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CGxmania Das LETRAS f abe eatths apanwnaude, sera ucpwsze artet information Nurs texte que é, rita a tlumz paging, vibrante ¢ afetivo, a: MICHEL FOUCAULT ‘st Bgura do-demolider de certezas , + iv etelt (1926-1984), somamriese tanabén "+ vatagem que deve possuir o bom oe pesquisador do contemporanes. :. conomade amticulista do Now ver :Lé moscras de sobra, na condiggo de 1 snfo-mnilitante eadical rantas vezes cece ético ert telagio & possibilidade . fia, que soube conduzir seu + yaidade eo despojamento que v luacauleenige, ecm a precisio ui cren de que dispie seu offcio, equilibrada dosagem entre oprafado, entre a teajerdcia il. persanagem ¢ 9 pensanento ie cle for construinds, entte a trama jc sua vasta ptoduda € 0 contexto util ortespoadente, napetiode crucial ~ Js aduded0 ede 80 canto na Franga + sdrias paises em que ataou, Beasil fr ndoconvettet Foucault em mito, | vs titos o@ pensamentas em dogma, v-restitud. de moda simples ou = potspectiva mais abrangente ¢ plural recdtios, totalmente avessa, pats, ad racortesde ceo “fouraultismo” wy to em ropa. suplitude ¢ clateza nada presungosas, “exro Uti] e@portuno, que servird, a seu 1,t:nicigntes ¢ especialistas. Os leitores i - sem ditvida, rm razdes adicionais ac neste Michel Foxcault: alm de - vivia, Uppsala, Tiinis, Nova York ¢ ~ua redicalidade cosmopolita o trouxe vts.ag Basil, Em 1975, quando da iieteog e da missa na praca da S€, Vaulo, um dos marcos oa resistencia & Healdiee iniats carbene sah: DIDIER ERIRON MICHEL FOUCAULT 1926-1984 radupdn: HILDEGARD FEIST URLs Dk ETRE Para Olivier Séguret vibon, oiaier. ‘Machel Foucnubt, 18 4. foucantt, wienel, s926-1086 1, Titulo. Ineives para eataloge sistemaiicn: Copyright© by Flammarion, 1989 ‘Titulo original: Michel Foucault (1926-1968) Capa: Moema Cavalcanti Proparagdo de originals: Nair Almeida Salles Revisio: Vera Liicia de Freitas * 1990 Editora Schwarez Lda. Run Tupi, 522 01233 — Sao Paulo -~ SP Fones: (011) 825-5286 ¢ 66-4667 Perdura-me o fulgor. René Char + L 2, 3 4 5 6 YOaneene . Odindiea reforma . . Abrir os corpos ... . As muralhas da burguesia . . Omar a frente SUMARIO PrefhciO cs oovecccee cece tveeeeceeeteeeeeeeeeeeeteeeseestentes "1 A PSICOLOGIA NOS INFERNOS "ht Gdadeondewanct™ cms sare ems meena saRneerd mee memEMEe 8 19 . A voz de Hegel .... 31 Rued'UIm . 39 O carnaval dos loucos 55 O sapateiro de Stalin . 64 . As dissondncias do amor .. 74 . Uppsala, Varsévia, Hamburgo 85 I A ORDEM DAS COISAS . O talento de um poeta lit Olivroe seus duplos . 124 149 159 175, 1, 2, a 4. 5. orn ML “MILITANTE E PROFESSOR NO COLLEGE DE FRANCE. O interlidio de Vincennes . A solidiio do acrobata . A ligho das trevas ... A justiga popular e a meméria operaria Somos todos uns governados A revolta com as mos nuas . ‘Os encontros frustrados . . . O enc aCalifornia A vida como uma obra de arte Notas .. Bibliografia Fontes voce... Agradecimentos .. Indice remissivo . . 261 * SB » 297 » 187 . 197 » 208 » 22 ~ 3 MS + oar » 339 . 341 PREFACIO A morte ndo encerra nenhum mistério. Nao abre nenhuma porta, Eo fim de um ser humano. O que sobrevive é 0 que ele deu aos outros seres humanos, 0 que permanece em sua lembranca. Nobert Elias Pode parecer paradoxal escrever uma biografia de Michel Foucault. Nao recusou ele varias vezes a nogdo de autor, afastando por conseguinte a possibi- lidade de um estudo biografico? Quando comecei a eserever este livro diversas pessoas, amigos, intimos de Foucault me fizeram tal observagiio. Mas, apesar de sua aparente pertinéneia, a meu ver essa objecdo se desfaz por si mesma. Foucault questionou a nogfo de autor? Sim. O que isso significa? Ele mostrou que em nossas sociedades a circulagaio dos discursos devia se submeter as for- mas restritivas das nogdes de autor, obra e comentirio. Entretanto ele mesmo no podia se abstrair da sociedade em que vivia: como todo mundo, estava sujeito a essas “fungdes” que descreveu. Portanto, assinou seus livros, relacio- nou-os uns com os outros através de um conjunto de prefacios, artigos, palestras que se empenhavam em reconstituir a coeréncia ou a dinfmica de sua pes- guisa, de uma etapa a outra; aceitou o jogo do comentario, patticipando de coléquios dedicados a seu trabalho, respondendo a objecdes, criticas, leituras errOneas ou corretas. Em suma, Michel Foucault 6 um autor, criou uma obra sujeita ao comentirio. Ainda hoje, na Franca ou em outros paises, otganizam-se seminarios, encontros, debates; reinem-se os textos publicados em todos os paises para compor volumes completos de “ditos e escritos”; discute-se para saber se convém ou nao publicar este ou aquele trabalho inédito, editar os cursos registrados no Collége de France, ete. Por que sé 0 bidgrafo nao poderia se manifestar? Porque Foucault sempre se recusou a fornecer dados sobre sua vida, como as vezes se alega? Esta errado, Além de ter dado numerosas indi- il cagtes em varias entrevistas, permitiu que se publicasse na [tdlia Collogui con Foucault (Coloquios com Foucault), uma série de didloges que em boa parte se dispdem a reconstituir sew itinerdrio intelectual. E em 1983 ele me propés orgqnizarmos juntos outro livro de conversagdes, mais completo ¢ “claborado”, no fimbito de uma colegao em que pesquisadores lembrariam sua formagtio e a génese de seu trabalho. Sem diivida é outra a verdadeira razio da objegdo antibingrdfica. Consiste ho esefindalo que ainda hoje o homossexualismo provoca, Durante minhas pes- quisas ouvi invariavelmente a mesma pergunta: “Esse livro vai tratar da questao do homossexualismo?". Uns temiam que isso fosse mal compreendido. Outros se surpreendiam ao ver que em 1989 ainda se podia hesitar em falar livremente sobre oassunto. E evidente que este livro estd fadado asuscitar reagdes contradi- 16rias, coloeanda de um lado os que acharao que falei demais sobre a questia, de outro os que lamentarae a falta de detalhes oui de deserigées pitorescas sobre a vida americana, por exemplo. © que posso responder? Tendo mais a assumir a segunda postura, Nao gostaria de chocar os que adotam a primeira atitude. Eu nfo pretendia mascarar os fatos, nem fazer um livro sensacionalista. N3o era facil achar o meio-termo, Eu queria resistir As formas suaves da repressio eda censura, sempre prontas para entrar em agtio, e resistir a elas, ainda mais tvatando-se de um livre sobre Foucault, cuja obra inteira pode ser lida como urreigo contra os poderes da “normalizagio"’. Mas a exibigdo ¢ 0 exibi- uma in cionismo no sie uma forma de reconhecer a forga desses poderes e do voyeu- rismo que compertam? Para contornar esse duplo cbstéculo decidi apresentar os fatos em sua realidade sempre que era preciso relaté-los para eompreender esie ou aquele acontecimenta, este ou aquele aspecto da carreira, da obra, do pensamento, da vida — da morte — de Foucault. E os omiti quando se teferiam apenas ao territério seereto que todo mundo reserva em sua existéncia. Convém, entretanto, eselatecer um ponto: o préprio Foucault se expressou longamente em entrevistas concedidas a revistas de homossexuais, tanto na Franga como em outros paises, Saibam aqueles que se preparam para se indig- nar com minhas “‘revelagdes" que elas muitas vezes sio meras tradugdes e citagoes, Foucault gostava de utilizar esta frase de René Char: “Desenvolvam sua ostranheza legitima”. Que ela sirva de lema para o presente trabalho que the (-dedicado e que se inspirou unicamente na admiragio por um homem e uma obra cuja luz continua iluminando a atividade intelectual na Franga e no ex- terior hi quase trinta anos. Faltava vencer as dificuldades inerentes a investigagao. Primeiro havia os obstéculos que sempre surgem nesse tipo de pesquisa: a meméria as vezes falha das testemunhas € 0 lento aflorar de suas lembrangas ao longo de varios encon tros e discussbes, Para de vez em quando chegar a relatos contraditérios cujos pontas em comum eu precisava achar. Havia ainda o problema dos documentos inencontraveis ou enfiados em arquivos cujo acesso sé era possivel mediante mil autorizagées oficiais ou mil cumplicidades oficiosas. Para reunir todos esses documentos, para falar com todas esas testemunhas tive de viajar: o presente esiudo me levou de Ténis a Poitiers, de Lille a Sao Francisco, de Clermont- Ferrand a Uppsala ou Varsdvia. Também precisei me deslocar num espaco cultural bastante heterogéneo: do historiador de cigneias, professor emérito de Sorbonne, ao diretor do Libération; do diplomata sueco ao escritor de van- guarda; de um ex-secretirio geral de I'Elysée aos lideres esquerdistas da univer- sidade de Vincennes, etc. Depois tive de comparar e confrontar as fontes es- critas com todes os depoimentos colhides junto a parentes, amigos, colegas, alunos, adversazios, Mas, em se tratando de Foucault, havia difieuldades especificas. Ble era uma pessoa complexa ¢ miltipla, “Tinka mascaras e sempre as trocava”, disse Dumézil, que o conhecia melhor que ninguém. Nao procurei revelar “a” ver- dade de Foucault: sob a maseara sempre ha outra mascara, € a meu rer nao existe uma verdade da personalidade que se possa encontrar sob sucessivos farces. Ha varies Foucault? Mit Foucault, como dizia Dumézil? Sim, sem di- vida. Eu os apresentel como me apareceram. Muitas vezes bem diferéntes da- quele com quem conyivi entre 1979 ¢ 1984, Porém me abstive de julgar ou de estabelecer uma ordem de preferéneia. principal obstaculo era mais dissimulado, mais insidioso. Para simples- mente estabelecer os fatos eu precisava antes me livrar das mitologias que cer- cam Foucault e de tal modo aderem a sua figura que as vezes encobrem evidén- cias eontidas em documentos e relatos. Foucault passou para o primeira plano da cena ptiblica em 1966, depois de Les mots er fes choses (As palayras ¢ as coisas), mas sua notoriedade logo coincidiu com sua atividade politica nos anos 70, E com muita freqiiéneia o que se escreveu sobre ele a partir desse momento tem a marca da imagem constituida tardiamente do “fildsofo enga- jado” que parece ter modificado em retrospectiva tudo que Foucault havia sido antes. Que ninguém se engane a respeito de minhas intengdes: se este livro se esforea para restabelecer 0s fatos histérices em contraposigao a lendas sedimen. tadas, no ¢ para tirar da obra de Foucault sua forga inovadora, sua riqueza, sua fecundidade. Ao contrario, € para apresenta-las em todo o seu brilho Houve muitas leituras de trabalho realizado por Foucault ao longo de quarenta anos. Foram publicadas, rejeitadas, desprezadas. Desapareceram, Livrara obra 13 de Foucault de uma versio inica ¢ mutilante no 6 desservi-la, Apresentar sua hist6ria para restituir-Ihe seus multiples poderes é, ao contririo, reforgé-la, Contar a histéria de ums vida 6 uma tarefa praticamente interminavel. Vinte anos se passariam e sempre haveria alguma coisa para se descobrir. Dez volumes seriam eseritos ¢ sempre haveria necessidade de um suplemento. Por ‘exemplo, ndo era possivel apresentar aqui o catélogo de todes os abaixo~ hados que Foucault firmou entre 1970 ¢ 1984, Era inimaginavel relatar cada uma de suas ages militantes. A isso Claude Mauriac dedicou varias centenas de paginas de seu didrio, Le temps immabile (O tempo imével), e ainda assim ele sO estava presente em algumas. Também nao cogitei de recensear todas as onferéncias pronunciadas por Foucault nos campi do mundo inteiro ou de istar as entrevistas que ele coneedeu aos jornais, revistas, ete. Tampouce po- deria mencionar o nome de tados que conheceram Michel Foucault, Sia muito humerosos. E freqientemente se trata de relagdes pessoais sem especial reper- cussiio. A amizade pode ser intensa ¢ nao se prestar ao comentario. E depois Gevidente que para muitas pessoas a relagio com Michel Foucault teve enorme importincia, Entretanto, uma ver que claborava uma biografia de Foucault, eu devia me interessar mais por aqueles que importavam para Michel Foucault do que por aqueles para os quais ele importav: ‘Também selecionei os fates, os textos, os periodos de que fale. Dei mais expagoa um fato que a outro porque me pareceu mais significativo, citei deter- minaclo texto mais que outro porque achei que expressava melhor o pensamento de Foucault na ¢poca em que o esereven ou porgue o acesso 2 ele se tornow dificil ou simplesmente porque nao existia em edigao francesa, Em cada periodo abordade tentei reconstituir a paisagem intelectual ei. que Foucault evoluia. Evidentemente uma filosofia nao nasce com todos os seus conceites ¢ invengdes num espirito solitario entregue ao exercicia do pensa- mento, $6 podemos compreender um projeto intelectual e seu desenvolvimento eM relagdo a um espaco tedrico, institucional e politico... O que Pierre Bour- dieu chamaria de um “campo”. Assim, procurei reunir e fundir num mesmo lito os depoimentos dos filésofos que acompanharam ow eruzaram a carreira de Foucault, que presenciaram a elaboragdo de sua obra, que seguiram sua evo- lugflo: durante horas e muitas vezes em repetidas ocasides entrevistei Georges Canguilhem, Louis Althusser, Gérard Lebrun, Jean-Claude Pariente, Jean: ‘Toussaint Desanti, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Jules Vuillemin, Michel Serres. Outros me confiaram depoimentos, relatos, informagdes ou documen fos esseniciais: Georges Dumézil em primeirissimo lugar, Paul Veyne, eviden: femente, Cliude Lévi-Strauss, Pierre Bourdieu, Paul Rabinow, Robert Castel, Jean-Claude Passeron, Mathieu Lindon, Maurice Pinguet... Nio seria possivel ie 14 contra no'final wencionar todos que me prestaram sua colaboragdo. A lista se deste volume. $0 muito numerosos: pois este livro pretendia, acima de tudo, ser umm histéria coletiva, Nao o retrato de uma época, como costumam dizer os bidgrafos, mas os quadros esbogados de varias épocas, de varios registros culturais: a Ecole Normale Supérieure da rue d'Ulm no pés-guerra, a literatura francesa nos anos 60, a querela do estruturalismo, os meios da extrema es- querda depois de 1968, 0 Collége de France como instituigao particular na vida universitéria francesa, ete. Varias vezes estou presente ou envolvido nas acontecimentos que relate, Sistematicamente evitei falar ma primeira pessoa. Exceto em rarissimas ocasides — duas, creio — em que era dificil me expressar de outra forma, substitui meu depoimento pelo de pessoas que assistiam & cena ou também possviam a informagao. Este livro € uma biografia, Nao se trata, pois, de um estude sobre a obra de Foucault. E no entanto se elabora uma biografia de Foucault justamente porque ele esereveu livros. Procurei apresentar as obras mais impartantes e inseri-las nos perfodos em que surgiram, Fui fiel aos textos ¢ evitei coment4-los, Em contrapartida dei muito espago para a acolhida que teve cada um deles, A acolhida dos livros faz parte de sua histéria, As vezes as sucessivas acolhidas compdem essa histéria, como € 0 caso de Folie et déraison (Loucura e des- rarao). Fazer a historia dessas historias: talvez © projeto estivesse mais perto da mente de Foucault do que pareee. Sobre Binswanger ele esereveu: “As formas ofiginais de pensamento se introduzem a si mesmas: sua historia & @ Gnica forma de exegese que suportam ¢ seu destino, a iniea forma de cr 1s f A PSICOLOGIA NOS INFERNOS i “A CIDADE ONDE NASCI”’ O cenaria € quase tidiculo. E um teatro, situado no rond-point des Champs-Elysées. Numa sala anexa uma pequena multidao se reuniu bem cedo nessa manha de 9 de janeiro de 1988. Mais de wma centena de pessoas, apesar do carater voluntariamente discreto, até quase sigiloso da reunido, para evitar uma afluéncia muito grande. Pesquisadores vindos de todos os eantos do mundo estiio sentades comportadamente © um homenzinho se levanta. Tem 84 anos, mas a vor € firme ¢ seguta, Ele comega a ler sua declaragio: © niimero dos presentes, a diversidade das parti antes, a pertingncia das per- guntas formuladas fazem deste encontro um acontecimento importante na em- preitada coletiva de avaliar e questionar os trabathos de Michel Foucault. Georges Canguilhem mal respira no final da frase ¢ jd continua: Como todas os filésofos que deivam airis de si uma obra interrompida, vitiva de seu autor, Michel Foucault torncu-se objeto suscetive! de exame, de comparagio, até de suspeita. Jé o era em vida. Mas suas réplicas mordazes @ objecdes freqien- temente rotineiras nfo constituiam apenas uma defesa; eram também, na maior parte de tempo, a iluminagdo fulgurante de suas incursies no inconseiente do saber, de suas questbes ¢ de suas respostas,! Quase quatro anos se passaram entre a morte de Foucault, em 25 de junho de 1984, ¢ esse eoléquio, aberto e presidido pelo eminente professor que foi o relator da tese sobre Histoire de ta folie ( Historia da loucura). Quatro anos durante os quais nome de Foucault nao deixou as luzes ga ribalta. ( AiG Quantos comentarios saudaram no outona de 1986 0 livro de Gilles De- leuze, sobriamente intitulado Foucault? que teve uma acolhida incomum, No mesmo Momento em que varias reyistas publicavam edigées especiais’ e, leva- dos por essa atualidade, todos os jornais consagravam paginas e paginas A obra ig de Foucault: Le Monde uma, Libération oito, Nouvel Observareur seis, etc. Numa entrevista coneedida dias antes da publicago do livro Gilles Deleuze declarou sem redeios: “O pensamento de Foucault parece-me uma das maiores filosofias modernas"’ “Um dia o séeulo sera deleuziano’’, eserevera Foucault em 1970, Deleuze procurava modificar a formula para dizer, ao contrario: foucaultiano era 0 sé- culo, foucaultiano contimuaria sendo. © século: quer dizer, nosso mundo, em que © rosto de Foucault parece gravado por muito tempo e se recusa a desapa- recer, como essas figuras tragadas na areia que ele evoca no final de Les mors ot fes choses ¢ que desaparecem quando sobe a maré. Ou quando chega a morte. “Assim 6 a cidade em que nasci: santos decapitados, o livra na mao, culdam para que a justiga seja justa, os castelos sejam fortes .,. Bis 0 bergo dle minha sabedoria’.? Era assim que Michel Foucault gostava de falar de Poi tiers, onde vivera a infneia ea adoleseencia, Uma cidade provineiana voltada para suas igrejas romanicas e seu paldcio de justiga do séeulo XV, eujas estatuas realmente perderam a cabega. Uma cidade que poderia sair de um texto de Balzac. A cidade & bonita, Sufocante, sem diivida, mas bonita. Toda a parte antiga se empoleira sobre um promantério ¢ parece desafiar o tempo. que passa © os transtornos que ele avarreta, - Conjurar o tempo que passa: para isso, talvez, a familia Foucault dé aos meninos o mesmo nome, de pai para filho: Paul, Paul Foucault, 0 av6; Paul Foucault, o pai; Paul Foucault, o filho, Porém madame Foucault mio quer coder totalmente as tradigdes impostas pela familia do marido. Seu filho deve se chamar Paul, Acrescenta, no entaato, um hifen ¢ um segundo nome: Michel. Nos documentos oficiais ¢ nos registros escolares ele se chama Paul, $6, Para © proprio interessado logo seré o contririo: apenas Michel, Para madame Fou- iIt sera sempre Paul-Michel e com esse nome ela evocava a lembranga do filho pouce antes de expirar. Toda a familia ainda hoje fala de “Paul-Michel” Por que ele mudou o nome? “Porque suas iniciais era P.-M F., como Pierre Mendés France", explicava madame Foucault, E a explicagtio que 0 filho lhe dera, Aos amigos ele apresentou as caisas de outro modo: nao queria mais levar nome do pai, ao qual odiava quando era adolescente. Paul Foucault, © nome do pai, Ele é cirurgiio em Poitiers e professor de anatomia na Escola de Medicina, E filho de um cirurgiao de Fontainebleau, Casa-se com Anne Malapert. Filha de um cirurgiao de Poitiers, professor da Escola de Medicina, Vao morar ne casaréo branco, sem nada de especial, mas perto do centro, que o dr. Malapert construi em 1903, A casa se situa ao mesmo 20 oo tempo na rue Arthur-Ranc e no boulevard de Verdun, que desce da cidade alta em diregiio ae vale do Clain, O dr. Paul Foucault e sua esposa tém trés filhos: Francine, a mais velha; Paul, quinze meses depois. Exatamente em 15 de outu- bro de 1926, Anos mais tarde nasee o tereeiro: Denys, Trés criangas que levam a vida dos filhos da boa burguesia provinciana, A familia é rica. Madame Fou- cault tem uma casa a vinte quildmetros da cidade, em Vendeuvre-du-Poitou Uma espléndida construgiio, no meio de um parque, que os habitantes do local chamam de “o eastelo"’. Também possui terras, fazendas ¢ campos. O dr. Fou- cault é um cirurgitio prestigiado, que apera o dia inteiro nas duas clinicas de Poitiers. F um notavel da cidade, Em suma: nao falta dinheiro aos Foucault, Uma baba se ocupa das criangas, uma cozinheira se ocupa da familia, que tem até motorista particular. A édueagao € rigorosa, embora madame Foucault tenha adotado o lema de seu pai, o dr. Malapert: “O importante é governar a si mesmo", Ela evita dirigir ou orientar as leituras dos filhos. Quanto 4 religiao, parece que n&o preocupa a familia, Claro, todo mundo vai & missa de domingo, na igreja Saint-Porchaire, no centro da cidade, Mas madame Foucault de vez em quando falta, e sua me, a avo de Francine, Paul-Michel ¢ Denys, leva as criangas 4 igreja. Durante algum tempo Paul-Michel atua come coroinha. A iradigdo assim exige. Mais tarde, bem mais tarde, Michel Foucault diré numa entrevista que sua familia era anticlerical, Sem clivida os dois aspectos coexis- tiam; respeito As convengdes e alastamento da crenga. Paul-Michel inicia seus estudas & sombra dos jesuitas, puro fruto do acaso, Ou da Histéria, o que muitas vezes vem a ser & mesma coisa. Pois 0 liceu Henri-IV, que inclui pré-escola e primdrio ¢ por conseguinte recebe eriangas muito pequenas, esti instalads na rue Louis-Renard, num edificio antigo que havia pertencido & Congregagio. Liceu piblico: mas contigue a uma capela que mais parece uma abadia, pelo tamanho e pelo aspecto imponente. O filha do dr. Foucault tem menos de quatro anos quando entra pela primeira vez no patio quadrado do estabelecimento. Acima do portal interno séculos de historia con- templam as criangas que passam: um retrato de Henrique IV, “fundador”, outro de Luis XV, “benfeitor™, esto gravados na pedra. Reis em efigie que mesmo assim devem impressionar os alunes menores. Aliés, Paul-Michel ainda nie tem idade legal para freqitentar a escola, Mas nao quer que o separem de sua irma. Madame Foucault falow com a professora, que respondeu gentil- mente: “Pode trazé-lo; vamos coloca-lo no funds da sala e dar-Ihe alguns lipis de cor”. E em 27 de maio de 1930 ele realmente se encontra no fundo da classe com os Lipis de cor. “Mas aproveitou para aprender a ler’, comentava madame Foucault, Até 1932 faz dois anos de “classes infantis". 1936, cursando o primario, Nessa data ingressa no liceu propriamente dito: nas classes do secundario, Deixa Henri-IV no inicio de 1940, Depois de um ano de notas baixas. E vai para o colégio Saint-Stanislas a nessa escola até 2 Até al niio hd problemas, Paul-Michel Foucault ndo ¢ muito brilhante em matemitica, Mas suas notas em francés, histOria, grego e latim eompensam a deficiéneia ¢ lhe permitem abocanhar regularmente o priv excellence. O que acontece na troiviéme* para suas notas eairem tanto? Madame Foucault arrisca uma explicagio: © diretor do liceu sofreu um derrame cerebral e nao péde mais culdar do estabelecimento, na nova situagao criada pela guerra. E verdade que us condigoes mudaram muito, A populagio aumentou com as sucessivas levas de refugiados ¢ as escolas e liceus da cidade devem admitir alunos e profes- sores vindos de Paris. O Henti-IV abriga parte do liceu Janson-de-Sailly, trans- ferido para Poitiers. Assim a tranqiilidade dos estudos locais se encontra seria- inente perturbada. Bem como as hierarquias instituidas: um dia Michel Fou- cault falara a um amigo sobre a confusio em que se encontrou ao se ver suplan- tudo pelos recém-ehegados, ele, que sempre fora um dos primeiros, sendo © primeiro da classe, Um de seus colegas na época dé outra explicagéio: o profes- sor de francés antipatizava com ele. Monsieur Guyot nao gosta muito das crian- gas da burguesia. Radical e voltairiano, esse professor muito “Terceira Repi- blica’” nem procura esconder seu desprezo pelos filhos dos notaveis. Tudo 0 lova a detestar as criangas dos belos bairros parisienses que desembarcam em sua elasse. E seu odio redobrado atinge também alguns representantes dessa raga maldita que ele julga descobrir entre as rebentos de sua boa cidade de Poitiers. Perturbade, desorientado, Paul-Michel Foucault sente o chao da noto- rigdade escolar fugir sob seus pés. Suas notas ressentem-se com isso, Em todas as matérias, menos em versio latina, No fim do ano a decisio do chefe do estabelecimento parece a madame Foucault um veredicto inaceitavel; “Novo exame a realizar-se em outubro", Madame Foucault prefere tomar a iniciativa: matricula o filho num colégio religioso, Saint-Stanislas, na época situada na esquina da rue Jean-Iaurés com a de Il Ancienne-Comédie. Nao € 0 estabeleci- mento teligioso mais prestigiado da cidade. O colégio Saint-Joseph tem uma reputagio muito melhor: dirigido pelos jesuftas, prefere alunos provenientes da alta burguesia eda nebreza proprietiria de terras da regio. O eolégio Saint- Stanislas esti um grau abaixo: ali estudam mais os filhos dos grandes comer- clantes e dos pequenos industriais. E a qualidade do ensino esta longe do nivel do Saint-Joseph, recouhecidamente elevado. Desde 1869 o colégio Saint-Stanis- Jas esta nas mios dos Irmios das Escolas Cristas, também chamados Irmaos ighorantinhos. Paul-Michel Foucault ali ingressa em setembro de 1940, Hi al- gumas semanas os alemaes ecupam a cidade, A zona livre se encontra a vinte quilémetros de Poitiers. Do outre lado ¢a linha de demarcagao ha. praticamente outro mundo: é preciso ter um salvo-condute para 14 entrar. Jovens demais (4 Na deny decreseente; a rrofsiéme &, portan Hnga, 0 ensino prinéirio ¢ secundirio compreende doze séries, numeradas em ar- uma das ditimas, (N.T.) 22 a ay para os trabalhos forgados na Alemankha, os alunos da seconde podem cont nuar seus estudos, Quando muito sto requisitados para o “'servigo rural”: seis semanas de agricultura nas férias de veriio, com a tarefa de eliminar os crise melideos. Um dos professores mais mareantes, que ficard na lembranga dos alunos, é0 estranho professor de historia, © padre De Montsabert, Monge bene- ditino da abadia de Ligugé e cura de Crowtelle, um vilarejo dos arredores. Faz todos os seus trajetos a pé e ne é raro encontra-lo na estrada que liga Poitiers a Ligugé, cajado de peregrine na méo, batina de 14 grossa, larga e ensebada. As pessoas param para Ihe dar carona, apesar de sua repugnante imundicie: “Uma ver the dei carona”, conta madame Foucault, “e o carro ficoy cheio de pulgas”. Esse homem excéntrico também é um erudito, que sempre anda com um alforje cheio de livros a tiracolo, Sua aula é um aeontecimento na vida do colégio, Num livro de memérias publicada em 1981 um de seus ex-alunos declara: Suas aulas cram inesqueciveis, Partindo de um impressionante conkecimenta dos fatos ¢ dos homens, ele fazia julgamentes claros @ precisos, que nao deixavam de serousados. Deixando-se levar pelo assunto ¢ pelo ardor de seu pensamente coma pelo pitoresco de suas imagens, ele inevitavelmente provocava uma explosio de risos que degeneravam numa verdadeira baderna. Sentindo-se derrotado, incapaz de restabelecer a ordem, ele saia da sala, debulhadoem lagrimas como uma criamy ¢&, edeclarava: “Meus pobres meninos, nfo posse mais, nfio posso mais". Entre tanto, mediante a promessa de que havia terminado, nao recomecariamos. ele voltava, retomava a aula no mais perfeite silencio, Deixando-se levar novamente polo assunte ¢ por sua verve, @ tom subja poweo a poves e, por alguma formula extraordindria, ele deseneadeava novo ataque de riso.® Segundo madame Foucault, esse foi o unico professer que marcou um pouco Paul-Michel, que desce a mais tenra idade se interessava por Historia. Tinha ) a Histoire de France (Histéria da Franga), de Jacques Bain- stragdes. Uma personagem o fascinava contou madame lio com pai ville, ¢ ficara impressionado com as particularmente: Carlos Magno. Desde os doze anos de idade, Foucault, ele fazia cursos de histéria,.. para uso des irmaos. Em suma, as aulas do padre De Montsabert Ihe davam muito prazer. Alids, esse aprendizado da historia, enteemeado de historietas e ditos espirituosos, entusiasmaya todos os alunos. A testemunha ja mencionada conelui seu relato com esta apreciagao: “A histéria ensinada de tal maneira nao podia deixar de nes prender a atencao’ Paul-Michel faz, portanto, a seconde, a premiére e a terminale® no col gio da rue Jean-Jaurés, Suas notas sAo mais que satisfatorias. Ele sempre obtém hoa classificagdo na distribuigao des prémios ao final do anc: na seconde, por (@) Curso preparatério para a obtengio do titulo de bacitefier, indispensivel ao ingress na esccla superior. ¢ ay exemplo, recebe a terceiro prémio de redagio, o segundo de histéria da lite- ratura francesa, o segundo de grego, o segundo de inglés, o segundo de versio latina, o primeiro de literatura latina, meng&o honrosa em histéria. Mas em quase todas as matérias supera-o um colega ¢ amigo chamado — é dificil acre- ditar — Pierre Rivitre. © filésofo se divertirA 35 anos depois ao exumar dos arquives onde jazia o fabuloso relato de um “parricida do século XIX" e pu- blicé-lo acompanhado de um comentario na obra que hoje é célebre, Moi, Pierre Riviére, ayant égorgé ma mere, ma soeur et mon frére (Eu, Piette Ri- vidre, tendo assassinado minha m&e, minha irm& e meu irmao)? Quem diria? De qualquer modo, apesar de rivais na classe, os dois meninos so muita fi- jados, Partilham uma grande sede de conhecimentoe de leituras, Abastecem-se com uma figura original da cidade, o abade Aigrain, apelidado de o Pico della Mirandola de Poitiers. Ele é professor na universidade catélica de Angers, cola- bora em varias revistas como ctitico musical ¢ possui uma netavel biblioteca. Recebe estudantes, alunos do liceu, aos quais recomenda e empresta livros, principalmente sobre hist6ria e filosofia. Hoje diz Pierre Riviere Como eu, Foucault freqiientara com muita assiduidade a casa do abade Aigrain, © sust biblioteca era muito importante para nés, porque nes proporeionava Ieituras desvinculadas do programa escolar. Leituras que nao faziam parte do programa e muito atraentes. E talvez o que ofereceré também a Paul-Michel Foucault um amigo da familia, René Beau- champ: um freudiano de primeira hora que fee muito pela introdugao da psica~ nilise na Franga Na premiére, Paul-Michel Poucault obtém resultados excelentes. E em 1942 ingressa na rerminale e se prepara para conhecer a filosofia. Deve lecionar ® matéria uma figura eminente que os professores da faculdade nao hesitam em consultar. Todos os alunos esperam muito do ano que passardo com ele Entretanto o cénego Duret. que pertencia a uma rede da Resisténcia, é preso pela Gestapo na manha em que as aulas recomegam. Nunca mais o verio. Outro professor o substitui, parém cai doente dias depois. Assim, é um monge da abadia de Ligugé que vai exercer a fungao de professor de filosofia, O dr, Foucault conhece bem varios monges da abadia, com os quais servi nas fergas do Oriente durante a Primeira Guerra Mundial, E madame Foucault nao hesita om procura-los para que enviem a Saint-Stanislas alguém eapaz de garantir © ensino de filosofia. O padre superior encarrega dessa missio Dom Pierrot. Paste se limita a comentar o manual, a fim de nao se afastar do programa: deve preparar a turma para 9 beccalauréae* e nig pretende fazer outra coisa. (*) Exame aplieado pele governe francés em estudantes com o curso secundirie complete & que confere aosaprovados o titulo de drckedfer.(N.T. a4 EC ESS ee Mas gosta de conversar com os alunos fora da elasse. Ao terminar sua “substi- tuigto'’, Dom Pierrot ainda recebe a visita do “jovem Foucault", como diz, que vai de bicicleta até Ligugé para visité-lo. Falam de Platao, Descartes, Pas- cal, Bergson. Dom Pierrot se lembra bem desse aluno: Eu classificava em duas categorias os jovens estudantes de filosofia que conheci: agueles para quem a filosofia sempre seria um objeto de curiosidade e que gos- tariam de se orientar para o conhecimento dos grandes sistemas, das grandes io de inquietude pes- soal, de inquietude vital. Os primeiros sao mareadas por Descartes, os segundos por Paseal, Foucault pertencia 4 primeira categoria, Sentia-se nele uma form: davel curiesidade inteleerusl, obras, ete. E aqueles para quem ela seria antes uma que: Como o ensino da filosofia € muito confuso no colégio Saint-Stanislas, madame Foucault pede a um professor da faculdade de letras que Ihe mande um estudante para dar aulas particulares a seu filho. Louis Girard est4 cur- sando o segundo ano de filosofia e um belo dia bate na porta dos Foucault, fa casa de miimero 10 da rue Arthur-Ranc, Ele conta: Eu in 1a trés vezes por semana, A filosofia que aprendia na faculdade era uma espéciv de kantismo bastante vago, arranjado moda do sécuto XIX, & Boutroux, cera esse kantismo que eu Ihe transmitia. Eu lhe ensinava com certa animagao, porque tinha 22 anos, mas no tinha um grande conhecimento de filosotia Que recordagio guardou de seu aluno? Ele era muito exigente. Depois tive alunos que me pareceram mais dotados, porém ineapazes de apreender tao rapidamente o essencial ¢ de organizar seu pensa- mento com esse rigor No fim do ano letiva — o padre Lucien, professor no seminario maior, incum- bira-se do ensino da filosofia, antes de seguir o cfimego Duret em seu destino tragico —, Paul-Michel Foucault recebe o segundo prémio em filosofia. 0 pri- meiro vai para Pierre Riviére, que hoje € membro do Conselho de Estado. Fou- caultabtém o primeire prémio em geografia, histéria, inglés, ciéncias naturais, Nao se deve imaginar que, tendo sido dois de seus professores deportados pelos alemaes, 0 colégio Saint-Stanislas fosse um “bastifie da Resisténcia”. Ali estava pendurado o retrato do marechal Pétain, camo se exigia de todos os estabelecimentos de ensino. Além disso, os alunos deviam se reunir no patio para cantar ““Maréchal, nous voila” (Marechal, aqui estamos) e eram repreen- didos quando nao cantavam com o ardor suficiente. Alguns falam de um “ chismo ambiente” que reinava no colégio, apesar de as vezes algumas redes da Resisténcia o terem utilizada como ponto de encontro, onde se trecavam cartées de identidade ou certificades de desmobilizagao, Varios alunos seriam presos. 25 Um dia Mi om que fer confidéneias autobiografi: chel Foucault falon dessa époea dificil, numa das entrevistas abre seus anos de juventude: O que me espan a quando procure me lembrar de minhas impresses, é que quase todas as minhas lembrangas emocionajs esto Tigadas & situago politica, Lembro- me de que senti um de meus primeiros grandes medos quande o chanceler Dellfus foi pssassinado pelos nazistas em 1934, ereio distante de nés, Mas eu me lembro muito bem de que me tocou muito. Creio que {oi meu primeiro pavor auténtico com relagde A morte, Lembro-me também dos refugiados que chegavam da Espanha. Acho que a infaincia de minha geragio foi moldada por esses grandes acontecimentos historieos, A ameaga da guerra era nosso horizonte, nosso quadro de vida. Depois velo a guerra. Muito miais que a ume coisa que hoje esté muito vida familiar, so os acontecimentos referentes 20 mundo que constituem a subs- tincia de nossa lembranga. Digo “nossa” porque tenho eerteza de que a maioria dos rapazes © mogas naquele momento passavam pela mesma experigncia, Nossa vida privada estava realmente ameagada. Talvez seja essa a raro de meu faseinio peli histéria e pela relagdo entre a experiéneia pessoal ¢ os eventos mos quais nos vemos envolvides, Acho que é o ponto de partida de meu desejo tedrico.” Em junhe de 1943 realizam-se as provas do baccalauréat, que na época compreende duas ctapas. No fim da premiére os alunos fazem as provas de francés, latim e grego, No ano seguinte, as de filosofia, linguas, histéria e geo- grafia, Em junho de 1942 Foucault vence @ primeira etapa com a mengiio “bas- iunte bom’. Passa pela segunda com a mesma menedio. Obtém 8/10 em histé- ria, 7/10 em ciéneias naturais, mas apenas 10/20 em filosofia.* O que fazer apés os estudos secundarios? O dr. Foucault escolhew 0 ca- minho que quer yer o filho trithar: « mesmo que ele pereorre. Paul-Michel deve ser médieo. O problema € que Paul-Michel ndo quer ser médico. Ha muito tempo resolven decepcionar o pai. Apaixonado por historia e Titeratura, horro- se com a idéia de cursar medicina, No dia em que anuncia sua decisto a custo é tempestuesa, O doutor nae esconde sua contrariedade e procura chamé-lo a razio, Madame Foucault, sempre fiel ao lema de seu pai — "gover- nar-se a si mesmo” — intercede junto ao marido: “Por favor, no insista. O menino € esforgado, deve fazer o que deseja””. O dr. Foucault nia insiste por muito tempo. Consola-se quando o segundo filho inicia seus estudos de medi- cina, Hoje ele € cirurgifio na regio parisiense. Entio Paul-Michel pode seguir © caminho que escolheu: preparar-se para 0 coneurso de ingressa & Ecole Nor- male Supérieure da rue 4'Ulm, em Paris, E para tanto fazer 0s cursos prepara- (*) Nesse sistema de avaliagao o primeira nimero indica a neta obtida eo segundo 0 ma- Nimo que Galunio poderia conseguir. (N. 26 trios: Aypokhdgne ¢ khagne. Evidentemente o ideal seria fazé-lo nos grandes licens parisienses, renomados por seus altos indices de aprovag’o no concurso, Mas ¢ época de guerra, e € muito diffell para madame Foucault mandar seu filho de dezessete anos para a capital. Ele se insereve no liceu de Poitiers, a0 qual retorna depois desse interliidio religioso de trés anes que Ihe deixaria uma lamentavel lembranga. Ele detestou a atmosfera que ali reinava, detestou o ensinamento que reeebeu. Detestou a religido e os religiosos. "Falava sobre isso com revolta ¢ antipatia’’, conta um de seus intimes na época. No inicio de 1943 Paul-Michel Foucault reencontra, portanto, o liceu da cidade. Comega o hypokhagne, preparando-se para 0 concurso de ingresso na tue d’Ulm, Nas duas classes em que se misturam khdgne © hypokhdgne hi uns trinta alunes, ¢ durante dois anos Foucault vai seguir com grande interesse as aulas de Gaston Dez, o professor de hist6ria, e de Jean Moreau-Reibel, 0 pro- fessor de filosofia, Moreau-Reibel foi aluno da rue d'Uim, professor no licen de Clermont-Ferrand ¢ ao mesmo tempo lecionou na faeuldade de letras de Strasbourg, transferida para a capital do Auvergne. Seu discurso deixa os alu- nos um tanto desorientados: falta-lhe organizag%io, nao tem um plano definido, parece prolixo e descosido, Lucette Rabaté se lembra de ter ficado desconcer tada nas primeiras aulas, em setembro de 1943, Poueo pouco, no entanto, ‘os alunos comegam a acompanhar melhor o professor @ a compreender melhor seu ensinamento, Esse aspecto desordenade evidentemente nao eseapa ao ins- petor geral que vai assistir as aulas de Moreau-Reibel. Em seu relat6rio de 2de margode 1944 ele se refere ao professor de Foucault em termos bem severc A aula a que assisti faz parte de uma série sobre “a vontady social ¢ os valores”, titulo um pouco obscura ao qual corresponde uma certa confusto no desenvalvi- mento. Monsicur Mereau-Reibel tem a palayra facil e talvez se deixe levar por essa facilidade. A construgdo devia ser mais vigorosa, mais rigida; as idéias diretrizes parecem se perder no desenvolvimento, Insuficiente clareza dos detalhes, Dema- siadas alusdes a teorias insuficientemente caracterizadas. Monsieur Moreau Reibel ganbaria sendo mais severo consigo mesmo e improvisando um pouco menos. De qualquer modo Foucault comega a gostar do jogo, cada vez mais se inte- ressa pela matéria que esse professor um pouco confuso leciona e se pie a ler os autores de que ele fala: Bergson, que monsicur Moreau-Reibel particular mente aprecia, Platio, Descartes, Kant, Spinoza... E como gosta de lecionar dialagando, conta Lucette Rabaté, Moreau-Reibel escolhe para seu interlocutor aquele que Ihe apresenta as melhores réplicas: Paul-Michel Foucault, "Os ou- tros estavam meio perdidos", acrescenta ela. © outro professor muito importante para Fouca it € Gaston Dez, Ele a7 colaborou no manual Mattet-Isauc para as classes de sixiéme, regularmente oscreve artigos para o boletim da Société des Antiquaires de l'Ouest e em 1942 purticlpou dé uma obra coletiva intitulada Visages du Paitow (Rostos do Poi: tou), Seu método de ensino é radicalmente diverso do de seu colega de filosofia: cle dita as qulas. Dita bem devagar. E como nao ha programa, o resultado é que ele aborda apenas uma pequena parte do grande todo sobre o qual os oundidatos poderie ser argiidos. Assim, os alunos recorrem as anotagSes dos ‘nos anteriores, Foucault nao s6 a3 consegue como as copia e empresta aos colegas. Evidentemente o periodo de 1943 a 1945 é dificil e conturbado. No in- yerno 0s problemas de aquecimento tornam a vida muito dura nas classes do liceu, Aiguns internos se arriscam a ir roubar Jenha, & noite, no prédio da milicia contiguo ao liceu. Para os proteger das suspeitas que pesam sobre cles, Lucette Rabaté e Paul-Michel Foucault proeuram o diretor e assinam um papel declarando que forneceram a lenha. O assunto morre ai, “Felizmente ninguém ado a lenha”, diz Lucette Rabaté 0 sei nos perguntou onde haviamos a © que poderiamos responder.” Apesar das condigdes penosas, reina na classe uma certa “alegria estudantil”, Os alunos vio as “matings cldssicas” apresen- tadas mensalmente no teatro da cidade, As pegas séo mal representadas eu os alunos tém vontade de se divertir? As tragédias sempre provocam gargalhadas. “Durante a represemtaciio de Andromaque", lembra-se Lucette Rabaté, "Fou- ault nfo parava de fazer brincadeiras ¢ rir, Uma alegria um pouco ficticia, tulvez, mas de qualquer forma, aereseenta ela, evitévamos falar de assuntes importantes, evitévamos abordar questBes politicas, pois os alunes vinham de meios muito diferentes; ctitre nossos colegas de classe havia, por exemplo, uma menita eujo pai e cujo irmaa haviam sida departados Mortos ¢ outre aluno cujo pai foi fuzilado na Liberag&o, Assim, todo mundo des- confiava um pouee de todo mundo, E depois Foucault era muito solitario: estudava 0 tempo todo © nao se ligava a ninguém. Um dia, pouce antes do concurs, fomos procurar informagdes na faculdade, Ca- minhamos durante quinze minutos ¢ele me disse: “Este ¢ 0 primeiro reereio que me permito este ano”. Um reereio de um guarta de hora! © mais grave, o mais perigoso, o mais assustador sin os bombardeics, que no poupam a cidade de Poitiers. As tropas inglesas miram a estagio e a fer- rovin, Durante os alarmes os alunos correm a se refugiar nos abrigas. Em jutho de 1944 varies bairros proximos A estagao deverao ser evacuados por medida 28 de precaugio. A rue Arthur-Rane fax parte das Greas de risco, Assim, toda a familia Foucault se instala em Vendeuvre, onde passa o verao, Alias nesse ano as aulas acabam cedo no liceu: em 6 de junho de 1944 0 bedel sai gritando pelos corredores: “Eles desembarcaram, eles desembarcaram”, As tropas alia- das acabavam de chegar as praias da Normandia. Os alunos saem das classes numa explosdo de alegria. Evidentemente ninguém pensa em estudar. Alguns dias depois a guerra se acirra em toda a regido e as aulas so suspensas em tedos 08 estabelecimentos de ensino, O ane seguinte é quase to conturbado, De qualquer modo os alunos se preparam para 0 coneurso ¢ catorze candidatos da Académie de Poitiers se apresentam no hotel Fomé, rue de la Chatne nas dependéncias da Faculdade de Direito para fazer os exames, que se estendem de 24 de maio a 5 de junho de 1945. A prova de francés ¢ anulada duas vezes em virtude de diversas itregularidades. A primeira vez porque um professor da Sorbonne teria revelado o assunto a seus alunos alguns dias antes do coneurso. A segunda porque as folhas off nao chegam a todos as locais ao mesmo tempo. Todos os candidatos devem refazer a prova: no total, trés veves seis horas. Os resultados dos exames escritos sio divulgados em 16 de julho. Deis alunos de Poitiers paderao ser admitides. Mas niio Michel Foucault. Ele se classifica em centésimo primeiro Ingar. E apenas cam candidatos podem se apresentar para as provas orais. Paul-Michel nao ingressaré na Ecole Nor- male da rue d’Ulm, Estudou como um condenado, mas nao foi suficiente. Ele esta terrivelmente decepcionado. Porém nao desanimado. Pretende tentar de novo no atlo seguinte, Mas aqui termina sua escolaridade em Poitiers. O ano de 1945 marca uma mudanga muito importante em sua vida: ele se instala em Paris. Poitiers: uma cidade sufocante. E 0 termo que aparece em todos os depoi- mentas sobre essa épeca, Um amigo de Foucault que chegou a Poitiers em 1944 diz © seguinte: “Ache que deve ter sido horrivel passar toda a infancia naquela atmosfera”, “Uma cidade ecanhada, pequena”, dizem outros que queriam fu- gir dali, No outono de 1945 Foucalt deixa Poitiers. Mas nunca romperd total- mente com sua cidade natal. Apenas porque nunea romperé totalmente com sua familia. Jé vimos que cle nao gosta do pai. Alias, parece que o dr, Foucault dedicou bem pouco tempo aos filhos. Trabalhava o dia inteiro e boa parte da noite ¢ sua presenga em casa era bastante rara. Se ha ruptura, é, portanto, com opai. Michel Foucault falara disso um dia, evocando a lembranga de “relagbes conflituosas sobre pontos precisos, mas que representavam um foco de interesse do qual a gente n&o conseguia se desligar”, mesm6 depois de deixar a fami- 2 lin." Em, contrapartida a vida toda ele se manterd ligado & mae, Durante seus anos de estudo vai a Poitiers em todos os feriados escolares ¢ depois continuarh visitando a familia regularmente. Apés a morte do dr. Foucault, em 1959, a fie vai morar no Piroir, em sua casa de Vendcuvre, e ele a visita anualmente © me dedicava seu més de agosto", dizia madame Fou- muitas vezes mais: no Natal ou na primavera passava alguns dias com “mile. Tinka seu quarto no andar iérreo. Uma espécie de pequeno apartamento isolado onde gostava de trabalhar, Em geral ia sozinho, em raras ocasites le- vavi um amiga, Madame Foucault se lembrava de ter recebido Roland Barthes, Fm 1982 Michel Foucault resolve comprar uma casa nos arvedores. Percorre os cmpos de bicicleta com o irmao, parando nas aldeias, visitando todas as Gavas que poderiam estar "4 venda"'. Sua escolha reeai sobre uma bonita cons: (rugio situada em Verrue, a alguns quilémetros de Vendeuvre. E a ex-residén- cla do cura. “A cura de Verrue",* come dizia Foucault, rindo. Esse nome 0 divertia muito. Ele a compra ¢ faz as reformas necessirias. Mas nao tera tempo de habi (*) Verrue também significa "serruga", donde o divertimente de Fouca 1 30 2 A VOZ DE HEGEL Atrs de Pantedo, ao lado da igreja Saint-Etienne-du-Mont, outro liceu Henri-IV, um des mais prestigiados da Franga, reeebe ao longo dos anos a elite dos Ahdgneux. Madame Foucault conheceu um professor da universidade de Poitiers que lhe disse sem rodeios: “Id se viu alguém que saiu de uma escola desta cidade entrar na Normale Sup?”’, A decisio é tomada rapidamente: Paul- Michel tentara mais uma vez, porém usar todes os trunfos possiveis No outono de 1945 ele chega a Paris para procurar esse santudrio que domina o Quartier Latin com toda a altura de sua torte ¢ de seus reiterados sucessos nos concurses de ingresso & rue d’Ulm. O jovem “provinciano” — 6 come o véem seus colegas de classe — veste-se horrivelmente mal e usa umas galochas incriveis: desembarca na Paris do imediato pés-guerra, onde a vida esta longe de ser facil e os problemas materiais — a alimentag&o — so terriveis, Alids, n&o é transbordando de entusiasmo que o jovem Foucault se instala na capital. As condigiies de vida sie muito diffeeis para que sua nova existéncia possa Ihe parecer sedutora, Madame Foucault no conseguiu comprar, nem sequer alugar um apartamento. Depois de se hospedar por alguns dias na casa de Maurice Rat, um amigo da familia origindrio de Vendeuvre e professor de literatura no liceu Janson-de-Sailly, Paul-Michel Foucault se instala num quarto que Ihe aluga a diretora de uma escala no boulevard Raspail. O que the da uma posicao bizarra aos alhas dos outros alunos. Na época, como lembra Le Roy Ladurie, os alunos dos cursos preparatérios em Paris se dividem em duas “eategorias fundamentais": os externos, filhos da burguesia parisiense, que toda noite voltam para sua propria casa, e os internos, vindos da provincia, que nem pensam em alugar um quarto na eidade,! Mas Paul-Michel goza de um privilégio: seus pais 18m recursos e querem evitar que o adolescente frégil e instével sofra o impacto de uta vida em comum que ele declara detestar acima de tudo, Claro, as vezes tem dificuidade para aquecer corretamente os 3L poucos metros quadrados onde vive. Mas pelo menos esti sozinho, O que re- forga essa imagem, presente em todos os depoimentos, de um rapuz arisco, enigmitico, fechado sobre si mesmo. Alids, deve-se dizer que suas atividades parisienses ao longo desse ano sto bem limitadas: quando muite ele vai algumas yeres ao cinema com a irma, que também acaba de se instalar em Paris. Eles adoram os filmes americanos dos quais a guerra os privara, No resto do tempo estuda como louco para passar no concurso. Cingitenta alunes da “KL” do Henri-I¥ se preparam para os exames Cingilenta. Mais que as vagas disponiveis: a rue d’'Ulm admitiré apenas 38 alunos de letras ¢ deve-se considerar também os alunos da “K2", a segunda classe de khdgne do liceu, também numerosa. A disputa ser acirrada, ainda mais que o outro grande liceu parisiense, o vizinho ¢ rival Louis-le-Grand, pre- tende colocar seu tradicional contingente na Ecole Normale. Quantos desses 49 sapazes que se encontram com Michel Foucault diante das portas do esta- belecimento da pequena rue Clovis poderao figurar na lista definitiva dos admi- tidos no préximo verao? Uma pléiade de excelentes professores se empenha em preparé-los eficazmente. Emmanuel Le Roy Laduric, que ingressou no hypokhdgne nesse mesmo ana, descreve o professor de histéria, o mesmo de Foucault: André Alba, que alardeava seu “republicanismo s6lido, burguesa- mente anticlerical", ¢ seduzia os alunos de esquerda e de extrema esquerda, quer dizer, uma vasta maioria. O homem parecia um “ferido de 1914-18; uma cicatriz profunda, impressionante, cortava-Ihe a frente", Na verdade “essa marca resultava de um traumatismo da juventude’.? Quase podiamos “ver seu eGrebro palpitar’’, contam seus ex-alunos. Foucault também tem aulas com monsicur Dieny, o professor de histéria antiga, Através dele os jovens estudantes pela primeira vez ouvem falar de um certo Dumézil, cuja fama comega a se estender além dos circulos de especia- listas, Ha também Jean Boudout, o professor de literatura, que apresenta a suas ovelhas uma considerivel erudigao, evocando tao bem a Idade Média quanto ‘© séeulo XX, de qualquer modo até os poemas de Apollinaire, pois na época ninguém se refere aos autores comtemporaneos. Porém o professor que mareara mais profundamente esse grupo é aquele encarregado de preparar a classe para a prova de filosofia, Chama-se Jean Hyppolite ¢ seu nome reaparece mais de uma vex ao longo do caminko que Michel Foucault acaba de escolher. Jean d’Ormesson, que freqiientow 0 Ticeu dois anos antes, descreve esse homem “redondo atras da mesa", a palayra "'sor~ ridente, farta, sonhadora, timida, dlongando o final das frases com patéticas aspiragdes, reluzindo de elogiiéncia & forga de recusd-la",’ desse mestre presti- pind que sé dedica a explicar Hegel “através de La jeune Perque (A jovem 32 Parca) ¢ Un coup de dés jamais n‘abolira te kasard (Um lance de dados nunca climinaré o acaso).! E D'Ormesson comenta; “Eu nao compreendia nada divida muitos outros também niio compreendiam. Mas Hyppolite fascina os alunos ¢ depois das aulas insipidas que Foucault teve de agientar em Poitiers essa retérica um pouco grandilogiiente, esotérica ¢ inspirada, que jorra dos labios do professor como uma cascata, parece-Ihe fulgurante e genial. A filo- sofia fascina, assim quer a época, Estamos em 1945 e nfo podemos esquecer, come esereve Jean d’Ormesson, que logo apos a guerra, ¢ durante vérios anos. o prestigio da filosofia foi iIncompardvel. Nao sei se é possivel dizer de fora ¢ friamente o que ela representava para nds, O século XIX foi, talvez, oséculo da hist6ria, os meados do século XX surgiam des cados a filosofia... A literatura, a pintura, os estudos histéricos, a politica, o tear tro, o cinema estavar nas Indios da filosofia.® Hyppolite comenta para os alunos a Fenomenologia do espirito de Hegel e a Geometria de Descartes. Mas é 0 curso sobre Hegel que impressiona os estu- dantes e se grava em sua meméria. Foucault nao fica imune a essa atragio, ao contrario: apaixonado por histéria, encontra-se aturdido pela tentagao filo- s6fica. O professor lhe expde justamente uma filosofia que faz © relate da his- téria e conta o paciente caminho da Razio rumo a sua elevagdo. Aborda toda a hist6ria. E. uma hist6ria que teria sentido, Sem divida Jean Hyppolite foi o ini- ciador de Foucault naquilo que se tornaria seu destinc. O préprio Foucault nfio deixou de proclamar sua divida para com esse homem que alguns anos depois reencontraria no quadro.docente da Ecole Normale ¢ a quem sucederia no Collége de France. Quando Jean Hyppolite faleceu, em 1968, Foucault declarou: Os que estavam ne kidine apés & guerra se lembram das aulas de monsieur Hyp polite sobre a Fenomenologia do espiriro: naquela vor que nao parava de se re- comport come sc meditasse no interior de seu proprio movimento néio ooviamas apenas a vor de uth professor: ouviamos algo da voz de Hegel e talvez até da voz da propria filosofia, Nao creio que seja possivel esquecer a forga daquela presenca, hem a proximidade (de Hegel) que ele pacientemente invocava. A vor de Hegel, a voz da filosofia! E facil imaginar esse professor inspirado ¢ brilhante provecando a exaltagao de seus jovens alunos, Nisso, aliés, ele se insereve na grande tradicio do khdgne, cuja enearna 9s © mais célebre € Alain: “despertadores”, como diz Jean-Frangois Sirinelli em seu estudo sobre os “khagnewx @ normaliens no periodo entre as duas guerras”, insistindo a justo titulo sobre o papel muito importante que desempenham esses professores de um tipo muito especifico nessa instituigdio bem francesa que ¢ 0 “curso prepa ratério para as grandes escolas”. Porém a divida que Foucault proclamaré com relago a seu ex-professor 33 ira muito mais longe que a simples gratidao pela descoberta de uma yoougt wo sair da adolescéncia. Ao concluir sua tese, em 1960, Foucault dediew a al- gums pessoas essa obra que hoje conhecemos sob o titulo de Histoire de la folie @ age classique (Historia da loucura na época elassica), Esses inspiradores aos quais agradece sio Georges Dumézil, Georges Canguilhem ¢ Jean Hyppo- ite," Em sua aula inaugural no Collége de France, dez anos apds a redagio desse livro, Foucault presta nova homenagem, ainda mais fundamentada, a seu professor no khdgne. Alguns quiseram ver nessas palavras que encerravam um. discurso oficial apenas o mero respeito as convengdes académicas: Foucault sucedia a Hyppolite, ¢ reza a tradigao que © novo titular elogie sew predecessor, falecide ou aposentado. Mas Foucault dedica a Hyppolite todo o final dessa. aula, embora pudesse se limitar a promunciar algumas palavras, algumas fra- ses. E mais, declara colocar “sob seu signo” o trabalho que realizar Em 1975, sete anos aps a morte de Hyppolite, enviara & vidva um exemplar de Surveiller et punir (Vigiar e punir) com a seguinte dedicatéria: "A madame Hyppolite, como lembranga daquele a quem devo tudo”, Hoje podemos nos surpreender com a importane Atribuiu a seu ex-professor, que alias Ihe deu aulas por bem pouco tempo, pois lecionou no Henri-IV somente nos primeiros meses desse ano letivo de 1945-46, Claro, Hyppolite é contemporineo e amigo de Sartre e Merleau-Ponty: nasceu om 1902, Sartre em 1905 e Merleau-Pomty em 1908, Foram colegas na Ecole Normale Supérieure da rue d'Ulm, onde Sartre ingressou em 1924 (com Aron, Nizan, Canguilhem...), Hyppolite em 1925 ¢ Merleau-Ponty em 1926. Mas nao podemos comparar a estatura desses trés homens: Hyppolite nao € um “fil6- sofo” como Sartre ou Merleau-Ponty, quer dizer, no campo das idéias nao foi um eriader, um produtor, Entretanto, examinando-o com maior atengao, de- vemos admitir que sua influéneia foi muito mais importante do que parece. Simplesmente porque Hyppolite resolveu traduzit essa Fenomenologia do espi- rito, que ensina a seus alunos numa época em que o nome de Hegel era bem Pouce promunciade nes cursos de filosofia da Franga; e que se transformou no comentarista ¢ porta-vor do pensador de Heidelberg, ou melhor, de lena, pois interessavam-lhe sobretudo as obras da juventude do filésofo alemao. Sua tra- dugilo da Fenomenologia, publicada pela Aubier em deis volumes em 1939 ¢ 1941, permitia a um puiblico que até entae a ignorava conhecer uma obra que se tornaria uma das referéncias centrais das pesquisas filosOficas na Franca. E sua tose intitulada Géneése et structure de la ““Phénomenologie de Uesprit” (Génese © estrutura da “Fenomenologia do espirito"), defendida e publicada em 1947, eonstitui um evento, Ao resenha-la em Les Temps Modernes, em 1948, Roland ‘iste em sua importéue: que Foucault sempre Caillois i Nao faitam pensadores convencidos de que o hegelianismo é a grande questo: a ilosofia. P a propris filosofia que esti em questio questo da vida ou da morte da M4 IE eererer———“‘#ETC) ne n ui Por isto a tese de Jean Hyppolite merece nossa atengiio. Nilo se trata apenas de um. trabatho de historiador escrupuleso,,. Trata-se também de um problema crucial: « empreitada filosdfica ¢ legitima? Realmente, ao final da guerra nto faltavam pensadores"', como diz. Caillois, para crigir uma estitua a Hegel. Pois o lugar do hegelianismo na Franga mudou inteiramente no decorrer de uma década, Eis o que afirma Vincent Descombes: Em 1930 Hegel era um fildsofo romantica, refutade havia muito tempo pelo pro- gresso cientifico{era a opinido de Brunschwicg). Em 1945 Hegel se tomou o Apice da filosofia classiea ¢ a origem do que se fee de mais moderno,!! Evidentemente Hyppolite nao foi o tinico responsavel por essa reviravolta. Desde 1929 Jean Wahl chamara a atengao sobre 0 filésofo alemio ao publicar um livro sobre La conscience rmathewreuse dans la philosophie de Hegel (A consciéncia infeliz na {iluspfia de Hegel), em que apresentava um “Hegel mistico”, segundo a expresso de Roland Caillois. E em 1938 Henri Lefebvre editou os Cadernos de Lénin sobre a dialética de Hegel, Outras tantas etapas dessa lenta “rumi- nagAo”, conjo disse Elisabeth Roudinesco, que compara a introdugie do hege- lianismo na Franga & da psicandlise, com sua sucessio de avangos € recuios.!? Alias os dois movimentos se cruzam num instante fundamental de suas respee- tivas trajetérias, quando se inicia o semindrio de Alexandre Kojéve na Ecole Pratique des Hautes Btudes. J4 foram muito citados os nomes gue se tornariam prestigiados entre aqueles que compdem seu auditério de 1933 a 1939: Alexan- dre Koyré, Georges Bataille, Pierre Klossowski, Jacques Lacan, Raytnond Aron, Maurice Merleau-Ponty, Eric Weil e, com menor assiduidade, André Breton. Em 1947, ana em que Hyppolite defende sua tese, Raymond Queneau, que também fazia parte desse seleto piblico, edita as notas que tomara ouvindo Kojéve e as intitula Introduction d la leeture de Hegel (Introdugio & leitura de Hegel). O movimento cm torno de hegelianismo ¢ to intenso que Georges Can- guilhem pode eserever em 1948; ‘Na época da revelugao mundial, da guerra mi tido prapria, uma filosofia contemporinea da Revolug2o Francesa e que em gran- de parte constitu sua tomada de consciéneia, ial, a Franga descobre, no sen- Jean Hyppolite é, portanto, uma das figuras de proa desse triunfo do hegelia- mo na Franga durante os anos que sucedem a guerra. Um triunfo reforgado pela voga do existencialismo, do qual Hyppolite se diz muita préximo. Ble o lembrara notadamente em dezembro de 1955 por ocasiao de uma conferén na Maison de France em Uppsala, cujo diretor seré entio Michel Foucault, Tema da conferéneia: “Hegel ¢ Kierkegaard no pensamento francés contem: pordneo".'° Pois esse é 0 ponto crucial da explosio hegeliana: j4 no se 1¢ Hegel 35 como o "professor dos professores"’, o Mfazedor de sistemas", mas como o autor de uma obra que se confronta com a de seus pésteros; Feuerbach, Kierkegaard, Marx, Nietwsche.., Em suma, lé-se Hegel como o instaurador da modernidade filos6fiea, Expressa-o bem Merleau-Ponty, que esereveu comentando justa- monte uma conferéneia de Jean Hyppolite sobre o existencialismo em Hegel Hegel esti na origem de tdo que se fez de grande ha um sécuto — por exemplo, do marxismo, de Nietzsche, da fenomenologia alema, da psicandlise; ele inaugura ‘4 tentativa de explorar o irracional ¢ integra-lo a uma razio ampliada que con- tinua sendoa tarefa de século.* F continua: “Acontece que os sucessores de Hegel insistiram menos no que the deyiam do que no que recusavam de sua heranga”; Merleau-Ponty conclui que ilo existe trabalho mais urgente que “‘relacionar & sua origem hegeliana as doutrinas ingratas que procuram esquecé-la”".” Para compreender ainda melhor a importancia fundamental dessa “des. woberta” de Hegel é precisa, pois, relucion’la com um dos ramos de sua des- cendéncia que mais atraem as atengOes da época: trata-se, evidentemente, do marxismo, O proprio Jean Hyppolite proclamou esse duplo processo por ocasiao tle outra conferéncia, também promunciada na Maison de France de Uppsala ‘em dezembro de 1955: Chegamtos tardiamente um hegelianisme que havis invadido toda a Europa, com excepie da Franga. Mas chegamos a ele através da Fenomenolngia do espirito, a obra de juventuse menos conhecida, e pela relagin possivel de Marx e Hegel. Houve muitos socialistas ¢ filésofos na Franga, mas Hegel e Marx da nfo tie nham entrado na filosofia francesa. Hoje € um fato consumada, A discussaio sobre o marxismo e o hegeliqnismo esti na ordem do dia."* Essa transformagao radical ne campo filoséfico teré numerosas conseqiiéncias: © marxisme conquista seu direite de cidadania antes de se tornar, de moda fulgurante, o “horizonte intransponivel de nossa épeca”, como dird Sartre na Critique de la raison dialectique (Critica da raze dialética), e em todo caso 0 horizonte de bom nWmero de intelectuais nos tes decénios posteriores a Se- gunda Guerra Mundial. Hyppolite encarnava, pois, a abertura para tude que fascinaria a geragiia de Foucault; Marx, mas também Niewzsche, Freud... E no fund Michel Fou- cault nao esté to longe de Merleau-Ponty ao deelarar, em 1970, em sua aula inaugural no Collége de France, evocanda a meméria desse professor: ‘Toda a nossa época, seja pela ldgica, seja pela epistemologia, seja por Marx, seja por NieteSche, procura escapar de Hegel... Mas escapar de Hegel pressupde apre 36 ciarexatamente o que custa se afastar dele; pressupde saber até onde Hegel, talvez, de mode insidioso, se aproximou de nés; pressupde saber o que ¢ hegeliano mesmo faquilo que nos permite pensar contra Hegel; ¢ avaliar em que nosso recurso contra ele ainda é, talvez, um artificio que ele coloce para nds ¢ no fim do qual nos espera, imével e alhures. Ora, se mais de um entre ns tem uma divida com Jean Hyppolite é porque cle infatigavelmente percorren por més ¢ antes de nds esse caminho pelo qual nes afastamos de Hegel, tomamos distdineia e nos encontramos outra vez com ele, mas de outra forma, ¢ movamente nos vemos forgados a dein Mais de vinte anos se passaram entre o momento em que Merleau-Ponty de- signa como tarefa da filosofia relacionar os pensamentos ingratos a sua fonte hegeliana e esse ana de 1970 em que Foucault evoca o trabalho que efetivamente Hyppolite empreendeu sob os olhos de uma geragio de aprendizes de filésofo para cuja formagdo muito contribuin. Numa homenagem pronunciada pouco apés a morte de Hyppolite, em outubro de 1968, por ocasiéo de uma ceriménia organizada na rue d’Ulm por Louis Althusser e publicada em 1969 na Revue de métaphiysique et de morale, Michel Foucault ainda diz: Todos 0s problemas que sfo nossos, de seus alunos de ontem, todos esses pra- blemas foi ele que os estabeleceu, ele os escandin (...), ele que os formulou na Logique et existence (Logica ¢ existéncia), um dos grandes livros de nossa época, Mal terminau a guerra, ele nos ensinava a pensar as relagdes da violncia ¢ do dis- curso; ensinava-nes ontem a pensar as relagbes da lagica © da existéneia; faz um instante nos propés pensar as relagdes entre 0 conteado do saber ¢ a necessidade formal — finalmente nos ensinow que o pensamento ¢ uma prética incessante, um modo de colocar em prética a nito-filosofia, porém permanecende sempre o mais perto dela, no pomto em que s¢ concentra a existéncia® Michel Foucault esereve outro texto de homenagem a Hyppolite, para um vo- lume coletive que ditige ¢ do qual participam Martial Gueroult, Michel Serres, Georges Canguilhem, Jean Laplanehe, Suzanne Bachelard, Jean-Claude Pa- riente...2! Sua contribuigao, que se tornara célebre, versa sobre Nietzsche, la , a historia) — © que nao sur- généalogie, Vhistoire (Nietesche. a. genealo; preende ninguém, Essa “vox de Hegel” que ressoa de repente nos ouvidos dos cingienta ra- pares do liceu Henri-I¥ no outono de 1945 produz sobre eles o efeito de um verdadeiro impacto intelectual — deverfamos dizer existencial, Mas ""Hippal “9 mestre Hippal”, como Foucault o chamara posteriormente, € convocado pe faculdade de letras de Strasbourg, onde Georges Canguilhem leciona. Os alunos 6 ouviram apenas dois meses, ¢ cle os deixa, abandona-os a seu desiumbra- a2 mento, Foucault tera de esperar alguns anos para reencontrd-lo, na Sorbonne ena Beole Normale. Hyppolite 6 substituide por um professor bem pouco bri- Ihante, ainda por cima consciente de estar sendo comparado a um homem de brilho que {ransmitiu a classe o grande {rémito da epopéia filosétiea, Qs cin: qiienta alunos passam da admiragio & zombaria e cagoam desse "gnome", “feio como um piolho", segundo vérias tesiemunhas, e que no sabe tirar de suas anotagdes outra coisa além de longas horas de tédio, Ele gosta de citar Houtroux ¢ Lachelier, Esta bem longe da modernidade filoséfica prestes a ser reinyentada, E os alunos vivem em constante algazarra, Um dia monsier Drey- fus-Lefoyer literalmente desmorona: “Sei que nia sou como Hyppolite", ex- nas fago tude lama, a voz embargada pela emogao e pela raiva impotente, * que posso para que vocds passem no exame”, Foucault adere ao jogo filos6fico e a ele se dedica com paixtio. Suas notas dio um salto & frente: no fim do primeiro trimestre conseguira 9,5 em redagao, colocando-se no vigésimo segundo lugar da classe (porém com este comentario: “Vale muito mais que a nota — deverd se libertar de uma tendéncia ao herme- tismo — é um espirito rigoroso; notas de dissertagao: 14 ¢ 14,5"). No fim do segundo trimestre ainda est no vigésimo segundo lugar, com a mesma nota no exame simulado; mas no fim do ano letivo esta no primeiro lugar, com nota 15/20, E com esta apreciagio elogiosa de seu professor: " Aluno de elite”. "De elite” em filosofia, mas também em histaria: é 0 sétimo da classe no primeira trimestre, com um 13 que Ihe vale esta apreciacaio: “Bom trabalho. Resultados muito encorajadores", ¢ no fim do ano passa para o primeiro lugar. com 16 ¢ este comentario: “Excelentes resultados". Todos os professores con cordam quanto ao caso Foucault. "E um espfrito ative’, esereve no boletim es- colar monsieur Boudout, o professor de francés, “‘revela gosto literério”. Em latim Foucault passa da trigésima primeira posigao, “resultados passaveis”, & décima, “aluno excelente". Em grege é 0 quarta. Tanto que o diretor, para re+ sumir essa série de apreciagées anotadas no boletim, pede pronunciar este jul- gamento final: “Merece sucesso’’ 38 3 RUE D'ULM Desta vez o obstacule é transpesto sem problema; as provas escritas nao passam de formalidade. Paul-Michel Foucault pode ser admitido. Assim, num belo dia de julho de 1946, apresenta-se diante de dois examinadores que o sub- metem a prova oral de filosofia na sala des Atos, primeiro andar da rue @’Ulm: Pierre-Maxime Schuhl, professor da faculdade de letras de Toulouse, ¢ Georges Canguilhem, figura eminente da filosofia universitaria francesa, que lecioné historia das ciéncias na faculdade de letras de Strasbourg. E a primeira vez que Foucault se encontra diante desse homenzinho cujas maneiras bruscas contras- tam estranhamente com um sotaque meridional que levaria a esperar um ca- rater afavel e caloroso. A primeira vez, mas longe de sera Ultima. Peis nesse dia Michel Foucault tem encontro marcado 14a s6 com @ rue d’Ulr e as promessas que a venerdvel instituig’o parece oferecer aos que ela recebe, como de algum modo também com seu futuro: conhece uma das pessoas chamadas a desempe- thar um papel-chave em seu trajeto e em sua histéria. Foucault yoltara a en- contrat Canguilhem anos depois, na prova oral da agrégation.* Alids guardara péssima lembranga desses dois primeiros contatos, Voltara a encontrar Cangui- them prineipalmente ao precisar escolher um orientador para sua tese sobre a Histoire de Ja folie. Esse encontro seré o ponto de partida de uma profunda amizade e de uma profunda estima entre os dois homens, Mas ainda n3o che- gamos 14, No momento, nesse ano de 1946, Canguilhem ¢ para Foucault apenas uma das duas pessoas de que depende o resultado do exame, um professor de aparéncia impressionante, o olho “arregalado como se quisesse captar tudo’ descreverd um de seus alunos.! Tem fama de ser terrivel com os candidatos. neds e que habilita os aprovados assumirem ox mais. snavem er determinadas faculdades. (N. T.) (*) Exame realizado pelo govern altes postes de ensino nos liseus ow « leci Foueault ainda nio completou vinte anos e tem menos de uma hora para con- vencer a banca de que merece ser normatien. Alguns dias depois uma multidao de candidatos, acompanhados de pa- rentes ov amigos, acotovela-se diante da escola, na rue d’Ulm, para consultar a lista dos aprovados, A tensio beira a loucura. Para rapazes de dezenove ou vinte nos que estudaram como louces durante dois ou trés anos, que investiram tudo, colocaram tudo na espera desse dia € mais que um momento da verdade, & quase uma questo de vida ou morte. As sombras de Jaurts, Blum, Herrict, Jules Romains e Jean-Paul Sartre... pairam sobre suas cabegas e cada um tem a sensagio de que num unico instante vai se decidir sua existéncia social ¢ inte- lectual: tudo ou nada, Os reténgulos de papel branco estao afixados no vidro da portaria: primeiro, Raymond Weil; segundo, Guy Palmade: terceito, Jean- Claude Richard, Quarto: Paul Foucault... Foucault mal vé os nomes que se seguem. Entrega-se & alegria ¢ tem tempo de sobra para saber quais serio seus outros colegas; Maurice Agulhon, Paul Viallaneix, Robert Mauzi, Jean Knapp, ete., que durante varios anos participarao de sua vida, alguns desempenhando uum pequeno ou grande papel em sua carreira. No total so 38 os que no owtona habitarao 0 velho edificio da Ecole Nor- male Supérieure, com ares de convento republicano. Seis dos “conscritos” vin- dos do liceu Henri-[V se insialam numa thurne do andar térreo: um longo retingulo, onde, da porta a janela, se alinham Jean Papon, Guy Degen, Guy Verret de um lado, Rebert Swehler, Maurice Vouzelaud, Miebel Foucault do Fo, Uma nova vida se inicia para Michel Foucault, Uma vida que the ser& dificil suportar. Ele ¢ um rapaz solitério, ariseo, cujas relagdes com os outros silo muito complicadas, geralmente conflituosas. Sente-se mal, até um pouco adoentado, E evidentemente nao se encentra & vontade nessa situagio de pro- miseuidade imposta pela Ecole, Ainda mais que a ruc d’Ulm é por s ambiente patogénico, um centro de desenvalyimerito dos comportamentos mais absurdos, mais excéntricos, tanto a nivel pessoal quanto a nivel intelectual ou politico. Pois impde que cada um brilhe, se singularize; e para isso, para fazer 0 papel de criatura excepcional, para tomar as atitudes dignas da gléria futura, todos os meios servem. Numerosos so os que, trinta ou quarenta anos depois, relembram seus anos de normaliens com rancor e tristeza. “Na Ecole todo mundo mostra seu pior aspecto", diz Jean Deprun, hoje professor na Sorbonne. acrescenta Guy Degen, que durante anos © cothurne de Michel Foucault. Este nao consegue se adaptar 4 vida em comum, niio sabe se sujeitar ao tipo de sociabilidade exigide pela organizagao ema da Ecole. Um dia contara a Maurice Pinguet que os anos passados na rue d'Ulm foram “‘as vezes insuportaveis’. Foucault se fecha ma solidio e | para cagoar dos outros. Zomba deles com uma ferocidade que se mesma um ha sua neurose Todo mundo se dela 86 sa 40 torna famosa, Vive rindo, ironizando sobre alguns colegas com os quais anti- patiza, aos quais d4 apelides ofensivos, com os quais se atraca em ptiblico, principalmente no refeitério, onde os alunos almocam e jantam. Briga com todo mundo, zanga-se, langa mio de todos os recursos de uma agressividade terrivel, ida & megalomania. Adora que se acrescenta a uma tendéncia bem pronun: exibir o génio que sabe possuir. Tanto que logo é quase unanimemente detes- tado, E tide por maluco, Sobre seus comportamentos bizarros circulam nume- rosas historias: um dia um professor o encontra deitado no ehao de uma sala onde acabou de ferir o peito a navalhadas. Em outra ocasiao 0 véem, punhal na mao, perseguinda um colega, E quando tenta 0 suicidio em 1948, a maioria de seus colegas consideram tal gesto a confirma do que pensavam: seu equi- librio psicoldgico é mais que fragil. Quem oconheceu bem nessa época acha que “durante toda a vida ele caminhou lado a lado com a loucura’'. Dois anos apés ingressar na Ecole Foucault se encontra, pois, no hospital Sainte-Anne, no con sultério do dr, Delay, uma das sumidades da psiquiatria francesa. Quem o levou foi o dr. Foucault, seu pai. Primeiro contato com a instituicio psiquid. trica, Primeira aproximacao também dessa linha instvel que, talvez menos radicalmente do que se julga, separa o “louco" do “equilibrado", 0 doente mental do sia de espirito. Esse episodio doloroso daré a Foucault o privilégio que muitos invejarao: um quarto na enfermaria da Ecole, O que 0 isola ¢ {he proporciona a calma de que precisa para estudar, Mais tarde voitara a esse quarto, ao se preparar pela segunda vez para a agrégation em 1950-51, ¢ quando estiver dando aulas: dessa vex por comedidade. Entrementes havera diversas tentativas ou encenagies de suicidie: “Foucault era abeecada por essa idéia’’, segundo o depoimento de um de seus amigos, “Aonde voc€ vai?”’, pergunta-the uum dia outze colega, E se surpreende ao ouvir a resposta: “Vou comprar uma corda para me enforcar", O médica da Ecole se limita a dizer, refugiando-se alras do sigilo profissional, que “esses distirbios provinham de uma homosse- xualidade muito mal vivida e muito mal assumida’’. E de fato ao voltar de suas freqiicates expedigdes noturnas pelos pentos de encontro ou bares de homosse- , docnte, aniquilado pela vergo- xuais, Poucault fica prostrado durante hors nha, Eo dr. Etienne tem de se ccupar muito dele, para evitar que cometa oirremedidvel. Nao era fdcil viver a honvossexnalidade naquela época. Dominique Fer- nandez, que ingressou na rue d’Ulm em 1950, descreve o que podia ter de paté- tico a situac&o dos homossexuais naquele tempo."‘Epoca da vergonha e da clan- destinidade”’, em que era preciso esconder nas zonas de sombra da vida noturna os prazeres da culpa que a luz do dia nao conseguia admitir. Assim Fernandez resume os seritimentos que experimentou ao sair da infancia: 41 By percebia que: 1) cresceria A margem dos outros, interessado por coisas sobre as quais no poderia falar com ninguém a minha volta: 2) essa situago seria uma fonte de eterno tormento; 3) mas também o sinal de uma secreta ¢ maravilhosa escolha. © orgulho e ¢ medo misturados de entrar numa feanco-magonaria ex- ica marcaram minha adolescénei: posta 4 reprovagiio put Recordando a biblioteca que a todo custo ele queria formar sobre sua “con- digo", escteve: Em 1950 ¢ nos dex: ou quinze anos seguintes os livros que reuni s6 me falaram de trauma, neurose, inferioridade natural, vecagao para 0 infortinia, O retrato que cu podia fazer de mim mesmo através dos inumerdveis eases que via desfilar #5 textos era'o de um subser condenado aosefrimento.? ne Quantos foram vitimas dessa violéncia repressiva? Quantos precisaram meatir, is yezes mentir para si mesmos? E entre eles Michel Foucault, que muitos eo- logas s6 mais tarde souberam que era homosexual, apenas suspeitavan ou descobriram por acaso. Ou souberam porque também eram. Mas todos, te- nham ou nao conhecido a razio profunda de seus problemas, guardaram a lembranga de um Feucault de equilibrio incerto, no limite da loucura. E todos explicaram para si mesmos desta maneira seu interesse ebsessivo pela psico- logia, pela psicanalise pela psiquiatria. “Ele queria entender o que tinha uma relagio com o privade e como privativo”, diz um. "Seu grande interesse pela psicologia provinha sem diivida dos elementos de sua biogratia pessoal”, diz outro, Qu ainda; “Quando Histoire de fa folie fol publicada, todos que o conhe- ciam perceberam que estava relacionada com sua histéria pessoal”. E um de seus intimos na época; “Sempre pensei que um dia ele escreveria sobre a sexua- lidade, Ele tinha de dar a sexualidade um lugar central em sua obra, pois era algo central em sua vida". Ou ent&o: “Seus ditimos livros so um pouce sua ética pessoal, conguistada sobre si mesmo, Sartre nunea escreveu sua Moral, mas Foucault escreveu"". Ou ainda: ‘Com seu retorne & Grécia antiga na His- toire de la sexualité (Historia da sexualidade), Foucault encontrou sua propria base arqueolégica,..", Em suma, todos concordam em fundamentar sua ebra, alé sua pesquisa, nessa situagdo que ele tao dramaticamente viveu na Ecole Normale. Evidentemente ninguém pretende explicar toda a sua obra em fungao. do homossexualismo, como julgam possivel alguns representantes do establish- ment universitacio americana, imaginande, alias, que isso bastaria para anulé- la. Poderiamos usar a mesma resposta de Sartre aa marxismo vulgar: sim, Paul Valéry é um pequeno-burgués, mas nem todos os pequenes-burgueses so Paul Valéry. Simplesmente podemos perceber como surge um projeto intelectual numa experiéncia que talvez devéssemos classificar de origingria; eriou uma aventura intelectual nes combates da vida individual ¢ social, nfo para ficar 42 Presa a cles, mas para pensé-los, superdnlos, problematizd-los sob a forma da irdnica devoluglo da pergunta aos que a formulam: voces sabem bem o que io? esto seguros de sua azo? de seus coneeitos cientificos? de suas catego- rias de percepgao? Foucault leu os psiquiatras, Trabalhou com os psiedlogos, Poderia ter sido um deles, Sera que seu homossexualismo Ihe barrou esse cae ? Como esereve ainda Dominique Pernandez: mink Era a época da psiquiatria e da psicandlisc. Tendo substituido os sacerdotes e 08 Policiais, 03 médicos pronunciavam sobre a condigo de homosexual sentengas tanto mais ouvidas por emanarem de uma auloridade aparentemente “eientifica jravam uma certa benevoléncia paternal, Cada ver que um psicana “Nunca conheei um homossexual feliz”, eu aceitava isso como verdade inquestiondvel ¢ me encolhis ainda um pouco mais na eonseiéncia de meu intor- tinio." ista ese Até o dia em que o "paria” se insurge, em que ergue a vor da recusa, Uma recusa que para Foucault devia passar pelo duplo meandro da literatura ¢ da teoria. De um lado seu fascinio pelos eseritores da “transgressao”, da “expe- ri€ncia limite’', do exeesso ¢ da exibi¢ao; a exaltacdo que sentira ao ler Bataille, Blanchot, Klossowski, ¢ ao descobrir a ''possibilidade do filésofo louco”’, cuja palavra de fogo ealeina a dialética © as positividades como ele diz no Préface @ la transgression (Prefacio & trangressdo).$ E de outro lado a interrogagao histética sobre o status cientifico das disciplinas psieolégicas, do elhar clinica, depois do conjunto constituido das ciéneias humanas. Em 1981 declarou: Toda vez que tentei fazer um trabalho teérice foi a partir de elementos de minha propria experiéncia: sempre em relagio com precessos que via se cesenrolarem a tminha volta. Porque eu julgava reconhever fendas, abalos surdos, disfungdes nas coisas que via, nas instituigtes As quais estava Higado, em minhas relagges com os eutzas, fol que empreendi tal trabalho — um fragmento de autobiografia * A inguictagao de Foucault também pode explicar seus desejos de exilio para fagir aos impasses em que se sentia encerrado: de qualquer modo isso parece evidente nos depoimentos sobre os motivos de sua partida para a Suécia, em 1955, $é na déeada de 60, com a descolonizagSo mental que se inaugura, Fou- eault pouco a pouco se libertard das malhas normativas da repressao. Talvez nado o bastante na opiniao de Dominique Fernandez, que censura severamente Barthes ¢ Foucault por sempre terem silenviado a respeito dé sua homossexua- lidade num momento em que nao [hes impunham tal siléncio. Roger Martin du Gard se escondeu a ponte de nao publicar um romance com personagens homossexuais: podia ser “legitima prudéncia”. Mas Barthes, que em 1975 de- dicou um tinico pardgrafo de seu Barthes par Roland Barthes (Barthes por Roland Barthes) a Deusa H.", da qual fala de mancira bem neutra: “O poder 43 de que uma perversiio possul de dar prazer (no caso a dois H: homossexualismo. © hixixe) sempre 6 subestimado'’. Que covardia, comenta Fernandez, que re- serva a Foucault mesmo julgamento: “Ele nunca se decidiu a dar seu depo mento pessoal”.’ O que esti longe de ser verdade. Mas no fundo é evidente que quem viveu a situagdo anterior muitas vezes tinha dificuldade em acom- panhar a “revolug%e cultural” realizada pelas geragdes posteriores a 1968, Um tinico exemplo pode bastar: em 1981, desorientado com a ruidosa militancia dos movimentos gays, André Baudry resolveu acabar com a revista Arcadie © 9 movimento do mesmo nome que ele animava desde 1954 e que durante trés déeadas haviam encarnado a esperanca de tornar o homossexualismo “aceito" usando de discrigdo, respeitabilidade e do que se chamava a “‘dignidade". Tuda isso protegido por pseudGnimos. Entendemos que, intimados a dizer em alto e bom som, na presenga de todos, o que deviam ter silenciado durante tantos anos, varios deles se sentiram desorientados. Ouvimos 0 eco patético desses proble- mas de conseiéneia quando Jean-Paul Aron, As portas da morte, quer declarar na primeira pagina de Le Nouvel Observateur que esta com AIDS ¢ ao mesmo. tempo “confessar” publicamente sua homossexualidade.* Quando critica Fou- caull por haver escondido a natureza de sua doenga, reprova-o também por ter queride escapar a essa ‘‘confissio"', Mas nao ¢ justamente a idéia de “confis- silo" que horroriza Foucault? Ha indicios desse horror em todo 0 esforgo reali- zaclo por seus iltimos livros no sentido de rechagar. recusar, resistir & imrposig&o de dizer, de falar, de fazer falar. Como se, nisso também. se encontrassem novamente as experiGneias brutais da vida cotidiana na origem de uma coloca- ello em perspectiva histérica e de uma pesquisa teGrica, Seus colegas da Ecole Normale sao undnimes em relembrar um Foucault ro e desconcertante, mas também em descrevé-la como oa estudioso obsti- nado que ele entéo j4 era, Foucault Ié o terapo toda ¢ nao se limita a ler: faz fichas e organiza-as em caixas, com mélodo e minicia. Até encentrou notas tomadas pelos alunos — nas aulas de Bergson sobre histéria da filosofia, Os colegas 0 véem como uma pessoa excepcional pela cultura, pela capacidade de trabalho, pela multiplicidade de seus centros de interesse, Ele 18 tudo: os filé- sofos clissicos, evidentemente, PlatZo, Kant, ... ¢ Hegel — seu trabatho sobre este Ultimo valeu-lhe o diploma de estudos superiotes, em junho de 1949, Titulo du dissertago: “A constituigao de um transcendental histérica na Fenomeno- lagia do espirito de Hegel”. Ele 18 Marx, ¢ claro, pois todo mundo 18. Pouco depois leré também Husser! principalmente Heidegger. Em 1942 foi publi cada o livro de Alphonse de Waelhens, e os jovens filésolos se iniciam ne pensa- mento de Heidegger através de seus comentérics. Foucault se lanca ao estudo da lingua alema para poder ler os textos no origital, A leitura de Heidegger 44 i serd de grande importincia para ele; no fim da vida, relembrando seus anos de formagaa, did: Comecei a ler Hegel, depois Marx, e me pus a ler Heidegger. Ainda tenha aqui as anotagbes que fazia sobre Heidegger enquanto lia — monies delas — ¢ sua im- portincia nfo ¢ a mesma das que fiz sobre Hegel ou Marx. Todo © meu devir filoséfico foi determinado por minha leitura de Heidegger, Mas reconhego que Nietzsche preponderou ,., Conhego Nietzsche bem methor que Heidegger; foram duas experincias fundamentais, Se nao tivesse lide Heidegger, provavelmente © Rorschach é também uma das paixdes de Jacqueline Verdeaux. Essa mulher vai desempenhar um papel fundamental nos anos de formagaio de Mi- chel Foucault. Ha muito tempo conhece a familia Foucault. De longa data seus pais a0 amigos dos Foucault. Durante a guerra seu pai a mandou com seu inmao se refugiar em Poitiers. Pouco a pouce Jacqueline Verdeaux se tornow ‘assistente-anestesista do dr, Foucault, que continuava suas atividades de eirur- gio da cidade ocupando-se do hospital improvisado instalado no grande colé- gio dos jesuitas para tratar dos feridas de guerra apés a invasdo alemi no norte da Franga. A jovem deixou a cidade quando os alemaes chegaram a Poitiers, 5? Anos depois, restabelecida a paz, madame Foucault lhe pede que cuide de seu filho, instalado em Paris. Foucault janta regularmente com Georges ¢ Jacque- line Verdeaux, no mimero 6 da rue de Villersexel, uma ruazinha que dé para o boulevard Saint-Germain, nao longe da Assembiéia Nacional. Jacqueline Ver- deaux dedica-se & psicologia ¢ trabalha com o marido, que acaba de defender sua tese com Jacques Lacan. Montaram no Sainte-Anne um laboratério de ele- troencefalografia, Jean Delay arranjou os locais: alguns cémodos no s6tZo do hospital, onde se instalam com André Ombredane, ex-aluno de Georges Du- mas. Ombredane acaba de traduzir um livre sobre psicodiagnéstica e pede a Jacqueline Verdeanx, que é germanista, para submeter a tradugo a um psi- quiatra sufgo muito renomado: Roland Kuhn. Ao mesmo tempo Ombredane ihe empresta um livro de Kuhn sobre A fenomenologia da méscara, lacque- line Verdeaux Ié 0 livro e parte para Turgovie, em Munsterlingen, A margem do lago de Constanga. Mostra a Kuhn a tradugao de Ombredane ¢ também lhe faz um pedico pessoal: gostaria de traduzir essa Fenomenologia da mdscara, que achou fascinante. Ele aceita, acrescentando uma sugestao: por que nao traduzir também. um livro de outro psiquiatra instalado a trés quilémetros dali, Ludwig Binswanger, que dirige a clinica Bellevue em Kreuzlingen? Ele é sobrinho de Otto Binswanger, que dirigia a clinica de lena onde Nietwsche foi tratado. Ludwig Binswanger recebe Jacqueline Verdeaux, que esté eneantada com a organizactio desse “asilo", cujos luxuosos edificios se espalham num grande parque colorido por canteiros de rosas. Ele the faz muitas perguntas antes de se decidir ¢ por fim val procurar nas prateleiras da biblioteca o texte que gostaria de ver aparecer em frane@s primeiro: é um longo artigo. Chama-se O somho e a existéneia. 4 muito tempo Binswanger desenvolveu a idéia do que denominou “and- lise existencial”, Foi amigo de Freud, Jung, Jaspers, Heidegger (este ultima 6 mareou particularmente). Assim, Foucault nao sai de seu caminho quando Jacqueline volta a Paris e Ihe pede que a ajude na tradugio, pois a obra de Binswanger esta repleta de termos filoséficos, Os dois se poem a trabalhar juntos hha versio francesa, Todos os dias ela vai 4 Ecale Normale, onde Foucault tem uma sala, pois comegou a dar aulas, a pedido de Althusser — estamos em. 1952 —, e discutem o melhor modo de transpor certas nogées de uma lingua para outra, Uma noite, ao final de um dia de trabalho, Jacqueline Verdeaux leva seu jovem colaborador para visitar Gaston Bachelard, leitor fervoroso de Binswanger e que mais tarde mantera correspondéncia com ele. Jacqueline Verdeaux ¢ Michel Foucault também vio varias vezes & Suiga para encontrar Kuhn e Binswanger e mostrar-Ihes as diferentes elapas da ura- dugio em andamento. As discussdes giram sobretudo em torno do léxico hei- deggeriano, Eles se interrogam durante horas para traduzir Dasein, No fim decidem falar simplesmente de “presenca”, ao invés do habitual “ser-no-mun- do". Coneluida « tradugto do texto de Binswanger, Jacqueline diz a Foucault: 38 “Se yoo’ gosta do livro, escreva o prefaécio"’. Ele nfo recua ante a dificuldade ¢ logo se poe a escrever. Algum tempo depois, passando as férias de Pascoa na Provenga com o marido, Jacqueline Verdeaux recebe um grosso envelope, “Ai esta seu ovo de Pascoa”’, diz o bilhete de Foucault que acompanha um longuissimo texto. E o prefficio. Jacqueline Verdeaux primeiro se surpreende: tendo em vista o mimero de paginas, o prefacio pode ser mais longo que a obra, E de fato é 0 que acon- tece, Depois ela 1é. E se entusiasma. “E genial", pensa Os deis juntos vaio procurar Binswanger para lhe mostrar o texto traduzido eo preficio, O psiquiatra fiea muito eontente com ambos. Falta convencer oeditor, que est no minimo hesitante em publicar esse bizarro confunto de um prefacio tao longo, assinado por um desconhecido, eum livre tao curto, de um autor quase tio desconhecido quanto Foucault, de qualquer modo na Franga. Mas Jacqueline Verdeaux insiste ¢ ganha a causa. O livro é publicado em 1954 pela Desclée de Brouwer, colegio “Textos ¢ estudos antropoldgicos’’. Na aber- tura Foucault coloca um trecho do Partage formel (Divisio formal) de René Char: Na idade de homem wi erguer-se ecresver sobre o muro que separa a vida da morte uma escada cada vez mais despojada, investida de um poder de evuls’a tinico: & sonho ... A escuridio desapatece. ¢ sob a forma de um ascetismo alegrice VIVER se torna a conquista dos poderes extraordinérios que sentimos nos atra- vessar confusamente € exprimimos apenas ineompletamente, por falta de leal- dade, de discernimemto cruel ¢ de perseveranga, O estudo de Foucault se inicia com o poema de Char ¢ termina com longas cltagies do Partage formed, que a seu ver oferece a melhor chave para com- preender a sonho. O texto de Foucault € forte e flamejante. O que © atrai em Binswanger éa maneira como ele reconeilia e ultrapassa as contribuigdes de Freud e Hus- serl. Mas Foucault propde sobretudo sua propria visio do sonho: “Em todos os casos, a morte € 0 sentido absolute do sonho", escreve, e no sonho da morte “a existéncia pode aprender o mais fundamental sobre si mesma”? Daf a idéia de que "o primado do sonho € necessario para um conhecimento da antropo- logia do homem concreto”. Entretanto Foucault conclui também sobre a neces- sidade — “uma tarefa étiea e uma necessidade de historia” — de ultrapassar esse primado.* Diga-se de passagem que ele cita os trabalhos de Minkovski, Lair et les songes (O are os sonhos) de Bachelard, Mélanie Kleine... o do dr. Lacan. Desde essa época Foucault era leitor de Lacan ¢ aconselhara viva- mente Jean-Claude Passeron, que trahalhava sobre o “especular”, a ler o texto de Lacan sobre Le stade du miroir (O estagio do espelha), publicado na Ency~ clopédie frangaise (Enciclopédia francesa) 59 Assim, Jacqueline Verdeaux ¢ Michel Foucault se avistam varias vezes com Roland Kuhn e Ludwig Binswanger na Suica ao longo de 1952 ¢ 1953. Na imeita viagem vaio procurar Kuhn no hospital de Munsterlingen na véspera du terga-feira de Carnaval, A tradi¢&o exige que nessa data os enfermos prepa- rem fantasias ¢ mascaras. E médicos, enfermeiras ¢ doentes se encontram fan- tasiados no salao de festas. No fim da noitada tode mundo joga a mascara numa Jogueira onde se imola a personagem do Carnaval. A estranha cerimGnia im- pressiona Foucault; “Essa festa dos loucos mais parece uma festa des mortos”, comenta com sua amiga. Foucault e essa a quem ele chama de swanger, que passa as férias no Tessino, & beira do lago de Brisago. Os dois “minha mulher” ainda vio visitar se teencontram em Florenga e, depois de passar alguns dias em Veneza, seguem de carro para a residéncia de verao do psiquiatra, Antes visitam as igrejas ¢ os museus. “Ele adorava pintura”, conta Jacqueline Verdeaux, “foi quem me fez entender os afrescos de Masaccio em Florenga’’, Em contrapartida, e a lem- branga de Jacqueline Verdeaux também € muito nitida, ele detestava a natu- a. Ela he mostra uma paisagem magnifica, um lago reluzente ao sol, ¢ Fou- re cault se poe a catinhar ostensivamente em diregdo & estrada, dizendo: "Eu Ihe dou as costas". Ficam alguns dias com o psiquiatra, que varias vezes os leva a tomar ché na casa de um amigo, Szilazyi, um filésofo heideggeriano que Fou- des giram em torne de Heidegger, da cault eita em sua Introduetion. As discu: fenomenologia, da psicandlise — com esta grande questia: é uma ciéncia? £ o que Binswanger se esforcou a vida inteira para demonstrar. Freqitentar Binswanger — 0 homem e o livro — tera um papel muito importante para Foucault. Naturalmente ele se desligarA dessa forma de “psi- quiatria fenomenolégica””. Mas as andlises de Binswanger o fazem descabrir uma espécie de realidade profunda da loucura. A Ieitura do que se definiu come “andlise existencial” ou "psiquiatria fenome- nolégica” teve inegavel importineia para mim; era a época em que eu trabalhava nos hospitais psiquidiricos, onde procurava algo diferente dos cbdigos tradicionais do olhar médico, um contrapeso. Certamente essa magnificas descrigies da lou. m determi: cura como experiénciss fundamentais tnicas, incomparaveis, for nantes, Alias, creio que Laing também se impressionou com isso: durante muite tempo ele também tomou como referencia a andlise exisiencial (e era mais sar- triano, enquanto eu era mais heideggeriano} ... Acho que a andlise existencial me seryiu para delimitar e definir melhor o que podia haver de pesado ¢ opressiva no conhecimento psiquiatrico académien. 60 De qualquer modo as 120 p jun escrita por Foucault so 0 melhor reflexo de suas orientagdes intelectuais na época, Porém mais profunda- mente é um texto essencial para captar suas preocupages, os problemas que ele se propde e se propora, para captar taivez, em seu ponto de origem, a génese de sua obra. Em 1983, numa primeira versio de seu prefacio a L'usage des plaisirs (Q uso dos prazeres), publicada nos Estados Unidos, Foucault lem- brard tudo que deve a Binswanger e como se afastau dele: Estudar formas de experiéncia em sua histérla é um tema que me velo de um projeto mais antigo: o de utitizar métodos da andlise existencial no campo da psiquiatria e da doenga mental. Por duas razdes que niio eram independentes uma da outra esse projeto me deixava insaltisfeito: sua insuficiéneia tedrica na elabora- G30 da nopao de experigneia ¢ a ambigilidade de sua relagio com uma pratica psiquiatrica que ao mesmo tempo ignorava ¢ supunha, Podia-se entdo procurar resolver a primeira difieuldade referindo-se a uma teoria geral do ser bumanoy e tratar de forma muito diversa © segundo problema com o recurso tantas vezes repetido ao “'contexto ccondmico e social’; podia-se aceitar assim o dilema entio dominante de uma antropologia filosdfica e de uma histéria social. Mas eu me perguntel se n&o era possivel, ao invés de jogar com essa segunda alternativa, pensar a propria historicidace das formas de experiéncias. E apés uma longa exposigao sobre o trajeto que lhe permitin pensar nos termos de uma “histéria das formas de experi@ncias™, aerescenta: Pereebe-se come a leitura de Nietzsche no comeco dos anos SO péde dar acesso aesse género de questdes, rompendo com a dupla tradigao da fenomenologia ¢ do marxismo.* Com Jacqueline Verdeaux, Michel Foucault trabalha também como psi- edlogo no hospital Sainte-Anne, Sua sitmagio é vaga: “estagiaria", 0 que nia quer dizer grande coisa, pois ele nilo tem fungies oficiais ¢ nao recebe nenhum pagamento, Mas nessa épaca é bolsista na fundacio Thiers, depois assistentena universidade de Lille, portanto nao faz esse “‘estagio" no laborat6rio de eletro- encefalografia para ganhara vida, Ajuda Jacqueline Verdeaux a aplicar os tes- ws e realizar as experiéncias. © mais importante é medir: medir as ondas cere- brais, medir a resisténcia cutanea palmar, medir o ritmo da respiragao. O pa- ciente submetido a experiénela deve se sentar numa poltrona e se vé amarrado, com eletrodos na cabega, nos pés, nas m&os. Essa paraferndlia permite ao psic6logo registrar as reagdes nervosas de todo o organismo. As vezes Foucault se submete aos experimentos, Em geral, porém, ajuda a prepard-los e a fazer a leitura, O psicdlogo ¢ musicdlogo Robert Francés vai ao laboratério organizar testes de audicuio musical. E qual nao é a surpresa de Jean Deprun, a quem ele pediu que fizesse o papel de cobaia, quando encontra Foucault entre os experi- mentadores e auxiliares técnicos. or Evidentemente o laboratério niko se destina as pesquisas puras e iis expe- Fiénelas lidicas: colocado sob a autoridade de Jean Delay, esta integrade aos servigos do hospital, e Georges ¢ Jacqueline Verdeaux tém a incumbéncia, acima de tudo, de estabelecer os “tracados” © propor diagnésticos sobre os enfermos internados no Sainte-Anne. Numa entrevista de 1982 Foucault lembra esse trabalho nos seguintes termos: Nao era clara a situagao de um psictfoga num hospital psiquidtrico. Também como estudante de psicologia eu tinha uma situagio muito estranha. O chefe de servigo era muito gentil comigo c me deixava fazer o que eu queria ... Eu ocupava Lima posicdo intermediaria entre os doentes e os médicos, e isso se devia nio a um mérito particular ov @ uma atitude especial, mas & ambigtidade de minha situa- silo, que me obrigava a guardar distéincia com relagaa aes médicos. Sei que nao tinha nada a ver com umn mérite pessoal porque no momento cu encarava tudo isso com uma espécie de mal-estar. $4 depois de alguns anos, quando comecei a es: crever um livro sobre a historia da psiquiatria, esse mal-estar, essa experiéncia pessoal tomou para mim a forma de uma critica histérica ou de uma andlise estrutural. “O hospital Sainte-Anne dava a um empregado uma impressdo particularmente hegativa da psiquiatria?", pergunta-lhe 0 entrevistador. E Michel Foucault responde: Ah, n&o. Era um grande hospital to tipico quanto vacd pode imaginar ¢ deve dizer que cra melhor que a maioria dos grandes hospitals de provincia que pude visitar depois. Era unt dos melhores de Paris. Nao, ndo tinha nada de terrivel. Esse cra exatamente 0 ponte impartante. Se eu tivesse feito esse tipo de trabalho num pequeno hospital da provincia, talvez tivesse penisado que tais falhas resultavam de sua situagio geografica ou de seus problemas particulares,© Foucault trabalhou como psicdlogo nao sé num hospital psiquiatrico, mas também numa prisdo, Em 1950 0 Ministério da Saiide pediu a Georges e Jac- queline Verdeaux que abrissem um laboratério de eletroencefalografia na pri- silo de Fresnes, onde esta instalado o Hospital Geral dos presidios franceses, © laboratério tem duas fungdes: examinar os detentos enfermos, a pedida dos médicos, para detectar eventuais traumatismos cranianos, epilepsias larvais, istiirbios neuroldgicos, cte. E aplicar testes a fim de encaminhar os detentos para prisdes-escola como a impressora de Melun. Jacqueline Verdeaux ali vai toda semana e leva junto seu amigo Foucault, Durante dois anos ensina-o a farer exames leves, inicia-o na leitura dos resultados, confia-the taretas de assis- téncia, ete. Juntos discutem casos, redigem fichas para cada pessoa exami nada, ete. Durante todo esse periode Foucault se banha, pois, na atmosfera profis- 62 sional da psicologia experimental. Seu aprendizado deixa o quadro estritamente démico ¢ ele se eneontra em “campo”, camo diria um etndlogo: confrontado com arealidade da doenga e com a presenga dos enfermos. Est4 imerso na rea- lidade de duas formas de internamento: o dos “loucos"' e o dos ‘“delingientes"’, E esta também entre aqueles que “olham”, “examinam’, “constatam’’, ainda que sua situagio incerta © mal definida Ihe proporeione uma distineia com relaco ao oficio de psieblogo que ele aprende a exercer. a O SAPATEIRO DE STALIN Antes de ser nomeade para Lille, Michel Foucault j4 comeca a lecionar psicologia na Ecole Normale Supérieure, A pedido de Louis Althusser, natu ralmente, que o solicitau t8o logo ele foi aprovado na agrégation. Entre @ ou- tono de 1951 e a primavera de 1955 Foucault dé aulas na segunda-feira a noite ha pequena sala Cavaillés. O piiblico é bastante numeroso para a Ecole: entre quinze ¢ 25 pessoas, enquanto a fregiéncia usual raramente ultrapassa cinco ou seis ouvintes, Publico numeroso, portanto, ¢ entusiasmadissimo. “E genial’, exelama um dia Jean-Claude Passeron ao sair de uma dessas conferéncias. Hoje Paul Veyne comenta: Seu curso era célebre, a gente acorria come se fosse a um. espetéculo”. E Jacques Derrida: “Eu estava impressionado, como muitos, com sua eapacidade verbal. Era fantastico pela elogiiéncia, pela autoridade, pelo brilho", Os grandes temas das exposigdes de Foucault esto presentes mos textos eseritos nessa época: em sua apresentagio da psicologia entre 1850 © 1950, redigida em 1953 a pedido de Denis Huisman, que quer atualizar a Hisééria da filosofia de Alfred Weber, ¢ também em seu primeiro livro, Maladie men: tale et personalité (Doenga mental e personalidade), escrito quase ao mesmo tempo. Foucault observa a tradigao ¢ leva os alunos ao Sainte-Anne para assistir A apresentagao dos enfermos, Jean-Claude Passeron, por exemplo, ouviu expli« cagdes de Daumézon, E Jacques Derrida guardou uma vivida lembranga dessas sessbes patéticas: Foucault nos levava em grupos de trés ou quatro. A gente ia ao gabinete de Dau mézon, que fazia os alunos realizarem exercicios de clinica. Chamava-se um doen Je, ¢ um jovem médico o intertogava ¢ examinava. Nos assistiamos. Bra emoci nante, Em seguida o médico se retirava e depois de redigir suas observagbes vinha fuzer uma espécie de prelecao diante de Daumézon. 6g Nesse perfodo Foucault vai se tornar 0 centro, para nio dizer 0 chefe, de um pequeno grupo de normaliens comunistas, O grupo se compde de Paul Veyne, Jean-Claude Passeron, Gérard Genetie, Maurice Pinguet, Jean Molino ¢ Jean-Louis van Regermoter, adorador incondicional do jovem professor. So trés ou quatro anos mais jovens que o mestre ¢ the dedicam uma espécie de culto, Sao comunistas, mas nao seguem rigidamemte a linha de Partido, Seus colegas ortodoxes os chamam de ‘0 grupo folcldtice", ou ainda "‘o Saint-Ger- main-des-Prés marxista"’, Discutem durante horas no saguao de entrada ou no patioda Ecole: E “le Fouk's” — € assim que chamam Foucault (Fuchs quer dizer ‘raposa”, em alemao} — passa longos momentos com eles quando est na rue d'Ulm, Alojou-se na antiga discoteca desativada, acima da sala Dussane. Batizou o cdmodo de “laboratérie de psicologia"’, Mas o equipamento se limita a um rato numa eaixa de sapato. “Esse € 0 laboratério”, diz ele aos visitantes, rindo ¢ mostrando a eaixa. As prateleiras nas paredes ainda esto cheias de discos 78 rotacées, empocirados e tornados obsoletos com a difusio do micros- sulco, Ele recebe estudantes e amigos. E conversa muito com seu confidente na época: Maurice Pinguet, que varios anos depois esereverd um belo livro sobre La mort volontaire ae Japon (A morte voluntiria no Tapio), Como os membros do “grupo folelérico”, Foucault também aderiu ao Partido Comunista. E mais tarde nao comentou 6 fato. Eis, por exemplo, 0 que diz da situagio politica dessa época em suas conversagdes com Ducio Tromba- dori, em 1978: Para quem tinha vinte anos quando acabou a guerra, para quem havia sofrido essa tragédia sem ter participada dela, a que podia representar a politica, quando se tratava de escother entre a Unio Soviética de Stalin e a América de Truman? Ou entre a velha SFIO (Section Frangaise de ' Internationale Quvriére} ¢ a demo- cracia erista, ete,? Muitos jovens intelectuais, ¢ eu era um deles, achayam intole- ravel um futura profissional do tipo burgués: professor, jornalista, escritor ou outro... A experiéneia havia demonstrado a necessidade ea urgéncia de eriar uma sogiedade radicalmente diversa daquela em que viviamos: uma sociedade que admitira o nazismo, que se prostitufra com ele, e depois se passara em bloco para De Gaulle, Diante disso tudo grande parte da juventude francesa teve uma reag2o de recusa total... Com essas palavras Foucault nao pretende explicar por que aderiu ao Partido Comunista, mas por que se interessou por Nietzsche e Bataille afastando-se das formas tradicionais da filosofia que a seu ver o hegelianismo e a fenome nologia representavam. E quando sew interlocutor se surpreende e insiste na cultura marxista da época, Foucault responde: Para muitos de n6s, jovens intelectuais, o interesse por Nietzsche ou por Bataille no representaya uma forma de se afastar do marxismo ou de comunismo, Ao OS coniririo, era a vinica vin de comunicaro ¢ de passagem para o que acrediti- vamos dever esperar do comunismo. Essa exigencia de reeusa total do mundo em que deviamos viver evidentemente nfo era satisfeita pela filosofia hegeliana, Por outro lado, procuravamos outras vias intelectuais para chegar justamente Ii, onde parecia que ganbava corpo ou existia uma coisa muito diferente: quer dizer, © compnismo, Foi assim que, sem bem conhecer Marx, recusande o hegelianismo, sentindo-me mal com os limi jencialismo, decidi aderir ao Partido Comu- nista, Estévamos em 1950: nessa época ser “comunista nietzschiano'"! Uma coisa no limite do vivivel e, se quiser, talvez. um pouco ridicula; eu sabie. disso? es doe: Parece evidente que Foucault reconstr6i muito seu itinerdrio intelectual e politico, pois certamente nao fai por aletaschianismo que ele aderiu ao Partido Comunista. Sua leitura de Nietwsche ocorrerd mais tarde, ¢ de qualquer modo @ influéneia determinante do filésofo alem&o sobte ele se situard por volta de 1953, como dizem testemunhas da época. Maurice Pinguet falou sobre essa deseoberta de Nietzsche por Foucault nas praias italianas durante as férias de verfio de 1953: Hegel, Mare, Freud, Heidegger, esses eram seus pontos de referéncia em 1953, quando ccorreu seu encontrocam Nietzsche: revejo Michel Foucault, lendo ao sol, na praia de Civitavecchia, as Consideregies tutempestivas.? Paul Veyne confirma: em 1983 teve com Foucault longas conversas que regis: trou em seu difrie, Foucault Ihe disse quando exatamente se pds a ler Nietzsche em 1953. Assim como declarou: “Quando eu estava no Partido Comunista o marxismo me parecia uma douwtrina sensata’ Aligs basta ler os textos publicados por Foucault nessa épaca para ver que 0 “nictzschianismo" esté completamente ausente, enquante o vocabuldria e a temitica marsistas muitas vezes formam seu horizonte, embera seja impessivel definir Foucault como pura ¢ simplesmente marxista, Basta se reportar A pri meira edigao de Maladie mentale et personnalité, Voltaremos a isso logo mais. Por ora cabe hotar que a ades’o de Michel Foucault ao Partido Comunista foi como a de numerosos colegas seus da Ecole. Ele raramente compa- a ds reunides da célula. Escreve Maurice Pinguet: num rec Lembro-me, no entanto, que uma noite ele estava 1d, no primeiro anclar dagueie barzinho da place de la Contresearpe; de repente interferiu com veeméncia contra 6 pacto carvio-ago.t Mas Foucault nunca participava das alividades militantes. Ninguém jamais vin vender L'Humanité, disizibuir panfletos ov comparecer a manifestagdes, A nio ser uma vez, esclarece Jean-Louis Gardies, que, num dia em que L'Hu- a6 r manité havia sido apreendido, se encontrou com Foucault ¢ alguns outros na frente da sede do difrio comunista para ir vender exemplares no Quartier Latin, “Mas nem ele nem eu fomos feitos para isso", aereseenta, “Nao tinhamos alma de militante’’, E sobretudo, politica ou intelectualmente, nao se pode alix nhar Foucault com aqueles que se autedenominavam “stalinistas"’. Le Roy L durie, um dos “stalinistas" mais eminentes, anota em seu livro de meméria: “Nessa época Michel Foucault caia bem menos que outros nos excessos do sta- linismo"’.* Contudo Jean-Claude Passeron ¢ Alexandre Matheron se lembram de que Foucault participou de uma série de conferéncias na Maison des Lettres, ruc Férou, junto 4 place Saint-Sulpice: Os comunistas agrégatifs de“filosofia haviam formado um grupo de trabalho em que certo niimere de filésofos metnbros do Partido (Desanti taram falar, E Foucault, que era entie assistemte em Lille e dava aulas na rue d'Ulm, foi um dia falar sobre Pavlov Vernant, ete.) acei- no Ambito de uma exposigao sobre psiquiatria, que se tornaria o capitulo sétime de Maladie mentale er personnalité. Claro, acrescenta Passeron, sua exposi¢ao nao se alinhava com a ortodoxia marxista da época, porém Foucault eitou Stalin. De fata a conferéncia termina com a referéncia a uma frase de Stalin sobre o pobre sapateiro aleodlatra que bate na mulher e nos filhos, para explicar que as patologias mentais sio fruto da miséria e da exploragio e que sé uma transformago radical das condigdes de vida poder Ihes pdr fim. Deve-se ver nisso uma “piseadela" ao “grupo folclérico" que assistia 4 sesso, como sugere Passeron? Ou apenas o fato de gue nao se podia sequer pensar em omitir a nome de Stilin numa conferéncia organizada pelo Partido, qualquer que fosse 0 assunto? Ainda que Foucault desfrutasse de uma situagdo um tanto especial: ninguém Ihe criticava o absenteismo as reunides da célula, nem mesmo, o que era muito mais grave, suas ironias com Jean-Louis van Regermorter sobre os artigos de L'Humanité a respeito da Unido Soviética, Segundo os depoimentos da época, Foucault nao foi um militante muito ardoroso, Pode-se até dizer que 54 foi militante de longe, Como explicar entao essa estranha conversa relatada por Claude Mauriac em seu diario? A cena se passa em 1971, e Foucault diz a Jean-Claude Passeron: “Woc® se lembra quando a gente escrevia os artigos dos outros em Le Nouvelle Critique? E 0 famoso ar- tigo de que tanto se falou, ‘E preciso acertar contas com Merleau-Ponty’, era. essa. a formula empregada. Acho que esse artigo nunca fol escrito. Mas fomes os autores de muitas outras paginas de La Nowvelfe Critique”, E Claude Mauriac, entrando na conversa, acrescenta: “Eu pergunto: por acaso nao estavam assi- nadas por Kanapa?”." Apés publicagao desse volume do Temps immobile estabeleceu-se como uma espécie de verdade incontestavel a idéia de que Fou: or cault teria escrito artigos de Jean Kanapa, 0 redator-chefe de La Nouvelle Cri- tique, 0 apparatchik stalinista que em 1954 Sartre chamaria de “cretino” em es Temps Modernes, Alias Foucault nunca desmentiu essa versio dos fatos. Niio disse a Claude Mauriac que as coisas se passaram de outra forma, Apenas eselareceu, segundo o relato de Claude Mauriac num yolume posterior do Temps immobile: “Eu nao escrevi ‘os’ textos de Kanapa. Quando muito dois ou trés desses textos. A bem da verdade cabe dizer... A frase fica incompleta. Pois Claude Mauriac o interrompe precisamente para observar que ele deixara passar a frase registrada no volume anterior e nao tivera a menor reagaa. Quando se yasculha o detalhe dessa histéria as coisas ficam ainda menos élaras. A primeira razao parece bem simples: Kanapa nao era homem de man- diur OS Outtos escreverem seus artigos. Pierre Daix, que participava da redacao da revista, afirma cam grande clareza: Kanapa escrevia seus artigos com muito cuidado e precisio no detalhe da expressdo e ninguém podia interferir em sua produgio, Quando muita “era possivel faz6-lo modifiear esta ou aquela fér- mula, mas depois de horas de discussdo". © filho de Jean Kanapa conheceu Foucault nos anos 70 ¢ este tiltimo, sabendo quem ele era, nao fez nenhuma dlusiio ao episidio, E ainda mais: Jéréme Kanapa contow ao pai que conhecera Foucault, porém Jean Kanapa nao se lembrou de nenhuma relagio, de nenhum encontro passado com 0 filésofo. Quanto a Desanti, cai na gargalhada quando the colocam a questao: ‘SO pode ser brincadeira de Foucault, Talvez haja outra explicagao: Foucault teria escrito para La Nouvelle Critique nao artigos de Kanapa, mas artigos sob pseuddnima, No entanta nenhum membro da re- dagio, nenhum colaborader mais intimo nessa época — Annie Kriegel, Jean- ‘Toussaint Desanti, Francis Cohen, Victor Leduc ou Gilberte Redrigues, que era seeretiria da redagao ¢ colaboradora constante de Kanapa — lembra-se de ter yisto Foucault ou ter ouvido falar nele. E nenhum deles acha possivel sua parti- cipagio na revista. Michel Verret, normutien filésofo da turma de 1948, que trubalhava regularmente para La Nouvelle Critique, acha isso impensavel. Pois 4 pratica do pseudénimo estava reservada acs quadros da administragao, altos {uncionarios ou militares, esclarece ele. O proprio Verret em geral assinava seus artigos, como, por exemplo, em 1949, 0 elogio a Communistes, de Louis Ara: gon, ¢ a defesa do pacto germano-soviético redigido ¢ firmado com Alexandre Matheron e Frangois Furet. Outra figura de proa do comunismo na Eeole Nor- male, Maurice Caveing, exclai a idéia de que Foucault tivesse eserito para a revista intelectual do Partido, aerescemtando que, de qualquer modo, isso nfo adunaria com seu temperamento, Michel Crouzet, que foi secretério da ne ct vélula, confessa que também no sabia de nada. Resta interrogar a pessoa a quem se dirigia a frase relatada por Claude Mauriac: Jean-Claude Passeron. Mas ele diz que nunca escreveu para La Nouvelle Critique, a titulo nenhum, enilo acha verossimil que Foucault 0 tivesse feito, 56 se lembra de pequenas notas que os normatiens podiam fazer, drafts que podiam servir para os artigos dos grandes signatérios da revista, HA também pequenos textos, nilo assinados, no final de cada edigao de La Nouvelle Critique dessa época e que relatam fatos ocorridos no Quartier Latin ou na Beole Normale. E em geral nao trazem assi- natura. Mas, num caso come no outro, Passeron acha que Foucault nae podia ser um dos autores. Absolutamente fora de cogitagéio: € também o que afirmam de maneira categdriea Louis Althusser, e pode-se dizer que se alguém sabia disso era ele, “Creio que Foucault quis dizer que fomos responsayeis pelo ‘kana- pismo’, deelara. E entao? Hoje Claude Mauriac nao pretende que o que escreveu corres- ponda a realidade histérica. Apenas afirma que Foucault proferiu essas pala- vras em sua presenga. E Jean-Frangais Sirinelli, interrogando Foucault em 1981 para um estude sobre os comunistas da Ecole Normale no pés-guerra, conta que ele comentou que os normatiens escreviam para La Nouvelle Critique & parecia se ineluir no grupo, O mistério permanece intato, No momento pareee impos- sivel eselarecer os fatos, Sé duas coisas sdo certas: Foucault escreveu um artigo sobre Descartes para Clarté, 0 jornal dos estudantes comunistas, a pedide de Michel Verret, que era diretor do periédico. Mas esse texto “brilhante”, segundo o depoimento de Alexandre Matheron, membro da redagio, foi considerade dificil demais “para as massas estudantis”. E portanto nao foi publicada, apesar das opinides favorfveis de Matheron ¢ Verret. Por outro lado a adesio de Foucault foi muito “marginal”. E 0 que ele diz, também em 1981, a Jean-Francois Sirinelli. E de brevissima duragio, acrescenta. Apesar de breve, a permanéncia de Foucault entre os comunistas foi mais longa do que ele gostara de dizer posteriormente; trés meses, seis meses, dezoito meses, segundo os interlocutores. Ora, Foucault saiu do pattido em 1953, Os motivos desse afastamento sao multiples, natural- mente. Primeiro, ¢ nao se deve negligenciar esse aspecto, ele devia se sentir bem constrangido num partido que rejeitava ¢ condenava 0 homossexualismo como um vicio da burguesia e um sinal de decadéncia. Foucault tinha a sensagio de que sua homossexualidade 0 colocava 4 margem. Na mesma época outros eram excluidos de sua célula por essa rao, Uma testemumha privilegiada re- forga tal interpretag&o; Louis Althusser, Ao lhe perguntarem por que Foucault sain do Partido Comunista, ele responde, sem hesitar: “Por causa de sua homossexualidade”. Foucault também deu outra razao: a perturbagao que sentiu apés 0 aso chamado “dos aventais brancos", Em 1952 os médicos de Stalin foram acusa- dos de conspirar contra a vida do “genial paizinho dos peves". A dentincia ch @ anti-semitismo. Mas todos os membros do PCF, ¢ Foucault entre eles, esforgamn para acreditar na versio soviética oficial, Eis como Foucault viveu essa hist6ria, tal como a felatou a Ducio Trombadori: 69 Saiido PCE depois do famoso compl dos médicos de Stilin, no inverno de $2, ‘ar. Pouco antes da morte de ¢ por causa de wma persistente sensagko de male Sti vida, André Wurmser cenvocou uma reunitio em nossa célula de estudantes para plicar como teria se desenrolado o complé. Nio nos convencemos, porém nos esforgamos para acreditar no que ele acabava de nos dizer. [sso também fazia parte de ums atide que eu qualifiearia como desasirosa, mas que era minha: meu modo de estar no Partido: ser obrigado a sustentar um fato completamente lidade fazia parte desse exerck de “dissolugie do eu’ ¢ da procura de uma forma de ser “outro”, Assim, demos crédito ao discurso de Wurmser. No entanto, trés meses apés a morte de Stalin, soube-se que o compld dos médicos era pura invengie. O que aconteccu? Eserevemos a Wurmser pe- dindo-the mais ou menos que aparecesse para nos explicar o tal compl, Nao rece- bemos resposta, Voe€ me dird: rotina, pequeno incidente... © fato 6 que a partir desse momento me alastei do PCF. n espalhou-se a noticia de que vim grupo de médicos teria atentado contra sua contrario & cred Como Stélin morreu em $ de margo de 1953, esse afastamento deve ter ocorrido no vero ou no outeno do mesmo ano, Um episbdio relatade por Jean- Paul Aron mostra que em abril de 1953 Foucault ainda ¢ membro do PC; nessa via André Wurmser promove uma reuniéo em Lille. Seu objetivo: denunciar © retrato de Stalin elaborado por Picasso e publicado na capa de Lettres Fran- gaises, © jornal cultural do PCF dirigido por Louis Aragon. Estéo presentes A reuniae Michel Simon e Michel Foucault. Wurmser declara que, “condenado por Thorez, esse retrato se autodestréi, morre de seu proprio erro, ou, o que dd mesma, de sua malevoléneia”. Segundo Jean-Paul Aron, Foucault “comega”’ 4 “ficar abalado” com tais argumentos,’ Comega! De qualquer modo ainda comparece as reuniées em que Wurmser se pronuncia, E como aderiu em 1950 ficou no Partido Comunista cerca de trés anos. Seu afastamente com relagao ao marxismo € ainda mais lento, Michel Simon se lembra de que em 1954 ouviv Foucault declarar a um efrculo de estudantes comunistas que “o marxismo nao é uma filosofia, ¢ sim uma experiéneia no caminhe que conduz a uma filosofia”. E Etienne Verley, comunista da Ecole Normale, participou com Foucault de uma reunitio organizada por Althusser a fim de constituir um grupo encarre- gado de elaborar um manual de psicologia marxista. Isso foi logo apés a publi- cago de Maladie mentale et personnalité, diz ele, ou seja, na primavera de 1954. © que se pode dizer: Foucault saiu do PCF e se desligou do marxismo antes de partir para a Suécia no vero de 195S. Mas continuou muite ligado a Louis Althusser. “Quando sai do Partido Comunista nao houve nenhum and tema de sua parte, ele nao quis romper relagdes comigo.""° Esse relacionamento com Althusser sem diivida desempenhou um papel importante para ambos. Em 1964, ao ser publicado Lire Le capital (Ler © capital), Althusser homena- goou Foucault, evocando “nossos mestres na leitura das obras de saber que 70 foram Gaston Bachelard e Cavaillés e hoje sio Georges Canguilhem e Michel Foucault”. Althusser, “fe Tus" ou “le vieil Alt”, como o chamaya Foucault, reagiu com entusiasmo aos primeiros livres de seu aluno. Nao havia publicado nada de seu quando surgiram Folie et déraison ¢ Naissance de la clinique (Nas- cimento da clinica), em 1961 e 1963, Esereveu a Foucault cartas calorosas, falando de “obra pioneira” e de “liberagdo". Porém os ataques ao marxismo em Les mors et les chases, em 1966, nao deixaram indiferente 0 catman da rue Ulm, que comegava a publicar suas obras, Quando Foucault ironizou a res- peito das tempestades teéricas que agitam o tanque das criangas, todo mundo entenden que se referia ao patio da Ecole Normale.! Na edig&o inglesa de Lire Le capital, em 1970, Althisser acrescentou uma nota relativa a Foucault gue parece uma defesa: “Ele foi meu aluno e em suas pesquisas ha algo das sninhas, inclusive algumas de minhas formulagdes, Mas em seu pensamento € em sua pena até mesmo o sentido dos termos que emprestou de mim se trans- formou numa coisa profundamente diferente daquele que eu thes atribuia” Apesar de suas discordincias teéricas, manifestadas com discrigo e firmeza, Althusser e Foucault continuaram amigos, Foucault sempre teve grande estima ¢ grande respeito por Althusser. E fustigou com palavras duras os que zomba- ram de seu professor quando o vento mudou ¢ 0 marxismo caiu de mada. Foucault pode dizer que foi um “comunista nietzschiano” porque ainda estava no interior do espago tedrico definido pela fenomenoldgia e pelo mar- sismo quando descobriu as grandes escritores contempordneos que o faseina- riam, com os quais se identificaria ¢ que citaria em todas as oportunidades: Bataille e Blanchot, gracas.aos quais romperia os elos que ainda o prendiam aos limites estabelecidos da filosofia e da politica. Embora a descoberta desses au- tores ocorresse na época através de Sartre, cujo Situations # {Situagbes I) surgiu em 1948, com os longes comentarios que Ihes dedica. “A gente chegava a Ba- taille ¢ a Blanchot através de Sartre ¢ os lia contra Sartre”, explica Jaeques Derrida. De qualquer modo para Foucault eles sao a verdadeira via de acessa ao “nietzschianismo”, come dita varias vezes. Foucault descobre também René Char e a obra de Beckett. De fato em 1953 é apresentado Esperando Godot, “um espeticulo de tirar a f6lego" 2? Abre-se entéio para Foucault 0 periodo da fascinagao literaria, que man- tera seu poder até o final dos anos 60, quande cede lugar a uma percepgao mais politica das coisas. Falando dos anos 50 Foucault diz um dia a Paul Veyne: “Nessa €poca eu sonhaya ser Blanchot", ¢ conta-The que havia lido com paixia as crOnicas que desde janeiro de 1953 o escritor publicara regularmente na Now- velle Revue Frangaise, Cabe assinalar que em outubro de 1953 Blanchot dedica um longo comentario a O inomindvel de Samuel Beckett e analisa a dissolugao 7 do “eu'e do autor nesse texto." Foi talvex através de Blanchot que Foucault deseobriu esse livro que cita com muita freqiéncia; em sua aula inaugural no Colldge de France, em 1970, por exemplo. Cita-o, entre aspas, mas sem men- cionar o nome do autor, Ainda em 1953 um texto de Blanchot serve’ de prefacio A tradugiio do livro de Karl Jaspers sobre Strindberg, Van Gogh, Holderlin, Swedenborg. Ha tempo Foucault ¢ leitor atento de Jaspers e em seus primeiros artigos cita com freqiéneia a Psrcoparologia geral, Na obra sobre Strindberg, Van Gogh... Jaspers esboga uma histéria das formas da loucura: “‘Serfamos tontados a falar de uma afinidade particular entre a histeria ¢ 0 espirito vigente antes do século XVII, afinidade que existiria entre a esquizofrenia ¢ © espirito de nossa época”.'* O preficio de Blanchot se intitula La folie par excellence (A loucura por exceléncia). E nele se pode ler: “O que a ciéncia explica através de causas ndo € compreendido, A compreensae procura o que Ihe escapa, avan- ga firme e constantemente para 9 momento em que compreender nao é mais possivel, em que o fato, em sua realidade absolutamente concreta, se torna o obscuro ¢ o impenetravel”."° Blanchot certamente ¢ uma das fontes fundamen- (ais para compreender a obra de Fouceu!t nos anos seguintes. Quanto aos poemas de Char, pode-se encontrar sua marca em numerosos eseritos de Foucault: na introdugao ao texto de Binswanger, O somho e a exis- téncia, em 1953; no prefcio de Folie et déraison, em 1961, onde declara; 'S conservei uma regra e um método, contidos num texto de Char, onde se pode ler lambéni a definigio da verdade mais importante ¢ mais lembrada: ‘Retirei das coisas a ilusde que elas produzem para se preservar de nds ¢ Ihes deixei a parte que elas nos concedem’ ”."” 0 preficio termina com outra citagio de Char. Trés linhas entre aspas, mas dessa vez Foucault nao dé referéncia, nem menciona 9 nome do autor: “Companheiros patéticos que mal murmuram, caminhem com. 4 luz apagada e entreguem as jias. Um mistéria novo canta em seus ossos, Desenvolvam sua estranheza legitima Em 1984 René Char reaparece na capa des Glimos livros de Foucault, [usage des plaisirs e Le souei de soi (O cuidado de si). Paul Veyne conta que no comego dos anos SO Foucault sabia de cor alguns poemas de Char e vivia el- tundo Le reguin er la mowette (Q tubardo e a gaivota), Anos mais tarde, na Suécta, pediria aos alunos ¢ aos amigos que recitassem poemas de Char antes de entrarem sua casa, E estranho que, tendo conhecide muita gente, Foucault nunea se avisteu com seus idolos. Bataille morreu pouco depois de Foucault retornar 4 Pranga. Eele nao teve lagos nem com Blanchot nem com Char. Em seu Michel Foucault tel que je Vimagine (Michel Foucault tal como o imaging), publicado apés a morte do filésofo, Blanchot conta que s6 se falaram uma vi Nilo tive relagdies pessoais com Michel Foucault, Nunea o vi, a nile ser uma vez no patio da Sorbonne durante os acontecimentos de main de 1968, talver em junho 72 ou Julho (mas me dizem que ele nil estava 14), ¢ the dirigi algumas palavras; ele mesmo nio sabia quem lhe falava.' Blanchot comentou Histoire de la folie logo apés a publicacao, ¢ dois anos depois Raymond Roussel, om suas ceénieas da NRF. Foucault analisou a obra de Blanchot num longo attiga de 1966, La pensée du dehors (O pensamento do exterior). Seu tinico didloge foi, pois, 0 que circulou de um a outro, de artigo aartiga, de livroa livro. "Nés nos desencontramos"’, diz ainda Blanchot” Mas quem sabe se no fundo nde queriam que assim fosse? Foucault tampouce se avistou com René Char. Nem sequer Ihe falou pelo telefone, conta Paul Veyne, que foi ligado a um e outro, Num belo dia de 1980 Veyne © Foucault “conspiraram” para fazer Char ingressar no Collége de France, A conspiracao nao foi muito longe: logo deseobriram que © poeta j& havia passado da idade de se aposentar. Por sua vez René Char tinha grande estima pelo fildsofo e admirava sua Histoire de ta foite. Quando Foucault mor- reu, Char lhe dedicou ym de seus Gltimos poemas, Demil-jour en Creuse (Meia- luzem Creuse), que, no entanto, nao fora escrito para ele. Data de 21 de junhe de 1984, quatro dias antes da morte de Foucault, Char ofereeeu 0 manuserito a Veyne, que morava perto dele, no campo, no sul da Franca. Um presente para consolé-lo da dor de perder o amigo. Un couple de renards bouteversait la neige Pisinane Vorée du terrier nuptial Au soi le dur amour révéle d leurs parages a soif cuisante en miewtes de sang.® Veyne se emociona até as lagrimas ¢ conta ao poeta: “A gente chamava Fou- cault de ‘le Fuchs’. Donde a dedicatéria acrescentada por Char. E a leitura dessa estrofe nas exéquias de Foucault, em Vendeuvre-du-Poitou. Nao houve outta aproximac4o entre Char e Foucault além dessa coincidéncia post mortem, ao contririo do que diz uma lenda jA bem arraigada. "Eu gostaria muito de acreditar, diz Paul Veyne num trabalho sobre René Char que esta preparanda, Mas “6 preeiso por um terme nisso", (#). Um casal déraposas revirava a neve’ pisoteando-a borda da toca nupelal/ A noite duro amor revela a suas paragens’ asede lencinantemas gotas de sangue. 7 6 AS DISSONANCIAS DO AMOR No infeio dos anos 50 a universidade de Lille tem apenas trés ou quatro professores de filesofia, O corpo docente das faculdades francesas ainda nio & 0 que se tornard quinze ou vinte anos mais tarde. E como nenhum deles quer lecionar psicologia, Raymond. Polin, Olivier Lacombe ¢ Yvon Belaval decidem reerutar alguém para essa tarefa. Eles definem o perfil ideal da pessoa que procuram: um filésofo interessado em psicologia, nao um téenico na matéria, Um dia, em Paris, Raymond Polin menciona o problema diante de um colega, Jules Vuillemin, que Ihe sugere o nome de Foucault. Vuillemin teré um papel importante na carreira de Foucault e voltaremos a encontra-lo. No momento basta saber que é amigo de Althusser ¢ leciona na rue d'Ulm. Foi ali que conhe- ceu Foucault. Também da aula na outra Ecole Normale Superieure masculina, em Saint-Cloud, ¢ foi ali que conheceu Polin, professor no mesmo estabeleci- mento. O cireulo se fecha: Polin entra em contato com Foucault e © tecebe. Foucault the explica que est preparando uma tese sobre “a filosofia da psico- logia’, O que encanta o professor, j4 impressionado com a excelente reputagie de Foucault, da qual ouvira falar, E apesar das inquietagdes que pode ter quanto a fragil sade psivologica do postulante, da qual também ouviu falar. Michel Foucault € nomeado assistente de psicologia na universidade de Lille e assume o cargo em outubro de 1952. Mas nao “reside” na cidade. Como os outros professores, concentra as aulasem dois ou trés dias, viaja toda semana ¢ se aloja num hotelzinho proximo a estagio. A faculdade de letras ocupa um grande edificio de pedra cinzenta no centro da cidade, rue Auguste-Angelier, atras do paldeio das Belas-Artes. A fachada é ornada com um frontio ¢ o saguiio de entrada se abre sobre duas fileiras de colunas. O lugar € imponente, pomposo e sinistro. Foucault ensina psicologia e sua histéria, Expli . passa em revista os autores, fala da psicopatologia, da Gestalt, dos testes de Rorschach, ete. Desorienta os alunos as teori: 7 comentando Pele de asno como introdugho a psicandlise. Mas em seguida se demora sobre Freud ¢ recomenda aos estudantes que leiam as Cinco psicend- lises. Demora-se também ao estudo da “'psiquiatria existencial’ ¢ nos traba- thos de Kuhn e Binswanger, Econclui suas exposiches anuais lembrando os fisio- logistas sovidticos que trabalham na linha de Pavlov. “O que ouvi era clara- mente de orientagio marxista", diz Gilles Deleuze, que assistiu a uma de suas aulas, §6 uma ¢ por acaso. Ele lecionava no liceu de Amiens e foi visitar seu amige Jean-Pierre Bamberger em Lille. Bamberger o leva a ouvit Foucault. E seu primeiro encontro: o amigo de Deleuze os convida para jantar em sua casa A noite nfo é um grande sucesso. N3o se estabelece nenhuma ligagio entre Deleuze ¢ Foucault, Varios anos terao de transcorrer até seus caminhos se cru= zarem novamente, Foucault leciona com total liberdade. Raymond Polin se limita a pergun tar no comego do ano que temas pretende abordar e depois o deixa livre para cumprir seu programa. E melhor assim, peis as relagdes entre os professores do departamente e seu assistente de psicologia parecem tensas. No entanto a atua- cio de Foucault é bastante eficiente e considerada para Ihe valer esta apreciagio oficial do deo da faculdade de letras, em abril de 1954: “Jovem assistente cheio de dinamismo. Organiza com talento 0 ensing da psicologia cientifies. Merece realmente uma promogao™. Jovem assistente, sim: Foucault tinha 26 anos ao ser nomeado ¢ estara com 29 quando deixar seu posto e partir para a Suécia. Em Lille ele reencontra alguns de seus amigos da Ecole Normale; Michel Simon, filésofo da turma de 47, nomeado para ¢ liceu Faidherber de Lille; Jean- Paul Aron, que obtém um posto no liceu de Tourcoing, Em 1984 chega ao Faidherbe, Marcel Neveux, com quem Foucault havia feito o kidgne no liceu Henri-IV, Todos adquirem o habito de almogar juntos, ocasi&io em que falam muito de politica — Neveux ¢ Simon si0 membros do Partido Comunista — mas também de literatura — Simon gosta de Stendhal, Foucault e Aron prefe- rem Balzac. Todos guardam a lembranga de outro autor que Foucault defende ardorosamente, Jacques Chardonne. “Claire é uma obra-prima’, repete aos anttigos No fim desse period de Lille, que se estende de outubro de 1952 a junho de 1955, Foucault falara muito também de Nietzsche ¢ do livro que gostaria de dedicar a sua nova paixdo filosdfica. Mas antes dessa paixAe seus centros de interesse residem essencialmente na psicologia Foucault psicélogo? Foucault filésofo da psicologia? A lista que ele en trega para justificar trabalhos empreendidos ao longo de ano letivo de 1952-53 mostra bem © horizonte de suas pesquisas: as que realiza e as que pretende 75 fazer, Aqui estd a lista, tal como figura, eserita pelo punho de Foucault, nos darquivos da universidade de Lille: TRABALHOS DO ANO 52-53 1) Malactie mentale et personnalicé. Obra concluida (no prelo, PUF). 2) Eléments pour une histoire de la psychologie (Elementos para uma histé- ria da psicologia), Artigo para a reelaboragae da Histéria da fitosofia de A. We- ber. Concluida. No prelo. 3) Poychiatrie et analyse existentielle (Psiquiatria ¢ andlise existencial) (tese ‘complementar), Obra concluida (noprelo, Desclée), 4} Tradugio de Gestaitkreis (Ciclo da estrutura) de Von Weizsacker, Publi eatgao em julho. 5} Introdugdio a Trawm und Existenz (Sonho ¢ existéncia). Estude que deve ser publicado por Deselée em julho. As duas paginas dessa lista nao tém data: ao que tudo indica foram es critas ne final do ano letivo de 1952-53, ou seja, em maio ou junho de 1953, ou, quando muito, to reinfeio das aulas, isto é, em sctembro on outubre do mesmo ano. De qualquer modo as datas de publicagao indicadas mo so respeitada: Matadie mentale et personnalité & publicada em 1984, bem come O sonia e a exisréncia de Binswanger com a Introduction de Foucault, Mas a tradugao do Ciclo da estrutura de Von Weizsacker saira apenas em 1957, assim como o ar- tigo sobre a hist6ria da psicologia. Quanto ao niéimero 3 da lista, nunca seré publicado e ninguém jamais ouvira falar dessa “tese complementar”, apesar de Foucault afirmar que estava “no prelo”. Em sua Jntroduction ao livro de Bins: anger cle menciona uma “obra posterior que procuraré situar a andlise exis- tencial no desenvolvimento da reflexfio contemporfnea sobre o homem”,' mas essa “‘seqiiéncia” nunca se concretizara, Alias a tese complementar s6 sera de fendida em 1961, depois de concluida Folie et déraison, e nao versara sobre questdes de psicologia e psiquiatria, mas sobre a Anrropologia de Kant, E en- tio? Sem davida é preciso considerar com muita prudéncia esse tipo de lista, Pode ser que Foucault tenha contado duas vezes o mesmo texto, a dntroduction 4 Binswanger, para aumentar a lista, ¢ ¢ verdade que esse prefacio constitui realmente um estudo geral sobre o tema “Psiquiatria ¢ andlise existencial", es- cerita “A margem de Traum und Existenz”? Mesmo subtraindo da lista de Lille um dos livros que anuncia como con- clufdo, a soma dos textos redigidos em t&o pouco tempo continua senda impres- sionante © mostra bem a enorme capacidade de trabalho de Michel Foucault: ele 1@, escreve, leciona, Quanto a isso nie mudara nunca durante toda a sua vida. Outras idéias de livros surgirao em breve, além da obra sobre Nietzsche, j4 mencionada, E ao partir para a Suécia Foucault leva mais dois projetos. Jacqueline Verdeaux — sempre ela — apresenta 0 jovem filésofo a Colette Du- 76 hamel, que trabalha na editora da Table Ronde e lhe — Ihes? — encomenda dois optisculos. Um sobre a histéria da morte, outro sobre a historia da loucura, Final de julho de 1951: na abadia de Reyaumont, convertida ha alguns anos em. centro cultural, realizou-se uma semana musical da qual participou um jovem compositor chamado Pierre Boulez, Uma noite ele se sentou ao piano ¢ tocou uma sonata de Mozart. O pequeno grupo que 0 rodeava ficou impres- sionado. Boulez jé era visto como uma figura importante nos circulos musicais de Paris. Assistiam a cena: Michel Foucault e Jean-Paul Aron. Estavam ali com Louis Althusser e alguns normatiéns. Pois.a caiman da Ecole Normale adquirira o hébito de levar seus alunos aesse lugar ideal para o trabalho, permitindo-lhes assim se prepararem em excelentes condi¢des para oexame oral da agrégation, uma vez realizadas as provas escritas. Era a segunda vez que Foucault se prepa- rava para as provas finais do concurso. Jean-Paul Aron também havia sido reprovado e embora nao fosse wormaiien fazia parte do grupo gragas & amizade de Foucault, Em Les modernes (Os modernos) ele conta como foi esse primeiro encontro entre Boulez e Foucault: Ougo um jovem redeado de gente falar de literatura em tons furiosos. Fala prin- cipalmente de Gide, falecido no ano anterior, ¢ 9 insulta, Eu me informo sobre esse irascivel, eortante como um cutele, segure come um prafeta e ainda por cima mal educado, Dizem-me que se chama Boulez, € famoso em seu meio, muito jovem publicou um Livre pour quatuor (Livre para quarteto) e duas sonatas para piano e Messiaen 0 deciara o melhor dentro os melhores. E verdade que na explo- sio da Escola de Paris que, depois de 1945, reivindica @ sucesso da de Viena € drena para a Franga o sumo da mdsiea européia, Stockhausen e Xenakis entre muitos outros, Boulez, aos 27 anos, tem raziio de se sentireleite .., Como é natural numa época de questionamentos, ele invoca os novas guias: Char ¢ Mallarmé. Logo Ihes dedica duas importantes partituras: em 1955 Le martecn sans mative (© martelo sem dono), sobre um velho poema do primeira, em 1960 Pli selon plé (Dobrasobre debra}, sobre um famoso paema do segundo. Esse contato tem gran- des conseqiiéncias sobre o itinerario de Foucault, A miisica sempre foi seu ponto fraco. Ele a encontra através dos discursos, Boulez serve-lhe de mediador antes de ele se ligar a Jean Barragué, prematuramente falecide, e Miche] Fano, Gilbert Amy, aturmade Boulez, mais tarde desfeita pelas vicissitudes do mundo musical.” Na verdade Jean-Paul Aron exagera muito o papel de Boulez na formagao de Foucault, sem dtvida por causa das necessidades de sua demonstragiio, ins- pirada mais pelo rancor que pela preocupagao com a verdade. Pois Boulez 56 se ligow a Foucault no final dos anos 70, isto é, quase trinta anos depois. E mais: nunca foi um relacionamento intimo, Claro, Foucault foi o responsivel pela eleig%io de Boulez ao Collége de France, em 1975 — mas quando 0 chamou para WF the fazer a proposta havia vinte anos que nao se viam. Le Roy Ladurie fez 0 relatrio oficial da candidatura, Em 1978 Boulez organiza um coloquio do qual participam Barthes, Deleuze ¢ Foucault, E em 1983 Boulez e Foucault publi- cam um didlogo sobre masica na revista do Beaubourg.” Mas isso é pratica- te tudo. E de qualquer modo no inicio dos anos 50 eles néio se freqtientam, A imagem de uma velha amizace entre Boulez e Foucault mio passa de fiegao, embora esteja em toda parte e cireule sem cessar, Aliés Boulez nada faz para alimentar essa idéia: “Nés nos yimos, nas cruzamos, mais do que nos conhece- mos", diz hoje ao recordar aquela época. Lembra-se muito bem da cena de Royaumont relatada por Jean-Paul Aron, Mas foi praticamente a dinica. Nunca mais viu Michel Foucault, a no ser por intermédio de Jean Barraqué, em raras ¢ fugazes ocasides, e se leu O sono ¢ a exisiGneia foi porque Barraqué Ihe emprestou um exemplar. Pois ¢ compositor que teve enorme importincia para Foucault nao foi Boulez, ¢ sim Jean Barraqué, outre aluno de Messiaen, muitas vezes apresentado no inicio da carreira como o rival de Boulez. Jean Barraqué nasceu em 1928. Aos vinte anos comegou @ fazer 0 curso de antilise musical de Messiaen no conservat6rio de Paris, Entre 1951 e 1954 fez um estigio no Grupo de Pesquisas sobre a Musica Contemporinea ao lado de Boulez 6 Yvette Grimaux, Em 1952 concluiu sua Sonata para piano. Provayel- mente conheceu Michel Foucault em 1952. Parece que seu relacionamento a principio foi de amizade € pouca a pouco evoluiu para a paixdo tempestuosa, De 1952 a 1955 forma-se em torneo deles um pequeno grupo, do qual fazem parte notadamente Michel Fano e sua esposa. Foucault os procura ao terminar a aula de Messiaen, verdadeira liturgia para esses jovens musicos, vio almogar ou jantat juntos. Suas discussdes nfo abordam problemas sérios: no passam de brineadciras, risos, representagdes, gracejos... "A gente vivia hum teatro permanente", conta Michel Fano, que também se lembra de que a hova misica que eles encarnavam nfo atraia Foucault, Ele preferia Bach, come lembra também Jacqueline Verdeaux, que regularmente o acompanhava aos concertos. Mas a relagio do joven misico com o jovem filésofo marea profun- damente o trabalho de ambos. Parecem ter uma visio de mundo bem seme- Ihante. Pois para Barraqué "a misiea é o drama, é 0 patético, € a morte. Eo jogo completo, o tremor até suicidio, Se no € isso, se nilo & 0 excesse até os limites, a nisica nao é nada” > Foucault faz Barraqué ler A morte de Virgilio, de Hermann Broch, cuja tradugao francesa & publicada no comego de 1955. Barraqué vai compor varias pegus inspiradas nesse livro: Le temps restitué (O tempo recuperado), cuja prix meira yersdo conclui em 1957, depois Discours (Discurso), em 1961, e Chant aprés chant (Canto apés canto) em 1966, Em seguida, sempre sobre os temas 78 de Hermann Broch, se langaré a uma obra lirica, Lwomme couckhé (O homem deitado), interrompida por sua morte. Foucault também lhe d4 os poemas de Nietzsche inseridos na Sequénce (Seqiéncia) em 1955: Tu carrétes fige, iu regardes en arriére, depuis eombien de temps. Es-t done fou de fuir le monde... avant Uhiver? Le monde... une porie ouverte sur mille déserts muets et froids, Colut qui a déja perdu ‘ce que je perdis ne s arréte nuile part. Tu (arrétes tout pale condamad dvrrer en plein hiver Pareit &la fumée qt cherche sans cesse des ciewx plus frotds ...* Para Foucault a influéncia da misica que ele descobre nesse momento sera decisiva. Na entrevista com Stephen Riggins publicada no Ethos em 1983 declara; “Eu tinha um amigo que era compositor e agora esta morto, Através dele conheci toda a geragao de Boulez. Essa foi uma experiéncia muite impor- tante para mim”. E convém consultar o que ele escreveu “a propésito de Bou- lez" em 1982. O texto sobre Boulez, escrito em 1982 para os dex anos do Fes- tival de Outono de Paris, fala de Barraqué em cada linha, ainda que sua pre- senga fique na sombra, pois ele nao € nomeado. Mas, por exemplo, toda a parte inicial do artigo evoca a figura de Jean Barraqué, nao a de Boulez, como seria de se esperal ‘Vocé me pergunta como foi pereeber, gracias ao priviléglo de uma amizade encon- trada, um pouco do gue ocortia ria méistea ha quase trinta anos? Bu era apenas um transeunte que se deteve pelo aleto, por certa perturbagie, por curiosidade, pelo estranho sentiment de assistir a algo de que eu mao conseguia ser contem- pordngo ... Hoje nao sou mais capay de falar de musica do que naquela época. Sci apenas que ter percebido — e através de outra pessoa nia maior parte do tempo — 0 que se passava em torno de Boulez permitin que eu me sentisse estrangetro no mundo dé pensamento em que eu fora fermade, ao qual ew pertencia e que, ‘para im como para muitos, ainca tinha sua evidéneia ... Na época em que nos, ‘ensinayam os privilégigs do sentido, do vivido, do carnal, da experiéncia origi (*) Tu paras, imévelé olhias para tris, desde muito temps./ Ente és louco/ para lugir do mundo... antes do inserno?/ © mundo... uma porta aberta pare mil desertos mudos ¢ frios./ Quem Jf perdeu/ 0 que perdi naa se detém em lugar nenhum.’ To paras, pélido’ condenado a vagar emi pleno inverno! Como a fumaga que busca sem cessar céus mais fries 79 niiria, dos conteddos subjeti encontrar Boulex © a masica era ver 0 século XX sob um prisma que nio era familiar: 0 de uma longa batalha em torno do formal; era reconhecer como na Rdssia, na Alemanha, na Austria, na Europa central, através da masica, da pintura, da arquitetura, da filo- sofia,,da lingiistica, da mitologia, o trabalho do formal! havia desafiado os velhos problemas subvertido as maneiras de pensar.’ ps ou dos signific Rompendo sua adesio aos valores culturais que até entiao lhe eram fami- miisica tera, portante, levado Foucault a tomar uma distancia genera- lizada, que lhe permitiria escapar & influéncia da fenomenologia e do mar- xismo. E neste sentido que-ele pode responder a Paolo Caruso, em 1967, que a miisica teve tanta importéncia em sua vida quanto a leitura de Nietzsche. E para demonsirar 0 que diz observa que nessa época ofereceu. os poemas de “um dos mnisicos mais geniais e mais desprezados Nietzsche a Jean Barraqué, da geragito atual"* Nos dois ou trés anos que dura sua relagdio com Barraqué, Foucault vive, pois, nesse clima um pouco exaltado de inovagao artistica, nessa atmosfera exci- tante de questionamentos em que as personalidades comecam a se afirmar e as obras a se esbogar. Porém seus lagos com Barraqué se desfazem bem depressa ‘aps sua partida para a Suéeia, Foucault continua profundamente apaixonado, todo dia esereve para ¢ compositor, que ficou na Franca. A correspan- conservada nos arquives Barraqué demonstra a violéncia des sentimen- tos que ele nutte, Suas cartas so eseritas num estilo exacerbado, 40 soberbos exereicios de literatura amorosa que um dia sera preciso publicar. As primeiras cartas proclamar seu desejo de nao se afastar de Paris. Em 29 de agosto de 1955, irés dias depois de chegar a Uppsala, ele escreve que sua mica esperanga é adiantar a tese @ bastante para poder voliar A Franga. Temos 56 uma vida, diz-Lhe em suma, e talvez seja a mesma. Temos duas vezes menos o direito de perdé-la, duas vezes menos 0 direito de desperdigd-la. Dias depois escreve de hove a Barraqué para Ihe dizer que, se quiser, podera voltar definitivamente em io. Em dezembro de 1955 e janeiro de 1956 Foucault esta na Franga, nas {érias de inverno, Passa parte do tempo com os pais em Poitiers ¢ retorna a Paris, Mas quando reencontra Barraqué a situagdo se complica. Algumas se- manas depois, apés a apresentacio de Séquence no Petit Marigny. em 10 ¢ 11 de marco de 1956, que Foucault lamenta nao ter padido assistir, Barraqué ihe manda uma carta de despedida; ‘Naa quero mais ‘dezembro'; no quero mais ser 0 ator ou o espectador desse aviltamento. Sai dessa vertigem de lou- cura’, E em resposta a uma carta a um de seus amigos intimos recebe o se- guinte conselho: Voe8 se coloca falsos problemas ou mais exatamente problemas que nae Ihe dizer respeito, Si0 0s problemas de Foucault, que é fildsofo, no os seus, voeé é misico, nm 8b Nito deixe esse homem destrui-lo depois de se destruir a si mesmo, Nao ereio que ele possa destrui-lo porque vor € forte Em maio de 1956 Michel Foucault faz uma “ltima tentativa: anuncia que voltaré a Franca nas férias e pergunta a Barraqué: vamos passar juntos o vero que nos prometemos? A resposta é nao. Mas Barraqué nao esqueceraé Foucault. Uma de suas raras fotos mostra-o em 1966, em seu apartamento parisiense, Nas prateleiras da biblioteca vé-se um jornal aberto com uma grande foto de Fou- gault, publicada por ocasiao de uma resenha sobre Les mofs ef Jes choses. Sem dyida ele a guardou come lembranga de seu ex-amigo. Como nao ouvir a voz distante de Foucault quando Barragué declara numa entrevista em 1969: ‘Um dia me repetiram esta frase de Genet: ‘O génio é 0 rigar no desespero” "> Como se situa Michel Foucault em meados de 1985, quando se prepara para deixar a Franca por varios anos? Escreveu dois longos artigos para yolu- mes coletivos, uma Introduction ao livro de Binswanger e publicou seu primeiro trabalho; Maladie mentale et personnalité, Uma obra bastante modesta, alias aparece em 1954 na colegao “Iniciagae filosifica’’ das Presses Ur! versitaires de France dirigida por Jean Lacroix. Na verdade foi Louis Althusser, ligade ao pensador catélico, quem Ihe passou a eneomenda, E o décimo segundo volume da série, O primeiro trazia a assinatura de Georges Gusdorf e tratava de La pa- role (A palavra) e encontramos por exemplo uma Introduction d lesthétiqne (Intradugdo A estética) de Maurice Nédoncelle — 0 ndmero 6 — ou um estudo sobre Caractére et personnaitté (Cariter e personalidade) de Gaston Berger — onimero 8, De acordo com as normas da colegio o livro nao ultrapassa 114 paginas. No inicio Foucault escreve: Queriamios mostrar que a patologia mental exige métodos de anflise diferentes da patologia organica e que € por om artificio de linguagem que se pode emprestar o mesmo sentido as “doencas do corpo” ¢ as “*doengas da alma" O que se deve entender como uma critica as teorias de Goldstein, na qual se inspiram entdio Maurice Merleau-Ponty ¢ Georges Canguilhem. Em seguida Foucault se demora na “anélise existencial”, que trata com um pouco mais de simpatia ¢ que a seus olhos levou a psiquiatria a dar um grande passo. Em contrapartida critica severamente a psicandlise, por “irrealizar" as “relagbes do homem e de seu meio’, Entao Pavlov ¢ o pavlovianisio entram em cena. Um capitulo inteiro thes é dedicado. © que constitui muito mais que uma refe réncia « dados fisiolégicos em voga na época. E um verdadeiro marcador poli tico. Pois Pavlov serve entio de bandeira para todas as tentativas de edifiear a “ciéncia psicol6gica materialista” que © Partido Comunista almeja, La Ra- 8! por psicblogos le ison, Caltiers de piychopathologie scientifique, revista funda morxistas — a redagio é presidida por Henri Wallone o redator-chefe é Loui Guillant — expressa bem essa tendéncia, em grande parte dirigida contra a p: ‘ilise, No sumario do primeiro mimero encontra-se notadamente a tradugio de um texto de Pavlov sobre A psiguiatria e a inféncie e um estudo de Sven Follin sobre A contribuigdo de Paviov para a psiquiatria, O editorial desse pri- niciro ndmero é publicado em Le Nouvelle Critique em 1951 e nele se pode ler um elogio aos “notaveis trabalhos de Pavlov e seus continuadores”, precedendo formulas como esta: “*O homem é um ser social e sua vida social nao pode em nenhum momento ser estranha ao que lhe acontece e em especial a sua enfer- midade", Com a seguinte explicagie sobre o que se deve entender por vida social: “‘as realidades materiais e ideolgicas”, quer dizer, “‘o pio mais caro, 08 salirios mais baixos, a guetta mais certa...",! ‘As formulagdes de Foucault em seu livro se aproximam espantosamente desse editorial. Por exemplo, depois de apresentar as teses de Pavlov ele esereve no capitulo “A psicologia de conflite’’: “Quando as condigdes do meio n&o mais permitem a dialética normal da excitagae e da inibigfo, instaura-se uma inibi- glo de defesa ... a docnga é uma das formas da defesa'’.? O que equivale a dizer: "Naa se 6 alienado por ser doente, mas se € doente por ser alienado" Algumas paginas antes, lembrando os estudos de casos propostos por Kuhn ¢ Binswanger, ecomo que para inseri-los numa perspectiva marxista, dissera: Se a doenga encontra um modo de expresso privilegiado nesse entrelagamento de condutas contraditérias, nko & porque os elementos da contradigao se jus! apenas porque o homem faz do homem uma experiéneia contraditéria; as relagies sociais que a mia atual determina sob es formas da concorréncia, da exploragio, das er per como uma naturesa paradoxal do inconsciente humane: guerras imperialistas ¢ das lutas de classe oferecem ao homem uma experiéneia de sen meio quea contradigae assombra sem cessar.# Donde esta definigag de doenga mental: "A conseqtiéncia das eontradigdes so- clais nas quais o homem historicamente se alienou'’* Donde a necessidade de orientar os terapeutas para novos caminhos: pode-se “'supor que no dia em que 9 deente nao sofrer mais o destino da alicnag&o, sera possivel encarar a dialética ma personalidade humana”! E Foucault conclui: da doenga Nao existe outra cura além daquela que estabelece relagdes novas como meio... A verdadeira psicologia deve se livrar do psicologismo, se € verdade que, como toda vigncia, deve ter por objetivo desalienar.’” Vejamos © trecho em que pela primeira ver aparece o terme “arqueo- logia’” referindo-se ao que a psicandlise chama de “estagios arcaicas" da ovo- lugito do individue: 82 A psicandlise acreditou que poderia escrever uma psigologin da crianga fazendo uma patologia do adulto ... Todo estigio libidinal € uma estrutura patolégica virtual. A nourose é uma arqueologia espontanea da libido." Foucault nao permite que se reedite esse livro, E em. 1962, apds a publicagao de Folie et déraison, Ihe d& uma nova versdo intitulada Maladie mentale et psycho- logée (Doenga mental ¢ psicologia). Uma versio em que modifica todo o final, Pavlov cede lugar ao resumo de um livra enorme escrito na Suécia ¢ que acaba de ser apresentado como tese de doutorado. A segunda parte de livro, que se intitulava “As condigdes reais da doenga”, torna-se “Loucura e cultura”. E os capitulos da segunda parte, “O sentido histérico da alienagdo" e “A psicologia do conflito”, se transformam em “A constituicdo histérica da doenca mental”? e “A loucura, estrutura global”.!" Mas essa nova edi¢do forma um livra ido adulterado que Foucault profbe a reimpressio ¢ inutilmente tenta impedir que seja traduzido para o inglés. Foucault renega completamente esse trabalho: nas entrevistas, ao falar de seu “primeiro livro", sempre se referira a Histoire de la folie, remetendo assim o pequeno opiisculo de 1954 e sua reedigao de 1962 aos subterrdneos da hist6ria, e aos catélogos das bibliotecas. Em 1954, quando @ livre ¢ publicado, Foucault freqiientemente discute problemas de psicologia com Jean Hyppolite, que nesse ano so totna diretor da Ecole Normale ¢ que, como numerosos filésofos da época, reflete muito sobre eles. Poise tema da “alienagao’’, que est no centro da obra de Foucault, predo- mina nas discussdes filosdticas. Hyppolite se apaixona de tal modo pela psiquia- tria que durante um ano vai acompanhar os exames do professor Baruk no asila de Charenton. Numa conferéncia de 1958 deciara: Cerlifiquei-me de que o estudo da loucura — a alienagio no sentide profundo do termo — estava no centro dé uma antropologia, de um estudo do homem. O-asilo £0 reftigio daqueles que tido poctem mais viver em nosso ambiente inter-humano. B, pois, wm meio de compreender indiretamente esse ambiente ¢ os problemas que ele sem cessar apresenta ao homem normal. Hyppolite assiste também ao seminario de Lacan, que comegou no apar= tamento do psiquiatra em 1951 com um piblico diminuto e em 1953 passou para o hospital Sainte-Anne, abrindo-se para uma platéia maior, Em 1954 por duas ocasides Lacan ¢ Hyppolite travam uma discusstio publica sobre a filosofia hegeliana e a lingilistica, Sie momentos importantes para a elaboragao da teo- ria lacaniana da maturidade.™ Segundo Maurice Pinguet "toda semana” Mi- che! Foucault ia ouvir o psiquiatra, que na época ainda nao era eélebre. Mas em sas conversas com Ducio Trombadori, Michel Foucault parece dizer que nito assistiu aos seminarios de Lacan. Na verdade a gravagio original diz, que ele nfio as q © Aeompanhou o suficiente para compreender bem Lacan no momento em que the fazem a pergunta, em 1978. Uma coisa € certa: desde 1953 Foucault conhe- cla Lacan de nome, lia seus trabalhos ¢ os citava. O que, alids, nada tem de ireendente, pois na mesma época ele freqilentava o Sainte-Anne, como vi- mos. E ao publicar Folie et déraison, em 1961, menciona o nome de Lacan junto com os de Blanchot, Roussel e Dumézil, entre as influéncias que recebeu. si Vamos voltar a Jean Hyppolite: para coneretizar esse interesse pela psi- quiatria ¢ pela psicandlise, ele trata de formar uma equipe de reflexdo composta de fildsofos ¢ psicdlogos. A reuniao ocorre na Ecole Normale em 5 de fevereiro de 1955, Yvon Brés se lembra da data: o dia em que caiu o governa Mendés France. Estio presentes: Ombredane, Francés, Foucault ¢ outros. Mas Foucault esta prestes a partir da Franga, Talvez nao saiba ainda cumprir 0 programa que estabeleceu para a psicologia em seu artigo para a coleianea coletiva Des chercheurs s'énterrogent (Pesquisadores se inter- rogam), contemporineo de Maladie mentale et personnalité, mas com uma tonalidade muito diferente. Contra a psicologia positivista que julga ter atingido u idade cientifica porque multiplicou os testes © os métodos de investigacda, lombra que esse refinamento teenalégico € apenas, “aa contrario, o sinal de que cla esqueeeu a negatividade do homem”,” quet dizer, a andilise das contradi- ¢5es que no entanto haviam sido seu ponto de partida e sua “patria de origem'", Ela esqueceu que, que va se 4 patologia mental sempre foi e continua sende uma das fontes da experiéncia psicoligica, nao ¢ poraue a doenga libera estruturas ocultas ..., no & em outros termos, porque o homem reconhece nela mais faciimente a face de sua verdade, mas ao contrario porque descobre ai a noite dessa verdade ¢ o elemento absoluto de sua conttadigao. A doenga é a verdade psicolégice da sanidade, na mesma medida etn que é sua comtradicdie hicmana,”? E preciso lembrar a essa ciéncia psicoldgica esquecida de suas origens que ela tem uma vocago “eternamente infernal”. Foucault conelui: “A psicologia 56 se salvara através de um retorne aos infernos”'* a4 7 UPSSALA, VARSOVIA, HAMBURGO "De quando data seu bacealauréat?”, pergunta Georges Duméuil, paro- Giando a ceriménia ritual em que os titulos sao apresentados. E verificando que seu diploma ¢ muito anterior ao de seu interlocutor {mais de trinta anos), de- clara: "Proponhe que a gente se trate por vece"’, E Michel Foucault levanta seu ‘Tack ska du ha", obrigado, Foucault copo de schnaps, na falta de hidromel tem 29 anos e o grande especialista em mitologia indo-européia beira os ses- senta. Mas na Suécia todos que pertencem a universidade se tratam por vocé, seja qual for.a idade ou o titulo, Basta o mais “antigo” tomar a iniciativa Estamos realmente na Suécia, A cena ocorre em Uppsala, setenta quilé- metros ao norte de Estocalmo, primavera de 1956. E a primeira vez que 0 cé- lebre erudito, professor do Collége de France, encontra o futuro filésofa da Histoire de la folie, No entante foi por intermédio de Dumézil que no fim de agaste de 198 Foucault se envontrou na pequena cidade universitéria sueca, Mas eles ainda nao se conheciam, Na verdade a origem dessa viagem remonta a uima época bem distante. E preciso valtar ao ano de 1934. Sim, 1934, Foucault tinha oito anos, porém Dumézil jé publicava seu terceiro livro: Ouranas-Va- rana, Sylvain Lévi o convidou a apresentar o trabalho no Institut de Civilisation Indienne, onde as quintas-feiras h& uma sesstio de debates. Na sala se eneon- tram eminentes representantes de disciplinas histéricas, Holagicas ou Lingiits- ticas: Jules Bloch, Marcel Granet, Emile Benveniste, Na época este ultimo é muito hostil As teses de Dumézil, o qual, alids, as renegara anos depois, A partir ddesse confronte o debate se acalora. No fim, quando os estudantes deixam a sala, um deles se detém para falar com o conterencista, Chama-se Raoul Curiel se tornara um arquedlogo de prestigio, No momento conversa com 0 autor: sobre alguns pontos que constituiram ebjeto de contesta¢do naquela tarde. E como os dois sio magons “reconhecem-se" bem rapido ese unem numa ami- zade intima € duradoura. 85 Dumézil est4 yoltando de um longo périplo no exterior, Morou seis anos na Turquia e dois na Suécia, onde foi leitor de francés na universidade de Upp- sala entre 1931 ¢ 1933. Manteve contato com seus amigos do norte. Depois da Segunda Guerra Mundial vai com freqii€ncia a Suécia, onde seus trabalhos ti- veram espetacular penetragio, Assim, nJo ha nada de surpreendente no fate de, vinte anos apés sua primeira estadia na Suécia, o professor Falk, que dirige 0 Instituto de linguas romanicas, escrever-Ihe para pedir conselho: eonhece al- guém que possa assumir as tarefas de leitor de francés? Estamos em 1954 ¢ Dumézil fica perplexo: nfo conhece as novas geraghes de normaliens ¢ est& prestes a responder negativamente quando Raoul Curiel lhe fala de um jovem filésofo que acabou de conhecer. “E a pessoa mais inteligente que conhego" afirma, Dumézil acredita e escreve a Paul Falk: encontzei o homem indicade. E manda um recado para Foucault: ndo me pergunte camo sei seu nome, diz-lhe om resumo, Saiba apenas que um cargo o espera na Suécia, se o senhor quiser. Nho tém a oportunidade de se conhecer pessoalmente, pois Dumézil parte para "perambular”, como gostava de dizer, pelo Pais de Gales. Mas as negociac&es prosseguem eem 26 de agosto de 1955 Foucault assume sua nova fungio, “Sempre tive dificuldade em suportar alguns aspectos da vida social ¢ cultural francesa. Por isso deixei a Franga em 1955", diré mais tarde para explicar sua partida. Acrescentando: “Na época a Suécia era tida come um pais mais livre. Logo descebri que certas formas de liberdade tém os mesmos efeitos restritivos de uma sociedade repressiva"’.! E realmente, se ele se afasta da Fran- para escapar ao mal-estar, passara em Uppsala trés anas muito dificeis. Pri- meiro por causa do clima, Nao consegue se habituar ao frio glacial do inverno eseandinavo: “Sou o Descartes do séeulo XX", diz a seus companheiros de gla- clagio, “vou morrer aqui. Ainda bem que nao existe nenhuma rainha Cristina pura piorar as coisas". E depois haa noite, que comega as trés horas da tarde ‘ei Novembro, as duas em dezembro... E que provoca um sentimento de desam- paro.em todos aqueles que nfo se acostumaram com isso, uma depressio da qual niio conseguem fugit. E também a vida na universidade de Uppsala, que, sendo uma das mais prestigiadas da Europa setentrional, nao é menos desespe- radamente pequena, como a prépria cidade: 70 mil habitantes na época e 6 a7 milestudantes, A atmosfera ¢ rigida, até empolada: o puritanismo luterane pesa demais. Algum tempo depois de se instalar Foucault escreve a Jean Barraqué: "A vida em Uppsala é dolorosamente parecida com a de uma universidade”, Pois, se esperava encontrar ali uma abertura mental que ainda no existia na Franga, logo se desencanta: Uppsala nao aceita o homossexualismo mais que Paris; talvez até aceite menos, Foucault se sefite mal, porém fica. E meses apos sua chegada conhece esse grande pesquisador que ¢ Georges Dumézil. Desde 1947 Dumécil anualmente trabalha dois ou trés meses na Suécia, depois de terminar seu curso no Collége de France. A universidade coloca um pequeno 86 eee Apartamento a sua disposigado. Foucault o vé com freqiéneia ¢ por muite tempo durante seus trés anos em Uppsala, ¢ entre eles se estabelece uma firme ami- zade, até mesmo uma cumplicidade. Pois Foucault, que ja admirava profunda- mente a obra de Dumézil, comega a admirar também o homem. De certa forma modelo também éum modelo paraele: modelo de rigor e paciéncia no trabalh pela diversidade de centros de interesse, pela minuciosa atengao dedicada aos arguivos. N&o ha divida de gue Dumézil terA uma impertaneia fundamental para a evolugdo do pensamento de Foucault. Alias, este nunca omitiu sua di- vida. No prefacio de Folie et déraison afirma: “Nessa tarefa um tanto solitaria todos que me ajudaram tém direito a meu reconhecimento. E monsieur Georges Dumézil em primeiro lugar; sem ele este trabalho nao teria sido realizado" ,* Poderiamos entender isso como uma simples divida de circunstincia; gragas a Dumézil Foucault teve condigdes para elaborar seu livre. Mas, publicada a obra, ele declara sua profunda divida intelectual numa entrevista dada ao jornal Le Monde ¢ publicada em 22 de julho de 1961. Respondendo a uma pergunta sobre as influéncias que recebera e depois de falar de Blanchot, Roussel ¢ La- can, acrescenta: "Mas também e principalmente Dumézil”. Seu interlocutor se surpreende: “Como um historiador das religides pode inspirar um trabalho so- bre a histéria da loucura?"', E Foucault explica: “Por sua idéia de estrutura, Como Dumézil fez com os mitos, procure! encontrar normas estruturadas de experiéneia cujo esquema possa se reencontrar com modificagées em niveis di- versos"’? Em sua aula inaugural no College de France Foucault lembrara ainda mais enfaticamente essa dividi Creio que devo muito a monsieur Dumézil, pois foi ele que me incitou ao trabalho noma idade em que ev ainda acreditava que eserever cra um prazer. Mas também devo muito a sua ebra ... Foi ele que me ensinow a analisar a economia interna, de um discurso de maneira muito diferente daquela dos métodus de exegese tradi- clonal ou a do formalisma lingiistico; foi ele que me ensinou a descrever as trans- formagies de um discurso e suas relagdes com # instituigito.t Uma forte influénei: indefectivel, que durara quase trinta anos, “sem sembra e sem brechas”, como dira Dumézil, e que so a morte do filésofo ira interromper. Essa amizade tera seu papel — e que papel! — no desenvolvimento da carreira universitaria de Foucault, especialmente quando de sua eleicao para o Collége de France. Os dois homens se encontram pela primeira vez na Maison de France em Uppsala. O leitor de francés também tem a tarefa de animar esse instituto cultural de dimensdes reduzidas que existe ha muito tempo na pequena cidade universitéria. Sua fungdo é a mesma de tode institute cultural: divulgar a lingua ¢ a cultura franeesas através de conferéncias, debates, atividades recreativas, etc, Mas em Uppsala a Maison de France cabe toda num apartamente situade intelectual, portanto, mas também uma amizade a7 no quarto andar de um prédio burgués do século XIX, o mimero 22 da rua SaintJohannes, uma rua elegante, a dois passos do rio Fyris, que divide a ci dade em duas: de um lado a parte universitéria, do outro a drea residencial, A fachada do prédio é de pedra vermelha no térreo, pedra cor-de-rosa nos demais andares, Um leao encima a entrada, © apartamento do quarto andar divide-se em duns partes: alguns apasentos piblicos que constituem a Maison de France propriamente dita — biblioteca, discoteca, sala de reunides, E dois cémodos ados'’, reservados ao uso do diretor: é ali que Foucault mora durante sua estada na Suécia, ‘fo obstante a tristeza da jade, mindiscula Cambridge do norte, Fou- cqult pouco a pouco se instala em sua nova vida e procura torné-la tio agradavel quanto possivel. JA nos primeiros dias conhece um jovem bidloge francés, Jean- Frangois Miquel, que chegou na mesma época, e lago decidem tomar juntos todas as refeigées. Junta-se a eles Jacques Papet-Lépine, um fisico que esta trabalhando com tempestades ¢ raios e preparando uma fese com um titulo magnifico: Contribution mathématique a une théorie du coup de foudre (Con- io matemAtica para uma ‘eoria do relAampago). Eles se revezam na co- zinha da rua Saint-Johannes. Muitas vezes t8m a companhia da leitora de ita liano, Costanza Pasquali, a quem chamam de “Mimi”, e de Peter Fyson, 9 leitor de inglés, especialista em poesia européia e apaixonada por 6pera. Duas vezes fot Semana — sexta-feira a noite e demingo ao meio-dia — todos eles vo a um Festaurante da cidade que apreciam particularmente: 0 Forum. Um dia re- cebem ali Maurice Chevalier, Michel Foucault ¢ Jean-Francois Miquel foram ouvir o cantor que apresentava um recital em Estocolmo. Depois do espetdculo conversaram em seu camarim ¢ minutos depois jantavam com ele. Para ‘‘retri- buir™ a gentileza Foucault ¢ Miguel o convidam a ir a Uppsala. Fazem-the as honras da cidade e Ihe pedem que almoce com eles no Farum. No mesmo restaurante celebram as chegadas ¢ partidas de seu mestre espiritual, Georges Dumézil, quando este apatece em seu pequeno universo, Estabelece-se uma verdadeira vida em comum, e pela primeira vez Foucault a Mais; estimula-a a seu redor, Pois é ele o centro desse circulo de amigas. ‘A Maison de France logo se torna um local de convivéncia, onde uns e outros gostam de se encontrar depois do trabalho ou nos fins de semana, Pouco tempo apés a formagao do grupo duas novas figuras fazem uma entrada tonitruante em sua vida comum e semeiam um vento de alegre de- dem. Para a maior felicidade de Michel Foucault, encantada com sua pre- senga, O primeiro é um jovem estudante sueco que chegou da Franga. Seu pai trabalha na embaixada da Suécia em Paris e ele estudou no liceu Janson-de- Sailly, Voltou 4 Uppsala para cursar direito com a finalidade de ingressar no mundo diplomatico. E realizara seu projeto, pois sera uma das figuras emi- nentes da politica exterior sueca, sobretudo ao se tornar embaixador em Handi tribuik ace’ 80 38a , durante a guerra do Vietni, Jean-Christophe Oberg é hoje embaixador em Var- ‘s6via. Naquele momento tem apenas dezoito anos. Passa a secretariar Foucault na Maison de France. No ano seguinte convida uma de suas amigas francesas, Ela se chama Dani, Foucault adota essa moga, adora-a, Dani também se torna secretéria da Maison de France. Pois Jean-Christophe pouco a pauco lhe cede lugar, Foucault se diverte muito com eles, Um dia vai com Jean-Christophe a Estocolmo comprar um carro, Voltam com um suntuose Jaguar bege que sur- preende a boa sociedade local, habituada a maior austeridade e sobretudo per- plexa por ver um leitor — 0 Gltimo escalao numa hierarquia universitaria muito rigida — fazer tal ostentagio de riqueza. Alias Dumézil gostava de lembrar: Foucault tinha dinheiro (pois a familia continuava a ajuda-lo) e no era o as- cela, © monge, que depois se pintou. Gostava de comer muito nos restaurantes, gostava de beber, ¢ os amigos dessa época falam de seus porres" memorayeis, como no dia em que ele se levantou para fazer um brinde no final do jantar e caiu no chao, completamente bébado. Também gostava de se vestir de chofer para levar Dani a suas compras na cidade. Seu Jaguar se tornou lenda entre todos que o conheceram em Uppsala. Todo mundo conta que ele dirigia como um Ioveo, Dumézil lembrava que um dia se encontrou num fosso, Uns e outros guardaram na memoria uma série de incidentes desse tipo, que por sorte nunea foram realmente graves, mas que, com a colaboragao da neve ¢ do gelo, po- deriam ter se transformadoem drama. Noentanto, para Foucault Uppsala significa acima de tuda trabalho. Suas utividades profissionais se classificam em trés categorias. Primeiro deve cumprir sua tarefa de leitor de franeés. O que ele fax As mil maravilhas. Ao conhecer 0 jovem para cuja nomeago contribuira, Dumézil fica impressionado com seu sucesso: seus cursos pUblices atracm uma platéia numerosa e entusiasmada, Todas as pessoas cultas da cidade se acotovelam para ouvi-lo e, diz-se, as se- nhoras locais levam as aulas suas filhas casadoiras, Entretanto essa série de conferéncias que se realizam todas as quintas-feiras 4s dezoito horas no grande edificio central da universidade, diante da catedral de pedras vermelhas, nao é de uma ortodoxia total. Pelo menos ne comego. No primeiro ano Foucault aborda “A concepgao do amor na literatura francesa do marqués de Sadea Jean Genet”. O que nio deixa de perturbar a comunidade universitéria, No ano se- guinte escolhe temas menos audaciosos, pois fala do *Teatra francés contem- perineo” e, em 1957-58, da “Experiéncia religiosa na literatura francesa de Chateaubriand 4 Bernanos". Ainda que este dltimo possa também ter prove- cado ranger de dentes num pais rigorosamente protestante. Foucault Ieciona seis horas por semana ¢ durante mais quatro horas se ocupa de “conversagdo"’. Trés sdo aulas destinadas a principiantes e a estu- 3&9 rem francés, Trés sito consa- das dantes de todas as matérias que querem se in! gradas A literatura, Incluem o famoso curso piiblico ¢ duas horas organi om semindrios destinados apenas aos estudantes que escolheram francés como especializagdo, Em 1956, por exemplo, esses semindrios versam sobre “O teatro francés do século XVII" ¢ especialmente Racine e Andromague — sem duvida ¢ dai que vém as paginas da Histoire de Ja folie sobre a deméncia de Orestes — ou ainda sobre o “ieatro contemporaneo”, O curso public atrai uma centena de espectadores ou até mais, porém os cursos regulares evidentemente contam com bem menos gente, No entanto um fato € certo, ¢ todos os depoimentos o citam: poucos compreendem alguma coisa do que diz o leitor-filésofo, sem diivida filé- sofo demais para ser um bom leitor. Se os professores apreciam seu jovem co- lega, jente da Aliana Francesa fala da “alegria intelectual” que sente nas conferéncias das quintas-feiras, alguns estudantes yéem o ensinamento de Foucault como um longo discurso hermético, Podemos imaginar jovens de de- zoito ou vinte anos, que tém apenas rudimentos de francés ¢ se véern bombar- deados por vertiginosas interpretagBes da obra de Sade ow da loucura em Ra- cine! Varios estudantes da époce até hoje ficam irritados ao recordar essas ses- ses. 'Faziam a gente detestar francés”, “Era um suplicio ir & aula", dizem alguns deles. Outros, ao contrario, ainda sentem o impacto e falam de Foucault com admiragio, A verdade é que as aulas e 05 seminarios véem seus efetivos se reduzirem consideravelmente durante o ano, tatito os alunos ficam desorien- tacos. Os colegas de Foucault sentem-se um pouco envergonhades por vé-lo jeitado pelos alunos, mas nao podem fazer muita coisa quanto a isso. O pro- Foucault sente certo mal-estar e certa irritagio. Porém isso nao basta para -lo mudar. Na verdade 36 Ihe interessam os poucos que conseguem entendé- lo, Aos outros ele reserva sua dose habitual de sarcasmo, api Sua atividade nao se limita ao ensine. Foucault deve também dar vida 4 Maison de France, Ao chegar a Uppsala ele expés as linhas gerais de sew pro- firama ao representante do jornal local Uppsala Nya Tidning (sua primeira entrevista!) © algum tempo depois, em fevereite de 1956, explicita mais deta- Ihadamente seus projetos num relatério de varias paginas que remete & embai xada. Primeiro expe a situagio do local ¢ em seguida fala da linha que pre- tonde dar a sua atuagio. Enquanto no coinego do semestre, escreve, poucos estudantes iam toda semana & Maison de France, dali em diame pode-se contar com trinta @ 35 freqientadotes habituais. O néimero ainda Ihe parece insuti- eiente em proporgao ao total de estudantes, ¢ ele sugere: 1) aumentar o interesse dos estudantes pela Maison de France multiplicando as sessbes recreativas (projecdes de filmes, audigfes de discos, etc.), 0 que implica dirigir ao ministério solicitag des de material (discos, livros, toca-disces, etc.); 90 2) instalar na Maison de France uma espécie de casa para estudantes: um 6 modo fol transformado em sala de trabalho © passou-se a assinar mais jornais © revistas. A Maison de France abriré varias noites por semana e, na medida do possivel, os estudantes suecos serio convidados a discussbes em francés apos as conferéncias e sessbes recreativas; 3) ampliar a biblioteca. Foucault acrescenta que a Maison de France deveria atingir um piblico que nio se limitasse Aquele do Instituto de Linguas RomAnicas da universidade. Se é verdade que a cultura francesa perdeu influéneia nos meios clentificos ou nas disciplinas no filoséficas, diz ele, tal situagao talvez nfo seja irremedifivel. E. propde criar na Maison de France cursos elementares de francés destinados, por exemplo, a estudantes ou jovens pesquisadores de todas as especialidades que possam ter necessidade dessa lingua para seus trabalhos ou suas viagens. Comose vé, ele esté longe de se desinteressar de suas fungdes administrati- vas. E menos ainda de suas fungdes de animador cultural, Organiza serdes nessa Maison de France que pretende transformar num dos pélos culturais da vida de Uppsata. Divulga filmes ¢ os comenta. Dumézil gostava de lembrar uma brilhante improvisagao sobre uma adaptagao cinematografica de Les mains sa-~ Jes (As maos sujas), de Sartre. As quatro da tarde Foucault nao sabia que filme ia receber. E a noite falou com entusiasmo para uma platéia embevecida. E depois hi o teatro, Com Jean-Christophe Oberg ele organizou um pequeno grupo que monta pegas e as representa para o piblico, Em franeés, clare, Su- vedem-se La grammaire (A gramatica), de Labiche, Le cantique des cantiques (O efntico dos canticos), de Giraudoux, Les ceprices de Marianne (Os capri- chos de Mariana), de Musset, ¢ Le bal des voleurs (O baile dos ladrées), de Jean Anouilh, Foucault cuida da montagem, Jean-Christophe Oberg representa Com mais alguns estudantes. A principio as pegas so encenadas em Uppsala, depois en tournée em Estocolmo, em Sundvall. Tournées em que Foucault carrega as malas, ocupa-se dos trajes. Alias as viagens a Estocolmo so muito numerosas, pois ele também pronuncia varias conferéncias no Institut Culturel Frangais da capital. Viaja de carro, mas também de trem, quando o grupo que © acompanha é muito grande. Chama o trem de “o ébrio" — ou seja, 0 estado em que se encontram aoembarcar. “A gente ria. tempo todo”, conta hoje Erik Nilsson, que nessa ¢poca se tornou amigo de Foucault. Nilsson fazia o servi¢o militar em Uppsala ¢ ia 4 Maison de France apanhar livros emprestados, O grupo logo o adotou ¢ cle participou sobretudo das atividades teatrais. Foucault gostou do rapaz ¢ dedicou-lhe Folie et déraison, publicado alguns anos depois. Cabe a Foucault também receber os conferencistas convidados a Uppsala pela embaixada da Franga, Ele tem o prazer de receber seu ex-professor Jean cy Hyppolite ¢ eseritores que se tornario célebres: Marguerite Duras, Claude Si- mon, ete. Ou politicos como Pierre Mendés France. Recebe também Albert Camus, agraciado em 1957 com a prémio Nobel de Literatura. A tradicional conferéneia do laureado em Uppsala se desenvolve tum clima um pouco tenso: dois dias antes, em Estocolmo, um argelino criticou Camus por seu siléncio sobre o colonialismo. Foi ent&o que surgiu a famosa resposta: Sempre condenei o terror, devo condenar também um terrorismo que se exerce cogamente pelas ruas de Argel, por exemplo, e que um dia pode atingir minha mae ou minha familia, Acredito na justiga, mas deienderci minha mie acima da justiga. Em Uppsala tudo corre muito bem: os estudantes nao colocam questées poli- ticas, Mas todo mundo tem na cabega o incidente de Estocolmo. E Jean-Chris- tophe Oberg muito se surpreende por Foucault nao eriticar o pronunciamento de Camus e evitar abordar a questo durante » recepgie que tem lugar na Maison de France. Pois até entio conhecia um Foucault decididamente anti- colonialista, que partilhava as opinides de Mendes France. Mas quem sabe se 0 diretor da Maison de France nfo deve manter uma pesigao neutra? E evilar que seu verdadgiro sentimento transparega? E Roland Barthes visita Uppsala em duas oeasites. Desta vez & Foucault que 0 convida, Conheceram-se no fim de 1955, quande Foucault foi passar as férias de Natal em Paris: quem os colacou em contato foi Robert Mauzi, seu ex-colega da rue d’Ulm, ao qual ele permaneceu muito ligado. Barthes ainda nilo publicow muita coisa: apenas Le degré zéro de Mécriture (Q grau zero da scritura), em 1953, Foucault também s6 iem um livro em sua ficha: Maladie mentale et personnalite, Imediatamente se estabelece entre os dois uma amizade mesclada de re- serva. Jantam freqientemente nos restaurantes do Quartier Latin, vao as boates de Saint-Germain sempre que Foucault esta em Paris. Contudo desde a inieio envenena essa amizade certa rivalidade intelectual e pessoal que dificulta o rela- cionamento. Os dois tém temperamentos muito diferentes ¢ os pontos de atrito silo numeroses. Tanto que nos anes seguintes as desavengas serio mais fre- qiientes que as reconciliagdes. Mesmo assim, em 1975 Foucault promove 4 elei- glo de Barthes ao Collége de France. Talvez mais em consideragao & velha amizade que por admiragao a sua obra, dizem os que os conhediam bem. E faz também o elogio de postulante, embora, como parece set 0 caso, nao estivesse por tras da candidatura. Pierre Nora se lembra de que um dia Foueault Ihe disse: “Estou muito ehateado, preciso encontrar Barthes, que quer se apre- sentar no Collége de France, Faz tempo que niio o vejo. Serd que vocé pode vir comigo?”, Tudo corre muito bem, e Pierre Nora os deixa a sés dez minutos depois. Foucault redige dois relatérios para apresentar Barthes a seus colegas, 92 No final de um deles dedica-se a responder as eriticas que surgiram na yenerdvel instituigdo relativas ao aspecto “*mundano™ do candidato: Acrescentarei que seu puiblico bem pode passar por modismo, como se diz. Mas que historiador se podera convencer de que um modismo, um entusiasme, um deslumbramento, exageros mesmo, 80 traem em determinado momento a exis- téncia de um foco fecunde numa cultura? Bssas vozes, essas poucas vozes que ouvimas € escutamos atualmente um pouco além da universidade, acham os se: nhores que nao fazem parte de nossa histéria de hoje; © que nfo devem fazer parte das nossas?® Sua voz sera ouvida, e Barthes sera eleito. E desse episédio muito importante na vida de Barthes surgira uma nova seqdéneia de sua amizade, mais serena e dessa vez sem sombra. Porém de curta duracao: Barthes 6 atropelade por uma caminhonete na rue des Ecoles em 26 de marco de 1980. Foucault pronuncia o tradicional elogia fiinebre no Collage de France perante a congregacio de pro- fesseres nesse domingo de.abril de 1980: Ha alguns anos, quando Ihes propus acolherem a originalidade © a importincia de um trabalho que durante mais de vinte anos se desenvolveu com reconhecido: briho permitiram-me que, para fundamentar minba solicitagio, eu nfo tvesse de recorrer { amizade que sentia por ele, Bu ndo precisava esquecé-Ia. A obra estava ali. Doravante essa abra esta sozinha. Falard ainda; outros a fardo falar e falardo sobre ela, Entao petmitam-me, neste tarde, evocar apenas a amizade, A amizade que com a morte que ela detesta deveria ter em comum pelo menos nio ser taga- rel, Quanda o escolheram, os senhores o conheciam. Sabiam que escolhiam o raro equilibrio entre a inteligéneia ea eriagdo, Eseolheram ~ e 0 sabiam — al- guém que tinka o paradoxal poder de compreender as coisas como clas so ¢ in- venté-las num frescor nunea visto, Os senhores tinham a consciéncia de escolher um grande escritor e um surpreendente professor, cujos ensinamentos, para quem ‘os acompanhava, eram nao uma aula, mas uma experiéneia ... O destino quis que ‘a estipida violéncia das coisas — a nica realidade que ele era eapaz de odiar — -pusesse fim a tudo isso, diante desta casa onde eu lhes pedi que o acolhessem. A dor seria insuportavel se cu no soubesse que ele ficou feliz por estar aqui ¢ se ndo me sentisse no direito de, através da tristeza, trazer-lhes © sinal um pouco jente da amizad sort Em Uppsala Foucault se dedica de corpo ¢ alma a suas atividades oficiais, Chega a se esgotar, No relatério que envia ao ministério dos Negécios Exterio- res, o inspetor geral Santelli escreve em 26 de janeiro de 1956; “E uma tarefa Ardua que ele realiza com uma consciéncia e uma dedicagiio que seu abatimento testemunha, pois tenho a impresstio de que monsieur Foucault se sobrecarrega © nfo descansa 0 necessatio”, Um ano depois monsieur Gouyon, conselheiro cultural, faz a seguinte apreciag&o: B Monsieur Foucault irradia seu brilho tanto em Uppsala quanto em Estocolmo, onde Instituto e Escola eiviea disputam suas magnifieas conferéncias. Mas pode-se tomer que, vitima de seu sucesso e de sua constante disponibilidade, acabe literal- mente se matando de trabalhar: a eriagtio de um posto no Instituto (que seja nomeado para tal cargo ¢ desligado de suas fungies em Uppsala ou que o futuro titular ao contrério 0 desligue de seu trabalho em Estocolmo) ¢ para ele uma necessidade absoluta. (6 de maio de 1952) io de 1958 o conselheiro cultural, monsieur Cheval, envia este relatério ‘etor da Maison de France em Uppsala: Bem m sobre o Monsieur Poucault ¢ um brilhante representante da cultura francesa no exterior. Teve grande sucesso em Upsal, onde soube ganhar a confianca de professors e estudantes. I indispensivel nesse cargo © nos perguntamos quem poderia subs- Uitui-lo se, o que infelizmente previsivel, acabar se cansando do clima nérdico. De qualquer medo monsieur Foucault € um dos poucos a quem se poderia confiar sem receio um cargo mais importante ne exterior, (25 de mango de 1958) Mas para Michel Foucault a estadia em Uppsala esti ligada sobretudo & redagilo de sua tese. Pois € ali que elabora Histoire de la folie. B a partir, em 1958, 0 manuscrito esté quase coneluido, segundo varios amigos seus. Com Maladie mentale et personnalité ele queria definir a “alienagio” segundo o pensamento psiquidtrice coritemporaneo e propor a critica das teorias médicas ¢ psicoldgicas & luz de um marxismo influenciado por Binswanger, Na época, conforme vimos, trabalhaya em hospitais psiquidtrices, Alguns médicos Ihe sugeriram eserever uma historia de sua diseiplina, porém o que mais o faseinou foram os loueos, nde os psigquiatras: ou melhor, a relagio entre os médicos © seus pacientes, quer dizer, no fundo, a relacda entve a razio © aquilo sobre o que ela fala: @ loucura. E depois houve aquela encomenda de Colette Duhamel. Todos os clementos se unem, portanto, para que seu olhar seja atraido pelo lesouro encontrado na grande biblioteca de Uppsala, a Carolina Rediviva, Real- mente, um tesouro! Vejamos: em 1980 um colecionador, o dr. Erik Waller, doou algumas colegées que formara ao longo dos anas. S80 pegas que vao do século XVI a0 comego do XX. No total 21 mil documentos: cartas, manuscritos, livros raros, textos de magia. E sobretudo ha o acervo consideravel que esse amador constituira sobre a historia da medicina. Quase tudo que se publicou de importante antes de 1800 e boa parte do que se publicou depois, O catdlogo dessa “biblioteca Walleriana"* foi editado em 1988. Muito oportune. An deseo- brir essa verdadeira mina, Foucault se pde a explord-la sistematicamente ¢ a alimentar a tese na qual trabalha, Todos os dias as dez horas dirige-se para a Carolina, Depois de trabathar wma hora com seu secretario ou sua secretéria: Jean-Christophe ou Dani. E fica na biblioteca até trés ou quatro da tarde, Es- ereve paginas e paginas, A noite continua a escrever, Ouvinde misiea, sempre. ot Nio ha wma noite em que nao escute as Variacdes Goldberg. Pois misica para ele é Bach. Ou Mozart, Ele escreve, reescreve, passa a limpo, revisa sem cessar: a esquerda uma pilha de folhas para refazer, a direita a pilha crescente das fginas remanejadas. O livro comega a ganhar corpo, ¢ Foucault pensa em defender a tese na Suécia, Espera deparar ali com um grupo de examinaderes mais compreensivos que os que teme enfrentar na universidade francesa. Justa- mente encontrou na biblioteca o professor Lindreth, que ocupa a cadeira de historia das idéias e das ciéneias, E uma figura muito importante da universi- dade de Uppsala. Os dois tém interesses em comum: Stirn Lindroth trabaihou, sobre medicina e filosofia no Renascimento, sobre Paracelso, Conversam e Lin- drath o convida para jantar. Foucault the pede que leia o que esta escrevendo e leva-Lhe alguns capitulos j4 redigidos. Um calhamago escrita 4 m&o em papel finissimo, Ail O professor Lindroth ¢ um pasitivista, pouco dado as grandes especulagdes. Assusta-se com o estilo ¢ 0 teor das paginas que Ihe so entregues, ‘Tudo que vé ali é literatura “alambieada’' e nem por um momento imagina que esse livro do qual acabou de ler trechos possa ser apresentado para a abtencio de um doutorado. Escreve a Foucault para Ihe comunicar suas impressdes, Muito desfavordveis, Foucault proeura explicar melhor seu projete, Perda de tempo, Nao adianta, Eis as poueas explicagdes que ele propie numa carta da- tada de 10 de agosto de 195 Sua carta me foi muito Gtil para me conscientizar das falhas de meu trabalho The sou muito grato, M prevenido o suficiente de que ndo se ratava de um “fragmente de livro", mas apenas de um rascunho, de uma primeira redago, que pretendo retomar.de qual- quer modo, Concorde que o estilo ¢ insuportivel (tenho esse defeito de nao ser espontaneamente claro). Naturalmente espero eliminar todas as expressdes “alam- primeiro erro, devo dizer de imediato, foi nao o ter bicadas"' que puderam me escapar. Eu the submeti este ensaio, apesar do estilo, para saber sua opiniao, que prezo muito, sobre a qualidade da iniormagan e sobre as idéias bAsicas, Claro que neste dltimo ponto é que esta a dificuldade. Nisso também errei por nao definir meu projeto, gue nao é eserever uta histéria da evolughio da ciéneia psiquidizica, Mas, antes, uma histéria do contexto social, moral ¢imagindrig em que ela se desenvolven. Pois me pareceu que até o século XIX, para nio dizer até hoje, no houve extudo objetivo da loucura, mas apenas a fermulagao, em termos de analogia cientifica, de uma certa experiéncia (moral, social, etc.) da desraziio. Donde essa maneita to pouco objetiva, tho pouco eien- tifica, to pouco histérica de.abordar a questdo, Mas talvez o projeto seja absurdo eesteja condenado de antemio, Enfim, meu terceiro grande erro foi preparar primeiro as paginas sobre as teo- rias médicas, enquanto o dominio das ‘‘instituigies" nfo é claro e me teria aj dado « ser mais claro nos outros campos. Se o senhor me permitir, cu Ihe mos- trarei o que fiz durante as férias a propésite das instituigbes ... Esse campo € muito mais facil de definir e dé as condigdes sociais dos inicios da psiquiatria, 95 O professor nfo se sente nem um pouco mais esclarecido, e Foucault nfo defende a tese em Uppsala. E verdade que ele parece um pouco sufocado por sua matéria e tem dificuldade em elaborar o livre, Dumézil, que acompanha 0 trabalho e constantemente lhe pede noticias, lé ¢ comenta as paginas redigidas, aconselha-o a nao defender a tese na Suécia. ‘Publique isso na Franga’’, diz- Ihe, Sabe quais so as reticéncias dos suecos, que conhece melhor que ninguém. Sabe também que o prefessor Hasselroth tinha razio de dizer a Foucault, fa- Jando de seus colegas: “Nunca chegard a fazé-los aceitar isso”. Segundo Jean- Christophe Oberg, Foucault nunca levou realmente a sério a possibi defender sua tese na Suécia. Segundo Jean-Feangois Miquel, ao contrario, ele ficou arrasado com a recusa de Lindrothe essa seria uma das razdes fundamen- tais de sua partida, Seja como for, os suecos ficaram insensiveis & obra nascente de Foucault, Recentemente se desenvolven na Suécia uma polémica ao longo da qual o infeliz professor Lindroth foi particularmente atacado. Como ele péde ignorar os sinais do génio? Talvez a tradic&o da histéria das ciéncias em que se inscrevia impedisse esse professor muito germanica, muito reticente cam te- lagiio & literatura’, de perceber o alcance do livro que recebera para avaliar. Alguns 0 culparam, outros alegaram circunstincias atenuantes. Mas o fato que Foucault deve esperar alguns anos para defender sua tese. Em 1958, a0 deixar esse pais que considera pouco acolhedor, sew trabalho est praticamente terminado. De qualquer modo quanto ao aspecto documental, Quanto & reda- glo A organizagae do texto, ainda falta muito a fazer As paginas de outro livro talvez tenham sido elaboradas durante sua per- manéneia em Uppsala, A alguns quilémetros da cidadezinha situa-se a casa de Lineu, Uma casa de madeira, perdida numa das mais belas paisagens que os olhos podem contemplar. Muitas vezes Foucault leva seu grupo em peregri- nagdes a esse relicério da histaria das ciéncias. © capitulo de Les mors er les choses dedicado a Lineu certamente deve muito a essas longas caminhadas esfalfantes. Foucault tem varias outras ocasides de manifestar seu interesse pela cién- cia, A universidade de Uppsala abriga dois prémios Nobel: 0 quimica Theodor Svedberg ¢ seu aluno Arne Tisétius, laureados respectivamente em 1926 ¢ 1948, Foucault fez amizade com eles ¢ Svedberg o leva ao terceiro subsolo do centro de ‘experimentagaio de Uppsala para durante uma semana lhe explicar o funciona. mento do ciclotron, E Michel Foucault comenia com Jean-Frangois Miquel: “Mas por que no estudei ciéncias em vez de filosofia?”. 96 Por que Foucault cecidiu partir de Uppsala? Seu primeiro centrato previa uma duragao de dois anos ¢ fora renovado para mais dois, Segundo Gun nar Bréberg a razdo € muito simples: as atividades didaticas estenderam-se para doze horas semanais. Era impossivel trabalhar na tese, E sabendo que nao po- deri defendé-ta na Suécia cle prefere pedir demiss€o ao fim de seu terceiro ano. O anvério da universidade anuneia para o reinieio das aulas, em outubre de 1958, os eursos de Michel Foucault, A conferéneia da quinta-feira deve abordar novamente “A experiéncia religiosa na literatura francesa de Chateaubriand a Bernanos”, Ela ndo se realizarat Foucault parte de Uppsala. Da qual, se- gundo numerosos depoimentos, gaurdari ma lembranga, apesar das amizades que ali fez (conservara lagos sobretudo com Jean-Frangois e Christina Miquel, Jean-Christophe Oberg. cluida. A préxima etapa de seu périplo sera a Poléni k Nilsson, € outros) € apesar da tese quase con- Durante sua longa estadia em Paris, em junho de 1988, Michel Foucault tgve tod o tempo para organizar a partida para Varsovia. Foi uma estadia um pouco bizarra, quase improvisada. Decidida num belo dia de maio em que Michel Foucault ¢ Jean-Christophe Oberg, vestidos de smoking, comparecem a uma recepeao num casielo proximo a Uppsala, Feram convidades pela herdeira de uma das maiores fortunas da Suécia, que se apaixonou pelo joven leitor de franeés, Durante o jantar Jean-Christophe Oberg se isola para ouvir o noti- cirio no rédio. Ao voltar diz para Foucault: “Na Franga esto acontecendo coisas’ E a minimo que poderia dizer: conduzido pelos partidirios da Argélia francesa, 0 general De Gaulle esta prestes a reassumir 0 poder. Em alguns mi- nutos, quase sem hesitagao, eles falam um para o outro: "Vamos". Voltam para Uppsala, trocam de roupa e partem para a Pranga — de Jaguar, é claro. Assim Jean-Christophe Oberg relata essa aventura ‘Michel e ew partimos na quarta-feira, 28 de maio de 1988, Passamos a noite num hotelcinho em Tappernoje, na Dinamarca, Tomamos um ferry na manh’ se- guinte, 29 de maio, entre Gedser na Dinamarea e Grossenbrode, na Alemanha. Passamos a segunda noite ng Bélgica, em La Calamine, num hotel minisculo, Select, Depois conlinuames rumo a Paris, no dia X) de maio, portante, e che- gamos por valta das trés da tarde. Paris estava em plena efervescéncia, Sem mo- tive aparente, pois a sorte ja estava langada. Rumamos para os Champs-Elysées passande pela ruc de Bassano, que estava bloqueada pela policia na altura do metré George-¥. Deixamos o Jaguar na avenue Marceau. Passamos pelos corddes da policia © comecgamos a caminhar na dire vimos cercades par uma onda de manifestantes; ew me vi empoleirade no teto de um carro que subia para o Are de Triomphe, enguanto Michel seguia, rocleado de jovens que agitavam bandeiras blew-blanc-rouge. A place de I'Etoile também es- 0 dos Champs-Elysées. Logo nos or lava bloqueada pela policia eo carro precisou fazer meia-volta. Aproveitel para saltar, mas Michel tinha desaparecida na multidio, Nos nos reencontramos diante do Jaguar para janta fui para # embaixada da Suécia, onde meus pais me esperavam, inguicios por ni0 onde estivamos, nem se tinhamos ehegado, ¢ M irmfio, onde morava. juntos em Saint-Germain-des-Prés. Depois nos separamos: hel foi para a casa do Miche! Foucault fica um més em Paris, Ao voltar para Uppsala sera para fazer as malas, apds uma refeigao bem regada em companhia do pequeno grupo com o qual passara os iiltimos trés anos Por que Varsovia? A mao de Dumézil também esté por tras dessa nomea- glo. O professor de grande renome tem amigos por toda parte! E o caso, entre os, do Quai d'Orsay, onde Philippe Rebeyrol, ex-normatien, trabalha como chefe do servigo de ensino franeés no exterior. Através de seu intermediério o governo francés acaba de negociar com 0 governo polonés uma convengao cul- tural que prevé a criagao de um centro cultural francés no interior da univer- sidade de Vars6via. O que implica a presenga de um leitor, mas também que este tenha uma sala, uma biblioteca e pessa organizar eventos culturais. Coisa bastante exeepetonal para a époea, E tida como um belo sucesso diplomatico possibilitado pela bonanga que as relagdes entre Leste e Oeste conhecem depois de fases muito tensas Mas nao basta criar um cargo de leitor, ainda ¢ preciso encontrar alguém sob medida para ocupa-lo; a tarefa pode ser delicada. Dumézil pede a Philippe Rebeyrol que a confie a Foucault, O que ele faz, Primeiro porque tem absoluta confianga no julgamento de Dumézii: depois porque as apreciagies oficiais sobre o trabalho de Foucault na Suéeia foram particularmente elogiosas Em outubro de 1958 Michel Foucault yoa para Varsévia e se apresenta 40 embaixador francés, recém-nomeade na capital polonesa, Etienne Burin des Roviers, que conta: “Guardei a lembranga de um jovem sorridente, amavel, tranqiilo, contente por se ineumbir de uma tarefa cujo interesse avaliou de imediato, além de perceber sua importincia e sua grande dificuldade"’* Primeiro Feucault se hospeda no hotel Bristol, num quarto modesto, bem perto da universidade, constelag2o de edificios situados na avenida Cracévia: depois se instala mum aparlamente igualmente proximo do local de trabalho, Por um lado termina a redagao da tese, Por outra, cumpre a missio universi- \iria¢ adiinistrativa que Ihe foi confiada: as primeiras medidas a tomar con- mem darexisténcis material a esse “Centre de Civilization Frangaise”. Pro- videnciar cadeiras ¢ mesas, livros ¢ revistas. Foucault também dé aulas e pro- huncia conferéneias na universidade, onde esta ligado ao Instituto de Linguas Rominicas da Faculdade de Filosolia Moderna, Retoma o curso gue dera em sisi on sobre o teatro francés contemporfineo. Imediatamente seduz os estu- ia, pela seriedade, pela gentilea, Todos se Uppsal dantes © seus colegas pela inteligen lembram hoje da extraordinaria cortesia que a cada instante ele demonstrava. Foucault também faz amizade com o presidente da Academia de Ciéncias, 0 professor Kotarbinski, figura eminente da universidade polonesa, mas que aos olhos di se inspira nas teorias do Circulo de Viena, Pouco a pouco o papel de Foucault se transforma. Pois o conselheiro cul- tural da embaixada, Jean Bourilly, pede férias para preparat sua tese de douto- tado, E como se entende as mil maravilhas com Burin des Roziers, Foucault preenche de facto as fungbes de conselheiro cultural durante quase um ano, ! nessa condig&io que pronuneia uma série de confertneias sobre Apollinaire a0 longo de uma fournée que o leva de Gdansk a Cracdvia e ao longo da qual apresenta a exposic&o concebida pelo professor Zurowski para a quadragésimo aniversario da morte do poeta. Conta Burin des Roziers: autoridades € um “filésoto burgués”, poi Ele se dediearé de bom grado a esse papel [de conselheiro cultural] e, parecia-me, sem desprazer, expondo-se, comparecendo a manifestagdes culturais nos quatro canios da Polbnia, observando com certa indulgéncta e certo divertimento os ritas um tanto fuiteis da rotina diplomatica.’ Assim, écom muita naturalidade que o embaixador Ihe propde substituir Jean Bourilly quando este amuncia que quer deixar seu posto definitivamente, pois concluiu a tese © pretende obter uma cdtedra na Sorbonne. Mas Foucault coloca algumas condigdes antes de aceitar. Ainda é Burin des Roziers que conta: Ele achava qué 6 Quai d'Otsay eometera um erro ao eriar n0 exterior um quadro de agentes de nossa aco cultural, polivalentes de algum modo, como se uin adide cultural ou um leitor liresse vocagio para servir indiferentemente na América do Sul, nos paises escandinavos, no munde eslavo ou no Extremo Oriente, Michel Foucault s6 ficaria na Polénia como a primeira da fila se the permitissem reerutar, como fazia antes. ox jovens cslavizantes que o auniliariam em Varsovia, em Crae cévia e no conjuntn do pais." Esse projeto nao teve continuidade, pois Foucault precisou deixar as pres- sas a territ6rio polonés, A historia 6 muita confusa, mas parece comum nos paises do Leste: ele conhece um rapaz com o qual comega a viver dias feli naquele pais triste ¢ sufocante. Mas o jovem trabalha para a policia, que pro- cura se infiltrar nos servigos diplomaticos ocidentais. Certa manha, Burin des Roziers alerta Foucault: “Wocé precisa sair da Polénia”. “Quando?", pergunta Foucault. "Nas préximas horas”, responde o embaixador. Mais uma vez Michel Foucault parte recebendo um relatério altamente clogioso redigido por Jean Bourilly: 99 Mente clara, precisa ¢ penctrante, dotado de grande cultura, Michel Foucault possui © senso da autoridade: ¢ capaz de desempenhar importantes fungdes no estrangeiro da mancira mais setisfatoria, seja lecionando, seja assumindo respon- sabilidades administrativas, Na diregio do Centro de estudos anexo & universi- dade, que assumiu em 1958-59, teve de enfrentar numerosas dificuldades, tanto s (auséncia de local para 0 centra e de apar: tamento para ele durante longos meses), come ne tocante a natureza ¢ aos objeti- ‘vos proprias da atividade do centro. Soube, contude, garantir um feliz inicio a esse novo organismo de cooperagiio franco-polonesa. no que se refere &s condigées mate Michel Foucault volta a procurar Philippe Rebeyrol no Quai d'Orsay. Yara Ihe dizer que gostaria muito de ir para a Alemanha. J na époea da Ecole Normale estudara alemao para poder ler Husserl e Heidegger. Depois se apai- xonara por Nietzsche. E facil entender que a Alemanha exerea sobre ele uma alragio especial. Portanto, Foucault vai tomar o caminho que Sartre ¢ Aron seguiram antes da guerra: passar um ano numa grande cidade alema. Philippe Rebeyrol Ihe propde varias possibilidades: Munique, Hamburgo. A rede dos institutos culturais franceses na Alemanha é bem extensa. Foucault escolhe Hamburgo, Suas fungdes sic mais ou menos idénticas as que exerceu em Uppsala ¢ Varsvia: dirigir o Instituto Cultural, receber os conferencistas (assim conhe- cera Alain Robbe-Grillet) ¢ lecionar no departamento de linguas romanicas di Faculdade de Filosofia, equivalente da antiga faculdade de letras na Franga. Os alunos se lembram de suas aulas sobre literatura francesa, como de praxe, nas quais ele fala evidentemente do teatro contempordneo, um de seus assuntos prediletos, e comenta sobretudo Sartre e Camus. Depois de se demorar sobre o século XVIIL Como seu curso ¢ rotulady de “ensine complementar” endo € sancionado por um exame, ndo tem um pablico muito numeroso: dez a quinze pessoas assistem as aulas, S80 estudantes realmente apaixonados por literatura, e essa situagao the agrada mais que a de Uppsala. E prineipalmente enas duas horas por semana. ele leciona Na verdade se ocupa essencialmente do Instituto francés, situado na Hei- demer Strasse, $5. O apartamento do diretor se estende por quase todo 0 sc- gundo andar. Ali Foucault passara o ano de 1959-60. Além do diretor, hé qua- {ro professores que lecionam franc&s na cidade ou nas dependéncias do proprio Instituto. Entre eles estado Jean-Marie Zemb, hoje professor do Collége de Fran- co na cadeira de civilizagao alema, e Gilbert Kahn, sobrinho de Léon Brunsch- wieg e que foi ligado a Simone Weil, Como em Uppsala, Foucault dedica parte do tempo ao teatro, com o pe- queno grupo que Gilbert Kahn formou, Sugere que se monte a pega de Cocteau nle des veuves (A escola de vitivas) — a representagao sera em junhe de 100 1960 —, e fala muito sobre Cocteau a alguns estudantes que se tornam seus amigos, como Jurgen Schmidt e Irene Staps, dois pilares do grupo teatral, E depois, nao é surpresa, passa muite tempo na biblioteca da universi- dade, Termina sua tese principal, sabre Folie et déraison, e vai a Paris leva-la a Jean Hyppolite, que deseja ter como “orientador’’, Dedica-se entao a sua tese complementar; a tradugae da Amtropologia de Kant, para a qual planeja uma longa introdugao historia, Quando os dois trabalhos estéo conclufdas, prontos para ser defendidos, Foucault encontra uma vaga no ensino superior na Franga. Nao com o titulo de “professor”, ‘pois ainda tem de passar pela defesa. Mas como “auxiliar de ensino” numa catedra vaga com um grau que corresponde mais ou menos ao que hoje se chama na Franga maftre de conférence. A pro- posta chega de Clermont-Ferrand, ¢ Foucault decide encerrar provisoriamente seu exilio. Nunca mais ocupard cargos administratives ou desempenharé fungées culturais como aquelas que se prepara para deixar. Muitas vezes, no entanto, de fazé-lo renovar @ experiéncia. Em 1967, ao tornar-se embaixador tienne Burin des Roziers telefona para Foucault — que se encontra se cogitar em Roma, entao na Tunisia — para lhe propor que seja seu conselheiro cultural. A tenta- gio é grande. Mas a projeto nao se concretiza, pois j4 o Collége de France se perfila no herizonte. Antes, em 1963, Foucault aceitara se ocupar do Instituto cultural francés de Téquio. Porém o dedio da faculdade de Clermont-Ferrand suplicou ao ministro que nao Ihe tirasse um professor indispensavel ao bom andamento de seu estabelecimento, Bem mais tarde se falara em nomear Fou- cault conselheiro cultural em Nova York: em 1981, quando a esquerda chegar ao poder na Franga, Mas as discussdes nao levarao a nada, E sob outras madalidades que Foucault continuara sua obra de “embai- xador da cultura francesa no mundo”, como dizem os relatérios administra- tivos: tornando-se professor em Tunis, pronunciando conferéncias em dezenas de paises e sobretudo gragas a seus livros e ae enorme sucesso internacional que obtiveram. Foucault saiu da Franca em 1955 com a profunda impressto de que dali em diante sua vida estaria marcada pelo signo das viagens, pata nao dizer do exilio, Parecia que sua obsessio era estar em outro lugar, sempre em outro lugar. Nunca mais na Franga? Sim, talvez, mas usar esse pais com o qual tem relagdes conflituosas como base estratégica para organizar estadas mais ou me: nos longas em outras regides do mundo. Ao voltar & Suécia, em 1968, para uma 101 série de conferéncias, declara numa entrevista que, quando deixou a Franga em 1955, tinha a firme intengio de passar o resto da vida “entre duas malas", vagar pelo mundo todo “e prineipalmente nunca pegar numa caneta”: A idéia de dediear minha vide a eserever me pareeia entio completamente absurda ¢ CU nunca tinha pensade nisso, Foi na Suée ‘essil mania, esse habito horrivel de escrever cinco, seis horas por dia.!! . ha longa noite sueca, que adquiri Se ¢ entdo “uma espécie de turista no mundo, inutile supérfluo”. E acres- centa — & 0 comege de 1968: “Continuo me sentindo imatil, s6 que j4 nio sou turista. Agora estou pregado a minha mesa de trabalho"? Em 1955 Michel Foucault era um turista que nunca havia pensado em escrever? Talvez seja um exagero, pois ele j4 havia publicado alguns textos. Mas é verdade que a vida inteira considerou que nao havia realmente escolhido esse oficio de escrever. Trabathando em seus filtimos livros, com muitas dificuldades, hesitagites, arre- pendimentes e, no fundo, talver, certo cansago. uma vontade de largar tudo, esse tema voltara com muita freqiiéncia em suas conversas com os amigos: "Co- mecei a escrever por acaso, E uma ver que se comega, a gente se torna prisio- neiro dessa atividade, nio pode mais fugir", Sentird a tentagae de fugir desse conjunto de entraves. Mas sera que se pode escapar tao facilmente ans paptis nos quais se moldou a vida inteira? Foucault deixou a Franga em agosto de 1955. Volta para se reinstalar no vero de 1960. Ainda nao tem 34 anos, Quais terdo side os fatos marcantes de sua vida durante essa auséncia? Duas coisas esseneiais: primeiro a auséncia em si, Pois Foucault nao participou das transformagdes politicas que afetavam a cena francesa, no momento da guerra da Argélia ¢ do retorno do general De Gaulle a6 poder, Ficow & margem de todos os problemas que vio atormentar a esquerda, com a emergéncia de um poderoso movimente sindical estudantil, © Surgimento de moyimentos exteriores a influéneia comunista, sobretude nos meios universitéries — fatos que serio decisivos para o desenrolar dos acontec! mentos de maio de 1968. Durante a permanéncia de Foucault no exterior se produzem as surdas fendas que anos depois acabaraa sacudindo violentamente sociedade francesa. E também entao Foucault estaré ausente, Durante as lutas que dividem a Franca com relagao & guerra da Argélia ele est na Suécia, na Polénia, na Alemanha, Quando margo, abril e maia de 1968 explodem os quadros sociais, politicos ¢ institucionais do pais, ele esta na Tunisia. A segunda coisa importante ¢ que Foucault comecou, redigiu ¢ terminou Sua lese, Folie et déraison, Histoire de la folie d lage classique (Loucura ¢ des» ragilo, Hist6ria da loucura na era classiea). A obra deveria se chamar L'autre tour de folie (A outta forma de loucura) em referéncia & citagio de Paseal com 102 que se abre o prefiicio, No entanto, como se tratava de uma tese a ser defendid iit acabou optando por um tulo mais académico. O livro comega assim; Pascal! “Os homens sio to necessariamente loucos que seria outra forma de lou- cura no ser louco”. Ee “Nao é confinando o vizinho que nos convensemes dle nosso proprio bom senso’ E preciso fazer a historia dessa outra forma de loucura — dessa outra forma pela qual os homens, no gesto de outro texto de Dosioiéuski, no Biiiria de wm escriror: soberana que confing 9 vizinho, conunicam sem piedade da nio-loucura; encontrar 0 momento dessa eonjuragio antes que ela ve estabclera definitivamente no reina da verdade, antes que ela se revigore com o lirisme do protesto. Tratar de chegar, na histOria, ao grau zero da historia clada, experiéneia ainda ndo visida da separagio. Descr * que de parte a outra de — coisas doravante exteriores, surdas a qualquer éroe ese reconhecem através da lingua joucura, onde ela é experitncia indiferen- desde a origem de sua eu gesto deixa pendentes e@ come que mortas uma curvatura, essa “outra forma para a outra —a RazSo ea Loucura, Para poder percorrer essa “‘regido incSmoda" Foucault anuneia logo de inicio que é preciso “renunciar ao conforto das verdades terminais’”, quer dizer, abandonar coneeitos elaborades pela psicopatologia contemporanea: “E consti- tutivo o gesto que isola a loucura, & aciéncia que se estabelece, uma vez realizada essa separagao, na calma resultante". As categorias médicas isolam 0 louce em sua loucura, O louco eo homem de razia nao se falam mais: Nao existe Linguagem comum; ou melhar, niio exist cura em doenca mental formaliza separaga ais; a constituigde da lou- » final do sécalo XVIII, atesta um didlngo interrompido, elanga a0 esq weimenta todas essas palavtas imperfeitas, 8 quis se fazin & camunicagdo entre guagem da psiquiatria, que & mondlogo da razdo sobre a ser taxe fixa, um pouco balbuciantes, louewra ¢ raza. A Joueura, 96 pide se estabelecer sobre tal silencio. Segue-se a magnifica declaragao, freqiientemente citad: fine seu projeto em que Foucault de- Eu nao quis fazer a historia dessa I cio. agem; antes, a arqueclogia desse sil Fazer a arqueologia desse sil@ucio implica examinar toda a cultura oci- dental, Come “desde a Idade Média o homem europeu tem relagdo com uma coisa que cotfusamente chama de Loucura, Deméncia, Desrazio”, talvex seja preciso admitir que a relag§o Razdo-Desrazo constitui para essa cultura “uma das dimensdes de sua originalidade"’, que ela se define por essa profundeza que 103 A ameaga. B para essa profundeza que Foucault pretende nos levar, para essa “regilio onde importam mais os limites que a identidade de uma cultura”, B preciso fazer uma histér a dos fimites — desses gestos obscuros, necessariamente esque- cidos to logo se realizam, pelos quais uma cultura rejeita algo que seré para cla o Exterior; ¢ ao longo de sua historia, esse aco, esse espago vazio pelo qual ela se isola a designa tanto quanto a seus valores ... Interrogar uma cultura sobre suas experiéncias-limite € question’-la nos confins da histéria sobre um dilaceramento que écome o préprio nascimento de sua historia. Aqui Foucault ancora seu trabalho na descendéncia de Nietzsche: centro dessas experitneias-limite do mundo ceidental explode naturalmente a jo proprio tragico — Nietzsche mostrou que a estrutura tragica a partir da qual se far a historia do mundo ocidental outra coisa nda é sendo a recusa, oesquecimento ea basesilenciosa da tragédia Mas “‘muitas outras experi@neias gravitam” em torno dessa experiéncia central ¢ cada uma traga nas fronteiras de nossa cultura “um limite que ao mesmo lempo significa uma separagle originaria”’, Foucault quesia ser 0 asquedlogo de todas essas experigneias ameacadoras mas recusadas, reprimidas, esquecidas ¢ sempre presentes. Ele anuneia uma série de estudos que se desenvolverao luz “da grande pesquisa nictzschiana” e procurarao relatar as outras separagdes sobre as quais se edificou nossa cultura. Cita duas: o isolamento absolute do sonho, que o homem nda pode deixar de nterrogar sobre sua propria verdade — seja s de seu destino, seja a de seu eorapda —, mas que ele questiona s6 além de uma recusa essencial que 0 constitui ¢ 0 rejeita na derrisao do onitismo, pois a historia, ¢ nao s6 em termos de etnotogia, das proibigdes sexuais: em nossa cule tura faiar das formas continuamente méveis ¢ abstinadas da repressdo, € no para fazer a erdnica da moralidade ou da tolerancia, mas para trazer a lue, como 0 limite do mundo ocidental e arigem de sua moral, a separagiio trigica do mundo feliz edo desejo Havia, contude, uma tarefa primordial a realizar: “falar da experi@ncia da loucura”, reencentré-la antes de sua captura pelo conhecimento e pelo dis: curso cientifico, ¢ mais intensamente ainda deixé-la se expressar, deixé-la se dizer com “esas palavras, esses textos que vém de sob a linguagem e que nao foram feitos para ter acesso A palavra”."" i04 Tal 6 projeto que Foucault anun se longo prefacio de umas d pliginas, suprimido na reedico de 1972, Mas do que trata o livro em si? Evi- dentemente é impossivel reconstituir todas as anilises que se estendem por mais de seiscentas paginas impressas, to ricas, densas, desconcertantes as vezes, contraditérias também, e que passam de um registro a outro, invocando tanto o nivel écondmica (muito presente nos livros de natureza histérica de Foucault. as vezes derrapando para um “economicismo" bastante surpreendente? quanto tne © nivel juridico ou artistico para desenvolver a linha mestra da argumentagio Vamos tentar apenas apresentar algumas articulagtes dessa vasta demonstra- yao, citando © proprio Foucault, cujo estilo é entao muito diferente do que adotara mais tarde, Quando a loucura ainda tem direito de cidadania na sociedade, ou seja, em pleno Renascimento, existe j4 um movimento de cisto que se opera entre duas formas de loucura. De um lado, a dos quadros de Bosch, Breughel ou Diizer, inquietante, obcecante, ameacadora, que parece revelar o segredo pro- funde em que vai se abolir a verdade de nosso mundo de aparéneia, uma lou- cura gue tem parte com as forcas do mal ¢ das trevas, que se assemelha a vitéria de Satanas. Do outro, como em Erasmo, em set Elogia da laxcura, uma lou- cura com a qual a razao dialoga, mas ja colocada a distancia, tomada no uni« verso de discursa, ¢ que evocamos apenas para dirigir sua forga critica contra a ilusie humana e sua pretensio. De um lado uma loucura profundamente tré gica. Do outro uma loucura quase domesticada, cuja violéneia se atenua sob o olhar irénico do humanista, Jé esta ai a brecha que ndo deixard de crescer aa longo dos séculos. E é aqui, talvez, que ocorre a divisio entre dois caminhos, Um, o da consciéneia eritica, que levara & ciéneia médica. O outro, 0 das figu- ras tragicas, que devera se calare n&o obstante ressurgiré nas obras de Gaya, Van Gogh, Nietzsche e Artaud. Em todo caso e apesar de tudo, a loucura ainda esti presente e é comum nesse momento em que a ruptura jé se processa, No século XVII ocorre uma mudanga; a loucura é rejeitada e banida, Esse movimento que Foucault chama de “acontecimento clissico” comporta dois “aspectos”.* De um lado a loucura é recusada por um gesto soberano da razio, que a exclui e a relega ao siléncio, com a férmula modelar de Descartes, “ora, so loucos", na primeira Meditagdo. quando evoca e depois descarta os fundamentos de uma dtivida possivel sobre as verdades que o pensamento julga pereeber com evidéncia. Um homem pode muita bem ser louco, os direitos do pensamente nic mais em perigo, De outro lado a loucura é confinada, internada. Aqui os motives econémicos, politicos, morais ¢ religiosos tém um peso enorme: nesse “grande confinamento” que atravessa o-século XVII, os pobres, os ociosos, os mendigos, os vagabundos, aos quais se acrescentam os is Yao se encontrar com os insensatos se esta- devassos, os libertinos, os homossexua atras dos mures do hospicio, Escreve Foucault: “Talvea seja ali que va 105 belecer esse parentesco da desrazio eda cultura que o alienado sente em nossos dias como um destino e que o médico descobre como uma verdade da natu reza".!" De qualquer modo se passou da loucura & desrazio, da época em que a Joueura tinha sua especificidade 4 época em que ela sé dilui no grupo dos in ternos, dos quais é preciso “corrigir’’, Pois o internamento organiza mais a puNigdo, o castigo, do que o tratamento dos que ali se encontram. Mas definindo assim a face do que deve ser reprovado e banindo-o radi calmente da sociedade, o “grande confinamento’’ nio s6 desempenhou um pa- pel negative. Também “eonstituiu um eampo de experiéncia, aproximando num ea npo unitério personagens valores cutre os quais as cultusas preeedentes nao haviam pereedide nenhuma semelhanga: imperceptivelmente ele os deslecou em dirego & loucura, preparando uma experiéncia — a nossa — em que se desta- carlo como integrados jf 20 dominio periencente 4 alienagao mental.17 Por outro lado a desrazao é localizada e destacada em sua presenga concreta Pode se tornar “objeto de pereepeiio”. E este é sem dtivida um tomento crucial do tivro de Foucault: m.que horizonte cla foi percebida? No de wma tealidade social, é evidente, A partir do século XVII a desrazSo j4 nfo é a grande assombragio do mundo; ela deixe também de ser a dimenstio natural das aventuras da razio, Assume a apa- de um fato humano, de uma variedade cspont&nea no campe das espécies sociais, O que antes era inevitivel perigo das coisas e da linguagem do homem, de sua razao @ de sua terra, assume agora a figura de uma personagem. Ou melhor, de personagens. Os homens de desrazio sio tipas que a sociedade reconhece ¢ isola; ha o devasso, o esbanjador, o homossexual, © magico, 0 suicida, o libertine, A desrazio comeca a se medir segundo um certo afasiamento em relagio & norma social .., Este €0 ponte essencial: que a loucura tena sido bruscamente investida num mundo social onde eneontra agera seu lugar privilegiado ¢ quase exclusivo de aparecimento; que se tenha atrituido a ela quase que de um dia para ¢ outro um espace limitado onde cada um pode reconhect-la ¢ denuncié-la — ela, que se tinha visto vagar por todos os confins, habitar sub-repticiamente os lugares mais jue se possa a partir dai ¢ em cada uma das personagens em que ela se encarna, exoreizé-la deum golpe, par medida de ordem e precaugia de policia. familiares — Ene: ad ¢ momenta Foucault pergunta: "Nae é importante para nossa cultura que ‘azo s6 tenha podido se tornar objeto de conhecimenta na medida em que antes foi objeto de excomunhao?’.'* Mas no interior dessa canstelago que forma a desrazao a figura da lou- cura pouco a pouco vai reconguistar um lugar especial. Porque se acabou ques- tionando o proprio valor do confinamento de um ponto de vista econdmico e se chegou a conclusao de que era melhor politica dar ao mereado de trabalho todos 0s capacitados. Como tratar a pobreza pelo encarceramento? Nessa linha a 106 loucura vai se encontrar novamente separada das outras formas com as quais habitava no conjunto da Desrazto. E vai ocupar sozinha esses lugares de confi- namento que dividia com elas. Os insensatos se véem sozinhos, com os médicos que se ocupam deles. E o surgimento da asilo, o tratamento da internagdo e€ as condigSes dadas para a constituicao da loucura em “doenga mental”. Os alie- nados doravante sao libertados de suas correntes, mas nao se deve aceitar inge- nuamente a mitologia positivista que canta as virtudes dessa libertagao e se atribui as honras de t@-Ia prapiciado: Q asilo da época positivista, por cuja fundagao se glorifica Pinel, nao ¢ um livre dominio de observagio, de diagndstice ¢ de terapéutica; é um espage judiciari onde a pessoa é acusada, julgada e condenada e do qual sé se libera pela versio. desse proceso na profundeza psicoldgica, quer dizer, pelo arrependimento, A lou- cura serd punida no asilo, mesmo que inocentads do lado de fora, Durante muito. lempo € pelo menosaté nossos dias, ela é aprisionada num mundo moral. E Foucault acrescenta: Acredita-se que Tuke e Pinel abriram o asilo ao conhecimento médico. Eles nao. introdusiram uma ciéneia, mas uma personagem cujos poderes emprestevam a esse saber apenas os disfarces ou, quando muita, sua justificativa ... Sea perso- nagem médica pode delimitar a loucura, nfo é porque @ conhece, mas porque a damina; ¢ 0 que para o positivismo se apresenta camo objetividade nfo passa da outra vertente, a base dessa dominago.!? Por mais que cante vitéria a ciéneia médica ainda nao ganhow a partida. Pols para Foucault o asile construido por Pinel nao tera servido para proteger ‘© mundo moderno da loucura. Se a loucura ja nao é apresentada como a noite em oposigao a luz do dia, mas coma uma realidade observavel cuja verdade o homem normal atesta, deve-se admitir, em contrapartida, que essa verdade esta ligada A loucura: “Em nossa época o homem s6 encontra sua verdade no enigma do louce que ele é ¢ nao é; cada louce traz e nao traz em si essa verdade do homem que ele poe a tu na base de sua humanidade”’, Em suma: "O homem e 0 louco estiio ligados por esse elo impalpavel ¢ de uma verdade reciproca e incompativel”’. E depois, no momento em que a desrazao parece destinada a desaparecer, é preciso ouvir principalmente os que retomam sua tocha. Tocha de trevas ¢ de noite, de negago infinita. Eis Goya e “essa loucura tio estranha experiéncia que the é contemporfinea", Niio transmite ela para aqueles quesao capares de acolhé-la — Nietesche € Artaud — essas palavras quase inaudiveis da desrazio cléssica, onde se trataya do nada € da noite, mas amplificando-as até o gritoe a furia? Mas dando-thes pela primeira vez uma expressiio, um direito de cidadania ¢ ume influéncia sobre a cultura oci dental, a partir da qual se tornam possiveis todas as contestagies e a contestagio total? Devolvendo-as a sua primitiva selvageria? 109 Bis Sade, em quem, como em Goya, ‘a desraz&o continua a velar emsua noit Contudo “por essa vigilia cla se une a jovens poderes”. Através de Goya e Sade ‘o mundo ocidental recolheu a possibilidade de ultrapassar na vieléncia sua razio ¢ de reencontrar a experiéncia tragica além das promessas da dialética”, O livro-de Foucault termina com esta declaracao: Astiicia e novo triunfo da loucura: este mundo que juiga medi-la, justified-la pela psicologia, deve se justiliear diante dela; pols em seu esforgo e em seus debates ele rai semedea desmodida de obras como aside Nietzsche e Van Gogh e Artaud, E nada nele, sobretudo nfo o que ele pode canhecer da loucura, the garante que essas A ORDEM DAS COISAS obras de loucura o justitiquem, * I O TALENTO DE UM POETA “‘Iniciado ao longo da noite sueca" € concluido ‘ao sol teimoso da liber- dade polonesa”,! Folie et déraison resultou num imenso manuserito de quase mil paginas, Exatamente 943, precisa Georges Canguilhem, sem contar os apéndices e a bibliografia. O prefacio, redigido depois do texto, traz a seguinte data: “Hamburgo, 5 de feverciro de 1960". Na época a obtengao do doutorado ¢ a apresentagaio de duas teses, e essa obra deve constituir a tese principal A tradugao da Antropotogia de Kant, anotada e precedida de uma longa intro- dugdo de 138 paginas datilografadas, servird de tese eomptementar. Antes de voltar para a Franga, Foucault procura um “patrono" para ser seu “orientador” — na verdade apenas © “relator” paras defesa das teses, pois nao ha mais o que orientar: os dois trabalhos estao concluides. Por acasiao de uma breve viagem a Paris, Foucault visita Jean Hyppolite ¢ Ihe pede que seja seu apresentador, Ocupado com a diregao da Ecole Normale Supérieure, Hyppolite aceita o papel apenas para a tesc complementar; conhece bem © pensamento alemio e a histéria da filosofia, ¢ sua especialidade. Mas com relago & tese principal, que ele Ié “com admiragao"” prefere remeter seu ¢x-aluno a Georges Canguilhem. Ha alguns anos Canguilhem leciona histéria das ciéneias na Ser- bonne, e Hyppolite o considera mais qualificade para tomar sob sua autoridade universitaria esse vast afreseo sobre a loucura através dos tempas que em nada se parece com uma tese clissica de filosofia. Canguilhem deveria se interessar pela tema, pois defendeu uma tese de medicina sobre Le xormal et le patholo- gigue (O normal e o patoldgigo). Assim Michel Feucault vai reeneontrar o ho- mem que ja oficiara dois primeiros ritos de passagem que marearam o inieio de sua carreira universitéria: 0 concurso de ingresso & Ecole Normale Supé- rieure e a prova oral da agrégation. O reencontra ocorre no vestibulo de um anfiteatro da velha Sorbonne ande Canguilhem se prepara para dar sua aula momentos depois, Foucault Ihe expde em linhas gerais o que pretendeu fazer: Jil no inielo d mostrar como se estabeleceu a divisto qu racionalismo clissico Apartou a loucura e c mo @ (coria psiquidtrica fnventou, modelou, delimitou seu objeto, a doenga mental, Canguilhem escuta e comenta com uma frase lacd- em sus “Se isso fos a gente saberia’’, Mas Ié 0 trabalho e sente “um verdadeiro choque”. Esta convencido de que tem sob os jos uma obra de primeira linha ¢ sem hesitar aceita ser o relator. Apenas ault que modifique ou atenue algumas passagens que considera peremptérias demais, Cioso da forma literaria que deu ao livro, Foucault pre- fore nio modifiear nada, A tse seré defendida e a obra serd publicada nessa forma inicial que Canguilhem acaba de ler. Talvez devamos nos demorar wm pouco nessa figura que novamente vai interrogar e julgar Foucault no dltimo obstéculo do pereurso institucional que voz bruse: Suge ore condur ao nivel de “professor universitario". Foucault tinha certa acriménia com relagdo ao “Cang™, como o chamavam na Ecole Normale, mas acabari Jendo seus trabalhos, dos quais tirar proveito. Como poderia ignora-les total- mente, se Althusser nao perdia 2 oportunidade de chamar a ateno dos alunos arauto da filesofia das ciéneias numa época em que triunfam os exis- listas? Assim, Foucault supera sua irritagéo pessoal ¢ 18 Le normal et athatogique ou os artigos que Canguilhem de vez em quando publica nas specializadas. Pois Canguilhem € acima de tudo um professor ¢, como ti, "um organizador da tribo filos6fiea"". N&o publica grandes volu- oes delimitadas; constrdi pouco a pouco © que aeabaré com- pondo obras eélebres nos meios profissionais: La conaissance de ta vie (O eonhe- cimento da vida), Etudes d‘histoire et de phifosophie des sciences (Estudos de historia ¢ de filosofia das cigncias). Jdéologie et rationalité dans des sciences de [a vie (Ideologia e racionalidade nas ciéneias da vida), No prelicio de Folie ef dératson, Michel Foucauit cita Canguilhem como wm de seus mestres ¢ em Suu aula inaugural no Collége de France, em dezembro de 1970, reitera a home: nagem, Mas no funde a influéneia de Canguilhem sobre ele sem divida se exer- cou principaimente entre esses dois momentos, ¢ portanta mais sobre Natssance de Ja clinique que sobre Folie et déraison. Foucault parece dizer isso numa carta dirigida a Canguilhem em junhe de 1965: para e tenci te rovista diz Des: mes, mas colaba omecei a trabalhar, faz dez. anos. eu nfo o conhecia nem conhecia seus teria feito © que fiz se ndo os tivesse Lido, {Meu trabalho) traz sua 9 sei bem lhe dizer como, nem em que lugares exatos, nem em parém a senhor deve perceber que mesmo e principal mente minhas “‘contraposigtes" — sobre o vitalismo, por exemplo — s6 sho possi marea profunda. que aspectos de“ mézodo veis a partir do que o senhor fer, dessa camada de anilises que 0 senhor introdu- ziu, dessa “eidética epistemolbgica” que o Senhor inventou. Realmente a Clinique © 0.que se segue vém dai e talvez ai repousem total ip essa relaga ente, Um dia tere de ava- lar comvexa Para “avaliar com exatidlo essa relacdo” ¢ talvez compreender a influéne! desse professor discreto sobre toda uma geragao de filésolos, deve-se ler 6 longo preficio que Foucault redigiu para a edig&o americana de Le normal et te pathologigue em 1977, Nesse texto ele insiste sobre o papel que Canguilhem desempenhou nos debates de pensamento franeés ao longo dos anos 60 ¢ 70: se homem cuja obra auswera, voluntariamente delimitada ¢ cuidadosamente dedicada a um campo especificn numa histiria das eiéneias que, de qualquer é uma disciptina espetacular, de certa forma encontrou-se presente nos modo, n debates a que sempre se absteve de comparecer pessoalmente No entanto compal uma vez, uma Unica vez, ao comentar Les tors et les choses num artiga ¥igoroso e muito comentado« “Porque eu estava irritads com as eriticas dos sartrianos a Foucault”, lembra hoje Canguilhem. Apés a morte de Foucault ele prestou homenagem ao amigo num magnifico artigo que recons- litui a coeréncia do pensamento foucaultiano desde Histoire de da folie até os liltimos volumes da Histaire de a sexwalité® Em janeiro de 1988 presidiu o colaquio realizado em Paris sob o tema “Foucault filésofo”", que reuniu pesqui- sadores do mundo lode. “Georges Canguilhem nasceu em 1904 em Castelnaudary, no sudoesie da Franga, Fez parte da famosa turma de 1924 na Ecole Normale Supérieure, com Aron, Sartre e Nizan, Depois de passar pela agréigatton de filosofia, langou-se a estucos de medicina ¢ em 1943 defendéu tese. Hm plena guerra e com a Franga ocupada. A universidade de Strasbourg onde lecionava na épaca transferiu-se para Clermont-Ferrand, Canguilhem continua dando suas aulas, ao mesmo tempa que participa da Resistencia. Apos a Liberagao retoma seus cursos em Strasbourg antes de se tormac inspetor geral de ensino, Nesse perfodo provoca a profunda hostilidade dos professores secundatios, euja competneia pedagbgioa Ihe cabe avaliar, Suas inritagdes, seus modos rispidos o fazem temido ¢ até detestado. Ainda hoje circulam muitas histérias pouco amenas sobre seus com- portamentos ¢ suas expressdes no exeteicia dessa fungao de “inspetor"', cujo nome basta para despertar desconfianga. Mas em 1985 Canguilhem € nomeado aston Bachelard, e com certeza a partir dessa para a Sorbonne, sucedendo a data sua influéneia passa a marear profundamente a paisagem da Filosofia n. Franga: influéneia subterranes, quase invisivel; influgncia gue ficard na sombra até Foucault a revelar com teda a justica. Pois durante toda a sua vida Cangui tica cientifica seguindo a otientagae them reiletiu sobre os problemas da p de Bachelard, mas concentrando-se nas ciéncias da vida e deixando de lade fisica, Interessou-se principalmente pelas relagdes entre a ideologia e a raciona- lidade, pelos processos da descoberta, pelo papel do erro na procura da “ver- dade", nogao que também questiona, Assim, conforme demonstra Foucault em seu texto de 1977, faz parte dessa linhagem de filésofos encarnada por Ba- A shelard, Cavaillés, Koyré, que se opte fundamentalmente © desde sempre a nhagem Adverse da filosofia da experiéneia encarnada por Sartre e Mert Ponty, pelos existencialistas e fenomenologistas. Canguilhem atuou, portanta, como um ponto de convergéncia, seu nome nou-se uma espéele de slogan. uma palavea de ordem para todas que procu- ravam sair dos caminhos batidos da filosofia do sujeito, quer dizer, para tados S que, dos anos SQ aes anos 80, procuravam renovar o discuitsa tedrico da losolia, da sociologia ou da psicandlise, Pode-se dizer que de certa forma iguilhem foi um precursor de estruturalismo, ou melhor, aclimatou name- Fosos pesquisadores jovens ao que se tornaria o estruturalismo, expondo-Lhes © que se poderia chamar de hist6ria estrutural das ciéncias Na época é preciso imprimir uma tese para poder defendé-la. E 0 dedo da laculdade chamada a coneeder 0 titulo de doutor deve dar sua autorizagdo. Canguilhem se enearrega de redigir 6 “relatério para abter permissao de impri- mir como tese principal ao doutorado em letras"’, Em 19 de abril de 1960 es. ereve varias paginas datilograladas para resumir a obra, sobre a qual faz uma apreciag%o muito elogiosa. Eis um trecha do longo texte que ele conservou em seus arquivos pessoais: Percebe-se qual pode ser o interesse deste trabalho. Como monsicur Foucault nunca perdeu de vista a variedade dos empregos que desde @ Renascimento até hossos «lias @ loucura oferece ac homem moderne, nos espelhos das artes f Asticas, da literatura © da filosofia; como ele ora separou. ora reaniu uma série de fies condutores, sua tese se al enila come um trabalho ao mesmo tempo de analise ¢ de sintese, cujo sigor nem sempre torna a leitura facil, mas que sempre grati inteligéncia E Canguilhem acrescenta: Quanto A document ur Foucault releu e reviu, leu e explorou pela primeira vez uma quanticlade considefivel de arquivos. Um historiador protissio nal nfo deix: har com simpatia @ esforgo feito por um javem fildsofo para ter acesso de primeira mao aos documentos. Por outro lado nenhum filésofo po- tera caull por haver alienado a autonomia do julgamento filosdfico submetendo-o as fontes da informagao histériea, Ao trabalhar com sua considerfvel documentacac. o pensamento de monsieur Foucault canservou sen- pre um rigor dialéifeo resultante em parte de sua simpatia pela visto hegeliana da sua familiaridade com a Fenodrenalogia do espirito, A originalidade désse trabatho consiste essenciaimente n censurar monsieur F toriae & ctomada, ém nivel superior, da refle um material que até entio os Filésofas e os bist quiatria deixaram a Jiv No filos fi indores da psi disposigao dos psiquiatras interessados, em geral por questo de moda ou de convengio, na hist6ria ou na pré-historia de sua espe cialidade E Georges Canguilhem termina com uma formulag&o que responde aos tequi- sitos ofi Creio, portanto, poder eancluir, na conviegao que tenho da importancia das pes- quisas de monsieur Foucault, que seu trabalho merece ser defendido perante uma banca da faculdade de letras € proponke ao senhor deio que autorize a im: pressia.* A autorizagho @ concedida, claro, Falta encontrar um editor. H4 muito tempo Michel Foucault sonha em ver sua tese publicada pela editora Gallimard, que publica os grandes nomes da geraco anterior, notadamente Sartre e Mer- leau-Ponty. Apresenta seu manuscrito a Brice Parain, do comité de leitura da tue Sébastien-Bottin. Brice Parain é amligo de Georges Dumézil. Os dois se conheceram na rue d’Ulm depois da Primeira Guerra Mundial, quando todas as turmas se confundiam na Boole depois de resiabelecida a paz ¢ desmobili- zados os soldados. Entre 1941 ¢ 1949 Parain editou varias obras de Dumézil. Mas as colegaes que ele Jangou malograram, pais nao yenderam o suficiente Foi por causa desse fracasso que Brice Parain passou a desconfiar de tudo que parecia trabalho académico? No comego dos anos 50 recusou a coletinea de artigos de um etndlogo autor de um tinico livra sobre Les structures éémen- taires de la parenté (As estruturas elementares de parentesco), Claude Léy Strauss — sim, era ele — teve de esperar alguns anos para publicar essa eole- tinea na editora Plon sob um titulo destinado a fazer fortuna: Anthropologie structurale (Antropologia estrutural).’ Da mesma forma e apesar da protegia de Dumézil, que nao deixa de acompanhar Foucault em cada passo de sua ‘ain recusa o livro que o jovem fildsofo Ihe apresenta. “"NBo carreira, Brice Pa publicamos teses", explica, em suma, ao autor, que fica muito aborrecide e durante anos contara a histéria a seus amigos nos seguintes termos: ‘Nao que- riam meu livro porque tinha notas de pé de pagita”. Mas a ida a editora Galli- mard nao tera side indiil. Pois outro leitor da ease é consultado: Roger Caillois, Ele também tem lagos com Dumézil. Foi seu aluno na quinta segio da Ecole Pratique des Hautes Etudes. Caillois faz parte do jiiri dos “Prix des critiques’ e decide submeter o imponente manuscrito a outro membro do juri. Gostaria de saber sua opiniie: uma obra dessas pade ter sucesso? Maurice Blanchot nao tem tempo de ler o livro inteiro, Lé o bastante, porém, para avaliar sua impor- tancia, Comunica seu entusiasmo a Caillois. E 0 dird publicamente no ano se- guinte, quando do langamento da obra. A opiniio favoravel de Blanchot nfo basta para que o livro obtenha o “Prix des critiques". O parecer de Caillois nao bastow para que a Gallimard publicasse o livro, N&e importa, Foucault vai encontrar uma solugae, Jean De- 1s Jay j4 the propés incluir « obra numa colego que dirige nas Presses Universt- taires de France. Mas Foucault gostaria que seu livro escapasse ao gueto das toses, Ficou impressionado com o sucesso de Claude Lévi-Strauss ¢ 0 dira: admi- Fava a maneira como o antropélogo destruira a fronteira que separava o puiblico especializada dos trabathos universitérios ¢-0 vasto pblico erudito. Ora, apés a recusa da Gallimard, Lévi-Strauss encontrou reftgio na Plon, onde publicou Tristes tropiques( Tristes trépivas) em 1955 e Anthropologie structurale em 1958, Acontece que Michel Foucault conhece bem Jacques Bellefroid, conse- rarie na editora Pion, Encontrou-o em Lille, Bellefroid era entaa aluno do lieu ¢ amigo de Jean-Paul Aron. Nessa época instalou-se em Paris ¢ dew inicio a sua carreira editorial e literaria. Sugere a Foucault que entregue seu Manuserito ao editor que divulgou o trabalho de Lévi-Strauss, Mais de vinte anos depois Foucault relata 0 episédio: theiro ‘A conselho de um amigo Jevei men manuscrito a Plon. No fim de alguns meses fui busciclo, Deram a entender que para me devolver o livro precisavam antes encon- ‘ré-lo. E depols, um dia, encontraram-ne numa gaveta ¢ perceberam que era um. livro de historia, Incumbiram Aries de I-10, Foi assim que a conheci." Realmente Philippe Arits dirige uma colecao intitulada “Civilisation hier et d'aujourd'hui", A editora Plon queria se renovar ¢ promover colesdes de prestigio: Eric de Dampierre se ocupa de sociologia e publica especialmente lugdes de Max Weber. Jean Malaurie langa a colegho “Terre humaine”. Aries cuida de historia. Em sua colecdo j4 publicou Classes lakorteuses, classes dangerewses (Classes laboriasas, classes perigosas), dé Louis Chevalier, © um livro de sua propria autoria, L'enfant er ta famille sous "Ancien Régime (A € 4 familia no Antigo Regime). E um belo dia escreve em seu livra de memérias: orian ‘Chegou a minhas mos um manuscrito imenso: uma tese de filosofia sobre as relaydes entre a loucura e a desrazio-na épecu classica, de um autor que eu no conliecia. Fiquei encantado. Mas foi uma luta para conseeuit impé-lo. Pois o vento de abertura que soprou na Plon nao dura muito ¢ os novos donos véem com maus olhos essas colegdes prestigiosas, sem dtvida, mas evidente- mente bem pouco lucrativas. Aris insiste. E obtém ganho de causa, Folie et déraison serd publicado com a marca da Plow. Foucault guardard para sempre imensa gratidao por esse homem que tinha tudo para lhe ser hostil. Pois o encontro dos dois n@o é banal. Eles sic como a noite ¢ 0 dia, o dembnio e © bom Deus. Aris 6 catélico, integrista, durante muita tempo foi monarquista ¢ sempre expressa idéias de direita, para hilo dizer de extrema direita. E dificil imaginar alguém mais tradicionalista. F no entanto, esse historiador sem catedra, esse homem marginal. mantide 116 ee toriador A distiincia das instituigdes universitérias e que se define como um " bissexto” era, talver — apesar das aparéncias —, o mais capaz de reconhecer a forga Inovadora que percorre essa obra Impossivel de se rotular, imune as cagdes académicas a que acabam de submeté- Por ocasido da morte de Arits, anos depois, Michel Foucault esereve: clas: Philippe Ariés era um homem do qual seria diffcil nae gostar: ia religiosamente & missa em sua parbquia, mas tomava o cuidado de tapar os cuvidos com bolinhas de cera para nao ter de agilentar as baboseiras litirgicas do Vaticano [1 E acrescenta, Jalando dos livros do historiador: Alernadamente ele estudou os fates demogrificos, nflo come pane de funde bio- agico de uma sociedade, mas como uma ferma de se conduzir com relagio a si mesmo. & sua descendéneia, ao futuro; depois @ infancia, que considerava uma fase da vida qué a atitude ¢ a sensibilidade do mundo adulto delimitam, valorizam 2 modelam; por fim a morte, que os homens ritualizam, encenam, exaltam e as vezes, como hoje, neviralizam ¢ anulam, “Historia das mentalidades” — cle mesmo usou o terme, Mas basta ler seus livros: ele faz uma “histéria das pré- 2 obstinados e das que podem s", das que tém a forma de habitos humilde criar uma arte suntuosa; ¢ procurou revelar a altitude, a manvira de fazer. de ser de agir ow de sentir que podia estar na base de umas © outras, Alento ao gesto mud que se perpetua hd milémios como & obra singular que dort num inuseu, ele eriou o principio de uma estilistica da existéncia — quero dizer, de um estudo das formas pelas quais o homem se manifesta, se inventa, se esquece ou se nega jade de ser vivente © mortal.!! emt sua fatalid Esse texto, escrite em fevereiro de 1984, traduz o sentimento de Foucault num léxico peculiar: o do trabalho que cle est coneluindo nesse momento sobre aarte de governar a si mesmo, sobre a estética do cu — trabalho que quatro meses depois. As vesperas de sua morte, levarit aos dois volumes intitulados L usage des plaisirs ¢ Le souci de soi. Mas percebemos muito bem ai os motivos que presidiram 4 relacdo duradoura e ao primeira contato insélite entre os dois, homens. Vemes principalmente a admiragio verdadeira, sincera, fiel de Fou cault por Ariés e 0 quanto se empenhava cm dizer ¢ redizer que tinha para com ele uma “divida pessoal” pela qual Ihe era “‘grato" Sabado, 20 de maio de 1961: “Para falar da loucura seria preciso ter o talento de um poeta", conclui Michel Foucault depeis de deslumbrar o jtiri ¢ platéia com a brilhante apresentagio de seu trabalho. “Mas o senher o tem”, responde Georges Canguilhem, Passou-se pouco mais de um ano desde 0 mo mentoem que os dois homens se encontraram no vestibule de um anfiteatro da, i? Sorbonne para falar sobr Morme exige o rit a defesa da tese ¢ essa tarde de primavera em que, ocandidato expde aos membros do jai as linhas gerais ites de ser submetido a cerrada argiigdo. A sess%o comegou sala Louis-Liard: um local reservado as teses importantes ¢ de sua pesquisa As treze e trinta na Cujo aspecto solene impressionow, com o estrado, a longa tribana em toda a sua extensito, seus ancestrais lambris de madeira, suas fileiras de arquibancadas de jy la lado, como o bate&o de um teatro italiano, sua iluminagio sombria e ve- luda — estd quase escuro... A afluéneia ¢ consideravel. Claro, ainda nao € a multidae que dex anos depois se acotovelard para a aula inaugural no Collage de France. Mas a sala est cheia, quase uma cetttena de pessoas, todas conscientes de que vio presenciar um acontecimento, Henri Gouhier preside o juri. E historiador da filosofia, professor da Sor bonne desde 1948 ¢ foi designado "presidente" por ser “o titular mais antigo no krau mais ¢levado" dentre os membros de juri, E a norma. Gouhier é um ho- mem afavel, aberto, um erudito de competéneia polifénica sempre minucioso, Reputado por seus trabalhes sobre Descartes, Malebranche e Maine de Biran, mas também por seus livros sobre Augieste Comte et la nuisance du positivisme (Auguste Comte © 6 naseimento do positivismo). Também é conheeide por sua Paixdio pelo teatro, Em 1952 publicou um ensaio sobre Le thédtre et lexistence (O teatro ¢ a existéncia) ¢ em 1958 sobre L aeuyre thédtrale (A obra teatral). Na époea escreve crénicas teatrais para a revista La Table Ronde. A sua volta estilo reunidos Georges Canguilhem, evidetitemente, e Daniel Lagache, com quem Foucault estudou psieologia ¢ que ocupa a cAtedra de psicopatologia da Sorbonne, Canguithem ¢ Lagache sao velhos cimplices. Conheceram-se na tue Ulm endo 56 lecionam na Sorbonne como lecionasam juntos durante a guerra. Lagache foi mobilizado como médico legista em 1939. Feito prisioneito, fagiu ¢ foi para a universidade de Strasbourg, deslocada para Clermont-Ferrand. Nessa cidade encontrou Georges Canguilhem, que assistia a suas aulas e a suas ap: sentagdes de enfermos. Quando Canguilhem publicon sua tese de medicina, Lagache a resenhou no Bulletin de ta faculté des tessres de Strasbourg — meses depois o mesmo texto foi publicado na Revue de métaphysique et de morale,” Emm 1946 ele defendeu sua tese sobre La jalousie amoureuse (O ciime amorosa) @no ano seguinte, como vimos, foi nomeado para a Sorbonne. Em 1953 fundou com Jacques Lacan # Société Francaise de Psychanalyse, apesar das divereén- elas que jé havia entre ambos, Em 1958 publicou uma obra sobre La psycha- nalyse et la strreture de la personnalité (A psicanilise va estrutura da persona- lidude} ¢ iniciou o vasto projeto do Vocabulaire de fa psychanalyse (Vocabulario ht psicandlise) pata o qual convocou dois jovens colaboradores: Jean Laplanche ¢ Jean: Bertrand Pontalis. Gouhier, Canguilhem, Lagache, A luta niio vai set facil para o candidato sue deve enfrentar esse trio de eminentes especialistas. Principalmente eonsi- LS derando que @ defesa de tese procede tanto do rito iniciatério com suas provas obrigatérias © suas necessarias armadilhas, como do debate intelectual, / Mas o pablico deve aguardar para sé deleilar com as alocugdes e os dié- logos sobre Folie et déraison. Antes Foucault deve responder sobre a Autro- pologia de Kant, pois a defesa comega pela “pequena tese", E para isso ele tem a sua frente Jean Hyppolite e Maurice de Gandillac, professar da Sorbonne, grande conhecedor da Idade Média ¢ do Renaseimento ¢ tradutor de numerosos textos alemies. Foucault explica o que pretendeu fazer e declara que. para compreender esse texto de Kant, escrito, remanejade, transformade durante quase 25 anos, 6 necess4rie cruzar andlise estrutural ¢ andlise genética. Como essa obra terminal foi elaborada, de que sucessivos sedimentos se alimentou? lise genética, Qual é a situagHo dessa obra na disposigdo global e interna do sistema kantiano, qual é a relagdo dessa Arerapologie com o movimento "e tico” desenvolvido por Kant? Andlise estrutural. Nessa exposigo oral — € no texto da tese — Foucault utiliza muito um yocabulério que se tornaré célebre. Fala em fazer a “arqueologia do texto kantiano”, pergunta-se sobre as "cama- das" de sua “geologia profunda”, ete. Essa “‘pequena tese”” nunea ser publ cada. $6 a tradugao do texto de Kant vira & luz através da editora Vrin, em 1963, embora Foucault, respondendo a certas criticas do jtiri, declare que o tra- balho niio se destinava & publicagdo, era apenas o ponto de partida de um ques- tionamento geral sobre a possibilidade de uma antropologia filosdfica. Quanto ao resto, preferira deixar as 130 paginas da imtrodugao dormindo nos arquivos da Sorbonne, onde se encontram até hoje, Mas que ninguém se engane: elas nfo so letra morta. Mais adiante veremos a importincia real desse ensaio e tudo que dele resultara. Pois talver seja ai que se deva ver a origem de varias passa- gens de Les mots et des choses. Por ora essas paginas so apenas a “pequena tese", 0 hers d'ocuvre da cerimSnia, JA se pode passar ao primeiro prato: a “grande tese™. ; Apés alguns minutos de intervalo, o espeticulo se reinicia. O presidente do jari di a palavra ae candidato, A voz de Foucault se eleva, tensa, nervos desenvolve-se em seqiéncias ritmadas, aos solavancos: as frases sao cinzeladas como diamantes: na origem dessa pesquisa, explica ele, a idéia era escrever um livro mais sobre os loucos que sobre seus médicos. Mas isso era impossivel, pois a yor da loucura foi sufocada, reduzida aa siléncio, Assim, tornava-se necess rio recolher os sinais de um perpétwe debate entre a razio e a desrazio, fazer falar 0 que ainda nao timha linguagem, palavras para dizer: dai o mergulho necessario nos arquivos. E essa evidéncia, descaberta soba poeira dos docu- mentos, de que “a loucura no é um fato da natureza”, mas um “fato da civi- lizagdo". Sempre, em determinada sociedade. a loucura é “uma conduta ontra”’, “uma linguagem ourra”. Por conseguinte nfo pode haver historia da loucura “sem uma historia das culturas que a definem como tal ¢ a perseguem a9 E Foucault acreseenta: para tevar a bom termo essa investigagao era preciso primeiro se despir dos conceitos da psiquiatria de hoje, pois a ciéneia médica intervém apenas como "uma das formas histéricas da telagio da razao com a loucura’’. E para coneluir coloea a questao: trata-se de ver 0 que uma cultura arrisca em seu debate com a loucura. ‘Terminada essa exposicao preliminar, eomega a discussiio, As objegées Jevantadas por Lagache ficam gravadas na meméria de todas, Hoje se costuma lronizar sobre a incompreensio manifestada: pelo representante da tradigio francesa da medicina psiquiatrica confrontada, no inicio dos anos 60, com rela- glo ao dinamitador das certezas do saber eda instituigdo psicopatoldgica. Alias, em seu pré-relatério, profética sob muites aspectos, Canguilhem ja havia subli- Nhado esse ponto: “O questionamento das origens da eondigRo cientifiea da Psicologia nfo serd a menor das surpresas provacadas pelo presente estudo". E com efeito Lagache levanta muitas objegdes @ manifesta varias reticéncias, Entretanto deve-se lembrar que do comego ao fim mantém extrema prudéncia, contorme atestam as anotagdes de Henri Gouhier durante a discussao, Suas eri- licas se referem basieamente a detalites, suas observagdes nunea sfio agressivas, ©. no fundo, deve-se reconhecer que ta verdade ele nao contesta e muito menos condena 0 pr to de Foucault. Limita-se « apontar as falhas de informagko médica propriamente dita, psiquiatrica ou psicanalitica, ea mostrar que, ao contririo do que pretendia, o autor nao conseguin despir-se totalmente dos conceltes contemporaneos. Fareve, porém, que nto denuncia a visdo global de Foueault, que nio obstamte devia the ser inteiramente esiranha, Cabe lembrar sobretudo que o principal oponente nessa memoravel sesso & talver, o presidente do jiri, Nio por hostilidade com relacao ao candidate, com relagdo a seu trabalho, Mas simplesmente pot escrépulo intelectual ¢ Lssional. Hoje cle explica: “Pediram-me para participar da jGri na condigao de especialista em histéria da filosofia, e esse era o papel que me cabia repre- Sentar”, Gouhier tem, pois, uma fungao bem definida no cerimonial e desem penha seu papel dedicadamente, Multiplica as perguatas, os comentarios. Re- cusa determinadas interpretacdes de textos ou de obras (“E preciso saber se se di a Filosofia de um texto ou se se faz Filosofia sobre um texto”, diz ao candi- dato), retifiea @ informagio histérica. Nao podemos reconstituir aqui todas as objecdes apresentadas pelo professor nem meticionar todas as referencias que sua imensa erudigio mobiliza para levar a contradigao seu interlocutor — a quem, aliés. aprecia pelo talento, pela elegAncia do estilo, pela elaqiiéicia, Suas observagdes referem-se a todes as aspectos do livre, Suas criticas se ditigem sobretude As p inas dedicadas as Escrituras: “Naw estou eerto de sua interpre ‘io. Os textos das Eserituras e de sto Vigente de Paulo que o senhor vita ¢ eo- enta nio dizem que Jesus ficow loueo, mas que ele quis assumir as aparéneias de determinadas paixdes, quis que o tomassem como tal, E continua: ‘A men. 126 I meat ver é um erro tratar da ‘loucura da Cruz’ no capitulo sobre insensatos, pois sempre hé a idéia de uma sabedoria superior’, Gouhier discute também 0 tema da “danga macabra"’, recusando 0 enfoque de Foucault segundo o qual a der- risdo da loucura teria tomade o lugar da morte nas representagGes literarias ou pictérieas. “Entende-se por qué: para o senhor ha continuidade filosGtica: a loucura é ainda a morte. E o senhor transpde: continuidade na histéria da arte”. Ea seu ver nao se trata disso. Ele também nao concorda com a desericio dos quadros de Bosch. E se surpreence com certas omissdes: "O senhor cita Sha- kespeare, mas deveria citar também John Ford, a loucura de Penthea em O co- rade partido”. Recusa @ leitura — abusiva em sua opiniie — que Foucault propte do Nevew de Rameau (Sobrinho de Rameau): o que o candidate faz as personagens de Diderot diverem parece-Ihe uma manipulagdo do texto, A mesma objegio com relagio a Descartes, um dos pontos mais desenvolvidos da argumentagdo de Gouhier. Sobre a hipétese do "¢énio maligno", nas Medita- edes, por exemplo: © génio maligno simboliza a hipétese de om mundo absurde, onde tres mais dois igual a cinco seria um erro. Entretanto nao vejo nisso, de modo neahum, um simbolisino da loucura: a idéia é fabricada associando a nogao de maldade & nogaio de onipoténcia. A psicologia da personagem esboga-se no inicio da quarta Med iapdo; € a idéia da onipoténcia, sugerida por uma imaginaria matizada de maquia- velisme, que se encontre no principia da existéncia. O senhor vé nisso uma ameaga da desrazito, Nao, & apenas a possibilidade de uma razdo outta. Ai esta o funda mento metafisico dessa hipotese. Gouhier também se recusa a ver na frase de Descartes, da primeira Meditacdo: “Ora, sio loucos”. o gesto instaurador da grande divisio que vai isolar a raziio da desrazao. Insiste sobre Descartes porque percebe que essas paginas de Fou: cault constituem a base de seu edificlo. Mas também o critica por “pensar através de alegorias” A loucura ¢ personificada, evolui através de conccitos mitolégicos: a Idade Média, o Renascimento, a Epora clissica, 0 Homem acidental, 9 Des meméria dos homens... $80 persenificagdes que vio permitit una espé vaso metafisica na histéria © que de algum modo Re transformar o relate e1 epopéia, a histéria em drama alegérico, animando uma filosofia. E para coneluir o professor presidente do jari declara ao autor: “Nao entendo ‘0 que o senhor quer dizer quando define @ loucura como a auséneia de obra”. Foucault admite a validade da ultima cbservagao, pais poueo tempo mais tarde esereve um longo artigo para explicilar a frase, “formulada por mim um pouco- as cegas”, como dira a segunda edigdo da Histoire de fa folie * A cerim@nia chega ao fim. Pela ver de seu presidente e perante a platéia, © jlri concede ao candidate o titulo de doutor em letras com a mengao “muito 12d is Henri Gouhier redige um relatério oficial sobre a Ss honrosa’’. Alguns dias dep defesa du tose. Vale a pena citar o texto na integra, pois exprime as primei reagbes fl obra nascente de Foucault: No ¢ ides Lettres et de 4 20 de maio monsieur Michel Foucault, encarregado de ensino na Faculté nes Humaines de Clermont-Ferrand, apresentou sua tese de doutorad Kant: Aatropologéa, Introdu tada por monsieur Hyppolite. ~ Folie et dératson. Histoire de la folte 4 #Gge classique. Tese principal rela- tada por monsicur Canguillem e em segunda leitura por monsieur Lagache, Também participaram do jiri monsicur de Gandillae para a tese comple: mentar ¢ © presidente para a tese principal. As duas obras apresentadas por monsieur Foucauli sto muito diferentes © no entanto elogios ¢ eriticas serdo muito sensiveis, Grande eultura, personalidade forte, riqueza intelectual sio as qualidades evidentes de monsieur Foucault. A de- confirma esses julgamentos: suas duns exposigves se destacam pela clareca, ie um pensamento que sabe para onde vai, avanga som hesitar, mostra-se seguro de si. Mas ef c la percebe-se uma certs indi ferenga com relagao as tarefas que nentes: tradugdo exata, porgm unt pouca apressada, nfo “'refinada”” do texto de Kant; idgias sedutorss, porém rapidamente elaboradas a partit de alguns fatos apenas — monsieur Foucault ¢ mais filésofe que exegeta ou historiador Os dois juizes da tese complementar ressaltam a justapesi¢ao de duas obras! radugao ¢ notas. Tese complementar, rel fesa so pela fluéneia, pela precisio elegante sempre acompanham os trabalhos mais emi 1) uma introdugio hisibrica que € 6 esbogo de um livre sobre antropologia. mais inspirads por Nietzsche que por Kant, observa moasieur Hyppalite. 2) A tradugao do texto de Kant. que, reduzida ao papel de pretexta, deveria ser revisada, Monsieur de Gandlillae aconselha ao candidato que, por ocasiio da publicagio, separe essas duas partes desenvetvendo o livre esbopade sob o nome de introdugao e apresentando uma edig’io realmente critica do texto de Kant. al reconh Os trés examinactores que se ocupam especialmente da tese prin cem a originalidade da obra, O autor precurow na consciéncia a idéia que os homens de uma época tém da loucura © determina varias "“'estruturas" mentais na “época classica”, on scja, nos séeulos XVIE, XVIII ¢ comego do XIX, possivel reeapitular aqui todas as questdes que sua obra suscita, Assinalemos ape nas estas: € uma dialética ou uma histGria das estruturas?, pergunta monsieur Canguilhem. O autor realmente conseguiu se liberar dos conceitos elaboradas pela psiquiatcia contempordnea para definir suas estruturas ¢ executar seu aresco his torico?, pergunta monsieur Lagache, O presidente pede ao candidate que se expli- que sobre a metafisica subjacente a sua pesquisa: uma certa “valorizagao™ da os cone os de Antonin Artaud, Nietesche ou experiéneia da loucura a luz de ca Van Gogh. © que se deve guardar dessa defesa ¢ sobretudo um curioso: conteaste entre o ineontestivel talento que tados reconhecem no eandiclato ¢ @ multiplizidade das 122 oucuult @ uth 0. Com certera monsicur escritor, porém monsicur Cangiithem fala de-revoriea em vertos trechos € © presi reservas exprossas durante toda « ses: «tonite 0 julge preocupado demais em eriar “efeite A erudigdo é indiseutivel, mas © presidente cita eavos que revelam uma ten déncia espontines a ultrapassar os fatos: a sensagiio que se tem 6a de que as nerosas Se o fiiri inelwisse um s desse génera poderiam ser ainda mais na dor de arte, um historiador de literatura. um. historiador das instinuigdes. A competéncia psicolégica de moasienr Fousault ¢ auténtica: no entanto monsieut Lagache considera sua informagao psiquiatriea um tanto limitads, ss py bre Freud um tanto rapidas Assim, quanto mais se reflete, mais se werifica que essas duas teses provocaram sitieas numerosas ¢ sérias, Entretanto nos eneontramos diante de uma texe prine cipal realmente original, ce um hemem que par sua personalidade. seu “dina- mismo" intelectual. seu talento de exposigio se qualifiva para o ensino superior. Por isso, apesar das reservas, a mengo muito honrosa foi-lhe coneedida por ade. Henri Gouhier. 25 de maio de 1961 “Apesar das reservas", como diz o relatério do presidente do jiri, Folie er déraison obtém ainda uma medalha do CNRS. Todos os anos atribui-se uma medalha de ouro ao conjunto de uma obra, uma de prata aos trabalhios poste- riores & tese ¢ 24 medalhas de bronze as melhores teses em todas as disciplinas No campo da filosofia essa medalha de bronze é conferida a Michel Foucault E sendo agora “doutor”, Foucault podera ser nomeado “professor titular” na universidade de Clermont. © que agontecera no outeno de 1962. Cabe ao livro encontrar seus leitores através de um caminho estranho e cadtico; a encontrar também seu lugar, on melhor, seus lugares, através dos comentarios sobre ele e fazer desse “acontecimento’’,'* desse surgimento, o ponto de partida de mil outros acontecimentos, pois as leituras pouco a pouco yao se multiplicar, proli- fer e divergir. 123 2 O EIVRO E SEUS DUPLOS Nos anos 70 varias vezes Foucault se queixou da acolhida que Folie et déraison recebeu na ¢poca de sua publicagao. Em 1975, por exemplo, declarou numa entrevista: ‘Quando comeeei a me interessar por esses assuntos que eram um pouco es bes- fonds da realidade social, determinado mimero de pesquisadores como Barthes, Blanchot ¢ os antipsiquiatras ingleses demonstraram interesse. Mas & preciso dizer tica se imteressaram., Nenhuma das revistas institucionais destinadas a registrar os menores sebressaltos unidade filoséfica, nem a comunidade p que nem a cor do universe filoséfico deu atengho. ' O ataque dirige-se a Les Temps Modernes e Esprit, que Foucault munca teve em alta conta, E é verdade que essas duas revistas nao falaram de seu livro. E ver- de também que a obra passou despereebida ao grande puiblico culto, Mas Foucault realmente esperava atingi-Jo? Em 1977 ele volta ao assunto para expli- car os motives que a seu ver podem esclarecer o que considera um meio siléncio com relacao @ seu livro. Incrimina ¢ manto de chumbo que a forga do Partido Comunista e da ideologia marxista fazia pesar sobre os comportamentos dos intelectuais ¢ portanto sobre sua capacidade de pereeber « forya critica de um livro que escapava a esse quadro rigidamente delimitado. Mas sua decepgiio — retrospectiva, talver — realmente se justifica? De qualquer modo € dificil concordar quando ele afirma que so algumas persona- lidades marginais souberam avaliar a importaneia de seu trabalho. Aos artigos de Blanchot” ¢ Barthes‘ aos quais Foucault alude convém acrescentar um artigo de Miehel Serres* e um longo comentario nos Annales assinado por Robert Mandrou, seeretario de redagio Cabe também esclarever que este tiltimo ar- ligo € seguido de uma “nota” de Fernand Braudel — o que nao é sem impor- 124 tincia — na qual o papa da nova pesquisa histériea da sua béngao ao autor do livro,” Depois dos julgamentos oficiais — e confidenciais, pois tais relatérios nem sequer eram comunicados ao interessado — redigidos por Georges Canguilhem Henri Gouhier por ocasido da defesa da tese, esse belo buqué de resenhas que satida 0 surgimento do livro constitui a primeira reagdo pilblica a obra de Foucault e algumas passagens nao deixam de ser interessantes. Pois Foucault ainda € um desconhecido ¢ as Ieituras nio sao deformadas pelo filtro de uma imagem ja formada, Michel Serres associa o livro de Foucault A obra de Dumézil: compreendida como uma génese das 1 das premonigaes das ‘Com efeito, a histéria da loucura nunea se categorias psiqeidtricas, como uma pesquisa na era class idéias positivas... Antes descreve as variaghies das estruturas que & possivel estabe- lecer sobre essa familia dupla de espacos ¢ que realmente se estabeleceram: estru- tura de separagio, de relagao, de fusdo. de fundamente, de reciprocidade, de exclusao.* Mas Serres no ignora a outra inspiragao de liveo: Inditil seria esse rigor da arquitetura se, além da eompreensto estrutural, ndo houvesse uma visio mais secteta, uma atengao mais ardente: a obra seria precisa sem ser inteiramente verdadeira, Por isso € que ne proprio scie da argumentaga Jagica, no seio da minucigsa erudigio da pesquisa histériea vireula um amor pro fundo, nfo vagamente humanista, mas quase piedoso, por essa gente obscura em que se reconhece o infinitamente préximo, o outro cu, Assim, esse livro é também Umi grito ... Assim, essa geometria transparente é a linguagem patética dos hor mens que soften 0 suplicio maior da rejeigao, da desgraga, do exilio, da quaren+ tena, de ostracism da excomunhao, Em suma, “eis o livro de todas as solidies!'." Serres no se esquece de cele- brar a sombra de Nietzsche: G livro de Michel Foucault é para a tragédia clissica (v mais genericamente para a cultura cléssica) o que a trajetoria mictaschiana € para a tragédia e a eultura helé hicis: evidencia os dionisismos latenles sob a luz apolinea.*! Barthes se compraz em imaginar que Lucien Febyre teria gostado do livro de Poucault, “porque dé a historia um fragmento de ‘nalureza’ transforma em fato de civilizago 0 que consideravamos um fato médico: a loucura’,!? © um pouco mais adiante acrescenta: Na verdade Michel Foucault nunca conhecimento cuja histiria se possa rastrear: ela & apenas esse conhecimento em sit.a loueura nae ¢ uma doenca, mas um dade varidvel e talver heterogéneo, se- gundo os séculos; Michel Foucnult munea eneara a loucura como uma realidade fine a loucura: a loucura no objeto de um 125 funcional: para ele trata-se di pura fungao de uma dupla formada pela razio ¢ pola desrazio, por quem otha e quem é olhado,!* Contude Barthes sabe muito bem que esse grande volume de Foucault “é ronte de um livre de histéria"", € “algo como uma pergunta catirtica feita ao conhecimento ¢ nao apenas a quem fala da loucura’’."' E conclui evocande o que ser o outro tema da pesquisa foucaultiana nos anos seguintes, justamente 40 lado dessa interrogagao do conhecimento, insistindo nessa vertigem do discurso que Michel Foucault acaba de trazer a uma lux ofuscante, que nfo se levanta apenas no contato com a loueura, mas toda vez que o homem tome distancia e otha o mundo como autra coisa, quer dizer, toda vez que esereve,!® ‘Os artigos de Barthes ¢ Serres, em estilos e sob Angulos muito diferentes, cons- iituem leituras notaveis de Folie et déraison, reluzentes de intelig@ncia e de acui- dade, Mas, dit-se-A, Barthes era amigo de Foucault, e Serres seu colega em Clermont. Sim, porém tal nao era o caso de Blanchot, que fala de “‘livro extraor- dinario, rico, insistente €, por suas necessdrias repetigdes, quase desarra- xoado” e termina seu comentario lembrando Bataille. ’° Tampouca era o caso de Mandrou, nem de Braudel. Mandrou primeiro apresenta um meio de entrar no Jivro, Mais que por suas “férmulas demasiado brithantes'', aconselha se esguei- rar nele fazende o desvio pelo prefacio ao livro de Binswanger, ento. onde sonho é esttidado como meia de conhecimento, segundo um procedi paralelo, por assim dizer, ao da rario desperta .., Ora, cle considera a loneura, assim como 6 sonhe, um meio de conhecimento. uma verdade outra e nao outra (serdade); €0 que choca nosso autor é 0 fato de ela so encontrar tugar em nosso mundo contemporanea através devia formulagao lirica, de Nerval a Artaud, Ele se opde Violen lamnente a essa uxelusaio,’” Mandrou também se refere a Dumézil, lembrande a mengao que Foucault Jaz a ele em sua entrevista a Le Monde, e cita esta frase de Histaire de da folie, de tonalidade particularmente duméziliana: “A desrazfo seria a grande mem6- fia dos povos, sua maior fidelidade ae passado”."* E conclui o artigo com este Jgamento sobre Foucault; “Sen livro situa no cume das pesquisas que 0 apai- xonam e nos apaixonam” Segue-se a “nota” de Braudel: Acrescento algumas linhas ao relatorio precedente para destacar 2 originalidade, o “fo nele apenas um desses carter pioneiro do liveo de Michel Foueault, Nao ¥ estudes de psicologia coletiva to raramente abordada pelo historiador © que de- pois de Lucien Febyre queremos encontrar. Nele reconhego ¢ admiro uma aptidio singular para abordar um problema por trés ou quatro ngulos diferentes, numa ambighidade que as vezes comete © erra de se reiletir no andamento material (é preciso fiear atento para seguir 0 fio), mas que é a propria ambigiiidade de todo 126 fendmeno coletivo. Uma verdade de eivilizagtio mergulha na obscuridade de mot vagdes contraditorias, conseientes ¢ inconscientes. Este livro magnifico tenta per- seguir, a propésito de wm fenémens particular, a loucura, o que pode ser 0 cami= nho misterioso das estruturas mentais de un tacar de uma paste de si mesma e fazer a divisho, no que Ihe oferece seu proprio vilizagaio, como ela deve se des- passado, entre o que pretende conservar eo que deseja recusar, ignorar, esquecer. ndava um espirito capar de ser alternadamente, ¢ nfo ser apenas, historiador, filésofo, psiedlogo, sociélogo... Nao poderiamos propor o mé- todo como exemplo: cle nfo esté a0 alcanee de qualquer um e exige mais que talento." Essa busca dificil dem; Folie er déraison, um livro que passou despercebido? Poderiamos citar outros depoimentos que atestam boa acolhida. Por exemplo, a carta muito ama- vel de Bachelard a Foucault, que Ihe enviara um exemplar da obra. Em 1° de agosto de 1961 0 célebre fildsofo, particularmente bem situado para compreen- der o cruzamento de historia das ciéneias e visdo “poética’’, escreve-the Hoje acabei de Jer seu grande livra. Os sociéloges vaio muito longe para estudar popul: ras, © senhor thes demonstra que somos um bando de sel- vagens. O senhor é um verdadeiro explorador, Anotel seu proieto (p, 624) de ir explorar o século XIX. Ges estrang: Econelui com este convite: vilhoss Paris, mas venha me visilar em outubro, alo de viva voz, cont Serei obrigade a «leivar a m Quero felis suas paginas. em suma, falar-the dé minha m, are rocontar todas as alegrias que senti ao ler s sincera estima.” Convém destacar a reagdo de um jovem filésofo, ex-aluno de Foucault na rue a'Ulm e que se tornou assistente de Jean Wahl na Sorbonne: Jacques Derrida. Destacé-la porque tera importante consequéneia sobre a paisagem filesdfica francesa nos anos seguintes. Jean Wahl pediu a seu assistente que falasse no Collége de Philosophie dirigido por ele. Derrida resolve comentar Folie er dé+ raison, principalmente o trecho referente a Deseartes, pois a seu ver “todo 0 projeto de Foucault pode se concentrar messas poueas paginas alusivas ¢ um tanto enigmaticas” e “a leitura que nos propée de Descartes e do cogito carte- siano implica em sua problemitica a totalidade dessa Histoire de fa folie no sentido de sua intengao & nas condigses de sua possibilidade”.*? E a famosa conferéncia sobre "Cogito © hist6ria da loucura" que Derrida pronuncia em 4 de margo de 1963, Nas primeiras palavras cle j4 lembra come ¢ delieado empreender a discussio dese acrescenta, livro poderaso na inspiragfo ¢ no estilo” e, tanto mais intimidador para mim que. tendo tido a oportunidade de receber os ensinamentas de Michel Foucault, sonservo uma conseiéneia de disefpule: adm. (..) A conseigneia do diseipulo, quando comega, cu nic radar e seconhecido. £27 diria @ discutir, mas a dialogar como mestre, ow antes:a proferir © dililogo inter mini ent&o uma conseiéneia infeliz.> fel silenciose que o constituia em diseipulo, a consciéncia do discipulo Derrida lembra “a interminavel infelicidade do diseiputo” que nao pode par- ticipar de tal didlogo sem que este seja “compreendido — erroneamente — como uma contestagio” Erroneamente, talvez, mas & muito dificil ser de ou- ira forma: o tom da confer€ncia € vigoroso, as vezes dure. Apesar de sua admi- ragho por esse livre “monumental”, 0 “discipulo” nao esta disposte a poupar © “mestre”, Como Henri Gouhier por ocasio da defesa da tese, Derrida se reeusa a ver na exclamagao de Descartes: “Ora, so loucos", a afirmagao cruel de um ostracismo a que é lungada a loueura, A seu ver essa é uma leitura bem “Yngénua” do texto cartesiano, Mas também uma leitura perigosa, que pre- tende reinscrever um texto numa “estrutura historica”, num “projeto histérico toll”, ¢ que val efetuar uma viol@ncia ''com relagie aos racionalistas e ao sen- $0, ao ‘bom’ senso".2” Tomando algumas precaugdes oratérias, Derrida arrisea a seguinte formulagio: “O totalitarismo estruturalista realizaria aqui um ato de confinamento do cogito que seria da mesma espécie das violéncias da época cla- sica’’. O que Foucault sentiu ao ouvir isso? Pois ele estava presente ma sala! Segundo varias testemunhas nesse momento sua legendaria suscetibilidade per- maneceu adormecida ¢ ele nao se irritou com seu ex-aluno. O texto da confe- réncia ¢ publicado meses depois na Revue de méeuphysique 6 de morale, diri- gida por Jean Wahl.” Foucault nao demonstra a menor irritagao, Tampouce a demonstra quando Derrida volta a publicar o texto em £éeriture ef fa diffi rence (A escritura e a diferenga), em 1967.” Foucault até the envia uma carta muito amistosa acusando o recebimento de seu exemplar. Noentanto corer’ a explostio, Por que motives? E dificil saber. Foucault teria finalmente se agas- tado ao ver reeditado em livro a conferéncia que até entio atingira um publico bastante limitado? Alguns arriscam uma hipdtese, Sem tentar examinar se ela sovinha basta para explicar © que parece uma brusca mudangs de comporta- mento em Foucault, apresentamos a hip6tese tal como foi formulada, Ao ser publicado L écriture et la différence, Foncault ¢ Derrida sio membros do con- selho editorial da revista Critique, Chega 4 sede da revista um artigo de Gérard Granel sobre o livre de Derrida, Cheio de elogios para este Gtimo, cheio de fel em relago-a Foueaull, que se irthta e pede a Derrida que suste a publicagie do artigo. Derrida se recusa a interierir e, camo membro do conselho editorial, prefere nao se pronunciar sobre uma matéria que Ihe concerne, O artigo é pu- ido. Pouco depois Foucault redige uma resposta muito violenta & catfe- proaunelada por Derrida em 1963, A resposta € publicada em 1971 ne ta Paideia sob o titulo Mou corps, ce papier, ee few (Meu corpo, este papel 1 {ogo} e depois incluida no final da segunda edigao da Histoire de fa foie em 128 1972." Foucault envia o livro reeditado @ Derrida com uma pequena dedica ‘Desculpe the responder tio tarde’. Nove anos depois! O final do texto t6r parece uma declaragao de guerra. Os papéis se inverteram ¢ agora 0 mesire julga o ex-aluno: Concordo com um fato pelo menos: nae fol por desatengao que os intérpretes clissicos, antes Ue Derrida e como ele, apagaram essa passagem de Descartes. Foi por sistema, Sistema do qual Derrida ¢ hoje @ representamte mais decisivo. em sua rsivas as impressdes textuais, clisde dos acont las Marcas para uma leitura; invengdes de vou atras dos textos para nfo ter de analisar os modos de implieag&io do sujeito nos discursos; aceitagao do original como dito e nao dito ne: texto para ndo substituir as praticas diseursivas no campo das transformagdes em que classe efetuam.” iltima ce! etha: redugio das praticas dis cimentos que ai se produzem a fim de reter ape E Foucault emite o veredicto final: Nao direi que ¢ uma metafisic “textualizago" das priticas discursivas, Trei tui @ metafisica ou seu encerramento que se esconde mais longe; direi que & camente bem determinada, que se manifesta de nessa uma pequens pedagogia, histori modo muito visivel. Pedagogia que ensina ao alune que nao existe nada fora do xto... Pedagogia que confere a voz dos mestres essa soberania sem limite que the nite repetir o texto indefi idamente.* Bis a “desconstrugao” derridiana devolvida a uma atividade de "restauragao” da tradigaa e da autoridade. Os floretes no tém ponta protegida na repiblica das letras. A partir desse momento a rupture é total, absoluta, radical e dura quase dez anos. Os lagos entre 0s dois fildsofos s6 se restabelecem em 1981 quando Destida participa em Praga de um seminario organizado por dissi- dentes e € preso sob a acusagio de “irdlico de droga’. A Franga se comove, &, enquanto @s meios governamentais intervém junto as autoridades tchecas, os protestos se multiplicam nos meios intelectuais franceses. Foucault esté entre 0s primeiros signatirios ¢ fala na radio para defender Derrida. De volta a Paris, dias depois, Derrida telefona para Foucault a fim de the agradecer, Entio se véem algumas vezes Mas voltemos a Histoire de Ja folie, ou melhor, a Folie et déraison, pois é com este titulo que a obra surge em maio de 1961. Além dos comentarios jé mencionados, convém acrescentar que Foucault é entrevistade por Le Monde” e tem direito aum attigo no Times Literary Supplement. Trata-se de um livro diffeil, Todes os leitores, mesmo os que acolhem a obra com ardor ¢ bea yon- tade, destacam seu aspecto minucioso demais, complexo, as vezes alambicado, até hermética. Quando da reedigfie de 1972 © proprio Foucault diz a Claude 129 Mauriac: “Se eu tivesse de reeserever esse livro hoje, colocaria menos retd: rica’. Sim, claro, a venda nao foi espetacular. A tiragem inicial foi de 3 mil exemplares em maio de 1961 e a reedicdo, em fevereiro de 1964, teve 1200 exemplares. Mas nessa data aparece uma edigao de bolso, consideravelmente rosumida, que sem duivida vai constituir uma das vias de acesso @ obra de Fou- cult para numeresos leitores nos oito anos que precedem a reedigao do texto Integral e que ter maior sucesso apés a publicacao de Lex mots et les choses em 1966, obra de surpreendente repercussio Essa edigdo resumida infelizmente é traduzida para o inglés em 1963 sob © titulo Madness and civilization (Loucura e civilizagao). De qualquer modo, como sublinha Foucault ao se queixar da pequena repercussio de seu livro na Franga, a yersao inglesa mostra o interesse que os “antipsiquiatras” rapida- le Ihe deram. A obra aparece na colegio dirigida por Ronald Laing — inti a, 0 que nao deixa de ser engragada, “Studies in existentialism and pheno: menology" (Estudos de existencialismo e fenomenologia) — e tem preficio de David Cooper, Laing e Cooper estiio inventando a “antipsiquiatria”, cuja his. 16ria comega em Londres no inicio dos anos 60, Um grupa de psiquiatras, eli hicos, psicanalistas comparam suas experiéncias, Para cles a esquizofrenia, en tendida de maneira extensiva, € a conseqiiéncia de tado um dispositive re- pressor desenvolvido pela familia e pela sociedade. A essa “violéneia original” sSeguem-se os processos de segregacdo que conduzem a instituigao psiquiatrica, fia seu ver a psiquiatria classica representa o resultado da cadeia, a ultre repressio. As referéneias dos antipsiquiatras: Nietzsche, Kierkegaard, Heideg. ker, mas também € principalmente Sartre, a quem Laing e Cooper vio dedicar um fivro. Cooper € 0 primeiro # tentar uma experiéacia num ambiente psi- nal. Ele trabaltia num hospital do norte de Londres e comega a tu quidtrico tradici agrupar seus pacientes num dinica pavilhao. Mas a hostilidade do meio hospi- talar determina a interrupgao da experiéneia, Os antipsiquiatras fundam entio a Philadelphia Association para criar locais adequados. Instalam varias house- halls, como o famose Kingsey Hall, em 1965. Ao mesmo tempo desenvolvem uma reflexdo polities, nitidamente orientada para a esquerda, que levai exemplo, A organizagaa de um "Congresso internacional de dialética da libera. gio” em 1967. Laing eCooperestio entre os organizadores, Dele participam ain: da Gregory Bateson e Herbert Marcuse.” De qualquer mode o livro de Foucault o escapa & atengao de Laing ¢ Cooper. E eles véem a obra de outro angulo, conferindo-Ihe um sentido muito diferente do que Ihe davam na Franga. E dife- rente também da maneira como fora concebida! Pois se na época de sua publi- eagio 9 livra nfo encontrou acolhida nas esferas politicas, como Foucault la- mentou nos anos 70, foi em grande parte porque nao havia sido escrito nessa &ptica, Robert Castel o afirma com veeméneia no artigo dedicado ao destino da fistoire de la folie: . por 130 © papel de porta-bandeira num movimiento de contestagho de eertas praticas ins: titucionais que por direite cabe a Michel Foucault se insere primeiramente num proceso histérico. Nao foi um efeito imediate de sus obra. ... Histoire de la folie teve um primeiro destino, o de uma obra aeadémica que apresentava guestdes académicas. Com isso no entendemos nada de pejorative, nada que questione a originalidade da obra. Mas sua novidade se insere primeiro ne &mbito de um questionamento epistemolégico perieitamente definido pelo campo intelectual da época. A tradigio académiea seguida por Foucault (Brunsehwieg, Bachelard, Can- guilhem) questiona a precensio de verdade dos diseursos cientifieos ¢ swas con- digdes de posstbilidade aquém do limiar de reflexividade a partir do qual a his- toria classica das cigncias se desenrola como uma interdependéncia de pusas pro- dugaes da mente. E Castel acrescenta: “Portanto, foi apenas num plano nao pritico que as ang- lise de Foucault puderam ter um impacto sobre a idéia que se podia fazer, no ie comego dos anos 60, da psiquiatria ¢ da loucura”’” Castel resume muita bem a primeira recepgae do livro e os registros de inspirag’o para Foucault: Assim se podia Jer Histatre de ta folie em meados dos anos 60: 20 mesmo tempo como uma tese universitiria na linha dos trabalhos epistemoldgicos de Bachelard e Canguilhem © como uma evocagie-dos poderes obseuras do proibido, & maneira de Lautréamont ou de Antonin Artaud. Essa montagem paradoxal conferia & obra sua situagao (inica, fascinante para uns, irritante para outros, ou as duas coisas a6 mesmo tempo. Mas a adesiio a suas teses nao implicava nem opeao politica defi nida, nem projeto de transformagio pritica. Portanto, s6 depois de 1968 e do desenvolvimento das “‘Jutas setoriais”, como se dizia na época — priséo, psiquiatria, etc. — 0 livro é literalmente encampada por movimentos sociais que farZo uma leitura muito diferente e Ihe dardo um tinha quando de sua publicagio, Foucault esta bem, aleance politico que ele consciente disso. Ao reeditar a obra em 1972, suprime o prefacio escrito em 1960 e, depois de hesitar durante muito tempo em eserever nove prefacio, para se situar com o movimento antipsiquidtrico, finalmente resolve substitui-lo por um sucinto “nao prefacio” ¢ justifica sua recusa em reatualizar suas palavras preliminares alegando que um autor nao tem de prescrever 0 uso adequado de um livro. Diz ele nesse texto magnifica: Um Jivro se produz, minisculo acontecimento, pequeno objeto manusedvel, E entio & preso num jogo incessante de repeti¢es; seus duplos, a sua volta e bem longe dele, poem-se a pulular; cada Ieitura the da por um momento um corpo impalpvel ¢ tinico: circulam fragmentos seus coma sendo sua totalidade, pas- sando por conté-lo quase inteira ¢ nos quais Ihe acontece de encontrar reftigio; 05 comentarios © desdobram: outros diseursos em que ele deve enfim aparecer como &, declarar 0 que se recusou a dizer, livrar-se do que ruidosamente fingia ser. 13t FE por conseguinte é melhor nao procurar “justificar esse velho livro nem reins- erevé-lo hoje; a série de acontecimentas aos quais ele pertence ¢ que siio a ver dideira lei esti longe de encerrada’’."" Ha melhor maneira de dizer que um livre muda? E que em todo-caso este mudou? Aliis, como também mudou a acolhida que os médicos-psiquiatras fran- eeses Ihe reservaram, Pois eles nao foram undnimes em condena-lo na época de sua publicagio, a destina-lo ao fogo, OQugamos a palavra de Foucault: Entre os médicos € 5 psiquiatras houve reagdes diversas: certo interessé mani- festado por alguns, de orientagio liberal ¢ marxista, ¢ em contrapartida uma re- jeigfo total por parte de outros, mais canservaderes.? Ja vimos que, quando estudante, Foucault freqiientara essa psiquiatria progres- sila que desde os anos do pés-guerra tentava renevar discursos ¢ praticas. Mas seu livro naturalmente nfo coincidiu com essa tentativa, Como observa ainda Robert Castel, 0 psiquiatras mais progressistas da época dispunham, ou julgavam dispor, de uma formula propria pata renovar suas priticas. Instituinco a “politica do setor” Pretendiam realizar uma “erceira revelugao psiqui Froud) que reconeiliasse a psiguiatria com seu irica’’ (depois das de Pinel e culo derrubando os furos do aos doentes mentais na comunidade ao nivel ssidades expressas pela papulagao.*? asilo e reerganizando a assistén das ne Concepgao incompativel com as teses de Foucault, que, ao contrario, vé em tal otimisme progressista um nave avatar do positivismo, sempre empenhado em negar a alteridade fundamental da loucura, a teduri-la ao siléncio, Mas de qualquer modo parece que os médicos do grupo Evolution Psychiatrique aco- theram com simpatia Fotie et déraison. Sua condenagao ocorre quande o livro omega a tomar outro sentido ea servir de “eaixa de ferramentas’, como Fou- eault gostava de dizer, para movimentos que nele procuram e tamam os instru os de uma critica radical das instituigées psiquidtricas. Entio mesmo quem vira com simpatia o esforgo de Foucault comega a rever seu julgamento. No momento em que, com alguns anos de atraso, @ onda antipsiquidtrica se ex- pande a partir da Inglaterra, os visados se firmam na hostilidade ¢ transtormam m alvo o Tivro que Thes é apresentado como o dinamitador de suas certezas de suas atitudes, Foi o que fez Lucien Bonnalé, membro do Partido Comunista, citado por Foucault como um dos que haviam reagida bem ao livro no mamento de sua publicagao ¢ que no entanto participou das jornadas anuais do Evolution Psychiatrique realizadas em Toulouse em 6 e 7 de dezembro de 1969 para lite- ralmente exeomungar a “concepgio ideologica de Histoire de ta folie”, Mas Foucault nao comparece ao encontro mareado por seus detratores. Na primeira fila esta Henri Ey, que declara: jatricida to cheia ce consequéncias para a propria puicauit entre nds, Ao a pelos pro: cloeng: possa ser considerada como a maravithosa manifestagao da loucura ou mais excep- Trata-se de uma posigde psi idéia do homem que gostariamos muito de ter Mich mesmo tempo para prestar-the a justa homenagem de nossa cesses sisteméticns de seu pensamento ¢ para comtestar que a inn mental” cionalmente como a centelha do genio postico, pois ela é outra coisa que nio um fondmeno cultural, Se alguns de nés, incomodades com a vulnerabilidade da pré- pria posigao ou seduzidos pelos brilhantes paradoxos de monsicur Foucault, dese: jariam nao enfrentar tal debate, eu Jamento que nfo oeofra esse cara a car: Convidade por mim, Michel Foucault lamenta tanto quanto nds, sogundo me es- creveu, ¢ se desculpa por nao poder estar em Num debate de idéias pouco importa a pre Toulouse nestes diay. Agiremos pois, como se ele estivesse presente. senga fisica daqueles que s6 se confrontam por snas idéias Também caem sobre Foucault os raios de professor Baruk. © eminente espe: cialista nao para de denuneiat, em livros e artigos, coléquies ¢ conferéncias, 0 papel nefasto de Foucault, que considera um mero instigador, 0 pai fundador da antipsiquiatria, mais um desses “ineompetentes" que wabalham para des- truir a medicina humanista ¢ libertadora estabelecida por Pinel.” Foucault enfrenta a polémica em torno de seu livro., A partir de 1968 aproxima-se dos movimentos antipsiquidtricos, por vezes até se junta @ eles mbora o irrite a infantilidade de alguns de seus representantes mais extre- mistas. Aliés, essa aproximagio ocorre essencialmente na esteira de outra preo- cupagdo de Foucault: quando ele funda o Groupe d'[nformation sur les Prisons em 1971, Porém, seu engajamento no ativismo militante que vai se desenvolver em torno do asilo munca tomara as formas que ele dard a sua abordagem da questao penitencidria, Na verdade ele nao participa dos movimentos e se limita & acompanhé-los meio de longe, quanto muito a encorajé-to: aio obstante nia gente como Cooper ou Basaglia, Em 1976 convence o Collége de France a convidar Cooper para uma série de conferéneias. Também participa de um debate com ele, em 1977, organizade por Jean-Pierre Fay ¢ sob a égide da revisia Change.’ Defende a tradugta francesa dos livros de Thomas Szasz, faz parte de um grupo de critica institucional fundade por psiquiatras italianos radicais e escreve uma colahoragao para 0 volume coletivo Crémini dé pace (Cri mes de paz) para apoiar Basaglia em suas querelas com a justiga italiana, Esse volume contém ainda textos de Sartre, Goffman, Chomsky, Castel ¢ outros. De qualquer modo, mesmo respandendo a minima, como diz Robert Castel, ds solicitagdes da agdo antipsiquidtrica,” Foucault se identifica em parte com tais combates, pois anos depois, no momento dos balangos, atribui ds “Iutas locais ¢ especificas’’ os importantes tesultadas obtidos na psiquiatria’’ fre A polémica tem muitos efeitos, Primeiro, com Robert Castel, podemos “Interpreté-la como um empobrecimento” do livro, A obra apresenta um amplo leque de enfoques e com base nisso pode-se falar dela em termos de “historia estrutural; relaciona elementos de diferentes ordens, econdmicos, institu- cionais, politicos, filoséfices, cientificas, que assim adquirem sentido. E se vé reduzida a uma denineia das forgas opressivas: A amplitude dos desvios teéricos ¢ a sutileza das andlises de situagdes se concen- tram em algumas formulagdes simplificadas © a argumentagao dos epigonos se torne repetitiva: em toda parte e sempre h4 apenas repressiio, violencia, arbitra riedade, confinamento cenquadramento, segregagio ¢ exclisio,*! Enfraquecimento, portanto, mas também talvez ponto de partida da unidade que Foucault daré a suas pesquisas nesses anos nos seguintes em torno da nogilo de "poder" ¢ da dupla “saber-pader". E sab essa unidade que a partir de 1970 organizar seus livros mais antigos. Conforme diz a Ducio Trombadori: Tudoisso emergia como algo escrito com tinta simpatica ¢ que comes a aparecer hha pigina quando se usa o reativo correto: cra a palavra PODER. 34 z O DANDI E A REFORMA ‘A tese de Michel Foucault nfo precisa esperar a publicagdo para en- contrar leitores atentos. O manuscrito circula inicialmente no circulo de ami- gos, ¢ Louis Althusser é um dos primeiros a tomar conheeimento, Ele 1é, gosta, aprova. E empresta a obra a Jules Vuillemin, que na época dirige o departa- mento de filosofia da universidade de Clermont-Ferrand, Althusser e Vuillemin se conhecem ha muito tempo. Entraram nia Eeole Normale Supérieure em 1939. Conviveram pouco nessa época, pois Althusser, dois anes mais yelho, foi mobi- lizado © passou cinco anos num stalag. Reencontraram-se depois da guerra. E quando assumiu a fungao de caiman Althusser virlas vezes convidou Vuillemin a pronunciar conferéneias. J4 vimos que Foucault obteve seu poste em Lille gragas a essa amizade entre Althusser e Vuillemin, Este ultimo é amigo de Merleau-Ponty. Até o inicio dos anos 50 esteve proximo da existencialismo ¢ do marxisme, Suas duas teses, defendidas em 1948, trazem a marca dessa dupla influéncia, pois se intitulam: Essai sur Ja significarion de la mort (Ensaio sobre significado da morte) e Z éire ef le travail (O sere o trabalho). Colaborou em Temps Modernes, onde publicou estudos sobre estétics, Desde essa época, sempre ligado a Merleau-Ponty, Vuillemin mudou muito, Para comegar, inte- lectualmente: passou a se interessar muito por filosofia das ciéncias, matemé tiva, légica. Politicamente também, sem diivida. Mas a estima recfproca que 0 une a Althusser nao se ressentiu de suas evolugées radicalmente diversas, A épeca é anterior a 1968 ¢ a universidade francesa ainda nao se dividiu em fun: ila de posigdes politicas ¢ ideolégicas, como ocorrerd em seguida, Em 1981 Jules Vuillemin € nomeado para Clermont-Ferrand, gragas a Merleau-Ponty. O autor de Humanisme et terreur (Humanismo ¢ terror) gos- taria que seu diseipuloe amigo sucedesse em Lyon, cidade que ele deixou para lecionar na Sorbonne. Todavia, rivalidades universitérias impedem a realizagio desse projeto, Merleau-Ponty vai pessoalmente ao ministério pedir uma cétedra 135 para Vuillemin, Algum tempo depois, 0 diretor do ensino superior recebe Vuil- ) senhor em Clermont-Ferrand. E lemine the declara: “H4 uma vaga pai Wma ciitedra de psicologia, Mas com uma condig&o; morar 1a", Vuillemin aceita ¢ se instala na capital do Auvergne. Chega na mesma époea que outros professores enviados pelo ministério, que deseja reanimar uma universidade um tanto pa- rads. © historiador Jacques Droz e o helenista Francis Vian esto entre os re- m-chegados. Durante alguns anos Vuillemin leciona psicologia; depois se vé encarregado do ensino de filosofia e em seguida responsdvel por toda o depar- (umento, Rigeroso, exigente, sério, eloso da qualidade do ensine, decide cercar- se de uma equipe brilhante para fazer do departamento de filosofia uma espécie de laboratérie experimental. Convida jovens colegas que vai busear no viveire du rue d'Ulm, Recruta Michel Serres, Maurice Clavelin, Jean-Claude Pariente, Jean-Marie Beyssade. Todos farao belas carteiras: Serres, Clavelin e Beyssade Jecionam atualmente mont, preside a banca examinadora dé agrégation. Vuillemin pensa em chamar também Althusser, © qual, porém, em fungio de sua sadde psicoldgica mais que fr no espago protegide da Ecole Normale. E em 1960 a escolha de Vuillemin recai sobre Michel Foucault. Ele acaba de ler o manuserito de Folie et déraison ¢ escreve ao autor, em Hamburgo: “‘Aceitaria encarregar-se do ensino de psicologia em Clermont?", Foucault responde de imediato: sim. Quer Franga depois de seu longo périplo pela exterior. Aceita de bom yrado, ainda mais que nao precisa “residir" ©, portanto, poderd morar em Pa- ris. Ha que preencher algumas formalidades, mas tude corre ripido ¢ muito bem, Para ser nomeado para um cargo do ensino superior & preciso estar ins- crito numa “lista de aptidao'’. O {ilésofo Georges Bastide @ encarregado de iro relatério sobre a candidatura de Foucault, Em 15 de junho de 1960 ele Sorbonne e em Nanterre. Pariente, sempre em Cler- |. prefere fic: se fix red escreve: Michel Fouca mas, essen produziv alguns trabalhos menores: tradugSes de obras ale- dle métado da psicologia, divulgagio, Tudo isso, tamente sao as teses desse candidate que cons- mente de historia . &de boa qualidade. Mas litem seus melhores titulos, E conelui: “Inscrevemos monsieur Michel Foucault na lista ample (ha lugar para classificé-Io em psicclogia? em historia das eiéncias?) Issa ficaria para dis- de Foucault, Canguilhem acrescenta ao cutie." A fim de reforgar a candidatur relat6rio de Bastide o que acaba de redigir para obter a permissao de imprimir ‘oliv o déraison, © Hyppolite escreve uma carta de recomendagao, Tudo resol- partic de 1° de outubro de , substituindo monsietr vido, Foucault pode ser nomeado para Clermont, * 1960" como “ausiliar de ensino na cadeira de filosofi duragac Cositri, que sé encontra om licenga de lor segundo a notifies 0 ficial do ministério. Apés a morte do professor, sera promovide a “titular da Hie tedra vaga de filosofia em 1° de maio de 1962, Todos os documentos adm ilosofia’’. Porque na época a psicalogia ainda nao conquis- fou sua autonomia de disciplina universitéria e, come a sociologia, esta ligada ‘ionar, nistratives dizem " ao departamente de filosofia. Mas € psicologia o que Foucault vai le como fizera seu predecessor na edtedra. O relatério do dedo que em 1962 pede sua nomeacio come titular deixa bem claro: "Sua especialidade ¢ psicopato- login”, E durante lode o tempe que permanece em Clermont-Ferrand Michel Foucault sera oficialmente encarregado de lecionar psicologia, embera na real lade muitas vezes sc afaste de sua matéria (porém menos do que se poderia acreditar) Comega para ele uma vida nova: do outono de 1960 até a primavera de 1966 Foucault viaja entre Paris ¢ Clermont todas as semanas do ealendario aca- démico, concentrando suas alas num dinico dia para ter de passar apenas uma noite no hotel. A viagem demora seis horas, ¢ as condigdes de conforto sto muito precdrias: os vaedes do “Bourbonnais” sacodem tanto que os profes- sores vindos de Paris — chamados de “sputniks”, porque o termo “turbo-prof’ ainda nao fora inventado — inventam uma brincadeita que os faz rir um be- ado: tentar tomar café sem derramar. Foucault encontrou um jeito, prendendo acolherinha, eé imbativel nesse exercicio petigoso Na époea, a universidade de Clermont-Ferrand esté instalada num tinico edificio de pedra branea na avenue Carnot, pouco distante do grande liceu Blai- se-Pascal, onde Bergson lecionow. © prédio data de 1936 e, como exige a epoca, parece um Palais de Chaillot em tamanho reduzide. As fachadas internas t8m um aspecto hostil: a partir de patio tudo € triste, sombrio, como que coberto dessa poeira negra que parece ter pousado sobre grande parte da cidade, com sua catedral de pedra negra, suas casas esbranguigadas com bordas negras de lava de Volvie, o gue [hes dé um ar de “participagao de luto”, come diz Fou- cault ao vé-las pela primeira ver. O departamento de filosofia estd instalade no andar térreo e ocupa a totalidade de um pequeno corredor: algumas salas, dez ne maximo, onde estio os gabinetes c as classes. Esse corredor sempre “per- tenceu” Ailesofia, Georges Canguilhem se lembra de ter trabalhado ali du- rante a guerra. Mas em 1963 a equipe de fildsofos tem de abandonar seu terri- tério ¢ emigrar para um galpio pré-fabricudo, uma dessas parerosas eons- tragies provisorias destinadas a durar, pois até hoje esta 14 e abriga servigos administrativos. Nessa sinistra casamata Foucault expde aos alunos os ru: mentos do que sera Les mots e¢ tes choses. Alunos que nao sao numerosos, O curso de filosofia nao tem mais que dez inscritos. O auditério de Foucault ¢ um pouca maior, pois aos dez aprendizes de fildsofe juntam-se as estudantes que desejam seguir o curso de psicologia para obter um diploma de enfermeira ou de assistente social, por exemplo. Com issoo total é de umas trinta pessoas. Em seus primeiros anos em Clermont, Foucault torna-se amigo 137 Jules Vuillemin, Qs dois dio longes passeios pelas ruas da velha cidade, al mogam com freqiéncia a s6s ou com seus colegas do departamento de filosofia, Almogos ¢ jantares a dez nao sio raros. Vuillemin ¢ Foucault se entendem as mil maravilhas ¢ evoluem como peixes na agua no mundinho des filésofos lo- catis, onde as relagdes se pautam pela simpatia e pelo caloroso coleguismo. E no entanto uma série de coisas deveria separar os dois professores. Como vimos, Vuillemin se orientou para a filosofia das ciéneias, segue a tradigao analitica anglo-saxéniea, interessa-se pelos trabalhos de Bertrand Russell, por légica, matemAtica, Nesses anos publica sua Philosophie de V'algébre (Filosofia da 4l- uebra). Politicamente a distincia também € muito grande: Vuillemin pouco a pouco se aproxima da direita, Foucault bem ou mal continua sendo de es- querda, Eles discutem muito, e Foucault muitas vezes encerra os debates com esta observagdo: “No fundo voeé é um anarquista de direita e eu sou um anar- quista de esquerda™. O que pode haver em comum entre esse homem de dizeita que se interessa por Iégica e esse homem de esquerda que esereve sobre Blan- chot, Roussel e Bataille? A precisto, a matua estima intelectual superam todas ax suas divergénclas. Em muitos aspectos cles esto-em sintonia. Sua amizade perdura e tert conseqiiéneias muito importantes para a car- reira de Foucault. Pois em 1962 Jules Vuillemin parte de Clermont. Uma crise ardiaca fulminou Maurice Merieau-Ponty ¢ Vuillemin é chamado a sucedé-lo no Collége de France. Alids Foucault contribuiu para isso: pediu a Dumézil que ajudasse seu amigo de Clermont e assim The prorporcioneu 0 apoio que a in- Muéncia do mitélogo podia mobilizar. Vuillemin é eleito, Suplantando Ray- mond Aron, que tera de esperar varios anos para renovar sua candidatura, Um ano depois de Vuillemin, Jean Hyppolite ingressa no corpo docente do Collage de France, Os dois rapidamente se poem a tomar as-providéncias necessarias para que Foucault seja admitido na prestigiada instituicao da rue des Ecoles, 0 san- rio da gloria universitaria da Franga. Com o apoio de Georges Dumézil, ém dizer. A eleigZo ocorre em 1969. Depois de maio de 68, que aguga as des entre Vuillemin e Foucault. Violentamente contrario & revolta estu- — diz isso num livro publicado no final de 1968, Rebdeir {'université (Reconstruir a universidade) —, Vuillemin nunca deixara que a dissensao poli- tica passe por cima da avaliagdo da obra, Mas antes de 1968 0 que poderia leva-los 4 desavenga? Ou simplesmente 40 desentendimento? Eles falam de politica freqiientemente, & verdade. Porém hem um nem outro pertence a um partido, eles no so militantes, ¢ a politica est4 longe de estruturar sua existéncia e seu pensamento, Nao se pode projetar no Foucault de entao a imagem do Foucault de depois, Seus colegas da época em geral osituam “mais & esquerda’’, porém a definic¢éo nao € unanime. Entre- tuto © descrevem primeiramente como bastante afastada de qualquer mili- flincia, ainda que ele se interesse muito por politica, e se surpreendem, para nao 138 dizer mais, com sua tendéncia & extrema esquerda e suas posigdes radicals nos anos 70. “Nunca acreditei realmente nisso”, diz hoje Francine Pariente, que foi sua assistente durante quatre anos, de 1962 a 1966, Uma coisa é certa: nada levava a supor tal evelugao. Dentre os que o conheceram nessa ¢poca alguns nao hesitam em aplic Ihe outro rétulo politica: Foucault era gaulliste, dizem. Jules Vuillemin nao concorda. Conversou o bastante com Foucault para saber que ele nao era nada disso, Se alguns pensavam assim era porque Foucault mantinha 6timas relagdes com Etienne Burin des Roziers. 0 embaixador da Franga em Varsévia partira da Polénia pouco depois dele para se tornar secretario geral de TElysée. Um cargo politico de grande importancia: uma espécie de primeiro-ministro da sombra. Foucault nfo perdeu oportunidade de se aproximar dos hastidores do poder e ser recebide no palacio presidencial 4 rue dw Faubourg-Saint-Honoré, Burin des Roziers escreve ne) ‘Quando ele me visitou em 1962 0 future de nosso ensino superior Ihe interessava muito. Ele aceitou com entusiasmo encontrar Jacques Narbonne, membro do se- cretariado geral enearregado des processos relatives & universidade.? Jacques Narbonne o recebe ¢ pede sua opinige sobre uma eventual reforma universitaria. Mas a conversa é informal e nao abre caminhe para nenhum relatério oficial, Nem oficioso, alias. Esses contatos com o poder gaullista via um pouco mais longe nos anos seguintes. Por exemplo, quando se trata de nomear Foucault subdiretor do en- sino superior no ministério da Edueagao. Tuda parece resolvido ¢ varios reitores enviam eartas de felicitagdes ao nave promovido. Cartas prematuras! Pois a no- meagio de Foucauit esbarra numa frente de recusa. Os opositores — desta- cando-se 0 mais influente deio da Sorbonne, Marcel Durry, ¢ sua mulher, a nao menos influenté Marie-Jeanne Durry, diretora da Ecole Normale Supérieure feminina de Sévres — ressaltam o carter “peculiar” de sua personalidade. Ou seja: sua homossexualidade. “Imaginem um diretor de ensino superior homos- sexual”, exclamam os detratores de Foucault, que néo hesitam em lembrar sua aventura polonesa. E a nomeagia nao sai, Mas o episodio tem sua importaneia. Mostra bem que tipo de homem era Foucault na épeca: um académico no sen- tide mais classieo do termo, a quem nao repugnavam as fungdes politicas ¢ administrativas de subdiretor do ensino superior. Foucault “académieo”? Pode surpreender, Mas no se deve esquecer que na época ele comps a banca exami nadora co ingresso A Ecole Normale Supérieure da rue d’Ulm ¢ a banca de con- clustio de curso da ENA. Sim, da ENA! Percebemos também com muita clareza © papel que o homossexualismo devia desempenhar no distanciamento que ele sempre manteve com relag&o a institwig4o ou que a instituicao sempre manteve com relagio a ele. Talvez tado o seu itinerério filoséfico € politico tenha se deci- 139 dido nessa época, O que teria sido um Foucault alte funciondrio de um minis- tério? Ou diretor da ORTE ise), como the proporiam anos depois? Nao vamos tentar escrever a historia no con- dieional Voltemos a historia real: em 1965 Foucault participa da elaboragio da roforma universitaria empreendida por Christian Fouchet, ministro da Edu- ‘ssa reforma foi um dos grandes prejetos do gaullismo e particularmente ie Georges Pompidou, o primeiro-ministro. Um projeto que desencadeou pai- (Office de Radiodiffusion-Télévision Fran xOes durante anos, Jean-Claude Passeron esereve: ‘A reforma é empreendida em 1963 sobre principios de especializagto cientifica ¢ profissional de niveis hierérquicas, revisao de cursos e programas, controle de mimore edo fluxo de estudantes pela setegio no Ingressa & faculdade. © que disso resulta em 1964 da inicio a um debate em que entram de imediato os sindicatos mugisteriais e a UNEF (Union Nationale des Etuciants F pensamento (Club Jean Moulin), as revistas (ndmero especial de Esprit de mai junho de 1964), ¢ que se ampliard. E portanto em torno do projete Fouchet que & puirlir de 1965 se trava o debate que colvca a universidude a lus da atustidade, culos ete angais), 09 cen Christian Fouchet havia de fato criado uma comissae de estudo do ensino superior encarregada de refletir sobre os problemas globais. Denominado “Commission des Dix-Huit”, 0 grupo se reuniu em novembro de 1963 e marco de 1964. Nessas reunides definiram-se os grandes prineipios da reforma. Fal- tuva aplica-los. E para tanto criou-se uma nova comissao, "do ensino literério € vientifico", que passou a atwar em janeiro de 1965. Sua tarela: preparar as modalidades concretas da reforma, Entre os membros da nova comissao fi- guram professores do Collége de France, Fernand Braudel, André Lichnérowicz e Tules Vuillemin, que se demite apés a primeira sesstio, varios dedes, Georges Vedel, da faculdade de direita de Patis, Mare Zamansky, da faculdade de cién. € Ha também Robert Flacelligre, diretor da Ecole Normale Supérieure, ¢ professores universitarios de todas as matérias. E entre eles Michel Foucault. Como ele chegou ai? Por sugestio de Jean Knapp, conselheiro téenico do mi- nistro e que entrou com Foucault na cue d'Uln, Em 1962 Jean Knapp era conselheiro cultural em Copenhague e convidara Foucault a pronunciar uma conferéneia sobre Folie et déraison. O embaixador francés na Dinamarea era entio Christian Fouchet, que ouviu falar da forte impressia causada pela expo- siglo de Foucault, Nomeado ministro da Educagio, Fouchet designa para seu gabinete Jean Knapp, que the sugere a participagao de Foucault na comissio, Isso nada tem de surpreendente: nao é a primeira vez que se verifica a impor Uneia das solidariedades e dos agrupamentos narmaliens na vida universitiria, ltural e politica da Franga, Foucault accita, mas exige que Jules Vuillemin (ambém participe. A primeira reuniao realiza-se em 22 de janeiro de 1965. Até M0 + io de 1966 have terial. F missdo registram algumas de suas intervengie: 1965, sobre os contetidos do ensino secundario: uma reunitio por més na biblioteca do gabinete minis- sucault comparece assiduamente a todas as sessdes. As atas da co- Como esta, de 5 de abril de Monsicur Foucault recomenda que na organizagaio do ensiao a éntase recaia sobre as disciplinas de carater formative mais que nas matérias orientadas para ¢ ensino superior. Ele deseia que se aprofundem as matérias fundamentais, Ou este parecer sobre a agrégation: “nao fornece elementos referentes & aptidao essencialmente um teste de vivacidade inte- dos candidatos para a pesquisa. lectual”; entretanto “concorda que mantenha a forma de concurso”. A iiltima reunido ocorre em 17 de fevereiro de 1966 na presenga do ministre. Segundo as atas da sesso Foucault nto manifesta profunda discordancia quanto as linhas gerais da reforma mem quanto &s solugdes de sintese adotadas aps os ira- balhos, ¢ Frangois Chamoux, helenista membro da comissa, confirma essa 40. Muito mais: Foucault redige varios relat6rios para preparar os tra- impres balhos da comissio, Um deles, escrito com Frangais Chamoux ¢ datado de 31 de margo de 1965, eoloca diversos problemas sobre a organizagio das facul- dades ¢ prineipalmente sobre o sistema da tese de doutorado, que considera pesado demais ¢ ultrapassado ¢ propée substituir por um sistema de publi- sescalonadas no tempo: “A conchusio da tese principal nado mais correria o risco de ser, o que as vezes é atualmente, o coroamento de um esforgo tao longo que auter fica esgotado pelo resto de seus dias", Outro relatério, elaborado s6 por Foucanl, aborda o curso de estudos filosdficos. Propde um plano detalhado do que se deveria lecionar nos diferentes anos do ensino superior. Sugere tam- bém um programa em dois tempos para a ensina secundaria: o estudo da filo- sofia comecaria na premiere como uma iniciagdo a psicelogia, © prosseguiria na ferminale com uma iniciagho 48 questées floséfieas propriamente ditas © as contribuigdes contemporaness das cifneias humanas (psicanalise, sociologia, lingiiistica), Paralelamente a essas reunides da comissio nas dependéncias do. minis- tério, promovemse por toda parte numerosas assembléias universitirias para que a discussAo scja a mais ampla possivel. Pois os debates sho intensos. Se tudo corre bem e com aparente consenso no locante aos setores cientificos, 0 projeto de reforma esharra em numerosas oposigSes quando se refere a outras disciplinas, Henri Gouhier se lembra de Foucault chamando os colegas a reali- dade numa reunido na rue d'Ulm a que comparecem representantes de todas as universidades francesas: “Nao se esquegam’, diz ele, “que caminhamos para uma situagio em que havyerd uma universidade por departamento"”. Foucault leva a sério sua participagao no projeto, Durante esse ano fala muito com seus alunos sobre as discusses que se desenrolam em Paris. Freqientemente, antes 14h de comegar uma aula, pergunta d classe: “Querem saber em que pé estil a re- forma?™. E durante uns vinte minutos explica o que esti em jogo, quais os pro- blemas levantados, as respostas encontradas. A reforma entra em vigor em 1967, Desde dezembro de 1964 a UNEF denuneia suas linhas gerais. Em margo de 1966 o SNESup (Syndicat National dex Bnseignants Supérieures) organiza trés dias de greve para protestar contra as conelusdes das comissdes e do ministério, Movimento que tem grande adesio, segundo informagbes de Le Monde, Deve-se ver nessa “reforma Fouchet", ‘como passou a ser chamada, um dos principais estopins de maio de 1968? A explicagito com certeza é simples demais para um fendmeno tao complexe. Po- rém ¢ divertido pensar que Foucault participou de sua elaboragio. O que, diga- se de passagem, ridiculariza totalmente os ensaistas que quiseram denunciar as obras publicadas por Foucault nos anos 60 os esquemas fundadores de um “pensamento 68” relacionado com os fatos do mesmo nome,‘ Quando escrevia Les mots et les choses Foucalt nio preparava a revolugto, nia sanhava com as hurricadas, Nao, diseutia nos gabinetes de um ministro gaullista sobre o futuro do ensino seeundario e superior na Franca, Sob 0 aspecto politico ha um ponto sobre 0 qual todo mundo concorda: Foucault era yiolentamente anticomunista. Desde que saiu do Partido e prinei- palmente depois que merou na Polénia adiava tudo que se referisse ae comu- nismo, Os avatares da vida universitaria de Clermont proporeionam-Lhe a opor- tunidade de expressar esse adio, Quando é eleite para o Collage de France, Jules Vuillemin se pergunta quem poderia substitui-lo. Foucault sugere o nome de Deleuze. Fax quase dex anos que Foucault e Deleuze nfo se véem, desde o jantar em Lille. Mas Deleuze acaba de publicar um livro que atraiu a ateng4ode Foucault. Na época Deleuze é um historiador da filosefia com um estilo bem classico, embora ja indique a originalidade que explodira em sua obra pos- terior, Publicou apenas um livrinho sobre Hume quando aparece seu estudo sobre Nietzsche et fa piilosophie (Mietesche ¢ a filosofia), que logo se destaca nos meios profissionais ¢ encanta Foucault. Vuillemin concorda inteiramente com 4 sugest&o; escreve a Deleuze, que est4 no campo, no Limousin, recupe- rando-se de uma grave enfermidade. Algum tempo depois ele chega a Clermont para passar o dia com Foucault e Vuillemin. Tudo corre muito bem ¢ todos fieam muito contentes, A candidatura de Deleuze ¢ acolhida com unanimidade pelo departamento de filosofia, ¢ Vuillemin faz o conselho da faculdade apro- yiela também unanimemente. E contude a vaga escapa ao candidato cleito. Outro postulante conta com o apoie do ministério: a citedra € designada para Roger Garaudy, membro do bird politico do Partido Comunista. Durante muito tempo ele foi o guardiao da ortodoxia teoriea marxista na época da vul- 142 gota stalinista. Por que o ministro interfere ei sores de Clermont, que nao o querem? A pedido expresso do primeiro-ministro Georges Pompidou, dizem os rumores, As eustas de que tramdias? Mistério, O- defo da faculdade protesta oficialmente. Nao acontece nada. Garaudy € no- meado e se instala em Clermont, Para sua desgraca! Pois vai enfrentar a intran- sigente hostilidade de Foucault. Apos a partida de Vuillemin ¢ a recusa de De- seu favor e o impinge aos profes: leuze, Foweaull procura sair de Clermont, mas antes trava uma guerra de des- gaste contra Garaudy, guerra tanto mais efieaz porque ele substituiu Vuillemin como diretor do departamento de filosofia. Foucault aproveita todas as oportu- nidades, todos os pretextos para dar livre expressao a seu ddie, Um odio feroz Incansayel, Garaudy procura remediar a situagio, Uma noite vai a casa de Fou cault em Paris ¢ pede para Ihe falar, Foucault tenta bater-Ihe a porta na cara. Garaudy a segura com 0 pé ¢ insiste. O encontro termina numa enxurrada de insultos. Os motives de Foucault sio de duas ordens, Por um lado ele esbraveia contra a “‘nulidade intelectual’ do nove professor, “Nao € um filésoio”. 4 para quem quiser ouvir, “Nao precisamos dele aqui.” E a razio oficial que apresenta em suas vituperagées piblicas. Por outro lado nao esconde de seus intimos a razio que o leva a agir assim: a profunda repugnaneia que the inspira esse triste representante do stalinismo & francesa, que oficiava j4 no primeiro plano quando ele mesmo estava sob a influéneia marxista e aderiu ao Partido Comunista. Foucault tem uma conta a ajustar com Garaudy, E vai ajusta-la, Garaudy se vé obrigado a agiientar todos os sarcasmos, todas as impre- cages que o génio de seu diretor inventa contra ele, Vé-se obrigado a suportar também sua firia. Comete um erro ortografico numa bibliografia? Foucault imediatamente o chama e fustiga sua incompeténcia. A vida do departamento de filosofia é cheia de incidentes dessa espécie, © conflito atinge o ponte culmi- nante quando Garaudy se engana de modo bastante grosseiro ao dar um tema de pesquisa para uma aluna: traduzir do latim os Peusamentos de Marco Au- rélio, Que foram eseritos em grego. A cena teve uma testemunha, pois Michel Serres divide a sala com Garandy. Serres conta a historia a Foucault, que se enfurece, chama Garaudy de tados os nomes e até o ameaga de proceso admi- nistrativo por falha profissional. E o eppararchtk stalinista, nado obstante ter certamente passado por sitmagdes semelhantes ao longo de sua militaneia, cede ags alaques repetidos e cada vez mais violentos de Fourault. Pede transferéneia para “outro cargo equiralente”, Dois anos apis o gesto autoritério do minis. tério, ele parte para lecionar em Poitiers. Foucault exulta. Venceu um inimigo. E no mesmo processo ganhou um amigo, Pois data desse momento sua amizade com Deleuze, finalmente nomeado pars Lyon. Os dois se encontram regular- mente quando Deleuze vai a Paris. E sem se tornar intimos seus lagos sfo bas- tante fortes para que Foucault empreste seu apartamento para o casal Deleuze quando esta ausente. 143 Durante seus anos em Clermont Foucault também se torna amigo de Mi- ehe) Serres, Este trabalha sobre Leibniz ¢ possui uma cultura cientifiea pouco sual entre os filésofos, Discute com Foucault varias passagens que estao sendo claboradas para Les mots et les choses. Foucault the apresenta suas hipdteses, suns descobettas, suas intuigdes, E Serres as examina, as comenta, as critica. Passam horas trabalhando assim. Perdem-se de vista quando Foucault parte de Clermont e s6 se reencontram em 1969 em Vineeanes um “dindi” — o termo talvez surpreenda, mas est presente nos depai- mentos de colegas ¢ alunos —, ¢ um dandi que toda semana vai dar suas aulas en) Clermont. Usa terno de veludo preto, puldver braneo de gola olimpica, cap de i verde. Os que conviveram com ele na época da Ecole Normale nia reco- ormentado, doentio. desajustado que retiveram na lem: deram de vista 0 ex-colega pa. hhecem o adolescente branes. Cinco ou seis anos se pa! Sabian que estava no exterior, que preparava sua tese, que ia defendé-la... depois dessa longa austneia reencontram um Foucault diferente, um homem feito, trangiilo, risonho. Um homem que conservou a gosto pelo sarcasmo e pela provecagio, mas integrau-o muma personagem que, por ser sempre enig- miltica aos ofhos de muitos, parece pelo menos reconciliada consigo mesma ¢ com 0s outres, Michel Foucault organizou seu trabalho a fim de evitar todas as coisas que 6 incomedam. Em 1962 reeruta duas assistentes, Nelly Viallaneix e Fran- cine Pariente, as Foucauét’s sisters, camo as chamam na faculdade, que se en- carrepam dos cursos de psicologia social e psicologia da erianga, matérias que © fildsofo detesta lecionar. Ele fica com o curso de “psicologia geral””, Termo bas- {ante vago sob © qual ensina e que bem entende, Logo no inicio previne os alunos: “A psicologia geral, como tude que ¢ geral. nio existe”. Assim pode r muito sobre a linguagem e a histori teorias lingtisticas, bem como de psicandlise. Un dia deelara a Francine Parlente: “Este ano vou dar um curso sobre a histéria do direito”. Eda. Scu trabalho sobre a loucura ainda é muito recente ¢ ele ja est no cam De 1960 a 1966 seus Cursos levam a marea permanente dessa tensa entre a que foi feito eo que sera. entre o passado eo futuro, entre ¢ pesquisa publicada ea obra em gestagaio, O que poderia indicar que a intuigdo profunda de seu pensamento é fortemente unitéria, embora as expressées sucessivas tenham encontrado formas diferen- cladus mbém da um curso sobre a sexualidade a partir de um texte sobre feud ea teoria da sexualidade infantil, Nao esconde que pretende escrever um vro Sobre a questo na linha de sua Histoire de la folfe. Em 1976, ao pu- blicar o volume inaugural de uma vasta empreitsda anunciada sob o titulo geral dle Histoire'de fa sexuaiité, logo depois de langar Surveiller et punir, € bombar- deado de perguntas sobre a passagem de uma pesquisa a outra e as relacdes m, ¢ eles pe tho de seus livres futu M4 entre clas. De fato essas preocupagdes convivem jf nos anos 60. Manifestam-no seus cursas, que passam da sex dilo muito espage & psieandlise. Fou continua apegado a Freud. Sempre comenta as Cinco psicandfices © a Interpre tacdo das sondos. Freqiientemente cita Lacan e recomenda aos alunos que Teiam seus artigos na revista Psychanalyse. Contudo, sendo professor de psico- ilidade ao direito € do direito A sexualidade e It renegou Marx ha muito tempo, mas logia, niio se esquece de fornecer aos alunos uma longa aprendizagem dos testes de Rorschach, 20s quais dediea uma ou duas horas de aula por semana durante varios anos. Assim como se demora sobre as teorias atuais da percepgio e da sensagie". Conyém insistir num ponto: todos os seus cursos so extremamente pedagégicos, Nao se deve imaginar grandes tiradas inspiradas incompreensiveis para os alunos nem discursos muito dificeis para eles. Nao estamos mais em Uppsala! Isso também nao tem nada aver com as aulas no Collége de France, que visam a expor, a testar uma nova pesquisa. Em Clermont, Foucault quase sempre obedece ao programa estabelecido, define as nogbes, apresenta as di- versas teorlas, dé resumos sintéticos. Basta ler as anotagdes dos estudantes para se convencer: tudo estd organizado em pardgrafos com pequenos esquemas ex plicativos. Seu curso é escolar no bom sentido do termo e bastante tradicional, apesar de sua distinciacom relago ao papel de professor, apesar de suas liber- dades com relagao as normas universilarias. E um verdadeiro trabalho de ini- viag&o que ele oferece aos alunos, de maneira simples ¢ precisa, Clara, utiliza 0 material manuseado para os livros em andamento, ¢ seu curse sobre os “pro- blemas contemporfineos da linguagem", por exemplo, lida com temas que se encomtrarao em Les mats et les choses, porém ele nao mistura as duas ativi- dades, nado confunde os piblicos de seus dois tipas de discurso: o do professor e odo eseritor, Michel Foucault € um professor fascinante, Caminha de um canto 4 outro do estrado, fala sem parar e raramente recorre as fichas que coloca sobre a mesa uma olhadela, ¢ sua voz se ergue de novo, retoma o ritmo rapido, entre- cortado, finaliza as frases como que se elevando na curva melédiea de uma in- terrogagiio para retomar as inflexdes seguras da resposta aos problemas levan- tados. Foucault gosta de desconcertar os alunos, Durante a aula interrompe-se de repente e pergunia: “Querem saber 0 que ¢ estruturalismo?”. E como nin- guém se atreve a responder espera alguns instantes € apresenta uma longa expli- eagiio que deixa a platéia perplexa. Depois retoma o fio da meada que largara yinte minutos antes, O curso gue mais amedronta os alunos — pois estéio fasei- nados, porém sempre um pouco inquietos — ¢ dedicado a Rorschach, & noite — de manha ele fala sobre diteito ou sexualidade. & tarde sobre psicanilise, lin guagem ou ciéncias humanas. Foucault divide os alunos em grupos de sete. E ‘como sempre sabram duas ou trés pessoas, instala-as de lado. E durante a aula pombardeia de perguntas esses exilados a que chama de "beduino oando 145 quando « resposta é errada, Apr > ma do quando a resposta é correta; entito faz ra mademoiselle Fulana'’. Os alunos saber que devem fazer de tudo para escapar & condigao de “beduino'', Mas como escapar aos temas de dissertagdo? Deus sabe que no slo féceis. Por exemplo: “A familia neurética, ou seja, a familia”, Ninguém ousa-se aventurar em lal terreno, ¢ Foucault nao tem nenhum texto para corrigir: todo mundo se esquiva, Mais temivel ainda é 0 exame oral no fim do ano, A uma aluna jé Idoso: “Um doce pa egse coment paralisada pela timidez ele pergunia — € o tema da argtiigfia: “O que vocé quer {aver quando erescer?”. A“estudante comega a elaborar uma resposta ¢ depois de alguns instantes Foucault a interrompe; “Pede me citar cinco casos de neu- rose deseritos por Freud?”. Ela responde ¢ o exame termina, Apesar de tudo os alunos adoram e admiram seu professor. com ele depois das aulas, acompanham-no até a estagdo, tamam um ultimo (rago ne café antes de o deixar partir, Em scu primeiro ano em Clermont Fou: cuult ¢ aplaudido ae final de cada aula. O que nunca se viu no Auvergne, pelo menos que alguém se lembre, E nunca mais se tornara a ver. o conversar As maneiras de Foucault, seu porte, suas bizarras relagdes com os estu dantes, a idéia que parece ter de outros professores ... no agradam a todos os seus colegas, Muito apreciado no departamento de filosofia, Foucault nao tem amiges no resto da faculdade. Para alguns ¢ a enearnagao do “deménio", nem mais nem menos, E, como se pode imaginar, n&o se priva de brincar com essa imagem: a seu lado "dandi, j4 mencionado, devemos aerescentar’ 6 riso "'sar- ‘o", a “arrogincia”’ que ostenta sempre © em toda parte. os comporta- mentos “exeénirieos"” — assim dizem as testemunhas, Tudo contribui para de: sorlentur a pequena faculdade provineiana, « canalizar para ele um rancor con ira os “intelectuais parisienses', “Intelectual parisiense!" Esse ¢ o problema. Ele mora em Paris — na rue du Doctenr-Finlay, 15" arrondissement —, fre: (lente os meios literarios de vanguarda, colabora em diferentes revistas, Cri higue, Tel Quel, NRE... nas quais e esereve sabre Bataille, Blanchot, Kloss ski... Nao parece realmente a pessoa adequada para lecionar nesse lugar iso- lado, distante, Hoje talvez seus alunos ¢ os outros professores se espantassem menos. Porém antes de 1968 a presenga de Foueault choca tanto quanto seduz, Fora de wn pequeno grupe de aniigos ele é muito malvisio, até severamente criticado. Nao o petdoam pela nomeagao de Daniel Defert como assistente no departamento de filosofia. Daniel Defert ¢ aluno na Ecole Normale de Saint don. Cloud quando Foucault o conhece, ao voltar da Alemanha, Comega com cle amorosa que durard até sta morte, Durante quase 25 anos Daniel Defert participa de sua vida. E Foucault o ama até o fim, malgrado os mo. mentos de tensio e de dificuldade, Até de crise, pois numerosas testemunhas 146 mencionam seus tormentos ¢ desesperos quando 6 rompimento parecia prestes ase consumar, Mas, entre tempestades e bonangas, a relagdo resiste, Em 1981 numa entrevista com © cineasta alemao Werner Schroeter, Foueault fala da intensidade dessa relagao: Eu vive num estado de paixto por alguém. Pode ser que em determinado mo- mento essa paixio se transformou em amor. Na verdade se trata de um estado de paixao entre nbs dois, de um estado permanente que no tem outro motive para terminar além de si mesmo e no qual estou completamente envolsido. que passa através de mim, Creio que nfo ha uma s6 coisa no mundo, nada, seja o que for, que poderia me deter quando vou eneantra-lo, vou Ihe falar Fssa relugito se inicia quando Foucault est4 em Clermont e ele nao hesita em usar das prerrogativas que Ihe confere seu posto de responsdvel pelo departa- mento para arranjar um cargo de assistente para seu amante. Nao se importa de eseandalizay a universidade ¢ a um membro do Consellto que Ihe pergunta quais foram os critérios adotados para a escolha de tal candidato em lugar de outro postulante, mais velho e com mais titulos, responde: "Porque nbs aqui nao gos- tamos de solteironas”. Era porque estava farto de lecionar psicologia? Era porque se sentia pou- co & vontade nesse mundo um pouco esireito? Ou simplesmente, como diz um de seus amigos, porque “nfo esquentava lugar? Todas essas razdes talvez se conjuguem para determinar sua partida de Clermont no final do ano letivo de 1965-66. De qualquer modo ele j havia tentado varias vezes escapar desse am- biente universitario um pouco sufocante. Em 1963 estava prestes a ser nomeado diretor do Instituto cultural franeés de Téquie, Mas cedeu as exortagdes do deo da faculdade que Ihe pediu para ficar. Em 2 de setembro 0 deao esereveu ao ministério para que nao o privasse de seu prafessor: Hoje a partida de monsieur Foucault causaria grave prejulzo a nossa faculdade. Nao sé no seria possivel substitui-lo no proximo reinicio das aulas. como-a situa go extremamente critica da segio de filosofia de Clermont — situagie sobre a qual ja {hes falei vérits vores — exige a mianuten do departamento pata o proximo and, Acrescento subsidiariamente que monsiour Foucauitem sua condigdo de psivdlogo ¢ 0 tinivo que pode cfetuar a reorganizagao do tnstinuto de psicologin aplicada que empreendemos, Nessas condiydes assumi a responsabili- dade de in mente com monsicur Foucault para que decline da oferta que do direte viva recebeu, Com um desprendimento pelo qual the sou muito grato, ele admitin a justeza dos arguments que the apresentei. Em 1965 Foucault novamente pensa em deixar Clermont; 0 socidlogo Georges Gurvitch sugere-Ihe que se candidate & Sorbonne e se oferece para is7 jas Canguilhem o aconselha « nto fazer nada disso, pois a situa ; Foucault ter contra si a maioria do departamento de filosofia, que apollo. ert inclu filésofos, secidlogos e psicdlogos. A Sorbonne nao parece nada dispo recebé-lo ¢ Gurvitch nao é tao estimado por seus colegas a ponto de estes se privarem de Ihe pregar uma pega e recusarem seu candidate, Foucault desiste apresentar sua candidatura, E envia uma longa carta a Georges Canguilhem a agradecendo-lhe por The ter aberto os olhos: Vocé me prestou profuridamente “servigo”, como se die com sio, impedindo-me de fazer a besteita a que Gurvitch me empurrava. Para mim isso é agora de uma clareza ofuseante, ¢ eragas a vor. ssa curiosa expres Foucault fica em Clermont. Mas varias vezes pede a Jean Sirinelli, chefe do jigo do ensino franeés ne exterior, que lhe arranje um cargo. Foucault 0 co- nheceu na rue Ulm, quando ambos ali lecionavam no comego dos anos 50. Além disso Sirinelli é amigo de Barthes. Tudo se passa sem problema. 56 que Sirinelli nio sabe que pablico Foucault poderia encontrar no Congo-Kinshasa, we universidade esta sempre sob a dependéneia dos professores de Louvain, e o desaconselha air para [4 como parece que ele desejava. Foucault tampouco vai morar no Brasil: apenas o visita em 1965, a con- vite de Gérard Lebrun, que foi seu aluno na tue d’Ulm-em 1954 ¢ se instalou em Slo Paulo, onde mora e leciona até hoje. Em Sao Paulo Foucault promuncia uma série de conferncias. Nao, decididamente ele nfio esquenta lugar. Em 1966 obiém sua transferéncia para Tinis. Les mors et'les choses acaba de ser publi- ado ¢ alcanga um sucesso retumbante ¢ inesperado. E no alarido que acom- panha 0 aparecimento dese livro, que seus alunos de Clermont foram os pi meiros a conhecer, Miche! Foucault diz adeus a cidade. 148 4 ABRIR OS CORPOS Absorvido na elaboragao de Folie et déraison Michel Foucault nao pu- blicou mada durante os anos que viveu na Suécia, na Polénia ¢ na Alemanha Porém ao yoltar para a Franca logo se poe a preduzir livros e projetes de livros, artigos ¢ prefacios. Um movimento multiforme ¢ ascendente que encontra a apoteose em Les mots et les choses, em 1966, poueo antes de sua partida para Trini Primeira os projetos. Numerosos, A comegar por uma continuagao direta da Histoire de la folie. Pierre Nora, que na época trabalha na Julliard, quer o, “Archives”, ¢ pede a alguns historiadores que retinam langar uma nova cole e comentem documentos sobre determinado assunto ou época. Nora leu Folie et déraison ¢ escreveu a Foucault. Ele se lembra bem de seu primeiro encontro. Foucault esta “toda de preto”, com “um chapéu de notario"’, “abotoaduras de ouro”.,. E aceita a sugestto do editor. Pretende apresentar textes sobre os “encarcerados”. A obra é anuneiada na lista dos ''a seguir’ que figura nos primeiros volumes da série: “Les fous. Michel Foucault raconie du XVII! au XIXS sidele, de te Bastille # Sainte-Anne, te voyage au bout de fa nuit” (Os Joucos, Michel Foucault relata, de século XVII ao XIX, da Bastilha ao Sainte- Anne, a viagem aos confins da noite). A seguir’... Mas a obra nao se conere- tiza. Surgem outros projetos que também ficam esqueeidos para reaparecer mais tarde, sob outras formas. Como essa Histoire de Uhystérie (Historia da histeria), para a qual cle assina um contrato, em fevereiro de 1964, com a edi- tora Flammarion e a “Neuvelle Bibliothéque scientifique” dirigida por Fer nand Braudel, J4 vimos que 0 grande historiador nio demorou ‘em reconhecer o talento do jovem filésofo, Prazo previsto para a entrega do manuserito: outono de 1965, Mas logo Foucault modifica o projeto e firma novo contrato para um livro muito diferente: um estuda de L tdée de déeadente (A idéia de decadén- Bo serio escritos cia), Os dois textos tém apenas um ponto em comum: 149 No en ult trabatha muito. Em 1963 publica duas obras bem diferentes, Um estudo sobre Raymond Roussel, langado pela Gallimard na co- lego “Le chemin", que Georges Lambrichs dirige, e Naissance de da clinique. Foucault cuidou para que as duas obras fossem langadas no mesmo dia. Para mostrar a importaneia igual dos dois centros de interesse que mobilizam sua atengiio? Ou, mais profundamente, para mostrar que numa 2 na outra estd {alundo da mesma coisa? O livra sobre Roussel faz parte de um conjunta, Poderiamos até falar de lum “ciclo literdrio”, como nos anos 70 h4 um “eiclo carceral, com uma cons- lelagtio de artigos, prefacios, entrevistas girando em torno de um livro: entre 1962 e 1966 Foucault publica uma série de artigos sobre escritores. E impossivel solar dessa série o “caso Roussel”, tinieo escritor ao qual ele dedicou um livro. Além de nio ser filésofo, Roussel é 0 menos fildsofa dos escritores que Foucault admira. De qualquer modo 0 mais enigmAtico, 0 mais esotérico. Um poeta e dramaturgo quase desconhecide na época, que os romancistas de vanguarda redescobriram como um de seus precursores, guiados por Biyfieres (Rabiseos) de Michel Leiris, Ne primeira volume de sua autabiogralia, publicado em 1948, Leiris se detém a evocar a lembranga de Roussel, a quem conheceu muito bem. Mas por que e como Foucault descobriu Roussel? Por acaso, explica numa entrevista destinada a servir de posficio & edigfo americana da obra, em 1983 nto Eu me lembro da maneita como 9 deseobri; foi na época em que eu morava na Sudcia ¢ ia A Franga no verilo, s6 pasar as férias, Um dia fui a livraria José Corti para comprar ao sei que livro. José Corti esiava 14, em pessoa, sentado a uma grande mesa, um velho espléndido. Ele estava eonversanéo com um amigo, En. quanto eu esperava pacientemente que terminasse de conversar, meu olhar fai atrafdo por uma série de livros cuja cor amareta, um pauco envelhecida, era a cor tradicional das velhas editoras do fim do séoule passado, em suma, des livros que nao sé fazem ma Peguei um livra por curiosidade, para ver o que Jesé Corti podia vender desse acervo Lemerre, hoje bastante velko, e deparei com um autor do qual nunca tinha uvido falar: Raymond Roussel, O livto se chamava La vue (A vista), J4 nas pri meiras linhas percebi uma prosa extremamente bela e estranhamente proxima daquela de Robbe-Grillet, que na épuca comecave a ser publicada, Piz uma ex pécie de aproximagto entre La vue e Robbe-Grillet em geral, sobretudo Be voyeur, Quando José Corti encerrou a converse, timidamente Ihe perguntel quem era esse Raymond Roussel. Ele me olhow com uma gencrosidade compassiva e me disse: “Bom, enfim, Roussel... Entendi que eu deveria saber quem era Raymond Roussel e sempre timidamente Ihe perguntel se podia comprar o Livro, ja que estava & venda. Figuei surpreso ou decepeionado aa saber que era muito care. Acho que naquele dia Jost Corti me disse: "Mas voc8 deveria ler também Com evi alguns de meus livros)”, De Eran obras publicadas pela editora Lemerre. s hoje em ment j'ai Serit certains de mes livees (Como es¢i pois, de modo sistematico mas lento, comprei os livros de Raymand Roussel, que 150) vem mim prof resse: fiquel encantado despertara essa prosa na qual i uma beleza intrinseea mesmo antes de quando deseebri as processos ¢ as téenicas de Raymond Roussel sem diivida um encen' ero que havia por tris. E gerts Jace obsessive em mim fol seduzido uma segunda vez Raymand Roussel naseeu em Paris em 1877. Comegou a estudar misiea, mas aos dezessete anes abandonou tudo para escrever. Trancou-se com papel e tintae deixou irradiar-se 2 sua volta a gldria solar ardente que experimentaya em si mesmo, sem necessidade de que ninguém a reconhecesse, como nio se cansava de dizer. Seu case fascina o eminente psiquiatra Pierre Janet, que ana. lisa as iluminagdes de Roussel em seu livro De Fangoisse d /extase (Da agonia ao éxtase} ¢ compara essa exaltagio literaria a um éxtase religioso, Em 1897 Roussel publicou La dowblure (QO substitute), wm longo paema que conta a vida de um ator substitute, Depois surgiu La vue, a descriglo de uma paisagem visivel apenas para quem aproxima os olhos da superficie na qual est gravada Conforme diz Hubert Juin na apresentagao de Comment fai écrit certains de mes livres, Roussel esta sozinho diante de seu poema, que nada mais deve aa mundo exterior? Sozinko também com seus romances, eseritos gragas aos pro- cessos cuja chave ele explica nessa obra postuma; o primeiro se intitula Jmpres~ sions Afrique (Impressdes da Africa}, em 1910; depois, Nowveffes impressions d'Afrique (Novas impressdes da Africa), eserito duranwe uma viagem pela Aus- trélia e Nova Zelindia, quando Roussel, recusando-se obstinadamente a con- templar a paisagem, ficou trancado no camarote do navio. com as cortinas fe- chadas, Ele escreveu também para o tetiro, ¢ suas pecas ou conheceram fra- cassos retumbantes ou fizeram tanto harulho que conquistaram 0 apoio dos surrealistas, Depois de morto Roussel eaiu num esyuiceimento quase total, até o dia em que Leiris reacendeu essa chara gue tho depressa se apagara. Até © dia também em que as “radiagdes da gléria” atrairam o alhar de um jovem fildsofo exilads na Sudeia e de pascagem por Paris, que eserevia umn livro sobre a loucura ho qual queria dar a palavra @ todes que criaram uma obra de loucura. Fou- eault deve ter ficade fascinado ao saber que Roussel fora paciente de Pierre Janet. Ao suber que em 1933 Roussel decidira se tratar na elinica de Binswanger em Kreuzlingen, mas antes de ir para a Suiga se deteve em Palermo, onde o eneontraram morto num quarto de hotel, Sui Oy assassinato cometido por um amante ceasional, como pensam alguns? Four cault admite a tese do suicidio, pois seu livre se inicia ¢ termina com o ceri- monial imaginado por Roussel; preparar-se para a morte eenviar ao editor uma obra que explica come escreveu seus livros, Foucault também fala sobre o suici- dia de Roussel no artiga publicade em Le Monde em 1964.° Alias, a nite ser por esse comércio da Titeraturs com a morte, r Roussel nesse gesto estranho, © livre de Foucault dedica bem pouco interesse aos dados biograficos. Focaliza apenas as mecanismos literdrios dio, como reza a versio oficial? Jo por 0s procedi- 451 mentos ¢ os jogos de linguagem adotados por Roussel. Toda essa maquinaria 1 levar a Hinguagem a proli- deserita em Comment j'ai écrit .., © que poder forar-se ao infinito, Roussel inventou maquinas de linguagem que sem diivida, além do proce- dimento, tém como tinico segredo a visivel e profunda relagdo que toda lingua- gem mantém, rompe eretoma com a morte. Antes de iniciar esse liyro Michel Foucault visiton Michel Leiris para lhe pedir informagdes sobre o autor e a obra, Mas Leiris nao concordou com as wniilises do filésofo atribui muitas idéias filoséficas a Roussel, que nao linha nenhuma”, diz hoje, E alias foi para mostrar que nao tinha qualquer relugito Com esse Roussel imaginado por Foucault que intitulou a coletinea de seus artigos Rousse? Mngéau (Roussel, 0 ingénua).’ Robbe-Giillet ambém nao ficou nada entusiasmade como livro de Foucault, Ele esereveu um longo artigo sobre Roussel por ocaside do langamento do livre de Foucault — cuidando, po- rém, de nao falar nada sabre “o apaixonante ensaio” do filésofo, ao qual alude tuma frase como um dos sinais do interesse por esse “ancestral direto do ro- mance moderno” — c antes de apresentar seu proprio comentario sobre a obra de Roussel.’ Hoje cle admite que nao gostou muito das andlises de Foucault. Em compensago Blanchot menciona “a obra de Roussel tal como ¢ livro de Michel Foucault nos devolveu novameate expressiva’’, E cita com admiracao esta frase de Foucault, onde encomtra o eco e o espelho dos temas que per passam sua propria pesquisa: Esse véewo solar € 0 espago da linguagem de Roussel, a vacio de onde ele fala a guséneia pela qual a obra ¢ 4 louewra se comunicam e se exchuem, E para mim esse vazio nao é metidora: trata-se da caréncia das palavras que so menos num rosas que as coisas por elas designadas ¢ devem a essa economia querer dizer alguma coisa.” Entretante o fato de celebrar Roussel nao implica o esquecimento dos escritores que precederam no coragte de Foucault o autor de fmpressions @ Afrique, Por ocasito da morte de Bataille, por exemple, ele esereve um lon- guissimo artigo, Préface d de transgression, publicado numa edigio especial da revista Critique. Bataille foi fundador da revista, e para prestar-Ihe homenagem Jean Piel conyida Michel Leiris, Alfred Métraux, Raymend Queneau, Maurice Blanchot, Pierre Klossowski, Roland Barthes, Jean Wahl, Philippe Sollers, An- dré Masson. No texto Foucault reafirma as profundas razdes de seu interesse — dle sua paixto — por esse grupo de escritores descobertos dez ow quinz anos antes 152 dade das ilo do Para nos despertar do sono da dialética © da antropologia houve nece figuras nictesehianas do tragic ¢ de Dioniso da morte de Deus ¢ do ma filsofo, do super-homem que se aproxima a passe de pomba ¢ do Retorno, Mas por que a linguagem discursiva se encontra tao desprevida em nossos dias, quando é preciso manter presentes essas figuras e manter-se nelas? Por que diante delas & reduzido, ou quase, ao mutism e como que obrigado, para que om encontrar expressiio, a ceder a palavra a essas formas cxiremas de Jinguagem que Bataille, Blanchot, Klossowski no momenta transforimaram em morada e cume do pensamento?® wien a Para Foucault a forga e a violéncia libertadora da obra de Bataille consistem em ter dinamitado a linguagem filosdfica tradicional pulverizande a idéia de sujeito falante: Eo inverso da movimento que desde Sdcrates sustenta toda a sabedoria ocidental: aa subjeti- jramente conslituida a esa subedoria a lingusgem {ilosdftea promoting unidade serena de u jade que tiunfaria nela, sendo por ela ¢ através dela int Enquanta Bataille define talver“o espago de uma experigncia em que-o sujeito que fala, ao invés de se exprimir, se expde, vai ao encontro de sua propria fini- tude © sob cada palavra se vé remetide para a propria morte”.” Nae é supérfluo destacar que nesse artigo escrito por Foucault em 1963 aparecem os esbogos de uma argueologia da sexualidade. Mas estamos longe do que se tornara Le vo- donté de savoir (A vontade de saber), pois Foucault ainda pensa nos termos da proibigdo ¢ da transgressio: srealidade indefinida em que Sade lngo de saida a colocon, as formas sistematicas da proi A descoberta da sexwalidacle, o clima d igdo om que agora se sabe que cla esta presa, a Lransgressia di qual em todas as cuulluras ela é 0 objeto ¢ o insteu- mento indicam de modo bastante imperioso a impossibilidade de emprestar a experiéneia fundamental que ela constitui para nds uma linguagem como aquela milenar da dialética.! Foucault elabora também a “‘apresentagao” das Oenvres completes de Bataille, cujo primeiro volume é publicado em 1970 pela Gallimard. No inicio desse breve prefaeio ele diz: Bataille ¢ um dos escritores mais importantes de seu stculo: Histoire de loeil (Historia do athe), Madame Edvwarda romperam o fio das narrativas para contar o que nunca havia side contado;: a Somme adhfologigue (Suma ateoldgica) intro- dusiu o pensamento no jogo — no jogo arriscado — do limite, do extremo, do cume. da transgressdo, £ érativme (O erotisme} aproximou Sade de nds © 0 tornou mais dificil. Devemos a Bataille grande parte do momento em que estamos Mas o que falta fazer. pensar ¢ dizer sem diivida se deve a cle ¢ se deverd por muito tempo..." 153 Bm junho de 1966 a Crinque apresenta um texto sobre Blanchot intitu- lade La pensée du dehars (O pensamento de fora), onde Foucault decla: A abertura para uma linguagem da qual o sujeito é excluido, a demon ‘ay ho ca inpemodiavel entre o surgimento da linguagem de uma ineompatibilidade ta om seu sere a conseiéacia de si mesmo em sua id idade € hoje uma experiéncia que Se dnuneia em pontos bem diferentes da cultura: no simples gesto de eserever, como nas t ilativas para formalizar 4 linguagem, no estuda dos mitos e na pica. nalise, Deparamo-nos com uma abertura que clurante muito tempo permaneceu 0 ser da finguagem s6-apareee por si mesmo no desapareeimento invisivel para da sujeito.!2 Cabe mencionar também o artigo sobre Klossowski, pois Foucault sempre ‘ssociou esses trés nomes; Blanchot, Bataille, Klossowski, La prose d'Actéon (A prosa de Acteao) € publicado em margo de 1964 na Nouvelle Revue Fran- oaise, Foucault n&o se limita a comentar Klossowski, mas também o freqiienta. Conheceu-o através de Barthes em 1963, Varias vezes os trés jantam juntos, enquanto no ocorre a desavenca entre Foucault e Barthes, e depois sem este lillimo, Klossowski 1¢ para Foucault trechos de um livro que esta escrevende: Le bapkomet. Um romance publicade em 1968 ¢ dedicado a Foucault, "Pois ele foi seu primeiro ouvinte ¢ seu primeiro leitor’, diz hoje o autor. Na mesma época Klossowski trabalha sobre Nietrsche. Redige o que se tornara Nietes ou le cerele vicieux (Nietzsche ou 0 cireula vicioso) © prepara o volume que reine a suas tradugdes de Gale ciéneia e de suas variantes e deve inaugurar a edigao das Obras completas de Nietzsche pela Gallimard, Uma edigio “con- fiada a responsabilidade de Gilles Deleuze e Michel Foucault”, como se pade lor na orelha. Esse primeiro volume — que se tornara 0 tomo V na organizacao geral das publicagdes — encerra um breve prefacio dos dois filosofos. Pois o mundo é pequeno! Nessa época Deleuze também € amigo de Klossowski e Ihe dedica um artigo que mais tarde retomaré em Logique du sens (Logica do sentido. Foucault tem grande admiragao por Klossowski, como demonstram as tas que lhe escreve em 1969 ¢ 1970 sobre Cercle viciewx e La monnaie vivante (O dinheiro vivo). Sobre o primeiro escreve em julho de 1969: “E o maiar livre de filosofia que j4 li, mesmo considerando Nietzsche". E no inverno de 1970 diz he sobre osegundo: Tem-se a impresstio de que tudo que importa de um modo ou de outre — Blan- chot, Bataille, Pur-detit feb. of le m. (Além do bem ¢ do mal) também — insidio- samente levava a isso: mas, vein s6, agora € dito ... Era nisso que se tinha de pensar: desejo, valor ¢ simulacro — triangulo que nos domina e nos constituiu durante séoulos, sem divvida, em nossa histéria, Agarravam-se a enteada de sua foca.os que diziam ¢ dizem Freud-e-Marx: agera podemos rir dissa ¢ sabemes por 15d + qué. Sem voeg, Pierre, terlamos ficado nessa escora que Sade uma vez assinalow e que ninguém antes de vocé contornou — do qual, para falar a verdade, ninguém se aproximou."? Em 1981, quando a esquerda chega ao poder, Jean Gattegne, que foi seu colega em Tunis e Vineennes, é nomeade diretor do livro no ministério da Cul tura. Ele telefona para Foucault ¢ pergunta: “Quem vocé acha que deveria ganhar o Grand Prix nacional de literatura?”. B Foucault responde: “Klos- sowski, se ele aceitar”. Klossowski aceita, A referéncia @ Nietzsche perpassa todos os textos foucaultianos dessa época, Alias é nessa fase que no coléquio sobre Nietzsche realizado em Royau- mont de 4 a 8 de julho sob a presidéncia de Martial Guéroult Foucault pro- nuncia a conferéneia que se tornaré célebre: Nietzsche, Marx, Freud, Ele ao esconde sua preferncia pelo primeiro. Segue-se uma discuss&o ao longo da qual ovorre este eurioso diilogo: Monsieur Demonbynes: Com relagdo & Jovewrs, 0 senor disse que a experiéncia da loueura era @ ponto mais proxime do conhecimento absoluto... Era isso real mente que queria dizer? Monsiewr Foucault: Sim. Monsieur Demonbynes: No queria dizer “conscigneia” ou “presciéncia” ou pressentimento da loucura? O senhor acredita realmente que posta haver.., que grandes cabegas camo Nietesche possam ter “a experiéneia da loucura Monsieur Foucault: Sim, sim." Anos depois, em 1971, o texto de Foucault sobre Nielzsehe, la géndalagie, Phistoire (Nietzsche, « genealogia, a histéria) é publicado no volume de home- nagem a Jean Hyppolite. Nesse periodo “literario” Foucault escreve também sobre Robbe-Grillet (do qual se tornou amigo desde que o reencontrou em Hamburgo), sobre os escritares de vanguarda agupados ao redor de Philippe Sollers ¢ de Tel Quel (em 1963 participa do coléquio sobre o romance ¢ a poesia organizado pela re- vista), sobre Roger Laporte, Butor, Clézio, etc., mas também sobre autores classicos: prefacia essa obra de loucura que sia os Didlogos de Rousseau, co- menta Flaubert, Jules Verne, Nerval, Mallarmé. O primeiro texto dessa longa série é um artigo sobre Hélderlin, Le non du pére (O no do pai), publicado na Critique em 1962. Jean Piel, que animava a revista, gostou muito da Histoire de la folie © entrou em contato com Foucault para pedir-Ihe artigos. Conhecia a famflia Foucault havia muito tempo: na Liberagao fora adjunto do comissé- 155 tio da repiiblica em Poitiers, A1é fol operade pelo dr, Foucault, Apds a morte de seu cunhado, Georges Bataille, em 1962, Jean Piel, que nao deseja assumir a responsabilidade da revista, pede a Foucault que forme um conselho editorial vom Roland Barthes e Michel Deguy. As reunides se realizam na casa de Jean Piel durante o almogo, Entre varias iniciativas, Foucault pede a Jules Vuillemin, Pierre Kaufmann ¢ André Green artigos sobre o livro péstumo de Merleau- Ponty Le visible et ('invistbte (O visivel e o invisivel) para uma edigio publicada em dezembro de 1964, O conselhe editorial se amplia em 1967, recebenda nota- dumente Jacques Derrida, O tltimo artiga de Foucault para Critique ¢ publi- ¢ m 1970. Intitula-se Thearrum philosophicum (Teatro filoséfice) ¢ trata de dois livros de Gilles Deleuze, Encerra-se com as seguintes palavras: “Na gua- rita do Luxembourg Duns Scot passa a cabega pelo visor circular: tem um bi- yode considerdvel; é bigode de Nietzsche, disfargado de Klossowski do Em 1963 & publicado Natssance de ler clinique. Q pai de Michel Foucault morreu em 1959, Deye-se ver nesse mergulho no arquive médica um meio de voltar ao proprio passado? De acertar contas com a figura paterna desapare- vida? Qu de prestar-Ihe a homenagem que nao soubera Ihe fazer em vida? Fou- caull diz que esse livro, como os outros, naseeu de uma experiéncia pessoal. E no fornece maiores explicagées. Nao nos cabe responder em seu lugar, © prefiicio se inicia com as seguintes palavras: “Este livro trata da lin- guagem, do espago e da morte, trata do olhar’”.'* Estranho eco dos temas ¢ do bulirio que obeeeavam os textos sobre literatura, E no enta to se trata de histria das ciéneias, A obra é publicada na colegio “Gallen”, que Georges Canguilhem dirige nas Presses Universitaires de France, ¢ tem eomo subtitule Une archéologie du regard médical (Uma arqueologia do olhar médico). Av contrario do que As vezes se diz, nao foi Canguilhem que encamendou o livre ‘encomendei’ nada a Foucault", diz ele hoje. “Foucault me propés o livro Pouco importa! Que relagio pode haver entre Klos- "Na depois que o coneluiu sowski e Canguithem? Talvez uma relagtio advinda de uma origem conum Nietzsche, Os que manifestaram surpresa ante a eoexisténcia dessas duas vias divergentes na pesquisa de Foucault, os que viam uma contradigfio entre sua jnspiragao nietzschiana e a tradigio da historia das ciénclas receberam uma resposta muito clara: née sabiam que o proprio Canguilhem muitas vezes si tuara sua pesquisa na descendéncia de Nietrsche? O que Canguilhem confirma Mas no fundo, ao reler-se Naissance de da clirigue junto com os textos sobre litera o-que choca nao ¢a contradigaa entre duas orientagdes de pesquisa, esim, ao contrétio, a surpreendente convergéneia dos dois enfoques, A evidén- cia desse parentesco explode alguns anos depois, em Les mots et les choses. ireta de Naissance de la clinique é ao mesmo tempo uma continuagao 456 Folie et déralson ¢ uma transigho para os livros seguintes, Continuagio direta porque estende & medicina em geral as andlises realizadas sobre os conceitos da medicina mental: questionar seu surgimento, suas condicées de possib Diferentemente de Folie et déraison, que abrange varios sécules ao longo de mais de seiscentas paginas, Naissance de le cliaique ¢ um livro pequeno — duzentas paginas — que limita seu tema aos Gitimos anos do século XVIII e ae comego do XIX: quando a medicina se reorganiza como pratica ¢ como ciéncia com o surgimento da anatomia patoldgica. Mas nele ainda encontramos 0s prin- cipios da “histéria estrutural”, em que se relacionam enfoques diferentes — econémico, social, politico, ideolégico, cultural — a fim de demonstrar as trans- formagdes que afetaraim o conjunto das maneiras de dizer ¢ de ver ¢ mais pro- fundamente o que é possivel dizer € ver em determinada época, o visivel e 0 dizivel. Reorganizagio do setor hospitalar, reviravolta no ensino da medicina, teorias ¢ prAticas cientificas, preocupagSes econdmicas — tudo contribui para a ruptura que se prepara. A grande reviravolia corre quando surge a neces: dade de dissecar caddveres. Para poder decifrar os sintomas em toda a sua profundidade o “olhar” do médico deve ir buscar a fonte no interior do corpo. Ea declaracio feita por Bichat, A qual Foucault dé todo o seu brilho: “Abra qualquer cadaver e logo verd desaparecer a ubscuridade que a observayao sozi- nha nao podia dissipar", Foucault comenta as palavras de Bichat com uma das formulagdes magnificas abundantes nesse livro como em todos as outros: “A ase dissipa ante a claridade da morte™.'” A partir disso lade, noite ¥i a vida, a doenga ¢ a morte constituem uma tindade técnica ¢ conceitual. A velha continuidade das obsessGes milenares que colocavam na vida a ameaga da doenga cna doenga & prescnen proxima da morte se rompe: em seu lugar uma figura itiangular se artieula e tem 0 Angulo superior definido pela morte. E do alto da Lisar as dependéncias orginicas e as segiténcies pato: morte que se pode ver e 4 Dessa vez ocorre outra mutase na ordem da linguagem: Foucault reencontra 0s textos de Pinel e sua vontade declarada de chegar & deserigao evata e exaus tiva das enfermidades ¢ dos corpos que sio seus portadores, Nesse movimento duplo nao sé ozorre uma transformayio das tecnologias médicas, como toda a medicina se reorganiza, bem como toda a percepgio da vida e da morte, © os préprios funcamentos do saber: Essa estrutura em gute se articulam 0 espago. « linguagem e a morte — a que cha mamos, en itui a condigao historica de icina que se da e que recchemos como p uma, 9 método anatome-cliniea — con: va uma me B nesse ponto que Naissance de le clique aponta para as futuras pes: quisas de Foucault. Mostra como se instituiu a possibilidade de um “saber do individuo’ 157 Sem divide continuara sendo decisive pars nossa cultura 0 faio de que seu pri meiro discurso fico sobre o individuo tenha de passar por esse momento da morte, © homem ovidental nie conseguiu se constituir em objeto de ciéncia a seus p interior de sua linguagem e nose dew em sie por si discursiva a nfo ser em referéncia a sua propria destruigao: proprios olhos, nose atevea mexmo uma existéncis da experiéncia da desrazio nasceram todas as psicologias ¢ até a possibilidade de uma psicologia; da colocagio da morte no pensamento médico nascew uma med cina que pode se apresentar-coma ciéneia do individue. Aponta para Les mots et fes choses no sentido de que nesse momento Foueault percebe que acaba de deserever a base sobre a qual ¥%0 prosperar todas as ciéneias humanas: sobre essa possibilidade de o homem ser ao mesmo lempo 0 sujeito eo objeto de seu conhecimento. Mas que ninguém se engane, acrescenta. Esse nascimente da medicina positiva, de toda a cientificidade que faz a pratica médica escapar ao império das quimeras, esse surgimento de um saber novo é contempordneo e solidario com © movimento que em toda a cultura contemporanea instala a morte no coragio do individu: A experitncia de individualidade na cultura moderna esté ligada & da morte: do Empédlocles de Hélderlin a Zaratustra e depois aa homem freudiano uma relagao obstinada com a morte presereve ao universal sen rosto singulor ¢ empresta 2 palasra de eada um o poder de ser indefinidamente ouvida ... De uma forma que pode parecer estranka & primcira vista, o movimento que sustenta o lirismo do século XIX forma um Gnico (movimento com aquele pelo qual o homem adquiriu um conhecimento positivo de si mesmo; mas devemos nos surpreender com ofato de as figuras do saber ¢ as da linguagem obedecerem & mesma lei profunda ¢ a irrupeao da finicude uiteapassar da mesma maneira essa relagio do homem com a morte que aqui autoriza wm discurso cientifica sob uma forma racional ¢ 14 abre a fonte de uma linguagem que se desdobra indefi auséncia das deuses??! idamente no vazio deixado pela Naissance de fa clinique nao tem a menor repercussio. Mas nao passa despereebida a Jacques Lacan, que numa sesso de seu seminario discorre lon- jamente sobre 9 livro, Nos dias seguintes algumas dezenas de exemplares so yendides. Foucault janta varias vezes na casa dos Lacan, sem estabelecer com eles lagos mais estreitos. Sylvia Lacan se lembra de uma frase proferida por Foucault em sua casa na rue de Lille: “Nao haverd civilizagio enquanto 0 casa- mento entre homens nao for admitido” 158 5 AS MURALHAS DA BURGUESIA Agosto-setembro de 1965: Michel Foucault est4 no Brasil, em Sao Paulo, Ele entrega a Gérard Lebrun um yolumoso manuserito. F quase uma consulta aum especialista: Lebrun é especialista em Kant e Hegel, mas também exce- lente conhecedor da fenomenologia e da obra de Merleau-Ponty. Lebrun [é 0 manuserito. Os dois diseutem, Quanda 9 livra é publicado, meses depois, Le- brun tem a surpresa de encontrar um primeira eapitule que nao canstava da versio que hayia lide, Uma “abertura’’ anunciando os temas do livro: Foucault analisa um quadro de Velizques, Las meninas. Esse texto brilhante, acrescen: tado na dltima hora, sem divida contribui muito para o sucesso do livro, Trata- se de um artigo que Foucault havia publicado em Le Mercure de France. Ele hesitou muito antes de inseri-lo, eonta Pierre Nora. “Achava esse artigo literdria demais para figurar no livro, mas para mim era bem adequado.” Foucault gostaria de dar & obra o titulo de seu segundo capitulo, La prose du monde (A prosa do mundo). Mas era assim que Merleau-Ponty pretendia intitular um texto encontrado em suas gavetas apés sua morte.' E Foucault nao quer parecer muito marcado pela influéncia do fi tempo. Pensa entio em Liordre des choses (A ordem das coisas). Ou ainda Les mots et tes choses. Prefere o primeiro, Pierre Nora se inclina para 9 se- gundo, F Foucault se rende a seus argumentos, A tradugao inglesa adotara 0 titulo previsto: A ordem das eaisas, ¢ em varias entrevistas Foucault dira que no fundo esse titulo era mais adequado. ofo a quem admirou durante tanto “Foucault eomo paezinhos.” & um artigo que Le Nouvel Observateur dedica as melhores vendas do veriio de 1966.’ Por surpreendente que possa parever, Les mots et les choses tem enorme sucesso, Q autor ¢ 0 editor sho os 9 primeiros a se surpreender, Trata-se de uma obra drdua, destinada a um pi- lice restrito que se interessa por historia das eién ‘O livroé lancade em abril de 1966 pela Gallimard, que publicara o estudo sobre Roussel, Foucauli propés o novo livco a Georges Lambrichs. Como Pierre Nora acaba de deixar a Juilliard para langar na Gallimard uma “Bibliothéque des sciences humaines", decide-se que Les mots et les choses ser o primeira titulo da colegae. Todos os livros de Foucault doravante serae publicados sob esse rétulo ou sob 6 rétulo gémeo da “Bibliothéque des histoires'’, aos quais comfere logo de inicio uma qualidade ¢ um prestigio que se manterao até sua morte. A primeira tiragem de 3800 exemplares esgota-se rapidamente. Em junhe 6 preciso reimprimir: 5 mil. E mais 3 mil em julho. Outros 3500 em setembro. O mesmo tanto em noyembro. O movimento continua no ano seguinte: 4 mil jem margo de 1967, 5 mil em novembro, Seis mil em abril de 1968, 6 mil em junho de 1969, ete. E muito raro um livro de filosofia aleangar tais tiragens, Hoje o livro ja passou de 110 mil exemplares. O sucesso ocarre primeiro nos meios filosficos, naturalmente: em noyerm- bro de 1966 Jean Lacroix diz em Le Monde que os dois nomes mais citados nas provas de agrégation sio os de Althusser ¢ Foucault, Contuda é também um sucesso muito mais amplo. Segundo as descrigtes publicadas pelos jornais da époea as pessoas léem a obra de Foucault na praia ou a exibem pelas mesas de bar para mostrar que nao ignoraram tal acontecimento. Les mots er les choses tem lamanha repercussAe que encontramos seu eco tanto em Blanche ox Coubli (Blanche ou o esquecimento) de Louis Aragon, publicade em 1968, como em La chinoise (A chinesa) de Jean-Luc Godard, em 1967, que critica a mada com sarcasmo. Godard chega a declarar numa entrevista que € contra gente come “o reverende padre Foucanlt" que ele quer fazer filmes. Se nfo gosto de Foucault é porque ele nos di assim ou assado ¢ depois a partir de tal data achou-se que serd que alguém consegue s fazer filmes: para que futuros Foucault n&o possam afirmar essas coisas com ta- manha presung’io.? Sim tal 6peea as pessoas pensavam Por mim tude bem, n to seguro? E justamente por isso que tentamos J vimos que em 1961 Foucault preferiu ndo publicar sua introdugio a Aniropologia de Kant. Tedo © final desse longa texto datilografado ataca vee mentemente — num estilo bastante obscuro — as tentativas contemporineas de fundar uma “antrepologia’” — no sentide de Sartre ¢ Merleau-Ponty, nado no sentido de Lévi-Strauss —, recusa suas “ilusdes™ ¢ se surpreende que se possa d xd-las progredir sem (entar fazer sua "critic: No entanto, conclui, 160 sna critica recebemos o modelo hi mais de meio século, A empreitada nicte sehiana poderia ser compreendida como ponte final A proliferagilo da interrogagdo sobre ohomem, A morte de Deus nao se manifesta, com efeito, num gesto dupla- mente assassino que, pondo fim ao absoluto, ao mesmo tempo mata o proprio homem? Peis o hamem, em sua finitude, nao ¢ separdvel do infinite do qual ¢ ao mesmo tempo a negagio e o arauto. E na morte do homem que se consuma a morte de Deus. A pergunta kantiana “O que é 0 homem?" ¢ a todas as suas retomadas no pensamento contemporaneo, de Husserl a Merleau-Ponty, deve-se, pois, opor “uma resposta que a recuse ¢ desarme: Der Ubermensch”. O super: homem.’ As dltimas paginas dessa “pequena tese” parecem inteiramente diri- gidas contra a Critique de le raison dialetique (Critica da razao dialétioa) de Jean-Paul Sartre — publicada como livre em 1960, mas que desde 1958 saia em Les Temps Modernes — ¢ com maior certeza ainda contra os trabalhos de Merleau-Ponty. Elas estio no ponte de partida do livra que Foucault intitula em 1966 Les mots et les choses. E aliés sdo retomadas quase inalteradas: "Mais que a morte de Deus o que anuncia o pensamento de Nietzsche é o fim de seu assussino; é o esfacelamento do rosto do homem no riso, no retorno das mas- caras..,"'.' Recentemente Gérard Lebrun lembrou o quanto a presenca negativa de Merleau-Ponty permeia Les mots ez les choses. Do comego ao fim anima o livto de Foucault uma polémica contra o pensamento de Husserl e a interpre- tagho que Maurice Merleau-Ponty lhe deu. Les mozs et les choses & antes de mais nada um gesto de recusa, de rejeigao da fenomenologia, A explosio de uma “‘ruptura"'! E come ja faz muito tempo que a onda fenemenolégica passou, declara Lebrun em sua conferéncia de 1988, Les mous et les choses perdeu seu “sabor polémica’’: “o leitor de hoje é levado — segundo sua idade — a ignorar ou esquecer que se trata basicamente de um livro combative e de um livre filo- sofico”. Cabe, portanto, lembrar esse ponto essencial, que permite compreen- der por que se considerou a livro nao ‘camo a tentativa de um método novo, mas como uma agressio”.® Durante a discussiio que se seguiu a essa exposigao feita no coldquia sobre Foucault em Paris, em janeira de 1988, Raymond Bel- lour contou que leu as provas do livta pouco antes da publicagto: comportava numetosos alaques a Sartre que Foucault suprimiu na vers i Essa obra que haveria de provecar tanta celewma se apresenta come Une archéologie des sciences humaines (Uma arqueologia das ciéncias humanas) — €osubtitulo, Propde-se descobrir em que momento surgiu a interrogagio sobre o homem na cultura ocidental; em que momento o homem se tornou objeto de saber. Sucedem-se as magnifieas descrigGes das formas de saber através dos sécu- i61 ide o inicio do XVI até nossos dias. Quatrocentas paginas em que Fou- Presenta uma erudigho de tirar o {lego, Vamos tentar (1) resumir o dia época se caracteriza por uma configuragio subterranea que molda sum cultura, uma trama do saber que torna possivel todo discurse cientifico, tode priori histérico"’ sob o home de episteme: bases profundas que definem e delimitam o que uma época pode pensar — ou ndo pode pensar. Toda ciéncia se desenvolve no Ambito de veme e, portanto, se relaciona com as outras ¢iéncias que Ihe so con temporineas. A atengio de Foucault se volta essencialmente para trés campos do conhecimento que se desenvolveram na episteme classica: a gramatica geral, @ andlise das riquezas e a histéria natural. Os trés campos cedem lugar no século XIX a trés outros que enconiram sev lugar de formagio na nova trama do saber instaurada nesse momento: a filologia, a econamia politica e a biolo- gia, Foucault mostra como se aloja em suas elaboragdes a figura do homem como objeto de conhecimento: o homem que fala, © homem que trabalha, ohomem que vive, produgio de enunciades. Foucault designa esse * uma ep) F nessa tedistribuigo global da episteme que as “‘ciéncias humanas" en- comlram seu local de nascimento. Mas por causa dessa proximidade perdem toda « possibilidade de aceder a umn verdadeiro status cientffico: “elas nao tém condigdes de ser ciéneias", diz Foucault, pais s6 as torna possiveis essa situacaio de “Vizinhanga”’ com relagiio A bielogia, A economia ou filologia, das quais nllo passam de “projeedes”’.’ No entanto, e € a contradig&o que as mina, seu onraizamento arqueolégico na episteme moderna as obriga 2 querer ser cien ficas: "A cultura ocidental constituiu sob o nome de homem um ser que por um ‘ es deve ser dominio positive do saber ¢ naa pode ser ico © mesmo jogo de razi objeto dle ciéneia”.* Nesse questionamento geral das “ciéneias humanas’ Foucault reconhece um lugar parte para a psicandlise ¢ a etnologia ¢ lhes concede o status privi- logiado de “contraciéneias”: clas tomam as outras ciéneias humanas na “con- tracorrente"; "no param de desfazer esse homem que nas ciéneias humanas faz e refaz sua positiyidade”. E acreseenta: “Podemos dizer das duas 0 que Lévi-Strauss dizia da ctnologia: que elas dissolvem 0 homem”. E acima dessas clus contraciéneias, ow melhor, a seu lado, uma terceita viria inquictar ocampo constituide das eiéneias humanas. formar sua contestago- mais geral: a lin- ghistica. As trbs colocam em rissa, ae “expd-lo", isso mesmo que permitiu ao homem ser conhecido, Assim se fia sob nossos alhes o destino do homem, mas se fia ao co: tritrio; nesses estranhos fusos ele & reconduzide as formas de seu nascimento, & patria queo tornou possivel. Contudo nao é um mado de levi-lo a seu fim? Pois a lingiiistica nao fala mais do homem em si mesmo que a psicandlise ou a e:nclogia. Esse privilégio concedido & lingiiistica nos leva a problemas que Foucault nto parou de meneionar em seus artigos sobre literatura desde 0 comego dos anos 60: Por um caminho muito mais longo ¢ muito mais imprevisto somos reconduzidos a esse Iugar que Nietzsche ¢ Mallarmé indicaram quando um perguntou: Quem fala?, e 0 outro viu cintilar a resposta na propria palavra, Q questionamento da linguagem se abre, portanto, sobre dois horizontes: as tentativas de formalizar o pensamento e, no outro extremo da cultura, a lite- ratura moderna Que a literatura de nossa época seja fascinada pelo ser da linguagem — nisso nao esté nemo sinal de um fim nem a prova de uma radicalizagiio: € um fendmeno que enraiza sua necessidade numa vastissima configuragio em que se desenka toda a nervura de nosso saber, E sob a pena de Foucault reaparecem, por ordem de entrada em cena: Artaud, Roussel, Kafka, Bataille e Blanchot. Essas experiéncias opostas ¢ solidarias da cultura comtemporanea — a formagio dos saberes sobre o modelo lingiifstico e a violéncia, 0 excesso, 0 grito, “a linguagem reduzida a po" da literatura — anurteiam talvez o fim da epis- teme que marcou o surgimento do homem no saber. A ultima pagina do livro jé foi citada tantas yezes que se hesita antes de menciond-la novamente: De qualquer modo uma coisa € certa: © homem nao ¢ 0 mais antigo nem o mais constante problema que se texha colocade para o saber humano. Tamando uma cronologia relatixamente curta # um espago geogréfico resteito — a cultura euro péia desde o séeulo XVI —, pade-se estar certo de que o homem é uma invengao reeente. Nao foi em torno dete e de seus segredos que por muito tempo, obscura mente, 0 saber tondou ... © homem é uma inveng&o cuja data recente a arqueo- login de nosso pensamento mostra com facilidade. E talvez mostre seu fim pro- ximo. |! Esse livro flamejante, de elaboragio cintilante ¢ complexa, conhece um sucesso imediato e retumbante, Nao seria possivel recensear as resenhas, os artigos, as critieas, as polémicas que surgem de todos os lados. Nao existe um jornal, uma revista que nda queira acrescentar seu retoque ao quadro. Até a televisdo convidou Foucault a participar de “Leitura para todos", programa de Pierre Dumayet. Aqui est&o alguns excertos da imprensa da época; “A obra de Foucault é uma das mais importantes de nosso tempo", escreve Jean Lacroix em sua erGniea filosofica de Le Monde.? Les mots et des choses é uma “obra 163 impressionante", comenta Robert Kanters em Le Figaro." E depois de mostrar as mil brilhantes facetas da obra Gilles Deleuze conclui nos seguintes termos rtigo em Le Nouvel Observareur: A pergunta: 0 que hi de novoem filosofia?, os livros de Foucault trazem por si sts uma resposta profunda, a mais viva, a mais convincente também, Julgamos que Les mets et les choses € um grande livro, sobre pensamentos novos. Jis Chatelet precedeu o morimento escrevendo et La Quinzaine Line- em abril: O rigor, a originalidade, a inspiragdo de Miche] Foucault sdo tais que & infalivel surgirem da leitura de seu Gltimo livro uma visio radicalmente nova do passado da culiura ocidental € uma eoncepgiio mias Licida da confusio de seu presente, em parte A paisagem cultural © sucesso de Les mots et les choses dev em que o livro surgiu: em 1966 a querela do “estruturalismo” estd no auge. A Anthropologie structurale de Claude Lévi-Strauss apareceu em 1958 como 0 manifesto de uma nova escola, de uma nova corrente “filoséfica", Em 1962 Lévi-Strauss passa as coisas a limpo: no final de La pensée sauvage (Q pensa- mento selvagem) ataca duramente Sartre, reduzindo a filosofia de seu adver- sario a uma mitologia contemporanea. Pela primeira vez 0 dominio absoluto que Sartre exerceu durante 25 anos no terreno inteteetual da Franga se ve seria mente ameagado, Quantos jovens estudiesos encatam essa contestagio como uma libertagio? Por exemplo, no preticio de Sens pratique (Senso pratico) Pierre Bourdieu lembra a exaltagio provocada pela obra de Lévi-Strauss ¢ so- Jo a “nova maneira de conceber a atividade intelectual’ que cla impos a uma geracdo." Poderiamos citar mil testemunhes do choque que os livras de 1uss representaram em todas as esferas da cultura. Jé que o cinélogo ao regressar dos Estados Unides levou para a Franga a lingilistica de Jakobson, oferecendoa seu amigo Lacan alguns clos essenciais de sua teoria em gestagao. Lacan, que em 1966 langa Eerits (Escritos), reunindo textos publicades ao Jongo dos anos. Desde o inicio da década de 60 todas as revistas intelectuais {alam do estruturalismo em cada edig&o, quando nao Ihe dedicam nimeros es- peeiais, Estruturalismo e marxismo, estruturalismo contra marxismo, estrutu- ralismo ¢ existencialismo, estruturalismo contra existencialismo, Ha os que slo pro, ha os que sio contra, h4 os que se esforgam para fazer a sintese. Em todos ‘os Cantos do mundo intelectual cada um é chamado a tomar posi¢ao ou entao se apressa a exprimi-la. Raramente ocorre uma agitagao cultural mais intensa, Ocenario esté pronto para que a cortina se abra sobre uma nova batalha om que a “morte do homem” desencadeia as paixdes, Foucault da varias entre- Thad vistas muito comentadas, Sobretudo a de La Quinzaine Littéraire em 15 de abril de 1966: Vimos que a gerac’io de Sartre (era) corajasa e generosn, cheia de paixto pela Ja, pela politica, pela existéncia. Mas nos, nds deseobrimos outra eoisa, outra paixio: a paixo do conceito e da que chamarei o sistema”. Perguata: Enquanto filésofo Sartre se interessava pelo qué? Resposta! Grosso mada, confrontade com um mundo histérice que a tradi- fo burguesa — por nio mais se reconkecer nele — queria considerar absurdo, Sartre quis mostrar que, ao contréria, havia sentido em tudo Pergunta: Quando o senhor deixou de acreditar no "sentido"? Respasta; O ponte de ruptura se situa no-dia em que Lévi-Strauss com felagae as sociedades e Lacan com relagao ao inconsciente nos mostraram que o “‘sentido" era provavelmente apenas uma espécie de efeito de superficie, um reflexo, uma espumta: o que nos perpassava em profundidade, o que estava diante de nds, 0 que nos sustentava no tempo eno espayo era. sistema Foucault define esse sistema referineo-se aos trabalhes de Dumézil ¢ Le- roiGouhan, cujo nome naa menciona, mas que todos podem reeonhecer. & depois invocando nevamente Lacan: .. a importincia de Lacan reside no fato de que ele mosirou como, através do discurso do eniermo ¢ dos sintomas de sua neurose, so as estruturas, 0 proprio sistema da linguagem — ¢ n&o 0 sujeito — que falam... Antes de toda existéncia humana haveria jé um saber, um sistema que redeseobrimos... Pergunta: Mas ento quem produs esse sistema? Resposta: O que é esse sistema andnimo semi sujeito, o que é quem pensa? O “eu” explodiu — veja a literatura moderna —, & 4 desgoberta do “ha”. HA um se. De certo modo volta-se ao ponto de vista do século XVII, com esta diferenga: nao colocar o hamem no lugar de Deus, mas um pensamento andnimo, do saber scm sujeite, do tearicn sem identidade ... Ouira entrevista em junho de 1966, e Sarire sempre na linha de mira: “A Cri- tique de ta raison dialectique & 0 magnifico ¢ patético esfargo de um homem do século XIX para pensar o século XX. Nesse sentide Sartre ¢ o dltimo hegeliano € eu até ditia o dltimo marxista”’."" ‘Ao longo dessas entrevistas Foucault expe claramente 0 espago tedrico em que situa seu livre, Encontramos sempre os mesmos noms brandidos como auriflamas: prineipalmente Lacan e Lévi-Strauss, Dumézil também, a “litera- tura contemporiinea” — ¢ aqui se pereebe bem como ela se articula no pens mento de Foucault com as obras especializadas na pré-histéria, na etnologia ou na mitologia romana. As vezes ele actescenta Russell e a “razio analitica’’, a Igica formal, a teoria da informagao, Canguilhem ea histéria das ciéncias, ‘Althusser e suas “corajosas tentativas” para tirar 0 p6 de um marxismo cristia~ 165 nizacdo ao molho Teilhard de Chardin, Em suma, parece evidente que Foucault se instala sem dificuldade na galaxia “‘estruturalista”’ As reagdes no tardam. Os marxistas passam A contra-ofensiva. O livro de Foucault ¢ excomungado nos efroulos do Partido. Nao ihe perdoam ter afir- mado que “no pensamento do século XIX 6 marxismo & como um peixe na gua, quer dizer, em qualquer outro lugar ele para de respirar™. Jacques Milhau escreve nos Cahiers du commnnisme: 0 preconceito anti-hist6rico de Michel Foucault sé se sustenta gragas a uma ideo- logia neonietzschiana que serve muito bem, perceba ele ou no, aos designios de uma elasse cujo interesse € mascararas vias objetivas do futuro.” Jounnette Colombel ataca Foucault em La Nouvelle Critique, porém com maior comedimento, Critica-o principalmente por negligenciar a temporalidade e a historia e privilegiar o starw quo com sua visio "da apocalipse” e 0 anincio “‘de uma dissolugio do homem” Foucault apr peticulo como um jogo. Convidaenos a uma atitude magica ... O estrututalismo assim compreendido tera contribuido para & manutengao da ordem estabelecida.™ enta o mundo como um e: Mas ao se afastar dos meios comunistas “politicos” em diregao As revistas “in- telectuais” do Partido a critica se torna profissional: por incitagio de Pierre Daix, Les Leaves Frangaises dao wma calorosa acolhida a essa obra maldita. Em margo de 1966 Raymond Bellour entrevistau Foucault para a revista. No ontinua seu questionamento numa “segunda conversa’? ano segui Os catélicos também participam do debate. Jean-Marie Domenach, dire- tor da revista Esprit, se pergunta sobre essa “nova paixfio” e comentai “A pro- yocante entrevista que Michel Foucault deu a La Quinzaine Littéraire soa como 0 manifesto de uma nava escola, ¢ nfo se para de referir-se a ela... Quantas perguntas poderiamos fazer! Quantas perguntas faremos! Na expectativa cabe- ria saudar 0 acontecimento".” De fato Jean-Marie Domenach faz essas per- guntas a Miche! Foucault, que retém uma delas, a undécimae dltima ‘Um pensaments que introduz a opressio do sistema ¢ a descenttinuidade na hist6- tia do espirito nao tira todo fundamento de uma interferéneia politica progres- sista? Nto leva ao seguinte dilema: a aceitagte do sistema ou © apelo ao fato sel- vagem, 4 jrrupgto de uma violéncia exterior, a dnica capaz de abalar o sistema? ‘oucault responde explicitando o que, a seu ver, pode ser uma “politica pro ta”: 166 Uma politica que reconhiece ax condig&es historicas © as regras especificadas de uma pritica onde outras politicas reconhecem apenas necessidades ideais, deter- minagdes wnivocas ou o jogo livre das iniviativas individuais... Devolugao ao remetente. Mas esse texto importante passa meio despercebido, Cabe dizer que ¢ publicado na edigtio de maio de 1968, Foucault retoma os elementos principais de sua resposta na Archéologie du savoir (Arqueologia do saber). Uma resposta na qual anuncia outro livro, jamais escrito, sobre ‘os problemas do diseurso historic” e que deveria se intitular: Le passé er fe pré= sent. Une autre archéologte des sciences humaines (O passado ¢ o presente. Outra arqueologia das cincias humanas).?* Em seu famoso Bloe-nores do Figaro Littéraire Frangois Mauriac também comenta o deslumbramento geral com as teses de Foucault: “Contudo, se essa consciéncia existiu, o que poderia fazer com que no existisse mais? Sartre, que foi o adversério, acabara por torné-lo fraternal a mim’! E Sartre? Sartre, as voltas com mil dificuldades para escrever o segundo volume anunciado de sua Critigue e mostrar a eficdcia da sintese que procura realizar entre 0 existencialismo e 0 marxismo? Pois bem, Sartre responde. Eo titulo da entrevista publicada na edigie especial que a revista L Arc Ihe dedica. Sim: “Sartre responde'', E com uma ferocidade & altura dos ataques de Fou- cault: Pergunta de Bernard Pingaud: O senhor vé uma inspiracko comum: na atitude da geregao jovem a seu respeito? Resposta de Sartre: Uma tendéncia dominanite, pelo menos, pois no se trata de um fenémeno geral: a recusa da histéria. O sucesso do iiltimo livre de Michel Foucault & caracteristicn. O que encontramos em Les mots et fey choses? Nao € incias humanas, © arquedloge pesquisa os vestigios de uma civilizagio desaparecida para tentar reconstitul-la ... O que Foueault nos uma “arqueologia” das ci apresenta, camo bem percebeu Kanters, € uma geologia: a série das camadas sucessivas que formam nosso "solo". Cada uma dessas camadas define as condi- ges de possibilidade de certo tip de pensamento que triunfou durante certo pe riodo, Porém Foucault nio nos diz o que seria o mais interessante: a saber, como cada pensamento é construido a partir dessas condigdes, nem como os homens passam de um pensamenio a.cutro. Para isso teria de revorrer 4 praxis, portanto A historia, e é precisamente o que ele recusa. Sua perspectiva continua historica, claro. Ele distingue as épocas, um antes e um depois. Mas substitu o cinema pela lanterna magica, 0 movimento por uma sucesso de imobilidades. O sucesso de seu livro prova que era esperade, Qra, nunca se espera um pensamente realmente original. Foucault dé as pessoas 0 que elas precisavam: uma sintese eclética em que Rebbe-Grillet, o estruturalismo, a lingtistica, Lacan, Tel Quel sto utilizados alternadamente para demonstrar 4 impossibilidade de uma reflexao historica. 167 E evidentemente Sartre assocla essa recusa da hist6ria & rejeigtio do mar- alamo: “O marxismo 60 alve, Trata-se de constituir uma ideologia nova, a tl tima barteira que a burguesia ainda possa levantar contra Marx’'.’* ‘Alids parece evidente que no momento de sua publicagito Les mots et fes choses muitas vezes foi considerado um livre “de direita’’. Robert Castel, que os anos 70 se torna amigo tntimo de Foucault, apresenta-o como tal no pre clo que elabora em margo de 1968 para a edigdo francesa do livro de Marcuse, Raison et révolution (Razae e revolugao), Nao lhe passa despercebida a frase de Foucault que opée @ riso filoséfico ¢ silenciose a “todos aqueles que ainda que- rom falar do homem, de seu reino, de sua libertagic ... todas essas formas de reflex canhestras ¢ torcidas"’. Castel vé nisso um ataque direto a Marcuse. Pobre burguesia, que nfo tera outra muralha a nao ser meu Livro, ironiza Foucault, E no inicio de 1968, entrevistado por Jean-Pierre Elkabbach para um programa de France-Inter, observa que, por uma estranha gagueira da hist6ria, Sartre simplesmente reproduziu contra ele 0 vocabulario que os comunistas m quinze anos antes para excomungar o existencialismo, E Foucault re- umente aos ataques de Jean-Paul Sartre: irire @ um homem que tem uma obra muito importante para realizar, obra lite- ‘ivia, filoshfica, politica, ¢ ndo dese disper de tempo para ler meu livre. Ele nao leu. Assim, o que diz ndio pode mie parecer pertinente. b como a jornalista lembra a formulacie de Sartre sobre a “reeusa da histori Foucault responde: Nenhum historiador me fez essa critica. Os filosafos tém una espécie de mito da Historia. Sabe, em geral os filésofes sao muito ignorantes com relagao a todas as disciplinas gue nao sao a deles, Existe uma matemética para filésefos, uma bio- im existe uma historia para filésofos. A logia para filésofos, ¢, por que nay?, tam Historia para filésofos ¢ uma espéc emaranham a berdade dos individuos ¢ as determinagies econaimicas ou socials. Quando se toa em alguns desses grandes temas, continuidade, exereicio efelivo da liberdade humana, articulagdo da liberdade individual sobre as determinagGes sociais, quando se toca num desses trés mitos, as pessoas de bem imediatamente se poem a gritar que a Historia foi violentada ou assassinada. Na verdade fax algum tempo que gente importante como Mare Bloch ou Lucien Febvre, as histeriadoces de grande © vasta continuidade em que so ingleses, ete., puseram tim a esse miito da Historia. Eles praticam a historia de outro modo, tanto que o mito filosdfico da Histéria, esse mito filoséfico que me acusam de ter matado, pois bem, fico encantado sé o matei. E exatamente o que eu queria matar: nao a histaria em geral. Nao se mata a historia, mas a Hist6ria fos, ah, essa sim eu quero matar, para 16k A publicagito integral dessa gravagto em La Quinzaine Littéraire causou im- pacto, e Foucault escreveu & revista dizendo que nao havia autorizado a publi- cago € no se reconhecia nesse texto.” Talvez quisesse esvaziar a polémica? Um ano antes, em janeiro de 1967, Les Temps Modernes publicou dois artigos muito severos sabre Les mots et [es choses assinades por Michel Amiot 2 Sylvie Le Bon. Para reagir essa mobilizagao dos sartrianos Canguilhem de- cide sair de sua reserva habitual. Publica em Critique um longo estudo sobre Foucault, Sem dtvida um dos melhores que escreveu. Surpreso com a atitude de Sartre, seu ex-colega de Eeole Normale, o historiador das ciéncias se per- gunta £ preciso perder o sangue-frio como parece acomtecer com algumas pessaas que jneluiamos entre as melhores cabegas da atualidade? Quando se recusam a viver segundo a rotina académica precisam se comportar como académicos irritados com a iminéncia de se ver substituidos camo mesires? E apds essas observagdes ad hominem contra-ataca a funde: Apesar do que dizem a maioria des eriticos de Foucault, @ termo arqueologia diz bem o que quer dizer. E a cundigao de uma outra historia, na qual se conserva o conceito de acontecimenite, mas em que os acentecimentos afetam conceites e no homens Canguilhem conelui seu artigo abordande o aspecto politica da polémica, Di- zem que Foucault reacionarie porque quer substituir 0 homem pelo "sis- tema’? Mas nao era essa a tarefa que vinte anos antes o ldgico, 0 eminente epistemologista Jean Cavaillés atribuira 4 filosofia: “Substituir ao primado da conscigncia vivida on refletida o primado da conceito, do sistema ou da estru- tua’? Cavaillés, o grande lutador da Resisténcia, fuzilada pelos alemies, Cax vaillés, “que nao acreditava na histéria no sentido existencial”, ¢ no entanto reeusoul de antemio, por sud participaglo na historia tagicamente vivida até a morte, o Argumento daqueles que procurain desacreditar 0 que chamam de estru- turalismo condenando-0 & prove. oconsumado.# ar, entre culres mateficios, a passividade ante Esso-artigo de Canguithem em uma importiincia histérica que nao se pode subestimar, Pois evidencia 0 papel subterrdneo mas fundamental desempe- nhada pelo filésofo das ciéneias no pensamente francés, No fundo, poder-se-ia dizer, forgando um pouco, que a verdadeira oposigao que agitou os meios espe- cializados da filosofia nos anos 50 ¢ 60 se organizou entre esses dois pélos enear- nados por Sartre e Canguilhem. Nao se deve esquecer que Canguilhem teve um némero consideravel de discipulos que precisamente forjaram seus instrumen- tos te6rieos contra o existencialismo e 0 personalismo. O lugar central ocupado 169 pelo ex-inspetor geral evidencia-se quando alunos de Althusser ¢ Lacan orga- nizam na Ecole Normale Supérieure um 'Circulo de Epistemologia" (um pro- grama inteirol) ¢ em 1966 comegam a publicar a série dos Cahiers pour l'ana- fuse: em cada ntimero essa revista traz uma citagaio de Canguilhem.” Rotulado como "de direita” por boa parte da opiniao de esquerda, o es- truturalismo prospera apesar de tudo em certos grupos que gravitam em torno de Louis Althusser e que pouco antes de 1968 e nos anos seguintes muitas vezes se tornam niicleos fundadores dos movimentos da extrema esquerda maoista. Hoje temos dificuldade em imaginar a influéncia de Althusser sobre todas as turmas de normatiens nos anos 60 e 70. Desde a publicagdo de Pour Marx © Lire Le capital em 1965, Althusser se torna objeto, como escreve Jeannine Verdés-Leroux, “de uma paixio, de um destumbramento, de um mimetismo que 32 nhum contemporfneo provocou"” Uma paixao te6rica e politica ae mesmo tempo, que se situa resolutamente & esquerda, @ esquerda da esquerda, Numa entrevista publicada na Suécia em margo de 1968 Foucault insiste nesse ponto: ao marxismo “frouxo, insipido, humanista" defendido por Garaudy opbe © marxismo dinmico e renovador dos alunos de Althusser, que repre- sentam, diz ele, a “ala esquerda do Partido Comunista” e sio muito favoriveis ‘is teses estruturalistas. E explica a seu entrevistador: Voc# entendé em que consiste a manobra de Sartre ¢ Garaudy quando sfirmam te que 0 estruturalismo & uma ideologia tipicamente de direita. Isso Thes perr apontar como climplices da dircita gente que na rerdade se encontra a sua es querda, O que Lhes permite também se apresentar como os Gnicos representantes da esquerda francesa e comunista, Mas isso nfo passa de uma manobea Foucault procura também redefinir de maneira mais genérica as relagbes entre 4 ago politica e a reflexo teérica conduzida em termos de estruturas: Creio que uma andlise tebrica rigorose da maneira como funcionam as estruturas econdmicas, politicas ¢ ideolbgicas € uma das condigdes nevessarias da acho poli- tica na medida em que a ago politica ¢ uma forma de manipular e eventualmente mudar, revirar ¢ transformar estruturas ... N&o acho que o estruturalisma seja uma atitude exelusivamente tedriea para intelectuais de gabinete; acho que patie ¢ deve se articular &s prétieas. .., Creio que o estruturatisme deve poder dar a toda agio politics um instrumento analitico que é indispensivel. A politica nao est4 forgosamente destinada & ignorncia.?) Logo Foucault recusar4 o rétulo de estraturalista e acabaré eonsiderando uma agressio o simples fato de ser classificado nessa categoria. © que se deve 170 pensar de todas as polémicas desenroladas em torno dessa designa esmo eda implicagio de Foucault em controvérsias tio violentas quanto ineom- preensiveis? Ele era ou nao estruturalista? Claude Lévi-Strauss diz hoje que a seu ver Foucault tinha razdo de recusar a assimilagao, pois suas obras em nada se assemelhavam. E que toda essa celeuma em torne de um grupo de estudiosas nao passou de um modismo ef@mero, © certo é que todos os comentaristas rapidamente incluirat Foucault na “'tribo estruturalista’’, O famoso desenho de Maurice Henry na Quinzaine Littéraire? em que Lévi-Strauss, Lacan, Bar- thes ¢ Foucault conversam yestidos de indios € mera expressdo de um fato mais geral: os jornais e revistas falam do estruturalisme e des estruturalistas até ¢ sobretude quando perguntam 0 que pode uni-los ou diferencid-los, O que acon- tece realmente? Pode-se verificar que: 19 Foucault parece se reconhecer nessa designagao. Numa entrevista pu- blicada por um jornal de Tiinis em 2 de abril de 1967 ele se explica demora- damente sobre a questio, Perguntamelhe: “Para 0 grande publico o senhor 0 sacerdote do estruturalismo, Por qué?". Ele responde; “Quando muito sou 0 ‘coroinha’ do estruturalismo, Digamos que toquei a sineta, os figis se ajoelha- ram, os descrentes gritaram, Mas 0 culto havia comegado ja fazia muito tempo". Com maior seriedade ele continua definindo duas formas de estruturalismo: de um lado, um métode fecundo em campos espectfices como a lingitistica, a his- toria das religides ow a etnologia. E, de outro lado, um estruturalismo que seria uma atividade pela qual teéricos nao especializados se empenham em definir as relagdes atuais que podem existir entre este ou aquele elemento de nossa cultura, esta ou aquela ciéncia, este ou aquele setor prético ou teérico, ete, Em outras palaveas, seria ums espécie de estruturalismo generalizado ¢ nto mais limi- tado a um campo cientifiea preciso. (Tal estruturalisma) diria respeito a nossa cultura, a nosso mundo atual, ao conjunto das relagdes praticas ou tedrieas que definem nossa modernidade, E nesse aspecto que o estruturalisms pode ter valor como atividade filoséfica, se admitimos que o papel da filosofia é diagnosticar. Assim, 0 filésofo estruturalista seria aquele que diagnostica ‘‘o que existe hoje”. Texto premonit6rio, declarago anunciadora de, muitas definigdes do papel do intelectual propostas por Foucault quando seu caminho encontrar novamente a politica, De qualquer modo um texto em que ele se define muito claramente como “estruturalista’ 2° Segundo ponto: Foucault foi largamente considerado como tal, Nao s6 por seus “‘inimigos”, Aqui esta um exemplo: num texto de 1967 que procura explicar o que € 0 estraturalismo Gilles Deleuze menciona Lévi-Strauss e Lacan como Althusser ¢ Foucault, Ele sabe que existem grandes diferengas entre esses homens, Por isso desenvolve seu artigo em torno do tema “como se reconhece i7h oestruturalismo?” ¢ define determinado nimero de eritérios formais que per- mitem encontrar em obras de orientagdes ¢ preocupacbes heterogéneas as linhas diretrizes que determinam a filiagfo a essa corrente."* 3° B yerdade que Foucault logo recusau o rétula e de modo cada vez mais vigoroso. Numa entrevista de 1969 ele declara: Cabe aos que utilizam para designar trabalhos diversos 4 mesma etiqueta de “estruturalista” dizer em que o somos. Voc? conhece a brincadeira: qual é a dife- renga entre Bernard Shaw e Charlie Chaplin? Nenhuma, pois 03 dois usam barba, menos Chaplin, clarot Em 1981 Foucault diz a Hubert Dreyfus e Paul Rabinow, que preparam um livro sobre ele, que nfo sé nunea foi estruturalista como pensara em dar a sua obra o subtitule "Uma arqueologia do estruturalismo", situando-se mais na posigdo de observador externe que na de pritico das eiéncias humanas. Quando muilo admite aes dois autores americanos que nao “resistin” suficientemente sedugio do vocabulario estruturalista”. O que nao impede Dreyfus e Rabi- now de dedicar um capitulo inteiro a sua fase estruturalista e a0 “fracasso” que dela resulta.” Mais ou menos na mesma época Foucault procura analisar em retrospec- tiva a hostilidade que a corrente estruturalista provocou a formulagao de Sartre, percebe nessa hostilidade a ultima tentativa do mar- ismo para resistir 4 marcha inexorével das idéias, O estruturalismo anuneiava x ofim do dogmatismo marxista, ¢ a cultura francesa sob a influéncia comunista sentiu sua forga corrosiva. O que nada tem de surpreendente, explica Foucault: 6 estruturalismo ¢ basicamente um movimento que nos veio do Leste (via Ja- kobson, que era russo, via os formalistas, ete.) ¢ toda a tradigtio stalinista tra- balhou para reprimi-lo e destrui-lo no bergo. Para exemplifiear Foucault conta © seguinte episédio: em 1967 foi 4 Hungria pronunciar algumas conferéncias. Tudo ia muite bem e havia muita resolyeu falar de estruturalismo. O reitor da universidade Ihe disse que a confe- cate nos anfiteatros até o dia em que ele réncia devia ter lugar em sua sala, para um grupo pequeno, pois o tema era dificil demais para os estudantes. O que havia de Mio terrivel nessa palavra, nesses temas, nessa idéia?, pergunta-se Foucault. As explicagdes sio dadas a Ducio Trombadori em 1978," O sucesso The cai bem. Todos que o encontram nessa primavera de 1966 descrevem um homem feliz. Foucault esta visivelmente encantado com o su- gesso ¢ com sua gloria nascente. Também esta contente com seu livro? Passada 4 cuforia, ele olha com frieza cada vez maior para essa obra que Ihe deu noto- 172 riedade e que no entanto parece considerar a menos boa de todas que escreveu, Chegard um momento em que a renegara, pedindo a Pierre Nora que nao a reedite mais. Vimos que Foucault sustou a publicagio de Maladie mentale et personnalité, Elaborou uma segunda versio, completamente remanejada, e acabou por proibi-la também, Com relagiio a Hisvoire de da folie sua autocritica segue outta caminho: por acasiio da segunda edigao, onze anos apds o langa- mento do livro, ele suprime o primeira prefécio, que insistia demais numa “experitncia” originéria da loucura. Com relagfo a Les mots et les choses pre- cisard da contribuigao de outra obra para fazer os ajustes que considera neces- sdrios. Para rebater as leituras erréneas do livro, para esclarecer mal-entendi- dos, para especificar nogdes que suscitaram problemas, para se livrar da marca, do “estruturalismo”. Foucault escreve um livro inteiro, Archéologie du savoir, publicado em 1969. E em 1972, por ocasidio de uma reedigao de Naissance de la clinique, também procede a algumas modificagdes léxicas. Por exemple, a frase “gostariamos de tentar aqui uma an4lise estrutural de um significado — o da experiéncia médica — numa época..."" torna-se “gostarlamos de tentar aqui a andlise de um tipo de discurso — 0 da andlise médica — numa époea...”. A nogio de estudo estrutural desaparece igualmente na pagina seguinte,® Assim, parece que a cada etapa Foucault procede por remanejamentos suecssivos. Trabalha e altera. Reivindica esse direito no prefacio de Archéalogie du savoir Ora, voed imagina que eu teria tanto trabalho c tanto prazer em eserever, acha que me obstinaria, cabeca baixa, se nfo preparasse — com mio um tanto febril — o labirinto onde me aventurar, deslocar meu discurso, abrir-the substerrineos, en- terr§-lo longe dele mesmo, encontrar atalhos que encurtam e deformam seu tra- jeto, onde me perder ¢ aparecer finalmente diante de othes que eu nunea mais veria de encontrar, Come eu, sem divida, outros escrevem para nao ter mais rosto. N&o me pergunta quem sou eue nfo me diga para continar o mesmo: € uma moral de estado civil; rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando s¢ trata de escrever.” No entanto uma coisa é certa: mais tarde, ao cxaminar sua obraem retros- pectiva, suas prefer€ncias nao irfo para esses dois livros de sua fase “forma- lista”, Les mots et les choses e Archéologie du savoir. Entre todas as reagites suseitadas por Les mois et les choses uma vai direto ao-coragio de Foucault, Uma carta de René Magritte, O pintor Ihe envia alguns comentarios sobre as nogées de semelhanca e similitude. E aerescenta uma série de desenhos de sua autoria, entre os quais uma reprodugdia de Ceei n'est pas une pipe (Isto no é um cachimbo). Foucault esereve agradecendo ¢ pede-Ihe i173 uma informagio sobre uma de suas telas que altera O baledo de Manet, pelo qual se interessa particularmente, Dessa correspondéneia nasce um estudo de Foucault sobre Magritte intitulado Ceci nest pas une pipe, publicado em 1973 hos Cahiers du chemin © depois transiormado num pequeno livro. Quanto & resposta de Magritte sobre Manct, Foucault pretende usa-la num livro que co: meg eserever,# iff 6 O MAR A FRENTE Aureolado pela gloria que Ihe valeu Les ravts et les choses Michel Fou- cault chega a Tiinis. Como se encontra de novo longe da Franga? Certo, ele nao queria mais lecionar em Clermont-Ferrand, Porém conseguir vaga em outro lugar n&o era facil, como vimos. Por que Tiinis? Novamente uma estranha con- jugaglo de circunsténeias. Na época o departamento de filosofia ¢ dirigido por um francés, Gérard Deledalle, espeeialista em autores anglo-saxdes. Deledalle chegou 4 Tunisia em 1963 e-criow a licenciatura em filosofia, Em 1964 convidou seu ex-professor, Jean Wahl, para protunciar uma série de conferéncias sobre Wittgenstein, Aproveitou a oportunidade para the pedir que lecionasse em Ta- nis. Jean Wahl aceitou, mas, por motives familiares ¢ por saudade da pAtria, a0 fim de seis meses decidiu voliar a Paris. Ao saber que Foucault queria partir para o estrangeiro, escreveu a Deledalle perguntando se o cargo estava vago. Sim, estava. Porém as coisas néo eram tao simples! Primeire devia-se consultar as autoridades tunisianas. Obtendo permissio, Poucault apresentou oficial- mente sua candidatura. Do lado francés nao houve problema: Jean Sirinelli se ccupou de tudo, Foucault foi “desligado” administrativamente de Clermont- Ferrand gracas ao ministério dos Assuntos Estrangeiros. Contrato previsto: trés anos, Mas para Foucault esse exilio voluntario seria um tempo de espera, Ele queria um cargoem Pari No final de setembro de 1966 ele chega @ Tunisia, “Um pats abengoado pela historia e que por ter visto viverem Anibal ¢ santo Agostinho merece viver para sempre’’, declara a Jelila Hafsia! durante um passeio pelas ruinas de Car- tago, sitio arqueolégico de vertiginosa beleza, com 0 mar ao longe, 0 sol ce- gante, dando a irreprimivel sensagdio de mergulhar na profundeza do tempo e do mundo. Antes de Cartage, porém, Foucault descobre o esplendor de outra paisagem. Gérard Deledalle e sua esposa yao esperd-lo no aeroporto eo levam a Sidi Bou Said, onde moram: primeiro o instalam no Dar Said, um hotelzinho 15 com os quartos dispostos ao redor de um patio quadrado em que paira a per- fume de jasmins ¢ laranjeiras. Durante os dois anos que passara na Tunisia Foucault mora nessa eidadezinha, Um lugarejo pendurade numa colina sobre a bala alguns quilémetros de Téinis, Um lugar de sonho onde ele habitarA suces- sivamente trés casas quase idénticas: com as mesmas paredes brancas, as mes- s. Jean Daniel, que 0 conheceu nesse periods, esereve: mas janelas az Nessa cidadezinha onde ele era feliz, ninguém o conhecia por outra coisa que nfo seu habito de trabalhar desde o smanhecer diante das janelas de sua vilfa, que davam para a bala, ¢ por sua gula de viver ¢ amar ao sol. Em todas as minhas Viugens eu 0 procurava para darmos um passeio que ele queria que fosse longo, rfpido, nervoso. Ele me fazia entrar num aposento cuidadosamente mantide 10 frescore na penumbra, no fundo do qual havia uma espécie de grande laje elevada ‘onde colocava a esteira que Ihe servia de leita, esteira que, como os Arabes e os woneses, ele enrolava durante o dis... Acontecia que minha estada em Tiinis com a de Daniel Delert, seu intimo. Entio lames os trés a uma praia em oi forma de penfnsula que‘as dunas protegiam de toda a humanidade. Nesse deserto imaginario uma [uz ao mesmo tempo-ocre ¢ lunar lembrava a Faucéull Le rivage des Syetes (A margem das Syrtes}. A ultima ver. que estive nesse local Foucault evocou Julien Graeq e Gide, que seu amigo Roland Barthes redescobria com pra- zor, Nesse cendrio ele parecia fugir da filosofia, a literatura era seu reffigio...* Mas Foucault esta na Tunisia para lecionar filosofia. E a isso se dedica com sucesso, A Faculdade de Letras ¢ Ciéncias Humanas situa-se num grande odilicio dos anos 50 no boulevard du 9-Avril, E o antigo liceu da cidade que foi transformado em universidade, Localiza-se acima da Casbah e de lago Sijoumi. No inicio de sua estada Foucault vai de Sidi Bou Said a Tanis de trem. Gosta de andar: atravessar a Medina, subir a avenue Bourguiba. Depois compra um carro, um 404 branco conversivel. Os estudantes seguem seus cursos com certa avidez. Os temas sio muito diversos, pois ele leciona nos érés anos que com- preende a licenciatura, A uns fala de Nietzsche, a outros de Descartes, lide através das Meditecoes cartestauas de Husserl, Dedica um curso a estética & ‘Analisa a evolugao da pintura desde o Renascimento até Manet, comentando quadros que apresenta em slides. Nao negligeneia com isso a psicologia: um curso trata da “projegiia"’ e ao mesmo tempo ele expde os dados da psicologia, du psiquiatria ¢ da psicandlise, Com parada obrigatéria em Rorschach, decerto. ‘ depois hé o famosa curso ptiblico que seus ex-alunos ainda hoje lembram com admiragao: *o homem no pensamento ocidental”. Les mots et fes choses nao ost longe! A platéia € numerosa — mais de duzentas pessoas toda sexta-feira — ¢ muito variada: como em Uppsala essa série de conferéncias € muito apte- ciada pelas pessoas cultas, ¢ todas as idades, todas as profissées ali esto repre- sentadas, Os jovens estudantes se entusiasmam com seus ensinamentos, porém silo muito mais reservados com relag2o a suas opgies politicas. Esses jovens 176 dizem hoje que durante muito tempo o viram como um pure “representante do tecnocratismo gaullista”, “ocidental demais para compreender a Tunisia” Sua hostilidade com relagio ao marxismo desconcertava as alunos, que 0 clas- cavam "A direita”, ainda mais que no gosta sehe a qualquer pretexta, como se As vezes os provocasse. Foucault participa ativamente da vida universitiiria e intelectual de Tainis. Naturalmente convive com os professeres franceses alocados na cidade, torna-se amigo do casal Deledalle, de Jean Gattegno, que depois reencontra em Vincen- nes. Colabora com o clube filosdlico organizado pelos estudantes da faculdade. E pronuncia conferéncias no Club Tahar Hadad, no boulevard Pasteur, dirigido por Jelila Hafsia, que se apaixona pelo fildsofo francés, So duas conferéncias: a primeira, “Estruturalismo e andlise literaria”, em feyereiro de 1967; a se- gunda, "Loucura ¢ ivilizago”, em abril do mesmo ano. Ainda em 1967 ele faz a faculdade convidar Jean Hyppolite, Fatma Had- dad, na época assistente de Foucault, lembra que ele ficou emocionado ao apre- sentar seu ex-professor ao auditorio. Hyppolite deve falar sobre “Hegel e a filo- sofia moderna”. Antes de comegar, aponta para Foucault, sentado a seu lado, e diz: "Devem ter se enganado ao me convidar, pois a filosofia moderna esté "ete. ‘am nada de ouvi-lo citar Nietz- aqui’, Foucault avaba de apresentar nos seguintes termos o tema da conferén- cla: "Toda a reflexao filoséfica hoje em dia é um didlogo com Hegel. e fazer a histéria da filosofia de Hegel é praticar a filosofia moderna’’. Em contrapartida o “encontro'’ com Paul Ricoeur deixa uma lembranga menos gloriosa nos tuni- sianos que, em plena querela do estruturalisma, esperavam um confronto apai- xonante entre os dois pensadores. Ricoeur foi convidado pelo centro cultural de Cartago para uma série de conferéncias sobre a filesofia da linguagem, Fou- cault assisie a uma delas com Gérard Deledalle, “Ele estava sentado a meu lado”, conta Deledalle, “e nto parava de fazer comentarios humoristicos. Ri- coeur percebeu". Mas quando se inicia @ discussao Foucault nao diz uma pala- vra, Nesse momento Deledalle entende que talvez no tena sido boa idéia con- vidar os dois filésofos para jantarem em sua casa na mesma noite. Ele guardow na lembranga a atmosfera desagradavel e tensa que estragou a noite, Impossivel abordar o menor tema intelectual, Quando Ricoeur parte de Tiinis, pouco tempo depois, avista Foucault, que se prepara para tomar o mesmo avido. Ele diz animadora do centro de Cartago, que o acompanhou ao aeroporto: “Va- mos discutir no aviao”, Dias depois escreve-Ihe agradecendo a acolhida e con- tanda que a discussio prevista n&o ocorreu: Foucault fingiu nfo o ver e se aco- modou de outro lade do avido. Foucault se recusa a entrar no jogo do “debate de idéias"’, mas nao se incomoda de explicar a seus alunos 9 que pensa, “Vow resumir o que Ricoeur falou", diz, Pergunta-Lhes se 0 resumo € fiel, ponto por ponto. E quande eles concordant declara: "Pois bem, agora vamos demolir tudo isso”. 177 Em suas aulas Foucault fala muito sobre histéria da pintura, expondo alvez os primeiros esbocos de um livro que gostaria de escrever sobre Manet. Antes de partir para Téinis em 15 de junho de 1966, ou seja, alguns meses apos a Publicagio de Les mots et fes chases, assinou um contrato com Jéréme Lindon, diretor das edigdes de Minuit, pata um “ensaio sobre Manet’ a intitular-se Le noir et ia surface (O negro e a superficie), O livro nunca sera publicado, mas Foucault pronuncia varias conferéncias explicando o que Ihe chamou a atengio mas telas de Manet, O que the interessa no autor de Baile na Opéra, Bar do Folies-Rergéres ou Baledo nao @ 0 pintor que tornou possivel o impressionismo, mas 0 que tornou possivel, além de impressionismo, toda a pintura moderna, Porque Manet rompeu com uma tegra estabelecida no Quatirocento que obri- gavao pintor a fazer esquecer, mascarar, negar o fate de que a pintura esta inscrita em determinado fragmento do espago, parede ou quadro. Manet que- brow esse conjunto de convengdes: inventou © quadro-objeto, a tela que repre- senta sua propria materialidade. Incluiu na figuragao os elementos materiais fundamentais da tela, integrou a fisica pictorica & cena representada; a luz que vem do exterior, as grandes linhas verticais ¢ horizontais que duplicam o for- mato do quadro, a trama do tecido. Suprimiu a profundidade, e o quadro se tornou um espago concrete diante do qual o espectador pede e deve se deslocar. Certamente Manet nao inventou a pintura no figurativa. Tudo nele é figura- tivo, Mas libertou a pintura das convengdes que pesavam sobre a figuracao, oferecendo assim as condigées de uma tuptura com a figuragao. Gragas a Ma- het 4 pintura péde jogar com as propriedades do espace: com suas propriedades materiais, puras, intrinsecas. que mais ocupa Foucault ¢ evidentemente a claboragao da Archéologie du savoir. Ele escreve com ardor ¢ se debate como uti deménio em meio a hogies de enunciado, formag&o discursiva, regularidade ¢ estratégia, Todo um vooabuldirio que tenta estabelecer e fixar; todo um jogo de conceitos que se es- forga para definir e articular. Ele apresentard o trabalho nos seguintes termos: Explicar 0 que cu quis fazer nos livros onde tantas coisas ainda ficaram ebscuras? Nao s6, nao exatamente, mas, indo um pouco além, retornaz, como em outra volta da espiral, aquém do que empreendi; mostrar de onde cu falava; delimitar 0 es- Pago que possibilita essas pesquisas e cutras, talvez, que nunca realizarei; em suma, dar significado # essa palavta argueologia que eu tinha deixado varia. ... E onde a historia das idéias, decifrando os textos, procura revelar os movimentos seeretos do pensamento (sua lenta progressao, suas Jutas ¢ recaidas, os obstieulos conternades), cu queria evidenciar em sua especificidade o nivel das “coisas di: tus": as condigio de seu Surgimenta, as formas de sua cumulagaa ¢ de seu enca- 178 oS tL a deamento, as regras de suas transformagdes, as descontinuld ides que as es dem, Q terreno das coisas ditas ¢ 0 que se chama arguiva; aanalist-lo.’ arqueologia desti Foucault sabe que os riscos sao consideriveis, Apresentaraiti-cne como ¢ suces- Sor de Sartre, eo mesire contestado contra-atacou duramente. A partida come- fou, © se quer veneé-la Foucault nae deve cecepcionar as expectativas de um puiblico que se acotovela para ver a préxima jogada, Foucault trabalha: em casa. a sua mesa, de manha cedo; na Biblioteca Nacional — em Tiinis também! — A tarde, E evidentemente diseute muite com o diretor do departamento, pois seu livre aborda problemas referentes a lingilistica ¢ filosofia da linguagem, Consulta-o como especialista em filosolias anglo-saxtis, que cle mesmo conhece muito mal, Gérard Deledalle vai cumprimenta-lo quase todos os dias durante seus passeios em Sidi Bou Said e vé a pilha de paginas crescer a cada visita, Foucault cinzela as formulagées com a fervor meticuloso de um ourives, O livro Progride, Quando Foucault partir da Tunisia estara pronto. Sairé no eomeco de 1969. Porém a Tunisia nao é 36 a vida entre os prazeres do sol ¢ a ascese filo- silica. Mais dia, menos dia, a politica, da qual Foucault se afastara, haveria de agatré-le novamente. E os acasos da vida determinam que isso acontega em Tiinis, no momento em que os intelectuais franeeses yao se Precipitar no turbi+ Thao de “maio de 1968", do qual Foucault nao vera praticamente nada: no fim de maio ele volta a Paris para passar apenas alguns dias. O tempo de assistir ao comicio no esididio Charléty, onde os grupos de esquerda compartilham com Pierre Mendes France a esperanga de que o poder gaullista eaia, Um dia Fou- cault passeia pelas ruas com Jean Daniel. ‘Eles nao fazem a Tevolugdo, eles sao arevolugao", diz ao diretor do Le Nouvel Observateur ao ver passar um grupo de estudantes. Volta a Tanis com a certeza de que a era gaullista esta prestes a se encerrar, que a esquerda vai omar 0 poder ¢ que Mendés France ou Mitter- rand serio chamados a desempenhar um grande papel nos destinos do pats. Mas, se est convencido de que o governo francés vai cair, sabe que niio acontecerd a mesma coisa com o regime tunisiano. Na universidade de Tints a agitago comega em dezembro de 1966: um estudante é espancado por policiais porque se réeusa a pagar a passagem de Onibus, © incidente ateia fogo A pélvora € a revolta se apodera das faculdades. Em junho dv 1967 05 problemas s4o mais graves. Apts a derrota dos exéreitos drabes pelas tropas israclenses na “Guerra dos Seis Dias" uma chama de violéneia se alastra pela capital tunisiana: mani- festagdes prd-palestinos degeneram em tumultos anti-semitas, Foucault fica chocado com esses fatos deplordveis, E expressa sua repulsa numa earta a Geor- ges Canguilhem datada de 7 de junho de 1967; i79 Segunda-feira passada houve aqui um dia (um meio diay de pogrom. Foi berm mais grave do que Le Monce disse; uns einaiienta inetndios, 150 ou duzentas lojas — as mais miseriveis, claro — saqueadas, espeticulo imemorial da sinagoga depre: dada, 0s tapetes arrastados para a rua, pisoteados e queimados, a gente correndo pelas ras, se refugiande num prédio que a multidao quer incendiar, E depois o si- 0, Iéneio, as portas de ferro fechadas, ninguém ou praticamente ninguém no b: criaagas que brincam com quinquilharias quebradas. A reagio do governo foi sincera, parece. Ora, evidentemente tudo foi organizado. Todo enérgica, firme mundo pereebeu que hA semanas, meses, sem ddvida, trabalhava-se profundidade, sem ¢ conhecimento do governo, contra ele. De qualquer modo nacionalisma ++ racisme, o total é pavoroso, TE se acreseentamos que os estudan- tes, por “esquerdismo", deram uma m&o (e um pouco mais) a tudo isso, bom, iss" em. ficamos profundamente iristes. E nos perguntamos por que estranha asticia (ou ‘o) para estupider) da histéria o marsismo pode dar oportunidade (¢ vocabu isso. Michel Foucault nao esconde aos estudantes o repidio por esses atos, Porém os tumultos de junhe de 1967 sae apenas o ponto de partida de uma onda de agitagdo que durante mais de um ano mantera a universidade num estado de terisio permanente. Reagrupados no movimento Perspectivas, os estudantes marxistas — a principio majoritariamente trotskistas, depois cada vez mais atraides pela maoisma — se mobilizam em favor de seus “irmios palestinos"’, porém ao mesmo tempo se engajam de modo sempre mais radical na oposi¢aio a0 governo e aa regime do presidente Bourguiba, Entre margo ¢ junho de 1968, apés um recrudescimento de agitagdo provocado pela visita A Tunisia do vice-presidente americano Humphrey, a repressao cai violenta sobre eles. Entre 0 presos ha varios alunos de Foucault. Os professores franceses se redinem para protestar contra as prisdes ¢ as torturas, A reapdo parece bem timida a alguns deles, que preconizam agies mais visiveis e firmes para marcar sua solidati dade. Por ocasiaa da assembléia geral dos professores franceses, convocada pela ", Michel Foucault e Jean Gattegno sio colocados em mi- noria por seus colegas que alegam a obrigagdo de reserva num pais estrangeiro. Foueault procura o embaixador da Franca ¢ pede-lhe que interfira, O diploma- ta responde que evidentemente nao pode s¢ intrometer nos assuntes internos da Tunisia “associa wo sindica Foucault, Gattegno ¢ alguns outros nde se conformam com a passividade, Ajudam os estudantes que conseguem escapar da policia e os abrigam em suas . Foucault chega a esconder o mimedgrafo do grupo, e varios panfletos serio impressos em seu jardim. Apés as [drias de vero de 1968, ao voltar para a ‘Tunisia, ele tenta deper no processo dos estudantes, Preparou uma declaragio e quer fé-la para a platéia em favor de Ahmed Ben Othman, Nao recebe auto- rizagaio, ¢ os debates transcorrem a portas fechadas. Sua obstinagdo the vale diversas ameacas de policiais & paisana — ou parapoliciais? — e uma vez ele & 180 agarrado ¢ espancado, depois de o interceptarem na estrada que leva a Sidi Bou Said, Sao advert@ncias que as autoridades tunisianas the fazem de modo bem poueo protocolar, Oficialmente, no entanto, ninguém o importuna: seu presti- gio é muito grande, seria dificil © governo incrimind-lo. Georges Lapassade é expulso & mais tarde o acusam de falta de energia. Porém Foucault prefere a agao discreta e eficaz ao que a seu ver naa passa de comportamento irrespon: savel e geralmente fadado ao fracasso. Jean Gattegno vé seu contrato reseindido no final de julho de 1968 e é condenado a eines anos de pristo por contumiécia. Os estudantes recebem penas severas. Ao valtar & Tunisia em 1971 Foucault novamente procura interferir junto ao ministre do Interior, a quem pede au- diénoia e que aceita recebé-lo, Pura perda de tempo, Foucault resolve entio nao pr mais os pés nesse pais enquante os prisioneiros politicos ndo forem liber- tados. Uma coisa é certa: ele esta muito abalada com esses acontecimentos. E 0 diz com ardor nas entrevistas a Ducio Trombadori, reconstituindo seu itinerario © suas experi&ncias politicas; Tive sorte na vida: vi na Suécia um pais social-democrata funcionando "bem" eutnia democracia popular, a Polénia, funcionando “mal”, Via Alemanha prestes a dar sia arrancada econtimica nos anos 6f), Depois um pais do Terceita Mundo, a Tunisia, Morei ali dois anos ¢ meio. Foi impressionante: assisti a tumultos esta- dantis muito fortes, muito intenses, precedence em varias semanas o que acon- teceu em maiona Franga, Foi em margo-de 1968, A agitagao durou o ano inteiro: greves, suspensia de aulas, prises. E em margo greve geral dos estudantes, A po- lioiu entrou na universidade, espancon os estudiantes, feriu gravemente varios deles eefeiuou prisdes. Houve processes, e alguns estudantes foram condenados a oito, dex, até catorze anos de prisdo, Tive uma idéia direta, precisa, do que estava em jogo nas universidades do munde, pois o fato de ser francés constituia uma certa protese perante as autoridades ¢ me permitiu fazer (o que muitos de meus cole- gas fizeram) determinado atimero de coisas, ver 0 que se passava, ver também coma as antoridades, o governo francés, reagiam a tudo aquile ,., nfo era nada bonite. Devo dizer que esses rapazes e mogas que eorriam riscos terriveis redigindo um panfleto, distribuindo-o oy fazendo um apelo & greve ... que realmente cor- tiam o risco de ser privados da liberdade! ,,. me impressionaram muito, muito, Para mim foi uma experiéncia politica. De minha passagem pelo Partido Comu- nista, do que pude ver na Alemanha, da maneira como as coisas se passaram com relagio aos problemas que eu queria colocar a prapésito da psiquiatria, quando voltel A Franga .,, de tudo isso guardei uma experiencia politica um poucoamarga, um pouco de ceticisma muito especulativo, nile escondo... L4, na Tunisia, fui levado a dar uma ajuda concreta aos estudantes .,. De slgum modo tive de entrar na debate politico. Essa revolta tunisiana que se desenrolou diante de seus olhos impressio- nou-o particularmente pelo papel que nela desempenhou a ideologia politica. A respeito dos estudantes Foucault declara: 181 Hos reivinali an} 6 marxismo, com um violéneia, uma intensidade, uma p: xo extraordinaria, Para eles (o marxismo) era nfo s6 uma anilise methor das coisas, como também uma espécie de energia moral, de notivel demanstragio de oxisténcia, aorescenta (a entrevista € gravada no final de 1978, ou sea, no momento em que ele exalta a importancia da revolugao iraniana) © que ne mundo atual pode dar a alguém a yontade, o gosto, # capacidade, a possibilidade de um sacrifick enhum inte- absolute? Sem. que se possa supor resse, nenhuma ambicdo, nenhuma sede de poder? Eu vi tudo isso na Tunisia. A evidéncia da necessidade do mito ... Uma ideclogia politica ou uma percepgdo politica do mundo, das telagdes humanas, das situagdes era absolutamente indis- m contrapartida & preciste da teoria, seu valor pensdvel para empreender a luti cientifico eam completamente secun mais um engodo que um verdadeiro principio de coh duta justo e correte...* rios © nas discussbes constituiam muito Foucault continua essa entrevista falando de sua surpresa, seu estupor, ao vol- fur para a Franca no final de 1968 e encontrar a “hipermaxizagao™ dos dis- cursos: Um desencadear de teorias, discusstes, andtemas, expulstes, formagtio de grupt nhos que me desconcertou completamente. O que vi na Franca em 1968-69 foi exatamente 0 contrario do que me havia interessado na Tunisia em mango de 1968. Assim ele explica sua vontade de empreender lutas sempre coneretas, localiza- das, precisas, longe do palavrorio e das sutilezas vigentes. No outeno de 1968 Foucault retorna & Franga, Mantém sua casa em Sidi Bou Said, mas sabe que sua pessoa é indesejavel no solo tunisiano, E encontrou tum lugar em Paris, Ou melhor, perto de Paris: Didier Anzieu convidou-o a inte- grar o departamento de psicologia recém-criado em Nanterre. Foucault hesita. Por varios motivos: primeiro porque se sente constrangido em competir com Pierre Kaufman, psicanalista lacaniano que foi membro da Resisténcia durante 4 guerra, Quando conta a Cariguilhem es tumultos anti-semitas a que assistin, conclu a carta dizendo que Ihe € "fisicamente insuportavel ser contra um ju- dou", ainda que tal oposigao ocorra apenas num “jogo universitario regular”. Sem diivida ha outros motivos: Foucault nao quer mais lecionar psicologia. “Pyicologia no é para mim", diz a Robert Francés, um dos professores desse departamento em Nanterre, que se impressiona com sua "'hesitagao". Além do mais — principalmente — Foucault tem varios projetos em vista, Ha uma ca- tedra novamente vaga na Sorbonne, Trata-se da Ecole Pratique des Hautes Btudes. E sobretudo Vuillemin ¢ Hyppolite lhe abrem caminho para o Collége 182 de France. Por fim ele aceita a praposta de Anzicu; ¢ eleito © nomeado em Nanterre. Para onde nao vai, pois decide se juntar a0 grupo fundador da uni- versidade de Vincennes. Em 18 de novembro de 1968 comunica ao deo de Nanterre que renuncia a seu ‘destacamento” para a faculdade que o ministério Ihe notificou apenas irés dias antes, pois o centro experimental de Vincennes acaba de Ihe “propor a cadeiza de filosofia” recém-criada. O que provoca um estranho problema burocritico e financeiro: quem deve pagar Foucault entre 18 de outubro de 1968, data em que termina seu destacamento para Tin ¢ 19 de dezembro de 1968, data efetiva de sua nomeagaio para Vincennes? O ministério da Educagao envia uma carta oficial ao deaio de Nanterre: cabe-Ihe pagar o-salario de Michel Foucault, pois este se encontrava administrativamente asua disposi¢fio na data em questo, mesmo que nunca tenha assumido o cargo. Se Foucault acaba aceitando oferta de Didier Anzieu ¢ depois opta por Vincennes certamente porque as coisas vo tal do lado da Serbonne, onde sua nova tentativa ndo obtém maior sucesso que a anterior, O sempre fiel Geor- ges Canguilliem falou sobre isso com um colega do departamento de filosofia, Raymond Aron, que meses antes convidara Foucault para seu seminario. Em 27 de Fevereiro de 1967 Aron Ihe eserevera: Ficarei encantado de Ihe oferecer uma platéia de umas cingienta pessoas, eujo nivel médio é clevado e & qual o senhor falaré livtemente sobre o que Ihe interessa, por exemplo, sobre sua concepedo das citneias humanas como saber. Compro- meto-me de antemio a me abster de qualquer polémica e a entregé-lo pacifica- mente aos jovens lobes, se os ha. Eem 7 de marco Foucault respondeu: Come o senhor tem a bondade de me dar sua palavra, aveito 0 riseo com grande: igiidades dessa descrigho do ‘saber’ gratidao, Tentarei climinar algumas am que procurei fazet. E, palavra, se seus jovens Jobos me despecagarem, de qualquer modo teri grande prazer em ouvi-los. ‘A sesso teve lugar em 17 de marco e tude correu muito bem. “Foucault parecia um menine na frente de Aron”, afirma uma testemunha. Assim, parece que Aron tende a acolher com certa simpatia o pedida de Canguilhem, E et 28 de abril de 1967 escreve a Foucault, que se encontra em Sidi Bou Said: Caro amigo. Georges Canguithem ¢ eu conversamos sobre suas chances de obter uma catedra em Paris no préximo ano, Na Sorbonne, como cle deve ter Ihe dito, as chances sto reduzidas, Pensei ent&o num posto de diregdo na Ecole Pratique des Hantes Ftudes, Heller me garante que Braudel estaria disposte a recebé-lo, mas teme comprometer suas posteriores oportunidades no College de France fa- yendo-o entrar na sexta sogko (da Ecole des Hautes Etudes) que. parece, € mal 183 vista no Collégede France em funglo do predominio da quarta sega, Claro, cabe a0 senhor escolher endo tomarei nenhuma iniciatixa enquanto ndo me comuniear suas opinides e seus afazeres, Nao leve a sério a-earreira universitéria, mas desejo, ho proprio interesse de sua obra, que o senhor passa ignorar essa espécie de preo- cupagao € mio conhecer a hostilidade atuante de cotegas que se indispdem contra lulento e sucesso notaveis demais. Claro que 0 considero capaz de suportat facil: mente esse tipo de hostilidade, Mas pelo bem do equilibrio interior e da par do trabalho cientifico preferivel nao ter de enfrentar reagdex de defesa F termina com uma alusao a discussao de fevereiro; “Tive grande prazer com hosso didlogo ¢ espero que o senhor nao tenha se aborreeide com minhas imper- tinGncias. Até breve, espero, afetuosamente...", Mas nessa carta que parece i de “afeto" Foucault percebe uma recusa. E alguns dias depois escreve a Canguilhem; Nilo gosto nada deo fazer perdet tempo e se envolver nessas traméias. Acho mais simples Ihe mandar 2 carta que recebi de mensieur Aron hoje de manha. Ela me parece bem clara e, palavra de honra, muito honesta, pois me pergunta sim ou nko, Sorbonne ou Collége ... O Collége parece demais para mim, nao trabalhei 0 suficiente para pretender tanto. Quanto & Sorbonne, se nie posso contar com 0 apoio da grande maioria dos filésofos, € claro que n&o tenho chance. Dai uma certa tentaede de ficar onde estou — ¢ onde na verdade nfo estou mal, monsicur Hyppolite pode the dizer. A carta traz a data de 2 de maio de 1967, De qualquer modo Clemens Heller confirma a versio dos fatos dada por Raymond Aron sobre a posigio de Brau- del; este estimaya muito Foucault ¢ n&o queria desperdigar suas chances no Collége de France, Alias, apoiaré ativamente sua candidatura, como atesta a que Foucault Ihe dirige em 27 de dezembra de 1969 agradecendo-Ihe a depols de eleite, aju Final de 1968. Foucault parte da Tunisia. Parte de Sidi Bou Said e deixa a faculdade.nas colinas que dominam o Casbah. Afasta-se do sole do mar que tanto ama, Volta para a Franga, e dessa vex nfo a deixaré mais, a nao ser para realizar pequenas viagens de curta duragae, Pouca tempo apés sua yolta ins- tula-se num grande apartamente da rue de Vaugirard, no oitave andar de um edificio moderno do 15! arrondissement, diante do square Adolphe-Chérioux, Grandes vidragas Ihe proporcionam uma vista magnifica de toda 0 oeste de Pa- His, Muitas vezes ele toma sol no terrago que acompanha tedo 0 somprimento do Salo © do eseritério, A suas costas nao tem mais os autéiros de Sidi Bou Said, mas a parede forrada de prateleiras com livros e revistas. 184 | -FetorKragstol Prusckowski stcomor py Michel Foucalrianga coma Fre rie mde Foc ! eesquen Arquivos madame Pouca re Fiat) esque trode clase de ecard coke Salata de Posters, ana tivo de 1940-1, “Argulves do code Sal Stans ‘tbairac diode classe de ernie do Colpo Sait-Stanss, ano fetivede MR, ‘Arguivs do coléio Saint Stanistash erboons alunos & peimirio a tina fla, 0 guint ap randmie Foucault) lees Yd Pte, Medel Fovealt etd Anode 1988-36, (Arquivan aa Ee |e fs ~pr ed Si Bern neck Tota th PEE TT pete anu mepriantckon ay wie padi # A ety BEPC C works Mr ms 4 teow a tale Ur de re ’ OMT Bae take QoQ A nes pele Fer taphingy Gerysa ab 7 Acomiu el LY wat tad Lo Wath ape Kade ele © da cecek = Cafeet spec bree, 2f Backhand hea Apu bhi eo has. G Becca AP) Dion cuut ob sophie . Y Yanet Yo mia Lament 2 — Ee eee ue cus! | attec unt Af Diet on Ftp Om © fradiun 2 Seincuat ef Unite Acme tne SP hak tmp eee Ox thE Aumeune wee pe Es eee at tec ed, tM Rowitae choy Beyerel Kad Riper hivn ot ta ore Hiecue SP we Rp OF na ek pan PE Ae te meuniere fer’ Caled Peay a t aap teu hk lesyuordr cata de Michel Foucault a Hen Gobiee Nak, exquerda,anotagies fsadetevede z usm rum itd: Miche! Fouceull, Jacques ide LaviStouse Roland DR les chases, Pov Mane Caranger thes, Deseo de Mausice Hetry pe alo pésamoriede HereDie heéFeucan s¢ Mice fousaul com eon Genes. Fatw Raver Martin ga festa Press A la suile d'une interpellation M. MICHEL FOUCAULT PORTE PLAINTE CONFRE DES POLICIERS ‘MMM. J.-M, Domenach et Michel Foucault, et une douzaine de membres du groupe d'information sur les prisons, ont é¢ interpel- Iés respectivement le 1" mai aux portes Ges prisons de Fyesnes et de la Santé, alors qwils distri- bunient un ‘texte sur T'abalition du_casier judieiaire, Ts on? relachés vats 17 heures, M. Mt Foucault a porté pisinte pour arrestation iliégale, atteinte aux Libertés publiques, Injures pu- blignes ef viskeneés légeras avec préméditation. M, Miche) Foucault, professeur au Collége de France, nous a fait je réctt suivant : «du poste de police of fat été eniniené adec mign groupe, ur policter, aprés avorr remargué ave plusiew's de nos noms w'étuent pas de consonance franeatse.| fous @ demandd quels éfatent| parm! nous «ceux qul portatent | fdes nome ‘vraiment gauiols » Quelgues iastants apres, tatsert | fa mimique de quelgu'stt gu! tire au revoiver, ia erie : a Heil % Hitler to Enyin, un autre @enire cuz mea stave tars Te dos alors que je guittais [2 com- onissarigt et que j'étais déjd dors da rhe, A sqrt Mond, Poe aukert, Chauce Mauriac, Michel Fo Cilles Deleue, Dune! Defer irgen esa no minis Jastga, plac (Mic! Foucault emswa cesaem 1983, Fotor Martine Prnck/Magnum. ‘cima: outubrode 1983, Miche! Foucault em Berkeley com estudantes que lhe deram um chapéu de cowboy e Pal Rabinow fo segundoa partir da drei), (Anguives Paul Rabinow) bine artigo de Georges Duméaitem Ze Nouvel Obsérvaiew por ocasio da morte de Michel Foucault ano de 1984), Fou DR. Pore of tio te Ra Cael. Lele Si HEUREUX ers Gem PAR GEORGES DUMEZIL is cy pemiie paras, eroel, Hesston an. Te fn nce, Sls Vallee gi preva, muni tap ovement dv neem de Hee ee Cceomsidce se 4 mont ex Jean Pippo: de was los we Ge va subtane mene Michet Foucault em 1977. For: Michele eancihon, JIE “MILITANTE E PROFESSOR NO COLLEGE DE FRANCE..." yf = i O INTERLUDIO DE VINCENNES Ja € noite nesse 23 de janeiro de 1969 quando os grupos compactos da CRS (Compagnie Republicaine de Sécurité) avangam em diregao ao estranho conjunto de edificios que em alguns meses surgiram junto ao bois de Vincennes. A nova universidade acaba de abrir as portas. HA alguns dias: 0 tempo de orga- nizar sua primeira greve, sua primeira ocupagho... ¢ sua primeira batalha com a policia, Nessa noite de 23 de janeiro de 1969 Michel Foucault entra na gesta esquerdista, Entrada tardia, pois ela j4 tem sua hist6ria, suas tradigdes, suas figuras, Entra mais para acompanha-la do que para aderir sem feservas. No entanto o fato € que entra na luta e nela realiza boa parte de sua trajetaria nos anos 70. Depois do grande medo de maio de 1968 0 governo quis tapar as brechas e rapidamente empreendeu @ “reforma do ensino superior”. Dai a famosa “lei de orientagio” apresentada no reinicio das aulas por Edgar Fause, 0 novo mi- nistro da Educagio, ¢ votada em 10 de outubro de 1968. Doravante as univer- sidades serdo regidas pelos principios de autonomia, pluridisciplinaridade ¢ participagao dos usuarios, Mas, sem esperar a lei que levara seu nome, 0 mini tro comega a inovar; em agosto resolve construir os edificios que vao acolher os “centros experimentais" perto da porte Dauphine e no bois de Vincennes, No primeiro caso em terrenos liberados pela OTAN; no segundo em espagos pertencentes ao Exército ha mais de cem anos. E ali, em quatro hectares ¢ meio, que vio se erguer os modernos galpbes pré-fabricados que abrigario o Centre y Expérimemtal de Vincennes, Edgar Faure encarregou o deo da Sorbonne, Ray- mond Las Vergnas, renomado anglicista, de proceder & instalagio dessa nova | universidade na periferia imediata de Paris ¢ erganizar seu funcionamento. A | sua volta redine-se no comeco de outubro de 1968 uma Comission d’Orientation 187 | i o nome oficial — composta de umas vinte personalidades, como Je Pierre Vernant, Georges Canguilhem, Emmanuel Le Roy Ladurie, Roland Bar- thes, Jacques Derrida, Sua tarefa: designar a primeira equipe de professores, is caberd reerutar 0 corpa docente da nova faculdade. Mal a camissao a imprensa da direita ¢ os jornais populares a denunciam como um bando de esquerdistas, “A maioria dos recrutados da faculdade experimental de Vincennes sdo esquerdistas", diz Parts-Presse! E sob esse rotulo alinha tanto Roland Barthes, “um dos lideres da escola estruturalista e esquerdista extremado", como Viadimir Jankéléviteh, “grande signatério de manifestos s-esquerdistas". Est dado o tom, e a polémica apenas se inicial Mas por lade, fos qu se instal quanto a comissio se redine, apesar do clima de host para organizar a ista dos professores que ve formar “'nticleo de recrutamento! A tarefa se realiza rapidamente: uma diizia de pessoas sao designadas nas semanas seguintes. Jean-Claude Passeron ¢ Robert Castel em sociologia; Jean Bouvier ¢ Jacques Droz em hist6ria; Jean-Pierre Richard em franets, Em filo- sofia a escola reeai sobre Michel Foucault, a pedido de Georges Canguilhem. . pois Foucault j4 € muito famoso, e seu nome se torna A noticia causa sensac: das atengdes. Principalmente dos esquerdistas, que no o tém em alta Consideram-no pouco engajado, pecado supremo aos alos dos ativistas de todas as facgées que afluem para erguer o que se tornard o “bastife verme- tho” de apds 1968. Dizem que ele é “gaullista”, criticam-no muito por nao ter “feito nada” em maio de 1968. © que é verdade. pois ele nao estava na Franca. E em 6 denovembro, quando nas dependéncias da Sorbonne — pois as de Vin- cennes ainda nao estéo aberta foc © s — se realiza uma vasta assembléia geral para considerar as modalidades de funcionamento do Centre Expérimental, Foucault se y€ em con{ronto direto com seus acusadores. Declara entio a Jean Gattegna, encarregado pelo deiio Las Vergnas de organizar as inserighes dos estudantes na nova faculdade: “Vou dizer para eles; ‘Enguanto vocés se divertiam em suas barricadas do Quartier Latin, eu me ocupava de coisas sérias na Tunisia’ ’’. Mas seu ex-colega de Ténis o dissuade: “Nao adiantaria nada". Foucault se cala. Porém sabe o que o espera. Meso porque o “comité de agio", que retine os elementos mais extremisias — como Jean-Marc Salmon, André Glucksmann, ex-aluno de Raymond Aron que aderiu 4 esquerda mais extravagante e sectaria, e alguns outros —, acaba de divulgar sua “plataforma”’ na edigdo de novembro do jornal Action; o texto ¢ precedido de uma chamada em que se lé: Edgar Faure somega 4 jogar poeira nos olhos: “'a neva Jaculdade sera uma uni- versidade-piloto”, “universidade do séeulo XX", S80 anunciadas nomeagies de professores famosos, como a de Michel Foucault, uma das estrelas da “‘estratu- ralismo”, que dirigiré o departamento de filosofia, Com isso o ministério espera distrair a opiniio cam querelas de escola ou de facgao: assim como falou da su- pressio do latim na sixféme, mas nao das liberdades nos Jiceus, 0 France-Soir 188 + redigird seus titulos pro ow contra o estruturalismo na experanga de te cero resto: r exque: 2 “N&o € isso que interessa ao A dliatribe termina com as seguintes palaw movimento estudantil"? O que interessa ac movimento estudantil ¢ muito sim- ples, Por ocasifia da assembléia geral um dos redatores da plataforma faz esta declaracao, relatada por Le Monde: “Devemos exigir que o ensino de Vincen- nes desenvolva a reflexio e a formagao politica de modo a transformaé-las numa base de aco para o exterior”. Contudo Foucault jé se ps a trabalhar e procura reunir a sua volta gente que a sew ver representa “a que a filosofia tem de methor na Franga hoje em dia", como diz a um amigo. Mais ou menes como Vuillemin queria fazer em Clermont-Ferrand dez anos antes. Comega por solivitar Deleuze. Mas este novamente se encontra muito doente e nao pode aceitar a propesta, Quando for a Vincennes, dois anos depois, Foucault ja tera partido. Em compensac¢ao Mi- chel Serres o atende de imediato. Oficialmente faz parte do ''niieleo de reeruta- mento”, porém prefere ficar 4 margem do processo de nomeagdes. Em seguida Foucault se volta para a jovem geragfie, para os alunos de Althusser e Lacan, em especial para o grupo que fundara Cahiers pour I'enalyse, Pelo menos quando € possivel, pois muitos dos que cle gostaria de recrutar estao prestando servigo militar, como Alain Grostichard. "Se fui nomeada™, diz Judith Miller, rindo, “foi porque nao tinha esse problema!" Além da filha de Lacan, atendem ao chamado de Foucault Alain Badiou, Jacques Ranciére, Frangois Regnault e alguns outros, Entretanto os critérios polfticos preponderam sobre os intelec- tuais. Para lecionar em Vincennes, pelo menos na cadeira de filosofia, € preciso ter participade de maio de 1968, pertencer a um dos grupinhos que proliferam e se defrontam com a refluxo da grande onda de liberdade, Alias, para equilibrar um pouco as coisas, quer diver, para evitar que o departamento de filosofia seja completamente engolide pelos maoistas, ultramajoritarios na equipe organi- zada sob seus cuidados, Foucault recorre a Henri Weber, entao dirigente trots- kista, Etienne Balibar, também recrutado, passaré maus bocados por pertencer ao Partida Comunista. Por fim, para atuar como moderador nesse meio agres- sivamente militante, Foucault chama um sdbio, reconhecide tanto por sua com peténeia pedagégica como por suas qualidades diplomaticas: Frangais Chatelet, Foucault nao se ocupa apenas de seu proprio departamento. Participa das reunites preparatérias para a abertura do Centre, realizadas na Sorbonne ao redor do defo Las Vergnas on de Jean-Baptiste Duroselle, 0 historiador esco- lhido como ‘‘delegado” do niicleo de recrutamento mas que se demitira em breve, assustade com a orientagiie esquerdista dos acontecimentos. Também ocorrem reunides na casa de Héléne Cixous, uma anglicista amiga de Las Vergnas e que desempenhou um papel muito importante no projeto da univer- sidade de Vincennes. Uma das grandes preocupactes de Foucault: afastar og rag psicdlogos ¢ a psicologia para coder os cargos ¢ os créditos a uma segiio de psica nilise. Com o apoio de Castel ¢ Passeron ele milita pela nomeagao de Serge Leclaire. As discussdes acabam levando a um meio termo: dois departamentos psicologia ¢ psicanélise — serio criados. Mas todos notaram seus talentos de “estrategista’ nas discussées, sua “arte de manobra"’ e, segundo alguns, da “manipulagio”. Ainda falta @ nomeag&o oficial de Foucault, Tudo transeorre normal- mente quanto ds outras disciplinas. Mas a seco de filosofia do Comité Consul- lutif des Universités, organismo oficial encarregade da carreira dos professores do curso superior, alega que Foucault nfo pode ser recrutade como titular da citedra de filosofia porque € recrutador. Em 9 de noyembro de 1968 0 deao Las Vergnas escreve ao ministro da Edueagaor Por sugestio da Comission ¢ Orientation, reunida em 25-10-1968, propus-lhe chamar Michel Foucault para compor 6 “nticleo de recrutamento” de Vincennes e nomeé-lo para a eftedra de filosafia, Apés a decisdo desfavoravel tamada pelo CCU em sua sessao de $ de novembro de 1968, Michel Foucault comunieeu-me sua decisio de se retirar do “‘nticleo de recrutamento” para poder se submeter & votagio de seus futuros colegas. Tal votagdo overreu em 16 de nevembro de 1968. 05 professores titulares que receberam notificacde de sua designagao para o Cen- re universitaire de Vincennes na data de 15-11-1968 sio em nimero de onze. O resultado foi 9 seguinte: Votantes: de (um ausente), Michel Foucault: dex votes, Tenho, pois, a honra de renovar minha proposta de designar Michel Foucault para ocupar @ citedra de filosofia do CUE de Vincennes e de pedir-lhe que sub leta seu caso novamente ao CCU hos, A nomeagdo de Foucault se efetiva em 1? de dezembro. A universidade de Vincennes abre as portas — de qualquer modo admi- nistrativamente falanda — em dezembro de 1968. Os primeiros cursos tém ini- cio em janeiro de 1969. Mas © centro universitério s6 deslancha realmente em fevereiro e margo. “A atmosfera de Vincennes é a de uma colméia barulhenta, onde cada qual procura seu lugar”, escreve Le Monde em 15 de janeiro, Porém © burburinho da colméia logo cede lugar ao caos absaluto, Alias, o clima de tensfio nao se limita ao bois de Vineennes. No reinicio das aulas, no outono de 1968, e durante todo o inverno de 1968-69 Le Monde dedica diariamente uma, duas, as vezes trés paginas inteiras a rubrica “agitagio universitéria'’, ¢ nfo se 190 on acabaria nunca de enumerar as greves ¢ os comicios nos liceus ¢ faculdades, em Paris ou na provineia, os ineidentes constantes ¢ os confrontes mais ou m violentos com & polfeia. O pessoal de Vincennes nao demora a entrar na dang: Em 23 de janciro o comité de agao do liceu Saint-Louis decide organizar uma reunido na qual devem ser projetados filmes sobre maio de 1968, A reitoria proibe a reuniaio e manda cortar a luz. Mas trezentos alunos do liceu entram no estabelecimento munidos de um gerador, Projetam o filme, sacm em passeata para evitar as interpelagdes ¢ juntam-se a um comicio que tem fugar a alguns metros de distancia, no patio da Sorbonne, do outro lado do boulevard Saint- Michel. Uma palayra de ordem circula rapidamente: ocupagio da reitoria, si tuada nos prédios da velha Sorbonne, Dito e feito. Entretanto a policia interfere e evacua 0 local. Enquanto explodem tamultos no Quartier Latin, Por solida riedade centenas de estudantes de Vincennes e também alguns professores re- solvem ocupar a faculdade e improvisam barricadas, Tudo serve: mesas, cadei- ras, escrivaninhas, armérios, televisores... toda o material novinke em folha que acaba de set instalado. E a noite, quando a policia intervém — 2 mil ho- mens no total —, Vincennes conhece sua primeira batalha, Bombas lacrimog?- neas de um lado, pedras & projéieis diversos do outro. As forgas da policia ayangam pouco a pouco-e retinem professores ¢ alunos no grande anfiteatto. Michel Foucault ¢ Daniel Defert estao entre os tiltimos a ser interrogados. Tém os alhos vermelhos por causa do gas. E Foucault diz a Passeron; “Quebraram tude em sua sala". Depois todos sao enfiados nas viaturas e levados para Beau- jon, 0 centro de controle da policia parisiense. No total sio 220 pessoas. Como os outros, Michel Foucault é liberado aa amanhecer, As reagdes do governe e da imprensa séo duras: Edgar Faure denuneia o ‘‘absurdo" desses incidentes ¢ de- plora a extensiio dos estragos cometidos nas dependéncias da universidade. En- quanto os meios conservadores criticam o “liberalismo” do ministro ¢ the atci- buem a responsabilidade pelas desordens. Os grafites que nesse dia na Sor- bonne danificaram o famoso retrato de Richelieu feito por Philippe de Cham- paigne fornam-se o simbolo incansavelmente evocado do “vandalismo da es- querda”. Depois desses incidentes 34 estudantes sao expulsos da universidade @ 181 ameagados de perseguicdio. Em 10 de fevereira de 1969 realiza-se na Mu- tualité um comicio para protestar contra essas medidas diseiplinares. Diante de uma sala superfotada tomam a patavra Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, que, segunda Le Monde, foi um dos oradores mais virulentos, denunciando a Pprovecagia das forgas da ordem e a "'repressio calculada”’. Apés essa inanguragéo um tanto ruidosa, Vincennes vive no ritme das assembiéias gerais, das manifestagdes, dos chaques com a policia, das batalhas entre comunistas ¢ esquerdistas ou entre facedes da esquerda. Apesar de tudo.as aulas continuam, embora as vezes se transformem em psicodrama, duelo ver= bal, discussio sem fim, troca de delirantes sutilezas sobre revolugfio, luta de or classes, proletarindo, Michel Serres saiu de Vincennes logo depois dese pri- metro ano ¢ guardou do periedo uma lembranga sinistra: “Tive a impressiio de mergulhado na mesma atmosfera de terrorismo intelectual instalada pelos stalinistas quanco eu era aluno da rue d'Ulm", No entanto ele se impoe como oneluirseu cursoe realizar os exames. Michel Foucault atua como “diretor” do departamento de filosofia, em- ja de “diregaa'’ nao tenha grande significado nesse contexto. De qual- quer modo divulga-se um programa dos cursos, Alias, essa lista de ensinemen+ tos diz muitoda atmosfera intelectual da épaca e da visio de mundo dos “vin« deve bora a id cennois", Aqui estao os titulos de alguns cursos definidas para o ane de 1968-69: "Revisionismo-esquerdismo", por Jacques Raneitre: “Ciéncias das formagoes soviais ¢ filosofia marxista, por Etienne Balibar; “Revolugdes eulturais", por Judith Miller; “Luta ideol6gica”’, por Alain Badiou, Naturalmente alguns pro- fessores procuram fazer um trabalho mais classico ¢ mais de acordo com as hocmas universitérias: Michel Serres expde as teorias positivistas da ¢ Telagdes entre a racionalidade grega ea matematica; Frangois Chatelet ensina "© pensamento politico grego” ou “A identidade ¢ a contradigao na filosofia . Enquanto Michel Foucault analisa “O discurso da sexualidade" e “O fim da metafisiea™. No ano seguinte (1969-70) os titulos sdo da mesma ordem ¢ se encontram misturados: ‘Teoria da segunda etapa de marxismo-leninismo: inismo”, por Jacques Ranciére, e “Terceira etapa do mar: © maoismo”, por Judith Miller; uma “Introduce ao marxismo do século XX: Lénin, Trotski e a corrente bolchevique", por Henri Weber; “A dialética mar. ', por Alain Badiow... enquanto Frangois Chitelet estoicamente continua tudaro pensamenta antigo com uma “Critea do pensamente especulativo grego” ou a abordar “Os problemas epistemoldgicos das ciéneias histérieas’’, Os cursos de Foucault tratam da “epistemologia das ciéncias da vida” ¢ de Nietesche. Este ditimo fornece o material de seu texto sobre Nietzsche, la géné logie, histoire, na volume de homenagem a Jean Hyppolite editado em 1971 No primeito ano a afluéncia a scu curso € (Jo grande — mals de seiscentas pessoas — que no ano seguinte ele trata de limitar 9 mimero de inscrigdes. “N&o mais que 25", diz a Assia Melamed, secretaria do departamento. O que nao impede que bem umas cem pessoas vo ouvi-lo, apesar de ele ter escolhido uma sala menor, Exceto alguns, os temas dos cursos tém por que surpreender e de fato surpreendem. Em 15 de janeire de 1970 Olivier Guichard, o ministro da Edu- cagiio que substituin Faure, lamenta as condigdes do ensino de filosofia no ano de 1968-69; denuneia o cardter ‘'marxista-leninista™ dos cursos dadas e decide suprimira “habilitagao nacional” dos diplomas coneedidos por Vincennes nessa disciplina. E claro: os estudantes nao poderdo mais se apresentar aos concurses de recrutamenta — licenciatura e agrégation — do ensino secundario. O discurso ncia eas mo-leninismo: 192 do ministro aeerta na mosea, principalmente quando ele cita na radio alguns exemplos de curso, Michel Foucautt lhe responde em 24 de janeiro por ocasiaio de uma entrevista coletiva organizada pelos professores: sendo a vocagto de Vincennes estudar o mundo contemporaine, explica, como o departamento de filosofia poderia deixar de ser uma “‘reflexdo sobre a politica"? Dias depois volta a defender “seu” departamento, declarando numa entrevista publicada por Le Nouvel Observateur: Como dar cursos desenvalvides ¢ diversificados com 950 alunos para vito profes: sores? Digam-me claramente o que ¢ filosofia © em nome de que. de que texto, de que critério, de que verdade rejeitam o que fazemos. E passa contra-afensiva: ‘0 esseneial do discurso do ministro nfo so as razdes que ele apresenia: ¢ a de- iso que ele quer tomar. Decisto clara: os estudantes que tiverem cursade Vin- cennes no terio 0 direite de lecionar Ho seeundario, Eu faco algumas perguntas: Por que esse cordao de isolamento? O que a filosofia (a classe de filosofia) tem de tao perigoso que € preciso canto cuidado para proteg-la? Eo que ha de tao px gosoem Vincennes? Ent8o denuncia a “armadilha" que as autoridades universitarias e politicas ar- maram para o departamento de filosofia de Vincennes prometendo-lhe a mais Total liberdade e reprimindo-a a partir do momento em que ela quis se exercer.! Entretanto as dificuldades de Foucault nio terminam ai, Pouco depois outta questao novamente atrai as atengdes para a uaiversidade de Vincennes, Pois nic s6 os cursos, mas também as modalidades de controle pedagégico ¢ o tipo de exame haviam j@ suscitado a eélera das autoridades ministeriais. A atribuigao das “unidades de valor’, ou seja, dos certificados que sancionam cada curso ao final do ana, ocorre da maneira mais fantasiosa. Os professores nao realizam exames. A ex-secretaria do departamento de filosofia relata a s tuagao da seguinte maneira: no primeiro ano os professores se fechavam numa sala e os estudantes passavam por baixo da porta um pedago de papel com seu nome, que era incluido na lista dos aprovades, No segundo ano datilografou-se uma lista de aprovados, mas bastava pedir para sér incluido. Numa entrevista a Madeleine Chapsal e Michéle Manceaux para seu livro Des professeurs pour quoi fairé (Professores para qué), Judith Miller conta que distribui as “unidades de valor" no dnibus e acrescenta: “‘a universidade é uma. parte da saciedade capitalista”, ¢ ela ha de se esforgar para que funcione “de mala pior". Oescindalo naa demora a explodir, O estopim: um treche do livro publi- eado om L Express. E demais para o ministério. Em 3 de abril de 1970 a filha de Jacques Lacan, militante do movimento 193 maoisia Esquerda Profetdria, recebe uma carta do ministro, informando-lhe que se vé obrigado a “pdr termo a sua designagao para o ensino superior” ¢ la ao ensino secundario do qual fora desligada, A decisie ministerial ica a tensioem Vincennes, Ocupagao da universidade, voly ‘ evidentemente reintensi so pela policia... ‘Tais incidentes sao alguns fatores entre tantos outros que alimentam a erdnica de Vincennes ¢ as polémicas sobre a propria existéncia da universidade. Em 8 de outubro de 1969 0 presidente da universidade, Jacques Droz, fez esta adyerténcia; "Se atos irresponsaveis naa encontram oposigio por parte dos estu- dantes, temo que Vincennes se torne uma catastrofe e acabe sendo fechada™, Durante varios anos a imprensa aborda essa questiio. Segundo sua opeao poli- tica os jornais se perguntam se Vincennes sera (ou deveré ser) fechada, “Vin- cennes em sursis’’, “Vincennes deve viver”, etc., 6 0 que se 1¢ durante meses, como uma ladainha eternamente retomada depois de cada incidente. Vincennes viveré. Mas — e por muito tempo — nesse clima de violéncia instaurado desde o inicio. Segundo todas as testemunhas 0 departamento de filosofia esteve a frente dessas permanentes desordens. Um professor que participou da fundagao da faculdade acha que ‘‘desde o comego” o departamento foi “tomado por uma vertigem autodestrutiva’’, E tudo isso coma participate ou a garantia — senio com a profunda concordancia — de Michel Foucault, que se movimenta com certo desembaraco na contestagao ultra-esquerdista e as vezes parece se entre- gar de corpo c alma As diversas manifestagdes que ela todo dia inventa, No co- mego, pelo menos, Pois parece que logo se cansou, Alguns acham até que ficou muito traumatizado com a experiéncia de Vincennes, com os permanentes questionamentos dos quais 0s professares cram objeto, Clara, ele foi visto de barra de ferro na mio, prestes ase atracar com os militantes comunistas; claro, ele foi visto atirando pedras nos policiais... Mas o clima de Vincennes nao podia lhe agradar indefinidamente. ‘Eu estava farto daqueles malucos", diz a um amigo pouco depois cle sua partida, De qualquer mode nao [he agrada muito 0 ‘contato com os estudantes, E ele procura passar o minimo tempo possivel no campus para poder continuar suas exploracdes na Biblioteca Nacional. No fun- do fica muito feliz por deixar esse lugar, onde sabia, alids, que sua presenga Seria transitéria. Pois na mesma época empreende sua campanha para chegar ao Collége de France: apresenta seu memorial, visita professores, cumpre os rituais que a prestigiosa instituigao exige de todos que querem ser admitides. evacu Foucault ficou dois anos em Vincennes. Deis anos movimentados que serio essenciais em sua vida, em sua carreira, em sua obra, Pois é ali que ele mente volta 4 politica, reencontra a historia, “como um escafandro depa- 194 sitado no funda do mare que de repente a tempestade carrega até a prain’’, conforme a imagem que utiliza e que Jules Vuillemin relembra em seu elogi finebre no Collége de France.® Essa emerstio A superficie, essa entrada na poli- tica sem diivida deve muito a Daniel Defert, que evolui na esfera maoista. E que foi recrutade como assistente de sociologia em Vincennes. Na verdade é um Foucault muito diferente que nasce nesse momento crucial, Vai longe o acadé- mieo que participava das comissdes ministeriais ou examinava os candidatos 4 ENA, Aquele homem desaparece pouco a pouco, se deixa esquecer, ¢ do alambique de Vincennes emerge 0 filésofo engajade, que interfere em todas as frentes, nas da agfo e nas da reflexao. A partir de 1969 Foucault comega a encarnar a propria figura do intelectual militante. Nesse momento se inventa o Foucault que tode munde conhece, das manifestaedes e dos manifestos, das “lutas” e da “critica, As quais a c&tedra do Collége de France confere uma solidez ¢ uma forga ainda maiores. Essa “entrada na politica’ nao marea de imediato sua atuagio intelectual: em Vincennes ele da cursos sobre Nietzsche € em sua aula inaugural no Collége de France, em dezembro de 1970, apro- xima-se mais das preocupagdes da Archéologie dw savoir que das elaboragies posteriores sobre o poder, Seus artigos ou conferéncias desse periodo continuam surpreendentemente marcadas por suas preocupagdes tebrieas e por seu estilo anteriores, Como esta conferéncia pronunciada na Société Francaise de Philoso- phie em 22 de fevereiro de 1969: "O que é um autor?”, A partir da formulagao de Beckett, evidentemente; ““O que importa quem fala, disse alguém, o que importa quem fala", Uma indiferenga na qual “se afirma o principio ético mais fundamental, talvez, da eseritura contempordnea”. A essa indiferenga Foucault acrescenta um segunda tema, “o parentesco entre a morte ¢ a escritura™. A dis- cussdo que se segue é memoravel: comega com um duelo entre Lucien Gold- mann ¢ Foucault, Goldmann critica a “estraturalismo'' e termina citando a seguinte frase, escrita por um estudante mum quadro-negro de uma sala da Sorbonne em maio de 196% “As estruturas nao yao As ruas”, E acrescenta: “Nunca so ag estruturas que fazem a historia, mas os homens". Foucault re- plica secamente: “Nunea useio termo estrutura, Por isso gostaria que me pou- passem de todas as condescendéncias com o estruturalisme", Depois comenta “a morte do homem"™: E um tema gue permite mostrar como © conceite de homem funcionow no sabet Nao se trata de afirmar que o homem morrey, trata-se de ver de que moto, se- gundo que regra se formou e funcionou 0 conceito de homem. Fiz a mesma coisa com a nogae de autor. Portanto, ramos conteras ligrimas, Jacques Lacan se pronuncia apoiando Foucault: A meu ver niio é legitimo escrever que as estruturas no vao As fuas, pols, se hd alguina coisa que os acontecimentes de maio demonstram, ¢ exatamente essa ida 495 dlas wstruturay As ruas. Q fate de se everever no prdpria local onde se realiza essa ida. ds ras prov implesmente que o que muitas vezes, ¢ até o mais das vezes, 4 interno ao que chamamos de ato é que ele desconhece a si mesmo.” O que restau da passagem de Foucault por Vincennes? Ele teve a oportu- nidade de estabelecer certas diretrizes que teriam efeitos duradouros na pai- sagem intelectual francesa. Pois apesar das turbuléneias Vincennes aleangari sua velocidade de eruzeiro e seu departamento de filosofia conheceria um gran- plendor, com Deleuze, Lyotard, Scherer... Assim. a ambig&o de Foucault de acolher “0 que hi de melhor” nfo foi totalmente vi. E 0 departamento de psicandlise logo se tornou um dos centros da radiagio lacaniana, Em julho de 1969 Foucault convidou Lacan a continuar seu seminério em Vincennes, pois a Ecole Normale se reeusara a acolhé-lo por mais tempo. No fim 0 semi- nirio encontrou refiigio na faculdade de diteito na place du Panthéon, porém Lacan coneordou em ir a Vincennes pronunciar uma série de conferéneias. Um ciclo que se encerrou na primeira sesso, em 3 de dezembro de 1969. Desaea- tado pelos estudantes, Lacan langou sua eélebre apéstrofe: “O que voets dese- jam come revoluciondrios é um done, Vacés o terao”. E saiu da sala, Depois telefonou para o depattamento de filosofia e disse que ia "“cabular” a conlerén- cia seguinte, prevista para comego de fevereiro, e cancelava todas as outras. dee Ao deixar o departamento de filosofia de Vineennes nas maos de Frangoi: Chitelet, Michel Foucault sabia que The confiava um legado ditfeil de adminis- trar, Sabia que lhe entregava um foco de conflites, Mas também um lugar de efervescéneia intelectual 196 2 A SOLIDAO DO ACROBATA “Senhor administrador, meus caros colegas, senhoras, senhores.,," Faz- se siléncio na sala ea vor se eleva, surda, tensa de emogao, quase deformada pelo medo, uma palavra mais sussurrada que proferida: ".., messe discurso que deve fazer hoje ¢ nos que me caberé fazer aqui durante anos talvez..."". Eo dia 2 de dezembro de 1970, ¢ Michel Foucault pronuncia sua aula inaugural no Collége de France, Varias centenas de pessoas se apinham no grande anfiteatro onde tadi- cionalmente se realiza essa ceriménia e que mao parece ter mudado ao longo dos anos — a cena ocorre antes da modernizagio —, com seus velhos bancos de madeira e sua atmosfera um tanto ligubre. Como é freqiiente nesses anos m agitados, 0 Quartier Latin se encontra em estado de sitio. Todos os presentes tiveram de atravessar nas ruas préximas & Sorbonne barreiras formadas por viaturas de policia ¢ fileiras de CRS, de viseira baixa © cassetete em punho, compondo um estrankio cenirio para o discurso que logo vai abordar os “confi- aamentos’’, 03 “poderes” ¢ as "normas”, A policia nao esta ali por causa de Foucault, naturalmente. Mas todo mundo faz a associagao, Dias depois, ao falar em Les Lettres Frangaises da "grande multidio” que se empurrava para ouvir 0 filésofo, Pierre Daix no deixa de aludir a esses “espagos cheios de gente em pé, na maioria jovens, como se maio de 1968 tivesse enviado sélidas dele- gagdes a uma assembléia mais tranqiiila”,! Delegaedes de maio que se identi- fieam recebendo com um murmirio zombeteire a pequena alocugao promun- ciada pelo administrador do College de France, Etienne Wolff, que quis dar as boas-vindas ao recém-chegado a esse “local da liberdade” que é a imponente construgao da place Marcelin-Berthelot. Depois Foucault comega a ler — pois 1é seu texto — sob o olhar fixo de Bergson, cuje perfil em bronze domina a sala: 197 ju gostiria de ter atris de-mim uma voz que falasse assim: E precise continuar, hd, ¢ preciso dizé-Ias até castigo, estranha culpa, no posso continuar, é preciso dizer palavras enquante que elas me encontrem, até que me diam — esta 6 preciso continuar, talvez jé tenha acontecido, talver me tenham levado ao limiar de minha hist6ria, diante da porta que se abre para minha historia, eu me sur- preenderia se ela se abrisse. Comegando com as frases de Beckett de O iomindvel, Foucault conquista a platéia, Entre os que o ouvem estio Georges Dumézil, claro, Claude Lévi- Strauss, Fernand Braudel, Prangois Jacob, Gilles Deleuze. Michel Foucault acaba de entrar no santuario da instituig&o universitaria_ francesa, A mesma ceriménia ocorreu na véspera, com um piblico muito dife: rente, para receber Raymond Aron, Dois dias depois, em 4 de dezembro, o Collége acolhera Geerges Duby, A coincidéncia de datas para as aulas de Mi- chel Foucault e Raymond Aron nao ¢ totalmente frata do aeaso, Eles foram eleitos no mesmo dia na mesma assembléia de professores. E embora as coisas milo se passassem de modo t&o explicito, algurnas pessoas acharam que os par- fidérios de um ¢ outro haviam feito uma espécie de acordo: toma 1a, da ed. Mas é preciso recuar alguns anos para entender essa cleigio de Michel Foucault, Primeiro até sua amizade com Dumézil, Tendo chegado idade de se ntar, Dumézil sain do Collége por ocasitie da votapao. Parte para os Esta- nidos @ fim de lecionar Ide, procurando convencer alguns ex-colegas que Ihe pareciam retiventes ou um pouce inguietos com a reputagdo do candidato, envia-lhes cinco ou seis cartas, Dumézil goza de grande prestigio, e sem divida suas interferéneias sio muito dteis. Além disso comecou a mencionar ¢ em st guida a defender a candidatura de Foucault bem antes de partir. Pois desde 1966 Jean Hyppolite se vale do enorme sucesso de Les mots et les choses para colocar na ordem do dia a eleigio de Foucault. Toma todas as providéncias necess4rias para levar o projeto a bom termo: comega por falar a Uns ¢ outros sobre a eventualidade de tal candidatura, a testar as reagdes, Que sho muito diferentes, Nessa tarefa o apdia Jules Vuillemin, o titular da outra cadeira de filosofia. Dumézil, Hyppolite, Vuillemin: um belo trio. Ao qual se junta Fernand Braudel, que nao poupa esforgos. Infelizmente Hyppolite nao verfl o sucesso de sua miss&o: falece em 27 de outubro de 1968. E quando se trata de preencher a vaga deixada por sua morte as atengdes naturalmente se voltam para Foucault, Vuillemin apresenta oficialmente a candidatura de seu ex-colega em Clermont. Ou, mais exatamente, propde 4 assembiéia de profes: sores a criagdio de uma catedra que em seguida sera confiada a Foucault. Pois as eleigdes no Collége de France se desenvolvem em duas etapas: a votagio para unta cadeira sem mencionar o nome do titular, ainda que seja apenas Ficgo; cu designagao da pessoa que vai ocupar a catedra. 198 Em 30 de nevembro de 1969 os professores se retinem para decidir a cria- go de duas cadeitas: de Sociologia de filosofia, Para esta Gltima ha trés con- correntes. Pois dois outros filésofos também disputam a sucessdo de Jean Hyp- polite: Paul Ricoeur e Yvon Belaval. Michel Foucault elaborou um memorial apresentando seus titulos e trabalhos, esbogando as linhas gerais de seu pro- grama e justificando o titule eseolhido para a cdtedra que deseja ocupar: “His- téria dos sistemas de pensamento’’, Esse memorial de umas dez paginas é diri- gido a todos os professores do Collage. Primeiro Foucault declina sua identi- dade académica: estudos, diplomas, fungées desempenhadas, Depois fornece a lista de suas publicagdes: livros, artigos, preficios, tradugdes. Em seguida re- sume suas pesquisas anteriores, desde Histoire de la folie até Archéologie du savoir. Assim apresenta a légica de sua pesquisa nesse documento de excepcional interesse ¢ que merece ser citado longamente, pois, editado em tiragem limitada en&o comercial, € de dificil acesso hoje em dia Na Histoire dela folie d lage classique quis determinar 0 que se podia saber sobre ‘adoenga mental em dada época, Tal saber evidentemente se manifesta nas teorias médicas que nomeiam e classificam os diferentes tipos patolégicos ¢ procuram explic’-los; encontramo-la também nos fendmenos de opinido — nesse velhe mede que os loucos provocam ne jogo das credulidades que o rodeiam, na maneira como sio representados ne teatro ou na literatura. C4 cL andlises feitas por outros historiadores podiam me servir de guia. Mas uma dimensdo me pareceu inexplo- Tada: era preciso pesquisar como os loucos eram reconhecidos, separados, exctui- dos da sociedade, internades ¢ tratados; que instituigdes estavam destinadas a acolhé-los ¢ manté-los, as vezes a cuidar deles: que instineias devidiam sobre sua Joucura © segundo que critérios; que métodos eram utilizados para reprimiclos, punislos ou curé-los; em suma, em que rede de instiluigdes © de praticas 0 louco 3¢ encontrava 20 mesmo tempo preso ¢ definido, Ora, analisando-se seu funcio- jamenlo © suas justificativas na época, essa rede parece muito coerente © bem ajustada: todo um saber praciso-e articulado se encontra engajado nela, Entae se delineou para mim. um objeto: o saber investido nos sistemas complexes de insti- tuigdes. E um método se impunha: go invés de consultar apenas a biblioteca de livros cientificos, como em geral se faz, consinks visitar uma série de arquivos compreendendo decretos, regulamentos, registros de hospitais ou de prises, atos de jurispradéncia. Foi no Arsenal ou nos Archives Nationales que realizei a andlise de um saber cuja corpo visivel nao € o discurso teérico ou cientifico, mem a lite- ratura, mas uma pratica cotidiana ¢ regulamentada, © exemple da loucura me pareceu todavia insuficlentemente tépico: nos sécu- los XVI © XVIII a psicopatologia ainda é rudimentar demais para que se possa distingui-la de um simples jogo de opinibes tradicionais; pareceu-me que por oca- sido de seu surgimento a medicina clinica colocava o problema em termos mais Figorosos; no eomeco do século XIX ela esta ligada a eiéneias constituidas ou em 199 processo de constituiglo, como « biologia, a fistologia ou a anatomia patoldgica; mas por outro lado esth liguda a uma série de instituigdes como os hospitais, 08 estabelecimentos de assist@nela, as elinicas-eseola; a préticas tarnbém, como 08 inquétitos administrativos. Eu me perguntei de que maneira, entre esses dois pontos, um saber podia ter nascida, se transformado ¢ se desenvolvido propondo & teorla cientifica novos campos de observagao, problemas inéditos, objets até en- (Wo despereebidlos; mas como, em troca, conhecimentos cientiticns foram impos tados, adguiriram valor de preserigoe de normas éticas. O exercicio da medicina rita a compor, numa mistura instavel, uma ciéncia rigorosa € uma tra- 1 equilibrio nto se Ii digo incerta; ela é consimuida como um sistema de saber que tent 5 © sua coeréneia propria. odetiamos, pois, admitir campos de saber que nfo: se identificariam com ciéncias ¢ no entanto nao seriam simples habitos mentais. Procurei entio em Les mots et Tes choses ina exper projeto de yoltar a isso um dia, (odo o lado pratico ¢ institucional, considerar numa época dada vérios desses saberes (as classificaghes naturais, a gramatica geral ¢ a andlise das riquezas nos séculos XVII ¢ XVIII) e examiné-los alterna- damente para definir o tipo de problemas que colocam, conceitos que manusea- tam, teorias que (estaram, Nao s6 se podia definir a “arqueologia"’ interna, de ‘um desses campos. tomados tim por um, como se percebiam, de um a outra ncia inversa: neutralizar, mas sem abandonar o cada identidades, anatogias, conjuntes de diferengas que exiginm deserigfo. Aparecia uma configuracao global; esiava longe de caracterizar 0 espirito cldssico em geral, claro, mas organizava de forma coerente toda ura regiao do conhecimente empi- rico. Eu estava, portanto, em presenga de dois grupos de resultados muito diver- sos: de um lado, havia constatado 2 existéncis especifica ¢ relativamente autd- dos “saberes investides"; do outro, notara relagdes sistemAticas na arqui- nom tetura propria a cada um deles, Tornava-se necessirio um ajuste, Esbocei-o em Arehéologie eu savo mhecer a existé saber ganha corpo nia sé nos textos tedrieas ou Hos instramentos de experi mas em toda uma série de praticas ¢ de instituigdes; todavia nao ¢ seu resultado puro ¢ simples, sua expressde meio consciente; na verdade comporta regras que Ihe pertenvem exelusivamente, caraeterizando assim sua existncia, seu funciona: entre a opiniao e o conhecimento cientifieo pode-se eco: de um nivel particular, que se propie chamar o do saber. Esse mento esua historia; algumas dessas cegras so peculiares a um s campo, outras Jo comuns a varios; pode ocorrer que owlras scjam gerais para uma época: o desenvolvimento desse saber ¢ suas transfor magdes poem em jogo relagdes comple xas de causalidade Depois de apresentar seus “trabalhos anteriores" Foucault expde seu “projeto de ensino”, Um ensine que sera submetidea dois imperativs: Nunca perder de vista a refertucia de um exemplo conereto que possa servir de po de ex deparei ou que terei oportunidade de encontrar? ncia para a andlise; elaborar os problemas teéricns com que me 200 © exemplo concreto que deve ocupé-lo “durante algum tempo" € 0 do “saber da hereditariedade"’." E os problemas teéricos sero os seguintes: “Pro- curar situar esse saber: como delimit-lo e que instrumentos escolher para des- crevé-lo"", Em seguida deverd se interrogar sobre a “elaboragdo desse saber em discurso cientifico", quer dizer, sobre 0 que ¢ ‘a constituig¢ao de uma ciéneia quando se pretende analisé-la nao em termos transcendentais, mas em termos de histéria’’ E a terceira abordagem tebrica refere-se & causalidade na ordem do saber: determinar coma — através de que canais e de que codigos — o saber registra, nfo sem escolha nem modifica que até entao Ihe eram exteriores, como sé torna teceptivo a processos que the eram estranhes...° . 08 fendmenas Foucault assim conclui sua apresentagdo: "Entre as ci€ncias ja constitui- das (cuja histéria muitas vezes se fez) ¢ 0s fendmenos de opiniio (que os histo- riadores sabem tratar) seria preciso empreender a histéria dos sistemas de pen- samento”, O que levaré também, mais genericamente, a “reintegrar 0 conheci- mento, suas condigdes € a situagao do sujeito que conhece".” Foucault nao se- guira o programa apresentado, Pois outro problema “‘conereto” a ocupara a partir de 1971: a pris&o, ¢ nao a hereditariedade. Problema bem "conereto”, de fato, pois nfo se trata sé dos arquivos, mas também das agées politicas que ele vai empreender em ligagio direta com os movimentos sociais que hao de revirar © sistema penitenciario. Mas no mamento isso nao importa. Q relatério é redigido, impresso, enca- minhado a todos os professores. Cabe a Jules Vuillemin pleitear a criagao da citedra perante os professores reunides. Para preparar o discurso que vai pro- nunciar, varias noites seguidas cle recebe Foucault no pequeno apartamento onde mora no Marais, Os dois discutem aspectos que convém evidenciar, E como Vuillemin tem a preocupagao de apresentar um relatorio bem claro © compreensivel aos colegas de todas as disciplinas, pede a Foucault que explicite varios pontos a seu yer mal definidos, Tudo corre as mil maravilhas até que chega © momento de esclarecer a nogio de “enunciados” tal como € proposta em Archéologie du savoir. EntSo 0 candidato ¢ seu “apresentador™ esbarram em sérias dificuldades. Foucault explica e torna a explicar 0 que quis dizer, e Vuillemin continua achando a nogio obscura, Foucault se irrita e vai embora, batendo a porta ¢ acusando Vuillemin de mi-fé, Torna-se necessaria “uma ceri- ménia de reconciliagéo” para os dois retomarem o trabalho e Vuillemin con- cluir seu relatirio, Sete paginas datilografadas com espaco minimo: o relatério de Jules Vuil- Jemin impressiona pelo rigor e pela eficiéncia. Apresenta uma visio sintética do pensamento de Foucault, indica seus tempos fortes ¢ sua evolugio, Termina com esta definigde da tentativa foucaultiana, tal eomo pode se apresentar apés 201 Les mots et les choses e Archéologie du savoir, mas sem nomear o autor nem os livros, pois se trata apenas de definir os prineipios gerais de uma cétedra a riaday ser A historia dos sistemas de pensamento nao é, portanto, a historia do homem ou dos homens que os pensam. Afinal, é porque se mantém nos termos dessa viltima alternative que o conflite entre materialismo ¢ espiritualismo opd 03, ol Seja, divididos com relago & mesma questo: como sujeite dos pensar mentos escolhem-se individuos ou geupos, mas sempre se escathem sujeitos. Quem tontado @ duvidar que releia esta palavra de Marx, cilada com freqliéncia, dis- linguindo 9 arquiteto da abelha, por mais limitado que seja, pois ele constréi a casa primeiro na cabeya. © abandone de duslismo ¢ a constituigio de uma epis- temologia no cartesiana exigem mais, come venios: eliminar o sujeito conser- vando os pensamentose tentar construir uma histéria sem natureza humana * ‘maos inimi: A assembléia dos professores se abre nesse domingo, 30 de novembro de 1969, as catorze horas e trinta minutos. Duas outras cdtedras so propostas além daquela de Foucault: uma de filosofia da agao, defendida por Pierre Cour- velle, professor de literatura latina, ¢ destinada a Paul Ricoeur; ¢ uma de his- t6ria do pensamento racional, sustentada por Alfred Fessard, professer de neu- rofisiologia, e destinada a Yvon Belaval, Este tltime conta com o apoio ative de um professor aposentado- que se deslocow para a ocasiao: Martial Gueroult, que io se conforma em ver Foucault entrar no Callége, embora seja seu amiga Vuillemin que o apadrinhe, Os trés “apresentadores” falam um apés outro: por sorteio a palavra cabe primeiro a Pierre Courcelle, depois a Jules Vuillemin ¢ enfim a Alfred Fessard. E chega-se ao escrutinio, Séo 46 votantes. No primeira turno o resultade 6 0 seguinte: — por uma cétedra de filosofia da ago: 11 votos — por uma cfitedra de histéria dos sistemas de pensamento: 21 votos — per uma cAtedra de histéria do pensamento racional: 10 votos — votos braneos mareados com uma cruz (indicando recusa explicita dos candidatos apresentados): 4 A maioria exigida é de 24 votos (maioria absoluta mais um), e deve-se proceder a um segundo turno, Os resultados so os seguintes: — filosofia da agao: 10 — histéria dos sistemas de pensamento: 25 — histéria do pensamento racional: 9 — yotos brancos marcades com uma cruz: 2 Vuillemin ganhou, Foucault é cleito. Tem 43 anos, Havia imaginado sua rreita como uma eterna viagem de um cargo a outro, uma andanca de wma cidade a outra, e agora esta ligado, em pleno coragao de Paris, a0 mais glorioso lemplo do saber, 202 A assembiéia dos professores resta apenas designi-lo oficialmente como titular da efitedra assim eriada, Em 12 de abril de 1970 ree s€ novo eseru- tinio, Vuillemin yolta a apresentar um longo relatério, analisando cada livro de Foueault e expondo as linhas gerais do ensinamento que ele pretende dar, reto- mando as indicagdes do proprio Foucault sob a rubrica Titwlos e trabathos.* Segue-se a votagio: slio 39 votantes. Foucault obtém 24 votos e ha quinze votos em branco, marcados por uma eruz, o que significa a hostilidade irredutivel de uma forte minoria, Ainda falta o Collége solicitar a aprovac&o de uma das aca- demias que constiem o Institut de France antes de submeter sua escolha & decisio do ministre. Cabe 4 Académie des Sciences Morales et Politiques dar seu parecer sobre essa eleigdo. Parecer puramente consultivo, como reza a tra- digo, pois o ministro sempre acata a escolha dos professores do Collége, Feliz- mente para Foucault. Pois dos 31 votantes manifestam-se 27, mas ele nfo ob- tém nenhum vote; 22 trazem uma cruz ¢ cineo estio em brance. Num telaté- tio dirigido ao ministério Pierre Clarac, seeretaria perpétuo da Académie des Sciences Morales et Politiques, justifica nos seguintes termos a estranha vota- sao: “A Académie constatou a presenca de quinze votos em brance mareados por uma cruz, ou seja, mais de um tergo des votantes (na segunda votagio do Collége) ... Nessas condigdes, decidiu nfo apresentar nenhum candidato para a catedra’, Naturalmente o ministro resolve nomear Michel Foucault aapesar dessa recusa. E assim, em 2 de dezembro de 1970, diante de uma platéia muito presti- giosa, diante dos professores do Collége de France e de numerosas personali- dades do munde cultural ¢ universitirio, mas também diante de uma multidao de jovens admiradores anénimes, Michel Foucault toma a palavra com essa voz surda ¢ contida que deixa o auditério estupelato. Pouco depois publica essa aula inaugural sob um titulo que se tornou célebre, L’ordre du discours (A ordem do discurso), reinsetindo os trechos que precisow omitir para nao ultra: Passar o tempo determinado. O tema desse discurso é o proprio diseurso, @ huma espécie de referéncia irnica A situagto Foucault se poe a evocar a medo de falar, a inquietude diante do comego e a instituig¢Zo que ali esta para tran- qiilizar, para tornar “os comegos solenes"’ e apaziguar os temores do orador. E pergunta; “Mas que ha de tao perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos se sucederem indefinidamente? Onde esta 0 perigo?".\ E.propde uma resposta: Eis a hipétese que quero apresentar esta noite: suponho que em toda sociedade a pradugao do discurso ¢ ao mesmo tempo cantroluda, selecionada, organi: redistribuida por determinado ntimeco de procedimentos que t8m por fungao con- jurar-Ihe os poderes e perigos, controler seu acontecimento aleatdrio, afastar sua pesada, temivel materialidad lane 203 Silo todos esses dispositivos de controle e dominio dos discursos que Foucault passa em revista na aula inaugural, E nfo se trata de histria, ou de nossa propria histéria: ‘Que civilizagao foi aparentemente mais respeitosa do discurso que a nossa? Onde ele foi mais e methar honrada? Onde, parece, foi mais radiealmente liberado de suas restrigdes e universalizado? Ora, sob essa aparente veneragao do discurso, sob essa aparente logofilia, esconde-se, uma espécie de medo. Tudo se passat como se proibigdes, barreiras, limiares e limites fossem dispostas de modo ten ver que sua riqueza se veja despojada da parte mais perigosa e sua desordem seja organizada confarme figuras que evilam ¢ mais incontrolivel: tude se passa como se Se quisesse apagar até as mareas de sua irrupgdo nos jogos do pensamento eda linguagem, Em nossa saciedade, ¢ ereio que em todas, mas segundo um perfil e uma escansao diferentes, hé sem diivida uma profunda logofobia, uma espécie medo surdo.desses acontecimentos, dessa massa de coisas ditas, desse surgi- mento de todos os enunciados, de tudo que pode haver ai de violento. de descon tinuo, de combative, de desordenado © de perigoso. desse grande zumbido inces: sante ¢ desorganizade do discurse.!* c Os sistemas da repressio, erigidos pela sociedade para pacificar esse grande fervilhar do discurso, agrupam-se em trés categorias, segundo Foucault Primeiro os processos externos da exclesio: a proibigao © 0 tabu (nia pedemos dizer tudo), 0 fsolemenro ¢ a rejeip@o (que recusam, por exemplo, a palavra do louco), e par fim a voniade de verdade, “prodigiosa maquina destinada a ex- cluir”, que nao para de se fortalecer ao longo dos séeulos ¢ que no entanto é 0 dispositive da repressao do qual metios se fala. ‘Todos aqueles que ao longo de nossa historia tentaram contornar essa vontade de vordade ¢ requestioni-la, exatamente onde a verdade se propde justificar a proi bigdo e definit a lowcura, todos, de Nietzsche a Artaud ¢ Bataille, devem agora nos servir de signos, altaneisas, sem dilsida, para o trabalho de todos os dias." Segundo grupo des prineipios de limitagao: os que se exercent no interior do discurso, O comentdria, que duplica o texto ou a palavra para amular seu ariter fortuito; a nego de awor, que devolve sua estranha singularidade 4 identidade reeonhevivel do ev ¢ da indfvidnulidade: por fim as disefplinas cen tificas ¢ owtras que classificam o saber e marginalizam tudo que nao conseguem similar, Ultimo grupo: as regras de cfetuagao, que se impdem ao discurso. Rituals de seu uso na sociedade, exigéncias as quais se deve satisfazer antes de ter 0 (ireito e a condigao de falar: Se pense no segredo téenico ou cientifico; que s¢ pense nas formas de circu lugao do diseurso médieo: que se pense naqueles gue se apoderaram do discurso econdmico ou politico. 204 Ou ainda no papel da escola: ‘Todo sistema de educagin ¢ uma forma politica de manter ou modifiear a apro- priagio dos discursas, com os saberes ¢ os poderes que eles levam consigo. Devolver seus plenos poderes 4 desordem? E talvez a mtissio que Foucault se atribuiu na luta que pretende mover contra a rede fechada da opressiio que institui a “ordem do discurso”, E se no desfazer essa ordem, pelo menos ana lisd-la e tornd-la visivel, tirar-The a mascara da evidéncia atras da qual ela se esconde, E como as filosofias, sobretude as que predominazam no pés-guerta, x6 fizeram redobrar e reforgar os jogos da exclusio pela idéia de um sujeite fundador. de uma experiéncia originaria ow ainda de uma meditagio universal, Foucault conclama a uma verdadeira reviravalta dos valores fildsoficos, E para bem conduzir esse trabalho que sera o sea, nesse teatro de seu ensinamento durante os anos seguintes, anuncia um métado duplo, Primeiro 0 procedimento critic, que deve desenredar a trama das proibigdes, das exclusdes ¢ das limita- ges em que o discurso se eneontra encerrado. Em seguida o procedimento ge neaidgico, para reencontrar 0 discurso em seu surgimento, lé& onde ele aparece malgrado ou com os sistemas de opressdes. © programa que Foucault atribui ent&o a sua pesquisa se organiza se- gundo varias diregdes: analisar num primeiro momento um dos elos desses prin- cipios de exelusdo: a vontade de verdade ¢ a vontade de saber. E nesse quadro estudar também oeleito deum discurso cam pretensie cientifica — discurso médica, psiquidtrivo, discurso socioldgice também — sobre esse conjunto de praticas ¢ diseurses pres: critives que o sistema penal constitui. Bo astute dos retatérios psiquidtricos ¢ de seu papel na penalidade que servird de ponto de partida e de material de base para essa andlise Esse seria o aspecto critico. Quanto ao aspecto genealdgico — é dificil estabelecer a distingao —. ele fala dessa andlise do “discurso referente & here- Gitariedade”, j& sugerido em sew memorial de candidato, e das "prolbigdes que atingem o discurso da sexualidade™, estude genealdgico e critica, pois seria diffell e absteato conduzir esse estado som analisar aa mesmo tempo os con- juntos dos discursos lites édicos, juridieas lambéem, que se relerem 4 sexwalidade e nos quais esta se encontra nomeada, des- cerita, metaforizada, explicada, julgada...l" rigs, religiosas, ou éties, Dioldgieas & Foucault termina com o elogio a Jean Hyppolite: “Sei o que hé de tho temivel em tomar a palavra, pois a tomei neste lugar de onde o ouvie onde ele no esta mais para me auvir™. 205 No dia segu! elatéria' em que o tempos de here: Aula inaugural signifiea abertura de um ensinamento: 0 curso que Fou caull dara todas as semanas até 1984 vai se tornar um dos acontecimentos da vida intelectual parisiense. Toda quarta-feira, primeiro no fim da tarde, depois ts nove horas da manha, a fim de inutilmente procurar limitar a afluéncia, Foucault mostra todos os recursos de seu saber, de seu trabalho, de seu talento pedagosico, diante das multiddes sempre numcrosas ¢ ardentes que se apinham hi Sala 8 © nas salas sonorizadas, Em 1975 uma reportagem sobre os grandes professores da universidade francesa diz: Quando Foucault entra na arena, rapido, dindmico, como alguém que s¢ joga na igus, passa por eima de algumas pessoas para chegar a sua cadeira, afasta os gravadores para colocar seus papéis, tira o palet6, acende uma Kimpada ¢ arranca, a com por hora, Vor forte, eficaz, amplificada pelos alto-falantes, tiniea concessio no madernismo de uma sala fracamente iluminada pelas lampadas que se proje: tam de tagas de estuque, Ha trezentos lugares e quinhentas pessoas amontoadas, ocupando @ menor espago livre. Um gato nao se arriscaria por ali, Cometi a imprudéneia de chegar apenas quarenta minates antes do inicia da aula. Resul lado: me déi tudo, Passar quase duas horas sentado nim peitoril de janela ¢ dure. E ainda por cima ¢ sufacante, ... Nenhumt efeito de oratéria. Limpido e terrivel- mente eficax, Sema menor cencessao & improvisago, Foucault tem doze horas por ano para explicar em eurso piiblieo o sentido de sua pesquisa durante 0 ano que acaba de terminar, Entio é coneiso a0 maximo ¢ enche as margens como esses correspendentes que ainda tém muito a dizer quando chegam ao fim da pigina, Decenove e quinze. Foucault para. Qs estudantes correm para sua mesa. NAo para Ihe falar, mas para destigar os gravadores. Sem perguntas. Na eonfusto Foucault esta sozinho, Ao jornalista que o procura depuis dessa aula Foucault confessa: Precisaria discutir o que propus. As vezes, quande « aula nao foi boa, bastaria pouca coisa, uma pergunts, para consertar tudo. Mas essa pergunta sunca vem. Na Franca 0 efeito de grupo torna impessivel qualquer discussio auténtica. E como nao hé canal de retorno o curso se teatraliza. Tenho uma relagao de ator 08 deacrobata com essa gente que est ai. E quando termino de falar, uma sensagao de completa solidao.., Pols 0 Collage de France € uma instituicio muito peculiar: ao pé da letra os professores nfo t@m alunos. Tém ouvintes, aos quais nda conferem diploma, aos quails no examinam e com os quais, por conseguinte, nito tém didlogo, nao tém 206 Din Sia contato, $6 esse estranho eneontro semanal do equilibrista ¢ dos espectadores: que vio aplaudir sua proezs, Esse curso do Colldge sera para Foucault 0 banco de provas das obras publicadas a partir do iniclo dos anos 70. Assim exige a tradigao do College. O professor deve apresentar na aula uma pesquisa, “a ciéncia se fazendo”, se- gundo a formula de Renan. Com a obrigagiio de inovar todos os anos. Assim, Foucault expde o material sobre 0 qual trabalha, formula as hipoteses sobre as quais reflete. [sso se tornar’ Surveitfer et punir ou La volonté de savoir, ou ainda a parte final de sua Histoire de la sexuaiite. De qualquer forma essa atividade magisterial exige um trabalho de preparacéo muito grande. E i105 l- timos anas de sua vida ele muitas vezes falard de sua vontade de acabar com esse fardo que cada vez lhe pesa mais ¢ mais, Todavia per enquanto, nesse 2 de dezembro de 1970, 0 momento é de triunfo, nao ainda de cansago. 3 A LICAO DAS TREVAS O yolume tem um formato bizarro, muito alto. Titulo: Intelérable (Into- lerfvel). Na contra lista das instituigdes sobre as quais se abate seu cutelo: apa lé-se est Sao intolerdiveis: os tribunais, os tiras, os hospitais, os asilos, a escola, a servico militar, awimprensa, a televi 9 Estade, fio, Mas seu verdadeiro alvo € a pristio. Pais esse optisculo de 48 paginas Jangado em maio de 1971 se apresenta como © primeira niimero de uma série que um novo movimento deseja publicar: o Groupe d'information sur les Prison: O movimento nasceu por iniciativa de Michel Foucault, Ele mesmo anun- ciou seu nascimento em 8 de fevereiro de 1971 na capela Saint-Bernard, na gare Montparnasse, “Nenhum de nés esti livre da pristo. Hoje mettos que nunca”, declara nesse dia, Antes de continuar nos seguintes termos: A vigilaneia policial se intensifica sobre nossa vida de cada dia: na rua e nas es tradas; com relagio sos estrangeiros e aos jovens reaparece o delito de opinido; as medidas antidroga multiplicam s arbitrasiedade. Estamossob o signe de guar da A vista’. Dizem-nos que a justica est sobrecarregada, Isso jf sabemos. Mas se fia policia que a sobrecarregou? Dizem-nos que as prisdes esto superpovoadas, Mas se foi a populagdo que foi superencarcerada? Publicam-se poueas informa. 208 ‘gdes sobre ay privdes; vio rewides esconclidas de nosso sistema social, uma das zonas de sombra de nossa vida, ‘Temos 0 direito de saber, Queremos saber. Pi isso formamos com ma Groupe d'information sur les Prisons. Nés nos propomos divulgaro que é4 pr ‘oque acontece na clreere: que vida leva os prisioneizas ¢ o pessoal da vigilainci como sto os prédios, a comida, « higiene; como funcionam o regulamento interno, econtrole médico, as oficinas; como se sai da pristo eo que ¢ ser, em nossa socie- dade, um dos que de Nao encontraremos essas informages nos relatérios offciais, Vamos pedi-las a istrados, advogados, jornalistas, médicos, psicétogos um Jo: quem vai para li, como e por qué; ram. quem, per um motivo au eutro, tem uma experiéncia de pristio ou uma relagko com ela, Pediremos que entrem em eontata conosco © nos comuniquem 0 que sabem, Foi redigido um questiondrio que podem nos solicitar, Assim que se tor- publicades.? narem bastante numeroses, as resultadas se Esse texto leva trés assinaturas: Michel Foucault, Pierre Vidal-Naquet, historiador especialista em Grécia antiga que se tornou conhecido durante a guerra da Argélia por denuneiar as torturas praticadas pelo Exéreito francés, e Jean-Marie Domenach, entio diretor da revista catélica Esprit. O endereco “para eorrespondéncia” do GIP outro nao € sendo 285, rue de Vaugirard, domi cilio de Michel Foucault. 0 qual, alias, redigiu grande parte do texto. E fcil perceber seus pontos de interesse. Como acontece com a loucura, a linha div soria que separa o homem “normal” do homem encarcerado é mais incerta do que se julga e nela cabe instalar um observatorio para revelar como se exereem ‘os necanismos do poder. Entretanto nesse caso 0 ponte de partida de Foucault nao foi de ordem teérica. Sureiu na agdo, na luta do dia-a-dia. Como esse texto fundador do GIP parece distante da aula inaugural no Collége de France, pro- huticlada dois meses antes. As ondas de agitagio que se seguiram a maio de 1968 muitas vezes se traduziram em manifestagoes violentas e provocaram numerosas prisbes € con: denagées de militantes de esquerda. Alguns foram perseguidos por incitar a violéncia, atentar contra a seguranga do Estado ow publicar jornais proibidos, como La Cause du Peuple. Entre os prisioneiros; Alain Geismar, Michel Le Bris, Jean-Pierre Le Dantec. Em setembro de 1970, 29 desses militantes enear- cerados iniciam uma greve de fome para obter um “regime especial” em sua condigao de press politicos. Pois até entao eram considerados prisioneiros de “direito comut” e submetidos as mesmas condigves de detengio que todos os outros. O movimento dura quase um més, porém consegue resultados bem par. ciais: aqueles cuja deteng3o se deve a motivos exclusivamente politicos, ou seja, os militantes que serao julgados pela corte de Seguranga do Estado, beneli- 209 Giainese de certo abrandamento = visitas, livros, jornais, Os outros, os que no arrua irs” — yotou-se contra ‘antiarruaceiros" — continuarao submetidos 1, Mas 0 movimento se interrompe provisoriamente Recomega em janeiro de 1971, apoiado de lado de fora por varias pessoas que fazom greve de fome na capela Saint-Bernard, na gare Montparnasse, ¢ As (uals Se juntam outros grupos na Sorbonne ou em La Halle-aux-Vins, Diversas personalidades levam seu apoio aos grevistas: entre outros, Yves Montand e Simone Signoret, Wladimir Jankéleviteh e Maurice Clavel. Enquanto na Assem- biéia Nacional o deputado da Niévre, Frangois Mitterrand, interpela o ministro vocabullirio corrente sto considerados simples oles uma lei chamada condigao. de direite cor da Justi¢a, René Pleven, denunciando a maneira como sao tratados os militan- tes politicos, “eujos atos, mesme que sejam criticaveis, nao deixam de ser fruto de uma escalha ideoldgica’’. Em 8 de fevereiro René Pleven comega a recuar. Anuncia a criagao de uma comissio encarregada de examinar as medidas de abrandamento exigidas pelos grevistas. O Secours Rouge, organizaciio criada para lular contra a repressao, convoca uma manifestagio para o dia seguinte Imeciatamente a policia proibe a manifestag&o, que sera reprimida com vielén- dezenas de detengdes e numerosos feridos, entre os quais um jovem desfi- gurado por uma bomba lacrimogénea que o atingiu em pleno reste, Ainda no dia 8 de fevereiro tem lugar na capela Saint-Bernard uma entrevista caletiva a imprensa, Georges Kieiman e Henri Leclerc, advogados dos militantes de es. querda, destacam que seus “clientes” foram atendides quanto ao essencial. Em seguida Pierre Halbwachs, parta-voz do Secours Rouge, passa 0 microfone a Michel Foucault, que 1é 0 manifesto do GIP. Na verdade © movimento dos prisioneiros esquerdistas suseitow um ques tionamento mais geral sobre a condigaa penitenciaria, JA em setembro, por veusiio de sua primeira greve de feme, os militantes presos perceberam qu podia ser paradoxal exigirem condigdes especiais; assim; publicaram um comu- nicado “escrito nas prisées da Franga”, datado de 1% de setembro, informando: Reclamamcs o reconhecimento efetivo de nossa contdigho de presos politicos isso ni . Com » reivindicames privilégios com relagto aos outros detentos de direito co- nosso ver eles sio-vitimas de um sistema social que depois de t&-los produ vido se recusa a reechaed-los ¢ se limita a rejeita-los, Muito mais, queremos que hossa luts, denunciando o escandaloso regime atual das prisies, sirva a todos os prisioneiros mun A todas os prisioneiros! Michel Foucault nao fiearia insensivel a tais decla fagdes, que deviam despertar nele a lembranga alucinada das vozes que ouvira através da pocira espessa dos arquivos, através da tela mais espessa ainda dos conevitos psiquidtricos, econdmicos e juridicos, No iundo tudo que lhe interes- sayia nos anos 70 74 fervilhava em Folie er dérafsou, E estranho ver como a obra de Foucault evoluiu, como se transformau radicalmente do inicio des anos 60 210 A década de 70 ¢ depois nos anos 80, Como seu yocabulirio e as temiticas mu- daram, Mas também como tudo que acontece de novo, tudo que se inventa em seu trabalho, a pesquisa e a ag’lo, como tudo isso parece nascer de uma neces- sidade interior, Basta ler os Résumés des cours du Collége de France (Resumos dos cursos do Collége de France)," redigidos por Foucault ao final de cada ano © recentemente reunidos num volume: os temas se encadeiam uns aos outros & numa visto retrospectiva eada remanejamento parece set chamado pelo ante- rior ¢ prenunciar o seguinte. As rupturas — ccorreram —, as dificuldades — nao faltaram —, os artependimentos — tiveram seu papel —, tudo conspira para no final dar a impresstio de uma coeréncia organizadora, Pouco tempo depois de sew texto inicial 0 GIP inicia @ pesquisa anun- ciada, Distridui questiondrios a familias de detenitos que fazem fila diante das prisdes no hordrio das visitas. Michel Foucault procura esse contato direto, no qual recolhe depoimentos ¢ relatos sabre as condigdes de vida dos presos © seu passado. Ele se apaixona por esses fragmentos de histaria individual, por essas trajetérias patéticas, per toda essa vida, de uma realidade brutal, que descobre 4 margem da sociedade, Acompanha o questiondrio um pequeno comentario denuneiando a situagao das prisdes: "'Os detentos so tratados como cachorro. Os poueos direitos que tém nao so respeitadas. Queremos revelar esse escan- dalo”’. E para tanto s6 hd uma solugio: conduzir a pesquisa e recolher os depoi- mentos. “Para nos ajudar a colher essas informagies basta preencher com os detentos ou ex-detentos questiondrio anexo", © primeiro folhete ¢ publicado em maio de 1971 pela editora Champ Libre. Com a lista do que é “‘intoleravel”. j4 eitada, ¢ esta breve proclamacao apresentande os abjetives do moviment © GIP nao se propae faiar en nome dos detentos de diferentes prisdes: ao con- trario, propde-se dar a eles a possibilidade de falar sobre » que acomtece nas pri- ses. O objetivo do GIP nfo é reformista, nfo sonhamos com uma prisio ideal: desejainias que os prisioneiros possam dizer © que & intoleravel no sistema de re+ pressio penal. Devemos difundir o mais rapide possivel eo mais amplamente possivel essas revelages feitus pelos proprios prisioneiros, 6 o tinico moda de uni- ficar 0 combate politico eo combate judicidrin numa mesme luta interna ¢ externa A pristo, A introdugiio do folheto explicita mais detalhadamente os objetives do GIP: Os tribunais, as pristes, os hospitais, os hospitals psiquidtricas, 4 medicina do trabalho, as universidades, os Orgios cle imprensa ¢ de informagdo: através de todas essas instituigdes e sob diferentes mascaras se exprime uma epressiio que no fundo é politica. A classe explorada sempre soube reconhecer essa opressiio; nunca 2H deixou de resistir a ela; mas foi obrigada a suporté-la, Ora, els que éla se torna das sociais — intelectuais, téenicos, juristas, jornalistas, Os encarregados de distribuir justiga, sadide, saber, informagio comegam a sentir no que fazem a opressdio de um pacer politic de encontro a batalhas ¢ lutas h4 muito tempo travadas pelo proletariado. E essas duas intolerancias juntas re criado no século XIX: em primeiro lugar as pesquisas feitas pelos praprios operd- rios sobre a condi¢8o operérla. Assim se situam as pesquisas dntalerdneia que hoje realizames. 1) Estas pesquisas nfo se destinam a melhorar, abrandar, tornar mais supor- Jivel um sistema opressivo. expressa sob outro nome — 0 da justiga, da técnica, do saber, da objetividade. Cada uma delas deve, portanto, ser um ato politico. 2) Elas visam alvos precisos, instituipdes que tém nome ¢ endereo, adminis- tradores, responsaveis, dirigentes — que fazem vitimas ¢ suseitam revoltas, mesmo entre os que so encarregados de manté-las. Cada uma, portanto, deve ser o pri- meiro opisédio dé uma lata. 3) Elis reagrupam em torno desses alvos camadas diversas que a classe gente mamteve separadas pele jogo das hierarquias sociais ¢ dos interesses econ’- micos divergentes. Cabe-lhes derrubar essas barreiras indispenséveis ao poder reu- nindo detentos, advogacos ¢ magistrados. Ou ainda médicos, doentes © pessoal hospitatar. Ca ponto estratégico importante, 4} Estas pesquisas foram Eeitas nfo de fora por um grupo de téenicos; aqui os pesquisadores sig os proprics pesquisados. Cabe a eles tomar a palayra, d 0, diver o que ¢ intolerdvel ¢ intoleravel a novas car ). Essa nova intolerancia vem contram os instramentos que © proletariado havia Destinam- @ @ atacar o ponto em que tal sistema se uma deve constitair uma frente, e uma frente de ataque, em cada rubar are sc deve mais tolerar, Cabe a eles em: preender a luta que impediré o cxereicio da opressiy,! Segueni-se os resultados da pesquisa realizada junto a detentos de vinte prises. E dentre as propostas coneretas desiaea-se a de langar uma campanha para “abolir a ficha de antecedentes”. No total sio quatro folhetos. © segundo também é publicado pela Champ Libre. Trata-se de uma pesquisa sobre uma “prisio modelo": a de Fleury-Mé- Togis. Os dois outros sio publicados pela Gallimard, O terceiro refere-se aa assassinato de George Jackson" em 21 de agosto de 1971 na prisio de Saint- Quentin, Estados Unidos. O quarto e Gitmo folheto sai em janeiro de 1973 ¢ dedicado aos suicidios de presos durante o ano de 1972: Michel Foucault ¢ seus amigos pretendem mostrar gue a0 sobressalto desesperado das agdes coletivas sucedeu-se a recusa individual na forma mais dramética. Numerosos easos siio Mmencionados, porém as paginas mais marcantes so certamente as cartas eseri- las pouco antes de scu suicidio, no outono de 1972, por um jovem designado sob as iniciais H. M. Ele tinha 32 anos e passou quinze na prisio, Foi isolado — posto na “solitéria' — por causa de sua homossexualidade e se enforcou, Sur- preendentes ¢ perturbadoras, suas cartas, esctilas sob o efeito de soniferas, si 212 apresentadas por um breve comentirio sem assinatura, como parece ser a regra desses folhetos que pretendem ser obra de um grupo. Mas o texto foi redigido por Foucault, fascinado por essa correspondéncia que considera “exemplar, porque através das qualidades de alma ¢ de pensamento diz exatamente o que um prisioneiro pensa, E nao € 0 que em geral se julga’’, Foucault continua: “A propria prisio tem ainda uma prisio mais secreta, mais grotesca, mais dura; a solitéria, na qual a ‘reforma’ Pleven evita tocar”. E pouco adiante: O que esti em causa no é apenas um sistema social em geral com suas exclusdes © suas condenagdes, mas 0 conjunto das provocagdes deliberadas e personificadas pelas quais esse sistema funciona, garante sua ordem, pelas quais cle fabrica seus exeluidos e seus condenados, segundo uma politica que é aquela do poder da palt- cia e da administracao. Determina do ntimero de pessoas séo direta ¢ pessoalmente responsiveis pela morte desse derento.® Foucault insiste num tema que se tornard o centro dé sua reflexdo sobre 0 sistema penal: mostra como a prisio fabrica a delingtigncia e se institui como destino para aqueles que uma ver estiveram atras das grades Por um sistema muito precise de policia, ficha de antecedentes, controle, que thes barra qualquer possibilidade de eseapar s conseqiiéncias de uma primeira conde: naglo, gente jovem é levada a voltar para a pristo logo depois de sair dali itando essas linhas em seu estudo sobre Foucault ev fa prison (Foucault e a 0), Michelle Perrot pode escrevet 30 Fabricagao da delingiiente, gestae dos iegalismes: reconhecemos alguns temas de Surveitler et punir, Avaliamos assim de que experiéncia direta e concreta esse livro se nutre. Grande lixro sobre o noturne das soviedades, ele se alimenta com a ligt das trevas.” Michel Foucault se dedica de corpo e alma ao GIP no comego dos anos 70. Realmente ¢ seu movimento. Seu e de Daniel Defert. Varios colegas de Vin- cennes se juntam a eles, de modo bastante informal, pois nao se trata de um partido e ndo ha adesdo nem carteirinha: Jean-Claude Passeron, Jean Gattegno, Robert Castell, Gilles Deleuze, Jacques Ranciére ¢ sua esposa Daitidle, Jacques Donzelot. Pouco depois, Claude Mauriac, 0 mais inesperado nessa histéria, porém nde o menos importante. Claude Mauriac é filho de Frangois Mauriac, foi seczetirio particular do general De Gaulle logo depois da guerra, Em 1971, quando Foucault ja estd bem engajade no movimento de extrema esquerda, Claude Mauriac jornalista de Le Figaro, Nada parece prenwiciar seu “eneontre”, no sentido pleno do terme, que 6 escritor relata em seu diario antes de mencionar, em centenas de pagitias, as conseqiléncias que teve em sua vida. Le zemps immobile é a cronica de um: amizade e ao mesmo tempo 0 relato do dia-a-dia das atividades militantes de 213 um punhado de intelectuais nos unos 70.’ Tudo comegou por um incidente como os que ocorriam com freqiéneia durante as manifestagdes: em 29 de maio de 197) Alain Jaubert, jornalista de Le Nouvel Observateur, & brutalmente espaneado numa viatura policial ao tentar acompanhar até 0 hospital um ma- nifestante ferido, Em seguida ¢ acusado de rebelido violéncia contra agen- tes da forga ‘piiblica, Como é jornalista, © caso provoca sensagao. Michel Foucault, Gilles Deleuze, 0 advogado Denis Langlois, o dr. Timsitt e alguns jornalistas se retinem para realizar uma ‘“contra-investigago"' e restabelecer a 4 coletiva 4 imprensa, Claude Mauriac compareee, representando Le Figaro ¢ suscitando muitos comentiries. Michel Foucault the telefona: nao quer se juntar a nossa comlissdo de inquérito? Claude Mauriac aceita, Ele relata a diseussio que tem com Foucault, dias depois, num da Goutte d'Or, o bairro arabe de Paris: verdade, Dio uma primeira entre cal Se alguém tivesse me mostrado esse café oito dias antes e me dissesse que hoje eu seria visto ali sentado com Michel Foucault e discutindo com ele, eu no teria acreditado, B ele (Foucault} responce: Desculpe ter atraido voc® para essa arma- dia.” Armaditha que reteria Claude Mauriac durante anos eda qual ele guarda hoje uma lembranga emocionada. O caso Jaubert tem outras conseqiiéncias além dessa retagao pessoal sur- gida entre dois homens que nada predispunha a se conhecesem algum dia. A exigéncia da verdade, a vontade de reunir as informagdes e difundi-las nova- mente, a dificuldade de encontrar espago nas grandes agéncias de noticias e nos jotnais estio na origem da criagao da APL, Agence de Presse Libération, orga- nizada por Maurice Clavel e que desempenharé papel fundamental no lanea- Inento do didtio Libéraiion. Com freqiiéneia as reunides do GIP tém lugar no apartamento de Héléne Cixous, perto de pare Montsouris, Ela se lembra de suas discussbes, “inteira- mente yoltadas pata a agio"': “Foucault era realmente muito pragmitico, vi- siya sempre A eficdcia"’, Todos o reconheciam como © “‘chefe" desse pequeno grupo. E Jean-Marie Dosnenach ressalta sua inorivel energia, sua permanente ponibilidade: Nio sei como cle conseguia orgenizartudo: fe se ocupa lavia contatos, dava mil telefonemas, ade tudo, junto com Da. nicl Defert; despachava a correspondéncia, estava sempre presente quando-era preciso E com freqit@ncia era preciso, pois nao faltavam ocasides de agir: uma série de revolias ocorre em novembro de 1971 nas prisdes francesas. A situagae logo se lorna explosiva ¢ desemboca em violentes incidentes que agitam a central Ney, em Toul, nos dias $ e 13 de dezembro de 1971. A policia ataca. Uns quinze detentos sao feridos. Michel Foucault e o GIP se mobilizam para denunciar 2t4 a repressiio ¢ também, claro, as condigdes carcerdrias que estito na origem da revolta, Organizase na cidade um “comité Verdade-Justiga’, encarregado de promover reunides de informag&io. As sessbes as yezes so conturbadas: quando os guardas das prises se fazem ouvir. Foucault da varias entrevistas coletivas & imprensa. A primeira tem lugar em 16 de dezembro, dois dias depois de 0 ministro nomear uma eomissio de inquérito para apurar os fatos, suas causes os possiveis remédios. A polémica recrudesce com o relatério que a médica psiquiatra da pristo, dra. Edith Rose, dirige ao ministro da Justiga ¢ ao presi- dente da Republica. Um texto deprimente. que descreve com detalhes as condi- gdes de vida dos detentos, a maneira como sto tratadas quando adoecem, ete, Aterrador, A leitura desse documento na reunide de Toul causa sensagao. Al- guns dias depois Foucault apresenta alguns trechos em Le Nouvel Observateur: Nos simples fatos que ela expe o que se esconde — ou melhor, @ que salta aos oles? A desonestidade de um! As inregularidades de outro? Muito poueo, violencia das relagdes do poder. Ora, a sociedade cautelosa ordens desviar os othos fa de todos os acontecimentos que traem as verdadeiras relagdes de poder. A admi- nistragio s6 fala através de quadros estatisticos e eurvas: os sindicatos em termos de condigdes de trabatho, orgamento, verbas de recrutamento, Cae la se quer stacar o mal s6 onde ninguém © vé nem @ sente — longe do fato, longe das forgas que se defrontam e do ato de dominagao. Ora, a psiquiatra de Toul falou. Ela virou o jogo ¢ rompeu a grande tabu. Ela, que estava dentro de um sistema de poder, ao invés de criticar seu funcionamento, denunciou o que acabava de acon- tecer ali em tal dia e tal lugar ¢ em tais circunstancias ....O- discurso de Toul sera, talvez, um acontecimento importante na historia da instituigdo penitencidria psiquiatrica.” 1S de janciro de 1972 Foucault novamente toma a palavra: depois de apre- sentar 05 resultados da pesquisa realizada pelo GIP junto aos detentos, insiste na “necessidade de manter a opinigo piblica informada sobre @ que se passa nas prisdes"' e “‘desafia monsieur Pleven a dizer a verdade”. Na mesma reunigio é lida uma mensagem de Sartre que vé na revolta de Toul “o eomego da uta contra o regime repressive qué nos mantém a todos um universo de campo de concentracao”". Outros tumultos explodem et Lille, Nimes, Fleury-Mérogis, Nancy, O ministro da Justiga René Pleven denuncia a agao do GIP e dos grupos esquer distas: Esté claro que alguns elementos subversivas atualmente se empenham em usar os detentos, que se arriscam a sofrer as conseq(léneias, para provocar ow alimentar uma agitde%o perigosa em diversos estabelecimentos penitencidirios ars Enquanto 6 jornal comunista La Marsellaise de UEssone pede as wutoridades que ponham termo a atuagio desse “sindicato de crépulas", Mas o GIP con- tinua ativo: para protestar contra a violenta intervengilo das forgas da ordem na prisio Charles II de Nancy, decide organizar uma entrevista coletiva & im- prensa no Ministério da Justign. E em 18 de janeiro de 1972, diante do hotel inental, na rue de Castiglione, encontram-se Claude Mauriac, Jean- Paul Sartre acompanhado de Michelle Vian, Gilles e Fanny Deleuze, Michel Foucault, Daniel Defert e dezenas de outras pessoas. O grupo se dirige para a place Vendéme ¢ entra no sagudo do ministério, Uma barreira os impede de ir wlém. Michel Foucault entio 1é um relatério redigido por detentos da pristo de Melun. Quando os manifestantes se poem a gritar “Pleven, demiss&o” e “Ple- ven, assassino’’, os CRS entram em agate ¢, segundo o depoimento de Claude Mauriac, "sem a menor cerim6nia empurram para fora todos esses brilhantes intelectuais que, do lado de fora, vejo resistindo & pressiio — Foucault a frente, vermelho, os mtisculos tensos com o esforgo".! Varias pessoas sto detidas, entre elas Alain Jaubert e Marianne Merleau-Ponty. Sartre e Foucault tentam interferir. Initil. Claude Maurice se identifica, declara que trabatha em Le Fi- garo obtém maior sucesso, Ele promete que o grupo se dispersard to logo os dois manifestantes sejam liberados, O que acontece, A entrevista coletiva se transfere entao para as dependéneias da APL, onde Foucault relé o texto de Melun ¢ fala dos confrontos em Naney. Trés dias depois o GIP convoca uma manifestagae no boulevard de Sébastopol e retine mais de mil pessoas, Outras agdes menos espetaculares foram organizadas pelo GIP, Concen- tragdes diante das prisdes na noite de Natal ou de So Silvestre, com petardos e foguetes, gritos e mensagens transmitidas pelos alto-lalantes para comunicar aos detentos que nao esto segregados do mundo: Foucault participa, por exem- plo, em 31 de dezembro de 1971 em Fresnes. Ou ainda pequenas cenas repre: sentadas diante dos estabelecimentos penitenciarios por atores do ThéAtre du Soleil animado por Ariane Mnouchkine: poucos minutos antes de ser disper- sados pela policia... Pois as cacetadas chovem sobre os militantes do GIP em Paris, Nancy, em toda parte. “Em Nancy fui literalmente espancada pela poli- cla”, conta Héléne Cixous, Michel Foucault e Jean-Marie Domenach nao fogem A regra; em 1? de maia de 1971 sao detidos com mais uma diizia de pessoas, uanto distribuem panfletos pela abolicdo da ficha de antecedentes diante da pristo de la Santé em Paris. Foucault apresenta queixa por “detengao ilegal, atentado As liberdades piblicas, injurias piiblicas ¢ pequenas violéneias com premeditagao”. Agao judicial que termina com um “arquive-se” em favar dos policiais. OGIP nao para de inventar novas formas de agao. Per ocasiiio do julga- mento de seis insurretos de Nancy em junho de 1972 o GIP quer dar publicidade os debates: na Cartoucheric de Vincennes, apas as apresentagdes de 1793 pelo Intercon 26 grupo de Ariane Mnouchkine, os espectadores sto convidados a permanecer na sala para assistir a uma breve reconstituigdo. O texto é copia fiel do proceso. Foucault representa © papel de um policial de guarda ou de um juiz de tribu- nal." A fim de garantir a assisténcia judicidria de que os detentos poderiio precisar ele preconiza também a criagio de uma associagao: vai com Gilles De- leuze & casa da vidva de Paul Eluard, que aceita abrigar ¢ apadrinhar essa Association de Défence des Droits des Détenus, cujo presidente sera 0 escritor Vercors. OGIP obtém consideravel sucesso: comités sio criados em toda a Franca. E se a iniciativa se deve em geral a militantes maoistas, seu alcance ultrapassa em muito os cireulos “esquerdistas”: advogados, médicos, religiosos se engajam nesse movimento que conta informalmente com até 2 ou 3 mil pessoas, Mas esse sucesso seré efémero. Fiel ao principio da criagao do grupa, Foucault’ quer dar a palavra aos detentos e ex-detentes. Bm dezembro de 1972 0 Comité d’Action des Prisonniers publica seu primeiro felheto. Anima o CAP especial- mente Serge Livrozet, que passou varios anos na prisio de Melun e cujo livro- depaimento, De éa prison d la révolie (Da prisio 4 revolta), Foucault prefacia: O livro de Senge Livrozet faz parte desse movimento que ha anos agita as prisdes Nao quero dizer que ele “representa” 0 que os detentos pensam em sua totalidade, nem mesmo emsua maioris, Digo que é um elemento dessa luta; que dela nasceu enela representart um papel. E a expresso individual e forte de determinada experiéncia e de determinada pensamento populares da lei ¢ da ilegatidade, Uma filasolia do powo.!? 0 CAP nao tarda a reivindiear independéncia total com relagao a seus prestigiosos padrinhos, Serge Livrozet replica com veeméncia a uma entrevista sobre a delingiiéncia ¢ 0 ilegalismo que Foucault publica, sem assinatura, no Libération, “Os especialistas da an4lise nos aporrinham”, Livrozet exclama em 19 de fevereiro de 1974; “nao precisa que ninguém tome a palavra para explicar aque eu sou’’,’* Nesse momento o GIP ja desistira, Mas a dindmica sem divida foi rompida. “Eles continuam, mas com que repereussio?"”, perguntam-se, um pouco amargas, Daniel Defert ¢ Jacques Donzelot, referindo-se aos militantes do CAP nun} artigo-balango publicado em 1976." Amargura, sentimento de fracasso foi sem davida 0 que Foucault expe- rimentou ap6s a autodissolugia do GIP. “Michel tinha a impressao de que tudo aguilo nio havia servido para nada”, declara Gilles Deleuze numa entrevista publicada em 1986," Deleuze destaca também a import@ncia que teve para Foucault essa “aventura”, essa “experiéncia” que punha & prova uma concep- a0 nova do engajamento dos intelectuais: uma agdo empreendida em nome nio 217 de valores superiores, mas de urn olhar langado sobre as realidades desperce: bidas, Mostrar o intoleravel e o que numa situagio intolerivel faz com qu soja realmente intoleravel. Entretanto o GIP, acrescenta Deleuze, foi tamt uum modo de "produzir enunciados”, Pois em sua opiniao, e ao contrario do que Foucault podia pensar, 0 GIP foi um sucesso: “Agora ha um tipo de enuneiados sobre « pris&o sustentados naturalmente por prisioneiros, mas as vezes por ntio prisioneiros, ¢ que antes teriam sido informmaliveis”’," Em seu curso no Collége de France Michel Foucault se concentra nas questdes de justica e direito penal. Com um pequeno grupo de pesquisa publica om 1973 um livro sobre Pierre Riviére. jovem assassino julgado e condenado no comego do século XIX por haver matado a mae, a irma e o irmao. “Querfamos estudar a histéria das relagdes entre psiquiatria e justiga penal. E no caminho eneontramos 0 caso Riviére", escreve ele no prefacio.” Michel Foucault decide publicar 0 relato do proprio assassino sobre seus crimes ¢ todo © dossié da ins- trugilo judiciaria, das consultas médieo-legais, da condenagao, do carcere e do suieidio, Ele explica o que lhe chamou a.atchg’o: Documentos como os do caso Rivitre devern permhitir analisar a formagao e 0 jogo de um saber (como o da medicina, da psiquiatria, da psicapatologia) em suas re- lagdes cam instituigdes ¢ os papéis que nelas sho preserilos (como a instituigao judiciaria, com o especialista, o agusado, o Jouco-eriminoso, ete.) Eles permi decifrar as relaghes de poder, de dominagio e de luta no interior das quais se nitem. portanto, uma andlise do dis- estabelecem e funcionam os discursos: p 8 cienlificos) ae mesmo tempo ineidental € politica, por tanto estratégiea. Pa 1 eaptar o poder de perturbagao proprio de um dis curso como a de Pierre Rivigre eo conjumto de Kitieas com as quais se tenta en cobri-lo, inseri-lo-e elassificé-Io coma discurso de um Jougo ou de um criminoso."™ curso (e até dos discur: Como essas linhas se assemelham as da aula inaugural no Collége de France! Com uma diferenga: a anilise se deslocou dos campos discursivos para 9s institucionais, da erdem do discurso para as praticas sociais, Seguem-se ou- tras publicagdes: prefacios, artigos, entrevistas, debates, colquios sobre a jus- tiga, a prisio, Também contra a pena de morte, luta em que Foucault se engaja ativamente. Em 1976, por exemplo, ele se recusa a almogar com Valéry Giscatd staing, que no quis agraciar Christian Ranucei. Umm dos mais belos livros de Foucault, talvez o mais belo, Surveiller et punir, 6 publicado em 1975. Com o subtitulo Naissaace de fa prison (Mase! mento da prisio). Foucault deslocow 0 terreno de sua intervengao. J& nio esta- mos nas portas das prisées. Mas no cenario da pesquisa historica, que ele apde 218 aos hibitos ¢ aos comadismos do pensamento, “Esse livro nasceu do presente, mais que da hist6ria”, declara no infcio do texto. E seu projeto ¢ justamente “fazer a historia do presente’’.”” O que estava em pauta na luta sobre as prises era toda uma tecnologia do poder que se exerce sobre os corpos. O que é a prisio? Como se passa do grito dos suplicios de antanho ao siléncio atual da rechusio? Uma velha heranga dos ealabougos da Idade Média? Antes uma teenolo, ‘© aprimoramenta, do século XVI ao XIX, de toda uma série de procedimentos para enquadrar, controlar, medir, formar os individuos, torné-Ios ao mesmo tem- po ''déceis e titel jos, manobras, anotagdes, fileiras elugares, classificagdes, exames, registros, toda uma forma de sujeitar os corpos, dominar as multiplicidades humanas e manipula suas forgas desenvolveu-se ao longo dos séculos clissicos nos hospitais, no Exército, nas escolas, nos colégios ou nas ofi- cinas: # disciplina, © sSculo XVIII sem divide inventou as liberdades; mas Thes deu um subsolo profunde ¢ sélido — sociedade disciplinar da qual sempre de- pendemos. & pristio deve ser recolocada na formag4o dessa sociedade de vigilfincia, - Vigilancia, exerci Foucault se empenha em evidericiar o papel das “ciéncias humanas” nesse process A penalidade moclerna ja hilo ousa dizer que pune etimes; ela pretende readaptar delingllentes. Ha dois séeulos que ela se avizinha as “eigneias bumanas’, E sua arrogineia, sua maneira, em todo caso, de nao se envergonhar muita de si mesma: “Talvez eu nfo seja ainda inteiramente justa; tenham um pouco de paciéneia, vejam como estou me tornando sdbia". Mas como a psicologia, a psiquiatria, a criminalidade poderiam justificer a justica de hoje, pois sua historia mostra uma mesma tecnologia, na base de sua formagio? Sob o conhecimento dos homens sob a humanidade dos castigos encontram-se uma certa investida de diseiplinar os corpos, uma forma mista de sujeipfo ¢ objetivacao, um mesmo “pader-saber Pode-se fazer a genealogia da moral moderna a partir de uma historia politica dos corpos??? ‘Como em Histoire de la folie ou Natssance de la clinique, Foucault deixou de lado os textos canénicos da tradigao filoséfica para ir ‘'vasculhar" a litera tura policial ou os projetos reformadores, Numa entrevista ele explica: ‘Nao é em Hegel nem em Auguste Comte que a burguesia fala de modo direto, Aq lado desses textos sueralizados, uma estratégia absolutamente consciente, organizada, reffetida, se evideneia numa massa de documentos deseonhecidos que constituem o discurso efetivo de uma ago politica.» Surveiller et punir teve consideravel sucesso. Com freqiiéncia sao citadas as pé- ginas sobre o suplicio de Damiens" ea ferocidade das punigdes no século XVIII (8) Robert-Frangois Damiens (1715-57) ferin Luis XV com um canivetey preso, fol subme- Hido a tortarasterriveis ¢ por fim esquartejada. (N. 1.) 29