tucionalização das
atividades científico-siais" (. 26) e,
conseüentemente, à "desconsidra da
proução intelectul brileira do �do"
(p. 23), igualmente da antoplogia 19 São
pratcamente excluídas de sua aális obra
ainda innuentes no príoo que analis -
as déadas de 1940 a 1950 -, como a de
GilbFreyre e Pu Ramos, que vimos
serem referências importantes para os
folclorista da CNFL, que valorizavam sua
relação com a antoplogia.

Além diss, Aorestn Ferandes tomou,
no início de sua c eir, o folclore como
objeto de psquis. As mfs d su obra
indicadas pr Peirao (1980:72) os es­
tudos sbre os tupinabás, os negrs no
Brasil e o Brail como si�e nacionl
- foram precedidas pr alguns artigos
esritos ainda na sgunda metade da dÓ
de + sbre o folclore paulist. Bados
nas psuiss de Ferde, quado como
aluno da cadeir Soiologia I do curs de
gradução, ests argo foam retmados e
revistos na década de 50, em plena
polêmica com os folclorists. Embora
puco conheido, o próprio Ferde re­
salt que o su tabalho sbre " Abm
do Bom Retiro" reprntu em suL ir
"uma Qgem d ínícìç&dlica Q
a ínícíqd cin/(l Ca" (gifo dele), con­
timindo, junt cm sus tbalho sre os

ES1 S l-STÓRlCOS -!wo
tupinambás, um marco em su prepação
soiológica" (1977: 174).
.
O texto cilado acima e mesmo sua bi­
bliog so divididos em duas panes
distnla: uma definida como soiológica,
onde os grupos lúdi cos infantis
denominados "troinhas" so analisdos
em função do su papl no proesso de
soialização; outra de análise folclórica, na
qual s analisam os verss provenientes da
tradição oral reilados nas rodas, jogos e
parlends infantis desenvolvidos pr esses
grups. Esla diviso reapaee em outos
artigos sbre o folclore paulisl escritos no
mesmo príoo. Ela prenuncia as psiçõs
do autor sobre a relaçõs ente a dua
disciplinas: a sociologia e o folclore.
Polrormenle, Ferndes as define co­
mo práticas especí fi cas, mas não
contraditórias, sndo muila vezes com·
plementares. Dessa forma, ele
explicitamente não se declarava em
plêmica com "o folclore" ou "os folcloris­
W
¤
¡ mas com uma cerl concepão que
tomava a prática do folclore como
"científica" .
Entretanto, a posição de Fernandes
revela ambigüidade que pretendemos ex­
plora no decorrer desle aigo e que pde
5 identificada na própria história de "As
tinha do Bom Retiro". Como o titula
da cadeira à qual o trabalho foi apresenlado,
Roger Bastide, estava viajando, a sua
avaliação coub à assistente, Lavínia da
COSi Vilela. ESI, contrariando as grandes
expecltivas que Ferandes a1imenlava
quanto ao trabalho, ao qual havia se
dedicado intensmente, deu-lhe uma nOIa
nove e afirmou que ele "fora longe demais
no talmento soiológico do folclore"
(1977:161). A instisfação com esle resul­
ldo provoou a primeira aproximação
psal de Fandes com Bastde. Este
apiou-o, fez comentários que o leva a
ampliar o aigo, encaminhando-o a Emnio
Willems paa publicação. A relação pssol
ento elblecida ente Feades e Ba-
tide, que nem sempre correspondeu a
convergências teórícas, levou o próprio
Cair a cnfundir sua psiçõs acera
dos estudos de folclore em su crítica Ao
contário d que Ceiro julgou, e como
Ferandes iria replica, Bastide aredilva,
segundo "a tradição frances, qu o folclore
é uma ciência sial paricular" (Ferdes,
1978:8), indo ao enconto dos teóricos da
CNFL. Em bra Ferandes disorde desla
psiÇãO, Batide iria afrmá-Ia W prefácio
que escreve às "Troinhas" anunciando,
ironicamente, o autor do artigo como um
novo representante promissor dessa
ciência.
Por oul0 lado, devemos obsrvar que
não eram apenas os folcloristas que
reduziam o que Ferandes apresenlava
como um debale sobre concepOs distinla
do camp das ciência siais a um con­
fronto enle a soiologia e o folclore. Num
depimento rcenle, ao evoar o incidente
com a professora Lavínia Vilela, Ferandes
o atibui W fato de que "ela eslva mais
pr óxi ma dos folcloristas que dos
soiólogos" (1978 a: 10).
A primeira verso revisla das "Troin­
has" foi aprsnlada W cocurso "Tema
brasileiros" do Grmio da mL da USP,
recebndo, "pr deiso do pofessr Roger
Bastide, o prêmio relativo à seão de
Ciências Soiais" (Ferades, 1961:158).
Ao publica o tabalho pla primeira vez,
em 1946, talvez para não conldizer O
prefácio de Batide, Ferandes no incluiu
"uma long introuçã sbre O folclor",
que forece o material par um pqueno
artigo publicado no órgão d FL em
1945 (ma escrit dois anos ants). Este
último deu origem a ua srie de texto que
desnvol vem os agumetos ds "Tri­
nhas", publicads no jral Û Erm m
Sâo Paa/o ao longo de 1945. Em toos
esses esritos, encontamos uma crítica
feroz aos presupstos ideológicos que
teriam dado orgem aos etudos d folclore.
Embra essas tess nunca tenham sido
t M ANHkNAbD£8AM I ÇO OÎLK 8J
retomadas nem s encontem ns "Troin­
m¨, os artigos continU sendo pu­
blicaos e k a colelnea sobre o
tema do folclore que o autor editou a sguir.
Nesses atigos, o campo de estudos
tadicionalmente assoiado ao folclore
"abr:tgi tudo o que culturlmente s ex­
pliL como apgo W passdo", ou sja,
a "sbrevivência". Por m da definição
de Saint-Yves, segundo a qual o folclorista
estud a "cultura tadicional dos meios
ppulares do paíss civilizdós", estiam
os "juizos de valor" do evolucionismo do
sculo XIX (Ferandes, \978:39-40). A
p dss conclusao, Ferandes critica
esta concepção, confrontando-a com a
visão "dialética do desenvolvimento
histórico", representda principalmente
plo marxismo, para o qul o pvo sria não
O lugar do atrao, ma sim do verddeiro
progreso (p. 42 e 52). Ess definição
tadicional tmbém iria de enconlTO æ
conclusões da pesquisa que Fernandes
realiz sbre o folclore paulist, na qul
constatara que "os mesmos elementos
folclóricos oorrem indistintamente em
ambs os meios ou clWsiais" (p. 43).
Assim, atribuindo aos estudos de
folclore a preoupaão com o at cul­
tural, Ferandes (1978) os associa às
filosofl3 psitivist e evolucionist de
Comt e Spncer (cf. p. 38 e 5\). Cab
O lt que vária intrpretaçOs reentes
têm enconlTado a principal inspiração
floófic e idológica do folclorismo na
teoria roântica qu, ao negarem a idéia
de evolução uni linear, fundamentam a
busca de singularidades nacionais (cf.
Bue, 1989; Oruz, 1985; Cavalcanti et aii,
1988). Embra Ferandes reonheça que os
autores românticos fora os que "mais
coligiram material folclóico", ele atibui
W romantismo a "mesma insufciência ex­
plicatva", pois não representaria uma
rptu com o evolucionismo. Ele define
mK movimento como "uma forma de
ideologia burgues, incluindo todos os
valores que constituiram a afiração da
Cvitorios", e 1789 (p. 50).
Poemos identifica outo mal-enten­
dido Ü crítc de Ferands à lição
dos estudo de folclore: vários de sus re­
presentantes, inclusive seus futuros
debatedores da CNFL, admitem que o
folclore s enconta em diferentes sgmen­
tos siais. AQarditam eles qu, no
que cN de "pvo", o folclore s en­
contaria de fora mais autêntica e pura,
mesmo influenciado pla cultura moera.
Ma, em última anális, a incompreenso
mais séria presnte na leitura maxist que
Ferandes fa dos folclorists é provoada,
justamente, pela plissem ia da palavra
"pvo". Paa estes últimos, ela identifica o
campnês inculto, enquanto, paa m,ela
indica o modero proletariado induslTial. O
próprio filósfo alemão diversas vezes
queixou-se ,do caráter "consrvador" do
campsinato.
Deve-s leva ell cont que, psivel­
mente, tis julgamentos so feitos a parir
dos autores franeses, que Qem ter sido
os únicos autores tatdos no curs de
Lavínia Vilela. O próprio Ferandes R  ­
t a necesidade que teve, como aluno, de
complementar sozinho essas noçOes
(1977:161). Posivelmente, ele nã th
ainda contto nem com os folclorism da
Europa Cental, Oriental e Mediterrnea,
mais romântco e naionalists, O com
os nOre- aericnos, de cuja definiço da
disiplina ele iria depis aproxima- se.
As posiçOes que apresent amos
comQ a altrr-s com U sie de
artigos ddicados, caa um deles, W m
autores eleitos plo própio Ceiro como
os mais reprnttivo dos estudos de'
folclore na Mantrior à ciaã da L¦
Silvio Romero, Mário de Andrade e
Amadeu Amaral. Na obr de Romero,
"noso primeiro folclorsl repOtativo" ,
Ferde OQ U elemento novo e
central: a busca de uma "expressA0
nacional" (1978:178-9).
M £8T 8lü8ÓkCC8-1½O
Os artigos sbre Mário de Andrade e
Am são tmbm a1tmeOle elogioss.
Este contast com os primeiros artigos é
explicável. Mário é aalisdo ao mesmo
tempo como um literato interessado no
folclore e como um folclorist. Ferades
destca também este segundo aspecto,
menos ressltado em geral nas análiss
sobre este autor: "( ... ) seria bom repetir o
que o próprio Mário de Andrade pnsva:
'eu não sou folclorista n30'. ( ... ) Nesta
queslão, todavia, devemos sr mais realis­
tas que o próprio rei. Mário foi folclorista
e, medido pla bitola dos demais folcloris­
ts, um gande folclorista" (1978: 161).
ÅM avaliação não era, na épa, ex­
clusiva de Ferandes e mesmo dos teóricos
da L. O próprio Batide, no já citado
prefácio às "Trocinhas", afirma que
"ninguém fez mais para transformar o
folclore em ciência do que Mário de
Andrade" (Fernandes, 1961:153).
Entetanto, aqui, Florestn Ferandes não
segue o su professr. Paa ele, a obra de
litrato de Mário não ½é mais imprante
que a de folclorista, como tmbm deter­
minou os prssupostos desta. Movido pla
preoupação de "fundir arte popular e
erudita, em busa de um cGr0IrrnGctonGÌ
mais expressivo e verdadeiro" (1978: 153),
Mário de Andrade se aproximaria do
folclore braileiro "mais pr Cont daquele
estado de simpatia ( ... ) que ( ... ) chamava de
'quase amor'" (p. 152). Para Ferandes, tal
psLUra "não coadunava muito com as
limitçõs da investigação sistemática" (p.
161). Quando, pr exemplo, Mário relutava
em reconheer a freqUência com a qual a
formas erudits s transmitem
paa a cul­
tua ppula, já que estava interessado
como artsta no proess invers (cf. p.
150), rvela-s, sgundo Ferandes, que,
"se tomarmos o termo num sentido estrito,
de folclorista de formação científica e ex­
clusivamente interessdo nos problemas
teóricOs de folclore, Máro de Andrade não
era folclorista" (p. 161).
. Da mesmá forma, no artigo sobr
Amadeu Amaal, os elogios de Frde
(1978) Æ aopanhaos d obsaço
de que, na su obr, "o artist e o cietst
harmonizam-s e completm-s (Æ), tto
na contemplação quanto na análise e
intrpretaa da mq"(. 140). Apr
do valor que Ferandes reonhece em
Mário e AÜl, ele R  t como ab
tinham "o cuiddo d a  inlar o ¼K
amadorlstico de suas atividades de
folcloristas. ( ... ) Esss idéias, futo d
honestidade inteletual e d moém, não
impdiram um e UUÜU de s clÜ
enle os grandes folclorists brasileiros" (p.
113).
Duante ka anlis, Fem R-
salta as criticas que Amadeu Amaral
endereçou constntemente ao "aao­
mo" e W "diletntismo" imþtes W
estuds de folclore no Brsil. Et, sgundo
o artigo, paece tr sido o su prinipl
mérito. Porém, Ferdes não deixa de
lamentar que Amaral tnh padido de
uma "disrepância" típic dos pioneiros: "a
orientação metoológica, pr ele aceit e
defendida, é aplicaa de forma bastnte
incomplet, em sus etudo sbr folclore
brasileiro" (p. 126). Isto é explic plo
soiólogo, mais ua vez, þM gM-
tucionalizção dese cap de etdos,
pis, ag
dos
"amplos conheimets
que acumulou sbre o folclor como di­
ciplina científica", faltou a Amaral ·0
teinaento que ½ s aquire atvés de
aprendizagem sistemátic" (p. 127).
Esritos, respctivament em 1946 e e
1948,
2
os dois grandes anigos sobre·
Andrade e Amaal Qm NMQo
fim d uma fae inicial de reflexõs æ
os estudos de folclore. Nela, aps um
tomada de piçao extmament critica
para com esta tadiça de estdos e ÇQ­
supstos que a carcterizriam, Florrn
Ferandes pWrevali-I atvés de al­
guns de seus mais destacados re­
presentntes no Brail, mNdwu
mAM1ANOËâËAHUÇOOMLK
en0t. quto à Wevental preteS o
d centifcide. A et M sgue-se um .
þm em qu ele Qe afastr-s do
KM FOdes ½public um novo anigo
d alis ds folclorists Nfns de 1956,
inttulad ¨L ewdos folclóricos em Slo
Paulo". É justment nes intervalo que o
Moviment Folclórico atinge o 9auge, e
as reflexOes do anigo possivelmente
rfete uma tmada de pição a est
Nito.
Ness texto. a produÇlO folclorística
pulist ð dividid N m categoia: a
primeira engloba as obrs que tomam o
folclore "como maifestaÇoo eslética da
mentalidade popular"; a sgunda. as que o
tomam como "disciplina científica
autônoma"; e, finalmente, a que o con­
siderm como "esfera da cultua e como
fenômeno folclórico sob o pnto de vista de
sua disciplina espíficas". Na oposição
ente a dua primeira categorias confron­
tam-se as abordagens "estética" e
"científica" do folclore. Ao longe da
discusslo pormenorizada dos repre­
sntantes de cada tendência, prceb-s
que, do pnto de vist epistemológico, Fer­
nands valoriza mais a primeira venente.
contapndo-s à tendência dominante do
Movimento Folclórico.
No sus primeiros angos, ele já havia
condenado a tenttiva de faer-s dos es·
tudos de folclore uma disiplina científica
autônoma. uma vez que eles mo pssuiriam
"um camp de estudos Iutgeneri", pden­
do os fatos folclóricos sr abacados "tanto
pela sociologia cultural quanto pela
antroplogia" (1978:46). Portanto, Feran­
des rept a frase de Seannoy, para quem "o
folclore é menos uma ciênia à pane que
um métoo de psquis" (p. 45). Além
disso, essa metodologia seria bastnte
limitada, estudando o su objeto sob o
pnto d vist exclusivamente genético e
procurando estabelecer generalizaçOes
agauavés de clasificaçOs. Aqui, Fer­
nandes queixa-s do paadigma naturalista
que preomina nos estuos d folclore (cC.
Cavalcnt et alü. 1988). Ctc tbm a
incapaid O métoo em idetific
a cus dos æque invesga (1978:5-
.5). Pelo que s p supr d M etudo
sobre a tinh, ccu pm sr
encontds plo própio siólogo. qu
tmbm pe mu,como fa o po
Ferandes na Qde "folclore" do ago.
a análise genética e comparativa do
material folclórico.
AIé este momento, os agumentos de
Florestn Ferdes parecem dar mæ
queixas de Édison Caeiro. Entetnto,
aps a leitura mais atent dos prmeiros
folclorist brsileiros, Florestn Feran­
des pasa a reconheer um tip de labr
espfco que cabria ao folclorist, de
natureza nlo-científica, mas sim
humaística. A profunda identificação da­
queles autores com a nossa cultura
tadicional tendeu a afastá-los de uma ps­
tura de estrita objetividade. o que, prém,
não tirou o valor de suas obr. Para fun­
damentar esta avaliação, Fernandes
apoia·s em Ricker, que já dmonstrra
que "o critério estético þite cohecer
aspctos da relidade que So inaessíveis
à indagaçãO histórica e à investigaoo ex­
primentI. No estudo do folclore, ess
critério abre pÇtva µ a decrição
de conexOs psicoulturais ds atividades
humanas que só So acessíveis vistas
através de situaçOs concrets de exis­
tência, à expsição intuitiva" (1978:77).
Assim, a psição de Ferandes pasde
uma hostilidade inicial µa admisSl o da
existência de l8refas próprias W folclorist.
Tais tefa, de naturez não-científica, não
seram menores doquea dos "espeialista
no estudo das anes, da literatura e da
filosofia" (p. 95). O tabalho de colel.
clasificar, comµe estudar a origens de
suas coleçOes é revalorizado com a
afirmação da importância da escola
folclórica flandes de Aame e Thompsn,
reapropriada pelos estudos de folclore
8ó £8Ä 8l081klCO8÷!w
norte-americanos, nos quais é explícita a
definição do caráter humanístico de sua
pesquisas. Em úl t ima anál i se, os
fenômenos folclóricos deveriam sr es­
tudados por suas abordagens distintas,
porém complementares: estética e
humanisticamente pelos folcloristas
propriamente ditos, e cientificamente plas
ciência soiais constituídas (soiologia, et­
nologia e psicologia).
Tais conclusõs iam diretamente de en­
conto aos princípios da Ldo Folclore
Brasi l ei ro, e o artigo "Os estudos
folclóricos em São Paulo" srá o principal

alvo d crítica de Edison Ceiro. Porém,
o que pode ter precipitdo a polêmica
paree ter sido os comentários, publicados
em artigo no LIludæJmfuuÌoem 1958

(Ferades, 1978), acerca dos debats do
Congresso Internacional de Folclore,
realizdos quato anos ants.
Naquele congress, a Comisso Paulista
de Folclore apresenlOu uma propsta de
defnição do "falO folclórico" baseada na
definições da cat que, aps inúmeros
debates e negociações, acabou sendo
reeitda. O plenário acabu pr indicar a
necessidade da organização, pla LS­
CO, de uma reunião internacional dos
espec i al istas para uma solução do
problema. As causs dess connilO esto
nas divergências entre as di versas
definiçõs nacionis sobre o camp de es­
tudo do folclore. Em jogo não estava apna
a disordância brasileira quanto à tendência
norte-americana de considerar folclore
apnas a cultura oral, como mostra Thales
de Azevedo em seu artigo já referido
(1957). Havia também o problema de a
posição brasileira não reconhecer o
"elemento tradicional" como definidor do
folclore, como queriam os europeus. Ess
psição parece respnder 8dificuldades de
uso das conceituações elaboradas na
Europa para a cultura latino-americana e
sua formação histórica pculiar, sincrética,
que tem como consqüncia a utili d
conceito d "folclor nasnt" Üca
21
Ferandes critca es vis  o, expst
pla Comisso Paulist O pto cnll de
seu argwento, contudo, resid no fato d
que, Qele, a identidae dos ewdos de
folclore não provém d identifcaã d um
objeto prticular, ma sim d maeir p­
ticular pla qual ess etudos enfÜ o
objeto de diferente ciênci si. Es
métoo pulia pssui dois moetos: o
da desrição, na qual um objt é cW
na su singulaidade; e o d inWtaçlo
na qual ele é avaliado abstraindo "os
elemenlOS do contexto psicosial Nque
oorrem". A explicação folclóric tnde,
assim, resptvaente, tnto Q "ur
moalidade histórica de rpresntção d
realidade", quanto para "o modelo' da
explicação estétca" (1978:26). U, o su
caráter neessiamente humanístico.
Uma vez publicada a crítica de Caei,
Ferandes defende-se em artigos que
reafirmam sua agumentaã. Ele proura
tambm resslt as contdiçOs que iden­
tifica nos !ricos d C. mÞMestes
demonstem tnt preupação NMU
a imprância dos "fenômeno siais" N
sua "def científc" do folclore, co­
tinuam l i mi tando-se "à formação de
coleçOs de materiais folclóricos, coligidos
de forma assistemática" (Ferde, 1978:
p. 33). Conclui, assim, que o "folclorsta
colecionador", estigmatizado pr sus
colega, teria wa gande connbição a
dar, na medida em que assimilasse as
técnicas científicas modernas, sem
pretender caracteriza-se propriamente
como ci entista. Esta é a base da
"colabração interdisiplina" que FW­
des prop aos estudioss de folclore
(p. V).
Ma qual sria a significaã pm
ideológica desse debate puramente
epistemológico? Vimos que a pretensl ao
"ciencialalO"
22
signifcava Qos KO
da CNFL legitima a mediação d intle-
tLbÏPtPÛLb LP r�çÃO OL¶
87
m no proes de auto-reconheimemo
da nal com a revalorizção e a reb­
sorld tradiçõs Colclórica_ O caráter
sistemático do eslud Colclórico Qitiria
sua aol o no curículo universitário e su
amplo U na edual básica
Frl Ferndes, pr sua vez, em­
bra reonhecendo o valor do Colclore
como disciplina humanística, delara, em
um aigo publicado originalmeme dois
anos aps a polêmica, sua oposiÇãO à
utilizção do Colclore na educaãO Cormal.
O arigo, curto e sintétco, p um pmo
final nesses debales. Na verdade, ele
resume as concluss de um teXlO de maior
Côlego que inicia um volume, publicado U
mesma épa, contendo a maioria dos tex­
lOS Ceilos pr Ferndes sobre o folclore alé
enlo (191). Sinletizando as conclusõsda
psquis relizda na décad de 40, cle
relma a idéia, já presnle na "Troinhas",
de qu a ação soializadora do Colclore in­
Cantl s dá em dois plano. O primeiro é o
das rlaçõs soiais, investigado na pane
"soiológica" daquele eSludo, onde as
criança adquirem "padrõs de compor­
lamenlO colelivo". No segundo, são
lI smitidos "compsiçõs tadicionais e
geslos convencionais" contidos em cada
jogo e brinquedo, coloando as criança em
contlO com um "mundo simblico e um
clima moral que exislees prplu através
do Colclore" (1978:62).
Para Floreslan Fernandes, o valor
pdagógico desses dois asplOs é desigual.
No pri meiro caso, a i nfluência das
atividades envolvids plo Colclore infantil
so "constutivas", pis amadurecem "a
capacidade de aluaão soial da criança".
EnletnlO, o "conteúdo da compsiçõs
Colclórica" vincula-s fundamentalmeme
a uma "antiga ordem sial" em "rápido
proesso de desintegração" (p. 63)_ Feran­
des reconhece que a modernização ' da
soiedade represent um riso à "culLura de
lo/k". ISIO é pariculamente mais agudo em
Sl Paulo, o que o leva a afirmar que "na
épa em que a psquis Coi 0 O
Colclore já se encontrava em proess
acelerado de desinlegração" (1961 :30)_ A
condiçõs pculiares à Coal soial e à
moeizaao braileira so Wb men­
cioadas como CalOres menos CavOáveis a
est prmaêni: pr W lado, "o p
de mudança sial Coi muilO rápido·, g
OUlO, quado ele se iniciou, "o apgo W
elemcnls Colclóricos da culLura crapuco
homogêneo" (p_ 25). Se tis condiçõs
levaram os Colclorislas a deslacar a
urgênia d gande leCa de prCal,
Ferandes s limita a constala que "é
impssível pnsr no 'Colclore uo' de
São Paulo como uma entidade orgânica e
inlegrada, como so os Colclores de al­
guma cidades euroias faosa" (. 32).
POrlnlO, embra iSIO tenha oorrido em
Oulros países, o Colclore não oupará,
segundo Ferandes, um papl imprnle
no Brasil moero (cf. 1961 :33-). O ops­
lO pns ele da sioloia. Por iss,dCende
a sua integrção nos currículos esolars
privilégio que ele relaa ao Colclore. A
soiologia pderia desmpnhar "um papl
consltUtivo na Cormação da consciência
cívica dos cidados, conltibuindo para criar
uma élica de responsabilidade e uma
atilude aUlônoma crítica em face d Cun­
cionamcmo das instiluiçõs plílica ou da
injunçõs prsnalislSdos manatários do
poder" (1977: 177).
Assim, a exclusão do Colclore dos
currículos esolares pree provir de uma
"avaliação objetiva" das tansCormaõs
soiais operantes no país, que gradtiva­
meme IOrnavam a cullura Colclórica
anacrônica. Porém, Ferandes Wbdis­
corda da imrodução de uma cadeira
cspecflica sbre o lema no ensino suprior,
alegando o "encarec i menl o" e a
"complicação no currículo" qu ela peria
ac  el. Na ralidde, mais do que apna
avaliaçõs sobre o Colclore coo ObjelO e
sobre como eSlud-lo sQ Fr
dos folcloristas !a CNFL_ Embora em
88 £8T 8H81ÓRCC8¯!9øç
depimentos mais reentes Ferndes s
rerua cheio de nostlgia das sua psquis
no campo do folclore (1978a:84-5), outros
esritos 0a impr0 de que ele o via
como um objeto de menor relevância.
Qundo ele delaa o "aor" que nutrira
pr Ö áe, relaciona-o a seu papl na
fonoação como psuisdor e ao último
artigo de ÍoÌcÌorr r munça IoctGÌ. Nele
(1961 :468-71), Ferndes s refere às ps­
sibilidades do aproveitaento literário do
folclore, definido em tennos amplos, por
rmacist moderos como Jorge Amado,
em "uma espie de busa da verdadeira
imagem do 'homem do pvo'" (p
.
471).
Assim, quando ele valoriza o estudo do
folclore, está pnsando nas espulaçõ
estética e filosóficas que tanto lhe agadam
nas obras de Mário de Andrade a Amadeu
Amaral.
Apsr diss, em um atigo intitulado
justamente "Ciência e sociedade na
evolução social do Brasil ", Ferandes
reconhee qu, aps do proesso de mo- .
derizaça que o Brasil vem sfrendo, "a
magia de origem folclórica continua a exis­
tir e a 5 praticad, crença religioss e
mágico-religioss, que aplam para valores
exóticos, enontam camp propício para
desenvolvimento graças às insguraças
subjetivas, desncdplas inceneza
morais e fricçõs soiais do mundo urbao.
Ma, no fundo, a civilizaçao que s vincula
a est mundo é, pr neesidades inter,
a civilizção pr excelência da teCnologia
racional, da ciência e do pensamento
racional" (1977:22).
Florestn Ferades rconhee que a
"nova ordem", moera e compettiva, é
ainda incipiente em nosso país, emergindo
em "pnto disprss, aqui e ali, em imenso
terrilrio". Mesmo assim, a inferioridade
numéric da cultura emergente n!o diminui
a impnância de su estudo em relaç!o ao
da "culturafolk", prque "so esses pntos
dislsO que interssm à anális, pis é
atvé deles que a siedade braileira
está sndo reostulda cultur e sial­
mente (p. 2).
O confrnto ente a "esola paulist de
sociologia", representada pr Forestn
Ferades, e os folclorst da LW
revela um debat ente dis molo distin­
tos da éiência, moelo esss que apntm
para diferents projelOs de  mo
para o Brail. O pnto de vist d g
du! de cnhcimento, a hegemoni O
tid plo primeiro moelo no cmp d
ciência siais no decor des proo
.
pe 5identifica como Ud cus
da mar
i
inal izaç!o dos estudos de
folclore. O triunfo do moelo siológico
nos fez, de cert fonoa, su herdeiros. Isto
não nos impde de eXamina criticmente
suas premissas, como fizemos paciaJ­
mente, e compará-Is a ÖÜ¡ igualmente
pssíveis num dao moment do 0vol­
vimento d ciências siais do Brasil.
Mencionao antronent a cohe­
cid imprtncia que FlOFrde
atibui a press de mummm
para o desenvolvimento d cincia M
ciais. L folclorist tbm val0
este proeso. A históia do ebd de
folclore aprsntd pr Éisn Ceiro
(1962) é um relato d tnttva de W
institucionliza!: Amaeu A tn­
tndo cria a sua Soke Dmolóic;
Mário de Andrde criado . SoKde
EtnOgrafi. e Folclore; Lufs d Câmaa Ca­
cudo, a Soiede Brsilir d Folclre. O
ápice dess tjelril sra o moento me­
mo em qu o æé esit, qæCa­
neiro assume a direão d Capha de
Defsa do Folclore Brileir (futu In­
tituto Naional do FOlclor) ¾ M N
enumeração, um. difeença sat Wolhos:
est instituiçõs puco K a ve com o
moelo universitário, privilegido pr fr­
nands. Asiano puis e aça pí­
tica, aquele intelehis alW-s
gradativamete do Lm,at a md
CDFB ligaa diretment W m, at­
dendo aos aplos da ¨L do Folclr
• mRANOA££A  OÎÌ 8¥
Brasileiro". Nao queremos dizer que a uni­
versidade brasileira nao esteja ligada ao
Esto nem que objtivos plíticos estves­
sem ausentes das preocupações de
FCdes. Ma, comparado aos folcloris­
M,c¡c Qe interr maiores mediaçõs
n relaçao dC dis ßlOS com sua
prátc inteletual.
Opnl de vist plítico, a propsta de
ca moelo µa moerizção do Brasil
artcula diferentemente os planos nacional
e iUional. Desde a sgunda fas do
movimenlO moeist, esta questo pa­
sva pla "determinação dos predicados
parculaes da naçao brasileira", de moo
a viabiliz "a incorpração do país na
moeridade" (Moraes, 1988:230). É
neste sentido que devemos entender a
pesquisa empreendida por Mário de
Andrade e plos folclorists a respito do
noso carter nacional. A defes das "nos­
> ladiçõs" nunca implicou, da parte do
Movimento Folclórico, uma posiÇãO
xenófoba. São constantes as refirmaçõs
das doutrinas da LSCO, que apiou a
criçao da CNFL, de que o folclore era um
meio de promover O entendimento entre os
pvos. Porém, uma da suas maiores crises
se dqundo, no Congresso Interacional,
os folcloristas estrangeiros rejeitam a
definiçao de fato folclórico elabrada m
anos antes de modo a atender às

pcul iaridades da cultua braileira e de sua
formaça0
25
Esta conciliaçao ente nacional e inter­
nacional s dá de forma bm diferente na
obra de Florestan Ferandes. Embra ele
tenha constantemente dcfendido a neces­
sidad de privilegiar o estudo da relidade
braileira, jamais aeilOu que isto inter­
feriss no plano dos métoos ou teoria
utilizds, subordinada aos princípios da
universalidade da ciência. Sua crítica
virulent à sugestão de Guerreiro Ramos de
que sria necessário coaduna "os métodos
e proessos de pesquisa" nos países da
Améric ¡ atin "com o nível cultur d
Sl ppulaçõs" (1977:6-71), nos leva a
imaginar o que ele ahds concepõs
de psquis folclórca defendida pr Alceu
d
· · W
Mayna e que CItOS WØ
Mariz Peirano der me a obr d Fors­
tn Ferndes como uma passgem do
estudo da cultura para o da soiedade
(1980: 1 1 1), que marca U movimenlO da
. ciência siais do príoo como W too,
inclusive na antropologia (cf. 120-7 1).
V imo que, dse os primeirs arigos de
Ferades sobre o folclore, a opsiça ente
estes dois plos correspndeu à opsiçao
entre análise folclórica e soiológica,
resptivaente.
Reconhee·s comumente que, com a
ascensão de alguns novos paradigmas
antropológicos no quadro das ciências
soiais brasileira, o conceilO de cultura
voltou a oupar um papl imprtante do
pnto de vist tórco. Um artigo reente de
Rit Segato (1988) sugere queo quede falO
oorreu foi uma redefiniçao do própro con­
ceito de cultura, não mais pnsdo a parir
decomportamenlOs concrelOS, mas dos sig­
nificados a eles atiburdos. Ess mudança
de paradigma teria tambm contribuído
para o declínio da tradiçãO dos estudos do
folclore, atravessada, segundo ela, de
polêmicas taxonômicas em torno da
definição dos traços formais do "fato
folclórico" em si mesmo. O objetivo dess
definiçao era, nas palavra de Édison Car­
neiro, identificar "um camp abandonado e
inculto" (1962:57) plas demais ciência
soiais para maca a espificidade da­
queles estudos.
Uma das crítica básica de Feands,
a de que o camp do folclore peria sr
abarcado por OUlS ciência siais, ainda
se situa dentro desse mesmo horionte de
discusso, hoje em delínio. As opõs
feitas U épa pdem, prtanlO, sr revis­
tas e uma releitura crítica dos estudos de
folclore pe ainda sr proveitosa.
M
£8T8R80NO¬¡W
NOÍ88
1 . Ve, pr exemplo, Queioz, 1978; Aæ
W, 1980; Caeiro, 1985. Brandão, 1982,
pomestable wa mmIoçcm es
Hæd crdo •.
2. VerO1985.0 MWcomenta como na
Igm e n Fraça o deevolvimeto da
siologia e da amlogia se dá d maeira
iente e excluidora d folclore, carac­
æcmo "ciênia meiana",
3. A comisslo é presidida pr Renato AI·
meida, que participou do movimento
moeista d Rio d Jaeiro. ligado principal­
mete a Ronald de Carvaho e Graça Araha e
que manteve com Mário de Andrade
correspndência da qual se conheem cartas de
jaeiro de 1936 a maio de 1941 (Mello e Souza,
1989).
4. O ffECC Coi criado em 1946, quando era
ministo do Exterior João Neves da Fontoura. A
CNF foi ciada e 7 de novembro. em reunião
do fECC. 1lalada na sessão plenária de 19 de
dezmbro. teve sua primeira reunião em B de
janeiro de 1948.
3. Ver a proposta de criação de uma
asiaã folclórica de São Paulo pr Amadeu
Amaral (Amaal, 1948:54), e a criação, pr
Máio de Andrade, da Sociedade de Etnografa
e Folclore, ligada ao Depento Municipal
de Culrua de Si Paulo (Soares, 1983).
b. Pate significativa dessa doumentaão
ecnDa·se na Bibliotea Amadeu Amaral do
Instituto Nacional do folclore, sob a' fonna de
anais. boletins, correspondência e mesmo
dcwnentos soltos, ainda sem catalogação. Um
outo congresso interacional, do qual o Brasil
participB, realiza·sc em Buenos Aires, de 5 a 10
de dezembro de 1960.
7. O Centro Brasileiro de Pesquisas
Educacionais - CB PE - é do Instituto
Naional de Estudos Pedagógicos, do Ministério
de Educação e Cultura. criado em 1938. Anísio
Teixeira tomou psse como diretor em 1952.
8. Reita dC ßFE, ano I, vol. I, mar. 1956.
9. A obra "meritória e patiótca" da CNFL é
pr vezes vista como a de "investiga e conser·
va felmente toos os elementos que resta de
nossas velhas tadiçõ ppulares".
10. Desse grup paticipam Anísio Teixeira,
Ferando de Azevedo, Almeida Júnior, Charles
Wagley. Lmd Cato Fai . Atnio Cidido
0 MeUo e &w Forsta Feade e Egon
Schaen. CUoutos.
1 1 . Lumuud VkSalle .. condai
equip de puia d U. e novebo d
1988.
12. O demais membos ea, RoqueU
Pinto, Heloia Albrto Tore, Eu .  d Galvi,
Dacy Ribiro, !.Batos D' Ávila, Cost Pinto,
Luizde Cato Faia e José Bonifácio Roigues.
A mesa direlOra compuha-s d Heb BaI­
dus, Tales d Azevedo, 1.Lureio Feades,
Diégues Júnior e Renê Ribio. Do cojmllo do
temário constava: pré-história, paleontologia
humana e arqueologia; antoplogia ffsica;
antroplogia cultural e social; lingUística;
folclore; problema pofssionais d ensino de
antroplogia.
13. A autora eslaree: "a noçã d projeto
tal como utilizaa (nos depimentos) ça quae
sinônimo de grup de refcrência, já que cada u
deles remeta a um conjunto espcífic d ps­
S08, æ infuência de detcuim autore
cou pesquisadores, s mutmçque o abrgava
ou sregião onde ele fora realizao". Opojetos
mencionados são o da1JNESCO, o da relaçõs
raciais, o da Cidades-Lbratório, e o do Vale
do São Francisco.
14. Ente eles: a organização de expsiçõs
de arte ppular; o aproveitamento d folclore na
educação; a reivindicação de criação d curss
de extensão uiversitára; a defea da inclusão
do folclore n currículo ds cs de ciêcia
sociais, geogaia e história d faulddes d
filosofa e d letas; a organização d comu­
nicaçõs e bletins bibliográficos; a popsta de
reaização de um inquérito.
15. A idéia de uma antoplogia cultual ea
relativamente recente. Luiz de Casto Faia em
seu texto "Antoplogia no Brasil: depimento
sem compromisso doum militante e recsso",
reúne indicaçõs interesantes a esse respito.
16. Aleu Maynad uabalharia, na década de
1950, com Donald Pierson, no pojeto Vale do
São Franciso. Publicou Caa Brail (1957),
Populções ribeiri~do Bai 5õFraiso
(1961) c Escorço d/o0~ de u CO·
nidode (1962). Ver, a respilo, Corrêa (1987).
17. Essa dimensão plítico-ideológica do
Movimento Flclórico o assia estreitaente s
temática do naionalismo (cf. Cavalcanti et alii,
op. cil.).
tRAmAI EAMO ÇOO 91
18. T . de Am foi o cordadr
lo dpyæse o oymde municípios
m(CmL atóri). co rdeado pr
Chl . Wagley. pla Univesidae de Colu­
bi . e 1949 (Corê op. ciL).
19; No aigo. talve devido æpsiçõ a
sumidas na V Reuniio Brasileira de
Amlogia. Floresta Feode. prefere o
W"eologia" a de .
.
atoplogi .
.
..
20. O artigo sobre Amaeu Amaral foi
mgoaii mpubl de sua obras
complt. reolhida e organmpr Paulo
Due.
21. A idia de "folclore nacece" elabr.
u gpaçio que vem dese Snvio Romem.
que tentava identificar o processo de
"naionalização" da pesia ppula prtuguesa
em noso pais (Romeo. 19T). Por outo lao c
ua nsta æcnstates queixas dos pr·
sores ds erdos d folclore n Brasil a respito
mpecenso "pbrez" de nossa tadiçes (cf.
C.valcati et alii. 1988).
22. A expressão éutilizada plo próprio Fer­
nads e seu prmeiro artigo sbre o tema
(1978:45).
2.A defea que Ferades faz da preença
da siologia no curículo secundáio é feita no
I CogsBrasileiro de Soiologia.
24. A causa dessa maginalizaã pec
est mas na pemisss d que n intençõs
explicitadas pr Ferandes. Na "nota ex·
plicriva" que intouz os esaios da última
cletnea que orgaiza sole o tema ele lamen­
W melacólico, que "a imprcia aquirida
plos estuds folclórcos", que teriase-ado nu
passad Mreente -e que não, obstante nos
gÚ rellloto -, taduzia um pdo de
maio iteraçã entre a universidae e o "grade
público" (1978:4- 5). A maior pae dos artigos
que citmos aui foram publicaos em joras
diáios.
/. Nesse momento, os Colclorista atendia
a uma reivindicaão de Máio de Andrade: "Fa·
s ipresindível uma conceituaçio nova do
Flclore para os pvos de civii e cultura
rentemente impnaa e histórica. como os da
nossa Améica. Mas essa nova cnceituaçao tem
que s 'cietfca', pis se o cnceito europu
leva a enurta de maeira ridícula e socialmente
inefca o que seja enDe nós o fato folclórico, pr
outo lad, a sua desistência tem levado a W
confusionismo igualmente absurdo, fazendo
ceros autores aceitaem como ·folclórico·
qualque roma d æw e quaU g
umade autr" (1949:298).
26. Lum ago e que Qha æm
desenvolvida em sua tes, Mwæ PeirUo
(1980) mosta om. na car eia d M
Ferads. o tabao & d, Il b
repesnru a esola d u lma "mes mk
ressao d pnto de vmplítco". Eteto.
pr su rigo e æM, o m mcon­
om um pestJo æc. iclUive W
exm. que ajuu 1 1e&t-1 omo cnt­
Î4 pa que pud ... g p, . dç #
"qustõ naoa".
UÌDlÌO@l8ÍÌ8
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W £8T8RMO8-1½
LPÑMLÍÑL, b8n0t8. 1Vð3. Balão no ciu,
aksria n Terra. ÑI0 0c Î8ncIt0. UÏ|
FW. LNe 0Folclore, n.¾.
LALFA, Luide. s.d. ¯PMU0Ql0@18
WÛt8SIl -qimento se compmisso
de um militante em recesso". Anri
oropol6ico, • .l.
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LLÑÑ�N8IÎ28. 1Vð1. História da anlropo­
Igia n Brail {ÌVJÚ-ÌV0). Depoimllos.
b80 Î8ul0,NctlICc,L8mQIn8S, LM1LPNÎ.
ÍLÑMALö, Íl0tcSlM. 1V3ð. Etnolgia e
soiolog'a n Brasil. ö80Î8ul0, PnhcmDI.
.1Vb1. Folclore e mudança soial n
cidde de São Pa"lo. ö80Î8ul0, PnhclnDI.
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.1V1.Elwos d socilgia teórica.
b80Î8ul0, M8CI0n8üLLLbÎ.

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.1V13. Investigaçã anropológica no
Brasil e oulros enaios. ÎcItóQlIS,N02cS.
 .1V11. A sociologia no Brasil. Îcltó-
QlÎS, N02cS.
_.ÌV1ð.O follre e questã. ö80Î8u-
l0,MuCIl.
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. V1ð8.A conião &sociólogo. ö80
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n8CI0n81I080c`. NInæ Lct8IS. Åt8D8lh0
8gtcScnl800 n0 LÅ ö0cI0l0@I8 08 Lullut8
Ût8SIlcÎt&XAb.
NLÑPLö, Wu8t00 Î8t0Im d. 1Vðð.A cons·
tiluiçã da idéia de mrnidae n mo·
dernism braileiro. ÑI0 0c J8ncIt0, LÍÑÎ.
ÅcSc0c00ul0t8mcnl08QtcScnl808n0LcQI0.
0c ÍIl0S0Í18 00 ÎnSIIIuI0 0c ÍIl0S0Ü8 c
LIðnCI8S ö0CI8ÎS08 LÍÑJ.
_ 1  `Nom0reVIsIw".Elu-
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LLNL, Luci. Q 1Vðb. ÍW æ Vea
Cruz. Terra mSaa Cruz, Brail: Wælw
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LIOCIæ MumMæ 08 LbÎ. Eµ gl8
Brailieq, em ÍÝ, C 0 0Iu10 A
queSo ninl n P,iva RepWblica.
LÑÅÍZ, Ñcn8l0. 1Vð3. Cultura popular:
roæote/okmritìæ.b80 Paulo, ÎLL.
ÎLÎKL, N8t128. 1VðÛ. T�anholgy of
ahropowgy: tm Brazilian ca. MMV8t0

LnÎVctSIlÿ. LIS$cUgå00c 00ul0t8Ó.
_LLÍÑLZ, N8tÎ8 ÍS8ut8 ÎctcIt8 0c. 1V1ð.
Caerns dCeru, n. l 1 , Mt1c 1.
ÑLNÎöÅP D LLÌÑL ÜÑPöÛLÍÑL ÎL
ÎLö_L1öPöLLLLPL1LMPÍö,1V3b.Pn0
!. V0l. ¡,mæQ.
ÑLNLÑL, öuVI0. 1V11. Est"ls sobre poesia
popular N Brasil. Îc0óQlIS,N02cS.
öPÌLb, ¼8n0ctlcÿ LuIlhctmc 00S. 1V1ð.
Ordem bugusa e J�ra/jso polttico. b80
Î8ul0, Luæ LI080cS.
öLLP ÅL, Rit L8ut8. 1Vðð. `Pn00Ql0@I8c 8
CtIScl8X0n0mIC808Cullut8QQulM`.ÑI00c
J8mlt0, ÛÍ(ÍunMlc. Åt8D8lh0 8QtcSMl800
n0ScmIn8tl0`Í0lCÏ0tccLullut8Î0QulM. 8S
V8tlæ Ü S0c um0cD8lc`.
öLPÑË,ÎlI8L0nlI¿0[In0.). 1Vðð.Mái de
Andrade e a Soiedad de Etnografa e
Folclore, n Departaeno d Culura do
M"'cípio de Sã Palo, ÌVJ0-ÌVJV. ÑI0d
Î8ncIt0, 1MÍ(Íu8tlc, ö80 Î8ul0, öcCtcl8tI8

NunÎCIQ8l0cLullut8.
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invis[vel: cosmolgia. sitea ritul e noo de
pess< n espiritism [Z8h8t, ÏVðð)c0c 8t0@0S
cm ¿0D8ÎS c tcVISl8S mgI8lI2N0S, 8lw 0c
0t@8nI2800t8 (C0m N8t18 LuÍ28 McI!D0D e
Ütun8 Ít8nChcU0) 08 L0lcQ80 Perspectiva
Alropológica d Mulhr {).
LuÍS Ñ000lÍ008Î8IX80 NI¡hcn8cmcSbcem
8nb0gl0@I8 SuI8l Ql8 LÍÑJ c g0ÍcSS0t 0c
8n00Ql0@I8n8 LLÑJ.