Poemas Inter-ditos

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Veio de Leste Ajaezado em festa O cavaleiro sem medo Veloz como o vento E certo de ter a força do destino Na ponta dos dedos

Viu as searas amareladas pelo sol O mar de inverno, bravio E ficou no território rico em promessas De um amanhã mais fértil.

Vieram mais cavaleiros de Leste E ficaram nas montanhas Que outrora deram guarida ao primeiro lusitano

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és nevoeiro…” Disse o poeta E perderam-se as palavras No marasmo de muitos Múltiplos de um só “É a hora”.4 Desconcerto bruscamente Em tempo incerto Vazio de espaço Ou tudo ou nada? “Portugal. . acrescentou a voz E num eco de murmúrios Foram-se calando todos. Estamos sós.

de pactos. . de tratados De Constituições. de golpes E de Estados? Onde marcaste as “quinas do teu brazão”? Do fim do mundo. Dos mares sem fundo Apenas o eco O eco apenas.5 Sonhaste o Império todo Duma vez Em mão fechada agarraste Os “tectos negros do fim do mundo”! Esboroaram-se pelos séculos Na história dos Homens Que avança sempre Num compasso desigual O fim do mundo é nosso E não mais chega Sempre a acabar-se A terra gira O mundo todo é o fim Que eternamente se adia Sonhos de Império…onde? Neste xadrez de povos e nações De alianças.

o rio Barcos de carga À luz do estio Mas ouve-se ainda a tua voz.6 Em vão tentei o drama. o canto O poema soou rouco E perdeu-se no azul sem fim No cais da rocha Ao longe. . A epopeia.

. um murmúrio incerto Que decerto não é já a tua voz Copiei as palavras do poema Eram só três E já se perderem como outrora Mais uma vez.7 Copiei as palavras de outrora Que se perderam no passado certo E deixaram perto Um sabor a sal.

.8 Um muro de palavras interditas Entre um eu e outro eu Um muro de pedras Um muro de impossíveis Palavras interditas O mesmo muro que de pedras Nos separa e nos protege. abençoado Muro de impossíveis palavras interditas Entre Este-oeste semeado Um muro com quem se conta Como um ser humano.

e suscitam Um ror de pensamentos no pesado Monte de cascalho Que é este muro de silêncio Fome de palavras que saciam Bocas enormes e caladas Abertas para a noite. [A poesia é a fala dos inexpressivos A fala… ou a tentação?] . e murmuram. emolduradas De nada. Apenas esta ânsia vã de exprimir Tudo o que por palavras se não diz. de espanto. escancaradas E em silêncio desci à terra Nada encontrei.9 Sede de palavras que povoam este silêncio Como as luzes na noite do povoado Cintilam na planura adormecida E gritam.

tua rota. tua foz. de conquistas. a morrer Na sua foz. De heróis.) Sentámo-nos a chorar O povo teu demora Em conhecer-te Nas margens por onde rasgas Teu destino. . de gente-massa De datas sem tempo De estátuas sem voz Sobolos rios que vão da Babilónia… O meu rio Tejo não demora A morrer. Sobolos rios que vão da Babilónia… O povo se adensa E traça a sua história De degredo..10 Sobolos rios que vão da Babilónia… Ó meu rio Tejo (pode-se substituir Tejo por Douro..

o azul do mar? E amaras-te Sem amor A essa amarra Em amarguras surdas.amarras Com que enganas Fome aberta de amar Amarras que amas Sem amor E que te amarram Sem dor. Amarradas? Amarras-te assim Ou amarás Sem amarras A liberdade de voar? Ama as amarras com que amarras o amor desamarrado . Amarras em amor E só reparas Que a nada te amarras Porque a amarra Te amarra e te consome Sem amor Amarás essas amarras? Amarás as amarras Com que amargas Em fel.11 Amarras Amores .

.12 E desamarra-te Das amarras Que de amor Não têm nada.

chorei Sentiste pena de me deixar assim P’ra não te esquecer jamais E p’ra te recordar a rir À noite canto meu canto Sei bem que me estás a ouvir És o Príncipe dos meus sonhos Do meu deserto te vejo vir A pedir poentes impossíveis .13 Memórias de um Principezinho Pediste quantos poentes Nesse dia olhando o céu? Tantos quantas as vezes Teu olhar cruzou o meu E no deserto do Sara Neste deserto que sou eu Tudo ficou em chamas Já não é escuro como breu Depois falaste-me da rosa Do carneiro e dos vulcões E do enorme embondeiro Que lança raízes aos milhões Apareceu então a serpente Para te levar de mim Choraste.

14 E revejo-me na tua rosa. No teu vulcão já extinto. .

Nem sei o nome Ar fresco e leve Cores claras de aguarela Recordações… as que puderem recolher Dos bons momentos. das coisas ditas a tempo. . algumas. Não chamem palhaços nem acrobatas Nem façam estalar no ar chicotes] Prefiro a Tocata em Ré De João Sebastião Bach Alguém ma poderá tocar Num grande órgão de tubos Flores. dos risos. “…A um morto nada se recusa” E eu queria ser apenas Como uma tocata Uma ária Ou uma aguarela. brancas.15 Quando eu morrer… [Não. não batam em latas. Das bagatelas.

No centro bate a dor A compasso certo Um adágio sem rosto “somos apenas bocas” A quem o silêncio aperta E investe na força de um destino humano No segredo fundo Ao grito pertence o dia Em que exprimir-se É permitido. Grito boca voz No centro a dor Ao ritmo do silêncio .16 Rilke Variações “somos apenas bocas” Abertas num cantar redondo Que em pulsações ritmadas Se espraia Por todo o corpo.

.17 Pobre homem que tão só Carrega o destino de um povo No rosto decaído E cansado. És português hoje Feito à medida do fato do presente inadiável Perguntas. talvez Quem foi ontem amanhã Este país este país Entrecortado De História Trágico-Marítima. Sigamos essa rota. A costa rica e generosa Traça-nos o perfil.

.18 Revemo-nos hoje Nos mares de outrora Ó meu “grande país de heróis adiados” A lição de história Começa em ponto Na sombra que o sol traçou na terra Brotaram agrestes os heróis Do grande passado desconstruído Vamos lavrar a terra que pisamos Com o suor do rosto Do rosto que não temos. O lirismo é a nossa sina.

19 Ele há rochas Que são granito. . Ele há rochas Que deixam roxas Quem as acaricia Com afagos de pano turco E nelas sonha com outros mundos Ele há rochas Junto do mar Dinossauros de outrora Espreguiçando-se ao sol de estio Orlados de espuma Ele há rochas Ele há rochas Na costa de Portugal. quartzo Mármore vivo Lambendo-as o mar Com gula de faminto.

.20 Leque refulgente de jóias Esmeraldas. Quem sabe se onde estou Não será amanhã o Éden Ou uma versão pacificada Do Golfo Pérsico de outrora? É nestes jardins exactos Ricos em reminiscências Que se joga o passado no futuro E a vida escoa-se veloz. safiras E uma brisa de nada A roçar no veludo suave Das pétalas de cravos únicos Jardim do Paraíso Entre o Tejo e o Eufrates Ao sul do Cabo Espichel.

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