A constituição literária do sujeito moderno

Maria Rita Kehl
Introdução Meu interesse por este tema foi despertado quando escrevia minha tese de doutoramento - Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (1). Procurando responder à pergunta - "quem foi a mulher freudiana?", fiz um percurso que começava com a história das mulheres, no Ocidente, a partir do final do século XVIII, até chegar às histéricas que o Dr.Charcot "apresentou" ao jovem Freud no final do XIX. No decorrer da pesquisa, encontrei autores (2) que apontavam o importante papel desempenhado pelas leituras de romances, recentemente popularizados na Europa oitocentista, para a constituição de uma "subjetividade feminina" que eu diria moderna, na qual que as limitações da condição doméstica da mãe de família burguesa aparecem exatamente ao mesmo tempo em que (e em conflito com) os anseios de "mudar a vida", "fazer o próprio destino", etc, igualmente próprios do modo de vida burguês, se difundem - inclusive ou primordialmente através da literatura. O paradigma da mulher gerada nesta relação entre o isolamento doméstico e os anseios despertados pela experiência da leitura de obras de ficção foi - e ainda é - o romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, publicado na Révue de Paris no ano do nascimento de Freud. A análise de Madame Bovary como protótipo da mulher freudiana ocupou todo o segundo capítulo da tese - que não pretendo resumir aqui - e me despertou, posteriormente, para as questões que pretendo desenvolver nesta próxima pesquisa. Abordarei a literatura moderna, que se caracteriza essencialmente por contar histórias de homens e mulheres "comuns", em suas tentativas de construir um sentido para suas vidas e um lugar numa sociedade extremamente móvel, como o espaço onde a voz do semelhante, do "pequeno outro", circula e promove uma rede de interlocuções a partir das dúvidas, das moções de desejo desviantes da norma, e do desajuste dos sujeitos em relação à tradição, ao desejo do Pai, aos lugares que se espera que os sujeitos/leitores/personagens, ocupem na trama simbólica. Esta rede de interlocuções produz também, a meu ver – proposta a que tentarei dar consistência no decorrer desta pesquisa – uma rede de identificações horizontais, que escapam e/ou superam as identificações primordiais com as figuras parentais – estas últimas, identificações que se dão no eixo vertical das relações de parentesco. O eixo horizontal é o eixo das relações fraternas. A literatura moderna é um dos campos de circulação da "letra órfã", na expressão de Jacques Rancière (3) - a palavra que não se produz a partir de um enunciado paterno - que o autor associa, desde os gregos, à democracia: "Pois a democracia não é um modo particular de governo.Ela é, bem mais radicalmente, a forma da comunidade repousando sobre a circulação de algumas palavras sem corpo nem pai..." O romance moderno dá voz à diferença, à divergência e ao desamparo. A experiência da leitura - sempre compartilhada, ainda que em ato seja solitária - autoriza o sujeito/leitor a afirmar, ele também, sua diferença. Foi a experiência que possibilitou às filhas, esposas e mães de família oitocentistas começarem a produzir falas a respeito de sua insatisfação em relação ao projeto de vida que a cultura reservava para elas. Não por acaso, o pleno estabelecimento desta rede das trocas literárias é concomitante ao nascimento da psicanálise. Ambas, afinal, nascem como resposta à mesma necessidade do sujeito fazer-se ouvir (ler...) a partir de uma diferença que precisa do outro para se autorizar como singularidade. Literatura e subjetividade moderna

É possível afirmar que a literatura moderna, mais especificamente o romance realista, tal como o conhecemos há mais de duzentos anos, tenha uma função determinante na constituição dos sujeitos - estes, também, modernos - que são os sujeitos da psicanálise? Caso afirmativo - como opera esta função? Por que vias, entre o imaginário e o simbólico, pode-se dizer que a experiência da leitura de romances e a experiência da invenção de uma narrativa pessoal (que pretendo defender que sejam indissociáveis quem lê um romance concebe a si mesmo, simultâneamente, como personagem de uma narrativa) constituem aspectos fundamentais da subjetividade? E ainda: pode-se afirmar que os sujeitos modernos, tais como os concebe a psicanálise sujeitos do inconsciente - devem, historicamente, sua emergência no Ocidente - no sentido que damos à emergência de modalidades de discurso - ao surgimento e à democratização das formas modernas de narrativa ficcional? Quando me refiro à expansão e à democratização da experiência literária, que teve seu apogeu no século dezenove - literatura, aliás, é um termo que só adquiriu seu sentido atual naquele século (4) - não estou me restringindo à experiência das pessoas que se interessavam por ler livros, exclusivamente. A difusão de formas ficcionais de todos os níveis, do grande romance realista ao folhetim, produz, como efeitos no campo (5), todo um modo de se conceber a relação dos homens com o seu destino (uma relação particularmente carregadade responsabilidade, na modernidade (6) e organiza, grosso modo, a produção de sentidos para a vida, fundamentais em uma sociedade que recentemente deixou de ser regida por crenças em uma ordem divina que predeterminaria o destino e o sentido da vida. A falência, ou no mínimo o esgarçamento do poder simbólico das religiões nas sociedades modernas está diretamente relacionada, a meu ver, com a emergência da literatura como resposta necessária para a constituição dos sujeitos. Uma das respostas possíveis – certamente a mais poderosa - à nossa separação de um estado (ideal) de natureza, sempre foi a produção, pela cultura, de modos de religação entre o homem e o universo, entre os homens e o Pai perdido (Deus), e entre os homens e sua comunidade terrena. As religiões e todas as outras formações simbólicas próprias das sociedades tradicionais, cuja função sempre foi conferir aos sujeitos uma destinação e uma série de práticas, rituais ou não, que lhes garantissem um lugar no desejo do Outro, são atenuantes para o desamparo. Modos de pertinência, de produção de sentidos para a vida, de filiação, de amparo simbólico, enfim. A literatura a que me refiro é precisamente o romance realista, que surge na Europa no final do século XVIII em resposta a uma certa crise nas relações dos indivíduos com a tradição que, até então, amparava suas escolhas de vida e sua visão de mundo. Esta quebra na unicidade do discurso do Outro trouxe a necessidade de uma certa autofundação das escolhas subjetivas que produziu, consequentemente, o apelo a uma rede de interlocuções horizontais, a que chamei fraternas, de onde se pudesse enunciar algum tipo de verdade que desse conta deste desamparo dos sujeitos modernos, desde o final da Renascença. O romance realista surge na esteira destas transformações sociais e subjetivas, como expressão, no campo da arte, das mesmas questões apontadas pelos filósofos empiristas – Hume, Berkeley, Locke – segundo os quais os sujeitos só dispõem de seus sentidos e de sua experiência/reflexão como meios de acesso à verdade. Se a relação solitária – portanto, desamparada – do sujeito com a verdade vem sendo pensada desde Descartes, que pretende respondê-la através da dúvida sistemática, os filósofos empiristas avançam vários passos na direção da dessacralização desta verdade ao propor a prevalência do particular sobre os universais e da experiência sobre a revelação. "Tudo o que existe é particular", escreve Berkeley.

Segundo o crítico inglês Ian Watt (7), tanto o romance realista quanto a filosofia empirista, apesar de suas diferenças, são fruto de um mesmo fenômeno: " a vasta transformação da civilização ocidental, desde o Renascimento, que substituiu a visão unificada do mundo medieval por outra, muito diferente, que nos apresenta essencialmente um conjunto em evolução, mas sem planejamento, de indivíduos particulares vivendo experiências particulares em épocas e lugares particulares"(p.30). A falta de certezas universais e/ou transcedentais exige que se afirme o indivíduo como centro de suas próprias referências. O que coloca a necessidade de uma melhor definição do que seria uma personalidade individual. Isto pode nos parecer estranho hoje, mas o indivíduo como unidade autônoma ainda era uma forma subjetiva embrionária, há pouco mais de dois séculos. Os romancistas, impregnados das revoluções filosóficas mas trabalhando a partir de um outro campo, "resolvem" o problema de fixar as personalidades individuais de seus personagens pelo recurso ao nome próprio (familiar aos psicanalistas, não?). Como todas as formações culturais que se estabilizam e adquirem uma certa naturalidade, a definição de um personagem literário através do recurso banal de um nome próprio – Robinson Crusoe, Julien Sorel, Quincas Borba – pode nos parecer tão óbvia quanto eterna e universal. Mas até que as bases do romance realista se estabelecessem no Ocidente, os nomes dos personagens na tradição literária indicavam tipos, figuras históricas, idéias alegóricas. Serviam, segundo Watt, para "situar os personagens no conjunto de expectativas formadas a partir da literatura passada", e não para indicar a existência de um cidadão qualquer, particular, sujeito de uma história qualquer, digna de ser relatada apenas pelas reflexões e conclusões a que aquela experiência poderia conduzir. Se para Locke, nossa identidade só pode ser fixada pela continuidade da consciência ao longo do período de uma vida (o que implica também a função da memória e da noção de causa-efeito para explicar nossos atos), para o escritor (moderno) E.M. Foster, um romance é o "relato de uma vida através do tempo". Estes relatos fictícios, herdeiros das autobiografias, (fenômeno típico do século XVIII), tiveram certamente uma função importante na organização/elaboração do campo das configurações sociais ainda mal estabelecidas na emergência das sociedades capitalistas do século XIX. Como para nós, psicanalistas, toda psicologia individual é tributária (quando não indissociável) de uma psicologia social (8), não é difícil deduzir, da função organizadora do campo social exercida pelo romance realista, sua função determinante na estruturação "individual" dos sujeitos modernos. Voltarei a este ponto. As obras que podemos considerar consitutivas do sujeito moderno são exatamente os expoentes do romance realista, os mais conhecidos, incorporados ao acervo das experiências coletivas da sociedade ocidental. Os grandes romances de autores como Balzac, Zola, Defoe, Richardson, Stendhal, Flaubert, Emilly e Charlote Brönte, Eça de Queiroz, Jane Austen, George Eliot, Dickens, Machado de Assis, Tolstoi, Dostoievski, e tantos outros, que operaram durante quase dois séculos organizando a experiência subjetiva, "explicando" o funcionamento da sociedade capitalista nascente, produzindo sentidos e revelando a falta de sentido da vida, proporcionando às vezes consolo, às vezes confirmação para o desamparo dos leitores seus contemporâneos. Mas principalmente, pela possibilidade de colocar em ação mecanismos de identificação entre leitores e personagens (o que certamente foi responsável pela mobilização de um imenso público consumidor de literatura, facilitado pela democratização da escolaridade das populações urbanas européias), a leitura dos romances realistas se coloca, a meu ver, entre os principais mecanismos responsáveis pela formação dos padrões subjetivos próprios ao individualismo moderno.

Um autor como Balzac por exemplo, cujos duzentos anos de nascimento se comemoram agora, fez dos intensos processos de transformação pelos quais passou a França da primeira metade do século XIX o objeto de seus romances. Mas o romancista não é um cientista. Ainda que ele imagine que está descrevendo objetivamente o choque entre velhas e novas configurações sociais – lembramo-nos de que Balzac pretendia trabalhar como um cientista daquela sociedade emergente - ele está de fato contribuindo não só para expressar as configurações ainda inominadas como também, ao nomeá-las, está interferindo no campo da intersubjetividade. Theodor Adorno, em "Leitura de Balzac", afirma que este autor escreve... "uma épica que não domina mais seu objeto, por isso busca exagerar, fixar com uma precisão excessiva um mundo que está se tornando ininteligível. A necessidade de estabelecer uma rápida compreensão da vida social, não analítica mas analógica e intuitiva, característica da modernidade, fez de Honoré de Balzac o precursor do romance do século XX. (9) É esta interferência no campo da intersubjetividade que vem me interessando. É ela que me autoriza a propor, não uma perspectivização da literatura pela psicanálise - coisa que tem sido feita, aliás, desde Freud – mas ao contrário, uma determinação literária para o sujeito moderno. Devo relativizar a importância da literatura, talvez, e escrever: uma sobredeterminação literária. No que consiste esta determinação, como ela opera, que efeitos produz – e até que ponto precisamos enxergá-la, para não corrermos o risco de pensar o sujeito da psicanálise como uma categoria universal abstrata ? A estrutura dos romances realistas permite ao leitor duas modalidades de identificação. Do ponto de vista do narrador, que em geral representa uma voz onisciente, capaz de explicar as ações dos personagens e conferir sentido a elas, o romance permite ao leitor manter a ilusão confortadora (na falta de uma ordem divina que faça esta função) de que existe uma certa unidade, uma certa coerência ao longo da vida de cada um, e sobretudo uma certa causalidade lógica para os atos e escolhas que se faz ao longo da existência. Esta voz onisciente, que nos fala desde o lugar (já fragmentado) do Outro, não se enfraquece nem no caso dos romances escritos em primeira pessoa, como Robinson Crusoe de Daniel Defoe por ex., pois o narrador que escreve já é um desdobramento da consciência de si mesmo, como personagem de seu próprio relato, e já "sabe" mais, ao escrever de si, do que aquele que se põe em ação levando o fio da narrativa. Penso no quanto estamos apoiados na ilusão produzida pelo narrador onisciente, capaz de explicar os atos e as motivações de seus personagens. Penso no quanto a prática da leitura de romances não interfere no modo como o neurótico tenta reorganizar mentalmente sua própria vida, e apresentá-la, numa pretensão de coerência, ao analista. Chamou-me a atenção uma frase de Lacan: "Todos acabam sempre se tornando um personagem do romance que é a sua própria vida. Para isto não é necessário fazer uma psicanálise. O que esta realiza é comparável à relação entre o conto e o romance. A contração do tempo, que o conto possibilita, produz efeitos de estilo".. (10). Esta citação abre um outro vasto caminho para se pensar as mudanças estéticas na literatura do século XX, (o surrealismo por exemplo, ou os monólogos interiores como em James Joyce) e as mudanças subjetivas operadas com o advento da psicanálise e a revelação de nosso desamparo face ao inconsciente...mas este já seria um outro projeto, para uma próxima vez. Do ponto de vista dos personagens, cujo estatuto se modifica radicalmente no romance realista – não são mais figuras destacadas da massa, reis, santos ou heróis, e sim pessoas comuns, que só se destacam da massa pelo fato de possuírem uma história de vida digna de ser relatada – a identificação do leitor funciona para simultaneamente, 1º. legitimar a experiência e, 2º autorizar a diferença.

Legitimar a experiência: se o sentido da vida não nos é dado a priori por qualquer discurso religioso ou moral; se o lugar do sujeito na desordem e/ou mobilidade das sociedades capitalistas recém emergentes deve ser construído por cada um ao longo de sua vida, a experiência adquire o valor daquilo que pode conferir saber e densidade psicológica ao indivíduo (o que fica mais evidente nos Bildungsroman, "romances de formação" como o Wilhelm Meister de Goethe por exemplo, ou Jean Cristophe, de Romain Rolland). Autorizar a diferença: o grande poder de produzir a adesão dos leitores está no fato dos personagens do romance realista serem não apenas pessoas "comuns", mas pessoas que por um motivo ou por outro não se ajustam perfeitamente, nem à velha ordem aristocrática decadente nem à nova ordem burguesa. São perdedores, ou marginais, ou idealistas incapazes de realizar seus ideais (Fréderic Moreau, da Educação Sentimental de Flaubert, Julien Sorel de O Vermelho e o Negro de Stendhal) e, sobretudo, mulheres. As mulheres são as grandes protagonistas desta "épica que não domina mais seu objeto" que é o romance realista. As grandes figuras trágicas e também as grandes rebeldes, mobilizando um público leitor predominantemente feminino, que além de consumir as obras tentava interferir ativamente no destino das personagens, escrevendo aos autores (sobretudo quando o romance saía na forma de Folhetim), sugerindo soluções e desfechos, protestando contra o rumo tomado por esta ou aquela personagem, etc. As mulheres representam, no romance, o "polo da verdade subjetiva", em contraposição às conveniências e aparências que regem o jogo social. A correspondência de Balzac com suas leitoras, através de cartas ou nas páginas de jornais, é quase tão volumosa quanto sua Comédia Humana. "O sucesso rápido de Balzac nada deve à imprensa, mas quase tudo às mulheres", escreveu Saint Beuve (11). "Introduziu-se na intimidade do sexo frágil como confidente e consolador, como um confessor, um pouco como médico. Atribuiu-se o direito de falar em meias palavras dos misteriosos detalhes secretos que fascinam até as mais recatadas". Como psicanalista, sabendo que os "misteriosos detalhes secretos" da vida psíquica só adquirem existência quando encontram palavras com que se expressar, volto ao meu argumento inicial, que deu origem a este ensaio e com o qual tento sustentar a idéia de uma "determinação literária do sujeito moderno": ao escrever sobre os anseios, desejos e sofrimentos secretos das mulheres oitocentistas, um escritor como Balzac por exemplo estaria retratando a "verdade subjetiva" preexistente em suas leitoras, ou contribuindo para produzir uma subjetividade feminina, esta com a qual Freud veio a se deparar meio século mais tarde? Neste caso, seria função da psicanálise perspectivar a literatura ou, ao contrário, devemos nós, psicanalistas, nos debruçar sobre a literatura para compreender melhor nosso objeto, o sujeito moderno? A face contemporânea do desamparo Ao articular o advento do romance moderno com o esgarçamento do poder das formações religiosas no Ocidente – particularmente o da Igreja Católica – estou considerando esta literatura como elemento organizador de um campo de referências que se dirige ao sujeito/leitor a partir de um outro lugar, diferente do lugar da referência paterna - os discurso de autoridade filosóficos, morais, religiosos - mas que não escapa a ela. Por enquanto, não encontro designação melhor para este lugar do que o lugar da fratria, de onde as vozes dos semelhantes interpelam os sujeitos em suas diferenças em relação ao desejo do Pai. A literatura cria um campo de experiência compartilhada entre vários leitores/ entre leitor e autor/ entre leitor e narrador/ entre leitor e personagens - de forte penetração imaginária, ao mesmo tempo em que interpela diretamente o indivíduo em seu isolamento, em sua privacidade, no momento de máxima intimidade que é o da leitura silenciosa.

Uma vez que estou insistindo na idéia de ruptura, ou esgarçamento , em um campo que algum dia foi estável e consistente, vale a pena tentar estabelecer alguma referência para que se possa pensar em um antes e um depois, em um "outro tempo" que teria engendrado o nosso - ainda que este tipo de construção se assemelhe bastante a uma narrativa ficcional. Proponho retomar a imagem do sujeito "em seu momento de máxima intimidade que é o da leitura"... para indagar se sempre teria sido assim. Alberto Manguel, em sua História da Leitura (12), dedica um capítulo à reviravolta subjetiva produzida pelo deslocamento das práticas de leitura em voz alta para a da leitura silenciosa, individual. Esta reviravolta coincide, temporalmente, com o período em que as "escritas de si" começam a se afirmar na Europa: a Renascença. Antes disto, raros relatos são encontrados sobre a experiência da leitura íntima, em voz baixa. Manguel lembra, em caráter de exceção, o depoimento de Santo Agostinho – relatado nas Confissões...- que se espanta ao surpreender Santo Ambrósio lendo em sua cela "sem pronunciar as palavras", e a impressão de santidade e sabedoria que aquela "comunicação direta com a verdade divina" lhe causara. A leitura em silêncio é uma prática muito mais livre do que a leitura em voz alta, principalmente em se tratando de textos sagrados, cuja compreensão era tutelada por uma autoridade da Igreja. "A leitura silenciosa permite a comunicação sem testemunhas entre o livro e o leitor", escreve Manguel. Esta mesma "comunicação direta com a verdade divina" foi evocada como condição da verdadeira fé, mais de dez séculos depois (1517) por Martinho Lutero, dando origem à reforma luterana, com seu apelo visto como herético pela Igreja Católica, de que cada homem seria capaz de ler a palavra de Deus por si próprio, sem tutela alguma, e prestar contas de seus atos e de sua fé diretamente junto a Ele . A Reforma Luterana parte da recusa da prática da venda de indulgências e culmina com a afirmação da consciência individual contra a consciência tutelada: cada cristão é responsável por sua própria interpretação dos textos sagrados. É uma das principais manifestações da fragmentação da padrões morais e religiosos que marca o mundo cristão desde a Renascença, ao mesmo tempo em que contribui para o advento do o eu individual como única fortaleza confiável na qual o sujeito pode se instalar. O livro de Luís Cláudio Figueiredo, A invenção do psicológico (13) aborda os modos como a cultura ocidental vem tentando, desde o século XVI - desde o final da Renascença, desde que os cismas da Igreja abalaram o monopólio da ortodoxia católica sobre o pensamento - dar conta da perda das certezas conferidas pela fé cristã. Luís Cláudio abre o primeiro capítulo evocando a expressão de Georg Lukács, que descreve o homem moderno como um ser "expulso do paraíso das civilizações fechadas". No capítulo seguinte, o autor afirma que apesar do exagêro contido na idealização da segurança e da estabilidade do(s) mundo(s) pré-moderno(s) – que expunham mais do que hoje os sujeitos ao medo da morte e do desconhecido (...) - os sujeitos ali não se viam às voltas com o "vazio, a ausência de sentido, a ameaça de aniquilamento e de diluição das identidades. Este mundo não conhecia a angústia na amplitude em que tal experiência acomete o mundo renascentista" (p.52) Não pretendo estabelecer aqui uma oposição absoluta entre as formações simbólicas características das sociedades fechadas e as das sociedades modernas. Os ensaios de Claude Lévi Strauss - "O feiticeiro e sua magia"e "A eficácia simbólica" (14) - ao descrever como o xamã opera algumas curas, manipulando símbolos e inventando narrativas que forneçam ao doente ... "uma linguagem para exprimir estados informuláveis" (p.228), propõem que existem mais semelhanças do que poderiamos supor entre uma sociedade tribal e a nossa, no que concerne à necessidade constante de reconstrução do real através de técnicas ficcionais. Partindo da constatação de que "o informulável é a doença do pensamento", Strauss assim define a cura xamânica: "é

necessário que, por uma colaboração entre a tradição coletiva e a invenção individual (grifo meu), se elabore continuamente uma estrutura, isto é, um sistema de oposições e correlações que integre todos os elementos de uma situação em que feiticeiro, doente e público, representações e processos, encontrem seu lugar" (p.210). Estes textos fundamentais, a partir dos quais Lacan elaborou a idéia do inconsciente com "estruturado como uma linguagem" (15) sugerem uma analogia entre o xamã e o psicanalista (que não pretendo discutir aqui), mas abrem também para a possibilidade de pensar o modo como opera a relação feiticeiro/doente/público como equivalente à que venho propondo, entre autor/obra/leitor. A constatação de que também nas sociedades ditas "fechadas" existe espaço - e demanda! - para o trabalho de criação significante, entre "a tradição coletiva e a invenção individual", não nos autoriza, entretanto, a anular as diferenças entre uma sociedade em que a estrutura simbólica é estável e fornece lugares claros para os sujeitos e a sociedade moderna, onde o Outro está fragmentado em uma infinidade de discursos possíveis, equivalentes e, portanto, relativamente frágeis. Um outro sujeito, mais solitário, mais responsabilizado por seu próprio destino e por suas escolhas morais, e simultaneamente mais emancipado, relativamente mais livre para agir e pensar, estava nascendo com o período das reformas, da revolução Copernicana, dos descobrimentos que revelaram às civilizações cristãs a existência da povos diferentes: cultuadores de outros deuses, outras verdades e outras leis morais. Um sujeito exposto a uma experiência de desamparo desconhecida pelos habitantes das "sociedades fechadas" a que se referia Lukács. Um "homem psicológico", segundo a abordagem de Figueiredo, convocado a dar conta de sua própria experiência subjetiva, produzida no encontro tenso entre "vivências de diversidade e de ruptura" e outras tendências, reparadoras, de "ordenação e costura" do campo simbólico; "como se vê, o indivíduo, ao contrário do que o termo sugere, nasce da dispersão e traz uma cisão interior inscrita em sua natureza" (p.59). Figueiredo lembra que os teólogos protestantes insistem na "liberdade como condição da experiência religiosa genuína" (p.57). Deus, depois da reforma e da contra-reforma, ainda existe – mas já não é UM; já não opera subjetivamente amparando os sujeitos, garantindo-lhes a proteção de uma verdade abslouta, como antes (16). A fratura instala o espaço da dúvida, que por sua vez convoca o sujeito a pensar "por si mesmo" – as aspas são necessárias para lembrar que ninguém pensa sozinho: pensa-se sempre com e para o outro. As reformas da Igreja, para o historiador Carlo Guinzburg (17), aliadas à invenção da imprensa e consequentemente à democratização da palavra escrita, criaram um clima propício para a "audácia do homem que comunica sua versão da verdade". Esta é a versão de Guinzburg para explicar o fenômeno do moleiro italiano Menocchio, simples camponês condenado à morte pela Inquisição porque, a partir das leituras de um punhado de livros que lhe caíram ao acaso nas mãos, não conseguiu mais evitar de formular suas próprias idéias a respeito de Deus, do Espírito Santo e da criação do mundo, e de comunicá-las a seus conterrâneos. O importante na tragédia de Menocchio, na versão de Carlo Guinzburg, é o deslocamento do eixo da verdade transcedental para a "opinião" individual, que arrasta o sujeito do plano da certeza (submissão à autoridade) ao da inquietação (necessidade de criar "idéias próprias" sobre o mundo). Menocchio... "não se vangloriava de ‘revelações’, mas de seu pensamento"(p.89). "Graças à reforma, M. pode pensar em tomar a palavra e expor suas opiniões. Graças à imprensa, tivera palavras à sua disposição para exprimir a obscura, inarticulada visão de mundo que fervilhava nele"(grifos meus). Quando foi convocado a comparecer perante um tribunal da Inquisição, Menocchio teria apreciado a oportunidade de expor "suas" idéias perante homens letrados, e assim afirmar-se como pensador, um homem destacado da multidão. No pósfácio ao livro,

Renato Janine Ribeiro interpreta a paixão de Menocchio como "sede de conhecimento, curiosidade - essa paixão que a Igreja e os Poderes reprimiam, e que os renascentistas valorizavam" (p.218). "Tanto Montaigne quanto Menocchio", escreve Guinzburg, "cada um a seu modo, haviam passado pela experiência perturbadora de relativização das crenças e instituições"(p.201). Esta experiência de desamparo é a mesma que move o sujeito a tentar costurar, "sozinho", seu caminho por entre as frágeis malhas da rede de informações que lhe chegam através dos textos impressos. Ainda não estou me referindo à experiência da literatura, tal como a vivemos hoje, mas a seus primórdios: a circulação de idéias e o espaço para a diversidade que se abrem a partir da difusão da palavra escrita e da individualização das práticas de leitura, no final da Renascença. A literatura moderna e o espaço da fratria Este sujeito que perdeu o amparo das certezas constituídas pelas formações simbólicas das sociedades tradicionais, condenado a viver no isolamento de seu próprio eu, tem nos seus semelhantes, se não um amparo, um espelho. Se não uma garantia de verdade, um interlocutor para a incerteza. É desta rede de interlocuções que provêm as vozes da literatura moderna: da relação com o semelhante, com o pequeno outro e sua condição de desamparo e de dúvida, que escreve para interrogar a falência dos enunciados de verdade. O escritor – seja o escritor dos diários e ensaios, da "escrita de si" que proliferou a partir de Montaigne, seja o escritor de ficção caracteristico do séc.XIX, que se projeta em personagens que são "homens como todo mundo" – é aquele que compartilha com o leitor a descoberta de que a referência paterna é insuficiente para nos constituir no contínuo vir-a-ser da modernidade. Este escritor constitui um leitor que é, pela experiência da leitura, um escritor de si mesmo. Neste sentido, leitor/autor são indissociáveis e absolutamente necessários um ao outro. Ao enunciado de Lacan que citei acima -"escrever o romance de sua própria vida, isto qualquer um é capaz de fazer", referindo-se ao sujeito neurótico, eu acrescentaria: isto, qualquer um sente-se compelido a fazer no mundo contemporâneo - escrever-se, dizer de si ao outro, construir uma narrativa na qual a dispersão e a fragmentação do eu encontrem alguma unidade, e a vida, algum sentido. "A vida não deve ser um romance que nos foi legado, mas sim um romance que fazemos" escreveu o filósofo/poeta Novalis, no século XVIII (18), retomando, numa vertente romântica, a conclusão de Montaigne sobre a função subjetiva dos Ensaios: "Não fiz o meu livro mais do que ele me fez" (19). Antecipando a dúvida cartesiana, Montaigne poderia ter respondido à questão do ser com a afirmação não do pensamento, mas do ato: escrevo, logo existo. Este sujeito, que "faz a si mesmo" a partir da escrita e/ou da leitura, nem por isso está fora da referência paterna. Digamos que a função do pai seja a de organizar o sujeito a partir da Lei, situá-lo numa estrutura e marcá-lo a partir de um desejo que precedeu sua existência. Esta função, necessária, não é suficiente para constituir um destino, nem para ampliar o leque de escolhas de que dispomos para criar destinos para a pulsão. As pequenas identificações que chamarei horizontais são essenciais para apoiar o eu nesta tarefa. A literatura moderna faz parte da rede das identificações horizontais. A condição para o estabelecimento desta rede de interlocuções horizontais entre semelhantes, diferente da relação vertical entre os sujeitos comuns e os enunciados de autoridade, é o que chamei de versão contemporânea do desamparo. A versão tradicional da psicanálise para o desamparo humano funda-se na constatação da prematuração do recém-nascido, condição de nosso desajuste primordial em relação à natureza. Em consequência, nossa precária existência depende desde o início do desejo do Outro, e nossa entrada no reino deste mundo é necessariamente mediada pela linguagem. Já o desamparo contemporâneo, é consequência de uma crise na nossa

relação com a linguagem: já não acreditamos plenamente em nossos próprios enunciados. A leitura de um filósofo de nosso século, Wittgenstein, nos dá a medida do vazio no campo do Outro e da impossibilidade de se estabelecer qualquer certeza sobre o sentido da vida e do mundo, assim como - torcendo ainda mais uma volta neste parafuso - sobre a linguagem com que nomeamos nosso precário saber. Nenhum outro pensador levou tão longe quanto ele a noção, inaugurada com Kant, de que o que podemos saber sobre as coisas é apenas aquilo que propomos a respeito delas, denunciando que o Outro é obra nossa, incapaz de nos dar qualquer garantia sobre a verdade: "Dizemos que não há nenhuma dúvida de que compreendemos esta palavra; mas por outro lado, sua significação reside em seu emprego"- e mais adiante: "a significação de uma palavra é seu uso na linguagem" (20) (p.28). O que legitima as práticas falantes é o fato de serem compartilhadas. Podemos articular o pensamento de Wittgenstein com a idéia das "práticas falantes" de Ferdinand de Saussure, as quais vão efetuando modificações no uso da língua ao longo do tempo. "É do passado que nos vem a língua e suas convenções", escreve Saussure – "mas nenhum sujeito sozinho é capaz de alterá-la". Já as práticas falantes, compartilhadas sincronicamente por um ou mais grupos sociais, são capazes de alterar "não a estrutura da linguagem, mas a língua". Esta distinção é importante para meu pensamento: se a estrutura da linguagem nos vem de um lugar do passado, um lugar de fundação ao qual não temos acesso – o lugar de um Pai simbólico, portanto, que marca nossa condição de dependência em relação à cultura – as práticas falantes, que alteram não a linguagem mas a língua, só ganham vida nas trocas contínuas que se efetuam entre os semelhantes/contemporâneos, atendendo a suas necessidades criativas e expressivas. Este é o lugar de onde se origina a literatura moderna. Evidentemente, todo enunciado se origina deste mesmo lugar; mas os enunciados que se propõem a revelar alguma "verdade"- discursos científicos, religiosos ou filosóficos – rapidamente deslizam para o eixo vertical, da voz do Pai ou da autoridade. Do outro lado, a própria característica da literatura moderna – dar voz ao sujeito comum em seu desamparo, em seu desajuste, em sua incompreensão – impede que ela ocupe este lugar de autoridade, por mais canônico que um texto literário possa se tornar com o passar dos anos. Mencionei alguns parágrafos acima o século XVI como um momento de origem das possibilidades de um sujeito se expressar em nome próprio, e de um lugar excêntrico àqueles de onde falam as autoridades. O nome de Michel de Montaigne nos ocorre imediatamente. Antes dele, gostaria de evocar seu grande amigo Étiènne de La Boètie, cuja morte prematura foi o ponto de partida para a escrita dos Ensaios. No Discurso da Servidão Voluntária, (21) La Boètie escreve sobre a função criativa das relações de amizade, e sobre a importância dos laços de identificação horizontais (fraternos), como capazes de arregimentar os sujeitos contra a submissão voluntária à tirania do UM. "Se a natureza deu a todos o grande presente da voz e da fala para convivermos(...) e fazermos, pela declaração mútua de nossos pensamentos, uma comunhão de nossas vontades, devemos entender que somos livres porque somos todos companheiros". Assim, La Boètie lembra os prazeres da troca e da experiência compartilhada com o amigo, o semelhante, como muito superiores às vantagens que o sujeito poderia obter fazendo-se amparar pelo tirano em troca da submissão/alienação aos seus desejos. A fratria, neste texto clássico, não é apontada como capaz de obturar a falta, mas sim de amparar os sujeitos – além de proporcionar-lhes uma infinidade de prazeres, os prazeres da troca (que só pode se dar entre semelhantes).

O filósofo Claude Lefort, comentando o Discurso..., chama a atenção do leitor para o estilo vivo da escrita de La Boétie, cuja força advém da intensa vontade do autor persuadir o leitor, traze-lo para o seu lado: "ele se inventa e se reinventa ao mesmo tempo em que o pensamento desfaz o nó do saber e da autoridade. E justamente o movimento de invenção da língua e de liberação do pensamento (grifo meu) é tal que, por mais carregada e cansada dos exercícios clássicos que esteja nossa memória, atravessa-a sem perder a força e somos atirados ao presente da questão". Ou seja: o texto de La Boétie, assim como – por razões diversas – o de Montaigne, interpelam vivamente o leitor com a força de uma argumentação que procura convencer sem ocupar um lugar de autoridade. Montaigne, como todos sabem, inicia a escrita de seus Ensaios depois da morte do melhor amigo, numa intenção declarada de manter viva sua memória ao estender indefinidamente um diálogo interior com ele. Através desta interlocução fraterna o escritor, precursor da literatura moderna, tenta tornar consistente a experiência de instabilidade e mutabilidade que caracterizam, a seu ver, sua vida e seu próprio eu: "tarefa espinhosa, a de seguir um rastro tão vagabundo quanto o de nosso espírito (...) e é também um divertimento extraordinário, que nos retira das ocupações comuns do mundo." Se o texto de Michel de Montaigne antecipa a literatura moderna, é porque ele próprio é precursor do sujeito moderno, ocupado em construir um eu, em meio à instabilidade do mundo renascentista, que pudesse funcionar como lugar de verdade do indivíduo. "Descrevo uma vida baixa e sem brilho; tanto faz. É possível achar toda a filosofia moral numa vida popular e privada, tanto quanto numa vida feita da matéria mais rica: cada homem levaem si a forma inteira da condição humana". Este é o trecho, já muito conhecido, que Eric Auerbach escolheu para apresentar aos leitores de seu Mimesis (22) o capítulo sobre Montaigne. Aqui estão sintetizadas as duas premissas principais dos Ensaios: a de que o autor acha bastante razoável escolher-se como próprio tema de suas reflexões; e a de que sua vida "sem brilho", como a de qualquer outro, pode ser o lugar de onde a "condição humana" se enuncia. Utilizei a expressão "se enuncia" em oposição a uma outra, mais cara ao modelo cristão - "se revela". Não pretendo me deter sobre a relação de Montaigne - que nunca desafiou a Igreja - com Deus; mas percebe-se, a partir de sua insistência sobre a relatividade e a mutabilidade de todas as certezas, que o Deus do Renascimento tardio já não cumpre mais sua função asseguradora. Nada é revelado ao sujeito sobre o ser e o destino. "O sujeito que se toma por objeto (de sua escrita) não é como um pescador que pega na ponta da linha significações preestabelecidas", escreve Georges Gusdorf, a respeito de Montaigne(23). "Ao contrário, intervém como um operador que faz o vivido informe tomar forma"(tradução minha). Mais adiante (p.139): "A vida, tal como se oferece a nós, não tem sentido. Vai para todos os lados, escorre ao acaso das circunstâncias contraditórias. É preciso lhe dar um sentido, chamá-la à ordem, graças à magia da imaginação corretiva ou criativa, que submete a ordem das coisas à lei do ser personalizado". Duzentos anos mais tarde, o "ser personalizado" se afirma, em sua aventura solitária, em sua sensibilidade exacerbada, como o centro do ideário romântico do séc.XVIII.. No mesmo século em que Goethe afirma não existir prazer maior do que o cultivo da própria personalidade, Jean-Jacques Rousseau (24) faz de suas Confissões a legitimação deste eu que organiza o mundo a partir de sua imaginação, de sua sensibilidade e de seu pathos singularizado. Mas se o eu se autoriza como sujeito do conhecimento, o estatuto deste conhecimento já se modificou radicalmente desde que Montaigne escreveu seus Ensaios. (In)conclusões

Resta a questão, a partir deste ponto, sobre o modo como opera o que venho chamando de "função fraterna". Para além da rivalidade apontada por Freud, o irmão - ou o semelhante, de modo geral - pode funcionar para o sujeito de diversas maneiras: precipitando a descoberta da diferença sexual e a entrada no Édipo, mobilizando o desejo de saber e a produção das teorias sexuais infantis, servindo como suporte para identificações secundárias e intrododuzindo o sujeito na problemática ligada à imagem própria e ao narcisismo das pequenas diferenças. Além disso, o espaço fraterno é um campo de produção de falas - a exemplo das gírias criadas pelas gangs urbanas - que procuram se legitimar contra a palavra paterna. No entanto, deve-se tentar conceitualizar a diferença entre a gangue que, em sua pretensão de passar ao largo da função paterna, reproduz o arbítrio e a brutalidade do pai da horda, e a fratria, união através da qual os "irmãos" buscam força e legitimação simbólica para coibir os abusos paternos e/ou reformular os aspectos secundários da lei (mantendo entretanto o essencial, i.é, o tabu do incesto) de modo a abrir espaço para novas formas de sociabilidade e novas necessidades expressivas. Do lado da gang, temos a delinquência e a pretensão a fundar uma excessão perversa. Do lado da fratria temos a produção/circulação de novas práticas linguageiras, a abertura de diversos campos para as identificações secundárias além de, evidentemente (o que não pretendo abordar aqui), as várias formas de contestação política e moral. Partindo da questão sobre as modificações nas práticas da língua, será necessário então pensar mais específicamente, como opera a "função fraterna" a partir da experiência da leitura de romances, onde o sujeito se depara com um outro estatuto de seu semelhante, na forma do personagem literário. No entanto, sobretudo nos romances típicos do realismo, é frequente que o leitor acompanhe as vidas dos personagens comuns, seus acertos e desacertos, suas pequenas alegrias e grandes infelicidades, sob o ponto de vista de um narrador onisciente, capaz de entender e fazer o leitor entender o que está se passando a cada passo. Que efeitos pode ter a leitura frequente destes romances sobre o modo como o sujeito passa a organizar a narrativa de sua própria vida? Que estatuto podemos atribuir às identificações imaginárias com personagens literários, e qual a consistência destas identificações? Devemos reportá-las sempre à existência de uma estrutura histérica? São questões que pretendo deixar para discutir com os membros da fratria psicanalítica.

NOTAS
1 Editora Imago, Rio de Janeiro, 1998. 2 Ver por ex. Peter Gay, A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud. Vol 3: O cultivo do ódio São Paulo, Companhia das Letras, 1995 Cap. IV - "O poderoso sexo frágil" 3 Jacques Rancière, Pol[iticas da escrita. Rio de Janeiro; editora 34, 1995. 4 Tzvetan Todorov, Os gêneros do discurso". São Paulo, Martins Fontes, 1980 5 No sentido empregado por Pierre Bourdieu. em As Regras da Arte. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. 6 Ver Hanna Arendt, "O que é liberdade?" em Entre o passado e o futuro. Rio de Janeiro, Perspectiva, 1976. 7 Ian Watt – A Ascenção do Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 8 Ver Freud, em "Psicologia das Massas e Análise do Eu" em: Obras Completas vol.III pp.2563-2610. Biblioteca Nueva, Madri, 1973. 9 T.Adorno, Notas sobre a literatura.

10 Éric Laurent: "Quatro observações sobre a preocupaçào científica de Lacan:, em Lacan, você conhece? São Paulo: Cultura Editores Associados, 1998.. 11 Saint Beuve, Portraits Contemporains (1834), apud Therezinha de Camargo Viana: A Comédia Humana, cultura e feminilidade. Brasilia, Ed. da UNB, 1998. 12 Alberto Manguel., "Leituras Silenciosas" em: Uma história da leitura. São Paulo, Companhia das Letras, 1998. 13 Luís Cláudio Figueireso, A invenção do Psicológico Editora Escuta, São Paulo, 1992. 14 Em Antropologia estrutural Rio de Janeiro, Tempo Universitário, 1975.. 15 Jacques Lacan, em. "A subversão do sujeito e a dialética do desejo"em: Escritos, vol II Buenos Aires, Siglo Veitiuno, 1992 . Ver, ainda em Lévi-Strauss: "O Icc deixa de ser refúgio de particularidades individuais. Reduz-se a um termo da função simbólica, que em todos os homens segue as mesmas leis".(p.233) 16 Lembrar Freud em "O futuro de uma ilusão".Obras Completas vol II, Madri, Biblioteca Nueva, 1976. 17 Carlo Guinzburg, O queijo e os vermes. São Paulo, Companhia das Letras, 1993. 18 Cit. por Luís Costa Lima, Limites da Voz: Montaigne, Schlegel. Rio de Janeiro, Rocco, 1993,p.186 19 Michel de Montaigne, Ensaios (Coleção Os Pensadores) São Paulo, Abril, 1980, tradução de Sérgio . Milliet 20 Ludwig Wittgenstein : Investigações Filosóficas (Coleção Os Pensadores) São Paulo, Abril, 21 Etienne de La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária. São Paulo, Brasiliense, 1982. 22 Eric Auerbach, "L’Humaine Condition" em: Mimesis, São Paulo, Perspectiva, 1976. 23 Georges Gusdorf, "Moi, Michel de Montaigne" em: Les écritures du moi. Paris, Odile Jacob, 1991. 24 Jean-Jacques Rousseau, Les Confessions. Paris; Pléiade, 1964.

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