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AINDA O ASSUNTO “SENHOR – ESCRAVO” NO NT

A conclusão do texto “O Sentido de ‘senhor-servo’ no Novo Testamento”, exposto
neste Blog, dias atrás, foi:
“Portanto, por estar o cristianismo em um contexto sócio-político-cultural diferente
daquele dos primeiros discípulos; por se considerar o pressuposto existencial da
maturidade antropopaticamente atribuída à Divindade; e por se levar em consideração
a palavra de Jesus (Jo. 15, 15), expila-se a expressão “senhor – servo” do
relacionamento entre Jesus e seus discípulos”.

Aquele texto partiu do pressuposto de que, segundo o próprio Jesus, a relação entre o
mestre e o seu discípulo era de uma intimidade característica da amizade e não da relação
senhor-escravo. Toda a argumentação voltou-se para o objetivo de que hoje não cabe mais a
linguagem disseminada pelo próprio finado Paulo, no Novo Testamento.
Da leitura que muitos fizeram daquele texto, alguém retornou com uma questão
pertinente, a qual será ventilada neste novo texto.
A questão do leitor referiu-se à passagem de Mc 10, 35-45, sobre como seria o seu
entendimento e se o termo "servo", no texto grego, é o mesmo usado em Jo. 15, 15.
Pois bem!
O texto de Mc 10, 35-45 trata do pedido que os filhos de Zebedeu fizeram a Jesus,
quanto a se sentarem um à direita e outro à esquerda do Mestre.
Do verso 42 ao 45, Jesus expõe que a política do seu reino é diferente da política dos
governantes deste mundo.
No verso 43 Jesus afirma: “ou)x ouÀtwj de/ e)stin e)n u(miÍn: a)ll' oÁj aÄn
qe/lv me/gaj gene/sqai e)n u(miÍn, eÃstai u(mw½n dia/konoj,” (“Não será
assim entre vós; mas quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo”). Neste verso,
servo não é “dou½loj” (dúlos), mas “dia/konoj” (diákonos). O termo diákonos no NT1 tem
o sentido de alguém que serve aos outros voluntariamente. Pode ser entendido como mero
empregado, talvez, mordomo. E pode ou não receber salário. O diákonos na Igreja não recebe
pagamento, mas é como um servidor; não é um servo no sentido de escravo. Com efeito,
Jesus está dizendo que quem quiser ser reconhecido (ser grande), precisa servir
voluntariamente com interesse a favor dos outros. Ou seja, deve sempre estar à disposição dos
outros para favorecê-los.
No verso 44 Jesus continua: “kaiì oÁj aÄn qe/lv e)n u(miÍn eiånai prw½toj,
eÃstai pa/ntwn dou=loj” (“quem quiser entre vós ser primeiro será de todos servo”). O
termo que traduz ‘servo’ neste verso é dou=loj (dúlos), que significa escravo, propriedade
de alguém, reportando-se ao serviço obrigatório e mesmo contra a vontade de quem o exerce.
Embora alguém possa aventar a idéia de que Jesus quis dizer que o dúlos pertence à
comunidade, não há como ratificar radicalmente essa idéia. É possível advogar que, neste
contexto, pode existir uma sinonímia de idéias, sem maiores interesses semânticos quanto aos
dois termos. De qualquer forma, com a possível sinonímia Jesus está enfatizando a idéia de
que aquele que quiser ser visto como importante precisa estar a serviço dos outros. O próprio
Jesus diz que "o( ui¸o\j tou= a)nqrw¯pou ou)k hÅlqen diakonhqh=nai a)lla\
diakonh=sai kaiì dou=nai th\n yuxh\n au)tou= lu/tron a)ntiì pollw½n” (“o
Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, mas dar a sua vida em resgate de
muitos”). O curioso é que, neste verso, "servir" não vem de "dúlos", porém o verbo usado é
"diakonêsai". Ou seja, Jesus não serve a ninguém como "dúlos", porém como "diákonos".
1
THE ANALYTICAL GREEK LEXICON OF THE NEW TESTAMENT. USA. Michigan: Zondervan Publishing House,
1969. Pág. 90
Jesus não é propriedade de ninguém. O contrário seria mais viável afirmar, embora ele mesmo
afirmou que não considera os seus discípulos como escravo - dúlos.
A Vulgata Latina, em Marcos 10, 35-45, usa os termos minister e servus, que estão
para o grego, respectivamente, diákonos e dúlos. A Bíblia na linguagem de hoje, da SBB,
apresenta uma distinção quando traduz diákonos por aquele “que sirva aos outros” e dúlos por
“escravos de todos”. The New Testament in Today’s English Version traz servent e slave. O
que deixa patente a distinção de sentidos. Traduções as mais diversas apresentam também esta
distinção em Marcos 10, 35-45.
Saliente-se que esta análise puramente gramatical não é absoluta para definir doutrina,
mas pode ser um dos pilares para fundamentar o fato de que Deus não tem escravos e, sim, no
máximo, diáconos, como a noiva de Cristo os tem e como o próprio Jesus o foi. Jesus não deu
exemplo de ser dúlos; deu, sim, exemplo de ser diákonos. Um serviço voluntário a favor dos
interesses dos humanos.