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O Mediterraneo Antigo

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O mediterrâneo antigo1

Fábio Duarte Joly

Fernand Braudel é um dos historiadores franceses cuja obra exerce grande ressonância no universo acadêmico, seja no campo dos estudos históricos seja nos domínios da sociologia2, áreas em que sua teoria das temporalidades estimula reflexões e debates acerca do modo de se conduzir a análise do passado e também do presente. Essa teoria, bem como a proposta de uma geo-história, Braudel aplicou sobremaneira ao estudo do Mediterrâneo, mar ao qual dedicou toda uma vida e obra para compreendê-lo em suas variações ao longo do tempo, chegando a ponto mesmo de torná-lo um personagem histórico. No entanto, é ainda pouco divulgado que Braudel não se dedicou apenas ao Mediterrâneo do século XVI, legando também aos que admiram sua obra um estudo voltado para esse mar desde a Pré-História até a Antiguidade. O próprio autor, ciente dessa mudança de rumo, adverte os leitores no prefácio a Memórias do Mediterrâneo: “Como talvez seja do conhecimento do leitor, sou um especialista do século XVI mediterrâneo. Por curiosidade, e até mesmo por necessidade, investiguei todo o seu passado, li quase tudo o que de válido encontrei sobre o mar antigo ou moderno. Todavia, a minha pesquisa pessoal só se reporta, de fato, ao período que decorre entre 1450 e 1650”. Fernand Braudel não viveu o suficiente para ver esse livro publicado e citado como parte de sua vasta obra, iniciada com o magistral O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Felipe II, de 1949. Justamente vinte anos após essa publicação é que apareceu a Braudel a oportunidade de escrever uma história antiga do Mediterrâneo. Em 1969 o editor Albert Skira, planejando uma coleção sobre o Mediterrâneo, convidou Braudel a escrever não só acerca dos séculos XVI e XVII, mas também sobre o passado remoto desse mar, das origens até Roma. No entanto, com a morte de Skira em 1973, o projeto da coleção foi abandonado e Braudel, que já se dedicava ao segundo volume

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Publicado em Marco Antonio Lopes. (Org.). Braudel: Tempo e História. Rio de Janeiro: FGV, 2003, pp. 141-150. 2 Cf. Anthony Giddens, A Constituição da Sociedade (São Paulo: Martins Fontes, 1989), que se utiliza de Braudel para discutir as relações espaço-tempo.

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2 . Grécia e Roma. A partir de que momento é possível falar que esse mar cercado por três continentes e por populações heterogêneas tornou-se unificado? Por que determinados povos. 2001). isto é. aliás. não deixa de ser explicitado pelo historiador quando. embora tivessem tido a oportunidade. como os fenícios. não só porque cobre um largo período de tempo. que está incluído na edição portuguesa. Braudel propõe-se a elaborar uma história do mar nos seus aspectos econômicos.de Civilização Material. converter o Mediterrâneo em um Mare nostrum? Essas indagações. embora obviamente não domine plenamente as respectivas documentações arqueológicas e sobretudo literárias. sempre pressupondo o Mediterrâneo como um espaço à mercê de fatores climáticos e geológicos que. não deu mais atenção a seu manuscrito. através do longo e brilhante passado do Mediterrâneo”. Os números de páginas citados no corpo do texto referem-se a essa edição. no prefácio. Braudel mostra-se a par das publicações então recentes sobre o Oriente. com Braudel buscando as estruturas de longa duração que permitem respondê-las. Este veio à luz na França apenas em 1998. Economia e Capitalismo. constituindo até mesmo uma das linhas de força da sua narrativa. não conseguiram realizar o que coube ao “destino” de Roma. são recorrentemente balizadas por comparações com o Mediterrâneo da Época Moderna. adaptando a ortografia nas citações. tudo tem a ver com tudo. do Paleolítico à fundação de Constantinopla. 3 Sirvo-me aqui da tradução portuguesa (Lisboa: Terramar. Mas não é o caso aqui de se deter sobre essas eventuais limitações e nem de cotejar suas conclusões com o estado atual das pesquisas. Interessa-nos. políticos e culturais. afirma que “apesar de. nada se repetir. um procedimento que. mas ainda pelo domínio de uma grande e variada bibliografia. Dentre essas. em última instância.3 Trata-se de uma obra de fôlego. por sua vez. convidar o leitor a conhecer essa obra de Braudel por meio de uma breve apresentação das ideias principais que norteiam sua descrição do Mediterrâneo antigo. muitas das quais naturalmente deveriam ser revistas passados mais de trinta anos de investigações nos campos da Pré-História e da História Antiga. Tendo em vista esse ponto de partida. os etruscos e os gregos. cabe notar que aquela que mais lhe ocupa. As informações acima retirei do preâmbulo do editor francês. seguramente. consequentemente. é a que diz respeito à unidade do Mediterrâneo. quando necessário. com o título de As Memórias do Mediterrâneo (Les Mémoires de la Méditerranée). pelo contrário. às incessantes trocas por vias terrestres e marítimas. impõem limites e oferecem possibilidades à ação humana e.

22-76). ou seja. A planície sente-se e pretende-se superior. no terceiro capítulo. com as suas cidades. Elas encontram-se no polo oposto às terras altas e escarpadas. o palco onde se desdobrarão as atividades humanas. Exclusivamente acessíveis ao homem enquadrado nas sociedades obedientes. apresenta o momento de “nascimento do mar”. 20. Em seguida. bem como os seus tempos préhistóricos. as suas riquezas. gregos e romanos (capítulos sexto a oitavo). 3 . em suas linhas gerais. pp. apenas se torna uma entidade histórica quando começa a ser navegado pelos homens. que foi o início da preponderância da parte ocidental do Mediterrâneo.. 22) 4 Logo.4 A passagem abaixo resume bem esta posição: De um modo geral. do que nas orlas baixas do litoral mediterrânico. utilizáveis tais como eram. cujo primeiro capítulo é dedicado a questões de ordem geográfica. [. de os manter a ambos à distância. 1966. definir-se-á obrigatoriamente como uma maneira de utilizar e conter o montanhês ou o nômade. com as quais dialogam porque a tal são obrigadas.] Qualquer civilização vitoriosa. Inicialmente – nos dois primeiros capítulos – Braudel descreve as características geológicas e o “mecanismo climático” do Mediterrâneo. os seus caminhos abertos.. sacia a fome. quando entram em cena fenícios. e fá-lo com alimentos escolhidos. se possível. La Méditerranée et le Monde Méditerranéen a l’Époque de Philippe II. suas respectivas razões e sua principal consequência. quando a Mesopotâmia e o Egito iniciam seus avanços fluviais e marítimos e esboçam uma primeira unidade do Mediterrâneo. as planícies a corrigir nascem do trabalho ombro a ombro e da sua eficácia. mas não sem temor. Paris: Armand Colin. Braudel inicia o livro da mesma maneira que fizera em O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Felipe II. pobres. mas continua a ser uma presa fácil. etruscos. Braudel inicia seu livro comentando a constituição geográfica do mar. especificamente a oposição entre planícies e montanhas como um dos fatores geográficos que mais diretamente condicionaram a interação humana no Mediterrâneo. o desenvolvimento da vida terá sido mais espontâneo nas terras altas. No capítulos quarto e quinto Braudel se detém no momento de crise desse sistema. 2 ed. e com o risco de simplificar o vivo quadro traçado pelo autor. os seus campos férteis. Inaugura-se assim o quarto momento da formação histórica do mar.Apesar de o Mediterrâneo ser para Braudel uma realidade geográfica. próxima do Mar Interior. livres. como a descrição das características das montanhas e planícies da orla mediterrânea (ver Fernand Braudel. (p. como se apresentam esses momentos. Vejamos então. que com seus barcos realizam trocas comerciais e intercâmbios culturais. de usar da astúcia com cada um deles ou. em um processo que pode ser dividido em quatro momentos.

ainda nesse momento e durante a Idade do Bronze. em que a única coisa que se poderia afirmar é que o homem. além da confecção da cerâmica e tecidos. mas diretamente no mar... limitados geralmente por uma montanha próxima. na orla do “Mar Superior”.5 Em Memórias do Mediterrâneo Braudel retorna com essa questão. 137. pois é o mar longínquo que os faz viver” (p. 1992. p. São Paulo: Editora da Unicamp/Editora Ensaio. é um formidável utensílio para explicar. A História em Migalhas. tudo o que pertence à ordem do observável (elementos climáticos. os setores marítimos filiformes. Ela clarifica e põe problemas sem. uma que toca mal. cit. não deixa de ser crítico quanto a esse ponto: “Ao não utilizar um conceito teórico. contudo. (p. não bastavam. começa a despontar a prática regular da agricultura e da criação de animais pelo homens. 92). como que se antecipando a possíveis críticas. vegetais e animais de um quadro geográfico) e que condiciona a existência humana. Contudo. Fernand Braudel flutua no grau descritivo das diferentes instâncias do real.Este esquema Braudel aponta como válido seja para a Grécia arcaica seja para a Itália sob domínio da Roma republicana e seja até mesmo para a Mesopotâmia (p. solo. no período da revolução neolítica quando. a ênfase de Braudel em uma geo-história decorre de sua preocupação em estabelecer aquilo que denomina de estruturas da história. Como observou François Dosse. ou seja. ao longo da extensão do mar. 4 . aplica um determinismo muitas vezes mecânico a partir das condições naturais (clima. centrada que estava na Mesopotâmia e no Egito: Mesmo antes de ser constituído. no entanto. os grupos sociais só desempenham papel insignificante. Braudel situa esse momento entre o V e III milênios. Mas isso não quer dizer que ele não estivesse ciente de que a geografia não é a única chave de explicação histórica e. o sistema das relações mediterrânicas encontra-se desequilibrado para leste. a Mesopotâmia.”: “O marinheiro do Mediterrâneo teve de ser. dos seus hábitos. 161). Logo. os resolver” (p. dos seus apetites. o Egito.. por acréscimo. ao salientar que “o homem é vítima das forças naturais que o rodeiam como de si mesmo. geomorfologia) ou do estado das técnicas. 142). p. caso não lhe atribuamos um determinismo elementar. formam-se as primeiras aldeias e “o mar se povoa de um número crescente de barcos” (p. o Mediterrâneo inicia sua entrada na História quando os homens lançam-se nele em busca de sua sobrevivência.. que utiliza. a unidade do Mediterrâneo permaneceu precária.. camponês e jardineiro. as classes. a outra. o Mediterrâneo construiu-se a partir das exigências e das possibilidades destas duas enormes personagens. a intermediação ativa dos portos da Síria. Para o resto. Tudo se aplica como causa no seu relato” (op. Com efeito. pois pendia mais para leste do que para oeste. dos seus príncipes. 161). 94) 5 François Dosse. sustenta que “a geografia . Dosse. 67).

99. conhecem mesmo ordens de pagamento. 1998. a Ásia e a África (p. de uma cultura mediterrânica já nesse momento. Braudel apresenta um quadro da vida econômica do Egito e da Mesopotâmia que se contrapõe àquela imagem tradicional que via nas sociedades orientais. tratando o clima como um agente histórico. 146. personalizado por uma categoria social específica. Braudel insiste nos rudimentos de uma unidade cultural. 8 Essa é. os traços distintivos das sociedades orientais. Braudel. decorrência de viagens marítimas.C. 5 . Em sua opinião. Ao longo da Idade do Bronze. para quem era essencial a relação entre capital e mercado de trabalho livre para a definição do capitalismo7. A essa altura é interessante notar que. a posição de Max Weber na segunda edição de sua obra Relações Agrárias na Antiguidade. p. utiliza-o para oferecer uma interpretação 6 7 Ver ainda pp. 31). 122. Sobre essa relação em Marx. apresenta como evidência os monumentos megalíticos que se espraiam nas zonas litorâneas. 96. 109. Sardenha. Storia Economica e Sociale dell’Antichità: I Rapporti Agrari.8 Esse momento da história do Mediterrâneo veio no entanto a sofrer uma grave crise no século XII a. Roma: Editori Riuniti. mas trata-se sobretudo de um capitalismo comercial.Além do Egito e da Mesopotâmia. um obstáculo ao desenvolvimento do capitalismo. cartas de câmbio e pagamentos por compensação – o que prova que os instrumentos do capitalismo surgem naturalmente. da Espanha e da França.. a ilha de Creta é apresentada como um importante entreposto comercial ligando a Europa. 101-102. o capitalismo nasce no Oriente6. Contudo. mesmo afastando-se de Marx. O Negativo do Capital: O Conceito de Crise na Crítica de Marx à Economia Política.: Max Weber.). esse fenômeno cultural é. op. com seu regime centralizado de governo. a dos negociantes vinculados ao comércio marítimo. a despeito dessa situação. provavelmente. Baleares. ital. Para Braudel. por exemplo. Ver também François Dosse. assim que as circunstâncias se apresentam” (p. Mas. Jorge Luís da Silva Grespan. 1992. são o fortalecimento de uma economia palaciana e a formação de um próspero grupo de comerciantes. sobretudo nas ilhas (Malta. cit. Inglaterra. São Paulo: Hucitec. 116). 142). cf. de 1909 (trad. talvez de aventureiros que partiam do Oriente em busca de minas de metal (pp. que “manejam o dinheiro dos pagamentos com desenvoltura. a unidade do Mediterrâneo nesse contexto ainda é imperfeita. Quanto a esse último ponto. pois apenas uma parte do mar é singrada pelos barcos.. por restringir o grau de liberdade de circulação do capital privado. Irlanda etc. o “Mediterrâneo do Levante”. e nas costas do Norte da África. devido ao próprio impulso econômico favorecido pela metalurgia do bronze e das trocas decorrentes. p. pp. ocasionada simultaneamente tanto por deficiências estruturais internas como por fatores de ordem climática. Para tanto. 125).

E acerca deste último elemento Braudel indaga: “Não seria esta última personagem. quando se refere a Cartago. 203).C. da camada mais sofisticada da sociedade de então. mas de uma seca que ocorre todos os anos. 179).. ocasionando uma “primeira unidade dinâmica do Mar Interior”. a posse do Mediterrâneo por Roma (p. sobretudo no tocante ao papel comercial das cidades. não dos homens. vez por outra Braudel utiliza comparações com a história moderna europeia.C. “hititas. que. [. 182). Essas civilizações desabrochantes não teriam talvez mais do que a espessura de uma folha de ouro. por fim. Simultaneamente. o próprio Braudel apressa-se em afirmar que as variações climáticas não explicam tudo e que a crise do século XII também deita raízes na fragilidade da economia comercial do Egito e da Mesopotâmia. a sociedade não-privilegiada revolta-se.C. 183) O resultado geral dessa crise foi que. e a sociedade privilegiada não cumpre o seu dever.. Assim. as ligações à distância também. 174).] As cidades micênicas morrem devido a essa crise prolongada e porque se encontram numa zona particularmente seca” (p. em sua opinião. o Oriente foi lançado a guerras e invasões. provenientes das estepes asiáticas. Entra em cena então o desequilíbrio na distribuição de bens por meio de trocas como um fator de instabilidade entre os povos: Antes de mais. a destruição dos palácios micênicos em torno de 1230 a. deslocando para aí o eixo da história do Mediterrâneo. o desenvolvimento da civilização grega e. escreve: 6 . por exemplo. ou seja. E os Povos do Mar nada mais são do que “uma mistura de povos que a fome atira para as estradas” (p. No entanto. A guerra custa muito caro. A economia palaciana já tinha sofrido uma deterioração lenta e visceral. seguramente. Logo. do século XII até ao VIII a. a mais importante de todas?” (p. servindo as necessidades e as exigências de círculos estreitos. (p. etruscos e gregos.. “um longo período de seca [que] atormenta o Mediterrâneo nos finais do II milênio”.. como a dos citas.C.alternativa a tal crise. trata-se da fragilidade deste primeiro comércio de longo curso que assentava sobre as trocas de produtos de luxo. por fim. alongando desmesuradamente os meses de verão e dizimando as culturas. a invasão do Egito pelos chamados Povos do Mar e suas derrotas em 1225 e 1180 a. muito tempo antes do século XII catastrófico. essa história pautar-se-á por três processos: a colonização do Mediterrâneo ocidental por fenícios. foi constituída por um conjunto de quatro acontecimentos: o fim do Império Hitita por volta do ano 1200 a. micênios e Povos do Mar teriam sido vítimas. A partir do século VIII a. Ora.. Ao narrar esses eventos. e.C. houve uma migração de povos indo-europeus ao Ocidente. colônia fenícia no Norte da África. o clima.

Braudel não deixa de conjeturar que “é tentadora a imagem de uma Siracusa tornando-se. a dispersão das cidades gregas e as suas rivalidades contínuas impossibilitaram um esforço conjunto para dominar o espaço mediterrânico. 272). 275). 235). sempre que possível. vasos de bucchero etruscos e uma grande quantidade de objetos egípcios. devido ao seu “espírito aberto” — e não por acaso o historiador delonga-se em descrever aspectos da ciência grega —. Também os etruscos. um helenismo direto. “ciosas de sua independência” e cujas assembleias anuais são mais “assembleias religiosas” do que “um organismo político” (p. de um Império grego triunfando tanto de Roma como de Cartago. da nossa era. o comércio púnico era dos mais ativos. comprando aqui. transportadores dos mares. sem a mediação e o écran de Roma” (p. nos séculos V e IV a. nem Milão – soube ou pôde construir a unidade da Itália. (p. Mas. Aliás. comprando com uma mão e vendendo com a outra. Os cartagineses sempre foram transportadores. 226-227). nesse último caso. Braudel acusara em Cartago uma incompatibilidade entre um espírito capitalista — no sentido weberiano do termo — e uma “mentalidade religiosa retrógrada”. Os holandeses. Todavia. semelhantemente. apresenta-se o momento de uma potencial unidade mediterrânica. Cartago importava cerâmicas coríntias. uma troca primitiva. [.. se por um lado. os produtos manufaturados do Sul da Alemanha. 220) A partir do século V. vendendo ali. nem Gênova.No fim do século VIII. não conseguiram realizar uma conquista do Mediterrâneo e sequer uma unidade da península itálica.C. a metrópole do Mar Interior. prolongando até nós. processo que Braudel novamente explica com paralelos modernos: “O drama das cidades gregas é um pouco o das cidades do Renascimento italiano.] O culminar deste processo é a chegada do Bárbaro. praticando ainda na Insulíndia. com Alexandre. os gregos representam para Braudel um avanço. começa o declínio de Cartago. Também Veneza importará e reexportará sem pena. procederão do mesmo modo no século XVII. Porque em Corinto.. No entanto. em 146 a.. que recebe o golpe final dos romanos. Com Alexandre. ocidentais. se o Mediterrâneo permitiu que o império construído por Roma se tornasse um espaço de trocas materiais e culturais. nem Veneza.C. consequência que Braudel atribui à falta de coesão das cidades etruscas. na Etrúria e no Egito. em uma conjuntura de guerras entre gregos e persas em que os fenícios aparecem ao lado dos últimos. tal espaço começou a se esfacelar precisamente quando Roma 7 . por outro. mas que não chegou a se concretizar uma vez que ele preferiu voltar-se ao Oriente. do Macedônio” (p. Nenhuma – nem Florença. como se a religião tivesse obstruído o desenvolvimento da vida econômica cartaginesa (pp. no século XV.

Estabelece assim uma relação entre poder político e desempenho econômico. Findo esse breve esboço da narrativa braudeliana. p. Josep Fontana. gregas ou romanas. em que o mar divide-se essencialmente entre duas grandes civilizações. Braudel se detém muito pouco nas relações vigentes de exploração do trabalho e suas consequências para a estabilidade social e política das cidades orientais. os quais. à guisa de conclusão. mais voltada para seus aspectos comerciais. em primeiro lugar. portanto. distancia-se do estado atual dos estudos clássicos.9 O conflito. Refiro-me à quase ausência de menção a conflitos entre grupos no interior de uma mesma sociedade. inova ao procurar inserir na narrativa não só os aspectos econômicos. No entanto. situa-se em outro patamar: são “povos” que travam disputas entre si para ampliar suas redes de trocas comerciais e a extensão política de seus territórios. Além do mais. Quando os escravos são mencionados. coube ao cristianismo transmitir a herança de Roma. transferindo o centro do império para o Oriente. as cidades italianas renascentistas. não ocupa lugar em sua obra. apesar de condenada por Braudel.decidiu afastar-se do mar para ampliar seu poderio. pois relaciona a falta de unidade política com a incapacidade de construir um espaço unificado de trocas econômicas. ao escrever uma “história total” do espaço mediterrânico desde a Pré-História até a Antiguidade. desafiando o vazio desértico ou oceânico. de matriz romana. por sua vez. 8 . mas também os geográficos e culturais. contribui para que negligencie o tema da exploração (cf. cada vez mais marcados por uma especialização que deixa em segundo plano qualquer visão de conjunto. ideia aliás 9 Também a conceituação de capitalismo adotada por Braudel. é porque são mercadorias e. para ele. que. Bauru: Edusc. Assim termina Memórias do Mediterrâneo. cabe notar. Com a fundação de Constantinopla no século IV. As censuras de Braudel às cidades gregas e suas equivalentes modernas. são avaliados por sua maior ou menor competência em estabelecer uma unidade do mar. Braudel. “Afastar-se do mar é enfraquecer. A escravidão. O Mediterrâneo é o palco onde se desdobram tais eventos. História: Análise do Passado e Projeto Social. ou até o semivazio dos países primitivos como a Germânia” (p. 1998. situam-se neste contexto. e não tanto bruscamente se pensarmos que tal conclusão como que introduz a posteriori o quadro traçado em O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Felipe II. passíveis de trocas. esta mensagem que a antiga civilização chega até nós” (p. por exemplo. alongando as linhas de reabastecimento. 318). e a turco-islâmica. a latino-cristã. seu método não deixa de apresentar pontos críticos no tocante à descrição das sociedades antigas. 343). 210). “É com este rosto.

Bin Wong. descortinando novas perspectivas de pesquisa. 1. p. pp. não se pode afirmar categoricamente que o historiador francês tenha se desvencilhado por completo de categorias originárias da moderna história europeia ao voltar-se para períodos anteriores.10 Neste sentido. como a Inglaterra e os Países Baixos. como bem observou R. a obra de Braudel sobre o Mediterrâneo teve o grande mérito de oferecer uma análise histórica alternativa. cit. “Entre Monde et Nation: Les Régions Braudéliennes en Asie”. R. 10 9 . por um lado. Bin Wong. onde Braudel apresenta os Estados territoriais menores. não mais ancorada exclusivamente nos Estados nacionais ou a um mundo considerado em sua totalidade geográfica11. 2001. por outro lado. livro que ainda está por ser devidamente analisado e situado no conjunto de sua obra. como bem prova o seu Memórias do Mediterrâneo.. 6. Cf. se. 11 Op. 23-24. como mais capacitados para a competição econômica no Mediterrâneo do século XVII. Annales HSS.já presente em O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Felipe II.

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