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permitindo uma maior difusão junto à comunidade científica e. 2009 255 editorial . Visando dar continuidade ao esforço de internacionalização de nosso periódico. maior agilidade no processo de avaliação com a redução do volume de artigos em julgamento.245-6. Todas essas informações indicam que 2010 será mais um ano de muito trabalho para o Corpo Editorial da revista e todos os nossos colaboradores! E.13. no próximo ano Interface iniciará a pré-publicação (ahead of print) dos manuscritos já aprovados na biblioteca SciELO. como tem sido feito desde 2006. o que reforça a relevância deste espaço de difusão internacional de nossos periódicos. quanto pelo uso do sistema Scielo Submission de gerenciamento eletrônico dos processos. A despeito disto. que tomou conhecimento do mesmo nessa Biblioteca.31. Buscando aprimorar nosso trabalho editorial. p. O aumento das submissões e publicação de artigos de autores vinculados a instituições estrangeiras (6% do total de artigos publicados em 2009) é. com a atribuição de um número doi. especialmente o internacional. de novas conquistas! Os editores COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. recentemente.Encerramos o ano de 2009 com um crescimento de 75% no total de submissões recebidas (717) em relação a 2008. resultado da visibilidade alcançada pelas Biblioteca Scielo Brasil e Scielo Social Sciences. em função tanto da adoção de pré-avaliação de todas as submissões recebidas. também./dez. o imediato e correto registro das citações recebidas. É interessante informar que. out. para o próximo ano buscaremos conquistar a indexação de Interface em novas bases de dados. Esses manuscritos também serão incluídos na Biblioteca Scielo Social Sciences. artigo publicado pela Interface dentro da Scielo Social Sciences foi convidado a integrar coletânea publicada em inglês por editora universitária da Índia. Ainda como iniciativa para ampliar o acesso. A pré-avaliação imprimiu. esperamos. também. os autores cujos artigos aprovados foram submetidos em português ou espanhol serão convidados a apresentar o texto em inglês para publicação na versão eletrônica da revista. Esta evolução exigiu um grande esforço do corpo editorial no julgamento de mérito científico dos manuscritos frente aos limites de publicação de nosso periódico. n. temos conseguido reduzir o tempo decorrido entre submissão e publicação.

a paper published by Interface in Scielo Social Sciences was invited to integrate a collection published in English by a university press from India.245-6. p. the immediate and correct register of the received quotations. the authors whose approved papers were submitted in Portuguese or Spanish will be invited to present the text in English for publication in the journal’s electronic version. promoting greater dissemination in the scientific community and. as has been occurring since 2006. in the next year we will strive to promote Interface’s indexation in new databases. This stresses the relevance of this international dissemination space of our journals. we hope. as a result both of the adoption of the pre-evaluation of all the submitted papers and of the use of the Scielo Submission system of electronic management of the processes. It is interesting to inform that. In spite of this. All these data indicate that 2010 will be another very busy year for the journal’s Editorial Body and all our collaborators! And. Aiming to continue with the process of internationalization of our journal. Also as an initiative to extend the access. out./dez. recently. especially the international one.13. 2009 . Aiming to improve our editorial work.We close the year of 2009 with a 75% increase in the total number of submitted papers (717) received compared to 2008. These manuscripts will also be included in the Scielo Social Sciences Library. which came to know about it in this Library. with the assignment of a doi number. in the next year Interface will begin the pre-publication (ahead of print) of the approved manuscripts in the SciELO library. The increase in submissions and publication of papers by authors from foreign institutions (6% of the total number of papers published in 2009) is also a result of the visibility reached by the Libraries Scielo Brasil and Scielo Social Sciences. The pre-evaluation has also accelerated the process due to the reduction in the volume of papers under appraisal. This evolution demanded a great effort of the editorial body concerning the appraisal of scientific merit of the manuscripts in view of our journal’s publication limits. n. we have been able to reduce the time elapsed between submission and publication.31. a year of new achievements! The editors 246 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.

de biossociabilidade. 7º andar. Rio de Janeiro. RJ. within the context of increasing impact of the neurosciences and the emergence of neuroculture and the cerebral subject. mais especificamente. v. práticas de como agir sobre o cérebro para maximizar a sua performance. Neurocultura. p. 1 Instituto de Medicina Social.Comunic. Para tanto./dez. 2009 247 artigos Neurociências. Neurosciences. Brasil.31.247-60. Este artigo pretende analisar o fenômeno denominado de neuroascese. Rua São Francisco Xavier. The purpose of the article was to explore how a reductionistic form of subjectivity. neurocultura e autoajuda cerebral . Neuroculture. Interface . Such practices lead to the formation of new types of sociality. enables the appearance of cerebral practices of the self. i. Educ. n. n. Palavras-chave: Neurociências./dez. The aim of this paper was to analyze the phenomenon called neuroascesis or cerebral self-help. Keywords: Neurosciences.550-900 fjortega2@gmail. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. ou autoajuda cerebral no contexto do crescente impacto das neurociências e do surgimento da neurocultura e do sujeito cerebral. F. which corresponds to what is being called somatic culture or biosociality.com COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.31.Francisco Ortega1 ORTEGA. In order to accomplish this.13. p. neuroculture and cerebral self-help.e. Cerebral self-help. Maracanã. 2009. Cerebral subject. isto é. pavilhão João Lyra Filho.. Sujeito cerebral.247-60. out. out. 20. practices of how to act on the brain in order to maximize its performance. blocos D e E.13. O objetivo do artigo é explorar como uma forma de subjetividade reducionista. Saude. Autoajuda cerebral. o sujeito cerebral.. 524. it is important to understand the sociocultural context of neuroascesis. dá lugar à aparição de práticas de si cerebrais. é importante compreender o âmbito sóciocultural mais amplo no qual a neuroascese se insere e que corresponde ao que vem se chamando de ‘cultura somática’ ou. que levam a formação de novas formas de sociabilidade. the cerebral subject.

Rose. em alguns casos.31. mais especificamente. p. é importante compreender o âmbito sociocultural mais amplo no qual a neuroascese se insere na nossa cultura contemporânea. entre outros. ver a interessante coletânea de Gibbon e Novas (2008). Coletividades organizadas em torno de classificações biomédicas ocupam cada vez mais espaço. julgam e agem sobre si mesmos em parte na linguagem da biomedicina”. O biopoder clássico. incluindo o sujeito cerebral. sublinhando o elemento dos processos de subjetivação. que o cunhou para analisar as implicações socioculturais e políticas da genética e do projeto Genoma. taxas de colesterol. O alcoolismo é visto como uma fraqueza moral e da vontade. mas sem limitá-lo especificamente à genética. fonte de desejos e lugar de escrutínio de todos os transtornos psíquicos. Para o uso do termo biossociabilidade em diferentes contextos empíricos. 2008). localizada na nossa existência carnal. obter fundos para a pesquisa. e repressão. Narrativas de experiência de doenças e performances do sofrimento que aparecem na mídia./dez. Os discursos psicológicos possibilitaram formas de relacionar-se consigo mesmo em termos de neuroses. NEUROCULTURA E AUTOAJUDA CEREBRAL Da bioascese à neuroascese Este texto pretende analisar o fenômeno que denomino neuroascese. dando uma centralidade à sexualidade na definição da vida psíquica. 2008.NEUROCIÊNCIAS. em parte pelo menos. ao qual me refiro mais adiante. era frequente que os indivíduos se descrevessem como habitados por um espaço interior e psicológico. e sempre será. Diversos autores têm estendido o uso do bipoder e biopolítica para o contexto contemporâneo. desejos inconscientes. corporal e que experienciam. raça e degenerescência. de biossociabilidade. 1976) enfatizava. 2008). doenças específicas. articulam. ou marcar distância da própria investigação biomédica e contestar o estatuto nosológico de determinadas doenças. Neste artigo uso o termo biossociabilidade para frisar as descontinuidades com o biopoder clássico. uma falha localizada no interior do self – o indivíduo deve reconhecer que é. como acontecia na biopolítica clássica analisada por Foucault3. 2007). desempenho físico ou capacidade aeróbica fornecem os critérios de avaliação individual e destacam a existência corporal do self como lugar privilegiado de construção de relações consigo e com os outros nas sociedades biomédicas contemporâneas (Ortega. incluindo uma reflexão atualizada de Rabinow. Nas últimas décadas. estamento. levando à formação de identidades e práticas sociais. deslocado por uma localização de doenças e transtornos no corpo e no cérebro (Ortega. Para o antropólogo americano. podendo reivindicar uma influência maior na tomada de decisões acerca de terapias apropriadas para doenças específicas. A biopolítica foucaultiana (1999. Sirva. longevidade. tono muscular. No texto. 2009 2 Nikolas Rose (2007. um alcoolista e que deve trabalhar para estabelecer níveis de introspecção e disciplina que permitam deixar o vício de maneira definitiva. o caso do alcoolismo: Segundo os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos (AA). especialmente. 3 . mas segundo critérios de saúde. se articulava como uma anátomopolítica do corpo e uma biopolítica das populações. Em sociedades fortemente marcadas pelas teorias e práticas psicanalíticas. Nas 248 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. bem como a disseminação e moralização do vocabulário médico-fisicalista baseado em constantes biológicas. como vemos no caso do autismo. a genética deixará de ser apenas uma metáfora biológica para descrever o social. performances corporais. vou me servir desse conceito em um sentido mais amplo que o de Paul Rabinow (1996). como o caso do Brasil e dos EUA durante as sete primeiras décadas do século passado. uso esse conceito de Rabinow.13. Para tanto. p. as noções de sexualidade. Para uma importante crítica do uso do conceito de bipoder em autores como Negri e Agamben. esse espaço interno característico da cultura psicológica fortemente influenciada pela psicanálise vem sendo achatado e. 1997. como exemplo. não mais reunidos segundo critérios de agrupamento tradicional como classe. estatuto genético compartilhado por outros indivíduos. Neste trabalho. descrito por Foucault. deixar de beber corresponde a uma transformação interior. avaliando a si mesmo e aos outros e agindo sobre si mesmo com base nessa crença. porém. ver Rabinow e Rose (2006). n. orientação política. e que corresponde ao que vem se chamando de ‘cultura somática’ (Ortega.247-60. ‘indivíduos somáticos’2 ou. out. estendendo o uso a diferentes formas de subjetividade biológica ou somática presentes nas sociedades contemporâneas.26) define os ‘indivíduos somáticos’ como “aqueles seres cuja individualidade é. cujo objetivo era a otimização da qualidade biológica das populações e estava vinculada à afirmação da burguesia como classe social e ao fortalecimento do Estado Nacional. Entendo por biossociabilidade uma forma de sociabilidade ou de coletividade constituída por grupos de interesses privados. ou autoajuda cerebral no contexto do crescente impacto das neurociências e do surgimento da neurocultura e do sujeito cerebral. trauma.

nem hegemônica. No processo de descrição da individualidade e subjetividade em termos corporais.13. por isso. produzem “fatos” que definem objetivamente quem somos. de “autoconstituição objetiva” (objective self-fashioning). 1976) analisa em sua história da subjetividade. porém. pensar e falar de si mesmo e dos outros. a identidade pessoal entendida como identidade cerebral. 2009. Isto é. a formação neuroquímica da pessoa. Racine. pelo conhecimento especializado e sua divulgação pela mídia e pela cultura popular. 2006). o sujeito cerebral dá lugar à aparição de práticas de si cerebrais. as neuroasceses. No âmbito da biossociabilidade. o cérebro surgiu como o único órgão verdadeiramente indispensável para a existência do self e para definir a individualidade. convivem de maneira mais ou menos harmônica quando falamos de nós mesmos e vivemos nossas vidas. 2005). ao cerebral ou neuroquímico. Em determinados contextos podem recorrer a um vocabulário psicológico. Vidal. pela mídia. ao indivíduo. da psicanalítica à cerebral. Diferentes ontologias do self. tipos de “sujeito” na história da subjetividade. no qual se encontra a essência do ser humano. Ele responde. que faz com que as pessoas mudem os registros na sua forma de agir. o processo de subjetivação tem uma preeminência ontológica e. as práticas da ciência da medicina e da tecnologia formam selves mediante a experimentação científica. As complexas práticas confessionais dos rituais dos AA são substituídas por simples decisões acerca de tomar ou não a medicação (Vrecko. isto é. Nikolas Rose (2007) define este processo usando o termo ‘self neuroquímico’ (neurochemical self). A emergência de ‘neuroessencialismo’. o cérebro ocupa um lugar privilegiado. práticas e contextos pelos quais os seres humanos se tornam sujeitos cerebrais. Trata-se de uma categoria histórica e cuja ênfase recai precisamente nas formas e nos processos de subjetivação e nas tecnologias do self usadas pelos indivíduos para a formação de diferentes “subjetividades”. isto é. por outro. resultando em um ‘entusiasmo aparentemente acrítico’ (Illes. usando a expressão de Joseph Dumit (2004) para se referir ao processo de formação de um self objetivo. A noção de self objetivo remete a uma COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. ‘neurorrealismo’ e ‘neuropolítica’ vem sendo ressaltada nas interpretações populares da neurociência (Racine. o intenso processo de popularização. uma crescente percepção do cérebro como detentor das propriedades e autor das ações que definem o que é ser alguém. de imagens e informações que associam a atividade cerebral a praticamente todos os aspectos da vida. diferentes formas de subjetividade. n. entre elas. e certas características estruturais da sociedade atual vêm produzindo. em outros. cada vez mais. a ênfase recai nas noções. Existe uma coexistência entre ontologias cotidianas. Sujeitos cerebrais se formam e são formados mediante tecnologias do self sustentadas. Illes. Uso o termo ‘sujeito cerebral’ como uma derivação da noção de sujeito que Foucault (1984a. É um processo duplo: por um lado. o “sujeito cerebral” das sociedades contemporâneas. discursos e práticas de como agir sobre o cérebro para maximizar a sua performance.247-60. os indivíduos formam seus próprios modelos de self a partir dos fatos científicos. Inteiro ou em partes. os exercícios de taxonomia médica. A bebida ativa o sistema de recompensas no cérebro. desejos e comportamentos são frequentemente descritos em um vocabulário cerebral ou neuroquímico. Esse é um exemplo emblemático do deslocamento de explicações centradas na vida psíquica para as baseadas em parâmetros cerebrais. uma categoria de pessoa desenvolvida mediante conhecimento especializado./dez. Acredito que a noção de “sujeito cerebral” (Vidal. que perpassa diferentes análises críticas da neurocultura contemporânea: a crença de que o cérebro é a parte do corpo necessária para sermos nós mesmos.ORTEGA. 2004) resume adequadamente a redução da pessoa humana ao cérebro. que o sujeito cerebral não é uma figura antropológica nem monolítica. e que os indivíduos não se subjetivam de uma única maneira. O sujeito cerebral não possui uma realidade prévia a suas corporificações performativas. Trata-se de um sistema endorfínico superestimulado. entre outros. no imaginário social. p. ao sujeito. por tudo aquilo que outrora nos acostumamos a atribuir à pessoa. 1984b. Deve ser observado. que levam à formação do que vou chamar de neurossociabilidades e neuroidentidades. o objetivo das intervenções é o estado neuroquímico do cérebro. 2007. em alguns indivíduos. Bar-Ilan. em contrapartida. Ortega. ou seja. Elas constituem formas de “selves objetivos”. o cérebro recompensaria a bebida de uma maneira desmesurada provocando desejos intensos pelo álcool. Crenças. O espetacular progresso das tecnologias neurocientíficas. experienciar. em parte. ou seja. 2005) diante dos avanços neurocientíficos. Existiriam. 2009 249 artigos . mas. F . out.31. assim. Em outras palavras. Ehrenberg. descrições neurocientíficas do alcoolismo.

os recursos para crianças são descomunais.com>. bonés. criador dos mapas mentais e autor de numerosos best-sellers de autoajuda cerebral (<www.247-60. 2006a.NEUROCIÊNCIAS. promovidas pelo empresário Tony Buzan. Uma indústria ‘neuro’ está surgindo para compras on-line que não só inclui livros. NEUROCULTURA E AUTOAJUDA CEREBRAL compreensão da subjetividade que tem.php>. videogames. aos quais me referirei mais adiante. Singer. científicos e médicos sobre a objetividade. jogos. p. Os indivíduos constituem a si mesmos objetivamente a partir da incorporação em suas vidas de “fatos” sobre si mesmos . orientada para um público adolescente. 2006. c) Grupos de apoio para portadores de diferentes doenças e transtornos neurodegenerativos e seus familiares. out. que ajudam a delinear a identidade coletiva das novas neurocomunidades. 2009 Do inglês self-advocacy. 2006. determinarão sua cidadania. que constituem verdadeiras ‘academias para o cérebro’ (brain gyms). que têm os saberes e práticas neurocientíficas como referência. e que abrangem fóruns de discussão. Por outro lado./dez. mentes. 4 5 Disponível em: <http:/ /www. comentar os novos jogos. o sujeito cerebral está se tornando um critério biossocial de agrupamento. ‘talk boxes’ permitindo conversas privadas. a comunidade tem acesso a todo um ‘mercado’ cerebral. no intuito de oferecer a elas a possibilidade de gerenciar suas vidas. cidadania e autoadvocacia4. esquizofrenia. neurocalendários. Acesso em: 5 jun. também. 250 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.13. softwares e programas de ‘fitness cerebral’ para o computador. uma subjetividade objetivada.com/ community/index. ver. CBS. discursos técnicos. sendo essas imagens interpretadas como registros objetivos de estados emocionais e mentais. na qual a perspectiva fenomenológica e subjetiva da primeira pessoa é reduzida à perspectiva em terceira pessoa expressa mediante as tecnologias médicas e os discursos e as práticas objetivantes.seus corpos. b) Neurocomunidades. como ponto de partida. na grande maioria das vezes. O risco é grande. São “fatos objetivos” veiculados pela mídia. cérebros. “Tony Buzan” em Wikipedia). ou seja. tais como: Alzheimer. e serviço de ‘live chat’. entre outros. n. como a Braingle Community5. como se depreende da existência de ‘clubes do cérebro’. . O termo representa o envolvimento da pessoa com deficiência mental na defesa de seus direitos e na expressão de suas necessidades. os limites entre as imagens entendidas como representações de correlações ou de relações causais entre estados mentais e estruturas cerebrais é ultrapassado com frequência. como podemos constatar no surgimento de: a) Grupos que se reúnem para testar as performances cerebrais. a televisão e o cinema difundem continuamente imagens que insistem na associação entre o cérebro e a mente. 2006b.buzanworld. A mídia capitaliza precisamente a potente familiaridade e a transparência das imagens.31. uma forma de self. quebra-cabeças e ‘Brain Teasers’ para promover a atividade cerebral. mousepads. Encontramos. que são incorporados nas descrições de nós mesmos. velocidade de leitura ou cálculos mentais e de memória. como se pode constatar ao digitar as palavras ‘neuroscience for kids’ em qualquer mecanismo de busca na internet. os cérebros são submetidos a verdadeiras competições mentais. sociabilidade. fazer valer suas opiniões e decisões que lhe dizem respeito e que. Nesse sentido. Podemos compreender a neurossociabilidade como uma especificação da biossociabilidade que diz respeito a formas de identidade. mas também camisetas. Ao mesmo tempo. Os jornais e as revistas de divulgação científica. a neurossociabilidade está ocupando cada vez um espaço maior. canecas. sendo a mente localizada no cérebro. todo um mercado crescente de produtos que incluem: best-sellers de autoajuda cerebral. que incluem desde jogos mentais clássicos a exercícios para medir pensamento criativo. 2005). ‘Campeonatos Mundiais de Memória’ e ‘Olimpíadas de esportes da mente’. por um lado. Os neurousuários podem fazer observações sobre assuntos cerebrais. vitaminas e todo tipo de suportes alimentares para aprimorar a performance cerebral (Brownlee. Neurocultura e neurossociabilidade Na cultura somática da biossociabilidade. Neles.braingle.

e sim uma diferença humana que deve ser respeitada. surge um número crescente de trabalhos que pretendem demonstrar como a experiência produz COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v./dez. o mapeamento da neurossociabilidade está apenas começando e é um terreno em constante expansão. Já. clubes do cérebro e empresários dos neuronegócios. como se depreende dos numerosos websites existentes na internet sobre o tema. a seguir. comunidades no Yahoo. em primeiro lugar. Intervenções psicossociais diversas e troca de experiências podem acontecer em encontros regulares ou por meios virtuais. existe uma diferença do ponto de vista do significado sociopolítico entre grupos de apoio a portadores de doenças e transtornos específicos. ou de grupos de autistas que usam o critério cerebral para reclamar um acesso à cidadania que o modelo biomédico lhes tinha negado. Indivíduos diagnosticados com autismo de ‘alto-funcionamento’ (geralmente associado com a chamada Síndrome de Asperger) impulsionam o movimento. Basta procurar em qualquer mecanismo de busca na internet). serve paradoxalmente para criar novas formas de subjetividade e de sociabilidade que têm no cérebro a sua âncora. os segundos se enquadram plenamente nos objetivos dessa racionalidade política. p. em alguns aspectos dessa neurossociabilidade e das práticas de si cerebrais. Neles encontramos desde dicas de literatura que trata de autismo até listas de organizações de apoio a autistas e potenciais parceiros para casamento autistas. Para eles. Begley. Trabalhos como os de Ivory Franz (1915) e de Karl Lashey (1923) contribuíram para que. Uma ‘cultura autista’ vem sendo desenvolvida segundo modelos de pensamento e estilos de vida considerados autistas. Doença de Huntington (Hungtinton Disease). relegando ao esquecimento os achados de Sherrington. como em um oxímoro. enquanto os primeiros poderiam ser comprendidos como formas de resistência a um tipo de racionalidade política neoliberal aparelhada com tecnologias neurocientíficas. blogs e outros (A lista de organizações e de grupos de autoajuda nos diferentes países e continentes é enorme. Enfim. entre outros. o autismo é uma parte constitutiva de sua identidade. serviços religiosos ou ajuda psicológica. como dá lugar à formação de diversos grupos. 2002. esclerose múltipla. Todavia. 2009 251 artigos . com o uso de videoconferências. 2000).247-60. Plasticidade cerebral e neuronegócios Convém. Um modelo de “subjetivade-objetiva”. isto é. sejam eles de portadores de alguma doença neurodegenerativa e seus familiares. orkut. Parkinson. Apesar das evidências. que aparecem no debate em torno do autismo. grupos pró e anticura. demência Frontotemporal (Frontotemporal Dementia . A partir da década de 1990. Vou me concentrar. existisse um corpo de evidência razoável de que o córtex cerebral é dinâmico. F . e neurocomunidades de adolescentes. sulcos na estrutura neural dos indivíduos. William James observou que o hábito era produzido pela plasticidade cerebral: os hábitos deixariam marcas. Jones. em 1890. por um lado.31. entre outros. d) O movimento da neurodiversidade: Os participantes desse movimento acreditam que uma conexão neurológica atípica não é uma doença que deva ser tratada. ou de indivíduos que se reúnem para testar a sua performance cerebral. A noção de neurossociabilidade permite compreender como o sujeito cerebral se torna um critério de agrupamento. o paradigma do cérebro ‘imutável’ tornou-se predominante. O achado do filósofo americano foi comprovado empiricamente por Graham Brown e Charles Sherrington (1912) ao descobrirem. como internet. no capítulo dedicado ao ‘Hábito’ em The Principles of Psychology. Ambos os grupos têm o cérebro como referência. pesquisando com macacos. Tornou-se senso comum falar de plasticidade cerebral. tomado como ponto de partida pelas diversas práticas neuroascéticas. que as representações corticais dos movimentos não são inatas e refletem a história do uso do sistema motor. remodelado continuamente pela experiência. n. Frank e Lashey. As funções e objetivos desses grupos são diferentes. pelo outro. 1952). que surgiu a partir de uma ideologia reducionista e solipsista da compreensão da subjetividade e da vida social.FTD). A nossa experiência deixa marcas no cérebro (James. atendendo também as especificidades das diferenças doenças e transtornos. out. contemplando atividades que vão desde palestras e troca de informação e experiências até exercícios. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Obviamente. no resto do texto. fazer uma pequena referência ao conceito de plasticidade cerebral (Schwartz. por volta de 1950.ORTEGA.13.

decisões conscientes. com baixo teor de gorduras saturadas e rica em Ômega 3 (Brownlee. Rijntjes. Cada vez mais pesquisadores relatam a descoberta (que já foi apontada por James no final do século XIX) de que. A recompensa é grande. Mesmo que o ‘Brain Gym’ não represente a fonte da juventude. É na base desse conhecimento empírico que tem acontecido um verdadeiro ‘boom’ de práticas neuroascéticas na última década. 2006). Também promete retardar a progressão da Alzheimer e os sintomas do Parkinson. os neuronegócios são promissórios. pesquisadores descobriram recentemente que as atividades aeróbicas possuem benefícios importantes. já conhecidos desde algum tempo. Michael Mezenich. 2006a. Eles prometem desenvolver determinadas regiões do cérebro (especialmente o hemisfério direito. tradicionalmente reprimido e negligenciado). Vitalidade e vigor necessários para que a ‘longevidade cerebral’ (brainspan) possa acompanhar a longevidade corporal (lifespan) em constante aumento (Anônimo. precisão e intensidade com as quais nosso cérebro recebe. Tomando como base os novos conhecimentos sobre a plasticidade cerebral. Tornou-se um ‘dado empírico’ (como se depreende da avalanche de artigos sobre o tema) que a estrutura e o funcionamento do cérebro pode modificar-se até idade bem avançada. registra e lembra aquilo que ouvimos. o principal alvo de Posit Science é a população idosa. 2002. Por exemplo. Tenta-se comprovar as alterações cerebrais causadas por hábitos. Jones 2000. 2002). que deram lugar a um florescente mercado de neurobusiness em constante expansão (Woldbring. O programa de fitness cerebral de Posit Science focaliza no aperfeiçoamento da velocidade. E os preços são salgados. A publicidade da empresa lembra a do marketing de produtos de beleza: o programa de neuroascese promete ‘rejuvenescer’ a plasticidade ‘natural’ do cérebro. surgiu. a empresa planeja oferecer uma ‘academia cerebral’ (brain gym) completa para treinar os diferentes sistemas cognitivos: visão. out. práticas de meditação. p. o vigor das pessoas”. alimentação. 2007). as conexões entre células nervosas do cérebro criadas na infância não se mantêm inalteradas durante toda a vida adulta do indivíduo. Os mesmos efeitos foram constatados recentemente em relação à alimentação saudável. começando em torno dos U$ 500 (Olney. O objetivo de Posit Science é “ajudar as pessoas a prosperar ao longo de suas vidas. Posit Science prevê um potencial de venda enorme considerando que a metade dos norte-americanos que atingirem 85 anos sofrerão de alguma forma de demência. a empresa Posit Science Corporation. práticas de atenção. E. exercício físico. A idéia básica por trás dessas pesquisas é muito simples. Por outro lado. a fitness cerebral exige uma grande dose de disciplina. vontade e automotivação. o que é mais importante. 2006a). entre outros. 1994). e novos neurônios são criados (Schwartz. 2005). nos promete “inverter o processo de envelhecimento cerebral” (Olney. Não por acaso. adiando o ‘declínio’ mental até em dez anos. Cotman e Berchtold. membro da academia das ciências e neurocientista renomado. 1999)./dez. seu cérebro também se beneficia”. n. ao contrário do que se acreditava. 252 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Mezernich afirma que é “parte da solução”.13. o corpo ao cérebro: embora as práticas treinem o corpo. O exercício encoraja os cérebros saudáveis a funcionarem a níveis ótimos.247-60. Weiller. equilíbrio. promete “manter a vitalidade. em San Francisco. a partir do trabalho pioneiro do Dr.NEUROCIÊNCIAS. se afirma que é o cérebro que está sendo visado. 2006).31. 2009 . Da mesma maneira que a fitness corporal. pois terá um grande impacto não apenas na qualidade de vida dos idosos. mobilidade. Essa afirmação exemplifica a tendência recorrente de um ‘neurosolipsismo’ que leva a confundir ou reduzir o todo às partes. uma das diversas empresas que estão aparecendo no ramo dos neuronegócios (Lynch. Begley. pesquisadora em nutrição e envelhecimento da Universidade de Toronto. atos de vontade. Fazemos isso fornecendo ferramentas efetivas e não invasivas que comprometam a plasticidade natural do cérebro na tarefa de melhorar a saúde cerebral” (Teichert. observa Carol Greenwood (apud Brownlee. Jenkins. 2006). para além dos cardiovasculares e da utilidade no tratamento da depressão. permitindo aumentar sua performance e promovendo a plasticidade cerebral. 2004). “cuidando de seu corpo. Autoajuda cerebral As descobertas da neuroplasticidade têm dado lugar a um mercado de best-sellers de ginástica e autoajuda cerebral com embasamento científico diverso. O programa cerebral é o primeiro passo. controle executivo. NEUROCULTURA E AUTOAJUDA CEREBRAL alterações no cérebro (Merzenich.

2005). 1999. Se na autoajuda tradicional era a mente o centro definidor do sujeito. p. o cirurgião plástico nova-iorquino Maxwell Maltz descobriu um filão ao vender o velho Mind-Power oitocentista com uma roupagem cibernética. p. imagens e até livros completos. acreditam poder manipular o cérebro para atingir qualquer resultado desejável. baseados nas novas descobertas. “é o estágio avançado de reificação da subjetividade. o cérebro humano. Mark.247-60. O velho slogan “você é o que for sua mente”. na busca de legitimidade. Vale mencionar: a ênfase na criatividade que engendra a realidade. 2001). apesar de afirmarem possuir embasamento científico. Maltz. Os exercícios garantem promover estados alterados da consciência capazes de conectar o cérebro com as forças do universo e com uma inteligência superior. ou gravar. Goldman. e usando um vocabulário científico e um linguajar técnico. verbais e visuoespaciais podem ser desenvolvidas com a ajuda das práticas neuroascéticas (Goldberg. e da Christian Science (Fuller. agora. Eles prometem: identificar significados ocultos nas conversas das pessoas. Outros best-sellers. autores como Antonhy “Tony” Robbins recuperam o credo básico da tradição da clássica Self-Help americana. A receita foi vendida. 2009 253 artigos .remete à tradição do cérebro duplo de COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. habilidades lógicas. Klatz. Todos os lugares comuns da autoajuda tradicional estão presentes numa roupagem cientificista e cerebralizada. Berger. Já no início dos anos sessenta. vibrações. 2001. Entre eles. a total obsolescência do outro. dos movimentos oitocentistas de New Thought.ORTEGA. do ambiente social e cultural no eu cerebral construído pelas práticas neuroascéticas. 1992. absorver fatos como esponjas e reproduzi-los palavra por palavra anos depois. psicólogos cognitivos e psiquiatras renomados que. prevenindo a decadência mental e combatendo demências. na memória. Finalmente. chamado de “programação neurolinguística” (neurolinguistic programming). Isto é. e seu poder permitia mudar a vida. vão muito mais longe nos resultados atingíveis com seus programas de autoajuda cerebral. enfatizando controle e autodomínio. como Psycho-Cybernetics. 2005. em 1960. Essa literatura constitui uma amálgama de trabalhos diversos que inclui: estudos mais sérios de neurocientistas. até melhorar a performance sexual. Mark. a ideia da mente dividida e em luta . Esses autores recorrem. ou é subutilizada . Um tópico importante da autoajuda tradicional. “A novidade” da autoajuda cerebral. realizar nosso desejo e monitorar nosso desempenho. atingida agora com práticas neuroascéticas. eletromagnetismo. Winter. o cérebro ocupa esse lugar reservado outrora à mente. a insistência na autonomia e autocontrole de nossos destinos e até da própria realidade. out. p. Atkins. fatos. ler e compreender um livro em trinta minutos. 1960).13. com frequência. dotando-o de legitimidade científica. a ideia do poder da mente sobre a matéria. como um self cibernético que pode ser reprogramado para obter a máxima performance pessoal (McGee.80). oferecem um programa de exercícios para aumentar a performance e o poder cerebral. escritos geralmente por autores de autoajuda que descobriram o filão da neuroascese. Mesmo autores como Shirley McLaine lançam mão de um vocabulário cientificista e. a simplificações ‘chulas’ da mecânica quântica para afirmar que a realidade é uma ilusão criada por nosso cérebro e que o “universo é a mente e a mente é o universo” (Spotts./dez. falam de forças. A absoluta irredutibilidade da categoria de responsabilidade e autonomia individual. ansiedade. vendendo até a atualidade mais de trinta milhões de exemplares no mundo inteiro (McGee. Green. adições e compulsões diversas. os mais voltados para movimentos de New Age. combater depressão. chamada doravante de Mind-Power e que pressupõe o poder do cérebro sobre a mente. Chafetz. hemisférios cerebrais (Fuller. 1987). n. a Mente cósmica ou Divina.120). aparece agora em uma versão cerebralizada: “você é o que for seu cérebro”. O resultado. O que resulta surpreendente desses últimos best-sellers é que reproduzem todos os tópicos da literatura da autoajuda tradicional usando um vocabulário cientificista e coisificador. propunha que crenças e desejos seriam uma espécie de software que pode ser instalado no hardware. Essa visão do self é retraduzida em uma linguagem pseudocientífica. a ideia de um ‘eu interior’ que pode ser cultivado e promovido pela manipulação cerebral. 1991. 1992). Winter.31. memória de curto e longo tempo. atingir a felicidade ou estabelecer um contato direto com Deus. que se transferiu dos mecanismos do subconsciente para as circunvoluções do córtex cerebral”. escreve Rüdiger (1995.em que uma parte é insubmissa e deve ser controlada. 2001. 1991. A partir da segunda metade da década de 1980. F . permitindo desde aumentar a performance do raciocínio e da memória. Habilidades tais como percepção. bem como a redutibilidade total da realidade aos desígnios do pensamento são também realçadas na autoajuda cerebral.

as evidências científicas da charlatanice e das afirmações e propostas disparatadas. 1980. até a sexualidade tântrica. p. em 1972. Ehrenwald. Bogen. Gainer. Se isso for verdade. Gazzaniga e Sperry. enquanto que indivíduos de classe média são mais orientados para o hemisfério esquerdo. tosca. Blakeslee. 1976). que tem lugar a partir dos anos 60 (invertendo a tradicional valorização do hemisfério esquerdo).92) Em um livro de 1997. desde a tipificação de artistas. no contexto da contracultura e das pesquisas sobre o ‘cérebro dividido’ (split-brain) de Bogen. boas intenções e bons trabalhos” (Ornstein. 1973. p. Gainer.NEUROCIÊNCIAS. brancos e europeus. muitas tarefas para o cérebro esquerdo não fazem sentido. Na época pós-Broca. (apud Ornstein. conduzindo a uma visão simplificada. Harris. explicaria por que muitos pobres nas cidades não têm sucesso nas escolas e por que consideram irrelevantes muitas tarefas exigidas na escola. observa Torkel Klinberg. entre outros (Harrington.29). 1962). o racionalismo e tecnificismo da sociedade ocidental. professor de neurociência cognitiva do Instituto Karolinska de Estocolmo. negros. 1999. simplificam e reconstroem muitos dos achados científicos.88). Boa parte dos bestsellers de autoajuda cerebral embarca na esteira da reabilitação do hemisfério direito. Mais relevante é mostrar como as práticas neuroascéticas reproduzem a lógica do sujeito cerebral e da autoajuda tradicional com uma roupagem cientificista. com sua ênfase na lógica e na linguagem. criminosos.13./dez. predominando em homens. Nele. No contexto de uma genealogia das práticas de si cerebrais. Atkins. 1987. teria reprimido as tendências holísticas e místicas do direito. NEUROCULTURA E AUTOAJUDA CEREBRAL Arthur Wigan e outros. índios. Edwards. mais próximo do pensamento oriental6. toda uma moda neuroeducativa que insiste nas inúmeras vantagens escolares do treinamento do cérebro direito. 1977. ao ser responsável pelas atividades intelectuais e civilizadas. não se trata de separar o joio do trigo. 6 Os educadores não aprenderam novos desenvolvimentos a partir da literatura primária. na época posterior à descoberta da localização da faculdade da linguagem no hemisfério esquerdo do cérebro pelo neurologista francês. 2005. 1981. out. 1997. desde finais dos anos 60. 1985. do clássico frequentemente citado The Psychology of consciousness de Robert Ornstein (1972). patente no predomínio do hemisfério esquerdo. Sperry. e idealizada (Harris. segundo sua ‘orientação’ cerebral. ‘onde está a evidência de que esses programas funcionam?’” (Lawton. em contrapartida. Os best-sellers de autoajuda cerebral reproduzem e exploram o ‘boom’ do cérebro direito.31. Gazzaniga. 1979. 1985. 1997. p. O direito. Hunter. Gazzaniga. Os novos neuroeducadores propõem como solução um equilíbrio hemisférico no currículo que compense os excessos da educação baseada no hemisfério esquerdo com seus fracassos educativos: Os estudantes que não acham a escola muito empolgante talvez possuam uma orientação cerebral esquerda. tal como descrita pela historiadora das neurociências Anne Harrington (1987). músicos. o hemisfério esquerdo era considerado superior. repudiando o sistema educativo tradicional baseado no hemisfério esquerdo (Herman.247-60. 2008. O mercado de autoajuda é inundado por uma enxurrada de títulos ligando o hemisfério direito aos mais bizarros fenômenos. 1987). 1980. Spotts. Ao nível das práticas de 254 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Ornstein faz uma certa mea-culpa ao se perguntar em relação aos estudos sobre o hemisfério direito: “Como é possível que as coisas escaparam do controle? Como é possível que todas essas pessoas tão bem intencionadas se afastaram tanto da evidência e inclusive do trabalho científico? Tudo começou com boas idéias. a capacidade mediúnica e outras atividades paranormais próprias do cérebro direito (Capacchione. mas predominantemente de livros e revistas que popularizam esse conhecimento. p. Existem evidências de que os pobres nas grandes cidades tendem a possuir uma orientação cerebral direita. Um marco importante nessa tendência é a publicação. Especialmente na pedagogia aparece. 2001. Bogen. políticos e ditadores. “Surpreende-me que as pessoas não se preocupem mais com a ciência”. 2009 7 Os próprios usuários dos diversos programas de brain-fitness não parecem se preocupar pelo seu embasamento científico. Wells. 1973. Para eles. 1989. 1977. 1984). preponderava em mulheres. 1985). Paul Broca. . por mais importante que seja essa tarefa7. n. isto é. loucos e homossexuais (Harrington. The Right Brain: Making sense of the Hemispheres. “que não perguntem.

213-4). 2004. Goldberg reconhece que a neuroascese “é uma extensão natural e lógica do exercício físico. no seu First Book in Physiology and Hygiene (1887). Outros insistem em planejar um programa de treinamento cerebral sistemático. verdadeiro “chiclete para o cérebro” (bubble gum for the brain) (Parlette. A ‘aptidão ou boa forma física’ tornou-se um termo caseiro. Dennison.16). 1987). Os “músculos cerebrais” (Goldberg. p. presente no título da maioria desses livros (Cohen. Ginástica cerebral na cultura somática A genealogia da neuroascese permite constatar também como os discursos e práticas dos bestsellers de fitness cerebral repetem as metáforas e os discursos da fitness corporal predominantes na cultura somática da biossociabilidade./dez. Mas os contextos socioculturais e a finalidade das práticas são diferentes.247-60. a partir da segunda metade do século XX. 2005). no qual o corpo físico. Já a própria ideia de ‘fitness cerebral’ ou ‘neuróbica’. guardar a devida distância entre os dois momentos históricos e levar em consideração diferentes fatores na formação de ‘selves objetivos’. é importante ter um “marathon trainer” e manter “diários de malhação cerebral” (brain workout diaries) (Chafetz. Trata-se dos mesmos exercícios. A fitness cerebral destinava-se a recuperar a retidão moral e garantir a ordem sociomoral erodida pela perda da legitimidade da autoridade tradicional (Gunsfield. e sim. 1992. Mark.213). 1992. em contrapartida. 1992. 1992). 1994. No entanto. p. da (neuro)ascese. seria ingênuo). p. 2001. inserir-se nas demandas da maximização da performance corporal da cultura somática na govermentalidade neoliberal. O sujeito cerebral transpôs o vocabulário da COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. melhor na resolução de problemas. Em ambos os casos. drogas e outras toxinas no cérebro de autores oitocentistas. possuir lembranças mais ricas e associações mais vivas” (Chafetz. p. 2001. Mark. p. Winter. de maneiras semelhantes de potencializar a performance cerebral. p. Berger. tais como: o papel desempenhado pela mídia. que não existiam na época da frenologia e dos movimentos de Self-Help e de New Thought. “da mesma maneira que o levantamento de peso na academia ou a corrida fortalecem um determinado grupo de músculos. Klatz. as tecnologias de visualização médica. o cérebro ‘azeitado’ de Kellog remete a um contexto de debilitamento e deslegitimação das regras sociais e da ordem moral. embora com finalidades diversas. sem dúvida. Os diversos livros e programas falam de “academia cerebral” (Brain Gym)” e de “levantamento de peso mental” (mental weight lifting). Goldsmith. 1992. Winter.e neuroascéticas. social e político estava fora de controle. 1999. “para aqueles que desejam exercitar o cérebro sistematicamente como um atleta exercitaria vários grupos musculares” (Goldberg. Para tanto. 1991. tais como John Harvey Kellog. 1997. si. existem assombrosas semelhanças. n. No fim do século XIX.13. no entanto. no nível das práticas de si.23). Goldman. Healy. Hoje. as práticas neuroascéticas redundam na formação de ‘selves objetivos’. da mesma dietética cerebral.ORTEGA. o sujeito cerebral não pretende restaurar ou legitimar formas tradicionais de autoridade. muitos motivos são recuperados da tradição neuroeducativa da frenologia e da autoajuda tradicional do século XIX.255) devem ser treinados sem excesso para não causar “câimbras cerebrais” (brain cramps) (Chafetz. isto é. da dieta equilibrada e do efeito de álcool. 2001. só recuperável pela vontade individual e pelas práticas bio . p. 1997. Ehrenberg. 2007. Diversos autores distinguem entre diferentes níveis de façanhas cerebrais. 2002).72).252-3. apesar de podermos usufruir da TV. (CBS. Dennison. p. Assim. é necessário. Para não cair em anacronismos e postular uma continuidade direta (o que. p. os exercícios mentais parecem fortalecer e aprimorar as funções cognitivas por longo tempo” (Tannen. p. A “aptidão ou boa forma cognitiva está a caminho de tornar-se a próxima tendência na cultura popular” (Goldberg. 2009 255 artigos . 1991. Chafetz.152-3). Eiffert. a indústria de psicofármacos. out. entre outros (Rose.31. pois “você não precisa atingir o equivalente cerebral do nível de fitness física de Steffi Graf ou de Michael Jordan para ser mais rápido na conversa. Os livros nos ensinam alguns “alongamentos cerebrais” (brain stretches) que “queimam algumas calorias sinápticas” (synaptic calories) para não nos tornarmos “batatas de sofá mentais” (mental couch potatoes) (Parlette. remete a essa analogia. 2006).253). É surpreendente constatar como os programas neuroascéticos dos best-sellers contemporâneos repetem recomendações sobre exercícios cerebrais e sobre a importância do exercício físico. mesmo existindo descontinuidades nos contextos socioculturais e nos objetivos dessas práticas. Esse treinamento deve permitir que os diversos músculos cerebrais sejam exercitados alternadamente e de modo equilibrado. 2002. F . 1989.

É preciso saber se queremos pagar esse preço. mas./dez. Ao mesmo tempo. permitindo ao estado e a outros atores governarem a distância e governarem mediante a liberdade dos indivíduos (Maasen et al. relações consigo e com os outros enquanto sujeitos cerebrais. ignorando-se os fatores ambientais e sociais.e da cultura somática da biossociabilidade. p. Nesse contexto.. O sujeito autônomo. de autogoverno. o perigo das políticas identitárias reducionistas e as explicações da depressão e de outros transtornos e doenças mentais em termos exclusivamente cerebrais. Trata-se de uma forma de governo que demanda uma cidadania ativa e indivíduos capazes de monitorar e controlar a si mesmos. todo dispositivo de saber-poder é um mecanismo de assujeitamento. especialmente da plasticidade cerebral. responsável e gestor dos próprios riscos. medidas neuroeducativas. Na cultura somática. ao mesmo tempo. 1999). 256 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. O sujeito cerebral implica formas de subjetivação. Trata-se de tecnologias de governamentalidade. negligenciamos o papel da ontologia do sujeito cerebral e da neurossociabilidade . A autoajuda cerebral deve ser inserida no contexto da genealogia da autoajuda. atingindo um caráter de quase obrigatoriedade numa sociedade que favorece selves ativos e emprendedores. cabe a nós apostarmos em alternativas para esta ideologia simplificadora da vida subjetiva e relacional que não sejam epifenômenos do sujeito cerebral. Se. com consequências severas em diversas esferas socioculturais e clínicas. deve se adaptar e aprimorar suas capacidades e habilidades para atingir as demandas de um mercado cada vez mais competitivo. 2009 .13. n.247-60. Este fato remete a visões reducionistas e empobrecidas da vida subjetiva e relacional. práticas neuroascéticas contribuem para colocar essas subjetividades normativas no centro da sociedade neoliberal. Fazendo assim. Conclusão: sujeito cerebral. NEUROCULTURA E AUTOAJUDA CEREBRAL fitness corporal para o cérebro. Entre elas. Ela contribui na produção de cidadãos capazes e responsáveis por governar a si mesmo e aos outros. em um sentido mais amplo. 2007). segundo as quais o cérebro responde por tudo o que outrora costumávamos atribuir ao indivíduo. abre possibilidades da resistência.NEUROCIÊNCIAS. Na governamentalidade neoliberal.31. fitness corporal e cerebral andam lado a lado. A autoajuda cerebral se torna uma oferta e uma obrigação para o bem individual e da comunidade. ao ambiente e à sociedade. Na autoajuda cerebral os principais motivos da autoajuda tradicional aparecem em nova roupagem cientificista. cada indivíduo é um empresário que deve administrar sua própria vida (Dean. segundo Foucault. out. isto é. neuroascese e govermentalidade neoliberal É importante frisar que não podemos reduzir o surgimento e popularização das práticas de neuroascese descritas neste texto aos avanços dos conhecimentos neurofisiológicos. aprimoramento cognitivo e outros tipos de práticas neuroascéticas se tornam moeda corrente. como foi sublinhado no texto. fornecidas pela psiquiatria biológica aliada à indústria farmacêutica. temperados com o jargão da cultura somática e das academias de ginástica.

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Discipline curricula in the health area: an essay on knowledge and power. The present paper provides a historical review regarding knowledge and power construction.261-72. Avenida Alberto Torres. Complexidade. Teresópolis. a transdisciplinaridade e o pensamento complexo como referenciais teóricos para ultrapassagem da lógica disciplinar. Interdisciplinarity. taking disciplinary organization as the basis for the discussion about the confinement of knowledge to disciplines in health professionals’ education. Complexity./dez. V. sem qualquer envolvimento de dados gerados a partir de pesquisa com seres humanos.261-72. 2009 261 . UNIFESO. Interface ..964-004 veronicatere@gmail. Keywords: Interdisciplinarity. n. Educ./dez. propõe a interdisciplinaridade. UNIFESO.S. Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO). UNIFESO. Por isso. Artigo original.Comunic.31. Profissionais de saúde. n. Alto. Health personnel. O presente artigo traz uma revisão histórica sobre a construção do conhecimento e do poder a partir da organização disciplinar como base para a discussão do confinamento do saber em disciplinas na formação dos profissionais de saúde e suas consequências nos modos de produzir atenção à saúde. não foi submetido a parecer de Comitê de Ética em Pesquisa. Conhecimento. Brasil.13. 25.Currículos disciplinares na área de saúde: ensaio sobre saber e poder* Verônica Santos Albuquerque1 Rodrigo Siqueira Batista2 Suzelaine Tanji3 Edneia Tayt-Sohn Martuchelli Moço4 ALBUQUERQUE. Curriculum. out.com 2 Curso de graduação em Medicina. Saude. * COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. com base ensaio em puramente teórico. et al. 111/5º andar. Transdisciplinarity. v. 3 Curso de graduação em Enfermagem. transdisciplinarity and complex thought are proposed as theoretical principles to overcome the disciplinary logic. 1 Curso de graduação em Enfermagem. Knowledge.. Currículo. Transdisciplinaridade. 4 Centro de Ciências da Saúde. out.31. p. Palavras-chave: Interdisciplinaridade. p. 2009. and its consequences to the ways of delivering healthcare. RJ.13. Ato contínuo.

2002). Neste âmbito. enquanto acumulavam-se as necessidades básicas de saúde de grande parte da população brasileira. 2005. cabendo mencionar: (1) A ruptura com as “grades” disciplinares. e (4) as experiências de práticas interdisciplinares. e (3) o ensino fragmentado em inúmeras disciplinas.. 2006). Essa abordagem interdisciplinar implica a ultrapassagem das fronteiras entre as disciplinas . Considerações iniciais A formação superior dos profissionais de saúde foi. como modo de criticá-la e transpô-la. A histórica construção do conhecimento e do poder a partir da organização disciplinar O vocábulo ‘disciplina’ tem díspares acepções possíveis. transdisciplinar . 2007. especialmente.delimitando-se.CURRÍCULOS DISCIPLINARES NA ÁREA DE SAÚDE: . justificando o esforço do Ministério da Saúde no sentido de reorganizar a atenção à saúde . mesmo. (3) regulamento sobre a conduta dos diversos membros de uma coletividade. o uso intensivo de tecnologia e os procedimentos de alto custo. à humanização e ao cuidado são colocadas em segundo plano (Rêgo et al. 2003). que tem por finalidade o bem-estar dos membros e o 262 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.. na perspectiva de se desenharem novos sentidos para a formação.na construção dos conhecimentos. p./dez.31. De fato. Dentre os inúmeros fatores que contribuem para o descompasso entre a formação em saúde e as necessidades de saúde brasileiras. surgem três aspectos cruciais: (1) A falta de integração entre o ensino básico e o profissionalizante. Komatsu. construção de vínculos e responsabilização (Pinheiro.na lógica da integralidade do cuidado -. Estas questões se intensificaram ainda mais nas últimas décadas. Lima. na doença e no trabalho hospitalar . n. privilegiou a especialização. 2005). dentre outras (Albuquerque et al. Assim. bem como das possibilidades de superação de sua lógica na formação em saúde.vinculou-se à excessiva especialização e ao distanciamento dos conteúdos curriculares necessários à formação de um profissional de saúde com perfil capaz de responder às necessidades da população (Feuerwerker. abordagens que se referem à ética. out. Frente a esse cenário. pode ser definida como: (1) ensino e educação que um discípulo recebia do mestre. de modo geral. que tantas vezes induz precocemente à formação profissional especializada (Rodrigues. imposto ou aceito democraticamente. desenvolvidas em algumas instituições de Ensino Superior brasileiras. (2) obediência às regras e aos superiores.espaços de confinamento por excelência . (2) a opção por estruturas modulares integradas. Essa construção . por um longo tempo. Considerando essas experiências. Mattos. fruto de uma formação que. Tal dificuldade relaciona-se com o perfil dos egressos. historicamente construída sobre a fragmentação de conteúdos e organizada em torno de relações de poder. Com efeito. Feuerwerker. Reis. 2007).261-72. Tal é a proposta do presente ensaio. Rezende et al. dotados de visão humanística e preparados para prestar cuidados contínuos e resolutivos às pessoas (Brasil. a compreensão do ser humano e do processo saúde-doença passa necessariamente por uma abordagem interdisciplinar . As novas maneiras de organizar a prestação de serviços e formação em saúde precisam levar em conta as necessidades dos usuários.13. tais como o enfoque privilegiado nos determinantes biológicos.e. Dellaroza. as quais conferiram ao professor especialista uma posição de centralidade no processo de ensino-aprendizagem. seu emprego em termos educacionais na formação do trabalhador de saúde -. experiências transformadoras. várias são as estratégias adotadas pelos cursos de graduação na área da saúde que optaram por transformar seus currículos. Padilha. (3) o desenvolvimento de atividades transversais.e a articulação dos processos de ensino-aprendizagem ao trabalho e à pesquisa. p. vislumbram a formação do profissional de saúde capaz de prestar cuidado integral a indivíduos e coletividades. Vanucchi. surge a necessidade de se refletir sobre a lógica da organização disciplinar dos currículos para as graduações na área da saúde. 2009 . (2) a formação de profissionais cada vez mais especializados e despreparados para uma atenção generalista. 2003. 2006. organizado em torno da reflexão histórico-conceitual acerca da disciplina . entendido como aquele que considera a capacidade de escuta....entre outros aspectos. de acordo com Houaiss (2001. 2002). acolhimento. o qual tem sido obstaculizado pela precária disponibilidade de profissionais com formação generalista.653).

261-72. (6) castigo.cujo projeto ideal pode ser reconhecido na fábrica (Siqueira-Batista. cada um com suas leis: primeiro a família. eventualmente a prisão. nos quais se estabelecem relações de poder em diferentes domínios (Siqueira-Batista. o resgate da razão e da objetividade científica foi saudável e as especializações foram criadas na tentativa de acompanhar o acúmulo crescente do saber-efazer humano.ao passo que a biopolítica das populações é dirigida aos elementos biológicos e sociais. Com efeito.219) A organização da sociedade disciplinar articula-se ao entendimento de que o sujeito. n. passou-se à especialização das mentes. Esses ordenamentos foram bastante propícios ao desenvolvimento da especialização de caráter disciplinar em concordância com o desenvolvimento da ciência e da técnica experimentados a partir do século XIX.o indivíduo (anátomo-política do corpo) e a massa (biopolítica das populações) . firmeza. em concordância com Foucault e Deleuze. por sua vez. que no início cumpriram uma função sócio-cultural necessária e fundamental. Mais tarde. os quais são interconectados por múltiplas redes de relações (Foucault. Sobre esse aspecto.as quais. sendo alvo de discursos institucionalizados. encontra-se submetido a espaços de confinamento.S. ao longo de sua vida e sua história. Tal enfoque disciplinar . nos quais a disciplina é exercida de forma institucionalizada. 2009 artigos bom andamento dos trabalhos. distribuir no espaço. 1992). a qual se constitui como normalizadora e homogeneizadora por excelência. Assim. matéria. Ambas as dimensões . depois a escola (“você não está mais na sua família”). os ‘videntes do mínimo’. a biológica e a humana . De fato. p. dividiu a universidade em três grandes áreas . (4) ordem. De fato. bom comportamento. 2007): concentrar. penitência. em espaços fechados. instituída após Napoleão ter “operado” a grande conversão de uma a outra (Deleuze. Foucault reconhece que o poder sobre a vida nas sociedades modernas se estabelece em dois polos . 2009). tais como reprodução. nascimento e morte.como fruto típico do racionalismo científico -. (Deleuze.31. A anátomo-política do corpo diz respeito ao desvendamento e produção de discursos e práticas sobre o corpo humano . depois a caserna (“você não está mais na escola”). A emergência da sociedade disciplinar diz respeito à própria evolução do capitalismo./dez. ordenar no tempo.a tecnológica.ALBUQUERQUE. 1977). o movimento passou a ocorrer por puro 263 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Siqueira-Batista. et al. disciplinada em sua docilidade e produtividade . compatíveis entre si. nos últimos quatro séculos. as conotações expostas nos itens “3” e “4” têm particular importância ao se reconhecer a disciplina como um modo segundo o qual se organiza a sociedade. 1992. Surgiram os ‘experts nas partes’. da organização disciplinar. p. estando em profunda interseção com os modos de produção estabelecidos no período ulterior à Revolução Industrial. Ainda que o sentido apresentado no item “7” seja aquele usualmente empregado nas discussões de cunho educacional. (7) ramo do conhecimento. se estilhaçaram em dezenas de sub-ramos e especializações. de vez em quando o hospital. havendo necessidade de se passar de um para o outro ao longo da vida: O indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro.anátomo-política do corpo e biopolítica das populações -. os confinamentos são moldes. Crema (1993) chama a atenção para o desenvolvimento do método analítico de Descartes na superação do paradigma escolástico aristotélicotomista medieval da época: Para aquele momento. que acabaram por sepultar o ‘homem pluriapto’ ou ‘homem total’. depois a fábrica. compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à soma das forças elementares -. (5) obediência a regras de cunho interior.abordado como máquina a ser otimizada. onde a disciplina faz sustentar um tipo específico de conduta esperado pela sociedade por intermédio da organização de sua rotina e do estabelecimento de relações hierárquicas. constância. sobretudo por meio da educação formal. a constituição de uma sociedade disciplinar é sucessora das sociedades de soberania. mortificação. a qual é marcada pela organização em termos de espaços de confinamento .são dispositivos. out.13. . V. que é o meio de confinamento por excelência. entretanto. ciência.

parte integrante do sistema educacional brasileiro. tem sua inspiração no modelo industrial. além de isolados do mundo e da vida. das relações interpessoais. 2009. sem conexão umas com as outras. Implica. culturais e ecológicos do adoecer humano. hierarquia e poder. pode-se inferir que o campo das relações entre poder e organização disciplinar da construção do conhecimento apresenta muitas variáveis. tornou-o um sofisticado ‘prisioneiro das frações’. explicam por que os profissionais de saúde. (2) dedicam mais atenção aos problemas de saúde individuais do que aos coletivos. que. em uma estrutura disciplinar. a seleção e o modo de operar os conteúdos. ainda hoje. Saippa-Oliveira. e não por sua capacidade de ajudar o homem a compreender o mundo. A formação superior dos profissionais de saúde. com quem . são espaços que recebem maior investimento por parte da comunidade acadêmica. Em geral. 1993. 2009 . out. as disciplinas que lidam com os aspectos biológicos e com as intervenções no corpo. impossibilitando. as disciplinas são pensadas nos planos dos saberes e dos conteúdos. As disciplinas são fragmentadas e estanques e.tornando o mundo uma disciplinar ‘colcha de retalhos’ (Veiga Neto. (1) direcionam sua prática às especializações. incapazes de aproveitar as referências correlatas entre algumas delas. certamente. criando uma visão reduzida e recortada de determinada temática.31. e (3) deixam em segundo plano os fatores psíquicos. 2001). fragmentação do saber e especialização na formação em saúde Uma vez realizada a reflexão sobre as concepções de ‘disciplina’ e a relação entre organização educacional.. em que momento. Nesse cenário o que se observa é que cada disciplina confina seus saberes e compartimentaliza os conteúdos. (Crema. Pouca atenção está voltada àquelas que propõem reflexões e ações no campo da ética. Outro fenômeno de grande importância nesta análise diz respeito à atribuição de valor às diferentes disciplinas. condicionamento dissociativo. de maneira a sair do contexto da escola para o contexto da vida.261-72. 2006). calcados nas disciplinas. majoritariamente. mas a desconexão cada vez maior da visão global. sua realidade e a posicionar-se diante de seus problemas vitais e sociais (Luck. no domínio pedagógico o termo disciplina indica as atividades de ensino ou o ensino de uma área do conhecimento. A maior parte dos currículos dos cursos de graduação na área da saúde se organiza. na maioria vezes.onde se deve estar..13. a educação é essencialmente passiva. Com esta configuração. o exercício da conexão entre os conhecimentos por parte do profissional de saúde em formação. Assim. que se constrói naturalmente a partir de um paradigma reducionista e fragmentado. Assim. Estrutura disciplinar. na qual os ciclos básicos e profissionais são completamente separados.. histórica e coletiva. Isso impacta no perfil do profissional. afetivos. Ser especialista adquiriu status. Koifman. nomeiam de “grade” o currículo e de “disciplina” os conteúdos. no campo epistemológico. Nestes termos. Pinheiro. é como uma linha de montagem de uma fábrica: as diversas disciplinas. da forma como os sujeitos se relacionam e de como este modo de operar pode ser (re)contextualizado. fundada no acúmulo de dados e os espaços de formação que. intrapsíquicas e das interações sociais. baseados em grades disciplinares. Com base nas presentes considerações. geralmente. Koifman e Pinheiro (2006) concordam que as disciplinas pensadas de modo compartimentalizado conferem caráter unidimensional aos conhecimentos. a conformação da sua visão do mundo e as suas práticas de atenção à saúde das pessoas. do ambiente. instaurando a ênfase em informações isoladas que passam a valer por elas mesmas. p. a vida e o contexto ficam afastados dos espaços formadores. n. 2002). mediadas por procedimentos. históricos. fazendo o quê. 264 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.138) Com efeito. das humanidades. os currículos por disciplinas ordenam as ações dos corpos ./dez.CURRÍCULOS DISCIPLINARES NA ÁREA DE SAÚDE: . p. que mais parecem um presídio de alunos. Assim sendo. Tantas são elas e de tal força que a proposta de ultrapassar as disciplinas demanda uma profunda reflexão social. torna-se factível analisar a estrutura dos currículos formadores de profissionais da saúde. segundo Mosé (2008). a disciplina se caracteriza por cada um dos ramos (especializações) do conhecimento. Saippa-Oliveira. se. são partes de um mundo que está distante do estudante. muitas vezes negando-os como elementos centrais na construção das alternativas de cuidado (Siqueira-Batista et al. uma vez formados.

estudantes e funcionários. no tempo e no espaço vigentes (Veiga Neto. p. a discussão de COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. entre docentes.e também em relação à multidisciplinaridade: [. Ultrapassagem da lógica disciplinar na formação em saúde: interseções e resistência Como visto anteriormente. ao se reconhecer a complexidade da sociedade contemporânea e a existência de diferentes valores. poucos são os estudantes que conseguem vislumbrar algo que permita unir ou integrar os conteúdos ou os trabalhos das diferentes disciplinas. 2009 265 artigos . Para isso é preciso impor. matizadas pela flexibilização e pela rediscussão das relações de poder. no fundo. às barreiras disciplinares e organizativas. contribui decisivamente para a definição e legitimação daquilo que é considerado saber autêntico e aceitável.. como aponta Santos (1997) ao dizer que a universidade não poderá promover a criação de comunidades interpretativas na sociedade se não as souber criar no seu interior. científicas e sociais. O conhecimento tão somente acadêmico e informativo é priorizado. de modo mais fecundo. cuja organização prevê o domínio de cada disciplina como requisito para estudantes e professores . 2005).38) Com efeito. Assim. recortada e procedimento-centrada dos profissionais de saúde. A interdisciplinaridade é a utilização de vários pontos de vista. et al. as quais permitam repensar a formação de profissionais para atuar. optou-se por refletir sobre a ultrapassagem da lógica disciplinar com base em dois referenciais: (1) a inter/trans/metadisciplinaridade e (2) a complexidade. além de favorecer o pensamento unidimensional. 2005).ALBUQUERQUE. a transdisciplinaridade é o atravessamento das fronteiras disciplinares.. uma pressão constante. de maneira que possam ser empregadas em diferentes contextos e situações profissionais cotidianas. reitera-se. 1998). induz a uma formação reducionista.261-72. mas com a finalidade cooperativa de construir um objeto teórico comum. consideradas limitadas para dar conta do problema. Dessa forma.e também como conjunto de rituais. n. Esse modelo linear. rotinas e linguagens criado entre estes atores -. Em geral. que considere a abertura da academia aos movimentos de passagem de uma estrutura disciplinar para alternativas mais abertas. subvertê-las. p.31./dez. A relação mais estreita entre os conteúdos que são trabalhados nos currículos e as necessidades dos estudantes é desejada. cabe distingui-los entre si . a posição central ocupada pela disciplinaridade. a interdisciplinaridade se dispõe como configuração de modos de trabalhar com encontros. transdisciplinaridade e metadisciplinaridade Os termos interdisciplinaridade e transdisciplinaridade são extremamente polissêmicos. Por fim. a organização disciplinar na formação em saúde apresenta os conhecimentos fragmentados e fora de contexto. impacta na relação da universidade com a sociedade. as disciplinas tornam-se as principais maneiras de se analisar e intervir na realidade. uma vez que estas se apresentam claramente separadas umas das outras. a segunda metade do século XX e o alvorecer do século XXI têm mostrado que o conhecimento deve receber tratamento multidimensional. permitindo que os saberes surjam de modo descontextualizado e aparentemente desprovido de qualquer ideologia (Santomé.a qual entende os campos de conhecimento como dimensão desconectada das realidades de saúde da população -. out. V. isto é. (Schramm. presentes nas questões humanas. 2002. com intensidade.13. Interdisciplinaridade. Essa compartimentalização . pontos de vista diferentes que produzem objetos teóricos diferentes. diálogos e conexões entre os saberes (Pombo.] a abordagem multidisciplinar é o olhar de várias disciplinas específicas sobre um mesmo problema.S. fragmentando e isolando os conteúdos. Na atualidade. Com base nesses aspectos. Contrariando essa ideia de confinamento disciplinar dos saberes. buscando. Para delimitar-se melhor tais elementos. tornando necessária a construção de processos mediatizados pela subjetivação. em um novo formato.

de múltiplos fatores e interações” (Severino. Nesse sentido.13) apresenta esse conceito como “a abordagem científica. por mais utópica que possa parecer.29). cultural. simplicidade/ complexidade. a interdisciplinaridade exige um debate sério e honesto. de vincular e de restaurar. 266 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.140) propõe uma reflexão sobre a transdisciplinaridade como uma “abertura do especialista ao todo que o envolve e à dialogicidade com outras formas de conhecimento e visões do real. de religação dos saberes. através das disciplinas e além de toda disciplina”. p. (Japiassu.261-72. mas. de um espírito ou mentalidade propriamente transdisciplinar. como apresenta Fazenda (2003): atitude de buscar alternativas para conhecer mais e melhor.215). espiritual e social dizendo respeito ao que está entre as disciplinas. os diferentes profissionais da saúde -. interdisciplinaridade no campo de formação em saúde exige um referencial mais próximo à ideia de atitude. p. p. p. a ultrapassagem da lógica disciplinar de estruturação curricular . Japiassu (2006. não somente de procurarmos integrar e religar as diversas disciplinas de nosso saber em quadros de pensamento suscetíveis de corresponder aos grandes problemas que nos colocamos e que nos desafiam. envolvimento e comprometimento com os projetos e as pessoas. sobretudo quando se parte do princípio da integralidade como eixo nuclear nas mudanças na formação e nos modelos de atenção à saúde. 2002. Esse movimento de tornar cada vez mais tênues as fronteiras entre as disciplinas faz emergir conceitos. torna-se imprescindível que abandonemos a rotinização e as falsas seguranças de que ainda se vangloriam nossas disciplinas isoladas e nos entreguemos ao sonho da aventura transdisciplinar apresentando-se como um meio de compensar as lacunas do pensamento científico mutilado pela especialização e exigindo a restauração de um pensamento globalizante em busca da unidade. n. 2006. matéria/consciência. p. pois. A transdisciplinaridade torna-se. para uma reforma do pensamento e da educação. visando a complementaridade”. a ampliação da visão de mundo e novas possibilidades de atuação.CURRÍCULOS DISCIPLINARES NA ÁREA DE SAÚDE: . transformá-lo num construtor de pontes. atitude de perplexidade ante a possibilidade de desvelar novos saberes./dez. atitude de desafio diante do novo.. atitude de humildade diante da limitação do próprio saber. à contextualização e à necessidade de resposta a problemas complexos e fundamentais da existência: Donde a necessidade e a urgência. que seja capaz. também.que passa a integrar não só os conteúdos das diversas áreas do saber. p. A proposta é transmutar o especialista fechado na especialidade. tanto na esfera do ensino. sem o que se torna impossível conhecer e entender os fenômenos que se revelam campos complexos. Crema (1993. Porque num mundo em que ninguém parece entender ninguém. Postula-se a motivação e a disponibilidade para o desafio da convivência com a diversidade e do trabalho em equipe. 2004. além de fracionar. com pares distintos ou consigo mesmo. A atitude transdisciplinar apresenta-se no grau máximo de relações na integração de disciplinas. Embora a experiência de ultrapassar o modelo disciplinar traga conflito e desconforto. como o de transdisciplinaridade. possibilita a recondução ao prazer da descoberta. interna ao desenvolvimento científico. a transdisciplinaridade “nasce e é construída da necessidade. atitude de reciprocidade que impele à troca. ao diálogo com pares idênticos.31. nem ser contrário às especializações.13. quanto do trabalho em saúde. subjetividade/objetividade. mas de valorizarmos os conhecimentos multi e interdisciplinares e promovermos o desenvolvimento no ensino e na pesquisa. out. Nestes termos. que permitem a interconexão dos conteúdos no sentido de auxiliar na unificação dos conhecimentos e compreensão da realidade. No entanto.. unidade/diversidade ou masculino/feminino” (Moraes.17) Cabe ressaltar que a proposta inter/transdisciplinar não significa negar cegamente as disciplinas. uma resposta adequada à globalidade. Considerando a compreensão proposta para interdisciplinaridade. Essa atitude “transgride a dualidade que se opõe ao binário simplificador e é capaz de articular sujeito/objeto. se entrelaça às discussões sobre as práticas e os “atos” corporativos: Vive-se um momento histórico em que as corporações das profissões da saúde empreendem um movimento conservador em relação às suas competências específicas. ao desestabilizar dispositivos de segurança e relações de poder. consciente da dinâmica do ‘todo’ e das ‘partes’. atitude de responsabilidade. nos dias de hoje. 2009 .

Em recente estudo. Sua formação será rigorosa. é mister relacioná-lo com a produção de conhecimento na sociedade moderna: O paradigma da ciência moderna. um caminho para a interdisciplinaridade desejada: professores de determinada especialidade devem trabalhar diretamente com outros professores de outro ramo do saber. Os laços de solidariedade humana se fragilizam. podemos vivenciar essa transposição da lógica disciplinar por meio de currículos que operem com módulos integrados com o processo de trabalho e a construção de cidadania do profissional de saúde em formação (Albuquerque et al. como sujeitos capazes de comunicar esse saber de forma que sua responsabilidade perante a sociedade esteja sempre presente e atuante (Etges. o qual tem como ponto de apoio a superação da visão disciplinar. p. capazes de atuar como sujeitos perante o saber que constroem. como apresentar-se-á a seguir. Rôças. mas sim o meio que dispomos para conhecer uma realidade que é global e holística” (Zaballa.. Nessa perspectiva. passou a ameaçá-la de forma perigosa para sua própria espécie e todas as outras. rejeita os laços e suas intercomunicações com o meio e sua característica de multidimensionalidade. out. et al. 2009 267 artigos . burocrática e basicamente autoritária por estrutura.16) COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. A formação dos graduandos se dará por meio de projetos interdisciplinares.S.13.ALBUQUERQUE. assentado na razão. Na universidade. Nessa proposição. 2004). V. a departamentalização e a organização disciplinar não dão conta da formação profissional adequada nem para o mundo. na pesquisa. mas não bitolada para uma única atividade profissional. 2006. Tendo em vista tais pressupostos. característica de uma fase do capitalismo que já passou. em nenhum momento. deverá ser necessariamente abolida. na divisão/análise e na máxima “conhecer para controlar” reduziu os problemas e suas respostas a modelos para a ação transformadora sobre a natureza e controladora da sociedade. Esse processo de mudança na formação traz elementos de contraposição à visão irreal de fragmentação dos saberes apresentados nos currículos disciplinares. Entretanto. p. p. a estrutura departamental. O enfraquecimento da percepção do global conduz ao enfraquecimento das responsabilidades (já que cada qual tende a ser responsável apenas por sua tarefa específica) e da solidariedade (os vínculos entre os cidadãos são recalcados). Siqueira-Batista. as globalidades e as complexidades (Morin. (Baumgarten. 2002. É nesse ponto que o paradigma da complexidade fundamenta a proposta de ruptura com o modelo de ensino-aprendizagem por disciplinas. nem para a trajetória de vida dos indivíduos. Monteiro. a fim de trazer o referencial da complexidade para o debate na formação em saúde. Complexidade As especializações disciplinares apresentam progressos dispersos. o objeto de estudo.34). De um modo prático. Outra proposta apresentada por Etges (2004) encontra. cada dimensão do humano e do planeta é separada e encerrada nos vários departamentos das ciências./dez. Esse trânsito deve ser permitido para grandes projetos de pesquisa. n. mas instrumentos ou meios para se alcançarem objetivos pretendidos. fragmentando os contextos. 2008). a visão globalizadora exige um pensamento complexo para produzir conhecimento crítico. produzindo conhecimentos disciplinares e com alto nível de especialização. significativo e relevante. natureza e sociedade nunca deixaram de ser complexas e o mundo atual é a expressão dessa complexidade – os problemas que nos apresentam são multidimensionais e as contradições se avolumam. Zaballa acrescenta ao debate o conceito de metadisciplinaridade. Para Behrens (2006).31. O ser humano – alienado por suas próprias mãos – da natureza. A formação de redes põe todos os pesquisadores em condições de igualdade. 2008. A interdisciplinaridade aponta saídas viáveis e extremamente fecundas para uma universidade composta por pessoas livres. as disciplinas não são. Na atualidade. Portanto. desfazem e contradições irredutíveis emergem no cotidiano natural e social. entendendo-se que um dos princípios fundamentais de organização deverá ser a liberdade. a metadisciplina deve ser entendida como “a ação de se aproximar dos objetos de estudo a partir de uma ótica global que tenta reconhecer sua essência e na qual as disciplinas não são o ponto de partida. 1991). transformador.261-72. A especialização extrai um objeto do seu contexto. Separar e reduzir têm sido máximas do paradigma moderno.

segundo Morin. mas. Diferentemente dos pensamentos simplificadores. porque é um pensamento multidimensional e que articula. 2006. out. 2007). Tarride. alicerçados na inter/transdisciplinaridade e no pensamento complexo. As instabilidades vigentes. Aleksandrowicz. Ciurana. à ética e à política”. com o outro e com a natureza deve ser o pressuposto máximo das mudanças curriculares na saúde. social e ecológica da vida. utilizamos o referencial do pensamento complexo que. p. mais do que eventos isolados. 2005). p. A complexidade não pressupõe um pensamento completo . A complexidade. Vasconcelos. da sociedade e do ambiente. desconsiderando que toda luz também produz sombras como efeito. Trata-se de um espaço mental no qual não se obstaculiza.é um pensamento que postula a dialogicidade. da mente. A partir desta breve contextualização das características do pensamento complexo. nem a eliminação do simples. E isso porque o pensamento complexo conhece os limites epistemológicos introduzidos pela ciência contemporânea. 2007). Motta.CURRÍCULOS DISCIPLINARES NA ÁREA DE SAÚDE: . 2002). Não podemos partir metodicamente para o conhecimento impulsionados pela confiança no claro e distinto. que partem de um ponto inicial e conduzem a um ponto terminal. confrontada com a mera simplificação . Motta. mas também à sociedade. temos de aprender a caminhar na escuridão e na incerteza (Morin. 2009 . aborda um problema lógico e geral: “A complexidade diz respeito não apenas à ciência. n. a recursividade. e aquela (mais perigosa) que acredita que o conhecimento é um processo linear. que o movimento e a imprecisão são mais potentes do que um pensamento que os exclui e os desconsidera (Morin.52). mas se revela e se desvela a incerteza. Rever essa forma de produção do conhecimento e de cuidado consigo. a complexidade não é a simplificação colocada às avessas. Ciurana. evidentemente. p. Ciurana e Motta (2007. pelo contrário. nos diferentes domínios da vida. Ciurana. é possível encontrar coerência com a proposta de formar profissionais de saúde com base na construção de conhecimentos e práticas que integrem as dimensões biológica. pautadas no novo “monstro” de Burroughs (Deleuze. mas reposiciona .13) chama de “uma maneira coerente e sistêmica de encarar algumas das questões mais críticas da nossa época”. Motta.13. Para tal. 1998). A ambiguidade do pensamento complexo é dar conta das articulações entre os domínios disciplinares fraturados pelo pensamento desagregador (Morin. A complexidade. 1992)..a qual esta não exclui. Por isso.. 2004). então. incluindo o desenvolvimento do que Capra (2002. Motta. em direção a novas modalidades de organização (Chevitarese. é factível avançar na perspectiva de ultrapassar o confinamento disciplinar e apostar em desenhos curriculares para a área da saúde. Considerações finais A disciplina está em crise . 2007). A partir desse ponto de vista./dez. o controle: 268 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.261-72.esta não pode sê-lo. cumulativo. se inscrevem no âmbito de uma profunda mutação social.31. Nestes termos. uma organização curricular que se disponha a ultrapassar o “cárcere” disciplinar pode ser uma proposta contra-hegemônica àquelas orientadas por uma visão maximizadora de recursos e restritiva do ponto de vista da cidadania. Koiffman. o pensamento daquilo que é complexo é um pensamento rotativo. que avança trazendo a luz ali onde antes havia escuridão. não despreza o simples. Nesse sentido. Pedro. marca deste tempo. incluída a educação. espiral (Morin. psíquica. a hologramaticidade (pressuposto que implica um elemento básico de um conjunto que pode conter quase a totalidade da informação sobre um fenômeno maior) e a holoscópica como seus princípios mais pertinentes. No domínio do pensamento complexo reconhece-se a existência de dois tipos de ignorância: aquela que não sabe e quer aprender. é preciso partir da extinção das falsas clarezas. O pensamento complexo reconhece. 2007. da integralidade e da equidade que o trabalho em saúde pode produzir (Saippa-Oliveira. Nesse contexto.anúncio vociferado por Foucault e Deleuze -. mas critica a simplificação. deslocarse para além da lógica disciplinar é apenas um movimento coerente com a proposta de desenvolvimento em termos de complexidade do saber-fazer em saúde (Siqueira-Batista. Ciurana.

em O Processo. Rev. Esse é o nosso futuro. qual dos regimes. definidos por Deleuze (1992). São Paulo: Cultrix.A. desta ou daquela maneira .31. mas. CHEVITARESE. na medida em que ampliam possibilidades de pensar acerca dos enredamentos de técnica e poder. Ministério da Educação. UFPE On Line.125-73. Sociologias.5) Nestes termos. p. mas as pessoas podem trafegar até o infinito e “livremente”. U. BEHRENS.8. 1992. 2007. Bras. PEDRO. e serem perfeitamente controladas. Petrópolis: Vozes.R. Referências ALBUQUERQUE. BRASIL.2. 2006. O controle não é uma disciplina. BAUMGARTEN. os quais são particularmente pregnantes na saúde. a reflexão inter/transdisciplinar e a complexidade podem ser antídotos. et al. In: WEIL. e de Phillip Dick. Sociedade e conhecimento – ordem. n. Não digo que esse seja o único objetivo das estradas. Pressupostos da construção de um novo currículo para o curso de Enfermagem. Est. ao fazer estradas. contratos didáticos e portifólios. R. p.296-303. ALBUQUERQUE. D’AMBRÓSIO. São Paulo: Edições 34. 3.13. G.M. n. p. Brasília: Ministério da Saúde. Com uma estrada não se enclausuram pessoas. R.. F . As conexões ocultas: Ciência para uma vida sustentável. Conversações.15. Sociol.P . M. V.ALBUQUERQUE.31. 2009 269 artigos . não sem sofrimento e dor. P .397-403. 1992. et al. Rumo à nova transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. em Minority Report. CREMA. 2006. caos e complexidade. cabem as interrogações sobre os caminhos que ora se constroem em nome da ultrapassagem disciplinar: (1) A quais interesses servem? (2) A que lógica pertencem? (3) Em nome de quais dispositivos de poder se instituem? Colocar-se tais questões . Ministério da Saúde. L. v. 2005.261-72.3. 2002.). (Deleuze... V./dez.S.Nesta perspectiva.1. Med.16-23.8. São Paulo: Summus. Colaboradores Os autores trabalharam juntos em todas as etapas de produção do manuscrito. V. out. multiplicam-se os meios de controle. R.mais do que respondê-las.S. Paradigma da complexidade: metodologia de projetos. mas sem deslizar para as artimanhas do controle. n. p.129-62. Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde – Pró-Saúde. é o mais duro: os buracos da toupeira ou os anéis da serpente. CREMA.ed. Educ. Além das disciplinas: reflexões sobre transdisciplinaridade geral. sob pena de que se descubra. sem a mínima clausura. p. Integração curricular na formação superior em saúde: Refletindo sobre o processo de mudança nos Cursos do UNIFESO. p.S. Enferm. Da sociedade disciplinar à sociedade de controle: a questão da liberdade por uma alegoria de Franz Kafka. et al. v. v. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 2005.L. (Orgs. Tal é a responsabilidade das instituições formadoras: ultrapassar a disciplina em prol de um ensinoaprendizagem mais fecundo e generoso. n. 1993.é o que se impõe. sob pena de se deixar capturar em modulações (controle) enquanto se luta para se desvencilhar dos moldes (disciplinares). v. CAPRA. 2008. DELEUZE. p.. M. (UFPE). Rev.

. Rio de Janeiro: Imago. 2006.T. K. Cad. v. VANNUCHI. 2007. L. POMBO. Reflexões sobre as experiências de mudança na formação de profissionais de saúde.S. Uberlândia: Programa de Pós-Graduação em Magistério Superior do Centro Universitário do Triângulo (UNIT). v. p. V. M. A.ed.D. MOTTA.liinc. Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde.A. 2006.J. 2006. ______.. 8. (Orgs. J. RODRIGUES.. I.S. 4.10. HOUAISS.. PINHEIRO. MORAES. ABEM.A. Pensamento eco-sistêmico: educação.. S. DELLAROZA.. R. Saude. interdisciplinaridade e educação. CIURANA. MOSÉ.A. LIMA. São Paulo: Cortez. (Orgs. Pedagogia interdisciplinar: fundamentos teórico-metodológicos.145-62. O ensino superior e a formação de recursos humanos em áreas da saúde: os desafios e tendências atuais da integração e da interdisciplinaridade.175-84. O debate téorico em torno do conceito de espécie: um ‘transdisciplinar’ relato de experiência. 1977. 2004.CURRÍCULOS DISCIPLINARES NA ÁREA DE SAÚDE: . LUCK. SIQUEIRA-BATISTA. out. Disponível em: <http://www. ______. E.G. R. v. Desafios ao desenvolvimento de um currículo inovador: a experiência da Faculdade de Medicina de Marília. 26. 2006. S. p. p.21-6. 2009 .1-9. Petrópolis: Vozes.T. Saude.M. Cienc.. Humano demasiado humano: bioética e humanização como temas transversais na educação médica.2. FEUERWERKER.T. p. O. Microfísica do poder.A.br/revista>. R.) 270 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. n. O currículo integrado do curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina: do sonho à realidade. Além do discurso da mudança na educação médica: processos e resultados. 7. n.C. 2008.). M.). Ciência.. out.ed. A. Rio de Janeiro: Graal.3.ed.M. Interdisciplinaridade: qual o sentido? São Paulo: Paulus.S. JAPIASSU.. et al. São Paulo: Hucitec. M. Educ. 1991. SIQUEIRA-BATISTA.ufrj. Rio de Janeiro: Objetiva. RÔÇAS.. n. 2003. R.P . In: JANTSCH. 34-49. n. O sonho transdisciplinar e as razões da filosofia. Petrópolis: Vozes.Q. Lisboa: Instituto Piaget. R.R. 2007..M. Introdução ao pensamento complexo. 2004. MATTOS. São Paulo: Hucitec. H.13.10. 2008. Acesso em: 9 dez. Implementando as unidades educacionais do curso de Enfermagem da Famema. (Orgs. Liinc em revista.20. Educ.. 2001.. 2002. MORIN. p. p. Olho Magico. v. R. R. Os intelectuais e o poder.).7. v. L. KOMATSU. A. Interface – Comunic. Educar na era planetária. Educação: a briga no Rio está errada. A vontade do saber.ed. N. REZENDE.P . H.C.O.ed. 2001.261-72.24-33. 2005. Tela. E. Rio de Janeiro: IMS-UERJ/Cepesc/Abrasco. REIS... Jornal O Globo. E. 22. 2. 2003. Interdisciplinaridade: para além da filosofia do sujeito.3. Rio de Janeiro: Graal. p./dez.525-35. aprendizagem e cidadania no século XXI. REGO.V.12. 2005. 2002. MONTEIRO. GOMES. M. FAZENDA.. PADILHA. ETGES. (Mimeogr. Interface – Comunic. V.. FOUCAULT.31.. Petrópolis: Vozes. G. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. p. 2003. MORIN.A. n. 2006. BIANCHETTI. In: ______. Interdisciplinaridade e integração dos saberes.1. M.

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Acto contínuo propone la interdisciplinariedad./dez. V. Currículos disciplinarios en el área de salud: ensayo sobre saber y poder./dez. Personal de salud. p.261-72.261-72.. ALBUQUERQUE.Comunic. 2009.S. Interface ..31.CURRÍCULOS DISCIPLINARES NA ÁREA DE SAÚDE: . Aprovado em 02/07/09. et al..13. n. v. El presente artículo ofrece una revisión histórica sobre la construcción del conocimiento y del poder a partir de la organización disciplinaria como base para la discusión del confinamiento del saber en disciplinas en la formación de los profesionales de salud y sus consecuencias en los modos de producir atención a la salud. 272 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Transdisciplinaridad. Recebido em 19/11/08. Complejidad. Educ.31. Saude. 2009 .. Curriculum. out. Conocimiento.13. n. p. la trans-disciplinariedad y el pensamiento complejo como referenciales teóricos para ultrapasar la lógica disciplinaria. Palabras clave: Interdisciplinaridad. out.

Three considerations about “bad medicine”. v. out. the unquestioned adoption of a scientific prejudice against non-science.273-86. The purpose is to contribute to a better understanding of such “bad medicine”.D. n.. como a vitória política da Ciência e seu etnocentrismo. a adoção cega do preconceito científico com a não-ciência. the current expansion of the biomechanical paradigm. 2009 273 . We disagree with the common sense that summarizes such failed encounters as “bad medical practice”. Some considerations are made about “bad medicine”: a set of individual and collective phenomena regarding the usual disharmony. Visamos contribuir para uma melhor compreensão dessa “má medicina”. Centro de Ciências da Saúde. and the feelings of omnipotence and omniscience of so many physicians are intertwined with historical-epistemological. Physician-patient relations. Campeche. Sociology. biomedicine’s official monopoly of cure. Departamento de Saúde Pública.31. SC. 88065-040 charlestesser@ccs. the authoritarian culture in the hospital setting. Divergimos do senso comum e douto que resume tais desencontros como “má prática” médica. dentre outros fatores./dez./dez. controlismo. Interface . arrogance. excessive control. such as authoritarianism. como autoritarismo. the political victory of Science and its ethnocentrism.. Brasil.br 1 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Florianópolis. Sociologia.ufsc. besides wider and more complex processes like social medicalization. We argue that some of its typical aspects. frieza. Rua Laureano. sensação de onipotência e onisciência de muitos médicos estão entrelaçados com forças ou fatores histórico-epistemológicos. belligerency. Má conduta profissional. Palavras-chave: Medicina.13. and also to collaborate with its improvement. considerando sua complexidade. Universidade Federal de Santa Catarina. o monopólio oficial da cura pela biomedicina. a vigência e expansão nela de um paradigma biomecânico. 970. coldness.Três considerações sobre a “má medicina” Charles Dalcanale Tesser1 TESSER. beligerância. p.273-86. além de processos mais amplos e complexos como a medicalização social. C. Antropologia. Anthropology. among others. Saude.Comunic. taking its complexity into account. out. dissatisfaction and disappointment experienced by sick people in the doctorpatient relationship. p. n. Keywords: Medicine. Argumentamos que alguns de seus aspectos típicos. Educ. a cultura autoritária hospitalar. 2009. social-political and sub-cultural factors of these professionals. Professional misconduct. sóciopolíticos e subculturais desses profissionais. arrogância. for instance. insatisfação e frustração no encontro médico-paciente vividos pelos doentes. e para a sua melhoria. Relações médico-paciente.13.31. Realizamos algumas considerações sobre a “má medicina”: um grupo de fenômenos individuais e coletivos referentes à comum desarmonia.

e um núcleo conceitual da mesma. Caprara e Rodrigues (2004). que teria seus “fundamentos teóricos” alhures. ela é fomentada por um conjunto de aspectos constitutivos da biomedicina. Neste ensaio partimos de uma perspectiva diversa. mas sim de explorar a complexidade de aspectos histórico-epistemológicos. Tomamos. relação médico-paciente. Portanto. no encontro clínico. das complexidades envolvidas. à má prática médica. saber versus prática). há muito tempo e persistentemente. que alimentam a má medicina. mais ou menos arrogantes. Guedes. aos quais não caberia crítica (Pires. Nossa hipótese é que a má medicina não pode ser resumida à chamada má prática.TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” Introdução Não é raro acontecer de pessoas procurarem ajuda médica e encontrarem profissionais pouco acolhedores. Não é necessário definir ou precisar a má medicina.13. (2003). sempre parcial. 2000a. mais recentemente. Há um senso comum e certo senso douto que atribuem essas experiências. no Brasil. Nossa abordagem trata conjuntamente alguns destes aspectos da rede sociotécnica (Latour. pode remeter a dicotomias que nos esforçamos por evitar (por exemplo. que contribui para sua compreensão . embora consagrada. na qual essa separação entre núcleo conceitual e contexto sócio-histórico é indesejável porque dificulta a compreensão da complexidade do fenômeno. culturais. Essa visão preza a separação entre os “aspectos contextuais”. que apresenta impressionante homogeneidade frente a tradições e práticas curadoras de origem não científica ou não acadêmica.como em Kloetzel (1999) e Stewart et al.31. corporativas e epistemológicas./dez. com vistas à melhoria de sua prática cuidadora. n. que não “olham na cara”. à falta de um termo melhor e sintético. e considera esta inseparabilidade como necessária e estratégica para uma compreensão. também. apenas por conveniência chamado de má medicina. Camargo Jr. induzindo a desvinculá-lo de outras dimensões que justamente pretendemos explorar. devem ser considerados integradamente: o primeiro é o grosso da prática profissional dos médicos do ocidente. e tende a reduzir. histórias. entretanto. ríspidos. por exemplo: Caprara e Franco (1999). O segundo significado do termo refere-se ao conjunto de saberes. Nogueira e Camargo Jr. debruça-se sobre os problemas da relação médico-paciente e da atividade médica . a literatura médica e da Saúde Pública. sobretudo nos seus aspectos aplicáveis e aplicados ao cuidado. Esse fenômeno é facilmente reconhecível a partir da vivência dos doentes e. culturas. pedagógicos e sociopolíticos envolvidos na biomedicina. A proposta é uma reflexão de inspiração genealógica e sócio-histórica sobre alguns aspectos e forças envolvidos na atividade médica e seu saber fomentadores da má medicina. como objeto de reflexão. a partir do ponto de vista de certo saber/fazer acadêmico/artístico especializado. . plagiando o jargão profissional que fala em “má prática”. pouco amigáveis. (2006). a qual. Clavreul (1983). dizer que se trata do problema da “relação ruim médico-paciente”. baseada em Latour (2001. que é intrinsecamente híbrido (envolvendo saberes. De fato. que atravessam tanto dimensões individuais e práticas como sociais. 2009 2 Usamos o termo biomedicina para designar a medicina ocidental contemporânea. (2008). o problema. 2000b) constitutiva da medicina moderna. de certo modo. valores e técnicas que informam a prática social designada pelo primeiro significado. Sendo mais do que a corrupção de uma suposta boa prática. out. desarmonias e frustrações. p. não será objeto de nossa atenção. na Ciência. esse primeiro significado do termo pode ser resumido como “a biomedicina é o que os médicos fazem”. dado que não se trata de um novo objeto ou categoria a ser bem delineada. 2000b). afetos. Poder-se-ia. Mas esta expressão.Balint (1988). à prática clínica). em mudança permanente (mas também com relativa homogeneidade e continuidade ao longo das últimas décadas. para nossos objetivos de compreensão da má medicina. muito influentes sobre a prática da biomedicina2. poderes. esse fenômeno designado no título como “má medicina”. Camargo Jr. insatisfação e frustração nos doentes. tecnologias etc). frequentemente há aumento da insegurança.273-86. técnicas. denotando uma desarmonia relativamente comum nessa relação. 1998). pois pouco envolvimento teriam com a má prática. de cunho cada vez mais científico e especializado. e. O método genealógico busca explorar 274 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Não se trata de contrapor uma boa a uma má prática médica. talvez. Em tais encontros.e que permite reconhecer uma “boa medicina”. alguns até grosseiros em certa medida. Illich (1981). indelicados. (1995) . que abarca dois conjuntos que.

ressaltando o fato de que os especialistas tradicionais exóticos (curadores. agregado num conluio político-cultural que mantinha os homens presos na obscuridade. desenvolvida na COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. é relevante relembrar a grande dimensão do problema (Caprara. A construção do senso comum igualou tudo aquilo que ficou fora da Ciência: um conjunto heterogêneo de práticas e saberes (populares e especializados) que ficou sendo considerado homogêneo e pobre do ponto de vista epistemológico3 e. emoções. no caso da saúde) são considerados portadores de saber empírico relevante como indício valioso a orientar a pesquisa científica. bem como de sua persistência na prática e no ensino médicos. que seria o critério supremo de avaliação do que é e do que não é verdadeiro. A reflexão não se propõe a realizar uma genealogia propriamente dita. Abordaremos a má medicina sob alguns poucos ângulos. não são exclusividade da ciência e nem foram inaugurados por esta. são interligadas entre si e vinculadas com forças das mais diversas naturezas. influenciam e constrangem culturas. ilusório e falso (Santos. que.TESSER. redes e origens (valores./dez. interesses. Segundo Santos (2000). como aspectos da iniciação dos profissionais. ensaiando algumas hipóteses interpretativas a respeito. há que modular essa afirmação. por vezes. poderes) que orientam. Embora muito denunciada e. 2006). a missão imaginária do herói solitário e o peso dessa missão impossível. de caráter conservador e indesejável. Isso é ainda mais importante para gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) e para profissionais da atenção primária à saúde. Assim. p. em época de expansão dessa última.D. mas não mais que isso. Arrogância e autoritarismo O senso comum e a ciência nasceram juntos.31. Neste ensaio propomos reflexões e especulações que se destinam a contribuir para o incremento da compreensão da complexidade nelas embutida. com ênfase condutual e emocional: a arrogância e o autoritarismo. também. 1982) na construção do conhecimento científico. 2009 3 Hoje.273-86. considerado esgotado o seu debate. forças. a Ciência. Nossa hipótese é que certa arrogância preconceituosa e etnocêntrica da ciência encontra afinidades eletivas ou mesmo antecedentes histórico-culturais anteriores à modernidade. com as etnociências. comumente criticadas e presentes na má medicina. Rodrigues. A diferenciação epistemológica pretendida pela Ciência em relação ao senso comum foi precisa: tratou-se de erigir uma instância acima e supostamente desvinculada das tradições e religiões. Numa perspectiva macrocultural e histórica. do saber e da ação médica. encontramos traços de uma arrogância etnocêntrica na antiga cultura religiosa judaico-cristã. se é um dos motores da ciência para a mesma fazer sua primeira ruptura epistemológica (Santos. 2004). C. a ciência moderna considera o senso comum superficial. desejos. out. todavia. Nesse ambiente que clama por uma “clínica ampliada”. 2004) e investigar origens e complexidades do mesmo. o senso comum foi o nome dado às formas de conhecimento que não correspondessem aos critérios epistemológicos estabelecidos pela ciência para si própria. Esse três pares de “características”.13. a beligerância e o controlismo. uma educação em saúde “empoderadora” e mais integralidade nos serviços e nos profissionais. Parece-nos relevante sua abordagem para uma melhor avaliação das dificuldades de formação dos médicos e dos desafios da reforma dessa prática profissional. via Estratégia Saúde da Família e de intensa medicalização social da vida e dos riscos individuais e coletivos. práticas sociais e saberes (Martins. 275 artigos . Essa desconfiança básica. mas refletir sobre elementos genealógicos associados a outros fatores envolvidos com a má medicina. n. assim como pela sua arrogância e preconceito. hoje se revela problemática pelo seu lado destrutivo e dominador de outros saberes. a consideração e análise da má medicina são relativamente dispersas e pouco sistematizadas na literatura.

ficou embebida e reconstruiu essa arrogância etnocêntrica que desqualifica tudo o que não é ela mesma. Os médicos aprendem biomedicina eminentemente no hospital. 2000). era possível a construção de sincretismos e era comum um relativo respeito pela cultura dos perdedores. Resumindo a história. Mas como se infiltraram. devido às equivalências que se podiam fazer entre as divindades dos diferentes povos. os deuses principais eram universalistas e os deuses bairristas ou tribalistas eram secundários. em posição mitológica (Feyerabend. Tal trajetória possivelmente ajudou a veicular uma tradição de arrogância e etnocentrismo científicos para o interior desses especialistas oficiais em saúde-doença. e. da clínica e do relacionamento com os doentes. 2003). poderíamos dizer que uma religião tribalista e monoteísta misturou-se com a cultura beligerante e dominadora européia que se expandiu pelo mundo. atingindo os interstícios atuais da técnica. ficam dignos apenas de combate e desqualificação. saberes e culturas dos povos “pagãos” perdem respeito e sabedoria. legitimados pelos Estados4 (Adam. essa possibilidade ficou dificultada quando a cultura e a religião dos vencedores eram tribalistas e monoteístas. saberes. O comum autoritarismo médico pode ser interpretado como uma herança cultural e 276 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. na maior parte destas últimas.. esta. Joseph Campbell (1993) ilustra esse etnocentrismo comentando a peculiaridade da religião judaica perante o grosso das religiões do mundo. como únicos curadores legítimos. técnicas. emocionais e políticos da vitória da guerra da ciência foram provavelmente relevantes. Segundo o autor. 2009 4 Posteriormente acompanhados por outras profissões da saúde que foram se regulamentando oficialmente. essa arrogância e esse autoritarismo? O nascimento da clínica e seu aprendizado no hospital. Não é necessário traçar detalhes e complexidades desses desdobramentos no Ocidente./dez. 5 Pode-se dizer que o paradigma biomecânico envolve um concepção ontológico-localista e mecânico-causal das doenças. politeístas. 2008).revelar as verdades . em que desdobramentos subculturais. out. O uso do termo kuhniano “paradigma” aqui é em sentido estendido ao saber e à atividade médica. que já nascia com uma proposta nada modesta . facilitam uma compreensão parcial desse processo. associados à arrogância proveniente da Ciência e à agressividade política das suas lutas iniciais contra a Igreja. “sente-se” permanentemente ameaçada pela miríade de tradições. diferentes dela mesma e. defeitos ou disfunções do organismo físico. impune e assegurada na posição de poder. . e a hipótese aqui trabalhada é de que sejam mais importantes do que se imagina. Quando essa cultura derruba seu próprio deus e o substitui pela Ciência. Iavé é o Deus único. baseado na sua semelhança com o conceito de estilo de pensamento. Uma parte relevante dela poderia ser remetida à herança cultural científica.31. dentre outras forças importantes (inclusive de ordem político-econômica). conceituado de forma mais genérica e aplicável a um coletivo de pensamento portador de uma formação especializada com interesses e atividades específicos (Tesser. a biomedicina está. De modo que a arrogância em sentido geral pode não ser fruto de característica pessoal ou circunstancial da má prática médica. 2001). basta marcar o que é mais relevante para nossa reflexão: a oficialização dos médicos nos séculos recentes. os diferentes mitos. se transformavam ao mesmo tempo em que se preservavam. o que facilita a arrogância. na cultura clínica e no cotidiano de razoável número de médicos. práticas e curadores que sobrevivem socialmente. na mentalidade. a serem investigadas no interior do corpo físico e corrigidas com alguma intervenção concreta (medicamentos e cirurgias) (Camargo Jr. como única instituição social produtora de verdades. A autonomização da profissão perante a sociedade foi a pedra de toque culminante da trajetória política da medicina. de Ludwik Fleck (1986). por um lado. Herdeira dessa luta e dessa conquista política. portadores da verdade. os demais são demônios. em pleno vigor no século XXI com a biologia molecular e a genética). cada vez mais procurados (Le Fanu. verdades. em que estas são vistas como coisas concretas. Porém. ciências e sabedorias podiam ser reconhecidas e se entrecruzar. representantes da Ciência. A digressão acima prepara o terreno para chegarmos à área da saúde-doença e à profissão médica. paradoxalmente. p.273-86. 1991). seu Deus era único: o que foi o caso da religião judaico-cristã. bem como seu desenvolvimento históricoepistemológico apoiado no “paradigma biomecânico”5 (estabilizado e detalhado no século XX. relacionadas a lesões materiais. Com isso. Ao fim das batalhas.TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” Europa com o cristianismo e exportada para o planeta a partir da expansão européia após o século XV. invocados para proteção do povo em períodos de guerra. n. por outro lado. e os mitos.13. Herzlich. deuses.

filas para internação etc. 1994). além de constrangimentos outros institucionais e sociais . a exemplo dos manicômios. a tolerância dos pacientes internados aos danos é muito grande. para o que não se poupa tecnologia investigativa e terapêutica “duras”. da enfermagem. Para Foucault (1980). acalmem e preparem para a terapêutica. significa alta a pedido. cristalizado em regras e normas inflexíveis. muitos não foram preparados adequadamente para lidar com os doentes independentes em suas condições reais de existência. a maior parte da vida profissional do médico é ambulatorial (exceção feita a algumas especialidades). nitidamente. C. Adicionalmente. O autoritarismo no hospital é aceito e.13. na medida em que aparecem outras doenças. e pouco tem a ver com a vida do doente préinternação ou pós-alta. A gravidade da situação orgânica no hospital permite que o aspecto biológico se destaque. nas relações e está embutido no imaginário social hospitalar. como pela naturalização de alguns deles. mesmo supondo “ótimas” ou “ideais” condições socioinstitucionais para a prática médica. submetendo o doente a um esquartejamento epistemológico irreversível (Tesser. Dentro do hospital a percepção dos danos (iatrogenias) é muito menor. e fez o hospital ser considerado como uma instituição quase-total. os quais estão pautados pelo diagnóstico e intervenção na doença. O aprendizado da clínica. não tem o paciente à sua frente.D. prioridades e certa sensação de eficácia. possivelmente reforçada na subcultura da corporação COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. que receberá. essa característica é historicamente herdada da instituição militar. que vê tendencialmente as pessoas doentes como portadores de “doenças” e. há a tendência para a fragmentação do cuidado por especialidades. fantasticamente hipertrofiado com o desenvolvimento tecnológico diagnóstico recente. Feita a prescrição. relativamente. ela será automaticamente executada sobre um doente paciente e submisso. O tempo do contato terapêutico no hospital é pequeno e os critérios de internação e alta definem os objetivos dos profissionais e o tempo de contato com o doente. sendo referidos à sua cura ou controle. A atenção hospitalar é voltada para o risco biológico.31. eficácia. muitas vezes. quando ocorrem. estas vão sendo distribuídas pelas especialidades que se responsabilizam por patologias específicas. certamente ajudou e fortaleceu esse processo. O médico. dada a situação clínica de alta gravidade e de extrema assimetria de poder. n. o qual é. talvez amplificada pela subcultura médica do hospital. é contra a infecção. Além disso. oito ou mais anos considerando as residências médicas) numa instituição autoritária são essenciais para a introjeção da arrogância e do autoritarismo em muitos médicos. a intervenção é e deve ser sempre rápida. no hospital. Assim. que esperam acolhimento emocional. E. conventos e prisões (Goffmann. Esse desvio do olhar. autoritário desde seu nascimento enquanto instituição médica. geralmente separadas da decisão e prescrição terapêutica. Mendes Gonçalves. é coisa rara. psicossocial enraizada no proceder médico. Discussão ou recusa de uma conduta médica. É vivido e praticado no ambiente. seu efeito e sua eficácia devem ser sentidos rapidamente. em que quase nenhuma daquelas condições especiais de autoridade. 2005). p. fornecendo uma sensação de suficiência do saber biomédico (Cunha. riscos. que passam a ser os objetos principais da atenção do médico (Camargo Jr. out. Estes critérios e estes tempos produzem expectativas. bem como na biomedicina em geral.273-86. marcador do nascimento da clínica (Foucault. são rápidas e realizadas em momento à parte. com a saída do doente da situação de gravidade geradora da internação. objetividade e necessidade de intervenção imediata controlada aparecem. o paciente delega o poder para os profissionais. nas regras. não fala com ele. 2009 277 artigos . Esse mergulho no hospital permite compreender quão comuns são os problemas quando muitos médicos se defrontam com a imensa maioria de pacientes independentes. muitas vezes apenas com um familiar. controle./dez.1980).TESSER. num hospital. obviamente. explicações que lhes façam sentido. foi desenvolvido a tal ponto que talvez seja por si mesmo outro dos fatores importantes para a compreensão de tantos desencontros entre médicos e doentes. pelos profissionais foi e continua sendo provavelmente uma força importante no processo pedagógico-iniciático: vários anos de formação (pelo menos seis. não só pelo pouco tempo de contato. 2004). de forma que. Por isso mesmo. Ou seja. não causa muitos problemas. ao prescrever num hospital. Desnecessário enfatizar que o autoritarismo não é tema de discussão no hospital. Estas explicações. uma curta resposta às suas perguntas sobre o tratamento: é para a dor. rapidez. não precisa explicar os diagnósticos e as condutas. estranha. o desvio da atenção para o “olhar as lesões” (em detrimento do escutar o doente). 2003. e. 1974). Nos hospitais. recentemente. Ali. e terapêuticas compreensíveis e factíveis. a arrogância e o autoritarismo biomédicos podem ser relacionados a uma característica cultural e histórica geral do ocidente europeu.

no sentido de Bourdieu (1994). há muito tempo. na prática. e essa possibilidade é coerente com o que vem acontecendo com parte dos profissionais. O autor descreve. emocional e cotidiana da necessidade da legitimação dos profissionais e da relação de cura no “varejo”. na história européia e da medicina ali. como na medicina privada. mesmo em locais de trabalho onde supostamente a reconstrução dessa relação ancestral de cura interessa direta e economicamente ao médico. científicos e eficazes. A associação entre herança político-cultural. pouco comunicativos e frustrantes para seus pacientes. que colocou esta em um lugar seguro. Tal processo pode ser resumido em poucas palavras: a impunidade gerada pelo monopólio oficial do exercício da atividade curadora na sociedade e a legitimidade daí decorrente. na colonização do novo mundo americano. Ou seja. de parcela dos profissionais em muitas situações. valores e posturas da prática biomédica: intervencionismo./dez. controlismo. porém totalmente diferente e “selvagem” em relação à Europa “civilizada”. não é raro que vários profissionais tenham se mantido muitas vezes arrogantes. como ilustrado por Lévi-Strauss (1976) na história famosa de Quesalid. abalando de forma profunda “a relação de cura”. Luz. garantido e com o poder de dizer a “verdade”. e pela sua relação “externa” com a sociedade. a posição social do médico enquanto curador é estável e está garantida: ele pode. quando dos primeiros anos da expansão Européia.o hospital -. e mesmo antes do nascimento da ciência. Adicionalmente. particularmente acirrada após o rompimento com a cosmovisão mítica e o nascimento de uma perspectiva religiosa histórica: a religião cristã que se espalhou na Europa. no século XV. na cultura geral da Europa. a beligerância biomédica também pode ser perscrutada na histórica luta da Ciência com a natureza em geral.13. ao não-aprendizado prático da necessidade da continuada reconstrução da legitimidade. nessas palavras. uma tensa e belicosa relação com a natureza. Tal trajetória de relacionamento da biomedicina com a sociedade torna plausível a hipótese de que haja uma forte influência do ambiente macropolítico para o ambiente microssocial da clínica.TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” médica. atualizando essa característica e sustentando um habitus profissional em parte da corporação. 2008). Porque os médicos seriam honestos.273-86. não sem projetar neles uma dose de charlatanismo. n. garantidas no “atacado”. tensão emocional etc. como fruto de sua vitória política associada à Ciência. por meio do processo que permite a manutenção permanente e renovada da arrogância-autoritarismo. várias características. as repetidas guerras e grandes epidemias que assolaram o continente contribuíram 278 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. pressa. o ocidente europeu vive. Já antecipada acima indiretamente. tal processo é facilitado pelas características do saber médico que permitem e alimentam o ideário de que uma eficácia e uma correção técnicas podem se dar à revelia da ancestral relação curador-doente. em detalhes cruentos. relacionarem-se de forma não agressiva e respeitarem as riquezas culturais e naturais que transbordavam neste então lugar continental paradisíaco. ideário de origem eminentemente científica. cuja “eficácia simbólica” (ou efeito placebo) foi atribuída aos curadores pré-científicos. desconfiança. Adicionalmente. p. agressividade. durante a Idade Média e o nascimento da modernidade. hospitalar e epistemológica talvez seja forte o suficiente para que. out. essa relação. poderiam dispensar esses meandros subjetivos e sacerdotais da relação de cura. Sintetizamos. Para Turner (1990). A promessa iluminista e positivista científica de eficácia dada pela elucidação dos mecanismos da doença e pela intervenção material específica sobre eles certamente alimentou e alimenta a crença (dificilmente assumida) de que se poderia prescindir do nebuloso emaranhado psicossocial da relação curador-doente. 2009 . no cotidiano do contato com os doentes.31. com a consequente fragilização da harmonia emocional e relacional entre curadordoente. Beligerância e obsessão pelo controle Outra característica da má medicina é a beligerância e a obsessão por controle. Analisa a transformação dos nativos em seres da natureza (quase por oposição a seres humanos) e a incapacidade dos Europeus de perceberem. levando à perda da legitimidade no varejo e à indiferença frente a essa perda. “descuidar-se” de se legitimar como curador no dia-a-dia (Tesser. como explicitada por Francis Bacon nos seus primórdios. foram afastando as técnicas relacionais e a percepção ética. aprendidos na prática e pelo seu lado “interno” no locus formador . Tais heranças se fundem e cristalizam.

e as curas e convalescenças se darem por múltiplos e complexos. para caracterizar e orientar a Ciência./dez. O fato de. o perigo de vida e o medo da morte estão na sua expressão e intensidade máximas. consistência. as trágicas histórias reais de pacientes. os adoecimentos serem muito diferentes. inclusive autóctones.D.TESSER. Ele é a forma operacional pela qual a beligerância se expressa e se concretiza nas práticas e nos saberes científicos e biomédicos.como adequação empírica. a relação do homem moderno e. amistosa e poderosa. A beligerância e o controle para com a natureza e. precoce e controladora é. atenção para os mínimos indícios dos inimigos mortais (as doenças graves). Como resultado dessa história. acompanhados nos anos de formação nos hospitais. mas essa é uma natureza reconstruída e dominada. out. ainda que tivesse seus momentos de fúria e desequilíbrio (intempéries. pelo saber e pela prática médica (exceção feita. em geral. a reconstrói como modelo ideal. no mundo extra-hospitalar. podemos sintetizar que. poder explicativo e verdade. consolidação. monitorizada e vigiada. a ser dominada pela Ciência em formação e. bem como na sua subcultura profissional. mesmo. a Ciência conhece. muitas vezes. A guerra no hospital é declarada e. a seu modo. muitas vezes. ocupando lugar central em disputas envolvidas nas discussões epistemológicas e metodológicas da biociência sobre os saberes e intervenções terapêuticas (Tesser. para a construção de um “estado de espírito” cultural tenso e beligerante quanto à saúde-doença. as doenças graves e. aquela parte que ela concebe e reconstrói em seus modelos. sintoma e/ou exame. tecnicamente feita.273-86. o medo e a agressividade referentes às doenças e à própria natureza. onde essas patologias se fazem presentes de forma acentuada. não altera a mentalidade. em especial. a do médico para com a natureza. os automatismos emocionais. depois. por um lado. sábia.13. parte da natureza. em geral. como se tivessem vida própria. 2009 279 artigos . fecundidade. a gravidade é grande. A ciência é permeada por outros valores além dos chamados cognitivos . em relação às doenças e. geralmente pouco exploradas pela pesquisa. com idas e vindas). frieza. desprovida de qualquer interioridade e vida. simplicidade. de certa forma. Todavia. necessária e salvadora. As doenças. Grosso modo. Particularmente com relação ao saber científico biomédico nascente dos séculos XVI a XX. aos doentes. Muitas culturas consideraram a natureza como uma aconchegante e dadivosa mãe. Assim. a intervenção agressiva. senão agora. converteram-se em inimigos naturais e. prestes a atacar. reduzida às partes materiais passíveis de manuseio. no futuro. Após analisá-la. reduzida a um mecanismo complicado (Müller. poderes. agressividade defensiva. marcarão por muito tempo as mentes e os corações de boa parte desses curadores. A subjetividade. mas desdobrou-se de tal forma nos procedimentos científicos e biomédicos. parecem estar. na sua maioria benignos (outros tantos se instalam e evoluem lentamente. C. Assim. O controle pode ser considerado uma parte da beligerância. intensiva ou periódica. Viram-na com caráter predominante de doação e nutrição generosa. Além disso. por outro lado. p. também. Algo similar a uma “paranóia” está em vigor alertando muitos médicos sobre o perigo da imensa lista de doenças graves que estão sempre por perto e que podem se travestir de sintomas aparentemente banais ou comuns. A outra face desse otimismo intervencionista é um claro pessimismo quanto às potencialidades curadoras autóctones dos doentes e as possibilidades de estímulo a elas. são quase que indissociáveis. Lacey (1998) aceita que os valores cognitivos prestigiados pela ciência COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. como os únicos e essenciais. é como uma inimiga que a ciência biomédica vê a natureza. tanto descritivamente como prescritivamente. contínua. maternal. legitimadas e objetivadas pela construção científica das entidades nosológicas (e dos riscos). n. é de desconfiança hostil e medo e.31. 1996). promoveram uma mentalidade beligerante perfeitamente em consonância com a arrogância e o autoritarismo. local de doentes graves. que merece tratamento mais detido. é um misto de alerta. a saúde humana parece frágil e carece de vigilância profissional. 2007). o “estado de espírito” ensinado aos praticantes da tradição biomédica. Os valores cognitivos são defendidos. mesmo. os medos e as posturas que muitos médicos aprenderam no hospital: o “filme de terror” aprendido nas aulas. sobretudo. a cada paciente. às tecnologias preventivas de imunização). é de otimismo intervencionista quanto ao poder da tecnologia científica. na saúde. tecnológica. para a modernidade e muitos de seus médicos. No hospital. tendência interventora e vigilância controladora. ela é uma permanente ameaça que deve ser controlada. o controle configurou-se como um dos pontos centrais da racionalidade científica moderna. o belicismo é aceito. As capacidades próprias dos doentes estão quase sempre insuficientes e fracassadas. real. doenças etc).

mais especificamente. Lacey. quantitativismo. p. Os fenômenos são abstraídos de qualquer inserção na experiência humana. como mundo a ser controlado. de fundo simultaneamente político. O entendimento do mundo é obtido. de “estratégia materialista”. ao fabricante de arcos. regulamentar modos de vida. 1998). São de localização e difusão suficientemente pequena e marginal na profissão médica para confirmarem a regra. Se a ciência pode prever com boa aproximação a trajetória da flecha.31. out. em última análise. dualismo. a metafísica materialista. fragmentarismo./dez. nas atividades práticas e sociais. ao controle dos objetos materiais. 1998). tanto as condições (mesmo as sociais) que criam e mantêm os espaços a respeito dos quais elas fornecem entendimento. representam os fenômenos em termos de sua concordância com leis da natureza (física e biológica). 2009 6 Existem outras teorias com outras estratégias de seleção de dados. na maior parte. subliminarmente. Para esse autor. Em outras palavras. metodologismo. . permitir previsão e mecanismos de controle. e não da proeminência dos valores cognitivos nela. coerentemente com as características da racionalidade científica moderna em geral: “racionalismo. por Lacey (1998). o que induz e aprofunda a afinidade eletiva entre o esquema de valor do controle na sociedade moderna e na ciência médica. Estas. a maior vantagem da estratégia materialista é justamente o fato de ela ser possivelmente a melhor para propiciar o controle. a extensividade é um valor cognitivo prestigiado: tanto melhor uma teoria quanto mais fenômenos ela interligar e explicar. a psicanálise. à matéria-prima usada na sua confecção. ao contexto social e ao objetivo do tiro 280 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Essa metafísica afirma que o mundo “realmente é” tal e qual todos os objetos presentes nele (inclusive os seres humanos) são inteiramente caracterizáveis por propriedades e relações materialistas (talvez. mas ressalta que “sua interpretação é sempre estruturada por alguns valores sociais.13. Na saúde. A biomedicina adotou. posteriormente. Tal estratégia de seleção e restrição de dados é chamada. Esse enfoque constitui-se na maior e mais bem-sucedida (em termos de hegemonia social na comunidade científica) estratégia de restrição e seleção de dados e fenômenos como base empírica para teorias e. e pode ser considerado o valor central na empreitada científica (Lacey. 1988. humanos e sociais (Santos. p. 2000. aí. materialismo” (Luz. como. processos e leis subjacentes. as teorias científicas não produzem conhecimento “completo”. o movimento de uma flecha ao movimento dos planetas e dos corpos em queda.177). social e psicológico. a razão biomédica é interventora. Seria disso que decorre o sucesso da ciência. em geral restritas pela estratégia materialista5.TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” moderna possam ser separados relativamente dos demais valores sociais e que sejam cruciais na pesquisa científica. mesmo na biomedicina. Todavia. Conectam. fisicalistas): todos os fenômenos são inteiramente caracterizáveis sob o aspecto de sua produção pelas estruturas. O controle está visivelmente associado a valores cognitivos como preditibilidade e reprodutibilidade. por um tipo de conhecimento específico da ciência: as teorias. eliminar ou controlar doenças. à vitima. 1998). não relaciona a flecha ao arqueiro. e apresentam uma imagem do mundo em termos de leis e quantidades. diz-se que as teorias científicas produzem conhecimento “extensivo”. p. e as possibilidades das coisas são exauridas por suas possibilidades materiais.117). As teorias deixam inexploradas. Com isso.273-86. busca controlar o corpo. Então. mecanicismo. quanto os efeitos e consequências dos acontecimentos de tais espaços nos ambientes naturais. relacionam muitos acontecimentos aparentemente desconectados e diferentes. fazer a gestão dos riscos. 1998. n. isto é. por exemplo. por exemplo. de forma hegemônica. a adesão às estratégias materialistas poderia conduzir-nos a uma explicação completa do mundo (Lacey. e assim. Na ciência. Ele dirige-se inicialmente à natureza e. controladora e dominadora. e o apoio à sua expressão é ligado à expressão de certos valores sociais” (Lacey.

p. 2008) está enraizado nessa desproporção extensividade-completude. 1981). é motivo de algum debate público. out. dos valores sociais. à crise ecológica e ambiental global. das lutas políticas científicas. há que compreender a poderosa e agressiva tendência controlista que permeia a biomedicina e se infiltra em grande parte da subjetividade médica. Ao contrário. O controle como pivô da ação médica deve também ser levado em conta na consideração de sua ação alimentadora da medicalização social. a nossa hipótese é de que a percepção da incompletude do saber científico se manifesta pela fuga para outras medicinas. gerando o avanço tecnológico. Assim. Uma tensão controlista atrapalha o relacionamento de parte dos médicos com os doentes.13. histórias e suas relações. 1980) e dos cuidados com a saúde. contribuindo para a má medicina. é claro. das tecnologias científicas. Todavia. de dependência excessiva do cuidado médico-profissional (Illich. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.TESSER. em que o controle tem papel fundamental. que o sacraliza. hospitalares e epistemológicos. C. contraprodutivamente e perigosamente até as últimas consequências. da medicalização social. Entender o papel e o valor do controle na ciência prepara o terreno para entendermos o controle no saber médico e na biomedicina. pode-se pensar que talvez a obsessão pelo controle seja justamente um empecilho para a clínica. sem dúvida de forma precária. minando corações e mentes desses curadores. Se ele já está hipertrofiado pela tradição hospitalar. atinge o ápice quando da cientificização progressiva da medicina. 2009 281 artigos . Se a extensividade do conhecimento científico encanta e seduz. devido. de certo modo afastando a solidariedade. por outro. de legislação específica e de interesse dos cidadãos./dez. na área da saúde.31. mas permite seu controle relativo por meio dos anti-inflamatórios (hormonais e nãohormonais). que unifica os mais distintos e variados fenômenos corporais e mórbidos. sendo que essa complexidade e integração não são abrangidas ou são excessivamente reduzidas pela extensividade das teorias biomédicas atuais e suas tecnologias correlatas7. de comunicação e educação. O baixo teor de “integralidade” dessa medicina (Tesser. 2007). Luz. de disciplinarização dos comportamentos (Foucault. sobretudo. base de boa parte das terapêuticas biomédicas. Assim. Na relação da sociedade com a ciência e a tecnologia. diminuindo o empoderamento e a autoconfiança dos pacientes. tem desdobramentos sérios. Eles são potentes como sintomáticos. mas pouco duradouros e apresentam relevante iatrogenia. para o aprendizado do cuidado em meio à incerteza. em que o conhecimento científico parece ser pobre em completude e está. a noção disseminada de que ele tem utilidade pragmática imediata. e. sujeitos. 2003). gerando o que Nogueira (2001) chamou de “higiomania”. dos interesses econômicos da indústria farmacêutica e de equipamentos. Um exemplo trivial é o conceito de inflamação. geradora. pela luta contra a natureza e as doenças e pelo autoritarismo. pouco há além do império do controle como valor social. para sua missão “curadora” (Tesser. 1988. introjetada até ser incorporada obsessivamente pela cultura geral e pelas pessoas (Nogueira. político e científico que justifique a sua exportação como valor principal para clínica. a toda hora. por um lado. mas permanece fora da ciência e da corporação médica. dificultando a harmonia e a efetividade das práticas profissionais nos seus aspectos relacionais. a beligerante obsessão por controle que permeia a biomedicina e parte dos profissionais médicos vem de muitos “lados”: das teorias e dos métodos científicos biomédicos. Para além da má prática.273-86. raramente discutidos. Um conhecimento completo envolveria essas finalidades. exceto. 7 (uma guerra? uma caçada? um esporte?). n. a incompletude já exige atenção.D. levada ingenuamente. Na saúde. isso remete aos dilemas e cegueiras paradigmáticas na diagnose e na ação terapêutica. a sua incompletude. que reproduzem a beligerância controladora que aprenderam. se debatendo com a complexidade e integração dos aspectos e partes das pessoas e seus adoecimentos.

out. Também as dificuldades da cura nãohospitalar contribuem para concretizar algo dessa sensação. Luta pelo controle do envelhecimento e da morte. únicos especialistas sociais a resolverem os problemas de saúde das pessoas. Uma batalha contínua que pode ser considerada como heroica. é claro. supondo acesso aos recursos de diagnose. seja. travestida de um sinônimo técnico. são fortes geradores da sensação de heroísmo. uma vez que os curadores científicos estariam sozinhos. tendendo a subvalorizar aspectos subjetivos. Um desses desdobramentos relaciona-se a que bem pouco das promessas da modernidade e da ciência esse “herói” consegue realizar. que desemboca na prescrição de uma avalanche de sintomáticos. pelos pacientes e pelos profissionais com a adoção da estratégia materialista na biociência: se o que explica o mundo e as doenças são as relações estruturais e quantitativas entre os elementos materiais do corpo. mas deixam a desejar. que vão medicalizando e criando rótulos de doenças para vivências e sofrimentos os mais diversos da vida. a biomedicina herdou também uma suposta solidão da ciência. “mentais” e. comprimidos e cirurgias. Por outro lado. com isso. Boa parte dos médicos vive o que pode ser ilustrado metaforicamente como uma saga de heróis. como única e solitária instituição no mundo moderno a produzir verdades confiáveis. Esse descompasso e limitação ajudam a criar a sensação de missão heroica. fibromialgia) e expansão e flexibilização de critérios diagnósticos que ficam mais abrangentes. dos sintomas dos sofredores “não orgânicos”. luta pelo controle dos riscos. o processo de medicalização social progressiva ensina os doentes a cobrarem de seus médicos curas rápidas e certeiras por meio de exames. a incompletude e os limites do saber médico para a abordagem de boa parte dos adoecimentos do cotidiano ambulatorial frustram a ambos. a biomedicina contemporânea trava uma batalha contra a doença e o sofrimento. E. numa resignação incômoda na posição frequente de desenganar os pacientes e/ou desqualificar ou ignorar suas queixas./dez. além de muitas vezes iatrogênicas . em geral descritivo. 2003). relativamente incompetente). já discutidas. seja na ânsia de aliviar sofrimentos via quimioterapia8. ficando grande parte desconsiderada ou sem interpretação (Caprara. o que alimenta a medicalização. sendo que apenas uma parcela deles consegue ser interpretada e enquadrada pelo saber biomédico na sua nosografia. das doenças do corpo (“orgânicas”). ou uma característica subcultural..31. Ocorre que a maior parte da busca por atenção à saúde constitui-se de situações de gravidade baixa e média. como traumas e infecções graves. criação de categorias medicalizadoras (exemplo: préhipertensão.13. emocionais e sociais (para o que seu saber é limitado e incompleto. para os quais a indústria farmacêutica gera incessantemente drogas controladoras sintomaticamente eficazes (exemplo: antidepressivos). quimioterápicos e cirurgias. Vale lembrar que há grande coerência dos procedimentos mais valorizados pela cultura. recentemente. nada mais lógico que intervenções deste tipo (como comprimidos e cirurgias) devam ser os potentes remédios para os consertos na biomáquina. . n.TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” A ilusão do heroísmo solitário e sua missão impossível Como já mencionado. pela mídia. no saber médico.ressalvada. algo como uma missão imaginária. com redução dos pontos de corte (como para hipertensão e diabetes). alimenta-se a ilusão de uma missão impossível de onisciência e onipotência a cobrar dos médicos e de sua tecnologia “dura” 282 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. num mundo supostamente hostil. As tecnologias terapêuticas mais valorizadas. sua eficácia em casos específicos. Apresenta uma grande variedade de queixas e sintomas sobretudo dores -. Camargo Jr. Além disso. 2004. os médicos valorizam mais as doenças físicas diagnosticáveis. pois suas tecnologias típicas deveriam operar com eficácia para os adoecimentos e dores ambulatoriais. riscos e condições. do umbral terapêutico para muitas doenças. A precariedade. Rodrigues. às quais dão importância. que tem desdobramentos no cotidiano profissional. p. O heroísmo passa a ser solitário. Como já dizia Balint (1988). também são frustrantes em boa medida. muito diferentes da clientela e da morbidade hospitalar.273-86. Mas essa é uma questão complexa que transcende o escopo deste texto. seja na ânsia de concretizar diagnósticos além de sindrômicos e descritivos. ainda. As práticas hospitalares formadoras dos médicos. 2009 8 Essa tendência é muito forte devido à redução progressiva.

1996). portanto. administradores de tratamentos padronizados para doenças específicas. diabetes. Uma dessas possibilidades de vivência. negar os aspectos profundamente humanos e “sacerdotais” do manejo do sofrimento. históricos.273-86. filosóficos. para os doentes “desenganados” e “incuráveis”. Há que corrigi-la: os médicos não são todos assim. p. então. Isso gera problemas e sofrimentos. lançadas aos doentes como veredictos finais. poderes e curas quase milagrosos para todos os adoecimentos e padecimentos.TESSER. o que pode resultar em indiferença e frieza para com o adoecimento e sofrimento. nessa visão. que vai sendo substituída pela de técnicos obcecados por diagnósticos. políticos. doenças ou transtornos mentais etc. hipertensão. out. Luz. vários avanços tecnológicos e terapêuticos. da doença e da morte. osteoartrites. 1998. como. com alguma frequência. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Como consolo. negar o difícil compromisso e missão ético-sociais de curador. Sayd. de crise de relacionamento. com a produção de compreensão e tratamento de seres individuais únicos sofrendo. vivendo como podem o mito do herói com sua “missão” solitária impossível de onisciência e onipotência. quando um médico diz para um paciente que sua doença “não tem cura” (mas tem controle. C. da sensação de dever de herói cumprido ao saírem de seus plantões. é rechaçar a missão impossível e. para breve. para os rebeldes e os não enquadráveis (que “não têm nada”). a solidão social faz com que se sintam os únicos portadores “da” verdade. Mesmo assim podemos ter deixado uma impressão talvez excessivamente negativa da biomedicina. 1998. parte dos profissionais médicos muitas vezes “desenganam” os pacientes. tudo isso facilita a má medicina. dentre outros). Eles tendem a ficar menos envolvidos. o que os induz a universalizá-las./dez. Simplesmente não abordamos o lado luminoso. tornando absolutas as verdades e limites biomédicos sobre as doenças. pedagógicos. dermatites. não haveria sentido em reconhecer limites próprios à biomedicina e relativizar as más notícias. talvez apenas alguns emergencistas usufruam. o medo do erro e dos processos. perdendo sua identidade de curadores.D. alergias. então. Esses profissionais debatem-se. Sem conseguir localizar os limites de seu saber. aqui não abordados (como a busca de status social e poder econômico. 2009 283 artigos . necessitam análise e consideração para a composição de um quadro compreensivo mais amplo da má medicina. a cegueira paradigmática alimenta a incapacidade de muitos praticantes de relativizar as verdades de seu saber. Adicionalmente. os médicos estão cada vez mais restritos na sua competência e autonomia epistemológica. subculturais. por último. e. de desconfianças e de transtornos para todos. entre a precariedade dos recursos atuais e as promessas exageradas. n. a relação com a estrutura social mais geral. pois não existiria. para além da má medicina. acirrada com a medicalização social. Mas esses momentos são uma pequena minoria das atividades médicas. reduzidos progressivamente a aplicadores de saberes e tecnologias investigativas (algoritmos diagnósticos) e terapêuticas institucionalizadas na biomedicina. situação cada vez mais comum – asma.13. Pairando única a produzir verdades sobre saúde-doença. rinite. Muitos desses fatores. das virtudes e potências. sua medicina não é ruim e seus saberes e tecnologias muitas vezes são maravilhosos. alguns aspectos do cotidiano comum da má medicina podem ser interpretados como contendo influência da arrogância relacional e epistemológica desses curadores que se sentem heróis solitários. com a vida e a saúde em crise (Dalmaso. Há aí uma conjunção de fatores: o monopólio institucional dessa corporação de curandeiros atribui aos mesmos certos poderes microssociais (institucionais) e reforça a arrogância e o autoritarismo aprendidos no hospital. que passam a ser problemas técnico-profissionais regrados por condutas protocolares.31. por exemplo. ao fazê-lo. estando inserido na complexidade da atividade médica em geral. a mídia promete. encarando a medicina como simplesmente mais uma profissão. tratamento). Por outro lado. Obviamente. reumatismos. das sabedorias. As ideias aqui sintetizadas são apenas uma reflexão parcial sobre o tema. Considerações finais Compreender parcialmente desencontros vividos na medicina e na má medicina exige consideração de variáveis insólitas contextuais (como trabalhar após uma noite em claro num plantão agitado) e fatores complexos epistemológicos. nenhuma outra notícia a ser dada por nenhuma outra “tradição curadora” digna de crédito. Assim. pelos quais médicos e doentes devem esperar.

1980.1. Saude Publica. p. v. A relevância do uso de técnicas qualitativas em pesquisas sobre a biomedicina. 1998.13. das alegrias e experiências intensamente humanas que fazem crescer e enriquecer as vidas de médicos e doentes. da vocação.R. 2. CAPRARA. São Paulo: Brasiliense. O nascimento da clínica. Saude Colet. n. 2006. 1991. J. 2008. A. 2005. La génesis y el desarrollo de um hecho científico. As transformações do mito através do tempo. Cienc.4./dez. 2003. Madrid: Alianza Editorial. CLAVREUL..S. FLECK. GUEDES. Saude Colet. 1988. São Paulo: Hucitec. 1983. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Tese (Doutorado) . CUNHA.R.TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” da dedicação. p.139-46. J. A subjetividade como anomalia: contribuições epistemológicas para a crítica do modelo biomédico. A. FRANCO. 2004.. São Paulo: Hucitec. 1988. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Atheneu. A relação assimétrica médico-paciente: repensando o vínculo terapêutico. Cienc. Saude Colet. A relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica.1327-30. A economia das trocas simbólicas. A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. n...11. J. Lisboa: Edições 70. Biomedicina. 1974. n. Universidade de São Paulo.T.I. P . C.. v.Faculdade de Medicina. ______. São Paulo: Perspectiva.13. O objetivo era abordar poucos aspectos problemáticos e complexos envolvidos na má medicina. da criatividade..1093-103.ed. prisões e conventos.31.1. Sociologia da doença e da medicina. BALINT. GOFFMANN.R. do aprendizado.9. 1999. Cienc. A.. n.S. v. O médico. também presente na prática médica. 1994. inerentes à própria biomedicina. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 1986. 2009 284 . v.4. São Paulo: Cultrix. P . Rio de Janeiro: Graal. Bauru: Edusc. Referências ADAM. K. Cad. CAMARGO JÚNIOR.W. M. p. DALMASO. v. saber e ciências: uma abordagem crítica. G. São Paulo. L.15. p. São Paulo: Perspectiva. n. Adeus à razão. Estruturação e transformação da prática médica: técnica e ciência na segunda metade do século XX. P .647-54. FEYERABEND. out. BOURDIEU. HERZLICH. A. seu paciente e a doença. CAMPBEL. CAPRARA. A construção da clínica ampliada na atenção básica. CAMARGO JÚNIOR. 2001. ______. E. 1993. RODRIGUES. A análise deles e de outros fatores parece-nos necessária de ser mais desenvolvida para que se possa trabalhar na formação médica e na sua educação permanente de modo a minimizar a má medicina e fomentar a boa medicina.273-86. FOUCAULT.L. 1998. NOGUEIRA M. K. M. Manicômios. p.3.. C.

out. medicar. Série 3. 2000. A verdade na biomedicina. Rio de Janeiro: Eduerj.). ______.reimpr. p. n. n. Higiomania: a obsessão com a saúde na sociedade contemporânea.950-8. n. racional. 1995. Physis. São Paulo: Editora da Unesp. ______. A. J. ______. ______. LE FANU.T. 1999. Vittorio Hösle: uma filosofia da crise ecológica. v.32. 1994. 2008. n.D. STEWART.63-72.31.A. Cad. (Org. São Paulo: Hucitec. SAYD. R. 1998.S.TESSER. SANTOS. 2001. Epidemiologia: teoria e objeto. PIRES. p. 2006. 1996. H.).. p. reações adversas e efeitos colaterais: uma reflexão introdutória. 2000b. n. Rio de Janeiro: Campus. J. NOGUEIRA. Rio de Janeiro: Campus. M.13.L. 2. Cadernos de história e filosofia da ciência. 2003. (Org. Introdução a uma ciência pós-moderna. MARTINS. 2. MÜLLER. Saude Publica./dez. 1988. et al. . 4. 4.1.ed. LACEY. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Natural. 2000. Med. A saúde pelo avesso. Saude Publica. São Paulo: Cortez. Filosofia e saúde: método genealógico e filosófico-conceitual. LÉVI-STRAUSS. Patient-centered medicine: transforming the clinical method. A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da rede educação popular e saúde.3. I. v. Bauru: Edusc. Mediar. D. M. R. São Paulo: Discurso Editorial.4. São Paulo: Hucitec/ Abrasco. 1998.17. 1981. p. C.Medicina Ambulatorial: princípios básicos. B. C. Natal: Seminare. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Contribuições da epistemologia de Kuhn e Fleck para reforma do ensino médico.2. 2004.39-86.4.P . Um discurso sobre as ciências. v. ______.1. 2009 285 artigos ILLICH.ed. 2. remediar: aspectos da terapêutica na medicina ocidental.ed.20. São Paulo: Companhia Editora Nacional. The rise and fall of modern medicine. p. p. Valores e atividade científica. In: VASCONCELOS.ed. 1998.98-104. 6. TESSER. v.125-36. LUZ.9-62. London: Carroll & Graf. A expropriação da saúde: nêmesis da medicina.465-84. 1976. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 62) ______. Bras. Reflexão sobre a articulação entre investigação epidemiológica e a prática médica a propósito das doenças crônico-degenerativas. Cad. M. São Paulo: EPU.273-86.ed. Rio de Janeiro: Editora 34. 2001. 2000a. n. 2007. Jamais fomos modernos: ensaios de antropologia simétrica. 1982. p. São Paulo: Cortez. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos.B. B. C. MENDES GONÇALVES. (Série Estudos em Saúde Coletiva. O pensamento selvagem. In: CZERESNIA. 1996. social: razão médica e racionalidade científica moderna. Educ.D.D. São Paulo: Nova Fronteira. Assistência médica alternativa: comentários a um texto de apoio. ______. E. F. Racionalidades médicas e terapêuticas alternativas. vol. KLOETZEL. K. Rio de Janeiro: Instituto de Medicina Social/UERJ. Rev. jul-dez. London: Sage Publications. p. LATOUR. 2.D.

out. Interface ..TRÊS CONSIDERAÇÕES SOBRE A “MÁ MEDICINA” TESSER. socio-políticos y subculturales de estos profesionales. la vigencia y expapsión en ella de un paradigma biomecánico. n. n. frieza. la cultura autoritaria hospitalaria. v.13.13. 2004. TESSER. C. sensación de omnipotencia y omnisciencia de muchos médicos. C. 2009 . C./dez. como la victoria política de la Ciencia y su etnocentrismo.273-86. p. Educ. F . insatisfacción y frustración. Faculdade de Ciências Médicas. Relaciones médico-paciente. 2008.D. 2004. LUZ. Aprovado em 16/06/09. 2008. Antropología. Sociología.. Racionalidades médicas e integralidade.31. Disponível em: <http://libdigi.195-206.D. TESSER.T. p. beligerancia. el monopolio oficial de la curación por la biomedicina. Tese (Doutorado) – Departamento de Medicina Preventiva e Social. 286 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Divergimos del sentido común y docto que resume tales desencuentros como “mala práctica” médica. O espírito ocidental contra a natureza: mito. están entrelazados con fuerzas factores histórico-epistemológicos. Palabras clave: Medicina. Cienc.31.D. Saude Colet. Universidade Estadual de Campinas. Tres consideraciones sabre la “mala medicina”. 2009. la adopción ciega del preconcepto científico con la no-ciencia. Mala conducta profesional.Comunic. Saude. 1990.W. Campinas. Rio de Janeiro: Campus.1. história e as terras selvagens. además de procesos más amplios y complejos como la medicación social. Con la intención de contribuir para una mejor comprensión de esta “mala medicina”.unicamp. Acesso em: 18 nov.br/document/?code=vtls000317960>. entre otros factores. M.273-86... Realizamos algunas consideraciones sabre la “mala medicina”: un grupo de fenómenos individuales y colectivos referentes a la falta de armonía común. Argumentamos que algunos de sus aspectos típicos como autoritarismo arrogancia.13. p. consideramos su complejidad para llegar a sua mejoría. TURNER. out./dez. Epistemologia contemporânea e saúde: a luta pela verdade e as práticas terapêuticas. v. Recebido em 18/12/08. actitud de control. n. en el encuentro médico-paciente vividos por los enfermos.

por se sentirem despreparados para abordar o tema. n. such as the services. pesquisa financiada pelo CNPq (processo 403103/05-3) e Fapesp (processo 2006/61922). out. de abordagem qualitativa./dez. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Primary healthcare. São Paulo.13. teve por objetivo verificar a percepção dos médicos das unidades básicas de saúde de Ribeirão Preto-SP sobre violência contra a mulher perpetrada por parceiro íntimo. 3226.287-99.M. Educ. p. 2009 287 . PR. Palavras-chave: Violência contra a mulher. Saude. A análise de conteúdo permitiu definir os seguintes temas: conhecimento sobre tipos e gravidade de violência.. Elaborado com base em De Ferrante (2008). * Keywords: Violence against women.31. medical practice in the violence situation. possibilidades de intervenções e barreiras de acesso ao serviço. Universidade de São Paulo. SANTOS. E. The use of content analysis allowed us to define the following themes: knowledge of the types and severity of violence. perception regarding who the affected woman is. Violence against women: perceptions of medical doctors from primary healthcare units in the city of Ribeirão Preto. out. Rua Brigadeiro Franco. Curitiba. a rede e as mulheres. transferindo a responsabilidade. Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Comumente. state of São Paulo.250-030 fernandadeferrante@ hotmail. Interface . apto. n. the network and the women. São Paulo* Fernanda Garbelini De Ferrante1 Manoel Antônio dos Santos2 Elisabeth Meloni Vieira3 DE FERRANTE.13. Médicos./dez. As the medical doctors feel unprepared to approach the subject. Os dados foram levantados por meio de entrevistas com 14 médicos ginecologistas-obstetras e clínicos gerais.. on violence against women perpetrated by intimate partners.. VIEIRA.287-99. p. 21.31. Data were collected through interviews with 14 gynecologists and general practitioners. The affected women generally search for healthcare services in order to treat associated symptoms. Violence against women is a complex and highly prevalent phenomenon that is considered a public health problem. o enfrentam com muitos preconceitos de classe social e gênero. Faculdade de Filosofia. Este estudo. Atenção primária à saúde. intervention possibilities and barriers to access the services. Água Verde.Comunic. M. aos “outros”: os serviços. they handle it with gender and social class prejudices.Violência contra a mulher: percepção dos médicos das unidades básicas de saúde da cidade de Ribeirão Preto. 2009.G. Physicians. 80. as mulheres afetadas buscam serviços de saúde para tratar sintomas associados. This qualitative study aimed to verify the perception of doctors working at primary healthcare units of Ribeirão Preto. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Profissional de saúde. prática médica frente à situação de violência. 1 Hospital Nossa Senhora da Luz. Women’s health. transferring the responsibility for occasional failures to “others”. percepções acerca de quem é a mulher acometida.. 3 Departamento de Medicina Social. F . Brasil. Saúde da mulher. Os médicos. Universidade de São Paulo. Health professional.com 2 Departamento de Psicologia e Educação. considerado problema de saúde pública. Violência contra a mulher é um fenômeno complexo e altamente prevalente.A. Aliança Saúde. v. por eventuais falhas no atendimento.

Na literatura especializada destacam-se as variantes: violência contra a mulher. sua amplitude e operacionalização. 2003. sexual ou psicológica ou em sofrimento da mulher. 2009 . com necessidade de ser protegida. os conceitos normativos. sendo por isso denominada de violência de gênero. Essa enorme variedade de termos. pode ser interpretada como educativa e punitiva. 2003. enfatizamos os aspectos relacionados à saúde da mulher. pode ser identificada. independentemente da cor. 2005). ou. embora vários estudos (Marinheiro. Schraiber et al. Segundo esses autores. que resulta da inexistência de uma denominação única. 1997). violência doméstica contra a mulher e violência de gênero. violência conjugal. p. assistida e encaminhada nos serviços de saúde (World Health Organization. que operam simultaneamente: os símbolos culturais. violência intrafamiliar. Sugg. Introdução A violência doméstica contra a mulher. bem como a formação da identidade subjetiva. Segundo a Organização das Nações Unidas (1993). teria caráter disciplinar. violência perpetrada pelo parceiro íntimo. 27% das mulheres na cidade de São Paulo e 34% na Zona da Mata pernambucana relataram ter sofrido algum episódio de violência física cometida por parceiro ou ex-parceiro ao menos uma vez na vida. tal como proposto por Scott (1988).. n. baseando-se nas relações de gênero. A violência contra a mulher em foco Para Angulo-Tuesta (1997) é difícil definir o termo mais adequado para designar o fenômeno. para coibir a suposta perda da feminilidade da mulher. é fundamental compreendermos o conceito de gênero. Desse ponto de vista. os fatores de risco e suas consequências (Garcia-Moreno et al. deve-se à complexidade do fenômeno estudado. utilizaremos ora o termo violência de gênero. pois assume um caráter exemplar. tanto na vida pública como privada. ora violência doméstica contra a mulher. seguindo tendência observada na literatura. Inui.13. Estudos realizados têm dimensionado a magnitude. ou seja.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: PERCEPÇÃO . a prevalência. Também é considerada violência a ameaça de cometer esses atos. Nessa acepção. ora violência contra a mulher. Scott destaca que o gênero é uma forma primária de relação de 288 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Dependendo da área do conhecimento em que se coloca o problema. ao menos uma vez na vida. A violência cometida contra as mulheres por seus parceiros íntimos no ambiente privado é reconhecida como um problema mundial presente em todas as classes sociais e etnias. De forma que. também designada violência de gênero ou violência por parceiro íntimo. out. a violência praticada contra a mulher seria exercida pelo homem como uma atitude corretiva de comportamentos não aprovados. permeadas por quatro elementos distintos. a coerção ou privação arbitrária de liberdade. Como tal. sendo constantemente educada por meio de atitudes corretivas. punições e agressões. A primeira proposição é a de que o gênero seria um elemento das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos. Dessa forma. Afirma que esse fenômeno tende a ser visto pela sociedade como uma forma de manifestação normal da masculinidade. 2004. a mulher é vista na sociedade como um sujeito dependente e infantilizado. Como buscamos compreender o fenômeno da violência contra a mulher com base na ótica da saúde pública. Para Schraiber e D’Oliveira (1999). que o define como uma categoria teórica fundamentada em duas proposições. 2001). nível socioeconômico e status educacional (Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. Foi reconhecida como um problema de saúde pública por afetar a integridade física e a saúde mental da mulher. a violência contra a mulher é definida como qualquer ato de violência baseado em gênero. os dados obtidos são alarmantes e mostram que foram agredidas física e sexualmente por seus parceiros entre 30% a 60% das mulheres em todo o mundo. que efetivamente resulte ou possa resultar em agravo ou lesão física. todos como sinônimos. Em sua segunda proposição. define-se sua conceitualização. mas relacionados entre si.. A violência apresenta-se como uma forma de legitimação de poder do homem sobre a mulher. as instituições sociais e políticas. No Brasil. idade. é um fenômeno complexo e de alta prevalência no Brasil. Pedrosa. Intensos esforços têm sido feitos para melhor conhecer esse tipo de violência./dez. Azevedo (1985) aponta para um aspecto importante da violência. ainda...287-99. 1992) afirmem que os profissionais de saúde apresentam dificuldades em lidar com essa problemática. e as organizações.31.

G. que o lar é um fator de risco para a violência (Azevedo. o que contribui para manter a invisibilidade do problema (Schraiber et al. A violência psicológica inclui toda ação ou omissão que causa ou destina-se a causar dano à autoestima. Podemos observar que as violências cometidas contra a mulher assumem várias formas e. por essa razão. que são utilizados como parâmetros na definição de violência. isentas de acordos. é passível de ser modificada./dez. sendo a agressão uma forma enviesada de comunicação resultante de uma negociação malsucedida por diversas motivações. a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher inclui o COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. externas ou ambas. os direitos humanos e o desenvolvimento social. A perspectiva dos profissionais de saúde Nos últimos anos a maioria dos países vem tentando modificar a resposta dos serviços de saúde em relação à violência. mesmo que muitas vezes a situação doméstica seja extremamente conturbada e as hostilidades perpetradas pelo parceiro íntimo sejam reiteradas. obriga outra à realização de práticas sexuais. p. em 60% dos casos continuam vivendo com seus agressores depois de registrada a queixa (Verardo. 1997). influência psicológica ou uso de armas ou drogas (Day et al. à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. O reconhecimento da participação ativa da mulher no desencadeamento da violência não significa afirmar que ambos encontram-se na mesma posição em relação ao gênero. mantendo-o na relação sem que este perceba que suas vontades e ações estão à mercê do dominador. ainda. As mulheres vítimas da violência doméstica.. configuram violação dos direitos humanos. 2009 289 artigos . Devido às dificuldades percebidas na década de 1990. 2004). A perda de autonomia.287-99. Segundo apontam Schraiber e D´Oliveira (1999). Considerando ser este um problema de saúde pública. Esses dados denunciam que eventos violentos ocorridos no ambiente familiar não são nomeados como violência. podendo até desencadeá-la. E. Gregori (1993) afirma que a violência entre parceiros íntimos é determinada por um conflito entre as partes envolvidas. segundo mostram os registros da Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo. Por violência física entende-se todo e qualquer ato que objetive causar dano cometido por meio do uso de força física ou utilizando algum tipo de arma ou instrumento que possa causar lesões internas. os profissionais de saúde e as usuárias dos serviços são atores que protagonizam esse cenário. homens e mulheres não detêm o poder de maneira igualitária. ou seja. mediante força física. Segundo Chauí (1984) a violência é capaz de alienar o sujeito. permitindo. assim. 2004). Por conseguinte. o controle sobre ela. n. por meio do movimento feminista. SANTOS. poder. em situação de poder. A incorporação da violência contra a mulher como objeto do campo da saúde é recente.M. Destaca que as mulheres participam ativamente desse processo e sustenta que as agressões seriam novas formas de relacionamento.. social e econômica. a alienação e sujeição da vontade aos caprichos do outro. 1985). buscaram-se novas estratégias para se abordar a violência perpetrada pelo parceiro íntimo a partir de três campos: a saúde. gênero é um conceito-chave para analisar a relação de subordinação das mulheres e a mudança social e política.DE FERRANTE. Para compreendermos o fenômeno da violência de gênero devemos descartar as posições deterministas e reducionistas. M. existe uma tendência a negar a violência. Corresponde a uma categoria histórica e. de modo a consolidar o poder e naturalizar as posições masculinas e femininas como desiguais. buscando apreender suas percepções quanto à problemática e ao papel que desempenham perante essas mulheres. No Brasil. Ainda que muitas mulheres descaracterizam ou não percebem o que lhes ocorre como violência. ao impedir sua participação na vida política. No presente estudo voltaremos nossa atenção ao papel dos profissionais de saúde. alocando-se inicialmente nos âmbitos jurídico e policial. a partir da década de 1980. que apresentam a mulher como passiva e vítima de uma situação imposta. a violência doméstica contra a mulher começou a ganhar visibilidade na esfera pública. que designa à mulher o papel de sexo frágil. 2003)..A. ocorre em uma relação entre gêneros. out. O sujeito não percebe sua perda de autonomia. A violência sexual é toda ação na qual uma pessoa. porém é mais penalizada do que seu parceiro nessa relação (Saffioti.. A mulher participa da relação violenta. F . 2002). entendimentos ou negociações.13. compreendendo-a como todo ato capaz de violá-los (Saffioti. VIEIRA. pelo prestígio reconhecido na agenda internacional e por disponibilizarem ferramentas práticas e teóricas para o manejo da violência.31.

. 2005. os médicos temem por sua segurança pessoal. Entretanto. out. 2004). pois se decepcionam ao depararem com a inabilidade dos pacientes em controlar suas vidas. Rodríguez-Bolaños. Portanto. sentimento de impotência diante dos abusos cometidos e da perda de controle. sabe-se que os profissionais não identificam ou não registram a violência nos prontuários médicos como parte do atendimento realizado (Garcia-Moreno et al. desenvolver possíveis intervenções e encaminhamentos. que. referência e registro. n. estudos referem que muitas mulheres procuram atendimento nos serviços de saúde para tratar de seus sintomas físicos. uma vez que este método volta-se para os aspectos subjetivos. as demandas trazidas pelas usuárias não têm lugar reconhecido entre os profissionais. (2003). Há um hiato entre o que os profissionais entendem como sendo um problema de saúde e o que as usuárias buscam nos serviços. o que dificulta a visibilidade dos casos de violência doméstica. Sugg e Innui (1992) detectaram algumas barreiras para a atuação eficaz dos médicos diante da violência. Kiss. Trajetória metodológica Em virtude da natureza do fenômeno. este estudo teve por objetivo investigar a percepção dos médicos que atuam nas unidades básicas de saúde de Ribeirão Preto-SP sobre a violência praticada contra mulheres por parceiros íntimos.13. pois não existem canais de expressão ou de comunicação entre eles. medo de ofender os pacientes.. preconceito ou descrédito de ambas as partes. e também ficam desapontados com sua própria impossibilidade de controlar os comportamentos dos pacientes. acreditamos que um passo importante a ser dado é compreender a percepção desses profissionais sobre a violência de gênero. atendimento das mulheres em situação de violência (Brasil.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: PERCEPÇÃO . assim como eles. 2004). Sendo assim. probabilidade de se identificarem com seus pacientes.31. Dessa forma./dez. 2009 . mas não relatam aos profissionais como eles foram desencadeados. p. possam pertencer a um grupo de risco. Por essas razões. valorização do risco. nem contar com um ambiente de trabalho que promova uma estrutura adequada para lidar com situações de violência. consideramos o médico locado nas unidades de saúde como agente mediador e interlocutor. fortalecimento. o fato de a linguagem entre profissionais e usuárias ser muito diferente é um aspecto fundamental na dificuldade de se trabalhar com o tema. 2004). Além disso. que relataram não ter capacitação suficiente. vergonha. o silêncio e a invisibilidade do problema como consequências de sentimentos de medo. orientação. Destaca-se também que não estão sendo completamente cumpridas as normas de atenção estabelecidas. sem contar a falta de capacitação profissional. por não acreditarem que pessoas. por acreditarem que se trata de um assunto privado. que contemplam identificação. que possibilitam um aprofundamento nas 290 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Para Schraiber et al. por falta de códigos de linguagem em comum e consenso em relação às nomeações próprias a respeito dessa questão. Apesar dos números chocantes apontados pelas estatísticas. desconhecem locais para encaminhar as mulheres e não acreditam que o serviço de saúde seja um local adequado para tratar casos de violência. além de identificar quais os procedimentos e intervenções adotados para investigar sua ocorrência. optamos por realizar uma pesquisa de cunho qualitativo. embora soubessem da importância da escuta e do acolhimento. tais como: falta de tempo. Márquez-Serrano e Kageyama-Escobar (2005) destacam outras barreiras. Existem também barreiras institucionais.. denunciando a dificuldade da comunicação. omitindo a violência doméstica (Marinheiro. no contato com as usuárias. Pedrosa (2003) corrobora essa suspeita após entrevistar profissionais de saúde em Ribeirão Preto-SP . nem espaços privados para realizar a consulta. considerando que a instituição não oferece suporte ao atendimento. torna-se peça-chave para acolher. não querem se envolver com questões judiciais. ao constatarmos a importância do processo de comunicação para o atendimento das mulheres em situação de violência. A dinâmica dominante na situação é: a mulher não fala e os profissionais não perguntam. os profissionais tendem a desconfiar que as mulheres estejam realmente falando a verdade e acreditam que suas atitudes podem não contribuir para solucionar o problema.287-99. Para esses autores. que impedem a identificação e encaminhamento dos casos de violência.

Tanto as recusas frontais. VIEIRA. uma indisposição em colaborar com investigação científica na qual não se vislumbra um interesse ou oportunidade de obter benefício imediato. quanto às suas especialidades médicas. Obtida a autorização institucional e após a aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. dois no norte e quatro no distrito central. cinco médicos negaram-se prontamente a colaborar com o estudo. A aplicação-piloto abrangeu cinco entrevistas com profissionais que preenchiam os critérios de seleção e que não foram incluídos no estudo. três no oeste. podem resultar em um viés de seleção. Por outro lado. 2009 291 artigos . O perfil dos participantes foi delineado conforme os dados obtidos nas entrevistas. out. alegaram que não tinham tempo ou que não estavam disponíveis para conceder a entrevista. realizamos uma primeira leitura flutuante do material transcrito para nos aproximarmos dos conteúdos abordados pelos entrevistados. de acordo com as normas preconizadas pela resolução no 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. embora compreensíveis. Sendo assim. como critérios de inclusão. como as sutis – que se materializaram em esquivas apoiadas em pretextos banais. optamos por descrevê-los com base em algumas características. buscando-se compreender a realidade vivenciada por esses profissionais (Minayo. atuação profissional diante da violência doméstica. realizamos uma aproximação com o campo. atendessem mulheres em sua prática profissional. por fim. redes de significações das ações e relações humanas. Para tanto. Além disso.G.. assim como destacar eixos norteadores para a interpretação.DE FERRANTE. o tempo de formação dos profissionais variou entre quatro e 36 anos. que os médicos trabalhassem nas unidades básicas de saúde de Ribeirão Preto-SP . Nesse caso. o que permitiu que nos familiarizássemos com suas impressões. M. como “falta de tempo” – são comportamentos que sinalizam uma predisposição negativa em relação à temática abordada no estudo ou.31. 2001). para identificar as ideias principais. no período de junho a agosto de 2007. Dentre os 14 entrevistados figuram: oito homens e seis mulheres com idades variando entre 29 a 57 anos. Seguimos a análise organizando os dados de acordo com os temas utilizados para elaboração do roteiro de entrevista. Para garantir o anonimato dos participantes. e concordassem em participar da pesquisa. nove eram GO e cinco CG. Um roteiro temático foi elaborado com o intuito de contemplar os seguintes tópicos: percepção sobre a violência doméstica contra a mulher. a entrevista semiestruturada. realizamos pré-teste do instrumento para ajustar o roteiro. três atuavam no distrito leste. Além disso. localizadas nos cinco distritos sanitários do município.287-99. o tempo de atuação na Secretaria Municipal de Saúde variou entre um a 25 anos. No processo de coleta de dados. Para termos acesso aos significados que os profissionais constroem acerca da violência contra a mulher. Elegemos. nem interesse em contribuir com a pesquisa.. E. e conhecimentos teóricos e práticos para possíveis encaminhamentos. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. elegemos. p. tais como: especialidade. as enfermeiras ou os responsáveis pelo serviço sugeriam-nos que retornássemos em outros dias e em horários diferentes. O critério de saturação foi utilizado para interromper a coleta de dados. mais genericamente. assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. além das dificuldades no agendamento das entrevistas com os outros médicos. fossem clínicos gerais (CG) ou ginecologistas-obstetras (GO). assim como as estruturas relevantes abordadas pelos entrevistados. é preciso considerar que tais recusas. em vinte das visitas que realizamos nas unidades de saúde. Várias releituras exaustivas foram realizadas e possibilitaram um aprofundamento no exame dos relatos. alegando que não tinham tempo. Selecionamos os entrevistados conforme os critérios definidos e realizamos 14 entrevistas com o auxílio do gravador. o que poderia favorecer a realização da coleta.A. SANTOS. dois no sul. o que nos possibilitou identificar os núcleos de sentido que emanavam dos discursos dos médicos entrevistados. elaboramos uma classificação dos conteúdos por meio do desmembramento dos relatos. em relação à distribuição por local de trabalho. como instrumento. sexo e idade. e. não foi possível falar pessoalmente com os médicos por razões diversas: não estavam presentes nas unidades. pois os informantes que se recusaram poderiam ser ainda mais avessos à temática do que aqueles que aceitaram participar.M. n. deparamo-nos com dificuldades que estenderam nossa permanência no trabalho de campo – entre elas. F . com o intuito de nos ambientarmos e nos aculturarmos no contexto. Para sistematizar os resultados utilizamos o método de análise de conteúdo temático proposto por Bardin (1977). 12 viviam com parceiro fixo e dois eram solteiros.13. Concluída essa etapa do processo./dez. As entrevistas foram transcritas na íntegra e literalmente.

homem. out. A violência sexual foi a menos mencionada nos discursos. (CG5.. a maior parte acredita que a violência psicológica é a mais grave.. mulher.. Partimos do pressuposto de que essas representações são as pautas orientadoras para sua atuação profissional diante da violência contra a mulher. eu acho que é a violência emocional.13. os médicos sentem-se limitados para abordá-la ou aplicar qualquer tipo de intervenção. junto com ela.. né. Outras temáticas que emergiram no decorrer das entrevistas não serão abordadas neste estudo. Como referencial teórico para dar suporte à análise de conteúdo. Outra ideia abordada pelos profissionais foi a de que a violência surge a partir do momento em que há transgressão do respeito pela individualidade da mulher. 2009 . Então fica aquele casal se suportando anos [. as possibilidades de intervenção profissional e percepção de barreiras para o atendimento. Especialmente a mulher suportando o homem. No que diz respeito ao conhecimento sobre os tipos e gravidade da violência de gênero. Resultados e discussão Para a construção dos resultados analisamos os eixos norteadores: conhecimentos sobre os tipos e gravidade da violência de gênero. Outra ideia que surgiu nos relatos é a de que. Além do destaque dado à violência física. uma vez que implica mobilizar recursos para superar a situação. a prática médica frente a essa situação. vem. 37 anos) “[. a ponto de. dando margem para o surgimento das violências física e sexual. n. aquela um pouco ligada à dependência [. permanecer exposta à situação durante anos a fio.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: PERCEPÇÃO . Em relação às percepções da gravidade da violência presentes nas falas dos profissionais. é a violência psíquica. a constatação do agravo torna a tarefa mais árdua. percebemos. para pessoa perceber que está passando. tanto a partir de sua inserção como sujeitos sociais quanto a partir do que eles destacam acerca de suas representações das relações estabelecidas entre homens e mulheres.. Dois médicos destacaram que. percepções acerca de quem é a mulher que se encontra em situação de violência. (GO2. Alguns denominam esta última de violência verbal..31. em se tratando de violência psicológica. utilizamos as noções de gênero abordadas anteriormente./dez. a mulher também participa ao depreciar o trabalho e outros aspectos relacionados à vida do homem. que os médicos reconhecem que privar a mulher de frequentar o espaço público. pois a própria mulher apresenta dificuldade em reconhecê-la como algo prejudicial à sua saúde.] eu acho que a pior em termos. 57 anos) 292 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. por ser mais difícil o profissional detectar a violência e a própria mulher reconhecê-la como tal. às vezes uma violência física.. Destaca-se a fala de profissionais que afirmam que a violência psíquica causa dependência emocional da mulher em relação ao homem. destacamos alguns temas que se consolidaram a partir da comparação dos eixos norteadores do roteiro de entrevista com o material que emergiu dos discursos dos participantes. a pior. eu acho que é a pior. Por quê? Porque ela é suportável. uma violência sexual. até para diagnosticar. ela permite a definição mais rápida da situação”. a partir dos relatos coligidos. assim como manter relação sexual sem o consentimento da parceira. Esses achados estão de acordo com Gregori (1993). que destaca a participação ativa da mulher na situação de violência.] mais grave mesmo.. p..] difícil às vezes você quebrar isto. E… é… a violência física de um modo geral. As passagens a seguir ilustram essas idéias: “[. todos os médicos afirmam conhecer a violência física e psicológica. Mas a mulher também… evidentemente que ela… é bilateral essa revolta. Entendemos que esse fundamento teórico é capaz de nos proporcionar a compreensão das representações dos profissionais de saúde. Até porque. do ponto de vista existencial.] anos.. frequentemente. futuramente. vem a dependência emocional. impedi-la de trabalhar e depreciar o desempenho de suas atividades domésticas são expressões de violência.287-99. eu acho que é a pior”. Além disso.

impedindo o exercício de sua autonomia e sujeitando-o à humilhação e opressão. ou seja. visando dominar. a permanência das usuárias em um relacionamento marcado pela violência deve-se a múltiplos fatores. queixas infundadas e desconfortos difusos. Esses discursos remetem-nos à definição de violência abordada por Chauí (1984). né… não têm coragem de largar por causa dos filhos… porque ele que banca a casa. como uma mulher muito subjugada. né? Fazer a mulher entender que ela é igual ao marido dela. contudo sem que o indivíduo perceba-se imerso nessa situação. enquanto o homem deve ser agressivo. e é constantemente acompanhada por outras formas de violências (Saffioti.DE FERRANTE. com expressões como “as famílias são muito ignorantes”. Essa visão desqualificadora das usuárias põe em relevo a assimetria que marca as relações de poder. alienando-o. out. ela não se vê assim.. O cara não vê ela assim. tornando desiguais as diferenças.. O relato a seguir apresenta essas considerações: “Porque a situação de vida dessas mulheres é muito complicada. depressão. o gênero – a mulher ocupa uma posição de dependência em relação ao homem. Esses aspectos estão diretamente relacionados às questões de gênero. A violência psicológica provoca feridas na alma. que afirmam que esta se desenvolve em um ciclo vicioso e. n. a mulher permanece na relação por não ser capaz de visualizar outras possibilidades para sua vida.. mulher. ou seja./dez. Como é que você vai mudar isso na cabeça de uma pessoa. submissa.. M. Seu perímetro de domínio é delimitado pelo lar. VIEIRA. tanto na hierarquia de gênero como na estrutura de classes. seja devido às marcas físicas deixadas em seus corpos ou aos sintomas associados. entre outras manifestações. Essas noções manifestam-se no discurso dos médicos ao destacarem que as mulheres. Por meio da hierarquia de gênero. No que se refere à prática médica frente à situação de violência. Mas não adianta. À mulher é destinado o espaço privado.M. a dependência financeira e emocional. as famílias são muito ignorantes. corajoso. com o passar dos anos. (GO5. muitas vezes mais difíceis de curar do que as marcas físicas. mesmo reconhecendo a situação de violência a que estão expostas.A. Nos deparamos. Seguindo-se essa linha de raciocínio. 2002). resignada e cuidadora. assim.13. e o medo de perder os filhos. ela não foi criada assim. a responsabilidade pelo desempenho das tarefas domésticas e pelo cuidado dos filhos. ao serem questionadas. que seria o provedor de suas necessidades materiais. devido à construção social do papel da mulher – ou seja. É preciso lembrar que a medicina científica. [. a mulher é designada como dócil. desde sua origem no projeto de medicalização do corpo feminino. 2009 293 artigos . destemido. naturalizando-se as relações de gênero. dispaurenia (dores ao manter relação sexual). sobretudo: o medo de represália do parceiro. emotiva. e a possibilidade de perder suas funções tradicionais significaria abrir mão de suas conquistas e de sua relevância social. Elas dependem do marido financeiramente. muito broncas… foram criadas assim. pudemos depreender dos discursos que os profissionais são capazes de identificar usuárias que sofrem agressão.31. SANTOS. Outro ponto que constatamos refere-se às percepções acerca de quem é a mulher que se encontra em situação de violência. a posição social “inferior” ocupada pela mulher justifica e naturaliza a violência. que frequentemente desqualificam as mulheres. quando se trata do feminino social. inquestionável e imutável. conforme podemos verificar nas passagens a seguir: COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Para Piscitelli (2002). p. angústia. destacada por Oliveira (2001) e Saffioti (2004). portanto. F . destacando-se. sem instrução nenhuma. o que vale também para as mulheres médicas. Ainda hoje constitui um nicho de poder masculino. 30 anos) Chama a atenção o preconceito de classe dos profissionais. De acordo com os profissionais.] É educacional. se afirma como uma profissão “masculina” e misógina (Vieira.G.287-99. tais como: somatizações. o que contribui para a cronicidade da violência. entendeu?”. Outro elemento que contribui para a identificação da violência é o relato produzido pelas mulheres. Que ela tem que se posicionar com ele de igual pra igual. ao propor que os agressores buscam manter a parceria e estabelecer relações hierárquicas. E. tende a se tornar mais grave e intensa. que tende a se perpetuar. arrojado e provedor. explorar e oprimir. aceitam-na como algo natural e inevitável. submetidas à mesma ordem do discurso. 2004). com as questões de gênero na gênese da violência perpetrada por parceiro íntimo.

E se a gente não percebe… pelo o que ela falou.. tentar. tal como mostra o relato a seguir: “A mulher… eu acho que muito mais do que a gente estima… que a maioria das pacientes eu acho que nem falam. tento ganhar confiança dela .. Foi possível identificar no discurso de vários entrevistados que a relação estabelecida entre médico e paciente promove um sentimento de confiança..” Mas a gente percebe. são os casos de depressão”. tentar achar uma maneira de tentar ajudar. se não tem nenhuma marca no corpo… a gente não fica sabendo. ou mentem deliberadamente para proteger seus parceiros violentos. devagar pra conseguir encaminhar a paciente”. eles terminam por confirmar a exposição à situação de violência. E tá vivendo com angústia. para ver se ela conversa alguma coisa. muitas vezes sem explicações físicas que as justifiquem –... tais como: tratar ferimentos. Os relatos sugerem que as mulheres em situação de violência não necessariamente buscam as unidades de saúde para tratar das lesões. Selecionamos dois relatos que retratam as atitudes dos profissionais ao serem questionados sobre como agir frente a uma mulher que se encontra em situação de violência: “Eu acho que a primeira coisa é identificar. Percebe como? Primeiro. Eu escorreguei e bati o olho. não é que escorregou. Assim. encaminhar para os mais variados serviços multidisciplinares. é claro que ela levou um soco do marido. vinte minutos conversando com ela. “[. n. tentar ir abordando de forma. [. mulher. mas elas não vieram com essa queixa.. se ela faz alguma coisa”.... homem. possibilitam que a violência doméstica perca sua aura de invisibilidade. podem estar relacionadas a outros determinantes. 2004). né. mulher. Esta se evidencia quando se pressupõe que as mulheres “querem” permanecer nessa situação. mulher.. pode ser pelas lesões que ela tem.. Eu escorreguei e bati o olho. 52 anos) “Eu já tive pacientes que me revelaram./dez. dar apoio moral. 30 anos) Frente à identificação dos casos de violência. falei assim. Desse modo. [.... os profissionais são capazes de identificar essa conexão.. conforme cada caso. (GO5.] Normalmente porque tá tendo dor pra tudo quanto é lado.13. a gente começa retirando conforme a gente vai colhendo a história. Aí. orientar e esclarecer a usuária de que aquela situação lhe é prejudicial e que existem recursos para alterar aquele panorama. ao estabelecerem uma relação de confiança e intimidade com suas pacientes. né.. só que ela não quer falar. E ela fala assim: “Ah. às vezes conversando um pouco.. O médico não hesita em lançar mão dos estereótipos de gênero para interpretar as várias situações de violência.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: PERCEPÇÃO . que é complementada por uma visão de gênero. Algumas vezes. 36 anos) As diferenças de classe se expressam em um olhar de “estranhamento” e suspeição que o profissional dirige às mulheres atendidas na rede pública. p.287-99. apesar de essas mulheres chegarem aos serviços com queixas diversas. Outro estudo encontrou resultados semelhantes (Kiss. os médicos lançam mão de uma gama diversificada de possibilidades de intervenções profissionais. Os profissionais reconhecem também que existem casos que eles não são capazes de identificar. out. né”. Essa visão é ancorada em preceitos que reforçam o estereótipo de gênero sobre a condição feminina em nossa sociedade.] Às vezes eu fico 15. ah. encaminhar pro psicólogo. por meio do diálogo estabelecido com essas mulheres. (GO4. mas chegam aos serviços com as mais variadas demandas.. notificar. (GO3. 29 anos) 294 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Você tentar identificar o problema.” Esse hematoma. “Ah. entendeu? Isso foi uma coisa que. que viabiliza a abertura de um canal de comunicação da mulher com o profissional.. sua percepção sobre essas mulheres parece estar calcada nas diferenças de situação socioeconômica e educacional das pacientes assistidas na rede pública.] a gente percebe (silêncio). Os médicos conseguem identificar que essas queixas. aceitam ser subjugadas e inferiorizadas. mesmo que seja difícil. 2009 . mandar.. quando tem um hematoma. As entrevistas indicam que. mesmo quando a mulher nega a situação de violência – tais como dores difusas.31. A gente percebe assim.. que à primeira vista não são necessariamente relacionadas à violência. (CG1..

. necessário identificar os casos por meio do diálogo. não sei”.. é 15 minutos a consulta. Para os médicos que trabalham nas unidades de saúde. (2003. primeiro que cê quase não tem tempo.A. para que ocorra o acolhimento e o encaminhamento adequados.] mas. a qual. Daí a enfermeira que vai… então eu não sei te falar… pra onde ir. Dar força nesse aspecto… eu acho que esclarecer. (GO5. A falta de capacitação é destacada pelos participantes como uma barreira para o atendimento dessas mulheres. 30 anos) Essas passagens acabam por denunciar uma situação preocupante.. visando um melhor prognóstico para a usuária. Então eu não sei pra onde eu mando a mulher./dez. também apontada por Pedrosa (2003) ao referir que os médicos não estão capacitados para lidar com usuárias que chegam aos serviços de saúde em situação de violência a que estão expostas muitas vezes cronicamente. 2009 artigos . não. ao destacarem a importância dos serviços de saúde para o enfrentamento da violência..DE FERRANTE. Essas barreiras institucionais são destacadas nos relatos a seguir: “Ai. E. Pautados nesses autores. como os de Rodríguez-Bolaños et al. p. nos casos de agressão sexual.. destacam que é fundamental uma visão integrada. delegando ao serviço de enfermagem tal função. mulher..M. Houve ainda uma parcela de profissionais que afirmou não conhecer os procedimentos adequados para dar andamento aos casos de agressão: “Então… porque eu atendo aqui… daí eu preencho esse protocolo e passo pra enfermeira.] “Eu acho que deve”. que inclua a prevenção-identificação para um correto encaminhamento-atendimento dessas mulheres.. você esbarra em tantas dificuldades aqui.287-99.13. SANTOS.G. ao apoiarem a criação de uma rede intra e intersetorial para lidar com a violência de gênero. a falta de estrutura do sistema. o Hospital das Clínicas.... “Eu acho que é isso… fazer isso… é… orientar: “o senhor acha que eu devo… o senhor acha que eu devo denunciar?” [. eu. Porque você começa.. assim… a gente fala: “oh. pudemos constatar que parte dos entrevistados desconhece os recursos comunitários disponíveis para possíveis encaminhamentos dessas usuárias. (GO6. você acaba tendo que. 47 anos) Schraiber et al. os locais mais referidos para se encaminhar uma mulher em situação de violência doméstica foram: a Delegacia de Defesa da Mulher.. sendo. né… não vão dizer pra qualquer um. segundo os médicos. tais como: a falta de tempo para abordar a paciente.. Chegar no ponto de falar com o médico. afirmam que esses locais são portas de entrada para mulheres. (CG4. procura a delegacia”… Mas também não sei dizer com detalhes. Schraiber et al. VIEIRA.. Principalmente quando você tem confiança. não faz nada.. homem. sobretudo a polícia. A enfermeira que vai tomar essas providências. homem. nos casos de violência física. Deixar assim… alertar. Esse achado é congruente com outros estudos. você tem 295 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 41 anos) “Eu não sei quais os passos certinho. Além disso. F . (2005). elas confiam. pelo menos orientar e achar o que é mais lógico de se fazer. uma vez que muitos deles reforçam a necessidade de um treinamento voltado especificamente para os casos de violência de gênero. out. mas pra você fazer uma orientação sexual mesmo. na verdade o que eu tô fazendo é muito pouco. a falta de capacitação de outros órgãos envolvidos na rede de apoio e assistência. Eu acho que é isso”. estratégia condizente com as necessidades do cuidado integral. ainda. Outra alternativa de encaminhamento que surgiu nos relatos foram os serviços de saúde mental.. enfatizamos que o encaminhamento. n..31. M. Carreira e Pandjiarjian (2003). 2002) e Schraiber e D’Oliveira (1999). que não disponibiliza profissionais suficientes e. não sei”. outras barreiras institucionais são referidas nos discursos dos profissionais. né. (2002). seria uma alternativa eficaz de dar prosseguimento à assistência a uma situação de combate à violência.. portanto.. para além da dimensão do acolhimento. Além dessas. Não sei se tem algum serviço de apoio psicológico. por disponibilizarem terapia de casal. por possuir um serviço especializado para tratar desse tipo de violência. e. né [. né… de ela poder te dizer isso. orientar… mostrar que não é desse jeito. esclarecer.

de agressão..13. pra onde encaminhar”. encontramos.. Onde poderiam ajudar? É a polícia.. que limitam sua atuação. acolher as mulheres que estão expostas à situação. tanto em nível preventivo como interventivo... 48 anos) Chama a atenção que vários profissionais partem do pressuposto de que não há nada a ser feito.. Frente a isso. só que a polícia também não faz nada. e reconhecem a falta de capacitação profissional. destacam uma série de dificuldades para atuarem frente a uma usuária que apresenta essa problemática. é obrigação nossa orientar pra procurar a delegacia”. até pra que ela tenha condições de mudança ou de enfrentar a situação de outra forma? Eu não tenho tempo… eu não tenho formação pra isso… e não tenho o que fazer. ou. 2003). mulher. 2004). Por exemplo.. Conclusão O presente estudo explora um tema relevante e atual para a área da saúde pública. Mas a gente tem que orientar sempre. barreiras pessoais.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: PERCEPÇÃO . visto sob a ótica dos profissionais. e. (GO4. né… quê que adianta eu estar detectando e não conseguir trabalhar o quê que aquela violência pode estar fazendo na vida da pessoa. Além das barreiras institucionais. muitas vezes. mulher. A percepção dos médicos sobre a violência perpetrada por 296 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Aí o marido. 52 anos) “[. no relato dos médicos.. 29 anos) Esses resultados são convergentes com diversos estudos realizados sobre a violência de gênero (Rodríguez-Bolaños et al. além de outras barreiras pessoais e institucionais. 2005.287-99. ela foi muito espancada.. educação. uma vez que as mulheres e/ou os serviços e/ou as delegacias de polícia não colaboram. só que não acha um lugar onde ela pode ser ajudada.. só que a polícia não faz nada.. tudo bem. Schraiber et al. Podemos inferir essas dificuldades nos relatos a seguir: “Que ela veio uma vez com espancamento. ela. que integrasse as áreas de saúde. destacam-se: os médicos sentem-se impotentes frente às atitudes que a mulher possa vir a tomar. tava com marcas no pescoço. Kiss. E ela continua apanhando”.. no que diz respeito às barreiras destacadas pelos profissionais de saúde para identificar e lidar com casos de violência. assistência psicossocial.. Tem mulher que quer sair desta situação. a capacitação e a implicação das instituições com o fenômeno abordado seriam os meios pelos quais a violência doméstica poderia finalmente ter seu espaço reservado na agenda do sistema público de saúde. out. Além disso. mesmo depois de orientada.. como ajudar ela? Eu dou os conselhos. mulher. Contudo. então./dez. então esse é um obstáculo”. segurança pública. Aí eu falei pra ela procurar a Delegacia. Entre elas.. Tem a Delegacia da Mulher. subestimam a importância da detecção e encaminhamento. de conversar com a mulher. entre outras..31.] Eu acho que essa é uma inadequação do serviço público. afirmam que temem tomar qualquer atitude por medo da reação do agressor.. Pandjiarjian. Desse modo. bem como o trabalho em rede. ela voltou com o marido e o marido veio aqui tirar satisfação: por que eu mandei ela fazer queixa? É uma situação complicada. homem.. assim. deveria ser mais desenvolvida uma rede de apoio multidisciplinar. Algumas características da interação médico-paciente também se mostraram úteis para a compreensão do fenômeno investigado. é muito mais que isso. (GO4. que ela disse que fez vários BOs.. ir atrás. (GO3. fazer queixa. que muitas vezes os impedem de agir adequadamente frente a uma situação de violência. (2002) propõem algumas estratégias: a comunicação. 2009 . p. Os resultados revelaram que os médicos detêm alguns conhecimentos acerca dos tipos de violência de gênero e são capazes de identificar e. (GO7. n. 29 anos) “Também. que. contribuindo para a prevenção e o combate da violência doméstica contra a mulher (Carreira.

CHAUÍ. que desenhou e orientou o estudo.. (Orgs. São Paulo: Rede Mulher de Educação. M. BRASIL. A.J. E. 1977. out. a subordinação histórica das mulheres.C. HEILBORN. Dissertação (Mestrado) – Escola Nacional de Saúde Pública. uma vez que este dispõe de apenas 15 minutos para a consulta. A essa dimensão dos preconceitos de classe dos profissionais se acopla a das relações de gênero. In: FRANCHETTO. apontamos a importância de haver outros profissionais mais capacitados para a escuta. além dos médicos. 2003.V. além de ser invisível – como abordada em estudos anteriores – não seria por vezes ignorada e negligenciada.A.. para que os serviços de saúde se constituam em espaços de acolhimento e apoio.DE FERRANTE.. BARDIN. parceiro íntimo é influenciada pela condição social da mulher assistida no Sistema Único de Saúde. Ministério da Saúde. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Como apontam outros estudos. Frente aos resultados obtidos. 1984. Será que não poderíamos falar em uma invisibilidade institucional. atualizando. AZEVEDO. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher: princípios e diretrizes. Além disso.13. M. para que se viabilize um atendimento multidisciplinar. além do fato de a rede pública não disponibilizar uma estrutura capaz de dar suporte permanente a essas demandas? Ao apontarem a singularidade da percepção dos médicos. p. Nessa vertente. Rio de Janeiro: Zahar. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Lisboa: Press Universitaires de France.A. que não necessariamente o médico.287-99. M. SANTOS. Gênero e violência no âmbito doméstico: a perspectiva dos profissionais de saúde. B./dez. Referências ANGULO-TUESTA. visto que muitos profissionais não se sentem seguros. para possibilitar que a rede seja capaz de oferecer uma infraestrutura que dê suporte a essa demanda. VIEIRA. Colaboradores Fernanda Garbelini De Ferrante coletou e analisou os dados e redigiu este artigo sob supervisão de Elisabeth Meloni Vieira. M. Rio de Janeiro. 2009 297 artigos . Fundação Oswaldo Cruz. Finalmente. Perspectivas antropológicas da mulher.23-62. n. Vem pra roda! Vem pra rede!: guia de apoio à construção de redes de serviços para o enfrentamento da violência contra a mulher. Análise de conteúdo. que ofereça uma resposta efetiva para o problema da violência de gênero. uma vez que os profissionais não são preparados para as mais variadas situações que possam surgir em seu cotidiano. L.L. é preciso investir na qualificação dos outros profissionais de saúde. p. Manoel Antônio dos Santos participou da análise dos dados e da redação final do manuscrito.M. que é fortemente desqualificada. M. CAVALCANTI. Mulheres espancadas: a violência denunciada. D. 1997. o que implica que a hierarquia de classe e a hierarquia de gênero se complementam e potencializam. 2004. v..4. os resultados sugerem a necessidade de um trabalho integrado e em rede. Secretaria de Atenção à Saúde. integrando-se efetivamente à rede de atendimento. V. nem capacitados para lidar com mulheres expostas à situação de violência. Participando do debate sobre mulher e violência.31.. é preciso dar atenção para as questões de gênero e de classe que atravessam as percepções que os profissionais têm em relação ao fenômeno da violência doméstica e às mulheres acometidas. São Paulo: Cortez. F . L. também é preciso oferecer supervisão interdisciplinar. PANDJIARJIAN. Brasília: Ministério da Saúde. no interior da relação médico-paciente.). podemos questionar se as dificuldades e barreiras destacadas pelos médicos não estariam denunciando que a violência.G. 1985. 1997. CARREIRA.

A violência contra mulheres na educação e prática em saúde: a violência como questão para a formação e o trabalho de médicos e profissionais de enfermagem. L.V. Violência contra a mulher: a percepção dos médicos das Unidades Básicas de Saúde de Ribeirão Preto. K. Ribeirão Preto. OLIVEIRA.12. Relações conjugais violentas: suas contradições e novas configurações contemporâneas pós-feminismo. v. MÁRQUEZ-SERRANO. Universidade de São Paulo. n. Pesquisa social: teoria. ________.11-27.13.7. Violencia de género: actitud y conocimiento del personal de salud de Nicaragua. Resolução n° 48/104. 2005. 2002. PISCITELLI.B. PEDROSA. São Paulo. (Org..Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.5. n. Interface . p. Educ. Campinas: IFCH-Unicamp. M. n.M.31.134-44. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Filosofia. A.G. v. MARINHEIRO.9-21.41-54. Universidade de São Paulo. Geneva: World Health Organization.Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. 2001. Declaração sobre a eliminação da violência contra as mulheres. n. F . DAY. SP . 85ª sessão plenária. 2005. Nova York: ONU. SCHRAIBER. health outcomes and women’s responses. Violência doméstica e suas diferentes manifestações.N. 1993. 2005. São Paulo: Fundação Perseu Abramo..). 2004.287-99. Salud Publica Mexico.. C.. Universidade de São Paulo.2. L. Ciências e Letras. 2004. KISS. Disponível em <http://www. 2003. v. SCHRAIBER. 2003. MINAYO.C. p. Dissertação (Mestrado) . A prática feminista e o conceito de gênero. Petrópolis: Vozes. Rio Gd. Sul. H. A.3.. M.S.P .br/Homepage/Dossi%EAs/ Dossi%EA%20Viol%EAncia%20Contra%20a%20Mulher. R. Universidade de São Paulo.redesaude. patriarcado e violência. 2004./dez. 298 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Acesso em: 23 mai 2007. 1999. V. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.L. Interface Comunic.org. GREGORI.1.47. Rev. p. 2008.F . 2003. M. Dossiê violência contra a mulher: um problema que afeta toda a sociedade.B.7-42. Recife. p.ONU. C.L. RODRÍGUEZ-BOLAÑOS.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: PERCEPÇÃO .Comunic. 2001. São Paulo. Saude Publica. out.. 2009 . p. et al. 2005. n.B. p.Faculdade de Medicina. Saude. 2001. v. 20 de dezembro de 1993 [sob proposta da Terceira Comissão (A/48/629)]. Who multi-country study on women’s health and domestic violence against women: initial results on prevalence. KAGEYAMA-ESCOBAR.. SAFFIOTI. 2003. 1993. p. São Paulo. Ribeirão Preto. Violência vivida: a dor que não tem nome. 2008.C.L. Psiquiatr. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra-ANPOCS. n. São Paulo. et al. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS . 2002.. 2001. Violência contra mulheres: interfaces com a saúde. Gênero.25. relações violentas e a prática feminista.. A.P .M. Re-criando a (categoria) mulher? In: ALGRANTI. DE FERRANTE. Dissertação (Mestrado) . Cenas e queixas: um estudo sobre mulheres. Mulheres em situação de violência: o discurso dos profissionais de saúde. L.A. Violência doméstica: prevalência entre mulheres usuárias de um serviço de saúde de Ribeirão Preto. L. método e criatividade. (Textos didáticos. Dissertação (Mestrado) . v. et al. M.pdf>. GARCIA-MORENO. Educ. Rev.36. Saude.470-7. Violência contra a mulher: estudo em unidade de atenção primária à saúde.L.F. D’OLIVEIRA.4. 48) REDE NACIONAL FEMINISTA DE SAÚDE E DIREITOS REPRODUTIVOS.

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buscando possibilidades de superar a alienação em seu processo produtivo. p. Keywords: User embracement. SC. oferecendo aos profissionais condições de construírem seu trabalho sem limitá-lo à perspectiva biomédica e preservando sua própria saúde.303-14. n. Brasil. Pesquisa interdisciplinar. Identificamos as seguintes perspectivas teóricas nas relações interpessoais nos serviços. Atenção primária à saúde. a partir de relatos de experiência da implantação do acolhimento em serviços de APS. empathy or alterity?. 2009 303 .br 2 Curso de Medicina./dez. based on experience reports regarding user embracement implementation in primary healthcare services. we believe alterity is the theoretical perspective that is able to give the health worker conditions to develop user embracement while ensuring his/her own humanization. Rua 3050. searching for possibilities to overcome alienation in their production process. Palavras-chave: Acolhimento./dez. DUARTE JUNIOR.S. Healthcare services. Health work and the implementation of user embracement in primary healthcare: affection.13.F . C. 300. 1 Curso de Medicina. at the same time.31. com indicadores de avanços na humanização do trabalho em saúde e de uma aproximação com a subjetividade: afeto. 101. Although they are closely related to each other. v. out. We identified the following theoretical perspectives which we consider useful in order to enhance humanization in the work in the health area and also to foster subjectivity in interpersonal relationships: affection. Interface . alessandroscholze@univali.330-308. UNIVALI. apto. sem deixar de garantir sua própria humanização. Serviços de saúde.31. Primary healthcare...303-14. Y. empatia e alteridade.Comunic.. Ainda que todas sejam adequadas e mesmo complementares entre si. We conducted a theoretical reflection on the work of primary healthcare professionals in the scope of user embracement. Desenvolvemos uma reflexão teórica sobre o trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS) na diretriz do acolhimento. n. Educ. Interdisciplinary research. UNIVALI. Centro. empathy and alterity.Trabalho em saúde e a implantação do acolhimento na atenção primária à saúde: afeto.13. 88.. Balneário Camboriú. Saude. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. A. Esta abre possibilidades de enfrentamento das situações do cotidiano dos serviços de saúde. Alterity opens possibilities to cope with everyday situations in the healthcare services. 3 Mestrado Profissional em Saúde da Família e Gestão do Trabalho. preserving their own health. providing health professionals with the conditions to work without restricting themselves to a biomedical point of view and. FLORES E SILVA. Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). out. p. empatia ou alteridade? Alessandro da Silva Scholze1 Carlos Francisco Duarte Junior2 Yolanda Flores e Silva3 SCHOLZE. 2009. fazemos nossa opção pela alteridade como perspectiva teórica capaz de instrumentalizar o trabalhador da saúde para desenvolver o acolhimento.

relacionamos tais possibilidades bibliográficas/teóricas com relatos de situações práticas de implantação do acolhimento na APS. corresponsabilidade e autonomia dos sujeitos e coletivos. coletados em artigos científicos identificados nas bases de dados da Bireme com a temática “acolhimento”. 1999). como as auxiliares de enfermagem. 2006a. p./dez. Introdução A Política Nacional de Humanização (PNH) da Atenção e Gestão no Sistema Único de Saúde. garantindo a integralidade do cuidado ao identificá-lo com os processos de trabalho e produção de saúde.303-14. perda de interesse em práticas profissionais inovadoras e sintomas físicos diversos.. Silveira. protagonismo. 2006a. Inspirando-nos em Minayo (2007). 2004. Desse modo. a fim de atender todos aqueles que buscarem o serviço de saúde. 2007. construímos este artigo a partir de uma pesquisa de natureza bibliográfica/teórica sobre o trabalho dos profissionais de saúde na perspectiva do acolhimento na APS no Brasil.13.. A PNH definiu como humanização “a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários. pelas consequências diretas que pode determinar no acesso dos usuários como uma mudança no processo de trabalho. foi desenvolvida de modo a qualificar o SUS e estabelecer. 1998). 2006a). Suas manifestações incluem: exaustão emocional. apontadas como possibilidades teóricas para superar a alienação em seu processo produtivo (Mayema. Diante disso. Esse trabalhador protege sua saúde mental. com consequente perda de qualidade no trabalho e distanciamento nas relações pessoais (Trigo. ainda que bem intencionada. Reconhecida como uma das principais doenças nos Estados Unidos e na Europa. com base nas categorias afeto. 2004). Este último relaciona-se diretamente com o entendimento do trabalho como forma de produção de sujeitos. na prática. e não de saúde (Dejours. assumindo que a autonomia destes nos processos de gestão e cuidado garante maior efetividade nas mudanças do sistema de saúde. de 1998 a 304 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Esta deve ser implementada com base nos seguintes princípios: transversalidade. que desapropriam o trabalhador de seu processo de trabalho (Brasil. Brasil. out. Teixeira. conduzindo à responsabilização pelo problema do usuário e dando-lhe uma resposta adequada (Brasil.31. especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS). qualificando a comunicação no sistema. empatia e alteridade. A PNH propõe o acolhimento como processo constitutivo das práticas de produção e promoção da saúde. as propostas da PNH conduzem tanto a possibilidades de humanização do trabalho no SUS como a novas exigências. especificando-se “serviços de saúde”. Hallak . caso estes não estejam instrumentalizados para lidar com o aumento de demanda gerado na ampliação qualitativa da universalidade e pela qual devem se responsabilizar. o princípio da universalidade é estabelecido de forma qualitativa. objetificando-o e a si mesmo num processo de produção de procedimentos. Teng. 2007). capazes de sobrecarregar ainda mais os profissionais de saúde. 2006b. preocupando-se em incluir a saúde do trabalhador em saúde como parte das metas do SUS e de seus parâmetros de avaliação. Nesse caso. juntamente com a persistência de modelos de gestão centralizados e verticais.. mas pela inclusão de toda a equipe de saúde no processo de atenção. iniciado com excessivos e prolongados estados de tensão no trabalho. atingindo mais intensamente os não especialistas.10). O sofrimento no trabalho pode ainda ser mantido pelo desenvolvimento de estratégias defensivas que garantem a normalidade aparente e insensibilizam contra o que faz sofrer. Malta et al. 2005. Porém. a proposta da humanização com base no acolhimento gera condições adicionais para o surgimento da Síndrome de burnout do trabalhador em saúde. de modo a tornar tolerável o sofrimento ético que experimenta ao infligir um sofrimento indevido ao outro. aproveitando a capacidade clínica de profissionais que apenas serviam de intermediários para a consulta médica. n.TRABALHO EM SAÚDE E A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO . Essa política foi uma resposta às evidências do despreparo dos profissionais da saúde para lidar com a dimensão subjetiva do cuidado. não apenas pelo aumento no número de unidades ou profissionais na rede de saúde. p. 2006a. suas diretrizes. o burnout é um risco ocupacional para pessoas envolvidas nos cuidados em saúde. Esses profissionais devem criar espaços no serviço de saúde que permitam uma escuta qualificada. 2009 . chamada Humaniza SUS. trabalhadores e gestores” (Brasil. indissociabilidade entre atenção e gestão. como as demandas lançadas ao trabalhador em saúde para construir um ambiente de humanização e acolhimento dentro de um sistema que nega a subjetividade do trabalhador e do usuário. O acolhimento é uma das diretrizes da PNH e tem se tornado sua face mais visível.

10). 2006b. evoluindo para uma relação progressivamente mais intervencionista em seu meio. conduzindo-se um diálogo com as categorias previamente identificadas para elaborarmos uma síntese interpretativa. Assim. em oposição ao modo-de-ser cuidado. relações sociais e fazer previsões nesse tempo espacializado em torno de um referencial comum. A partir desses modos possíveis. determinada pela qualidade concreta do serviço. Considerando o número de textos disponíveis para análise. 2009 305 artigos . DUARTE JUNIOR. negando as conexões do humano com a natureza. “todo trabalho caracterizado profissionalmente pode ser definido nos seguintes termos: conduzir um devir. essa lógica do trabalho aplicada na própria sociedade humana pode acabar por objetificar e subjugar também as pessoas. Desse modo. rigorosamente homogêneo. p. dias ou anos.SCHOLZE. com isso há perda da autonomia e alienação desse profissional. 2002). mas foi incorporado na organização taylorista do trabalho. determinando a padronização das tarefas de forma hierarquizada e afastando o profissional da saúde do controle do processo de cuidado. problematização das ideias aí contidas sobre implantação do acolhimento e humanização do trabalho. ser negociada numa interação entre trabalhadores e clientes. Campos. O foco do trabalho passa a ser a execução de procedimentos repetitivos. então. a lógica do ser-no-mundo trabalho é antropocêntrica. o trabalho coletivo costuma ser organizado de forma taylorista. quando atualmente aplicada aos prazos para realização de certa tarefa. formando culturas que modelaram a natureza e os próprios humanos. A. 1998). out. Trabalho e cuidado na saúde Segundo Zarifian (2002. Essa característica excludente foi definida por Boff (1999) como um dos modos de ser-no-mundo: o trabalho. sempre repetidos da mesma forma no presente. num aspecto mais amplo. Assim. Isso foi possível somente adotando certo distanciamento da natureza. escolhemos “acolhimento” e “APS” como nossos novos descritores de busca e selecionamos outros nove trabalhos.13.F . em um tempo espacializado que exclui o trabalhador do processo criativo e das decisões sobre o cuidar (Pires. Já o modo-de-ser cuidado seria a essência do ser humano. simultaneamente objetivo e subjetivo. que contabiliza a passagem de minutos. A análise e a interpretação do material disponível resultaram da leitura compreensiva dos textos selecionados. e não pela ditadura abstrata do tempo homogêneo. alternativamente. FLORES E SILVA.. ou seja. A hegemonia do capitalismo industrial tornou-se viável pela instituição da autodisciplina na organização do tempo que passou a permear toda a atividade social. Exige-se.S. 2006a. Também na saúde. na visão de Boff (1999). Dotado de tanta utilidade social. integrando as memórias e as experiências do passado em um presente que apenas serve ao fluxo das transformações que conduzem às diferentes possibilidades do futuro (Zarifian.. 2008. definindo cada gesto e movimento do trabalhador. C. possibilitou organizar os acontecimentos. O resultado dessa busca indicou 13 textos.31. a pressão do tempo pode ser simplesmente transferida do gesto do trabalhador para a impaciência do cliente ou. a intervenção sobre um objeto é substituída pelo acolhimento e pelo respeito. mobilizando a experiência passada e antecipando o porvir”. caracterizando o tempo do porvir. p. permitiu comparar e controlar trabalhos heterogêneos. bem como na relação entre os elementos do próprio ser humano. Y. como fins para atingir objetivos de produção e consumo. Já. E.303-14. o ser humano desenvolve seus processos de construção da realidade. com os quais o humano dirige-se aos elementos da natureza e da sociedade por seu valor intrínseco e não utilitário. o trabalho volta-se para o tempo do devir. Tal divisão técnica do trabalho em saúde é característica do sistema de produção capitalista. a fim de analisá-la e dominar seus processos. A existência de um tempo homogêneo. existe na relação entre os elementos do mundo. o tempo necessário para produzir uma unidade de mercadoria. O cuidado. e considerando a descrição das primeiras experiências até as mais atuais. n. fragmentando-se a atividade produtiva em diferentes parcelas executadas por trabalhadores especializados em cada uma das ações necessárias ao cumprimento da tarefa. organizada e reforçada pela disciplina industrial. relacionando-os com um padrão comum. O trabalho surgiu como interação do homem com a natureza. o tempo espacializado não tem sentido próprio nem valor ético. dos quais apenas três descreviam experiências./dez. uma integralidade no cuidado com o humano que passa pelo ambiente no COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. mas dele diferencia-se por manter uma relação de convivência sujeito-sujeito com a natureza e entre os seres humanos. Por extensão. que não se opõe necessariamente ao modo-de-ser trabalho. é sistêmico.

nas redes do indivíduo ao longo de seus itinerários de cura e cuidado. voltados para a realização de uma tarefa.] não são sistemas sociais” (Maturana. Quando essas interações “recorrem” de forma espontânea. podemos inferir que um ‘cuidado integral’ é tão amplo e tão distinto quanto as culturas humanas existentes. todas estabelecem estruturas fracamente hierarquizadas e muito mais flexíveis em relação aos aparelhos.31. Por sua vez. coordenadas pela linguagem. considerando a alteridade dos seres humanos. partimos do pressuposto de que neste sistema existe aceitação mútua e. entretanto. encontram-se imersos em sistemas sociais como a família. 2003). alguns recursos utilizados pelas pessoas doentes. levando à coexistência dos elementos do grupo em aceitação mútua. pode acontecer nas diferentes formas possíveis de viver juntos. definindo o modo de viver do grupo humano considerado. qual vive. Essas condutas consensuais coordenadas nos pequenos grupos eram. assumindo um paradigma produtivista centrado não nas relações produtor-usuário. p. prescindem da aceitação mútua. O linguajar e a capacidade de se emocionar reúnem-se para constituir uma forma específica de diálogo ou conversação. cuja finalidade seria intervir nos problemas de saúde. sendo constituídas por entidades relativamente autônomas. n. mobilizam sistemas de trabalho. o que exige o compromisso com a emoção que constitui esse espaço de relações. a convivência não seria possível. para não chegarmos a um conceito semelhante ao de ‘saúde’./dez. estabelecidos como sistemas de trabalho. No primeiro caso. o conjunto de indivíduos com o qual mantém uma relação de exterioridade. os sistemas hierárquicos. A convivência nos grupos humanos se dá por interações recorrentes. ou procedimento.177). até suas próprias individualidades físicas. “que são [. consequentemente. aceitação do cuidado e o ‘olhar’ cultural que esta pessoa lançará sobre o ‘cuidador’ e sobre as terapêuticas (ou ‘atos em Saúde’) que este indicará em seu itinerário de cura e cuidado. espirituais e mentais. no caso humano. pressupondo um impacto positivo sobre as 306 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. A emoção do amor origina o fenômeno social. Assim. 1997. Diante desses intercâmbios possíveis. sem esta. identifica-se o amor como fenômeno biológico. Assim. out. 2004). Da mesma forma. cabe o questionamento: de que forma os serviços de saúde. Mehry (1998) considerou que o trabalho em saúde tem como produto os “atos em Saúde”.. nos seus itinerários em busca de cura e cuidado. podem estar aptos a produzirem cuidado de forma integral? Também cabe a nós perguntarmos o que é este ‘cuidado integral’. sem a qual o sistema não se define como social. entendendo-se aparelhos como organizações de agentes sociais caracterizados por dirigirem suas ações a um público. não são sistemas sociais os sistemas de trabalho. participarem da criação dos filhos. Já as redes definem-se por não terem um público e. p.303-14. a responsabilização e o desvelo necessários ao cuidado devem estar presentes. ou seja.. a partir de um princípio dinâmico de autorregulação. 2009 . os serviços de saúde aproximam-se mais da definição de aparelhos do que daquela de redes. e da expectativa que os serviços de saúde contribuam para a cura e o cuidado. em si mesmo (Godbout. como meros objetos de procedimentos ou consumidores de health commodities (Scholze.. que sofreu tantas críticas entre profissionais da área. independentemente de quais formas assumam.. vinculado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nas décadas de 1970 e 1980. destinando a ele sua produção. desde que baseadas na aceitação mútua. incluídos no sistema de saúde formal ou profissional. e que para cada ser humano existe um cuidado necessário segundo seus problemas de saúde. por sua vez. Os aparelhos na sociedade moderna frequentemente agem de forma a excluir o interesse dos usuários.. Helman.13. um sistema social humano existe quando seres humanos coordenam suas ações no viver em aceitação mútua. mas no produto. exercerem sua sensualidade na vida cotidiana. Silva. Nesse sentido. enquanto outros. a qual tem uma base emocional. Por outro lado. Os sistemas de trabalho.. expondo os doentes à possibilidade de serem subjugados pelo modo-de-ser trabalho. Neste momento. mais próximas ou mais casuais. enquanto estabelece internamente sua estrutura e processos de regulação.TRABALHO EM SAÚDE E A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO . 2005. O amor expressa uma congruência estrutural entre sistemas vivos que. a sociedade na qual convive com outros seres humanos.] constituídos sob a emoção que configura as ações de autonegação e negação do outro na aceitação da submissão própria ou da do outro [. Maturana (1997) definiu o humano a partir da linguagem que surgiu da intimidade na vida dos antepassados do homem que coordenavam suas ações ao compartilharem alimentos.

Importante enfatizar que estes conhecimentos são oferecidos em muitos cursos de graduação e pós-graduação. com potencial de ampliar as práticas de cuidado envolvidas nas ações dos profissionais de saúde. Y. enquanto outras se centraram especialmente nos auxiliares de enfermagem. capaz de identificar os motivos que levaram o usuário a buscar o serviço. Essa percepção foi corroborada quando os usuários relacionavam o acolhimento diretamente com a pontualidade dos médicos e a rapidez no atendimento da recepção. os quais recorreriam a outros membros da equipe de saúde quando necessário. Em algumas propostas foram criadas equipes de acolhimento. buscando aumentar a resolutividade da atenção em saúde e autonomizar o usuário. Costeira. necessidades em saúde dos usuários dos serviços. Bueno. p. estes auxiliares encontravam-se em unidades sem locais adequados para a escuta do paciente e sem o envolvimento do restante da equipe. uma dimensão cuidadora. as mudanças nos serviços deveriam incluir a discussão sistemática do modo-de-ser de trabalho versus modo-de-ser do cuidado. s/d). sendo necessária também a competência para responder aos problemas de saúde. As diferentes experiências na implantação do acolhimento já desenvolvidas estiveram voltadas para implementar uma escuta ampliada. 2003). responsabilização e vínculo. a entrega destes conteúdos a pessoas sem experiência na saúde e a ideia de que estas disciplinas apenas servem para confirmar as horas obrigatórias do Ministério da Educação comprometem em muito o interesse dos profissionais pelos conteúdos ministrados. mas não percebidos. 2009 307 artigos . n. sendo que. Esta mesma óptica foi mantida pelos próprios membros da ESF . sociológicos. envolvendo os núcleos de saber característicos de cada profissão da saúde. As dificuldades iniciais na experiência com acolhimento costumavam envolver o temor diante das novas iniciativas./dez. O autor reconheceu.SCHOLZE. identificando suas necessidades e dando encaminhamento para a solução de seus problemas.31. o foco de seu trabalho pode ser esse usuário ou a produção de procedimentos. neste último caso. a partir da distribuição de fichas (Ramos. sejam ou não disfunções biológicas. 1999). Concomitantemente. Campos. não COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. em diversas perspectivas. 2002. a ser explorada juntamente com os conhecimentos técnico-científicos para desenvolver o acolhimento e a responsabilização. geográficos. 1998). A. Carpintero.. entre outras possibilidades. DUARTE JUNIOR. Experiências no acolhimento Nesse contexto teórico. FLORES E SILVA. Bueno. que relacionavam a organização do processo de trabalho da equipe com a falta de acesso ao atendimento clínico. históricos.S. eventualmente. porém esse potencial pode ser restringido pelo contexto prático no qual o acolhimento será estabelecido. contudo a superficialidade dos mesmos. não sendo eles mesmos acolhidos (Mayema. e percebiam a Estratégia Saúde da Família como dirigida aos excluídos..303-14. Considerando esta premissa. em unidades que preservavam um trabalho na forma médico-centrada. Luz. 2007. Lima. Porém. 2001.F . O autor entendeu que os usuários se voltam para os serviços de saúde menos em busca de procedimentos do que esperando encontrar espaços que disponibilizem acolhimento. Merhy. Porém. compostas por diferentes profissionais. incluindo-se aí a inserção de estudos antropológicos. Para que seja possível ampliar o instrumental de ação dos profissionais da Saúde. independentemente de seu impacto sobre a saúde de uma pessoa ou população. de forma que o modo-de-ser trabalho esteja subordinado ao modo-de-ser cuidado (Tesser.13. out. voltado para a produção de procedimentos e muito bem adaptado à estrutura dos serviços de saúde organizados como aparelhos. O contexto do trabalho em saúde hegemônico na atualidade é aquele do modo-de-ser trabalho. a produção de atos em Saúde esgotase na produção do procedimento. Merhy. é possível vislumbrar uma assistência que se destine ao cuidado integral à saúde. ainda. a interpretação exclusivamente biomédica das doenças deveria ser ampliada para incluir as diferentes práticas de cura existentes na sociedade e as experiências dos pacientes que não se enquadram nos diagnósticos preestabelecidos do instrumental teórico biomédico vigente. C. A partir dessas mudanças no modelo de atenção à saúde. o acolhimento constitui-se em um elemento da mudança no processo de trabalho em saúde. éticos e de relações humanas. Porém isso não limita o foco do trabalho em saúde apenas na produção dessas relações. criando uma falsa noção da Unidade Básica de Saúde (UBS) como pronto-atendimento (Franco. exacerbadas pela ênfase que o acolhimento dava a problemas já existentes.

Lima et al. Desse modo. Silva. mesmo implicando maior deslocamento do usuário (Tresse. Porém. na perspectiva da equidade e de uma discriminação positiva (Romano. 2008. em lugar da necessidade do usuário. muitas vezes. Os possíveis conflitos entre as propostas de descentrar o trabalho da figura do médico e a concepção de atendimento em saúde trazida pelos usuários podem dificultar os esforços de comunicação. Porém. favorecendo somente o atendimento a queixas agudas numa modalidade de pronto-atendimento. se adequada.. contribui também uma implantação participativa do processo. Cunha . 2008. os estudos consultados utilizaram diferentes termos para abordar os aspectos subjetivos das relações profissional-usuário. que levava a uma primeira consulta com o médico. Assim. 2008. sendo que. 2008. direcionando-as a partir das tecnologias leves (Carvalho. Esse tipo de vínculo é capaz de gerar satisfação e segurança. 2005.31. p. o auxiliar de enfermagem conduzia uma triagem qualificada. objetivando a ampliação e a qualificação do acesso dos usuários. sendo identificáveis alguns marcos teóricos a partir dos quais os profissionais poderiam desenvolver suas práticas de saúde. sendo fruto de um atendimento baseado na escuta e no bom desempenho dos profissionais. Uma forma de responder às possíveis resistências à implantação do acolhimento ou a sua implantação em formatos que têm pouco impacto no processo de trabalho é entendê-lo concomitantemente como postura dos profissionais e como técnica.antes centradas no médico. no qual a organização do processo de trabalho foi modificada para resgatar a cidadania dos usuários. 2009 ... qualificando o vínculo com a comunidade e fortalecendo as equipes por meio da educação permanente (Alves et al. pois o atendimento com resolutividade promove a procura por determinadas unidades. ao contrário de outra unidade pesquisada. Oliveira et al. Diferentes formas de organização do acolhimento em diferentes centros de saúde foram relatadas por Takemoto e Silva (2007). a partir da identificação de situações de vulnerabilidade./dez.303-14. n. gerando sobrecarga nas equipes de saúde. out. Franco.TRABALHO EM SAÚDE E A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO . Carneiro. Lima.. Solla. como a assistência mais adequada) a atuação de auxiliares de enfermagem na recepção. 2006.13.pode não ser bem compreendido pelos usuários. influenciando inclusive o acesso geográfico. mas viam como correta (e. entre outros. especialmente pela desvalorização dos profissionais que conduzem o acolhimento. mesmo que a implantação do acolhimento conduza os profissionais à prática dessa diretriz operacional. o deslocamento de algumas decisões . 2004). Panizzi. 2007). 2008). ainda que não fossem clínicas. permite desencadear um processo de mudança nas práticas de saúde. 2004. utilizando a referência ao pronto-atendimento de acordo com a organização do trabalho. Baduy. Com isto. viam necessidades de maiores investimentos. Assim. Pinafo. Mehry. em três das unidades estudadas. Possibilidades teóricas da humanização do trabalho no acolhimento Verificamos que a maior potencialidade das experiências do Acolhimento na APS tem sido a redução da demanda reprimida na rede básica. 2008. para outros profissionais. Souza et al. como técnicos e auxiliares de enfermagem . Tunin.. ainda que orientada por opções limitadas de encaminhamento. para os quais as rotinas programáticas não se mostravam adequadas. ao receberem moradores de rua. em que o acolhimento foi entendido como postura. 2008. o que verificamos foi a ampliação de um sistema de distribuição de senhas e preservação do não acesso à disputada agenda médica (Schimith. Equipes com atividade docente-assistencial vivenciaram essa situação diante de populações diversas daquelas originalmente abrangidas. moradores de favela e profissionais do sexo. com colegiados locais e o apoio de representantes do nível central. Lima. buscando dar resposta às necessidades do usuário. Para isso. geralmente estabelecendo equipes de acolhimento centradas nos auxiliares de enfermagem. não houve ampliação da resolutividade dos outros profissionais. mas. Silveira. caso estas não sejam também acolhidas (Oliveira. possibilita-se um aumento quantitativo do rendimento dos profissionais envolvidos e faz-se com que estes percebam uma maior qualificação no seu trabalho e na produção do cuidado. estabeleceu-se um acolhimento não apenas de caráter pontual.. Nesse sentido. de modo a qualificar sua interação com os 308 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Teixeira. 2004). 2003). 1998). o acolhimento também pode ser explorado pelo enfoque de uma tecnologia do encontro trabalhador/usuário que.

e analisar suas relações com o processo de trabalho em saúde como “maneiras adequadas de receber os distintos modos como a população busca ajuda nos serviços de saúde. porém. fazendo com que olhemos o sofrimento alheio com o olhar de quem sofre. por meio de sutis pistas sociais. e aceitando a diversidade de culturas que carregam suas próprias complexidades e maturidade (Laplantine. triste. a Antropologia preservou suas noções de distanciamento. para conduzir suas investigações. 2006). buscando-se descrever os componentes objetivo e subjetivo da expressão emocional separadamente.. DUARTE JUNIOR. 2004. 1996). buscaremos definir três desses possíveis marcos teóricos . reconhecemos o outro não apenas como objeto.. 2006a). A ideia é não apenas a observação de diferentes realidades culturais. n. enquanto o afeto seria mais flutuante. 1999). Esse afeto estaria limitado. alegria. Essa alteridade incorpora a noção de humanidade plural. considerando-os em suas singularidades. Teixeira (2004) utilizou o termo afeto ao definir o acolhimento dialogado como uma técnica de conversa. O nível de incorporação da alteridade no trabalho em saúde. Bezerra. mas também como um sujeito relacional em sua singularidade (Brasil. como culturais. podendo estes inclusive serem discordantes. O termo afeto deriva originalmente da literatura psicanalítica. as manifestações externamente direcionadas do afeto podem permitir classificá-lo como: alegre. a conotação de mover para longe. demandando o desenvolvimento de ferramentas. no mesmo sentido que Maturana (1997) utilizou o termo “amor”. FLORES E SILVA. Também a palavra empatia denomina um sentimento que nos permite considerar uma perspectiva diferente da nossa própria. 2000). embotado. uma habilidade baseada na autoconsciência emocional. lábil. apreciando a situação como se estivéssemos no lugar da pessoa que a experimenta./dez. implicando. p. Zimmermann. 2009 309 artigos . 2008). Y. de modo a ver. considerando-se que. 2008. Sadock. verificadas nas variações da expressão facial. de modo que as redes de trabalho em saúde formam extensas redes de conversações que podem ser pensadas como redes de trabalho afetivo. 1999).821).13. p. sujeitos e coletivos. estados psicológicos e fisiológicos. e toda a gama de impulsos para agir ligados a esse sentimento. uma tendência de ação está implícita em cada emoção (Goleman . ou competência cultural do profissional. pode variar da aceitação incondicional ao puro escárnio. C. Por sua vez. inapropriado. seja no de assumir um distanciamento da realidade próxima que permita um “estranhamento” desta. buscando experimentar a realidade cultural alheia.F . Ao longo de suas diferentes vertentes. Isso nos remete à definição de Boff (1999) do modo-de-ser cuidado.S. Keller. inviável sem o sentimento de empatia. a partir da própria alteridade (Helman. ou seja. crenças e desejos (Goldim.SCHOLZE. 2002). parecem-nos naturais. A. variando também na intensidade com que a emoção é expressa (Cordioli. alteridade é um conceito central da Antropologia. medo. seja no sentido de aproximar o que é longínquo. mas também adotar o ponto de vista do outro.31. Barreto. expansivo. empatia e alteridade . fundamental para a efetividade interpessoal e citada como parte do processo de acolhimento (Demeneck. A capacidade de identificar os afetos no outro. tristeza. Manley (1999) sugeriu que se abandonasse a distinção de humor como um estado emocional prevalente em longo prazo. seus valores. 1999). como a observação participante. surpresa. É uma das cinco áreas básicas que relacionam as habilidades definidoras da Inteligência Emocional. elementos de nossa própria sociedade que. que também é um dos atributos essenciais na relação médico-paciente e qualquer outra relação profissional na saúde em que se pense o cuidado como uma responsabilidade ética e moral do outro em um momento de fragilidade emocional e física (Morinaga et al. Na sua ausência. na qual se tentava descrever o tipo de sentimento que acompanhava ideias ou representações mentais de objetos externos. Normalmente. desgosto. para a alteridade. à situação apriorística de aceitação do outro como um legítimo outro. respeitando o momento existencial de cada um sem abrir mão de pôr limites necessários” (Andrade. conduzida por determinadas emoções e afetos. ciência que nasceu do estudo das populações distantes. enquanto o humor seria a soma dos afetos. sendo que aquele autor identificou esse afeto como acolhimento.303-14. Emoção se refere a um sentimento e aos pensamentos. O olhar antropológico é voltado para o outro. vergonha (Goleman. existe desconsideração pela pessoa do outro. out.. é denominada empatia. permitindo manifestar reações emocionais apropriadas a partir da autoconsciência. tom de voz e gestos. Algumas são consideradas universais: raiva. Assim. A raiz da palavra latina emoção é motere: “mover”. negando a existência de um centro do mundo ou de um centro do saber.afeto. amor. por sua presença cotidiana. se não COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. dedicadas a criar e a manipular afetos. Dessa forma. com o prefixo “e”.

dada sua condição de movimento contra-hegemônico. 2004). esquece-se do ‘outro’ funcionário deste sistema. mas depende de uma organização multidisciplinar no serviço de saúde que exige pessoal disposto para ir além da reflexão e problematização dos processos de trabalho. é o primeiro que detém o poder de escolha quanto a que orientações seguir ou não (Oliveira. facultando também. Ainda que não seja uma panaceia. evitando assumir o usuário como passivo e ignorante diante dos profissionais de saúde. nas quais obtivemos mais claramente alguns pontos de partida para novos questionamentos do que fórmulas exatas para sua implantação. Demonstra. ainda que. Tais condições são possíveis em uma cultura institucional aberta e flexível. que a sua ‘vontade’ de humanizar os serviços baseia-se em ações para se ‘ver’ em estatísticas de assistência e muito pouco para realmente atuar numa perspectiva humanizadora que inclui o cuidado a todos: usuários diretos do sistema e trabalhadores deste mesmo sistema. caso o trabalhador da saúde não seja também acolhido.. a Antropologia vem se deparando com um dilema em suas ações: a necessidade de intervenção do antropólogo. portanto. Em vez disso. outros de aspecto artificial e ignorando a existência de conhecimentos prévios ricos em potencialidades. ao tratar da saúde do ‘outro’ usuário. O acolhimento. visto que ignorar o trabalhador que atua na rede de saúde é tão grave quanto ignorar o usuário./dez.13. Nesse sentido. na qual o poder seja intensamente delegado a gestores e a equipes técnicas qualificadas (Serrano. ao utilizarem as mesmas. proporcionamos meios que incluem ações diferenciadas que exigem dos trabalhadores da saúde maior disponibilidade de tempo. Neste momento. o que temos são serviços superficiais que continuarão a ignorar o ser humano. tentativas de se construírem pontos de apoio para novos avanços. em prol de novas nomenclaturas que correm o risco de se tornarem apenas novas vestes para antigas práticas. que seriam responsáveis absolutos pelo cuidado.TRABALHO EM SAÚDE E A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO . p. não produzam os problemas descritos anteriormente. 2009 . 2007). quando. isso é coerente com a perspectiva de redes de conversação fluidas. encontramos. o SUS promoveu claros avanços. Identificamos os marcos teóricos: afeto. evitando a sobrecarga. Olhando desta forma. Os profissionais envolvidos nessa empreitada precisam desenvolver conceitos claros em relação a seu trabalho. nos últimos anos. n. out. constantemente co-construindo as práticas nas interações entre os sujeitos que buscam ou oferecem apoio em meio ao processo saúde-doença. além de uma infraestrutura que permita a eficácia do atendimento clínico. percebemos que o sistema oficial de saúde. descrição e interpretação do que descobre em suas pesquisas. em geral. físico e espiritual com o usuário. aos profissionais de saúde. sem que estas. limitando-se a construir algumas possibilidades teóricas em torno da humanização e do acolhimento. e não apenas a observação. seus próprios avanços na 310 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. esta reflexão foge às pretensões de firmar respostas. No entanto.31. as diferenças culturais no encontro entre profissional e usuário podem inviabilizar o cuidado (Betancourt. representado pelo Ministério da Saúde. O dilema maior está em como oferecer as ferramentas de ação para outras áreas do conhecimento agirem. 2002). desta forma. com garantia de tempo disponível e boa remuneração. Assim. Considerações finais No curso de sua breve história.303-14. de forma recorrente.. sobretudo na área da saúde. não se limita a um espaço físico disponível ou a uma postura dos profissionais em seu trabalho na saúde. na verdade. O acolhimento pode se tornar apenas outra denominação de pronto-atendimento. a competência cultural desenvolvida a partir de uma postura de alteridade é necessária para garantir a qualidade das práticas de saúde. estes avanços não tenham revertido em amplo reconhecimento e apoio para sua efetivação. Do que falamos exatamente? Quando fornecemos aos dirigentes dos serviços de saúde respostas a suas indagações sobre como assistir melhor ao usuário considerando sua cultura e alteridade. Giordani-Serrano. maior envolvimento emocional. com comunicação clara e sem superenvolvimento que ameace sua integridade pessoal. sem que este receba em igual volume condições para atuar nessa perspectiva. alguns sólidos e bem-sucedidos. assumindo a participação nas decisões organizacionais e definindo claramente seus papéis como cuidadores. Benito. empatia e alteridade como maneiras adequadas de atuar no acolhimento na APS. exploradas e comunicadas.

et al.L. sem deixar de garantir sua própria humanização.R.. do sofrimento de outrem.12. mas que a emoção do compromisso fundamenta esse sistema de trabalho. p.S. ainda que adequados e mesmo complementares entre si.ed.953-5. R. permitindo abordar as práticas em saúde na óptica do modo-de-ser cuidado. Med. possibilidades de enfrentamento das situações do cotidiano dos serviços de saúde.saude. 2. em lugar de constituir-se em torno da doença como objeto.C. explícitas ou contraditórias. acolhendo o outro como sujeito em seu sofrimento. de modo a responsabilizar-se por seus esforços em conjunto com o outro. pois sempre acabam por serem moduladas culturalmente.3. Disponível em: <http://bvsms. BETANCOURT.S. p. DUARTE JUNIOR. n.SCHOLZE. A alteridade abre.. J.. tanto quanto de ignorar as emoções do outro e suas próprias nos encontros desenvolvidos nas práticas em saúde. desde a alegria até a tristeza. Rev.br/ bvs/publicacoes/humanizaSus_doc_base. Saber cuidar: ética do humano . redação e revisão do texto. 2009 311 artigos . Referências ALVES. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. BARRETO. out. n. Brasília: Ministério da Saúde. p. entendendo sua emoção fundamental não como a aceitação mútua incondicional do amor. Essa opção se deve à caracterização do afeto não como apenas positivo nas relações humanas. São Paulo: Hucitec. HumanizaSUS: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.M. Cultural competence . estranhando-a de modo a produzir mudanças. mesmo porque as responsabilidades éticas do profissional da saúde impedem-no de se guiar apenas emocionalmente. Ainda assim. n. L. A. e superando a naturalização das situações que promovem o sofrimento do trabalhador e sua alienação. v. Y. Fam.303-14. revisão da literatura. v. mas trazendo em seu bojo todas as possibilidades emocionais.). 2004. (Orgs.W.C. evitando ser etnocêntrico na perspectiva biomédica e preservando sua saúde mental. Ao mesmo tempo.O.H. como marco teórico capaz de instrumentalizar o trabalhador da saúde para desenvolver o acolhimento. Engl.. G.783-36. 2008.31. 1999. p. Acesso em: 19 maio 2008.compaixão pela terra.R. e mesmo relativizar a estrutura de aparelhos dos serviços de saúde. Colaboradores Os autores Alessandro da Silva Scholze e Carlos Francisco Duarte Junior participaram da elaboração do projeto.247-56. Tratado de Saúde Coletiva. C. BRASIL.marginal or mainstream movement? N. et al. Med. Tais oportunidades são enriquecidas quando se assume o distanciamento proposto pela alteridade em relação à realidade dos serviços de saúde. Mas. essas manifestações de afeto não seriam inconfundíveis ou exclusivas. então. Petrópolis: Vozes.C. os quais podem sempre ser encarados como oportunidades de aprendizagem. A compreensão dos afetos alheios deve-se. não para o consumo de serviços ou produtos do complexo médico-industrial. Ministério da Saúde./dez. não apenas expressado. Atenção primária à saúde e estratégia saúde da família. I.10. Bras. cujo desenvolvimento demanda autoconhecimento e a capacidade de identificar as manifestações verbais ou não verbais. Análise do acolhimento de crianças e adolescentes para o planejamento das ações do PSF . Com. BEZERRA. o profissional tem condições de construir seu trabalho a partir da alteridade. L..F . à empatia do profissional. BOFF . C. devendo sempre ser compreendido. FLORES E SILVA.. 2006. sem sofrer por inevitáveis insucessos decorrentes daquilo que não domina. humanização do seu trabalho. J. ANDRADE. Secretaria de Atenção à Saúde. In: CAMPOS.pdf>. Esses marcos teóricos abrem possibilidades de releitura dessas relações.13. 2006a.gov.351. A autora Yolanda Flores e Silva participou da redação e revisão do manuscrito. fazemos nossa opção pela alteridade. voltando-se para a produção de saúde. então.

15. 2.A.G. CORDIOLI.uma reconfiguração do processo de trabalho em saúde usuário-centrada. Acesso em: 22 maio 2008.A. O anti-Taylor: sobre a invenção de um método para co-governar instituições de saúde produzindo liberdade e compromisso.J. Disponível em: <http:// www.M. 1996. Philadelphia: Lippincott. FONTES. C. GODBOUT. M. Recife: Editora Universitária da UFPE.C.121-42. Family Practice. SILVEIRA. T. GOLEMAN.13. et al. W.).. p. The application of anthropological methods in general practice research. Williams & Wilkins. (Eds.E.37. FRANCO. G. F . p. [s/d].sp. Acta Paul. Cad. Organização das práticas de atenção primária em saúde no contexto dos processos de exclusão/inclusão social. p. Kaplan & Sadock’s comprehensive textbook of psychiatry. Saude Publica. v. P . J. Brasília: Ministério da Saúde. Emotional Intelligence.14. M. B.S.H. v. LIMA. Aprender antropologia. n. 2006. 2007.652-65. Catarin.837-68. Cad. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. 1999. v.1.. K.campinas. In: CAMPOS. E. G.S.br/bioetica/compaix. J. SADOCK.). Porto Alegre: Artmed. Sobral: escola de formação em saúde da família Visconde de Sabóia. O trabalho entre sofrimento e prazer.. (Eds. p. 2006b. 2003..H. Disponível em: <http://www. 4.gov. Brasil.saude.S.rr.. Ministério da Saúde.S13-6. In: SADOCK.ed. BRASIL. n. 2001. Kaplan & Sadock’s comprehensive textbook of psychiatry. GOLDIM. p. Saude Publica. CAMPOS.ufrgs. HELMAN.S.ed.). (Orgs. 2000.19. saúde e doença. A.S. et al. p. D. Acesso em: 23 jun.S.A.182735. 1999. Redes sociais e saúde: novas possibilidades teóricas. 2005.31.T. 2004.org.php>. and mental status examination. v. n. ZIMMERMANN.pdf>.R.ed.A.ufrgs.br/psiq/Avalia%C3%A7%C3% A3o%20%20do%20Estado%20Mental. Williams & Wilkins.T. Sistema Único de Saúde em Belo Horizonte: reescrevendo o público. V. C. São Paulo: Hucitec. (Orgs.TRABALHO EM SAÚDE E A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO . Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. 1999.345-53. Protocolo de acolhimento da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas. Disponível em: <http://www. v.gov. BUENO. p..R. Características da atenção primária à saúde.R. n. S. D. CARNEIRO..J. Rotina de avaliação do estado mental. history.863-70. out. Arq. (Orgs.4. V. Acolhimento .6.esf. 1998.303-14. A banalização da injustiça social. Cultura. J. Acolhimento nas práticas de produção de saúde. 2003. DEMENECK.htm>. 7. 2004. 2008. SADOCK..1. Acesso em: 19 maio 2008....2. n.20.br/humanizasus/ acolhimento_nas_praticas.). A. ______.)./dez. Acesso em: 24 maio 2008.84-90.br/saude/programas/protocolos/protocolo_acolhimento.W.C. São Paulo: Xamã. MALTA.D. Enferm. Acesso e acolhimento em unidades de saúde na visão dos usuários. MERHY. MANLEY.br/publicacoes/artigos/artigos1. Secretaria de Atenção à Saúde.htm>. et al.W. Disponível em: <http://www. CUNHA. G.B. supl. COSTEIRA. C. M. simpatia e empatia.S. In: REIS. CARVALHO. Acesso em: 23 ago.77-90. Acolhimento. DEJOURS. Cad.V. et al. B.ed. In:______. CAMPOS. H.13. CARPINTERO.. p. p.1.27-36.12-7. 1998. v. p. p. J. 312 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Philadelphia: Lippincott. Minas Gerais.W. n. Disponível em: <http:// www. Saude Publica. 2006. 2009 . In: SADOCK.T. BUENO.. Med. F . KESSLER.pdf>. Digressão sobre as redes e os aparelhos. 7. A..A. Compaixão. O acolhimento e os processos de trabalho em saúde: o caso de Betim.. 1999. In: MARTINS.S. Psychiatric interview. LAPLANTINE. A gestão da atenção na saúde: Elementos para se pensar a mudança da organização na saúde. São Paulo: Brasiliense. 2006. B. C. p. Tratado de Saúde Coletiva.

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org/rizoma/ redeafetiva. Síndrome de burnout ou estafa profissional e os transtornos psiquiátricos. p. empatía o alteridad?. As redes de trabalho afetivo e a contribuição da saúde para a emergência de uma outra concepção de público.363-72.S. 2008.corposem.. (Orgs./dez. 2004.F. buscando posibilidades de superar la alienación en su proceso productivo a partir de relatos de experiencia de la implantación de la acogida en servicios de APS.F . 2007. V. Acolhimento e transformações no processo de trabalho de enfermagem em unidades básicas de saúde de Campinas.70-8. Cienc.S100-10.. São Paulo: Hucitec. Acolhimento e vínculo na assistência prestada ao portador de diabetes em uma unidade básica de saúde no município do Rio de Janeiro. 2008. C. 2007. Saude. Saude Publica.. n.1.31. E. LUZ. v. SILVA. M.S.. Uma introdução às contribuições da epistemologia contemporânea para a medicina... 2009 . Brasil. v. Recebido em 58/12/08. J.E. Cad. 2008.R. TRESSE. ofreciendo a los profesionales condiciones de construir su trabajo sin limitarlo a la perspectiva biomédica y de preservar su propia salud.493-503. In: FRANCO.D. et al. Atención primaria de salud. Bras. p.31. P . 2005.1-18. J.13. Saude Publica. TENG.Escola Nacional de Saúde Pública. A.. v. São Paulo. SCHOLZE. out. n. E. v. v. v.2.5. C.htm>. R. Y.C.2. p. Tempo Soc... p. Acolher Chapecó: uma experiência de mudança do modelo assistencial com base no processo de trabalho. DUARTE JUNIOR.). De este modo se abren posibilidades de afrontar las situaciones cotidianas de los servicios de salud. Investigación interdisciplinaria.24. TESSER. M. 2004. Acesso e acolhimento na atenção básica: uma análise da percepção dos usuários e profissionais de saúde. ______. v.2..P . n. Interface . C. O Acolher Chapecó. Servicios de salud. n. Acesso em: 23 abr.. Infant.13. et al.303-14.7. P ./dez. p. n.L. Cienc.T.4.23. 2009. Educ.M.14. Trabajo en salud y la implantación de la acogida en la atención primaria a la salud: ¿afecto. p. p.5.331-40.P ..TRABALHO EM SAÚDE E A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO .Comunic. Identificamos las siguientes perspectivas teóricas en las relaciones interpersonales en los servicios. p.F. out.B. Rev.. SILVEIRA. HALLAK. FLORES E SILVA. Rio de Janeiro. Psiquiatr. Desarrollamos una reflexión teórica sabre el trabajo en la Atención Primaria a la Salud (APS) en la directriz de la acogida. Dissertação (Mestrado) . O tempo do trabalho: o tempo-devir frente ao tempo espacializado. Disponível em: <http://www. p. Humanização e atenção primária à saúde.10.J. 2008. p. 2005. hacemos nuestra opción par la alteridad como perspectiva teórica capaz de instrumentalizar al trabajador de la salud para desarrollar la acogida sin dejar de garantizar su propia humanización. SOUZA. Acolhimento no sistema municipal de saúde. 2002. Aprovado em 22/07/09. TRIGO. Palabras clave: Acogimiento. Saude Mater.. SOLLA. n. empatía y alteridad. Aunque todas sean adecuadas y basta complementarias entre sí. Fundação Oswaldo Cruz.T. supl. 314 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.585-97.. Cad. ZARIFIAN. 2002. TEIXEIRA. con indicadores de avances en la humanización del trabajo en salud y de una aproximación con la subjetividad: afecto. Saude Colet.223-33.C.3. T. v. n. TAKEMOTO.34. Rev.303-14. T. n.S. Clín. Saude Colet.

. 49. transforms tension into understandings. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. thereby building relationships of greater solidity and providing learning for new ways of producing care. 202. out. Neste espaço criador o trabalho vivo ganha força na sua relação com os atos normativos. um espaço de encontro entre os trabalhadores e usuários.Acolhimento coletivo: um desafio instituinte de novas formas de produzir o cuidado João Batista Cavalcante Filho1 Elisângela Maria da Silva Vasconcelos2 Ricardo Burg Ceccim3 Luciano Bezerra Gomes4 CAVALCANTE FILHO. active work becomes stronger in relation to normative acts and. 670. Universidade Federal da Paraíba. n. p.. Palavras-chave: Acolhimento. Aracaju. through communicative acts. out. Primary healthcare. n. 3 Departamento de Ensino e Currículo. Interdisciplinary healthcare team. 1 Keywords: User embracement. apto. e por meio de atos comunicacionais transforma tensionamentos em entendimentos. Within this creative space. 4 Departamento de Promoção da Saúde. Educ. 2009 315 . Coordenação do Núcleo de Promoção da Saúde. Sistema Único de Saúde. Brasil. Brazilian national health system. v. Faculdade de Educação.13. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.315-28. This is a meeting space between workers and users that is focused on their health needs. Atenção primária à saúde. Atalaia. Equipe interdisciplinar de saúde. tendo por objeto as necessidades de saúde destes. construindo relações mais solidárias e proporcionando aprendizado de novas formas de produção de cuidado. p. a team of professionals from the family health program has proposed collective welcoming. There is a search for a metastable balance in which work is reconstituted in the light of each new challenge. et al. Rua Francisco Rabelo Leite Neto./dez.037–240 joaoaracaju27@ hotmail.Comunic. Interface .31.com 2 Secretaria Municipal de Saúde de Recife. Collective welcoming: a challenge instigating new ways of producing care. and would be thus in relation to users.B. No desafio de implementar uma forma de acolhimento que integralizasse a equipe de trabalhadores de saúde e estes com os usuários. Within the challenge of implementing a form of welcome in which the team of healthcare workers would be made comprehensive.315-28. 2009./dez. Saude.13.31. Secretaria de Saúde do Estado de Sergipe. SE. Há a busca de um equilíbrio metaestável onde o trabalho se reconfigura diante de cada novo desafio. uma equipe de profissionais do programa de saúde da família propõe o acolhimento coletivo. J.

31. Introdução O Sistema Único de Saúde (SUS) foi instituído no Brasil pela Constituição Federal de 1988. O desenho tecnoassistencial do Saúde Todo Dia pode ser apresentado pelo diagrama da Figura 1. Diagrama Saúde Todo Dia. das necessidades dos usuários. Fonte: Aracaju. no sentido de reverter modelos de assistência centrados na produção de procedimentos que se destinam à cura de doenças e têm como local privilegiado o hospital. e considera o trabalho em saúde como um encontro entre usuários e trabalhadores onde há o reconhecimento. o território em que se encontram. n. out. 2009 . Em seu modelo teórico orientador. Produtos do encontro entre trabalhador e usuário na saúde Acolher necessidades Compreender. as necessidades de saúde dos indivíduos e coletividades.315-28.. 2003. regionalização e hierarquização da rede de serviços e participação popular com papel de controle social. o Saúde Todo Dia tem. A estratégia de gestão do setor da saúde em implementação no município de Aracaju foi denominada Saúde Todo Dia e está em construção desde 2001. A proposição do Programa de Saúde da Família (PSF) como estratégia de consolidação do SUS aconteceu a partir de dezembro de 1993 e foi eleita como prioritária para a reorientação do modelo de atenção à saúde. 316 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. como local privilegiado de atuação. Desde então. para modelos centrados no cuidado dos indivíduos. como direito à saúde. significar Corresponsabilizar-se Intervir com vínculo Produzir autonomia Figura 1. A natureza do encontro entre usuários que têm necessidades de saúde e trabalhadores que reconhecem estas necessidades é o da produção de um processo onde há o acolhimento do outro. p. o SUS vem sendo construído na busca de implementar princípios tais como: universalidade do acesso. descentralização da gestão setorial. por objeto de suas politicas..ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO . após um processo histórico de lutas organizadas em torno do movimento de reforma sanitária. pelo trabalhador.13. sintetizado pela defesa de que “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. compreensão e significação de suas singularidades e oferta dos saberes em saúde que venham permitir ao profissional intervenções continuadas (vínculo) e responsabilização pelo resultado destas intervenções. considerando seu contexto socioeconômico e cultural e tendo. equidade e integralidade da atenção à saúde./dez.

buscamos uma aproximação aos conceitos de acolhimento e ferramentas para avaliação de seu caráter cuidador. enfermeira. foram trocados propositalmente por nomes fictícios. O que é acolhimento? Para a análise do acolhimento coletivo. fazendo parte daquele coletivo de trabalhadores de saúde.utilizamos a observação participante e a realização de grupos focais com a equipe. são essenciais para a estruturação da nossa práxis. Em aula proferida no curso de especialização em Saúde Coletiva do Centro de Educação Permanente em Saúde de Aracaju e Universidade Federal de Sergipe em 2005. Do G2 participaram as quatro estudantes de Medicina que tomaram parte do acolhimento coletivo em seu processo de formação. “almas”. totalizando dez usuários convidados. trabalhando numa perspectiva entre-disciplinar (Ceccim. Os nomes. p. Uma equipe de saúde lançou-se ao desafio de implementar uma forma de acolhimento onde todos os seus integrantes contribuíssem com seus olhares. é necessária uma aproximação ao que já foi produzido intelectualmente sobre acolhimento. Esta intervenção estava dirigida fundamentalmente para a rede básica de atenção à saúde. realizamos escolha aleatória de dois usuários presentes no acolhimento coletivo convidados em cada dia da semana. mas o encontro entre o trabalhador de saúde e o usuário.31. quando citados. Para o G1. outro com estudantes (G2). Emerson Merhy abordou o acolhimento como um “não-lugar”. e o último com profissionais da equipe de saúde (G3). Desde sua implementação. permitindo a utilização das informações desde que fosse garantido o anonimato. permitindo a captação de significados difíceis de serem captados com outros meios. não poderíamos deixar de participar da sua reflexão e construção de sínteses. 2005). realizamos três grupos focais: um com usuários (G1). Por meio da revisão bibliográfica. Acreditamos ser o grupo focal o meio de fazer emergir pontos de vista e processos emocionais. encontramos que a implantação do acolhimento foi a primeira intervenção sobre o processo de trabalho. Para este estudo. assumimos o papel de mediadores e participantes do grupo. Os participantes. esclarecidos dos métodos e objetivos da pesquisa e sobre a garantia do caráter voluntário de sua participação. 2009 317 artigos . Não é nosso objetivo encontrar uma definição para o acolhimento. Nós . o que não seriam em entrevistas individuais (Gatti. Longe de sermos imparciais. sentidos. a palavra acolhimento termina por ser portadora de uma polissemia. uma vez que as reflexões sobre o tema. onde este COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. em busca de contribuir com a defesa da vida e implementação real do SUS.CAVALCANTE FILHO. out. a partir do acolhimento. auxiliar de enfermagem e quatro agentes comunitários de saúde. como parte do estágio de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Sergipe.o médico e a enfermeira dessa equipe . Este ensaio configura um estudo de caso com enfoque de análise qualitativa sobre a prática desta equipe de saúde enfrentando esse desafio no bojo do PSF . n. Nos grupos realizados. em conjunto. et al. usuários e estudantes de medicina vinculados à equipe em seu processo de formação. Na interação. escolhendo o acolhimento coletivo como formato desse processo de trabalho. J. No projeto Saúde Todo Dia. A proposta do acolhimento documentada no projeto era de ampliar o acesso da população por meio da substituição do critério “fila” pelo da “necessidade devidamente qualificada por profissionais de saúde”. dos quais compareceram seis ao grupo. Foram transcritas aproximadamente três horas e vinte minutos de diálogo./dez. acabam por ser complementares e. vários formatos de acolhimento têm sido experienciados pelos profissionais de saúde do município de Aracaju. com o intuito de ampliar/qualificar a capacidade de reflexão sobre nossa realidade e de estruturação de experiência como um agir militante.13. adquirindo inúmeros significados. Segundo o projeto. percepções e significados são construídos em grupo. Com um grande aporte teórico recente e os variados fazeres em unidades de saúde. visando acolher às necessidades de saúde da população adscrita e fazendo emergir projetos terapêuticos sem fronteiras disciplinares ou meritocráticas.315-28. 2006). assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Do G3 participaram componentes da equipe: médico.B. os usuários devem ter acesso a um conjunto de ações que sejam mais adequadas para as suas necessidades em saúde. quando compatibilizadas. acreditamos que.

então. o encontro entre o trabalhador e o usuário dá inicio a um processo relacional onde opera o trabalho vivo. negar ou ofertar uma forma de cuidado. mas busca a sua articulação. Silva Júnior e Mascarenhas (2006) colocam que o acolhimento possui três dimensões: da postura. seria a oportunidade de tensionar a razão instrumental. para o qual se dirigem os mais fortes desejos de integração” (Teixeira. com potencial instituinte de novas 318 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. a compreensão do acolhimento-diálogo ou do acolhimento dialogado como sendo atitude central no trabalho vivo./dez. Teixeira afirma ainda que a substância do trabalho em saúde é a conversa. onde dominam as regras externas ao sujeito.. a busca de significados e de não-ditos. out. pode produzir novas dinâmicas. 2005. o que pode abrir ou fechar os espaços públicos aos usuários. tentando mostrar que merece ser cuidado. Esta problemática teria como foco “a relação trabalhador-usuário que se dá nos serviços. instituintes de novas linhas de possibilidades para a produção do cuidado.91). Teixeira (2005). O autor afirma que as diferentes concepções de integralidade dependem do que os diferentes projetos tecnopolíticos pretendem integrar. Para Merhy et al. os atos normativos. reduzindo a centralidade das consultas médicas e utilizando melhor os potenciais de outros profissionais. em ato. p. em uma discussão sobre a questão da integralidade. levando a uma postura de enriquecimento do arsenal terapêutico. buscando enriquecer as intervenções. n. em ato. O encontro dispara um processo de intervenção tecnológica implicada com a manutenção/ recuperação/alteração de certo modo de andar a vida. da técnica e dos princípios de reorientação dos serviços. Teria a potência de: construir vínculo e responsabilização. É uma chance de modificar o serviço para uma forma usuário-centrada. destacamos o acolhimento como dispositivo para ampliar a acessibilidade aos serviços de saúde. acessando a teoria da ação comunicativa de Habermas. Seria necessário integrar a voz do outro nesse processo. a rede de atenção como uma rede de conversações que permeia todos os momentos do encontro trabalhadores-usuários e os fluxos da atenção. Há um apelo por meio de atos comunicativos para que determinada necessidade seja considerada (Merhy. como estruturante do processo de trabalho centrado nas necessidades de saúde. (2004). .31. e não sua alienação. assim. como o do poder e o das relações comunicativas. No acolhimento pesam as questões da subjetividade e individualidade. De nossa leitura e vivência. onde se trabalha com um objeto necessariamente relacional. 2005). partilhado por todos os atores presentes.ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO . Entende. em uma postura dialógica. último tensiona a entrada na rede de saúde. O acolhimento permite ainda arguir sobre o processo de produção da relação usuário-serviço sob o olhar da acessibilidade. 2009 5 Merhy (2005). p. O acolhimento requer a mobilização de saberes para dar respostas. Uma das saídas seria burocratizar essa relação5 consagrando as regras. Um profissional de saúde sofre a influência de vários atos normativos. afirma que isto seria a captura de um espaço que deveria defender a vida pela lógica instrumental. que opera na relação. assim. a insuficiência real dos diferentes atores e a necessidade da integração dos saberes presentes.13. O ato comunicativo. respeita o sujeito. superar o monopólio do diagnóstico das necessidades do outro pelos profissionais ou determinadas profissões de saúde.315-28. como pode permitir ou impedir a realização de atos comunicativos. mas a convivência entre estes atos normativos e os comunicativos não é resolvida no plano das regras ou protocolos assistenciais. devendo ser orientado por posições morais e cognitivas que considerem a alteridade. O trabalho em equipe entra neste arsenal. O acolhimento abre um espaço dialógico para extirpar a alienação.. encara o acolhimento como uma rede de conversações. Defende. de provocar ruídos sobre os momentos nos quais o serviço recepciona o seu usuário e evidenciar as dinâmicas e os critérios de acessibilidade a que os usuários estão submetidos. e. Requer colocar em análise certos territórios. no sentido de tornar inteiro. negocia necessidades e rearticula os serviços.

mas distinta da aceitação da complexidade e fragilidade da vida.CAVALCANTE FILHO. inclusive pela própria população. em detrimento da produção de procedimentos. Não se pode gerir este processo apelando simplesmente para a boa consciência dos profissionais. da construção do objeto de ação. 2009 319 artigos formas de produzir o cuidado. Vários trabalhos (Pinheiro. Ao problematizarmos o trabalho em saúde como produção de saúde. que abre novos sentidos para sua relação com o usuário. A realidade complexa acaba por tensionar por linhas de fuga da lógica instrumental.13./dez. como espaço de integração da voz do usuário na construção de projetos terapêuticos. Se o trabalhador de saúde produz atos de saúde e seu objeto de ação é o cuidado. partimos de uma análise que extrapola a dimensão mais operativa. como Merhy (2005).78). J. Se o trabalhador não significar esta competência. A submissão dos usuários à vontade do profissional. é porque ele COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.185). a produção do cuidado assume o caráter de afirmação da defesa da vida. Merhy (2002) diz que se o processo de trabalho está sempre aberto à presença do trabalho vivo em ato. 1997) apontam para a crise do modelo que sustenta o complexo médico-industrial. 2005. 2006. que uma das competências necessárias dos profissionais de saúde é a de estar atento para a “negociação” das necessidades. Acolher uma necessidade como uma necessidade de saúde dependerá dos atores em cena. independentemente dos atos normativos e dos modelos. Todo encontro provoca tensão para o espaço público de negociação. potência esta que existe apenas no campo da ideação. há um apelo por meio de atos comunicativos para que determinada necessidade seja considerada. a atenção impessoal e o abuso dos exames complementares são alguns dos fatores que apontariam para o alicerce dessa crise. O trabalho médico-hegemônico. poderíamos responder que produz atos de saúde. enquanto uma atividade. tão necessária à reprodução do capital presente no complexo médico-industrial. da forma como este processo se realiza e das possibilidades de negociação. 1997. pois cairíamos no revés de estabelecer o que seria essa boa consciência e. Não existe resposta simples para esta situação complexa. p.31. Os processos de trabalho se voltam para a lógica instrumental. mas. não considerará como sua competência o reconhecimento deste espaço para o diálogo público. Ideologicamente.B. o consumo de procedimentos passa a ser encarado. em detrimento das abordagens mais relacionais. então. Há um “reducionismo da prática clinica simplificando a idéia da produção e do cuidado em saúde” (Franco. et al. de reconhecer o movimento de construção social das necessidades de saúde. garantindo a disputa dos sentidos do objeto de ação dos profissionais. que é hegemonicamente exercida nos serviços de saúde” (Pinheiro. assume o centro da reprodução do capital em detrimento da defesa da vida. p. p. A produção do cuidado e o trabalho em equipe Longe de tentar esgotar a discussão sobre o trabalho em saúde. 2006. O que se deve tentar e se pode garantir é a construção de espaços públicos para a negociação de necessidades. o caráter medicalizante. por também ser o detentor da determinação da produção dos procedimentos. encontrar uma forma de selecionar os bons profissionais.315-28. Genericamente. A negociação é entendida como um diálogo ou “saldo” da rede de conversações entre os referenciais técnicos e experiências vividas que definem ou distinguem as necessidades de saúde. Merhy. poderíamos perguntar o que o trabalhador em saúde produz. antes de tudo. Merhy. como capaz de produzir o cuidado. . Se o profissional de saúde ficar preso à ação burocratizada.81). ainda. n. “uma práxis que expõe a relação homem/mundo em um processo de mútua produção” (Merhy. numa perspectiva entre-disciplinar. Defendemos. o modelo biomédico. não conseguirá acolhê-las. p. “Parece que o modelo explicativo para os problemas de saúde apresentados pela população não possui similaridades com os modelos utilizados para elucidar as doenças – ao mesmo tempo em que esta constitui o elemento central da racionalidade da pratica médica. e como integração dos profissionais e seus saberes na busca de cuidar da população que assistem. mas a pergunta a ser respondida é: qual o seu objeto de ação? A maneira como o trabalhador de saúde constrói seu objeto de ação se torna central para sua produção de atos de saúde. como aquela que propõe Ceccim (2006). ficar preso ao ato normativo. a valorização dos aspectos biológicos. out.

a felicidade e emancipação do homem. como realizadores de uma obra de trabalho (Campos. integra. seja médico. p. Desafia o instituído. um instituído que abre tranquilamente suas portas ao instituinte que emana das relações com o outro. acolhe. O compromisso é a defesa da vida. dificilmente se reconhecerão como realizadores de atos de saúde. . as resistências. São novos fatores da clínica na contemporaneidade: a necessidade de integrar o outro no seu projeto terapêutico individual.ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO . dando a estes a segurança de que um modelo centrado nas tecnologias leves. de conhecer o significado de seu adoecer.. p. 262). Atos comunicativos 320 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. E. Franco e Merhy (2005) colocam que o desafio posto aos que trabalham com saúde é o de construir processos de produção de saúde que sejam capazes de se firmar com novas referências para os usuários. abraça. com prejuízo para sua transformação pelo trabalho. deve ter. por isso mesmo. Outro dado relevante de assumir é o de que nenhum profissional possui todas as ferramentas necessárias para exercer o cuidado. produzindo o cuidado. de resposta à crise do modelo biomédico. desvinculado da produção do valor de uso do produto saúde (no caso. pela condição de terapeuta.123). 2000).. recursos e instrumentos de intervenção clinica”. Ao invés de enxergarem seu papel. É necessário trabalho em equipe. mais relacionais. Para Ceccim (2006. A perda dessa dimensão cuidadora pode ser apontada como outra causa da grave crise atual do modelo médico-hegemônico. Profissionais alienados do processo de produção do cuidado. cuida. realizam um ato simplesmente reprodutivo. out. modifica. Essa transformação permanente rompe com as lógicas das agendas fechadas e programáticas. “um lugar de sensibilidade e equilíbrio metaestável6. p. e./dez. atos de saúde). de integrar seu agir e seus referenciais de explicação sobre o que sente e os processos que experimenta.31. em que todos os potenciais seguiriam se atualizando e o equilíbrio não seria outro que não a transformação permanente de si. Ceccim (2006) defende a entre-disciplinaridade para que se reconfigurem as relações em equipe permanentemente ante a complexidade do enfrentamento do mundo real das necessidades em saúde disputando serem reconhecidas e cuidadas. A integração do outro atravessa. usando a criatividade.13. O autor propõe a entre-disciplinaridade como forma de compreender o trabalho multiprofissional e interdisciplinar. uma das lógicas que pode tentar tensionar o instituído é a lógica do usuário. A partir do momento em que se abre um espaço público para a negociação das necessidades em saúde. com apropriação e acurácia. tem a potência de cuidar tal como imaginam ou desejam. “associados à dimensão de cuidador que qualquer profissional de saúde detém. dos entornos. enfermeiro ou um (vigilante) da porta de um estabelecimento de saúde” (p. Esses potenciais estão marcados pelos núcleos específicos de competência de cada profissão ou ocupação profissional. do trabalho” (Ceccim. somente assim.265). dificilmente reconhecerão seu potencial cuidador.315-28. também. Os atos comunicativos podem preencher o espaço do encontro entre trabalhadores e usuários. se movimenta. 2009 6 Entendemos equilíbrio metaestável como um equilíbrio “em acontecendo”. “todo profissional de saúde. fazendo emergir deste encontro um projeto terapêutico dialogado. que faz uso dos saberes de ambos os atores e de múltiplas tecnologias disponíveis no espaço. e com a realidade complexa que teima em fugir das capturas. Acreditamos existir e estarmos participando de um movimento de mudança. n. em que a prática terapêutica emergiria em clínica mestiça ou clínica nômade. a integração no interior das equipes de saúde. de atuar junto dele buscando autonomia e felicidade. 2006. pode ser sempre atravessado por distintas lógicas que o trabalho vivo pode comportar. Merhy (2002) considera vital compreender que o conjunto dos trabalhadores de saúde apresenta potenciais de intervenção nos processos de produção do cuidado. em um modelo médico-centrado e procedimento-centrado. para sua satisfação como autores do processo de trabalho. mas esta somente pode ser exercida na perspectiva sob compartilhamento e matriciamento.

2009 321 artigos . é um modo de tornar o nosso trabalho obra criativa cotidiana. é um dos desafios do acolhimento coletivo. Não basta compor as equipes com profissionais de várias áreas. O acolhimento coletivo O desenho da Figura 2 é uma representação gráfica que busca exibir os caminhos para a produção de projetos terapêuticos cuidadores utilizando o acolhimento coletivo. o saber e o fazer de cada profissional que compõe a equipe de saúde em um espaço de acolhimento de necessidades de saúde. Neste movimento de integração. J. n. integrando também os usuários. FORMULADORES DA POLÍTICA DE SAÚDE MODELO TECNOASSISTENCIAL ADOTADO ATOS NORMATIVOS (macropolítica) Espaço criador: acolhimento coletivo TRABALHO VIVO (micropolítica) ATO COMUNICACIONAL Necessidade de integrar o outro (usuário) e integrar a equipe TENSIONAMENTO ENTENDIMENTO Espaço instituinte de novas formas de produzir cuidado Metaestabilidade Tecnologias leves operando no trabalho vivo em ato PROJETOS TERAPÊUTICOS. circulem em benefício do cuidado.CAVALCANTE FILHO. Colocar o potencial cuidador. out. um espaço criador. tecnologias.B. fazendo emergir projetos terapêuticos entre-disciplinares. p./dez.31. estamos nos aproximando do espaço onde o acolhimento coletivo ocorre. criativamente complexificam o olhar para as necessidades referidas. circulando olhares e desejos. 2006). COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. com o objetivo de integrar este trabalho. Seria este o momento do encontro. É necessário que os saberes. Desalienar o papel de cada um na produção do cuidado. por vezes com muito mais de nãoditos e pedidos de cuidado (Cecílio.13. PRODUÇÃO DO CUIDADO.315-28. PRODUÇÃO DE EQUIPE Figura 2. Diagrama do acolhimento coletivo. et al.

às sete horas da manhã. todos os trabalhadores da equipe (médico. visitas domiciliares. Há uma articulação entre a agenda dos profissionais no intuito de garantir. em sua maioria. Os usuários vão chegando à Unidade de Saúde. Nem sempre a resposta ou o caminho proposto para o “andar a vida” do usuário está previsto em protocolos. ali mesmo naquela sala. neste espaço intercessor. Médico. são de livre acesso para qualquer de seus profissionais. quanto mais misturadas e trabalhando juntas as pessoas. 2009 . ver e agir para além das normas./dez. p. dos casos agendados. reuniões de equipe. No decorrer de aproximadamente uma hora. Cada usuário tem o início de seu projeto terapêutico singular no acolhimento. Segundo Tesser. Porém é sabido que. equipe e profissionais. educação em saúde. visitas domiciliares. onde estão presentes recursos para atendimento de emergência. o atendimento. Sentamos em roda na sala de reuniões da unidade. a população da área adscrita busca. auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde) e usuários. [. então. pois com as conversações abertas. distribuídas na semana de trabalho das equipes. Poli Neto e Campos (2007). Os casos considerados agudos são aqueles que passarão por uma consulta médica ou de enfermagem naquele mesmo turno. Explicamos o funcionamento da Unidade Básica de Saúde (UBS) e conversamos um pouco sobre algum problema considerado de saúde pela equipe ou trazido pelos usuários naquele momento. Não há pautas. desde o diabetes ao problema das fossas abertas que causam tantos transtornos a alguns moradores. os usuários já estão com seus projetos iniciados ou em continuidade. quanto mais aberto e acessível o serviço a todos os tipos de demanda. de casos agudos e. Orientações são dadas para as mais variadas dúvidas e podem representar um resto do dia mais tranquilo ou uma intervenção imediata. de todas as formas. que fazem ver para além da demanda trazida. A palavra é facultada para quem dela quiser fazer uso. com todos os profissionais acolhendo. Nessa teia de comunicações ocorrem os atos comunicativos. culturalmente.31. de realizar melhor o acolhimento e garantir o acesso. em conjunto com outra equipe de saúde que divide a mesma unidade. que movimentam necessidades antes não vistas para a categoria de necessidades de saúde. Discutimos desde o aumento da violência no bairro ao controle da hipertensão. Há. Cada profissional acolhe uma pessoa por vez.13. as mais variadas intervenções e as mais variadas articulações entre os trabalhos de cada profissional são propostas. Inicia-se. É garantido o espaço para quem quiser uma conversa fora da sala de reuniões. maior a possibilidade de a equipe imergir no mundo sócio-cultural de sua área de abrangência. Os casos considerados mais graves recebem atenção imediata na sala de observação da unidade (por vezes. 322 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. enfermeira e auxiliar.. transformar as tensões trazidas em entendimento.. atuações relativas a cada núcleo. com suas ofertas estruturadas.. a abordagem passa então a ser individual. As agendas da equipe. Após um debate que dura entre trinta e 45 minutos. Os mais variados problemas são conversados. enfermeira. findo o acolhimento coletivo: as consultas programadas. Mesmo com as explicações diárias da equipe da não necessidade de chegarem após a abertura da Unidade. out. antes mesmo de iniciar o diálogo).] quanto mais flexíveis e versáteis os profissionais quanto mais diversificadas e pouco ritualizadas suas ações. Há também certa flexibilidade dessa configuração para garantir ações conjuntas entre os núcleos profissionais. de trocar saberes pessoais e profissionais. pois sem uma atenção em 24 horas podem se tornar mais graves. A equipe toda vai lidando com estes casos e aprendendo a cada dia. n.315-28. para alguns é difícil não considerar o histórico de acesso aos serviços por ordem de chegada. instituindo novas formas de cuidar. Encontramos aí um desafio instituinte. em uma das salas da unidade. dependendo da quantidade e participação dos usuários. podendo ser incluído em qualquer das ofertas. sejam elas consultas dos profissionais de nível superior. Os olhares e expectativas se cruzam. o atendimento nas primeiras horas da manhã. profissional ou usuário. a necessidade de integrar o outro.. É aberto um espaço público para a negociação/conversação das necessidades de saúde. posteriormente. Tentamos. ações programáticas. pelo médico e enfermeira.ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO . garantem o acolhimento individual aberto durante todo o dia. um profissional tira dúvidas e propõe resposta junto a outro.

e não o contrário. é eficiente.B. o acolhimento individual dentro do processo de trabalho da equipe tem a perspectiva de vínculo com os usuários que buscam a unidade em outros horários.CAVALCANTE FILHO... agora é dividida com os outros membros da equipe: “Outro fator nessa forma de acolhimento é que a gente está compartilhando também um pouco dessa carga. e não interesses outros. em que pese isto dificultar o acesso da classe trabalhadora. como os corporativos. Além desse papel. hoje os profissionais já se assenhoraram mais do que seria o acolher.13. o acolhimento era uma ruptura. (Enfermeira) “Você chega à fila do acolhimento e tem uma enfermeira que vai atender. (Usuária) “Eu acho que aumenta a auto-estima [do usuário].. Mas outro nível seria abraçar essa família para fazer esse acolhimento.. Com a dificuldade de acesso provocada pela limitação de fichas. dá mais resolutividade”. pois o acolhimento coletivo enxuga muito o acolhimento. mais qualidade de vida e ainda dá tempo botar feijão no fogo!” (Estudante de medicina) A agilidade do acolhimento se dá pelo fato de toda equipe fazer a escuta. antes de responsabilidade somente da enfermeira. Estou vendo de uma maneira boa. E considero o acolhimento coletivo. Não é só a enfermeira que está atendendo sozinha uma fila de quarenta. não espera até 12 horas [meio dia]”.]. Que a responsabilização com o usuário oriente o processo de trabalho. Quando a gente vê o acolhimento com muitas pessoas. uma ruptura naquele chegar do usuário de saúde que era aquela fila. Agora eu chego às 8. chegar de madrugada. Que a necessidade defina a configuração das ofertas. você pergunta o que é que está acontecendo.. (Auxiliar de enfermagem) O acolhimento destina-se a garantir a universalidade com escuta qualificada de todos que chegam à unidade de saúde. os usuários.]... Isso aumenta auto-estima. ainda que a unidade funcione somente em horário comercial. sou atendido e a depender do meu caso. este que estou participando pela primeira vez.. no caso. quando chega no vigésimo. tinham de chegar à fila muito cedo. marcava ficha e ficava lá até altas horas. é algo muito valorizado: “A gente ia. é claro que está saturado e não atende o 21º como ele atendeu o primeiro. Num nível do acolher a demanda do paciente. às vezes a gente tinha que chegar até 5 horas da manhã. Eu considero o acolhimento individual mais eficiente no sentido de acolher a demanda do paciente. esse novo sistema permitiu que as pessoas saíssem da unidade de saúde tendo sofrido algum tipo de escuta [. melhora o fluxo dos usuários..]. Existe aquela imagem de por que eu sou pobre tenho que chegar às 5 da manhã e ser atendido às 8. Poder ser ouvido com mais rapidez pelo fato de toda equipe acolher. e não ter mais que chegar durante a madrugada à Unidade. n. et al. Garantir o acolhimento individual durante e após a realização do acolhimento coletivo obedece a esse preceito.. mais eficiente no acolher como um todo [. pois nem todos os problemas devem ser partilhados. eu não tenho nada contra. devido ao problema a pessoa já é logo atendida. 9 horas já estou em casa. De uns três meses para cá começou esse negócio de acolhimento na sala [o acolhimento coletivo]. Eu participei do acolhimento individual e do coletivo [. a consulta médica porque nosso modelo sempre foi 323 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v./dez.315-28. o enfermeiro. J. a gente [equipe de saúde] se olha e sabe que vai dividir aquilo”. 2009 artigos . A sobrecarga da porta de entrada logo pela manhã. O que esta população mais quer consumir? Culturalmente. p. no Centro de Educação Permanente de Saúde. Como todos serão ouvidos de acordo com a sua necessidade. Naquele momento. a gente chega lá. sob o risco de não conseguirem ser um dos que seriam atendidos. out. para tentar garantir o atendimento. “Estou aqui me reportando à primeira capacitação que a gente fez sobre acolhimento. independente dos motivos. para mim. Quando o acolhimento é feito de forma individual.31. Aquela enfermeira é quem vai decidir se você vai para aquilo que você quer consumir.

out. como detentor do conhecimento a ser transmitido em lugar de compartilhado: “Os médicos antes só eram vistos no momento da consulta. Escutar um paciente.45). Se todos os pacientes forem encaminhados para consultas não haverá tempo”. trazidos pela população usuária dos serviços de saúde da Unidade” (Merhy et al. centrado no médico. n. com reflexos na construção de autonomia. Ora. Eu vejo mais um trabalho de equipe. que enfatizam a mudança radical que o acolhimento provoca no processo de trabalho de uma Unidade de Saúde. A visão da saúde enquanto mercadoria. esperando. não possuidor de resolutividade. a sensação de envolvimento no processo. sobretudo de nível superior. (2004).. e agendar o retorno para ver sua resolução. (Estudante de medicina) “Não gosto da Dra. orientá-lo quanto às doenças autolimitadas. A construção social do médico como o detentor do conhecimento que será transmitido para a cura do usuário é uma das barreiras a ser vencida para substituir o consumo das consultas por projetos terapêuticos cuidadores entre-disciplinares.31.315-28. A Equipe de Acolhimento passa a ser o centro das atividades no atendimento aos usuários e “os profissionais não médicos passam a usar todo o seu arsenal tecnológico.. (Usuária) 324 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Essa equipe de saúde junto comigo é que vai decidir o que resolve o problema [.. pode ter um caráter terapêutico e vinculador maior que nossos atuais meios de investigação consigam capturar. o conhecimento para a assistência. (Auxiliar de enfermagem) “[Os profissionais de saúde] tratam a gente bem... Não gosta nem de danone [iogurte]. Ela passou os exames amarrada. p. eu não fui ao médico porque a enfermeira não me mandou para o médico”. só era visto no momento da consulta. falam com a gente com educação.13. A inclusão do outro. está bastante melhor. em outros ele é só um paliativo. Entrava pelo fundo do posto saia pelo fundo do posto. retirar a centralidade das consultas médicas e ampliar as potencialidades dos profissionais que compõem a equipe é bem explorada por Merhy et al. A criança não pega [come] nada. 2004.. perguntam o que a gente está sentindo. além da medicalização. Naquele espaço a gente tem a oportunidade de dizer: agora o acolhimento é da equipe. Só isso [estar presente na roda do acolhimento] já é um diferencial muito grande para a população”. meu filho só gosta de peito [leite materno]. se a gente está com uma dor vai logo ser atendido. (Estudante de medicina) “Acho que em alguns momentos ele [acolhimento coletivo] é terapêutico. muitas vezes desnecessários (procedimentos mais caros). a gente ficava esperando lá fora. a desterritorialização dos profissionais de saúde para a roda. na escuta e solução de problemas de saúde. se ele estava com alguma doença grave?” (Usuária) Trazer à tona estas e outras concepções facilita o diálogo. E depois. e encontra-se bastante forte na formação médica: “Se houvesse a agenda para consulta para todo mundo não haveria necessidade de acolhimento coletivo”. p. (Médico) A tentativa do acolhimento coletivo em transformar o modelo. reforça ideologicamente a valorização da especialização na saúde (produto mais caro) e da realização de exames.]. poder. O acolhimento coletivo se torna uma fuga da imagem ideologicamente construída do profissional de saúde. Antes era tão ruim. Silvia por conta de eu ter pedido uns exames e ela perguntou se eu achava que precisava. O diálogo não é considerado terapêutico. Tira do médico./dez. 2009 . além de conhecimento.ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO . Pois o que pode acontecer também é a enfermeira ficar de malvada na história.”. sua voz.. e não como um direito. Era um pop star [risos]. O status social e econômico e o biologicismo da formação em saúde desigualam o diálogo e não o favorecem. sai daquele negócio de passar só pela enfermeira. Isto perpassa toda a formação em saúde. circula. Eu [o usuário] vou buscar o acolhimento.

que por vezes querem esse atendimento diferenciado [individual... “Preocupo-me com o nível cultural das pessoas. no acolhimento coletivo. com medo de falar errado. já [Risos]”. J.B. O povo pode pensar que estou com coisa braba da pega [doença grave]. (Auxiliar de enfermagem) A população reunida pode fazer perceber necessidades do coletivo. Mas a gente tem que falar mesmo o que sente”. Se a pessoa quer falar com o médico. pela equipe. (ACS) “E a gente aprende um com o outro. E como tá todo mundo junto [. as diferenças de classes. ele [o usuário] grita. (ACS) “Mas quando a gente fala que quem quiser falar em particular é só se manifestar. “Às vezes a pessoa vem só marcar uma consulta e a gente mesmo pode pegar a agenda da enfermeira e fazer isso. por vezes.] antigamente o médico e enfermeira não ficavam juntos com o usuário. (Estudante de medicina) COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. tem medo. Tem paciente que tem um problema que não quer dizer para a gente. O mais rápido que der. a distância do saber técnico em relação ao saber popular. Os novos projetos terapêuticos nos fazem aprender com as novas práticas de enfrentamento de desafios.. além das novas vozes integradas na produção do cuidado. out. são aspectos que. gente de uma classe mais [. na sala] e não expressam na roda”. nem que machuque outra pessoa”. Mesmo se ele tiver com uma coisa de mais sigilo.31. preconceitos e concepções. Além do fato de o acolhimento individual ficar aberto. por vezes não é percebido como tal. p. Ele prefere marcar uma consulta e esperar”. Se não tiver gostando ele abre a boca e diz. a exclusão social. a valorização de uma cultura em detrimento de outra.. qual o caso que é a enfermeira. espere um pouquinho que eu vou falar com o médico”.verbalmente. Sabe como é. todo mundo falando [. mas muita gente se sente acuado. não são superados e prejudicam o diálogo. 2009 325 artigos .315-28../dez. visões.13. (ACS) “Já tá agindo mesmo como um médico. A gente se desenvolve muito”. n. mesmo para aqueles que têm vergonha de falar”. após a fala anterior) “A gente já sabe mais ou menos qual o caso que o médico que atende. durante todo o horário da unidade.]. o usuário. Tem tanta gente que é formada e fala errado [. a gente fala com ela: espera um pouquinho. isso intimida também. A escassez de espaços públicos de negociação.. Vêm à tona. se é bom ou se é ruim para eles em relação à unidade e a comunidade.o profissional. (ACS.. e a gente diz: diga mais ou menos como é que é. (ACS) “Eles [os usuários] opinam sobre o que está acontecendo. a sala . Quando não dá para mim que eu já passo para ele. sua compreensão como um lugar de trocas e entendimentos. (Usuária) “Quando há necessidade. (Estudante de medicina) “Muita gente se sente à vontade.] Uns não gostam de falar porque se sentem tímidos.CAVALCANTE FILHO. et al. A resposta dada pela equipe é garantir o espaço de reterritorialização . A minha área [região de adscrição] está gostando muito e eu espero que tão cedo não mude”. além de mais necessidades. eles não contam e contam individualmente e vai ser atendido de acordo com as necessidades dele. O pessoal aqui tem uma liberdade muito grande de dizer o que pensa. É a minoria que fica calado. ele fala. muitas vezes.] mas no meu ponto de vista a gente tem mais é que falar. O espaço do diálogo.. Ali é uma oportunidade maior.

Instituir nem sempre é substituir. Síntese provisória O acolhimento coletivo como proposta de organização do processo de trabalho da equipe de saúde se faz inovador. respeitar e integrar o outro. além dos saberes. Refletir sobre a nossa prática traz mais clareza e satisfação com o caminho que percorremos. Exige também profissionais que ampliem a dimensão cuidadora do seu fazer e flexibilizem esse fazer de acordo com as necessidades de saúde. A defesa da vida e do Sistema Único de Saúde passa por mudanças na formação destes profissionais. antes tão frequentes. p. Sistematizar e dividir esta experiência por meio deste trabalho traz consigo a esperança de provocar entendimentos e mais reflexões sobre o fazer cotidiano dos trabalhadores militantes. Ainda há muito que desconstruir/construir em nossos ideários para que seja permitido romper os empecilhos ao diálogo e para que esta busca do equilíbrio seja produtora de relações mais solidárias e humanas. o que nem sempre é uma realidade de nosso sistema de saúde.. por ser um espaço de integração do outro. out. companheiros espalhados pelo Brasil. É a integração de trabalhadores e usuários para a construção de projetos terapêuticos individuais e coletivos considerando expectativas. construindo autonomia. Essa acolhida então não fica só a cargo do agente de saúde. O diálogo horizontal com os usuários e a relevância dada às suas opiniões e desejos trazem à unidade um perfil de espaço terapêutico e cuidado integral à saúde. um problema da população fica mais a olhos vistos. Compartilhar isso com usuários e trabalhadores tem um valor imensurável. vai para toda a equipe”. A busca deste equilíbrio. “No acolhimento coletivo. de trabalhar em equipe ou de reconhecer. O acolhimento coletivo requer unidades com bom espaço físico. Defendemos que é a necessidade de saúde que deve definir/instituir as ofertas de um serviço.31. complementares na escuta qualificada de necessidades de saúde. O maior desafio de se colocar em um espaço público de negociação é a sensação de segurança perdida que ocorre na busca de um equilíbrio metaestável. relacionadas. Não é uma pré-consulta. integradores.ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO .. É um espaço de encontro onde o conhecimento circula e não somente é transmitido dos sabidos para os ignorantes. traz consigo novas formas de produzir e ser feliz no trabalho. você vai trabalhar a educação sexual. Mesmo considerando o viés da gratidão no grupo focal de usuários. sentimentos e experiências. referenciais teóricos. maior aproximação do profissional ao modo de viver e sentir as necessidades trazidas ao espaço pela população. usuários e trabalhadores. sente-se diminuição das tensões no dia-a-dia da unidade. A escuta coletiva realizada no formato estudado de acolhimento traz mais um lugar de identificação de necessidades de saúde. A formação hospitalocêntrica e biologicista na saúde não vem preparando profissionais com a competência de criar espaços públicos de negociação. A busca de um Sistema de Saúde includente e de um processo de trabalho que traga também a realização profissional dos membros da equipe de saúde. Se você vê muitas adolescentes grávidas no acolhimento coletivo. onde há quase unanimidade quanto à realização do acolhimento coletivo. também. Não é uma sala de espera./dez. 326 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Espaços como estes não são tão comuns em nossas unidades de saúde. O acolhimento coletivo não é uma triagem. Os acolhimentos coletivo e individual tornam-se. proporcionando. (Estudante de medicina) Necessidades em saúde determinando o agir da equipe.13. desejos. n. 2009 . Movimento e vida a serem defendidos na construção de projetos terapêuticos cuidadores. Há necessidades e negociações que só surgem na abordagem individual e mais privada que o acolhimento coletivo pode dar. certamente. à falta de conversações. este desafio instituinte. então.315-28. Extrapola a classificação de riscos que determina a sequência de ações em prol da recuperação da saúde.

CECÍLIO. Aracaju. 3.P . 2005.). Construção da integralidade: cotidiano. 2. São Paulo: Hucitec. PINHEIRO.CAVALCANTE FILHO. As práticas do cotidiano na relação oferta e demanda dos serviços de saúde: um campo de estudo e construção da integralidade. Referências ARACAJU./dez. J. 2002. R. MATTOS. Cuidado: as fronteiras da integralidade. São Paulo: Hucitec. 2001. Agir em saúde: um desafio para o público.S. BOUFLEUER. (Videoteca do Centro de Educação Permanente da Saúde. Cienc.br>. 2009 327 artigos Colaboradores . MERHY. (Orgs.G. Rio de Janeiro: Cepesc/Uerj/IMS/Abrasco. CAMPOS. In: PINHEIRO. TESSER. R.259-78. R. MATTOS.R. R.A. Brasília: Líber Livro. R. Construção social da demanda: direito à saúde. B. 4.). CECCIM. T. R.). Rio de Janeiro: IMS/Uerj/Abrasco.. MERHY..ed.B. O trabalho em saúde: olhando e experenciando o SUS no cotidiano. Grupo focal na pesquisa em ciências sociais e humanas. 2007.ed. 4. CAMPOS.E.). p. L. R.. G. C. Rio de Janeiro: IMS/Uerj /Abrasco. 2006.. Cuidado: as fronteiras da integralidade.ed. p. (Orgs. ONOCKO. p. 2008. POLI NETO. Ricardo Burg Ceccim e Luciano Bezerra Gomes responsabilizaram-se pela discussão e redação do artigo. 2006. A produção imaginária da demanda e o processo de trabalho em saúde. (Orgs. SE.C. 2005).ed. MATTOS. 2005. (Orgs. Acolhimento e (des)medicalização social: um desafio para as equipes de saúde da família. Disponível em: <http://www. ______. R. Acesso em: 22 dez.A. 12 ago. Rio de Janeiro: Cepesc/Uerj/IMS/Abrasco. Saúde: cartografia do trabalho vivo. E. MERHY. MATOS.ed. Rio de Janeiro: Cepesc/Uerj/Abrasco.. In: PINHEIRO.D.M.W. Equipe de saúde: perspectiva entre-disciplinar na produção dos atos terapêuticos. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. In: PINHEIRO. 3. p. São Paulo: Hucitec. p.241-57. Pedagogia da ação comunicativa: uma leitura de Habermas. GATTI. 3. saberes e práticas em saúde.ed.31.S. Rio de Janeiro: IMS/Uerj/Abrasco. 2000.E.. Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Avaliação da atenção básica em saúde sob a ótica da integralidade: aspectos conceituais e metodológicos.).cienciaesaudecoletiva. 2006. MERHY. In: PINHEIRO.A. Saude Colet. E. R..A. Secretaria Municipal de Saúde. R. R. 2004. Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde..).E.B. J. As necessidades de saúde como conceito estruturante na luta pela integralidade e equidade na atenção em saúde. (Orgs. A. 2005. TEIXEIRA. MATTOS. Um método para análise e co-gestão de coletivos. FRANCO. 3.. 2005. MATTOS. SILVA JÚNIOR.. R. MASCARENHAS. (Orgs.). 2006.ed. João Batista Cavalcante Filho e Elisângela Maria da Silva Vasconcelos responsabilizaram-se por todas as etapas da produção do artigo. et al. p.89-111. R. et al.113-26.W. E. Aracaju: Universidade Estadual de Sergipe.B..E. In: PINHEIRO. G.T. Projeto Saúde Todo Dia.O.com. M. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações. Aula da especialização em Saúde Coletiva. 2003. In: PINHEIRO. R. 1997. R. trabalho em equipe.13. R. E. n. [periódico na internet]. p. P . São Paulo: Hucitec.A. (Orgs.315-28.A.65-112. Ijuí: Unijuí. participação e espaços públicos. out.181-93.

2009.ACOLHIMENTO COLETIVO: UM DESAFIO . Aprovado em 17/03/09. 2009 . n. p. Sistema Único de Salud. J. Acogida colectiva: un desafio instituente de nuevas formas de producir el cuidado.31..31. p. out.B. Palabras clave: Acogida. v./dez. Educ. En este espacio creativo el trabajo vivo gana fuerza en su relación con los actos normativos./dez.. et al. un espacio de encuentro entre trabajadores y usuarios. Saude.315-28. Ante el desafio de implementar una forma de acogida que integre el equipo de trabajadores de salud y estos con los usuarios.315-28. out. construyendo relaciones más solidarias y proporcionando aprendizaje de nuevas formas de producción de cuidado.. CAVALCANTE FILHO. n.13. Equipo interdisciplinario de Salud.13. Interface . un equipo de profesionales del programa de salud de la familia propone la acogida colectiva. Por medio de actos comunicantes transforma tensiones en entendimientos. Atención primaria a la salud.Comunic. 328 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. teniendo por objeto las necesidades de los usuarios. Hay la busca de un equilibrio meta-estable donde el trabajo se re-configura delante de cada nuevo desafío.. Recebido em 09/09/08.

Fundação Oswaldo Cruz.031.13. 2009.329-42. v. Integração de serviços de saúde. Neste artigo discute-se uma abordagem teórico-metodológica para estudos na área da integração de serviços de saúde.13. Integration of healthcare services. O trabalho seguiu as normas estabelecidas pela Resolução CNS 196/96. processo central da integração. the potential of conversation analysis is highlighted as a tool for analyzing the interactions that are established within the processes of coordinating healthcare actions and services. is essentially a communicative action. This paper discusses a theoretical and methodological approach for studies within the field of integration of healthcare services. M. * Elaborado com base em Lima (2002).U.31. which is a process central to integration. Intersetorial action. Conversation analysis. n.. RIVERA.0.31.C. Rua Senador Vergueiro.230-001 Juliano@fiocruz. Interface . The discussion starts from the assumption that the coordination of healthcare actions and services..329-42. é essencialmente uma ação comunicativa. 238/1201.J. 1 Fundação Oswaldo Cruz. out. redes de conversação e coordenação em serviços de saúde: uma perspectiva teórico-metodológica * Juliano de Carvalho Lima1 Francisco Javier Uribe Rivera2 LIMA. RJ. out. Comunicação. tese que contou com financiamento da Capes. Communicative action. n. Rio de Janeiro.000-07). Among the methodological aspects.br 2 Escola Nacional de Saúde Pública. Flamengo. p. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.Agir comunicativo. destacando o aspecto intersubjetivo dos processos de coordenação. Entre os aspectos metodológicos destacam-se as potencialidades da Análise de Conversações (AC) enquanto ferramenta para analisar as interações que se estabelecem nos processos de coordenação de ações e serviços de saúde. Saude./dez. 22.. Keywords: Coordination. Palavras-chave: Coordenação. Brasil. networks of conversation and coordination in healthcare services: a theoretical and methodological perspective. The intersubjective aspects of the coordination processes are emphasized. Educ. tendo o projeto de pesquisa sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (parecer 0098. 2009 329 . Communication. p. Análise de conversação./dez. F . Parte-se do pressuposto de que a coordenação de ações e serviços de saúde. Ação intersetorial.Comunic.

o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda é caracterizado como um sistema fragmentado. Nesta revisão enfatiza-se a emergência de uma visão relacional e dialógica da coordenação. fornecedores. REDES DE CONVERSAÇÃO E . reduzir incertezas e evitar conflitos. com o propósito de coordenar sua interdependência. tendo como pressuposto a ideia de que a coordenação das ações de saúde é essencialmente uma ação comunicativa. com concomitante declínio da performance” (Longest. 1997). quando diversas organizações com interesses diversos tentam trabalhar juntas.. que as formas de organizar a atenção à saúde são expressão das relações e das interações entre estes três atores centrais. Como conclusão. integralidade e comunicação. com distribuição desigual dos recursos e articulação insuficiente entre os serviços. utilizando-se elementos da Teoria do Agir Comunicativo (Habermas. 2001). que podem ser considerados como os três sujeitos genéricos da coordenação/ integração em sistemas de serviços de saúde. Klingensmith.332) veem a coordenação como o propósito principal dos processos de integração de serviços de saúde. p. Propõe-se que estudos baseados na análise de Redes de Conversação são potentes para esclarecer aspectos importantes destes processos e orientar sobre novas formas de coordenar serviços de saúde. caracterizada em função das relações entre unidades e indivíduos. Para os autores. n. 1988. Hartz e Contandriopoulos (2004. Hartz e Contandriopoulos (2004) consideram que a integração dos serviços aparece como um atributo inerente às reformas de políticas públicas e torna-se eixo prioritário de investigação e avaliação dos serviços e sistemas de saúde. “Se as ligações não são efetivas. fracionadas e isoladas.AGIR COMUNICATIVO. 2002b. integração e comunicação em sistemas de serviços de saúde Para Longest e Klingensmith (1988). Em face dos problemas de fragmentação das ações assistenciais. 330 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. como. A gestão é entendida neste trabalho como um processo político de produzir contratualidades entre os diferentes atores sociais com vistas à organização das ações de saúde. Klingensmith. distintos níveis de governo. Entende-se. pagadores e assim por diante” (Longest.. um adequado grau de coordenação pode ampliar e melhorar a comunicação.245). 2002a. as organizações podem se tornar fragmentadas. 1988. Embora os conflitos sejam parte inerente a qualquer organização social. os responsáveis pela organização e produção dos serviços (prestadores e profissionais) e os cidadãos. O ponto de partida é uma revisão sobre integração em sistemas de serviços de saúde. por exemplo. Mitchell e Shortell (2000) definem coordenação como o gerenciamento de um sistema de intercâmbios. onde se busca uma aproximação conceitual entre coordenação. É com base nessa compreensão que se discute. p. a coordenação representa o principal instrumento pelo qual os gerentes articulam e integram as várias pessoas e unidades dentro das organizações e integram suas organizações com outras.31. da Teoria dos Atos de Fala (Austin.329-42. sobretudo. Introdução Embora tenha sido criado com vistas à constituição de redes de serviços capazes de permitir o acesso de qualidade a todos. neste trabalho.13. permitindo-lhes cooperar para a realização de um projeto (clínico) coletivo”. eles surgem. 2009 . 1965) e da Teoria da Conversação (Echeverria. p. é importante ter em conta que as ligações entre os nós desta rede somente podem ocorrer mediante o estabelecimento de uma rede intrincada de interações entre: aqueles responsáveis pela organização do sistema (gestores). faz-se uma reconstrução comunicativa da coordenação. uma perspectiva teóricometodológica para estudos na área de integração de serviços de saúde. out. A partir de então. Para os autores. assim. “Num sentido mais amplo. a integração em saúde é um processo que consiste em criar e manter uma governança comum de atores e organizações autônomas. Na discussão sobre mecanismos de coordenação interorganizacional./dez. Coordenação. o conceito-chave para se discutir a questão da coordenação é a interdependência. apontam-se perspectivas metodológicas para a realização de estudos baseados neste enfoque.235). os autores destacam que “organizações de atenção à saúde vivenciam experiências de interdependências com outras organizações de saúde ou com outros elementos no seu ambiente externo. p. Ao pensar-se o sistema de serviços de saúde como uma rede coordenada capaz de garantir o acesso e a continuidade do cuidado.

Miller e Beckman (2005) chamam a atenção para o que denominam dimensões organizacionais de cuidados centrados no relacionamento.13. que o desenho de certos mecanismos podem facilitar a coordenação. o papel de redes de conversações colaborativas. não se conectam instituições entre si. a partir de relações interpessoais. os autores concluem que os mecanismos formais de coordenação melhoram a performance do serviço pelo incremento do nível de coordenação relacional. que vai conformar uma rede”. Os resultados do estudo mostraram que fortes relações entre provedores de serviços de saúde têm efeito direto no incremento da satisfação dos usuários e na sua fidelidade aos serviços. são sempre pessoas que se articulam e conectam. de protocolos. “apesar de nesse processo [constituição de redes de serviços de saúde] estarem envolvidas instituições e projetos. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Para dar conta deste padrão de interdependências. b) a coordenação relacional entre prestadores aumenta a intenção dos usuários de recomendar o serviço a outros. mas não são suficientes em áreas onde prevalecem atividades que são reciprocamente interdependentes. especialmente. ou seja. p. Estudos recentes no campo da saúde têm enfatizado a emergência de uma perspectiva diferente na análise de processos de coordenação intra e interorganizacionais. 2009 331 artigos . (2000. além disso.C. gerenciamento de casos. independente dos efeitos diretos da relação usuário-provedor. n. dos processos de interação. Embora a coordenação possa se dar por meio de uma grande variedade de mecanismos. porém não se conectam cargos entre si. se conectam pessoas. somente se dão. J. 2002b) e Gittel e Weiss (2004) enfatizam. independente dos efeitos diretos da relação usuário-provedor. É a unidade básica do vínculo. a qual denomina coordenação relacional (relational coordination). p. reuniões de equipe e coordenação relacional têm efeitos positivos na eficácia dos serviços. Mas apesar desta constatação. devido ao recebimento de um tratamento mais coordenado.10). Segundo essa abordagem. Resultados de seus estudos mostraram que rotinas. precisa e centrada na solução de problema tem nos processos de coordenação (Gittel.329-42. Por isto é que se diz que rede é a linguagem dos vínculos. Predominam análises voltadas para medir a integração em termos de troca de recursos. Gittel tem advogado por uma determinada perspectiva da coordenação. Segundo Feuerwerker et al. relações entre os prestadores ajudam os serviços a desenvolverem relações mais efetivas com os próprios usuários.U. se conectam ou vinculam pessoas. padronização e estabelecimento de rotinas. São sempre pessoas que constroem vínculos. Gittel (2002a. a relação entre sujeitos. Redes são redes de pessoas. Safran./dez.30) também reforça a concepção acima. Esta forma de coordenação diferencia-se de outras identificadas na teoria organizacional por referir-se mais às interações entre os participantes do que aos mecanismos que dão suporte a estas interações. ainda que esta pessoa seja o diretor da instituição e se relacione com seu cargo incluído. na prática. a comunicação possui um papel preponderante. onde há elevado grau de incerteza e onde o tempo é escasso. são poucos os estudos que buscam apreender o modo como se dão estas interações. não se conectam computadores entre si. 2002a). as relações interorganizacionais. oportuna. Assim. Gittel (2002b) testou duas hipóteses: 1) a coordenação relacional entre prestadores de serviços aumenta a satisfação dos usuários. Rovere (1998. em seus estudos sobre a microdinâmica da coordenação entre serviços de saúde. estes são mais apropriados a interdependências do tipo sequencial ou linear. sempre enfatizadas nas discussões sobre sistemas integrados. mas esta é fundamentalmente um processo de interação entre os participantes. p. RIVERA. F . como é o caso da provisão de serviços de saúde.LIMA.J. Mas.. de encaminhamentos de pacientes. tais como programação de tarefas. Além disso. Tal perspectiva enfatiza a importância das relações interpessoais e da cultura de solidariedade para o sucesso organizacional e. Em outro estudo com foco nas relações entre prestadores de serviços no cuidado pós-cirúrgico e utilizando as mesmas dimensões da coordenação relacional. contribuindo assim para a satisfação. out.31. mas poucos são os estudos voltados para a análise do papel da comunicação interpessoal e do modo como ela atua no interior do sistema. A coordenação relacional reflete o papel que a comunicação frequente.

out. (Franco.13. 2009 . A produção da atenção à saúde se dá. Faraj e Xiao (2006) argumentam que. pelas conexões que se estabelecem entre pessoas que estão em situação e se formam em linhas de fluxos horizontais por dentro das organizações. o que permite a intervenção de profissionais de outras áreas no trabalho sob responsabilidade de outros.130) Para Franco (2006). sobretudo em situações especiais e de grande risco. os autores desenvolvem uma abordagem que enfatiza o que denominam coordenação da expertise e coordenação dialógica. Com base em um estudo realizado em um centro de atendimento ao trauma nos Estados Unidos. em determinadas organizações. 332 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. a proposta justifica-se pelo elevado grau de interdependência nos processos de atenção. a démarche stratégique. Também para Franco (2006). como respostas situadas a trajetórias inesperadas dos pacientes.. Na coordenação dialógica. que ocorre geralmente quando a segurança de um paciente está comprometida.AGIR COMUNICATIVO. diferente de outras situações. Ao observarmos o funcionamento das redes de cuidado do SUS. n. 2006. Já a coordenação dialógica entraria em cena. da comunicação e da solidariedade. verificamos que. as abordagens que enfatizam o desenvolvimento de mecanismos de coordenação pré-especificados não são adequadas. a diversificação crescente dos processos de atenção. nesta perspectiva. ao olharem para a rede de serviços hospitalares. uma vez que essas organizações são menos dependentes de arranjos estruturais de coordenação e são mais contingentes na integração do conhecimento. a incerteza e a interdependência variável são características. REDES DE CONVERSAÇÃO E . que ocorre especialmente quando a equipe se vê obrigada a se reunir e discutir determinado caso que não está seguindo a trajetória esperada. São as relações que vão construindo o meio social em que se inserem os atores. Para essas organizações. unidades básicas. são quatro as práticas principais: 1) a geração de consenso. A proposta de planificação apresentada pelos autores. sobretudo. Artmann (2002) e Artmann e Rivera (2003). a partir de múltiplas conexões e fluxos. a organização da atenção à saúde se dá fundamentalmente pelas relações. como estudos de casos. que criam linhas de contato entre atores sociais que são a fonte de produção da atenção. Para Artmann (2002). operam com elevado grau de incerteza e com processos rápidos de tomada de decisão. serviços de especialidades. seja da equipe de saúde da família. as redes de serviços de saúde e as redes de produção de cuidados seriam sistemas abertos de conexão. 2) a intervenção “transfronteira”. buscam identificar instrumentos que possibilitem estruturar esta rede a partir dos custos de oportunidade. que diz respeito a conversações que emergem entre as várias comunidades de prática quando da diferença de opinião acerca de determinada situação. p. onde o conhecimento. p. formação de comunidades de práticas e mecanismos de compartilhamento de conhecimento. Nestas organizações os mecanismos de coordenação não são facilmente especificados e são altamente contingentes. o seu caráter transversal e o amplo e crescente número de atores mobilizados neste processo de trabalho demonstram o elevado grau de interdependência que apresenta o sistema.329-42. cuja produção se dá sem que haja um eixo estruturado sobre o qual se organiza. 4) a quebra de protocolos como uma prática de coordenação.. Os estudos de Faraj e Xiao (2006) dão suporte para uma conceituação relacional da coordenação como um fenômeno emergente. Entre as práticas de coordenação da expertise. Faraj e Xiao (2006) incluem mecanismos como: elaboração de protocolos.31. como as emergências hospitalares. O aspecto mais relevante do trabalho de Faraj e Xiao (2006) é a conclusão de que. trabalham comunicando-se mutuamente. entre as diversas unidades. ora em função de um procedimento. seminários. entre outros. Parte de um olhar abrangente sobre a rede. ora em função do plantão). as organizações de resposta rápida (fast-response organizations). 3) a contestação epistêmica. arranjos flexíveis de composição de equipes (ora em função de um paciente. rede hospitalar e mesmo o atendimento pré-hospitalar. em um processo que de longe pode se verificar que é um funcionamento em rede. Assim como em autores discutidos anteriormente. é um sistema de análise da missão dos serviços hospitalares que valoriza as sinergias e parcerias. o que inclui a realização de um diagnóstico administrativo e epidemiológico da área onde o hospital está inserido./dez.

para o debate. apostando no desenvolvimento de processos comunicativos e de negociação externos ao hospital que redundem em acordos relativos aos projetos assistenciais pertinentes à rede de serviços. que dificultam o desempenho das atividades A coordenação é abordada como um meio para incrementar alguns dos objetivos do sistema de saúde. Comunicação e coordenação de ações Segundo Maturana (2001). micropolítico e dialógico. em interações recorrentes. n. É possível falar. não há nada a ser coordenado. busca-se. apontamos alguns dos resultados esperados em sistemas de serviços com elevado grau de coordenação: garantir o acesso e a continuidade. de vontade política. fundamentar uma abordagem comunicativa para análise da coordenação. parafraseando Habermas. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. “A linguagem é um modo de viver juntos num fluir de coordenação consensual de coordenações consensuais de comportamentos. A seguir. continuidade do cuidado. RIVERA. têm em comum o objetivo de tentar lidar com as interdependências do sistema. Esta deve. a coordenação está no centro das discussões recentes sobre a constituição de sistemas integrados de serviços de saúde. evitar a sujeição do paciente a procedimentos desnecessários.J. pois se não há interdependência. da Teoria dos Atos de Fala e da Teoria da Conversação. incluindo as várias denominações e experiências. 2001. Como essa interação se dá. e é como tal um domínio de coordenações de coordenações de ações” (Maturana. em uma “guinada para a comunicação”. No entanto. isso exige novos processos de comunicação. a seguir. por meio da linguagem. da adesão ao projeto..329-42. A revisão realizada acima traz. O importante a se destacar em relação à abordagem proposta é que ela se opõe a uma perspectiva normativa e tecnocrática de definição de diretrizes e estratégias hospitalares. São muitas as abordagens e as metodologias voltadas para a análise da coordenação em sistemas de serviços de saúde. Neste sentido. integração clínica. Como visto. 2009 333 artigos . recentemente.LIMA.C. F . Uma abordagem feita exclusivamente sob esta perspectiva termina por apagar ou ocultar as relações entre os sujeitos em interação que. portanto. uma série de trabalhos tem reconhecido cada vez mais o caráter relacional. em último caso.31. Assim. destacando as relações interorganizacionais e enfatizando a modificação das fronteiras das organizações. a partir do momento em que temas como integralidade e coordenação passam a se constituir elementos essenciais para a criação de novas possibilidades para o campo da saúde. A construção da integralidade passa pela instituição de estruturas e mecanismos reguladores dos fluxos de usuários entre os serviços. fundamentalmente. out. evitar a duplicação de procedimentos ou exames. J. Interdependência é a questão-chave. Artmann e Rivera (2003) se aproximam de Franco (2006). p. p. tomando por base elementos da Teoria do Agir Comunicativo. integração e comunicação. é o que produz de fato a coordenação das ações. Boa parte dos estudos assume uma perspectiva estrutural-funcionalista. ser analisada em termos de atores que desenvolvem tarefas interdependentes e que requerem recursos de vários tipos. importantes elementos no que diz respeito à tentativa de aproximar as ideias de coordenação. mas passa fundamentalmente pela mudança nos modos de interação entre profissionais e usuários e entre as equipes de profissionais e gestores. para quem as linhas assistenciais e os projetos assistenciais inseridos nelas são resultantes de um pacto produzido a partir do desejo. As várias abordagens ao tema. e que constitui o centro nervoso de viabilização da proposta. Nesta perspectiva.13./dez. A coordenação de ações tem um caráter eminentemente comunicativo. e agilizar o atendimento. da organização de redes de serviços de saúde. dos quais destacam-se a integração dos serviços e a integralidade da atenção. recursos cognitivos e materiais. como constituição de redes. é possível falar em consenso ou condutas consensuais toda vez que se faz referência a condutas ou coordenações de condutas que se estabelecem como resultado do fato de as pessoas estarem juntas.178). gerenciamento de casos. os atores em uma organização se deparam com problemas de coordenação que surgem das dependências.U.

assentado na capacidade de os participantes da interação produzirem um consenso fundamentado argumentativamente sobre pretensões de validez criticáveis. compreende-se que a superação da fragmentação e a ampliação do acesso dependem de uma integração social por meio de valores. mediada pela linguagem. p. 2002a. Sob o aspecto funcional de entendimento. mas da força racionalmente motivadora de realizações de entendimento.200) O agir comunicativo distingue-se do agir estratégico porque uma coordenação da ação bemsucedida não depende da racionalidade teleológica das orientações da ação. os mecanismos de coordenação de ação utilizados distinguem dois tipos de interação.13. dentro do horizonte de um mundo da vida partilhado e com base em interpretações comuns de situação. Tendo em vista as atuais discussões sobre a integração de serviços no Brasil.110). 2002a). Quando a linguagem é utilizada apenas como meio de transmissão de informação com vistas a um fim. (Habermas. A coordenação das ações e a estabilização das identidades de grupo têm aqui sua medida na solidariedade dos membros. p. essa é justamente a situação.329-42./dez. serve à integração social e à criação de solidariedade. 2009 . out. p. com a ajuda da ação de pelo menos um outro agente (ou da sua opção de se abster de agir)” (Habermas.. Voltando o olhar para os sistemas de serviços de saúde. profissionais e usuários) interajam umas com as outras. Segundo Habermas (2001. “O problema de coordenação da ação verifica-se logo que um agente consiga materializar o seu plano de uma forma apenas interativa.110). O agir comunicativo impele os indivíduos a abandonarem o egocentrismo de um cálculo orientado exclusivamente para o seu próprio sucesso. A integração social. em especial as que advogam a 334 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. REDES DE CONVERSAÇÃO E . “a força consensual dos processos lingüísticos de se obter entendimento. fala-se em ação estratégica. que irá motivar suas ações e promover a emancipação frente à dominação política e a liberação do homem para a reflexão crítica. Busca sua solução via uma interação dialógica baseada em argumentos. mas também sobre o outro. prestadores. cuida que as ações sejam coordenadas através de relações interpessoais legitimamente reguladas e da continuidade da identidade dos grupos em um grau que baste à prática comunicativa cotidiana. e sob o aspecto da coordenação da ação. n. Teoria do Agir Comunicativo e coordenação de ações Habermas (2002a) afirma que é possível entender uma interação como a solução do problema de como os planos de ação de diversos atores podem ser coordenados de modo que as ações de um possam ser “ligadas” às ações do outro. normas e processos de entendimento entre os implicados na provisão de serviços de saúde.31. A necessidade de ligação decorre do interesse que cada ator possa ter de cumprir seu plano de ação.AGIR COMUNICATIVO. é necessário um agir baseado na busca do entendimento (agir comunicativo). Para uma efetiva coordenação da ação. Nos sistemas de saúde. p. não apenas sobre a situação da ação. ou seja. fala-se em ação comunicativa. Já no primeiro caso. de uma racionalidade que se manifesta nas condições para um consenso obtido comunicativamente (Aragão. Na ação comunicativa. No caso da ação comunicativa. 2002). 2001. O adequado atendimento às necessidades da população somente é possível na medida em que as várias pessoas que atuam nos serviços (gestores.. a ação comunicativa serve à tradição e à renovação da cultura. serve à formação das personalidades individuais. o efeito coordenador é dependente da influência exercida pelos atores em interação. Tal perspectiva não elimina e nem pretende eliminar o conflito. sob o aspecto da socialização. o da ação estratégica. 2002a. as energias vinculativas da própria linguagem – torna-se eficaz para a coordenação de ações” (Habermas. Os agentes participantes tentam adequar os seus respectivos planos cooperativamente. ou seja. segundo o uso que é feito da linguagem. pressupõe-se a existência de uma base de pretensões de validade mutuamente reconhecidas. isto é. Já quando ela é utilizada como fonte de integração social.

J. inclusive nos pequenos espaços institucionais. 1965) e conversação (Echeverria. no confronto de argumentações e na busca do consenso. se submetem ao critério de verificabilidade. os sujeitos não estão se referindo a algo que passa no mundo. o que está em relação com as normas sociais construídas pela sociedade. deduz-se que as relações intergestores têm se dado mais com base na competição por recursos escassos e na disputa pelo poder (agir estratégico). cotidianamente. Um Ato de Fala é. Este compromisso constitutivo de uma promessa não é apenas um compromisso individual. segundo Flores (1989). p. onde um suspeito se torna livre e um trabalhador desempregado. por isso. ele gera realidade./dez. Assim. Tratam-se de proposições acerca das observações feitas por alguém sobre algo no mundo objetivo. exige um aprofundamento sobre a questão de como se dão. Echeverria (1997). distingue três categorias de enunciados de fala: as afirmações. pois. adaptando a classificação original de Austin (1965). onde se evoluiria de uma perspectiva autoritária. Atos de fala. isto é. a conversação é uma interação verbal centrada. mas também social.LIMA. 1997.31. baseada no trabalho coletivo. e que. No caso das afirmações. são proferimentos que realizam uma ação. p. 1997. geramos um novo mundo para nós” (Echeverria. integrada. compromete-se com a sinceridade da promessa e com a competência para cumpri-la. As reflexões trazidas pela Teoria do Agir Comunicativo fornecem uma base de compreensão dos processos de coordenação baseados na interação linguística que se dá entre sujeitos que. A realização desses três atos de fala básicos apresenta relação com as pretensões de validade levantadas por um sujeito em comunicação com outros. Por fim. Nesse sentido. A Teoria da Ação Comunicativa apresenta um caminho para pensar a transformação da prática cotidiana. out. F . os diálogos e como esses são utilizados nos processos de coordenação. O segundo conceito importante para a abordagem comunicativa da coordenação é o de conversação. podem ser rotulados de verdadeiros ou falsos. 2009 335 artigos . está fazendo uma afirmação. fragmentada e individualista para uma visão democrática. Quando um sujeito fala. as promessas implicam um compromisso manifesto mútuo.C. na comunicação. distinguem-se dois tipos de proferimentos: os constatativos e os performativos. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. a unidade mínima de interação social orientada para a execução com êxito de ações.. RIVERA.13. Geralmente. as afirmações correspondem a descrições da realidade. Quando se faz uma afirmação. para materializarem seus planos. onde a realidade viria primeiro e a linguagem serviria para descrevê-la. não apenas descreve a realidade pura e simplesmente. conversação e coordenação Flores (1989) e Echeverria (1997. na solidariedade. Por fim. Já os enunciados performativos. algumas ideias como atos de fala (Austin. necessidade de uma perspectiva solidária de regionalização. Ao fazer uma declaração. “Quando fazemos declarações não falamos sobre o mundo. Esta é. o falante compromete-se com a veracidade do que diz. A concepção de linguagem como ação supera a visão de que ela seria algo passivo. um proferimento linguístico realizativo. a palavra adequa-se ao mundo. Os primeiros são aqueles que descrevem ou relatam um estado ou uma situação. 2000) são úteis para a análise das atividades de coordenação. como um sistema de serviços de saúde. Esta visão das organizações e do papel central das conversações decorre do papel gerativo da linguagem. executam atos. 2000) analisam as organizações enquanto fenômenos linguísticos. Já as declarações são bem distintas das afirmações. Dentro dessa perspectiva de linguagem como ação. n. a construção de um modelo teórico capaz de orientar a análise da coordenação em sistemas de saúde. quando se faz uma promessa. descritivo.U. ou quando o gerente diz “Você está despedido”.75). compromete-se com a validez do que foi declarado. Quando alguém diz: “essa caneta é vermelha”. Segundo Austin (1965).329-42. precisam da ação (ou não ação) de outro. as declarações e as promessas. J. mas estão criando uma nova realidade. Para Marcuschi (2005). Quando um juiz diz “Inocente”.

Interessa particularmente a noção de conversação para coordenação de ações. Já as conversações para coordenação de ações são aquelas que levam as pessoas a atuarem sobre os problemas buscando superá-los.. a apoiarmos mutuamente. as conversações para possíveis conversações são aquelas que ocorrem quando se julga não ser possível conversar diretamente com alguém acerca de algo. Temos que aprender. constatamos que estas são também estritamente conversacionais. portanto. Pelo caráter fortemente realizativo das declarações. a conversação para a coordenação de ações. mas também o escutar.. mas sim de uma ação gerativa. novas possibilidades que podem ou não levar à coordenação da ação. Em uma conversação. é intervir sobre o estado atual das coisas.329-42. Segundo Echeverria (1997). cumprem um papel central. a escuta é ativa. mas sim para a ação de especular e explorar novas ações possíveis. Por isso. por fim. busca-se ilustrar uma rápida conversação com vistas à coordenação de ações em serviços de saúde. “No mundo de hoje não é possível viver na completa autosuficiência. sobretudo. é possível dizer que a escuta valida a fala. Segundo Echeverria (2000./dez. conforme defendido até aqui. Ao atribuir-se à coordenação um caráter preponderantemente comunicacional. p. e a conversação para possíveis conversações. a colaborar com os outros. promessa. p.13. 336 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. na medida em que cada interlocutor interpreta os Atos de Fala a sua maneira. 1997. aqueles atos linguìsticos que nos permitem coordenar ações com outros. Echeverria (1997) traz uma tipologia que contempla quatro tipos de conversações: a conversação de juízos pessoais. Deste modo. A seguir. Ou seja. Não se trata de uma ação puramente reflexiva.92). E. “As promessas são.AGIR COMUNICATIVO.31. 2009 . n. Está-se diante de uma conversação quando o escutar e o falar estão “interatuando” juntos. os atos de fala. REDES DE CONVERSAÇÃO E . a conversação é o gênero básico da interação humana e sua característica importante advém do fato de ela incluir não apenas o falar. O fundamental nestas conversações é a tentativa de modificar aquilo que produziu o problema ou dar conta de suas consequências. dois interlocutores voltam sua atenção visual e cognitiva para uma tarefa comum.75): “Se examinamos agora as atividades de coordenação. entra-se numa cadeia de juízos por meio dos quais busca-se interpretar o que ocorreu e as consequências derivadas do fato. uma conversação envolve vários proferimentos linguísticos aceitos por dois ou mais interlocutores em uma interação voltada para uma atividade comum. E mais. a linguagem é a grande ferramenta que possuem os seres humanos para coordenar ações entre si e para coordenar inclusive a forma como se coordenam ações”. sendo. Quando alguém faz uma promessa. As conversações para possíveis ações não estão orientadas para enfrentar os problemas em questão. que se desenvolve durante o tempo em que. Somos dependentes uns dos outros. É a capacidade de as pessoas em interação realizarem. as conversações e seus subcomponentes. ele ou ela se compromete perante o outro a executar alguma ação no futuro” (Echeverria. trata-se de uma ação reflexiva. a coordenar ações juntos” (Echeverria. pelo menos. Para Echeverria (1997). O objetivo deste tipo de conversação é fazer com que algo aconteça. p. Trata-se de uma ação que se destina a dar sentido aos acontecimentos. uma precondição da fala efetiva. estas cumprem papel primordial na coordenação na medida em que se traduz imediatamente em ação concreta de mudança da realidade. Nesse sentido. Na conversação de juízos pessoais. a conversação para possíveis ações. por excelência. portanto. p. 1997. os atos de fala são subcomponentes da conversação. portanto. os atos de fala do tipo declaração e.237). Um dos pontos mais importantes tratados pelo referido autor diz respeito à ideia de que esse tipo de ação reveste-se de especial importância e é o modo por meio do qual se faz possível a resolução de problemas coletivos. out. passam a ter papel fundamental na construção de um modelo de análise de processos de coordenação e integração em serviços de saúde. aceitarem e cumprirem com os compromissos que dá a possibilidade de ampliação de coordenação das ações. são as declarações e as promessas que permitem que surjam novas realidades.

do conjunto de atos de fala. de forma a conceber uma frase corretamente formulada em relação à realidade. integração da equipe clínica. .31. 1997).144) depreende. Ao reconhecer-se o caráter gerativo da linguagem. Desempenhar o ato de fala em conformidade com as formas reconhecidas ou com as imagens aceites de nós-próprios (de forma a que o ouvinte possa confiar no falante). integração funcional. 2000. a coordenação da ação é uma atividade essencialmente linguística e se faz por meio dos atos de fala que se estabelecem nos processos de interação com vistas a gerenciar atividades interdependentes. as competências conversacionais possuem outros dois processos conversacionais complementares: o processo de aprendizagem e o processo de reflexão prática. RIVERA./dez. Habermas (2001) entende a capacidade de um falante orientado para o entendimento. alguns elementos podem ser apreendidos no sentido de conformar um modelo teórico que privilegie os processos de interação entre os sujeitos envolvidos na coordenação de ações em sistemas de serviços de saúde. que apresenta cinco dimensões inter-relacionadas .J. Muitas dessas últimas dependem da eficiência das competências conversacionais. surge outro conceito importante para uma abordagem comunicativa da coordenação. A partir da perspectiva de sistemas integrados de Hartz e Contandriopoulos (2004).é possível representar processos que envolvem múltiplos atores que necessitam coordenar atividades que são interdependentes. A: “Tenho um paciente grave e preciso de uma vaga em UTI” (Afirmação) B: “Vou verificar junto ao Hospital X” (Oferta de promessa) A: “OK” (Aceite da promessa) B: “A vaga de UTI no Hospital X é sua” (Declaração/efetivação da promessa) Esta breve conversação mostra o papel desempenhado por cada ato de fala para coordenar ações com vistas ao bem-estar do hipotético paciente. Echeverria. Expressar as suas intenções de modo que a expressão linguística apresentada represente de fato aquilo que se pretende. da Teoria dos Atos de Fala e da Teoria da Conversação. As competências conversacionais têm um caráter potencializador em relação a competências específicas.integração dos cuidados. 2009 337 artigos . coordenação e integração de sistemas/serviços de saúde Com base nas contribuições da Teoria do Agir Comunicativo. Por fim. 2001. J. Neste sentido. como se tem sustentado até aqui. Sob a ideia de conversações para coordenação de ações e competências conversacionais.329-42.LIMA. p. n. um conjunto de competências correspondentes. em distorção de ideias. uma vez que.U. Cumprir com as condições de verdade da proposição ou com os pressupostos existenciais do conteúdo proposicional.13. Trata-se do conceito de competência conversacional (Habermas. “Cada um dos atos de linguagem pode realizar-se de diversas maneiras e com graus de competência distintos”. em desconfiança.. F . percebe-se quanto o comunicar pode ser mais ou menos efetivo de acordo com “como” se dá a comunicação. . Isso implica o cumprimento das seguintes condições: . em resultados insatisfatórios em relação ao um acordo e em situações de dominação. A precariedade da comunicação pode resultar em desentendimento. Atender às exigências de inteligibilidade da frase proferida. integração normativa e integração sistêmica . Por competência comunicativa.C. out. . há um grande potencial para se pensar a questão da coordenação em sistemas e serviços de saúde. Esses processos conversacionais estão na base da capacidade humana para adquirir qualquer outro tipo de competência e de melhorar aquelas que já possuem. Redes de conversação. p. focando a análise nas COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Já Echeverria (2000.

gestores. consequentemente. Como são os processos comunicacionais que sustentam essas interações. remete a uma configuração policêntrica./dez.AGIR COMUNICATIVO. sobretudo. é possível analisá-las no conjunto das dimensões apresentadas ou em cada uma separadamente. A idéia de rede de conversações remete a um conjunto de relações ou interações cujas ligações são mediadas pela conversa entre atores envolvidos em um contexto compartilhado. coordenação e integração. de água e esgoto. operam mecanismos e processos de coordenação que estão ancorados.13. que os inter-relacionam. vinculando gestores. por exemplo. a coordenação e a integração (Figura 1). a ideia de fluxo. é a rede de conversações que se estabelece entre os atores em situação. as redes de transportes. No plano estrutural-organizacional. de telecomunicações e de pacientes. Ou seja. trata-se de um conjunto de relações não hierárquicas e interdependentes. no sistema de serviços de saúde como um todo. PROFISSIONAIS E USUÁRIOS Atos de fala Organização da interação Competências conversacionais Compromissos INTEGRAÇÃO Figura 1. cujo eixo estruturante é uma dinâmica rede de conversações. pode-se adotar um modelo de análise baseado na inter-relação entre interdependência..31. REDES DE CONVERSAÇÃO E . p. coordenação e integração. 2009 338 . n. profissionais/ prestadores e usuários mediante a Conversação para concretizar seus diversos interesses e promover a integração dos serviços. É o modo de funcionamento destes mecanismos e processos que irá garantir ou não a integração em cada uma das dimensões e. interações que se dão entre eles. Compreensão comunicativa da inter-relação entre interdependência. A noção de rede traz. depreende-se que. constituída por nós ou nódulos e por vínculos. Cada uma dessas dimensões apresenta atividades interdependentes que demandam mecanismos e processos eficazes de coordenação. out. Desse modo. prestadores/ profissionais e usuários. para cada dimensão de um sistema integrado de saúde. no plano técnico-operacional.. no interior de cada uma daquelas dimensões dos sistemas integrados. Com base nas discussões feitas anteriormente.329-42. relações. de circulação. que garante o vínculo entre a interdependência. em conversações que se estabelecem entre os distintos atores. como. No âmbito específico de um sistema de serviços de saúde. INTERDEPENDÊNCIA COORDENAÇÃO (Arranjos de coordenação e coordenação dialógica) REDES DE CONVERSAÇÕES PRODUZIDAS POR GESTORES. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.

conforme a Teoria dos Atos de Fala. ou seja. p. o uso dos enunciados implicados em uma interação comunicativa e nas condições de sua adequação. construídas “interacionalmente” pelos participantes. não são desconsiderados os momentos reais da fala. tentar discernir. as novas possibilidades que poderiam abrir-se à comunidade e ameaçariam reorientar algumas de suas finalidades. Os nós da rede de serviços são unidos pelas conversações que se travam durante as interações. Ele coordena as ações.U. contam ou fazem as pessoas e tudo o mais que é produzido pelos participantes em conversação..J. os procedimentos metodológicos devem seguir uma abordagem pragmática. Em particular. RIVERA. as pessoas se comunicam e. busca-se captar o que dizem. ofertas e promessas. n. assentimentos e recusas. Irá. de acordo com esse modelo. gerando assim novos circuitos de conversa. a comunicação é ação. A coordenação surge a partir dos compromissos originados das comunicações realizadas entre os participantes. uma ferramenta cognitiva usada para analisar a realidade. organizações e ações que são interdependentes. A AC é um método de análise que estuda a ordem e a organização da ação social cotidiana por meio da análise rigorosa das conversações. mas serve para analisá-la. Ou seja. mas. Essas interdependências são gerenciadas por mecanismos e processos de coordenação. lida com o discurso oral no contexto em que ocorre. Para coordenar suas ações. Estas ferramentas são importantes nos esforços para tornar inteligível o pensamento e possibilitar uma narrativa coerente das evidências desordenadas da experiência social. pois o interesse específico não é exatamente sobre a linguagem ou a definição dos significados fixos de palavras e enunciados. Pedidos e compromissos. 2009 339 artigos . É uma ferramenta que. o modelo proposto não corresponde a uma descrição da realidade. e sua análise constitui. não transitam apenas informações. Por meio da AC. 2004).13. em uma perspectiva de rede. durante sua atividade comunicativa. Trata-se de uma abstração. nas formas concretas em que se manifestam as estratégias discursivas. O modelo de compreensão comunicativa da inter-relação entre comunicação. mas. Segundo Teixeira (2003). a partir de uma compreensão comunicativa da coordenação). a integração dos serviços envolve atores. o trabalho dos gestores e dos gerentes consiste não apenas em tomar decisões e resolver problemas sozinhos. Além disso. O interesse está centrado nas interações verbais. passíveis de serem mapeados e analisados. F . sobretudo. Em síntese. analisa como os participantes organizam a interação de momento a momento. Nesta perspectiva. que comprometem aqueles que os efetuam frente a si mesmos e aos outros. em animar e manter a rede de conversas onde são trocados os compromissos. J. Assim. A comunicação está no centro da análise. sim.C.LIMA.31. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Nesta rede de conversação. um caminho possível para se compreender o funcionamento da rede de serviços. deixa outros aspectos desta mesma realidade de fora. as promessas devem ser mantidas. A ideia é a de que uma rede integrada de serviços de saúde é operacionalizada por uma intensa rede de conversações. a técnica de Análise de Conversação (AC) apresenta-se com uma ferramenta potente para se apreenderem aspectos centrais destas interações. decisões são tomadas e compromissos são gerados e negociados (promessas e declarações). sobretudo. Está centrada na análise da linguagem na prática. pois uma abordagem exclusivamente estruturalfuncionalista realiza uma exclusão da (inter)subjetividade envolvida nos processos de coordenação. A AC é uma prática que pertence à tradição anglo-saxã de Análise do Discurso (AD) e traz a ideia de que o analista pode observar a interação verbal e fazer interpretações justamente sobre aquilo que a linguagem está fazendo (Iñiguez. Esta rede de conversações é composta de distintos pontos de conversação interligados./dez. as conversações e os atos de fala nelas implicados tornam-se objeto privilegiado de análise da coordenação de ações entre serviços de saúde. consultas e resoluções se entrecruzam e se modificam de forma recorrente na rede. coordenação e integração corresponde ao que Max Weber chamou de “tipos ideais”. durante essa comunicação (conversação para coordenação de ações).329-42. Assim. mas sim atos de fala. out. Para analisar as interações verbais que se dão nesta intrincada rede de conversações. ao iluminar certos aspectos da realidade (no caso. portanto.

329-42. desenvolvem e resolvem conflitos interacionais? (Marcuschi. voltada para a análise das interações intergestores e interserviços e das dificuldades de comunicação e suas implicações para os processos de coordenação.AGIR COMUNICATIVO. pelo menos. . n. A rigor.13. 2005. por meio da AC. portanto. realizado no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência da Região Metropolitana II do Estado do Rio de Janeiro (SAMU Metro II/RJ). 340 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. A escolha dos elementos e dos espaços de conversação a serem analisados dependerá do objeto e do escopo de cada pesquisa. 2009 . novas práticas. e estes. foi aplicada junto a dois arranjos constituídos dentro do SAMU Metro II/RJ. Envolvimento numa “interação centrada”. out. p. REDES DE CONVERSAÇÃO E . Ocorrência de. Presença de uma sequência de ações coordenadas. . . Execução numa identidade temporal. dependem da eficácia dos processos comunicativos instaurados entre as pessoas no interior do sistema. Os resultados desta pesquisa trouxeram novos elementos para estudos sobre a coordenação em sistemas de serviços de saúde. podem ser fundantes de novos patamares de efetividade da coordenação./dez. por sua vez. . dois falantes. Colaboradores Os autores trabalharam juntos em todas as etapas de produção do manuscrito. focou sua observação exclusivamente nas dimensões “sistema clínico” e “governança”. que serão apresentados em outro artigo. são cinco as características básicas constitutivas. a AC é uma tentativa de responder a questões do tipo: como é que as pessoas se entendem ao conversar? Como sabem que estão se entendendo? Como sabem que estão agindo coordenada e cooperativamente? Como usam seus conhecimentos lingüísticos e outros para criar condições adequadas à compreensão mútua? Como criam.. A AC. p.31. Um trabalho empírico dentro desta perspectiva. por exemplo. Considerações finais A integração em sistemas de serviços de saúde depende da qualidade dos processos de coordenação. A análise.7) Na AC. A observação dos processos “interacionais” pelos quais se dá a coordenação de ações em sistemas de serviços de saúde pode representar uma opção para o desenho de estudos nesta área. dos atos de fala predominantes nas redes de conversação e dos modos pelos quais as pessoas envolvidas em processos de coordenação organizam as interações é um caminho frutífero. Acredita-se que falhas na coordenação de serviços organizados de forma regionalizada podem ser devidas a deficiências dos processos comunicacionais e. uma troca de falantes.. encarados como espaços centrais dos processos de coordenação: o colegiado de coordenadores e a central de regulação. Acredita-se também que a análise das redes de conversações possibilita a identificação e explicação de falhas existentes na rede de serviços de saúde. baseadas no agir comunicativo. pelo menos. . que devem ser objeto de observação: Interação entre.

4. 2002. n. São Paulo: Martins Fontes.. 2004.48.J. JSR.31. 2002a. GUITTEL. LIMA.. p.52.M. AUSTIN. Tomos I e II. Z. la confianza y los desafíos de la transformación. HABERMAS.M. ______.1155-69.55. v. A démarche stratégique (gestão estratégica hospitalar): um instrumento de coordenação da prática hospitalar baseado nos custos de oportunidade e na solidariedade.2.. JMS.J. Habermas: filósofo e sociólogo do nosso tempo. n.P . p. 1989. v. Campinas. 2002a. R. Santiago: Hachette. 1997. FRANCO. Cienc. p.479-99. São Paulo: Ática. v.299-311. Santiago: Granica. FARAJ. E. ARTMANN. v. L.1. O processo de construção e de trabalho da Rede Unida. Coordination and communication In: SHORTELL. Fundação Oswaldo Cruz.C. n. n. As redes na micropolítica do processo de trabalho em saúde. A. v. T... COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.20.) Manual de análise do discurso em Ciências Sociais. out. Saúde Deb.4. Madrid: Taurus.13. p. RIVERA. 1988.1408-26. 2002. LONGEST. Petrópolis: Vozes. HARTZ. Sci. L. CONTANDRIOPOULOS. J..U. E. 2002. MARCUSCHI. formação e participação na saúde.41.331-6.. Relationships between service providers and their impact on customers. J. Inventando la empresa del siglo XXI. F. Agir comunicativo e coordenação em sistemas de serviços de saúde: um estudo no serviço de atendimento móvel de urgência da região metropolitana II do Estado do Rio de Janeiro. Racionalidade e comunicação.11. RIVERA. (Org.24. J. Y. ARAGÃO. Coordinating mechanisms in care providers groups: relational coordination as a mediator and input uncertainty as a moderator of performance effects.. (Orgs. et al. 2002b. IÑIGUEZ. 2004. v.A. KLINGENSMITH. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Santiago: Dolmen. La empresa emergente. Comprehensive health care and integrated health services: challenges for evaluating the implementation of a “system without walls”. 2000. 2002. Démarche stratégique (gestão estratégica hospitalar): um enfoque que busca a mudança através da comunicação e solidariedade em rede. Ontologia del lenguaje. p.Escola Nacional de Saúde Pública. Manage. ECHEVERRIA. Saude Publica. XIAO. Lisboa: Edições 70.9-17.. 2003. Teoría de la acción comunicativa. Rio de Janeiro: Cepesc-IMS/UERJ-Abrasco. How to do things with words. In: PINHEIRO. 2009 341 artigos Referências . F . Coordination in fast-response organizations.L. supl. New York: Delmar Publishers. O discurso filosófico da modernidade. 2006.H. S.Departamento de Medicina Preventiva.D. 2002b.2. R.. Saude Colet.127-53. p. New York: Oxford University Press.A. 2002. 2006.. 2005. J. FLORES. 2000.C.C. KALUZNY. p. ______. Faculdade de Ciências Médicas.230-45. F. L. J. p.. 2004.U. Tese (Doutorado) .M. L.H.LIMA. Análise da conversação. Manage. Universidade de Campinas. WEISS. FEUERWERKER. ______. n. v. S.B. p. J.8. 1965. p.329-42. Rio de Janeiro. A. ARTMANN. B. n. ______. Tese (Doutorado) . 2001. MATTOS.). Gestão em redes: práticas de avaliação. Coordination networks within and across organizations: a multilevel framework. R.459-474 GUITTEL. L.8. J. Health care management: a text in organization theory and behavior. n. Sci. Cad./dez.A.

78. Actuación comunicativa.AGIR COMUNICATIVO. 2001. W. n. REDES DE CONVERSAÇÃO E .241-89.. n1.. H. S.. ciência e vida cotidiana. Construção da integralidade: cotidiano. Milbank Q. 342 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 2000. la comunidad.. M. H. Se parte del supuesto de que la coordinación de acciones y servicios de salud.G.. Belo Horizonte: Editora UFMG.9-15. Aprovado em 14/07/09. Educ.R. evidence. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações.89-112.21. 1998. n. R./dez. out. 2009. v. Comunicación. las instituiciones. Entre los aspectos metodológicos se destacan las potencialidades del Análisis de Conversaciones (AC) como herramienta para analizar las interacciones que se establecen en los procesos de coordinación de acciones y servicios de salud. Análisis de conversación.13. v.C. Interface Comunic.31. policy. p.. Saude. Integración de servicios de salud.2. out.). En este artículo se discute un planteamiento teórico-metodológico para estudios en el área de la integración de servicios de salud. 2003. SHORTELL S. Redes: hacia la constituicción de redes en salud: los grupos humanos. Rosario: Juan Lazarte. p. destacando el aspecto inter-subjetivo de los procesos de coordinación. MATTOS. Recebido em 12/11/08. TEIXEIRA.M. MITCHELL. MILLER. R./dez. R. Cognição. p. BECKMAN. JGIM.31.. Palabras clave: Coordinación. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/Abrasco. The governance and management of effective community health partnerships: a typology for research.U. p. saberes e práticas em saúde.329-42.329-42. redes de conversación y coordinación en servicios de salud: una perspectiva teórico-metodológica. M. RIVERA. SAFRAN. and practice.J.M. 2005. p. n.13. In: PINHEIRO. ROVERE. F .. proceso central de la integración. D. MATURANA. Organizational dimensions of relationshipcentered care: theory. v. Acción intersectorial. 2009 .. LIMA..A. (Orgs. es esencialmente una acción comunicativa. and practice.

Fourth-generation evaluation – methodological contributions for evaluating mental health services. Este artigo relata o percurso teóricometodológico da avaliação dos Centros de Atenção Psicossocial da região sul do Brasil.5 Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia. Healthcare services. destacamos o grande volume de dados obtidos no processo e a necessidade de priorização de questões mediante a negociação com os grupos de interesse. out. out. permitindo que os resultados fossem apresentados ao final da mesma aos sujeitos do estudo em oficinas de negociação.Avaliação de quarta geração contribuições metodológicas para avaliação de serviços de saúde mental Luciane Prado Kantorski1 Christine Wetzel2 Agnes Olschowsky3 Vanda Maria da Rosa Jardim4 Valquiria de Lurdes Machado Bielemann5 Jacó Fernando Schneider6 KANTORSKI.020-250 kantorski@uol.. Na segunda etapa. Among the contributions towards fourthgeneration evaluation. in negotiation workshops. L. p. visando construir um processo coletivo de análise de dados. with the aim of constructing a collective data analysis process. thereby allowing the results to be presented to the study subjects at the end of data collection. Como contribuições da Avaliação de Quarta Geração. Serviços de saúde. 2009 343 . et al. n. Pesquisa qualitativa. p. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. desenvolvida a partir da Avaliação de Quarta Geração. Interface .343-55. foram realizadas oficinas com os pesquisadores. Rua XV de Novembro.3. destacamos o seu caráter participativo e a sua dimensão formativa.31. In the second stage. developed starting from fourthgeneration evaluation./dez. This paper reports on the theoreticalmethodological course of the evaluation of Psychosocial Care Centers in southern Brazil. Keywords: Health evaluation. Saude. Pelotas. Mental health. workshops were held with the researchers. we highlight its participative nature and formative dimension. Escola de Enfermagem. 96.343-55. Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia.Comunic.13. A coleta de dados foi realizada por meio da observação e de entrevistas com usuários.. As a limitation. familiares e equipe. Brasil.31. Universidade Federal de Pelotas. v. Qualitative research./dez. to improve the service.6 Departamento de Assistência e Orientação Profissional. e a primeira etapa de análise ocorreu concomitante à coleta. n. we highlight the great volume of data obtained in the process and the need to prioritize questions through negotiation with interest groups. The data collection was carried out through observations and interviews among users.com. 2009.br 2. Como limite. Educ. 1 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. RS. 4. Saúde mental. The first stage in the analysis took place alongside data collection. Universidade Federal de Pelotas. Palavras-chave: Avaliação em saúde. This makes it possible for interest groups to have better-qualified capacity for data analysis and intervention.13. possibilitando aos grupos de interesse uma capacidade de análise e de intervenção mais qualificada para a melhoria do serviço.P . family members and the team. 209.

343-55. De acordo com Carvalho e Amarante (1996). políticos. a pacientes com transtornos mentais severos e persistentes (Brasil. no cenário de um país em processo de democratização e de reformulação no sistema de saúde. sendo condicionada a sua implementação por fatores técnicos. de posicionar-se e de participar das decisões sobre sua própria vida. reduzindo a necessidade de internação.. segundo Rottelli et al. O Movimento Nacional de Luta Antimanicomial destinou-se à transformação do modelo hospitalocêntrico de atenção. Não se trata de secundarizar a questão técnica. então. que deixam de ser um objeto dessas tecnologias e passam a ter respeitados seus desejos. trabalho de campo e processo de análise de dados da pesquisa de Avaliação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da região sul do Brasil. Os direitos de cidadania correspondem. prioritariamente. tendo como ator principal o denominado Movimento Nacional de Luta Antimanicomial. serviços estratégicos. entre outros. contam com uma população adscrita definida pelo nível local e oferecem atendimento por equipe multiprofissional. 1994. esses serviços encontram-se incorporados como política pública de saúde mental de referência para todo o país. formalmente definidos como unidades locais/regionalizadas. 2004). enquanto indutor de mudança das práticas. substituindo-o por uma rede de atenção integral à saúde mental. out.. econômicos. a uma mudança de posição dos usuários.31. Os CAPS. assistencial. passou a introduzir questões da esfera político-ideológica. integram a rede de serviços substitutivos implementados a partir da transformação da assistência em saúde mental no Brasil. Surgem. direitos e ética. entendemos que elas têm potencial para impactar as realidades locais. sua palavra. de recursos de manutenção e pela mobilização de forças locais do movimento antimanicomial. No Brasil. passando pelo delineamento. mas de redefinir seu lugar numa estratégia mais ampla de ação” (Bezerra Júnior. A expansão da rede de CAPS indica a capacidade do Ministério da Saúde. 2009 . reconstruir as relações entre a sociedade e seus loucos. o Ministério da Saúde procura utilizar tanto o financiamento federal quanto sua capacidade normativa para modificar esse cenário da atenção a saúde mental. e se inscrevem em um contexto que pretende desenvolver novas tecnologias em saúde mental que respeitem o usuário no seu direito de cidadania e que se diferenciem do modelo manicomial excludente dominante. p. sobretudo. intervindo nas situações que produzem exclusão. por meio da implantação de novos serviços e a institucionalização dos mecanismos de pagamento por produção. conhecido como CAPSUL. até então discutido por experts. Esse enfoque não busca meramente modernizar as tecnologias de atenção psiquiátrica e difundilas. sobretudo na sua dimensão teórico-técnica. desde as concepções teóricas iniciais. Essas transformações tiveram maior visibilidade a partir da década de 1980. p.AVALIAÇÃO DE QUARTA GERAÇÃO . Os CAPS surgem no interior de um modelo de atenção em saúde mental que busca uma abordagem integral dos indivíduos e de suas famílias. (1990). segundo Desviat (1999). Os novos dispositivos de atenção em saúde mental. as diversidades contextuais não permitem que esse processo ocorra de forma linear e homogênea. os CAPS como proposta de espaços de cuidado mais adequados aos princípios e diretrizes explicitados. configurando-se como um dos equipamentos centrais na implantação do Sistema Local de Saúde Mental.13. e o objeto passa a ser a existência-sofrimento dos pacientes e sua relação com o corpo social. que. Por outro lado. propõem tirar o foco da doença. A mudança do enfoque discutida anteriormente exige a implantação de uma diversidade de serviços que respondam aos diferentes momentos e necessidades da 344 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. promovendo a inclusão social dos portadores de sofrimento psíquico e qualificando a sua existência. O projeto CAPSUL foi apoiado financeiramente pelo MCT-CNPq e Ministério da Saúde por meio do Edital MCT-CNPq 07/2005. conferiu-lhe maior resolubilidade. culturais. e o tema. Mediante as transformações práticas produzidas a partir da expansão dos CAPS. n. Esse movimento foi protagonizado por diferentes atores. Esses serviços. sua liberdade de ir e vir. mas “redescrever.181)./dez. entre as quais cidadania. Introdução Este artigo tem como objetivo descrever o percurso metodológico de um processo de avaliação qualitativa de serviços. questionava os saberes e práticas psiquiátricas e o espaço do hospital psiquiátrico como o lócus do tratamento.

na qual o avaliador assumia o papel de juiz. em que pesquisadores dedicaram-se à tarefa de comprovar o sucesso desses programas. em que as reivindicações. a hegemonia do paradigma positivista. o fato de que avaliar consiste em fazer um julgamento de valor a respeito de uma intervenção ou sobre qualquer um de seus componentes. L. 1997). 2000. Trata-se de uma avaliação responsiva.da mensuração.do julgamento. Nessa direção. das quais três estão descritas a seguir: 1ª geração . educação e bem-estar social que surgiram nos Estados Unidos logo após a Segunda Guerra Mundial. (2000). a incapacidade de acomodar o pluralismo de valores. A Avaliação de Quarta Geração é proposta como alternativa às avaliações anteriores. Quanto aos usuários e familiares. sendo implementada por meio dos pressupostos metodológicos do paradigma construtivista. entende-se que os componentes da equipe são os agentes. em que o enfoque estava na descrição do processo. as vítimas ./dez. preocupações e questões dos grupos de interesse servem como foco organizacional (a base para determinar que informação seja necessária). norteou o processo teórico-metodológico da pesquisa. na qual o papel do avaliador era o de um técnico que tinha de saber construir e usar os instrumentos. e a nãoresponsabilização moral e ética do avaliador.13. Contandriopoulos et al. com o uso do serviço. surgiu o conceito de avaliação dos programas públicos. com a procedência dos avaliadores e com os aspectos do programa que são objeto da avaliação (Aguilar. mas definem.343-55. podem ser tanto beneficiários COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 1989). a grande dependência de medições quantitativas. Guba e Lincoln (1988) identificaram três: os agentes . afirmam que não é possível estabelecer uma definição absoluta e universal da avaliação. Lincoln.as pessoas que são afetadas negativamente pelo serviço. com o objetivo de ajudar na tomada de decisões. tendo em vista seu interesse prático: de acordo com o momento. Existem diferentes grupos de interesse. pois nenhuma das três primeiras gerações torna o avaliador responsável pelo que emerge da avaliação ou pelo uso dos seus resultados (Guba.as pessoas envolvidas em produzir e implementar o serviço.P . 1988).estão. grupos ou indivíduos potencialmente vítimas ou beneficiários do processo avaliativo.da descrição. tendo em vista que o desejável e o esperado de um equipamento variam conforme os valores por ela delineados. com a função. Champagne.31.todas as pessoas que se beneficiam. eliminando caminhos alternativos para se pensar o objeto da avaliação. adaptada por Wetzel (2005). Guba e Lincoln (1989) dividem a história da avaliação em quatro gerações. n. A Avaliação de Quarta Geração. de modo que qualquer variável a ser investigada pudesse ser medida. De acordo com a classificação apresentada por Guba e Lincoln (1989). verificando a eficácia do uso de recursos do Estado (Contandriopoulos et al. 1989). 2ª geração . Nos modelos tradicionais. Ander-Egg. Patton. 2000. desenvolvida por Guba e Lincoln (1989. et al. 2009 345 artigos pessoa. mas também apresentam limitações: a tendência à supremacia da visão gerencial. O termo grupos de interesse designa organizações. Esses grupos são formados por pessoas com características comuns. um processo avaliativo deve considerar a política de gestão. em relação a essa diversidade conceitual e metodológica. como na geração anterior. que têm algum interesse no desempenho. Trajetória teórico-metodológica do estudo de avaliação qualitativa de CAPS Há certa relação histórica entre o desenvolvimento da avaliação enquanto campo de investigação científica e o desenvolvimento das políticas públicas de saúde.KANTORSKI. Lincoln. no produto ou no impacto do objeto da avaliação . de alguma forma. Naquele contexto. os parâmetros e limites são definidos a priori e a avaliação responsiva os determina por intermédio de um processo interativo e de negociação que envolve grupos de interesse (Guba. os beneficiários .. p. como objeto de um amplo consenso. As três gerações representaram avanços. Observa-se uma grande diversidade de abordagens e modalidades classificatórias no campo da avaliação. envolvidos ou potencialmente afetados pelo serviço e pelas eventuais consequências do processo avaliativo (Guba. Denis. de alguma maneira. 3ª geração . 1994). e não somente na medição dos resultados. Lincoln. . mesmo retendo a função técnica e descritiva anterior. 1988). out. a desconsideração com o contexto.

no qual se obtiveram dados referentes à estrutura. a forma com que os atores interagem e os sentidos que constroem em sua relação com a prática. sistematização dos dados e organização para apresentação nas oficinas de negociação. Joinville (SC).343-55. na dinâmica do cotidiano podem sofrer efeitos negativos. exercícios práticos e debates em plenária. o envolvimento dos grupos de interesse teve tanto o objetivo de buscar questões mais pertinentes dentro do contexto do serviço e que tivessem significado para eles. cujas características. permitindo a identificação. de inter-relações entre pressupostos e práticas concretas (Yin. conforme Lüdke e André (1986). revelar experiências de vida e permitir generalizações naturalísticas. mas construir uma forma de conexão que leve à exploração mútua de todas as partes..focalizou a metodologia de Avaliação de Quarta Geração. p. utilizar uma linguagem e uma forma mais acessível do que os outros relatórios de pesquisa. 2009 . que permaneceu quatro semanas nesses municípios. out. roteiro de observação e entrevista. além de bolsistas de iniciação científica . avaliaram-se os CAPS de: Alegrete (RS). A importância dos estudos de caso na pesquisa avaliativa evidencia sua potencialidade em descrever o contexto real em que ocorre a intervenção e a sua capacidade em explorar situações específicas. tanto no que se refere ao atendimento propriamente dito – pela forma como o serviço se organiza – ou. os principais conceitos. pois. registro em diário de campo. mesmo estando inseridos no serviço com vistas ao seu benefício. 2005). apresentação da proposta de trabalho aos sujeitos. Durante essa oficina.AVALIAÇÃO DE QUARTA GERAÇÃO . 074/05 de 11 de novembro de 2005. A seleção desses CAPS partiu dos seguintes critérios: tempo de funcionamento do serviço. Em uma escolha intencional. usar uma variedade de fontes de informação. tendo por objetivo apreender a dinâmica do serviço. foram selecionados cinco CAPS. como de potencializar a possibilidade de que o processo aumentasse e aprimorasse a capacidade de ação desses grupos. Essa dimensão formativa destina-se a aumentar o poder de contratualidade dos grupos diretamente envolvidos no serviço. elaborou-se um manual que detalhava as principais orientações relacionadas a: contato prévio com o campo. ao processo e ao resultado da atenção em trinta CAPS da região sul do Brasil. quando possível. Os instrumentos de coleta de dados foram entrevistas com os grupos de interesse (equipe. A coleta de dados realizou-se no segundo semestre de 2006. Os autores afirmam que a proposta desse processo não é justificar uma determinada construção ou atacar as fraquezas de outras. os métodos de coleta e análise de dados. A preparação para o trabalho de campo iniciou em julho de 2006. adequação à normatização definida na Portaria 336/2002. A avaliação qualitativa do CAPSUL emergiu de uma pesquisa do tipo estudo de caso. Porto Alegre (RS). conflitantes pontos de vista presentes em uma situação social. enfatizar a interpretação do contexto. ao se realizar uma oficina de capacitação para o estudo qualitativo. identificação dos informantes.13. n. perfazendo quarenta horas./dez. familiares e equipe na esfera política. cronograma de trabalho. procurar representar os diferentes e. ser CAPS de referência no sul do Brasil. por uma equipe de três a cinco pesquisadores com experiência prévia em trabalho de campo em estudos qualitativos. O objetivo é alcançar um consenso. ainda. por ocuparem uma posição de pouco poder. às vezes. tendo parecer favorável Of.31.da qual participaram todos os pesquisadores que foram a campo. São Lourenço do Sul (RS). buscar retratar a realidade de forma completa e profunda. são: buscar a descoberta. condução das entrevistas. na sequência. usuários e familiares) e observação. com seminários. na realidade estudada. sendo dez horas de estudo e trinta horas presenciais. Foz do Iguaçu (PR). objetivando alto nível de síntese. Atendidos esses critérios. O projeto CAPSUL foi encaminhado ao Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina/ Universidade Federal de Pelotas. e dialético porque implica comparação e contraste de diferentes pontos de vista. que consistiu no estudo quantitativo de abordagem epidemiológica. tendo como parâmetro os dados obtidos na primeira etapa da pesquisa CAPSUL. Neste estudo. definiram-se as estratégias de operacionalização do trabalho de campo e. É hermenêutico porque tem caráter interpretativo. potencializando a ação de usuários. discussões em grupo. A capacitação . incluir um CAPS da capital de um dos estados.. disponibilidade dos grupos de interesse em aderir à proposta de avaliação. Guba e Lincoln (1989) propõem o processo hermenêutico dialético como um caminho para a realização de uma avaliação com enfoque construtivista e responsivo. 346 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. e um CAPS em processo de consolidação. quanto vítimas.

ainda. técnico de enfermagem. 2009 347 artigos . ideias.13. é necessário que o avaliador interaja com eles. n. surgindo construções baseadas em duas fontes. O processo foi repetido por meio da adição de novos informantes. é porque todas as partes (incluindo o pesquisador) reconstruíram as construções iniciais. a análise dos dados ocorreu concomitante à coleta. os procedimentos práticos adotados para a coleta de dados envolveram os seguintes passos: 1 Contato com o campo: contato com as equipes dos CAPS. mas. a qual não foi demandada e/ou decidida por gestores. emergiram construções conjuntas de determinado grupo de interesse. psicólogo. mas. o que Guba e Lincoln (1989) denominam de etnografia prévia. sendo realizada uma entrevista aberta. out. O pesquisador completou a segunda análise (C2). procurando diversificar ao máximo a composição deste grupo. Teve-se o cuidado de não tomá-lo como verdade a ser generalizada. críticas às demandas e construções de R1. 4 Desenvolvendo construções conjuntas: a segunda e a terceira semanas do trabalho de campo foram dedicadas à realização das entrevistas. et al. Os sujeitos que compuseram cada grupo de interesse foram definidos com base nos seguintes critérios: . conceitos. Essa fase propiciou aos avaliadores a vivência e experiência do contexto do serviço. Outras informações podem ter impacto sobre essas construções. Caso o processo tenha êxito. Nessa direção. introduziram-se os temas da análise de R1. 5 Ampliando as construções conjuntas: mediante a aplicação do círculo hermenêutico-dialético. que ainda precisavam ser compreendidos. e R2 foi convidado a comentá-los. 2 Organização da avaliação: a principal tarefa foi ganhar o direito de entrada. da portaria. sendo proposta dessa etapa introduzir sistematicamente tal material. da mesma forma. permitindo o desenvolvimento e aprimoramento de todos os envolvidos no processo avaliativo. pessoal da recepção. na qual foram incluídos três grupos de interesse: equipe. L. sem. no mínimo. pedindo que descrevesse o atendimento do CAPS. estarem engajados nas atividades de avaliação. com a aplicação do círculo hermenêutico-dialético (Figura 1) nos três grupos de interesse. Essa etapa foi (e é) fundamental em uma avaliação participativa. em uma formulação inicial da sua construção. p. um segundo respondente (R2) foi convidado a responder as questões da entrevista aberta. mantendo-se uma observação mais pontual de aspectos do funcionamento do serviço. Em uma avaliação em que se espera que os interessados falem sobre seus problemas. Iniciou-se com a seleção de um respondente inicial (R1). Os temas centrais. . As informações adicionais partiram das seguintes fontes: observações de campo – levaram questões para a entrevista e.Equipe: trabalhadores com vínculo empregatício com o serviço (enfermeiro. literatura profissional – o conhecimento já produzido influenciou as construções existentes. a construção ética do avaliador – seria ingênuo pensar que o avaliador não tem conhecimento prévio e opiniões sobre o serviço e o seu COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. incluir familiares de usuários com e sem adesão ao serviço e familiares considerados “difíceis” pela equipe. coordenadores ou outras pessoas que ocupem cargos de poder junto ao serviço./dez. pois os sujeitos negociaram a sua inclusão. sim. o que envolveu.KANTORSKI. dentre outros). sendo apresentada e discutida a proposta da pesquisa. momento em que os grupos optaram pela participação.Familiares: boa e má inserção no serviço. sobretudo. também. problemas e questões propostas por R1 foram analisados pelos pesquisadores. incluindo observações sobre os aspectos positivos e negativos do serviço (as questões geradoras encontram-se detalhadas no Quadro 1). incluindo. sendo entrevistados todos os componentes de determinado grupo de interesse.31. informações originárias das entrevistas levaram a observações produtivas. 3 Identificação dos grupos de interesse: esta etapa também foi desenvolvida durante a primeira semana. A entrevista com R2 produziu informações não apenas sobre R2. quando não. aqueles que “não colaboram”.P . expor e esclarecer as diferentes visões. desenvolvidas a partir das construções originais dos participantes individuais do círculo. usuários e familiares. boas condições de comunicação. Deste modo. um sujeito de cada profissão. assistente social. A seguir. a construção de uma relação de confiança. designada C1.343-55. pessoal da limpeza. A primeira semana do trabalho de campo foi dedicada à observação de todas as atividades desenvolvidas pelo serviço. valores. bom vínculo com o serviço e com vínculo ruim ou sem adesão. Após.Usuários: tempo de frequência no serviço de mais de seis meses. . professor de educação física. como mais um conhecimento a ser considerado de forma crítica em relação ao contexto daquele serviço.

31. utilizando exemplos. para torná-lo o mais claro possível para todos os envolvidos no momento da negociação. convidaram-se todos os entrevistados de determinado círculo..Definição de cada núcleo temático nos termos do grupo de interesse que o trouxe à tona. representando um grande arranjo dos participantes. 6 Preparação da negociação: essa etapa consistiu na organização das construções oriundas de cada grupo de interesse. um dos pesquisadores se encarregou da apresentação do material organizado na etapa anterior e dois pesquisadores atuaram como observadores. apresentando-lhes o resultado final (provisório) da pré-análise dos dados.Preparação do material para exposição ao grupo. com cópia para cada participante do grupo. Os encontros ocorreram em salas com privacidade. . Círculo Hermenêutico Dialético. Nos Quadros 1. Em cada grupo.. contudo. de modo que todos pudessem ter acesso a essas informações. out.Organização do material na forma de um texto. sofrendo as mesmas críticas. n. realizada mediante a utilização da técnica grupal. . mediante a utilização de recursos audiovisuais (projetor multimídia com apresentação em PowerPoint). familiares e equipe pudessem ter acesso à totalidade das informações de seu grupo e tivessem a oportunidade de modificá-las ou afirmar a sua credibilidade. Os observadores realizaram o registro do que foi discutido no grupo e. R1 R N CN C1 R2 INFORMAÇÕES INTRODUZIDAS NO CÍRCULO OUTROS CÍRCULOS DOCUMENTOS LITERATURA OBSERVAÇÕES A CONSTRUÇÃO ÉTICA DO PESQUISADOR MAIOR ABRANGÊNCIA C7 C2 TEMPO R7 ESTRUTURA C6 SELEÇÃO R3 MENOR ARTICULAÇÃO C3 R = RESPONDENTE C = CONSTRUÇÃO R6 C5 C4 R5 R4 Figura 1.343-55. para que todos se sentissem tranquilos ao expor suas opiniões. . quando já se havia alcançado uma boa inserção no campo. 2009 . horário e local do encontro com todos os participantes.13. lançavam questões que pudessem esclarecer determinado ponto. Trata-se de uma sessão de negociação. 7 Realização da negociação: para a negociação.AVALIAÇÃO DE QUARTA GERAÇÃO . Essa etapa ocorreu no final da quarta semana do trabalho de campo. quando necessário. contexto. p. o cuidado de introduzi-las após a etnografia prévia. de forma que a fala dos pesquisadores se somava à dos demais.Negociação do dia. Teve-se. 2 e 3 apresentam-se as questões norteadoras iniciais e as questões desdobradas na sequência de entrevistas em cada grupo de interesse por estudo de caso./dez. 348 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. e a sua preparação envolveu as seguintes atividades por parte dos avaliadores: . objetivando a sua apresentação para que usuários.

2. 3. Necessidade de mais profissionais. Atendimento à população de rua. 1. 2. Ações que visem a minimizar o preconceito.KANTORSKI. 3. Atendimento ambulatorial no CAPS. Sobrecarga do familiar.P . 2. Burocratização do serviço. 2. et al. 4. n. Fale sobre o atendimento no serviço. Que fatores podem estar contribuindo para melhor funcionamento do serviço? 3. 1. 2. 4. Cuidado com os usuários que não participam das oficinas. Apoio ao familiar. Tensionamento por atestados. 4. 3. Atendimento aos moradores de rua no CAPS 1. 1. Vínculo empregatício dos trabalhadores. 5. Capacitação da equipe. L. 2. Que fatores podem estar contribuindo para o melhor funcionamento do serviço? 3./dez. Sistemática de acolhimento no serviço. Sobrecarga do familiar. 3. 6. 1. Investimento na rede e no serviço pelo gestor. Fale sobre a gestão da política municipal de saúde mental em relação à política da Secretaria Municipal de Saúde versus Coordenação de Saúde Mental e a relação CAPS versus Secretaria Municipal de Saúde. Preconceito para com os usuários na comunidade. 1. 4. 1. Possibilidade de que os profissionais consigam dar atenção para todos. 2. 2. Presença de residentes e estagiários no CAPS. Planejamento estratégico. Situações de risco de agressão por parte dos pacientes graves no dia-a-dia do trabalho no CAPS. Oficinas terapêuticas. 8. 3. Construções do Círculo Hermenêutico Dialético dos familiares. 4. 8. Fale sobre a gestão da Política Municipal de Saúde Mental com relação a política da Secretaria Municipal de Saúde versus Coordenação de Saúde Mental e a relação CAPS versus Secretaria Municipal de Saúde. Ato Médico como um complicador no serviço. 2. Laços do serviço com a cultura 1. 2. Atividades realizadas pelo usuário fora do CAPS.343-55. Necessidade de um trabalhador do sexo masculino na enfermagem. Espaço de supervisão e capacitação da equipe. Como o projeto terapêutico orienta o trabalho do CAPS? 1. 3.31. 2. Questões desdobradas COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Trabalho com familiares dos usuários do CAPS. 7. Agendamento dos atendimentos no serviço. 2009 349 artigos . 10. Falta de material para trabalho nas oficinas. Caso 1 Questões iniciais Caso 2 Caso 3 Caso 4 Caso 5 1. Fornecimento de psicofármacos. Proposta de coordenação descentralizada na secretaria de saúde por meio da criação dos conselhos gestores de saúde. Relacionamento dos usuários com os familiares dos outros usuários. out. 4. Tratamento oferecido pelo CAPS comparado aos hospitais psiquiátricos. 6. 3. Organização do serviço por meio da estratégia do técnico do dia. p. Participação nas decisões sobre o funcionamento do CAPS. Pressão da equipe para que a família participe do serviço. Grupo para cuidar do cuidador. Quadro 2. 3. 9. Construções do Círculo Hermenêutico Dialético da equipe. Como os profissionais lidam com o inesperado e com as situações de crise 1. 7.13. Quadro 1. A saúde do trabalhador do CAPS. Atendimento de saúde mental nas unidades básicas. Serviço social como principal responsável pela atenção à família. Proposta de mudança no atendimento dos médicos e dos psicólogos do modo individual para grupal. Atendimento individual aos usuários. 2. 4. Fale do atendimento no serviço. 5. Caso 1 Questões iniciais Questões desdobradas Caso 2 Caso 3 Caso 4 Caso 5 1. Preconceito em relação à loucura.

1. organização do banco de dados. 3. higiene dos usuários. Manejo de crise. CAPS com atendimento 24h. 5. dando-lhes acesso à totalidade das informações e a oportunidade de modificá-las ou afirmar a sua credibilidade. 1. 1. atendimento em horários em que o CAPS não funciona.343-55. 2. Atendimento na UBS aos usuários do CAPS. Ao final da negociação. 4. 2. Em seguida. os pesquisadores de cada grupo organizaram-se em duplas. 1. usuários que não aderem ao serviço. estrutura do CAPS e gestão). Interferência dos efeitos da medicação na vida do usuário. necessidades de melhorias (medicação.29/09/2007 – os pesquisadores foram divididos em grupos de trabalho por cores./dez. Suporte do serviço ao familiar.AVALIAÇÃO DE QUARTA GERAÇÃO . Quadro 3. o cuidado em saúde mental aos familiares (questões sobre o adoecimento e sobrecarga familiar. movimento interno e externo..Grupo da equipe: atenção psicossocial (discussão sobre redefinição de conceitos e modos de cuidar. Manejo da agressividade entre os usuários no CAPS. e por um número correspondente à cidade estudada. Grupo de família como um espaço que favorece a comunicação entre familiar e equipe. delimitando o conjunto de informações relacionadas a determinado grupo de interesse. n. um modelo de atenção ao usuário “em liberdade” (discussões sobre o tratamento fora do hospital e convívio com a diversidade). Os eixos temáticos identificados e apresentados na negociação foram os seguintes: . avaliação e processo de trabalho). Inserção do trabalho nas atividades do CAPS. tendo como tarefa identificar e fazer uma síntese das unidades de informação. Presença de residentes e estagiários no CAPS. tendo o objetivo de capacitar o grupo para construir um processo coletivo. as duplas com cores iguais se reuniam. 2009 Questões desdobradas . recebendo duas entrevistas. Foram realizadas três oficinas com todos os pesquisadores do CAPSUL. 4. Esse processo foi desenvolvido do seguinte modo: Primeira oficina . risco de agressão aos profissionais. Construções do Círculo Hermenêutico Dialético dos usuários. por estudo de caso. na unidade psiquiátrica do hospital geral e em outros serviços de saúde da rede). organizando-as em eixos temáticos. Liberdade de escolha no dia-a-dia no CAPS. Atividades físicas. Dedicação dos profissionais 1. Que fatores podem estar contribuindo para melhor funcionamento do serviço? 3. alimentação e medicação. 3. Nessa etapa. atendimento à saúde mental no CAPS. gestão (questões relacionadas ao planejamento. apresentaram-se os dados refinados na etapa anterior aos respectivos grupos. 2. e organização e análise dos dados. out. conforme o grupo de interesse: usuários. Fale sobre o atendimento no serviço.Grupo de familiares: o cuidado em saúde mental aos usuários (abordando aspectos relacionados ao atendimento à saúde mental no CAPS. fazendo uma nova síntese das informações de cada dupla. Fale sobre a gestão da Política Municipal de Saúde Mental com relação a política da Secretaria Municipal de Saúde versus Coordenação de Saúde Mental e a relação CAPS versus Secretaria Municipal de Saúde. 350 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. . encerrou-se o trabalho de campo e iniciou-se a análise final dos dados para se elaborar o relatório da pesquisa que envolveu as seguintes atividades: transcrição dos dados empíricos. familiares e equipe.31. Preconceito por ser usuário do Serviço.Grupo de usuários: O cuidado em saúde mental aos usuários (pontos em que o CAPS tem se destacado como referência de cuidado em saúde mental. Convivência do usuário com o CAPS mudando sua visão sobre o transtorno mental. construtivista e formativo de análise de dados empíricos. . Reforma Psiquiátrica. A partir disso. 3. autonomia e comunicação do CAPS com os familiares). maior atenção aos usuários pelos profissionais. 2. Higienização dos usuários. 3. 2. desconstrução de preconceitos). 2. 3. Atendimento na UBS aos usuários do CAPS. Diferença do tratamento do CAPS para outro serviço de Saúde Mental. Caso 1 Questões iniciais Caso 2 Caso 3 Caso 4 Caso 5 1.. cuidado integral e processo de trabalho). p.13.

conforme exemplifica o Quadro 4. familiares e equipe) de cada caso. os grupos de pesquisadores desenvolveram estudos e grupos de discussão sobre os marcadores de avaliação. Grupo de interesse . exemplificada no Quadro 5. uma síntese parcial por grupo de interesse foi apresentada em plenária. estão bem direitinho.Em plenária. qualificando.] Até que eles têm bastante atenção lá dentro. Unidades temáticas Instrumentos de gestão do cuidado e organização interna do serviço Unidades de informação Atendimento no serviço . n. na terceira oficina. então.O atendimento é bom.343-55.P . arrumadinho. se estabelecerem as dimensões a serem avaliadas em cada um deles. Quadro 5. se identifiquem quais aspectos (privacidade. pretende-se que. 2009 351 artigos No final da oficina. alimentado. como marcadores. os integrantes das oficinas se reuniram e cada dupla apresentou o quadro com as unidades de informação extraídas a partir das entrevistas (de usuários. Por exemplo: no marcador ambiência. a tarefa para a próxima oficina. Buscouse fundamentar teoricamente cada marcador para. Estudos de caso Caso 1 Caso 2 Caso 3 Caso 4 Caso 5 Eixo temático Unidades de informação Fragmentos das entrevistas Estabeleceu-se. .13. cor. eixos temáticos e respectivas falas sistematizadas. conforme Donabedian (1984. 1988). eles tratam bem. [. banhado [. . o processo e os resultados./dez. Essa apresentação possibilitou a delimitação de unidades temáticas mais abrangentes e a elaboração de uma síntese. som) da ambiência no serviço podem ser evidenciados. Segunda oficina . A partir desta orientação teórica mais ampla foram desdobrados os marcadores do Quadro 6.20/10/2007 . et al. Terceira oficina – 30/11 e 01/12/2007: no primeiro dia foi apresentada e discutida a conceituação de cada marcador. por cidade.] São bem atendidos. Unidades temáticas e de informação (exemplo: Usuários do caso 1). assim. sendo estabelecido que as análises seguiriam a orientação teórica já utilizada na etapa da avaliação quantitativa da pesquisa CAPSUL.Os usuários recebem bastante atenção por parte dos profissionais do serviço. o cuidado em saúde mental. Como tarefa para a próxima oficina. gerando um conjunto inicial de marcadores internos e externos. Cada dupla de pesquisadores trabalharia com a totalidade de entrevistas do seu grupo de interesse e caso (ex: todas as entrevistas de usuários do caso 1) e traria quadros com unidades de informação. na realidade de determinado CAPS estudado. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. e definidas as unidades de informação e núcleos temáticos centrais da análise da avaliação qualitativa. Foram compostos coletivamente os quadros dos grupos de interesse.. Quadro 4.usuários.KANTORSKI..] ele se sente bem.. enfocando a estrutura. L.. p.. Falas O atendimento lá acho bom. [. determinada categoria abstraída dos dados empíricos e que tem a capacidade explicativa de indicar determinado parâmetro de avaliação. Definiu-se.31. out.

. 18 trabalhadores Observação: Diário de campo dos cinco pesquisadores. Resultado . Objetivos específicos .Realizar um processo avaliativo participativo em Centros de Atenção Psicossocial que possibilite a compreensão do objeto avaliado e a construção dos sujeitos envolvidos. familiares e equipe. .AVALIAÇÃO DE QUARTA GERAÇÃO . contendo as unidades de informação dos grupos de interesse (usuários.Atividades como suporte terapêutico. 13 familiares. n. Marcadores internos Estrutura: . totalizando 650 horas. entrevistas: 10 usuários. .Apreender a dinâmica de funcionamento de Centros de Atenção Psicossocial. . em cada caso. totalizando 390 horas. 2009 .Plasticidade do serviço. 14 familiares. contradições e subjetividades dos envolvidos. as relações. configurando-se um processo formativo. o quadro resumo do município. entrevistas: 11 usuários. Marcadores internos e externos. .Resultado da atenção psicossocial. entre outros). cada grupo de trabalho retomou todo o material pertinente ao caso estudado (entrevistas. Inserção da família. . O processo desenvolvido ao longo das oficinas. familiares e equipe).Inserção da família.31. Marcadores da avaliação Marcadores internos Estrutura: Ambiência. Objetivos Objetivo geral Avaliar qualitativamente Centros de Atenção Psicossocial localizados na região Sul do Brasil (Rio Grande do Sul.13. out. A partir dessa oficina. totalizando 282 horas. 11 familiares. no intervalo entre elas e seu segmento na elaboração do relatório. . entrevistas: 11 usuários.Relação da sociedade com o fenômeno da loucura. familiares e equipe) elaborado na primeira oficina e organizado conforme as unidades de informação. Quadro 6. o quadro de entrevistas (dos usuários. nos quais se aglutinaram as duplas que trabalharam os dados dos usuários. mapa. características e organização do trabalho. Apresenta-se uma síntese do desenho metodológico da pesquisa CAPSUL no Quadro 7. No segundo dia da terceira oficina. de saúde da população. Cada grupo recebeu: os dados gerais do município (dados demográficos. aumentando a sua capacidade de análise. 21 trabalhadores Observação: Diário de campo dos quatro pesquisadores.Capacitar os grupos de interesse envolvidos na avaliação. totalizando 297 horas.Equipe. entrevistas: 13 usuários. Marcadores externos . sínteses das oficinas.Ambiência. diários de campo. . seguiu rigorosamente a metodologia de Avaliação de Quarta Geração. 13 trabalhadores Observação: Diário de campo dos três pesquisadores. Paraná). Resultado: Resultado da atenção psicossocial. 26 trabalhadores Observação: Diário de campo dos três pesquisadores. p. características e organização do trabalho. Processo de Trabalho: . documentos. Marcadores externos Políticas públicas. Processo de trabalho: Atividades como suporte terapêutico. entrevistas: 12 usuários. 12 familiares. a íntegra das entrevistas transcritas.343-55. Síntese do desenho metodológico do estudo de avaliação qualitativa. 10 familiares. 10 trabalhadores Caso 2 Caso 3 Caso 4 Caso 5 352 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Plasticidade do serviço. gestão e articulação da rede de saúde. Santa Catarina. a partir dos dados gerados pela participação dos grupos de interesse envolvidos na avaliação. por cidade/ estudo de caso./dez. e o diário de campo com o registro dos observadores. totalizando 368 horas.Propiciar subsídios para mudanças e transformações. os pesquisadores foram distribuídos em cinco grupos. Equipe. para se constituírem sujeitos do processo de mudança. Estudo de caso Caso 1 Instrumentos Observação: Diário de campo dos três pesquisadores.Políticas públicas. Relação da sociedade com o fenômeno da loucura. Quadro 7. banco de referências bibliográficas) e procedeu à elaboração escrita do relatório do estudo de caso. responsivo e construtivista. gestão e articulação da rede de saúde. os marcadores da avaliação nos diferentes grupos de interesse e as categorias de análise..

uma delas refere-se ao fato de que o processo hermenêuticodialético. novos sujeitos e novos cenários. essa dimensão teve seus limites atrelados não apenas aos recursos e ao tempo da pesquisa.KANTORSKI. p. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. n. consistindo em eixos contemplados na sua sistematização. Justamente por isto. associações de usuários. conselho gestor local. já que extrapola a consulta a informantes e a coleta e análise das informações obtidas. Outra está relacionada ao fato de que a qualificação do processo avaliativo de quarta geração exige que seja desenvolvida a dimensão formativa. e que carece de metodologias de pesquisa coerentes com essa demanda. Neste artigo. como e para que mudar a realidade). L. o qual enfatizou o empoderamento dos familiares.como reuniões. entre outros percebemos maior facilidade dos grupos no levantamento de problemas da sua realidade. apresentou-se o detalhamento da construção metodológica de uma pesquisa de avaliação qualitativa mediante a utilização do referencial teórico-metodológico da Avaliação de Quarta Geração. exerçam controle sobre o projeto de avaliação.31. apesar de também serem importantes em outras abordagens de avaliação participativa. Propicia ainda que os sujeitos partilhem decisões. um delineamento teórico-metodológico sistemático. Enquanto limitações da metodologia. out. permitiu que emergisse um grande volume de dados. O nível de participação na avaliação de quarta geração merece destaque em relação a outras abordagens. diferenciando-se de outras abordagens de avaliação participativa. como contribuição. possuindo flexibilidade suficiente para incorporar novas mudanças. discutindo e problematizando os mesmos à luz do paradigma psicossocial. de modo que tanto avaliadores como grupos de interesse possam aprimorar sua capacidade de análise. estabeleça compromissos éticos e pactuações que garantam a participação dos sujeitos nos diferentes momentos da avaliação (no estabelecimento das questões/eixos/marcadores/indicadores e na negociação em relação ao que. trazendo. usuários e familiares têm em discutirem seus problemas e dificuldades de forma coletiva no cotidiano dos serviços. O processo de transformação atual preconiza o fortalecimento do poder de contratualidade do indivíduo em sofrimento psíquico no cotidiano das práticas dos serviços substitutivos ao manicômio. 2009 353 artigos Considerações finais . em algumas situações são pouco garantidos na aplicação prática dessas avaliações. seus familiares e trabalhadores dos CAPS. abrangendo os CAPS da região sul do Brasil. A avaliação de quarta geração fundamenta-se no referencial construtivista. Nesse sentido. Consiste numa avaliação focada mais no processo do que propriamente nos resultados. Onde existiam dispositivos de participação . estruturado em passos que se desenham com base na lógica dialética e da interpretação hermenêutica. mas também à pouca tradição que equipe.13. se apropriem dos diferentes passos da avaliação e que tenham honradas suas participações por intermédio da interpretação hermenêutica e da compreensão dialética que busca trabalhar os conflitos e gerar os consensos possíveis. não sendo possível que todos fossem contemplados devido aos limites de tempo e recursos. O caráter formativo desse processo. Considera-se que a Avaliação de Quarta Geração propiciou um processo avaliativo participativo. inerentes a qualquer pesquisa. que é aberto e não estabelece o foco da avaliação a priori.343-55. et al.P . Já a etapa de negociação dos dados possibilitou momentos de reflexão e debates sobre as questões mais críticas em relação ao modo de atenção psicossocial. como a detalhada no presente artigo. a partir de então. esse delineamento não é rígido. com a realização de cinco estudos de caso. reforçando as contribuições da proposta metodológica da Avaliação de Quarta Geração. dando voz aos usuários dos serviços. a busca pela qualificação das informações e o empoderamento dos grupos de interesse destacam-se como contribuições relevantes na avaliação de quarta geração. com enfoque responsivo e formativo./dez. Esses. propondo que o avaliador “ganhe o direito de entrada” no campo empírico por meio de uma etnografia prévia e. Também estabeleceu um espaço de discussão frente às mudanças necessárias para se promoverem avanços nos serviços. assembléias. O trabalho de campo possibilitou constatar uma forte adesão ao método de Avaliação de Quarta Geração por parte dos grupos de interesse. possibilitando o aprofundamento na discussão e delimitação dos temas oriundos da avaliação. usuários e equipe enquanto protagonistas do processo avaliativo.

49-88. v. p. na medida em que possibilita que sejam acessadas dimensões pouco passíveis de serem apreendidas por medições e indicadores e que.12.L. Y.). à consolidação da transformação do modelo de atenção. AMARANTE. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. A reforma psiquiátrica. p. Ministério da Saúde. E. 354 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. A-P . ______. Z.). Rio de Janeiro: Relume-Dumará.52. 1988. 1994. n.31.A.. R. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. (Org. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. A. Z. De médico. de louco e de todo mundo um pouco: o campo psiquiátrico no Brasil dos anos 80. elaboração e redação final do texto. out. Newbury Park: Sage Publications. Brasília: Ministério da Saúde. P . 2009 . CARVALHO. LINCOLN. (Org. o que. 1996. Avaliação de qualidade dos novos serviços de saúde mental: em busca de novos parâmetros. DENIS. 2000. coleta e análise dos dados. In: HARTZ. México: Ediciones cientificas La Prensa Medica Mexicana. A. Referências AGUILAR.A. CHAMPAGNE. 1988... ética e politicamente. F. 1999.L. Effective evalution. E.J. p. p.). Isso acaba por aumentar a possibilidade e o compromisso de utilização desses resultados com vistas à transformação. ANDER-EGG. Colaboradores Luciane Prado Kantorski.343-55.1743-8.171-91. R. La calidad de la atención medica: definición y metodos de evaluación. p.29-48. elaboração e redação final do manuscrito. 1994. The quality of care: how can it be assessed? JAMA. B.. n. Valquiria de Lurdes Machado Bielemann e Jacó Fernando Schneider trabalharam na coleta e análise dos dados. n. M. Christine Wetzel..M. M. GUBA. Avaliação de serviços e programas sociais. Além disso..260. exige que um processo avaliativo de quarta geração esteja atrelado.74-82. Avaliação em saúde: dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de programas. 5. Saúde em Debate. 2004. 1989.. uma metodologia participativa permite um controle do processo e dos resultados da avaliação compartilhados pelos avaliadores e pelos grupos de interesse. têm grande influência no que se refere ao seu bom ou mau funcionamento. A Avaliação de Quarta Geração constitui-se como uma importante possibilidade metodológica no campo da avaliação de serviços e programas de saúde. Agnes Olschowsky e Vanda Maria da Rosa Jardim trabalharam na concepção teórica.AVALIAÇÃO DE QUARTA GERAÇÃO . BEZERRA JÚNIOR. TAVARES. Secretaria Executiva./dez. p. Legislação em saúde mental 1990 – 2004. Petrópolis: Vozes. In: GUIMARÃES. 1984. Avaliação em Saúde: dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de programas. et al.ed. Saúde e sociedade no Brasil: anos 80.M. no entanto. J-L. Análise da implantação. Fourth generation evaluation. DESVIAT. ______. (Orgs.13. San Francisco: Jossey Bass Publishers.W. BRASIL. A avaliação na área da saúde: conceitos e métodos. DONABEDIAN. In: HARTZ. no campo da saúde mental.A. CONTANDRIOPOULOS. 2000.

Pesquisa em educação: abordagens qualitativas.P .. ANDRÉ. Desinstitucionalização. LEONARDIS. YIN.A. 2005. F..Comunic. (Org. L.31. São Paulo: EPU. Interface .E.ed. 1997. In: NICÁCIO. Ribeirão Preto. Salud mental. M.KANTORSKI. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Estudo de caso: planejamento e métodos. 1990. n. 2009 355 artigos LÜDKE. uma outra via: a reforma psiquiátrica italiana no contexto da Europa Ocidental e dos “países avançados”. et al./dez. KANTORSKI. ROTTELLI. permitiendo que los resultados se presentaran luego a los sujetos de estudio en talleres de negociación. Universidade de São Paulo. WETZEL. 2005. out. Servicios de salud. 3.D. Evaluación de cuarta generación . Este artículo relata el trayecto teórico-metodológico de la evaluación de los Centros de Atención Psico-social de la región sur de Brasil. p. out.contribuciones metodológicas para evaluación de servicios de salud mental. Desinstitucionalização. Educ. M. Tese (Doutorado) . familiares y equipo.Q. desarrollada a partir de la Evaluación de Cuarta Generación. Avaliação de serviços de saúde mental: a construção de um processo participativo. . Porto Alegre: Bookman. Thousand Oaks: Sage Publications. 1986. D.K. Investigación cualitativa. São Paulo: Hucitec.31. R. En una segunda etapa se realizaron talleres con los investigadores con vistas a construir un proceso colectivo de análisis de datos. Saude.. p. La recolección de datos se ha realizado a través de la observación y de entrevistas con usuarios. M. n. 3. PATTON. 2005.ed. Como límite destacamos el gran volumen de datos obtenidos en el proceso y la necesidad de prioridad de cuestiones a través de la negociación con los grupos de interés.13. Utilization-focused evaluation: the new century text. F. v. C. et al.343-55. L.343-55..P . Aprovado em 08/03/09. Palabras clave: Evaluaoión en salud. Recebido em 29/09/08.. Como contribuciones de la Evaluación de Cuarta Generación destacamos su carácter participativo y su dimensión formativa. O.)./dez. MAURI.Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto.13. p. 2009. y la primera etapa de análisis ocurrió concomitante a la recolección.17-59. posibilitando a los grupos de interés una capacidad de análisis y de intervención más calificada para la mejora del servicio.

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considering the hospitalized children within their social and economic contexts.13. out. 1 Keywords: Comprehensive healthcare./dez. 97.L. Patient caret. Avenida Roraima. This was a qualitative study in which data were collected through interviews and analyzed through thematic analysis. Educ. Universidade Federal de Santa Maria (HUSM/UFSM). These difficulties impair the interlinking of actions towards comprehensive healthcare. Saude.359-68. Este estudo teve como objetivo analisar e discutir os sentidos relacionados à integralidade nas ações da equipe de saúde de uma unidade de internação pediátrica de um hospital universitário no interior do estado do Rio Grande do Sul. This study had the aim of analyzing and discussing the meanings relating to comprehensiveness of the actions of the healthcare team in a pediatrics ward of a university hospital in the interior of the state of Rio Grande do Sul.359-68. 5 Escola de Enfermagem. Serviços hospitalares.31.A integralidade nas ações da equipe de saúde de uma unidade de internação pediátrica Débora Luíza dos Santos1 José Luís Guedes dos Santos2 Adelina Giacomelli Prochnow3 Maria de Lourdes Rodrigues Pedroso4 Maria Alice Dias da Silva Lima5 SANTOS. Camobi. mas encontram dificuldades em efetivá-lo. p.118-000 deboralui@yahoo. Brasil. v. vislumbrando a criança hospitalizada no seu contexto econômico e social. Pediatria. os atributos da organização do serviço e as respostas governamentais aos problemas de saúde. Hospital services.31. Palavras-chave: Assistência integral à saúde.br 2. Santa Maria. The comprehensiveness of professionals’ practices is focused on the dimension relating to professional action. et al. 3 Departamento de Enfermagem. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. 2009 359 . but difficulties in making this effective were found. A integralidade na prática dos profissionais está centrada na dimensão relativa à atuação profissional. s/n.com. UFSM. Trata-se de uma pesquisa qualitativa cujos dados foram coletados a partir de entrevistas e analisados mediante análise temática. UFRGS. D. Apontam a importância do trabalho em equipe.. Professional practice. Prática profissional. n. The importance of team work is highlighted. n. p.. o que prejudica a articulação das ações em prol de uma atenção integral. 2009. em que eles buscam associar assistência e prevenção. Hospital Universitário de Santa Maria. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). out. Equipe de assistência ao paciente. A noção de integralidade engloba três conjuntos de sentidos: a prática dos profissionais de saúde./dez. RS. Interface . Pediatrics.Comunic. The notion of comprehensiveness encompasses three sets of meanings: the practices of healthcare professionals.4 Mestrandos.13. in which they seek to associate assistance and prevention. the attributes of the service organization and the government responses to health-related problems. Comprehensiveness of the actions of the healthcare team in a pediatrics ward.

2006). estratégias que busquem viabilizar arranjos diferenciados para os serviços de saúde são necessárias para a construção de uma lógica diferenciada de atenção. como constitui um campo profícuo para a construção de dispositivos de mudança com relação à lógica instituída na produção de cuidados de saúde. para isso é necessário associar assistência com prevenção. promulgada em 1988. O primeiro sentido está relacionado à postura do profissional. considerando-os muito mais que lesões ou disfunções a serem tratadas. Durante a realização das suas atividades. Siqueira. introduzindo conceitos e ações facilitadores de promoção da saúde. permeado de uma maior horizontalidade nas relações entre os seus participantes. Pinho. no intuito de suscitar a discussão acerca dos mecanismos necessários à construção e efetivação das práticas de integralidade no interior dos serviços de saúde em seus diferentes níveis de complexidade. define saúde como um dever do Estado e um direito da população. são muitos os obstáculos a serem enfrentados para que sejam implementadas ações com vistas a um novo paradigma que não aquele que prioriza somente a doença.31. e estabelece que as ações e os serviços de saúde têm importância pública e devem ser promovidos por um Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto. Quanto às respostas governamentais. n. Logo. 2004).A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DA EQUIPE DE SAÚDE . Tal fato baliza a importância da compreensão dos significados relacionados à integralidade no trabalho em saúde para os profissionais que o executam./dez. como a integralidade. a qual pode ser utilizada para inventar novos processos de trabalho (Marques. p. Mattos. Partindo da dimensão das práticas de integralidade enquanto norteadoras das ações dos trabalhadores em saúde. de forma a fazer com que os profissionais atuem sob uma lógica de atenção voltada para a integralidade da assistência. os atributos da organização do serviço e as respostas governamentais aos problemas de saúde. 1997). Merhy. mas complementares: a prática dos profissionais de saúde. pois os comportamentos e valores dos profissionais de saúde influenciam o modo como se processam essas modificações (Franco. a desfragmentação do atendimento prestado e a integralidade como um processo de construção social. 360 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.359-68. out. determinadas pelo autogoverno do trabalhador de saúde sobre o modo de fazer a assistência. 2006). A noção de integralidade nos serviços de saúde engloba três conjuntos de sentidos distintos. Portanto. elas devem considerar as especificidades dos grupos atingidos pelos problemas de saúde. a qual deve buscar apreender o contexto de vida dos pacientes.. compreende-se o acolhimento. tendo em vista que a realização do trabalho vivo em ato pressupõe a possibilidade da criatividade. Nessa ótica. de tal forma que um dos principais desafios no cotidiano atual dos serviços de saúde é a produção de práticas de saúde segundo os preceitos do SUS (Pinho. a organização do processo de trabalho em saúde tanto contribui para a manutenção do modelo hegemônico. 2009 . muitas vezes.13. assim como a discussão do trabalho em saúde voltado para a integralidade da assistência e responsabilização dos profissionais com a produção de saúde que valorize e oportunize maior autonomia ao usuário. organizado em torno dos princípios da universalidade. a modificação da estrutura e das formas de organização dos serviços não assegura mudanças nos modelos assistenciais e suas micropolíticas instituídas. a partir da contextualização dos sujeitos sobre os quais as políticas incidem (Mattos. Introdução A Constituição Federal. No entanto. No entanto. 2004. integralidade e equidade. Lima. cabe ressaltar que as características de determinado processo de trabalho são. na saúde da criança. na saúde em geral e. aponta-se que o modo de organizar deve ser aberto a assimilar as necessidades dos usuários e pautado no diálogo entre os diferentes sujeitos que compõem o processo de trabalho em saúde. 2008. No que tange à organização dos serviços. incorporando continuamente novos conhecimentos a partir das práticas dos sujeitos envolvidos na produção do cuidado em saúde (Pinheiro. a promulgação desses direitos constitucionais e as políticas públicas de saúde não impactaram mudanças efetivas no modo de produzir saúde. 2001). Muitos esforços têm sido empregados na busca da reestruturação dos serviços e das ações em saúde por meio de políticas públicas. Merhy. mais especificamente.. ele pode agir como um dispositivo gerador de mudanças e modificação dos processos ante a organização dos serviços de saúde.

destinam-se.13. 2009 361 artigos . o qual integra a rede pública de saúde enquanto hospital de referência em nível terciário para toda a região centro-oeste do estado. 2008. em torno dos quais elas organizam de certa forma suas vidas e atitudes em relação à saúde (Turato. p. possibilitando um melhor prognóstico (Perosa. 2006). Gabarra. Assim. mediadas pelos adultos responsáveis ou checadas com eles. mas toda a produção do cuidado nas instâncias do SUS. numa perspectiva de qualidade de vida. Metodologia Trata-se de um estudo exploratório-descritivo com abordagem qualitativa. Perosa. sem predominância de uma categoria profissional em relação à outra. A amostra foi constituída de forma a compor um universo multiprofissional. além de tratar e/ou prevenir agravos. visto que as ações implementadas em todos os níveis de atenção. por exemplo. As ações de promoção da saúde devem ser acionadas por meio de estratégias que envolvam a coletividade em geral e a família. na qual os participantes do estudo foram convidados a responder sete questões. a qual é responsável pela criança e possuidora de um saber que não deve ser descartado. as quais exploravam as suas percepções quanto COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v./dez. 2003). também. como: o atendimento de suas necessidades sociais. este estudo teve como objetivo analisar e discutir os sentidos relacionados à integralidade nas ações dos profissionais da equipe de saúde de uma unidade de internação pediátrica de um hospital universitário. Para a coleta de dados. out. emocionais e recreacionais durante a internação. uma maior participação da criança é fundamental para a satisfação e adesão ao tratamento. O método qualitativo permite estudar os significados que as pessoas atribuem a um dado fenômeno. Salienta-se que os profissionais fisioterapeutas não participaram do estudo em virtude da incompatibilidade de horários entre esses trabalhadores e os pesquisadores no período em que a pesquisa foi realizada. mas aperfeiçoado e/ou adaptado ao saber científico dos profissionais (Queiroz. et al. solicitam às crianças que descrevam os seus sintomas. mas tendem a excluí-las das informações referentes ao diagnóstico e à terapêutica. restringindo sua interação ao afetivo/lúdico no intuito de agradá-las. tendo em vista as atividades laborais que desenvolviam no cenário do estudo. D. constantemente.SANTOS. Os sujeitos da pesquisa foram selecionados de forma intencional. Além disso. Médicos. existem algumas particularidades do atendimento infantil que não contemplam o princípio da integralidade. Na atenção à saúde da criança. Entretanto. dois médicos. Ranzani. Assim. participaram da investigação seis trabalhadores de saúde de nível superior. Ressalta-se que a integralidade é um dos princípios que norteia não apenas as práticas realizadas nas unidades de saúde. a promover o crescimento e desenvolvimento infantil. dentre as quais se destaca o papel reservado às crianças nos serviços de saúde. tendo em vista que a maioria dos estudos relacionados a essa temática têm sido realizados no âmbito da atenção primária.L. psicólogo e nutricionista.31. sendo: dois enfermeiros. Jorge.359-68. Desse modo. bem como a atenção dispensada aos pais e familiares durante esse processo. justifica-se a relevância de se investigar a integralidade com base na visão de profissionais de saúde que atuam no contexto hospitalar. que buscou entender a relação entre o trabalho de profissionais de saúde no contexto hospitalar e os sentidos da integralidade presentes em suas ações. suas manifestações são. objetivando a identificação dos significados da integralidade nas ações em saúde sob diferentes olhares dentro de um mesmo universo de práticas. há estreita relação entre a educação e a promoção da saúde. optou-se pela técnica da entrevista semiestruturada. n. O cenário de estudo foi uma unidade de internação pediátrica de um hospital universitário localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul (RS). 2004). intelectuais. Mesmo quando elas têm condições de opinar sobre seu estado de saúde e participar de decisões sobre seu tratamento. Esse cenário foi escolhido para o desenvolvimento da pesquisa tendo em vista a importância da integralidade nas ações dos profissionais de saúde na atenção às especificidades que envolvem o cuidado à criança hospitalizada.

não é apenas ausência de patologia.06).0. A. p. tentar que ele saia daqui totalmente recuperado e orientar os pais quanto aos cuidados após a alta também. 2007). Com relação às questões éticas. ressalta-se que o presente estudo foi aprovado pela Direção de Ensino. assim como aspectos mentais e sociais . sendo identificadas por meio de códigos compostos pela sigla “Prof. saúde ao indivíduo: “É o bem-estar físico. referente a profissional. à relação saúde e doença. B.359-68. Os entrevistados definiram saúde de forma ampla. fez-se uso da análise temática. os quais não possuíam vínculo com a unidade e os profissionais. mediante apresentação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de acordo com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil. o que demonstra que a noção de integralidade está presente nas práticas que eles desenvolvem: “Procurar o bem-estar. foi solicitada a autorização dos participantes do estudo para sua inclusão na pesquisa. bem-estar e. Salienta-se que. Além disso. qualidade de vida. A) “Bem-estar conjunto.”.. condições adequadas de saneamento básico. e do significado do termo integralidade no universo das práticas desenvolvidas no cenário investigado.243. procurar não contribuir apenas no hospital. com base na análise e interpretação das ações relatadas pelos profissionais evidenciou-se que o conceito de integralidade é mais facilmente associado à dimensão relativa à atuação profissional da equipe de saúde. que se constitui de três etapas: ordenação./dez.000.os quais.31. apontando para a amplitude das necessidades de saúde dos usuários.. 1996). mas uma relação equilibrada entre diversos fatores . 2001).. C) “[. out. primeiro partiu-se da identificação do conceito de saúde como produto das ações desenvolvidas pelos profissionais de saúde entrevistados. 2009 . n. Os dados foram organizados e discutidos de acordo com os três conjuntos de sentidos da integralidade propostos por Mattos (2004. Para analisar os dados.” (Prof. B) Esses conceitos apresentados vão ao encontro da definição de saúde expressa pela Organização Mundial de Saúde e sustentam a problematização das ações segundo uma abordagem pautada na integralidade. o processo de trabalho e os sentidos da integralidade nas práticas que eles desenvolviam no seu cotidiano laboral em pediatria. atividade física. envolve também o ambiente em que a pessoa vive. são capazes de proporcionar qualidade de vida. social. os profissionais relataram o desenvolvimento de ações que vão além das atividades de recuperação no âmbito hospitalar. D) 362 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.] proporcionar conforto ao paciente que está internado na unidade. em conjunto.” (Prof. Pesquisa e Extensão do hospital em que a pesquisa foi realizada e pelo Comitê de Ética da universidade à qual essa instituição está vinculada academicamente (Parecer nº 0163. As entrevistas foram gravadas e transcritas posteriormente.A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DA EQUIPE DE SAÚDE .. o mais abrangente possível. consequentemente.).como alimentação.13.” (Prof. Considerando-se a noção de integralidade pautada em três conjuntos de sentidos distintos. enquanto princípio das ações em saúde. no intuito de garantir maior autonomia e anonimato aos entrevistados. associada a letras do alfabeto atribuídas segundo a ordem na qual os depoimentos foram coletados (Prof. as entrevistas foram realizadas por dois acadêmicos de enfermagem.. cultural da pessoa. Apresentação e discussão dos resultados Para analisar os significados da integralidade. como sendo não apenas a ausência de doença. Com relação às finalidades do trabalho.. Prof.” (Prof.. classificação dos dados e análise final (Minayo.

2009 363 artigos “Procurar promover saúde. maus tratos. a partir da articulação de ações de assistência e prevenção. alimentação. 2004). mas em todos os aspectos. Siqueira.31. D) COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. questionaram-se os profissionais quanto à forma como eles atuavam cotidianamente. 2006). foi apontada como uma estratégia fundamental à continuidade do tratamento prescrito e orientado no contexto hospitalar. 2005. Vieira. a integralidade enquanto fundamento norteador.SANTOS. questionamentos com outros profissionais sobre crianças negligenciadas. como obstáculos. por exemplo. buscar os aspectos que envolvem a saúde. ao serem analisadas. F) . a vida social desse paciente. Entretanto. queremos saber onde é que ele mora. de quem são os profissionais que cuidam delas. na base conceitual de suas práticas como nas suas finalidades. Além disso. Angelo. F) A contextualização social da criança. médicos e enfermeiros no que tange à realização de procedimentos e transferência ou alta dos pacientes.] Quando avaliamos o paciente na pediatria.” (Prof. interferindo sobre elas ou realizando os encaminhamentos necessários. encontrou-se a procura por ações que extrapolem o contexto hospitalar e busquem situar o usuário no seu contexto social mais amplo: “[.359-68. D. Os profissionais tanto referiram.13. E) “Inclui esta inter-relação. enfermeiras de unidades de saúde de Goiânia entrevistadas em relação às suas percepções quanto à integralidade apontaram que a prática integral consiste no atendimento globalizado e holístico dos pacientes (Pinho. realizado a partir da união de práticas isoladas: “A psicóloga. salienta-se que. a hospitalização representa uma situação estressante e. na falas dos depoentes. Pinho. et al. De forma semelhante. 2004). a partir dela. como a perda dos pais. apontando. e de qual efeito terão as ações terapêuticas desempenhadas em prol da sua recuperação (Ribeiro. como é que é a casa. com relação à comunicação entre os profissionais de saúde e os usuários do serviço de internação infantil em que o estudo foi realizado. evidenciou-se que as ações descritas por eles como trabalho em equipe. entendida como a investigação do ambiente familiar e estrutural em que vive. e na medida do possível tentamos melhorar essas deficiências. configuraram-se como um trabalho coletivo. out. o que as faz desejar informações acerca: do seu estado de saúde. dos procedimentos diagnósticos aos quais são submetidas. tanto com base no seu conhecimento como nos saberes trazidos pelo usuário. Analisando o enfoque do trabalho em equipe nas práticas de integralidade. eles revelaram dificuldade de interação na unidade. enfim.” (Prof./dez. não basta apenas tratar a doença. chama a atenção para aspectos que são importantes para aquela criança. o bem estar não só físico. geradora de sofrimento e medo às crianças. de maneira que o processo interativo com a criança hospitalizada parece estar em segundo plano. no qual os profissionais devem se esforçar no sentido de buscar os elementos centrais de cada encontro. Nesse sentido. e pelo seu contexto específico (Mattos.L. muitas vezes. quais pessoas que moram na casa.. Seguindo essa linha reflexiva. nós olhamos todo o paciente. sem investigar o que a determinou. salienta-se a necessidade do estabelecimento de projetos terapêuticos baseados no diálogo entre trabalhadores de saúde e usuários. como. Na pediatria.” (Prof. predominam menções à busca de informações com os familiares. De acordo com os entrevistados. p.. Nas respostas. a ausência de construções coletivas diárias e as barreiras de comunicação entre os diferentes profissionais. às vezes. n. podem-se captar as necessidades dos pacientes que nem sempre estão explícitas. esta troca permanente. Soares. Quanto às práticas nas quais conceitos e objetivos de integralidade são efetivados. até encaminhar ele para o serviço que ele precisa. problemas sociais. pois os médicos nem sempre têm tais informações. tudo.” (Prof.

assim como da comunicação no ambiente de trabalho: “Integração entre profissionais de diferentes áreas.]. todos agiram junto como uma equipe mesmo. A partir dessa prática comunicativa. é essencial para que sejam contempladas as múltiplas dimensões que envolvem o cuidado à criança e ao adolescente hospitalizado. 2004). articulam-se em uma rotina de trabalho coletivo.. com o apoio dos demais profissionais em suas respectivas áreas sem. No entanto. constata-se que o processo de trabalho. entretanto. multiprofissional.” (Prof.. efetivar um trabalho de discussão. todos os profissionais precisam passar a mesma mensagem [. Lima e Correia (2008) asseveram que a prática interdisciplinar com base na articulação dos diversos saberes. em que a equipe atua de forma solidária. planejamento e execução de atividades de forma articulada e pautadas na interdisciplinaridade. Apesar do exposto. as quais. a discussão dos problemas e das necessidades da equipe e dos pacientes atendidos na busca de consensos coletivos. a aferição dos sinais vitais e a administração de medicamentos são extremamente importantes.” (Prof. do ponto de vista do cuidado à saúde. p. os profissionais elaboram e executam um projeto comum que contempla as necessidades de saúde dos usuários (Peduzzi. n. “Aqui a gente tem apoio bastante da nutrição e da psicologia. no qual apresenta-se certa quebra da dificuldade de interação dos profissionais. mas também.. a percepção de que os profissionais buscam. Sabe-se que. realizadas de maneira conjunta (Martins.13. E da enfermagem também.” (Prof. como pode ser constatado na seguinte fala: “Nós estávamos com uma criança ruim e daí toda equipe parou: era um chamando médico. o trabalho realizado em equipe. out. no entanto. pode favorecer a atenção integral à saúde da criança. C) “[. importantíssima a questão da comunicação [. a gente tem bastante contato. O trabalho integrado só foi evidenciado em momentos típicos de emergência.A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DA EQUIPE DE SAÚDE .31. em torno de um projeto comum.. diferenciadas de acordo com cada grupo profissional. que ajuda e muito. Entretanto.. comunicação. no contexto hospitalar.359-68. está pautado basicamente em atividades assistenciais. mas sujeitos iguais. E) Reforça-se. Nesse sentido./dez.” (Prof. instrumentos de trabalho e um bom relacionamento com a equipe e paciente. e a secretária também. pautado na interação entre os profissionais. um verificando sinais. quando questionados acerca dos elementos capazes de tornar mais eficaz e integral o seu trabalho. ‘mensagem uniforme’ ou seja.. Cada um desenvolve suas ações no seu campo de atuação. durante o atendimento a uma emergência. de forma articulada.. colaboração destes profissionais. a gente pede e elas vão de imediato já avaliar e ajudar. destaca-se que a interação à qual a fala remete está centrada na realização de procedimentos técnicos de forma articulada. O trabalho em equipe refere-se à relação entre trabalho e interação de agentes técnicos distintos. 2001). trabalhar em equipe pressupõe não só a realização conjunta de atividades técnicas. Nesse sentido. e sobretudo. B) A situação acima foi descrita pelo profissional com o intuito de exemplificar o trabalho em equipe destinado ao atendimento integral a uma criança durante o atendimento a uma emergência clínica. Por interação entende-se a construção de consensos quanto aos objetivos e resultados a serem alcançados pelo conjunto dos profissionais.” (Prof.. 2009 . D) “Eu acho que é questão do relacionamento interdisciplinar. F) 364 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. uma assistência integral à criança hospitalizada. os profissionais salientaram a importância da interdisciplinaridade e atuação em equipe. um administrando medicação. Menossi.] comunicação entre a equipe. portanto. de forma isolada.]. constituindo-se em ações fragmentadas.

Um dos fatores que pode estar interferindo na integração entre os profissionais é a atuação transitória de um grande número de estudantes de graduação e pós-graduação que desenvolvem atividades profissionalizantes no cenário do estudo. tendo em vista que os hospitais estão inseridos em uma ampla rede de assistência. Silva Junior. 2009 365 artigos . corroboraram a necessidade de a formação do profissional de saúde contemplar os princípios que regem o sistema de saúde vigente no país. Apenas dois profissionais apontaram a integralidade segundo dimensões múltiplas. caracterizada pelas políticas públicas de saúde e iniciativas governamentais com vistas à integralidade.” (Prof. teria que ter um conjunto bom. A) “Integralidade eu acho que é uma integração entre a saúde. dar condições para alcançar o bem estar. p. a partir da participação dos sistemas locais de saúde e inserção da população na elaboração de políticas e práticas em saúde (Pinheiro. 2007). Mattos. assim como a consecução de objetivos comuns capazes de solucionar os problemas de saúde de forma integral. o trabalho em equipe e a atenção integral à saúde. foi identificada em apenas uma das falas dos profissionais. isso faz com que tenhamos um serviço mais qualificado. os profissionais mencionaram a relevância e necessidade de ações ao nível governamental para viabilização de práticas de integralidade. do que à crença na importância de tais ações. Quanto mais ampla for sua compreensão acerca da organização da rede de atenção.359-68.13. A alta rotatividade de profissionais foi apontada por Colomé e Lima (2006) como um dos principais desafios para a efetivação do trabalho em equipe. p. e mais dimensões da integralidade os profissionais incorporarem na sua base teórica.SANTOS. maior quantitativo de pessoal. a saúde da comunidade que seria os postos de saúde. 2005). Para superação dessa dicotomia. Assim. pois as idas e vindas de profissionais dificulta a integração e construção de vínculo entre eles.L. Todavia.] são necessárias melhores condições de infra-estrutura. abordando a organização do serviço e sua articulação na rede de assistência: “Há várias coisas: ver a saúde como um todo.. D. resgate da saúde. ao relacionarem situações práticas à conceituação de integralidade. a dimensão das políticas governamentais está relacionada à organização do sistema de saúde. mas na verdade não temos uma assistência de saúde comunitária boa para essas crianças. em um patamar mais abrangente que a doença.31./dez.. eu acho que não tem muito. ou seja. tendo em vista que a instituição configura-se como um hospital universitário. n. A operacionalização da integralidade na organização da assistência esbarra nos limites da transposição do conceito para novas práticas. melhor elas serão refletidas nas suas práticas cotidianas (Ceccim. B) Apesar disso. Ferla. 2006). out. dar condições de saúde. Todos os profissionais vendo o ser humano como um todo. com destaque para novas proposições e desenvolvimento de práticas de gestão democráticas e descentralizadas. et al. presente nos elementos elencados como indispensáveis à atuação profissional pelos respondentes: “[. os hospitais. mais uma vez. atuando como “um local para promoção de saúde e defesa da vida e da cidadania.” (Prof. Feuerwerker. esse aspecto é de fundamental importância. moradia. o que remete. F) Nesse sentido. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Abrange o sistema de saúde. é necessário repensar a formação dos profissionais de saúde. conforme Cecílio (1997. o que limita a integralidade à justaposição de ações de caráter preventivo ou coletivo com as de cunho curativo individual. com suas equipes colaborando ativamente na construção de novas relações dentro do sistema de saúde”. sem o rearranjo terapêutico e tecnológico necessário à efetivação concreta da integralidade na produção do cuidado (Pinheiro. Os entrevistados. A terceira dimensão da integralidade. ao enfoque nas ações cotidianas.” (Prof.301). percebe-se que as limitações em relação ao trabalho em equipe estão mais relacionadas aos mecanismos para efetivar essa interação.

31. para a materialização da integralidade no cotidiano dos serviços de saúde. conforme Ayres (2001). Assim. desenvolvam sua competência política de forma responsável e comprometida com a reorganização dos processos de trabalho. ao desenvolverem práticas de cuidado destinadas à integralidade. com esta pesquisa.13. o que limita suas ações ao seu campo de atuação. quando os profissionais atuam de forma integrada em prol de uma assistência eficaz e resolutiva. mas também a prevenção e promoção de saúde de acordo com o contexto socioeconômico da criança atendida no âmbito hospitalar. pretendeu-se ampliar a discussão acerca dos caminhos para efetivação do SUS. mesmo relacionados especificamente a uma unidade de internação pediátrica. no entanto ainda carentes de um agir político. de acordo com sua maturidade compreensiva. é necessário que os profissionais. Por esse meandro. podendo conduzir a um repensar das práticas e posturas profissionais. os quais são produtos de suas subjetividades. independente do nível de atenção. é necessário que os profissionais. observa-se que./dez. os profissionais entrevistados associam a integralidade mais facilmente à dimensão relativa à sua atuação. a partir da busca pela articulação de ações destinadas tanto à assistência como à prevenção de agravos e/ou complicações decorrentes do processo patológico que ocasionou a internação. Aponta-se a necessidade de que outras investigações sejam realizadas acerca das diretrizes do SUS e as práticas desenvolvidas no contexto hospitalar. ciente e comprometido com o seu papel social no contexto das práticas de saúde. buscando desenvolver práticas que englobem não só a assistência. Considerações finais Constatou-se que a integralidade está presente na base conceitual e nas finalidades que norteiam as práticas dos profissionais da equipe pesquisada. por meio da análise e discussão das práticas de integralidade desenvolvidas por uma equipe de profissionais da saúde de uma unidade de internação pediátrica.359-68. out. a partir da realização de atividades de educação em saúde. estejam mais atentos aos anseios e manifestações da criança enquanto indivíduo que deseja ser ouvido e é capaz de expressar sua subjetividade. 366 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. identificou-se que os profissionais buscam isoladamente uma abordagem integral à criança hospitalizada. buscando situá-la no contexto da ocorrência de doença que está vivenciando e das estratégias de autocuidado que pode desenvolver com a ajuda e/ou supervisão dos seus familiares cuidadores. p. para a construção e efetivação das práticas de integralidade nos serviços de saúde.. além de pautar suas condutas na busca de uma atenção integral. Pontua-se que.A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DA EQUIPE DE SAÚDE . Especificamente no contexto do trabalho em uma unidade de internação pediátrica. mas de forma restrita à dimensão técnica.. socializado. Com relação aos três conjuntos de sentidos da integralidade. ao trabalho em equipe e à integralidade nos serviços de saúde. No entanto. buscando a superação do modelo hegemônico de atenção à saúde. planejamento e execução de ações de forma articulada. uma vez que os seus princípios devem orientar a produção do cuidado em todos os níveis de atenção à saúde. potencializam importantes reflexões com relação ao trabalho em saúde. Entretanto. A hospitalização pode ser um momento ímpar no desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. A interação no trabalho em equipe só foi evidenciada no atendimento a casos de emergência. Os resultados encontrados. os serviços de saúde configuram-se como espaços públicos onde se encontram sujeitos coletivos. não efetivando um trabalho de discussão. é necessário maior diálogo entre os atores que participam da produção do cuidado. n. Dessa forma. 2009 . as ações relatadas pelos profissionais estão centradas na dimensão relativa à atuação profissional. buscando o aprimoramento das práticas de gestão e de organização do trabalho em saúde.

D.. CECILIO.S. USP.2.A.K.). n. COLOMÉ. v.L. Dispõe sobre as diretrizes e as normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. M.I. uma possibilidade a ser explorada. p. J. ONOKO. v. Saude Publica.489-94. R. MARTINS. Mudança na graduação das profissões de saúde sob o eixo da integralidade. Desafios do trabalho em equipe para enfermeiras que atuam no Programa Saúde da Família (PSF). (Orgs. et al.M.469-78. n. p.1400-10. 2001.20. PEDUZZI. A transição tecnológica na saúde: desafios para a gestão do trabalho. p. T. Os sentidos da integralidade. n. FRANCO. Programa de Saúde da Família (PSF): contradições de um programa destinado à mudança do modelo tecnoassistencial. 10. In: PINHEIRO.M.1. Os autores Débora Luiza dos Santos e José Luís Guedes dos Santos realizaram a coleta dos dados.SANTOS. L.R. n. v. Adelina Giacomelli Prochnow orientou todas as etapas do estudo.. A..A. n. ______. Educ.2.63-72. MARQUES.C. v. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. e Maria Alice Dias da Silva Lima participou da revisão e aprovação final do manuscrito. MERHY. MATTOS.4. 2001. Referências AYRES. 1997.J.1411-6. LIMA.37-54. Rev. 2008. 2004. p. Rev. E.14. CORREA. 2004. M. Rev. v. Esc. Gaucha Enferm. v. D.. Cad. p. Saude. R. L. 2001. E. p.71-112.5. São Paulo: Hucitec.B.103-9.M. 2004. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/Abrasco. Agir em saúde: um desafio para o público.3.1. MERHY. (Orgs.42. Educ. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. v.S.. E. Cad.E. escrita e formatação do texto. Sujeito. (Orgs.O. Brasília: Conselho Nacional de Saúde. Enferm. Saude Publica. Saude.41-7. 2009 367 artigos Colaboradores . de 10 de outubro de 1996. PEROSA. n.. 2008. p.A.S. Os sentidos da integralidade: algumas reflexões acerca de valores que merecem ser defendidos. Enferm. Saude Publica.).. Explicações de crianças internadas sobre a causa das doenças: implicações para a comunicação profissional de saúde-paciente.20. 2004.359-68.548-56.). Cad. CECCIM.39-64. p.ed.C. p. 1996. Saude Publica. análise e discussão dos resultados. intersubjetividade e práticas de saúde.D.5.. p.G. p.135-48. MATTOS.31.287-310. Rev. LIMA. L.A. Trab. p. R. FEUERWERKER. n. R.. A dor e o desafio da interdisciplinaridade no cuidado à criança. n. BRASIL. E. Maria de Lourdes Rodrigues Pedroso participou da elaboração e revisão do artigo.3.6.E.A.. Latino-am. M. out. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia.. M. I. v.C. M.B. Cienc.. In: MERHY.E. MINAYO. Saude Colet. In: MERHY. Rio de Janeiro: Abrasco. 1997. 2007. v.16. n. et al.. Modelos tecnoassistenciais: da pirâmide ao círculo./dez. Organização tecnológica do trabalho em um pronto atendimento e a autonomia do trabalhador de enfermagem.1.. M. n. R. MENOSSI. G. 2004. p.13.35.E.13.B.Q.8. v. n. GABARRA. G. LIMA.. Resolução número 196.27. 2006. O trabalho em saúde: olhando e experenciando o SUS no cotidiano. São Paulo: Hucitec.S. p. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo em saúde. Interface – Comunic. A integralidade na prática (ou sobre a prática da integralidade). R.

Rio de Janeiro: UERJ/IMS/Abrasco.br/index. formação e participação na saúde. 2004.C. Recebido em 06/10/08..V. Pediatría. PINHEIRO.42-51.31. Señalan la importancia del trabajo de equipo pero encuentran dificultades al efectivarlo..32. 2003.G. (Orgs.19. Saude. Med.S. et al.J. QUEIROZ.39. R. p. L. Implicações da integralidade na gestão da saúde.117-30. PINHEIRO.12.8. v. D. Rev. v. Servicios del hospital. JORGE. Petrópolis: Vozes. Esc. La integración en la práctica de los profesionales se centra en la dimensión relativa a la actuación profesional en la que tratan de asociar asistencia y prevención.O. Este estudio ha tenido como objetivo analizar y discutir los sentidos relacionados a la integración en las acciones del equipo de salud de una unidad de internación pediátrica de un hospital universitario en el interior del estado de Rio Grande do Sul. M..ufg.10.E. Percepção de crianças hospitalizadas sobre realização de exames.ed. n. out. n.B.S. Bras. n. Educ. n. n. SIQUEIRA. A. 2. ANGELO. PINHO. M. O significado da hospitalização para a criança pré-escolar: um modelo teórico. 2009 . vislumbrando al niño hospitalizado en su contexto económico y social.A... n. As percepções do enfermeiro acerca da integralidade da assistência. p.11-26.. FERLA. Saude. I.359-68. Práctica profesional. MATTOS. PINHO. C.php/fen/article/view/945/1156>. v.13. p.. 2006. R. USP. Palabras clave: Asistencia integral a la salud. Rev. 2008.revistas.38.C. n.3. o vínculo e a confiança no discurso dos profissionais. Acesso em: 26 jul. M. Se trata de una investigación cualitativa cuyos datos se recogieron a partir de entrevistas y analizados mediante análisis temático.. 2006. v.343-49. 368 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. p. Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa: construção teórico-epistemológica. MATTOS.4. 2005.A.R. R.M. USP.. PEROSA.A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DA EQUIPE DE SAÚDE . v.391-400. p.1.. lo que perjudica la articulación de las acciones en pro de una atención integral. out. 2008. La integración en las acciones del equipo de salud de una unidad de internación pediátrica. Enferm..). Equipo de asistencia al paciente. RIBEIRO. A. Educ. Interface – Comunic..B. 2009. p. Capacitação do médico para comunicar más notícias à criança. G. 2007./dez. SOARES. P . Cienc. SILVA JÚNIOR. E. Esc. R.31. Integrality in the population’s health care programs.. los atributos de la organización del servicio y las respuestas gubernamentales a los problemas de salud. L. v. Rev.468-73.4.. n.M..V. Aprovado em 17/07/09. VIEIRA. TURATO. Estratégias de educação em saúde e a qualidade do cuidar e ensinar em pediatria: a interação.L. Brasil. p. Interface .Comunic. v. Gestão em redes: práticas de avaliação.. J. Educ.. Eletron. Enferm.2. V. La noción de integración engloba tres conjuntos de sentidos: la práctica de los profesionales de salud. Rev. Disponível em: <http://www. 2006. In: PINHEIRO. p./dez. SANTOS.. Enferm. R. Saude Coletiva.359-68. discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. RANZANI. p.298-306.13.A.A.

They are satisfied with the medical assistance they receive. Pontevedra. Se analizan 147 relatos de vida de pacientes con edades comprendidas entre los 65 y 90 años. Calidad de vida. 2009 369 . En esta investigación se evalúa la percepción que presentan los mayores sobre los factores que influyen en su salud y el desarrollo vital a través del tiempo como punto de partida para mejorar su calidad de vida. p. Elderly..Comunic.Evaluación sobre las características del proceso de envejecimiento a través de relatos de vida* Margarita Pino1 Maria Carmen Ricoy2 Julio Portela3 PINO. Educ.369-82. 2009. Quality of life. España. Personas mayores. although they demand new specialty services and health education. J. Universidad de Vigo. we emphasize that the elderly reconciled their work in the industrial or services sectors with ploughing. n. we assess elderly people’s perception of the factors that influence their health and their vital development as a starting point to improve their quality of life. PORTELA. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. In this paper. We analyze 147 life stories of patients aged between 65 and 90. Saude. subvencionado por el Ministerio de Ciencia y Tecnología español.es 2 Facultad de Ciencias de la Educación. n./dez. M. En general los pacientes se enfrentan positivamente al deterioro de la salud. 1 Facultad de Ciencias de la Educación.. Life stories. As results and conclusions.13. Keywords: Self-perception of health.. España./dez. Most of the patients face the deterioration of their health in a positive way. Están satisfechos con la asistencia sanitaria que reciben. out. out. Palabras clave: Autopercepción de la salud.31. Campus A Xunqueira. M. aunque demandan nuevos servicios de especialidad y formación en educación para la salud.31.. v. 3 Centro de Salud de Porriño.13. mpino@uvigo. The most common activities they perform in their free time are sewing for women and card games and watching sports on TV for men. Assesment of the process of ageing through life reports of elder people.C. Se aborda una investigación evaluativa desde un enfoque biográficonarrativo. p. Como resultados y conclusiones hay que destacar que las personas mayores compaginaron su trabajo en el sector industrial o servicios con las labores del campo. 36005 Pontevedra. España.369-82. En cuanto a las actividades que realizan en su tiempo libre destacan para las mujeres coser y para los varones los juegos de cartas y seguir los deportes por televisión. in an evaluative research with a biographical-narrative approach. Universidad de Vigo. RICOY. Interface . * Este artículo se integra dentro del proyecto de investigación titulado: “Diseño de programas de intervención socioeducativa para la promoción de hábitos de salud y calidad de vida en personas mayores” (referencia: HP20050086). Historias de vida.

así como los acontecimientos estresantes a los que ha sido sometida la persona mayor van dejando huellas a las que el organismo se tiene que adaptar (Montorio. Las personas mayores pueden ser victimas de marginación social ya que pertenecen a un colectivo susceptible de exclusión (Subirats i Humet. El envejecimiento es en los países industrializados el acontecimiento demográfico más importante de la época actual. p.. en lo posible. por este orden: económicos. 2006). 1992). Miller. Por eso. Los índices de envejecimiento han crecido y continúan haciéndolo de forma vertiginosa. del poder adquisitivo. es un proceso individual: cada persona envejece a distinta velocidad y de manera diferente. social. Hubert. Su ruptura de las relaciones sociales se agrava por la pérdida de la pareja o de familiares próximos.369-82.. entendida ésta como un medio para contribuir a la formación permanente de las personas mayores. Tous Ral. que este proceso no se produzca por igual ni de forma uniforme para todos. familia. La naturaleza real del proceso de envejecimiento hace difícil definir y medir cuándo una persona es anciana (Beaver. abarcando los tres niveles de intervención: primaria. Todos estos elementos. out.3% en el 2015.EVALUACIÓN SOBRE LAS CARACTERÍSTICAS . el aburrimiento. ya que en 1960 sólo el 8% de la población correspondía a personas mayores de 65 años y este porcentaje ha ido creciendo de forma ininterrumpida pasando a constituir el 15. lo que. cubren sus necesidades afectivas y emocionales. educativa etc. ingresos económicos. Brugué.) con la tercera edad. acudiendo menos a la consulta médica y cuando están enfermas tienen más fuerzas y ganas de curarse (Gallo et al. la soledad.31. debemos conocer la percepción que tiene este colectivo de su propia realidad. todas estas variables pueden conducir a estados depresivos y de angustia. A su vez. del incremento de peticiones de ayuda terapéutica y social (García Pérez. las problemáticas referidas a la vejez son bastante recientes. Si nos centramos en la perspectiva de las propias personas mayores debemos tener en cuenta que consideran que sus problemas son. el sentimiento de inutilidad y la frustración afectiva. factores de riesgo (Vita. de la sintomatología de enfermedades físicas. sino también para la comunidad en la que se encuentra inmersa. Los programas de educación gerontológica se convierten en una herramienta básica para desarrollar experiencias de aprendizaje con las personas mayores. Los logros de la medicina. Desde la preocupación social e interés profesional que produce la temática abordada y dentro de las múltiples formas de actuación existentes (sanitaria. Izal. De ahí.7% en 1997 y se prevé que ascienda hasta el 17. generan una importante repercusión a nivel social y sanitario no sólo para la persona. 1998). 2000). 2002). Para evitar el riesgo de exclusión es necesario conocer los cambios que se producen durante este proceso vital. El proceso de envejecimiento varía por las distintas circunstancias que configuran la vida de cada persona: salud. Además las personas mayores que mantienen relaciones sociales. 2009 . 1997). La soledad está relacionada con el abuso de los servicios médicos y farmacológicos. Fries. tipo de trabajo. En el caso de España. personalidad. consideramos relevante la educación para la salud. Introducción El envejecimiento supone un proceso dinámico que se desarrolla a lo largo de la vida. Cruz Jentoft. consumo de alcohol. que aumentan la esperanza de vida y el menor índice de natalidad en las sociedades industrializadas provocan un progresivo aumento de la población mayor de 65 años (Ribera Casado. lleva a pensar que este sector de la población será uno de los que demandará más servicios en los próximos años. Este proceso. está influido por factores derivados de las enfermedades y padecimientos acumulados a lo largo de la vida. secundaria y terciaria. ni que envejezcan en la misma persona a idéntica velocidad los distintos componentes de su organismo. n.13. rechazo familiar y afectivos (Vega. Gomá. de la educación y de la ciencia en general han contribuido a que el proceso de envejecimiento tarde más en aparecer y que sea más saludable. de soledad. etc. dificultades físicas. aumento de los índices de suicidios. médicos. 1990). Estos avances./dez. En el deterioro de la calidad de vida influyen las vivencias de desarraigo y la carencia de expectativas. con la finalidad de aminorar el deterioro de su 370 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Otras carencias importantes ligadas a la vejez son la escasez de fuentes de información que manejan. sus carencias y necesidades con el objetivo de mejorar su calidad de vida y evitar.9% en el 2010 y al 20. la jubilación. 1998). etc.. Estos hechos. ofrecen seguridad y bienestar.

PORTELA.13. interpretar y comprender la singularidad del colectivo de personas mayores analizado (Merriam. De ahí. 2001). por la que. con el objeto de describir.PINO. 2006) y está desarrollada mediante el enfoque biográfico narrativo. Pretendemos entender y conocer sus experiencias y vivencias desde el microcontexto estudiado. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 1996). p. pone las pautas y formas para construir sentido a partir de acciones temporales y personales. Sánchez Serrano. La promoción de la salud empieza con las personas que están básicamente bien. que como investigadores analizamos sin poner en duda su veracidad o autenticidad. pero también con aquellas que cuentan con factores de riesgo o que ya padecen algún tipo de enfermedad para contribuir a la mejora de su proceso terapéutico. Aunque son pocos los trabajos publicados sobre la temática abordada desde un planteamiento cualitativo (Mercado-Martínez et al. permite construir conocimiento científico (Bolívar. La narración es una reconstrucción de la experiencia. dentro del “giro hermenéutico” en una perspectiva interpretativa. RICOY. interpretar y comprender esta unidad contextual. visión a la que nos adherimos. promoviendo una implicación más activa. n. sin limitarla a la mera metodología de recogida/análisis de datos. 1999). 1995). así como de prácticas que mejoren o reduzcan los síntomas de determinados problemas de salud. Por tanto. Los relatos de vida que hemos recogido son narraciones autobiográficas sobre experiencias personales que poseen un interés profundo y duradero para los narradores y están contadas a través de sus propias voces (Chase.31... Los métodos narrativos permiten el acercamiento a las experiencias de grupos con dificultad de acceso al lograr que sus voces sean escuchadas sin subordinar la realidad de estas personas a la búsqueda de la generalización (Hornillo Araujo. Desde la inquietud que nos genera la temática planteada. La narrativa. calidad de vida y para dar a conocer los riesgos de hábitos y conductas no saludables. 1995). 2003). Domingo. recoge la experiencia percibida y expuesta como relato por los participantes. 1989).. en este trabajo desarrollamos una investigación de carácter evaluativo para detectar las circunstancias que rodearon a un grupo de personas mayores y los efectos que originó en ellas el paso del tiempo. 1998). 2002. M. mediante un proceso reflexivo. se da significado a los hechos y vivencias (Ricoeur. Fernández.C. por medio de la descripción y análisis de la información biográfica. con el fin de encontrarle significado a lo largo de un recorrido vital (Rodríguez. 2008) queremos sumarnos a esta iniciativa. 2009 371 artigos . Esta investigación narrativa en su diseño se acomete desde un estudio de caso. por una parte. García. J. aportan evidencias fundamentalmente de carácter cualitativo sobre la percepción que tienen las personas mayores acerca de la problemática que estudiamos. con el propósito de ampliar la comprensión de la realidad examinada (Denzin. Como modalidad para interpretar los materiales biográficos utilizamos los relatos producidos por un grupo de personas mayores. que la investigación biográfica y narrativa se asiente. out. ayudándoles a adoptar estilos de vida que les permitan mantener y conservar un estado aceptable de bienestar y lograr un envejecimiento lo más óptimo posible. y por otra (como enfoque de investigación). Gil. como punto de partida para el diseño de programas de educación para la salud con el objeto de contribuir a mejorar la calidad de vida del colectivo. M. Diferentes autores defienden que la presentación sistemática del enfoque biográfico narrativo. Las historias de vida propician el conocimiento sobre el contenido emocional de la experiencia humana que puede quedar ocultado por los llamados métodos objetivos. Bolívar. en la cual las vivencias y experiencias de los participantes se convierten en el foco central de la investigación (Booth. entendemos que las historias de vida que hemos analizado aunque hacen referencia a una singularidad son un referente importante para este tipo de colectivos. Analizamos la percepción que tienen los propios implicados sobre el deterioro de su salud y avance existencial. Metodología Se trata de una investigación evaluativa en su modalidad descriptivo-comprensiva desde una consideración valorativa (Pérez Juste. que aunque situados en otros contextos se identifiquen de algún modo con lo sucedido./dez.369-82. dada la relevancia que le atribuimos a este tipo de estudios al permitirnos profundizar en peculiaridades acuciantes que rodean al colectivo objeto de análisis con el fin de describir.

singulares y creíbles (Fleet. La toma de datos se simultaneó con el análisis de los mismos en un proceso interactivo y cíclico.. que realizamos. participaron en el estudio 147 personas mayores comprendidas entre los 65 y 90 años. durante un mes y que mostraron su disponibilidad para colaborar voluntariamente en esta investigación. Las categorías definidas se determinaron a través de procedimientos de análisis cualitativos y se derivan de una concepción naturalista que aflora de los propios datos (Goetz. En la selección se tuvieron en cuenta a las personas de 65 años y con edad superior que acudían a consulta. El recuento del porcentaje de las categorías específicas. informándoles de la finalidad de la investigación. n. que se presentan en el apartado de resultados. Las categorías de análisis definidas. Además. entre los 76 y los 80 (31) y un pequeño grupo (12) con más de 81 años. al menos. no se ha establecido con anterioridad el número de sujetos participantes.. Por lo tanto. El análisis de contenido aplicado a los relatos producidos por las personas mayores que han participado en el estudio se inicia a partir de la grabación en audio y trascripción literal de la información recogida. 1992). 372 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. solamente se pensó en hacer referencia a las diferencias con relación al sexo cuando los porcentajes encontrados marquen una elevada preponderancia. Cambourne. En cuanto al sexo de estos participantes la distribución ha sido bastante equitativa entre las mujeres (79) y los varones (68). éste se dejó abierto estimando la suficiencia de los datos a lo largo del proceso de análisis. no tiene como finalidad la cuantificación ni la generalización de resultados sino orientar sobre la preponderancia o singularidad de las mismas permitiendo. Brasil y Venezuela).EVALUACIÓN SOBRE LAS CARACTERÍSTICAS . p. Para reforzar la validez interna del significado. en el apartado de resultados. en los demás casos se realizarán comentarios de modo colectivo. El análisis de esta información se desarrolló a partir del despliegue y depuración inicial. En total. out. A su vez. En general (140 participantes). 1984). reduciendo los datos en unidades categoriales de significado para el estudio (Hernández Pina. Participantes Los participantes objeto de estudio se concentraron en los centros de salud de las localidades de Porriño y Tomiño. Con relación a la edad. emergen de la información recogida focalizada en el objetivo central de la investigación. en base a la saturación de la información obtenida. han vivido en algún momento de su vida en el medio rural y otros lo han hecho en núcleos urbanos en calidad de emigrante en Europa (Alemania. situadas en el área norte de Atención Primaria de la Provincia de Pontevedra (España). 2009 ./dez. 2004). así mismo. con el fin de mejorar su estilo de vida (Pino. México. Una parte importante de estas personas mayores están casadas (52 mujeres y 49 hombres) y las demás se encuentran viudas (18 mujeres y 13 hombres) o solteras (9 mujeres y 6 hombres). 2001). este recuento posibilita tener una visión general de la distribución de las categorías específicas. Procedimientos de análisis Para la recogida de información. En estos centros.31. en la categorización. Éstos. profundizar en el análisis. con el objeto de brindar evidencias que posibiliten ahondar en la reflexión. hemos constituido los núcleos de análisis (categorías) teniendo en cuenta su consistencia a través de la configuración de elementos comunes. 1998).369-82. desde el año 2002. El análisis de contenido de los relatos se aborda a través de una categorización general (primaria) que aglutina en su desarrollo las distintas categorías específicas fruto de la información recabada. A todos los pacientes se les solicitó el consentimiento para recopilar y estudiar sus relatos.13. se realiza un esfuerzo considerable por poner en marcha programas de educación para la salud destinados a personas igual o mayores de 65 años. análisis y conclusiones. Lecompte. La fiabilidad de la codificación de las categorías fue definida por el grupo de investigadores responsables del estudio previo diálogo con los miembros del equipo de recogida de información. han participado en el estudio personas comprendidas entre los 65-70 años (56 mayores). se ofrecen al lector fragmentos ilustrativos extraídos de diferentes relatos. habían recibido las directrices oportunas para realizar la recogida de información y guardar el anonimato de los participantes. de 71 a 75 años (48). Suiza y Francia) o Latinoamérica (Argentina. para así determinar la conclusión de la fase de recogida de información (Marcelo.

sólo unos días pero nada. su actividad laboral estuvo centrada en tareas poco cualificadas y dispusieron de escasas posibilidades de promocionar dentro de la empresa. en el sector servicios (27.1 %) tienen estudios secundarios y solamente uno de ellos es licenciado. en la aldea”. out.9%) y en el sector secundario (15%). En general.C. mujer) Normalmente las mujeres son amas de casa (83 %) y compatibilizan este trabajo con las tareas agrícolas.. hombre) “Un nivel económico bajo. aunque gran parte no ha finalizado la escolaridad obligatoria. (Relato 32. En este apartado exponemos los datos obtenidos con el estudio en función de las categorías analizadas. lo que marcó de forma determinante sus vidas ya que no pudieron estudiar y comenzaron a trabajar muy jóvenes para poder ayudar económicamente a sus familias. unos pocos (10%) no menciona nada al respecto. vivíamos en el campo. los centros de salud se encuentran ligados geográficamente al campo. Por lo tanto. M. Éramos seis hermanos”..369-82. el nivel de estudios de estas personas mayores es precario (21. 2009 373 artigos Resultados .13. mujer) Como podemos observar era habitual que dejasen de ir a la escuela para ayudar a sus padres en las labores domésticas o del campo. A continuación. M. no consideran que sus condiciones de trabajo fuesen precarias y relatan que sus circunstancias existenciales eran aceptables. lo que repercutió en su formación y salidas profesionales. Con una formación tan precaria. n. muy bajo. de ahí que la mayoría de las personas mayores estén vinculadas al hábitat rural y continúen desarrollando alguna tipo de labor agrícola: “Vivíamos en el campo.1 %) han realizado algún curso en los estudios primarios. trabajando mucho. PORTELA. No iba todo el día porque a veces tenía que trabajar en el campo algo. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.8%). yo estaba con mis abuelos. introducimos los respectivos subepígrafes con la categorización general (primaria) para profundizar en la interpretación de los resultados obtenidos a través de las respectivas categorías específicas. mientras que los varones trabajan en el campo (45 %).31. RICOY. unos pocos (8. pero bajo del todo ¡eh! Al no haber sueldos buenos.. y a lo mejor iba medio día”.. tenía que ir al campo más que a otra cosa”. mujer) Entre los participantes destaca el bajo nivel económico del que disponen durante su infancia. muchas de ellas (70. (Relato 15. (Relato 142. apenas saben leer y escribir. a los siete años se empezaba y hasta los trece continuábamos./dez. Nivel socio-económico En un entorno agrícola como lo es el gallego. p. (Relato 45. ir a la hierba o hacer cosas de casa: lavar la ropa. La ayuda de los menores en las tareas del campo y del hogar convertía el absentismo escolar en una lacra sociocultural como se ilustra con el siguiente fragmento de uno de los relatos recogidos: “No fui a la escuela. (Relato 35) “Fui a la escuela. El campo no da para muchas cosas”. Yo empecé a trabajar a los trece años en una fábrica de madera”. Los siguientes fragmentos ilustran estos hechos: “El nivel económico era bajo. Antes se iba muy tarde. (Relato 102. mujer) “Cuando era pequeña éramos cinco en casa. J. .PINO.

estoy muy contenta. hasta que hice el servicio militar. se pudiera ir a España y me anote para venirme a España. out. De hecho./dez. hombre) Otros participantes han pasado por un periodo de transición: “Los primeros meses mal.2 %) expresa que aún no se ha jubilado porque no tiene derecho a pensión contributiva. otras (29. los participantes (46. Los momentos duros los relacionan fundamentalmente con la pérdida de actividad. el marido podía hacer lo que quisiera. no me pasaba el día. un mercadito. lo lleve muy mal.. emborracharse o lo que se le antojase”. como si fuese un simple problema familiar: “Eran cosas que pasaban. casarte era la meta de todas. bien. Después me casé y me fui para Argentina.369-82..3%) lo hacen de manera forzosa a causa de una enfermedad y un pequeño grupo (12. Eché un año. Vine y después marche a Alemania. Muchos emigrantes dejaban aquí a sus familias y cuando se produce el regreso se encuentran con un núcleo familiar que casi desconocen. algunas mujeres relatan el abandono y la soledad sufrida e incluso la vida dura que han padecido al lado de su marido. bien”. Su vida laboral activa fue intensa y dura. pero después mal. salir. hombre) Muchas de estas personas mayores han trabajado en diversas empresas y sectores y se jubilaron al llegar a los 65 años (46. Estuve allí siete años.EVALUACIÓN SOBRE LAS CARACTERÍSTICAS . En general.9%). Allí estuve de ayudante de mecánica para los barcos y luego quedamos en la calle y me fui para un taller metalúrgico. Después un amigo me dijo si quería ir con él para un bar y fui. Con todo. y allí me quedé. Tuve un negocio por mi cuenta cuando salí de navales. p. ahora estoy jubilado”. (Relato 79. mujer) Sin embargo. “Muy mal. con gran esfuerzo. n.3%) se alegran de jubilarse porque en este momento de sus vidas disfrutan de cosas que hasta ahora no habían podido hacer: “Después de jubilarme bien. la mayor parte de ellos salieron de su pueblo natal e incluso emigraron a otros países para realizar distintos tipos de trabajos: “El primer oficio fue de panadero. Vendió su parte a unos chicos. (Relato 38...13.. mujer) 374 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. de relaciones sociales y en otros casos con la convivencia en el hogar. hombre) “Hasta los veintidós años trabajé en el campo. (Relato 74. Bien de principio.. estaba acostumbrado a moverme y quedarme parado. porque estaba hecho a trabajar en el bar y todo. 2009 . Ahora debía de tener de nuevo diez años por lo menos. lo asumen como si se tratase de algo normal. Después falleció la señora y fui al consulado y vi que había pasajes para el que quisiera y llevara mucho tiempo allá.31. Después estuve en casa. bien. (Relato 87. Ya traía jubilación de allá”. (Relato 50. era algo anormal”. de aprendiz. Me dediqué a jardinero también. Después estuve un par de años y volví. (Relato 56. entrar. en casa. un grupo (34%) señala haber pasado momentos de tristeza al llegar la jubilación y al resto le resultó indiferente. hombre) Hemos de señalar que las personas que hablan directamente de la jubilación son varones. En Alemania trabaje en una fábrica de neumáticos cerca de cuarenta años y así. Muy bien porque la pensión de jubilación no es grande pero no tengo que estar trabajando y lo vamos repartiendo y vamos viviendo tranquilos”. pero después bien.

con paciencia (15%) o con nerviosismo y ansiedad (1. hiperlipemia. no puedes confiar en nadie”. M. hombre) Los momentos más felices que manifiestan los participantes siempre giran alrededor de sus años de juventud (o pudiera ser una revelación de la añoranza que sienten por el tiempo pasado) y en torno a acontecimientos familiares: “Pues. Llama la atención. ni por escrito.369-82.9%) manifiestan que se enfrentan positivamente al deterioro de la salud. otros (36.PINO. alegría (29. manifiestan sentimientos de tristeza (28. para hacer salidas o excursiones y cocinar. ahora por mucho que digas. en menor medida. 2009 375 artigos Actividades de la vida diaria . Además la franqueza que había antes.5%)..31. Aquellos que no pueden desarrollar las actividades. hombre) “Lo más alegre. Cuidados y atención sanitaria En la actualidad. en la actualidad. n.. Muchas de las personas mayores (73. malestar (6. o que ésta sea una forma de evadir o esquivar el problema que representa su incapacidad. diabetes o tabaquismo en los varones. En cuanto a las actividades que realizan en su tiempo libre.8%). notoriamente.7%) y. los momentos más felices.4 %). antes palabra era palabra. out. muchos de los mayores que participan en el estudio (46. es que nuestros mayores pocas veces nombran como personas allegadas a ellos aquellas que no pertenecen a su núcleo familiar. para realizar algún trabajó menor en el campo y en dar paseos (19. bailar y acudir a fiestas populares (15.5%) no señalan ningún acontecimiento que haya marcado sus vidas. al comentar con quien realizan las actividades de ocio observamos que normalmente lo hacen con personas con las que no les une ningún parentesco.. M.7 %) indican que lo afrontaron negativamente. (Relato 41. tener los hijos y tener nietos como tengo. el compañerismo.6%).. hipertensión.3%) y un pequeño grupo (15%) ni las menciona. J.13. Ambos grupos utilizan su tiempo libre.. fundamentalmente con vecinos y amigos. (Relato 61.. RICOY. por lo tanto. la respuesta de alegría que dan algunas personas al no poder realizar actividades cotidianas.8%)./dez. acepten las consecuencias que se derivan del envejecimiento.. destacan para las mujeres coser (25%) y para los hombres los juegos de cartas y ver los deportes en TV (15%). (Relato 78. esto puede deberse a que asuman con tolerancia y resignación su realidad y. resignación (13. que hemos referido anteriormente. PORTELA. las enfermedades que padecen están relacionadas con una degeneración ósea.C. Gran parte de los mayores echan de menos el apoyo familiar sobre todo cuando sufren alguna enfermedad: COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. impotencia (6. sin embargo. mujer) Una información que llama la atención. mi juventud a pesar de ser así fue muy feliz porque a mi me gusta mucho la naturaleza y yo disfruto con la naturaleza. entre otras actividades. y alegría y tener un marido como tengo que es un sol”. pero. La totalidad de las mujeres manifiestan que tuvieron a sus hijos en el domicilio ayudadas por la partera del lugar o sus madres. En general. y cuando llevo a otro (jornalero) pues es aún peor porque no lo hace como yo quería”. p. y soy muy manitas y claro gozaba.6%).. Aquellos que no pueden trabajar en el campo señalan que les gustaría hacerlo y sienten añoranza de las labores que desarrollaron años atrás: “Me sienta muy mal no poder ir al campo. Ahora todo es egoísmo. esto se debe a que consideran normal la pérdida de algún hijo en abortos naturales o en los primeros días de vida.

mis hijos fuera. Un especialista que fuera bueno”. bebe algo”.: “Triste es que mi mujer está bastante mal. nunca me encuentro como debo de encontrarme”.. hombre) Encontramos que los momentos más tristes para las personas mayores son consecuencia de diferentes episodios ligados a las desgracias personales o familiares. También que hubiera charlas. sobre todo de especialidad médica: “Que hubiera un médico que mirara todo. hemos de precisar que la mayoría de las visitas no se deben a patológicas. no seguir las pautas de alimentación de acuerdo con su enfermedad o desconocer que actividades físicas pueden practicar). mujer) Otros participantes están unidos a sus vecinos para evitar la soledad: “Los vecinos están para todo.. por ejemplo.31. y aunque no viven lejos no vienen por aquí a no ser que uno esté muy mal”. “Tengo a mis hijos trabajando todos. me quede sólo. hombre) En general (80%). mujer) Las personas mayores (95. 376 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. (Relato 56. (Relato 98. mujer) “Tenía que haber todos los servicios para no tener que trasladarse. sino para resolver problemas burocráticos (recetas en el caso de enfermos crónicos. (Relato 122. (Relato 46. para llevarte al médico. (Relato 145. y la rehabilitación también porque no creo que sea tan difícil ni tan costoso”. (Relato 34. para lo que sea. abandono y pobreza). para echar una parrafada. hombre) “Los momentos más tristes son cuando me pongo enfermo. documentos para tramitar la pensión. hombre) “Cuando mi mujer murió. (Relato 126. 2009 . A pesar de que la utilización que realizan los participantes de los servicios sanitarios es excesiva. mujer) “Me gustaría que hubiese radiología. ni ir al banco”. n. y un pequeño grupo manifiesta una menor complacencia. problemas sociales (soledad. out.2%).369-82.. todo está mucho mejor. acuden directamente al centro de salud: “Desde que tenemos el centro de salud. anotarse a las excursiones organizadas por el Instituto de Servicios Sociales y para acudir a los balnearios subvencionados). en fin. me gustaría mucho. Son muy amables y ayudan en todo lo que pueden”. Yo le tengo muy buenos vecinos la verdad”. Algunos mayores reivindican nuevos servicios para sus centros de salud. mujer) En otros casos. Puedes acudir allí si tienes algún problema.. En sus relatos. nuestros mayores están muy satisfechos con el sistema sanitario del que disponen y con los servicios que le ofrece actualmente. Yo participaría”. enfermedades que padecen. p.13. están contentas con la función que desarrolla el personal sanitario y el trato que se le da en los centros de salud públicos.EVALUACIÓN SOBRE LAS CARACTERÍSTICAS . (Relato 58. cosas relacionadas con la salud para nosotras./dez. las personas mayores también manifiestan que les gustaría implicarse en actividades promovidas por los centros de salud para mejorar su calidad de vida (83%). pérdidas familiares etc. (Relato 55. Yo no sabía hacer nada sin ella. problemas psicológicos (angustia y depresión) o problemas educativos (por no saber utilizar correctamente su medicación.

más como una postura ante la vida que la consecuencia de su estado físico. Un grupo de personas mayores (49%) considera que su salud es regular. que aquellas personas que tienen menos relaciones sociales visitan más al médico que las que desarrollan diferentes actividades y. a través de los relatos. sobre todo de la familia. M. es más acuciante en los participantes cuyas enfermedades les producen un dolor pronunciado o en los que han perdido a su conyugue después de muchos años de convivencia. y poseen una independencia económica que les facilita tomar decisiones libremente sobre su ocio. Mis nietos si digo algo ni me oyen. los amigos. mientras otro la perciben como buena (32. mientras otros indican que no sufren dolor (37. si estamos bien podemos salir y hacer muchas actividades en el ayuntamiento. lo justifican señalando que deben de ir a recoger las recetas de medicamentos debido a enfermedades crónicas que padecen. hombre) De los relatos recogidos. hombre) Una valoración negativa ante la vida. J. Además tenemos todo el tiempo./dez.31. en el centro de salud.4 %). en los relatos lo más revelador. “Esta es la mejor época de nuestra vida. (Relato 137. nuestros padres no pudieron disfrutar nada de esto”. (Relato 53. p. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.. mujer) Esta percepción positiva sobre la salud tiene relación con el nivel de independencia física.3 %) y unos pocos expresan que lo padecen algún día por semana. denuncian su malestar por la imagen negativa que tiene de ellos la sociedad: “Piensan que no servimos para nada. n. En algunos casos (13%).369-82. Algunos mayores manifiestan que sienten dolor casi todos los días (34. y una minoría como muy buena (5.PINO. excursiones. su red social suele ser más amplia y mantienen el tiempo ocupado. La cuestión es no perder la cabeza y poder andar bien”. visitan más al médico los que no realizan actividades de ocio. es que la etapa de la jubilación es la más apacible de su vida. muy mala (2%) o mala (10. A mejorado mucho la cosa.13. out.4 %). En general.C. “Ya quedamos los martes para ir al centro de salud y así nos acercamos al mercado y ya volvemos juntos en el taxi. M. y también económica con el que cuentan. RICOY. no viven con familiares directos y en algunos casos hasta se llevan mal con los vecinos (4 casos). sí no existen enfermedades muy graves. Este hecho. utilizan los servicios sanitarios como mínimo dos veces al mes. (Relato 76. sienten el apoyo familiar y también de los amigos. Además si llueve o hace frío allí hay calefacción y se está bien”. como es natural. Podemos hacer lo que queramos y tenemos muchas oportunidades: bailes. Las personas mayores a pesar de considerar que poseen buena salud para la edad que tienen. y también en el centro social. (Relato 59. en general. les parece que ya no sirve y lo que digo son tonterías”. se deduce que los participantes consideran su bienestar. por lo tanto. mujer) Descubrimos con las manifestaciones de los participantes. a la ausencia de enfermedades invalidantes y al apoyo social. por vacunaciones.. PORTELA. De su vejez valoran fundamentalmente la libertad de la que disponen para realizar muchas cosas para las que antes no tenían tiempo. “Ahora las cosas van mucho mejor. aunque sus años más felices los relacionan con la juventud. En concreto. gracias a las pensiones. 8 %). Se aprecia una percepción positiva ante la vida cuando mantienen sus relaciones sociales. curiosamente en algunos casos señalan el centro de salud como lugar de encuentro y conversación.9 %). 2009 377 artigos Autopercepción de la salud .

Si no le hiciera caso. En algunas investigaciones se observó una correlación inversa entre apoyo familiar y número de enfermedades (Salgado de Zinder.31. aunque ésta también puede ser una forma engañosa de autoconsuelo o desahogo. De hecho./dez. en muchos casos. Normalmente estas actividades las realizan con amigos. 2001). Voy allí y el doctor me dice lo que tengo que hacer con mi hija y mis nietos que solo me dan disgustos. 2009 . 2005). 1997).EVALUACIÓN SOBRE LAS CARACTERÍSTICAS . Sin embargo. bailes.13. actualmente con su incorporación al mercado laboral disminuye la dedicación (Pascual Monzó. Tradicionalmente. etc. y no sé que hacer. que me falta el aire. (Relato 82. Otro aspecto a tener en cuenta con 378 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 2007). Meléndez Moral.. pero también en sus vecinos y amigos. funcionalidad y además redes de apoyo familiar y social (Ors. era en el ámbito familiar y privado donde la persona mayor encontraba cobijo y amparo gracias a la labor en el hogar de la mujer. Los participantes.369-82. 2007). la percepción positiva de la salud parece estar más relacionada con el mantenimiento de una red de apoyo social o una independencia económica que con el estado físico. 1999). Además. mujer) Algunas personas mayores tienen la falsa creencia de que los avances científicos actuales pueden dar solución a cualquier problema de salud: “Ahora con los avances nuevos que hay se puede vivir mucho mejor. sino más bien para pedir consejo: “A veces voy porque estoy que no respiro. El trabajo en el campo continúa formando parte de la vida de nuestros mayores. se constata que la mayoría de las relaciones sociales se producen con los vecinos. En otra investigación encuentran que los mayores sienten la obligación de incluir a familiares en su red social (Piñón Paya. juegos. algunos estudios señalan que la calidad de vida en la vejez se supedita a disponer de salud porque supone independencia. que han padecido. Si te viene un cáncer no hay nada que hacer”. frente a los elementos de seguridad como los más insatisfactorios (Molina Sena. Meléndez Moral. se ha detectado en otro estudio una tendencia del anciano por sentirse satisfecho con la propia historia de vida (Molina Sena. out. no acuden al médico para buscar un diagnóstico.. (Relato 112. familiares o vecinos. La percepción negativa que tienen sobre su salud algunas personas mayores parece estar asociada al padecimiento de enfermedades que producen un dolor importante o a la pérdida de las relaciones sociales. A través de otro estudio cualitativo se ha llegado a la conclusión de que entre las variables generadoras de bienestar destacan los elementos familiares y sociales como las categorías más satisfactorias. De hecho. De hecho. desde su juventud a pesar de las penurias sufridas porque en el entorno en que vivían estaban normalizadas. Las personas mayores consideran que tienen buena salud y sólo les angustia la falta de autonomía y el deterioro de la capacidad cognitiva. y lo compatibilizan con otras actividades como excursiones. ya que todos soportaban calamidades. 2001). Resulta evidente en el estudio la importancia de mantener las relaciones sociales basadas fundamentalmente en sus familiares directos. Si en el centro de salud no hay técnicas nos mandan al hospital que hay de todo y te arreglan lo que haga falta. es relevante indicar que la soledad tiene una posición prevalente en las mujeres frente a los varones. Laguna. Y si tienes que morir te mueres. hombre) Conclusiones y discusión Las personas mayores consideran aceptables las condiciones duras de vida. incluso como ocio. Cada uno es como es”. p. n. Algunos estudios ponen de manifiesto que las memorias acumulativas de un lugar permiten a las personas mantener una autoimagen favorable a pesar de las contingencias de su vida posterior (Taylor. de hecho integran parientes con los que apenas mantuvieron contacto y presentan reticencia a incorporar personas con las que frecuentemente pasaban muchas horas.

así como la integridad psicológica con programas de estimulación cognitiva.Proporcionar nuevas ofertas de actividades para el tiempo libre. señalándose que éste puede ser consecuencia de la falta de estímulos adecuados (Laforest. y actividades de mantenimiento físico y motriz aprovechando las rutinas cotidianas de las personas mayores.13. es importante identificar.Diseñar planes para la intervención preventiva primaria mediante estrategias educativas que favorezcan la adopción de hábitos saludables.31. 1991). p. 1997).C. desde el propio coprotagonismo de los mayores: adquiriendo sentido de responsabilidad sobre su propio bienestar y el del colectivo.Mantener. En este punto. cursos. tomando parte en las deliberaciones y decisiones de problemáticas que afecten a la comunidad.PINO. Para ello. J. . participando en iniciativas sobre planes y adopción de medidas para atender a sus necesidades y expectativas. ampliar y dinamizar la red de apoyo social con el fin de que se sientan útiles en su comunidad y mantengan los vínculos de unión que le permitan considerarse miembro de la misma. . RICOY. Julio Portela. charlas. para las personas mayores. M. . consideramos que los programas de tiempo libre deben partir de las necesidades contextuales en las que se encuentran inmersos los mayores. Por ejemplo. sus intereses y posibilidades. en las asociaciones culturales u otros organismos mediante diferentes técnicas participativas: encuentros.. retener o aprender la letra de sus canciones favoritas o pasear a diario en grupo. que tengan como meta organizar y movilizar a este colectivo. PORTELA.Favorecer la conservación de la capacidad funcional. 2009 artigos personas mayores de 65 años es la visión que tienen sobre su salud. para evitar el desarraigo y la soledad. Colaboradores Margarita Pino y Maria Carmen Ricoy. memorizar la lista de la compra. M.. ya que incide de forma determinante en su autonomía e independencia. integrando armónicamente sus dificultades con las potencialidades que presentan (Ricoy. 379 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. han sido responsables y colaboraron conjuntamente en el desarrollo de la totalidad del artículo elaborado. Algunas sugerencias Con el apoyo pertinente de los organismos públicos y/o privados adelantamos como ejes pedagógicos asociados a la promoción de la calidad de vida con personas mayores algunas líneas de actuación: . . Estos programas pueden llevarse a cabo en los centros educativos o de salud. Es un hecho la repercusión negativa que sobre la salud y el bienestar de las personas mayores tiene el disponer de mucho tiempo de ocio sin utilidad alguna (Auer. 1999). dado que el riesgo de mortalidad se reduce en las optimistas (Van Doorn. n. realizar otras tareas sencillas en el hogar. ./dez.Crear cauces de participación comunitaria. out. talleres etc. colaboró en el asesoramiento médico. así como a la evaluación sobre el grado de satisfacción y resultados. mediante un protocolo de actuación los problemas más característicos sobre la salud de la población mayor.369-82. 2004). intercambios.

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M..13. com a lavoura no campo. M. Avaliação sobre as características do processo de envelhecimento por meio de histórias de vida. p. v. ressalta-se que as pessoas idosas conciliaram seu trabalho no setor industrial. RICOY. De um modo geral.. Pessoas idosas. n. Quanto às atividades que realizam no seu tempo livre. Qualidade de vida... 2009./dez. Como resultados e conclusões. Avalia-se a percepção que apresentam as pessoas idosas sobre os fatores que influenciam sua saúde e seu desenvolvimento vital como ponto de partida para melhorar sua qualidade de vida.C. Palavras-chave: Autopercepção da saúde.31.369-82. ou de serviços. PORTELA..31.EVALUACIÓN SOBRE LAS CARACTERÍSTICAS . Educ.. Aprovado em 19/07/09. em uma investigação avaliativa com abordagem biográficonarrativa.13. Histórias de vida. 2009 .Comunic. n. Estão satisfeitos com a assistência que recebem na saúde. embora demandem novos serviços de especialidade e formação na educação para a saúde. PINO. 382 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. J. Interface . destacam-se a costura para as mulheres e os jogos de cartas e a programação desportiva da televisão para os homens. out./dez. p. Recebido em 23/10/08. São analisadas 147 histórias de vida dos pacientes com idades entre 65 e noventa anos. os pacientes defrontam-se com a deterioração da saúde positivamente.369-82. out. Saude.

Região 03 (Bahia/ Sergipe) COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.13. a utilização dessa variável em estudos de desigualdade em saúde é ainda incipiente. têm sido evidenciados diferenciais que instigam maior produção de pesquisas nessa direção. Saude. Public Health. Forty-seven original articles and reviews produced between 1990 and 2005 were included in this study. Keywords: Social inequity. In Brazil. Investigations on the role of race/color in producing health differentials may produce information capable of contributing towards drawing up policies aimed at reducing healthcare inequalities. Av.13. Universidade Estadual de Feira de Santana. 44. Palavras-chave: Desigualdade social.. 4 Núcleo de Epidemiologia. Race/ color. et al. Observou-se que os estudos internacionais procuram debater e fundamentar o uso da variável raça/cor no campo da saúde. Novo Horizonte. the use of this variable is still at an initial stage. Propôs-se discutir o uso da variável raça/ cor como fator determinante de desigualdades sociais e de exposição social ao risco de adoecimento e morte. 3 Universidade da Carolina do Norte./dez. Trata-se de uma reflexão sobre a produção atual da literatura nacional e internacional da área de Saúde Pública/ Epidemiologia. Foram incluídos no estudo 47 artigos originais e de revisão no período de 1990 a 2005.A utilização da variável raça/cor em Saúde Pública: possibilidades e limites* Edna Maria de Araújo1 Maria da Conceição Nascimento Costa2 Vijaya Krishna Hogan3 Tânia Maria de Araújo4 Acácia Batista Dias5 Lúcio Otávio Alves Oliveira6 ARAÚJO. BA. Departamento de Saúde.383-94. 2009. Investigações sobre o papel da raça/cor na produção de diferenciais em saúde poderão produzir informações capazes de contribuir para a elaboração de políticas destinadas a reduzir desigualdades em saúde. p. p. Saúde Coletiva. Interface . No Brasil. Educ.com 2 Instituto de Saúde Coletiva/Universidade Federal da Bahia. out.31. It was observed that international studies have sought to debate and find a basis for using the variable of race/color within the healthcare field. 2009 383 . entre as poucas investigações realizadas. differentials have been shown and further production of research along these lines has been encouraged. n. Universidade Estadual de Feira de Santana. out.383-94. This study aimed to discuss the use of the variable of race/color as a determining factor for social inequalities and social exposure to the risk of illness and death. This was a reflection on the present production of national and international literature within the field of Public Health and Epidemiology. but among the few investigations undertaken.031-460 ednakam@gmail. 1 Núcleo de Epidemiologia. s/n. Raça/cor. Transnordestina. E. v.31./dez. Health.M. Brasil. n. Universidade Estadual de Feira de Santana. 6 Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia. 5 Departamento de Ciências Humanas e Filosofia. The use of the variable of race/color within Public Health: possibilities and limits.. mas.Comunic. Departamento de Saúde. Saúde.

Victora. pelo menos em parte. e estrutura desvantagens que determinam posição de menor valor para os grupos discriminados. 2000). 2003. 2000. este grupo social está desproporcionalmente representado em posições de poder e. A população negra ocupa posições menos qualificadas e de pior remuneração no mercado de trabalho.A UTILIZAÇÃO DA VARIÁVEL RAÇA/COR . Hasenbalg. 2002). as formas como os homens relacionam-se entre si. Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas . não do ponto de vista biológico. 1984). quando analisada em investigações médicas e de saúde pública que se destinam a quantificar diferencial nas condições de saúde. estes. 384 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v..FIBGE. health status or public health (em inglês). USA) e SciELO (biblioteca científica eletrônica). como nos Estados Unidos.IPEA. reside em áreas com ausência ou baixa disponibilidade de serviços de infraestrutura básica. que o restante da população brasileira (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística . race/ethnicity. 1992). representando um importante determinante da falta de equidade em saúde entre grupos raciais. raça/cor.13. n. 2003. 2000). 2004. ao preconceito racial existente na sociedade brasileira. Foram levantadas e analisadas publicações relacionadas ao tema de interesse em Revistas indexadas pelas bases de dados Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências Sociais)./dez. alguns pesquisadores têm buscado esclarecer tais diferenças fundamentando-se na teoria de determinação social. out. em termos educacionais. a raça/cor tem sido pouco abordada de modo a explicitar como a maneira preconceituosa e discriminatória como a sociedade trata os seus segmentos leva às desigualdades econômicas e sociais. ancorado nas premissas do modelo de determinação social. o Brasil passou a reconhecer a existência de diferença racial como um dos fatores de desigualdade social. 2007. p. 2004.383-94. A despeito de serem escassos os estudos nacionais. objetiva discutir aspectos do uso da variável raça/cor da pele enquanto determinante de desigualdades sociais e fator de exposição ao risco de adoecimento e mortalidade. são de pior qualidade e menor resolutividade (FIBGE. Paixão. quando disponibilizados. Em outros contextos sociais. sofre maiores restrições no acesso a serviços de saúde e. Metodologia As reflexões apresentadas aqui se baseiam na análise da produção da literatura brasileira. publicada no período de 1990 a 2005.. race/color. é mais pobre e menos instruído. Nessa direção. 2009 . embora alguns deles sinalizem para a elevada ocorrência de adoecimento e morte da população negra (Araújo. com a natureza e no processo de trabalho. condições de saúde. embora o Brasil possua a maior concentração de população negra fora da África (Silva. a explicação apresentada para este fato apoia-se na inserção socioeconômica das vítimas. Barros. a variável “raça/cor” tem se revelado como importante preditor do estado de saúde de populações concretas.. Cooper. 2001). O presente ensaio. raça/etnia. e health inequalities. Deste modo. segundo a qual é a posição ocupada pelos indivíduos e grupos no espaço social. que desempenham o principal papel na determinação da doença e de sua desigual distribuição na população (Sant’anna. até recentemente. Medline (base de dados da literatura internacional da área médica e biomédica. verificava-se forte resistência à compreensão de que essas disparidades poderiam ser atribuídas. 2000). da área da saúde. Considerando que já se encontra estabelecido que as variações genéticas entre as raças humanas não são capazes de explicar os diferenciais em saúde por grupos de cor (Pearce et al. norteamericana (Estados Unidos) e inglesa da área da Saúde Pública/Epidemiologia. Os descritores selecionados foram: desigualdade social. ou seja. desigualdade em saúde. que utilizam a variável raça/ cor da pele e. por exemplo. Ainda assim. Batista. Horta. DIEESE. no Brasil. produzida pela National Library of Medicine. raça/cor deve ser compreendida. 2004. saúde pública (em português). Somente a partir dos anos noventa. e de muito baixo desenvolvimento quando estes indicadores se referem à população negra (Paixão. Escuder. do ponto de vista econômico e social. Pereira. Introdução O tratamento diferenciado dado aos diversos segmentos sociais.31. tem contribuído para que o mesmo seja classificado como de elevado desenvolvimento quando são considerados os indicadores sociais da população branca. É notório que. mas como variável social que traz em si a carga das construções históricas e culturais.

A segunda consiste dos diferentes privilégios de que gozam alguns com prejuízo de outros. Para esse autor. 1999). das forças do corpo e das qualidades do espírito ou da alma. 2000). pelo menos. Foram selecionados. n. na espécie humana. inclusive psíquico. como a sabedoria popular destaca. e se a força do corpo e do espírito. a sabedoria ou a virtude. autorizada pelo consentimento dos homens.M. expressão das condições materiais de grupos humanos de determinada sociedade (Castellanos. gênero. como ser mais rico.Unicef. Sendo assim. estes são 12% menos alfabetizados em comparação com a população branca (Sant’anna. têm demonstrado que a população negra apresenta pior nível de educação. Além disso. saúde. paralelamente. se encontram sempre nos mesmos indivíduos em proporção do poder ou da riqueza. 2002). maior adoecimento. busca na base de dados inserindo-se vários descritores ao mesmo tempo. tendo sido essa uma tendência crescente. Nesse sentido. renda. out.13. Estes foram identificados por descritor separadamente e utilizando-se a técnica de combinação booleana. seus salários são menores e também são mínimas as chances de ascensão e mobilidade social (IPEA. enquanto fenômeno natural. não causa preocupação. para esse estudo. incorporando heterogeneidades contextuais. ou seja. não se pode perguntar qual é a fonte da desigualdade natural porque a resposta se encontraria enunciada na simples definição da palavra. para que se alcancem relações mais justas (Vianna. ou mesmo fazer-se obedecer. reside em áreas desprovidas de infraestrutura básica. E. entre a população alfabetizada. A primeira delas refere-se à diferença das idades.se tornam motivo de desigualdades e injustiças (Fundo das Nações Unidas para a Infância . relações entre classes. O que é preocupante é a desigualdade produzida socialmente.31. promovem desvantagens e se transformam em injustiças. ser menino ou ser menina. Ainda menos pode-se procurar saber se haveria alguma ligação essencial entre as duas desigualdades. Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial . Entretanto. 2002. em outras palavras. ter ou não ter uma necessidade especial. É a partir dessa realidade que se aplica o princípio da equidade.ARAÚJO. somente 47 artigos originais e de revisão. pois isso equivaleria a perguntar. da saúde. p. compete indagar em que medida as diferenças enquanto expressão de diversidade entre ser branco ou ser negro. Enguita (1998) ressalta que a desigualdade. Hasenbalg. reprodução. Mulheres e homens negros são duas vezes mais pobres e vivem 2. habitação. e. marcadores da condição de vida dos segmentos sociais. morar em área urbana ou rural . Rousseau (1754) concebia. A distribuição desses indicadores brasileiros tem representado um importante papel na negação da “democracia racial”. dos processos de reprodução social da vida cotidiana. que depende de uma espécie de convenção estabelecida ou. se aqueles que mandam valem necessariamente mais do que os que obedecem. faz-se necessário buscar os princípios estruturantes da desigualdade em sua gênese. questionando sistemas simbólicos. e tem pior acesso aos serviços de saúde (IPEA. 2003. estabelecida pela própria natureza. 1992). mais poderoso do que os outros. que se traduz no reconhecimento de que é preciso tratar de maneira distinta aqueles que não se encontram em condições de igualdade. 2001). haja vista as profundas diferenças observadas nas condições de vida dos segmentos populacionais. 2009 385 artigos . maior mortalidade. 1997)./dez. Foram encontrados 118 trabalhos entre artigos originais completos e de revisão.6 vezes mais em situação de indigência quando comparados com homens e mulheres brancas. ambiente social familiar e. constata-se que os indicadores sociais. mas. ser rico ou ser pobre. ser do norte ou ser do sul. subjetivas e qualitativas. Particularizando-se a questão das diferenças raciais no Brasil. aproximar-se dessa problemática requer: o estudo das condições de vida.383-94. lutar pela equidade significa atentar para as diferenças que geram situações de vulnerabilidade. comentários e perspectivas publicados em português e em inglês. porque nela está implícito que as vantagens obtidas por uns implicam desvantagens para outros. e a moral ou política. editoriais. et al. Desigualdades sociais e saúde Para entender a origem das desigualdades em saúde ou em qualquer área. analisando diferenças nas situações de saúde de grupos étnicos. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. é tão velha quanto a própria vida. Mesmo quando os negros conseguem estudar mais. dois tipos de desigualdade: a natural. os negros brasileiros apresentam as mais altas taxas de analfabetismo. ser índio ou não.INSPIR.

o termo “raça” favorece ambiguidade conceitual (Lopes. em pesquisas médicas e epidemiológicas a variável “raça” deve ser utilizada enquanto construto social.31. 2000a. (2004.A UTILIZAÇÃO DA VARIÁVEL RAÇA/COR . têm revelado um gradiente social nas taxas de mortalidade. Jones. destacando-se. tanto pode expressar uma perspectiva de construção social como. já que existem países relativamente pobres.doença. haja vista que a melhoria das condições de vida se relaciona com a redução de muitas doenças..16) salientam que a concepção de que genótipo determina fenótipo é errônea.. Raça/cor versus fatores biológicos em pesquisas na área de saúde Grande parte da literatura envolvendo a relação entre raça e saúde enfatiza a falta de evidência científica ao se atribuírem. como um significado de identidade da origem geográfica das pessoas ou como marcador genético não tem sentido porque a ciência já demonstrou que. O uso da variável raça/cor da pele. mesmo se elas forem genéticas. tal gradiente é influenciado por fatores tais como: posição social.300 nascimentos). De acordo com este autor. do ponto de vista genético: “a única coisa certa é que um 386 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Pearce et al. eles são “apenas uma peça de uma conjuntura mais ampla”. embora fatores genéticos tenham influência sobre a saúde. p. 2005. De acordo com alguns autores. Estudos realizados em países industrializados. a fatores biológicos.3). do ponto de vista das ciências biológicas. nos estudos sobre o tema. assim como tem sido apontada. hierarquia e poder (Marmot. 2009 . Estudos realizados por esses pesquisadores na Nova Zelândia evidenciaram que doenças hereditárias puramente genéticas são muito raras . 2004). 2003). já que aspectos políticos. mesmo em pesquisas na área de saúde. sugerindo fortemente que elas não são. 1991).SEF. mais relacionada a fatores ambientais do que genéticos. em Saúde Pública. p. as diferenças raciais observadas em diversas doenças. respectivamente. n.. Por sua vez. 1999). estar refletindo muito mais um ambiente e estilo de vida comum do que uma influência genética (Pearce et al. por exemplo. pode../dez. sobretudo. primariamente. na realidade. Desse modo. Segundo esses estudos. entre elas: as diferenças no acesso às oportunidades na vida (Kaplan. aumento da exclusão social. como Índia e Costa Rica. Portanto. também. onde se observam baixas taxas de mortalidade. 2004). Portanto. 1991) já que o seu sentido. 2000). 2003). a suposição de que doenças são genéticas porque elas ocorrem em pessoas de uma mesma família..e representam uma pequena proporção da carga total de doenças.000) . além da inexistência de características que permitam definir de forma inquestionável a raça de uma pessoa. 2004). participação social e controle (Marmot. há maior variação genética entre indivíduos com características fenotípicas semelhantes do que entre aqueles com fenótipos diferentes (Southern Education Foundation . pois. Segundo Evans (1994. 2001). Jones. mesmo entre pessoas que não são pobres. é errônea a ideia de que saúde e doença estão relacionadas diretamente com poder econômico e pobreza. a necessidade de se considerarem fatores históricos e estruturais. The Whitehall Study.a exemplo de Fibrose Cística (1/2. 1997. tendências observadas nas taxas de mortalidade fornecem evidências de que fatores genéticos são insuficientes para explicar diferenças raciais em saúde. Krieger. Isso se deve à imprecisão ou polissemia do conceito de raça e etnia. genéticas (Pearce et al. Estudos têm evidenciado que fatores genéticos têm menos importância na determinação de adoecimento e mortalidade da população do que fatores ambientais. falta de controle e perda do respeito (Wilkinson. étnicos e sociais podem desempenhar papel crucial na sua definição (Chor et al.383-94. como. Essas evidências se constituem em espaços abertos para se investigar outros fatores também importantes na determinação do processo saúde . out. conflitos e desgaste da coesão social (Kawachi. biológica. Por exemplo. A constante interação entre genes e ambiente indica que poucas doenças são puramente hereditárias. têm sido apontados mecanismos pelos quais as desigualdades sociais e econômicas poderiam afetar a saúde. “o status de saúde está também correlacionado com status social”. diferentes possibilidades de controle e participação na vida social por meio do status. haja vista a determinação genética explicar apenas uma parte ínfima do adoecimento e mortalidade das populações (Pearce et al.. Esses achados têm instigado a realização de investigações que explorem a relação entre ambiente social e saúde. Distrofia Muscular de Duchenne (1/3000) e Doença de Huntington (1/10. 2002). Nesse sentido.13. p.

1996. e interpretações e conclusões simplistas que podem levar à ênfase espúria na explicação dessas desigualdades. 1996). p. uma publicação do Instituto de Medicina norte-americano também evidenciou que existem grandes diferenças raciais na qualidade e intensidade do tratamento médico. Essa constatação tem levado epidemiologistas norte-americanos. 2000b. para Cooper (1984) não faz sentido tratar nível socioeconômico como variável confundidora na associação entre raça e doença.13. Portanto. a depender da ideologia de quem as observa (Krieger. 2000b. pois.. de forma mais contundente. Têm-se verificado também esforços para construção de propostas metodológicas nesta perspectiva (Krieger. já que. apesar de essas duas variáveis estarem correlacionadas.31.383-94. Williams. 1998). Osborne. foi observado que pesquisas sobre baixo peso ao nascer e pressão arterial também evidenciaram piores resultados para a população negra. os indivíduos de nível socioeconômico mais baixo. out. o conceito de “padrão-ouro” não parece ser adequado”. além da condição socioeconômica. Por outro lado. que vêm servindo de referência para outras nações. não elimina o excesso de risco na população afro-americana (Krieger. a partir da década de 1990. 2001). Nos Estados Unidos. Osborne. foi estimulado o estudo de aspectos de desigualdades sociais que. (2005). n. ressaltassem o papel da raça/cor e gênero na produção de resultados negativos em saúde (Krieger. Williams. a tratarem nível socioeconômico como possível variável de confusão da associação entre raça e doença (Williams. Krieger. como Estados Unidos e Inglaterra. Os estudos que relacionam raça com disparidades sociais nos resultados de saúde demonstram que essa variável é um importante preditor do status de saúde. embora o ajustamento por pobreza reduza substancialmente. Desigualdades em saúde e raça/cor em países desenvolvidos A relação entre raça/cor e saúde vem sendo investigada em países desenvolvidos. que estudam desigualdade em saúde determinada por raça e gênero. 2009 387 artigos . 2000a). o que derruba a ideia de raças geográficas (SEF. Naquele país. raça/cor é uma dimensão particular da estratificação social.M. mesmo após ajustamento por fatores de acesso. a utilização desta variável sem que a mesma esteja acompanhada por uma ou mais variáveis de estratificação social para evitar erro de especificação do complexo de riscos. e o emprego desta abordagem tem aumentado recentemente. A combinação de autoclassificação e classificação por terceiros. que define COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Pesquisadores americanos têm observado que doenças crônicas que incidem entre negros e brancos acometem. uma vez que a raça é um dos fatores determinantes do status socioeconômico. Em 1996. Essas podem ser atribuídas a fatores genéticos ou a fatores socioambientais (Pearce et al. sendo raça/etnia entendida como uma “construção sociocultural. haja vista negros estarem em desvantagem quando comparados com brancos.8) chamam a atenção para os métodos classificatórios de raça/cor. Entretanto. Entretanto. raça e gênero são usados extensivamente na literatura médica e de Saúde Pública para quantificar diferenças raciais no tratamento e nos resultados em saúde. 2000a). 2001. 1994).189). destacam os seguintes problemas: não conceituação e justificativa da utilização da variável raça/cor nos estudos de desigualdades em saúde. Chor e Lima (2005. Nessa perspectiva./dez. p. elas não são idênticas (Lovell. O consenso que há entre os autores é que o uso da variável raça/cor poderá ser útil apenas como marcador do risco de discriminação ou de exposições sociais. p. todos os seres humanos pertencem a uma mesma espécie. 1993). Está bastante documentado pela literatura que pobreza está associada com risco elevado de baixo peso ao nascer entre afros e brancos americanos. No entanto. raça tende a predizer riscos aumentados de saúde independentemente da condição econômica. condição socioeconômica e severidade da doença (Williams. há controvérsias quanto às diferenças residuais encontradas na comparação dos resultados de saúde entre negros e brancos.ARAÚJO. deve ser aplicada de acordo com o objeto de estudo. trazendo à tona a importância da reflexão sobre o problema. 2004. 1992). em especial. E. Na revisão de literatura conduzida por Dressler et al. et al. 1992). Dessa forma. Travassos e Williams (2004) chamam a atenção para as limitações dos estudos que analisam a raça/cor na área de Saúde Pública e. 1996. na maioria dos indicadores de status econômico e de saúde. 1994. Rowley. indivíduo é um ser humano” (Torres. embora seja considerada como método padrão-ouro.

Em que pese a escassez. lazer. evidenciaram grandes diferenças no risco de morrer devido a causas maternas. prioritariamente. p. Entretanto. possivelmente. fumo. a sofrerem as consequências negativas de tal inserção. planejamento de gravidez. nacionais e internacionais. e o inadequado atendimento às suas necessidades jurídicas.383-94. e até mesmo o surgimento de pesquisas voltadas à análise das desigualdades raciais em saúde. enquanto classe social é um produto das relações sociais. 2003. que desproporcionalmente afetaram mulheres negras e amarelas. Victora e Horta (2001). de modo indissociável. mesmo após ajustamento por condição socioeconômica e outras variáveis (estado civil. A raça/cor está baseada nas características físicas dos indivíduos. no país. constitui a vulnerabilidade programática que os expõe à condição de maior risco (Batista. ao maior ou menor acesso a recursos adequados para se proteger das consequências indesejáveis daquela situação” (Lopes. evidenciaram piores resultados em saúde para crianças negras no Sul do Brasil. 1998. 388 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. passaram a utilizar o conceito de vulnerabilidade. de igualdade de tratamento entre segmentos de cor. 1993). a exclusão social que é destinada aos negros configura a vulnerabilidade social. É ínfima a produção acadêmica sobre o tema. Nos poucos estudos que tratam das desigualdades sociais no Brasil. educacionais e culturais e.A UTILIZAÇÃO DA VARIÁVEL RAÇA/COR . como: nível de instrução da mãe. Szwarcwald. No entanto. estão circunscritas ao mito da “democracia racial” cultivado ao longo dos anos. de saúde. até mesmo entre a população negra. não obstante sua grande relevância como marcador das discrepâncias entre grupos. 1999). têm se destacado. destacam-se. Travassos. evidenciou sobremortalidade de filhos menores de um ano de mães negras e de mulheres adultas negras em relação aos de brancas. out. ganhou notoriedade internacional e criou a ilusão. e as justificativas para esse fato../dez. em desvantagem na sociedade. cultural e ambiental da população e que. objetivando dar visibilidade aos diferenciais em saúde entre subgrupos. De acordo com esse conceito. as desigualdades sociais entre negros e brancos sejam gritantes. dentre outras. de estudos mais robustos sobre as diferenças existentes entre segmentos de cor. definido como “conjunto de aspectos individuais e coletivos relacionados ao grau e modo de exposição a uma dada situação e. utilizando dados longitudinais sobre saúde. diferenças de classes e regiões (Vianna. Essa pode ser uma das razões pelas quais raça/cor é uma das variáveis menos utilizadas nos estudos sobre desigualdades em saúde. difundida nacionalmente por Freyre (2004). evidenciando diferenciais entre grupos segundo a raça/cor. n. a falta de equidade determinada pela raça é tema pouco explorado na literatura da área de saúde (Chor. Essa falsa “democracia” se desvela cada vez mais por meio das diferenças evidenciadas pelos indicadores socioeconômicos. determina a falta de equidade que leva os grupos. Barros. se deve à pressão exercida pelos movimentos sociais. os indicadores sociais têm apontado pior situação de vida para a população negra. mesmo quando foram controlados condicionantes sociais e econômicos da mortalidade. Cunha.12). Mann. Souza. Somente recentemente é que alguns autores têm relacionado a inserção social dos negros com os resultados em saúde.. 2005. Lima.13. diferenças no acesso para bens e serviços que poderiam ser atribuídas à classe social. 2009 . econômica. Esse conceito se relaciona com a produção de desigualdades que se refletem nas condições de inserção social. suporte social. também. p. já pelos resultados evidenciados em estudos sobre desigualdades em saúde. cabe destacar que a incorporação dessa questão na agenda política e social. trabalho e habitação. a mortalidade materna. Nesse sentido também merece destaque a pressão exercida pela produção acadêmica internacional sobre essa temática desde a década de 1990. Na década de 1990. A esse respeito. os estudos brevemente descritos a seguir: Martins e Tanaka (2000). Minayo. Estudo sobre mortalidade infantil e de mulheres adultas. utilizando dados do Comitê de Mortalidade Materna do Estado do Paraná. no Brasil. na literatura. conduzido por Cunha (2001). Dentre as investigações brasileiras que abordam diferenciais em saúde segundo a raça/cor. 2004. 2003. o que contribui para sua maior exposição a sofrer danos e riscos. 2001). 2001. por sua vez. 1995. paridade. Desigualdades em saúde e raça/cor no Brasil Embora. alguns autores. não diferiu entre pardas e brancas. ambos os conceitos carregam significados construídos socialmente. em termos de condições de vida. idade materna. categoria sócio-ocupacional e renda média mensal do chefe da família. A ideia.31.

chamado a atenção para os problemas e limitações referentes aos métodos de classificação racial.0% entre brancos. de 1999 a 2001. e as possibilidades e limites da utilização da variável raça/cor na área da Saúde Pública. no documento “A Saúde da População Negra e o SUS”. (2005) analisaram a consistência dos Sistemas de Informações sobre Mortalidade (SIM) e sobre Nascidos Vivos (SINASC) como fontes de dados para a avaliação de desigualdades em raça/cor em saúde no Brasil no período de 1999-2002. et al. de raça/cor não informada nesse período. Por outro lado. com enfoque nas desigualdades de gênero e raça/cor. Kilsztajn et al. têm: debatido raça/cor enquanto construção social. no entanto. em 2001. 2009 389 artigos .13. No Estado de São Paulo. indo além da comparação de dados estatísticos. levantado evidências sobre a falta de equidade em saúde segundo essa variável. embora raça não tenha sido significativa quando ajustada pelas variáveis anos de estudo. a emergência do conceito de raça como campo fértil para acessar indicadores de desigualdades. em termos do acesso aos serviços e assistência prestada a essa população. Leal. as desigualdades raciais são mais comuns no tratamento do que no acesso aos serviços de assistência à saúde. e contribuído para desmistificar a ideia de “democracia racial” no Brasil. encontram-se na origem de grande parte das desigualdades étnico-raciais em saúde. quanto as desigualdades que afetam esse segmento.o que dificulta o estabelecimento de comparação mais consistente entre elas . (2005) também observaram maior taxa bruta de mortalidade por homicídio para negros na região metropolitana de São Paulo. com base em dados provenientes de declarações de óbito de 1999.ARAÚJO.5). comparada à de 6. disparidades ou iniquidades em saúde devem transpor a barreira dos números. e observaram significativa redução do número de óbitos e de registros de nascidos vivos. tenha dado um enfoque de equidade considerando tanto as necessidades específicas em Saúde da População Negra.M. avaliado a disponibilidade e qualidade da informação sobre raça/cor em sistemas de registros oficiais. n. trabalho durante a gravidez e cuidados pré-natais). Segundo Goodman (2000). Cardoso et al. a assistência médica discriminatória poderia dificultar o diagnóstico e o controle da hipertensão arterial. considera que os estudos sobre desigualdades. Essas autoras fazem referência a um estudo longitudinal realizado no Rio de Janeiro com funcionários de uma universidade onde se observou que. no município do Rio de Janeiro./dez. Os resultados também sugeriram que mães negras recebiam assistência à saúde de pior qualidade quando comparadas com mães brancas. mas não as eliminou. p. e observaram persistente situação desfavorável das mulheres de pele preta e parda em relação às brancas. p. projetada nas diferenças socioeconômicas que se acumulam ao longo da vida de sucessivas gerações. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. sexo e idade. E. não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes por raça/cor. Gama e Cunha (2005) analisaram as desigualdades sociais e no acesso e utilização dos serviços de saúde em relação à cor da pele em amostra representativa de puérperas que demandaram atenção hospitalar ao parto. foi de 9. tendo como fonte os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar de 1998 (PNAD). a despeito das limitações em seu uso.é possível observar que os estudos sobre desigualdades raciais em saúde produzidos no Brasil. Chor e Lima (2005) destacaram que a discriminação racial. até aqui. após ajustar por educação e nível de renda. dentre outros aspectos. a proporção de óbitos sem assistência médica. Essas evidências têm contribuído para que o Ministério da Saúde.31. Apesar das pesquisas supracitadas terem utilizado metodologias distintas . out. em suas proposições. Lopes (2005. uma vez que o racismo nem sempre se mostra “de forma explicita e mensurável nas interações sociais”. Essa afirmação é corroborada por Chor e Lima (2005) ao evidenciarem que. essa variável pode captar as desigualdades em saúde às quais grupos sociais estão expostos. Os estudos mostraram que. O ajustamento por estas variáveis reduziu a magnitude das associações segundo raça.0%. no Brasil. com o objetivo de descrever o perfil da mortalidade de homens e mulheres pretos residentes no Estado de São Paulo. evidenciou as mais altas taxas brutas de mortalidade para homens e mulheres negras.383-94. em análise conduzida por Dachs (2002). Considerações finais Neste estudo foram destacados: o papel das desigualdades sociais na produção de diferenciais em saúde segundo segmentos de cor. na condição de saúde autoavaliada. entre os indígenas. estudo conduzido por Batista (2003).

A UTILIZAÇÃO DA VARIÁVEL RAÇA/COR ...

Os artigos da literatura internacional deram maior ênfase à fundamentação do uso da variável raça/ cor, proposição de metodologias e apontaram a necessidade de superação das limitações destacadas pela literatura, dando a impressão de que o foco nesses aspectos representa uma fase posterior à das denúncias simplesmente. Já os estudos brasileiros deram maior destaque aos diferenciais em saúde segundo raça/cor, pontuando aspectos sobre o uso de métodos classificatórios e avaliando a qualidade e disponibilidade de dados sobre raça/cor, o que poderia traduzir fase mais incipiente, em estudos sobre a temática, em relação aos estudos da literatura internacional. Entretanto, mesmo que ainda incipiente, a produção de pesquisas no Brasil, aliada ao que tem sido demandado pelos movimentos sociais, tem contribuído para a elaboração de políticas públicas com vistas à redução de desigualdades raciais em saúde. Prova disso é que, apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS), em seu planejamento, ter considerado a população brasileira “supostamente homogênea deixando de considerar os diferentes danos e riscos a que estão sujeitos distintamente os subgrupos da população” (Paim, 2003, p.184), algumas medidas têm sido tomadas para que este equívoco seja revisto. Dentre estas, merece destaque o documento produzido pelo Ministério da Saúde (MS) intitulado “A Saúde da População Negra e o SUS”, onde está estabelecido que: as desigualdades étnicoraciais em saúde deverão ocupar um papel mais expressivo na agenda de pesquisas epidemiológicas no país, a fim de preencher importante lacuna no conhecimento das condições de saúde da população; a inclusão do campo raça/cor deverá ser ampliada para outros bancos de dados nacionais, além do SIM e SINASC; pactuação junto ao CNPq para inclusão do recorte raça/cor como requisito metodológico nos editais de pesquisas financiados com recursos do MS, sendo essa ação equitativa definida pelo comprometimento, tanto de gestores e técnicos da saúde como pela participação ativa das organizações da sociedade civil. Os recentes editais para financiamento de pesquisas sobre desigualdades sociais em saúde, com enfoque na saúde da população negra, por instituições de fomento, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), é um indício de que começa haver consenso em torno dessa questão, e essa possibilidade já está sendo colocada como pauta na agenda governamental na perspectiva acima anunciada. Pesquisas que considerem as limitações relacionadas aos estudos de desigualdades sociais em saúde segundo raça/cor, no sentido de superá-las, poderão representar uma grande contribuição para a Saúde Pública e para a desconstrução das disparidades em saúde, ao fomentarem a criação de políticas e intervenções específicas. Além disso, esse investimento constitui uma oportunidade para que a produção acadêmica no campo da Saúde Pública se revigore ao ser demandada pela necessidade social, e estimule a realização de outras investigações que contribuam para dar visibilidade à real situação de saúde dos diferentes grupos sociais.

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Edna Maria de Araújo concebeu o estudo, planejou, executou e redigiu relatório final; Maria da Conceição Nascimento Costa colaborou na redação e revisão do texto; Vijaya Krishna Hogan colaborou na redação e revisão; Tânia Maria de Araújo participou da organização e redação; Acácia Batista Dias participou da redação e revisão; e Lúcio Otávio Alves Oliveira participou do planejamento e levantamento dos artigos nas bases de dados, revisou e contribuiu na organização das referências bibliográficas. Agradecimentos Aos alunos de Iniciação Científica Cristiane dos Santos Silva, Cicilia Marques Gonçalves, Felipe Souza Nery e Mariana Rabelo Gomes, que contribuíram na formatação do texto e organização das referências bibliográficas. Ao CNPq/DECIT, pelo apoio financeiro recebido (Edital 026/2006) e FAPESB (Processo n.148/2007 PPSUS-BA).

Referências
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O trabalho de enfermeiras e guardas municipais:
identidade, gênero e poder

Eduardo Pinto e Silva1 Márcia Regina Cangiani Fabbro2 Roberto Heloani3

PINTO E SILVA, E.; FABBRO, M.R.C.; HELOANI, R. The work of nurses and municipal guards: identity, gender and power. Interface - Comunic., Saude, Educ., v.13, n.31, p.395-407, out./dez. 2009. This paper aimed to analyze points in common in the work of women in two professional categories: nurses and municipal guards. This analysis was done by rereading the authors’ previous studies. The methodology was based on comparing the characteristics of the dayto-day routines, such as anxiety, tension, risk to life and fear. Concepts like identity, power, gender and defensive ideology were dealt with. It was seen that work forms a constitutive element of identity, influenced by gender and power relations. These are historically constituted and have relational characteristics. It was argued that professional activities involving situations of anxiety, tension and risk promote the construction of defensive ideologies of denial of fear. This stimulates lifesaving ideals, heroic attitudes and ambivalent feelings. It was concluded that work situations in both of these professions, along with the management and organizational characteristics of the work give rise to psychological distress, stress and identity conflicts. O objetivo deste artigo é analisar aspectos comuns do trabalho da mulher em duas categorias profissionais: enfermeiras e guardas municipais. A análise realizou-se a partir de uma releitura de pesquisas anteriores dos autores. A metodologia baseou-se na comparação de aspectos do cotidiano de trabalho, tais como: ansiedade, tensão, risco de vida e medo. Foram abordados os conceitos de identidade, poder, gênero e ideologia defensiva. Apontou-se que o trabalho configura-se como elemento constitutivo da identidade, sendo perpassado pelas relações de gênero e de poder, historicamente constituídas e de caráter relacional. Argumentou-se que atividades profissionais que envolvem as situações de ansiedade, tensão e risco favorecem a constituição de ideologias defensivas de negação do medo e mobilizam o ideal de salvar vidas, atitudes heroicas e sentimentos ambivalentes. Concluiu-se que as situações de trabalho em ambas as profissões e as características da gestão e organização do trabalho propiciam sofrimento psíquico, estresse e conflitos identitários.

Keywords: Working women. Identity. Gender. Nurses. Municipal guards.

Palavras-chave: Trabalho feminino. Identidade. Gênero. Enfermeira. Guardas municipais.

1 Departamento de Educação, Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Rua Honduras, 296, São Carlos, SP , Brasil. 13.566-760 dups@ig.com.br 2 Departamento de Enfermagem, UFSCAR. 3 Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas.

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O TRABALHO DE ENFERMEIRAS E GUARDAS MUNICIPAIS ...

Introdução
O trabalho é um dos fundamentos do ser social e elemento constitutivo da identidade (Lessa, 2002). Trabalho e identidade, conforme nos argumenta Jacques (1995), configuram uma articulação indispensável. A identidade, constituída e metamorfoseada nos processos de socialização e na vida laboral (Ciampa, 1991; 1990; Berger, Luckmann, 1978), é determinada e determina as configurações historicamente constituídas das relações de gênero em nossa sociedade (Scott, 1995). Tais relações, inevitavelmente imbricadas aos dispositivos de poder (Foucault, 1994, 1992), nos exigem a explicitação e a análise crítica das particularidades que assumem o trabalho feminino, assim como as consequências destas em termos de inúmeros aspectos, dentre os quais destacamos: os conflitos identitários, o sofrimento psíquico (Dejours, 2004b, 1992) e o desgaste (Seligmann-Silva, 1994; Laurell, Noriega, 1989). O objetivo deste artigo é analisar aspectos em comum do trabalho da mulher em duas categorias profissionais distintas: enfermeiras e guardas municipais. Inicialmente, discutimos os conceitos de identidade, poder e gênero. Em seguida, apresentamos algumas considerações sobre os aspectos metodológicos relativos a este artigo e às pesquisas realizadas pelos autores, que embasaram a presente discussão (Silva, 2005; Fabbro, 1996). A releitura dos dados destas pesquisas nos possibilitou apresentar novas reflexões que subsidiaram a análise dos aspectos em comum do trabalho da mulher nas referidas categorias profissionais. Apontamos para a existência de sofrimento psíquico, estresse e conflitos identitários no trabalho da mulher, e para o seu caráter social e histórico, perpassado pelas definições normativas de feminilidade e masculinidade e pelas relações de poder a elas subjacentes (Kergoat, 2002; Scott, 1995).

A trama de conceitos: identidade, poder e gênero
Para compreendermos a identidade da guarda municipal e da enfermeira e, de tal modo, melhor entendermos quem são esses profissionais, é necessário discutir o conceito de identidade, compreender o que é identidade pessoal e social para, então, refletirmos sobre a identidade profissional. O conceito de identidade é complexo e possui diferentes concepções na Antropologia, Sociologia, Filosofia e Psicologia. Para efeitos do presente artigo, o conceito de identidade será tomado em sua dimensão profissional, concebida como um dos aspectos da identidade do sujeito (Dubar, 2005; Jacques, 1995). Assim, fomos buscar fundamentos teóricos em alguns autores, como Berger e Luckmann (1978), Ciampa (1991, 1990), Dubar (2005) e Habermas (1983), que concebem a identidade pessoal e profissional como resultado de um contínuo processo de socialização, isto é, a identidade se estrutura mediante intersubjetividades. Consideram também que a estrutura psíquica de cada pessoa codetermina a construção da identidade. Porém, não deixam de destacar o meio social como forte fonte de influência em tal construção. Na constituição da identidade, o outro é peça fundamental. No processo de socialização, o indivíduo a ele se identifica, assim como interioriza os submundos das instituições sociais (Berger, Luckmann, 1978). A identidade pode se modificar ao longo da história de vida da pessoa, de acordo com sua interrelação com o meio social. Nesse sentido, não é posta ou estática, mas sim movimento contínuo, metamorfose (Ciampa, 1991, 1990). A formação da identidade profissional se dá a partir da identidade social, ou, ainda, da identificação com a classe e grupo de pertença. À medida que guardas municipais e enfermeiras exercem suas atividades laborais, constituem as suas identidades por meio do “fazer” e “ser” profissional. Contudo, tanto o “fazer” quanto o “ser” são heranças da realidade objetiva, indissociavelmente articulada à realidade subjetiva, por meio dos processos sociais e históricos de interiorização, exteriorização e objetivação que, pela sua natureza dialética, não podem ser pensados como ocorrendo em sequência temporal (Berger, Luckmann, 1978). Portanto, o processo de socialização secundária, no qual se dá a formação tecnicoprofissional, carrega consigo referenciais de identificação outorgados pela população.

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PINTO E SILVA, E.; FABBRO, M.R.C.; HELOANI, R.

Acrescentamos às considerações de Berger e Luckmann (1978), acerca da dialética ou indissociabilidade entre realidade objetiva e realidade subjetiva, as noções de identidade subjetivamente apropriada e de identidade socialmente atribuída, noções estas que, quando retomadas por Ciampa (1990), nos permitem diferenciar a noção habermesiana de papel social da noção de personagem (Ciampa, 1990). Na perspectiva de Habermas (1983), o papel social relaciona-se ao socialmente instituído, ao mundo sistêmico. Destacaremos aqui somente sua referência à identidade-papel, ou seja, àquela presa aos predeterminismos sociais, às normas e regras que sustentam a reprodução e que impedem a autonomia do sujeito. Ciampa (1990), ao lançar mão da noção de personagem, a relaciona à concretude e singularidade das experiências na biografia do indivíduo, ressaltando-se que tal singularidade não se divorcia da dimensão social e coletiva, mas estabelece com ela uma relação indissociável e de influência mútua e recíproca. Em tal interjogo dialético entre o individual e o social, podem emergir o que poderíamos adjetivar como identidades estereotipadas ou inautênticas. Goffman (1990, 1988), ao abordar os conceitos de estigma e de identidade deteriorada, o faz a partir da análise das instituições totais (manicômios, conventos e prisões) e das relações de poder nelas presentes. A identidade deteriorada é relacionada à coisificação do humano e à estigmatização de determinados estereótipos e atributos. Tal estigmatização confere normalidade aos que ocupam posições de poder nas instituições. Tais considerações sobre o conceito de identidade nos remetem, portanto, à discussão do conceito de poder e de seu aspecto relacional. Na perspectiva de Foucault (1994, 1992), o poder também se relaciona à noção de movimento. O poder circula, se inscreve nos discursos, nas relações sociais, no cotidiano, e não somente na dimensão institucional (Estado, escolas, hospitais, polícia). Sua grande contribuição, que avança em relação ao marxismo, é em relação ao micropoder e à superação da dicotomia dominantes-dominados. Ademais, Foucault relaciona poder e saber, de modo a evidenciar o discurso científico como dispositivo de poder. A perspectiva dos estudos sobre gênero também contribui para a discussão sobre o poder, visto que propõe a compreensão do masculino e do feminino tomando como ponto de referência a construção social e cultural dos papéis desempenhados por homens e mulheres, assim como denuncia a desigualdade de gênero decorrente das diferenças sexuais sem, no entanto, cair no reducionismo da dicotomia dominantes-dominados, sobretudo nos trabalhos de perspectiva histórica e relacional (Kergoat, 2002; Scott, 1995). Por fim, consideramos que a questão da identidade profissional nos remete não somente aos conceitos acima referidos, mas também aos pressupostos da Psicodinâmica do Trabalho (Dejours, 2004a, 2004b, 1992). Em tal perspectiva, o trabalho inclui as dimensões do prazer e do sofrimento e pode se caracterizar como patogênico, relacionado a conflitos identitários que rompem o equilíbrio psicossomático, ou, ainda, sublimatório, estruturante da identidade profissional e pessoal (Dejours, 2004b). Segundo tal perspectiva, os trabalhadores, em face dos modos de gestão e organização do trabalho, desenvolvem estratégias defensivas. Estas podem configurar uma adaptação estereotipada e/ ou patogênica às adversidades no trabalho ou um anteparo aos processos de sofrimento psíquico e/ou adoecimento propriamente dito.

Aspectos metodológicos
A análise do trabalho das enfermeiras e guardas municipais realizadas neste artigo é resultado de uma releitura, respectivamente, das pesquisas de dissertação de mestrado de Fabbro (1996) e de doutorado de Silva (2005), a partir dos autores supracitados e de trabalhos em coautoria com Heloani (Silva, Heloani, 2006; Fabbro, Heloani, 2004). A pesquisa de Fabbro (1996) se constituiu em um estudo de caso realizado em hospital-escola de grande porte. Foram realizadas 25 entrevistas em profundidade com vários profissionais (diretora e supervisora do Centro Obstétrico, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, diretor clínico e médicos
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artigos

O TRABALHO DE ENFERMEIRAS E GUARDAS MUNICIPAIS ...

residentes) com o objetivo de investigar o processo de formação da identidade da enfermeira no contexto hospitalar com base nas relações de trabalho com a equipe de enfermagem4 e médica. Os dados das entrevistas foram categorizados e analisados vertical e horizontalmente de acordo com os pressupostos da análise de conteúdo (Bardin, 1977) e da pesquisa qualitativa (Minayo, 1996). A pesquisa de Silva (2005) abordou o trabalho dos guardas municipais a partir das relações entre gestão organizacional e estresse. Foram aplicados 238 questionários sobre a saúde, trabalho e vida familiar em um total de 26 equipes, todas submetidas a entrevistas grupais semiestruturadas; 42 entrevistas individuais semiabertas foram realizadas com guardas municipais identificados como estressados. A identificação do estresse e de suas fases (alarme, resistência e exaustão) deu-se por intermédio do Inventário de Sintomas de Estresse (Lipp, Guevara, 1994). A categorização e análise vertical e horizontal das entrevistas também seguiram os pressupostos da análise de conteúdo (Bardin, 1977) e da pesquisa qualitativa (Minayo, 1996). Verificou-se um total de 31,93% guardas municipais estressados. Nas equipes nas quais o contingente feminino era de aproximadamente 100% (equipes administrativas e equipes do Comando Operacional ou telefonia), havia, respectivamente, 71,42% e 77,77% de sujeitos estressados, porcentagem esta distinta das verificadas nas equipes de apoio5 (18,75%), integralmente compostas por trabalhadores homens (Silva, 2005). Ambas as atividades profissionais, comumente exercidas em turnos alternados, são passíveis de engendrar adoecimento, desgaste (fadiga, estresse, tensão) e/ou sofrimento psíquico. Ademais, o cotidiano de trabalho é marcado pelo enfrentamento de situações ansiógenas e angustiantes, que envolvem a questão da vida e da morte, de modo que se constituem como atividades penosas e insalubres que implicam conflitos e tensões fundamentais da vida humana e tendem a repercutir negativamente na saúde destas trabalhadoras. Outro aspecto a salientar é que tais situações, geradoras de sentimentos de ambivalência, envolvem atividades de repressão/controle e de proteção/cuidado. Tendo em vista subsidiar a abordagem dos aspectos comuns do trabalho de enfermeiras e guardas municipais, apresentaremos, a seguir, algumas breves reflexões sobre alguns pontos de análise originalmente considerados nas mencionadas pesquisas.

4 A equipe de enfermagem era composta por: diretora, supervisora, enfermeira, técnico de enfermagem, auxiliar de enfermagem e atendente de enfermagem (atualmente extinta), hierarquicamente subordinados.

5

Denominavam-se equipes de apoio aquelas que, mais bem preparadas tecnicamente e compostas por quatro guardas, auxiliavam as viaturas do patrulhamento de rua nas ocorrências de maior complexidade ou risco.

A instituição hospitalar e o poder-saber: relações de trabalho da enfermeira com a equipe de enfermagem e médica
No seu cotidiano de trabalho, a enfermeira é inscrita nas redes da submissão e da cultura hospitalar (Moreira, 1999) e tende a assumir o que conceituamos como a identidade-papel (Habermas, 1983), uma vez que, na sua relação com o podersaber médico (Foucault, 1992), tende a reproduzir estereótipos do gênero feminino e atitudes de submissão ou de dedicação máxima à imagem de supermulher, personagem-herói que se responsabiliza por todos os problemas. Porém, contraditoriamente, rotula-se de subumana, justamente por conviver com a submissão frente à equipe médica e à própria instituição (Fabbro, 1996). Assim, permanecem resquícios no imaginário sociocultural e institucional de que a enfermeira seja meramente uma auxiliar do médico e, tal como consideram Gastaldo e Meyer (1989), reforça-se o doméstico como espaço feminino e a enfermagem como extensão do lar. As relações da enfermeira com a equipe de enfermagem nos revelam outras facetas das relações de poder. Existe uma hierarquia hospitalar explícita nos
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que desenham atividades distintas das prescritas. out. em contraposição ao “trabalho de rua”. ficam encarregadas do trabalho doméstico e do apoio aos problemas familiares. FABBRO. O estresse das trabalhadoras relaciona-se. O estudo de Santos e Barreira (2008) analisa a profissionalização da mulher e da enfermeira no Brasil no período da ditadura de 1930 a 1940. força e poder. Contudo. configurando uma relação de poder não correspondente à hierarquia formal da divisão técnica e administrativa do trabalho (ex: casos de conluio entre atendentes mais experientes e médicos.31. ainda que de formas não tão explícitas. de forma a constituir um estado de dependência simbólica das mulheres. a submissão e dedicação na prática laboral. experienciam.R. regimentos do hospital. As autoras apontam para uma marcante divisão material e simbólica do mundo social. O trabalho policial geralmente acarreta uma perturbação do balanço normal da vida e. silencioso. às relações de poder e de gênero vigentes na realidade socioinstitucional. quando alvo dos dispositivos de poder e discursos que as impingem tanto à docilidade política em relação aos superiores hierárquicos como à utilidade econômica em prol da organização hospitalar (Foucault. legitimadas pelo saber tácito (antiguidade e experiência prática). O estresse e a identidade no trabalho das guardas municipais As trabalhadoras das equipes administrativas e de telefonia eram responsáveis pelo trabalho assistencial ou de apoio. da vida familiar. A dominação masculina manifesta-se por meio de divisões entre os espaços femininos e masculinos. assumindo uma atitude política que nos revela que a competência política é tão ou mais importante que a competência técnica para o exercício do seu ofício. consequentemente. p. Não obstante. 1994). e construía uma imagem fetichizada e masculinizada da identidade policial (Silva. caridoso e abnegado praticado no cotidiano de trabalho da enfermeira. HELOANI. 1992).. Nas relações da enfermeira com a equipe de enfermagem. Heloani. 1996). 2006. assim. e evidencia o caráter histórico das questões de gênero no trabalho. Por outro lado. enfrentamentos desta identidade-papel. saúde e enfermagem (Lopes. 2009 399 artigos . que determinam os cargos e atribuições de cada membro da equipe. em detrimento do poder formal da enfermeira-chefe). 1990). Tais aspectos. E. também se corrobora o poder-saber médico. n.C. A ideologia defensiva da COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. assim como à dialética entre vida familiar. se fazem presentes outras formas de hierarquia entre os trabalhadores de enfermagem. a elas se subordinar e submeter. no jogo das correlações de forças e da circularidade do poder (Foucault. As enfermeiras. Por vezes evidenciam-se atitudes autoritárias da primeira com suas subordinadas..13. Este era permeado pelos signos da bravura. nas quais se reproduz o estereótipo masculino de comando presente em suas relações com o poder-saber médico. Farmer. O trabalho das guardas municipais e das enfermeiras: sofrimento psíquico e ideologias defensivas Dejours (1992) analisa ideologias defensivas de coletivos de trabalhadores de diversas áreas que se estruturam como formas de evitar o sofrimento psíquico ou adoecimento.PINTO E SILVA. As mulheres policiais. a partir dos quais se estabelecem relações de poder. Meyer. o que intensifica as adversidades psicossociais com as quais se defrontam em seu cotidiano (Silva. As autoras consideram que a persistência da divisão dos papéis sexuais se revela no cuidado discreto. além de sujeitaram-se aos aspectos patogênicos da atividade profissional./dez. 2005). que tendem a ser condicionadas pelas expectativas masculinas e. Tal tipo de trabalho era desvalorizado pela cultura organizacional. são também abordados em estudos clássicos em gênero. em tais casos. verifica-se o poder-saber tácito das que possuem maior antiguidade e experiência prática. 2005.395-407. que se reflete de forma explícita na divisão social do trabalho das enfermeiras e na evocação de atributos femininos às suas atividades profissionais. reproduzem a identidade-papel socialmente atribuída. por extensão. R. 2005). Silva. laboral e social (Silva. no qual tendia a se reproduzir o estereótipo de gênero e a identidade-papel normatizada e preestabelecida. que argumentamos serem atuais. Em outros momentos. as relações de gênero como elemento que o legitima. verificam-se posturas diversas. M. Waldow. desempenhado predominantemente pelos homens.

adjetivada por Dejours (1999) como defesa viril. No caso da construção civil. a defesa. 2009 . no cotidiano social e laboral. associa-se à exploração da gestão e organização do trabalho. gerando adoecimento ou desequilíbrio psicossomático (Dejours. que se constroem no interior da natureza dialética e contraditória do processo histórico e das suas relações sociais e de trabalho. 2004a. No caso da enfermagem. há uma inevitável dialética entre o objetivo e subjetivo. insidioso e crônico.31. Neste caso. força e coragem.perfil socialmente construído e moldado tanto na formação como em tal prática . Esta se utiliza das estratégias defensivas de negação do medo dos trabalhadores e da necessidade autoafirmativa da “virilidade”. que permanece latente ou oculto em relação ao agir manifesto e que. como instrumento para incutir a busca “espontânea” ao trabalho árduo. e podem ser relacionadas aos conflitos identitários e às relações de gênero e de poder. As cobranças e pressões internas não são meramente subjetivas ou pertencentes a uma dimensão psíquica isolada do todo social e organizacional. A ideologia defensiva. Tal defesa. adaptativa. O medo suscitado na atividade profissional não encontra escape de expressão e de elaboração psíquica e grupal. Assim. No trabalho da enfermeira. Muitos trabalhadores que não aderem à ideologia defensiva desistem do trabalho. Na indústria petroquímica. Neste sentido. envolve um alto grau de conhecimento técnico do trabalhador e níveis elevados de exigência e avaliação. além de serem situações de trabalho cujo domínio técnico ou controle sob a situação de risco (explosões na indústria química e acidentes na construção civil) são muito restritos (Dejours. da construção civil e de pilotos de avião de caça. redundavam na configuração de um trabalho patogênico (Fabbro. jogando óleo no chão para o colega escorregar. a negação implica recusa de uso de equipamentos de segurança. de natureza estereotipada. evita. sendo a negação do medo uma atitude psicológica fundamental para o enfrentamento da tarefa de alto risco. intenso. 1970). 2004b). e pacientes) e internas. não exerce sua função protetora a contento. funcionam como uma tentativa simbólica de enfrentar os riscos que não são controláveis pelo conhecimento técnico dos engenheiros. verifica-se um considerável risco de a enfermeira ser invadida por medo e ansiedade em face das situações de vida e morte com que se depara e que lhe fogem ao controle (Menzies. A responsabilidade e o ideal de salvar vidas. As estratégias defensivas de negação do medo são também utilizadas por enfermeiras e guardas municipais. o trabalho é caracterizado como patogênico. 1996). Compreendemos que. 1992). n. identidades de papéis e relações de gênero (Fabbro. brincadeiras de criar situações de perigo. 1992). No caso do trabalho hospitalar. o adoecimento. Luckmann. No trabalho hospitalar. maximizando a produtividade por meio da exploração do sofrimento. há situações de alto risco e de morte de pacientes. a natureza da atividade profissional evoca forte senso de responsabilidade (Menzies. externas (instituição../dez. por questões objetivas e subjetivas que se articulam de forma contraditória e dialética.. 1978). Porém. Nas duas primeiras categorias. é fruto da referida dialética. O alto grau de responsabilidade. 1996). marcadamente revestido pelo ideal/idealização de salvar/cuidar vidas. é mantenedora do equilíbrio psíquico e da autoimagem positiva (Dejours. 1970). mas não os imunizam do adoecimento e/ou sofrimento psíquico. de saúde e de desgaste de energia somatopsíquica. não evita o sofrimento psíquico. para a qual já está tecnicamente preparado por longo processo de desenvolvimento profissional. p. por vezes.O TRABALHO DE ENFERMEIRAS E GUARDAS MUNICIPAIS . são 400 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 1992). necessária e útil à tarefa. out. 1992). quando não são dele praticamente expulsos pela pressão do coletivo (Dejours. temporariamente. Já o caso do trabalho do piloto de avião de caça. a ansiedade e medo não podem se manifestar. negação do medo é abordada nos casos de trabalhadores da indústria petroquímica. ambas permeadas pelas relações de poder-saber.13.e a sua introjeção. o que significa que há uma relação de influência mútua e recíproca entre um determinado perfil exigido para a prática profissional . do jogo de influências entre identidade socialmente atribuída e subjetivamente apropriada (Berger. produzem-se estratégias defensivas coletivas de negação do medo que. convertem-se em um cotidiano marcado por pressões e cobranças. visto como símbolo de fragilidade. ao invés de agirem no sentido da sublimação (Dejours. A negação do medo se estrutura apoiada em estereótipos de gênero. permeado por aspectos de gênero e imagens idealizadas da profissão. o perfil (pessoal e profissional. equipe de enfermagem e médica. individual e coletivo).395-407. caracterizado como sublimatório. embora eficazes num primeiro momento. Elas vivenciam um considerável custo pessoal.

1994). são fundamentais para mobilizar o processo defensivo. 1996).395-407. M. O conflito psíquico não eliminado pela negação do medo persiste de forma latente e tende a eclodir nas relações de trabalho em forma de agressividade.R.31. geram ansiedade. caracterizados por estratégias defensivas estereotipadas. grupos e clima organizacional. medos coletivos e individuais. Tal aspecto reengendra a ênfase na coletivização das responsabilidades. Fabbro (1996) aponta que algumas situações de emergência geram angústias excessivas e alto nível de estresse em todos os profissionais. suscitando agressividade entre os pares. produzem-se estratégias defensivas ansiogênicas que retroalimentam tensões e receios que se inscrevem nos indivíduos. O conflito psíquico converte-se em conflitos interpessoais. traduz-se numa disponibilidade integral para assumir atividades. R. As cobranças perdem sentido ou força simbólica (Fabbro. apresentando caminhos e particularidades específicas no caso de serem trabalhadores ou trabalhadoras. Aquele que não contribui ou que não partilha do conteúdo desta ideologia defensiva ocupacional é. antes referidas. cedo ou tarde. a ideologia defensiva. por nós compreendida como dispositivo de poder da instituição. no caso das enfermeiras. Heloani. dadas as condições socioculturais da construção COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 2009 401 artigos . seja por intermédio de um sistema que “marca” o funcionário. Tal dinâmica se dá no contexto organizacional e do trabalho nos quais as questões de gênero e de poder. Tal colaboração induzida. que se tornam explícitos nas relações de trabalho. excluído.PINTO E SILVA. enfermeiras e auxiliares desgastam-se e tornam-se ambas vulneráveis ao estresse e ao desequilíbrio psicossomático. as enfermeiras tendem a se queixar de que as auxiliares sejam incompetentes e/ou irresponsáveis. E.. sendo interpretada como “loucura”. Assim. ainda que a contragosto. Conclui-se que a estratégia defensiva. n. 1987). Em outras palavras. Tal fato é agravado por uma condição concreta do trabalho: o atendimento de alta demanda com número reduzido de funcionários. analisados por Dejours (1992). FABBRO. Dejours. Trata-se de uma dinâmica psíquica abordada pela Psicanálise. e as trata como se não tivessem senso de responsabilidade.. p. HELOANI. out. Do nosso ponto de vista. na qual o que é expulso do ego e projetado no outro acaba por se configurar como objeto ameaçador ao próprio ego. As enfermeiras reagem e queixam-se de que a direção impõe uma disciplina rígida. senão repressiva. efêmera e contraproducente. e processos de sofrimento psíquico e de adoecimento (Fabbro. Tal imobilismo tende a ser visto como incompetência técnica e/ou inadaptação pessoal à profissão. Vale ainda mencionar que a questão da coletivização das responsabilidades. segundo Meyer (1995). de modo a intensificar a tensão da situação. este não é fruto de uma psicodinâmica ou subjetividade particular. na qual o habitual passa a ser a cobrança sem sentido definido. incitados por situações reais acopladas à dimensão do imaginário. a pressão inerente das situações-limite (risco de vida de pacientes) associa-se a um contexto de cobranças e pressões interpessoais e engendra competitividade na busca do aval do poder-saber médico simbólica e hegemonicamente masculino./dez. simplesmente cobrar por cobrar. não sustentáveis a longo prazo. analogamente ao caso dos trabalhadores da construção civil. 2004. a unidade sujeito-objeto. Portanto. de modo a formar ciclos viciosos. ou seja. 1992). apoiada no discurso de colaboração com o serviço.C. formas rígidas de gestão e organização do trabalho. não se sustenta e adquire uma natureza patogênica. Desse modo. Cavassani (1998) considera que a fragilidade psíquica não tem espaço na organização policial. produzindo a ansiedade persecutória e consequente hostilidade (Freud. culpabilizando-as por rotinas não cumpridas. O medo e a ansiedade que são negados (individual e coletivamente) nas situações-limite ressurgem nas relações de trabalho por meio do mecanismo defensivo da projeção. Verifica-se. a negação do medo e a ideologia defensiva também se manifestam. sem meta. Deixam de ser indicativas de uma eventualidade e passam a representar a normalização da vigilância e da punição (Foucault. e forjadas pelo poder médico-institucional. Daí resulta a cobrança mútua e excessiva. induz as trabalhadoras a se submeterem às horas-extras e à intensificação do ritmo de trabalho. Assim. por vezes. seja por meio de demissão. fugazes. certo imobilismo de alguns (ex: auxiliar de enfermagem ou a própria enfermeira) frente às demandas constantes e agitadas da equipe médica nesta situação. A diretoria de enfermagem se queixa de que o grupo de enfermeiras não assume com responsabilidade a coordenação do grupo.13. mas de uma unidade dialética e contraditória. mobilizando agressões verbais e conflitos interprofissionais. No trabalho dos guardas municipais. induz à atitude de participação de todos na mesma.

2005. Já nas equipes de apoio. valorizados pelos dispositivos de poder (Foucault. além de configurar-se como incompatível à identidade profissional desejada. a imprevisibilidade era experienciada com a valoração positiva de atividade não rotinizada. out. a realização da tarefa e a 402 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. dos responsáveis pela gestão e infratores (Silva. de modo que o trabalho tendia a ser sublimatório. sua ação era geralmente inesperada e. esperteza e prontidão defensiva”. dos guardas homens. 2009 . pois apenas solicitavam aos “parceiros” do “trabalho de rua” que atendessem às ocorrências policiais e ficavam sem saber o que de fato ocorria.395-407. de natureza estereotipada. Já no trabalho das equipes de telefonia. assim como a noção foucaultiana de circularidade do poder (Foucault. as mulheres policiais são alvos privilegiados de tais interpretações estigmatizantes. assim como o “auto-controle./dez. p. o fato de ser mulher não teve repercussões subjetivas ou de autoimagem negativas.31. Cruz (1989) aborda a frágil identidade heroica do policial militar. em estudo clínico de uma policial militar. não raramente. muitas vezes. Neste caso. configurando um trabalho patogênico (Silva. mais eficaz. p. Em tal posição. considerada “operacional” e valorizada pelos parceiros homens pelas suas habilidades relacionadas aos símbolos de força e bravura. a ansiedade não podia ser ativamente “administrada”. 2005). Esta situação exemplifica o caráter relacional da construção social de gênero (Scott. a ansiedade era “administrada” de forma ativa pelo trabalhador. Não obstante. no masculino.. em função do que se denominava “fator surpresa” (Silva. que toda e qualquer fragilidade era negada ou indesejada pela ideologia organizacional. ou ainda. indicam-nos que a posição ativa (“caçador”). Nas equipes de apoio. era temida e rejeitada. presentes no discurso dos guardas municipais em referência ao “trabalho de rua” e ao embate policial-infrator. As atividades das trabalhadoras não geravam a sensação de “autenticidade” do trabalho policial e dissociavam-se dos símbolos de força e coragem. predominantemente masculinas. é importante salientar que o sucesso de suas ações. além de ser condizente com uma identidade profissional libidinalmente investida e valorizada pela cultura organizacional e pelos próprios trabalhadores. no grupo feminino. Sampaio e Carneiro (1997. 1992). as situações de risco e imprevisibilidade configuravam-se como prejudiciais à saúde e. do masculino e do feminino. Conforme exposto. que tende a colocar a policial trabalhadora. verificamos um outro lado desta questão no caso de uma das entrevistadas. eram vivenciadas positivamente ou como fonte de orgulho profissional. na valorização da identidade heroica. quer seja no nível micro. numa condição de inferioridade. ou seja. podemos afirmar que a ideologia defensiva no trabalho dos guardas é ora adaptativa. p. 1992) presentes nos discursos acerca das relações de gênero.313) também identificaram. e envolvia imprevisibilidade e sentimento de impotência que gerava significativa ansiedade. vista como essencialmente feminina. que no imaginário sociocultural apresentava-se como essencialmente masculina. ainda. 1992). historicamente constituídas. Assim.. os trabalhadores tendem a desenvolver uma ideologia profissional defensiva (Dejours. 1995). ambos anteriormente referidos. uma negação da fragilidade humana.276). o que favorecia o sucesso na abordagem das ocorrências policiais. Esta valorizava “o ser forte”.O TRABALHO DE ENFERMEIRAS E GUARDAS MUNICIPAIS . 1995). de modo a possibilitar o enfrentamento ativo do medo/risco. rotinizado e mais controlado pela chefia. Observa-se. a saber: trabalho patogênico e trabalho sublimatório. acerca do feminino e do masculino (Scott. a feminilidade. 2005). ou. 2005). Este trabalho era menos valorizado. As trabalhadoras das equipes de patrulhamento eram geralmente tratadas com desdém e desrespeito por parte da população. Este exemplo demonstra que as questões de poder e de gênero não são totalmente intransponíveis. Por outro lado. As posições ativas e passivas diante do medo e/ou ansiedade na atividade de trabalho redundam em configurações opostas. As metáforas “caçador” e “caça”. o trabalho era vivenciado como fator de estresse ou desgaste (Silva. A atividade de trabalho que possibilita a criação do imaginário do herói é a relacionada ao trabalho de rua. ao passo que a posição passiva (“caça”). predominantemente femininas. de modo que geralmente não esperavam tamanha agilidade e domínio técnico provindos de uma mulher. n. quer seja no plano mais amplo da ideologia e cultura organizacionais (Silva. de forma a reproduzir as referidas definições normativas. 2005).13. executado predominantemente pelos trabalhadores. não impediu que ela exercesse o trabalho com competência. era altamente valorizada. Por ser mulher e ser vista como menos capaz e frágil. era favorecido pelo fato de infratores a verem sob uma perspectiva sexista.

era fator significativamente favorável ao desgaste ou estresse. 1990). embora haja um investimento (consciente ou inconsciente) na imagem heroica. nem sempre ocorre.R. dada a realidade institucional e sociocultural e os papéis sociais e familiares predeterminados (cuidadora do lar. da dedicação e do respaldo afetivo na família era predominantemente exercido pelas trabalhadoras. E. ora é estereotipada e/ou patogênica. que exercia o trabalho COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. se fazem presentes. 2005). verificamos que a ansiedade se dá em níveis e condições distintas. sendo socializada pela equipe. tal imagem não se sustenta. Os trabalhos hospitalar e policial apresentam-se como atividades propícias ao sofrimento psíquico.13. Porém. No caso específico da policial “operacional”. quer seja para possibilitar maior eficácia na realização do trabalho de rua (policiais homens). pelo contrário. No trabalho policial. sendo mais intensa e patogênica para aqueles que lidam com ela de forma passiva (telefonia) do que para os que lidam de forma mais ativa (trabalho de rua). se apresenta como incompleto. Em ambos os casos. o que. mas também os conflitos. dificultando a ação profissional e reproduzindo a identidade-mito (Ciampa. As atividades profissionais envolvem situações de risco e favorecem a constituição de ideologias defensivas de negação do medo. A equipe é induzida ao trabalho intenso. elas geralmente não enfrentam de fato ou ativamente as situações de risco/medo. HELOANI. Considerações finais A análise do trabalho de enfermeiras e guardas revela pontos em comum e algumas peculiaridades ou distinções. em algumas situações reais. o trabalho se intensifica. p. R. dos problemas escolares e pessoais dos filhos etc). out.. quando o medo/risco é meramente negado. que tendem a não aderir à ideologia defensiva. tal como no caso dos pilotos de aviação de caça analisados por Dejours (1992). Portanto. dado que..PINTO E SILVA. em função da divisão sexual do trabalho. Podemos afirmar. senão ineficaz. n. A instituição tende a utilizar-se da imagem heroica interiorizada. No caso da enfermeira que assume a personagem responsável-portudo. do ponto de vista subjetivo. dadas as relações entre identidade. sendo as trabalhadoras alvos privilegiados. 1992). esta socialização apresenta-se como patogênica. implicando não somente a fadiga.395-407. Elas também mobilizam o ideal de salvar vidas. baseada na frágil e ilusória identidade heroica do policial (Cruz. que as questões de poder e de gênero na instituição policial acarretam uma divisão sexual do trabalho. no trabalho. conforme o posto de trabalho. produzindo a condição de estresse./dez. na medida em que interioriza tal personagem de forma radical. Identificouse que as trabalhadoras apresentam necessidade de se mostrarem fortes e tentativas pouco eficazes de contraporem-se ao sofrimento psíquico. 1989). quer seja para uma maior intensificação e exploração do trabalho (hospital). poder e gênero na realidade socioinstitucional. Na pesquisa também se evidenciou que o papel do cuidado. dilui-se coletivamente. constituição de uma identidade profissional condizente às aspirações dos trabalhadores. estresse e conflitos identitários. No caso da maioria das policiais. de forma que tal imagem não as poupa do sofrimento no trabalho. As mulheres. 2009 403 artigos . apresenta dificuldade de valorizar o trabalho do outro que. portanto. no entanto. 1995. a ansiedade. a proteção e o cuidado ao lado da repressão e do controle. são conduzidas ao trabalho assistencial. atitudes heroicas e sentimentos de ambivalência. 1993). No trabalho da enfermagem. mais próximo à da condição estereotipada de trabalho feminino e. geralmente ocupavam os postos de trabalho nos quais predominavam formas passivas de lidar com a ansiedade. FABBRO. assim. Foucault. verificou-se que a condição feminina no trabalho policial. às normatizações sociais e às relações de gênero e de poder (Scott. uma vez que as trabalhadoras. intrínseca à atividade de cuidado da doença/doente e intensificada pela própria organização do trabalho.C. de modo que as adversidades vivenciadas no trabalho e na família tendiam a colocar as mulheres em condição de maior vulnerabilidade ao estresse (Silva. tende a intensificá-lo. à fadiga e aos conflitos interpessoais. desvalorizado social e institucionalmente (Maia. As personagens heroicas identificadas nas análises de Fabbro (1996) e Silva (2005) revelaram estratégias defensivas de negação do medo e formas específicas de lidar com a ansiedade. uma vez que ela apresenta dificuldades de delegar tarefas e. M. até mesmo por não ser respaldada por uma condição de formação técnica de excelência.31. dos problemas de saúde familiar.

consequentemente. Scott. p. tendo em vista os objetivos de um trabalho mais saudável. após as sugestões dos pareceristas e novos comentários de Roberto Heloani. Não obstante. criativo e autônomo. Com base nas pesquisas acima consideradas e dos pontos de articulação entre as mesmas na temática identidade. out. A segunda versão foi elaborada por Eduardo Pinto e Silva e Márcia Regina Cangiani Fabbro. Seligmann-Silva. e dos trabalhadores. Laurell. n. não pode prescindir da análise das estratégias defensivas dos trabalhadores. o seu espaço no exercício profissional. a assunção de tal imagem não fosse garantia de sucesso na ocorrência policial. ao contrário do que ocorria com a maioria das trabalhadoras (telefonia). 2006. 404 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. como “empregadinha-de-médico”.395-407./dez.. perpassadas tanto pelas relações de gênero conservadoras como pelos dispositivos de poder. com base em comentários e sugestões de Roberto Heloani. de rua. tenhamos contribuído para o adensamento da dimensão teórica acerca das relações entre trabalho e saúde. tal como no caso dos trabalhadores. está insatisfeita com o que vive. Heloani. à vida privada e às relações neles constituídas. estas tendem a ser mais vulneráveis ao estresse em comparação aos trabalhadores. o bloqueio da relação homem-organização do trabalho (Dejours. era elemento que tendia a auxiliar a realização da tarefa. relacionais e socialmente construídas (Kergoat. ainda que. de modo geral. Colaboradores Eduardo Pinto e Silva e Márcia Regina Cangiani Fabbro foram os responsáveis pela elaboração da primeira versão do artigo. 1994. 1995).O TRABALHO DE ENFERMEIRAS E GUARDAS MUNICIPAIS . a imagem heroica. conduz a enfermeira a perceber que não basta a competência técnica e que a competência política é tão ou mais importante para o exercício de seu ofício. constituem-se como aspectos a serem corajosamente enfrentados. Noriega. a desumanização das relações de trabalho e os processos de adoecimento e/ou sofrimento psíquico. A análise de Silva (2005) revelou que os conflitos identitários e nas relações de trabalho e familiares são vividos de forma mais intensa pelas trabalhadoras e. “toca-serviço” e “responsável-por-tudo”. Fabbro (1996) ressalva que a enfermeira. sendo as relações de gênero e de poder um fator de peso na construção social da figura da enfermeira submissa e despolitizada. A análise efetuada por Fabbro (1996) permitiu apontar que o conflito identitário da enfermeira relaciona-se a uma dificuldade em assegurar sua ação singular. Esta competência se manifesta em pequenas. 1992). livre. Concluímos que o desgaste da realidade socioinstitucional (Silva. assim como da análise crítica acerca das relações de gênero e da compreensão destas enquanto históricas. Fabbro (1996) argumenta que buscar o entendimento dessa consciência é. Esperamos que. em particular. configuram-se como determinantes fundamentais do sofrimento. O lugar institucional da atividade laboral é marcado pelo estigma da inferioridade e pela desvalorização.. discretas e transitórias formas de resistência. revelar os vários níveis de submissão/opressão aos quais está sujeita. é possível afirmar que a gestão e organização do trabalho e as adversidades socioculturais e organizacionais. A recusa de rótulos e estereótipos. antes de tudo.13. por meio das reflexões presentes neste artigo. poder e gênero.31. Tal insatisfação pode ser compreendida como um esboço de uma consciência. 2002. adoecimento e conflitos identitários das trabalhadoras. posto em relação ao mundo do trabalho. de forma a propiciar maior diretividade e objetividade às ações práticas em prol da saúde das trabalhadoras. o saber que lhe é próprio. 1989). antes do envio. apesar de ainda dependente da identidadepapel. Tal desafio. revisada. 2009 .

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PINTO E SILVA. El trabajo de enfermeras y guardias municipales: identidad. poder. Se concluye que las situaciones de trabajo en ambas profesiones y las característioas de la gestión y organización del trabajo propician sufrimiento psíquico.13. tensión y riesgo favorecen la constitución de ideologias defensivas de negación del miedo y movilizan el ideal de salvar vidas. p. siendo sobrepasado por las relaciones de género y de poder históricamente constituidas y de carácter relacional. n. estrés y conflictos de identidad. género y poder. PINTO E SILVA.R. actitudes heróicas y sentimientos ambivalentes.13.31.. Identidad.395-407. Enfermera. El análisis se ha realizado a partir de releer investigaciones anteriores de los autores. tensión. p.. n. E. Se abordan los conceptos de identidad. out. HELOANI.. género e ideologia defensiva. FABBRO. Da metodologia se ha basado en la compatación de aspectos del trabajo cotidiano tales como ansiedad./dez. M./dez. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. M. FABBRO. R.. El objetivo de este artículo es el de analizar aspectos comunes del trabajo de la mujer en dos categorias profesionales: enfermeras y guardias municipales.R. E.395-407.C. Educ. HELOANI. 2009. Recebido em 22/08/08. Palabras clave: Trabajo de mujeres.Comunic. 2009 407 artigos .31. R. Interface . out. Aprovado em 22/04/09. v. Se argumenta que las actividades profesionales que integran las situaciones de ansiedad.C. Saude.. riesgo de vida y miedo.. Guardias municipales. Queda resaltado que el trabajo se configura como elemento constitutivo de la identidad. Género.

Com base na racionalidade prática. foram descritas. which led to the attainment of the intended objectives. in the interaction with students of a course in the pharmacy program. L. and interpreted the teaching practices which.. reflexão-na-ação e reflexão-sobre-a-ação. analisadas e interpretadas as práticas que. Avenida Costábile Romano.Comunic.. Para tanto.13. 3 Departamento de Ciências Farmacêuticas. este estudo de caso qualitativo objetivou explorar a prática docente universitária. and reflection-on-action. a reflexão docente sobre a própria prática foi fundamental para subsidiar a aplicação de cada componente curricular da disciplina. criassem situações dilemáticas e oportunidades de aprendizagem das habilidades de solução de problemas e tomada de decisão. Throughout the study. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.31. In this sense. os alunos foram estimulados a utilizar os processos de conhecimento-na-ação. Case studies. Ao longo do estudo. aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e sem conflitos de interesse. Reflective processes and competencies involved in the teaching practice at university: a case study. Interface . Professional competence./dez. UETA. the study described. 1 Curso de Medicina. C. SP . também vivenciados pelo professor. Educ.Processos reflexivos e competências envolvidos na prática docente universitária: um estudo de caso * Caetano da Costa1 Lisete Diniz Ribas Casagrande2 Julieta Ueta3 COSTA. Universidade de São Paulo. na interação com os alunos em uma disciplina do curso de farmácia. Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Faculty. Palavras-chave: Educação superior. Ciências e Letras de Ribeirão Preto. focalizando a reflexão e as competências do professor. processes that were also experienced by the teacher. 2009 409 . reflection-inaction. Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto. que nortearam a consecução dos objetivos pretendidos. Competência profissional.096-900 caedacosta@yahoo. the teacher’s reflective practice was essential to support the execution of each curricular component of the course.. CASAGRANDE. focusing on teacher’s reflection and competencies. 2201. Nesse sentido. Brasil. 2009.R. Universidade de São Paulo. n. Keywords: Higher education.com. Estudos de casos. Saude.409-22. v. n. A análise dos registros de observação em sala de aula e de entrevistas com alunos e o professor evidenciou a importância desses processos reflexivos. Ribeirão Preto. brought about dilemma situations and opportunities to learn problem-solving and decisionmaking skills. J. Analysis of the records from classroom observation and of the interviews with students and the teacher showed the fundamental role of such reflective processes. 14.br 2 Departamento de Psicologia e Educação. To this end. Faculdade de Filosofia. p. this qualitative case study aimed to explore the teaching practice at university.13. Founded on practical rationality. out. out.D. com apoio científico e financeiro da Fapesp.409-22. * Elaborado com base em Costa (2004). analyzed./dez.. students were encouraged to use knowledge-in-action. Docentes. p.31.

o foco é o das práticas de um professor universitário. ou seja. o modo como os profissionais atuam em situações reais. a sociedade moderna ou industrial testemunhou o 410 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Assim. criar novas técnicas e reavaliar a prática (Alarcão. a metodologia. 1983). na forma epistemológica denominada racionalidade técnica (Schön. Schön (1983) demonstrou que a instituição universitária está comprometida com a racionalidade técnica. que pode ser usado para modificar ou melhorar regras e processos avalizados pela ciência (racionalidade técnica). Portanto. a racionalidade prática. e o modo como os seus processos reflexivos influem na estrutura curricular e no ensino em sala de aula. Posteriormente. pois. Ao final da introdução. o qual se desenvolve no cenário do Ensino Superior. Cunha et al. o texto apresenta. 2004). o foco é a prática profissional. Como o referencial teórico utilizado é o da prática docente reflexiva. 2008).PROCESSOS REFLEXIVOS E COMPETÊNCIAS . e uma caracterização da prática reflexiva./dez.a tutoria (coaching). e as formas como podem ser auxiliados no desenvolvimento de seus processos reflexivos. a reflexão-na-ação e a reflexão-sobre-a-ação.. recortes teóricos para ilustrar os conceitos trabalhados e contextualizar o estudo.o professor universitário frente a uma sala de aula com dezenas de alunos (Faria. existe também um conhecimento que se origina na própria prática.. n. Ao investigar a relação entre os tipos de conhecimento respeitados na universidade e os tipos de competência valorizados na prática profissional. 2001. A reflexão-na-ação é desencadeada em situação de dúvida. Deste ponto de vista. uma vez finalizada a ação.13. 1996). 2006). além do conhecimento teórico. Mezzaroba.. Para Schön. o sistema de tutoria utilizado por Schön para o estudo daqueles processos (em geral. Portanto.31. O conhecimento-na-ação é um tipo de conhecimento que não é derivado de nenhuma operação intelectual. o texto começa com um cotejamento entre a racionalidade técnica e a racionalidade prática. após os recortes introdutórios. inicialmente. Essa visão constitui a base da cultura tradicional dos professores universitários. Educação superior: fundamentos epistemológicos A educação moderna de nível superior é sustentada por uma raiz positivista. 1999). p. ao passo que o exercício profissional requeria uma nova epistemologia da prática.. 2003. evidenciando a importância da reflexão na educação. a prática reflexiva está centrada em três processos: o conhecimento-na-ação. pela ação de um educador . quando se enfrentam situações inesperadas. Rozendo et al. baseada na ação e na reflexão conjuntas. Processos reflexivos De acordo com Schön (1987. há uma nítida separação entre teoria e prática: somente após o contato com as verdades cientificamente comprovadas (o chamado núcleo básico) é que os alunos estarão aptos a aplicar o conhecimento adquirido (Pedroso. e as considerações finais. os processos reflexivos são apresentados seguidos de uma breve descrição do cenário pós-moderno e suas características. encontra-se embutido na própria ação. e esse conhecimento pode ser útil para se reinventar saberes.409-22. Dessa forma. o texto apresenta: os objetivos. Como resultado de um trabalho de pesquisa. que trazem novas atribuições e responsabilidades para os professores. em um processo denominado prática reflexiva (Kinsella. 2009 . há um valor de caráter construtivista na prática. out. No contexto do presente trabalho. Dessa forma. A racionalidade prática propõe um aprendizado que não desvincula a razão (teoria/conhecimento) da ação (prática). Educação superior: cenário pós-moderno Nas quatro últimas décadas do século XX. há uma caracterização das práticas reflexivas e das competências docentes. um tutor por aluno) foi adaptado para a realidade brasileira . Introdução O presente trabalho descreve a essência da pesquisa desenvolvida no doutorado de um dos autores (Costa. os resultados e sua discussão. Cunha. um processo avaliatório denominado reflexão-sobre-a-ação. pode-se pensar sobre o que ocorreu e como tal ação foi realizada. 1983). 2000.

afetivos e. CASAGRANDE. situações concretas caracterizadas pela necessidade de decisões imediatas num contexto imprevisível. dentre a diversidade de meios.D. Para tanto. A produção incessante de novas informações requer que professor e aluno desenvolvam uma consciência crítica (Freire. p. C. no primeiro caso. os mais adequados para se cumprir tais objetivos. habilitar seus alunos ao uso e articulação do conhecimento. no cotidiano de sala de aula. Gomes. ou. há maior possibilidade de esclarecer os objetivos a serem atingidos e selecionar. 2004). reflexão-na-ação e reflexão-sobre-a-ação manifestam-se nos professores (ou tutores. 2007. 2009 411 artigos . Gremião. UETA. que também exige pessoas que saibam se comunicar. é fundamental manter atitudes e hábitos de reflexão sobre a prática em sala de aula. como uma gama de alternativas. out. incertas. psicomotores (Perrenoud. Por exemplo. na medida em que esta compartimentaliza e cristaliza o saber em disciplinas. 1992). 2008b). tolerante. pós-moderna ou sociedade da informação. Casagrande. e nos alunos. Rios. Para realizar um ensino reflexivo. 1997). aparecimento gradual da chamada sociedade pós-industrial. Rombaut. o professor deve ter uma série de conhecimentos e atitudes. 1983). como dilemas ou situações dilemáticas. 2008. as situações que serão enfrentadas pelos estudantes tornam imperativo o aprendizado de como adaptar-se a novos contextos (Ketzer. rejeitar discriminação de qualquer tipo. Pereira. 1998). 1999). J. e podem ser estimulados por meio do enfrentamento de situações dilemáticas. às vezes. Connolly. 2000). L. na verdade./dez. Cronin. as suas estratégias metodológicas e avaliatórias (Zabalza. Perrenoud. dilema é “todo o conjunto de situações bipolares ou multipolares que se apresentam ao professor no desenrolar da sua atividade profissional”. Tal quadro contrasta com a estrutura curricular vigente na universidade (Lima. de como estruturar e contextualizar situações problemáticas.409-22.. Sharma. como solucionar problemas e atuar em cooperação com outras pessoas. inclusive na área de farmácia (Chaud. 2007. Novos papéis para o professor Diante do exposto.COSTA. 2002. aliada à velocidade de renovação das informações na era pós-moderna. responsabilidade intelectual e entusiasmo (Marcelo García.13. Masetto (2003) aponta algumas competências consideradas como específicas para o professor universitário: i) domínio atualizado do saber básico (por meio da pesquisa) e experiência de campo em COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. aprendam a pensar. demonstrar competência profissional e comprometimento (Freire. 1997). Portanto. sobretudo. o dilema apresenta-se. o professor deve desenvolver competências que lhe permitam planejar e aplicar com sucesso os componentes curriculares. Nicolaci-da-Costa. um dilema pode apresentarse como duas opções claramente opostas.61). os problemas reais apresentam-se cada vez mais com características novas. 2004. 2001. como são chamados por Schön.31. Foriers. de difícil definição (Lima. focalizada neste estudo. mas. definir com clareza os seus objetivos. Bipolares ou multipolares porque. Para que os alunos atinjam tais objetivos que requerem o desenvolvimento de capacidades complexas. Na visão de Zabalza (1994. polêmicas e polissêmicas. Saber resolver problemas é apenas uma das características essenciais para o ingresso no atual mercado de trabalho. interativas. Assim. Alarcão. n. Zabala. A disponibilidade do conhecimento pela rede mundial (Abreu. 1998). no segundo caso. aceitar o novo. como mentalidade aberta. 2001) e. como é o da sala de aula. Portanto. selecionando-o e aplicando-o corretamente na solução do problema proposto. Dessa forma. Carvalho. ser humilde. cabe ao professor não mais apenas transferir conteúdos. Competência é um termo polissêmico. Os processos reflexivos de conhecimento-na-ação. postulada pelos ideais positivistas. que valoriza as práticas docentes estimuladoras da reflexão do próprio professor e de seus alunos. 2003). 2008a. os conteúdos a serem explorados e quais serão excluídos. Prática docente reflexiva e competências docentes Uma das vertentes da educação pós-moderna é a educação reflexiva (Sockman. Nesse quadro. além de respeitar os saberes dos alunos. vêm desafiando a universalidade do conhecimento. 2002). tomar decisões e trabalhar em grupo (Petit. Freitas. existe um certo consenso entre os autores de que o referido termo envolve a mobilização correta de aspectos cognitivos. p. 2005. em consequência.R. a refletir sobre o que aprendem e sobre o que fazem na prática.. Tavares. Contudo. Castro.

Tal abordagem foi escolhida porque ela fornece dados que geram interpretações mais significativas que os dados obtidos em um estudo quantitativo. as ideias de Schön para a docência não perdem seu valor. Valadares. foi possível tomar contato com disciplinas que valorizam a reflexão e o pensamento crítico. estimulando processos reflexivos nos alunos e nutrindo a disposição para (re)avaliar seus objetivos. Os relatos orais e escritos da reflexão-na-ação e da reflexão-sobre-a-ação são importantes para aperfeiçoar a prática em sala de aula. objetivando maximizar as oportunidades de aprendizagem de seus alunos. As críticas apontadas são pertinentes. por meio do registro e observação dos processos reflexivos 412 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Dessa forma. e enfoca aspectos da relação professor-aluno. 2002. do ensino e da aprendizagem. 2008. p. contudo. vários docentes expuseram ações inovadoras. ii) como corolário da crítica anterior. e estimula o frequente aperfeiçoamento da atividade docente. ocorrido em uma universidade pública. sua área de atuação. A seleção foi feita com base em um encontro sobre experiências de ensino. mas não é capaz de prover interpretações que revelem o(s) porquê(s) do sucesso ou fracasso. Mais concretamente. focalizar práticas docentes diferenciadas pode enriquecer a discussão sobre um ensino universitário de melhor qualidade. 1998) tecem críticas à teoria de Donald Schön no que diz respeito à questão da prática reflexiva. Após a definição do docente. por meio do estudo dos processos reflexivos e competências que norteiam as práticas docentes. out. Pessoa. analisadas e interpretadas as práticas desse professor que. buscando a melhoria do ensino e da aprendizagem dos estudantes. Nesse evento. o trabalho buscou descrever as práticas docentes e os processos reflexivos a elas associados que fortalecessem as competências necessárias para o professor universitário delinear a estruturação curricular com base nos objetivos de ensino. além de enriquecer a produção e a divulgação de pesquisas. iii) exercício da docência como cidadão e político. Metodologia A estratégia de pesquisa utilizada é o estudo de caso do tipo qualitativo (Bogdan. de treino da troca de experiências por meio de reuniões.. 2002. n. Berbel. um bom ou mau desempenho. 2009 . o qual aponta. na interação com os alunos. 1986). Dessa forma. os quais norteiam os demais componentes curriculares. sobretudo quanto ao conceito de “professor reflexivo”: i) o fato de Schön considerar a reflexão como um processo individual (e não levar em conta a reflexão como atividade coletiva).. Apesar dessas considerações. e assim explora pouco o contexto social da atividade reflexiva. Objetivos Esta pesquisa explora a atuação docente por meio do estudo do papel da reflexão e das competências necessárias para tornar o currículo de uma disciplina um meio de aprimorar a aprendizagem dos alunos. Campos. Biklen. Além disso. Schön não amplia a sua teoria para as condições institucionais./dez. Oliveira.PROCESSOS REFLEXIVOS E COMPETÊNCIAS . por exemplo. iii) falta de discussão do papel da formação teórica do professor. 1994. Ainda. foi selecionado um professor que apresentasse indícios de uma prática docente diferenciada. no curso de farmácia. a meta deste trabalho é contribuir para a reflexão sobre a forma de atuação do professor em sala de aula. Pimenta. alguns autores (Luz. André. assim.31. foram descritas. As práticas reflexivas constituem pré-requisitos sobre os quais o docente universitário pode desenvolver determinadas competências para (re)pensar os componentes curriculares de uma disciplina.409-22. a reflexão coletiva entre professores é uma questão de hábito. entende-se que a prática reflexiva evita a acomodação. 2006). ii) domínio dos diversos aspectos da área pedagógica. Tendo em vista os objetivos propostos.13. a questão da teoria na formação docente é parte integrante do currículo. criassem situações dilemáticas e oportunidades de treinar a solução de problemas e a tomada criteriosa de decisão. que podem ser o ponto de partida para mudanças institucionais. Uma vez que as exigências atuais do cargo docente só têm aumentado (Vasconcellos. Lüdke.

André. particularmente as técnicas de ensino utilizadas e a dinâmica dos processos reflexivos dos alunos e do professor. O professor selecionado ministra uma disciplina profissionalizante para o penúltimo ano do curso de graduação em farmácia. Tradicionalmente. de modo a maximizar a validade das conclusões. 1983. Miles. Resultados e discussão Os processos reflexivos e as práticas docentes foram analisados e discutidos em conjunto com as competências docentes destacadas e. 1999). Em todos os dias observados. à luz do quadro teórico adotado: o da educação reflexiva. UETA. mas que não se envolveria nas atividades (Minayo. Na análise temática dos dados (Minayo. out. despreparo do pesquisador. como o enorme custo em termos de tempo. os positivistas apontam ausência de rigor na pesquisa. As falas foram gravadas em fita cassete. por escrito. Durante a observação. 1995. permitem profundidade nas respostas. baseado na prova. tencionou-se evidenciar as estratégias que propiciaram condições para o desenvolvimento dos processos reflexivos nos alunos. Walker. a abordagem de estudo de caso apresenta certas limitações. pela percepção de que tal aluno seria fonte de informações consistentes. o passo seguinte foi agrupar códigos semelhantes em temas (correspondentes aos componentes curriculares da disciplina) e. transcritas e confirmadas pelos sujeitos.D. iniciou-se a seleção de trechos significativos e a criação de códigos. A maior preocupação da pesquisa educacional é justamente com o rigor no preparo e na condução da pesquisa. com o objetivo de triangulação dos dados. a subjetividade tem seu papel reconhecido e valorizado.. a análise documental e a entrevista. L. A análise documental incidiu sobre os questionários iniciais de avaliação e sobre um exercício proposto pelo professor. Além disso. ao mesmo tempo COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.31. CASAGRANDE. Apesar de gerar dados significativos. Tais códigos foram elaborados com base nos aspectos que mais chamaram a atenção ao longo das aulas observadas. aos quais foi garantido o anonimato. para que os alunos tomassem conhecimento sobre como seria desenvolvida a avaliação final. em categorias (Tabela 2). 1994)./dez. Os métodos de coleta de dados utilizados foram: a observação. totalizando aproximadamente 45 horas de observação. de forma que pudesse ficar livre para efetuar registros por escrito.R. que ocorreram ao longo das atividades acompanhadas. a partir dela. A coleta de dados iniciou-se com a observação em sala de aula. para então proceder à interpretação dos dados. influência da subjetividade.13. Assim. o número de entrevistados é compensado qualitativamente pela elaboração de um roteiro de perguntas que. diferente do senso comum. os alunos e o professor estavam cientes de que o observador acompanharia as aulas. de conhecimento-na-ação. J. a seguir. Os alunos foram selecionados com base em informações fornecidas pelos colegas. os riscos éticos associados à pesquisa qualitativa em educação são consideráveis. do tipo “é um bom aluno”. sendo registradas. são argumentos falaciosos e refutáveis. as atividades que o professor propunha e que pudessem estimular a reflexão. Os roteiros de entrevista foram elaborados para se buscar informações discentes sobre práticas docentes que facilitassem ou dificultassem a reflexão.. Uma vez estabelecidos os códigos (Tabela 1). Aliás.COSTA. 1986).409-22. e também com base nas observações em sala de aula. As mesmas informações foram solicitadas ao professor. dinheiro e esforço pessoal. colocando a privacidade sempre em risco. Alguns autores (Stake. dessa forma. p. por serem abertas. n. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com o professor da disciplina e com três alunos. reflexão-na-ação e reflexão-sobre-a-ação. C. 1999). Os sujeitos do estudo foram o professor da disciplina e os 32 alunos matriculados na disciplina. 2009 413 artigos . A seleção de três indivíduos em um universo de 32 alunos é coerente com a abordagem qualitativa por não seguir a lógica da amostragem. o primeiro passo foi realizar uma leitura em profundidade dos relatos de observações e transcrição das entrevistas e. é direcionada e assentada em rigorosa atitude de pesquisa (Lüdke. ocorrida de agosto a outubro de 2000. pois envolvem pessoas. que seria inadequada para cobrir todas as variáveis relevantes para o caso em estudo (Yin. foram verificadas as formas concretas de realização das atividades pelos alunos. 1979) apontam aspectos desfavoráveis. porém.

privilegiaram a interpretação de que se trata de ações voltadas para a criação de oportunidades de aprendizagem das habilidades de solução de problemas e tomada de decisão.Cotidiano 5 ./dez.. 2009 .13. pelo professor.Tutoria (coaching) 9 .Reflexão-sobre-a-ação Código Feedback dos alunos para o professor Tomada de consciência e refazer da trajetória percorrida Tabela 2. Códigos Disciplina Temas Objetivos Categorias Competência 1: propor e verificar a consecução de objetivos de ensino voltados ao desenvolvimento do pensamento crítico Competência 2: selecionar e organizar o conteúdo programático da disciplina direcionando-o à prática profissional Competência 3: selecionar e executar as estratégias de ensino que propiciam processos reflexivos Competência 4: avaliar a aprendizagem discente e dar feedback da avaliação aos alunos Situações dilemáticas Conhecimento-na-ação Cotidiano Reflexão-na-ação Solução de problemas e tomada de decisão Trabalho em grupo Tutoria (coaching) Feedback para o professor Reflexão-sobre-a-ação Conteúdo Métodos Avaliação 414 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Os códigos que emergiram da leitura em profundidade dos dados . Com o objetivo de organizar o grande volume de informações. n.Conhecimento-na-ação 4 . Resumo dos trechos significativos e atribuição de códigos. de exemplos relacionados ao cotidiano extrauniversitário dos alunos Reflexão-na-ação dos estudantes.tendo em vista a interação do professor com os alunos. Os trechos significativos (oriundos dos registros de observação em sala de aula e das transcrições de entrevistas) que originaram os códigos. a partir de perguntas desafiadoras e questões propostas pelo professor Proposição. solução conjunta de problemas e cooperação Situações de feedback do professor para os alunos 1 . temas e categorias.Trabalho em grupo 8 . os dados coletados foram agrupados com base nos componentes curriculares da disciplina (Tabela 2).Situações dilemáticas 3 . temas e categorias estão resumidos nas Tabelas 1 e 2. em que se obtinham dados que permitissem inferências sobre a reflexão do professor. Apresentação dos códigos.409-22. Resumo Informações relacionadas aos objetivos da disciplina Situações propostas pelo professor que envolviam os alunos em posicionamentos e decisões Momentos em que os alunos mobilizaram e integraram conhecimentos de outras disciplinas Uso. p.Reflexão-na-ação 6 .31.Feedback para o professor 10 .PROCESSOS REFLEXIVOS E COMPETÊNCIAS .. out. e a categorização dos dados . de problemas que envolvem o levantamento e o teste de hipóteses de solução com decisão fundamentada Estímulo à formação de grupos.Solução de problemas e tomada de decisão 7 . Tabela 1. pelo professor.Disciplina 2 .

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Em relação aos objetivos de ensino, o professor afirmou que a disciplina é uma ferramenta para: i) estimular o raciocínio e a desenvoltura de comunicação de ideias (oral e escrita); ii) exercitar o trabalho em grupo; iii) exercitar o papel social e de cidadão - como profissional, selecionar um problema e seu contexto e propor possíveis soluções. Tais objetivos (Tabela 1, código 1) têm caráter de macro-objetivos (Giroux, 1997), objetivos nãotradicionais que extrapolam a mera circunscrição da disciplina (Masetto, 2004):
“Acho que o objetivo é tentar mostrar para o aluno que existe uma realidade onde ele pode [...] ser parte, inclusive como profissional, modificando, melhorando o ambiente. [...] o conhecimento dele pode fazer com que ele seja elemento transformador. [...] é alguém que precisa ter uma opinião sólida a respeito de determinado assunto e que isso vai ter influência na opinião pública, sim. Eu gosto de imaginar que ele tem condições de estar decidindo coisas, trabalhando em cima de processos de decisão para participar de políticas municipais, da cidade de onde ele vem ou onde está, acho que isso é extremamente importante”. (Entrevista professor)

O professor preocupa-se com a questão da verdade científica, com o modo determinista com que as informações são transmitidas. O papel maior da disciplina é fazer o aluno pensar (usando os conhecimentos obtidos em disciplinas básicas), refletir a respeito do conhecimento científico como algo provisório, e não definitivo. Para ele, o aluno proveniente da universidade na qual se insere o curso em estudo deve adotar uma postura ativa, ser formador de opinião (Saupe et al., 2005), saber se posicionar com fundamentação sobre questões polêmicas, como os alimentos transgênicos, a quebra ou registro de patentes etc. Para isso, o aluno precisa desenvolver a capacidade de pensar, de demonstrar senso crítico, uma habilidade pouco treinada na vida escolar tradicional. Os objetivos levantados pelo docente são significativos, pois revelam a preocupação com a aprendizagem, ao propor exercícios de reflexão e de situações práticas que simulam a realidade da vida profissional que o estudante enfrentará. Para isso, foram criadas algumas situações (Tabela 1, código 2) que estimulassem o aluno a pensar sobre a sua futura ação profissional: trabalho em grupos e estímulo à reflexão por meio da resolução de problemas específicos que simulam realidades possíveis, como na discussão e resolução de questões da prova, e na redação de uma proposta fundamentada de apoio financeiro para projeto sobre processos fermentativos ao futuro prefeito (no ano 2000, época do estudo, houve eleição para prefeito e vereadores).

Competência 2: selecionar e organizar o conteúdo programático da disciplina direcionando-o à prática profissional
Nesta categoria, destaca-se o estabelecimento de pontes entre o conteúdo da disciplina e o mundo profissional. Assim, o professor criava situações que ligavam o conteúdo ministrado com a realidade da profissão (Tabela 1, código 4). Por exemplo, discutiam-se questões a respeito de patentes, procedimentos de cultivo de microrganismos etc. Foram usadas situações cotidianas para ilustrar o mundo profissional (megafusões de empresas do ramo alimentício e farmacêutico, biodiversidade microbiana, produtos de fermentação). É notável que o professor teve êxito em transformar um assunto técnico (fermentações) em um tema agradável e acessível aos estudantes. O que torna isso ainda mais surpreendente é o fato de que, no Brasil, a própria profissão farmacêutica ainda é essencialmente técnica. Alguns trechos evidenciam a relação do conteúdo da disciplina com o cotidiano dos alunos:
16h26 - O professor passa entre os alunos uma caixinha com produtos de fermentação (pão e queijo com bolor) e mostra um conjunto de substâncias e produtos (vinagre, vinho, frutose, antibióticos, aminoácidos, vitaminas, shampoos, Aji-no-moto®, Danone®, Omo®
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Competência 1: propor e verificar a consecução de objetivos de ensino voltados ao desenvolvimento do pensamento crítico

PROCESSOS REFLEXIVOS E COMPETÊNCIAS ...

etc.) relacionados de alguma forma ao processo de fermentação e de tecnologia farmacêutica. (14/08/00 - Observação em sala de aula) 17h07 - O professor mostra uma reportagem de jornal (O Estado de São Paulo, 27/06/00) sobre a compra da Nabisco® pela Philip Morris®. Com essa aquisição, a Philip Morris® passou a ser a segunda maior indústria de alimentos do mundo (a primeira é a Nestlé®). (28/08/00 - Observação em sala de aula) O principal problema da nossa região com relação ao tratamento de efluentes é o ‘garapão’, que hoje está mais controlado, mas em outros tempos deixava um cheiro horrível no ar. (05/ 09/00 - Observação em sala de aula)

Em coerência com a subordinação dos conteúdos aos objetivos pretendidos, a seleção do conteúdo não segue uma programação rígida, sendo variável de acordo com os fatos noticiados no Brasil e no mundo, no semestre em que a disciplina está sendo oferecida. Por exemplo, ao explicar como seria a avaliação, o professor deixou clara sua visão inter e transdisciplinar (Saupe et al., 2005):
16h39 - [Na avaliação]... serão quatro problemas que envolvem os tópicos vistos. Os problemas podem estar interligados, e os assuntos podem contemplar dados de outras disciplinas. [O professor] enfatizou que não é para o aluno pegar os cadernos antigos e estudar, é apenas um treino para olhar para fora - outras disciplinas, local onde se vive, olhar para fora da faculdade. (25/09/00 - Observação em sala de aula)

Competência 3: selecionar e executar as estratégias de ensino que propiciam processos reflexivos
Aqui evidenciam-se quais estratégias ou métodos de ensino foram utilizados e, fundamentalmente, como o professor empregou essas estratégias. Uma estratégia amplamente utilizada foi a formação de grupos de oposição para defender pontos de vista conflitantes, em assuntos polêmicos como o direito (ou não) de patentear uma nova espécie de microrganismo. Por exemplo, o professor tentou fazer grupos de oposição com a classe, perguntando sobre a posição dos alunos frente a um tema e pedindo que justificassem a escolha (Tabela 1, códigos 3, 5 e 6). Tal estratégia permite aprimorar o conhecimento-na-ação e aprender a refletir-na-ação, além de treinar a tomada de decisão. Foram também criadas algumas situações que estimulassem os alunos ao trabalho em grupo (Tabela 1, código 7), além da proposição de exercícios que valorizam a capacidade de expressão escrita, habilidade fundamental para a formação de profissionais em qualquer área do conhecimento. Ao propor atividades de treino da escrita, o professor estimulou a capacidade discente de refletir-sobre-a-ação. É necessário enfatizar que esse processo de refletir-sobre-a-ação não é um mero exercício de memória, mas envolve a operação intelectual de recordar com um propósito, que é o de avaliar como foi realizada a ação e de que modo se pode agir para melhorar o próximo desempenho (Tabela 1, código 10). Dentre as situações criadas que estimularam os alunos ao trabalho em grupos, destacam-se os exercícios para treinar para a prova e as atividades nas aulas práticas. A seguir, um depoimento que ilustra um momento do trabalho docente em uma aula prática:
“Na aula prática o que a gente mais discutia era como fazer o que ele [o professor] estava propondo... Porque ele não colocava ‘Vocês façam dessa forma’, ele falava ‘Vocês tem que fazer isso; como, vocês descubram’. Então, nessa hora todo mundo começava a discutir, tinha que fazer e como, por que não fazer de um jeito e fazer de outro jeito, então, tinha toda uma série de questionamentos, de tomadas de decisão... que acho muito importante... Porque é assim que a gente vai ter que trabalhar daqui para a frente”. (Entrevista aluna)

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Competência 4: avaliar a aprendizagem e dar feedback da avaliação aos alunos
Nesta categoria, destaca-se o papel do professor em conhecer as características individuais do público-alvo e adaptar as práticas docentes a essas características. Desse ponto de vista, o professor foi ético, na medida em que respeita e considera diferenças individuais entre os estudantes e procura pautar sua avaliação com base nesse contexto, valorizando o estilo de aprendizagem de cada aluno. Tal comportamento docente contrasta diretamente com o modelo da racionalidade técnica, o qual nega a noção de que os estudantes têm histórias de vida diferentes, ou seja, vivenciam, desenvolvem e incorporam - de maneira única - experiências, culturas e talentos. Assim, o professor inicia a disciplina com uma avaliação diagnóstica, que consiste no levantamento do conhecimento prévio e das opiniões dos alunos a respeito do conteúdo da disciplina. Assim, o professor obtém um feedback preliminar (Tabela 1, código 9). A seguir, exemplos de questões elaboradas para avaliação diagnóstica:
3 - Você já ouviu falar a respeito de biotecnologia através de palestras, conferências, diversos meios de comunicação. Defina biotecnologia e descreva a sua importância para a humanidade. / 5 - Você receberá em breve o grau de farmacêutico. Que conhecimentos você espera adquirir com a disciplina de [nome da disciplina] que possam contribuir para a sua graduação? (14/08/00 - Observação em sala de aula/Questionário inicial)

Os dados revelam ainda a preocupação do docente com o retorno (feedback) aos alunos, ao procurar identificar os estudantes que têm mais dificuldade e oferecer apoio (Tabela 1, código 8). Dessa forma, o professor consegue fazer uma avaliação formativa. A avaliação somativa é representada por uma prova escrita, realizada em duplas e com consulta. Essa modalidade de prova, com questões abertas e permissão para consultar materiais, também apresenta um componente formativo, sendo considerada uma prática de avaliação positiva (Vasconcellos, Oliveira, Berbel, 2006), e despertou a atenção dos alunos:
“As aulas, em geral, sempre despertaram o espírito crítico, o professor gosta bastante de ‘cutucar’ a gente... Mas o que mais me despertou o espírito crítico, o que mais me interessou foi a prova, uma prova inteligente, difícil, não foi nada fácil... mas foi uma prova que despertou muito o espírito crítico, fez com que os alunos discutissem entre si o que estava acontecendo, o processo, tudo... E foi muito vantajoso esse tipo de prova, eu gostei muito. Na minha opinião, foi esse o ponto melhor da matéria”. (Entrevista aluno)

Quanto ao feedback para os alunos, os seguintes trechos são ilustrativos:
O professor disse que é impossível ignorar as diferenças individuais em turmas pequenas [frisou que em turmas grandes é muito mais difícil dar atenção individual]. (22/08/00 Observação em sala de aula) O professor disse que deixa os alunos conversarem de propósito, desde que cada um entregue suas próprias respostas. Ele sabe que eles irão chamá-lo para tirar dúvidas. Dessa maneira, identifica os pontos fracos de cada aluno, e pode dar posteriormente um reforço para aqueles que ainda não compreenderam o assunto. (28/08/00 - Observação em sala de aula)

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Fica evidente a preocupação do professor em não fornecer respostas prontas ou receitas que valham em qualquer situação (Masetto, 2004), mas sim estimular a troca de ideias entre os estudantes a fim de torná-los aprendizes autônomos, pensadores independentes.

PROCESSOS REFLEXIVOS E COMPETÊNCIAS ...

Este depoimento vai ao encontro da fala de um dos professores entrevistados no estudo desenvolvido por Vasconcellos, Oliveira e Berbel (2006), e demonstra o espírito de valorização do aluno como pessoa. A crença do professor na potencialidade dos seus alunos é flagrante:
“Eu acho que é você quem tem que criar a experiência. Como é que você vai lidar com um aluno acostumado a ser inteligente, ter boas notas, quer dizer, ele é inteligente nas boas notas. Então você precisa saber que tipo de desafio ele vai lançar, se ele vai lançar algum, se ele vai se esconder, quem é ele. Não dá muito tempo para você fazer ‘garimpagem’, a hora que você olha um aluno você tem que saber que pedra preciosa ele é, você tem que saber logo, não dá muito tempo. Primeiro que você tem que considerar cada um deles uma pedra preciosa, [...] a ‘garimpagem’ tem que ser rápida, você tem que achar alguma coisa para identificar e isso tem que ser uma coisa sentida, de ‘pele’, sabe. Então, com o tempo você acaba aprendendo a fazer isso daí. Eu acho que esse é o grande desafio”. (Entrevista professor)

Na visão do professor, o conteúdo adquire um caráter secundário (Pedroso, Cunha, 2008), sendo variável de acordo com o desenvolvimento de objetivos superiores:
“Não é uma coisa repetitiva, todo ano é uma coisa totalmente nova, diferente. Por isso eu disse que o conteúdo não importa muito, você trabalha os outros aspectos”. (Entrevista professor)

Considerações finais
Este trabalho objetivou explorar um caso de prática docente diferenciada, com destaque para o papel da reflexão e de competências necessárias para o professor universitário (re)pensar a organização curricular de uma disciplina, de modo a maximizar as oportunidades de aprendizagem de solução de problemas e tomada de decisões pelos alunos. Os resultados mostraram, em diversos momentos, o papel fundamental dos processos de reflexãona-ação e reflexão-sobre-a-ação, estimulados (e vividos) pelo professor, os quais permitiram o direcionamento curricular para a consecução dos objetivos pretendidos. Nesse sentido, cabe destacar o trabalho desenvolvido por Pedroso e Cunha (2008) em um curso de nutrição, cujo relato de experiências docentes inovadoras traz informações valiosas que reforçam muitas das conclusões deste estudo. Conforme discutido anteriormente, vive-se hoje uma crise de paradigmas na educação superior (Masetto, 2004). Caem por terra pressupostos modernos da estabilidade do conhecimento e do mundo do trabalho, e mudam as perspectivas de formação e atuação dos professores (Pedroso, Cunha, 2008; Chaud, Gremião, Freitas, 2004; Tavares, Alarcão, 2001). Nesse contexto de instabilidade, refletir sobre a própria prática é condição fundamental para que deixemos a esfera das certezas proferidas por terceiros para atingirmos outros patamares (Zabalza, 1994), contemplando a tomada de decisões fundamentadas, o debate criativo, a aprendizagem que valoriza o erro e a dúvida (Ketzer, 2007), e a coragem de propor novas soluções. Os melhores professores são mais conscientes de suas práticas, e tal nível de consciência depende da reflexão sobre as intervenções no complexo processo de ensino. De acordo com os objetivos deste trabalho, destacam-se aspectos essenciais da ação docente, balizada por processos reflexivos e envolvida pelas competências descritas: 1) Capacidade de prover condições para os estudantes refletirem-na-ação e treinarem as habilidades de solucionar problemas e tomar decisões com base em critérios claros, de acordo com a orientação dos objetivos da disciplina; 2) Capacidade de utilizar o conteúdo como elemento motivacional e como ponto de apoio para a consecução de objetivos mais complexos: i) mobilização do conhecimento-na-ação (buscar e integrar conhecimentos de outras disciplinas); ii) relação com o cotidiano e a futura profissão dos estudantes; iii) seleção variável de conteúdo;

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COSTA, C.; CASAGRANDE, L.D.R.; UETA, J.

3) Uso de situações dilemáticas para estimular os processos reflexivos: i) grupos de oposição, perguntas norteadoras, exercícios de simulação de situações profissionais (trabalho em grupo), técnicas de ensino que permitem utilizar o conhecimento-na-ação e a reflexão-na-ação; ii) exercícios com uso da expressão escrita, oportunidades para se treinar a reflexão-sobre-a-ação; 4) Iniciativa em conhecer as características individuais do público-alvo e adaptar as práticas a essas características (feedback para os alunos); 5) Atitudes favoráveis ao ensino reflexivo: mentalidade aberta (receptividade a novas ideias, cujo maior exemplo foi o fato de o professor ter concordado integralmente em relação à inclusão de sua disciplina na pesquisa), responsabilidade intelectual (postura ética) e entusiasmo; 6) Prática docente coerente com a racionalidade prática: ênfase na importância da teoria vinculada à prática, e nunca dissociada desta; ação apoiada e realimentada pela teoria, que é a essência da verdadeira práxis (continuum ação-reflexão-ação). Dada a complexidade dos aspectos relatados da prática docente e o provável impacto destes na formação pessoal e profissional dos alunos, espera-se que este estudo contribua para a valorização de práticas docentes que resultem em melhores condições de aprendizagem para os estudantes.

Colaboradores Os autores trabalharam juntos em todas as etapas de produção do manuscrito. Referências ABREU, R.A.S.; NICOLACI-DA-COSTA, A.M. Internet: um novo desafio para os educadores. Cad. Psicol. Educ. Paidéia, v.13, n.25, p.27-40, 2003. ALARCÃO, I. Reflexão crítica sobre o pensamento de D. Schön e os programas de formação de professores. In: ______ (Org.). Formação reflexiva de professores: estratégias de supervisão. Porto: Editora Porto, 1996. p.9-39. BOGDAN, R.C.; BIKLEN, S.K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Editora Porto, 1994. CAMPOS, S.; PESSOA, V.I.F. Discutindo a formação de professoras e de professores com Donald Schön. In: GERALDI, C.M.G.; FIORENTINI, D.; PEREIRA, E.M.A. (Orgs.). Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a). Campinas: Mercado de Letras, 1998. p.183-206. CHAUD, M.V.; GREMIÃO, M.P .D.; FREITAS, O. Reflexão sobre o ensino farmacêutico. Rev. Ciênc. Farm., v.25, n.1, p.65-8, 2004. COSTA, C. Os processos reflexivos e as competências do professor universitário no planejamento e aplicação dos componentes curriculares: um estudo de caso. 2004. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. 2004. CRONIN, M.; CONNOLLY, C. Exploring the use of experiential learning workshops and reflective practice within professional practice development for post-graduate health promotion students. Health Educ. J., v.66, n.3, p.286-303, 2007. CUNHA, M.I. et al. Inovações pedagógicas na formação inicial de professores. In: FERNANDES, C.M.B.; GRILLO, M. (Orgs.). Educação superior: travessias e atravessamentos. Canoas: Ulbra, 2001. p.33-90. FARIA, J.I.L. Prática docente reflexiva na disciplina de Administração em Enfermagem Hospitalar: uma experiência de desenvolvimento profissional de professorespesquisadores. 2003. Tese (Doutorado) - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. 2003.
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expor. BR 101. tendo o olho como instrumento e como fronteira móvel entre o sujeito e o mundo externo (Bosi.. objetos naturalmente relacionados com as idéias (Kristeva.. 2009 425 espaço aberto O uso da imagem fotográfica no campo da sociologia da saúde: uma experiência na formação . RN.]. Por intermédio do olhar.br 2 Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. fantasias. sendo as superfícies refletoras de luminosidade. 59. Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Centro de Ciências Humanas. registrar. Senador Salgado Filho. nesse sentido. A imagem seria um dos primeiros canais de percepção do cenário humano. movimentos corporais. antecedente de outros signos para construção das idéias. p. imagens aparecem como visões. enfim. Letras e Artes (Azulão) Av. Conforme Santaella (1999. compreender e interpretar as informações adquiridas e internalizadas no cotidiano.15) o mundo das imagens se divide em dois domínios [. esquemas [. 3000. significados e imagens. memorizar. n. são objetos materiais. contar. Natal. UFRN. signos que representam o nosso meio ambiente visual.. Se as representações mentais e visuais estão ligadas em sua gênese. imaginações. out. um dos elementos do qual se serve a nossa mente para compreender a cultura. Assim. permanentemente em retroalimentação. 1998). gravuras. a linguagem imagética serviu de fonte para a narrativa. ideias.31. 1 Departamento de Comunicação Social. Nesta direção. fotografias e as imagens cinematográficas [. criando o mundo das imagens. são as representações mentais. o que nos põe em conexão com os primórdios da nossa existência. no qual os elementos que o compõem traduzem-se em representações visuais e mentais. relatar. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. constituem uma relação imanente ao ser humano. pinturas. E o domínio imaterial das imagens na nossa mente. o ser humano podia delinear seus espaços.. historiar. Neste domínio. Assim. registrando preciosidades do cotidiano desse cenário social. culturalmente.. reveladoras do mundo.].. a imagem já estava presente nos primórdios da humanidade. é possível pensar que o uso das imagens pode ser o suporte para pensar.de alunos do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.].. Assim. p. já desenvolvia o olhar para observar e compreender a relação com o seu meio. dizer algo. 1999)..] o das imagens como representações visuais: desenhos. a linguagem primitiva antecedeu a linguagem articulada e pode ter sido constituída por signos./dez. Campus Universitário.13. [. Imagens.072-970 nobre@ufrnet. Brasil.425-36. Brasil Itamar de Morais Nobre1 Vânia de Vasconcelos Gico2 Introdução Quando o ser humano ainda não conhecia os mecanismos de utilização da fala. Lagoa Nova .

p. esse conjunto de significantes .425-36. surgiram várias técnicas precedentes à fotografia.21). e não uma mera ilustração.que veicula um conteúdo.tem. A fotografia passava a ser de uso geral. como fonte reveladora e instrumento de disseminação do saber e da cultura. considerando-se fonte de interpretação da cultura. podia ser delineada e. “A imagem dos objetos do mundo visível. bem como um lugar no contexto das narrativas. A técnica foi aprimorada por Jacques Mandé Daguerre. Para Barthes (1984) a fotografia refere-se sempre a algo ou a alguém. A narrativa. sobretudo. A imagem incidente na parede da câmera oposta à que entrava a luz era desenhada em um papel. veio a ser a técnica precursora do processo fotográfico. liberando-a à iniciativa da exploração popular./dez. Isso ocorreu a partir de 1826. 426 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. foi no contexto da Revolução Industrial. o que lhe atribui um caráter de fonte detentora de informação. sendo uma representação visual. out. passando apenas através de um orifício que funcionava como o diafragma. capaz de representar ideias. cientistas e artistas fizeram uso do aparelho. 2009 . Contudo. quando o Estado francês adquiriu a invenção em uma sessão da Academia das Ciências. Porém.. pelo menos na concepção tradicional. na sua composição. por narrar um acontecimento no espaço e no tempo. a imagem fotográfica caracteriza-se por conter. crenças. quando Joseph Nicéphore Niépce produziu a primeira imagem. uma narrativa. apenas em 15 de agosto de 1839. cujos significados constituem uma história. mas foi a câmara obscura3 que.] como conjunto organizado de significantes. Salvaguardando o documento fotográfico das interferências da tecnologia. tornando o uso do processo fotográfico de domínio público. mas. ganhou publicidade. é definida [. Hoje. sendo a fotografia um signo composto por imagens de outros signos. hoje utilizado pelas câmeras fotográficas. foi introduzido um espelho para inverter a imagem e o papel foi substituído pela película sensibilizada quimicamente. ganhando dimensões ilimitadas.O USO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO . sobre papel. como pelo seu poder de indicação da existência do que foi fotografado. que surgiu uma nova maneira de ver o mundo e de ver a si mesmo. Com o aperfeiçoamento da arte de representar uma imagem por outra. a história. que deve se desenrolar no tempo .. 1989.244). após ser utilizada durante muito tempo pelos artistas.31. uma vez que a narrativa também se desenrola no tempo. estando inserida no cotidiano sociocultural. Além disso. ser interpretada. o que lhe confere um significado proeminente por consistir em uma fonte de informação. Com o aperfeiçoamento.13. o oral e o escrito. sendo um dos meios capazes de conformar ideias e influenciar comportamentos (Freund. é possível anunciar que o conhecimento também pode ser apreendido por meio dela. a informação fotográfica necessita do auxílio de outros tipos de linguagem para difundir-se e ser compreendida. Assim. conhecimentos e valores. 1995). obtendo. que são.. viajantes. E. diz Aumont (1995. 3 A luz proveniente de um objeto era refletida para dentro de uma caixa praticamente toda fechada. Esta afirmativa corrobora com o fato de a fotografia possuir estreita ligação com o seu referente. n. ganhava importância social. utilizando a luz solar. p. Essa imagem chegava de forma invertida. formando a imagem. Essa qualidade fidedigna da fotografia lhe concede um valor imanente à imagem representada. de fato. esboços e desenhos da natureza” (Kossoy.. pode-se dizer que a fotografia tem importância nos diversos setores da sociedade. tanto pelo seu conjunto de significados. códigos culturais selecionados e organizados pelo fotógrafo e captados do cenário sociocultural representado. duração própria. formando-se no interior da câmera. Dubois (1999) considera a fotografia um documento fotográfico que presta contas do mundo com fidelidade. p.

especialmente no tocante à utilização de imagens como fonte de pesquisa. por revelarem o contexto social no qual foram captadas (Alves. mas como campo expressivo gerador de conhecimentos que devem ser (re)apropriados pela criança na constituição interativa de sua subjetividade e do entendimento da realidade social. como pensa Nunes (1996. produzirem saberes. como pensa Barthes (1984). complementando-se em olhares cruzados. mas remeter-se a uma teoria da imagem fotográfica que amplie e incentive o trânsito entre as linguagens. à luz dos conceitos da sociologia da saúde. p. Leite. Vidal. A imagem na pedagogia sugere. Entretanto os professores. entre outros. a partir da formação conceitual. trazemos para discussão uma experiência de estímulo ao conhecimento por meio da imagem fotográfica. out. e a discussão do assunto poderá se dar nos campos disciplinares da semiótica. V.28). Tal experiência deu-se na área da saúde. um olhar educado. à saúde. seja o espantamento com o que vemos. e aos modos de vida (Nobre. Partindo do conteúdo programático. Câmara.9). capaz de ver tanto as coisas que se oferecem de imediato à sua percepção como as que lhe escapam”. 2009 427 espaço aberto . 4 Para a discussão da incorporação na formação de pedagogos de conteúdos que discutam o campo e a pedagogia da imagem. p. os quais podem se religar nos processos de observação da ciência e da arte.13. seja admiração com o desempenho do fotógrafo. valendo-se da imagem fotográfica como mediadora da aprendizagem. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.425-36. do ambiente e manipulação de imagens ou de material visual.V. na qual está inserida. ver Barros (1998) e Alves (2004. 2004. em situações formais de ensino. Demartini. mediados pela imagem fotográfica”. no contexto ensinoaprendizagem. 2003. 1996.. há um campo aberto para essa reflexão na história da educação.5): “trata-se de conduzir. quando procurou elucidar a “possibilidade de as crianças. Foram educados prioritariamente para lidar com textos escritos4. Assim. a potencialidade informativa da fotografia enquanto narrativa. Nesse exercício dispensam pouca atenção à interpretação das práticas visuais. p.. 1996. p. e não com a linguagem verbovisual (Barros. Assim. A investigação considerou que a fotografia deve ser agenciada no espaço escolar não apenas como “suporte metodológico. 2004. 1996. Nesse contexto. p. pois. 2005). à sociedade. GICO. estabelecendo articulações intersemióticas não apenas com a linguagem verbal” (Alves./dez. ainda apresentam dificuldades em lidar com as imagens fotográficas na educação. pensamos ser possível discutir a relação entre a imagem fotográfica e a aquisição do conhecimento para o entendimento da sociedade e da cultura.31. designados pela sua destinação ou pela sua constituição” (Nunes..NOBRE. em sentido mais amplo. o uso de diferentes suportes imagéticos “lócus.5). desvendar. motive uma visão contra-hegemônica (Santos. à educação. da história. hábitos. efetivada numa sala de aula do Ensino Superior.M. n. e numa pedagogia da imagem poder delimitar e indicar de qual conhecimento estamos falando: a educação do olhar. foi discutido por Alves (2004. da sociologia e da antropologia. geradora de interesses pela sua interpretação e pelo que esta contém e comporta. A abordagem da questão imagética na escola. assegurou-se que o conhecimento de um universo sociocultural distante de nós é possível por intermédio da fotografia. 2003). Gico. Daí. 1998). bem como religar conceitos epistemológicos relacionados à cultura. 2006) dos paradigmas educacionais. embora não se devam esquecer as questões críticas que as mesmas comportam. objetivando discutir conteúdos do universo social dos alunos. ensinar. numa estratégia de educação dos sentidos [. 1998. por sua vez. práticas e costumes sociais. 2000.]. 1996). I.

como mediação da aprendizagem. No decorrer das discussões posteriores. imagens do povo brasileiro. na capital do estado potiguar. que planejaram. 1992). montadas em passe-partout. só existem duas classes sociais. possuidora dos meios de produção. de fato social em Emile Durkheim. em todas as épocas. especificamente. no litoral norte do Rio Grande do Norte. durante quatro horas. ilustrando.. por toda a sala de aula. 7 Para Weber (Thomazi et al. p. classes sociais8 e cultura9. representavam imagens-fragmentos de momentos peculiares. concebe-se cultura como o capital cognitivo coletivo dos conhecimentos adquiridos. um olhar sensível sobre um mundo carente de profissionais humanizados na área da saúde. o senso comum. das crenças míticas de uma sociedade (Morin. região Nordeste do Brasil. Para uma efetivação do exercício e construção do olhar. da seguinte maneira: imagens que representavam o conceito de fato social6 foram expostas a partir de uma explicação do grupo relacionando-as ao conceito e. fotografias publicadas em revistas da atualidade. cartonagem de face preta. que vende sua força de trabalho para os capitalistas. assim as ideias da classe dominante são. contextualizavam um quadro de informações visuais gerais.. como fotografias-chave representativas do todo. preparando o olhar do aluno para a percepção do mundo por intermédio do exercício da contemplação e interpretação da fotografia para a aquisição do conhecimento sobre saúde. A organização dos seminários foi preparada por cinco grupos. A disciplina propunha-se a: mostrar aos alunos as relações entre sociedade. por conseguinte. Os alunos circularam livremente pelo espaço. cursando a disciplina Sociologia da Saúde. os alunos foram orientados pela seguinte questão: 428 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. ação social em Max Weber e as relações de classes sociais em Karl Marx. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte5. uma comunidade pesqueira nomeada Diogo Lopes. conhecer as interfaces sociais do processo saúde-doença nos aspectos da transdisciplinaridade e da humanização em saúde. dos saberes. Material e método O cenário da experiência foi uma sala de aula com trinta alunos do primeiro período. de cultura. 1993). a capitalista. promover a compreensão deste processo no contexto da divisão social do trabalho e das classes sociais. p. exercitando em cada um deles um olhar investigador. No ato de ver. característico de um leitor social. disposto a decifrar detalhes da constituição social. Para auxiliar no entendimento das fotografias e correlacionar os objetivos da atividade com os objetivos da disciplina. as ideias dominantes. O seminário teve a finalidade de reforçar os conceitos que antes foram discutidos. sob a supervisão do professor. 2009 5 Situada em Natal. discutindo os conceitos de sociedade. em seminários. aspectos do cotidiano social.31. fazeres apreendidos. dispusemos 158 fotografias dimensionadas em 20 cm X 40 cm. região Nordeste do Brasil. situada a duzentos quilômetros da capital . e a proletária. 9 Examinando-se o pensamento de Edgar Morin sobre cultura. Propusemo-nos a estimular a compreensão dos alunos. out.Natal -. Promovemos discussões acerca dos conceitos citados. em seu contexto.13. o fato social é uma norma coletiva com independência e poder de coerção sobre o indivíduo. no Curso de Enfermagem. concordando com Câmara (1996../dez. . a fim de que pudessem penetrar no contexto sociocultural. oferecida pelo Departamento de Ciências Sociais. o sujeito procura conhecer o objeto do desejo em todas suas nuanças e sentidos”. além de discutir a doença enquanto iatrogênese social. focando a discussão na relação doença/saúde/sociedade/cultura. cada um composto por seis alunos. Tínhamos a pretensão de promover uma viagem virtual dos observadores ao universo retratado na fotografia. além da análise das representações sociais dos personagens envolvidos. as apresentações dos conceitos apreendidos por meio da interpretação das imagens recortadas das revistas e coladas em cartolinas.425-36. As fotografias narravam ocorrências socioculturais de aspectos do cotidiano daquela comunidade. n.228). cultura e sociedade e o reconhecimento do espaço social em discussão. é de penetrar em sua essência. foram apresentadas as imagens relacionadas aos conceitos de ação social7. 6 Para Durkheim (1987). por meio da religação dos saberes. 8 Para Marx (1984). ampliamos a experiência. a ação social refere-se a qualquer ação que leva em conta ações ou reações de outros indivíduos. mas agrupadas e associadas. observando as fotografias. tendo. cultura e instituições no processo saúde-doença. em sala. quando afirma que o “desafio do olhar é de ver em profundidade o visível.O USO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO . buscando desvestir o habitual.

Nesse sentido. Nesse exercício. como uma iniciação às interpretações sociais de imagens fotográficas. Este quadro configurava-se. aparentemente distante do aluno. considerando que esses exercícios. 2003). para aqueles discentes. n. A descoberta do significado da imagem não existe independente do espectador e a cautelosa tarefa do professor consiste em não impor interpretações. mas também a qualidade da imaginação. cujo espaço observado está delimitado por bordas demarcadoras do quadro fotográfico.83 ): o trabalho com imagens tem grandes implicações cognitivas: aumenta a intensidade do olhar.V. I. cuja origem fosse uma provocação imagética. quiçá. por futuros profissionais da saúde.. Observe o indivíduo.31.NOBRE. mas em favorecer comparações e diálogos. a fotografia auxilia na antevisão do mundo. 10 A expectativa gerada entre os alunos desencadeou inquietação em todos eles. como “fato social” (Durkheim). na perspectiva de uma pedagogia da imagem para a observação e reflexão de um contexto social. estimulando o processo cognitivo mediado pela imagem. em geral. “ação social” (Weber) e “classe social” (Marx). INTERPRETAÇÃO SOCIAL DE FOTOGRAFIAS. conforme Leite (1996. não nos limitamos apenas a uma descrição dos problemas sociais da expropriação da saúde. A maioria dos alunos. contudo. o passo inicial para sua formação enquanto profissional da saúde. capaz de desenvolver os princípios deste mesmo olhar. observatórios. sobretudo. Diante das fotografias expostas. de um modo geral. mas também a uma reflexão. simultaneamente. Faça relações das imagens com os conceitos estudados em sala de aula. reveladora da realidade semi-imaginária do homem. massificante. Eram alunos oriundos de um Ensino Médio.M. out. p. carentes de uma avaliação proponente de soluções para os seus possíveis problemas de doenças sociais10. no qual os alunos estão habituados a avaliações tradicionais./dez. oferecidas pelo seu Curso naquele período letivo.13. como orientador de uma observação de fora para dentro do cenário representado na fotografia. GICO. terá esta oportunidade caso venham a se envolver em projetos de pesquisa ou extensão universitária. pela percepção que vem de fora: “quando mergulhamos profundamente em uma imagem percebemos que ali COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Análise e interpretação dos dados Trabalhar com narrativas fotográficas em sala de aula. pode ser um processo desencadeador da preconcepção visual de comportamentos e modos de vida dos referentes. tendo encontrado esse mesmo modelo nas demais disciplinas. p. o meio ambiente visto nas imagens. Notava-se uma grande preocupação em não conseguir redigir um texto. mas de uma forma presencial. mediante aquelas fotografias? A mediação do professor foi fundamental nesse momento. Os fatores culturais e sociais influem na saúde e na doença e como a compreensão dos mesmos pode melhorar o atendimento médico e a educação para a saúde (ver Helman. sua qualidade de vida.425-36. mesmo tendo como referência o enunciado patente. 2009 429 espaço aberto . do quadro social que espera este profissional. V. tecendo comentários sobre o seu modo de vida. em situações cujo calor do profissional estivesse em contato com o calor dos observados. O rompimento do desafio de escrever é favorecido pela magia da imagem. familiarizando-o e preparando o seu olhar para os exercícios práticos. não constam dos objetivos das disciplinas oferecidas para os iniciantes dos cursos da área da saúde. sua saúde e sua cultura. exploratória de questões objetivas e sintéticas. Observe as fotografias expostas e descreva o ambiente sociocultural no qual estão inseridos os atores sociais mostrados. surge um desafio para os alunos: como começar a escrever a sua narrativa. em um quadro vivo. a sociedade.

Em algumas fotos vemos famílias que mostram a presença do pai. out. investigavam. na maioria das vezes sem fazer referência às pessoas expostas nas imagens fotográficas. p. Temos nesta observação um fato social. que a falta do hábito de escrever torna-se um dos principais empecilhos para o desenvolvimento de uma reflexão com uma linguagem mais apurada.. crustáceos. o trabalho desenvolvido em sala de aula alcançou o objetivo desejado. sobressaindo-se o vocabulário comum. e até na própria alimentação. n. tem em sua casa um sinal de uma cruz [Foto 1]. como costumes. Preparação do peixe fresco para cozimento. tratando do peixe. mas o fazem porque vivem da necessidade do mesmo. considerando o exercício do olhar e a reflexão sobre a imagem. vê-se também a ação recíproca. não obstante. Embora alunos do primeiro período do curso de enfermagem. A sua forte religiosidade apresentada na foto em que o homem. 430 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. mulheres e crianças. em que os filhos realizam sem nem mesmo saber quem condicionou esse trabalho. Homens.”. 2002. Mesmo assim. Mas em meio a tudo isso existe também a calamidade da saúde. de um modo geral. o seu modo simples de viver. Ao caminharem diante das fotografias. refletindo sobre os conceitos propostos no enunciado. p. quer seja pescando. ainda. Isso tudo acarreta várias doenças que se não forem logo cuidadas podem levar as pessoas a situações graves. 2009 . Nisso. podendo-se evidenciar alguns exemplos. escrito pela aluna A11) Foto 1. todos realizam algum trabalho com uma mesma finalidade: a obtenção de um bom produto.47). em detrimento de uma articulação acadêmico-científica. ou seja. peixes e toda a tradição marítima. as influências de outras culturas. constaram de descrições físicas do ambiente mostrado. Suas narrativas. não existe um mero registro da realidade. tratando peixe.13. concentravam o olhar em pontos que lhes chamavam a atenção. como crianças comendo sentadas no chão.O USO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO . seus ricos conhecimentos sobre o mar. aproximavam-se.31. para substituir os nomes verdadeiros dos alunos envolvidos na experiência. priorizando-se as técnicas. 11 Nas nossas citações utilizaremos os codinomes. Nisso temos a ação social”. o manuseio de todos os instrumentos utilizados na pesca.. a falta de higiene do trato dos peixes e crustáceos. Observamos. mas sim uma cumplicidade do autor com o objeto fotografado” (Andrade. os alunos paravam./dez. a arte e a habilidade da pesca. coloquial. mãe e filhos todos realizando um trabalho algo que até já foi passado de geração em geração.. como trechos das narrativas desenvolvidas pelos alunos ao observarem as imagens fotográficas para interpretação do espaço sociocultural: “Ao observarmos essa cultura vemos tantas riquezas.425-36.. a exemplo de “aluna(o) A/B. os pescadores trabalham todos juntos. (Trecho extraído de uma avaliação. relacionadas com as atividades cotidianas do lugar. já parecem incorporar uma tendência persistente na área: a falta de humanização em saúde. na sujeira observada em algumas casas.

quase como uma lei (a lei da sobrevivência). Por outro lado. que. out.. quando se refere à cultura. do idoso e dos deficientes [Foto 3] está incluso em sua cultura. tendo em vista que a fotografia retrata tais temas. observados nas fotografias: “As fotos nos apresentam uma comunidade pesqueira.31. outros com jangadas [Foto 4]. A divisão do trabalho é bem nítida: alguns trabalham na pesca com barco.V. mas por uma necessidade. desenvolve-se o raciocínio com o pensamento subordinado à ideologia dominante a partir da leitura das imagens. I. p. onde há uma nítida falta de recursos. imagens do cenário social que trazem à tona o conteúdo da disciplina Sociologia da Saúde e estimulam a aluna a compreender com mais clareza a divisão social do trabalho. Essa característica pode ser observada no trecho a seguir. escrito pelo aluno B.425-36./dez. Nota-se. sem uma visão crítica e uma educação do olhar. assim como a religiosidade [Foto 1]. que ela percebeu como os atores sociais presentes na fotografia estavam voltados ao cumprimento de suas atividades sociais cotidianas. GICO. 12 A avaliação da aprendizagem para a maioria das escolas e professores é uma oportunidade de punição (Vasconcelos. à divisão do trabalho por sexo.13. 1998). o lazer e a família. Poderíamos dividir a população naqueles que possuem os barcos e naqueles que não os possuem. condições físicas e idade. na leitura da aluna “A”. O trabalho infantil [Foto 2]. 2009 espaço aberto . ao trabalho e à religião como fatos sociais. O primeiro não por uma escolha do povo. 431 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Criança participa do trabalho de tratamento do peixe sardinha. com tarrafas e até com as próprias mãos (caça ao caranguejo) as mulheres e crianças trabalhando na limpeza do pescado. V. (Aluno B) 13 Quer dizer: da execução de algum tipo de trabalho que gere renda. Foto 3. n. Catador de caranguejo prepara crustáceos para o comércio. seria um belo exemplo de duas classes distintas”. Vê-se. contudo. cujo tempo para finalização era delimitado.NOBRE. Foto 2. o que leva jovens e deficientes a participarem de alguma forma de renda13.M. a sintetização dos textos foi uma das características da escrita dos alunos quando estiveram diante da situação de avaliação12.

também. possuem televisão e aparelhos de som que. Dessa forma.O USO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO . São pessoas humildes que trabalham ao ar livre. “O traçado do scanning segue a estrutura da imagem. Embora as intenções do fotógrafo sejam codificar conceitos imageticamente. p. Nesse sentido. a imagem interpretada conduziu os alunos a fazerem suposições. são pessoas com hábitos de vida saudáveis. Verifica-se que a noção sobre os conceitos discutidos pode ser melhor assimilada quando a imagem visual serve de amparo para o desenvolvimento do raciocínio e elemento conectivo entre os conceitos e os atos representativos. quando estes se basearam na sua capacidade de abstração. 1998. dentro da divisão social do trabalho da comunidade. 2009 14 Grifo do autor.28). às crianças e aos idosos.13. Arrastão na Restinga Ponta do Tubarão. mas. temos exemplo na interpretação das alunas A e C. seguindo uma hierarquia nas suas tarefas. influenciam no modo de vida das pessoas. Uma comunidade na qual crianças com pouca idade [Foto 2] já trabalham para ajudar seus pais na manutenção do lar. seguindo os seus impulsos íntimos no ato do scanning14. os impulsos íntimos do observador” (Flusser. A imagem fotográfica auxilia os alunos a incorporarem os conceitos no campo do conhecimento. O scanning é o ato de vaguear pela superfície da imagem. que tem como fonte de renda e de alimentação a pescaria. Existe um menino que veste uma camisa do time Flamengo. 432 . de certa forma. certamente sentiu-se seduzido por algum comercial e saiu em busca COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. armazenando-os na memória como dados imagéticos associados a dados conceituais. Destacamos ainda o que vem em parte da narrativa a seguir: “As figuras retratam uma comunidade com hábitos de vida ‘primitivos’. fazendo com que as imagens sirvam de modelo para outras pessoas (Flusser. Há um homem fumando um cigarro [Foto 1]. Enquanto uns pescam. out. As casas. por presenciarem na fotografia. acordam cedo para a primeira puxada de rede e. Foto 4. por ser uma comunidade pesqueira. Mulheres expõem peixes-voadores para secarem ao sol. pessoas com aspectos físicos e idades.. este. p.31. Os alunos veem a imagem representativa da religiosidade.425-36. observam pessoas do sexo feminino. algumas vezes. as crianças crescem comendo peixes e não balas e doces./dez. n. do trabalho e as conectam com o conceito de fato social. não condizentes com o desenvolvimento de atividades manuais pesadas e concluem. esta sociedade não é por completo alheia à vida moderna. 1998). Ressignificaram os dados conforme o seu ponto de vista. que desenvolver atividades mais leves é característica natural atribuídas às mulheres. mesmo humildes. No entanto.. veem procedimentos referentes à cultura e fazem conexão com este conceito. Foto 5. outros limpam o peixe e outros os colocam para secar [Foto 5]. utilizando o aparelho fotográfico.

15 Neste caso. o que tornou possível o interesse comum pelas imagens fotográficas nas interpretações e estudos da sociologia da saúde. embora existam mulheres trabalhando. pois. prova do acontecido. out. sociologia. religamos a sociologia dos modos de vida. é preciso que o professor esteja atento para um aprofundamento das discussões sobre a temática da cultura. I. fotografia e educação. que. Assim. central para a antropologia. realizada pelos alunos sobre a disciplina e os recursos didáticos/métodos empregados. estabelece a religação dos seus conceitos. os alunos. homem-natureza. priorizando uma linguagem verbovisual. em sala de aula. aquilo que sabemos e em que acreditamos influencia na maneira como vemos as coisas. Assim. as imagens fotográficas dialogam com a “realidade e a representação dessa realidade – as imagens são observações estéticas e documentais da realidade”. sem serem primitivos. que. Na avaliação final. foi importante para esses alunos que não possuem. considerando que o conceito de cultura é um dos conceitos que estavam sendo observados nas fotografias pelos alunos/interpretantes. o produtor-fotógrafo foi o professor da disciplina. sociólogo e enfermeira –. essência da visão transdisciplinar do conhecimento.M. que os conhecimentos do interpretante podem ser decisivos no momento da decodificação de uma imagem. predomina o trabalho do homem. sendo uma comunidade primitiva. pois estes estão na maioria das figuras. De um lado. A análise das interpretações dos alunos. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. pelo fato de as casas possuírem televisão e equipamentos de som. sem descartar a avaliação do circuito social da fotografia envolvendo produtores15 e consumidores da imagem fotográfica. A Aluna C presume que todas as crianças da comunidade já trabalham para ajudar os seus pais na manutenção do lar. mostrando que não é inútil como se costuma pensar. visto que as cenas das fotografias eram dos modos de vida dos brasileiros escolhidos. V. provenientes de classes sociais diversas.. Nesta experiência. Destaque-se a importância da formação diversificada dos professores envolvidos na experiência – comunicólogo. como quer Achutti (2004). ajudando nas tarefas. religando. 2009 433 espaço aberto do produto.NOBRE. p. (Aluna C) . [.] em que as pessoas parecem felizes e as crianças dão continuidade ao trabalho de seus pais”. embora não possamos mais considerá-la como documento apenas. para um exercício da aprendizagem. n. acatados pela sociologia.. a antropologia e a didática em enfermagem.31. esta comunidade não é por completo alheia à vida moderna. mas como representação cultural da sociedade. mas aproximar cultura-sociedade. a antropologia cultural e a educação. anteriormente ao desenvolvimento do exercício. e as fotos eram sensíveis às afinidades com as abordagens da vida cotidiana próprias à antropologia cultural.13. não só podemos traçar paralelos entre a antropologia e a fotografia.425-36. da estrutura social. religando conceitos da história dos trabalhadores. e do conceito de cultura. inicialmente. também. fotografia. conforme Berger (1999). GICO. Dessa maneira. e os consumidores da imagem fotográfica. bem como da dimensão do simbólico na interpretação das diversas práticas cotidianas. que crescem comendo peixes. educação. há um deficiente trabalhando [Foto 2]. Vê-se. associadas a uma perspectiva sociológica que revela o papel da ideologia na construção social das imagens. no currículo do curso.. ao demandar conceitos de outras disciplinas./dez. A análise da experiência mostrou a possibilidade do exercício da transdisciplinaridade. Convém lembrar. e não balas e doces. foram evidenciadas as experiências cuja finalidade era a interpretação social da fotografia.V. É uma comunidade. e de outro. além do mais. exercitarmos mais uma vez a religação antropologia. aproximou-se a Sociologia da Antropologia Cultural estudandose as práticas cotidianas que sustentam a vida social. associando texto-imagem/realidade social-formação profissional. É uma comunidade que sabe assimilar uma vida comum. pedagogo.

Referências ACHUTTI. inicialmente. Educação e leitura. Natal. fazendo-o deslocar-se de um mundo de formalidades para um de informalidade no campo do aprendizado./dez. A experiência do aluno/interpretante nessa investigação poderá ter repercussão no seu imaginário. Fotografia e antropologia: olhares fora-dentro. Nesse contexto. tanto por discutirmos uma experiência do uso da imagem fotográfica no campo da sociologia da saúde na área da enfermagem. 2002. a fotografia desmistifica este espaço como sendo exclusivamente de intervenção textual. correlacionando-o com o conhecimento apreendido durante a sua socialização. 2009 . Porto Alegre: EDUFRGS.31. o que supomos ter enriquecido a experiência das interpretações e evidenciado a possibilidade de interpretação e discussão da fotografia em educação como mediação para o conhecimento e a aprendizagem. São Paulo: Estação Liberdade/EDUC/ Fapesp. corroborando com a humanização deste interpretante e futuro profissional.425-36. que a imagem fotográfica facilita a aquisição do conhecimento em sala de aula por conter um teor lúdico. a sala de aula é um espaço conveniente para este exercício. M. um dia. Aprendendo com a luz: a fotografia como mediação da formação conceitual no Ensino Fundamental. permitindo a este vislumbrar o universo no qual poderá. o cenário à mostra era diferente daquele conhecido pelo aluno. ______. 2004. além de possibilitar uma educação do olhar. ALVES. o que pensamos ter experienciado. O uso da imagem fotográfica em sala de aula requer levar em consideração os signos contidos na imagem. p. 2004. Fotoetnografia da biblioteca jardim..F.E. 2004. Tese (Doutorado) . quanto por acreditarmos que imagens fotográficas são reveladoras de um universo sociocultural.. Conclusão A experiência de estímulo ao conhecimento por meio da imagem fotográfica. e nesse processo insere o aluno na alfabetização imagética. L. intervir social ou profissionalmente. o que poderá facilitar ações mais humanizadas nesta área da saúde. R. Quando utilizada como mediadora da aprendizagem nos processos educacionais da escola. incentivando um olhar crítico para o mundo. n.13.R.291-300. além de poder influenciar a sua maneira de observar o mundo. Asseguramos. out.O USO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO . área na qual predominam os conhecimentos técnicos especializados. 2003. J. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A criação do visível: por uma pedagogia da imagem fotográfica. ser um espaço privilegiado para o exercício do olhar. conforme Alves (2003). conduzindo-o a um conhecimento de outros referenciais além dos seus. 434 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Itamar de Morais Nobre é o responsável pelas imagens fotográficas. a fim de compreender o meio social mostrado. Concluímos ainda que a experiência foi um desafio. João Pessoa: Editora da UFPB . efetivada numa sala de aula do Ensino Superior. mas o seu conteúdo foi revelado pelos signos nela contidos. p.).Programa de PósGraduados em Educação. A fotografia funciona como um atrativo para o interpretante. (Org. In: AMARILHA. sobretudo por ser institucional e. para que o interpretante faça uso dos seus significados.PPGE/ UFRN. Assim. ANDRADE. vem corroborar a possibilidade da compreensão de ambientes socioculturais por intermédio da interpretação de fotografias. Colaboradores Itamar de Morais Nobre e Vânia de Vasconcelos trabalharam juntos em todas as etapas de produção do manuscrito.

THOMASI. GICO.425-36.O. J. Lisboa: Relógio D’água. V. Niterói. D. 1995.).. p. LEITE. Educando o olhar. J. I. 2006. 1999. DEMARTINI.ed. KRISTEVA. Niterói: UFF . A fotografia como fonte para a historiografia educacional sobre o século XIX. IMAGEM DA PEDAGOGIA. IMAGEM DA PEDAGOGIA. S. VASCONCELOS. N. p.W. BARROS. (Org. As regras do método sociológico. Imagem: cognição. saúde & doença. 1999. Modos de ver. 1999.L. C. São Paulo: Iluminuras. 2005. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. mídia. Anais. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. Revelando os modos de vida da Ponta do Tubarão. p..). São Paulo: Hucitec. In: ______. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campinas: Papirus. O olhar.S. M.G. modernidade e civilização. 4. 1998. GERMANO. 1998. In: TOMAZI. São Paulo: Cortez. p. Lisboa: Vega.194-204. A imagem. In: SEMINÁRIO PEDAGOGIA DA IMAGEM. 1996.82-7. 2. MORIN.20-2. O fotográfico. J. Repertórios documentais e a reconstrução do processo histórico educacional.S. Iniciação à Sociologia. São Paulo: Libertad. 3. Anais.. 1995. 1996. 1996. CÂMARA. semiótica. B. A.. A câmara clara. F . C.. W. G.13-6. et al.. 1984.120-48.13. (Org.Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais.. Rio de Janeiro: Rocco. Fenomenologia do olhar. 1984. A. Campinas: Papirus. Revisitando a história da educação através do uso de imagens. ENGELS. NUNES. DUBOIS. Z. Niterói: UFF. E. 2009 435 espaço aberto AUMONT.V. In: FARIA FILHO. 13.F. 1998. São Paulo: Moraes. In: SEMINÁRIO PEDAGOGIA DA IMAGEM.). História da linguagem.ed. Avaliação da aprendizagem.65-87.M. Fotografia e sociedade. Porto Alegre: Artmed. GICO. Weber e a ação social. J. MARX. Anais. Lisboa: Edições 70.. Natal: EDUFRN. C. 1987 FLUSSER. A. NÖTH. Rio de Janeiro: Ática. A educação no Rio Grande do Norte. 1999. 1996.D. p.NOBRE. p. BERGER. N. Belo Horizonte: Autêntica.. L. Anais. p. R.G. Niterói. O método 4. K. Imagem e educação. Niterói: UFF.200-6. p. 1993. In: SEMINÁRIO PEDAGOGIA DA IMAGEM. 2005. A ideologia alemã. .. Ensaio sobre a fotografia: para uma Filosofia da técnica.M. HELMAN. 2000. I. BARTHES. Niterói. SANTAELLA. (Org.V.. n. out. 1996. 1998. V. IMAGEM DA PEDAGOGIA. (Orgs. FREUND. NOBRE. BOSI. L.). São Paulo: Companhia das Letras. E. p. E. In: SEMINÁRIO PEDAGOGIA DA IMAGEM. 1992. IMAGEM DA PEDAGOGIA.ed. O ato fotográfico. Niterói.M. 1996./dez. In: NOVAES.M.2-6. Tese (Doutorado) . Abertura. 2003. (Org.ed. Revisitando a escola: considerações para uma leitura da reforma Fernando e Azevedo. Cultura. B. V.D. KOSSOY. Fotografia e História.M. 1998. In: SAMAIN. 2.B. P . São Paulo: Nacional. SANTOS. VIDAL.. 1996. 1989.ed. p. Educação. Natal.). Sintra: Europa-América.31.74-87. Niterói: UFF . 1996. DURKHEIM. Lisboa: Edições 70. São Paulo: Atual.

Educação. and it reflects on the comprehension of their meaning for education. Nursing students. Imagem fotográfica e educação. The experience that served as the argument for this discussion was obtained in a classroom with 30 nursing students at the Federal University of Rio Grande do Norte. na disciplina de Sociologia da Saúde. Photographic image and education. Estudiantes de enfermería. Palavras-chave: Educação e saúde. refletindo-se sobre a compreensão do seu significado para a educação. no ano de 2006. salud y sociedad. within the subject of Healthcare Sociology. The data were collected through observation of the photographs in the classroom. Os dados foram coletados a partir da observação das fotografias em sala de aula. provided by Social Science Department in the year 2006. through seminars and evaluations. The use of photographic images within the field of healthcare sociology: an experience during the training of nursing students at the Federal University of Rio Grande do Norte. 436 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. en la disciplina de Sociología de la Salud ofrecida por el Departamento de Ciencias Sociales de la Universidad Federal de Rio Grande do Norte en el año 2006. Estudantes de enfermagem. using the images as a mediator for learning within higher education for healthcare. Brazil This paper discusses the use of photographic images inside the classroom as an information source for interpreting the sociocultural context from where it was taken. dos seminários promovidos e das avaliações utilizando a imagem fotográfica como mediação da aprendizagem no ensino superior da área da saúde. Recebido em 05/03/08.31. n. A experiência que nos serviu como argumento para esta discussão foi realizada em uma sala de aula com trinta alunos do curso de Enfermagem. oferecida pelo Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.425-36. Palabras clave: Educación y salud.. 2009 . Brasil Se discute el uso de la imagen fotográfica en sala de aula confiriéndole la cualidad de fuente de información para la interpretación del contexto sociocultural del cual se capta. Imagen fotográfioa y educación. El uso de la imagen fotográfica en el campo de la sociología de la salud: una experiencia en la formación de alumnos del curso de Enfermería de la Universidad Federal de Rio Grande do arte. Aprovado em 07/10/08.. Educación. Los datos se colectaron a partir de la observación de fotografías en sala de aula de los seminarios promovidos y de las evaluaciones utilizando la imagen fotográfica como mediación del aprendizaje en la enseñanza superior del área de la salud.O USO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO . p. saúde e sociedade. reflejándose sobre la comprensión de su significado para la educación.13. Education. La experiencia que nos ha servido como argumento para esta discusión se realizó en una sala de aula con 30 alumnos del curso de Enfermería. Discute-se o uso da imagem fotográfica em sala de aula conferindo-lhe a qualidade de fonte de informação para a interpretação do contexto sociocultural do qual foi captada. out./dez. Keywords: Education and health. health and society.

13. por iniciativa dos padres da Companhia de Jesus. têm sido buscadas alternativas de comunicação para moldar os comportamentos das camadas populares. O projeto foi elaborado por técnicos do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). 2009 437 . com a constitucionalidade adquirida em 1988. Todas as instituições. componente da área conhecida como Grande São Paulo. todos os movimentos sociais e grupos de interesse usam estratégias de comunicação que tentam garantir visibilidade diante da avalanche de conteúdos. da Secretaria de Saúde do Município de Guarulhos. Conforme Valla (1998). independente da natureza de seus fins. a ideia norteadora do projeto foi a troca de conhecimentos. da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo. informações e símbolos dos outros setores. A proposta foi a criação de cursos que ampliassem a informação disponível a esse segmento. Os autores apontam que.014-011 marina. uma rede diversificada e complexa de discursos e mensagens circula em velocidade cada vez maior. por meio da Secretaria de Gestão Participativa. SP . contatou universidades brasileiras com o interesse de desenvolver alternativas de comunicação em saúde direcionadas às rádios comunitárias. para que a comunicação se estabeleça. Avenida Conselheiro Rodrigues Alves. 3 Oboré Projetos Especiais. out. experiências e sentimentos entre funcionários dos serviços de saúde e comunicadores das rádios comunitárias que gerasse como resultado uma união de esforços na comunicação em saúde com a comunidade. os canais de expressão dos Conselhos de Unidades Básicas. n./dez.br 2 Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Brasil. teve sua denominação atual assumida em 6 de novembro de 1906. Segundo dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – SEADE.Uma experiência em comunicação e saúde Marina Ruiz de Matos1 Luiz Carlos Meneguetti2 Ana Luisa Zaniboni Gomes3 Introdução Nas sociedades contemporâneas. no caso da saúde. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SUCEN). Teve como local escolhido o município de Guarulhos. Municipais e Estaduais abrem-se à possibilidade de incorporar um modelo menos normativo. p. por meio da racionalidade do discurso técnico. 04.matos@unifesp. Formado por volta de 1560.437-47. 1 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Nessa perspectiva. é necessário construir pontes entre serviço e usuários que permitam chegar a um conhecimento resultante da troca entre vivências desiguais.31. O Ministério da Saúde. atualmente possui cerca de um milhão e duzentos mil habitantes. 457/121. Conforme Pitta e Oliveira (1996). São Paulo. Distritais. da Hemeroteca Sindical Brasileira e Oboré Projetos Especiais em Comunicações e Artes.

muito específicos e.UMA EXPERIÊNCIA EM COMUNICAÇÃO E SAÚDE 98% dos quais em área urbana. acompanhando o material oferecido aos participantes. a existência de nove emissoras autorizadas e 19 em processo de avaliação. p. dentistas. e a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais era de 6. Baseada no encontro semanal de duas famílias. Escolheu-se o formato de oficinas. 2009 . poesias.99. ao recuperar as diferentes correntes teóricas que tratam da vida cotidiana. Unidades de Saúde da Família. cordéis ou parábolas relacionadas ao tema. de 438 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. A distribuição de água e coleta de lixo situava-se em patamares acima de 95%. out. músicas. 2ª etapa – Elaboração de um banco de dados. aborda as dimensões simbólica. no site do Ministério das Comunicações.31. Decidiu-se por 13 encontros de quatro horas. entre os dias 3 e 25 de junho de 2005. n. por encaixar-se melhor no processo informação/troca/reflexão/discussão/ação. em que os temas que viessem a ser tratados fossem “ensinados” pelos técnicos aos radialistas. No dia-a-dia estão expressos a lógica e os parâmetros utilizados pelos sujeitos para explicarem a si mesmos e as situações que os cercam. Prontos Atendimentos e Unidades Especializadas. ao mesmo tempo. optou-se em tratá-los no espaço de vida das pessoas. outros quatro escolhidos pelos participantes e o último para avaliação (Anexo I).Recuperação. O sistema Radcom (Rádios Comunitárias) daquele Ministério acusava. Buscou-se um formato de trabalho que desse aos participantes a possibilidade de trazer seus significados para a doença e a saúde e a oportunidade de trocar conhecimentos. Organização das oficinas Seleção dos participantes Dos Serviços de Saúde: funcionários de diversas funções (médicos.3% (dados do Censo Demográfico de 2000). A novela foi gravada e distribuída para reprodução nas unidades e rádios. administrativos e agentes comunitários) dos 33 serviços classificados entre as Unidades Básicas. Por meio da fala dos personagens. enquanto o serviço de esgoto estava disponível a 77% dos moradores./dez. mensagens. com os temas dos oito primeiros definidos pela coordenação. as normalizações e regras de funcionamento do sistema de saúde. Metodologia Definição de estratégias Uma das preocupações centrais foi evitar a repetição do modelo pedagógico linear e unidirecional. A criação de uma novela permitiu esta junção. pinturas. psicólogos. enfermeiros. afetos e estados de ânimo (Engelmann. além da radionovela. Elaborou-se material de apoio que. abrangentes. contou com: excertos de textos acadêmicos. em seu cotidiano. 1978). “O Almoço de Domingo” permitiu colocar a mesma questão sob o ponto de vista de dois extratos da população. possibilitou trazer à tona: os problemas da assistência.13. charges. com base nessa listagem. caricaturas. a “compreensão” (tradução) do discurso técnico. O coeficiente de mortalidade infantil registrado em 2006 foi de 13. com valores compartilhados pelos diferentes segmentos sociais.437-47. material e de poder que ela apresenta e cujas interações se dão em processos. da lista de rádios autorizadas a funcionarem no município e dos pedidos de autorização que aguardavam decisão. o que facilitou a discussão. Das Emissoras: 1ª etapa . Para isso. Domingues (2003).

A estratégia para reunir as observações. No final dessa etapa.437-47.C. no mapa municipal. Descrição das oficinas Iniciavam-se com uma conversa acerca das relações entre a pintura. da parábola ou audição da música. A plenária compunha-se das apresentações.salvo algumas especificidades ligadas à natureza do trabalho -.Z. Em seguida. Bardin (1979) aponta que se trata de um conjunto de técnicas de análise de comunicação destinadas a obter. foram identificadas 19 entidades. informações complementares de dois comunicadores locais conhecidos e da lista telefônica. o amálgama de significados compartilhados. L. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. obtida pela compreensão dos fatores psicossociais. Desta forma. seguida de discussões mediadas por um dos coordenadores. Desta forma não houve possibilidade de recuperar. nos dias 19 e 20 de julho de 2005. elaboração dos argumentos (pró e contra sobre o texto).R. culturais e sociais em que a mensagem foi produzida. No questionário foi utilizada. anteriormente programado como leitura complementar. abria-se um tempo para: homogeneização do entendimento. Terminada a leitura. divididos em cinco grupos de cerca de dez pessoas participantes. seu material e a incorporação de conhecimentos. por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. eram feitas avaliações dialogadas. diálogo e participação. n. tem suas ações produzidas dentro de um contexto social. os trabalhos reiniciavam com a leitura da poesia. demonstraram . acompanhados de monitores que circulavam alternadamente entre eles. Após um intervalo. Para que os textos representassem mais que simples informação. também. a análise de expressão.. utilizada em pesquisas qualitativas. optou-se por formalizar a avaliação por meio de um questionário ordenado em três núcleos: Material e organização das oficinas.Visita às rádios.L. segundo os critérios apontados. menos evidente. p. por critérios de sentido. e a apresentação da plenária. ligada à escolha do conceito do cotidiano como nexo do trabalho. a análise de conteúdo relaciona as estruturas semânticas gerais do texto (significantes) com a estrutura dos significados. charge ou caricatura escolhida e o tema. A formação dos grupos de trabalho foi feita com base no território comum a ambos. 3ª etapa . após prévia marcação. Esse mecanismo colaborou na percepção das diferenças de entendimento entre eles e naquelas presentes no momento da relação funcionários/comunidade. MENEGUETTI. Ademais. ainda que não saiba ou não queira.. a possível relação entre a novela e o dia-a-dia. tinham como tarefa ler o capítulo da novela e o excerto do texto acadêmico.13./dez. indicadores (quantitativos ou não) que permitam inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens. basicamente. Onze rádios comprometeram-se a enviar um ou dois radiocomunicadores para participar. as áreas de abrangência das rádios e dos serviços de saúde. identificação de dúvidas. foi a análise de conteúdo. Avaliação A avaliação contou com questões abertas sobre as oficinas. No encontro final. aprendizagem. M. e segundo a qual a identidade de condições de existência tende a produzir sistemas de avaliações semelhantes. as distinções iniciais entre radialistas e servidores. Avaliação dos participantes As respostas estratificadas. a fim de permitir correções do processo. o que os integraria geograficamente e os inseriria na mesma realidade social. do qual não é a produtora isolada nem possui domínio completo. Do ponto de vista operacional. na maior parte das respostas. conseguiu-se contatar dez (53%) mais uma localizada durante os contatos realizados. Territorialização: Foram plotadas. Ao longo das oficinas.MATOS. GOMES. 2009 439 espaço aberto .31. solicitou-se a elaboração de argumentos pró e contra as posições ali expressas. com a perspectiva que Bordieu (1972) deu à noção de “habitus”. permitiria que fossem criados embriões para eventual elaboração de projetos educativos conjuntos (Anexo II). cada pessoa. out. A. Trabalhou-se.

aumento da história de forma que não “ficasse só entre duas famílias”. “a Marvada Pinga!!! Foi a melhor!!!!”. “ótimas. capaz de transmitir a idéia.”. como: “algumas muito eruditas demais.31....”. e a indicação de falhas relacionadas ao café: “../dez.. foram apontadas sugestões como .. “profissionais de vários setores. “percebi que todos enfrentamos problemas diários e juntos poderemos fazer a diferença.”... falando de igual para igual o mesmo assunto”.. me impressionou a capa”.. . Trabalho em grupos e plenárias: Abrigaram os momentos de interação. Carga horária: As observações foram majoritariamente a favor de sua ampliação: “. Uma observação destacou-se das demais: “não dá para perceber muita diferenciação de linguagem entre as famílias”... A música foi a arte mais próxima e de mais fácil acesso: “falam da realidade em linguagem popular”. “.Material e Organização das Oficinas Novela: Dois aspectos foram os mais citados: .. Outro aspecto abordado: “foi um aprendizado. Poucas registraram problemas. Ganharíamos tempo para mais discussão e plenária mais elaborada”. “atuais e de boa qualidade”. por mais dura que seja. Além disso. “são lindas... Estrutura: As respostas versaram sobre: a distância.”. Registraram a possibilidade de discordar sem gerar impasses: “Foram ricas e democráticas.. traduz de forma mais suave (ou não) o que podemos estar comunicando. todos nós tivemos oportunidade de expor nossas convicções e a troca de idéias é fundamental para o crescimento humano”. de acordo com os assuntos. Por exemplo. Textos científicos: buscaram homogeneizar o conhecimento técnico. achei que estávamos meio sem rumo. acredito que podem ser utilizadas por nós em grupos de orientação pacientes/cuidadores”. algumas posturas são semelhantes. som etc. “. mas com pouco tempo para uma discussão mais profunda. próxima para alguns.. “. qual seja buscar demonstrar que. “bem escolhidas principalmente O Pulso”. a música alegra nossa vida e nos deixa mais animados”.”. poesia tem que tocar a alma”..13. Foram organizados excertos de trabalhos acadêmicos. relatando fatos do cotidiano. “bem escolhidas aprofundando o entendimento dos temas abordados”.. para um processo educativo. fazendo ligações com o texto informativo e a radionovela”. micro.”.papel na aprendizagem: “é boa e de fácil compreensão.. de acordo com o tema”.UMA EXPERIÊNCIA EM COMUNICAÇÃO E SAÚDE Núcleo 1 . preponderaram respostas sobre o impacto visual causado. “de ótima qualidade e linguagem de fácil entendimento”.. acerca dos equipamentos “maior apoio em relação a material.. os fatos são como realmente acontece no dia-a-dia”. “os textos já deveriam ser lidos em casa e trazidos com anotações para discutir em grupo..similaridade da linguagem e da ação dos usuários dos serviços: “. que eram apresentadas no final dos encontros e foram gravadas em estúdio para eventual utilização em trabalhos com a comunidade.. “precisaria ser aumentada para que nos aprofundássemos mais em cada tema.. As canções apresentadas eram de vários estilos: “. “.”. “é como a maioria das pessoas que atendemos realmente pensa”. p.. as antigas têm mais qualidade”. Em relação às pinturas. “foram de muita ajuda no sentido de ampliar meus conhecimentos”.utilizando uma linguagem metafórica... “fora de mão” para a maioria.. “no início do trabalho... out. em primeira mão rodei o livro para ver as pinturas. as referências foram ao lirismo e beleza.”.437-47. n..”. caricaturas e charges. com suavidade. gostosos de ler e reler”.. Músicas. “Foi uma forma ótima de passar informações....”..... melhor ainda quando se ouve o Cd... nos ensinam a viver melhor”. ao discutir-se saúde. Referências críticas estiveram presentes: “os temas envolvidos foram bem colocados. “um simples desenho que nos faz viajar no pensamento”. poderia 440 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Algumas manifestações identificaram a conexão com o tema: “bem escolhidas.. apesar de estilos de vida diferentes.. Poucas estabeleceram conexão com o temário: “. Os participantes da Secretaria valorizaram a descoberta de parceiros internos: “bom porque a gente se conhece mais e percebe as idéias de cada um. temos opiniões diferentes mas pudemos chegar a um finalmente”. A crítica explicitou uma das intenções desse material... Um pequeno número de pessoas comentou: “. o espaço “local com salas mais apropriadas”.. Quanto às poesias. 2009 ... “lindas.”. Uma (das) participante(s) elaborou paródias para os demais temas a partir da oficina sobre aids. frases como: “. Seu papel ficou ilustrado em frases como: “fáceis de ler e entender”. poesias e pinturas: Propunham-se a expressar os temas em outras esferas da manifestação humana. poderia ser o dia todo”.. Dois outros registros indicam a penetração da escolha: “poderia ter mais”. parece estar vivendo a radionovela”. datashow.

planejar.”). . para meus clientes.. “pertinentes à nossa realidade”. Na pergunta – sobre o que foi mais importante para o aprendizado.31. ... “a forma de transmitir uma informação à população.”. L... A utilização da radionovela teve destaque: “escolher um tema e montar uma radionovela. mas..R. levando pacientes para fazer depoimentos”. M. muito menos ser cobrado....”.Aprendizagem Este núcleo tratou da aquisição de conhecimentos ou habilidades e sobre as possibilidades de sua utilização no cotidiano.C.. Ocorreram manifestações relacionadas às equipes.437-47./dez.. Só procriamos idéias que são amadas. “nas unidades e comunidades através de um calendário comum com assuntos diversos.”. a comunidade pobre. relação positiva com os objetivos do projeto. “envolver também temas sociais.... pois encontramos isso dentro das UBS”.Z. Por fim.. E o que elas procriam são novas relações.”. 441 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. não que a proposta não seja ótima.Diálogo e participação Comunicação: Parte das respostas indicou uma necessidade a ser contornada (“só pode vingar no momento em que a chefia e a unidade como um todo se proponham... n..”. “o intercâmbio com as rádios comunitárias. “penso em convencer a minha chefe.. já mudaram a forma em que me expresso nos grupos com a comunidade onde trabalho”. conscientização.”.. com conversas diárias sobre prevenção.. Quanto à contribuição das oficinas para o dia-a-dia.”... p. “tudo tirou muitas dúvidas sobre o SUS e várias doenças. receber novas diretrizes para argumentar sobre certos assuntos com os usuários... Núcleo 3 ... abordando temas e pesquisas (sugestão dos ouvintes) com horário estipulado”. A melhora no lanche foi obtida com o compartilhamento de sanduíches.”). bolachas e bolos trazidos de casa. numa linguagem comum a todos”).. Algumas das respostas: “.. Ninguém quer. “passar meus aprendizados para meus amigos de trabalho.. a intenção foi contemplar os interesses do gestor e apreender o que Morin (2003) denominou de conhecimento pertinente.”. deu para tirar muitas dúvidas. 2003. Conselho Gestor: Como a formação dos Conselhos era recente. existiam muitas dúvidas sobre seu papel. Poucos valorizaram sua existência: “são meios de intercâmbio entre a comunidade e os gestores de saúde. familiares e colocar de maneira descontraída. ter que quebrar a rotina.”. “.. out.”). ainda tem muita coisa para mudar.”. gravar e enviar para rádio. Uma exceção apontou: “. respeitando sempre a cultura de cada um”. Registrouse a possível dificuldade da nova abordagem: “acho que no início como todo trabalho vai ser bem difícil. são canais importantes de diálogo e reivindicação”. MENEGUETTI..as lacunas de informação (“...a possibilidade de troca nos grupos e plenárias (“. “em parceria com a rádio comunitária. Essa alternativa indicou...... 2009 espaço aberto ser melhor o local e o lanche”.. mas depois que todos sentirem firmeza no nosso serviço. A visão genérica predominou: “ainda não sabemos muito sobre o Conselho Gestor. “discutir frente à chefia e estudar um meio de passar para os usuários. foram estimulados a comentar a frase de Rubem Alves (Alves. . visitas de uma ao outro. s/p): Comunicar é a arte de fazer que uma idéia tenha vida. dialogar.. no meu local de trabalho é muito difícil colocar as idéias que tenho (projetos) em prática.MATOS.. Houve interesse de uma dentista em criar um capítulo sobre saúde bucal.”.. identificaramse: .. Outros sugeriram criar novos espaços de comunicação e ampliar a relação com as rádios: “Conhecer uma rádio próxima do trabalho.. para mim tudo foi aprendizado muito bom. Depois de plantada na cabeça de uma pessoa ela desce para o coração e começa a procriar. a oportunidade de expor minhas idéias à análise dos colegas e de ouvir o pensamento alheio que mesmo que seja contrário sempre acrescenta algo valioso”.L.”.respostas que valorizaram o contato (“ver que em outros locais tem gente que pensa como você. rádios e comunidade (“promovendo encontros entre equipes de saúde e rádio.. Núcleo 2 ... com atores do nosso grupo como personagens.... A.”.. Dimenstein. GOMES. “pude expressar melhor meu pensamento”). à coordenação. “. Temas: “ligados a realidade das rádios comunitárias.13.

entre outros. Para trazer o melhor de nosso conhecimento para quem não os tem e aprender com quem nos pode ensinar. tanto de disciplinas sociais como da área médica.. nas oficinas.13. e quando isso acontece o corpo e mente absorve.. ao mesmo tempo.)... espera-se que. amigável. ao longo do trabalho.”. Buscou-se. As primeiras oficinas serviram para que a equipe de coordenação percebesse a necessidade de introduzir conceitos.. A metodologia permitiu que não se caminhasse na direção da normalização da vida.usada como o fazer utilitário. Enquanto isso.. Dentre os fatores que podem explicá-la e devem ser considerados em futuras experiências.. formando redes institucionais que interajam com a comunidade de forma técnica. sem reflexão -. foi possível pela oportunidade de se utilizar a fala de “terceiros”.. os funcionários da saúde.”. para que. como ilustra a disposição em contatarem as rádios faltantes.. o que parece ter gerado uma maior possibilidade de aproximação entre os dois grupos e (mesmo) com a coordenação. multiplicadas”. que sejam úteis precisam ser passadas à frente. receio de exposição. Sobre o projeto e suas possibilidades O desenho do projeto considerou o caráter ampliado do conceito de saúde e o potencial articulador desenhado pelo SUS.tenho muito orgulho de ser essa semente”. no meu modo de ver temos que agir. que dificultou a formação dos grupos de trabalho.. com decorrências negativas para o processo educativo com a comunidade. mas também nos aspectos qualitativos que embasam os atos técnicos. especialmente as de Guarulhos. nem sempre fácil entre pessoas de níveis diferentes de escolaridade.. Sua contribuição considerou a ideia de que todo prestador de serviço presente num mesmo território possa se relacionar.. Em relação entre ideias e ação: “. como instrumento de transparência e participação popular.31.. Segundo Teixeira (1997)./dez... respeitosa aos saberes de outra origem e solidária com os movimentos de construção da cidadania. mostrar que a divisão entre a prática . o autor aponta que a participação não se restringe apenas aos aspectos quantitativos do consumo. Buscando uma nova forma de conceituar a possibilidade de abertura de diálogo proporcionado por esta visão de comunicação.definida como um 442 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. pudessem engajar-se nas propostas de trabalho com a comunidade. “. liberados do ponto.”. a valorização do relato de experiências e a garantia da palavra criaram. Avaliação da coordenação Sobre as oficinas e a participação A diversidade de materiais (o estímulo à manifestação. ao aprendizado e entrosamento. Um grande “nó” foi a inconstância na participação dos radiocomunicadores. ou ainda “ reflete toda nossa vivência neste curso.. Uma observação que respalda a afirmação acima foi a percepção de que o diálogo. um clima favorável às trocas..”. tendo em vista a perseguição da Anatel às emissoras da Grande São Paulo. “. falta de ajuda de custo para o deslocamento.UMA EXPERIÊNCIA EM COMUNICAÇÃO E SAÚDE Explicitaram-se os sentimentos despertados pelo trabalho: “as novas relações procriam. destaque-se: coincidência de horário com outros vínculos de trabalho dos radialistas. Pareceu adequar-se ao que escreveu Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. n.. os personagens. ela começa a fazer parte da vida do indivíduo. 2009 .. o que foi feito pelo mediador da plenária com a finalidade de facilitar o processo de comunicação.437-47. pela localização próxima do aeroporto.. fazendo com que as pessoas tenham idéias positivas em relação à saúde. as práticas de comunicação em saúde gerem um comportamento participativo pelo qual se daria o controle social do sistema. a partir do momento em que a idéia é aceita. impressão corroborada pela opinião dos participantes... penso que as amadas também podem procriar. out. as definições gerenciais frente às escolhas técnicas e o caráter circunstancial e histórico das ações e das necessidades de saúde. e a teoria . informadas a outras pessoas. p. bem semeada. cultivada. assumiram compromisso com a presença e envolvimento com o projeto. mesmo sem a presença nas oficinas.. “uma semente. Outra preocupação que também pareceu ter sido superada foi a da aparente dicotomia entre informação técnica e possibilidade de ação no dia-a-dia. cuja multiplicação e distribuição adequada garantiriam a satisfação das necessidades de saúde.

1978.1. v. mas um importante aviso deve ser registrado: o desenvolvimento e a efetividade de projetos como este exigem o compromisso dos gestores.. 1998. de um dos participantes: “Mobilização e conscientização sobre a saúde”. MENEGUETTI. Colaboradores Os autores participaram igualmente da elaboração e redação do manuscrito. o ciberespaço. A. Estratégias de comunicação frente ao desafio do Aedes aegypti no Brasil. 2003. LEVY.. out.R. 1972.137-46./dez. TEIXEIRA. 3. v.C. 2000. por um lado. M. Saude Colet. Dentre os objetivos aparentemente não atingidos e de grande importância na conquista de resultados.R. L. uma intencionalidade capaz de produzir mudanças (Vasquez. São Paulo: Papirus. nas ferramentas (suscetíveis de transmissão. PITTA.. Análise de conteúdo. Os sete saberes necessários à educação do futuro.437-47. nas instituições (que concernem ao coletivo ou o organizam). São Paulo: Editora 34.1. p. história e movimentos sociais. São Paulo: Cortez/ Unesco.31. linguagens (cuja natureza é a de ser um laço).2.Rev. 1997.ed. Movimentos como estes precisam de retaguarda e proteção institucional (no caso dos serviços de saúde) e confiança nas ações governamentais (no caso das rádios comunitárias). 1979. chama e respeita. A maior parte dos comentários está identificada com verbos que indicam uma avaliação positiva do trabalho. n. Lisboa: Edições 70. O projeto demonstrou potencial para contribuir com o processo de educação e participação popular. V. Cienc. v. n. R. e duas frases expressam essa dimensão: uma de Pierre Levy . n. GOMES. L. v. Vida cotidiana. 2003. BOURDIEU. 1996. 443 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. P . Filosofia da praxis. DOMINGUES. o que pode ser fruto de análise temporalmente concomitante ao seu encerramento. VÁSQUEZ. Modelos comunicacionais e práticas de saúde. Dados . supl. no fazer. a outra.. A.L. Fomos maus alunos. DIMENSTEIN. Paris: Librairie Droz. n.46. (contracapa) BARDIN. p. Saude Publica. Sobre a participação popular: uma questão de perspectiva.unem-se no exercício da práxis.R.1. MORIN. a consciência.1. A inteligência humana trabalha na conexão” (Levy. de combinação e de utilização coletiva).3. Referências ALVES.13. A. P . p.. VALLA.. de melhoria. Cad.. 2003.M.7-40.MATOS. Soc.. Esquisse de une théorie de la pratique. Já que estes tinham dificuldade em compreender um poder público que. 1978). pode-se citar a inexistência de mecanismos para a manutenção da relação servidores-radialistas. p. Saude.M. esta podendo ser entendida como ações orientadas por uma interpretação do mundo (teoria) que gera.V. G. conjunto de abstrações compreendidas por poucos .Z. E. Educ. V.461-90. J. enquanto. Interface . p. Cienc. 2000.14. lacra e sequestra os equipamentos.“A verdadeira inteligência do homem consiste em tornar sua sociedade inteligente. Ela se exprime nas mensagens (que se endereçam a outros). 2009 espaço aberto .S. por outro.C.7-18. São Paulo: Editora Paz e Terra. R. OLIVEIRA.Comunic. A conexão planetária: o mercado.37). p.

under the sponsorship of the Ministry of Health. Una experiencia en comunicación y salud Este trabajo se refiere a la experiencia desarrollada en el municipio de Guarulhos. sob o patrocínio do Ministério da Saúde. Recebido em 27/02/08./dez. poesía etc en el planteamiento de los asuntos. An experience in communication and health This paper reports on an experience developed in the municipality of Guarulhos. Saúde. music. Se organizaron oficinas de trabajo con la participación de funcionarios de los servicios municipales de salud y de profesionales de las radios comunitarias de las mismas áreas que comprenden reflexión.. na abordagem dos assuntos. poesia etc. Educación. discussion and elaboration of joint actions. to deal with these subjects. n. radio serials. 2009 . além de textos acadêmicos. for reflection. discussão e elaboração de ações conjuntas sobre temas de saúde. música. in which the aim was to involve radio broadcasters in the health education process. otros tipos de lenguaje como pintura. y el análisis de las respuestas indicó que se trata de una metologia compatible con los objetivos de obtener adhesión y desarrollar asociación entre comunicadores. Educação. out. Brasil. estado de Sao Paulo. Rádios comunitárias. poetry. Community radio stations. 444 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. La evaluación final consistió en un cuestionario respondido por los participantes. Keywords: Communication.31. para reflexão. outros tipos de linguagem como pintura. Salud. Radios comunitarias. radionovela. etc. además de textos aoadémicos. Workshops on health subjects were organized with the participation of municipal healthcare service employees and community radio broadcasters with the same area of coverage. com o objetivo de envolver radiocomunicadores no processo educativo em saúde. radionovela.437-47. discusión y elaboración de acciones conjuntas sobre temas de salud. Organizaram-se oficinas de trabalho com a participação de funcionários dos serviços municipais de saúde e de radialistas das rádios comunitárias das mesmas áreas de abrangência. Education. Desenvolveu-se metodologia que articulou. Aprovado em 07/10/08. Analysis on the responses indicated that this methodology was compatible with the aims of achieving involvement and developing partnerships between communicators. The methodology developed brought together not only academic texts but also other types of language such as painting.UMA EXPERIÊNCIA EM COMUNICAÇÃO E SAÚDE Este trabalho refere-se à experiência desenvolvida no município de Guarulhos.13. healthcare services and the community. música. con objeto de involucrar a radiocomunicadores en el proceso educativo en salud. servicios de salud y comunidad. Health. Palabras clave: Comunicación. bajo el patrocinio del Ministerio de la Salud. serviços de saúde e comunidade. Se ha desarrollado una metodología que articula. p. The final evaluation consisted of a questionnaire filled out by the participants. A avaliação final constou de um questionário preenchido pelos participantes e a análise das respostas indicou tratar-se de uma metodologia compatível com os objetivos de alcançar envolvimento e desenvolver parcerias entre comunicadores. Palavras-chave: Comunicação.

13.cap.Pneumotórax (Manuel Bandeira) 06 19/10 8h30 às12h30 Tuberculose COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. C..www. ANEXO I .inter. MENEGUETTI.Manual de Sobrevivência (http:// openlink. M. 2009 445 espaço aberto ./dez.) Poesia .Balanço de experiências de controle social. A. L. Textos: 1.) 2.cap.crt.MATOS. out..V.Grupo do homem doente (Cândido Portinari) Radionovela: Almoço de domingo .Tem cabeça.Titãs Pintura . p.htm.12ª Conferência Nacional de Saúde Eixo Temático X – Comunicação e Informação em Saúde Música .R.H. G. M.) 2. Música – Pulso . S.aids.br4.31.sp.Vida e morte (Gustav Klimt ) Radionovela: Almoço de domingo .A doença (Berlinguer.Trechos da Lei nº 8142 4 . mãos. efetividade.br. GOMES.) Poesia .cap.Mãos dadas (Carlos Drummond de Andrade) 03 30/09 8h30 às12h30 Atenção à saúde 04 05/10 8h30 às12h30 Modelos de atenção Oficinas temáticas 05 14/10 8h30 às12h30 DST e Aids Pintura .Abraço (Egon Schiele) Radionovela: Almoço de domingo . equidade e necessidades prioritárias de saúde (Teixeira.Trechos da Lei nº 8080 3.3 (Luiz Meneguetti) Texto: Modelos de atenção voltados para a qualidade.4 (Luiz Meneguetti). 3.saude.org/wad2004/ report.5 (Luiz Meneguetti) Texto: A tuberculose ao longo dos tempos (Gonçalves.br) Cordel .C.www.Enfermaria do Hospital de Arles (Van Gogh) Radionovela: Almoço de domingo .M. www.437-47.Ode às muletas (Cora Coralina) Pintura .Boas vindas (Caetano Veloso) Oficinas de interação e aprofundamento 02 21/09 8h30 às12h30 Saúdedoença Pintura .Saúde-doença: uma concepção popular de etiologia.A escola de Atenas (Rafael) Crônica: O menino do dedo roxo (Lourenço Diaféria) Textos: 1.1 (Luiz Meneguetti) Textos: 1.AIDS .S.C.Z.2 (Luiz Meneguetti) Texto: A gestão dos serviços públicos de saúde: características e exigências ( Dussault. Mynaio.net/aids2.Programação geral das Oficinas Oficina Data indicativa Horário sugerido Tema Suportes/Conteúdos Oficina de abertura e reconhecimento dos grupos 01 16 /09 8h30 às12h30 SUS. para além dos Conselhos e Conferências do Sistema Único de Saúde brasileiro: construindo a possibilidade de participação dos usuários (Côrtes. n.cap.Paródia do mijador com mijador .CD Radialistas contra AIDS Pintura .gov. pés e coração (Paul Klee) Radionovela: Almoço de domingo .unaids.F.cap.gov.L. G. Saúde e Comunicação Pintura .) Poesia .

1994).med. out.10 (Luiz Meneguetti) Texto: A política do Ministério da Saúde para a atenção integral a usuários de álcool e outras drogas (2003) Música: Marvada pinga (Rolando Boldrin) Ilustração do cartunista Laerte Radionovela: Almoço de domingo .br) Parábola: O discurso e a prática (Org.) Música: Ligeiramente grávida (Rita Lee) Ilustração de Luís Eugênio Quintão Guerra Radionovela: Almoço de domingo .. Saúde & Doenças (Helman..Gestão de saúde: curso de aperfeiçoamento para dirigentes municipais de saúde: programa de educação a distância (Fiocruz) 3 .www. C.F. Alexandre Rangel.cap.cap.437-47.7 (Luiz Meneguetti) Texto: Consenso Diabetes (http//www.Gravidez na adolescência (Paulics.cap.manuais de cardiologia. Radionovela: Almoço de domingo . p.Gravidez de adolescência: uma questão social (Souza.br/hás Poesia – Não comerei do alface a verde pétala.C./dez.9 (Luiz Meneguetti) Textos: 1 .) 2 .) Poema: A arte de ser feliz (Cecília Meireles) 11 18/11 8h30 às12h30 Álcool e drogas 12 23/11 8h30 às12h30 Acolhimento no SUS Oficina de encerramento 13 25/11 8h30 às 12h30 Avaliações 446 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.) 2 . Leittura . (Vinicius de Moraes) Charge sem título de João Bosco de Azevedo Radionovela: Almoço de domingo . V.UMA EXPERIÊNCIA EM COMUNICAÇÃO E SAÚDE Oficina Data indicativa Horário sugerido Tema Suportes/Conteúdos Oficinas temáticas 07 26/10 8h30 às12h30 Hipertensão Pintura . V. 2009 .6 (Luiz Meneguetti) Textos: 1 .cap.Luiz Meneguetti Texto: Qual a cobertura vacinal real? Informe Unifesp Moraes.Cultura.2002) Ilustração do acervo da Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (A Revolta da Vacina da Varíola às Campanhas de Imunização (Rio de Janeiro. n.cap.diabetes. J.11 (Luiz Meneguetti) Texto: Sobre a participação popular: uma questão de perspectiva (Valla.Mulher chorando (Pablo Picasso) Radionovela: Almoço de domingo .cap.13.ilustração de Reginaldo Fortuna Radionovela: Almoço de domingo .G. Ed.V.A criança é coisa séria 08 09/11 8h30 às12h30 Diabetes 09 11/11 8h30 às12h30 Vacinação 10 16/11 8h30 às12h30 Gravidez na adolescência Madona .org.31. Mensagem: Betinho . et al. I.8 .

437-47. n. GOMES.13..MATOS. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. L.31.R.C. M. MENEGUETTI. ANEXO II .. 2009 447 espaço aberto ./dez.Mapa da cidade de Guarulhos com a indicação das 11 rádios comunitárias do município que manifestaram interesse em participar das oficinas do projeto.Z. p. A. out.L.

auxilia na recuperação pós-parto. as faltas ao trabalho dos pais por doença da criança (Giugliani. Um outro benefício é o ecológico. 2001). a porcentagem de crianças menores de quatro meses em aleitamento materno exclusivo foi de 37./dez. possivelmente. Monteiro. 2003. bem distante dos 100% preconizados pela OMS (Montrone. 2006. 1991). 3 Graduanda de Licenciatura e Bacharelado em Enfermagem. sendo de grande importância para a preservação da natureza. Venâncio. Coutinho. vitaminas. não precisa de embalagem e não há desperdício. SP . SP .Promoção da amamentação por crianças do Ensino Fundamental Aida Victoria Garcia Montrone1 Cássia Irene Spinelli Arantes2 Nathalia de Moraes Lébeis3 Talita de Azevedo Coelho Furquim Pereira4 Introdução Sabe-se que o leite materno é o melhor alimento para o bebê.8%. minerais ou medicamentos. reduz episódios de doenças nas crianças e. 235. 2003). 5 Amamentação exclusiva: aleitamento materno como único alimento. 2002. consequentemente. 2004). Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). até os dois anos (Brasil. Rea. nos municípios do estado de SP .31. 2004. a cada ano. 2002). é um fator de proteção de câncer de mama e de ovário. Bolsista PIBIC/CNPq. Para a mãe. 1999). estabelecimentos de saúde e para a sociedade. Amamentação: recebe leite materno. 1 Departamento de Metodologia de Ensino.5 meses em 1989 para sete meses em 1996. recomendada. a duração do aleitamento materno exclusivo5 é menor que o proposto pela OMS em praticamente todos os países do mundo (Nakamura et al. um milhão e meio de mortes poderiam ser evitadas por meio da prática do aleitamento materno. e. Arantes 2000).. Na cidade de São Carlos. lácteo ou não. out. UFSCar. Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição. Pamplona. Economicamente. no intervalo interpartal. Brasil. A duração mediana da amamentação elevou-se de 5. O Instituto de Saúde de São Paulo vem coordenando inquérito sobre a prática de alimentação infantil desde 1998. 13565-905 montrone@ufscar.br 2 Departamento de Enfermagem. também. Entretanto. n. pois contém todos os nutrientes necessários e atende necessidades físico-químicas. Km. o aleitamento materno é vantajoso para a família. já que amamentar não polui. UFSCar. Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde. OMS. 1998. São Carlos. 1997. independente do consumo de qualquer complemento. sendo este aumento mais acentuado na área urbana e nas regiões centro-oeste e sudeste (Venâncio. Rodovia Washington Luís. imunológicas e fisiológicas do lactente (Nobrega. UFSCar. 2009 449 .13. recomendada até seis meses. Bolsista ProEx/UFSCar. pelo menos. 2006. Almeida. pois reduz gastos com leites artificiais e mamadeiras.449-59. tem resultados positivos em relação à artrite reumatóide e à depleção mineral óssea (Teruya. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que. No Brasil estudos vêm mostrando um aumento nas taxas de prevalência do aleitamento materno. 4 Graduanda de Enfermagem. Amamentar propicia o estabelecimento dos vínculos afetivos e é reconhecido que o contato direto mãe-bebê e a participação paterna durante o processo de lactação favorecem o desenvolvimento afetivo-emocional e social na infância (Carvalho. podendo o lactente receber. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 1989). p.

p. tais como: motivação. e conhecimentos e habilidades específicos sobre como amamentar. A implementação de ações educativas para a promoção da amamentação em escola do Ensino Fundamental favorece o interesse e desperta as crianças para a temática (Montrone et al. No ato de educar. 2008).] tem que partir do “aqui” do educando e não do seu. p.31. apoio cultural. que devem ser considerados no processo de ensinar e aprender. as meninas possivelmente estariam mais motivadas a amamentar e. As crianças trazem conhecimentos sobre a prática de amamentar.1) Desta forma.59) Nos processos educativos na promoção da amamentação... advindos do convívio e experiências na família e nas comunidades em que vivem. que não é possível ao(à) educador(a) desconhecer. mostrando que tem ocorrido uma melhora na evolução dos índices de aleitamento materno exclusivo (Instituto de Saúde de São Paulo. out. o diálogo pode contribuir para a desconstrução de mitos e construção de novos conhecimentos e atitudes positivas frente à amamentação. 2003). e por quanto tempo. p. Segundo Nakamura et al. quando chegassem a serem mães./dez.84). 1987. em última análise. falando-se “com” as crianças e compartilhando conhecimentos e experiências sobre a prática de amamentar.. termino discursando “para” eles.] Isto significa.13. vemos que é necessário ampliar as ações de promoção.. [. subestimar ou negar os “saberes de experiências feitos” com que os educandos chegam à escola. p. “se desde a escola as crianças recebessem informações adequadas sobre o aleitamento materno. a palavra não é para os educandos.. portanto. 2009 . A decisão materna de amamentar ou não. 1985. Paulo Freire (1992) nos alerta sobre a diferença do momento vivido pelo(a) educador(a) e o momento vivido pelo(a) educando(a). a pergunta é fundamental. 1987. é regida por múltiplos componentes. o objetivo deste estudo foi descrever e analisar processos educativos envolvidos no desenvolvimento e implementação de propostas educativas elaboradas por crianças do Ensino Fundamental para a promoção da amamentação na comunidade escolar. A educação na promoção da amamentação deve. p.182). de maneira a adequar os programas de amamentação às necessidades e realidades de cada região. considerar todos estes aspectos bem como a formação de uma cultura favorável à amamentação que pode ser iniciada bem antes da mulher engravidar ou do homem descobrir que será “papai”.PROMOÇÃO DA AMAMENTAÇÃO POR CRIANÇAS . para que também eles falem “com” a gente. 1992. Neste sentido. educação pré e pós-natal. sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada” (Freire. (2003.. mediatizados pelo mundo. e sim com os educandos. no caso dos meninos. que necessariamente significa “contra”. 450 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. 1985. Falar e discursar “para” termina sempre em falar “sobre”. a educação dialógica pressupõe “a devolução organizada. n..449-59. proteção e apoio ao aleitamento materno nas cidades brasileiras. em que ela responde o conteúdo programático. (Freire. Neste sentido. Ao contrário da educação bancária. Viver apaixonadamente a palavra e o silêncio significa falar “com” os educandos. mais aptos a apoiar a decisão materna”. pode-se contribuir para que elas venham a ser agentes de promoção da amamentação nas suas comunidades e auxiliar na melhoria dos índices de aleitamento materno. (Freire. Se não sei escutar e não dou testemunho aos educandos da palavra verdadeira através da minha exposição à palavra deles. Tendo como referência a educação pautada nos pressupostos de Paulo Freire. Diante disto. [. É preciso que o(a) educador(a) saiba que o seu “aqui” e o seu “agora” são quase sempre o “lá” do educando. apoio familiar.

449-59. Para análise temática dos dados. dúvidas e curiosidades em relação à prática de amamentar. et al. Percepção e conhecimentos sobre a prática de amamentar Constatou-se que as crianças trazem conhecimentos adquiridos em suas próprias casas. 2009 451 espaço aberto Metodologia . Etapa 2 . no final do período letivo.Promoção da amamentação: as crianças propuseram as ações educativas.31. como mostra a fala a seguir: “Minha mãe e minha tia. Etapa 4 . O projeto foi apresentado para a professora da quarta série e seus/suas alunos/as. que a amamentação é importante para o bebê: COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. vinte meninas e 18 meninos. crianças na promoção da amamentação. O trabalho de campo foi realizado em cinco etapas: Etapa 1 . Os registros sobre todas as atividades desenvolvidas foram realizados por meio de notas de campo organizadas pelo grupo de pesquisadoras. na vivência com seus familiares e no convívio na sua comunidade. SP . mas não souberam explicitar até que idade deveriam mamar só no peito e quando poderiam começar a comer outros tipos de alimentos. n./dez. atitudes. foram seguidos os passos propostos por Minayo (2004). por alunos/as de quarta série? Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas para análise e interpretação dos dados.Programa de ensino: com base nos dados das entrevistas grupais e da dinâmica para levantamento de dados com as crianças sobre conhecimentos. seguindo um roteiro com as seguintes questões: Como vocês acham que devem ser alimentados os bebês? Vocês acham que amamentar no peito é bom ou ruim para a mãe? Por quê? Até que idade vocês acham que o bebê precisa mamar só no peito? Por que vocês acham que algumas mães não conseguem amamentar seus bebês? O que vocês acham que a mãe tem de fazer para ter bastante leite? O que vocês ouviram falar sobre: por que algumas mães param de amamentar? O que vocês acham que é necessário fazer para ajudar as mães a amamentarem? Também foram entrevistadas algumas professoras. nº 216/05).” Conhecem. p. A população de estudo se constituiu de 38 crianças. e a pergunta foi: O que você acha da promoção da amamentação na escola. convidando-os/as a participar desta pesquisa. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos (Proc. A. ensinar e aprender sobre amamentação. falou que tem que dar mamar até quando conseguir.Inserção no grupo de crianças participantes: as pesquisadoras se inseriram no grupo de crianças por meio do convívio nas atividades realizadas e em momentos escolares e de recreação. out. Etapa 5 . na escola.MONTRONE. Etapa 3 . Trata-se de um estudo descritivo.G. elaboraram materiais de divulgação e realizaram as atividades de promoção da amamentação na escola. ainda. emergiram as seguintes categorias temáticas: percepção e conhecimentos sobre a prática de amamentar. Estas atividades foram desenvolvidas com todas as crianças e professores das terceiras séries em um dia. Resultados e discussão Na análise dos dados. São Carlos. foi elaborado e implementado o programa de ensino.Aproximação da Escola de Ensino Fundamental: foi contatada a direção da escola que aprovou o desenvolvimento do trabalho. Durante a primeira entrevista.Entrevistas: foram realizadas entrevistas grupais com as crianças. quando perguntadas como devem ser alimentados os bebês.13.V. com idade entre nove e 11 anos. do Ensino Fundamental da Escola Estadual Bento da Silva César. com abordagem qualitativa de análise de dados. elas referiram que os bebês devem ser alimentados com o leite da mãe e com a papinha.

” De acordo com o levantamento desses conhecimentos. né.31. out. pega correta do bebê etc. conteúdos sobre duração e tipos de amamentação. foram incluídos.” “Porque o leite empedra. As crianças comentaram dificuldades que podem ocorrer no processo de lactação e apresentaram os mesmos mitos que pessoas adultas. 452 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.. n. passar o próprio leite na aréola etc. 2009 . Trabalhar com as crianças cada um destes conhecimentos e mitos quanto a sua veracidade.449-59. seguindo a recomendação da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil (Brasil. Para algumas crianças.) e suas resoluções (ordenha manual. mas também para a mãe.PROMOÇÃO DA AMAMENTAÇÃO POR CRIANÇAS . As falas a seguir ilustram estes dados. amigos e familiares conversando sobre o assunto. um dever da mãe. e quando nasce ele só precisa daquele leite. vitamina e sais minerais. Teruya. a fim de formar uma camada úmida de proteção e evitar a desidratação. abordando licençamaternidade e paternidade e direitos maternos na volta ao trabalho. julgando ser ruim para a mãe. foram propostas atividades para analisar os benefícios do aleitamento materno. 2004). possibilita a desconstrução de mitos e a construção de conhecimentos corretos para a resolução de dificuldades. amamentar gera satisfação e felicidade da mãe ao ver seu filho saudável. Em relação às dificuldades do aleitamento materno. o leite seca. ingurgitamento mamário. Não sei por que. provavelmente porque ouvem seus pais. permitindo que todos participassem do processo de construção do conhecimento. Tentamos.). “Eu acho que é ruim. uma atividade sobre legislação. descrevemos algumas atividades que exemplificam este resultado.” A partir destes resultados. família e sociedade. utilizar habilidades do enfoque de aconselhamento usado na abordagem às mães (Bueno. também.” “Tem mãe que tem leite fraco” “Se o bico rachar. Foi elaborada. foram elaboradas as atividades sobre dificuldades na amamentação (como leite empedrado. Ensinar e aprender sobre amamentação O ensinar e aprender se deu de forma contínua e coletiva.” “É bom porque o bebê cresce saudável e a mãe fica feliz. as crianças apontaram: “Acho difícil para trabalhar. nesta forma de trabalho.13. ou seja. 2002. ou como um benefício que ela deve outorgar para seu filho. Quando as crianças foram indagadas sobre os benefícios de amamentar para a mulher. por meio do qual crianças e educadoras puderam trocar conhecimentos. 1991).” Para tratamento de lesões mamilares. as respostas se relacionaram à amamentação com dor.” Assim./dez. com base na experiência científica. “Tem mãe que não tem leite. “Porque o leite já tem proteína. 2004). não só para o bebê. seguiu-se a recomendação atual de tratamento úmido (Giugliani. com a utilização do próprio leite materno. saberes e experiências. tem que passar pomada.. Ela tem que deixar o bebê. OMS. no programa de ensino. A seguir. p. mas minha mãe fala que nunca gostou de amamentar no peito.

As crianças demonstraram conhecimentos. havia três colunas: alimentos construtores. Então foi explicado que eram “soldadinhos de defesa”. para. houve uma agitação geral. A partir dessa idade.13. Cada grupo tinha de relacionar o benefício ao beneficiado.32). bebê e mundo”. Foi discutido com elas que o leite materno é um alimento completo que contém tudo o que bebê precisa para crescer saudável e. As crianças aprenderam sobre os alvéolos (“fabriquinhas” que produzem o leite). esse conhecimento foi novo e o fato de se utilizar uma linguagem mais próxima da realidade delas possivelmente contribuiu para que entendessem melhor. então é por isso que o bebê não precisa beber água?” Podemos verificar.31. Elas responderam: “Ah. out. para isto foi necessário que se ouvisse com atenção o que cada um tinha a dizer. inicia-se a alimentação complementar.59): “não pode negar ou subestimar os saberes e experiências feitos com que os educandos chegam à escola”. Ela se mostrou motivadora e despertou a curiosidade e a criticidade das crianças.” A seguir. p. 2009 453 espaço aberto . os quais eram escritos numa metade da lousa. por isso. a maioria das crianças soube responder qual era a composição do leite materno. Deus manda. Após esta classificação.G. como ocorreu o processo de aprendizagem.449-59. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. as crianças fizeram o mesmo em suas folhas. foi colocado que o leite materno possui todas essas propriedades. incentivando-as para a construção de novos conhecimentos.V. Para abordar os benefícios do aleitamento materno. O educador. Um outro tema abordado foi sobre o tempo recomendado de amamentação. recomenda-se a amamentação exclusiva até seis meses. No final da atividade. No decorrer das atividades. Neste sentido. ductos lactíferos (“estradinhas” que levam o leite até as ampolas) e ampolas/seios lactíferos (“mercadinhos” onde o leite fica armazenado até o bebê mamar). Esta forma de apresentar este conteúdo favoreceu a aprendizagem das crianças. As crianças ficaram interessadas e relacionaram estes conhecimentos às experiências feitas. Todos ficaram surpresos quando foi dito que existe água no leite materno: “Ah. Após essa primeira atividade e a posterior discussão sobre a composição do leite materno. além de água e anticorpos. As atividades sobre a temática anatomia e fisiologia da lactação tiveram início perguntando-se às crianças se elas sabiam onde e como é produzido o leite materno.” “Vem do leite que a mãe bebe. na fala desta menina. Quando foi abordado que. na outra metade. construindo novos saberes. Freire aponta: “Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que nós fizemos. que protegem nosso organismo contra doenças e infecções. acrescentando a ele algo que fazemos” (Freire. Foi utilizada a dinâmica “tempestade de palavras”. as crianças foram divididas em grupos e cada uma recebeu uma folha com várias frases sobre os benefícios da amamentação. perguntou-se às crianças se elas sabiam como os alimentos são classificados. posteriormente. as crianças reconheciam o nome das estruturas e suas funções (Figura 1). família. pois as crianças não sabiam o que isso significava. como: “amamentar é bom porque o bebê fica forte” e “o leite da mãe é o melhor alimento para o bebê que acabou de nascer”. Escreveu-se na lousa: “mãe. No início da atividade sobre composição do leite materno. reguladores e energéticos. segundo Freire (1992. havia anticorpos. as relações que ela fez entre o que acabou de aprender e sua conclusão sobre por que os bebês não precisam ingerir outros alimentos ou líquidos além do leite materno até os seis meses. família e mundo). p./dez. p. as crianças foram divididas em grupos e cada uma recebeu massas de modelar e um perfil de uma mama feita com folha emborrachada (EVA). em que as crianças falavam quaisquer alimentos que lembrassem.MONTRONE. A. elas relacionaram o benefício ao beneficiado (bebê. Porém. quando foi perguntado a elas se sabiam para quem era bom amamentar. continuando a amamentar até dois anos ou mais. Para as crianças. a maioria das respostas estava relacionada somente a vantagens para o bebê. falar sobre a composição do leite. n. 2004. et al. formando quatro colunas. no leite materno. mãe. de forma a facilitar a construção individual e coletiva dos conhecimentos.

Ao se abordarem as dificuldades na amamentação.31. “[. idade adulta e gestação.. minha tia fazia isso quando ela teve bebê”..449-59. O educando precisa aprender a razão de ser do conteúdo. Também o conteúdo sobre legislação foi apresentado às crianças.13. ela também destacou a importância da utilização de outros materiais para ensinar: 454 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. elas compreenderam o desenvolvimento mamário durante a gestação e entenderam que as mudanças ocorrem nas mamas. Figura 1. por meio de uma conversa na qual elas aprenderam os direitos da mulher gestante. Uma menina destacou a utilidade da ordenha na continuidade da amamentação para as mães trabalhadoras: “Se a mãe for trabalhar. por esse motivo. né. as crianças entenderam por que é um mito “o peito cai com a amamentação”. as crianças discutiram sobre o leite empedrado (ingurgitamento mamário): “O que eu tenho que fazer se o leite empedrar?”. Elas demonstraram muita criatividade e responsabilidade na construção destes materiais. A elaboração desses materiais educativos aponta que as crianças. foram desenhados perfis da glândula mamária feminina na infância. modelos anatômicos de mama e música. por meio da ordenha manual. da mulher puérpera e do pai.. demonstrando o desenvolvimento mamário das mulheres.81). a solução é a retirada deste acúmulo. 2009 . Este é um mito muito difundido na sociedade e. independente de a mulher amamentar. n. Crianças na promoção da amamentação Para a promoção da amamentação na escola. Segundo Freire (1992. para demonstrar como se realiza a ordenha manual. adolescência. Durante a entrevista com a professora da quarta série. para trabalhá-lo. uma criança disse: “Minha mãe disse que amamentar faz o peito cair”. um vidro de maionese vazio. A outra criança respondeu: “Coloca na água quente e faz massagem. período em que se completa o desenvolvimento. Para facilitar a compreensão das crianças.] ensinar não é a simples transmissão do conhecimento em torno do objeto ou conteúdo”. p. out. não optam pela maneira expositiva. foi realizada a seguinte atividade: na lousa. foi realizada uma discussão e análise com as crianças sobre o desenvolvimento mamário até a gestação. Material confeccionado pelas crianças durante atividade educativa sobre anatomia das mamas e fisiologia da lactação O ensino sobre a ordenha manual e a conservação do leite materno foi feito utilizando-se: um modelo de mamas. Na discussão sobre por que a mama da mulher fica diferente após a gestação. ela pode fazer a ordenha e alguém pode dar o leite pro neném assim no copinho. como são ministradas as aulas dos professores no dia-a-dia. e um copo para mostrar como pode ser oferecido o leite materno ao bebê. Neste caso. daí ela pode trabalhar e amamentar seu bebê também”. Foi discutido com as crianças que colocar água quente nas mamas vai aumentar ainda mais a produção de leite e que leite empedrado é acúmulo de leite. para ensinar o armazenamento do leite ordenhado.PROMOÇÃO DA AMAMENTAÇÃO POR CRIANÇAS . as crianças propuseram e confeccionaram diversos jogos../dez. quando incentivadas a criarem seus próprios meios de ensinar. p.

V.MONTRONE. Amamente seu filho exclusivamente. Se liga aí. Essa é uma dica da gente! O leite faz bem para a mãe também e muito forte pode ficar seu neném. n..449-59. tintas e papel cartão.. p.13. posso dizer./dez. concentração! Se você quiser que o bebê cresça forte e saudável. Fique ligado. A primeira atividade foi o rap da amamentação. meu irmão! Figura 2. Figura 3.31. É um poder que a gente tem de amamentar o filho pra fazer o bem! Amamentação! Preste muita atenção! Amamente seu filho. Letras de dois raps elaborados pelas crianças. No dia da promoção da amamentação na escola. AMAMENTE SEU FILHO Amamentação é coisa boa. É um material simples. out.G. Duas meninas ensinaram sobre a anatomia e fisiologia da lactação e destacaram a importância da pega correta (Figura 3). A. que foi criado e apresentado por uma dupla (Figura 2). Modelo anatômico de mamas confeccionado pelas crianças com massa de modelar. No seu leite tem sais minerais e também muito mais! DICA DA GENTE Esse é o rap da amamentação. Esse é o rap da amamentação. mas que chega ao interesse do aluno. objetivo. É uma opção! Termina por aqui Mais um rap da amamentação. 2009 espaço aberto “O material que vocês usaram foi muito bom. preste muita atenção. prático. todas as crianças estavam ansiosas para o início das atividades. surpreendente. 455 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.” . isopor. et al.

eu começo a contar. 2009 . ou na alimentação de bebês na família ou comunidade. realizar as atividades de promoção possibilita que elas utilizem sua criatividade e conhecimentos ao terem oportunidade de ensinar o que aprenderam a outras crianças e às suas famílias: “Sempre que eu chego em casa eu conto pra minha mãe tudo que aprendi.PROMOÇÃO DA AMAMENTAÇÃO POR CRIANÇAS . verificou-se que o aleitamento materno faz parte do cotidiano das crianças. como também por outros membros das comunidades. crianças de escola de Ensino Fundamental. e ela acredita em mim.” Para as crianças. seja na convivência.] a criança leva a informação para casa... p. Jogo de dama da amamentação: tabuleiro. Estes resultados mostram que crianças podem ser promotoras da amamentação.. as crianças constroem saberes e atitudes sobre a prática de amamentar. neste caso.. Figura 4.31.13. E.] E eles falavam pra mim: ‘professora. Montrone (2002) aponta que a promoção da amamentação pode ser realizada não somente por profissionais da saúde. tias ou vizinhas. n. seja na participação da gestação de suas mães.. levando conhecimentos e atitudes favoráveis à prática de amamentação. Conclusões Em relação à percepção e conhecimentos sobre a prática de amamentar.. A professora da quarta série também destacou a importância da atividade na promoção da amamentação pelas crianças: “Ensinam para as mães. ela até me faz perguntas. peças e caixinha com perguntas. neste cotidiano. Um grupo de meninos trabalhou a promoção da amamentação com um jogo de dama: em cada casa do tabuleiro havia uma pergunta e a peça só era movida se a resposta estivesse correta (Figura 4). minha mãe teve bebê. com certeza. out./dez. para as irmãs.” Estes resultados indicam que crianças de quarta série do Ensino Fundamental podem ser agentes de mudança em sua comunidade escolar.. porque aqui são famílias de muitos filhos.449-59. ela está amamentando’ [. Muitos aqui tiveram irmãozinho [. 456 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v... Neste sentido..

empenho..MONTRONE.A..org. Série A.G. n. p. p. PAMPLONA. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. quando forem pais e mães.449-59. J. FREIRE.G. possivelmente terão atitudes de valorização da prática de amamentar. In: ______. Disponível em: <http://www.119-25. a experiência propiciada por este trabalho passa a fazer parte da vida dessas crianças. Os materiais criados e utilizados se mostraram apropriados para se trabalhar esta temática junto à comunidade escolar. professores e funcionários da escola a participarem da promoção. a curiosidade.80. ______.31. Assim. Acesso em: 31 out. Além da formação de uma cultura favorável à amamentação em diversas comunidades. 2004. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 2004. K. p. “o peito cai”. 2002. Na promoção da amamentação na comunidade escolar. Amamentação: a relação entre o biológico e o social. 2004.5. 29. ALMEIDA. Colaboradores As autoras trabalharam juntas em todas as etapas do manuscrito. as crianças apresentaram iniciativa. assim como a repensarem a metodologia utilizada no ensino das disciplinas curriculares. out.. Organização Pan Americana da Saúde. Na temática ensinar e aprender sobre amamentação. 2009 457 espaço aberto . a metodologia utilizada no desenvolvimento do programa de ensino mostrou-se adequada. Foi constatado que crianças da quarta série do Ensino Fundamental apresentam os mesmos mitos presentes na população adulta: “leite fraco”. Normas e manuais técnicos. Esta é uma experiência inovadora e de grande relevância para a valorização social e promoção de uma cultura favorável à prática da amamentação.G. Rio de Janeiro: Paz e Terra. M. Referências ALMEIDA. P .13. Aconselhamento em amamentação e sua prática. Amamentação: um híbrido natureza-cultura.G. São Paulo: Agora. As atividades desenvolvidas incentivaram professores a discutirem esta temática. a criticidade e a construção de conhecimentos e atitudes favoráveis ao aleitamento materno./dez. Os depoimentos das crianças e das professoras evidenciam que as crianças também podem ser interlocutoras na promoção da amamentação em suas famílias e na comunidade em que vivem. Rio de Janeiro: Fiocruz.pdf>.S. 1992. crianças de quarta série do Ensino Fundamental podem ser agentes de mudança em sua comunidade escolar. J. Rio de Janeiro: Paz e Terra. J. Amamentação: um híbrido natureza-cultura. responsabilidade e criatividade ao proporem e confeccionarem jogos. J. Ministério da Saúde. CARVALHO.. A. ao ensinarem sobre a prática de amamentar. instigando as crianças de outras classes. supl. 2007. TERUYA. 2001. L. Brasília. n.M.107. modelos anatômicos e músicas. mostrando que a formação de crianças para a promoção da amamentação contribui para a promoção da prática de amamentar nas comunidades.. Pediatr.. v. supl.. que.A. F . “amamentar só faz bem para o bebê” e outros. brincadeiras. v.opas.br/sistema/arquivos/ Guiaaliment. Guia alimentar para crianças menores de dois anos. 1999. n.ed. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. NOVAK.ed. Pós-parto e amamentação: dicas e anotações. n. V.126-30.R. et al.15-23.80. 11. pois favoreceu a criatividade.V. p.5. BRASIL.R. Pediatr. BUENO.

1998. n. Pediatr. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE . Pediatr.. Formação de agentes comunitários para a promoção do aleitamento materno e da estimulação do bebê.R. S. Acesso em: 24 maio 2008.. Anais. J. M.PROMOÇÃO DA AMAMENTAÇÃO POR CRIANÇAS .br/amamu/dados. MINAYO. 2000. S. v. Dificuldades para o estabelecimento da amamentação: o papel das práticas assistenciais das maternidades.. Crianças promotoras da amamentação. 2004./dez. Pediatr. 8. PESQUISA NACIONAL SOBRE DEMOGRAFIA E SAÚDE . A evolução da prática da amamentação nas décadas de 70 e 80. GIUGLIANI. E. AMAMUNIC: amamentação e municípios. durante o ato preparatório da III Assembléia Mundial de Educação de Adultos.J. Amamentação e situação nutricional das mães e crianças. Amamentação: bases científicas para a prática profissional. MONTRONE. S. MONTRONE. 1985. p.J. GROTTE.PNSN. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. C. 2003. K. M.. ______. São Paulo: Hucitec.. São Paulo: Atheneu.138-42. O perfil do aleitamento materno no Brasil. NÓBREGA. Aleitamento materno. Rio de Janeiro: Paz e Terra.G. Problemas comuns na lactação e seu manejo. Pediatr. 2009 . Aleitamento materno.R.sp.. n. v. 1997. J. 1991. A.1. São Carlos. M. P . p.. p. C. São Carlos. 2002. n. A.. v.80.73-102.ed. J. 1985. NAKAMURA.I.76.S. MONTRONE. A importância nutricional do leite materno.. 4.. Intervenção de Paulo Freire em 21 jun. J. p..40-9. Pedagogia do oprimido.G.S. 2006.G. Indicadores para evaluar las práticas de lactancia materna.html>.D.V.5. Percepção e conhecimento de meninas escolares sobre o aleitamento materno. C. FREIRE. In: ENCONTRO DE EXTENSÃO DA UFSCar: COMPROMISSO SOCIAL E CONHECIMENTO.V. J. Genebra: OMS/CED/SER/91. ______. S.2. p. p. A. Amamentação exclusiva e sua promoção. J. Brasília: INAM/MS. 2004. Rio de janeiro: BEMFAM. out.. Rev.I. TERUYA. ARANTES. INSTITUTO DE SAÚDE DE SÃO PAULO. Disponível em: <http://www.147-54. Pediatr.79. Bras.31.5. COUTINHO.142-6. J.. Sobrevivência infantil e aleitamento materno. VENANCIO.I.1.. (Org. 2006. 2003. v.N. Reflexão crítica sobre as virtudes da educadora ou do educador.C. n. PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE E NUTRIÇÃO . O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde.).1. VENANCIO.B. R.1-2. 1 cd-rom. K.2. 38. In: REGO.). Os benefícios da amamentação para a saúde da mulher.I. p.V.80. 2002.. v. F. 1987. São Paulo: Manole. 2. 2004. 2003.ed. supl.. In: REGO. Epidemiol.S. p..11-24.C.. In: CARVALHO.A. 2.79. v.1-26. n. 2003.449-59. (Org.). Buenos Aires: CEAAL. São Paulo: Atheneu.14.PNDS. MONTEIRO. ARANTES.D. et al..isaude. n. TAMEZ.S. n. supl. Prevalência do aleitamento materno na cidade de São Carlos.F. p. (Orgs. 458 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.gov. 1989.181-8. p.13.ed.ed.OMS. REA.

teachers and school employees to participate in the activities. Trata-se de um estudo descritivo com análise qualitativa dos dados. thus encouraging children. Promoção da saúde. Procesos educativos.V. Elas tiveram criatividade e responsabilidade na proposição e confecção de jogos. et al. It was concluded that promotion of breastfeeding by children within elementary education contributes towards creating knowledge.449-59. Health promotion. Los resultados muestran que los niños poseen conocimientos. atitudes positivas e uma cultura favorável frente à prática de amamentar. out. Recebido em 26/05/08. Promoción del amamantamiento por niños de la Enseñanza Fundamental El objeto de este estudio ha sido el de describir y analizar procesos educativos concernientes al desarrollo e implementación de propuestas educativas elaboradas por niños de la Enseñanza Fundamental para la promoción del amamantamiento en la comunidad escolar. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. anatomical models and music in order to promote breastfeeding within the school’s community. Thirty-eight children from a public school in São Carlos. Crianças. Han participado 38 niños de una eecuela pública de São Carlos. n. 2009 459 espaço aberto . modelos anatômicos e músicas para promover a amamentação na comunidade escolar. estado de São Paulo. Os resultados mostraram que as crianças possuem conhecimentos. bromas./dez. Participaram 38 crianças de uma escola pública de São Carlos-SP . actitudes y mitos sobre la práctica del amamantamiento oriundos de la observación y del convívio con la familia y personas de las comunidades a las que pertenecen. incentivando a niños. Brasil.MONTRONE. positive attitudes and a culture favorable to the practice of breastfeeding. Keywords: Breastfeeding. profesores y funcionarios hacia la participación en las actividades que se han propuesto. Se concluye que la promoción del amamantamiento por niños de la Enseñanza Fundamental contribuye a la formación de conocimientos. Se trata de un estudio descriptivo con análisis cualitativa de los datos. Processos educativos. O objetivo deste estudo foi descrever e analisar processos educativos envolvidos no desenvolvimento e implementação de propostas educativas elaboradas por crianças do Ensino Fundamental para a promoção da amamentação na comunidade escolar. act itudes posit ivas y una cultura favorable frente a la práctica del amamantamiento. Children. Conclui-se que a promoção da amamentação por crianças do Ensino Fundamental contribui para a formação de conhecimentos. They were creative and responsible in proposing and preparing games. incentivando crianças. Niños. Brazil participated. This was a descriptive study with qualitative data analysis. brincadeiras. Ellos han tenido creatividad y responsabilidad en la propuesta y confección de juegos. professores/as e funcionários à participação nas atividades propostas. Breastfeeding promotion by children within Elementary Education The objective of this study was to describe and analyze the educational processes involved in developing and implementing educational proposals elaborated by children within elementary education to promote breastfeeding within the school’s community. A. p. atitudes e mitos sobre a prática da amamentação oriundos da observação e da convivência com a família e pessoas das comunidades às quais pertencem. The results indicated that the children had knowledge. Educational processes. modelos anatómicos y Músicas para promover el amamantamiento en la comunidad escolar. Aprovado em 07/10/08. profesoras.G. Promoción de la salud.31. activities. SP . Palabras clave: Amamantamiento. Palavras-chave: Amamentação.13. attitudes and myths regarding breastfeeding practice arising from observations of their families and closeness of living with them and people from their community.

“dentro de uma perspectiva histórica” e reconhecendo que lidava com as formas de educação para ou com as “camadas populares”. Rua Leopoldo Bulhões..fiocruz. que iria caracterizar a trajetória desse professor e pesquisador de origem americana. a determinava. 2006. conforme suas próprias palavras (Valla. para um trabalho político com o povo. n. Rio de Janeiro.461-6. nas cidades e no campo. aportado em terras brasileiras imediatamente após o golpe de 1964. Mas. Este método de construção de uma nova consciência social implicava solidariamente educadores e educandos num processo educativo e político. p.13. 1480. 2009 461 . Valla atuava como professor de ensino supletivo numa favela em Santa Teresa e colaborador da reconstrução da Federação de Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro . nos primeiros meses de 1963 (Lyra. em parte. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO 1 Escola Nacional de Saúde Pública.. É nesse contexto que Victor Vincent Valla. sala 604. de tal modo que o homem do povo pudesse assumir-se enquanto sujeito da transformação de sua vida e. 1986.31. 1986. com a emergência das primeiras manifestações de oposição popular à ditadura militar. ingressou na Universidade Federal Fluminense. Para ele. depois do golpe militar e do exílio do autor.Entre a academia e a rua: Victor Vincent Valla (1937-2009) Eduardo Stotz1 Desde a experiência inicial em Angicos. através da alfabetização. a “[. como o método de Paulo Freire. Em outros termos. Isso aconteceu em 1975. Fundação Oswaldo Cruz. era uma contraproposta inserida “num campo previamente delimitado pela expansão e consolidação do capitalismo” (Valla.041-210 stotz@ensp. em virtude da repressão dos movimentos de educação popular. ao lado de seu trabalho como pesquisador do IESAE. a educação popular formulada por Paulo Freire consistiu num método de educação de adultos como parte de um programa mais amplo de mobilização popular. out. portanto. Dois anos depois. 21. Essa mudança se deu na segunda metade dos anos 1970. a educação popular numa perspectiva de transformação social. 1997). Estabelece-se nesse momento o elo vital entre a academia e a rua. da sociedade que. substituídos pela ditadura com o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). transformava a educação popular – denominada “não-formal e extraescolar” – em objeto de pesquisa no Instituto Estudos Avançados em Educação da Fundação Getúlio Vargas (IESAE-FGV). sem a alfabetização” (Brandão.11). As próprias instituições acadêmicas abriram-se para se pensarem essas manifestações e abrigaram intelectuais e pesquisadores de oposição. Isso porque. p. p. Valla acentuava a importância tanto das determinações estruturais.18).FAFERJ.90).br v. em 1977./dez. então um recém doutor em História Social. p. Brasil. RJ.] educação popular mudou de um trabalho político junto ao povo. no Brasil.

e a formação como historiador nos cursos de mestrado e doutorado em História Social da USP (Especial Victor Valla.13. É interessante lembrar que o boletim apropriou-se da ideia do jornal como um “organizador coletivo”. 1993). apoiados pelas comunidades eclesiais de base. Saúde e Cidadania (NESC) da ENSP (1986-2004). Saúde e Cidadania tinha um objetivo especificamente político. p. de modo a promover a adequação dos serviços ao atendimento das necessidades da população e a “implementação de propostas oriundas do movimento social” (Carvalho. out. no seu entendimento. em tais análises. O CEPEL materializou o elo da academia (NESC) com a rua por meio de um instrumento periódico. em 1984. dado o tecnicismo e autoritarismo entranhados na cultura e práticas institucionais do setor saúde. em São José dos Campos. quando de sua visita a conjuntos habitacionais e a favelas cariocas. A escolha de uma ou outra forma de intervenção trazia “implícita a problemática da manutenção ou da mudança social” (Stotz. n. Eram pesquisadores comprometidos. 2003). como aos planejadores do setor saúde. o de incorporar a experiência e o saber das classes populares em suas demandas junto ao Estado. na qual se destaca a leitura de Edward Carr (O que é História?). era (e continua a ser) o problema. É notável. orientados para a mobilização e organização das comunidades. A influência do marxismo. Contudo. A primeira sistematização desse estudo em Educação e favela já contém o leitmotiv de sua pesquisa. Acioli e Stotz (2001) denominam esta abordagem de construção compartilhada de conhecimento em saúde. viu-se na contingência de reelaborar a concepção anterior. um campo interdisciplinar no qual se manteve até o final da vida. de diferentes formas. com a criação do Núcleo de Educação. p. O boletim surgiu como uma decorrência do movimento “Se liga Leopoldina. O projeto Educação. A pobreza. A abordagem da pobreza se deu por meio da Educação e Saúde. o primeiro periódico 462 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.461-6. A opção de Valla nos processos de intervenção social foi a de entender a educação como “finalidade” e a saúde como “meio”. por representar o resultado de uma aprendizagem na intervenção social. preocupados em entender o papel das políticas públicas na dinâmica do desenvolvimento capitalista e na reprodução da força de trabalho em países periféricos como o Brasil. 2006). 2001. ao se debater com a importância atribuída ao papel do estado no combate da doença. como das tentativas de superá-las. na qualidade de professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). a perspectiva de cientistas sociais como José Álvaro Moisés e Lucio Kowarick. 2005. na interlocução com os colegas da ENSP . no final de 1990. o conduziram ao permanente exame das práticas sociais nos contextos sociais em certo momento histórico. Stotz. sobretudo sob a influência do Partido Comunista Brasileiro. em 1968.. uma metodologia que tem uma “história” cujo sentido geral é. recebida de seus próprios alunos de língua inglesa no Instituto Tecnológico da Aeronáutica.ENTRE A ACADEMIA E A RUA . de modo a favorecer-lhes maior poder e intervenção sobre as condições de suas vidas. Tângari.31. entidade não governamental com atuação nas favelas da Penha (1988-2006) que teve como presidente Vitor Valla e uma grande equipe de pesquisadores oriundos dos cursos de pós-graduação nos quais Valla atuava como orientador acadêmico. a saber: buscava oferecer subsídios tanto às organizações civis de caráter popular. É interessante neste sentido assinalar que Valla parafraseou o urbanista inglês John Turner. com os movimentos populares e a luta contra a opressão social (Valla. defesa civil popular em resposta à negativa das autoridades sanitárias em admitirem e enfrentarem a epidemia de dengue na região. É importante destacar o caráter coletivo da construção desta abordagem. especialmente nas favelas da Leopoldina. o dengue está aí”. favela era uma solução de um problema. estruturado em torno do projeto de título homônimo e. o boletim trimestral “Se liga no sinal”.. Como não podia deixar de ser. onde trabalhou entre 1967 e 1973. do Centro de Estudos e Pesquisas da Leopoldina (CEPEL). p. A vinculação à primeira vertente era anterior ao ingresso de Valla na ENSP . e a segunda. sim. Acioli. a abordagem da educação popular elaborada por Valla no setor da saúde acompanhou as possibilidades e limites desse processo do ponto de vista conjuntural e institucional. Naquela ocasião. uma diferença importante identificada por Antonio Ivo de Carvalho e que Estrella Bohadana classificava em duas vertentes: uma caracterizada pelos projetos autônomos. Para Valla. 2009 . Stotz. Carvalho. formulada por Lênin para dar ao Iskra (“A Centelha”).15-6). para dar consistência técnica às suas reivindicações./dez. disse: “Mostraram-me soluções que são problemas e problemas que são soluções” (Silva. sobretudo.105). dava maior peso ao papel do Estado. por privilegiar a extensão da assistência médica.

461-6. sobretudo de que estaria interessado. n. em março de 2003. o primeiro de uma coleção denominada “A academia e a rua”. 2009 463 espaço aberto . onde esta entidade atuava. contribuindo para adequá-lo à experiência do mundo daquelas classes. sobretudo das mulheres do grupo Sementinha.com o que já se admitia a religiosidade como um caminho para resolver problemas sociais apontados. até mesmo. sustentada do ponto de vista organizativo pelo CEPEL e pelo Núcleo de Estudos Locais em Saúde (ELOS) da ENSP . de descenso e de fragmentação. 1995). mas nunca teve a pretensão de superar a desigualdade vigente na sociedade. para se identificarem as possibilidades de se superar a pobreza e de se aprenderem os sentidos das tentativas bem ou malsucedidas. A pobreza nunca foi vista exclusivamente como uma situação ou condição decorrente do desenvolvimento capitalista periférico no Brasil. a partir de 2000. acabou por tomar forma no projeto “Vigilância civil da saúde: uma proposta de Ouvidoria Coletiva”. ainda que nos limites do campo religioso. et al. ao trazer à tona o fenômeno do crescimento do pentecostalismo. noutra. Aliás. Stotz. e sua aplicação e/ou revisão nas circunstâncias tem de contemplar de alguma forma uma visão sobre a sociedade e seu funcionamento. de entenderem e agirem sobre sua própria realidade. Valla esclareceu que a opção de estudar o pentecostalismo – era necessário defender-se das incompreensões. 2003). Pode-se dizer que o agravamento da pobreza no contexto do desemprego e da violência generalizada nas favelas da região da Leopoldina./dez. Pois uma “lida” requer necessariamente saber. De fato.S. out. de uma organização como o CEPEL. com o sofrimento difuso daí decorrente (Lima.31. do ponto de vista acadêmico. como uma forma de conhecimento social. a apoiar o novo Ministério da Saúde no primeiro governo de Luis Inácio (Lula) da Silva. com a invenção de novos métodos. elas também avaliavam a recepção do boletim. A sistematização dessas reflexões e iniciativas deu origem ao livro “Para compreender a pobreza no Brasil”. portanto. os círculos operários mediante a recepção de denúncias e sua análise pelo grupo redator. Sem deixar de identificar os determinantes mais amplos dessa situação de pobreza e o impacto das políticas neoliberais no Brasil (Valla.NICOLETTO. O ponto central dessa crise era a incapacidade de os profissionais relativizarem seu ponto de vista prévio ao admitirem que essas pessoas fossem capazes de construir um conhecimento e. Todo esse processo sempre foi visto em sua dimensão educativa. A proposta e o funcionamento da Rede de Solidariedade da Leopoldina. obrigou a criar novos procedimentos metodológicos. pela equipe do CEPEL. Valla. A situação de pobreza era entendida como ponto de partida de uma “lida” que..notável no esvaziamento das associações de moradores como consequência da nova conjuntura. reverberada no interior. De seu lado. entre 1900 e 1903. para entender em profundidade o significado do fenômeno. pois. seria necessário dispor de uma observação participativa no fenômeno. também percebida por Valla e o grupo de pesquisadores nucleados em torno do novo projeto . p. 2008. ao longo dos anos 90. 2009). da fé baseada na solidariedade e na resistência. Lima. inclusive no tocante ao processo de adoecimento e cura. a pauta do boletim era discutida.13. numa conjuntura de mobilização popular. na espiritualidade – advinha do “entendimento de que é nesse movimento religioso que a centralidade da pobreza se dá de COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. a tarefa de unificar. A metodologia da construção compartilhada do conhecimento – de que a elaboração do boletim foi uma expressão amadurecida ao longo de vários anos – supunha a possibilidade de reduzir a hierarquia dos saberes cientifico-técnico e popular ao mínimo. como um modo de ensino e de aprendizagem não-formal e. que faziam a distribuição do jornal nas favelas e captavam os sinais das dificuldades da vida e de sua lida pelas classes populares. particularmente desorganizadores em situações de pobreza. A necessidade advinha da tentativa de responder a pergunta: “por que os pobres vão à Igreja?” . S. com participantes de entidades populares. favorecera a ação coletiva e a ampliação da sociedade civil de caráter popular. a Ouvidoria Coletiva foi a proposta de Valla para a Rede de Educação Popular e Saúde quando esta organização se dispôs. A separação entre a sociedade civil e as práticas populares .C.foi interpretada nos termos de uma “crise de compreensão” entre profissionais dos serviços públicos de educação e saúde e as pessoas das classes populares. ele pressupôs que. político marxista ilegal de toda a Rússia. experiência que inclusive recebeu o Prêmio Antonio Sérgio Arouca de gestão participativa (Guimarães et al. reconduzira ao estreito caminho por onde historicamente as pessoas comuns do povo sempre passaram: o mundo da religiosidade.

a permanente minoridade política e cultural das classes populares para disporem sobre as questões que afetam suas vidas” (Vasconcelos. no meio da esperançosa luta e ilusão fecunda por retomar os movimentos do corpo atingido pelo acidente vascular cerebral em 2001. inclusive. p. de onde decorria também a importância atribuída ao termo “conversão” (Vasconcelos. Valla. forma mais radical”. 2008. pelos imensos segmentos da população submetidos à experiência da escassez” (Vasconcelos. p.ENTRE A ACADEMIA E A RUA . Valla. e. Valla. como um tema central para se entender o comportamento das classes populares (Valla. sua autoridade e capacidade de dispor sobre os problemas do mundo.13. o conduziu a compreender a conversão pentecostal de pessoas. “habituadas a entender. no dia 7 de setembro de 2009. sua experiência como central. de um lado. como um limite da teoria dada pela realidade brasileira em que ainda vivemos./dez. como a de Simone Weil. incorporou tanto a reflexão de Milton Santos (1996) “sobre o conjunto de saberes práticos e valores produzidos às margens dos padrões de vida das classes médias. n. quando faleceu. o problema da politização dessa nova experiência humana para além dos limites da dominação burguesa e das tentativas de conciliação de classes. 464 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. pois. válido principalmente para as classes médias. Dedicava-se. Algebaile. Ficava em aberto. de outro.331). a finalizar uma coletânea de seus trabalhos com o apoio de Eveline Algebaile.. baseada em Cesar e Shaull (1999). out. 1995). 2008. Para fortalecer seu ponto de vista. A contribuição trazida pelo teólogo Richard Schaull para o equacionamento desta questão no âmbito da Educação Popular consistia na “idéia de que a conversão é um movimento de descentramento”. ao trazer a fadiga e. O título provisório desta publicação póstuma define o sentido da vida de Victor Vincent Valla: “Para compreender as classes populares no Brasil”. e a deduzir disso. em sua maioria anteriormente católicas ou participantes de cultos afrobrasileiros. Sua análise. p.332). Algebaile. Algebaile. A problematização do termo ‘conversão’ a partir do campo religioso não foi o último texto escrito em vida. p332).461-6.31. o trabalho. como parte do enfrentamento da questão da pobreza. 2009 .. 2008.

). (Org. CARR. GUIMARÃES. 2003..31.P .9-30.fiocruz.. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs: promessas e desafios.28.11. SANTOS. Petrópolis: Vozes. 6. São Paulo: Brasiliense. C.P .H.M. México: Universidade de Guadalajara. Trabalho. Apresentação e repensando a educação popular e a favela. Educ. VASCONCELOS..N. V. Anais. F . Atenção Primária à Saúde. Acesso em: 19 out. STOTZ. (Orgs.P . p.1.. 17.NICOLETTO. STOTZ. ______.M.J. Ouvidoria Coletiva: uma proposta de participação e diálogo. STOTZ. S.A. 1997. 2005.514. TÂNGARI. M.C. C.N. 2009 465 espaço aberto Referências . LYRA. Participação popular. VALLA..N..fau. Rio de Janeiro: ENSP . 1999. n. São Paulo: Studio Nobel. E.R..br/ccs>. In: MARTÍNEZ.3. 2009.br/prolugar/arq_pdf/diversos/ artigos_vera%20tangari/CBA-2003-Magalhaes-Tangari. v. Rio de Janeiro: Paz e Terra.V. ACIOLI. Soc. LIMA. O que é método Paulo Freire. 2003... O espaço do cidadão.. (Orgs. 2006.N. Educ. E. ALGEBAILE.3 n. 2009. C. Rio de Janeiro. 2008. março de 2006. E. Acesso em: 14 set. Educação e favela.461-6. 2009. M.181-99. V.B. W.R. (online).. In: VALLA. CESAR. In: VASCONCELOS.). E.P . Petrópolis: Vozes. VALLA.326-33. Para compreender a pobreza no Brasil. Disponível em: <http://www. VALLA. L.V. A educação popular nos movimentos sociais da saúde: uma análise de experiências nas décadas de 1970 e 1980. V. VALLA. Cienc. p. E.R. et al.pdf>. 2005.S. v. A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da Rede de Educação popular e Saúde. Ensinar os cegos a “ver”: a crise urbana no Brasil. et al. 1995. 1993. 1986. ALGEBAILE. O que é história. VALLA. (Org. V. Conhecendo a região da Leopoldina: religiosidade popular e saúde. S. 1989. 2003. E. R. Rev. p. V.M. educação e saúde: teoria e prática.. C. p. p. p. E. São Paulo: Hucitec. LIMA.). E. Rio de Janeiro. E.59.389-93. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. E. STOTZ. O processo de construção compartilhada do conhecimento: uma experiência de investigação científica do ponto de vista popular.V.11-27. Saude.1. Os impasses da pobreza absoluta: a experiência da ouvidoria Coletiva na região da Leopoldina. V.. p.N. BRANDÃO. Tecnologias de Educação e Saúde (no prelo).M. (Org.M. SILVA. v. Victor Vincent Valla: pioneiro da pesquisa e formação acadêmica no campo da educação popular e saúde. Participação popular e informação numa conjuntura de nova ordem mundial.). CARVALHO.V. 2008.101-14.ufrj. Rio de Janeiro: Contraponto/Escola de Governo em Saúde-ENSP .V. ESPECIAL VICTOR VALLA: uma vida dedicada a entender os pobres.ed.. V. out. 1996. (Orgs. Rio de Janeiro: Relume Dumará.. Entrevista concedida a Ricardo Valverde. SILVA..). STOTZ.13. J. Disponível em: <http://www. n. M.M. Saude Colet. SHAULL. 2001./dez.V. n. As quarenta horas de Angico. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ARQUITETOS/IAB/RJ.). p. La medicina al final del milenio. v.

the vital link that Valla built between academia and the street is highlighted. Educação e saúde. Education and health.ENTRE A ACADEMIA E A RUA . Palavras-chave: Educação popular. particularly by means of Education and Health.31. Educación and salud. Palabras clave: Educación popular. 2009 . Social change. campo interdisciplinar no qual se manteve até o final da vida. out. em particular por meio da Educação e Saúde. ressalta-se o elo vital que Valla construiu entre a academia e a rua e a sua contribuição e envolvimento com os movimentos populares no Brasil. particularmente por medio de la Educación y Salud. n.. Transformación social. 466 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. By rescuing projects and experiences that marked this trajectory.. Keywords: Popular education. como professor e pesquisador do Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)./dez. Transformação social. campo interdisciplinario en el que se mantuvo hasta el fin de su vida como profesor e investigador del Programa de Posgraduación en Educación de la Universidade Federal Fluminenense (UFF) y de la Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) de Brasil. as well as his contribution to and involvement with popular movements in Brazil. as a teacher and researcher with the Postgraduate Program in Education of Universidade Federal Fluminense (UFF) and Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). Ao resgatar projetos e experiências que marcaram essa trajetória.461-6. p. Entre la academia y la calle: Victor Vincent Valla (1937-2009) Se trata de una publicación póstuma que apunta los principales momentos de la trayectoria del profesor e investigador Victor Vincent Valla. an interdisciplinary field in which he acted until the end of his life. Al rescatar proyectos y experiencias que marcaron su trayectoria se resalta el eslabón vital que Valla construyó entre la academia y la calle y su contribución y compromisso con los movimientos populares en Brasil. Between academia and the street: Victor Vincent Valla (1937-2009) It is a posthumous publication that presents the main moments of the trajectory of the teacher and researcher Victor Vincent Valla.13. Trata-se de uma publicação póstuma que pontua os principais momentos da trajetória do professor e pesquisador Victor Vincent Valla.

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a pesquisa descrita nesse livro traz novos dados e contribui com análises e reflexões sobre o complexo processo de convivência da biomedicina com a medicina homeopática. quando estudos em países ricos revelaram procura e valorização acentuada. 970. a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a pesquisa e oferta das mesmas nos sistemas públicos de saúde.br 1 v. Homeopatia. no Sistema Único de Saúde (SUS) e nas escolas de medicina do país. em locais em que ela está presente.469-74. referenciais teóricos. out. p. n. métodos e procedimentos.31. 2009 469 livros SALLES. Universidade Federal de Santa Catarina.. um trabalho de doutorado no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. traz significativo avanço no desenvolvimento de um tema relativamente pouco valorizado na saúde pública brasileira. S. 1993). Trata-se da relação de docentes de escolas médicas e profissionais médicos não-homeopatas do SUS e seus gestores com a homeopatia. Rua Laureano./dez. a OMS (2002) justifica essa recomendação pela adequação cultural e acesso fácil das populações a esse tipo de cuidado nos países pobres e pela procura crescente e consistente dessas terapias e práticas pelas populações dos países ricos. desencadeado com mais vigor a partir da década de 1990. apresenta mais detidamente os resultados da pesquisa e análises dos mesmos. . 2008.ufsc. universidade e SUS: resistências e aproximações. O livro é estruturado num formato acadêmico enxuto. É desnecessário comentar a relevância dessa temática num momento de grande movimento de investigação e revalorização mundial das chamadas medicinas e terapias alternativas e complementares. Brasil. pelo menos desde o fim da década de 1970. pelas populações. São Paulo: Hucitec/Fapesp. separadamente para cada tipo COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO Departamento Saúde de Pública. seu objetivo. Inserindo-se num momento de estímulo para a oferta dessas práticas no SUS. Lembremos que. Florianópolis. o contexto da pesquisa. Campeche. SC. introduzindo. dessas práticas (Eisenberg et al. por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC-SUS) (Brasil. apresentados com objetividade e concisão. O foco da pesquisa foi a interface homeopatia-alopatia na sua existência real e social. Centro de Ciências da Saúde.13. No seu último texto oficial. 88065-040 charlestesser@ccs. 2006). Em seguida. do ponto de vista dos profissionais não-homeopatas que convivem com a homeopatia no SUS. no início.Charles Dalcanale Tesser1 Homeopatia no SUS e na formação médica A pesquisa de Sandra Salles.

v. de pesquisadores como Ricardo Bruno Mendes Gonçalves. Revelou que a tímida presença. A pesquisa mostrou vários aspectos da situação atual da interface investigada. respectivamente). que comportam uma morfologia do homem (anatomia. Por outro lado. o que permite distinguir sistemas médicos complexos. um sistema terapêutico e uma doutrina médica (explicações sobre o adoecimento e a cura).31. uma “racionalidade médica” constitui-se de um conjunto de práticas e saberes existentes socialmente./dez. Sandra Salles realizou uma ampla pesquisa de campo. e a pesquisadora conseguiu obter retorno de 46 delas e. seja enquanto medicina distinta (como racionalidade médica estruturada2) que tem pontos fortes e pontos fracos. a iniciativas de profissionais homeopatas. a homeopatia ou a medicina ayurvédica. seja ela vista apenas enquanto especialidade médica que deveria especificar para que serve (denotando. das quais 11 forneceram vinte docentes que foram entrevistados. Seu objetivo se dirigiu à relação dos entrevistados com a homeopatia em termos: da caracterização dos movimentos de aproximação e oposição ou resistência entre essas duas medicinas. Rio de Janeiro (29) e Minas Gerais (11). p. identificar 19 escolas com alguma atividade ligada à homeopatia. talvez. 2 Segundo Luz (2000). os estados com maior número de municípios com consultas desse tipo foram São Paulo (38). para participarem da pesquisa. Os 12 médicos e 17 gestores desse grupo atuavam em algum dos seis municípios com maior produção de consultas homeopáticas (Rio de Janeiro. a produção de Madel Luz sobre a história da homeopatia no Brasil e a categoria “racionalidade médica” desenvolvida por esta autora. out. 2009 . uma dinâmica vital (fisiologia). a iridologia. embasados em uma cosmologia (implícita ou explícita). um sistema de diagnose.13. como uma questão apenas de comprovação de eficácia da homeopatia pela comunidade médico-científica. a autora assume uma perspectiva crítica. assim. dentre estas. afastase da ingenuidade positivista ainda típica do campo biomédico. na quase totalidade dos casos. de terapias ou métodos diagnósticos. de oferta. São Paulo. Isso denota a imensa fragilidade institucional e o protagonismo quase pessoal ainda necessário para que essa medicina se faça presente nas academias e nos serviços.4% das consultas). na academia e no SUS. n. sendo que sete estados do nortenordeste não acusaram nenhuma consulta homeopática no SUS nesse tempo. Das 115 escolas de medicina do Brasil (em 2005). Brasília. de certo modo. como: o conceito de “campo científico”.LIVROS de informante (docentes. a maior parte deles no sudeste (totalizando 74. Para responder essas questões. A autora reconhece um movimento recente de aproximação entre a homeopatia e a biomedicina. Ainda segundo os dados do SUS levantados na pesquisa. como a biomedicina. sociológica e histórica condizente com a complexidade do tema e. partindo do panorama atual da homeopatia no SUS e nas escolas médicas brasileiras. em paralelo a suas históricas oposições. em ordem decrescente de produção) no período 2003-2005 – em que apenas 109 municípios brasileiros referiram consultas em homeopatia realizadas pelo SUS. o reiki. que pensaria o problema investigado. Escolheu locais e experiências com maior consistência histórica e assistencial de presença da homeopatia nos anos recentes e selecionou intencionalmente um elenco de médicos. a pesquisadora lançou mão. entre outros. gestores e professores universitários não-homeopatas. Dourados e Juiz de Fora. Com isso. como os florais de Bach. 23 não puderam ser contactadas. por um lado. na biomedicina). A presença de todas estas dimensões em uma medicina ou sistema médico caracteriza uma racionalidade médica. além de outros estudos sobre a constituição do mercado de trabalho médico e modelos de prática ou assistência. totalizando 470 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO um grupo de 49 entrevistados. Vitória. de Pierre Bourdieu. maior desconhecimento da mesma).469-74. e das regras de relações entre homeopatas e nãohomeopatas. organizados e estruturados. com contato com a homeopatia. de referências teórico-conceituais pertinentes. ensino e pesquisa de homeopatia devem-se. da introdução e presença da homeopatia nessas instituições. Lilia Schraiber (sua orientadora) e Cecília Donângelo. gestores e médicos. resistências e desconfianças dos entrevistados em relação à homeopatia e suas potencialidades. Os depoimentos também reafirmaram a intensidade e a permanência tanto de desconhecimento quanto de preconceitos.

por vezes a maior parte do relato dos doentes.31. já que não reconhecem neles doenças ou patologias descritas na sua nosografia. de que a homeopatia serve para certos tipos de problemas caracterizados como crônicos e/ou pouco graves clinicamente. ignora ou simplesmente aborta tais relatos que. Todavia. 2006). paradigmática e cultural à homeopatia: o problema da ação terapêutica das grandes diluições homeopáticas./dez. que não são úteis para o estabelecimento de diagnósticos biomédicos. uma medicina para o trivial. que a ciência ainda não consegue explicar. Em que pesem as dificuldades reais. de resto. vivências e queixas. e de que não é eficaz em casos agudos. Também mostrou a presença dos preconceitos populares mais comuns presentes fortemente nesses profissionais. Por outro lado. não recebem mais que sintomáticos químicos. embora relevantes para os pacientes (psicossomáticos. out. n. dos problemas de iatrogenia clínica3 e COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.A pesquisa detectou nos entrevistados a já tradicional resistência ideológica. tem boa sensibilidade e eficácia (empiricamente falando) para grande parte desses sintomas. outras medicinas e práticas complementares). Uma das questões bem apontadas e analisadas pela autora é decorrência desses preconceitos e da precária incorporação da homeopatia pelo SUS. não fosse pela lentidão em que ocorre: a existência de um processo de questionamento da desumanização da medicina. alguns significativamente iatrogênicos.) e de grande prevalência na população. tanto clínicas quanto psicológicas. e à referência à biomedicina. Daí que a atenção primária deveria ser chamada “atenção fundamental”. decorrentes da pouca socialização dessa medicina e dos problemas de organização e inserção da prática homeopática no SUS. quase nada conhecida nesses ambientes no Brasil.469-74. Daí os alopatas considerarem muitas queixas e sintomas como adoecimentos “simples”. essa visão faz pensar que o local por excelência da medicina homeopática deve ser a atenção primária à saúde. A pesquisa revela certas reticências dos entrevistados quanto a esta proposta. não há por que não abrir as emergências e hospitais para a homeopatia. vivências. gestores e docentes: de que o tratamento é demorado. sensações e sintomas envolvidos nos adoecimentos. do excesso de tecnicismo e cientificismo em prejuízo dos aspectos relacionais e artísticos da prática médica. com isso. parece desnecessário comentar que a clínica generalista da atenção básica envolve grandes complexidades. apenas realça algumas de suas virtudes. Confirmando os achados da pesquisa e a tendência atual de pequena presença da homeopatia no SUS. clinicamente sem gravidade. conhecida e aceita como mais segura). alergias etc. produzindo. Preconceitos estes. integrando-os numa terapêutica voltada ao sujeito em desequilíbrio e facilitando um processo de autoconhecimento (como. quando ouvidos. Ela seria. 2009 471 livros . como da própria alopatia. Quando ela se faz presente. uma abordagem mais rica da experiência do adoecimento e do cuidado (Andrade. É fato que a biomedicina é pouco sensível e eficaz para uma miríade de queixas. a atenção fundamental ou primária deve ser o local por excelência desta medicina. em parte. culturais e sociais. para problemas banais. denotando subliminarmente uma visão ainda persistente da atenção primária como serviço para os adoecimentos “simples” e “banais”. bem como quase nunca está disponível em unidades de urgência ou atendimento hospitalar. para expô-la e testá-la (e às suas virtudes e limites).13. pouco viabiliza o acesso para os pacientes agudos (mesmo já em tratamento) ao cuidado homeopático. pois. já que deve concentrar a maior parte do cuidado médico. Também pode ser aceito que a medicina homeopática. por eles considerarem a homeopatia “insegura” ou “menos segura” (o que provavelmente associa-se aos preconceitos e desconhecimentos. Comumente o médico alopata desqualifica. para fazer justiça ao significado do original primary care e devido à sua importância na organização do SUS. no geral. históricas e políticas da organização do SUS e da atenção primária brasileira (da Estratégia Saúde da Família). por eles mesmos assumidos. em regra. p. que se retroalimentam: a consideração da mesma como uma medicina simples e barata. a ser comemorado. O livro também revela que um passo importante está em curso no ambiente dos profissionais investigados. Mas isso não significa que a homeopatia esgote suas potencialidades nesse tipo de situação.

sobretudo da atenção primária. reivindicações de protocolos. que perde de vista o indivíduo como um todo e centra a terapêutica em patologias específicas desvinculadas desse todo.31. técnicas e teóricas (que induzem e demandam as virtuosidades mencionadas). O reconhecimento de limites e problemas na prática. Os processos de reformas curriculares nas escolas de medicina foram apontados como elementos facilitadores da introdução de conteúdos relacionados à homeopatia e a outras práticas terapêuticas nas academias. ressaltando esse último achado da pesquisa. p. Em outras palavras. têm praticado uma homeopatia preservando suas características conceituais. pelos entrevistados na pesquisa. em que talvez tenham se isolado como resultado dos preconceitos e oposições à homeopatia na academia e na história social da medicina no ocidente e no Brasil. à academia e ao encontro de seus pares alopatas para debater. Isso se relaciona à já antiga e problemática necessidade de reforma do ensino médico. quando a homeopatia se volta. dos limites paradigmáticos da especialização médica. também presentes em outras racionalidades médicas vitalistas. que ora lamentam sua própria ignorância. a terceira causa de morte nos Estados Unidos da América (Starfield. e de medicalização excessiva em vigor na biomedicina contemporânea. ainda que em v. fazem dela uma medicina forte em aspectos em que a biomedicina é reconhecidamente fraca.LIVROS 3 Vale lembrar que a iatrogenia (aí incluídos os erros médicos) chegou a ser. que os homeopatas brasileiros acabaram restringindo-se ao ambiente 472 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO . os problemas da integralidade ou da falta dela na alopatia (Tesser. levantando pequenos problemas práticos de convívio (como a não compreensão das terapêuticas por desconhecimento. Pode-se também considerar. indica que os homeopatas. pesquisar e socializar os saberes e técnicas homeopáticas. menos iatrogênica. como promoção da saúde e integralidade. restrição à atenção primária etc. aproximações e resistências nos entrevistados. mesmo supondo fácil acesso. Barros. e menos medicalização. com maior capacidade de escuta. centrado até agora no ambiente hospitalar. derivadas dos preceitos vitalistas e técnicos fundamentais que a caracterizam como racionalidade médica distinta. e ora mostram reticências e descréditos. aos especialistas e às tecnologias diagnósticas e terapêuticas. indo inclusive além dos limites conceituais biomédicos. solicitando maior interação e aproximação. dificuldades para encaminhamento. A pesquisa também mostrou a existência do progressivo reconhecimento de que o saber/prática alopático (adequado e suficiente no ambiente hospitalar e nos casos de maior gravidade clínica. Essa mão dupla sinérgica ocorre devido ao fato de a homeopatia proporcionar. mostrar.13.469-74. n. por exemplo. recentemente. saindo de uma posição retraída e tímida. ao mesmo tempo em que a biomedicina pode também ser enriquecida e estimulada pela medicina homeopática quando ambas mantêm convívio. na formação e no saber biomédicos abre espaço para a homeopatia. 2008). Tais características da racionalidade médica homeopática. além de tornála uma abordagem que converge com os valores e ideais do SUS. Isso tudo gera uma série de percepções. aos olhos dos entrevistados) é insuficiente e inadequado no ambiente da medicina ambulatorial. out. simbólica./dez. 2009 pequeno número no SUS.). com maior individualização da terapêutica. melhor valorização de aspectos psicológicos e sociais dos adoecimentos. A percepção de tais “virtudes”. para o equilíbrio energético e dinâmico dos pacientes (Tesser. Luz. aos serviços. A pesquisadora chama a atenção para uma demanda explícita dos entrevistados: que os homeopatas e suas instituições venham com mais vigor a público. 2000). quando necessário. 2008). em suas práticas e saberes: uma abordagem mais integral e holística. ensinar. mais acolhedora.

encarada como medicina barata4 e simples. no conjunto. Mesmo destruído pela realidade do campo profissional e do mercado de trabalho no país. lenta. políticas e de grande ordem. em associações de homeopatas com cursos reconhecidos. 2009 473 livros ./dez. já que.da medicina privada após seu reconhecimento como especialidade e um certo boom de procura por eles nas décadas de 1980 e início de 1990.13. diferentemente de tempos atrás.31. ideológicas. menor iatrogenia e melhor cuidado. voltado para a prática alopática). out. cabe recomendar a leitura desse livro. Como sua formação. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. sabidamente caro (os homeopatas solicitam bem menos exames complementares. documentado e analisado pela pesquisa de Sandra Salles. de modo que os homeopatas que trabalham no SUS continuam marginais e tendem a se fechar em seus consultórios (também pelas diferenças teórico-práticas e culturais de sua medicina e pelas dificuldades de organização do serviço. mas com grande prevalência na atenção primária. por professores cuja prática é privada parcial ou totalmente. bem como a de outras terapias complementares. p. Considerando a pequenez da presença e da institucionalização da homeopatia no SUS e nas academias e o longo caminho a percorrer para a sua maior socialização. parece ser recomendável que os homeopatas e suas instituições. mesmo que as tensões existentes e a hegemonia da biomedicina no campo impliquem o perigo de restrição das potencialidades da homeopatia. E como as dificuldades são reais. este talvez ainda seja o sonho básico de atividade profissional dos homeopatas. Isso reforça seu isolamento e pouca socialização. é realizada fora das academias e serviços públicos de saúde. já que os medicamentos homeopáticos são. Parece que somente a socialização progressiva dessa medicina nas instituições de ensino. sua cultura tende a convergir com o restante das especialidades focais alopáticas: no aspecto ideológico relativo ao ideário liberal de trabalhar em consultório privado. deve ser ressaltado outro dado revelado pela pesquisa: o convívio entre homeopatas e alopatas tem acontecido em uma relativa harmonia e parceria. os gestores do SUS e as academias amplifiquem as experiências de oferta. em função de limites da alopatia progressivamente reconhecidos e criticados. ensino e pesquisa. num espírito de complementaridade em prol da busca de melhores terapias para os doentes.469-74. provavelmente mais baratos que os alopáticos. esse ideário talvez fique reforçado. na esperança de que ele possa muito contribuir para o crescimento desse pequeno. salvo exceção. Entretanto. a homeopatia poderá dar o seu potencial de contribuições para o cuidado à saúde no SUS. envolvendo inclusive variáveis macropolíticas ligadas à produção e reprodução do saber científico e terapêutico (em que a produção artesanal e barata dos medicamentos homeopáticos é um perigo potencial de concorrência para o chamado “complexo médico industrial”). quando eram mais comuns posturas extremas de negação mútua e de oposição de ambas as partes. e na terapêutica. em função de suas características de produção. para problemas banais. 4 O lado barato da homeopatia revela-se no uso parcimonioso do arsenal diagnóstico biomédico. no SUS e na sociedade em geral será capaz de superar certos preconceitos: apenas disseminando sua prática e teoria em assistência. estudo e pesquisa dessa medicina. o estabelecimento desse clima de parceria e complementaridade deve ser saudado com satisfação e otimismo. em pelo menos um ponto. Apesar dos preconceitos e ignorâncias. reprodução e uso. movimento de aproximação tensa da homeopatia e da alopatia. O medo da descaracterização da medicina homeopática diante do imediatismo sintomático da cultura contemporânea e da hegemonia da alopatia não se sustenta frente aos achados da pesquisa. mas consistente e promissor. segundo os gestores entrevistados – o que todo médico deveria fazer). n. culturais.

p.195206. Recebido em 04/02/2009. Secretaria de Atenção à Saúde. and patterns of use.. Disponível em: <http://dtr2004. Rev./dez.T. n. 1993.914-20. LUZ.13. TESSER. In: CANESQUI. Ciências sociais e saúde para o ensino médico. Cienc. p. A. 2009. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC-SUS). n. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE . Estratégia de la OMS sobre medicina tradicional 2002-2005.. Med. costs. LUZ. M.42.. Med. Acesso em: 16 mar. p.).4. 2006.83-5. C.LIVROS Referências ANDRADE. p.D. New Engl. out.246-52. São Paulo: Hucitec/Fapesp. 2008. Departamento de Atenção Básica.5.M. (Série B. 2008. Links unconventional medicine in the United States: prevalence. homeopática..T. BRASIL. v.pdf>. D. 2000. EISENBERG.F. Genebra: OMS. 2000. Brasília: Ministério da Saúde. STARFIELD. v. Textos Básicos de Saúde). Saude Publica. p. J.br/dab/docs/ publicacoes/geral/pnpic. n. v. (Org.4.OMS. et al.31. BARROS.. Saude Colet. J. Salvador: UFBA.13. n.D. Is US health really the best in the world? J. p.181-200. Medicina alternativa e complementar: experiência. Medicalização social e medicina alternativa e complementar: pluralização terapêutica do Sistema Único de Saúde.gov. Aprovado em 09/03/2009.T. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Medicina e racionalidades médicas: estudo comparativo da medicina ocidental contemporânea.M. Ministério da Saúde. 2006. 2009 474 . Am.1.469-74.284. Racionalidades médicas e integralidade. B. n. Assoc. N. 2002.saude. corporeidade e transformação. M. TESSER C.328. v. chinesa e ayurvédica.

br/teses/PNFR0611-T. com abordagem qualitativa. and users of a hospital health care establishment (EASH) Humanización en las prácticas de salud: el discurso colectivo de los trabajadores. que recebem e produzem o cuidado em saúde no cenário de investigação. Humanización de la atención.475-6. Os atores sociais deste estudo foram nove trabalhadores da saúde. Universidade Federal de Santa Catarina josiane. Palabras clave: Políticas públicas. gestores y usuarios de un establecimiento asistencial de salud hospitalar (EASH) Neste estudo. Após a seleção inicial. um grupo com os trabalhadores e um grupo com os gestores. sendo identificados os seguintes temas nos grupos: PNH.tede. gestores e usuários. O referencial metodológico do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) foi utilizado para análise dos dados. Josiane de Jesus Martins Tese (Doutorado). assim. localizado em um município da Grande Florianópolis. construído coletivamente por meio dos dados coletados nos três grupos. Technology. que teve como objetivo geral compreender como ocorre a inclusão do outro na atenção em saúde desenvolvida em EASH. 2008 Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Tecnologia. mangers. e construir projeto de intervenção. Instituições de saúde.13. Saúde e Sociedade.31. Utilizou-se o método da Roda e os dispositivos. Instituciones de salud. apontar as possibilidades para que o cuidado em saúde seja humanizado. contemplar realidades diferentes que permeiam o processo de trabalho em saúde em um EASH e. A abordagem metodológica teve como objeto a fala dos trabalhadores. n. Humaniação da assistência. pois problematiza o vivido no seu cotidiano. após sistematização. definir os temas. 2009 475 teses Humanização nas práticas de saúde: o discurso coletivo dos trabalhadores. processo de trabalho e tecnologias relacionais. Área de Concentração: Filosofia. que produzem e recebem cuidados em saúde no hospital./dez. A inclusão dos atores permitiu conhecer as mais variadas situações que permeiam o processo de produção do cuidado em saúde. encaminha-nos a práticas de humanização da atenção à saúde desenvolvida nos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde Hospitalar (EASH). p. out.com Palavras-chave: Políticas públicas. algumas etapas são essenciais. Texto na íntegra disponível em: <http://www. Colocá-los na cena e em cena favorece conhecer a diversidade de opiniões. as diretrizes e ferramentas da PNH como recursos metodológicos. oito gestores e oito usuários.um grupo com os usuários.pdf> COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. do SUS. Nesta investigação foram adotadas as seguintes: construir vínculos e contratos entre trabalhadores da saúde. Humanization of assistance. de acordo com o que preconiza a PNH. gestores e usuários. defendemos a tese de que a inclusão do outro (trabalhador/gestor/usuário) nas práticas de saúde. seguiu-se a elaboração do desenho de intervenção. foram constituídos três grupos com esses atores . os diversos olhares.um estabelecimento assistencial de saúde hospitalar (EASH) Humanization of health care practices: the collective discourse of workers. A coleta de dados foi realizada no período de novembro de 2007 a março de 2008. Health care institutions. Construir coletivamente uma proposta de intervenção baseada nos discursos dos envolvidos possibilita o protagonismo desses sujeitos. Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva. tendo por base os princípios e diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH). gestores e usuários de . O cenário escolhido para operacionalizar esta pesquisa foi um EASH de média complexidade. Keywords: Public policies. Finalizadas essas etapas.ufsc. No modelo Paidéia.jesus@gmail. Tecnología. humanização nas práticas de saúde.

Observou-se que a dinâmica entre os atores configura-se sob uma tensão com compreensões nem sempre congruentes entre os objetivos institucionais e de seus usuários. coordenadores e técnicos dos serviços. demarca-se o desafio de as ações sociais . Estado.teses.br teses/disponiveis/6/6136/tde-10032009-214921/ 476 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. adolescentes e jovens.TESES A tessitura da rede: entre pontos e espaços. Juventude de rua. implementado em Campinas. Lançou-se mão ainda do acompanhamento de alguns adolescentes nas ruas. Sao Paulo State La tesitura de la red entre puntos y espacios. n. Universidade de São Paulo. Ana Paula Serrata Malfitano Tese (Doutorado). As políticas sociais armazenam as possibilidades de consolidar efetivamente inovações sociopolíticas e caminham para a promoção dos direitos dos jovens brasileiros de grupos populares. SP A temática da juventude tem sido construída como categoria sociológica e abre o debate sobre a necessidade da criação de políticas sociais que se direcionem para a promoção de acesso aos direitos de crianças. Políticas y programas sociales de atención a la juventud la situación de calle en Campinas. Propõe-se descrever um dos programas do Plano Municipal para a Infância e Juventude. bem como evidenciados pela execução de ações que se dirigem para a individualização de problemas e pouco progresso na compreensão e enfrentamento coletivos. entendidas como um conjunto de ações articuladas e reconhecidas como “necessidades humanas”.31. Políticas e programas sociais de atenção à juventude . grupos de atividades com os adolescentes nas instituições. Homeless youth. anamalfitano@ufscar. Todavia. Investiga-se a rede de serviços componente do Programa no período de 2001 a 2006. Defesa da criança e do adolescente. Palabras clave: Adolescente.usp. O Plano era composto de dez programas temáticos.br Palavras-chave: Adolescente. Jóvenes sin hogar. e observação participante no equipamento da Saúde. produzem também um nível de cuidado e atenção que se constitui como pontos de apoio para essa população. questionando-se o estabelecimento efetivo de inovações sociopolíticas e a produção de mudanças na vida de seus usuários. Política social. estabelecerem práticas inovadoras e efetivas para a promoção de direitos. Defensa del niño. Aponta-se que as políticas sociais concentram limites nas ações desenvolvidas. Keywords: Adolescent. Estado. Foram utilizadas trajetórias de vida de cinco jovens para a apresentação dos serviços e temáticas que as perpassavam. Public policy. SP The weaving of the network: among points and spaces. As políticas sociais. 2008 Faculdade de Saúde Pública.13. State. durante a gestão 2001-2004. destacando-se aqueles provenientes de grupos populares. Texto na íntegra disponível em: http://www. gerando pouco avanço na produção de direitos para esse grupo populacional. Para tanto. out. p.entre elas as de saúde pública -. Child advocacy. e os meninos e as meninas.475-6. marcados pela estrutura política neoliberal do Estado democrático capitalista. Os procedimentos de investigação foram: entrevistas semidirigidas com gestores das diferentes Secretarias componentes da rede. Policies and social programs on youth caring the street situation in Campinas.a situação de rua em Campinas. SP . sendo analisado o “Criando Rede de Esperança”. 2009 . o qual tinha meninos e meninas em situação de rua como população-alvo. realizam intervenções consoantes ou distantes dos ideários estabelecidos./dez. Políticas públicas.

andar. Em 1952.br COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. em 1956.: os álbuns de formatura nos anos 1960 . SP .254) “que muita gente sabia que os tempos de fato tinham melhorado”. Arnaldo. Nesse contexto. a Faculdade de Medicina da USP dava novos direcionamentos ao campo do ensino e da pesquisa em seu Hospital das Clínicas. No plano social. vindas da Europa e América do Norte. e em Tehuacán (México). um movimento de articulação das abordagens interdisciplinares no campo médico e de saúde. de medicamentos e equipamentos médico-hospitalares. Universidade de São Paulo. num diálogo com campos até então estranhos aos assuntos médicos e sanitários. Pinheiros.André Mota1 Com o final da II Guerra Mundial em 1945. Em suas apreciações sobre o período. a pauta das novas políticas a serem testadas e desenvolvidas (Mota et al. que se ampliava velozmente. Pereira. amota@museu. a expansão da cobertura a uma maior parte da população e a constituição da saúde em mercado de prestação de serviços (Dalmaso. deramse postulações preventivistas como capazes de enfrentar as novas pendências sociais (Donnangelo. cultural e política promoveria na 1 Museu Histórico. a medicina e seu aparato tecnológico – educacional e prático – foram alargando seu espaço de atuação. As demandas sociais entravam em pauta. novas demandas vindas de uma classe média em ascensão fortaleciam ações sociopolíticas para se estenderem os benefícios materiais sobretudo para aqueles que não tinham entrado no desenvolvimento e na modernização (Oliveira.477-8. tais como os estudos antropológicos do processo saúde-doença.. já que. 1953. destinado a iniciar uma ampla reforma curricular dos cursos médicos. assim. privilegiando as teorias preventivistas. cada vez mais. em Gotemburgo (Suécia). 4. um congresso com os principais representantes das escolas médicas norte-americanas.13. fruto do próprio crescimento da cidade de São Paulo.. 2009 477 criação Um médico em transformação. Em São Paulo.fm. 1952.31. n. “uma nova conjuntura econômica. 1989). em Colorado Springs. mesmo sob a ameaça da Guerra Fria. os hospitais se expandiam e a saúde foi integrando. 2003. 455. Entre as inovações paradigmáticas propostas para a medicina e a saúde. 2002). São Paulo. Organizava-se. Faculdade de Medicina. out. Av. Brasil. Somam-se ao incremento desses recursos: a simplificação do acesso aos serviços e especialistas. realizou-se. p. lembra Hobsbawm (1995.. Schraiber. 1955.usp. 2004). como resultado do desenvolvimento das tecnologias médicas empregadas e das demandas sociais. 1998). Dr. A repercussão dessa nova política educacional médica levou a um movimento internacional: em Nancy (França). p. patrocinado pela OMS em Viña del Mar (Chile). Dalmaso mostrou que ocorreria uma expansão da oferta de cuidados médicos e uma crescente produção./dez.

MOTA. Sob a guarda do Museu Histórico “Carlos da Silva Lacaz” da FMUSP . A tradição investia-se de um novo corpo simbólico. HOBSBAWM. v. dos anos 1960. Segundo Kossoy (1993). Acervo. compreendidas como “vetores para a investigação de aspectos relevantes na organização. E.31-44. Fontes visuais. 478 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. M. Dilema preventivista: contribuição para a compreensão e crítica da medicina preventiva. São Paulo: Cia.45. essas séries de imagens iconográficas. Historia. 2006.31. Estruturação e transformação da prática médica: técnica e ciência na segunda metade do século XX.B. bastante divulgada em diversos aspectos. Rev. Bras. portadora de significados não explícitos e de omissões pensadas. PEREIRA. propostas cautelares.M. A. p.C. São Paulo: Ed. história visual. 20063. In: MIRANDA.C. 1914-1991. São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial.S. 1989. 1998.G. U. 2002. p.CRIAÇÃO década de 1960 um reordenamento profundo da sociedade brasileira. W. o “Álbum de Formatura” do corpo discente dos médicos. pode ser reveladora do campo profissional e do momento vivido pela sociedade em que está inserida. Anos JK: imagens da modernidade. Já sobre a produção iconográfica dessas transformações. Universidade de São Paulo. que aguardam pela competente decifração. São Paulo: Faculdade de Medicina/USP . KOSSOY. M. mesmo se apresentando em sua forma fechada e hermética. n. n.23. 1976. São Paulo: Duas Cidades. L. (Org. Referências AROUCA.108).B.6. Eficiência e um certo desprendimento invadiram as posturas./dez. n. 1993. Unesp.Departamento de Medicina Preventiva. SCHRAIBER. deixando as vestes talares de outrora. Saúde e sociedade.W.M. oferecem uma representação até então desconhecida dos “novos médicos”. Brasília: Ministério da Saúde/OPS. DONNANGELO. Tais imagens passaram a receber uma configuração atualizada. B. Tese (Doutorado) . velhos costumes.. L. podemos sempre encontrar uma documentação ainda não publicada e em aberto ao pesquisador. MENEZES. Tempos de JK: a construção do futuro e a preservação do passado. A. em muitos aspectos.F .S. Educação médica e capitalismo. 1998. v. do qual evidentemente a Faculdade de Medicina não seria poupada” (Marinho. p. mesmo que pudessem conservar. Faculdade de Medicina. adaptando-se aos tempos modernos.34). OLIVEIRA. das Letras.13.L. a fotografia é plena de ambiguidades. memória e ideologia fotográficas. cultura visual. ao mesmo tempo em que abre espaço para o conhecimento de seus significados mais intrincados.). 2009 . 2006.J. DALMASO. Nesse sentido. 2003. A era dos extremos: o breve século XX. S. funcionamento e transformação de uma sociedade” (Menezes. o resgate histórico dessas séries pode aprimorar nosso olhar sobre o passado. Contribuições pragmáticas para a organização dos humanos em saúde e para a história da profissão médica no Brasil à obra de Cecília Donnangelo. 1995. dentro de seu campo de atuação. Trajetória da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: aspectos históricos da Casa de Arnaldo. os sorrisos e as atitudes do esculápio.T. et al. L. out. 2003. Estética.477-8. 2004. p. Balanço provisório. São Paulo: Hucitec/Abrasco. Nesse sentido. para a divulgação de um profissional em ação. MARINHO. p. calculadas.12.11-36.

. 3 Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia.30. UFRGS.79.13. o correto é 2. . n. p.Errata Na edição v. onde se lê: 2 Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia. UFRGS.

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