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HÓSPEDE CÓSMICO, UM.

Certa vez, um homem do entorno do Himalaia, com uma enorme inquietação no espírito, foi procurar um antigo mestre. No desespero e angústia de ser o que era, sem saber que tinha o que tinha. Havia perdido a mulher amada por vontade dela, e estava embebido na anulação de si que a tal experiência o fizera vivenciar. Dentro dele, nada fazia sentido. Sentia raiva do mundo pela negação sofrida. Torturosas lembranças. Não queria mais nada do que outrora queria, não sabia mais o que queria e nem para onde ir. No ouvir falar que, de um certo mestre só, resolveu procurá-lo para ouvi-lo. Se, queria viver, era o viver que lhe restava e partiu na busca, sem saber andar. Andou. De vilarejo em vilarejo, ia perguntando pelo mestre, pousando o corpo do cansaço, na inquirição de saber por ele. Viagem longa em lombo de animal. Mesmo conhecendo muita gente no percurso, se dava conta de que estava só, sem ela. Tendo o desejo suprimido sua própria existência no não se suportar, se viu dentro do mundo, numa enorme importância de si, perdido na ausência dela. E ele dele próprio era o vácuo. Em alguns momentos pensou até em deixar o mundo. Depois de dias de viajem encontrou um homem que morava no pé de uma montanha. Contou à ele o porque estava ali, de sua procura pelo mestre. E falou muito, tudo, do sofrimento da ausência e da angústia e do que era. Mas no crepúsculo vespertino já concretizado, o tal homem não disse nada. Virou as costas para ele e foi dormir já de repentino ronco. O viajante de cotovelo inchado sentiu desprezo e raiva daquele homem que, por conta daquela atitude, e, por não ter o que fazer, dormiu. No outro dia o anfitrião o acordou com um forte aroma de chá, e da janela da cabana em que estavam , a montanha sorriu para o viajante. Lembrou-se então, da amada que conhecera, nos corredores escuros da faculdade de Geologia. Sabia muitas coisas sobre as montanhas. Que se movimentam imperceptíveis e ininterruptamente. Que a terra é viva. Que aquelas montanhas um dia foram planícies, e que a Índia um dia fora uma ilha, que, batendo no continente, fez as montanhas subirem, se elevando aos céus. Então, numa repentina surpresa de susto o anfitrião se pôs a falar com ele: - Sempre procuram o mestre. Também um dia o procurei e o encontrei exatamente aqui. Mas ele poderia estar em qualquer lugar. O mestre de que falam por aqui, é aquela montanha. O anfitrião se pôs a olhar em silêncio para a montanha alva que tentava entrar pela janela. O hóspede inquieto, descrente daquele homem, o desprezava por sua fala, mas começou a olhar para a montanha também. O anfitrião saiu da cabana e se pôs a andar sem revelar destino sumindo na neve. O hóspede viajante sentou de frente para a montanha com sua xícara de chá na mão. E ali, diante daquela formação rochosa imponente, se viu em uma epifania no redemoinho dos seus pensamentos.

sempre. Estava no não-querer. muda seu curso diante das pedras. Sentiu ternura no silente astral por todos e pela amada. Em sua bondade acolhedora. não estavam mais em guerra. se cobriria então. com um pouco de verde. preparavam o solo para a colheita. e que. sem oportunismo tolo de apropriação. Se relacionava com a neve. na sua indiferença a perdas e ganhos. a incidência do sol que tudo toca. Suprema. premonição da ruptura. para acolher a grande ilha. Plenitude. Naquele momento. A água dos riachos. e as coisas vinham. A montanha também o acolheu como a tudo. Entendeu o silêncio do anfitrião. e . por sua vez. misturado. Apesar de sua força. pequena e importante. em sua passividade dinamizada pelo tempo. Na firmeza de seu posto. mas por conta da montanha ser parte da terra. Um. prenuncio de neve. no embaraço das circunstâncias. ela não reclamava direitos. transformava sua existência em modéstia. Ali e ali. Diante disso. A montanha fazia uma coisa de cada vez. móvel e molejada. numa perene auto-suficiência. Se via assim. ela se adequaria no recebimento de pássaros. Estupefato com o mundo. Se portando como hóspede do mundo . reservada para poucos exploradores corajosos. sabendo que ela derreteria na primavera formando riachos. No não agir. a montanha estava acima do jogo da vida. Tinha-se a si. Permanecia. Girava e subia. Era grande. e se encontrava sempre em silêncio. não vinha abaixo. Abastecido de plenitude e quietude. E esse era o seu amor. Vestia-se de tempo. estava ela. Promovia o seu entorno. Dançarina cósmica da música universal. Invulnerável como uma montanha sem morte. brilhou . Ela não pedia favor á ninguém. Bastava-se. no silêncio.A montanha devia estar fazendo amor com a neve que a cobria inteira e se espalhava por todo o vale. liberta da egolatria. pois nada era dela. Sem agir. na brancura da neve. e o amamentou de contemplação. Fiel a si e ao todo. Ela só estava ali. e só se movimentava. Os riachos no verão alimentavam os ursos. Aquele monte de pedra. há milhares de anos. E a cada centenas de anos. Nasceu. sua amada. aquela montanha parecia conhecer a si mesma e ao mundo. E a montanha entregue ao infinito. Dominou-se e enriqueceu-se de tanta alegria. sem dominá-lo. são esculpidas pelas águas. sabia entender as avalanches. forma um ciclo de vai e vem. mudando de cor e atenta ao outono. Estava agora dentro de um infinito recipiente sem conteúdo algum. A montanha não discutia com ninguém e. enchia os olhos do viajante de beleza e de paz. apenas o que fazia. era flexível. Tudo esta ligado. ignorava o mundo. linda. e estas. que seus olhos viraram . O hóspede viajante reconheceu a montanha como um mestre. o mundo da montanha era branco. o que podia. Quis o não querer. que. ela subia alguns centímetros aos céus. só com o seu existir. Seus cavalos agora. e abraçou a montanha de carinho e gratidão. Aceitava a condição de estar parada. Um enorme seio do mundo. ruminava tudo. ela sabia que estava girando. viajava em meio ao lufa-lufa de estrelas e aurora boreal. o ensinou a olhar para si. Esses tinham por destino fugir da montanha. que se sentia só no olhar. era ser. era poderosa. prosperava. Mas acolhia e recebia as nascentes as dividindo com os riachos e ribeirões.

Um. Diante de si. nele se fez. Voltou ao eterno imperecível do mundo. cósmico. No silêncio. nada. acolheu e tolerou o mundo. Tudo. Violência transmutada em mansidão. capaz de entender um veículo do infinito. . montanha. Desprovido de preferências e voltado ao indescritível. o insondável do mundo. á importância do simples e dos pequenos seres. Alquimia. se viu também como um. alheio e indiferente a qualquer destino. De coração crescido.riachos e ele. O retorno para tudo o que não tem nome. nada. Tudo.

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