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  • PRÓLOGO
  • INTRODUÇÃO
  • Capítulo 1
  • DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS SOCIAIS
  • Capítulo 2
  • CONFRONTANDO AS REALIDADES DA AMÉRICA LATINA:
  • Capítulo 3
  • COMO REFORMAR O ESTADO PARA ENFRENTAR OS
  • Capítulo 4
  • CAPITAL SOCIAL E CULTURA:
  • Capítulo 5
  • Capítulo 6
  • O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE NA AMÉRICA LATINA:
  • BIBLIOGRAFIA
  • SOBRE O AUTOR

Bernardo Kliksberg

FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL
Tradução: Sandra Trabucco Valenzuela

FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Bernardo Kliksberg Capa: Edson Fogaça Preparação de originais: Carmen Tereza da Costa Revisão: Maria de Lourdes de Almeida Composição: Dany Editora Ltda. Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales

ISBN: 85-249-0823-8
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa do autor e do editor. © by Autor Direitos para esta edição CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 317 — Perdizes 05009-000 — São Paulo-SP Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 e-mail: cortez@cortezeditora.com.br www.cortezeditora.com.br Impresso no Brasil — novembro de 2001

SUMÁRIO
Prólogo de Jorge Werthein (Unesco) .................................................. Introdução .........................................................................................
CAPÍTULO 1

7 9

Dez falácias sobre os problemas sociais da América Latina ........... 13
CAPÍTULO 2

Confrontando as realidades da América Latina: pobreza, desigualdade e deterioração da família............................................ 47
CAPÍTULO 3

Como reformar o Estado para enfrentar os desafios sociais do século XXI? ....................................................................................... 69
CAPÍTULO 4

Capital social e cultura. Chaves esquecidas do desenvolvimento . 105
CAPÍTULO 5

Ética e economia. A relação esquecida ............................................ 149
CAPÍTULO 6

O crescimento da criminalidade na América Latina: um tema urgente ............................................................................................... 157 Bibliografia ........................................................................................ 167

Neste livro estão inseridos seis estudos recentes de Bernardo Kliksberg – Dez Falácias sobre os Problemas Sociais da América Latina. sobressai o ethos da redução da pobreza que constitui um dos principais eixos norteadores da obra de Kliksberg. sobre as falácias do desenvolvimento. Crescimento da Criminalidade na América Latina. apon- . no segundo. Esse êxito crescente se deve em grande parte à visão prospectiva de suas idéias e à solidez de suas teses que se apóiam em bases teóricas de qualidade inquestionável. seus estudos. De fato. Confrontando as Realidades da América Latina: pobreza. em farta documentação e evidências recolhidas de inúmeras experiências em curso. Ética e Economia e Como Reformar o Estado para Enfrentar os Desafios Sociais do Século XXI. contrapondo argumentos e indicando alternativas. com rara clareza. No primeiro estudo. Capital Social e Cultura. sobre a situação social da América Latina têm despertado o mais vivo interesse do público e dos especialistas e estudiosos na área de políticas públicas. desfaz mitos e equívocos da ortodoxia econômica.FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL 7 PRÓLOGO Este é o quarto livro de Bernardo Kliksberg que a UNESCO edita no Brasil. Daí a sua insistência em desfazer mitos e equívocos e de alertar sobre as conseqüências de abordagens ortodoxas do pensamento econômico. desigualdade e deterioração da família. de forma mais específica. Em todos eles. Kliksberg. Os estudos de Kliksberg têm a vantagem de indicar caminhos e explorar possibilidades e alternativas com vistas à redução dos índices de pobreza na América Latina. reflexões e propostas sobre políticas de desenvolvimento social em geral e. Não apenas isso. o que permite conferir-lhe crescente credibilidade e respeito.

no artigo seguinte. chama a atenção para o crescimento da criminalidade e da violência. em seguida. discute a importância do capital social e cultural das comunidades como condição imprescindível para o sucesso de projetos de desenvolvimento. no quarto estudo. Se esta redefinição não se operar nos próximos anos. Jorge Werthein Diretor da UNESCO no Brasil . mostrando a coincidência entre a evolução dos índices de violência e a deterioração dos dados sociais básicos. São seis estudos indispensáveis para a redefinição das políticas sociais públicas na América Latina. de forma a prepará-lo para enfrentar os desafios mais urgentes do desenvolvimento social e econômico. Como diz Kliksberg no início do artigo sobre as falácias do desenvolvimento. procura repensar o papel do Estado. seguramente a incerteza em relação ao futuro se ampliará e colocará em risco aspirações e ideais de grande legitimidade popular. Não se pode mais pensar em políticas públicas sem considerar a dimensão subjetiva. pois a essência de uma política de desenvolvimento é a melhoria da qualidade de vida.8 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL ta as conseqüências do modelo vigente no processo de deterioração da família. em que pese outros fatores que devem também ser considerados. sem a consciência de que todos devem e podem participar. “é hora de ouvir as pessoas”. e no último. examina as relações entre ética e economia. alertando como o problema da ética e da moral tem sido negligenciado no planejamento das políticas econômicas da América Latina.

Aproximadamente um de cada dois latino-americanos está abaixo da linha de pobreza. A criminalidade cresce fortemente. O documento base da Reunião de Bispos Católicos de todo o Con- . Cerca de 18% dos partos são realizados sem assistência médica de qualquer tipo. Apenas um de cada três jovens cursa o ensino médio (contra quatro de cada cinco no sudeste asiático). Assim. e processos similares se observam em muitos outros países. Formou-se um vastíssimo contingente de jovens que tiveram de abandonar seus estudos mas que também não têm lugar no mercado de trabalho. Sob o embate da pobreza. Estes dados significam sofrimento humano em grandes proporções. É quase seis vezes o que se considera internacionalmente uma criminalidade moderada. A situação das crianças é ainda pior: seis de cada dez são pobres. que contava com uma grande classe média. condição preventiva básica. A taxa de desemprego juvenil duplica a elevada taxa de desemprego geral. Surge intensamente ligada a fatores como o aumento do desemprego juvenil. à baixa educação. superando em muitos países os 20%. Um terço da população da região carece de água potável. Também há sérios déficits quanto aos sistemas de esgoto.INTRODUÇÃO 9 INTRODUÇÃO As cifras obrigam a refletir. A taxa de mortalidade materna é cinco vezes a dos países desenvolvidos. A tudo isso soma-se a expansão rápida de um novo tipo de pobreza. e à deterioração da família. as famílias entram em crise e muitas vezes se desarticulam. na Argentina. amplos setores das classes médias sofreram uma queda socioeconômica pronunciada e constituem os chamados “novos pobres”. entre outros casos. Os problemas de saúde são delicados. estima-se que sete milhões de pessoas dos estratos médios se transformaram em pobres na década de 90 (por 38 milhões de habitantes). Os jovens se encontram numa situação difícil.

maio de 2001) ressalta “a crescente pauperização que está se abatendo sobre a maioria da população em todos os povos em que nós vivemos”. Esta obra tenta estimular e contribuir para uma discussão desse tipo.10 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL tinente (XXVIII Assembléia do CELAM. aprendendo da realidade e buscando caminhos novos. é possível que surjam vias renovadoras. o último momento está dedicado à necessidade de tornar a . Faz-se necessário recuperar o que foi uma das maiores tradições deste Continente. seguindo certas políticas. a capacidade de pensar de forma criativa e por conta própria. se mobilizar o grande capital social latente na região. em vez de melhorar. com fontes de energia baratas e acessíveis em grande quantidade. que afirmavam que. Destaca entre suas causas “os efeitos da globalização econômica descontrolada e o crescente endividamento externo e interno. No segundo. O livro apresentado percorre cinco momentos de análise diferenciados. Finalmente. Se sairmos dos âmbitos de análise estáticos. bem como o papel que pode desempenhar a sociedade civil. e se potencializar sua cultura. piorou. uma dimensão que todas as análises coincidem em assinalar como grande entrave para o progresso da região. ainda. não resolvem os problemas. os resultados econômicos e sociais estavam assegurados? O que fracassou? Por que um Continente com recursos naturais privilegiados. por extensão. constituindo-se a América Latina na zona mais polarizada do planeta? O pensamento convencional parece ter esgotado sua possibilidade de dar respostas a interrogações como as indicadas. colocam-se em foco dez falácias que hoje impedem um pensamento independente criativo em matéria de desenvolvimento na América Latina e têm sérias conseqüências sobre as políticas públicas. examina-se um plano da difícil situação da população: os impactos que a pobreza está tendo sobre a família. e que tinha um bom desenvolvimento educativo há décadas atrás. examinam-se as possibilidades de respostas inovadoras nos dois campos: a reforma do Estado e das políticas sociais. No primeiro. seus altos níveis de desigualdade. No terceiro e no quarto. com uma ótima localização geoeconômica. tem indicadores sociais tão pobres? Por que. com grandes capacidades de produção agropecuária. que estão gerando permanentemente políticas que “são mais do mesmo”. com cargas que em vários países superam atualmente um terço de seu Produto Interno Bruto. O que está acontecendo? Por que não se cumpriram os prognósticos feitos no início dos anos 80. e que.

as mães humildes que ficaram sozinhas à frente do lar. mitos nem tabus. Bernardo Kliksberg . Ouçamos seu clamor e vamos tentar. de forma aberta. que foram marginalizados nas últimas décadas. as crianças que trabalham. os indígenas e populações afro-americanas discriminadas. o quanto antes. os idosos desprotegidos. todos juntos. É hora de repensar coletivamente o desenvolvimento. através destas abordagens. de mostrar a necessidade de incorporar novas dimensões ao debate sobre o desenvolvimento para melhorar sua qualidade e poder fazer emergir políticas muito mais efetivas em termos da meta final de sociedades democráticas: a dignidade e desenvolvimento de seus povos. devolver-lhes a esperança. os jovens sem oportunidades de trabalho. Trata-se. Isso é uma exigência que dia a dia. sem falácias. e um dogmatismo agudo que impediu o arrazoamento autocrítico tiveram custos muito fortes para a população.INTRODUÇÃO 11 refletir sobre os vínculos entre ética e economia. políticas baseadas neles que demonstraram ser incompetentes para o bem-estar humano e para o crescimento econômico sustentado. Os erros cometidos em termos de âmbitos conceituais desmentidos pela realidade. nas ruas. dos múltiplos rostos da dura pobreza latino-americana: as crianças de rua. os deficientes semi-abandonados.

apenas para efeito de comparação... A maioria tem muito claro no continente quais são as causas de sua inconformidade. Encontram-se bem conscientes delas. Os latino-americanos escolheram a democracia como forma de vida e a respaldam de forma consistente. Somente 35% estão satisfeitos com seu funcionamento. demonstram um apoio maciço ao sistema democrático e a seus ideais. 13 Capítulo 1 DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS SOCIAIS DA AMÉRICA LATINA Hora de ouvir as pessoas O que os latino-americanos pensam sobre o que está acontecendo na região? Ao serem questionados sobre algo tão concreto como se eles acreditavam estar vivendo melhor ou pior que seus pais. Esta resposta evidencia um profundo sentimento de descontentamento. quando se aprofunda. Na União Européia. Ao serem interrogados sobre se crêem que a democracia é preferível a qualquer outro sistema de governo. E distinguem perfeitamente causas aparentes de outras mais profundas. na Dinamarca é de 84%. e apenas 20% continuam exibindo inclinações ao autoritarismo. Dois terços preferem-no. porém “democraticamente” estão bastante descontentes com seu desempenho concreto. a cifra é de 47%. No entanto. expressam que estão fortemente insatisfeitos com o modo como a democracia está funcionando em seus países.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . pois a grande maioria sentia que sua situação havia piorado (Latín Barómetro. apenas 17% afirmaram que viviam melhor. . 1999).

incerteza trabalhista. mas claramente seu peso muito forte em setores com muita influência na tomada de decisões obstrui seriamente a busca de alternativas renovadoras e a passagem para uma nova geração de políticas econômicas e sociais. à educação de boa qualidade. revelam que sentem ser esta uma região onde há grandes desigualdades e se ressentem agudamente dessa situação. Além disso. com o funcionamento defeituoso de instituições e organizações básicas. Outros. Alguns têm a ver com a existência de fortes interesses criados e de privilégios que se beneficiam da manutenção da situação vigente. Não são o único fator de atraso. . algumas são políticas. A estes e aos demais que podem ser acrescentados. A grande maioria considera que os problemas vinculados com a pobreza vêm piorando. Trata-se. de buscar colocá-las em foco e convidar à uma reflexão coletiva sobre elas. Acrescentam a isso temas como o agravamento da corrupção. a delinqüência e o tráfico de drogas. Apresentamos a seguir algumas das principais.14 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Entre as causas de insatisfação. Outros. onde mais de 60% da população mostrase satisfeita com seu funcionamento. sobretudo. Ambos os países se caracterizam por possuir os mais baixos níveis de desigualdade de toda a região e por terem desenvolvido alguns dos mais avançados sistemas de proteção social da mesma. visando a sua superação. acesso à saúde. que permitam enfrentar os agudos problemas sociais. mas as econômico-sociais têm um peso decisivo. ao mesmo tempo que procedemos à análise de alguns de seus efeitos no desenho de políticas e examinamos sua consistência. soma-se a circulação profusa de certas falácias sobre os problemas sociais que levam à adoção de políticas errôneas e a empreender caminhos que afastam a saída do longo túnel ao qual se submete boa parte da população. Os avanços nesse caminho parecem encontrar obstáculos formidáveis na região. baixos salários. através da democracia e não por outro meio. O objetivo deste trabalho é chamar a atenção sobre estas falácias. Referem-se a carências em oportunidades de trabalho. para estimular a discussão ampla e aberta sobre as mesmas. As pesquisas refletem que a população está clamando por mudanças. a julgar-se pelos limitados resultados alcançados. com dificuldades derivadas da inserção econômica da região na nova economia internacional. Os dois únicos países cujas médias de satisfação com o desempenho do sistema democrático revelam-se maiores que as da União Européia são Costa Rica e Uruguai. ainda.

As cifras se deterioraram severamente nos anos 1980. Milhões de pessoas .DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . que a população em situação de pobreza cresceu. Panamá e Venezuela). Entretanto. Em seu conjunto. Primeira falácia: a negação ou a minimização da pobreza Existe uma intensa discussão metodológica sobre como medir a pobreza na região.. Colômbia. A Cepal estima. os estudos tendem a coincidir em dois aspectos centrais: a) as cifras de população localizada sob a linha de pobreza são muito elevadas. apesar dos resultados diversos que surgem de diferentes medições. conforme cita o BID (1998): Gráfico 1 Evolução da pobreza na América Latina 1970-1995 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 Fonte: BID. como no percentual que representam os pobres sobre a população total. a pobreza é maior no ano 2000 do que a que a região apresentava em 1980. Chile. Informe de progresso econômico e social. porém nos anos finais da década aumentaram significativamente. Nota: Linha de pobreza de 2 (ppp ajustado) em dólares de 1985 per capita. Costa Rica. tanto em termos de número de pobres. El Salvador. b) há uma tendência consistente ao crescimento das referidas cifras nos últimos vinte anos. Analisando a estrutura da força de trabalho em oito países da região que compreendem 75% de sua população total (Brasil. 1998.. 15 1. a Cepal constata que 75% da população que possui ocupação “recebe uma renda média que na maioria dos países não é suficiente por si só para tirar da pobreza uma família de tamanho e composição típica”. A evolução da pobreza na América Latina foi a seguinte. de 204 milhões a não menos de 220 milhões. em seu Panorama Social de América Latina 2000. México. de 1997 até início de 2000. melhoraram discretamente em parte dos ano 1990.

o Banco Mundial estimou que encontra-se na pobreza quase um terço da população e 45% das crianças. virtualmente a metade do mínimo necessário para se ter condições de emergir da pobreza. “Pobres há em todos os lugares”. costuma . estimava-se a pobreza entre 70% e 80% da população. são muito poucas as probabilidades de superar os níveis inferiores de renda ocupacional”. no discurso público latino-americano das duas últimas décadas. Verrier (1999) assinala que em toda a América havia. Um informe detalhado sobre a América Central (PNUD/União Européia. 68% dos nicaragüenses e 53% dos salvadorenhos. Nas províncias mais pobres como as do nordeste. 1999) indica que são pobres: 65% dos guatemaltecos. A Comissão Latino-Americana e do Caribe para o Desenvolvimento Social. reiterou-se a tendência de alguns setores a optar por outra via. a alternativa lógica é partir delas e tratar de encontrar vias inovadoras para enfrentá-las. afirma que “dez anos de escolaridade parecem constituir o umbral mínimo para que a educação possa cumprir um papel significativo na redução da pobreza. entre 1970 e 1980. 62. No Brasil. Diversas medições nacionais assinalam com as diferenças próprias de cada realidade a extensão e a profundidade da pobreza. As cifras relativas à população indígena são ainda piores.8%. No Equador.16 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Como se pode observar. Na Guatemala. Na Venezuela. estima-se que 43.5%.5% da população ganha menos de dois dólares diários e que 40 milhões de pessoas vivem na pobreza absoluta. A média de escolaridade na região é estimada em 5. considera que se encontra em situação de pobreza “quase a metade dos habitantes da América Latina e do Caribe”. 50 milhões de pobres e indigentes. com um nível educativo inferior a dez anos de escolaridade e sem ativos produtivos. mas que em 1998 já eram 192 milhões. Ainda em países onde tradicionalmente as cifras de pobreza têm sido baixas. como na Argentina. Um dos tantos indicadores do grau de “rigidez” da pobreza latinoamericana é proporcionado pelas projeções sobre níveis de educação e renda. Diante dessas realidades. a partir dos anos 1980 se produz uma firme elevação do número de pessoas que ganham menos de dois dólares diários. A falácia funciona através de diversos canais. Entretanto. a negação ou minimização do problema. 73% dos hondurenhos. baseando-se base nelas. a taxa é de 48. Um deles é a relativização da situação. A Cepal (2000). presidida por Patricio Aylwin (1995).2 anos. estão abaixo da linha de pobreza 86% da população indígena frente a 54% dos não-indígenas.

o conveniente é sempre desagregar os dados e ter uma perspectiva comparada e histórica para saber qual é a situação real. em que a deterioração de suas bases econômicas gerou um estrato social em crescimento denominado “os novos pobres”. Não é apenas uma diferença quantitativa. as cifras cresceram. A pobreza é extensa. Em vastas áreas da América Latina é muito difícil refletir a realidade com essa linguagem. ou de “focos de pobreza”. diversificada. Um dos arrazoamentos mais utilizados quando se trata de relativizar um problema grave é tirar-lhe a base histórica. Assim. mas um problema muito mais amplo e generalizado que requer estratégias globais. há várias diferenças. com altos e baixos e variações nacional. É muito diferente possuir entre um sexto e um sétimo da população em situação de pobreza e ter quase a metade nesse estado.. A pobreza existiu na América Latina desde a sua origem.. Por um lado. A população pobre nesses países é normalmente inferior a 15%. estão diminuindo. Em todos os países da região. a comparação estrita poderia levar a identificar que a brecha é ainda muito maior. São muito poucos os casos em que houve reduções consideráveis. estancando ou aumentando? Nos últimos vinte anos parecem haver suficientes evidências para preocupar-se. a linha de pobreza está muito acima dessa cifra. a difundida tendência a medir a pobreza considerando pobres aqueles que ganham menos de dois dólares por dia é bem questionável. Por outro lado. Nos países desenvolvidos fala-se de “ilhas de pobreza”. As linhas de pobreza utilizadas nos países desenvolvidos são muito mais altas que as empregadas normalmente na América Latina. Outra passagem usual do discurso negador é a afirmação de “que pobres existiram sempre”. 17 afirmar um mandatário de um país latino-americano frente ao crescimento das cifras de pobreza em seu país durante sua gestão governamental. Não há “focos de pobreza” a erradicar. Porém. .DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . Em relação ao aspecto econômico-social. Os países desenvolvidos têm efetivamente também percentuais de população situados abaixo da linha de pobreza. mas o tema é: quais são as tendências presentes? Em que direção apontam. portanto não se entende por que tanta ênfase em relação à situação atual. Ali a falácia adquire o tom da historicidade. é outra escala que implica consideráveis diferenças qualitativas. as cifras diferem de modo bastante acentuado. e tem atualmente inclusive uma forte expressão nas classes médias. Os indicadores experimentaram uma deterioração.

o que leva à perduração e acentuação de situações de exclusão humana antiéticas. que vai ainda mais longe. A política social não é a mais importante. já em si. sobretudo esta visão do processo de desenvolvimento. mas não assustar-se. Vejamos: uma boa parte do peso da pobreza recai na América Latina sobre as crianças e adolescentes. Tem severas conseqüências em termos de políticas públicas. Tratase de etapas que devem suceder-se umas às outras. a falácia exposta entranha um importante problema ético. Haverá uma etapa de “apertar os cintos”. Basta com políticas de contenção de rotina. Independentemente do amplo questionamento que há hoje. mas como se trata de enfrentar um problema que sempre existirá e todos os países o têm. e sempre existiram. depois não haverá conserto possível. o mes- . O social deve esperar. o arrazoamento explícito ou implícito que se desenvolve diante dos problemas sociais por parte de setores influentes gira em torno da necessidade de uma certa “paciência histórica”. os danos causados pela espera são simplesmente irreversíveis. procurou-se na década passada eliminar das agendas de reuniões importantes a “pobreza”. é preciso cuidado com superestimá-lo. Em 1997. Realmente pode esperar? A realidade indica que a mensagem tem uma falha de fundo. está questionando a própria existência do pobre. É uma carga da qual não é possível desprender-se. Se há pobres em todos os lugares. A mensagem que está sendo enviada é de fato que a pobreza pode esperar. posteriormente. em muitos casos. e é preciso entender o processo e ter paciência enquanto as etapas ocorrem. 58% das crianças menores de cinco anos da região eram pobres. 2. vendo-a. segundo a Cepal (2000). Em algumas das expressões mais extremas da falácia. Não só não oferece soluções aos pobres. O enfoque conduz a políticas sociais de muito baixo perfil e a uma desierarquização de toda a área social. Segunda falácia: a falácia da paciência Com freqüência. Além de conduzir a políticas absolutamente incapazes de enfrentar as realidades de pobreza. ela se “derramará” aos desfavorecidos e os retirará da pobreza. queremos enfatizar aqui um de seus elementos. através da minimização e relativização.18 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL A falácia de desconhecer ou relativizar a pobreza não é inócua. como demasiadamente carregada de conotações. por que dar ao tema tão alta prioridade? Há que atenuar os impactos. mas logo virá a reativação e.

os três fatores têm significativa incidência. Sobre essas crianças pobres operam vários fatores que são geradores. entre outros aspectos. Como indicamos. por sua vez. Na América Latina atual. dificuldades em seu desenvolvimento geral. por sua vez. déficits de macronutrientes essenciais e peso baixo. a mãe está sozinha à frente da família. e 40%. 19 mo acontecia com 57% das crianças de seis a doze anos.. em seu conjunto. Suas possibilidades de dedicação à criança nas críticas etapas iniciais serão limitadas. Formando os menores de vinte anos. Existe uma forte correlação estatística entre estes fatores e a desnutrição infantil. numerosas famílias possuem renda inferior ao imprescindível. As crianças são os pobres da América Latina. além disso. terá de lutar duramente para obter renda. “a pobreza mata”. o caráter monoparental da mesma e a baixa educação das mães. e com 47% dos adolescentes de 13 a 19 anos. As cifras verificam que efetivamente. A desnutrição causa ainda déficits no peso e estatura das crianças e isso repercutirá acentuadamente em seu desenvolvimento. 54% de todos os pobres.. 44% da população da região. por natureza. Estima-se que cerca de 30% dos lares estão sob a responsabilidade apenas da mãe. as mais vulneráveis. Os resultados de déficits desta ordem causam danos múltiplos. Essa não é uma situação neutra. atrasos em sua evolução visual e motora. Cria fatores de risco que reduzem a expectativa de vida e pioram sensivelmente a qualidade de vida. como se viu. insuficiências no mais elementar a possibilidade de que possam alimentar-se normalmente. como foi sublinhado pelo Unicef. 30%. aos cinco anos. do que se denomina “um alto risco alimentar”. Entre os fatores geradores de risco alimentar encontram-se: a falta de recursos da família. representavam. Pesquisas do Unicef (1995) sobre uma amostragem de crianças pobres determinaram que. e ao mesmo tempo. Se. Como destaca Peter Tonwsed. Estima-se que nos primeiros anos de vida se desenvolvem boa parte das capacidades cerebrais. em sua grande maioria trata-se de lares humildes e o nível educativo das mães pobres é muito baixo. metade das crianças dessa amostra apresentava atrasos no desenvolvimento da linguagem. “na América Latina a maioria dos pobres são crianças e a maioria das crianças são pobres”. O fator edu- . Isso pode ameaçar sua própria sobrevivência ou atentar contra seu desenvolvimento futuro. É provável então que o filho tenha anemia. A pobreza do lar pode significar que muitas mães estarão.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . A falta de uma nutrição adequada gera danos de caráter irreversível. desnutridas durante a gravidez.

Isso parece difícil de se entender. 30% a 40%. de 20% a 50% das crianças da grande maioria dos países viviam em lares com renda por morador inferior a 75% do valor da linha de pobreza e cuja mãe não tinha completado o ensino fundamental (primário). em seis de dez países analisados. A ação combinada destes e outros fatores leva ao sombrio panorama captado pela Cepal (2000): “No ano 2000 estima-se que aproximadamente 36% do total de crianças menores de dois anos da América Latina estão em situação de alto risco alimentar”. como vimos. as mães com baixa escolaridade terão pouca informação sobre como atuar apropriadamente com respeito ao aleitamento materno. 80% da população nicaragüense consome apenas 1700 calorias diárias. Muitos dos países da região possuem importantes possibilidades naturais de produção de alimentos. Embora em países com tanto potencial alimentar. Na Nicarágua. 28% das crianças com menos de cinco anos sofrem de anemia devido ao pouco ferro que consomem. Nas zonas rurais. Ao verificar apenas as crianças menores de dois anos de idade. como é o caso da Argentina. 66 crianças em cada cem apresentam problemas de saúde por falta de vitamina A. uma das principais áreas populacionais. Uma criança da mesma idade dos setores pobres pesa somente 20 kg e mede 1.148 m. uma em cada cinco criança está desnutrida.219 m. quando a dieta normal deveria ser não inferior a 2125 calorias. Na Venezuela. como cuidar da higiene alimentar. o percentual era de 65% a 85%. Os quadros nacionais são alarmantes em diversos países. estimativas do Ministério da Saúde (1999) indicam que 59% das famílias cobrem menos de 70% das necessidades de ferro requeridas pelo ser humano. As medidas de ajuste implementadas pelos países afetaram a disponibilidade nacional de . um terço das crianças menores apresenta níveis de deficiência alimentar pronunciada. Assim. como administrar alimentos escassos.20 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL cativo influirá ainda em aspectos muito concretos. nos quatro restantes. como fazer uma dieta adequada. Influenciam fatores como os identificados pela Organização Pan-americana da Saúde (OPS) e pela Cepal em pesquisa conjunta (1998): “Observa-se em quase todos os países da região um crescimento de doenças não transmissíveis crônicas associadas com alimentação e nutrição. Em 1999.3 kg e mede 1. 40% a 50% das crianças urbanas em idade pré-escolar faziam parte de lares cujas mães não tinham completado o ensino fundamental (primário). em dez de dezesseis países da região. as estatísticas informam que na grande Buenos Aires. Contudo. uma criança de sete anos dos estratos altos pesa em média 24. em 1997.

que descrevem as percentagens de crianças menores de cinco anos de idade que viviam em residências sem conexão com sistemas de evacuação de esgoto em 1998 (Cepal. 59%. El Salvador. Venezuela. 66%. 24%. 3. leva a políticas em que. observam-se dados como os que seguem. Esta falácia desconhece o caráter de urgência desta e de outras carências básicas. nega de fato a análise da irreversibilidade dos danos. Frente à pobreza. Segundo os cálculos da OPS. 21 alimentos e tiveram repercussões negativas sobre o poder de compra dos grupos mais pobres ameaçando a segurança alimentar”.. a diarréia é uma das duas principais causas de morte em crianças com menos de um ano. A falácia da paciência. o mesmo ocorre com outras expressões da pobreza. Ambos são elementos decisivos para a saúde. Assim como a falta de alimentação causa danos não-reparáveis posteriormente. 26%. o que significará graves riscos de contaminação através das galerias subterrâneas e de contaminação do meio ambiente em que se localiza a moradia. Honduras. sob a idéia de que as coisas se consertam depois. há uma falta de ética fundamental. México. Bolívia. Terceira falácia: com o crescimento econômico é suficiente O pensamento econômico ortodoxo de grande difusão na região lança a mensagem básica de que todos os esforços devem ser voltados . 2000): Paraguai. Brasil. não é possível esperar diante de problemas tão vitais como os descritos. A ação desses fatores gera mortalidade infantil e riscos graves de saúde. Ainda carecem de instalações sanitárias adequadas. Novamente. além das ineficiências que significam essas políticas em qualquer visão a longo prazo de uma sociedade. cerca de um terço da população da região carece de água potável e/ou rede de esgoto. como os déficits que enfrentam os desfavorecidos na região em dois aspectos básicos: a água potável e a existência de rede de saneamento e sistema de esgoto. Em onze países. Novamente trata-se de danos de caráter irreparável. deveria aplicar-se uma “ética da urgência”. 40% das moradias não possuem sistemas adequados de coleta de lixo e esgoto.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . 30% das crianças menores de seis anos vivem em moradias sem acesso à água potável. como os contágios e infecções intestinais.. não se dá a prioridade que corresponderia a questões elementares para a sobrevivência. Amplos setores da população pobre têm dificuldades muito grandes para obter água potável ou têm de comprá-la a preços muito elevados. com respeito à pobreza. 45%. Numa análise por países. 87%. 47%.

no início dos anos 1980. através do famoso efeito “derrame”. Será porque alguns não seguiram corretamente as receitas econômicas? Talvez. Refere-se à visão geral. do Consenso de Washington. a desigualdade aumentou de modo significativo. Desperta as expectativas de que tudo está bem se eles crescerem num bom ritmo. Isto apresenta várias explicações. e com uma profunda desigualdade”. Dirige os olhares aos prognósticos sobre o aumento do produto bruto e o produto bruto per capita. da competitividade e um clima de estabilidade econômica. que alcançando as metas importantes de crescimento. Eles desmentiram fortemente que a realidade funcione como a ortodoxia supõe que deveria funcionar. refazer e ampliar os conhecimentos acerca da economia de desenvolvimento que são tomados como verdade enquanto planejamos a próxima série de reformas”. uma maior diferenciação entre ricos e pobres e um crescimento médio modesto: apenas 3% neste decênio. que a “América Latina escolheu nos anos recentes”.22 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL para o crescimento. não caberia rever o arrazoamento usual? Joseph Stiglitz (1998) sugere que chegou a hora de fazê-lo. Entretanto. Argumenta: “Muitos países aplicaram as recomendações intelectualmente claras. No entanto. totalmente satisfatórios. sobre o que ocorreria ao aplicar o modelo convencional não foram cumpridas na prática. Propõe explicitamente. O século XX ensinou muito duramente mais de uma vez que o último juiz que decidirá se as teorias sobre o desenvolvimento são válidas ou não. a pobreza não se reduziu. os dados indicam que o crescimento foi muito discreto. como se mencionou. mas o que conta são os fatos. e isso solucionará os “restos” que possam existir no campo social. Descrevendo os produtos concretos do que se chama a “forma de fazer economia”. porém. eu argumentaria que a experiência latino-americana sugere que deveríamos reexaminar. . assinala Ricardo French Davis (2000): “O resultado é uma forte instabilidade do emprego e da produção. não é seu grau de difusão. não se “derramou” automaticamente. Efetivamente. de cujos componentes essenciais um é a idéia de que o crescimento basta. Os resultados não têm sido. O mesmo fluirá para baixo. embora não raro difíceis no aspecto político. As promessas feitas para a América Latina. é muito importante tratar de aumentar o produto total de uma sociedade. Diante deste juízo da realidade. São fundamentais ainda o desenvolvimento das capacidades tecnológicas. A experiência da América Latina e de outras regiões do globo indica que o crescimento econômico é imprescindível. todo o restante se resolve.

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ensina também que é simplificar extremamente o tema do desenvolvimento e de suas dimensões sociais aventurar que o crescimento econômico sozinho produzirá os resultados necessários. O informe do Banco Mundial sobre a pobreza no ano 2000, que expressa a política oficial dessa instituição, propõe a necessidade de passar de uma vez a uma visão mais ampla da problemática do desenvolvimento. Comentando seu enfoque diferencial, aponta um influente meio, o jornal Washington Post (2000): “A publicação do Informe Mundial de Desenvolvimento do Banco Mundial representa um significativo dissenso do consenso sustentado entre economistas de que o melhor meio para aliviar a pobreza é impulsionar o crescimento econômico e que a única via para fazê-lo é através de mercados livres e abertos. O Informe destaca que mesmo uma década após as economias planejadas da Europa Oriental terem sido desmanteladas e o comércio e investimento global terem alcançado níveis recordes, 24% da população mundial recebe renda inferior a um dólar diário. A conclusão ineludível, de acordo com os economistas e especialistas em desenvolvimento do Banco, é que enquanto o crescimento econômico possa ser um ingrediente necessário para reduzir a pobreza, não poderá fazê-lo sozinho”. Outro informe posterior do Banco Mundial, A qualidade do crescimento (2000), produzido por outras equipes do mesmo, propõe também vigorosamente o mesmo tipo de argumento básico. Afirma Vinod Thomas, diretor do Instituto do Banco (The Economist, 2000): “A experiência dos países em desenvolvimento e também dos industrializados mostra que não é meramente mais crescimento, e sim um melhor crescimento o que determina em que medida aumenta o bem-estar, e o bem-estar de quem. Países com renda e crescimento similares obtiveram nas últimas três décadas conquistas muito diferentes em educação, saúde e proteção do meio ambiente”. Sugere-se que é decisiva a estrutura do crescimento, suas prioridades, vias de desenvolvimento, setores beneficiados. A falácia de que o crescimento basta transmite a visão de que se estaria avançando se o produto bruto per capita subir, e que os olhares devem estar voltados para o mesmo. A ONU desenvolveu na última década um corpo conceitual amplamente difundido no âmbito internacional, “o paradigma do desenvolvimento humano”, que ataca de modo radical este arrazoamento. O crescimento só não basta, ele é necessário mas não suficiente; assim, caberia iniciar uma discussão maior. Perguntar-nos quando realmente uma sociedade avança e quando está retrocedendo. Os parâmetros definitivos, é a sugestão, devemos encontrá-los

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no que está acontecendo com as pessoas. Aumenta ou diminui a expectativa de vida? Melhora ou piora a qualidade de vida? A ONU apresentou um índice de desenvolvimento humano que veio sendo aperfeiçoado ano após ano, o qual inclui indicadores que refletem a situação de todos os países do mundo em áreas tais como: expectativa de vida, população com acesso a serviços de saúde, população com acesso a água potável, população com acesso a serviços de coleta de esgoto e detritos, escolaridade, mortalidade infantil, produto bruto per capita ponderado pela distribuição de renda. Os ordenamentos dos países do mundo segundo suas conquistas em desenvolvimento humano, que vêm sendo publicados anualmente pela ONU, através do PNUD, revelam um quadro que em diversos aspectos não coincide com o que decorre dos simples recordes de crescimento econômico. As conclusões resultantes enfatizam que quanto maior o crescimento e mais recursos existirem, ampliam-se as possibilidades para a sociedade, mas a vida das pessoas, que é a finalidade última, não pode ser medida por algo que é um meio, deve ser medida por índices que reflitam o que ocorre em âmbitos básicos da vida cotidiana. A falácia de que o crescimento basta está em definitivo transformando um meio fundamental, mas apenas um meio, em um fim último. É preciso desmistificá-la e retomar um debate a fundo sobre o que está ocorrendo com o cumprimento dos fins. Amartya Sen ilustra os limites desta falácia, analisando várias situações reais. Realiza a comparação que se reflete no gráfico a seguir. Como se observa, os três primeiros países do gráfico — o Estado de Kerala, na Índia (com 33 milhões de habitantes), China e Sri Lanka — tinham um produto bruto per capita muito reduzido. Os outros três — África do Sul, Brasil e Gabão — tinham um produto bruto cinco a quinze vezes maior que o dos anteriores. Contudo, a população vivia mais anos nos três países pobres: 71, 69 e 72 anos, contra 63, 66 e 54 anos. O crescimento econômico sozinho não era o fator determinante num dos indicadores mais fundamentais para verificar se uma sociedade avança, no mais básico: a expectativa de vida. Que outras variáveis intervinham neste caso? Sen identifica aspectos como as políticas públicas, que garantiam nos três primeiros países um acesso mais amplo a insumos fundamentais para a saúde, como a água potável, as instalações sanitárias, a eletricidade e a assistência médica. Ainda as melhores possibilidades em matéria de educação, por sua vez, inci-

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Gráfico 2 Produto Nacional Bruto e Expectativa de vida em países selecionados (1992) 80 71 70 69 72 63 66 54 50 40 30 20 1000 10 0 300 Kerala 470 540 500 0 China Sri Lanka África do Sul Brasil Gabão 2670 2770 4450 5000 4500

60 3500 3000 2500 2000 1500

Expectativa de vida

PNB per capita

Fonte: Amartya Sen, “Mortality as indicator of economic success and failure”. The Economic Journal, jan. 1998.

dente na saúde. Junto a isso, um aspecto central era a melhor distribuição da renda nas três primeiras sociedades. Tudo isso levou a que os países supostamente mais pobres em termos de renda fossem mais bemsucedidos na saúde e na expectativa de vida. Sen afirma: “Eles registraram uma redução muito rápida das taxas de mortalidade e uma melhora das condições de vida, sem um crescimento econômico notável”. 4. Quarta falácia: a desigualdade é um fato da natureza e não um obstáculo para o desenvolvimento O pensamento econômico convencional tendeu a eludir uma discussão frontal a respeito da desigualdade e seus efeitos sobre a economia. Apoiou-se para isso com freqüência na sacralização do “U” invertido de Kusnetz. De acordo com o mesmo, a desigualdade é simples-

PNB per capita (em dólares)

Expectativa de vida (anos)

4000

a falácia difundida com respeito à desigualdade choca-se fortemente com os dados da realidade. para assegurar o mesmo resultado nos países subdesenvolvidos é preciso. Na primeira fase do mesmo. Na América Latina. na Europa Ocidental. dadas as “acumulações em poucas mãos” que gerou. Na verdade. a região deveria ter contado com taxas de investimento muito altas. mas apresenta uma tendência consistente para o crescimento. Esta discussão tem particular transcendência para a América Latina. porque é considerada por unanimidade a região mais desigual do planeta. e propõem que essa acumulação de recursos em poucas mãos favorecerá o desenvolvimento ao criar maiores capacidades de investimento. não podemos afirmar que posto que a desigual distribuição da renda conduziu no passado.26 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL mente uma etapa inevitável da marcha para o desenvolvimento. a desigualdade instalou-se e não só não se moderou. que depois vão-se moderando e reduzindo. Seus trabalhos referiam-se à observação dos Estados Unidos. particularmente nas duas últimas décadas. Isso não se observa. alguns de seus supostos intérpretes fizeram claro abuso de suas afirmações. Inglaterra e Alemanha num período que compreendeu da primeira metade do século XIX até o final da Primeira Guerra Mundial. Tampouco parece ser uma mera etapa do caminho ao desenvolvimento. A desigualdade latino-americana transformouse em nível internacional num caso quase de laboratório dos impactos . à acumulação de economias necessárias para formar os primeiros capitais. Afirma (1970): “É perigoso utilizar simples analogias. portanto. produzem-se polarizações sociais. Além de ter desvirtuado o pensamento real do próprio Kusnetz. Alguns economistas convencionais mais extremos chegam ainda mais longe. manter e inclusive acentuar a desigualdade na distribuição da renda”. Kusnetz nunca pretendeu que fosse aplicável mecanicamente aos países não-desenvolvidos. O “U” invertido parece não funcionar para a região. Se a tese dos ortodoxos mais inflexíveis estivesse correta. E enfatiza em afirmação que na América Latina faz muito sentido hoje: “É muito provável que os grupos que recebam rendas superiores em alguns dos países hoje subdesenvolvidos apresentem uma propensão de consumo muito maior e uma propensão à economia muito menor do que as que apresentam os mesmos grupos de renda nos países hoje desenvolvidos durante suas primeiras fases de crescimento”. Como tem ocorrido com freqüência. Adverte expressamente sobre o risco de generalizar as conclusões que extraiu.

é uma de suas expressões. 1998). Os diferentes estratos socioeconômicos dos países alcançam recordes muito diversos em anos de escolaridade. Há na América Latina 60 milhões de PYMES. era 22 vezes maior. instrumento essencial para poder criar oportunidades reais de desenvolvimento de pequenas e médias empresas. tinham completado o ensino fundamental (de 1ª a 8ª série) aos vinte anos de idade apenas 8% dos jovens pertencentes aos 25% de menor renda. Segundo a Cepal (2000). que geram 150 milhões de empregos. No entanto.5% da renda nacional. 27 regressivos da desigualdade. apenas têm acesso a 5% do crédito.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS .5% das crianças dos 25% com maior renda. em 1997 a relação tinha mais que duplicado. surgia . os 10% mais ricos possuem 46% da renda. a América Latina tem 0. Operam ativamente na América Latina entre outros cinco tipos de desigualdades. Ainda. 5% da população possui 25% da renda nacional. a metade da renda nacional de cada país da região vai para as mãos dos 15% mais ricos da população. Na Argentina. apontam Birdsall.. no Brasil repetiam os dois primeiros anos do ensino fundamental 41% das crianças pertencentes aos 25% de menor renda da população. Em média. enquanto os 50% mais pobres. A deserção e a repetência provocadas pelas condições socioeconômicas do lar minam diariamente a possibilidade de que os setores pobres completem seus estudos. contra 54% dos 25% de maior renda. Ross e Sabot (1996) sobre a região. Outra desigualdade acentuada é a que aparece em termos de acesso a ativos produtivos. Uma quarta iniqüidade é a que surge do sistema educativo. Uma terceira desigualdade é a que rege no campo do acesso ao crédito. Diante da pergunta de por que um continente com tantas potencialidades econômicas e humanas gerou resultados econômicos tão discretos e déficits sociais tão agudos. a saber: um é a iniqüidade na distribuição de renda. No Brasil. apenas 14% da mesma. A extremamente ineqüitativa distribuição da terra em alguns dos maiores países da região.. Assim.57. uma das respostas com crescente consenso científico é que um dos fatores fundamentais em contrário tem sido o peso da desigualdade e seu crescimento. É a maior brecha do planeta. “a associação entre um crescimento lento e uma elevada desigualdade deve-se em parte ao fato de que essa elevada desigualdade pode constituir em si um obstáculo para o crescimento”. Tomando países da região (BID. Medida com o coeficiente Gini de ineqüidade em renda. por outro lado. e por sua vez apenas 4. 30% da população tem apenas 7. enquanto em 1975 os 10% mais ricos recebiam oito vezes mais renda que os 10% mais pobres. quase três vezes o Gini dos países nórdicos. como Brasil e México.

Todas estas desigualdades geram múltiplos efeitos regressivos na economia.3 anos de educação. e os 77% restantes que têm apenas 5. estreitam o mercado interno. A desigualdade latino-americana não é um fato natural próprio do caminho do desenvolvimento como pretende a falácia. impedem a formação em grande escala de capital humano qualificado. Segundo a Cepal (2000). na vida pessoal e familiar. Uma brecha de sete anos. fazendo parte assim de uma nova categoria de analfabetismo. A grande maioria da população não tem meios nem a educação requerida para conectar-se com esse mundo. 1999) considera que “as reformas econômicas aplicadas nos últimos anos agravaram as desigualdades entre a população” e sublinha que “é possível afirmar sem nenhuma dúvida que os noventa são uma década perdida quanto à redução das já alarmantes diferenças sociais existentes na região com mais desigualdade do mundo”. deterioram a confiança nas instituições básicas das sociedades e na liderança política. Barbara Stallings (Cepal.3 anos de estudo nas cidades e 2. Enquanto na Europa a brecha de escolaridade entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres é de dois a quatro anos. elevados porém menores. É a conseqüência de estruturas regressivas e políticas erradas que a potencializaram. que a mesma teria sido a metade do que foi se a desigualdade tivesse continuado nos níveis anteriores. por outro lado. depois de analisar dez países. A desigualdade educativa será um fator muito importante na iniqüidade na possibilidade de conseguir emprego e nos salários a serem recebidos.5 a 7. há um nível superior que são 3% da população empregada que possui quinze anos de escolaridade. A força de trabalho ocupada da região apresenta uma marcante estratificação. Entre outros. os dos 30% mais pobres. Birdsall & Londoño (1998) estimaram econometricamente que seu crescimento entre 1983 e 1995 duplicou a pobreza.3 anos. e no desenvolvimento democrático. um nível intermediário que são os 20% da força de trabalho que possui entre nove e doze anos de escolaridade.9 nas zonas rurais. conspiram contra a saúde pública. segundo demonstram numerosas pesquisas: reduzem a formação de poupança nacional. no México é de dez anos. uma das causas centrais do aumento da pobreza na região. apenas 4. propõe que “há ba- . Os setores desfavorecidos estarão em condições muito desfavoráveis nesse item devido à sua frágil carga educativa.28 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL que os chefes de família dos 10% de renda mais elevada tinham 11. o analfabetismo cibernético”. Altimir (1994). O aumento da desigualdade é. Uma quinta e nova cifra de desigualdade está surgindo das possibilidades totalmente diferenciadas de acesso ao mundo da informática e Internet.

a privatização etc. 29 ses para supor que a nova modalidade de funcionamento e as novas regras de política pública destas economias possam implicar maiores desigualdades de renda”. as desigualdades em educação reforçam. respondeu: “A única política social é a política econômica”. a outra dimensão da falácia também é desmentida pela realidade. propicia a geração de circuitos similares em outras áreas. ela é percebida como uma “concessão” à política. sofreram também sérios incrementos na desigualdade. Como a pobreza gera forte inquietude política. a política social faria o trabalho de “acalmar os ânimos” e mostrar que estão se fazendo coisas nesse fronte. 5.. Caberia a ela atenuar os impactos transitórios que as anteriores produzem na sociedade. Há uma tendência a vê-la como um complemento menor de outras políticas maiores. ilustra o fato a dificuldade. ao ser questionado sobre a política social em seu país. como as que têm a ver diretamente com o desenvolvimento produtivo.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . Deveria atacar focalizadamente os desajustes sociais mais irritáveis para reduzi-los. Eles se automultiplicam. No fundo. como já se viu. Sem ações em contrário. a partir deste arrazoamento. Quinta falácia: a desvalorização da política social Um renomado ministro da Economia da América Latina. Albert Berry (1997) indica: “A maioria dos países latino-americanos que introduziram reformas econômicas prómercado.. Isso é mostrado pela conformação crescente em numerosas sociedades de uma dualidade central: incluídos e excluídos. Pelo contrário. em melhorar a situação educativa da população pobre. Esta coincidência sistemática no tempo dos dois eventos sugere que as reformas foram uma das causas da degradação na distribuição”. as polarizações tendem a crescer e ampliar-se. Os circuitos perversos de desigualdade mostram além disso uma enorme capacidade reprodutora. Por sua vez. o crescimento tecnológico. a instalação de circuitos de desigualdade em áreas-chaves possui uma tendência “contaminante”. as brechas no mercado de trabalho. Ainda. no curso das últimas duas décadas. mas o corolário conseqüente é: quanto . As desigualdades em outras áreas como ocupação e renda conspiram contra as reformas educativas. apesar de todos os esforços. Entre outros casos. Estava refletindo toda uma atitude quanto à política social que teve conseqüências profundas no continente. A desigualdade não se modera ou atenua sozinha. os equilíbrios monetários.

Albert Hirschman. exige maciçamente que se reforcem. ao contrário. ela não pede que se reduzam. são também direitos humanos”. ampliem e se incorporem novas políticas. mostra escassa capacidade para defender sua situação e normalmente é candidata preferida para os cortes. estreitem ou eliminem. concessão à política. e pessoal. As políticas sociais são essenciais para a população na região e estratégias para a estabilidade do próprio sistema democrático. Considerar a política social nestes termos: de uma categoria inferior. Depois de muitos esforços. do PNUD: “A erradicação da pobreza constitui uma tarefa importante dos direitos humanos no século XXI. melhor. O que está em jogo.30 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL menos concessões. como defende a ONU. não a voto”. em certa oportunidade. educação. nutrição suficiente. Refletindo a situação. Um nível decente de vida. é em numa democracia tratar de fazer com que os direitos fundamentais de seus membros sejam respeitados. É desviar recursos de destinos mais importantes. Os recursos destinados ao social deveriam ser muito limitados e destinados a fins muito específicos. . uso subotimizante de recursos. Claro que apenas com direito a voz. é também altamente vulnerável. Ao consultar-se a população. Dá lugar a reduzir o social a metas muito estreitas. afastada dos altos níveis de decisão. é uma questão de direitos humanos violados. conseguimos ser convidados. conforma uma falácia que está afetando seriamente a região. supõe em si um questionamento implícito da legitimidade da política social. assistência médica. no fundo. a constituir uma institucionalidade social frágil em recursos. Esta visão. mas. por “pressão política”. Diante de reduções orçamentárias. em que praticamente uma a cada duas pessoas está abaixo da linha de pobreza e expressa diariamente de mil maneiras seu descontentamento e seu protesto por essa realidade? Atender ao social não é uma concessão. Em primeiro lugar. Como ressalta o Informe de Desenvolvimento Humano 2000. ainda sob outro aspecto. como se pode relegar o social num contexto como o latino-americano. chamou esta forma de abordar o tema de “políticas pobres para pobres”. uma experiente ministra da área social de um país latino-americano narrou a respeito para uma platéia internacional: “Não éramos convidados ao gabinete onde eram tomadas as decisões econômicas mais importantes. trabalho digno e proteção contra as calamidades não são simplesmente metas do desenvolvimento. Por outro lado.

reduzirá as taxas de gravidez na adolescência. o progresso tecnológico dependem todos dos níveis de educação alcançados. Na verdade. de mortalidade materna. não há tal gasto. para desenvolver o sistema de educação superior. é difícil sustentar no início deste novo século que se trata de uma destinação de recursos de pouca eficiência. a políti- . os recursos para o social constituem. progresso tecnológico e é decisivo para a competitividade. Na realidade. Assim como existiam aqueles que não queriam ouvir falar da palavra pobreza. Como sugere Touraine (1997): “Em vez de compensar os efeitos da lógica econômica. A taxa de retorno em educação é uma das mais altas possíveis para uma sociedade. que um dos investimentos macroeconomicamente mais rentáveis que um país pode fazer é investir na educação de meninas. toda a terminologia utilizada está equivocada e novamente vemos um erro semântico não casual. Alguns dos países mais bem-sucedidos do planeta nos mercados internacionais estão exportando basicamente produtos como “high tech” totalmente baseados no capital educativo que souberam desenvolver. Hoje é difícil discutir as evidências de que o investimento social gera capital humano e que o mesmo se transforma em produtividade.. para elevar a taxa de término do ensino fundamental (de 1ª a 8ª série). Bem gerenciados. a política social bem delineada e eficientemente executada é um poderoso instrumento de desenvolvimento produtivo. chegou-se a que toda a discussão a respeito seja feita em termos de “gasto social”. na falácia que desvaloriza a política social. Hoje. A absorção de novas tecnologias. Na verdade. o que logo repercutirá na produtividade da economia. através dele. estender a possibilidade de acesso à água potável a toda a população é um investimento deficiente? O retorno ao fazê-lo será significativo em termos de saúde pública. a competitividade dos países está fortemente ligada ao nível de capacitação de sua população. é ineficiente? As medições econométricas dão resultados muito diferentes. investimento de um alto retorno. Destinar recursos para assegurar-se de que todas as crianças concluam o primeiro ciclo do ensino fundamental (antigo primário). na grande maioria dos casos. Os cálculos demonstram. a inovação local a partir delas. Acrescentar anos de escolaridade às meninas desfavorecidas aumentará seu capital educativo e. 31 Em segundo lugar. a pesquisa e desenvolvimento. entre outros casos. Nas condições latino-americanas.. Todas elas estão correlacionadas estatisticamente com os anos de escolaridade da mãe. de mortalidade infantil e morbidade.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . assim.

fortalecer as capacidades de gerência social. procurar articular estreitamente as políticas econômicas e as sociais. o saneamento. como a água. discutiu-se a gravidade do tema da desigualdade na América Latina. político e. como se pode reduzi-la? Uma das vias fundamentais possíveis numa democracia é uma agressiva política social que amplie fortemente as oportunidades para os pobres em setores cruciais. Sexta falácia: a maniqueização do Estado No pensamento econômico convencional circulante. base essencial de um desenvolvimento econômico sustentado. tem-se feito um esforço sistemático de vastas proporções para deslegitimar a ação . provendo uma base mínima de bens e serviços indispensáveis e contribuindo. de lucidez histórica. A política social pode ser uma chave para a ação contra a desigualdade. montar uma institucionalidade social moderna e eficiente.32 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL ca social deve ser concebida como condição indispensável do desenvolvimento econômico”. que atuem sobre os fatores que excluem parte da população do sistema educativo. Em vez de uma política social “borralheira”. Afirma que a política social é atualmente a “assistência pública” que recolhe os mortos e feridos deixados pela política econômica. muito distantes das necessárias. e hierarquizar em geral esta área de atividade pública. Superada a falácia que a nega ou minimiza. como propõe a falácia. Em terceiro lugar. É preciso uma política social que potencialize o capital humano. assim. enquanto não se contar com a participação e a contribuição da metade da população que está compreendida nos percentuais mais baixos de renda”. A falácia examinada cultiva e racionaliza esta situação inaceitável. o acesso à assistência médica. a eletricidade. 6. para abrir as oportunidades e romper círculos perversos. É um tema ético. o que a América Latina precisa é de uma nova geração de políticas sociais com letra maiúscula. ao mesmo tempo. A metáfora que se ouve em toda a região descreve bem a situação. Como aponta Birdsall (1998): “é provável que as taxas de crescimento da América Latina não sejam superiores a 3% ou 4%. formar recursos humanos qualificados no social. que assegurem serviços públicos de boa qualidade para todos. por políticas que universalizem possibilidades de controle de fatores de risco-chaves em saúde na região. destinar recursos apropriados. entre outras. Deverá estar integrada. Isso implica dar prioridade efetiva às metas sociais no desenho das políticas públicas.

a imposição de cargas muito pesadas aos consumidores e às pequenas e médias empresas. Deu-se uma forte tendência. hoje é possível manter uma discussão sobre o tema para além das ideologias. à constituição de monopólios que significaram. haverá. entre muitas outras vozes. particularmente das de iniqüidade. 33 do Estado. por sua vez. do Banco Mundial no final desta década. O instrumental metodológico das ciências sociais atuais traz evidências muito concretas que permitem estabelecer como funciona a realidade. um corruptor no setor privado. na prática.. O funcionamento sem regulação do mercado levou ao aprofundamento das brechas. Projetou a imagem de que toda ação tratada no terreno público seria negativa para a sociedade. Em seu informe especial dedicado ao papel do Estado (1998). Identificou-se como uma lei operante que sempre que houver um corrupto no Estado. ineficiência e corrupção. Entretanto. A impressão é que as duas polarizações conduziram a becos sem saída. com incapacidade para cumprir eficientemente as mínimas funções. como ocorreu com freqüência nas áreas sociais. por sua vez. o tema excede qualquer simplificação. mas sua minimização agrava-os.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . A visão apóia-se em graves defeitos existentes no funcionamento das administrações públicas em numerosos países da América Latina. Os problemas estruturais das sociedades latinoamericanas e de outras do mundo em desenvolvimento continuaram se agravando.. o enfraquecimento em geral do papel das políticas públicas. o processo de eliminação de numerosas funções do Estado. não levou ao reino ideal suposto. com grandes burocracias. criou a concepção de que existia uma oposição de fundo entre Estado e sociedade civil e havia que escolher entre ambos. sob as novas regras de jogo. a redução ao mínimo das políticas públicas e a entrega de suas funções ao mercado a levaria a um reino da eficiência e à solução dos principais problemas econômico-sociais existentes. O Estado sozinho não pode fazer o desenvolvimento. e na América Latina a ação estatal tem apresentado agudos problemas de burocratização. O Estado sozinho não pode resolver os problemas. a corrupção acompanhou também com freqüência os processos de privatização. Essa é a conclusão. de redução a níveis mínimos em muitos casos de suas capacidades de ação. Como em outros campos. liquidando com estas últimas. A visão demonstrou ser errada. e a entrega de suas funções ao mercado. ressalta como idéia fundamental que . Além disso. ou seja. e. Associou-se a idéia de Estado com corrupção. mas foi muito mais além disso e “maniqueizou” o Estado em seu conjunto. com desperdício de recursos.

está colocando em marcha. sucessivas iniciativas de intervenção ativa do Estado para dinamizar a economia. afirma uma autoridade mundial em como gerenciar com eficiência. queda nos custos ligados a doenças etc. o papel da educação e da assistência médica pública foi o eixo fundamental para contribuir para a mudança social e econômica no mundo inteiro (e de forma bastante espetacular no Leste e Sudeste asiáticos)”. Amartya Sen (1998) ressalta sobretudo o papel decisivo que tem exercido a política pública no campo social em algumas das economias de melhor desempenho a longo prazo do mundo. o Japão e a região do Leste da Ásia tiveram um alto grau de liderança governamental na transformação tanto de suas economias como de suas sociedades. Hoje há um ativo retorno à busca de uma visão mais equilibrada no debate internacional de ponta sobre o tema do desenvolvimento e do papel do Estado. Toda sociedade democrática tem a obrigação de garantir a seus membros o direito à assistência médica. o Japão. melhorar os níveis de saúde da população exerce toda ordem de impactos favoráveis sobre a economia. sua tendência a gerar desigualdades e à cartelização para maximizar lucros e seus desvios especulativos quando não há eficientes controles regulatórios. e propõe uma série de diretrizes orientadas a “reconstruir a capacidade de ação do Estado”. muitos países da Europa Ocidental conseguiram assegurar uma ampla cobertura de assistência social com a assistência à saúde e educação pública de maneiras até então desconhecidas no mundo. segundo o desempenho de seus sistemas de saúde. Impossível desconhecer a importância das políticas públicas num contexto histórico em que a segunda economia do mundo. Causticamente. Henry Mintzberg (1996). 2000) estabelece o primeiro ranking dos países do mundo. com respeito à concepção de que se poderia prescindir do Estado e a visão de que tudo o que se faz no Estado é ineficiente e no setor privado. é o direito mais básico.34 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL sem um Estado eficiente o desenvolvimento não é viável. Entre ou- . O recente informe sobre a saúde mundial 2000 da Organização Mundial da Saúde (OMS. como ocorre em Estados tão fragilizados pelas reformas das últimas décadas como os da região. eficiente: “o modelo representa a grande experiência dos economistas que nunca tiveram de gerenciar nada”. Uma área totalmente decisiva para a economia e para a sociedade é a da saúde. Por seu lado. entre muitos outros aspectos em redução de horas de trabalho perdidas por doença. Sublinha: “De fato. aumento da produtividade no trabalho. a mais recente (outubro de 2000) injetando 100 bilhões de dólares para tal efeito. Além disso. uma após a outra. autores como Stiglitz e outros chamaram a atenção para as “falhas do mercado”.

Em Gana. reduzindo assim as responsabilidades do Estado. Uma avaliação do próprio Banco Mundial concluiu que apenas 20% dos pobres puderam conseguir as licenças para isenção necessárias. O gasto público per capita em saúde no Brasil é de 208 dólares. A falácia da maniqueização do Estado leva a conseqüências muito concretas: ao deslegitimar sua ação deixa aberto o terreno para sua debilitação indiscriminada e para o desaparecimento paulatino de políticas públicas firmes em campos cruciais como os sociais.. Os anos de vida saudável chegam em média a apenas 59 anos no Brasil. pressupondo uma ação bem gerenciada e transparente. abandonaram as escolas. ao procurá-lo na lista de desempenho dos sistemas de saúde da OMS. que mostra o que ocorre quando se fixam como política alfandegária os serviços em áreas de população pobre. Suécia (73 anos). O contraste com a atual situação em diversos países latino-americanos é marcante. de 72%. no Peru. e no Canadá. embora o país seja uma das maiores potências industriais do mundo. foi um imediato descenso na assistência às escolas e a redução do orçamento total para as mesmas à metade do previsto. 2000).. ao impor taxas na escola. constrói um índice muito significativo para essas medições: os anos que. que assistiam às aulas. em média. 77% das crianças da rua de Accra. O gasto público per capita em saúde ultrapassa em todos eles os 1300 dólares anuais. O caráter crucial da ação estatal em campos-chaves como saúde e educação. mas que os pobres estariam isentos disso. danos irreparáveis a vastos setores de famílias. de 82%. sob a idéia de “compartilhar custos” e de “financiamento comunitário”. de 98. segundo indica a Igreja Evangélica Luterana da Tanzânia. foram introduzidas tarifas para o ensino primário.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . o Estado tem uma participação fundamental. aumentando a pobreza e a desigualdade e limitando as possibilidades de um crescimento sustentado. Por sua vez. Canadá (72 anos) e Noruega (71. 35 tros. tendo construído uma ampla rede de proteção. Na Tanzânia. Em todos esses países. sem doenças.2% do gasto total em saúde.7 anos). assim. Em Zimbábue. No topo da lista encontram-se países como Japão (74. Causa. de 172. o Brasil aparece em 125º lugar. Os dados da realidade sugerem que há outro caminho. na Noruega. surge com toda a força de uma pesquisa recente (Financial Times. uma pessoa vive com boa saúde. o gasto público é de 80. no México. a condicionalidade centrou-se em que deveriam cobrar taxas nos serviços de saúde. O resultado. Em alguns dos países mais bem-sucedidos econômica e socialmente. No Japão. um . na Suécia é de 78%.5 anos). seguindo as condições do Banco Mundial.

entre outras: as organiza- . Porém. A falácia arrazoa em termos de uma dualidade básica: Estado versus mercado. Uruguai e o Chile democrático. com carreiras administrativas estáveis. mas ir construindo administrações públicas descentralizadas. de segunda linha com respeito ao que ocorre no “mundo importante” conformado pelos mercados. e com freqüência implicitamente. Os laços de cooperação são múltiplos e surge uma ação integrada. os atores sociais que se encontram por trás delas são outros. para isso. transparentes. Desse enfoque surgirão políticas públicas de apoio muito limitado. uma profunda mensagem de desvalorização do possível papel que pode desempenhar a sociedade civil nos processos de desenvolvimento e na resolução dos problemas sociais. Nos fatos. que preconiza a falácia como um fato. é necessário avançar em outra direção totalmente diferente à da falácia. O mundo da sociedade civil é percebido como um mundo secundário. e as metodologias que utilizam não são de Estado nem de mercado. menores índices de pobreza e melhores taxas de desenvolvimento tiveram como base dessas conquistas Estados bem organizados. É imprescindível reformar e melhorar a eficiência estatal e erradicar a corrupção. os sinais que podem atrair ou afastar o mercado. Sétima falácia: a incredulidade sobre as possibilidades de contribuição por parte da sociedade civil O pensamento econômico circulante envia às vezes explicitamente. bem gerenciadas.36 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL dos pilares de suas economias é um Estado ativo de alta eficiência. Também na América Latina algumas das sociedades com melhores cifras de eqüidade. é neles desmentida. quase “simbólico” e por “cortesia” às organizações da sociedade civil. e uma desconfiança forte em depositar nelas responsabilidades realmente importantes. Foram criadas com finalidades diferentes. 7. abertas à participação comunitária. Uma de suas características principais contradiz um dos eixos da falácia. É um Estado coordenado estritamente com a sociedade civil. fundadas no mérito. com burocracias consideradas eficientes. A falsa oposição Estado — Sociedade Civil. Sua ênfase está totalmente voltada para o mercado. a situação é muito mais matizada. Este mundo compreende. como Costa Rica. a gerência de negócios. a maximização de utilidades como motor do desenvolvimento. a força dos incentivos econômicos. Não satanizar o Estado. Existe um semnúmero de organizações que não são nem uma coisa nem outra.

que aparece entre os primeiros do mundo nesta matéria. auxiliando pessoas inválidas. que têm alta presença em diversos campos. Trazem importantes contribuições ao Produto Bruto Nacional com trabalho não-remunerado em países como Canadá. a elas são delegadas funções crescentes por parte do Estado. Estão baseadas fortemente em trabalho voluntário. Existe um imenso potencial de trabalho voluntário que caso fosse adequadamente convocado e se se criassem condições propícias. tem sido refutada constantemente por empresários proeminentes e é hoje rejeitada maciçamente pela opinião pública dos países desenvolvidos. Espanha. Dinamarca. Assim. constituindo parte do pessoal paramédico nos hospitais. que são fórmulas especiais muito usadas nos países desenvolvidos onde numerosas Universidades e hospitais foram fundados por eles — trata-se de empreendimentos a longo prazo animados por numerosos atores públicos e privados. a situação tende a ser muito diferente. Mobilizam milhares e milhares de pessoas que dedicam anonimamente consideráveis horas para levar adiante seus programas. o guru da Escola de Chicago. protestantes e judaicas que estão na primeira linha da ação social. estão inter-relacionadas com a ação pública de múltiplas formas. idosos. uma em quatro pessoas faz trabalhos voluntários semanalmente. Na América Latina. modelos econômicos que não são de mercados típicos como as cooperativas. Arrecadam recursos consideráveis. 37 ções não-governamentais em contínuo crescimento na América Latina que foram denominadas com freqüência de terceiro setor e que realizam múltiplas contribuições no campo social. cristãs. A realidade não é só o Estado e o mercado como pretende a falácia. famílias desfavorecidas e outros setores com dificuldades. Holanda. As contribuições e iniciativas empresariais de solidariedade foram incrementadas e o crescimento de sua responsabilidade social passou a fazer parte cada vez maior da legitimidade da própria empresa. de que a única responsabilidade da empresa privada é produzir utilidades para seus acionistas. Suécia. poderia cum- . produzindo bens e serviços de caráter social. Inclusive alguns dos modelos de organização e gestão social e geral mais efetivos de nosso tempo foram desenvolvidos nesta vasta área diferente de ambos. Noruega. A afirmação feita há anos por Milton Friedman.. em Israel. e o amplo movimento de luta contra a pobreza desenvolvido em toda a região pelas organizações religiosas. Também aumentou no mundo desenvolvido a participação empresarial no apoio à ação social da sociedade civil. Israel e outros.. Todas estas organizações possuem um grande peso e uma forte participação na ação social no mundo desenvolvido.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . os espaços de interesse público.

o movimento de responsabilidade social empresarial é fraco e as contribuições muito reduzidas comparativamente. como os agrupados na idéia de “capital social”. a atitude quanto aos problemas coletivos. Claves olvidadas del desarrollo. apoios públicos firmes às iniciativas da sociedade civil de ação social e os incentivos fiscais são muito reduzidos. ou seja. revelam que há fatores cruciais para o desenvolvimento que não tinham lugar no pensamento econômico ortodoxo. El capital social e la cultura. levam adiante numerosas organizações. . B. É notável o trabalho que. por sua vez. desde cuidar da limpeza dos lugares públicos até pagar os impostos. Esforçadamente. entre elas as de fé já mencionadas. entre outros aspectos. a capacidade de criar esforços associativos de todo tipo e o nível de consciência cívica.38 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL prir papéis bastante significativos. o grau de associatividade. Não há. que alimenta. A proporção dos lucros empresariais dedicados a fins de interesse público é muito menor em relação à dos países avançados. erros grosseiros nas políticas. No fundo. até os efetuados em diversas realidades nacionais de todo o planeta. Pode-se encontrar a apresentação de uma série de pesquisas recentes sobre o capital social e seus impactos em: Kliksberg. Instituto de Integración Latinoamericana/Intal/BID. segundo dizem os mesmos estudos. 2000. mesmo com todas estas limitações. Estudos do Banco Mundial atribuem ao capital social e ao capital humano dois terços do crescimento econômico dos países e diversas pesquisas dão conta dos significativos impactos do capital social sobre a performance macroeconômica. para conseguir auxiliar nas dificuldades de sobrevivência de extensos setores da população. desde os primeiros estudos de Putnam e Coleman. setores da sociedade civil estão tentando mobilizá-lo e é constante o surgimento de múltiplas iniciativas. São eles: o clima de confiança entre as pessoas de uma sociedade e com respeito a suas instituições e líderes. Porém. Desenvolver o capital social significa fortalecer a sociedade civil através de políticas que melhorem a confiança. a governabilidade democrática. Além disso. assim. Diversas pesquisas de anos recentes. Também implica propiciar o crescimento da 1. tudo isso é. Buenos Aires. apesar das desconfianças e da incredulidade que surgem do arrazoamento desvalorizador. o que o pensamento econômico convencional está fazendo através de sua desvalorização das possibilidades da sociedade civil é fechar a passagem para o próprio ingresso do conceito de capital social. em sociedades polarizadas é muito fortemente erodida pela desigualdade. a produtividade microeconômica. a saúde pública e outras dimensões1. que.

Por trás da falácia da incredulidade sobre a sociedade civil. B. n. ou que os relegam. conseguem ser bem-sucedidos no alcance de suas metas e criam autosustentabilidade.. Os programas sociais fazem melhor uso dos recursos. como o social.. encontra-se uma rejeição mais ampla da idéia de que há outros capitais que se deve ter em conta. o economista-chefe do Banco Mundial. 8. Por outro lado. No campo social. produto de longas lutas históricas dos povos. existe hoje uma convalidação mundial crescente da superioridade em termos de efetividade da participação comunitária sobre as formas organizativas tradicionais de corte vertical ou burocrático. 39 associatividade e contribuir para fazer amadurecer a consciência cívica. o crédito trabalha melhor se os solicitantes participam. Assinala a respeito Stern. que não consideram estes elementos. criaram condições de livre organização e expressão. “Seis tesis no convencionales sobre participación en instituciones y desarrollo”. Barcelona. resumindo múltiplos estudos da instituição (2000): “Ao longo do mundo. Apontam-se diversos dados e pesquisas sobre a superioridade gerencial da participação em: Kliksberg. mas não! A participação da comunidade de forma cada vez mais ativa na gestão dos assuntos públicos surge nesta época como uma exigência crescente das grandes maiorias da sociedade na América Latina e outras regiões. da gestão.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . que dispararam esta “sede” por participação. A participação é prática e poderosa”2. Um fechado “reducionismo economicista” obstrui a passagem para ampliar a visão do desenvolvimento com sua incorporação e para extrair as conseqüências conseguintes em termos de políticas de apoio ao fortalecimento e potencialização das capacidades latentes na sociedade civil. Os avanços da democratização. se as comunidades pobres às quais se deseja favorecer participam desde o início e ao longo de todo o seu desenvolvimento e compartilham do planejamento. dez. 2. 2. . a participação funciona: as escolas operam melhor se os pais participam. As reformas dos países são muito mais efetivas se forem geradas no país e dirigidas pelo país. O arrazoamento econômico convencional tem estado amarrado a idéias muito estreitas sobre os fatores que contam. os programas de irrigação são melhores se os camponeses participam. Oitava falácia: a participação sim. 1998. do controle e da avaliação. Revista do Instituto Internacional de Gobernabilidad. isso é muito visível.

E. & Caldera. Programas sociales. “La democracia afirmativa y el desarrollo redistributivo: el caso del presupuesto participativo em Porto Alegre. ed. Fortalecer suas organizações lhes permitirá participar de modo muito mais ativo e recuperar terreno em ambas as dimensões. o discurso político tende cada vez mais a reconhecer a participação. fortalecer suas capacidades de gestão. mas os fatos com freqüência dizem “não”. no Peru. os resultados são surpreendentes. B. quando na verdade há um mínimo conteúdo real de intervenção da comunidade na tomada de decisões. em El Salvador. 1997. Também são comuns os programas em que se fazem fortes apelos quando se trata de programas participativos. Propõe-se. dar possibilidades de capacitação a seus líderes. Fondo de Cultura Económica. os avanços reais quanto à implementação efetiva de programas com altos níveis de participação comunitária são muito reduzidos. In: Jarquin. Brasil”. como ocorreu em experiências latino-americanas reconhecidas — como o caso de Villa El Salvador. Washington. ver o texto de Zander Navarro. está sendo desperdiçada uma enorme energia latente nas comunidades pobres. Entretanto. onde quem tem poder de decisão ou os que desenham são aqueles que sabem e a comunidade desfavorecida deve acatar suas diretivas e ser sujeito passivo deste. 2000. e The voices of the poor. . Além disso. Buenos Aires/Caracas. BID. a presença da comunidade é um dos poucos meios que previne efetiva3. baseado numa gigantesca pesquisa com 60 mil pobres de 60 países. (comp. A. Sobre o caso do orçamento municipal participativo em Porto Alegre. pobreza y participación ciudadana. Continuam predominando os programas “chave na mão” e impostos verticalmente. O caso de Villa El Salvador é analisado com detalhes por Carlos Franco em seu trabalho “La experiencia de Villa El Salvador: del arenal a un modelo social de avanzada”. un tema impostergable. Ao serem mobilizadas.). somando a eles incontáveis horas de trabalho. Eles carecem de “voz e voto” real na sociedade. chegam a similar conclusão em termos de políticas: é preciso dar prioridade para investir e fortalecer as organizações dos próprios pobres. ou o orçamento municipal participativo. e é geradora de contínuas iniciativas inovadoras. as escolas Educo. e com argumentos tão contundentes a seu favor. do PNUD (2000). Por um lado. O discurso diz “sim” à participação na região. entre outros aspectos: facilitar sua constituição. 4. Pobreza. A comunidade multiplica os recursos escassos. Os custos desta falácia são muito fortes. apoiá-las.40 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Dois recentes trabalhos: Superando a pobreza humana. em Porto Alegre3 —. Nuevas respuestas a nivel mundial. In: Kliksberg. do Banco Mundial (2000). Seria claramente antipopular enfrentar a pressão pró-participação tão forte na sociedade. Na América Latina.

Na mesma direção assinalou recentemente outro destacado pensador. A situação. que se disfarcem diante de sua ilegitimidade conceitual. O tema tem a ver com a vida das pessoas e as considerações éticas deveriam estar. estar-se-ia incorrendo no grande risco sobre o qual previne um dos maiores filósofos da nossa época. porque as comunidades estão “escaldadas” pelas falsas promessas. devem ser objeto de outra ordem de discussão. 41 mente contra a corrupção. previne Taylor. é muito diferente. os resultados podem ser muito regressivos para a sociedade. o divórcio entre o discurso e a realidade é claramente percebido pelos pobres e eles se ressentem disso com descontentamento e frustração. mas “não” está baseado em resistências profundas a que definitivamente as comunidades pobres participem. que. estes países impuseram as orientações atuais da civilização global e são responsáveis por suas conseqüências. Segundo ele. Taylor (1992) afirma que há uma declarada tendência a que a racionalidade técnica. Limitam-se. Por outro lado. as possibilidades de programas em que se ofereça a participação genuína. como pode estar ocorrendo. A ONU (2000) chama a atenção para a imprescindibilidade . por sua vez. Se a discussão sobre os fins desaparecer. Nona falácia: a esquivança ética A análise econômica convencional sobre os problemas da América Latina extrapola normalmente a discussão sobre as implicações éticas dos diferentes cursos de ação possíveis. Charles Taylor. presidente da República Tcheca (2000): “é necessário reestruturar o sistema de valores no qual nossa civilização descansa”. absolutamente presentes. O controle social da mesma sobre a gestão é uma grande garantia a respeito que se perde ao impedir a participação.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . política e ética. por ele chamados de “euro-americanos”. mas de caráter neutro. 9.. Do contrário. a discussão sobre os meios. assim. Estas vozes proeminentes sugerem um debate a fundo sobre os temas éticos do desenvolvimento. em que apenas devem predominar arrazoamentos custo — benefício para resolvê-lo. A tecnologia é um meio para alcançar fins. Vaclav Havel.. O chamado tem raízes em realidades intoleráveis. Chegou a hora na região de colocá-las em foco e enfrentá-las. porém. devem examinar sua consciência. Pareceria tratar-se de um tema técnico. e a racionalidade tecnológica predomina sobre a racionalidade ética. por extensão. substitua a discussão sobre os fins. O “sim”. e advertiu que os países ricos.

onde milhares de crianças vivem nas ruas. são os mais afetados pelas políticas aplicadas em muitos países.4 (Organização Panamericana da Saúde. que é cinco vezes maior em relação à dos países desenvolvidos. ressalte-se que possuem cobertura apenas 25% das pessoas maiores de idade. imputáveis à pobreza. os resultados costumam ser muito diferentes em termos de prioridades e de resultados sociais daqueles onde o assunto é evitado. mas pode haver mais e continuar destinados sob os padrões de alta desigualdade próprios da América Latina. por que os mais fracos.42 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL de um debate desta ordem num mundo onde perecem diariamente 30 mil crianças por causas evitáveis. 2000). melhor. enquanto a taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos. Noventa e nove por cento delas ocorrem nos chamados países em desenvolvimento. A discussão sobre as prioridades finais é a única que garante um uso socialmente racional dos recursos. diante de um único caso de tortura. presidida por . Na América Latina. Surgem de tudo isso problemas éticos básicos: o que é mais importante? Como destinar recursos? Não deveriam ser reestudadas as prioridades? Não há políticas que deveriam ser descartadas por seu efeito “letal” em termos sociais? Ao denunciar-se a fraqueza da falácia que esquiva a discussão ética.8. é imprescindível debater. Argumenta-se que é impossível discutir ética quando não há recursos. a destruição de famílias está gerando a pobreza. mas se passa por alto diariamente ante essa aniquilação em grande escala. entre outros temas: o que acontece com as conseqüências éticas das políticas. Quanto mais recursos existirem. ela toma com freqüência o rosto do “pragmatismo”. como as crianças e os idosos. atingia na Bolívia 82. e outras questões similares. como se tem visto. A Comissão Latino-Americana e do Caribe. É uma região onde. no Brasil 45. Na América Latina. mortes também em sua grande maioria evitáveis e ligadas à falta de assistência médica. Afirma que se reage indignamente. O Fundo de População Mundial (2000) ressalta que morrem todo ano 500 mil mães durante a gravidez. e se deve fazer o possível para aumentálos. quando os recursos são escassos deveria debaterse a fundo sobre as prioridades. a maioria das crianças é pobre.9 e no México 36.7. Entretanto. marginalizadas pela sociedade e onde. e isso é correto. qual é a “eticidade” dos meios empregados.9 em cada 1000. se é eticamente lícito sacrificar gerações. 17% dos partos são realizados sem qualquer tipo de assistência médica e com os conseqüentes resultados em termos de mortalidade materna. no Equador 57. em 1997. mais do que nunca. Nos países em que esse debate ocorre. era no Canadá de 6.

destaca: “Tem havido demonstrações recentes não só frente às reuniões financeiras internacionais. . opina Felix Rohatyn (Financial Times. Num artigo do jornal New York Times. 2000). em diferentes regiões do globo os fatos não favoreceram o “pensamento único”. 10.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . Resumindo a situação. As dúvidas acerca das relações econômicas globais continuam vindo de diferentes confins do planeta e há suficiente razão para ver estas dúvidas sobre a globalização como um fenômeno global.. Parece demasiadamente complexo o desenvolvimento. mas também na forma de protestos menos organizados. Na mesma direção. e que devem encarar de frente sua situação moral. os graves problemas sociais que criam são inevitáveis. por sua vez. Portanto. Se não o fizermos. o renomado filósofo Peter Singer (1999) sustenta que não é possível que os estratos prósperos das sociedades ricas se livrem do peso de consciência que significa a convivência com realidades maciças de abjeta pobreza e sofrimento no mundo. atual embaixador dos Estados Unidos na França: “Para sustentar os benefícios (do atual sistema econômico) nos Estados Unidos e globalmente. para que se acredite que só existe um único caminho. Décima falácia: não há outra alternativa Uma argumentação preferida no discurso econômico ortodoxo é a alegação de que as medidas que se adotam são as únicas possíveis. Amartya Sen (2000). temos de transformar os perdedores em ganhadores. Sua sugestão é totalmente extensiva aos estratos similares da América Latina. Por outro lado. mas intensos em diferentes capitais. realizou uma análise sistemática para a Cúpula social mundial de Copenhague sobre que recursos faziam falta para resolver as brechas sociais mais importantes da região. 43 Patricio Aylwin (1995). 2000): “O consenso intelectual sobre as políticas econômicas globais foi rompido”. que não haveria outro curso de ação alternativo. são dúvidas globais. A longa experiência do século XX é plena em fracassos históricos de modelos de pensamento que se auto-apresentaram como o “pensamento único”. não uma oposição localizada”.. desde Jacarta e Bangcoc até Abidjã e México. e gerando pactos sociais para aumentar os recursos para áreas críticas. afirma William Pfaff (International Herald Tribune. fortalecendo um sistema fiscal progressivo e eficiente. provavelmente todos nós nos transformaremos também em perdedores”. Concluo que não são tão quantitativos como se supõe imaginariamente e que uma parte importante deles pode ser obtida reordenando prioridades. refletindo a necessidade de buscar novas vias.

qualificou este fato como “um crime”. entre eles: Canadá. O pensamento único produziu resultado muito duvidoso na América Latina.44 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL O clamor por mudanças nas regras do jogo globais que afetam duramente os países em desenvolvimento é muito intenso. As receitas antiquadas de complementação do crescimento rápido com o gasto social e redes de assistência demonstraram ser insuficientes”. insegurança. O presidente do Banco Mundial. até o tema muito direto de que a ajuda internacional ao desenvolvimento foi reduzida (de 50 para 60 bilhões de dólares nos anos 1990) e está em seu menor ponto em muitas décadas. Noruega. a falácia de “que não há outra alternativa” resulta cada vez mais insustentável na América Latina atual. Destacou tratar-se de “cegueira dos países ricos que destinam somas insignificantes para auxiliar o desenvolvimento e não se dão conta do que está em jogo”. O economistachefe do Banco Mundial. como se vê. . No entanto. começa a haver uma cada vez mais ativa busca de alternativas diferentes. o PNUD (2000) assinala que se deve “formular uma nova geração de programas centrados em fazer com que o crescimento seja mais propício aos pobres. Finlândia. este orientado a superar a desigualdade e destaque a potencialização dos pobres. também sugere: “o crescimento econômico é maior em países onde a distância entre ricos e pobres é menor e o governo possui programas para melhorar a eqüidade. Holanda. Isso encontra amparo na evolução do mercado de trabalho. e indefesos. Dinamarca. Todos eles vão além do pensamento único. as pesquisas de opinião mostram que percentuais crescentes da população declaram sentir-se submetidos a condições de risco. com reforma agrária. Por outro lado. os países nórdicos. passando pela exigência pelas fortes barreiras aos produtos dos países em desenvolvimento. há no cenário histórico presente países que obtiveram desempenhos altamente bem-sucedidos nos planos econômico e social. Defendendo a necessidade de uma política global alternativa. o argumento fundamental é a própria realidade. vários países do Sudeste asiático. no plano internacional. Suécia. temos. Neste ambiente. Compreende uma agenda muito ampla. seguindo alternativas diferentes do pensamento econômico ortodoxo preconizado na região. Israel. no desdobramento da ação do Estado. A Cepal (2000) descreve assim a situação social presente: “Por volta do final dos anos 1990. colocando-se à frente de um vasto movimento mundial que exige o perdão da dívida externa para os países mais pobres. Stern (2000). Por um lado. Japão. e outros. impostos progressivos e bom sistema de educação pública”. desde temas pelos quais já clamou o papa João Paulo II. Wolfensohn (2000). como Coréia do Sul.

Marchar em direção a metas desta índole requererá. Com respeito a este último ponto. o impulso vigoroso à pequena e média empresa. em que se busca harmonizar as metas econômicas e sociais. potencializar as possibilidades de contribuição da sociedade civil. como descreve Mulligan (Financial Times. bem como em seus sistemas políticos e nos benefícios da privatização”. que “os latino-americanos estão perdendo a fé uns nos outros. “a privatização significa custos mais altos e virtualmente o mesmo nível de serviços. o apoio à pesquisa científica e tecnológica. diz Marta Lagos. a abertura de espaços que permitam a participação maciça na cultura. desenvolvimento compartilhado ou desenvolvimento integrado. 45 nas novas formas institucionais para o acesso aos serviços sociais. abrindo todas as vias possíveis para favorecer seu fortalecimento. a universalização da cobertura em saúde. o acesso de toda a população à água potável. e respeitando suas realidades nacionais quanto a modelos de desenvolvimento com eqüidade. e o desenvolvimento do sistema de educação superior. Isso implica configurar projetos nacionais que impulsionem. construindo um perfil de Estado descentralizado. que pode ser um poderoso instrumento para o fortalecimento econômico da região e sua reinserção adequada no sistema econômico global. saneamento e eletricidade.DEZ FALÁCIAS SOBRE OS PROBLEMAS . “Para muitos”. a democratização do acesso ao crédito. entre outros aspectos: reconstruir a capacidade de ação do Estado. Refletindo o desencanto com as políticas aplicadas em muitos casos. a colocação ao alcance de toda a população da tecnologia informática. uma reforma fiscal orientada para uma imposição mais eqüitativa e a eliminação da evasão fiscal.. transparente. Aparece em seu imaginário com força crescente que é possível. 2000). uma pesquisa maciça do Latín Barómetro (2000) encontra. entre outros: a integração regional. responsável. a pesquisa informa que 57% não estão de acordo com o argumento de que a privatização beneficiou seu país. na deterioração experimentada pelas expressões tradicionais de organização social e nas dificuldades da micro e pequena empresa para conseguir um funcionamento que as projete econômica e socialmente”. articular uma estreita cooperação de esforços entre . com um serviço civil profissionalizado. o acesso à propriedade da terra para os camponeses..” A população latino-americana não aceita a falácia de que não há outras alternativas senão as que conduzem necessariamente a altíssimos custos sociais e ao desencanto. resumindo seus resultados. avançar com as singularidades de cada país. a generalização de possibilidades de acesso à educação pré-escolar e da conclusão do ensino fundamental e médio. diretora da pesquisa. como o fizeram outros países no mundo.

Buscar caminhos diferentes exige enfrentar e superar estas e outras falácias semelhantes. permitam-nos elevar a voz do grande escritor latino-americano. de fato. Carlos Fuentes: “Algo se esgotou na América Latina. diante das falácias. a voz divina proclama: “não sujeitarás a julgamento o sangue do teu próximo” (Levítico. os pretextos para justificar a pobreza”. com freqüência. No texto bíblico. desestimar o papel da sociedade civil e do capital social. Isto aparece em primeiro lugar como uma exigência ética. . reforçam-nas estruturalmente visões como: negar a gravidade da pobreza. Ademais. não considerar a irreversibilidade dos danos que causa. praticar políticas ativas pró-apoderamento e participação das comunidades desfavorecidas. que apresentam uma visão distorcida dos problemas sociais da América Latina e de suas causas e levam a graves erros nas políticas adotadas. mas obscurecem a busca das causas e pretendem legitimar algumas delas. cujos direitos humanos elementares estão. é trabalhar por restituir cidadania a grande parte dos habitantes da região. 19: 16). é parte dos retrocessos e da dificuldade para melhorar a situação. Estas visões não são a causa única dos problemas. Um olhar de conjunto Vimos como a existência de falácias de ampla circulação. esquivar as discussões éticas e apresentar o modelo reducionista que se propõe. que possuem raízes profundas internas e externas. argumentar que o crescimento econômico sozinho resolverá os problemas. aviltados pelas carências sociais. As sociedades latino-americanas e cada um de seus membros não podemos ser indiferentes diante dos infinitos dramas familiares e individuais que dia a dia surgem da problemática social da região. atacar frontalmente as causas da pobreza. como a única alternativa possível. desvalorizar a função das políticas sociais.46 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Estado e sociedade civil. bloquear a utilização da participação comunitária. Todos eles podem ser meios formidáveis numa sociedade democrática. devem ser autocríticas com as racionalizações da situação e dos auto-enganos tranqüilizadores. 11. desconhecer a transcendência do peso regressivo da desigualdade. para mobilizar as enormes capacidades de construção e progresso latentes nos povos da América Latina. Não contribuem para superar a pobreza e a desigualdade e. desqualificar totalmente a ação do Estado. desenvolver a responsabilidade social do empresariado. não dando lugar às negativas e tergiversações. ao contrário. Ao mesmo tempo. com suas falácias implícitas. Por último.

Percorre toda a história do continente. em diversas áreas. surge uma sociedade com grandes fraturas. De tudo isso. No entanto. e atualmente é objeto de contínuas lutas. Assim. com grandes sacrifícios. sucedem-se os esforços para denunciar as discriminações de qualquer espécie. Nestes tempos em que. 47 Capítulo 2 CONFRONTANDO AS REALIDADES DA AMÉRICA LATINA: pobreza. e lutar para superá-las. percorrida por graves tendências à pauperização e à polarização social. particularmente da mulher pobre. . desigualdade e deterioração da família A visão de uma sociedade pluralista e uma aguda e silenciosa discriminação A aspiração a uma sociedade entre cujos pilares estejam o pluralismo e o respeito à diversidade encontra-se no centro do “sonho latino-americano”. e constituem o contexto propício para o aumento das discriminações. os povos conseguiram fazer avançar processos genuínos de democratização. a subordinação da mulher. tensão social e com freqüência. que estão despertando grande preocupação no interior dos países e em nível internacional. ideologias intolerantes que visam justificar tais fraturas.. tem profundas representações em nível nacional em quase todos os países.CONFRONTANDO AS REALIDADES . sonhos não são suficientes para mudar as duras realidades da região. a marginalização dos portadores de deficiências e dos idosos. a marginalização da população de cor em alguns países. que geram exclusão.. as extremas desigualdades no acesso a oportunidades socioeconômicas mantêm e intensificam dramas como a miséria em que vivem as comunidades indígenas.

O direito fundamental à constituição e desenvolvimento de uma família deveria ser um dos pilares dessa sociedade. a família sempre apareceu como a unidade básica do gênero humano. Neste trabalho desejamos. o acesso à assistência de saúde. As grandes cosmovisões religiosas ressaltaram que o peso da família nos planos moral e afetivo era decisivo para a vida. Independentemente de sua vontade. a essa perspectiva fundamental agregaram-se conclusões das ciências sociais que indicam que a unidade familiar realiza. efetuamos uma reflexão de conjunto. que é reforçada pela falta de políticas públicas ativas centradas na proteção da unidade familiar. Nos últimos anos. existe uma crescente revalorização do papel da família na sociedade. em um primeiro momento apresentamos alguns elementos sobre os papéis fundamentais que a família desempenha nas sociedades atuais e no próprio processo de desenvolvimento. A redescoberta da família Atualmente. Há uma grande discriminação nesse campo. caracterizando o contexto em que vivem as famílias latino-americanas.48 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Desejamos focalizar neste trabalho um aspecto das discriminações que percorrem a realidade da região e que deveria ser objeto de muito mais atenção. examinamos alguns impactos desse contexto sobre a unidade familiar. mas são limitadas as análises sobre o que está ocorrendo em uma questão vital: as possibilidades dos diversos estratos sociais de constituir uma unidade familiar sólida e estável. algumas se degradam e outras nem sequer chegam a se formar. contribuições de grande valor em campos muito concretos. que ali se está produzindo um silencioso drama de grandes proporções. Muitas famílias são destruídas ao se confrontar com a pobreza e a desigualdade. a distribuição de rendas. além disso. Os números indicam que são muito diferenciadas. Finalmente. Sob a perspectiva espiritual. Em segundo lugar. Tem-se falado das desigualdades que caracterizam a América Latina em planos como o acesso ao trabalho. a reflexão e o intercâmbio a esse respeito. fornecemos alguns dados sobre os agudos problemas sociais que atingem a região. Para tanto. . Tudo isso afeta visceralmente a visão de uma sociedade pluralista e diversificada. Em terceiro lugar. estimular a investigação. as oportunidades de educação. sobretudo. numerosos casais jovens não têm reais oportunidades de constituir ou manter uma família.

os textos didáticos. na saúde e na prevenção da criminalidade. negros e hispânicos. à infra-estrutura da habitação (aglomeradas e não-aglomeradas) e ao tipo de família. exceto o muito alto (mais de 50 mil dólares por ano). seu apoio e estímulo permanente a eles. A Secretaria de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos realizou um estudo sobre 60 mil crianças.CONFRONTANDO AS REALIDADES . as crianças que viviam com uma mãe divorciada ou que nunca se casara estavam claramente em pior condição que as pertencentes a famílias com os dois pais. 49 Entre outros aspectos. no desenvolvimento da inteligência emocional. Entre eles. em sua vida produtiva. a infra-estrutura escolar. tudo isso influi em todos os aspectos dos processos de aprendizagem. Muitos estudos corroboram essa tendência e o papel fundamental da solidez do núcleo familiar. não estão ligados apenas a seu quociente intelectual. as crianças de famílias com um só progenitor eram duas vezes mais propensas a ser expulsas ou suspensas na escola. portanto. a qualificação dos professores. o capital cultural que os pais trazem consigo. Atualmente há um interesse significativo pelo tema da chamada “inteligência emocional”. Em comparação com as crianças que viviam com os dois progenitores. seu nível de dedicação a acompanhar os estudos de seus filhos. Segundo conclusões da Cepal (1997).” As características da família também têm influência sobre outro tipo de educação. estariam elementos como o grau de coesão do núcleo familiar. mas têm estreita relação com suas qualidades emocionais. o bom desempenho e o sucesso das pessoas. grande influência nos resultados educativos. Segundo indicam as pesquisas de Goleman (1995) e outras. a sofrer problemas emocionais ou de conduta e a ter dificuldades com os colegas.. Aspectos básicos da estrutura familiar teriam. no caso dos dois sexos e igualmente para os brancos. há outros fatores que nele incidem. as pesquisas destacam o papel da família no desempenho educacional.. 60% das diferenças no desempenho estariam vinculadas ao clima educacional da família. a seu nível socioeconômico. Também eram muito mais inclinadas a ter uma conduta anti-social. A qualidade das escolas tem grande peso no desempenho educativo. nas formas de pensar. Entre os componentes desta ordem particular de inteli- . como mostram as pesquisas. os outros materiais de apoio utilizados. Wilson (1994) informa sobre suas conclusões: “Em todos os níveis de renda. a emocional. Contudo. O currículo.

que as crianças nascidas fora do casamento têm uma taxa de mortalidade infantil muito maior e que as crianças que não vivem com seus pais sofrem maiores prejuízos em diferentes aspectos do desenvolvimento psicomotor. Se. mas reduzidas qualidades nessa ordem. maneiras de lidar com o emocional que vão incidir sobre seus próprios estilos de comportamento. Katzman (1997) assinala. sem perguntar muito sobre seus fundamentos. As crianças percebem nas relações entre seus pais. de imposição autoritária e de diálogo democrático. a forma de pensar que se desenvolve é crítica. a facilidade para estabelecer relações interpessoais saudáveis e para interagir em grupos. Naum Kliksberg (1999) assinala a esse respeito que a criança se vincula com seus pais e irmãos através de três modalidades básicas: “de aceitação passiva. 1993) examinou a situação familiar dos jovens em centros de detenção juve- . Uma preocupação central de nossa época é o aumento da criminalidade em diversos países. em contrapartida. encontram-se o autodomínio. nos primeiros anos. gera-se uma forma de pensar “submissa” que aceita argumentos e posições. A família tem um grande peso na constituição e desenvolvimento da inteligência emocional. sabe-se ouvir o outro. se predomina o modelo de aceitação passiva. O pesquisador enfatiza que. Em pesquisas sobre esse ponto. procura-se entendê-lo e explicar seu modo de agir. a persistência. Um estudo nos Estados Unidos (Dafoe Whitehead. Outro aspecto em que a família com sua dinâmica vai moldando perfis de comportamento nas crianças é o que se produz no campo das “formas de pensar”. e destes com elas. um desses modelos de interação tende a predominar”. a família aparece como um dos recursos fundamentais com que a sociedade conta para prevenir a criminalidade. desenvolve-se uma forma de pensar que tende a impor o próprio pensamento ao outro. Goleman destaca que: “A vida em família é nossa primeira escola para a aprendizagem emocional”. Os valores inculcados nas crianças na família a esse respeito. resumindo estudos realizados no Uruguai. e os exemplos de conduta observados vão influenciar consideravelmente suas decisões e condutas futuras. No campo da saúde. Se a interação habitual é a autoritária. e outros semelhantes. centrada unicamente nas coerções necessárias para atingir esse objetivo. Verificou-se que freqüentemente pessoas de inteligência emocional elevada têm melhores resultados que outras com quociente intelectual maior.50 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL gência. a capacidade de automotivação. Nas famílias. o modelo de interação é “de diálogo democrático”.

. As políticas públicas da Comunidade Econômica Européia oferecem. oferece serviços de saúde em forma de cuidado de doentes e crianças que teriam um custo elevado se tivessem de ser fornecidos pelo mercado ou pelo setor público. que é também a que tem uma rentabilidade mais elevada”. amplas licenças-maternidade remuneradas. o parto e o período posterior. 1999) reclama “a universalização (na Espanha) dos serviços de ajuda à família”. entre outros aspectos: garantias plenas de atenção médica adequada para as mães durante a gravidez. é ali que ocorre a primeira educação que uma criança recebe. Outro trabalho (Navarro. Por outro. 1990) afirma que “a família é uma fonte importante de criação de capital humano. não há razão nenhuma para que não se subvencione também a educação dada em casa”. como as creches e serviços de ajuda domiciliar a idosos e incapacitados. subvenções às famílias com filhos. exaltadas em religiões como a cristã e a judaica. Em suma. Diante disso. entre outras. Por um lado. 51 nil no país e verificou que mais de 70% provinha de famílias com pai ausente. em diversos países desenvolvidos existe um ativo movimento de criação de condições favoráveis ao bom desenvolvimento e fortalecimento da família. Diante dessa revalorização internacional do papel da família e da verificação de suas enormes possibilidades de contribuição para a sociedade. juntamente com suas históricas e decisivas funções afetivas e morais. o que ocorre de fato na América Latina? Qual é o contexto socioeconômico atual e como afeta as famílias concretas da região? . Refletindo muitas opiniões semelhantes. ele se pergunta: “na prática. e demonstra que ela é factível em termos de custos econômicos. como os nórdicos. que vão de três meses em Portugal a 28 semanas na Dinamarca. a realizada em escolas públicas ou privadas? Se esse tipo de educação é subvencionado. A necessidade de fortalecer a instituição familiar e de apoiá-la de modo concreto tem muitos defensores. cumpre funções essenciais para o bem-estar coletivo.CONFRONTANDO AS REALIDADES . o setor público está financiando grande parte dos gastos com educação na maioria dos países? A pergunta imediata é: então. estabeleceram amplos serviços de apoio à família. um estudo espanhol (Cabrillo. a família. deduções fiscais. por que só uma parte da educação.. A partir dessa visão. Diversos países.

em 1997. estimativas oficiais situam a pobreza em cerca de 80% da população. Efetivamente. 73% dos hondurenhos. 1999) que 10 milhões de pessoas (41. estimou-se que 43. A essas altas taxas soma-se o aumento da porcentagem de mão-de-obra ativa que trabalha na economia informal.2%. A Igreja. que considera que seus problemas de maior gravidade se encontram na área social. A sociedade civil indicou.5%. uma estimativa recente (1999) revela que 45% da população infantil. os números são piores para a população indígena.6 milhões de centro-americanos vivem na pobreza e 40% deles encontram-se na miséria. No Equador. A informa- . com reduzida produtividade e baixas rendas. 68% dos nicaragüenses e 53% dos salvadorenhos. fez reiterados apelos a dar a máxima prioridade às graves dificuldades por que passam extensos grupos da população. A região apresenta elevados níveis de desemprego e emprego informal.52 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL As agudas problemáticas sociais A evolução da situação social da região gerou grande alarme em amplos setores. menor de quatorze anos. estimativas nacionais próximas indicam que grandes setores da população estão abaixo da linha de pobreza em numerosos países. e em 1999 era estimada em 9. para 8. 40 milhões vivem em pobreza absoluta.4%. 1999) assinala que mais de 60% dos 34.5% da população ganha menos de dois dólares por dia. por intermédio de suas maiores autoridades. Segundo o informativo. em 1998. e dois em cada cinco carecem de água potável e saneamento básico. No Brasil. entre eles as Nações Unidas e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A taxa de desemprego médio subiu de 7. Estima-se (Fundacredesa. por exemplo. Na Venezuela. que são uma causa central da evolução da pobreza. Mais de 10 milhões de centro-americanos (29% do total) não têm acesso a serviços de saúde. Na Guatemala.5% da população encontra-se na pobreza. chamaram a atenção para os inquietantes déficits sociais. constituída em partes importantes por ocupações instáveis. por diversos meios. O informativo Estado da Região (PNUD-União Européia. vive abaixo da linha da pobreza. sem base econômica sólida. Um terço dos habitantes é analfabeto. Diversos organismos internacionais. Os números respectivos revelam que se encontram abaixo do nível de pobreza 75% dos guatemaltecos. e pela ausência de qualquer tipo de proteção social. a pobreza é de 86% entre os indígenas e de 54% entre os não-indígenas. estima-se que 62. Na Argentina.74% da população) encontram-se em extrema pobreza.

CONFRONTANDO AS REALIDADES ...

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lização implica, como ressalta Tokman (1998), um processo de queda da qualidade dos trabalhos existentes. Em 1980, 40,6% da mão-deobra não-agrícola ocupada trabalhava na economia informal; atualmente a porcentagem chega a 59%. A isso se alia a precarização. Há um número crescente de trabalhadores sem contrato e sob contratos temporários. Cerca de 35% dos assalariados encontram-se nessas condições na Argentina, Colômbia e Chile, e 74% no Peru. Um dos pontos de preocupação central, com múltiplas conseqüências, é que as sérias dificuldades de emprego são ainda maiores nos grupos jovens. É o que indica o quadro a seguir.
Quadro 1 Taxas de desemprego aberto entre os jovens Áreas urbanas País Sexo Taxa de desemprego, total da população Taxa de desemprego, população entre 15 e 24 anos 22,8 20,3 26,7 14,3 12,4 17,0 16,2 11,9 21,0 16,1 14,0 19,3 24,7 19,8 31,5

Argentina

Total Homens Mulheres

13,0 11,5 15,5 17,4 16,4 18,9 18,0 15,4 11,6 16,8 15,9 18,4 19,7 17,3 13,0

Brasil

Total Homens Mulheres

Colômbia

Total Homens Mulheres

Chile

Total Homens Mulheres

Uruguai

Total Homens Mulheres

Fonte: Cepal. Panorama social de América Latina, 1996. Apud: MINUJÍN, A. Vulnerabilidad y exclusión en América Latina. In: BUSTELO & MINUJÍN, A. Todos entran. Unicef/Santillana, 1998.

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FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL

Como se observa, o desemprego entre os jovens quase duplica em todos os países cujas economias apresentam elevado desemprego médio. Isso cria um foco de conflito muito sério. Além disso, observa-se uma clara disparidade de gênero, uma vez que o desemprego é maior entre mulheres jovens que entre homens jovens. Desemprego, subemprego e pobreza estão estreitamente ligados e levam a carências de todo tipo na vida cotidiana. Uma de suas expressões mais extremas é a presença, em diversos países, de quadros alarmantes de desnutrição. Na América Central, estima-se que um terço das crianças com menos de cinco anos apresenta peso e altura menores que os que deveriam ter. Na Nicarágua, entre outros casos, estimativas do Ministério da Saúde (1999) indicam que 59% das famílias cobrem menos de 70% das necessidades de ferro que o organismo requer; 28% das crianças com menos de cinco anos sofrem de anemias em decorrência do baixo consumo de ferro; 66 crianças em cada cem apresentam deficiências de saúde por carência de vitamina A; e 80% da população consome apenas 1700 calorias diárias, quando a dieta normal não deveria ser inferior a 2125 calorias. A desnutrição e outros fatores levam a pronunciadas diferenças de peso e altura. Na Venezuela, uma criança de sete anos das camadas altas pesa cerca de 24,3 kg e mede 1,219 m. Uma criança de mesma idade, das camadas pobres, pesa 20 kg e mede 1,148 m. A desnutrição ocorre até mesmo em realidades como a da Argentina. Estima-se que uma em cada cinco crianças da área mais povoada do país, a grande Buenos Aires, padece de problemas dessa ordem. Um informe da Organização Pan-Americana da Saúde e Cepal (1998) destaca sobre esse problema:
“Em quase todos os países da região observa-se um aumento das doenças não-transmissíveis crônicas associadas à alimentação e nutrição.”

A desnutrição e outros aspectos da pobreza levam as crianças a apresentar grandes atrasos, que afetarão toda sua existência. Estudos do Unicef (1995) identificaram atrasos no desenvolvimento psicomotor de uma mostra de crianças pobres a partir dos 18 meses de idade. Com cinco anos, metade das crianças da mostra examinada apresentaram atrasos no desenvolvimento da linguagem, 40% em seu desenvolvimento geral e 30% em sua evolução visual e motora.

CONFRONTANDO AS REALIDADES ...

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Além da pobreza, a situação social da América Latina se caracteriza por acentuadas desigualdades. Como ressaltou repetidamente Enrique V. Iglesias, “pobreza e desigualdade são os dois tópicos pendentes” da região. A região se converteu, segundo indicam os números, no continente de maior polarização social do mundo. O Informe do Progresso Econômico e Social do BID (1998/99) oferece os seguintes números a esse respeito:

Gráfico 1 Renda dos 5% mais ricos (porcentagem da renda total)
0.26

América Latina África

Renda dos 5% mais ricos/Renda total

0.24

0.22

0.20

Ásia Meridional

0.18

Ásia Oriental
0.16

0.14

Desenvolvidos
0.12 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000

PIB per capita

Na América Latina, como se observa, os 5% mais ricos da população recebem 25% da renda. A proporção supera o que recebem os 5% mais ricos em outras áreas do mundo. Por sua vez, é a região onde os 30% mais pobres da população recebem a menor porcentagem de renda (7,6%) em relação a todos os outros continentes, como se verifica no gráfico a seguir do BID. Medida em termos do Coeficiente de Gini, que avalia o nível de desigualdade na distribuição de renda de uma sociedade, a América

O da América Latina supera amplamente os . como se pode ver a seguir: Quadro 2 Desigualdade comparada (medida com o Coeficiente de Gini) Países mais desenvolvidos em termos de igualdade (Suécia.12 0. Países Baixos etc.11 África 0.40 0.56 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Gráfico 2 Renda dos 30% mais pobres (porcentagem da renda total) 0. melhor é a distribuição de renda em uma sociedade.25 a 0.30 0. em nível mundial. 1998.09 0.) Países desenvolvidos Gini médio universal América Latina 0.08 América Latina 0. Latina apresenta o pior Coeficiente de Gini.13 Desenvolvidos Renda dos 30% mais pobres/Renda total Ásia Meridional Ásia Oriental 0.07 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 PIB per capita Fonte gráficos 1 e 2: BID-IPES.10 0.30 0. Dinamarca.57 Quanto menor o Coeficiente de Gini.

entre outros estudos. As conclusões estão expressas no Gráfico 3. deterioram o clima de confiança interno e debilitam a governabilidade democrática. É o que indicam. aumentam a pobreza. que já eram elevados. limitam o mercado interno. a seguir. A linha quebrada é uma simulação econométrica que indica qual teria sido essa evolução se a estrutura de distribuição de renda do início dos anos 1970 tivesse se mantido. Nesse caso. os mesmos níveis que apresentava no início dos anos 1970. nos anos 1980.CONFRONTANDO AS REALIDADES . As acentuadas desigualdades sociais da região têm impactos regressivos em múltiplas áreas. 57 dos países mais eqüitativos e é significativamente mais elevado que a média mundial. têm diversos efeitos negativos sobre o sistema educacional.. Gráfico 3 O impacto da desigualdade sobre a pobreza na América Latina 1970-1995 160 140 120 100 80 60 1970 1974 1978 1982 1986 1990 1994 Fonte: Birdsall & Londoño. os realizados por Birdsall e Londoño (1997). A piora da desigualdade atuou como um fator de grande peso no aumento da pobreza na região. favorecem a exclusão social.. mas depois se acentuaram. prejudicam a saúde pública. 1997. afetam a produtividade. segundo estimam os autores. Os pesquisadores calcularam qual seria a curva de pobreza da América Latina se a desigualdade tivesse seguido. A linha sólida do quadro indica a evolução da pobreza em milhões de pobres entre 1970 e 1995. a pobreza teria sido a metade do . Desigualdade e pobreza estão estreitamente ligadas. Entre elas: reduzem a capacidade de poupança nacional.

a família? Alguns impactos da situação social sobre a família latino-americana A família é um âmbito determinante dos graus de crescimento. significativamente debilitada. A correlação com a pobreza é muito estreita. realização. Esse tipo de família dificilmente pode cumprir as funções potenciais da unidade familiar. em relação às famílias. o que contribui acentuadamente para o fenômeno conhecido como ‘feminilização da pobreza’. equilíbrio. Está surgindo o perfil de uma família desarticulada em aspectos importantes.58 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL que efetivamente foi. por sua debilidade. Os estudos da Cepal evidenciam a maior pobreza relativa — muitas vezes a indigência — das famílias a cargo de uma mulher. caracterizadas em uma seção anterior. Mulheres sozinhas chefes de família Um número crescente de unidades familiares tem apenas um dos progenitores à frente. Entre as principais expressões dos processos em curso. causado pelo aumento da desigualdade. Qual é o impacto da pobreza e da desigualdade sobre uma instituição fundamental do tecido social. Há um “excesso de pobreza”. a mãe.” . Isso faz com que o último reduto com o qual a sociedade conta para fazer frente às crises sociais careça. Uma grande porcentagem de mulheres chefes de família pertencem a camadas humildes da população. A deterioração de parâmetros socioeconômicos básicos da vida cotidiana de amplos setores da população da região está incidindo silenciosamente em um processo de reestruturação de numerosas famílias. de importantes dimensões. da possibilidade de fazer o papel que poderia desempenhar. encontram-se as que são apresentadas resumidamente a seguir. instável. saúde e plenitude efetiva que as pessoas podem alcançar. A sociedade e seus membros apostam aspectos centrais de seu progresso e bem-estar nas condições em que atuam as estruturas familiares. na imensa maioria dos casos. Um estudo BID-Cepal-PNUD (1995) descreve a situação assim: “Na quase totalidade dos países da América Latina a porcentagem de famílias chefiadas por mulheres é superior a 20%.

os pais trazem aos filhos ativos fundamentais para a vida. nas condições dos mercados de trabalho modernos. O número. cria condições propícias para sentimentos de inferioridade. além disso. como revela o pesquisador. e iv) como capital social. de isolamento. particularmente porque as mulheres ganham entre 20% e 50% menos que os homens.8% das crianças internadas no Uruguai viviam com sua mãe. . especialmente para os meninos. Katzman (1997) reconstrói o quadro resultante. elimina uma fonte fundamental de orientação em aspectos morais. Estes exigem um nível de preparação cada vez maior. pesa muito no desenvolvimento da inteligência emocional. 30. e 5. abala a saúde. As crianças e jovens de famílias desarticuladas carecem desse capital social-chave. iii) como suporte material. tanto no mundo do trabalho como no da política e que. ressentimento. o que significa processos educativos cada vez mais extensos. As conseqüências podem ser muito concretas. Isso afeta o rendimento educacional em decorrência do empobrecimento do clima socioeducativo da família. Katzman verifica que apenas um em cada três fazia parte de uma família normal quando se produziram os fatos que levaram a sua internação. já que a falta da contribuição do pai reduz consideravelmente as rendas da família. como assinala o autor..” A ausência do pai significará a inexistência de todos esses ativos. Além de seu significado em termos afetivos. Contar com uma família integrada. Afirma sobre o papel do pai: “A presença do pai é fundamental para prover ou reforçar certos ativos das crianças: i) como modelo forjador de identidades.8% com um padrasto ou madrasta. ao se cortar a ligação com as redes de parentes por parte do pai. de criação de hábitos de disciplina e transmissor de experiências de vida. que apóie emocional e praticamente esse esforço prolongado. agressividade. Pesquisando o caso de menores internados no Instituto Nacional do Menor. na medida em que a ausência do pai implica a perda de um ponto de contato com as redes masculinas.4% sem seus pais. é estratégico para obter tal nível de preparação. é sugestivamente similar ao que apresenta o estudo sobre centros de detenção juvenil nos Estados Unidos: 63. diminuem significativamente os vínculos familiares potenciais.CONFRONTANDO AS REALIDADES . As grandes desvantagens relativas das crianças criadas em famílias desse tipo tornam-se mais agudas.. no Uruguai. ii) como agente de contenção. 59 Efeitos da família incompleta sobre os filhos As conseqüências de pertencer a uma família em que o pai está ausente são muito consideráveis. Em uma investigação pioneira sobre o tema.

Em muitos desses casos. mostra também um grande temor pela instabilidade que caracteriza o mercado de trabalho. O jovem cônjuge sente-se assim muito solicitado. e desacreditado. o jovem não vê a possibilidade de encontrar um emprego estável que lhe permita cumprir o papel de provedor principal da renda familiar. uma porcentagem significativa da população. Sentem prejudicada sua auto-estima no âmbito externo. ganha salários mínimos que se encontram abaixo das rendas que seriam necessárias para suprir os gastos básicos de uma família. do desemprego e da informalidade na região. o que aumenta as taxas de famílias irregulares e instáveis (concubinatos). A resistência a formar família . Percebe que lhe será quase impossível enfrentar as obrigações que isso supõe. A situação geral. Nascimentos ilegítimos Um claro sintoma de deterioração da unidade familiar é o aumento do número de filhos ilegítimos. que se espera dele. impotente para poder enfrentar as demandas. influenciado pela mensagem dos meios de comunicação de massa. como indicam as pesquisas. e no familiar. por não poder cumprir com a obrigação de prover boa parte da renda familiar. com emprego. Nessas condições. pela dificuldade de encontrar emprego estável. o jovem não se vê no papel de marido e pai de uma família estável. Em psicologia social afirma-se que. Katzman (1992) sugere que a aparente “irresponsabilidade” com que agem seria influenciada pela sensação de que estão perdendo legitimidade em seu papel de maridos e pais. Um conflito semelhante parece ser um dos desencadeadores do abandono do lar por parte de jovens das zonas pobres urbanas. A tudo isso se somam dificuldades objetivas como as severas restrições para ter uma casa própria. A isso se soma um crescente nível de expectativas de consumo nos filhos de famílias humildes. mesmo que ela conte com a contribuição feminina. Essa tendência parece muito influenciada pelo crescimento da pobreza. as pessoas ou tendem a enfrentá-las até as últimas conseqüências ou a produzir os chamados mecanismos de “fuga”.60 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL A resistência a formar e manter famílias Uma proporção crescente de homens jovens das camadas humildes resiste a constituir famílias estáveis. nessas situações altamente opressivas. porque não estão agindo de acordo com o que se espera deles. Por outro lado.

em apenas 18 anos o número de filhos ilegítimos em Montevidéu aumentou 65%. Nas zonas rurais. É também uma causa importante do aumento de crianças ilegítimas a que nos referimos antes e constitui. a porcentagem é de 20% nos centros urbanos e de 32% nas áreas rurais. mais alta é a taxa de maternidade adolescente. Nos 25% seguintes. uma fonte de famílias extremamente frágeis. 1997. nos 25% mais pobres da população. Na grande maioria dos casos. em nível de renda. 61 estimula o crescimento da taxa de nascimentos desse tipo. com os filhos. Fica só a mãe. estão concentrados nos 50% mais pobres da população. 1975. por si só. 80% dos casos de maternidade adolescente urbana. . Mães precoces Aumentou significativamente na região o número de mães adolescentes. a maternidade na adolescência não constitui famílias integradas.9 23. Os estudos de Katzman sobre o Uruguai mostram a seguinte tendência: Quadro 3 Uruguai: ilegitimidade de nascimentos Em Montevidéu. mas é alta em todas as idades. 1984 e 1993 Anos 1975 1984 1993 Fonte: Katzman.. Nas zonas rurais. observa-se que quanto maior é o nível de pobreza.CONFRONTANDO AS REALIDADES . a porcentagem chega a 40%. 32% dos nascimentos são de mães adolescentes. A ilegitimidade apresenta-se mais elevada entre as mães mais jovens. Mesmo no interior dos setores pobres.5 Como se observa. Nos centros urbanos. Taxas de ilegitimidade 20. Segundo os números disponíveis. No total. está estreitamente ligada à pobreza. os números são os seguintes: 70% dos casos nos 50% mais pobres e 12%. da região. nos 25% mais ricos. ao passo que nos 25% mais ricos só ocorrem 9% dos casos..8 34.

Segundo estimativas de Buvinic. Nos centros urbanos da região. a porcentagem de casos de maternidade adolescente diminui para 30%. de violência física. a violência doméstica causa graves danos à estrutura familiar e tem repercussões de todo tipo nos filhos. e nas que têm 13 anos de estudo ou mais. Dentre essas crianças. 63% repetem anos escolares e abandonam a escola. e entre 10% e 35%. é inferior a 10%. verificam-se condições que facilitam a gravidez adolescente. Os números indicam que as mães pobres adolescentes têm entre 25% e 30% menos de capital educativo que as mães pobres que não tiveram gravidez adolescente. Um estudo realizado pelo BID na Nicarágua (1997) mostra que os filhos de famílias com violência intrafamiliar são três vezes mais propensos a passar por consultas médicas e são hospitalizados com mais freqüência. Com limitada escolaridade (lembre-se que a escolaridade média de toda a América Latina é de apenas 5. como os que estão ocorrendo na região. para a geração de famílias muito frágeis.62 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL A forte correlação entre pobreza e maternidade adolescente permite inferir que aumentos na pobreza. A situação que se esconde por trás da gravidez adolescente nos setores desfavorecidos configura um “círculo perverso regressivo”.2 anos e a dos setores pobres é consideravelmente menor). Nas jovens com 10 a 12 anos de estudo. Uma variável central nesse processo é um componente da pobreza: as carências educacionais. Violência doméstica O fenômeno da violência doméstica tem grande amplitude na região. Supera as médias nacionais de 32%. Morrison e Shifter (1999). Além de sua crueldade básica. a porcentagem de mães adolescentes entre as jovens urbanas com menos de seis anos de educação é de 40%. No grupo que tem de 6 a 9 anos de estudo. diminui para 15%. e de suas múltiplas repercussões sobre a mulher. as mães adolescentes verão reduzidas suas possibilidades de encontrar trabalho e ter renda. a maternidade na adolescência vai levar essas jovens a interromper seus estudos. de modo que a situação de pobreza se consolida e se aprofunda. A pobreza e a desigualdade influenciam severamente tais setores em matéria educativa. Por sua vez. entre 30% e 50% das mulheres latino-americanas — segundo o país em que vivem — sofrem de violência psicológica em seus lares. em mé- . portanto. servirão de estímulos para esse tipo de maternidade e. e filhos. Ao ter menor nível educativo.

São jornadas extensas. entre eles o de Strauss (1980). indicam que a taxa de condutas dessa ordem. A pressão das carências desencadeia uma série de situações que afetam duramente as crianças. por exemplo. a situação da criança que trabalha é muito dura e contradiz os acordos internacionais vigentes de proteção da criança e os objetivos básicos de qualquer sociedade. Incapacidade da família de proporcionar uma infância normal A pobreza e a desigualdade põem numerosas famílias em sérias dificuldades para poder dar a seus filhos a infância que desejariam e que seria ideal. nenhuma proteção social. Por outro lado. o que os levará a constituir famílias com sérias deficiências. aos 9 anos de idade. tornam extremamente tensas as relações intrafamiliares e criam ambientes propícios a esse fenômeno. a violência doméstica é também um modelo de referência passível de ser reproduzido pelos filhos. o abandono do sistema educacional. fatal para a integridade da família. no Chile.. De acordo com Buvinic (1997). ou procura trabalho para poder levar algum dinheiro para a família carente de que provém e poder subsistir pessoalmente. antes mencionadas.CONFRONTANDO AS REALIDADES . graves riscos de acidentes de trabalho. As realidades cotidianas de desemprego. O trabalho da criança em muitos casos também implica o atraso escolar ou. e outros processos de deterioração econômica. o que a colocará em condições de inferioridade para ingressar no mercado de trabalho no futuro. supera amplamente a observada em filhos de famílias sem violência. subemprego. Obedece em muitíssimos casos a razões essencialmente econômicas. os casos de violência física são cinco vezes mais freqüentes nos grupos de baixa renda. magras remunerações. e a violência física grave é sete vezes mais comum neles. informalidade.. em crianças que presenciaram esse comportamento em suas casas. Como assinalou reiteradamente a OIT. Uma das principais expressões da problemática que se apresenta é a figura da criança que trabalha desde cedo. diretamente. É mandada a trabalhar. Essa relação também se verifica em outros países. As crianças de famílias sem violência permanecem em média até os 12 anos na escola. a pobreza aparece claramente como um fator de risco-chave. Embora o fenômeno seja muito complexo e sofra a influência de numerosas variáveis. Diversos estudos. criam todo tipo de conflitos na unidade familiar e impedem que a família cumpra muitas de suas funções. . 63 dia.

oculta: as meninas que trabalham como empregadas domésticas. 54% de crianças e jovens urbanos de 6 a 14 anos de idade trabalhavam. 25% das crianças de 10 a 14 anos fazem parte da força de trabalho. Segundo dados do Unicef (1995). México. e em muitas outras cidades. Bogotá. nesse país pelo menos 5 milhões de crianças trabalham e a metade delas abandonaram a escola. Na Colômbia. diretor de uma das organizações não-governamentais com mais atividades e sucessos neste campo. 380 mil crianças e jovens de 12 a 17 anos trabalhavam em áreas urbanas e 708 mil em áreas rurais. Os menores abandonados Existe na região uma população crescente de crianças que vivem nas ruas de muitas cidades. No Haiti. doentes”. mas parece que tende a aumentar significativamente. Segundo Barker & Fontes (1996). com sede na Costa Rica. que sempre denunciou esta situação desumana. e outros 300 mil. porque a resposta da . Tegucigalpa.076. O vínculo entre pobreza e trabalho infantil é muito estreito. A cada dia buscam o sustento para viver. Os pesquisadores acrescentam uma categoria especial. vivendo longe de suas famílias. no total. Setenta por cento trabalha entre 5 e 14 horas diárias.000 menores trabalhavam na economia informal. entre outros países. São perseguidas por grupos de extermínio e estima-se que não menos de três menores abandonados são assassinados diariamente em cidades do Brasil. exploradas. a Casa Alianza. No Brasil. Na Argentina. na economia formal. estima-se que 54% das crianças menores de 17 anos que trabalham provêm de famílias com renda per capita inferior ao salário mínimo. Não se conseguiu quantificar seu número preciso. 214 mil crianças de 10 a 14 anos trabalham. Segundo estimativas da OIT (1999). destacou: “É um fenômeno social não atendido que se converteu em um problema. e o mesmo ocorria com 17. segundo a OIT (1999). as caracterizou como “crianças abandonadas. na casa de seus patrões. Segundo um estudo da Comissão de Emprego e Bem-estar Social do Congresso do México (1999). Elas podem ser encontradas no Rio de Janeiro. Estão expostas a todo tipo de perigos. em 1992. em um estudo preparado para o Banco Mundial. na Venezuela 1. São Paulo. 17 milhões de crianças trabalham na América Latina.64 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Os dados nacionais disponíveis seguem a mesma tendência. no Brasil 50% dos jovens de 15 a 17 anos estavam trabalhando em 1990. 9% das meninas de 15 a 19 anos de idade exerciam esse tipo de trabalho. O papa João Paulo II. sobrevivendo em condições brutais. No Peru. Bruce Harris. Na Colômbia. em 1990.2% das crianças de 10 a 14 anos.

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sociedade em geral é repressiva, em vez de investir para que tenham as oportunidades que muitos de nós tivemos”. A presença e o aumento de menores de rua estão relacionados a muitos fatores, mas denotam claramente uma ruptura profunda da estrutura básica de contenção, a família. Os processos de erosão e de desarticulação familiar, de constituição de famílias precárias e as tensões extremas que a pauperização gera no interior da família minam silenciosamente a capacidade destas de manter essas crianças em seu seio. É uma situação limítrofe que indica a gravidade do silencioso enfraquecimento de muitas unidades familiares da região. Todas as manifestações regressivas mencionadas: mulheres sozinhas chefes de família, resistência de homens jovens a constituir famílias, nascimentos ilegítimos, mães precoces, violência doméstica, incapacidade das famílias de proporcionar uma infância normal, menores abandonados, devem ser vistas, em seu conjunto, como parte desse quadro de enfraquecimento, devem ser privilegiadas nas políticas públicas e por toda a sociedade, e devem-se buscar soluções urgentes para elas. Uma reflexão de conjunto É possível enfrentar o conjunto de problemas identificados? Não é admissível nenhuma declaração de impotência a esse respeito: a América Latina tem enormes recursos potenciais de caráter econômico e uma história plena de valores para encarar problemas dessa ordem. Atualmente, conta também com um feito de proporções gigantescas, a democratização da região. Esse desafio deve ser prioridade para as democracias estabelecidas em toda a região, com tanto esforço e luta da população. É o que se espera de um sistema democrático. Amartya Sen (1981) mostrou como as grandes fomes do século XX ocorreram sob regimes ditatoriais. Em contrapartida, na democracia, a pressão da opinião pública, dos meios de comunicação, de diversas expressões da sociedade organizada obriga os poderes públicos a preveni-las. Os Estados e as sociedades latino-americanas devem propor amplos pactos sociais para fortalecer a família. As políticas públicas na região devem levar na devida conta a transcendência dos papéis desempenhados pela família e atuar em consonância com eles. No discurso público habitual na América Latina faz-se contínua referência à família, mas na verdade não há um regis-

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tro em termos de políticas públicas. São limitados os esforços para montar políticas orgânicas de proteção e fortalecimento da unidade familiar, acossada pelo avanço da pobreza e da desigualdade. Existem numerosas políticas públicas setoriais, dirigidas às mulheres, às crianças, aos jovens, mas poucas tentativas de armar uma política vigorosa para a unidade que os emoldura a todos, e que vai incidir profundamente na situação de cada um, a família. A política social deveria estar fortemente voltada para essa unidade decisiva. É preciso dar apoio concreto à constituição de famílias nos setores desfavorecidos, proteger detalhadamente as diversas fases da maternidade, respaldar a sobrecarga que se apresenta para as famílias com problemas econômicos nos momentos fundamentais de sua existência, dar-lhes apoio para erradicar o trabalho infantil e para que seus filhos possam se dedicar à escola, desenvolver uma rede de serviços de apoio às crianças (creches, subsídios para idosos e portadores de deficiências etc.), ampliar as oportunidades de desenvolvimento cultural e de lazer familiar. Isto exige políticas explícitas e que se conte com instrumentos organizacionais para sua execução, atribuição de recursos, alianças entre setor público e setores da sociedade civil que podem contribuir para esses objetivos. O peso da pobreza e da desigualdade sobre os setores humildes da América Latina está criando “situações sem saída”, que é imprescindível enfrentar, através de políticas como as mencionadas e outras que abordem os planos transcendentais do emprego, da produção e diversos aspectos econômicos. É inadmissível que possam continuar atuando “círculos viciosos” como o que é captado por um informe da Cepal (1997b) sobre a família. Ali se assinala que “segundo o país, entre 72% e 96% das famílias em situação de indigência ou pobreza têm pais com menos de nove anos de instrução”. Isto significa que a pobreza acarreta a limitada educação na América Latina, que, por sua vez, leva a formar famílias cujos filhos terão escolaridade reduzida, o que influirá para manter destinos familiares de pobreza por gerações e gerações. Poder-se-á argumentar que não existem recursos para levar adiante políticas familiares renovadas. É necessário, desde já, fazer todo o possível para que os países cresçam, melhorem sua produtividade e competitividade, e para que os recursos sejam ampliados, mas ao mesmo tempo se torna imprescindível não perder de vista as prioridades finais do desenvolvimento e deve-se procurar protegê-las. Sociedades mais pobres que outras têm, contudo, melhores resultados em termos de família, porque em suas políticas públicas e em suas atri-

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buições de recursos deram efetivo apoio às mães, às crianças e às unidades familiares. Deve-se também ampliar os recursos convocando toda a sociedade a participar ativamente de políticas de respaldo à família. Diversas sociedades avançadas do mundo contam, nesse campo, com importantes contribuições da sociedade civil e do trabalho voluntário. Ao fortalecer a família, melhora-se o capital humano da sociedade, eixo do crescimento econômico, e o desenvolvimento social, base da estabilidade democrática. Além disso, agir nessa direção não é apenas melhorar um meio, mas sim o fim último de toda sociedade democrática. A família é uma base fundamental para múltiplas áreas de atividade, mas é sobretudo um fim em si mesma. Fortalecê-la é dar um passo efetivo para as possibilidades de desenvolvimento das potencialidades do ser humano, é dignificá-lo, é ampliar suas oportunidades, é aumentar sua liberdade real. Cada hora que passa nesta América Latina, afetada pelos problemas sociais descritos, sem que haja políticas efetivas em campos como esse, significará mais famílias destruídas, ou que nem chegam a se formar, mães adolescentes, crianças abandonando a escola, jovens excluídos. A ética, em primeiro lugar, a proposta de pluralismo da democracia e o ideário histórico da região exigem que se somem esforços para agir com urgência para evitá-lo. Referências bibliográficas
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Em áreas tais como: comunicações. das populações maciças de todo o globo. biotecnologia. sua . informática. e têm sido expressas em alto e bom som por alguns dos líderes mais ouvidos do planeta.COMO REFORMAR O ESTADO . Tudo isso veio se dando ao mesmo tempo que a economia mundial ia se reconformando sob o impetuoso processo da globalização. genética e muitas outras. A capacidade conseguinte de produção de bens e serviços multiplica-se continuamente e. 69 Capítulo 3 COMO REFORMAR O ESTADO PARA ENFRENTAR OS DESAFIOS SOCIAIS DO SÉCULO XXI? Mais interrogações do que respostas As reivindicações vêm bem lá de baixo. Figuras do porte do papa João Paulo II e do secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Annan. abriu-se uma variedade de novos terrenos para o investimento. sua tendência à fusão e concentração.. por sua vez. A expansão acelerada dos grandes conglomerados empresariais internacionais. Produziram-se mudanças radicais em diversos campos que empurraram em pouco tempo até limites totalmente imprevisíveis as fronteiras tecnológicas.. Os avanços científico-tecnológicos das últimas décadas têm sido excepcionais. robótica. destacaram mais de uma vez em suas recentes aparições públicas que o século XXI abre-se com uma exigência fundamental: compatibilizar globalização econômica e crescimento tecnológico com eqüidade e desenvolvimento humano para todos. a taxa de inovação não reconhece precedentes em profundidade e velocidade.

fora da lógica do mercado.70 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL operação sob estratégias regionais. Nos anos 1980. assinalou recentemente: “A globalização destrói as indústrias tradicionais e cria. O resultado é a marginalização dos trabalhadores do mundo industrializado e também do menos desenvolvido que não dispõem de possibilidades para adaptar-se à nova situação”. pobreza e os problemas sociais em geral. em diversas sociedades em desenvolvimento. particularmente. Ao mesmo tempo que os avanços em pesquisa em saúde são prodigiosos. intercontinentais e planetárias. As cifras de pobreza aumentaram significativamente em muitas realidades nacionais. Que este resolveria por si só os problemas e que o Estado deveria. Segundo anota Jeffrey Sachs (1999). um aumento do número de desempregados superior ao que os setores industriais de tecnologia avançada são capazes de absorver. deixando de lado os cálculos em nível nacional. o desemprego juvenil estão incidindo num crescimento acelerado da criminalidade. jovem. Em outra área. Estas visões vinham substituir as . foram mudando parâmetros básicos do funcionamento das economias. por extensão. Este quadro global gerou uma infinidade de perguntas. infinitamente complexo e contraditório em campos como o desemprego. desmantelar-se e reduzir-se a sua mínima expressão. eqüidade. Predominavam correntes de opinião que consideravam que o Estado em quase todas as suas expressões era um “estorvo” para o mercado. O processo é portador de potencialidades imensas de desenvolvimento tecnológico e melhoria dos níveis de competitividade e produtividade das unidades empresariais envolvidas. em conseqüência. O secretário-geral da OIT. Juan Somavía (2000). mas se apresenta. que não obteria benefícios maiores investindo em suas pesquisas. a discussão a respeito parecia encerrada. A desigualdade alcançou níveis históricos recordes e se expandiu a numerosas esferas. em especial da criminalidade. a pobreza e. doenças como a malária e o paludismo de populações pobres ficam. por extensão. Como afrontar os novos desequilíbrios? Como conseguir capturar produtivamente para benefício do gênero humano em geral os tão promissores avanços tecnológicos e produtivos? Quais são as novas instituições e regras necessárias? A evolução da situação levou novamente a centrar aspectos do debate nos papéis que o Estado deveria desempenhar. aumentou o número de pessoas que perdem a vida por doenças que cientificamente podem ser combatidas. por seu lado. por outras causas. mas que não são controladas.

concentrando o poder e a riqueza num grupo seleto de pessoas. O Informe sobre Desenvolvimento Humano 1999 do PNUD focaliza alguns deles: “Quando o mercado vai longe demais no controle dos efeitos sociais e políticos. pode gerar desequilíbrios de enorme envergadura. Para isso. mercado e outro grande ator. a sociedade civil. Ambos os extremos produziram conseqüências muito discutíveis. países e empresas. ambos os extremos do pêndulo foram desmentidos pelos fatos concretos. O Banco Mundial (1997) assinalou em seu informe especial sobre o Estado que. e são revistas experiências de países que conseguiram avanços nessa direção. obtendo. A noção do Estado de Bem-Estar. Defende-se a idéia de um Estado de Bem-Estar produtivo.. e que papel o Estado poderia desempenhar a respeito.COMO REFORMAR O ESTADO . Diante da magnitude dos desequilíbrios sociais presentes. o desenvolvimento é muito difícil: “sem um bom governo. Quando o afã de lucro dos participantes no mercado se descontrola. nos pro- . O pêndulo girou de um extremo ao outro. mas que se estiver carente de regulações.. aparentemente totalmente deslegitimada durante o providencialismo de mercado. deixando à margem os demais. as oportunidades e as recompensas da mundialização difundem-se de modo desigual e inócua. 71 idéias de que o Estado sozinho poderia gerar o desenvolvimento. apontando basicamente para um plano da situação. bons resultados econômicos e a manutenção de elevados equilíbrios sociais como os nórdicos e países baixos. Quando o mercado se descontrola. não há desenvolvimento econômico nem social”. Este trabalho insere-se nessa situação em que há mais perguntas que respostas. está sendo reexaminada a partir de outras perspectivas. As linguagens estão mudando. que foram características de décadas anteriores. desejamos focalizar alguns delineamentos que deveriam ser considerados no momento de repensar o papel do Estado no campo do desenvolvimento social. desafia a ética dos povos e sacrifica o respeito pela justiça e pelos direitos humanos”. as instabilidades saltam à vista nas economias de auge e depressão. e hoje abre-se uma nova onda de perguntas sobre como alcançar um equilíbrio diferente entre Estado. particularmente no mundo em desenvolvimento. como a crise financeira da Ásia Oriental e suas repercussões em escala mundial. Hoje. devido a isso. Assim como foi errônea a concepção centrada na onipotência do Estado. sem um Estado eficiente. a realidade demonstrou que o mercado possui um grande potencial produtivo.

entre outros. expandiu-se no âmbito da internacionalização da economia e prossegue a escalada de inovações tecnológicas que criam novas possibilidades de satisfazer necessidades. que estão ativamente incluídos nos mesmos e. extrair algumas conclusões sobre como avançar em direção a esse perfil de Estado. queremos reconstruir um quadro sintético dos novos desafios de privações e desigualdades que se apresentam em nível mundial. que hoje percorre o planeta. em seu conjunto. Davos. a crua realidade indica que. Tanto em termos de países. Estas distâncias entre aqueles que ganharam e os que perderam tendem a aumentar e o problema em sua globalidade foi o eixo central nos mais importantes foros mundiais recentes. Resenham-se a seguir algumas das múltiplas dimensões em que se expressa esta dualidade perdedores/ganhadores. vivendo na pobreza extre- . inclusão/exclusão. UNCTAD e há um clamor generalizado por que se lhe dê a mais alta prioridade e se busquem modos de enfrentá-lo. que em diversos casos foram golpeados em seus modos de sobrevivência e equilíbrio tradicionais e que pertencem ao vasto campo dos excluídos. os da World Trade Organization. há setores muito importantes que ficaram à margem. bem denominado hoje no jargão popular. Entretanto. como. Um mundo de perdedores e ganhadores Impulsionada pelas revoluções tecnológicas em curso em diversos campos. Em segundo lugar.3 bilhão de pessoas ganham menos de um dólar por dia. Em primeiro lugar. no âmbito desse quadro. como no interior destes. por outro lado. a situação evoluiu no sentido. de “ganhadores e perdedores”. o comércio mundial. pontuar lições da experiência sobre linhas a serem consideradas para repensar como o Estado poderia auxiliar para enfrentar estes desequilíbrios. a produção mundial de bens e serviços tendeu a ampliar-se fortemente. há aqueles que se beneficiaram consideravelmente com os novos desenvolvimentos. por sua vez.72 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL pusemos a extrair lições dos erros cometidos nas últimas décadas na marcha quase tresloucada do pêndulo. Por último. Aumento da pobreza Segundo os dados do Banco Mundial (1998). quase 1. Desenvolveremos a respeito três etapas de raciocínio.

Os pobres apresentam uma altíssima vulnerabilidade em termos de saúde. os pobres compram. A água se transforma. 60 vezes mais. de condições mínimas de grande impacto em prevenção em saúde. Disparidades no acesso a um bem decisivo: a saúde Apesar dos enormes e tão positivos avanços da medicina em numerosos campos. Três bilhões de pessoas não possuem serviços de saneamento. 73 ma. A água que lhes chega é de qualidade duvidosa e isso os torna vulneráveis a epidemias e doenças. assim. como os mosquitos que medram na água. encontrando-se assim em situação de pobreza. recebem uma renda que não excede os dois dólares diários. metade da população mundial. como já mencionamos. em Karachi (Paquistão). Estima-se que a cada ano morrem 3. pagando por ela em média doze vezes mais do que o que pagam os estratos médios e altos. a água. indicam a magnitude das privações.4 milhões de pessoas por infecção direta da água. alimentos contaminados ou organismos portadores de doenças. as carências por parte dos pobres. numa parte importante do mísero orçamento dos pobres. A Comissão Mundial da Água (1999) informa que em seu desespero para ter água. como o saneamento básico. as famílias pobres pagam aos vendedores de água 20 vezes mais por metro cúbico do que o que pagam as famílias de classe média conectadas à rede de água corrente. o aumento da pobreza. A pobreza atinge ainda severamente outro campo fundamental que é a nutrição. 83. Segundo estimativas da FAO (1998). Estudos recentes sobre esse último fator essencial para a vida. em Jacarta. os problemas de desnutrição e a falta de acesso a serviços de saúde (880 milhões carecem deles) eram alguns dos fatores incidentes nas profundas disparidades existentes. Representa 18% em Onitsha (Nigéria) e 20% em Porto Príncipe (Haiti).. Carecem de elementos que são básicos para qualquer enfoque de saúde preventiva. a eletricidade e a água.3 bilhão de pessoas não têm água potável. As mesmas podem ser observadas no quadro seguinte: . 2 bilhões carecem de eletricidade e 1.COMO REFORMAR O ESTADO . Em Lima. 3 bilhões de pessoas. 828 milhões de pessoas dos países em desenvolvimento padecem de fome crônica e outros 2 bilhões apresentam deficiências de micronutrientes como vitaminas e minerais..

morrem devido a diarréia e doenças respiratórias. As doenças dos pobres são. Já nos 49 países mais pobres. estas causas de morte apenas geram 8% das mortes. a 6 em cada mil (morrem apenas 6 crianças antes de completar um ano de idade. como pode-se ver no gráfico a seguir.74 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Gráfico 1 Indicadores mundiais de saúde 1997 26 países mais ricos 78 8 8 6 Expectativa de vida ao nascer (em anos) Mortes antes dos 50 anos (percentuais do total de mortos) Mortes antes dos 5 anos (a cada 1000 nascimentos) Mortalidade infantil (mortes no primeiro ano de vida. Quase a metade das crianças que morrem em países pobres. nos 26 países mais ricos. As mortes de crianças poderiam ser substancialmente reduzidas. era de apenas 53 anos. As taxas de mortalidade das mães. a cada 1000 nascimentos) 49 países mais pobres 53 73 144 100 Fonte: Organização Mundial da Saúde. 1998. Como se observa. pela desnutrição e pela mortalidade materna e perinatal. a maioria delas decorrem de doenças não-transmissíveis (cardíacas. Apenas a tuberculose causa 2 milhões de mortes anuais e a malária. exacerbadas pela desnutrição. Essa cifra poderia ser reduzida se os pobres tivessem acesso à saúde preventiva e curativa e a uma nutrição adequada. muito diferentes das dos setores de melhor renda. em 1997 a expectativa de vida nos 26 países mais ricos era de 78 anos. Os avanços da medicina conseguiram reduzir a mortalidade infantil. a cada mil nascimentos). 25 anos a mais de vida. 16 vezes mais. câncer e outras). 1 milhão. ainda. Nos 20% mais ricos da população mundial. no nasci- . conforme sua pertinência a uma ou outra área do globo. a situação é ainda pior. O Banco Mundial (1993) estima que 7 milhões de adultos morrem anualmente por doenças transmissíveis que poderiam ser prevenidas ou curadas com custos mínimos. morrem cem a cada mil antes de alcançar um ano. Nos países mais pobres. Para as crianças. Quase 60% das mortes dos 20% mais pobres da população mundial são causadas por doenças transmissíveis. por sua vez.

ainda quando exista um .. também poderiam ser reduzidas de modo drástico se tivessem assistência médica adequada. São em média 30 vezes maiores nos países em desenvolvimento do que nos ricos. esta situação reduz sua capacidade de levar uma vida social e economicamente produtiva e se traduz em uma distribuição diferente das causas de mortalidade. Costumam residir em moradias insalubres e fazendas. Estão mais expostos que os ricos à contaminação e a outros riscos no lar. em muitos países e comunidades. é mais provável que sua alimentação seja insuficiente e de má qualidade. no trabalho e em suas comunidades. mortalidade materna e perinatal e mortes por causas nutricionais Grupo II: mortes por doenças não-transmissíveis Grupo III: mortes como conseqüência de traumatismos Fonte: A saúde para todos no século XXI. seu acesso real a serviços de saúde razoáveis é muito reduzido. As desigualdades e a crescente diferença entre ricos e pobres. que consumam fumo e que estejam expostos a outros danos para a sua saúde. 1998. os pobres padecem de “indigência médica”. Organização Mundial da Saúde. A Organização Mundial da Saúde (1998) descreve vividamente a situação de conjunto: “Os pobres suportam uma parte desproporcionalmente grande da carga mundial de morbilidade e sofrimento.COMO REFORMAR O ESTADO . Segundo indicam os especialistas (Musgrave.. Ainda. 1996). Em geral. mento de seus filhos. junto a suas múltiplas carências. em zonas rurais ou favelas da periferia pouco assistidas. 75 Gráfico 2 Distribuição da mortalidade segundo suas causas entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres da população mundial (estimativas de 1990) 150 Percentagem da mortalidade total 100 59 8 50 32 85 0 9 7 20% mais pobres 20% mais ricos Grupo I: mortes por doenças transmissíveis.

as cifras indicam que o aumento das desigualdades é uma característica destes tempos.76 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL crescimento econômico contínuo. sofreram uma redução de sua renda. Efetivamente. No entanto. já tinham chegado a 74 para 1. duplicando-se em apenas três décadas. no Leste Europeu Oriental e na Comunidade dos Estados Independentes. alertando sobre o crescimento das polarizações: “A diferença entre os países ricos e os pobres está se tornando maior (. que eram de 30 para 1 em 1960.) os ricos estão se tornando mais ricos e os pobres. . d) As desigualdades não só se dão entre países e amplos setores da população. ou mais. As diferenças de renda entre ambos. ameaçam a coesão social e. a maioria deles na África subsaariana. em aspectos-chaves. E sublinha: “O tema da pobreza e da eqüidade é realmente um problema de todos”.. A taxa de crescimento da desigualdade continuava se acelerando. A escalada da desigualdade Assinalava recentemente James Wolfensohn (2000). Mais de 80 países têm renda per capita inferior ao que possuíam uma década atrás. presidente do Banco Mundial. passaram a ser de 60 para 1 em 1990. contribuem para a violência e tensão psicossocial”. em vários países. b) As distâncias entre os 20% da população mundial que vive nos países mais pobres e os 20% que vivem nos países mais ricos superaram em muito todas as previsões. 55 países. O PNUD (1999) qualifica esse processo muito categoricamente. Os dados apresentados pelo Informe de Desenvolvimento Humano 1999 do PNUD são muito ilustrativos a respeito: a) Cresceram consideravelmente as diferenças entre países. mais pobres”. Afirma que “as desigualdades globais em rendas e padrões de vida alcançaram proporções grotescas”.. Por outro lado. As características do processo levaram a concentrações em muito poucas mãos. c) É possível construir o seguinte quadro sobre as participações dos 20% que vivem nos países mais ricos e dos 20% que vivem nos mais pobres. 40 países tiveram um crescimento médio da renda per capita superior a 3% anual desde 1990. O crescimento tem sido muito desigual na última década. em 1997.

3 Coeficiente de Gini 0. podemos indicar: • Os ativos combinados das três pessoas mais ricas do mundo são superiores ao Produto Nacional Bruto somando o dos 48 países menos adiantados. cresceram fortemente em grande parte do mundo em desenvolvimento. .25 e nos países desenvolvidos em geral em 0. a igualdade total). • A disparidade é tal que uma contribuição anual de apenas 1% da riqueza das 200 pessoas mais ricas do mundo permitiria dar acesso à educação primária a todas as crianças do planeta.6 63.59 Fonte: Informe de progresso econômico e social.4 62. 77 Quadro 1 Brechas mundiais no final dos anos 1990 Dimensão Participação no Produto Interno Bruto Mundial Participação na exportação de bens Recepção de investimentos estrangeiros diretos 20% mais ricos 86% 82% 68% 20% mais pobres 1% 1% 1% Entre outras cifras. BID.. Os Gini pioraram sensivelmente também no Leste Europeu.3 59. como se pode ver no quadro a seguir.46 0. medida que registra a desigualdade na distribuição da renda (1 é a desigualdade total.3 2.3 20% mais ricos 51.58%.4 2.COMO REFORMAR O ESTADO .59 0. • Os ativos das 200 pessoas mais ricas são superiores à renda combinada dos 41% da população mundial. 0. na América Latina o coeficiente está em 0.57 0. e) Os coeficientes de Gini. Pode-se observar a gravidade das desigualdades no seguinte quadro: Quadro 2 Desigualdade em alguns países latino-americanos Participação na renda nacional do país Peru Equador Brasil Paraguai 20% mais pobres 4.5 2.30.. 1998. Enquanto nos países nórdicos estão ao redor de 0.

78 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Quadro 3 Leste Europeu (Coeficiente de Gini) 1997/98 Ucrânia Rússia Lituânia Hungria Polônia 0.21 0. apenas 6.24 0.28 Aumento 0.02 0. Por um lado. Ruminska-Zimny. são poderosas e estão mudando a face de numerosas atividades produtivas.37 0.2% e os 60% intermediários.47 0. e muitas outras. Desigualdades nas oportunidades tecnológicas Os novos avanços tecnológicos como a Internet criaram oportunidades inéditas para a espécie humana. educação a distância.26 1993/95 0. compartilhando esforços de pesquisa e desenvolvimento técnico.02 Fonte: Milanovic. Ilustram a evolução da situação alguns dos indicadores gerados pelo Informe sobre Desenvolvimento Humano do PNUD: a) Acesso à Internet: • Os 20% mais ricos da população mundial possuem 93. excluídos do poderoso mundo virtual em contínuo crescimento.23 0. apenas 0. o contexto histórico concreto está determinando que este seja um campo em que o eixo inclusão/exclusão funcione com enorme força. Por outro lado.24 0. .3% dos acessos à Internet. In: Informe sobre Desenvolvimento Humano.23 0. estão aqueles que estão aproveitando a fundo estas oportunidades e as mesmas passaram a fazer parte importante de seus recursos para inserir-se e competir na economia.23 0. gerando novas oportunidades ainda mais amplas.5%. os 20% mais pobres.24 0. PNUD. Entretanto. Estão muito próximas também as possibilidades de interligar a telefonia avançada e os computadores. 1999. 1998.14 0. 1999. As possibilidades que se abrem com o acesso à informação e ao conhecimento. comércio eletrônico e bens e serviços.48 0. enormes contingentes da população estão fora da possibilidade real de ter acesso a elas.

8 0. Para um norte-americano médio. e IDC.4 0. Incluído no Informe sobre Desenvolvimento Humano.5 0. 1999.4 0.COMO REFORMAR O ESTADO . Por outro lado.04 2. 1999. apenas 10% da população mundial fala inglês.4 Nota: República Checa.5 100 Usuários da Internet (em porcentagem da população regional) 26. 1998. República da Coréia e Turquia estão incluídos na OCDE e não nos agregados regionais. significa metade do salário de um mês. Nos Estados Unidos. México. Fonte: Baseado em dados fornecidos pela Nua. o custo mensal médio da conexão e seu uso podem chegar até cem dólares em contraste com os dez dólares cobrados nos Estados Unidos.2 5. • Por sua vez. 1999. há mais computadores do que no resto do mundo combinado. • Outro fator de exclusão é o nível educativo.3 6.7 23. Os 30% dos usuários da Internet no mundo têm pelo menos um diploma universitário. . Em vários países africanos. 79 • Um fato decisivo de exclusão é a renda familiar. A situação por regiões no mundo é descrita no quadro seguinte: Quadro 4 Usuários da Internet: levantamento mundial (meados de 1998) População regional (em porcentagem da população mundial) Estados Unidos OCDE (exceto Estados Unidos) América Latina e Caribe Sudeste da Ásia e Pacífico Leste da Ásia Leste Europeu e CEI Estados Árabes África Sub-saariana Ásia Meridional Mundial 4..7 14.1 6.9 0.1 0.8 8. Comprar um computador significa para um habitante médio de Bangladesh mais de oito anos de renda. do PNUD.. Polônia. Network Wizards. Esse idioma predomina em 80% dos sites da web.8 4.2 0. • Também incide na exclusão o domínio do inglês. Hungria.6 22.5 9. os custos de conexão com a Internet são muito diferentes.

. Os que têm renda. Afeganistão Fonte: ITU. fundamentais nos planos mais elementares da existência. in: Informe sobre o Desenvolvimento Humano. b) Redes telefônicas As redes telefônicas. O resto fica com acesso incerto.04% estava ligada à rede. Na Ásia Meridional. Estados Unidos França Taiwan. onde vive 25% da população mundial. visto seu papel no mundo da informática e nos múltiplos planos de interrelação que estão se configurando entre campos como a telefonia celular e outras áreas da informação. Finalmente. estão chamadas a ter um papel estratégico crescente. O acesso é. Arábia Saudita China Haiti. aqui também. totalmente diferencial para os diversos setores da população mundial. lento e caro. a vantagem de estar conectado relegará os marginalizados e empobrecidos. Serra Leoa. educação e — linearmente — conexões. O número de telefones por cada 100 habitantes é totalmente diferente no mundo. Quênia. os países industrializados que tinham menos de 15% da população do planeta contavam com 88% dos usuários da Internet. Tanzânia. estão se gerando duas realidades totalmente diferentes que contribuirão para o fortalecimento dos altos níveis de desigualdade já detalhados. Nos Estados Unidos. apenas 0. do PNUD. Costa Rica.80 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Como se observa. Uganda. 1999. 1998. como podemos apreciar no quadro seguinte: Quadro 5 Linhas telefônicas principais por cada 100 habitantes (em alguns países) mais de 60 mais de 50 entre 40 e 50 entre 10 e 20 entre 0 e 10 menos de 1 Suécia. Quando os habitantes desses mundos vivem e competem lado a lado. Itália Argentina. têm acesso barato e instantâneo à informação. Numa visão de conjunto. Bangladesh. em meados de 1998. as disparidades no número de usuários da Internet são de grande volume. excluindo suas vozes e suas preocupações do diálogo mundial”. A situação é agudamente descrita pelo PNUD (1999): “Esta exclusividade está criando mundos paralelos. a não ser que se atue efetivamente a respeito. 26% da população era usuária da Internet.

a média de ligações telefônicas internacionais chega a ser inferior a uma por habitante ao ano.. da Unesco.. 81 Como se observa. Em diversos países. Em total. . enquanto os 20% mais pobres têm apenas 1. 1998. in: Informe sobre o Desenvolvimento Humano. possui mais telefones celulares do que toda a África.COMO REFORMAR O ESTADO .5%. os custos diferentes das ligações telefônicas e as distâncias de renda determinam um uso muito diferente deste meio básico de comunicação nos diferentes setores da população. 1999. Assim. as distâncias existentes são enormes. Como se vê. a ligação telefônica internacional tem uma freqüência muito desigual. transforma-se numa possibilidade quase inexistente. sozinha. do PNUD. 20% da população mundial que vive nos países mais ricos possui 74% das linhas telefônicas do mundo. como se pode observar no quadro a seguir: Quadro 6 Minutos de ligações telefônicas internacionais por ano por habitante (em alguns países. numerosos países possuem menos de um telefone por 100 habitantes. 1995) Suíça Canadá Estados Unidos Austrália Costa Rica Tailândia Colômbia Egito Federação da Rússia Benim Gana Paquistão 247 100 60 54 18 4 3 2 2 1 1 1 Fonte: Statistical year book. por sua vez. possui 99 telefones por cada 100 habitantes. produto fundamental num mundo globalizado. Mônaco. A Tailândia. As grandes brechas em matéria de acesso a telefones. ou seja.

Esses dez países controlavam 95% das patentes dos Estados Unidos dos dois últimos decênios. Demonstraram-se parte integrante do devir histórico normal. do acesso à pesquisa do futuro e das possibilidades de influir sobre a definição das linhas de pesquisa e conseguir que suas necessidades básicas sejam incluídas entre elas. 80% das patentes outorgadas em países em desenvolvimento foram dadas a residentes de países industrializados. Portanto. As crises econômicas como a do Sudeste asiático têm fortes efeitos em cadeia na economia internacionalizada. entre eles: Lustig. e os setores mais desprotegidos são rapidamente arrastados por elas. Os gastos respectivos estão hoje crescentemente concentrados nos países ricos. Washington. 84% do gasto mundial em pesquisa e desenvolvimento era realizado em 1993 em apenas dez países. Ainda em circunstâncias em que se resolvem. . “Economic crisis and the poor”. silenciosamente. O tema da vulnerabilidade Uma das dimensões mais agudas das brechas de desigualdades características do cenário histórico geral atual é a diferente situação dos países ricos e pobres e dos diferentes setores de população destes últimos. diante das crises econômicas e dos desastres naturais.82 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL c) Um ponto central é o que tem que ver com o futuro das oportunidades tecnológicas. e as conseqüências sociais podem ser de extrema gravidade. 2000. por extensão. Ver a respeito. InterAmerican Development Bank. Além disso. Os níveis de vulnerabilidade são determinantes quanto ao peso que podem ter. A experiência histórica das últimas décadas foi muito rica neste item e algumas conclusões são claras. In: Social protection for equity and growth.1 Ambos os tipos de problemas não são exceções que. tendem a assegurar para si o controle dos produtos finais através dos novos regimes internacionais de patentes. apenas requereriam um tratamento ad hoc. O problema dos diversos níveis de vulnerabilidade frente às crises econômicas e naturais e da necessidade de políticas especiais de proteção para os setores desfavorecidos foi desenvolvido pioneiramente nos trabalhos de Nora Lustig. Por outro lado. está se produzindo uma forte exclusão dos países em desenvolvimento. Ali. aspectos bási1. A base dos explosivos avanços tecnológicos em curso é a pesquisa e o desenvolvimento. N. os mesmos estão orientando a definição de prioridades e as agendas de pesquisa.

o grau de proteção. Os desastres naturais têm uma presença ativa em todo o globo. As ilusões do crescimento fácil. demoram muito em se recuperar. impulsionado pela globalização tropeçaram assim com um quadro muito mais complexo. desigualdade. junto às vastas potencialidades produtivas que a mesma desata. Algumas lições da experiência As últimas décadas caracterizaram-se pela queda de diversas suposições sobre como opera a realidade socioeconômica. encontram-se desequilíbrios sociais da magnitude dos antes referidos.. Não basta responsabilizar pela culpa do problema desajustes não-previstos na natureza. Em todas as dimensões abordadas. como o nível dos salários reais e as taxas de emprego. a volatilidade financeira. Recorrentemente estão se apresentando em diversas zonas do planeta. saúde. Como enfrentar as imensas privações sociais que implicam estes problemas? Todos os atores sociais deveriam assumir responsabilidades a respeito: Que papel especificamente cabe ao Estado frente a estas realidades do século XXI? Que atualizações lhe são necessárias para cumprir esse papel? A isso se dedica a seção seguinte deste trabalho. onde. Os erros nos âmbitos de análise da realidade têm sido também acompanhados por importantes desacertos quanto a quais poderiam ser as soluções concretas mais apropriadas. 83 cos para esses setores. crescimento da pobreza. assinala Hausmann (2000): “O velho . as provisões de serviços de apoio e resgate. percebe-se que se encontram no meio da situação. Os graus de vulnerabilidade das famílias pobres e das de classe média eram totalmente diferentes. Caíram massivamente sobre os setores de menores rendas e a imensa maioria das vítimas provinha deles. incluídos/excluídos. vulnerabilidade. e generalizado. apreciamos a plena vigência dos eixos perdedores/ganhadores. Neste breve percurso por algumas das dimensões centrais dos cenários históricos contemporâneos. Diante de desajustes similares. O papel do Estado no campo social. referindo-se a um campo macroeconômico. e seus efeitos se repartem em forma totalmente desigual de acordo com o nível de vulnerabilidade prévia da população. acesso a oportunidades tecnológicas..COMO REFORMAR O ESTADO . Assim. em especial em áreas do mundo em desenvolvimento. qualidade das moradias e das infra-estruturas. as medidas de prevenção e outros fatores determinaram resultados totalmente diferentes.

o mercado puniria. Houve uma vez em que pensamos que o mercado seria uma maquinaria que mediria as virtudes de um país. tropeçou na prática com dificuldades muito concretas. Acreditou-se. cheia de interessantes perspectivas. poderiam ser solucionados os problemas. como as do mundo em desenvolvimento. durante a última década. Se se comportasse irresponsavelmente. que pode auxiliar na potencialização de algumas das vias anteriores e outras. enquanto as comunidades urbanas. paradoxal que. o mercado o recompensaria. têm limitações fortes para. Aprendemos a dolorosa lição. de serviços públicos básicos criaram um vazio da ação pública em cir- . Isto está ocorrendo de modo acentuado no campo social. através da segregação residencial. Ainda mobilizando esses ativos. a desvalorização dessa política e os severos cortes. com o objetivo de transferi-las para a sociedade civil ou para as instituições solidárias geradas no seio da comunidade. Acreditou-se que os problemas poderiam ser resolvidos delegando-os em boa parte ao mercado. Cepal. A lógica da realidade se afasta neste campo das idéias predominantes a seu respeito. no mesmo momento em que se afiança uma política que advoga pela redução das funções do Estado em matéria de proteção e assistência social. Tudo indica que é preciso fazer agir em todo o quadro um ator: a política pública. mas a experiência está indicando que sociedades civis. apoio tecnológico e ajuda para chegar ao mercado. As respostas a respeito não foram alentadoras. 1999): “Resulta. em diversos países em desenvolvimento. que pelo simples caminho da mesma sociedade civil. enfrentar esses problemas. o que acontece com o acesso a oportunidades de mercado? Se não existe crédito. por si só. Este parece um caminho repleto de promessas interessante. parecem ter perdido o capital social comunitário no qual se apoiava sua capacidade para contribuir para a formação da cidadania”. de que os fluxos de capitais são muito voláteis”. os progressos podem ser muito limitados. mobilizar os ativos dos pobres. Há numerosas discrepâncias entre a lógica do mercado e características estruturais dos problemas sociais. Também outra apelação. Como destaca um estudo especializado a respeito (Kaztman.84 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL paradigma está morto. Se a economia de um país se comportasse responsavelmente. por outro lado. portanto. a família — como instituição primordial — mostre sinais de não poder sustentar suas funções mais elementares. PNUD. Nas últimas décadas. em muitos casos profundamente enfraquecidas pelos próprios problemas sociais.

O PNUD (1999) traça um amplo plano de linhas de ação que os governos deveriam impulsionar. porque isso os coloca em sólidas posições competitivas. reduzem-se as taxas de deserção. melhora o rendimento e sobe o número de crianças que concluem o ensino fundamental de 1ª a 4ª série. muito articulado em redes produtivas com a sociedade civil. apesar das restrições fiscais. Contrastando com isso. Há um clamor crescente nessa direção.COMO REFORMAR O ESTADO . O New York Times (Andrews. em todas as suas expressões. Ao proporcionar almoço às crianças nas escolas. mas de pensar num modelo estatal diferente. entre elas: . Vai desde campos específicos a propostas de conjunto. tiveram. que o mercado não os enfrentará pela falta de rentabilidade dos projetos respectivos. Sachs (1999) afirma que se deve transformar num problema público o desenvolvimento e a aplicação de vacinas para epidemias: é inadmissível que continuem existindo. e com as próprias comunidades pobres.. McGovern (2000) explica as conquistas que programas públicos obtiveram nos Estados Unidos. tratando em seu conjunto de encontrar soluções realmente válidas para os problemas. Entre muitos outros apelos que sugerem que há caminhos viáveis. O PNUD (1999) menciona o caso sueco como exemplo: “A formação de aptidões e a capacitação contribuíram para a eqüidade e auxiliaram na prevenção do desemprego a longo prazo”. países desenvolvidos que mantiveram. além de excelentes cifras sociais. ministrando alimentos às crianças desfavorecidas nas escolas e pede ação pública para programas similares em nível mundial para os 300 milhões de crianças em idade escolar com fome. Não se trata de voltar às visões onipotentes do Estado. devidos principalmente ao desenvolvimento permanente das capacidades de sua mão-de-obra. 85 cunstâncias contextuais. altos créditos macroeconômicos. Parece haver um amplo espaço para uma revalorização do papel que podem desempenhar as políticas públicas no mundo em desenvolvimento em face dos problemas sociais.. um investimento sustentado e importante em planos como a saúde e a capacitação de sua população. Assinala como as avaliações desta ordem de programas são determinantes. 1999) destacava em nota especial recente o caso da Suécia: excelentes resultados econômicos gerais e uma das mais baixas taxas de desemprego. em que ela era mais demandada que nunca pelo crescimento da pobreza e da vulnerabilidade.

reestruturando o gasto público e a tributação. As últimas décadas indicaram a necessidade de políticas públicas. • Aumentar a produtividade da agricultura em pequena escala. e executar programas contra a pobreza em benefício dos mais pobres”. requer-se um Estado com linhas organizacionais renovadas. • Promover a industrialização com densidade de mão-de-obra para aumentar as oportunidades de emprego”. Demonstrou-se que a educação é o ativo mais importante em que se baseia a disparidade de renda.86 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL • “Restaurar o pleno emprego e aumentar as oportunidades como importante prioridade da política econômica. • Promover a microempresa e o setor não-estruturado. • Investir na capacidade das pessoas pobres. • Eliminar os preconceitos contra os pobres no âmbito macroeconômico. . propõe ainda as seguintes medidas por meio de alianças de governos. • Reduzir a desigualdade mediante a tributação progressiva da renda e outras políticas redistributivas. incluído o crédito. empresas e ONGs: • “Formar a capacidade humana mediante a educação e zelar pelo acesso das pessoas pobres à educação. Para colocar em prática políticas destas características ou semelhantes. • Colocar mais ativos financeiros e recursos produtivos à disposição das pessoas pobres e criar empregos produtivos e remunerativos para eles. Para reduzir a desigualdade no mundo em desenvolvimento. e a dispersão salarial entre níveis de aptidão passou a ser significativa. a prestação de serviços de saúde e moradia sejam acessíveis às pessoas pobres. • Fazer com que o abastecimento público de água limpa. • Fazer transferências de renda e adotar outras medidas de proteção social durante os períodos de ajuste e crise. • Zelar pelo acesso das pessoas pobres a recursos produtivos. mas também a urgência de atualizar as estruturas estatais executoras e de superar a rigidez e a ineficiência demonstradas em diversos casos.

assim. sem reconhecimento nem remuneração alguma. agudas desigualdades de gênero. 87 Quais seriam algumas das linhas de reforma do Estado que poderiam permitir que a política pública social cumprisse cabalmente programas como os sugeridos pelo PNUD e outros semelhantes? Apresentamos. Assim. como serviços de cuidado diurno para com crianças. a seguir. Serviços públicos básicos de uma qualidade adequada para todos é uma das missões centrais da visão de um Estado social renovado. hoje considerado uma instância ineludível e vital do processo de formação educativa. Se as políticas públicas não intervierem ativamente na facilitação do acesso universal aos graus iniciais da educação. resumidamente algumas delas. sem políticas públicas ativas. como um fator de risco-chave em saúde pública nos países em desenvolvimento é a falta de acesso dos pobres a serviços que deveriam estar garantidos para toda a população.COMO REFORMAR O ESTADO . produzir-se-ão os mesmos desníveis grosseiros entre os diferentes setores sociais que fortalecerão a reprodução de “círculos perversos de desigualdade”. Por outro lado. sobrecarregando-as duramente sua jornada. cuidado para com os doentes. 1999) conclui que na cidade de Montevidéu. cuidado para com os idosos. o peso do acesso à educação tenderá a ser cada vez maior. Configuram em seu conjunto o perfil do que se poderia chamar “um Estado social inteligente”. A noção de serviços públicos deve incluir ainda a idéia que está avançando no mundo desenvolvido de que é necessário garantir os chamados serviços de assistência. apoio à família em geral e proteção em caso de crise. . Já se viu. como saneamento.. Um componente central é a capacidade real de acesso a serviços públicos elementares. em 1981. eletricidade e água potável.. O mesmo ocorre com o vital campo da educação. Estabelecem-se. apenas as crianças dos estratos altos e médios poderão ter acesso ao nível pré-escolar ou educação infantil. Hoje são necessários 17 anos de escolaridade. desse modo. jovens de 20 a 30 anos necessitavam de nove anos de escolaridade para manter uma família sem pobreza. a) Uma meta central: serviços públicos para todos A pobreza não tem a ver apenas com o emprego e a renda de um grupo familiar. Em diversos países. Um trabalho de pesquisa no Uruguai (Kaztman. alguns destes serviços são prestados pelas mulheres.

são eleitos presidentes que fizeram do social o centro de sua proposta eleitoral e têm as melhores intenções de tratar de cumprir suas promessas. assistentes sociais) se deterioraram tremendamente. nos ajustes e recortes. costumam ser os primeiros na lista. É preciso construir em muitos países em desenvolvimento a institucionalidade social necessária. Os ministérios respectivos têm infra-estruturas muito antigas. ou por mero antiestatismo. Em grande parte dos países em desenvolvimento o social é institucionalmente “a borralheira” da administração pública. encontram-se de fato excluídos dos âmbitos de poder onde se tomam as grandes decisões de política econômica que vão incidir decisivamente sobre o social. Algo semelhante cabe dizer dos funcionários da burocracia central que trabalham na política social. as condições de trabalho e as perspectivas profissionais dos funcionários da área social que estão em contato direto com os pobres e lhes prestam serviços (trabalhadores da limpeza. É sabido que estas esferas do Estado têm sido amiúde bastiães de clientelismo e ineficiência. Pelo contrário. professores. não faz nada por melhorar sua situação. precárias. desenhar políticas ambiciosas. se deparam com o fato de que a institucionalidade existente no Estado para isso é de grande fraqueza e que não podem. carecem de um serviço civil profissionalizado. O’Donnell (1999) descreve os danos institucionais causados ao setor público nas áreas sociais em anos recentes na América Latina em panorama que não difere muito em outras regiões em desenvolvimento: “os salários. tanto no plano nacional como especialmente no local. destruindo-se com facilidade programas que foram construídos com grande esforço ou perdendo-se valiosas experiências.88 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL b) Criação de uma institucionalidade social forte e eficiente Espera-se dos governos dos países em desenvolvimento ativas e efetivas políticas sociais. Sua voz política é fraca e suas capacidades organizativas. Na realidade. em vários países essa ofensiva praticamente amputou o braço do Estado mais necessário para levar a cabo políticas sociais razoavelmente eficazes”. através das referidas decisões. mas a blitzkrieg desatada contra elas com o propósito de reduzir o déficit fiscal. portanto. Por outro lado. Agem no âmbito de parâmetros fixados de fora. Além disso. Remodelar a atual em direção à cons- . quais são os instrumentos organizacionais reais com que contam para isso? Em diversas ocasiões. porque sua viabilidade organizacional é muito baixa. contam com recursos limitados. Porém.

O monitoramento cumpre funções essenciais. O terreno é de alta imprevisibilidade. Dar real peso político às áreas sociais. as diversas políticas sociais? Estas e muitas outras perguntas-chaves para a formulação adequada de política social são de difícil resposta em muitos países em desenvolvimento. c) Montagem de um sistema de informação para o desenho e monitoramento das políticas sociais Quais são os níveis de pobreza desagregados por regiões e municípios num país? Quais são as diversas formas da pobreza? Qual é em cada município a oferta de serviços sociais disponível frente à magnitude da demanda? Como estão evoluindo variáveis básicas do social a partir dos níveis de ocupacionalidade. Implantar um serviço civil baseado no mérito técnico neste campo. até os custos das cestas básicas de vida? Quais são os impactos sociais de diversas alternativas de política econômica? Que efeitos econômicos produtivos podem ter. Assim. Uma gestão social eficiente requer informação em tempo real sobre quais são os resultados e impactos concretos que estão sendo produzidos. o que vai . processamento informático e contato contínuo com a realidade deve ser um dos eixos da renovação da institucionalidade social. das formas de ocupação. nas resoluções de fundo sobre políticas econômicas que vão ter amplas implicações sociais. por sua vez. com freqüência surgem efeitos não planejados. para valer-se de dados não atualizados ou de qualidade duvidosa. junto com os decisores econômicos. No social.. 89 tituição de ministérios e agências com características organizacionais modernas. Criar uma gerência pública social de boa qualidade. Isto deixa os decisores sociais livres para usar a informação produzida para outros propósitos. A tudo isso soma-se um problema fundamental de monitoração. alguns desfavoráveis e outros positivos.COMO REFORMAR O ESTADO . d) Gestão interorganizacional dos programas sociais A pobreza e a vulnerabilidade derivam de uma complexidade de problemas que interagem entre si. pela carência de sistemas orgânicos de geração de informação especializada sobre o social. famílias em crise pelo peso da pobreza influirão sobre os baixos rendimentos das crianças ou deserção das mesmas da escola.. O estabelecimento de sistemas de informação social com metodologias modernas. Os fatores determinantes das privações que afetam amplos setores atuam reforçando uns aos outros. possibilitando-lhes participar.

Os programas mais úteis em saúde preventiva são. Em muitos países em desenvolvimento. Delimita-se formalmente com detalhes qual é o âmbito do Ministério da Saúde. culturais. psicológico-sociais. focalizando-se sobre determinado fator. problemáticas. jovens. por exemplo. O tema não é somente formal. A coordenação não só é desejável. Predomina toda uma cultura de tipo “feudal”. as estruturas estatais estão delineadas e orientadas em sentido quase oposto ao sugerido. por sua vez. Se atuarem isoladamente. suas possibilidades de influência estarão extremamente limitadas. por sua vez. mas incorporam ativamente variáveis educativas. As políticas públicas deveriam ajustar-se à natureza estrutural da pobreza para poder realmente impactá-la. Se os ministérios e agências não integrarem sua ação através de fórmulas interorganizacionais. os níveis de nutrição e outras dimensões. é imprescindível para poder atuar seriamente sobre as múltiplas formas da pobreza e da vulnerabilidade. Impõe-se levar adiante um trabalho sistemático para passar de uma cultura de “castelos burocráticos” a uma “cultura de redes organizacionais”. A experiência comparada indica claramente que os programas sociais mais bem-sucedidos são os que apontaram esta combinação substantiva de esforços de diversa índole. daquele que atua com gênero. Tudo predispõe à ação setorial isolada.90 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL fazer com que no futuro as possibilidades dessas crianças de ter trabalho estável e formar famílias sólidas sejam. Toma-se o cuidado em traçar fronteiras estritas entre os diferentes ministérios. A maior produtividade e impacto em políticas e programas sociais se encontram na integração organizacional de esforços. No campo social. Ergue-se uma infinidade de “torres e pontes levadiças burocráticas” para impedir a entrada de estranhos. Assim. os programas com mais impacto na redução da deserção no ensino fundamental (primário) não são nunca programas que se limitam a um enfoque puramente de “educação”. a atuar apenas na aula. responsabilidades e recursos para os níveis mais próximos da cidadania surge como uma via de renova- . família. isto vai contra a lógica básica da política social. Combinam-se ações sobre os grupos familiares. Cada um defende duramente sua jurisdição e trata de que os outros não a invadam. os que atuam com um enfoque que não é só médico. e) Rumo a um papel crescente dos Estados regionais e dos municípios na política social A descentralização de funções. o da Educação. haverá um uso deficiente de recursos e parcos resultados. moradia.

Os municípios apresentam. A ação em áreas como saúde. Em diversos casos. a descentralização pode chegar a piorar a situação relativa prévia. fortalecimento da família. será mais fácil de realizar no nível mais limitado dos municípios. Numerosos municípios do mundo em desenvolvimento não possuem nenhuma área institucional especializada no social. Outro problema é o grau de fortaleza real dos municípios para executar políticas sociais. Os níveis de polarização social para o interior dos Estados regionais e dos municípios. parecem ser muitas as suas vantagens. Serão criadas também condições mais propícias para a participação da cidadania nos programas sociais e maior viabilidade para que efetivamente possa haver um controle social dos mesmos. Se nos processos de transferência de recursos não forem tomadas medidas de reequilíbrio regional. e outras. marcantes assimetrias entre si.. A ação social descentralizada facilitará ainda um contato “cara a cara”. Não basta a boa vontade descentralizante do poder central e as intenções positivas dos prefeitos dos municípios. Entretanto. segundo as capacidades contributivas reais existentes nos diversos tipos de municípios. . No campo social.COMO REFORMAR O ESTADO . há “oligarquias” locais. Caso não se consigam condições democratizantes. Deve desenvolver-se uma institucionalidade social local. mas de ações que tomarão dia a dia as estruturas institucionais locais. por exemplo. luta contra a pobreza. considerando as variações de cada realidade. o mais provável é que a descentralização seja “retida” por essas minorias a favor de seus próprios interesses. ajustar-se-á muito mais às realidades concretas ao ocorrer em nível local. pode ter resultados muito diferentes. É preciso realizar um trabalho de “institutional building” social em nível municipal e capacitar recursos humanos locais para dirigir os programas. Inclusive a integração interorganizacional. Delegar atribuições impositivas. ou ela faz parte de outras áreas. que controlam desde tempos imemoriais o funcionamento da sociedade local. 91 ção organizacional do Estado tradicional de múltiplas virtudes. para financiar a saúde ou a educação. Outro risco é o que deriva de outra ordem de assimetrias. prevenção da criminalidade. educação. a que se fez referência anteriormente. que é muito relevante no campo social. pequenas. em muitos casos. fazendo uma discriminação positiva quanto aos mais fracos. O poder central tem de garantir condições de eqüidade. Não se tratará já de decisões a longa distância a partir dos grandes centros urbanos. a experiência internacional indicou que todas estas virtudes podem não se dar total ou parcialmente se não se atenderem cuidadosamente a certos riscos inerentes aos processos de descentralização no mundo em desenvolvimento..

Entre eles. um estudo do Banco Mundial (Narayan. mas é necessário adotar políticas para enfrentar os riscos mencionados. Sua intervenção na gestão do projeto lhe proporciona uma força singular. o desenho conjunto dos projetos com a comunidade pobre permite que ela lhes incorpore suas verdadeiras prioridades. Os programas sociais com ativa participação comunitária em seu desenho. Sentindo-se dona real do projeto. enquanto 40% apresentaram rendimento médio e 57. são eminentemente participativos. esta transferência de responsabilidades sociais pode ter sério impacto em termos de eqüidade territorial”. tais como. gestão e avaliação têm resultados muito superiores aos programas de tipo tradicional burocrático vertical. A participação acrescenta ao processo organizacional elementos muito concretos que influenciam nessas diferenças. Ásia e América Latina. a comunidade apresenta iniciativas. Em vista da disparidade de renda e disponibilidade de capital humano no interior dos países da região. as escolas EDUCO na América Central e Villa El Salvador no Peru. apenas tiveram um alto rendimento 2. Os projetos sociais mais bem-sucedidos das últimas décadas. o Grameen Bank em Bangladesh. em referência aplicável também a outras realidades regionais: “A descentralização oferece teoricamente vantagens derivadas de uma provisão local de serviços que fomenta uma maior responsabilidade e um melhor controle por parte dos usuários e das respectivas comunidades.3%. entre outros. o que pode se traduzir numa gestão social mais eficaz. Por sua vez. O caminho da descentralização deve ser firmemente adiantado. Resultados semelhantes foram obtidos em diversas realidades nacionais e regionais e diferentes campos sociais. preocupase com cada detalhe de seu funcionamento. rendimento baixo. Sua integração à monitoria . entre os projetos com baixa participação comunitária.92 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL A Cepal (1999) adverte sobre alguns destes riscos para o caso da América Latina num trabalho recente. Entre outros. f) Uma chave estratégica para renovar a institucionalidade social: a participação comunitária As medições comparadas são conclusivas. um rendimento médio nos 20% restantes e nenhum apresentou baixo rendimento. Os projetos em que a participação comunitária foi elevada tiveram um alto rendimento em 80% dos casos. Afirma. 1994) analisou o rendimento sob diversas modalidades organizacionais de 121 projetos de dotação de água potável a grupos camponeses pobres em 49 países da África. idéias.7%.

cresce. 93 e avaliação permitem que o projeto tenha um “chão” permanente de realidade.COMO REFORMAR O ESTADO . A soma da descentralização mais a participa- . eleva sua autoestima e se criam bases a favor da sustentabilidade do projeto quando for retirada a ajuda externa. no Brasil. Entretanto. internacionalmente laureada. que se chocam com as propostas de gestão consultada. Essa mudança é possível utilizando-se as estratégias apropriadas. passagem que desde já assentará bases efetivas para uma cultura pró-participação da comunidade. a participação tem um adicional muito relevante ligado a nosso ponto anterior. com fortes imposições autoritárias. Uma das revoluções organizacionais mais importantes a serem feitas pelo Estado. Não será por decretos ou regulamentos que poderão ser alcançadas estas mudanças. apesar de suas notórias vantagens gerenciais. compartilhada e democrática que estão implícitas na participação. Há toda uma cultura organizacional baseada na hierarquia. Não se trata apenas de um problema apenas formal. a verticalidade. é conseguir substituir a cultura burocrática atual aberta ou sorrateiramente antiparticipativa por uma cultura realmente interessada na participação e disposta a promovê-la.. estar de acordo com ela e numerosas políticas públicas a defendem. Há já diversas experiências de trabalho participativo conjunto entre a burocracia pública e a comunidade com excelentes resultados em diferentes realidades. Os aparelhos públicos afirmam. em muitos casos. Aprende. Como a do orçamento municipal participativo na cidade de Porto Alegre. como as que estão se dando em serviços sociais no Canadá (Kernagham. a participação avança limitadamente no campo social nos países em desenvolvimento. 1994). A participação assegura ainda a transparência do projeto. o ownership da comunidade gera um “apossamento” da mesma. e que correções deveriam ser introduzidas. Os beneficiados estarão dizendo continuamente em que medida são cumpridos ou não os objetivos fixados. que se somam a suas importantes conseqüências positivas quanto à democratização. Ainda.. Há algo mais profundo. Além de todas as vantagens mencionadas e outras que podem ser acrescentadas. Também começa a haver significativas experiências de participação dos mesmos funcionários na gestão de suas próprias organizações. mas na prática lhes colocam fortes impedimentos e dificuldades. para transformá-lo num Estado social inteligente. e as frustrações que as comunidades pobres acumularam neste campo são incontáveis. acima de tudo.

atendimento a portadores de deficiências . gerando diversos serviços sociais na área da saúde. educação. enfatizam-se os pontos fracos de cada um desses atores e se dá ênfase aos conflitos históricos e potenciais.. à gestão e à avaliação do município. Eles corresponderiam ou ao Estado ou à sociedade civil ou ao mercado. porque concerne a todos o que vai acontecer. A sociedade civil pode dar contribuições de grande valor aos problemas sociais. As comunidades religiosas. Nelas. g) Um Estado orientado a “tecer” redes inter-sociais Tem sido muito comum. associações de vizinhos.94 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL ção comunitária é uma combinação poderosa. Nesta lógica. enriquece a capacidade de gestão. nos países em desenvolvimento. A um só deles. e muitas outras de suas expressões podem trazer idéias.. incentiva e apóia a ação dos funcionários. A potência do voluntariado social em diversos países desenvolvidos e em países pequenos como Israel. recursos humanos e recursos financeiros incalculáveis. ONGs constituídas para trabalhar no campo social. ponto de impulsão contínuo da mesma e ator relevante dela. A realidade social é tão difícil que. a política pública deve desempenhar um enérgico papel como convocante da rede. entre outros. “todos devem cooperar”. universidades. Mas deve tratar ativamente de aglutinar na rede os diversos atores possíveis. por exemplo. exige-se imperativamente a responsabilidade de todos os atores sociais. onde quase um terço da população participa de modo ativo em tarefas voluntárias.”.. entre eles os sociais. é um potente método anticorrupção e acrescenta uma instância de avaliação de alta eficiência. em primeiro lugar. A cultura das “falsas posições” deveria ser substituída aqui pela de “utilizemos o melhor de cada um e complementemo-nos”. Como sublinha. sindicatos. ou “com as ONGs não se pode contar porque não são sérias como aconteceu com tal entidade. Wolfensohn (2000). Impede o estancamento da descentralização por elites de poder. integrando-se ao plano de políticas. Por outro lado. É necessária a construção de redes inter-sociais orientadas à resolução de problemas sociais concretos de envergadura. não se pode deixar de lado capacidades que poderiam mobilizar-se. como um jogo de exclusão do ponto de vista organizacional.. O tipo de arrazoamento observado: “com o Estado não é possível porque em tal oportunidade. A intervenção ativa das comunidades locais nos processos de descentralização.” etc. é preciso capitalizar o que cada um deles pode trazer. cria condições muito mais propícias para que os objetivos básicos de descentralizar sejam cumpridos. perceber problemas importantes.

COMO REFORMAR O ESTADO . que sempre que há um corrupto no setor público. . a descoberta de práticas corruptas sistemáticas na Itália há alguns anos e recentemente em diversos países do Sudeste asiático. há poucos anos. Trata-se de um problema muito amplo que não afeta apenas o mundo em desenvolvimento. deve-se somar a busca da mobilização da responsabilidade social do mundo empresarial para envolvê-lo diretamente como ator em esforços sociais de magnitude. As corrupções que acompanharam alguns processos de privatização em diversos países do mundo em desenvolvimento estiveram ligadas a articulações de interesses público-privados. uma exigência generalizada Uma das maiores críticas ao Estado em décadas recentes foi a existência de práticas corruptas e a falta de castigo para elas.. preconceitos mútuos. O Estado social inteligente deveria desenvolver as capacidades respectivas que implicam. No campo social a corrupção implica um verdadeiro crime ético: estar subtraindo recursos de políticas e programas destinados aos setores mais desfavorecidos da sociedade. e outros campos. A tudo isso. As pesquisas modernas sobre corrupção ressaltam.. ainda piores. Por exemplo. por exemplo. foi dinamizado por práticas corruptas dos grandes banqueiros privados. Significam diversos atores com experiências diferentes. Hoje. linguagens diversas. Observe-se. além disso. A corrupção tem a ver com combinações intra-sociais às vezes de vastos alcances. O desfalque de boa parte dos grandes bancos da Venezuela. alguns dos episódios de corrupção de maior envergadura na América Latina nos últimos anos não se originaram no setor público. planejamento conjunto. As redes inter-sociais são um tecido complexo. há um clamor generalizado para pôr fim à corrupção. é uma indicação das energias latentes a respeito. negociações. Requer-se para montá-las e fazê-las funcionar uma ação sistemática e trabalhosa. Seus custos para as economias dos países em desenvolvimento são totalmente intoleráveis e suas conseqüências morais. pouca prática de trabalhar uns com os outros. entre elas. Também não se limita de modo algum às áreas sociais. amparados pela falha dos órgãos públicos de regulação. que significou uma perda significativa de recursos para o país. há um corruptor no setor privado. habilidades para realizar acordos. para criar desenhos organizativos muito ágeis e abertos. h) Transparência. 95 e a idosos. em nível mundial.

suas fontes de financiamento e os processos de execução devem ser informação tão acessível como qualquer informação administrativa elementar. É preciso transformar a corrupção numa exceção. castigá-la moralmente.2 Alguns surgem dos pontos anteriores. Ao mesmo tempo devem ser criados canais pelos quais o controle social da gestão pública possa se fazer sentir. é necessário tornar transparente para a cidadania toda a ação do Estado no campo social. e levar adiante organicamente o monitoramento e avaliação dos programas. gerar. Uma gerência social eficiente deve tender a privilegiar a participação da comunidade. há problemas gerenciais que são semelhantes a alguns que se apresentam na gestão normal de qualquer ordem de organizações. informação contínua sobre o social. O autor trata com detalhes do tema gerência social em sua obra: Social management: some strategic issues. Ali. Todo o sistema deve conter ainda instâncias de punição claras e garantidas. Por outro lado.96 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL O Estado social inteligente deve sofrer uma transformação radical neste campo. praticar sistematicamente a transparência. a informática e a Internet poderiam realizar contribuições valiosas. os recursos que utilizarão. permanente e totalmente acessível. Nova York. propiciar a formação de redes interorganizacionais para o interior do setor público. i) O enfoque de gerência social Um Estado social deve ter elevadas capacidades no terreno da gerência social. e numa ação muito difícil pelo permanente controle dos sistemas preventivos estabelecidos e da própria cidadania. Divisão de Economia Pública e Administração Pública. orienta2. Os propósitos dos programas. em primeiro lugar. como se propôs. Devem-se empregar todas as estratégias anticorrupção que possam ser efetivas. mas também deve ser objeto de sérios riscos penais. atitudes. ONU. . no campo social. A informação a respeito deve ser plena. descentralizar para os municípios. mas há outros que são muito específicos e que merecem uma atenção particular e critérios técnicos apropriados a eles. cabe desenvolver uma grande tarefa formativa a respeito. Tudo isso propõe a necessidade de capacidades. 1998. O que é gerência social? Estamos falando de boa gerência empresarial? Acreditamos que. Entre elas. Devem-se criar espaços sistemáticos para discutir o problema em todos os âmbitos de educação de funcionários públicos e estabelecer claros códigos de ética que precisam ser rigorosamente implementados. e redes inter-sociais com outros atores da sociedade.

para o que devem atender a múltiplas considerações sobre quem são afinal os beneficiários. Quer-se que os programas sejam eficientes em termos de uso de recursos objetivos usuais. ao mesmo tempo. há em jogo interesses clientelistas. bem diferenciados dos que supõe a tradicional gerência hierárquica. em alguns casos. raras vezes se faz a observação de que os problemas encontrados eram totalmente imprevisíveis”. os benefícios para a comunidade eram interrompidos porque não se tinham desenvolvido forças que possibilitassem a auto-sustentação dos programas. Tudo isso e outros fatores determinam que surjam continuamente variações. políticos. 97 ções e critérios gerenciais muito particulares. Iniciada sua gestão. O Estado social inteligente necessita de um enfoque de gerência social que atenda a todas estas especificidades: missão particular dos . e outras oportunidades que poderiam ser aproveitadas. A situação caracteriza-se pelo que Dennis Rondinelli (1983) propõe. Informes internos do Banco Mundial (Blustein. depois de analisar numerosos programas implementados por organismos internacionais no mundo em desenvolvimento: “independentemente do que concerne ao planejamento do projeto ou da forma em que se efetuou a análise técnica. Os programas caracterizam-se por uma alta volatilidade. sequer previsíveis. Este ponto é muito relevante. Mas a tudo isso deve-se somar que a missão organizacional da gerência social é de uma complexidade singular. Deseja-se que os programas contribuam para a melhoria efetiva da eqüidade. Aspira-se também a que os programas gerem auto-sustentabilidade. tema crucial hoje para o mundo em desenvolvimento. as comunidades pobres têm instabilidades básicas. 1996) indicam que cerca de 50% de seus projetos não cumpriam esta condição. descentralização e redes têm um significado limitado.COMO REFORMAR O ESTADO . Os objetivos que finalmente perseguem as políticas e os programas sociais não são semelhantes aos que se buscam em outros campos organizativos.. Após cinco ou seis anos de os projetos serem completados. o que implica outra ordem de eficiência de caráter quantitativo e qualitativo. podem se esperar contínuas mudanças não previstas e. na gerência social são chaves para o êxito. econômicos.. Nesta. mas. a dinâmica dos programas sociais em funcionamento costuma diferir claramente do que ocorre nos outros campos organizacionais. Intervêm neles múltiplos atores. Por outro lado. participação. que seus impactos finais sobre a pobreza sejam os realmente esperados. algumas das quais apresentam obstáculos impensados. quando se retirava a ação do organismo internacional.

Quais as condições básicas exigidas para avançar reformas nesta direção e transformar o Estado no Estado necessário para aplicar políticas públicas inovadoras do tipo das anteriormente mencionadas (PNUD. o acesso diferencial às tecnologias. transparência. dinâmicas de alta volatilidade. Assim. descentralização. orientação à participação. transparência. montagem de um sistema de informação para o plano e monitoramento das políticas sociais. um enfoque de gerência social. e uma cultura geral organizacional que as privilegie e esteja pronta para encará-las. neste caso. contar com um Estado que possa ajudar de forma ativa e eficiente a enfrentar a pobreza. redes inter-sociais. a desigualdade. Isso dará suporte à formação especializada de gerentes sociais capacitados para atendê-las.98 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL programas sociais. Podem ser obstruídas ou revertidas com facilidade. mas adiáveis. as brechas em saúde. a vulnerabilidade e outros desenvolvimentos sociais alarmantes como o rápido aumento da criminalidade. dados os fins perseguidos. organização de redes. costuma haver uma tendência consistente a ver os déficits sociais como problemas lamentáveis. Estes apoios podem ser convocados. 1999). criação de uma institucionalidade social forte e eficiente. A experiência comprovou reiteradamente em matéria de reforma do Estado que as mudanças induzidas através da mera racionalidade técnica têm “pernas curtas”. participação comunitária ampla. formulamos algumas reflexões finais a respeito. As reformas profundas exigem contar com um correlato de apoio social e político ativo às mesmas. articulação interorganizacional. que permitam enfrentar os gravíssimos problemas de exclusão que hoje abalam os países em desenvolvimento? A seguir. Algumas reflexões finais Uma primeira condição de fundo essencial para progredir em direções desta ordem é que a causa de uma reforma nos papéis e características do Estado social deve contar com um sólido apoio da sociedade. e que se resolverão automaticamente através do . em numerosos países em desenvolvimento há que se abrir e ativar um grande debate sobre aspectos muito relevantes do problema. Entretanto. descentralização. Orientação clara a serviços públicos básicos para todos. Um Estado social inteligente implica reformas profundas do Estado no mundo em desenvolvimento nestas direções e em outras que podem ser acrescentadas.

aumentar a cobertura de água potável e serviços de saneamento. e suas possibilidades de administração de recursos nutricionais escassos. porque desvia recursos do movimento econômico real. mas um investimento.COMO REFORMAR O ESTADO . é estar potencializando o recurso mais valioso com que conta qualquer economia no século XXI. a proposta é que se os esforços imprescindíveis para que uma economia cresça. aumentar suas capacidades para as etapas pré-natal e parto. elevar os anos de escolaridade e a qualidade dos conteúdos. Tudo isso reduzirá muito as taxas de mortalidade materna e infantil. porque redundará em reduzir a gravidez adolescente. 99 “derrame de benefícios” que se produzirá ao adotar as receitas econômicas em voga nas últimas décadas. que a elevada pobreza presente seria a metade se tivessem sido mantidos os níveis de desigualdade (igualmente altos) do início da década de 1970 e não tivessem subido aceleradamente como aconteceu. Assim. Os perdedores continuam aumentando e os ganhadores aumentam suas brechas relativas com respeito a eles. Um caso típico é o da América Latina. Muito se tem avançado neste debate nos últimos anos. Birdsall & Londoño (1997) demonstraram que é tal o peso da desigualdade no desenvolvimento social. em definitivo. No entanto. mas que deve limitar-se. . o debate a ser empreendido no mundo em desenvolvimento deve ir ainda mais longe. Assim se determina que um dos investimentos mais rentáveis do planeta é aquele direcionado à educação de meninas pobres... A política social não é então um paliativo enquanto se produz o derrame. a qualidade da população. mesmo havendo crescimento econômico. porém ainda há um longo caminho a ser percorrido. um gasto. progresso tecnológico e competitividade não se acompanham com enérgicas políticas públicas sociais. Nessa concepção. sobretudo por razões políticas. Em outras áreas. tenha estabilidade. ele não circula. Diversas medições recentes o estabeleceram quantitativamente. tende a estacionar-se em certos setores da sociedade. Na maioria dos casos estudados pelos Informes sobre Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas. os déficits sociais não se resolverão. o social é visto como um gasto basicamente necessário. Demonstrou-se que o social não se resolve através do “derrame”. em condições de alta desigualdade. melhorar os índices de saúde pública. O que se deve discutir é que o social não é. Destinar recursos de forma conseqüente no tempo ao desenvolvimento da educação de uma população. por exemplo. é um ator fundamental para um desenvolvimento equilibrado.

melhor expectativa de vida. diversos investimentos tecnológicos de ponta escolheram. comparam-se no gráfico dois grupos de três sociedades cada um. em saúde e educação. nas visões modernas do desenvolvimento. É necessário promover este grande debate nos países em desenvolvimento. Realiza a comparação seguinte. tendo produtos brutos per capita bastante inferiores a outros. e é absolutamente necessário fazer o que for preciso para que os países em desenvolvimento cresçam com as maiores taxas possíveis. no entanto. China e pelo Esta- . formado pelo Sri Lanka. progridam tecnologicamente. tenham estabilidade econômica. Contudo. Ouve-se com grande freqüência as alegações de que em definitivo não é possível fazer nada importante no campo social pelas restrições severas de recursos.100 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL como já se mencionou. Os países em desenvolvimento têm recursos escassos e estariam “condenados”. Nos últimos anos. Eles têm um produto bruto per capita cerca de 5 a 10 vezes maior que o do outro grupo. Uma segunda condição de fundo para avançar nesta reforma é enfrentar outro tipo de argumento de enorme peso nos países em desenvolvimento. Sem dúvida. à reforma do Estado social que se necessita. Um dos grupos compreende o Gabão. uma alavanca poderosa de crescimento sadio. Um fator decisivo de sua escolha foi tratar-se de um dos poucos países que têm investido sistematicamente. a política social deve ser concebida como condição indispensável do desenvolvimento econômico”. a Costa Rica. Brasil e África do Sul. durante décadas. além de imprescindível e urgente para enfrentar os déficits neste campo. que é um indicador decisivo? A expectativa de vida deveria ser considerada. na cidadania. segundo este argumento. o tema dos recursos é fundamental. Amartya Sen (1998) apresenta uma questão estrutural a respeito: como explicar que certos países. Como se observa. assinala o Prêmio Nobel de Economia. Ele proporcionará uma firme base de apoio. a que parte importante de sua população viva na pobreza. para instalar-se. atraiam investimentos. e por contar com uma população de boa qualificação e um sólido sistema sanitário e educativo. tenham. Como defende Alain Touraine (1997): “Em vez de compensar os efeitos da lógica econômica. A política social. um país latino-americano pequeno e pobre em recursos naturais. a possibilidade de ter acesso a condições básicas da competitividade está fortemente ligada ao nível médio da mãode-obra de um país. como um indicador muito importante de êxito ou fracasso econômico. é.

Assim. houve uma priorização do social. 1998. moradia etc. In: The Economic Journal. 1992 80 71 70 69 72 63 66 54 50 40 30 20 1000 10 0 300 Kerala 470 540 500 0 China Sri Lanka África do Sul Brasil Gabão 2670 2770 4450 5000 4500 60 3500 3000 2500 2000 1500 Expectativa de vida PNB per capita Fonte: Amartya Sen. jan. a aspectos como saúde. os progressos econômicos. Como destina seus recursos. na Índia (de 30 milhões de habitantes). Entretanto. do de Kerala. isto não ocorrerá. Outro fator-chave é o nível e a qualidade das políticas públicas sociais.COMO REFORMAR O ESTADO . há melhores coeficientes Gini e há uma ativa PNB per capita (em dólares) Expectativa de vida (anos) 4000 . Se for alto. A escassez de recursos desaparece ali como argumento conclusivo. educação. nas sociedades do segundo grupo. 101 Gráfico 3 Produto Nacional Bruto e expectativa de vida em países selecionados. Outro é o nível de eqüidade existente numa sociedade.. reverterão efetivamente na vida cotidiana das pessoas. Tudo indica que há que se considerar junto com a magnitude de recursos outros fatores. Que papel é atribuído. As segundas são bem mais pobres do que as primeiras. “Mortality as indicator of economic success and failure”. mesmo limitados. nessa destinação. se predomina a desigualdade. Nos três países com melhor expectativa de vida. mesmo sendo eles limitados.. Um deles é a ordem de prioridades que uma sociedade fixa para si. todos estes fatores jogam a favor dela. as pessoas vivem de 6 a 18 anos mais do que no primeiro.

a crença no serviço público. As exigências por participação genuína vêm crescendo cada vez mais e. mas também para dentro. ética e função pública e outros temas correlatos? Parece que se pode esperar muito do fortalecimento contínuo dos processos de democratização. As sociedades civis estão se fortalecendo. um ethos democrático e um genuíno respeito pelos direitos humanos básicos”. mas com as próprias orientações da reforma. Os estilos reformistas não devem ser elíticos. A reforma deve respeitar a diversidade das condições nacionais. A quem devem servir as políticas públicas? Que dilemas éticos se apresentam? Como deve ser o código de ética do funcionário? A necessidade de que perceba as potencialidades de serviço à comunidade que sua tarefa possui e se sinta orgulhoso dela são todos temas que devem ser incluídos. Todos estes fatores incidiram em que as sociedades que menciona. Sen sublinha que isso é possível. como remuneração do pessoal médico e paramédico são muito mais baixos nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos. O Estado com atitude participativa que se deseja conseguir deve ser participativo não só para fora. lenta mas persistentemente. a necessidade de alta integridade. A estratégia deve ser seletiva e gradual. aumenta o papel das instâncias . valores e padrões profissionais. Por exemplo. e outras como a da Costa Rica. que cita com freqüência “registraram uma redução muito rápida das taxas de mortalidade e uma melhoria das condições de vida. Uma terceira condição para o avanço para o tipo de Estado necessário já não tem a ver com a discussão no meio ambiente geral. estão melhorando as condições básicas para a democracia. os custos relativos de componentes centrais para a saúde. é necessário implicar ativamente os funcionários públicos nas reformas. Há ali avanços importantes no mundo em desenvolvimento. na nova reforma. a discussão ética sobre a função pública relegada nas reformas puramente tecnocráticas. Qual seria a força dinamizadora para criar condições como as mencionadas que podem favorecer a reforma? Como conseguir impulsionar um debate público importante sobre prioridades da sociedade. destinação de recursos escassos. nem verticais. Como sublinha Argyriades (2000): “Não devemos passar por cima nem diminuir a importância de certos elementos constantes.102 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL política pública que garante à população serviços públicos básicos de ampla cobertura. Um aspecto crucial é recuperar. sem um crescimento econômico notável”. ainda com recursos reduzidos. papel do social. reformas participativas para o exterior e interior do aparelho público.

. é que a construção de capacidades em termos de instituições e de elevadas competências de governo e liderança raras vezes foi tão importante para todos”. pode desempenhar um papel muito importante diante da dramática recontagem de problemas que afligem os países em desenvolvimento aos quais nos referimos anteriormente. há um controle social cada vez mais estreito sobre a ação pública. não traz por si só abundância. mas também pode ser devastadora para aqueles que não estiverem preparados para ela.. especialmente. apoiado nos processos de democratização. Seu papel é agora mais importante do que nunca. Como ressalta Amartya Sen (1999). como uma força da natureza. Mais precisamente. pode ser benéfica para aqueles que têm a capacidade de dominá-la. Um Estado social inteligente. 103 descentralizadas como os municípios. em termos precisos. Os vastos contingentes de população submersos na pobreza. . sintetizando os resultados dos informes sobre a reforma do Estado nas diversas regiões do mundo. a democracia tem. no entanto. É conhecido o exemplo de Sen.COMO REFORMAR O ESTADO . entre conseqüências... é que a globalização não é uma panacéia. há exigências cada vez mais vigorosas pelo bom funcionamento da justiça e outras instituições-chaves. ela tem se produzido em toda ordem de ditaduras. não se conhecem episódios de fome maciça neste século em países com bom funcionamento de suas instituições democráticas. os “grosseiros níveis de desigualdade” atuais. produzidos pela Divisão de Economia e Administração Pública da ONU: “. aumenta o repúdio à corrupção. “os analfabetos cibernéticos”. Quanto mais ativa for a democracia.o que os informes regionais revelam. nem ainda afirma promessa de progresso para a humanidade. como os chama o PNUD. a geração de “incentivos políticos aos decisores para responder positivamente às necessidades e demandas da população”. exigem respostas imediatas porque entranham um sofrimento social imenso. Como assinala o papa João Paulo II (1999): “o problema da pobreza é algo urgente que não pode ser deixado para amanhã”. os amplos setores de população que estão sendo deixados fora do mundo virtual configurando um novo grupo marginalizado. maiores e mais efetivas serão as pressões destes incentivos sobre os decisores. as populações vulneradas com toda facilidade pelas crises econômicas e naturais. As lições e advertências que podem ser extraídas da experiência mundial da última década. Destaca Argyriades (2000).

o objetivo se encontra muito distante de amplas populações em diversos continentes.3 bilhão de pessoas carecem de água potável. a humanidade conta com imensas forças produtivas. ao mesmo tempo. determinaram rupturas qualitativas nas possibilidades usuais de produção. 3 bilhões se encontram na pobreza. tendo de subsistir com menos de dois dólares diários. 1.3 bilhão de pessoas carecem das necessidades mais básicas e vivem em pobreza extrema. 1. a robótica. entre eles. Entretanto.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 105 Capítulo 4 CAPITAL SOCIAL E CULTURA: chaves esquecidas do desenvolvimento O novo debate sobre o desenvolvimento No final do século XX. a biotecnologia. As revoluções tecnológicas em curso alteraram substancialmente suas capacidades potenciais de gerar bens e serviços. com menos de um dólar de renda por dia. e outras áreas. a microeletrônica. a ciência dos materiais. Alcançar a desejada meta do desenvolvimento econômico e social é mais viável que nunca em termos de tecnologias e potencial produtivo. na América Latina. as telecomunicações. 3 bilhões de pessoas não possuem instalações sanitárias básicas e 2 bilhões não recebem eletricidade. A “aldeia global” em que se transformou o planeta. Porém. Os avanços simultâneos em campos como a informática. ampliando-as extensamente e com um horizonte de contínuo crescimento. . onde as interrelações entre os países e os mercados se multiplicam continuamente.

por exemplo. Os acelerados progressos em medicina permitiram uma extensão considerável na expectativa de vida. 358 pessoas são possuidoras de uma riqueza acumulada superior à de 45% da população mundial. assinalam que. a história seria previsível e até “cansativa”. A história em curso está marcada por severas contradições. Assim.1 Neste âmbito geral. Não podemos dar uma face a nosso futuro. as polarizações sociais cresceram acentuadamente e. direções contraditórias de evolução e altas doses de incerteza. em que o conhecimento tecnológico disponível multiplicou as capacidades de dominar a natureza. pós-estruturalista) ou no prefixo negativo ‘anti’ (antitotalitário). Buscando caminhos mais efetivos. segundo informes da Organização das Nações Unidas (1998). pós-moderno. porém. nos 46 países mais pobres era. o ser humano está criando desequilíbrios ecológicos de grande magnitude. de 53 anos. A idéia do progresso indefinido está sendo suplantada por visões que destinam um papel maior às complexidades. no mesmo ano. enquanto nas 26 nações mais ricas esta alcançava. Edgar Morin (1991) ressalta que. Nosso conhecimento de tempos atuais manifesta-se apenas no prefixo sem forma ‘pós’ (pós-industrial. em 1997. vaticinado por alguns que alegaram que ao desaparecer o mundo bipolar. 1. Enquanto as capacidades produtivas levaram a produção mundial a mais de 25 quatrilhões de dólares. As disparidades alcançam os aspectos mais elementares da vida cotidiana. há um novo debate em ativa ebulição no campo do desenvolvimento. Prêmio Nobel de Química. sendo a maior parte das estruturas da realidade atual “estruturas dissipativas de final aberto”. é difícil predizer em que sentido evoluirão e as lógicas tradicionais são impotentes para explicar seu curso. Exploradores das fronteiras das novas realidades. no inominado. num mundo onde a vida cotidiana de amplos setores está afetada por carências agudas e onde se estima que um terço da população ativa mundial se encontra atingida por sérios problemas de desemprego e subemprego. ao mesmo tempo. colocando em perigo aspectos básicos do ecossistema e sua própria sobrevivência. mais ainda. contradições e incertezas e buscam soluções a partir da integração das mesmas às perspectivas de análise da realidade. Morin ressalta as dificuldades para ter uma visão clara de para onde avança a história: “Estamos no desconhecido. em vez do “fim da história”. como Ilya Prygogine (1988). o que temos diante de nossos olhos é que “daqui em diante o futuro se chama incerteza”.106 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL parece caracterizar-se por uma explosão de complexidade. nem sequer a nosso presente”. . os 78 anos de idade.

Enrique V. “a cultura passou a ser o último aspecto inexplorado dos esforços que se desenvolvem em nível internacional. é o reexame das relações entre cultura e desenvolvimento. e apoiar-se neles. não na discussão teórica. A ênfase é colocada. e fazer isto com seriedade significa rever a agenda do desenvolvimento de um modo que resulte. apresentam-se aspectos da crise do pensamento econômico convencional. Instalou-se uma potente área de análise em vertiginoso crescimento que gira ao redor da idéia de “capital social”. passa-se a observar “o capital social em ação” em . o trabalho se centra em suas possíveis contribuições à América Latina. porque tomará em conta potencialidades da realidade que são de sua essência e que. e abrindose a variáveis às quais se destinava escasso peso nas últimas décadas. é preciso descobrilos. até agora. neste caso. Particularmente. As políticas baseadas em planos que marginalizam aspectos como os mencionados demonstraram limitações muito profundas. explora-se a idéia de capital social. foram geralmente ignoradas”.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 107 o debate está revendo supostos não convalidados pelos fatos. Localizado neste contexto efervescente de exigências por rediscutir a visão convencional do desenvolvimento e integrar novas dimensões. este trabalho procura colocar em foco um tema relevante do novo debate. mais eficaz. Iglesias (1997) sublinha que se abre neste reexame das relações entre cultura e desenvolvimento um vasto campo de grande potencial. uma região com graves problemas nos campos da pobreza (afeta a vastos setores da população) e da iniqüidade (é considerado o continente mais desigual do planeta). com apoio nos desenvolvimentos anteriores. A nova atenção prestada a capital social e cultura inscreve-se nessa crise. mas na presença concreta da mesma em realidades atuais. Há uma revalorização no novo debate de aspectos não incluídos no pensamento econômico convencional. Certamente a integração destes planos tornará ainda mais complexa a busca por estratégias e planos adequados. Em segundo lugar. Como assinala Lourdes Arizpe (1998). Ressalta: “há múltiplos aspectos na cultura de cada povo que podem favorecer seu desenvolvimento econômico e social. as possibilidades de o capital social e a cultura contribuírem para o desenvolvimento econômico e social. O trabalho se propõe a cumprir seu propósito através de vários momentos sucessivos de análise. No entanto. Em terceiro lugar. potencializá-los. para fomentar o desenvolvimento econômico”. por sua vez com sua própria especificidade. Em primeiro lugar. essa é a idéia. posteriormente. Um dos focos dessa área.

Indaga-se. pretendendo capturálos e resolvê-los a partir de âmbitos de referência baseados em grupos de variáveis limitadas. formulam-se algumas reflexões sobre possíveis contribuições da cultura ao desenvolvimento latino-americano. as graves crises observáveis em economias em transição. Assinala a América Latina como um dos casos que evidencia as dificuldades. de índole quase exclusivamente econômica. Por último. Advoga por um novo consenso. onde diversas escolas de pensamento ou personalidades defendem determinados enfoques surgidos de sua própria especulação. como a russa. como o capital social e a cultura constituem potentes instrumentos de construção histórica. pós-Washington. cada vez mais amplo. atualmente. O debate em curso não aparece como um debater no interior da academia. é substituída por análises que partem da vasta evidência empírica que está gerando o instrumental quantitativo e estatístico. afirmando “eu argumentaria que a experiência latino-americana sugere que deveríamos reexaminar. característica de décadas anteriores. Joseph Stiglitz (abril de 1998) afirma que “um princípio do consenso emergente é que um maior grau de humildade é necessário”. as instabilidades pronunciadas nos mercados financeiros internacionais. Foi dinamizado e urgido por processos como os severos problemas experimentados pelas economias do Sudeste asiático. Está fortemente influenciado pelas dificuldades do pensamento convencional na realidade. A crise do pensamento econômico convencional Encontram-se em plena atividade. como um debate em que a especulação infinita a partir das próprias premissas. diante das dificuldades surgidas na realidade.108 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL realidades latino-americanas. os desajustes e polarizações sociais em regiões como América Latina e outros. através de experiências concretas da região. Uma primeira característica da crise em curso é o chamado. diversas linhas de discussão sobre os pressupostos econômicos que têm orientado o desenvolvimento nas últimas décadas. refazer e ampliar os conhecimentos acerca da economia de desenvolvimento . que não deixavam espaço a variáveis de outras procedências. Surge graças aos importantes avanços na medição dos fenômenos econômicos e sociais. Previne-se contra a “soberba epistemológica” com que o pensamento econômico convencional trabalhou múltiplos problemas. a respeitar a complexidade da realidade.

mas sem deixar de considerar que é um meio a serviço de fins maiores. como anos de vida das pessoas. Joseph Stiglitz (outubro de 1998) destaca que o desenvolvimento tem sido visto como um “problema técnico que requer soluções técnicas” e essa visão choca-se com a realidade. no entanto. portanto. Essa visão não deve se perder de vista. As metas técnicas são absolutamente respeitáveis e relevantes. Assinala que constitui um progresso considerável a nova ênfase dada a eles. e equivocar os métodos para medir o avanço. Afirma que “um evento definidor foi o de que muitos países seguiram os ditames de liberalização. Os objetivos finais do desenvolvimento têm a ver com a ampliação das oportunidades reais dos seres humanos de desenvolver suas potencialidades. sua finalidade última. Suas medições não refletem. como os índices de nutrição. Um tema de destaque da discussão aberta é a ênfase em não confundir os meios com os fins. Enrique Iglesias (1997) adverte: “O desenvolvimento apenas pode ser encarado de forma integral. Sublinha: “se em última instância considerássemos o desenvolvimento como a ampliação da capacidade da população para realizar atividades escolhidas livremente e valorizadas. estabilização e privatização. liberdade e outros. A elevação do Produto Bruto per capita. avançam. seria totalmente inapropriado considerar os seres humanos como “instrumentos do . pode-se perder de vista o horizonte para o qual se deveria avançar. para captar a complexidade. e. enquanto planejamos a próxima série de reformas”. os enfoques simploriamente monistas não funcionam”. porém são meios a serviço desses objetivos finais. por exemplo. o que está acontecendo em relação às referidas metas. não têm crescido. tem-se caído com freqüência. saúde.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 109 que são assumidos como verdade. mas que deve ser entendido que o ser humano não é só um meio do desenvolvimento e sim. aparece na nova perspectiva como um objetivo importante e desejável. perspectivas integradoras de variáveis múltiplas. Uma sociedade progride efetivamente quando os indicadores-chaves. Amartya Sen (1998) analisa detalhadamente esta visão geral no caso dos recursos humanos. educação. necessariamente. que vai muito mais além dela. qualidade de vida e desenvolvimento de seu potencial. Outro aspecto que se destaca da nova discussão sobre o desenvolvimento é o apelo cada vez mais generalizado a superar os enfoques reducionistas e buscar. se sugere. Se for produzido um processo de substituição silenciosa dos fins reais pelos meios. As soluções técnicas não são evidentemente suficientes”. desvio no qual. as premissas centrais do chamado Consenso de Washington.

a luta contra a pobreza e a discriminação. Junto ao crescimento econômico. a justiça e os direitos humanos. Destacam: “. Parece que o que convém não é brigar com a realidade. em seu plano de ação. nas críticas ao pensamento econômico convencional. debatem-se visões ampliadoras dos objetivos que deveriam ser perseguidos pelo desenvolvimento. entre outras. entre outros: a ênfase na promoção da educação. em Santiago (1998). como. A partir destas percepções sobre a pequenez do enfoque meramente técnico e a necessidade de delimitar fins e meios. 1998) enfatiza que a confusão meios — fins tem sido freqüente na aplicação do Consenso de Washington: “a privatização e a liberalização comercial têm sido tomadas como finalidades em si mesmas mais do que como meios para alcançar um crescimento sustentável.110 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL desenvolvimento econômico. Alessina & Perotti (1994). O Consenso dos Presidentes da América. Tem-se centrado em demasia na estabilidade dos preços. Centrou-se na privatização. à importância da competição”. a preservação e aprofundamento da democracia. especialmente. Ressalta-se. incluindo. as políticas e as institucionais. apontam a necessidade de se realizar um exame profundo das interseções entre política e economia. mas deu-se pouca atenção à infra-estrutura institucional que é necessária para fazer com que os mercados funcionem e. pontos que excedem as abordagens convencionais como. mas rever o esquema conceitual com o qual se está analisando. Variáveis excluídas ou marginalizadas.. para dar a eles seu devido lugar. mais que no crescimento e na estabilidade da produção. fortalecer a democracia e preservar os equilíbrios do meio ambiente. têm alto peso na realidade e vão incidir fortemente. eqüitativo e democrático. a economia sozinha não pode explicar integralmen- . como as limitações de seu âmbito de análise criaram sérias insuficiências de operação. entre outros. melhorar a eqüidade. refletiu esta ordem de preocupações. o fortalecimento dos mercados financeiros e a cooperação regional em assuntos ambientais. Há uma grande diferença entre os meios e os fins”. Queixar-se delas como “intrusos indesejáveis” não conduz a nenhum caminho útil. surge a necessidade de alcançar o desenvolvimento social. criando cenários não previstos.. Falhou-se em reconhecer que o fortalecimento das instituições financeiras é tão importante para a estabilidade econômica quanto controlar o déficit orçamentário e aumentar a oferta de dinheiro. Stiglitz (outubro.

Por sua vez. mais precisamente. contratos etc. Nesses países. Uma das fraquezas do Consenso de Washington teria sido. Segundo suas pesquisas (1981). ditaduras militares de tipo moderno. funcionam poderosos “incentivos políticos” para que se tomem decisões que evitem a fome. desenvolve-se em detalhes a visão de que todo o tema das instituições deve ser incorporado à análise das realidades econômicas e ao plano de políticas. como as realidades políticas são determinantes nas situações em que a fome maciça afligiu amplos grupos humanos no século XX. observa que a fome de maiores proporções teve lugar em “territórios colonizados e governados por autoridades imperialistas estrangeiras. Las instituciones cuentam é o título de um recente trabalho do Banco Mundial sobre a matéria (1998). o resultado de lutas políticas dentro de estruturas institucionais”. a respeito. foi cenário de uma fome realmente importante”. o conjunto de regras formais e informais e seus mecanismos de execução que incidem sobre o comportamento dos indivíduos e das organizações de uma sociedade. a fome não tem a ver necessariamente com escassez de recursos alimentícios. leis. onde não se tolera a dissidência política”. como tais. ou regimes de partido único. os preceitos religiosos e outros códigos implícitos. de uma imprensa capacitada para informar e questionar a política governamental sem medo de ser censurada. com partidos de oposição capazes de se expressar como tal. os baixos salários e as manobras especulativas. A política econômica é. Entende-se. O quadro de condições políticas pesa fortemente a esse respeito. sob o controle de poderosos autoritários. Vinculase mais com fatores como as disparidades de preços relativos. segundo o Banco Mundial. Entre as informais. Entre as formais. estão a ética. a não inclusão das mesmas entre as políticas que recomenda. Examinando as correlações entre fome maciça e tipo de regime político. regulações. Nele. Sen analisa. As escolhas de políticas econômicas não são feitas por planejadores sociais que vivem apenas entre documentos acadêmicos. Um amplo número de pesquisas recentes dá conta de correlações . encontram-se as constituições. determina (1998) que “nenhum país dotado de um sistema de eleições multipartidárias.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 111 te a enorme variabilidade entre o crescimento dos países e muito menos os resultados econômicos e as alternativas de política. as prescrições de política do Consenso de Washington ignoram o papel potencial que as mudanças nas instituições podem desempenhar para acelerar o desenvolvimento econômico e social”. Assinala a respeito: “Com uma única exceção (a proteção dos direitos de propriedade). a confiança.

como as presentes e prospectivas. Em estruturas produtivas. e os avanços no crescimento. ingressou como um tema central o do capital humano. A nutrição e a saúde são. em que as dificuldades da realidade impulsionaram uma crise e um processo de profunda revisão do pensamento econômico. por sua vez e antes de mais nada. É. como tem sido denominada. Estes começam a influenciar no plano de políticas em alguns países avançados. e instituições de cooperação internacional estão incluindo os progressos em capital social nos critérios de medição do grau de êxito dos projetos. o desenvolvimento das famílias. progresso tecnológico e competitividade nos cenários econômicos de final de século. incidem silenciosamente nas possibilidades de crescimento de desenvolvimento. Denominados de capital social. cada vez mais baseadas em conhecimento. como diversos componentes não visíveis do funcionamento cotidiano de uma sociedade. uma estratégia “vencedora” com benefícios para todos. desenvolvimento social e eqüidade. a qualidade das instituições públicas. Uma onda de pesquisas dos últimos anos indica. como os mecanismos anticorrupção. condições de base para o desenvolvimento do capital humano. como para os resultados econômicos macro do país. a produtividade das empresas. constitui uma via fundamental para alcançar produtividade. A educação faz uma diferença crucial. como ressaltava Sen. Como destaca Arizpe (1997). Neste quadro de conjunto. segundo as medições disponíveis. identida- . Ao mesmo tempo. etnicidade. a credibilidade e outras. absorver e difundir tecnologias avançadas. Nas reformulações em curso do pensamento econômico convencional. têm toda ordem de implicações práticas e foram marginalizados pelo pensamento convencional. confiança.112 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL estatísticas significativas entre bom funcionamento de instituições básicas. com dados de campo a seu favor. já começaram a fazer parte da elaboração dos projetos de desenvolvimento. No centro do capital social encontram-se múltiplos elementos do campo da cultura. tanto para a vida das pessoas. que têm a ver com a situação de seu tecido social básico. os analisaremos na seção seguinte. Melhorar o perfil da população de um país é um fim em si mesmo. Destaca: “A teoria e a política do desenvolvimento devem incorporar os conceitos de cooperação. Neles o papel do capital humano na produção é decisivo. os níveis de qualificação média de uma sociedade serão determinantes em suas possibilidades de níveis de gerar. inscreve-se a integração ativa às análises do capital social e da cultura.

portanto. O crescimento seria. o enfoque limitado do mercado baseado na competência e na utilidade está alterando o delicado equilíbrio destes fatores e. por exemplo.. o mesmo se “derramaria” para os setores mais desfavorecidos e os tiraria da pobreza. Está em discussão um aspecto subjacente mais profundo. a entrada desses conceitos no debate parte do esforço por dar à realidade toda a reflexão sobre o desenvolvimento. As áreas econômica. desenvolvimento social. Todo o modelo está sofrendo severas dificuldades por suas distâncias com os fatos. a qualquer momento. em curso nesse âmbito. políticas com melhores chances de atingir as metas finais. a “recuperar a realidade” com vistas a produzir. política e social estão intrinsecamente ligadas.. A rediscussão do modelo não está sendo feita apenas através da inclusão de diversas variáveis ausentes. a lógica das inter-relações. já que estes elementos constituem o tecido social em que se baseiam a política e a economia. O que ocorrer em cada uma delas condicionará severamente as outras. supunha-se que.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 113 de. Nesse quadro. Na visão convencional. e assim tem acontecido na realidade. alcançando taxas significativas de crescimento econômico. e as críticas procedentes de diversas origens se encaminham de um modo ou outro. O acompanhamento da experiência de numerosos países. O capital social e a cultura começaram a instalar-se no centro do debate sobre o desenvolvimento não como adições complementares a um modelo de alto vigor que se aperfeiçoa um pouco mais com eles. efetuado pela ONU através de seus Informes . em bloqueios muito sérios que surgem das outras áreas. destacam uma inter-relaçãochave: “. a instabilidade política tem efeitos adversos sobre o crescimento”. Por sua vez. Há. ao mesmo tempo. em definitivo. Os países com uma renda mais desigualmente distribuída são politicamente mais instáveis. Alessina e Perotti (1994). Em muitos lugares. uma reavaliação integral das relações entre crescimento econômico e desenvolvimento. Uma parte significativa do novo debate está concentrada na análise de como têm sido subestimados os encadeamentos recíprocos entre as diversas dimensões e como isso gerou erros de consideração no preparo de políticas. A visão puramente economicista do desenvolvimento pode tropeçar. As experiências concretas indicaram que as relações entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social são de caráter muito mais complexo. agravando as tensões culturais e o sentimento de incerteza”. comunidade e amizade. a desigualdade na renda é um determinante importante da instabilidade política.

não terá caráter sustentável se não estiver apoiado num intenso crescimento social. presidente do Banco Mundial. ao mesmo tempo. Efetivamente. continuar em vigor agudas carências para amplos setores da população. A análise das inter-relações entre ambos está indo. mais longe. Podem inclusive ocorrer taxas significativas de crescimento e. Alain Touraine (1997) sugere que é necessário passar a uma nova forma de arrazoar o tema: “Fica assim proposto o princípio central de uma nova política social: em vez de compensar os efeitos da lógica econômica. Não basta o crescimento para solucionar a pobreza. James Wolfensohn (1996). esta deve ser concebida como condição indispensável do desenvolvimento econômico”. extensão dos serviços de água potável. e não chegar aos estratos submersos. educação. não haverá desenvolvimento econômico satisfatório”. mas o mesmo. Ainda que absolutamente imprescindível. potencializa o capital social e gera estabilidade política. Propõese então que. examinaram as correlações estatísticas respectivas. Wickrama & Mulford (1996). em educação e saúde. Outro eixo analisado são as relações entre grau de democracia e desenvolvimento social. serviços públicos e outros fatores que contribuem para o bem-estar social. devem ser praticadas ativas políticas de desenvolvimento social e deve melhorar-se a eqüidade. o desenvolvimento social fortalece o capital humano. mantidos no tempo e consideráveis. junto aos esforços necessários para crescimento. não encontra corroboração para os supostos do chamado modelo de “derrame”. Farão parte dessas políticas investimentos. quando aumenta a participação democrática e se dispersa o poder . deve haver simultaneamente desenvolvimento social. inclusive. James Migdley (1995) afirma que essa forma de crescimento caracterizou muitas nações desenvolvidas e em desenvolvimento nos últimos anos e a denomina “desenvolvimento distorcido”. entre outros. Seus dados indicam que. A visão que aparece é a de que não é viável o desenvolvimento social sem crescimento econômico. Ressalta-se que são interdependentes. constata.114 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL de Desenvolvimento Humano. o mesmo pode ficar estacionado em certos setores da sociedade. não foi acompanhado ali por um melhor acesso à assistência à saúde. por sua vez. O crescimento. proteção à família e outros. defendeu o seguinte a respeito: “Sem desenvolvimento social paralelo. bases essenciais para um crescimento sadio e sustentável. Para que o crescimento signifique bem-estar coletivo. instalações sanitárias e energia elétrica.

neles. deteriorado. Wolfensohn (1998) sugere a imprescindibilidade de ir além dos enfoques unilaterais: “Devemos ir além da estabilização financeira. e serão desatadas poderosas resistências. valores. Devemos fazer tudo isso. Porque se não tivermos a capacidade de fazer frente às emergências sociais. a oportunidade de cruzar ativamente capital social. cultura e desenvolvimento. E sem estabilidade política. se não contarmos com planos a mais longo prazo para estabelecer instituições sólidas. a principal corrente de trabalho sobre desenvolvimento prestava limitada atenção ao que ocorria nesses campos. A frente a ser abordada é muito ampla. O capital social e a cultura são componentes-chaves destas interações. as famílias. na imagem transmitida. está muito ligada aos graus de eqüidade e justiça social. Somando fatores. são capital social e cultura por essência. pelo contrário. Se. não haverá estabilidade financeira”. se não conseguirmos uma maior eqüidade e justiça social. Devemos prestar especial atenção às mudanças institucionais e estruturais necessárias para a recuperação econômica e para o desenvolvimento sustentável. É necessário atacar. A crise da reflexão convencional sobre o desenvolvimento em marcha está abrindo. por mais recursos que consigamos acumular para programas econômicos. por sua vez. saltado. explorar. importantes capacidades aplicáveis ao desenvolvimento serão inutilizadas. a estabilidade financeira não é possível sem estabilidade política. Como se observa. que são sua própria identidade. Os governos tendem a responder mais prontamente às necessidades da maioria da população. Devemos ocupar-nos dos problemas sociais. não haverá estabilidade política. entre outras. melhoram os indicadores de desenvolvimento social. valorizar e potencializar sua contribuição. base da prosperidade e do progresso humano.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 115 político entre o conjunto da população. tradições. Até pouco tempo atrás. muitas indagações eram realizadas à margem de possíveis conexões com o pro- . visões da realidade. As pessoas. se reconhecer. Devemos abordar os problemas do crescimento com eqüidade a longo prazo. São portadores de atitudes de cooperação. os sociais e avançar nas transformações institucionais. Se isso for ignorado. os grupos. ao mesmo tempo que os problemas econômicos e financeiros. pode ser muito relevante e propiciar círculos virtuosos com as outras dimensões do desenvolvimento. Ela. Por sua vez.

descoberta recente das ciências do desenvolvimento. o capital construído. fundamentalmente. gerado pelo ser humano. constituído pela dotação de recursos naturais com que conta um país. O que é então o capital social? O campo não tem uma definição consensualmente aceita. que estavam fora do enquadramento convencional. De recente exploração. bens de capital. Capital social. existe a impressão cada vez mais generalizada de que. por exemplo. saúde e educação de sua população. tentaremos avançar nessa direção. e o capital social. o capital humano. determinado pelos graus de nutrição. considera em seu difundido estudo sobre as dissimilitudes entre a Itália do norte e a Itália do sul que. explorando algumas das múltiplas inter-relações possíveis. que desempenham papéis importantes. Robert Putnam (1994). Na seção seguinte. as normas de comportamento cívico praticadas e o nível de associatividade que a caracteriza. o conformam: o grau de confiança existente entre os atores sociais de uma sociedade.116 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL cesso de desenvolvimento. a competitividade. Alguns estudos atribuem às duas últimas formas de capital um percentual majoritário do desenvolvimento econômico das nações do final do século XX. e daquilo que não é. que inclui diversas formas de capital. Entretanto. Estes elementos são evidenciadores da riqueza e fortaleza do tecido social interno de uma sociedade. apesar das consideráveis imprecisões. precursor das análises do capital social. A crise. As atitudes positivas em matéria de comportamento cívico. atua como um “economizador de conflitos potenciais” limitando o “pleitismo”. o crescimento sustentável.. que busca ampliar o âmbito de compreensão para poder superar a estreiteza evidenciada pelo âmbito usual. daquilo que é. A confiança. como infra-estrutura. na verdade. comercial etc. em plena delimitação de sua identidade. ao percebê-lo e investigá-lo. financeiro. que vão desde cuidar dos espaços públicos ao pagamen- . as disciplinas do desenvolvimento estão incorporando ao conhecimento e à ação um amplo número de variáveis. Indicam que ali há chaves decisivas do progresso tecnológico. há quatro formas básicas de capital: o natural. cultura e desenvolvimento Segundo análises do Banco Mundial. encontra-se. o bom governo e a estabilidade democrática. cria um vasto espaço para superar os isolamentos.

mas acentua que é preciso dar mais ênfase às vias pelas . tem a ver com o grau de integração social de um indivíduo. Bullen & Onyx (1998) o vêem como redes sociais baseadas em princípios de confiança. Este conjunto de fatores teria. atitudes e valores que auxiliam as pessoas a transcender relações conflituosas e competitivas para conformar relações de cooperação e ajuda mútua. bom governo e eqüidade social. Melhora a efetividade privada. o capital social se apresenta tanto no plano individual como no coletivo. composto de valores e atitudes que influenciam como as pessoas se relacionam entre si. se todos numa vizinhança seguem normas tácitas de zelar pelo outro e de não-agressão. Por exemplo. e teriam desempenhado um papel de definição na superioridade que a primeira teria evidenciado em matéria de performance econômica. Por outro dos precursores. Em visão crítica. normas de reciprocidade. ideais. James Coleman (1990). implica relações. estabilidade política e outras áreas. Considera que os arranjos institucionais horizontais têm um impacto positivo na geração de redes de confiança. Inclui confiança. O capital social desempenha um papel importante ao estimular a solidariedade e superar as falhas do mercado através de ações coletivas e uso comunitário de recursos. com identificação com as formas de governo. as crianças poderão caminhar até a escola com segurança. Stephan Baas (1997) afirma que o capital social tem a ver com coesão social. No entanto. também é um bem coletivo. maior presença e profundidade na Itália do norte em relação à Itália do sul. reciprocidade e normas de ação. Entre outros. expectativas de reciprocidade. James Joseph (1998) entende o capital social como um vasto conjunto de idéias. armar redes. Diferentes analistas atuais desta velha-nova forma de capital enfatizam diversos aspectos. comportamentos confiáveis. qualidade de governo. instituições e arranjos sociais. sua rede de contatos sociais. e o capital social estará produzindo ordem pública. acordos. Levi (1996) destaca a importância das descobertas de Putnam. sinergias de toda ordem em seu interior. A existência de altos níveis de associacionismo indica que é uma sociedade com capacidades para atuar cooperativamente. através dos quais as pessoas encontram sua vez e mobilizam suas energias particulares para causas públicas. contribuem com o bem-estar geral. No primeiro. com expressões culturais e comportamentos sociais que fazem a sociedade mais coesiva e mais do que uma soma de indivíduos. para Kenneth Newton (1997) o capital social pode ser visto como um fenômeno subjetivo.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 117 to dos impostos. segundo as observações de Putnam.

Knack & Keefer (1996) mediram econometricamente as correlações entre confiança e normas de cooperação cívica e crescimento econômico. possuíam informações que os levavam a utilizar mais produtos agroquímicos. as famílias com maiores níveis de renda (medidos pelos gastos) eram as que tinham um grau maior de participação em organizações coletivas. e o mesmo é de uma enorme complexidade. . o capital social continua dando mostras de sua presença e ação efetiva. e encontraram que as primeiras apresentam um forte impacto sobre o segundo. Entre elas. Esse romantismo restringiria a identificação de mecanismos alternativos para criação e uso do capital social e limitaria as conceitualizações teóricas. e de como pode ser operacionalizado e estudado empiricamente. mesmo nesses contextos de alta pobreza. Detectaram que. entre elas: • suas práticas agrícolas eram melhores que as dos lares que não tinham participação. Ferrazzi e Schryer (1998) entendem que a teoria do capital social precisa de maiores refinamentos antes que possa ser considerada uma generalização mensurável. Ainda. longe do Estado. num amplo grupo de países. em conseqüência de sua participação. Considera que o foco de Putnam em associações civis. Enquanto prossegue a discussão epistemológica e metodológica totalmente legítima. Narayan & Pritchett (1997) realizaram um estudo muito sugestivo sobre o grau de associatividade e rendimento econômico em lares rurais da Tanzânia. O capital social que acumulavam através dessa participação os beneficiava individualmente e criava benefícios coletivos por diversas vias.118 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL quais o Estado pode favorecer a criação de capital social. Wall. É nisso que queremos nos concentrar. visto que os estudos sistemáticos sobre o tema apenas tiveram início há menos de uma década. não há acordo entre os pesquisadores e praticantes acerca dos modos particulares com que contribui para o desenvolvimento. fertilizantes e sementes melhoradas. seu estudo indica que o capital social integrado por esses componentes é maior em sociedades menos polarizadas quanto à desigualdade e diferenças étnicas. enquanto houver consenso sobre o fato de que o capital social é relevante para o desenvolvimento. Uma ampla linha de pesquisas voltadas a “registrá-lo em ação” está lançando continuamente novas evidências sobre seu peso no desenvolvimento. deriva de sua perspectiva romântica da comunidade e do capital social. de como pode ser gerado e utilizado. Serageldin (1998) ressalta que.

na Suécia. Uma ampla pesquisa sobre 60 mil crianças nos Estados Unidos (Wilson. Encontraram forte correlação com um indicador-chave de rendimento. • cooperavam mais em nível municipal. Sua hipótese é que o capital social torna mais produtivas outras formas de capital. La Porta. López de Silanes. assim. Suas análises estatísticas lançam significativas correlações entre o grau de confiança existente numa sociedade e fatores como a eficiência judicial. A influência positiva de um componente central do capital social. como o capital humano e o capital financeiro. Shleifer e Vishny (1997) trataram de convalidar as teses de Putnam numa mostra ampla de países. melhores serão os resultados e vice-versa. Teachman. Utilizaram três indicadores: a dinâmica da família. • influenciavam na melhoria dos serviços públicos. a família. a sofrer problemas emocionais ou de conduta e a ter dificuldades com os colegas.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 119 • tinham melhores informações sobre o mercado. a probabilidade de evasão. participavam mais na escola. a qualidade da burocracia e o cumprimento dos impostos. Consideram que “os resultados de Putnam para a Itália aparecem confirmados em nível internacional”. • estavam dispostos a correr mais riscos porque se sentiam mais protegidos por fazer parte de uma rede social. Katzman (1997) afirma que estudos no Uruguai mostram que as crianças concebidas fora do casamento apresentam uma taxa de mortalidade infantil muito maior do que o resto e que as que não convivem com os dois pais biológicos exibem maiores danos em diferentes dimensões do desenvolvimento psicomotor. Paasch e Carver (1997) trataram de medir como o capital social influi no rendimento educativo das crianças. em numerosos aspectos tem sido verificada por diversas pesquisas recentes. os laços com a comunidade e o número de vezes que uma criança trocou de colégio. Também eram muito mais inclinadas a ter uma conduta anti-social. Quanto maior for a solidez desse capital social básico. . Em pesquisa num meio totalmente diferente. Assinalam os pesquisadores em suas conclusões que “os canais identificados pelos quais o capital social incrementava a renda e a solidez econométrica da magnitude dos efeitos do capital social sugerem que o capital social é capital e não meramente um bem de consumo”. a ausência de corrupção. 1994) indica que aquelas que viviam com apenas um dos pais eram duas vezes mais propensas a ser expulsas ou suspensas na escola.

por cada ponto de aumento na desigualdade na distribuição da renda. e maiores. eqüidade e saúde pública. Jonsson & Gahler (1997) demonstram que as crianças provenientes de famílias divorciadas mostram menor rendimento educativo. Seus estudos indicam que o espaço familiar cria condições que tornam factível uma estratégia-chave de sobrevivência.340 e expectativa de vida de 77. Quanto mais baixa é a primeira. menor é a confiança que os cidadãos têm uns nos outros. Kawachi. há perdas de capital social e que elas são menores em famílias com pais envolvidos com as crianças e mães protetoras. maior é a taxa de mortalidade média. mais cresce a mortalidade. transação e informação associados com o mesmo.5 anos). em termos de expectativa de vida. . que aquelas com contatos mais extensivos. o auto-emprego. A família minimiza os custos de produção.120 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL em condições econômicas muito melhores. detectou que as pessoas com menos contatos sociais têm piores probabilidades. afirmam os autores. Ilustram suas análises com diversas cifras comparativas. apesar de terem uma renda per capita das mais altas do mundo (US$ 24. Medem estatisticamente as correlações entre capital social. O famoso estudo de Alameda County (Estados Unidos). Há uma perda de recursos em relação àqueles com que conta a criança nas famílias estáveis. demonstram. Quanto menor é o grau de confiança entre os cidadãos. contudo. Kennedy e Lochner (1997) dão conta de dados muito interessantes sobre a relação entre capital social. Os pesquisadores introduzem na análise o grau de desigualdade econômica. confirmado depois em estudos epidemiológicos em diferentes comunidades. é. Facilita o surgimento de empresas operadas familiarmente. e mortalidade em 39 estados dos Estados Unidos.680 em 1993). entre os imigrantes. a taxa de mortalidade sobe dois ou três pontos com respeito ao que deveria ser. Hagan. inclusive para o interior de um país. tem uma expectativa de vida (76.1 em 1993) menor que a de países com menor renda. Sanders & Nee (1996) analisam a família como capital social no caso dos imigrantes nos Estados Unidos. Os Estados Unidos. MacMillan e Wheaton (1996) destacam que nas migrações. que facilita os contatos interpessoais. O modelo estatístico que utilizam lhes permite afirmar que. como a Holanda (US$ 17. A coesão social de uma sociedade. representado por confiança. A mesma correlação é obtida ao relacionar a taxa de participação em associações voluntárias com mortalidade. quando se trata de pais e mães que não se dedicam intensamente às crianças. um fator fundamental de saúde pública. se mantém o peso diferencial das famílias estáveis no rendimento da criança. Quanto mais alto.

caracterizam-se por terem elevados níveis de eqüidade. faz diminuir o capital social e isso afeta intensamente a saúde da população.6). o comportamento cívico. ainda. a faz crescer. Pode aparecer através das expressões mais variadas. A desigualdade.. nossa ima- . impulsionar consensos. as populações camponesas deslocadas. pelo contrário. visto que se destruíram seus vínculos e inserções básicas. ao ver-se obrigadas a migrar. como destaca Stiglitz (out. como apontam vários estudos. mas elas não invalidam as imensas potencialidades do capital social positivo.) molda nosso pensamento.130 e expectativa de vida de 76. Como a caracteriza o informe da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento da Unesco (1996). são estratégicas para o desenvolvimento econômico as capacidades existentes numa sociedade para resolver disputas. propôs a respeito um ponto que merece toda a atenção.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 121 Israel (US$ 15.. “a cultura está nas maneiras de vivermos juntos (. como podem ser outros fatores de produção. Uma distribuição mais igualitária da renda cria maior harmonia e coesão social e melhora a saúde pública. Fuentes (1998) analisa como em Chiapas. O capital social. Assinala: “O amor e o civismo não são recursos limitados ou fixos. aqueles que enfrentam a crise se retiram de tais relações ante sua impossibilidade de cumprir suas obrigações”. aumenta com seu emprego”. Hirschman (1986). se descapitalizaram severamente em termos de capital social. ser reduzido ou destruído. O capital social pode. são recursos cuja disponibilidade. longe de diminuir. como a Suécia (78. Nelas. está operando na realidade cotidiana e tem grande peso no processo de desenvolvimento. ressalta. por princípio válidas e necessárias. A cultura subjaz atrás dos componentes básicos considerados capital social. à margem das especulações e buscas de precisão metodológicas.7 anos). como a confiança. Indica que se trata da única forma de capital que não diminui ou se esgota com seu uso que. ainda. o grau de associacionismo. haver formas de capital social negativo.660 e expectativa de vida de 77. concluem os pesquisadores. consertar o Estado e o setor privado. Por exemplo. como as organizações criminosas. Moser (1998) adverte sobre a vulnerabilidade da população pobre nesse aspecto diante das crises econômicas. México. de forma pioneira. As sociedades com maior expectativa de vida no mundo.3) e o Japão (79. Pode. 1998).6 anos) e a Espanha (US$ 13. “enquanto os lares com suficientes recursos mantêm relações recíprocas. A cultura cruza todas as dimensões do capital social de uma sociedade.

os valores de que é portadora uma sociedade incidirão fortemente sobre os esforços de desenvolvimento. Os pais com orientação para o econômico centravam-se em suas conquistas econômicas. ao contrário. que envolvem a idéia de capital social. imagens. Valores que têm suas raízes na cultura e são fortalecidos ou dificultados por esta. de desenvolvimento com eqüidade. . Os valores predominantes num sistema educativo. formas de expressão e comunicação e muitos outros aspectos que definem a identidade das pessoas e das nações. Entre outros aspectos. Desempenham um papel crítico em determinar se avançarão as redes. são essenciais para um desenvolvimento sustentável. nos meios de difusão maciça e outros âmbitos influentes de formação de valores podem estimular ou obstruir a conformação de capital social que. bens materiais e em aspectos como a aparência externa. A cultura incide claramente sobre o estilo de vida dos diversos grupos sociais. Como destaca Chang (1997): “Os valores colocam as bases da preocupação de um pelo outro mais além do simples bem-estar pessoal. respeito. o favorecerão ou. que se diferenciavam basicamente num aspecto: Alguns deles enviavam seus filhos a escolas com uma forte ênfase no cultural e outros. natural e descomplicada. por sua vez. as normas e a confiança”. A cultura engloba valores. a escolas inclinadas ao econômico. Como afirmou Amartya Sen (1997). Os comportamentos que surgiram eram muito diferentes. tolerância. como cantar. executar instrumentos musicais e ler um livro por mês. As inter-relações entre cultura e desenvolvimento são de toda a ordem e assombra a escassa atenção que lhes tem sido prestada. o obstaculizarão. Surgem potencializadas ao revalorizar-se todos estes elementos silenciosos e invisíveis. altruísmo. Se estes códigos sublinham valores afins ao projeto requerido por amplos setores da população. Seu estilo de vida incluía o gosto por formas simples da arte e a busca de uma vida saudável. mas claramente operantes. Os pais culturalmente orientados utilizavam mais tempo e energia em formas de arte simples. “os códigos éticos dos empresários e profissionais são parte dos recursos produtivos da sociedade”. Um significativo estudo realizado na Holanda (Rupp.122 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL gem e nosso comportamento”. 1997) tratou de determinar diferenças no estilo de vida entre lares operários de um mesmo nível socioeconômico. percepções. como o grau de solidariedade. como se viu. tem efeitos de primeira ordem sobre o desenvolvimento.

O capital social em ação. podem criar obstáculos enormes no caminho para o desenvolvimento. já que funcionam como uma força coesiva numa época em que muitas outras estão se enfraquecendo. a cultura surge como um elemento-chave. Nela. Seu desrespeito ou marginalização podem ser totalmente lesivos à sua identidade e bloquear as melhores propostas produtivas. Algumas obtiveram celebridade mundial. Como assinala a respeito Stiglitz (out. Os grupos desfavorecidos têm valores que lhes dão identidade. as pessoas podem reconhecer-se mutuamente. tentaremos demonstrar que isso não é assim. que conseguiu surpreen- . cultivar-se. A cultura é. Como agudamente destaca a Unesco. dedicado a apoiar financeiramente camponeses pobres. a atitude cultural era a variável básica que estava impulsionando comportamentos muito diversos. pelo contrário. preservar os valores culturais tem grande importância para o desenvolvimento. poder-se-ia perguntar: conseguir essa potencialização não pertencerá ao reino das grandes utopias. Existe uma ampla gama delas em nível internacional. Na luta contra a pobreza. como a do Grameen Bank de Bangladesh. que há experiências concretas que conseguiram mobilizar o capital social e a cultura em escala considerável a serviço do desenvolvimento e que se deve prestar a máxima atenção a eles para extrair ensinamentos a respeito.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 123 Tendo trabalhos e níveis de renda similares. ainda. Seu desconhecimento ou destruição. Entretanto. Pelo contrário. Experiências latino-americanas O que acontece quando se realiza um trabalho sustentado de longo prazo de mobilização de aspectos-chaves do capital social de uma comunidade? Quais são as respostas observáveis? Que oportunidades novas e que dificuldades aparecem? É possível obter indícios significativos a respeito revendo experiências atualmente em curso. de um porvir ainda alheio às possibilidades atuais das sociedades? Na seção seguinte deste trabalho. no informe já citado (1997): “Para os pobres. um fator decisivo de coesão social. crescer em conjunto e desenvolver a auto-estima coletiva. 1998). os valores próprios são freqüentemente a única coisa que podem afirmar”. Capital social e cultura podem ser alavancas formidáveis de desenvolvimento se forem criadas as condições adequadas. sua potencialização e afirmação podem desencadear enormes potenciais de energia criativa.

CUAVES. Nelas participa a grande maioria da população. cria-se uma organização. Estabelecem quase 4 mil unidades organizativas para buscar soluções e gerir assuntos comunitários. Somaram-se a elas milhares de habitantes de favelas de Lima. Peru: dos areais a uma experiência social avançada Em 1971. O projeto é o de 1300 quarteirões. O plano urbanístico traçado diferencia VES de outros bairros pobres. onde funcionam os edifícios públicos básicos. Escolhemos três casos que obtiveram resultados de alta relevância que são reconhecidos em seus países e em nível internacional. Partindo de delegados por quarteirão e por grupos residenciais. que representa toda a comunidade e que terá um peso decisivo em seu desenvolvimento. Concentrar-nos-emos em nosso trabalho em experiências da América Latina que são indicativas do potencial latente na região nesta matéria e podem oferecer ensinamentos úteis para formular políticas de desenvolvimento social nelas. que configuram 110 grupos residenciais. Em vez de ter apenas um centro. Isso favorece a interação e maximiza as possibilidades de cooperação. O governo interveio para expulsálos e finalmente permitiu que se fixassem num vasto areal localizado a dezenove quilômetros de Lima. .124 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL dentes resultados apoiando-se em elementos relacionados com o grau de associatividade. como “práticas sociais de grande êxito” e que são continuamente analisados e visitados para buscar possibilidades de copiá-los total ou parcialmente. que careciam de recursos de toda sorte. Muitas outras pessoas foram se juntando a eles e sua população atual se estima em cerca de 300 mil habitantes. atividades culturais e encontro social. A experiência que desenvolvem é considerada muito particular em múltiplos aspectos. carentes de toda ordem de recursos e quase incomunicáveis (é preciso percorrer 3 km para encontrar uma via de acesso a Lima). um gigantesco esforço de construção baseado. Cada grupo residencial tem seu próprio centro. Esses 50 mil pobres. fundam ali Villa El Salvador (VES). várias centenas de pessoas pobres realizaram uma invasão de terras públicas na periferia de Lima. confiança mútua e outras dimensões do capital social. onde se instalaram locais da comunidade e espaços para esporte. Desenvolvem nestes areais. chegando-se a que cerca de 50% dos maiores de 18 anos ocupam algum cargo de dirigente em termos organizacionais. Villa El Salvador. o esquema é totalmente descentralizado. Dá-se um modelo organizativo baseado na participação ativa.

educação e recuperação nutricional. ao qual outros bairros pobres demoravam para obtê-los e havia desenvolvido uma considerável infra-estrutura. Apresenta-se uma pergunta de fundo: como foi possível conseguir estes resultados partindo da miséria. em oito anos. num âmbito natural tão difícil.). como em toda Lima. 38 mil delas construídas pelos moradores. Em saúde. a organização da comunidade para a saúde preventiva e o controle de natalidade tinham incidido num forte decréscimo da mortalidade infantil para 67 por mil. conseguido também com luta pelos pequenos industriais da zona”. centros de saúde comunitários. A isso se somavam 41 núcleos de serviços integrados de saúde. A taxa de analfabetismo havia descido de 5. as campanhas de vacinação realizadas com apoio da comunidade. Um inventário da situação de finais de 1989 afirma que em menos de duas décadas tinham 50 mil moradias. . 64 centros educativos e 32 bibliotecas populares. ruas.8% para 3. várias vezes foi descrito do seguinte modo: “O poder de Villa El Salvador. zona agropecuária e até um parque industrial. colégios. com centenas de quilômetros de redes de água e de luz. Michel Azcueta (1991). no trabalho voluntário da própria comunidade.8 bilhões de metros quadrados de ruas de terra batida e construído. tinham levantado com seu esforço 2. saneamento e eletricidade. avanços em matéria de obtenção de serviços de água. foi construindo uma cidade a partir do nada. A taxa de matrícula no primário havia alcançado 98% e. O enorme esforço coletivo realizado pelo prefeito de VES. cifra muito inferior à média nacional. uma rede de farmácias e uma razoável estrutura viária interna. Permanecendo pobres e com sérios problemas de desemprego. que tinham coberto toda a população.5%. equipamento e serviços comunitários superior à de outros bairros. era superior a 90%. A taxa de mortalidade geral era também inferior às médias nacionais.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 125 centralmente. cimento. num prazo que se estimou menor. todas cifras superiores às médias nacionais. que permitiam a comunicação interna. as conquistas sociais obtidas pela VES eram muito significativas. com 4 rotas principais e 7 avenidas perpendiculares. e muito maiores que as das populações pobres similares. telhado de concreto etc. ainda. mercados. Meio milhão de árvores foram plantadas. em sua maior parte com os recursos e trabalho da comunidade. no ginasial. Registravam-se. com seu esforço e sua luta. 60 pontos da comunidade. 68% com materiais nobres (tijolos. que estava em 88 a 95 por mil.

Aparece refletida vividamente na forma como foi enfrentado o problema de construir escolas. parece enorme e que não se entende sem acudir uma explicação sobre suas motivações subjetivas. em que convive a propriedade comunitária de serviços úteis para todos. foram aplicados em VES. Começou-se a dar aulas em salas que usavam esteiras como paredes. em sua maioria. A população originária de VES estava formada. trabalho comunitário e solidariedade. e a transformaram num bairro pobre diferente. a população organizou-se para que se construíssem escolas e as crianças não perdessem o ano escolar. mas tinham um rico capital social. ao mesmo tempo que a propriedade familiar e individual. assim como toda a região. Michel Azcueta (Zapata.. por famílias vindas da serra peruana. Estas salas de aula foram construídas em jornadas coletivas dominicais. mas melhoraram aspectos fundamentais da vida das pessoas da VES. enquanto o chão era de terra batida. Funcionou com fluidez a partir das bases históricas favoráveis que tinha a cultura camponesa peruana. e os poucos tijolos foram reservados para ser usados como precários bancos pelas crianças. e de toda a ordem de dificuldades? As chaves para entender as conquistas. em que todos os moradores foram convocados a ser atores das soluções dos problemas coletivos. foram empregadas intensamente em VES. impregnou desde o início a história da Villa. 1996) narra: “. como as lagoas de oxidação utilizadas pelos incas. que não erradicaram a pobreza. . como a prática de uma intensa vida comunitária.126 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL em meio da aguda crise econômica que viveu o Peru. Aspectos centrais dessa cultura. com um entusiasmo e fervor que deixaram uma lembrança inesquecível entre seus protagonistas”. Essa cultura facilitou a montagem dessa extensa organização participativa. A visão ancorada na cultura dos moradores de VES. Elas permitem um processamento dos dejetos gerados através de um sistema de lagoas que leva à produção de adubo. as quais se impermeabilizavam com plásticos para minimamente combater o frio do inverno. Até receitas técnicas. que depois é usado para gerar zonas verdes e produção agrícola. da transcendência do trabalho coletivo como meio para buscar soluções. nos anos 1980.. Levavam consigo a cultura e a tradição indígena e uma milenar experiência histórica de cooperação. Os camponeses dos Andes careciam de toda riqueza material. Formaram-se doze comitês pró-escola nos primeiros três meses e se iniciou a construção de muitas salas de aula num esforço que. visto a distância. parecem encontrar-se em elementos incluídos na idéia do capital social. a partir da própria instalação.

mais de uma centena de clubes de mães. . Ao criar VES e desenvolvê-la.. oficinas de comunicação etc. Procuraram dar segurança às crianças. esteve na base dos avanços que foi conseguindo em curto espaço de tempo. quando se pergunta aos moradores de VES de onde são. cooperativas de mercados. fazendo referência a seu lugar de nascimento. foi ainda fortalecendo sua auto-estima. Entre eles: produtores unindo-se para comprar insumos em conjunto. bibliotecas populares. artísticos. estímulo fundamental para a ação produtiva. ligas desportivas. que criaram e geriram exemplarmente 264 bandejões populares e 150 programas de “copo de leite”. não respondem como outros chegados do interior. não resulta difícil advertir expressões recorrentes de autoconfiança coletiva. rondas urbanas. criaram a si próprios. ou seus dirigentes. organizada em âmbitos cabalmente participativos. certezas sobre sua disposição de um poder organizado. Por isso como marca. uma certa crença nas capacidades da comunidade de propor-se objetivos e unir-se para sua conquista”. a partir do nada. e sim dizem “sou da Villa”. Não eram simplesmente seus moradores. de mulheres. jovens que dirigem e levam adiante centenas de grupos culturais. para que não se sentissem inferiorizadas. criou-se em VES um amplo e sólido tecido associativo. A criação. Como afirma Carlos Franco (1992). O processo “disparou” o capital social latente. O trabalho da própria comunidade. associações estudantis. Construíram-se organizações de jovens..CAPITAL SOCIAL E CULTURA 127 A favor destas condições. a cidade que se criou era a expressão de seus habitantes. que foi se multiplicando. o lugar que lhes deu uma identidade que valorizam altamente. coordenações e brigadas juvenis. A auto-estima foi especialmente cultivada também nas escolas de VES. mas seus construtores. de um município inteiro por sua população gerou uma identidade sólida e impulsionou a auto-estima pessoal e coletiva. quando se assiste com alguma freqüência a reuniões de moradores e se conversa com os ‘fundadores’ da comunidade. buscar mancomunadamente maquinarias. grupos culturais de toda ordem etc. clubes desportivos. melhorar a qualidade. Os professores tentaram libertar as crianças de todo sentimento de inferioridade derivado de suas condições de filhos de famílias pobres. O processo de enfrentar desafios muito difíceis e avançar. A associatividade cobriu em VES os mais variados aspectos. de mães. associações de pequenos industriais e comerciantes. Descreve Franco: “.

Entre seus elementos: o Conselho Municipal transmite suas sessões em circuito fechado à Villa. estabeleceu-se que as decisões comunais seriam a base das decisões municipais. marcou todo o esforço. Ao estruturálo. com assistência de várias ONGs. e o crescente número de peñas (pequenos grupos folclóricos) e grupos musicais. sendo objeto de contínuas distinções. A atividade cultural fez parte da vida cotidiana da população. a ONU designou VES como Cidade Mensageira da Paz. informação sobre o que vai ser tratado nas referidas sessões. Descreve Franco: “. através deles. o jornal El Comercio. em 1986 o jornal La República (de Lima) a declarou “personagem do ano do país”. ao longo dos anos. A partir desses espaços culturais. foi presidido e orientado por certos valores. da participação ativa e da autogestão.128 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL A cultura cumpriu um papel significativo na experiência desde seu início. referendos contínuos sobre as opiniões dos habitantes. Em 1973. A experiência de VES tornou-se mundialmente reconhecida. os programas de rádio da comunidade. peças que o levaram aos cenários metropolitanos e nacionais. realizado nas mais difíceis condições. na mesma há terminais de computador. e fazem chegar ao Conselho seus pontos de vista. Uma visão coletiva centrada na promoção de valores comunitários. Em 1986. Em 1974. Ali surgiram primeiro Oficinas de Teatro e Música. os numerosos grupos artísticos e culturais. distinguin- ... através do sistema de computação. VES transformou-se num município. mantiveram-se todos os princípios anteriores. procurava-se estimular a participação da população nas assembléias de tomada de decisões e as atividades da comuna. o Conselho realiza. contribuem para o desenvolvimento de uma intensa e efervescente vida comunal”. o intermitente funcionamento de 39 alto-falantes. O teatro de VES produziu. em 1987. Assim. A população definiu seu projeto como a conformação de uma comunidade de autogestão participativa. Azcueta criou e levou adiante o Centro de Comunicação Popular. e logo de outras áreas. as competições esportivas internas. espaço destinado a atividades culturais extracurriculares de toda sorte. O esforço de construção comunitária de VES. um sistema destinado a facilitar a participação da população empregando a informática. a nova e moderna rádio do Centro de Comunicação Popular. as oficinas de comunicação. e outras entidades. Recentemente VES fundou. desenvolvendo-se um intenso trabalho. e elementos de juízo a respeito. a Unesco a premiou como uma das mais desafiantes experiências em educação popular. e os habitantes podem receber.

silenciosos. não se conseguiram resolver os problemas de fundo causadores da pobreza. pelo impressionante desenvolvimento alcançado pela comunidade na área social e cultural. provavelmente. a mobilização da cultura própria. Também em 1987.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 129 do-a como promotora exemplar de formas de vida comunitária. a democracia virtual. passando por momentos muito difíceis como os que se deram durante o auge da violência no país. nos bandejões populares e familiares. buscando formas ainda mais ativas de participação da comunidade. nos grupos para atender os doentes. e. que têm ver com fatores que excedem totalmente à experiência e fazem parte de problemas gerais do país. Em 1985. Ainda. que atuam nas entranhas do tecido social. Entretanto. Com os avanços e retrocessos. VES encontra-se em 1999. e se criou um perfil de sociedade muito particular. obtiveram-se avanços consideráveis com respeito a outros bairros pobres. como dissemos. recebeu o Prêmio Nacional de Arquitetura e Desenvolvimento Urbano do Peru e um prêmio por ser a comunidade com maior grau de florestamento e arborização. a afirmação da identidade pessoal. a existência de um comportamento cívico comunal. a presença de valores comuns orientadores. A potencialização do capital social desempenhou um papel decisivo nas conquistas de VES. o crescimento da auto-estima na própria experiência. Entre eles: o fomento permanente de formas de cooperação. que mereceu a longa lista de prêmios obtida. nas campanhas de solidariedade para socorrer os irmãos atingidos pelas catástrofes naturais”. transformou-se. familiar e coletiva. construtivo e criador. lhe foi outorgado o Prêmio Príncipe de Astúrias. no primeiro Município da América Latina que somou às metodologias de participação democrática usuais. As feiras de consumo familiar da Venezuela: os dividendos do capital social A pergunta de como baratear o custo dos produtos alimentícios para os setores humildes da população teve uma resposta significativa . a confiança mútua entre os atores organizacionais. do rei da Espanha. Todos estes elementos foram dinamizados pelo modelo genuinamente participativo adotado pela comunidade. Fatores não visíveis. soube da generosidade com que muitos dos habitantes deste ‘povoado jovem’ auxiliam os irmãos mais pobres da comunidade. destacando suas conquistas e assinalando: “Com grande alegria. Em VES. desempenharam aqui um papel positivo constante. entre outros. o papa João Paulo II visitou Villa El Salvador. como indicam jornais do Peru.

obtêm comprando nas feiras uma economia anual estimada em 10. que operam nos três últimos dias da semana. a Central Cooperativa do Estado Lara. inhame. e de 15% a 20% os preços dos víveres. Os produtos chegam através de transportes e locais próprios. Iniciadas em 1983. antes dependente de intermediários na comercialização e de vaivéns contínuos. As feiras cresceram rapidamente durante estes 15 anos e se transformaram no principal provedor de alimentos e produtos básicos da cidade de Barquisimeto. Os consumidores recebem produtos frescos a preços bem mais reduzidos que os do mercado. através delas. Esses pequenos e médios agricultores e os produtores de víveres colocam sua produção através das feiras. alface. como produto básico. Sua expansão pode ser observada no quadro seguinte. Isso beneficia semanalmente 40 mil famílias dessa cidade de 1 milhão de habitantes. um quilo de produtos hortifrutícolas por um preço único. mandioca. partindo de uma só feira. repolho e banana. as feiras de consumo familiar conseguiram reduzir em 40% os preços de venda ao consumidor de produtos como frutas e hortaliças. tem. aipo. As feiras estão integradas por um amplo número de organizações da sociedade civil. cebola. e vendem diretamente à população trezentas toneladas semanais de produtos hortifrutigranjeiros comuns para o consumo doméstico. nelas participam 18 associações de produtores agrícolas. tomate. Essas famílias. Entre os produtos encontram-se: batata. ocumo. ayuma. Assim. . as feiras cresceram aceleradamente em todos os indicadores incluídos no quadro. na Venezuela. integrantes principalmente de estratos baixos e médios. Entre 1990 e 1997. incluído no sistemático estudo. Como se observa. Todos saem ganhando. diretamente do pequeno produtor para o consumidor. preparado por Luis Gómez Calcano (1998). aumentou em 78% o número de toneladas semanais de produtos verdes vendidos e foi duplicada a quantidade de famílias atendidas. O pequeno produtor.5 milhões de dólares. assegurada a venda de sua produção a preços razoáveis. constituem parte da CECOSESOLA. Formalmente. As feiras vendem. e quase sem capital inicial. e é um dos co-gestores de toda a iniciativa. que agrupam cerca de 600 produtores. cenoura. e 12 unidades de produção comunitária.130 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL na cidade de Barquisimeto. Isso simplifica ao máximo sua operação. As feiras compreendem cinqüenta pontos de venda. associações de consumidores e pequenas empresas de autogestão. pimentão. mas em sua operação intervêm grupos de produtores.

3) algumas formas novas de gestão participativa”. que se lançaram a um mercado como o de comercialização de produtos agroalimentícios de alta competitividade e escassas margens de lucro? Na base do êxito. parece que se encontra elementos-chaves do capital social. Puerto La Cruz. Apresentação do Programa de Feiras de Consumo Familiar em reunião do Grupo Santa Lucía. 2) potencializar o capital social antes do financeiro. Out. a solidariedade.000 400 100 n/d 9 300 40. Estado Lara. Os atores da experiência assinalam. Venezuela.000 700 500 18 12 * Inclui todo o Estado de Lara. participação. sem capital. (Feiras de Consumo Familiar. Feiras de Consumo Familiar. Barquisimeto. 1997. CECOSESOLA. Quais foram as bases destes êxitos econômicos e de eficiência de um conjunto de organizações de base da sociedade civil. ** Inclui 50 feiras e 55 centros de abastecimento solidário. Fontes: CECOSESOLA. 1990. podemos mencionar: 1) Uma história de formação de um capital social e humano. segundo indicam seus atores. a responsabilidade pessoal . aproximadamente a metade em Barquisimeto. horizontalidade e fortemente orientado por valores.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 131 Ano Unidades de venda Venda semanal de produtos hortifrutícolas (em toneladas) Número de famílias atendidas Número de empregados Número de produtores agrícolas Número de organizações de produtores Número de unidades de produção comunitária 1984 1 1990 87* 1997 105** 3 300 15 15 1 1 168 20. As feiras têm atrás de si uma concepção de vida que privilegia. 1996) As várias centenas de trabalhadores que levam adiante as feiras e as associações vinculadas a elas estabeleceram um sistema organizacional baseado na cooperação. como base de suas conquistas: “Tratando de buscar as chaves para compreender as conquistas que obtivemos.

Os mecanismos concretos de operação da organização incluem: reuniões semanais de cada grupo para avaliar e planejar. o amor ao trabalho. frugalidade e austeridade. O modelo organizacional das feiras tem grande flexibilidade. Esta tabela de valores não permanece confinada a alguma declaração escrita. fazer parte de um ambiente de trabalho democrático e não-autoritário. 1996) descreve assim a dinâmica cotidiana das feiras: “Os valores cooperativistas de crescimento pessoal. trabalho descentralizado de cada grupo. Além disso. Sendo uma remuneração modesta. informação compartilhada.132 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL e de grupo. Estes traços organizacionais coincidem com muitas das recomendações da gerência avançada. a organização criou um fundo de financiamento que empresta dinheiro com baixas taxas e um fundo integrado de saúde. o desenho organizacional adotado parece ter desempenhado um papel decisivo nos resultados obtidos. tomada de decisões por consenso. como ocorre com freqüência. Envolvido por estes valores. mas se trata de cultivar sistematicamente na organização. O alto número das horas dedicadas a reuniões poderia ser visto como uma perda na produtividade. solidariedade. Estão dedicados ao encontro pessoal e social. e “uma organização inteligente”. disciplina e vigilância coletiva. e a mencionada rotação de responsabilidades. Um de seus traços é que todas as centenas de trabalhadores da organização ganham a mesma remuneração. Está centrado em princípios como a participação ativa de todos os integrantes da organização. a transparência nas relações. na análise e aprendizado conjunto e na rotação contínua de tarefas. A isso somam-se os espaços de encontro denominados “convivências”. o entusiasmo e o compromisso dos trabalhadores da organização”. a iniciativa pessoal. como participar de um projeto com estes valores. são temas de reflexão contínua nas oito ou mais horas de reuniões às quais assistem todos os trabalhadores de CECOSESOLA uma vez por semana. os membros da organização indicaram que têm outros incentivos. apoio mútuo. mas é o principal meio pelo qual se obtém a dedicação. São propícios para criar o que se chama hoje “uma organização que aprende”. de não ser egoísta e dar o melhor de si para a comunidade. a criação de confiança. ter possibilidades de formação e desenvolvimento. de ensinar aos outros. Um observador externo (Bruni Celli. na comunicação fluida. permitelhes absorver por todos os seus “poros” informação sobre o que ocorre . que é 57% superior ao salário mínimo nacional.

Transformaram-se no principal comércio de alimentos básicos da quarta cidade em número de habitantes da Venezuela e. como a associatividade. muito característicos de outras organizações. elementos básicos da concepção social. O capital mobilizado é. não se reduz ao econômico. seu modelo está inspirando réplicas em diversas cidades da Venezuela. As feiras resistiram a todos os prognósticos de que dificilmente poderiam enfrentar os rigores do mercado. As chaves da excelência alcançada não estão.. obrigando outros competidores empresariais a tratar de ajustar seus preços para poder ter um espaço. são uma das principais empresas no mercado de alimentos do país inteiro. parece que se está diante de um mecanismo audaz e inovador de marketing.. detectando rapidamente os erros e corrigindo-os. Mostraram-se como uma empresa com plena sustentabilidade. Luis Delgado Bello (1998): “. aumenta a capacidade de reação diante das mudanças. foi ampliando continuamente sua operação. ao mesmo tempo eficiente produtivamente. na verdade. em quinze anos. neste caso. Mas.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 133 na realidade e. e potencializaram. em grandes investimentos de capital movimentado com critérios empresariais clássicos de maximização da rentabilidade e com uma gerência vertical “dura”. como aponta um importante observador. através de seu particular estilo gerencial. apesar de sua dimensão local. permite monitorar o andamento dos processos. na . Seu objetivo. pelas cifras com que trabalham. ao partilhá-la internamente. útil socialmente e atraente como âmbito de vida. O clima de confiança criado entre seus integrantes evita o alto custo da desconfiança e o enfrentamento permanente. Quando são observadas a partir do exterior. Gustavo Salas (1991): “. Hoje. essencialmente. os elementos do modelo favorecem um sentimento profundo de pertinência que é um estímulo fundamental para a produtividade e para a busca contínua de como melhorar a tarefa. Por outro lado. “capital social”. Pelo contrário. que elas denominaram “gestão solidária”.. a confiança mútua e normas de comportamento positivas com relação ao comunitário. posicionaramse numa situação de liderança no mercado respectivo.. Ainda. o objetivo fundamental do programa e sua maior contribuição para a organização popular é dado pelo processo formativo que se tenta propiciar a partir de todas as suas atividades concretas”. conforme declara um dos líderes da experiência. mostrando a possibilidade de um projeto coletivo. Promoveram certos valores latentes na sociedade civil.

o Instituto de Desenvolvimento Econômico do Banco Mundial realizou uma Conferência Internacional em Porto Alegre. em 1997. Contava. numerosas associações de vizinhos e outras formas de organização social. Existe ali uma velha tradição cooperativa. despertando ampla atenção. transformou-se numa experiência “estrela” em nível internacional. O Orçamento Municipal Participativo de Porto Alegre: ampliando o capital social existente A experiência de Orçamento Municipal Participativo iniciada na cidade de Porto Alegre. os recursos limitados e aumentar sua . Em nível nacional. Ainda. o BID a selecionou como uma das experiências incluídas em seu Livro Mestre sobre Participação. Analistas locais como Machado & Freyrez (1994) afirmam que. Além disso. Entre outras expressões desse reconhecimento. são uma escola de vida. em 1989. 1. Brasil. O novo prefeito eleito (e posteriormente eleito em 1999 governador do Estado do Rio Grande do Sul) resolveu convidar a população para co-gerir o processo orçamentário de modo a administrar. apresentava em 1989 importantes problemas sociais e amplos setores de sua população tinham limitado acesso a serviços básicos. a ONU a escolheu como uma das quarenta mudanças urbanas eleitas. inspiradas em Porto Alegre. é o estado da Venezuela com maior presença de organizações cooperativas. cerca de setenta municípios brasileiros estão iniciando experiências similares. para ser analisada na Conferência Mundial sobre Assentamentos Humanos (Habitat II.3 bilhão de habitantes. A cidade de Porto Alegre. 36 de serviços múltiplos.134 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL verdade. de Istambul) e. O quadro era de grave falta de recursos fiscais. por sua vez. Este impacto deve-se a resultados muito concretos. eles se apoiaram no vasto capital social existente no Estado de Lara. em 1994. delas. apresenta uma densa rede de organizações não-governamentais (mais de 3500). em todo o mundo. com 85 cooperativas. Há no Estado de Lara todo um hábitat “cultural” que favorece o desenvolvimento do capital social e que deu as bases para uma experiência dessas características. na vida familiar e pessoal”. em 1996. de acordo com suas reais prioridades. com a presença de representantes de nove países da região para examinar a experiência. Uma escola que potencializa o desenvolvimento humano em coletivo e impulsiona a felicidade nas relações no trabalho.

Ao compartilhar com ela. no período 1989/95. há outro mecanismo de análise e decisão que funciona por grandes temas de preocupação urbana: desenvolvimento urbano. reorientando recursos para os problemas mais sentidos. Por outro lado. plenários e outras formas de reunião vão se sucedendo durante todo o ano. a população determinou suas reais necessidades. com a participação de públicos amplos. delegados escolhidos pelos mesmos. cobrindo-se 98% da . A população reagiu com uma “febre participativa”. Assim. outrora impenetrável e fechado. A população. em cada uma das quais se analisam as cifras de execução orçamentária. assistência médica. ao existir regras de jogo claras sobre como seria o processo de tomada de decisões. Rodadas. Por um lado. Os resultados foram surpreendentes e lançaram por terra vaticínios pessimistas augurados por alguns setores que viam como uma heterodoxia inadmissível a entrega de uma questão tão técnica e delicada como o orçamento a um processo de participação popular. O orçamento que vai sendo formado de baixo para cima é por fim sancionado formalmente pela Câmara Municipal. prioridades que logo vão sendo concertadas e compatibilizadas regional e globalmente. 700 milhões de dólares. fez o controle social da execução e confecção da partilha de investimentos. Isso gerou condições propícias para a erradicação de toda forma de corrupção. reuniões intermediárias. Junto às regiões. abriu-se totalmente para a cidadania.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 135 eficiência. em nível de bairro. cortaram-se ao máximo os espaços para práticas clientelistas arbitrárias. A co-gestão oferecida seria realizada sobre os investimentos a serem realizados com o orçamento. o convite não foi mero “discurso”. à convocatória do prefeito. as estimativas futuras e se identificam. de 1990 a 1996. A correspondência do orçamento com as necessidades prioritárias e a melhoria de sua administração levaram a resultados muito significativos. o abastecimento de água potável subiu de 40 mil lares atendidos para 484 mil. educação e cultura. tempo livre. que significou 15% do orçamento total e somou. Em 1995. em alguns casos. maciçamente. em outros. e a colaboração dos funcionários do município. transporte. mas se estabeleceu um complexo e elaborado sistema que possibilitava a participação maciça. Isso gerou uma precisa identificação de prioridades. como a chama Navarro (1998). A cidade foi dividida em 16 regiões. todo o trajeto do orçamento. toda a informação tornou-se transparente. estimava-se que 100 mil pessoas participavam no processo. Neste caso. Entre eles.

408 pessoas. em 1997. semelhante à de muitos outros da região. possibilitaram resultados desta magnitude. O asfaltamento de ruas alcançou 30 quilômetros por ano nas áreas pobres da cidade. . somada à participação coletiva no monitoramento dos processos de execução. Como descreve o Livro Mestre sobre Participação do BID (1997): “Os cidadãos de Porto Alegre tiveram a oportunidade de passar por um processo plenamente participativo através de ter: • expressado sua compressão dos problemas cruciais que a cidade enfrenta. 13% de toda a população. com o apoio de técnicos ligados à Prefeitura. e • revisto os êxitos e fracassos do programa de investimentos para melhorar seus critérios para o ano seguinte”. 167. • tomado a decisão definitiva sobre a aprovação ou não do plano de investimentos. A matrícula nas escolas de primeiro e segundo ciclo do ensino fundamental subiu em 159% entre 1989 e 1997. em 1997 eram 80. O programa de legitimação da propriedade da terra a setores pobres e assentamentos humanos beneficiou. • tido oportunidade de comparar com as soluções criadas em outras regiões da cidade e em outros grupos de temas. A população transformou-se num grande ator do orçamento municipal. A ampla base social de apoio a mudanças orçamentárias profundas expressou-se também numa forte pressão para tornar mais progressivo e eficiente o sistema fiscal do município. investir nos programas menos dispendiosos e mais factíveis de serem atendidos. enquanto em 1989 apenas 48% dos lares estavam ligados à rede de esgotos. modificou-se sensivelmente a fisionomia política tradicional do município.136 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL população.4%. e o município criou um programa de alfabetização de adultos que tinha. Em matéria de rede de saneamento. • estabelecido prioridades dos problemas que merecem mais imediata atenção. A identificação das prioridades reais e todo o sistema tinham produzido uma vasta redestinação de recursos que. 5277 participantes. • selecionado as prioridades e gerado soluções práticas. e foram realizadas importantes reformas no mesmo que permitiram ampliar a arrecadação e melhorar a eqüidade fiscal. Em seu conjunto. enquanto a média do Brasil é de 49%. entre 1990 e 1996. • decidido.

e desempenham um papel fundamental nos diversos níveis de deliberação criados. criou-se um clima de confiança entre os atores. “compartilhar o poder”. Esse chamado e a instalação de mecanismos genuínos de participação agiram como ampliadores do capital social. foi fortalecida enormemente pelo processo.. como comunidade. por sua vez. Como assinala Navarro. Quais foram as chaves de seu êxito? As ex- . geraram-se estímulos significativos para um comportamento cívico construtivo. obtiveram importantes impactos. teve um enorme impacto na habilidade dos cidadãos para responder aos desafios organizadamente. condições desfavoráveis para as práticas clientelistas. o capital social cresceu. em última instância. Ao investir através do orçamento participativo em mecanismo que implicam seu uso intensivo. em conseqüência. e descentralização das decisões. Disparou-se a capacidade de cooperação. destacando que o processo participativo: “. Isto é o que afirma com precisão. encontram-se: uma nova distribuição de funções entre município e sociedade civil.. Em Porto Alegre. com a ativação enérgica desta. forte redução da margem para a corrupção.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 137 Entre outras expressões desta mudança. e na capacidade de trabalhar de forma conjunta para melhorar a qualidade da administração pública e. ao tornar-se tão transparente e vigiado o processo de aplicação das finanças públicas. instalação de formas de democracia direta junto à representativa. demonstraram forte sustentabilidade e alcançaram múltiplos conhecimentos. O processo baseou-se no capital social existente nessa sociedade. o mencionado Livro do BID (1997). o capital social comportou-se de acordo com as previsões de Hirschman. sumariamente. o processo teve um eixo decisivo na vontade política do prefeito de superar os esquemas de concentração do poder usuais e convocar a população para essas associações de modo a. que se mobilizaram ativamente nesse processo. Havia nela uma tradição relevante de associações da comunidade. A cultura associativa preexistente foi um cimento essencial para que a população participasse e. a qualidade de vida”. O processo demonstrou as potencialidades que aparecem quando se superam as falsas oposições entre Estado e sociedade civil e se produz uma aliança entre ambos. já citadas. Alguns ensinamentos As três experiências resenhadas.

após a mobilização do capital social e da cultura. Nos três casos. ao mesmo tempo. e se identificam os mecanismos através dos quais se geram tais vantagens. como resposta para esta pergunta alguns elementos comuns a todas elas que influíram significativamente nos resultados. Um terceiro elemento distintivo das três experiências é que. num trabalho recente (Kliksberg. nos três casos. Sem essa concepção. que a participação tem vantagens competitivas relevantes com respeito aos desenhos hierárquicos usuais. Por outro lado. e se estimulou seu desenvolvimento. Isso é decisivo. Apelou-se a elementos intangíveis. partindo da miséria em Villa El Salvador. partiu-se de suas culturas. que foram cabalmente respeitadas. 1998). No entanto. não teria sido possível resolver as múltiplas dificuldades que derivaram do caminho inovador e não-tradicional seguido. a participação compõe uma parte central dos modelos de gerência das organizações mais avançadas existentes. e dos desenhos de gestão abertos e democráticos. Esses valores serviram de orientação contínua e. Um segundo traço comum é a adoção de um desenho oganizacional totalmente não-tradicional. de recursos ínfimos nas Feiras de Barquisimeto e de recursos limitados e déficits em Porto Alegre. Em primeiro lugar. Em todas as experiências fez-se entrar em jogo a capacidade de buscar respostas e executá-las cooperativamente. que podem incidir consideravelmente em sua capacidade de gerar soluções e de criar. e para a obtenção de eficiência. e na ampla evidência empírica. a base desse desenho foi a participação organizada da comunidade. Analisamos em detalhes as possibilidades organizacionais da participação. não-captados pelas abordagens produtivas usuais. criouse um clima de confiança entre os atores. Ali assinalamos com base na análise de experiências comparadas internacionais. fomentando-se um estilo de conduta cívica solidário e atento ao bem-estar geral. que se revelou na prática como formador de um hábitat adequado para a mobilização de capital social e cultura. houve uma concepção em termos de valores. motivaram poderosamente o comportamento e trans- .138 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL periências se desenvolveram em meios muito diferentes e atacaram aspectos muito diversos. Promoveu-se o acionamento de forças latentes nos grupos sociais. é possível encontrar. O estímulo a estes fatores e a outros semelhantes criou energias comunitárias e organizacionais que puderam levar adiante amplos processos de construção. as estratégias utilizadas basearam-se na mobilização de formas de capital não-tradicional.

Pode-se argüir. a partir da economia. a agregação de outros. como uma área que consome recursos.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 139 mitiram a visão das metas finais para as quais se dirigiam os esforços. total ou parcialmente. baseado na autoorganização de famílias camponesas pobres para a gestão de escolas rurais. o papel de comunidades indígenas organizadas na Bolívia e no Equador. se acrescentado a outras utopias. trazem contribuições formidáveis: melhoram diretamente a qualidade de vida de amplos setores desfavorecidos. pobreza e participação cidadã. os programas de “Copo de Leite” (“Vaso de Leche”) no Peru. é viável. em El Salvador. É com freqüência tratada. a realidade mostra que. Contudo. Na última seção deste trabalho. Entre muitas outras podemos mencionar: o programa EDUCO. que experiências desta ordem têm um alcance limitado. Hora de mobilizar o potencial da cultura A atividade cultural é vista com freqüência. Na região. embora encontrem dificuldades consideráveis e não possam ser estendidas com facilidade. como um campo secundário alheio à via central pela qual se deve tratar de fazer avançar o crescimento econômico. como já se fez. de fato. a participação dos pais no gerenciamento das escolas em Minas Gerais. mas. realizado pelo BID (1998b). Por último. estão se desenvolvendo outras experiências que se caracterizam pelas marcadas especificidades de cada caso a ser seguido. Mobilizar o capital social e a cultura como agentes ativos do desenvolvimento econômico e social não constitui uma proposta desejável. requererá políticas orgânicas e amplos concertos entre Estado e sociedade civil. são um laboratório de formas sociais avançadas e implicam um chamado motivador para avançar nessa direção. refletimos sobre algumas linhas possíveis de ação no campo de potencializar a cultura para o desenvolvimento. Seus resultados são muito relevantes. Há referências significativas nas quais pode se apoiar. que não gera retor- . dá resultados efetivos. Levar a cabo essa mobilização em escala considerável. grande desafio para o futuro. e os diversos programas identificados e sistematicamente documentados e avaliados no âmbito do Encontro Programas sociais. traços como os delineados. é possível extrair de todos estes programas a resposta à pergunta apresentada no final da seção anterior deste trabalho. visão que atuou como inspiração permanente.

que é de difícil medição e cuja gerência é de duvidosa qualidade. A cultura pode ser um instrumento formidável de progresso econômico e social. Adverte sobre a aplicação mecânica de critérios usualmente empregados no campo . Essa perspectiva não deve ser perdida. apenas em áreas de um economicismo exacerbado.140 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL nos sobre o investimento. sem dúvida. Essa situação significa perdas consideráveis para a sociedade. Por sua vez. que passa a ser tratada como um campo secundário e de “gasto puro” e. tem um grande “custo de oportunidade”. uma certa tendência ao autofechamento. na busca de um pensamento mais compreensivo e integral sobre o desenvolvimento. Uma renomada economista. ali não se esgota sua identidade. sem buscar ativamente conexões com os programas econômicos e sociais. Benhamou pede critérios diferentes para medir o “rendimento” de algo que é. funcionais economicamente. não emprega suas contribuições possíveis aos processos de desenvolvimento. Obstaculiza seriamente o avanço da cultura. faz a respeito alertas a serem atendidos: “Na verdade. existe também. Avançar neste campo significa enriquecer espiritual e historicamente uma sociedade e seus indivíduos. um dos fins últimos da sociedade. Como sublinha o Informe da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento da Unesco (1996): “é um fim desejável em si mesmo porque dá sentido à nossa existência”. Não é um mero instrumento. ao mesmo tempo. como indicaram as experiências resenhadas e muitas outras em curso. uma advertência de fundo. Antes de explorar algumas das interseções possíveis. Contudo. Françoise Benhamou (1996). O desenvolvimento cultural é um fim em si mesmo das sociedades. sejam incorporadas em plena legitimidade suas dimensões culturais. a partir do terreno da cultura. Os lucros que a vida cultural pode trazer à coletividade nem sempre cobrem os gastos gerados. Devem empreender-se esforços sistemáticos para superar a brecha provocadora destas perdas. A crise do pensamento econômico convencional abre uma “oportunidade” para que. a cultura constitui parte relevante do capital social. Evidentemente. pode-se pretender justificar o gasto cultural em função dos recursos tangíveis que este possa gerar como contrapartida. Tudo isso criou uma brecha considerável entre cultura e desenvolvimento. o interesse destes gastos deve ser avaliado em função de outros critérios que vão além da dimensão econômica”. Como vimos nas seções anteriores. é portadora de múltiplas possibilidades de contribuição às ações do desenvolvimento e isso não é teorização.

As políticas sociais deveriam ter como objetivo relevante a reversão deste processo e a elevação da auto-estima grupal e pessoal das populações desfavorecidas. cerca da metade da população da região. de séculos ou milênios. modos de vincular-se com a natureza. Os elementos “intangíveis” subjacentes na cultura podem cooperar de múltiplas formas. Além de ser um fim em si mesma. capacidades culturais naturais para a auto-organização. Há que se queixar do custo da vida cultural que é realmente modesto? Não será preciso ver nele o símbolo de uma nação adulta e próspera?”. sumariamente apresentamos a seguir. precária. mas têm uma bagagem cultural. encontram-se os que. através de diversas expressões. há um processo silencioso de “desprezo cultural” com relação a seus valores. tradições. Os pobres sentem que. Destaca: “Seria lamentável que em momentos em que as ciências da economia reconhecem o valor da dimensão qualitativa do objeto que estão avaliando. a marginalidade e a pobreza econômica são acompanhadas por desvalorizações culturais. tradições. Entre eles. inclusive. saberes. no âmbito dos programas sociais. Ao se desvalorizar a cultura. a cultura tem amplos potenciais a serem mobilizados para o desenvolvimento.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 141 econômico. que podem ser de grande utilidade. Atribui-se. Cultura e políticas sociais A mobilização cultural pode ser de grande relevância para a luta contra a pobreza que hoje aflige. “alegremente”. Uma identidade golpeada gera sentimentos coletivos e individuais de baixa auto-estima. O respeito profundo por sua cultura criará condições favoráveis para a utilização. a consideração e valorização da cultura dos setores desfavorecidos é um ponto-chave para o crucial tema da identidade coletiva e da auto-estima. os economistas se empenhem em considerar apenas as repercussões comerciais do investimento cultural. e as conseqüências “fáceis” e erradas que podem ser extraídas deles. Por outro lado. em oportunidade. de saberes acumulados. atrasada. além de suas dificuldades materiais. A cultura dos pobres é estigmatizada por setores da sociedade como inferior. a pautas dessa cultura as próprias razões da pobreza. Uma auto-estima fortalecida pode ser um . como ocorre com as populações indígenas. Os grupos pobres não têm riquezas materiais. está se enfraquecendo a identidade. formas de relação. Com freqüência.

Entre elas. Alguns fatores reforçam outros. formaram-se em diferentes comunidades. tinham efeitos não-previstos. A criação de espaços culturais acessíveis aos setores desfavorecidos e estimulados. culto pelo trabalho e cooperação. especialmente. Através de um trabalho sustentado. seu cultivo nas gerações jovens. que complementem e reforcem a escola. Um campo onde . A democratização da cultura pode romper estes círculos num aspecto relevante. as atividades culturais podem funcionar como um “parassistema” educativo. Na América Latina. a pujante ação de formação de corais populares e conjuntos musicais. de fato. A cultura pode. Cerca da metade das crianças abandona a escola antes de completar a 6ª série. a abertura de canais para sua expressão. muitas delas pobres. Cultura e integração social Um dos problemas básicos das sociedades latino-americanas é a exclusão social. conjuntos que aglutinaram milhares de crianças e jovens a seu redor. Ela implica dificuldades severas para ter acesso aos mercados de trabalho e de consumo. hábitos de disciplina. A prática sistemática destas atividades fomentava. reforçar significativamente o capital educativo das populações pobres. A região caracteriza-se por altas taxas de evasão e repetência dessas populações na escola primária. e fortaleciam sua identidade. mas. ao mesmo tempo que permitiam a seus membros expressar-se e crescer artisticamente.142 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL potente motor de construção e criatividade. devolverá identidade aos grupos empobrecidos. mas junto a elas. configurando círculos perversos regressivos. Ainda. Estes espaços culturais. há interessantes experiências desta ordem. a impossibilidade de integração a todos os âmbitos da sociedade. ao mesmo tempo. realizada na Venezuela nas últimas décadas. com isso. A promoção da cultura popular. lhes transmitiam amor e valorização de sua cultura. Similares experiências foram realizadas em grande escala em períodos recentes na Colômbia e em outros países. fará crescer a cultura e. Devem ser realizados todos os esforços para melhorar esta situação. a criação de um clima de apreço genuíno por seus conteúdos. ainda. que ofereça possibilidades de formação informal. A mediação imprescindível é a cultura. pode criar canais de integração inéditos. sobretudo relacionados a temas da cultura popular.

na aquisição de uma cultura de saúde preventiva. É. compartilhar experiências com outras unidades familiares com similar problemática. Elaborou-se longamente a respeito. A cultura pode realizar uma contribuição efetiva à instituição mais básica de integração social. junto a seu decisivo papel afetivo e espiritual. em anos recentes. As análises sobre os fortes avanços da criminalidade na região. A cultura pode ser um âmbito de integração atraente e concreto para os vastos contingentes de jovens latino-americanos que se encontram hoje fora do mercado de trabalho e que tampouco estão no sistema educativo. Na grande maioria dos casos. numerosas famílias das áreas humildes da sociedade chegaram a uma tensão máxima e ingressaram em processos de crise. nas últimas décadas. diante do impacto da pobreza. no desenvolvimento da inteligência emocional. em muitos casos influenciados pelas dificuldades econômicas para mantê-las. Ainda. Na América Latina. Influi fortemente no rendimento educativo das crianças. Nos espaços culturais. pode solidificar laços. ao mesmo tempo. A atividade conjunta dos membros das famílias. Constituem. Neles. uma população muito exposta ao risco da delinqüência. eixo da sociedade e de incalculáveis contribuições a ela. sobre o . a família tem impactos muito relevantes em muitas outras áreas. na formação da criatividade e na criticidade.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 143 isso pode ser especialmente relevante é na ampla população de adultos que desertaram da escola na juventude. enriquecer suas realidades. as famílias podem encontrar estímulos. Cultura e valores Atribui-se aos valores de uma cultura peso decisivo no desenvolvimento. respostas. Os espaços culturais podem auxiliar no fortalecimento desta instituição. nos referidos espaços. Pesquisas dos últimos anos dão conta de que. uma das principais redes de proteção social e o âmbito primário fundamental de integração social. de fato. trata-se de famílias de escassos recursos. indicam que um percentual crescente dos delinqüentes é jovem e responde ao perfil de desempregado e de limitada educação. indicador da resistência dos casais jovens a formar famílias estáveis. a família. aumentaram os filhos extraconjugais. pode se dar a esta população alternativas de pertinência social e crescimento pessoal. Estima-se que cerca de 30% das famílias da região são unidades com apenas a mãe à frente.

têm hoje nesse campo bons níveis que. A cultura é o âmbito básico onde uma sociedade gera valores e os transmite de geração em geração. de cultura e de problemas de desenvolvimento. Desarrollo Humano em Chile. entre outros aspectos. que pode. O trabalho explora o mundo interno das pessoas e a qualidade de suas relações com os outros e realiza descobertas de grande importância em termos de capital social. de seus sistemas fiscais até a universalização de serviços de assistência à saúde. Se os valores dominantes se concentram no individualismo. Japão. como já mencionamos. Muito provavelmente. na indiferença frente ao destino do outro. Estes podem ir desde grandes iniqüidades econômicas. facilitam seu progresso econômico e tecnológico e sua competitividade. pode se esperar que estas condutas enfraqueçam seriamente o tecido social e possam conduzir a toda ordem de impactos regressivos.2 Um dos efeitos visíveis da vigência de valores anti-solidários é a extensão da corrupção em diversas sociedades. no desinteresse pelo bem-estar geral. sociedades que estimularam e cultivaram valores favoráveis à eqüidade. O trabalho em cultura na América Latina para promover e difundir sistematicamente valores tais como: a solidariedade de profundas raízes nas culturas indígenas autóctones. geram poderosos entraves para um desenvolvimento econômico sustentável. e os refletiram em múltiplas expressões. casos como os dos países nórdicos. que. segundo indicam múltiplas pesquisas. no consumismo. até. 1998. Mencionam-se com freqüência. decréscimo na coesão social. Uma pesquisa pioneira sobre a incidência dos valores na vida cotidiana e no tecido social encontra-se no interessante trabalho do PNUD. Como ressalta Lourdes Arizpe (1996): “A insistência monotemática de que enriquecer é a única coisa que vale a pena na vida contribuiu em grande medida para essa tendência”. Las paradojas de modernización (1998). e educação de boa qualidade. na falta de responsabilidade coletiva. a cooperação. encontrar-se-ia uma agenda de problemas da mesma ordem se a pesquisa fosse realizada em muitas outras sociedades atuais da região e de fora dela. Canadá. por exemplo. a respeito. da desconfiança e medo do “outro”. Identifica um extenso mal-estar social na sociedade ligado. ao enfraquecimento das inter-relações. a erradicação 2.144 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL tipo de valores que auxiliaram países que obtiveram crescimento sustentável e conquistas sociais significativos. influir negativamente sobre a expectativa de vida média. Assim. a superação das discriminações. e outros semelhantes. por sua vez. Israel. . o cuidado conjunto do bem-estar coletivo. a responsabilidade de uns pelos outros. na busca como valor central do enriquecimento pessoal. inclusive. Valores positivos conduzem a diversas direções. entre outros.

entre outros. com base em pesquisas recentes. Tem um grande valor educativo. São notáveis. Pode-se encontrar uma exploração detalhada da transcendência dos valores culturais para o fortalecimento de uma sociedade democrática e a necessidade de enfrentar e superar. os resultados alcançados por sociedades que cultivaram consistentemente o voluntariado nas novas gerações. atitudes democráticas. os voluntários constituem um percentual significativo da força de trabalho total do setor social. produz resultados econômicos significativos ao acrescentar horas de trabalho sem salário a programas relevantes para a sociedade. A ação voluntária reúne muitos dos valores antes mencionados. na cultura judaica que hierarquiza o serviço voluntário à comunidade como um dever e na educação sistemática de valores solidários no âmbito da escola israelita. Faigon (1994) indica que 25% da população realiza tarefas voluntárias de modo regular. nos Estados Unidos e Israel. desde os primeiros anos. O cultivo dos valores através da cultura e da participação. a respeito. vários países da Europa Ocidental. dirigido por Saúl Sosnowski.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 145 da corrupção. particularmente no campo social. impulsionado pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Maryland.3 pode claramente ajudar no desenvolvimento. em atividades voluntárias e em tarefas comunitárias. além de contribuir para o perfil final da sociedade. atitudes em prol da melhoria da eqüidade numa região tão marcadamente desigual. e gera bens e serviços equivalentes a 8% do Produto Nacional Bruto. sua atividade é valorizada por toda a sociedade e se constitui numa possibilidade que pode atrair inúmeros jovens. Observa-se uma correlação estatística entre ter atuado em organizações nos anos de juventude e o envolvimento na sociedade em épocas posteriores. como sublinha. tem um peso considerável na aquisição de compromissos cívicos nas idades adultas. Assim. Há amplos contingentes de voluntários em países como. um estudo nos Estados Unidos evidenciou que aqueles que foram membros de clubes 4H tinham. na região. 25 anos depois. As bases destes resultados se encontram. como indicam Youniss. atitudes culturais autoritárias nos trabalhos do Projeto Regional Cultura e Democracia. McLellan e Yates (1997). Em diversos países. 15 anos 3. Outro estudo sobre graduados de escolas secundárias mostrou que. Neste último caso. Canadá. o dobro de probabilidade de integrar associações cívicas em relação àqueles que não passaram por eles e uma probabilidade quatro vezes maior de participar em política. os nórdicos. . e é um estímulo que promove sentimentos de solidariedade e cooperação.

à solidariedade e à participação. uma região com enormes possibilidades neste campo. seja discutido pelas instituições tanto públicas como privadas. Outro projeto está destinado a aumentar o grau de consciência em relação à responsabilidade. Uma interessante experiência orientada a promover valores culturais valiosos para a sociedade teve início há pouco tempo na Noruega. Também está impulsionando estudos em nível municipal. Em 30 de janeiro de 1998. na escola e na igreja e aqueles que lhes chegam através dos meios maciços. Um dos projetos convidou os prefeitos dos municípios do país a iniciar um processo deliberativo no âmbito local para responder a questão: quais são os traços básicos de uma boa comunidade local? Na mobilização das potencialidades culturais da América Latina. Entre as primeiras iniciativas em andamento. b) contribuir para um maior conhecimento acerca do desenvolvimento de valores humanos em nossa cultura contemporânea. encontram-se importantes possibilidades de contribuição em campos tão fundamentais como os apresentados: luta contra a pobreza.146 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL depois. A Comissão é constituída por integrantes que procedem de diversos setores sociais e de diferentes gerações. os que haviam participado de atividades extracurriculares na escola possuíam maior probabilidade de participar de associações voluntárias. em que descentralizará muitas de suas ações. que tem por finalidades centrais: a) criar na sociedade uma consciência crescente sobre os valores e problemas éticos. c) identificar desafios atuais em matéria ética da sociedade e discutir possíveis respostas. e d) promover que os diferentes setores da sociedade se integrem a este debate. esse país estabeleceu a Comissão Governamental de Valores Humanos. sobre as tensões que crianças e jovens sofrem entre os valores. desenvolvimento da integração social. com freqüência contraditórios. Os valores e a participação vão moldando o que os autores chamam uma “identidade cívica” orientada para assumir compromissos com a comunidade e contribuir continuamente com ela. encontra-se a de que todas as escolas do país discutam acerca de como os direitos proclamados na Declaração de Direitos Humanos da ONU estão sendo aplicados no âmbito local. fortalecimento de valores comunitários. que recebem no lar. se identifiquem e explicitem os dilemas éticos e se busquem respostas para eles. como evidencia sua fecundidade em tantos outros artísticos. solidários e participati- . Suas atividades orientamse de modo que o tema dos valores esteja no centro da agenda pública.

Un tema impostergable. Junto a grandes esforços de alguns setores por avançar a cultura e importantes concretizações. à situação tão bem descrita por Pierre Bourdieu (1986): “. Essa mobilização requer uma ação concertada entre o Estado e as organizações da sociedade civil. 4. “Desigualdad y desarrollo en América Latina. Fondo de Cultura Económica. é objeto preferencial nos cortes orçamentários. trazendo o melhor de cada um. El debate postergado”. Nuevas respuestas a nivel mundial. como a pobreza e a desigualdade. México. contribuindo assim. Chega-se. com freqüência. Pobreza. em alguns casos. “Desintegración y violencia urbana”. a ausência de cultura se acompanha geralmente da ausência do sentimento desta ausência”. Argumenta-se ainda. Reforma y Democracia.CAPITAL SOCIAL E CULTURA 147 vos. Há sérias falências na América Latina nesta matéria. 1997. é submetida a contínuas mudanças sem permitir a estabilidade necessária para assentar atividades e instituições. Entre eles: Kliksberg. Alberto. 1999. . Estes arrazoamentos e práticas estão deixando de utilizar uma das grandes forças que podem fazer mudanças profundas nas realidades de um continente com desafios tão difíceis abertos em campos decisivos na vida cotidiana das pessoas. Podem-se encontrar vários trabalhos recentes sobre as novas formas da pobreza na América Latina em: Kliksberg. B. B. “Estrujados. José. observam-se reservas e marginalizações por parte de outros em incorporar a cultura à agenda central do desenvolvimento. Minujín. “Cómo enfrentar los déficits sociales de América Latina?”. B. Ambos devem coordenar estreitamente esforços. Revista do CLAD. Weinstein.4 Chegou a hora de superá-las e explorar ativamente as múltiplas contribuições que a cultura pode trazer ao desenvolvimento. Recursos lhe são subtraídos. para liberar a enorme força popular de criatividade cultural latente na região e reforçar seu legado de valores positivos.. que se trataria de uma espécie de necessidade secundária que teria seu lugar quando outras prévias tivessem sido satisfeitas.. O autor trabalha detalhadamente o tema da desigualdade em: Kliksberg. La clase media en América Latina”. em conjunto.

ÉTICA E ECONOMIA 149 Capítulo 5 ÉTICA E ECONOMIA. questionaremos certos “álibis” comuns diante deles. uma vez que pode lançar muitas luzes em uma época de grandes confusões. destinar recursos. Enfocaremos em primeiro lugar alguns problemas da região que são econômicos e sociais. determinar prioridades. Por fim. Desafios à ética A civilização ocidental tem firmes convicções em matéria de valores que permeiam a cultura. A proteção de sua saúde e sua educação . mas ao mesmo tempo profundamente éticos. A RELAÇÃO ESQUECIDA Poderíamos perguntar: com tantos problemas concretos importantes para a população. Certos acontecimentos na região as violam diariamente. É hora de retomála. mencionaremos valores éticos que deveriam orientar a seleção de políticas e a ação para o desenvolvimento. essa discussão foi negligenciada. tem sentido falar de valores. de ética? Não será esse um tema que pode ser deixado para depois. um tema não urgente? Pensamos que a pergunta deveria ser invertida. • Segundo nossa moral. Como é possível planejar políticas econômicas. sem discutir os aspectos éticos. Identificaremos alguns de uma lista que pode ser muito mais ampla. a moralidade do que se está fazendo à luz dos valores que deveriam nortear o desenvolvimento e a democracia? Na América Latina. as crianças deveriam ter todas as oportunidades para se desenvolver. Em segundo lugar. e que a população espera que dirijam a vida pública e o comportamento individual.

São sofrimentos que afetam a dignidade humana. vão reduzir suas pretensões salariais e assim se alcançaria um novo equilíbrio no qual encontrariam trabalho. mas causa danos muito graves às pessoas em aspectos vitais. Milhões de crianças menores de 14 anos trabalham. em vez de buscar intensamente por trabalho. incrementase a utilização das crianças nos circuitos da dependência de drogas e da prostituição. . sua família fica num estado de tensão muito grande. o Prêmio Nobel de Economia Robert Solow (1995) observa que a economia convencional está equivocada quando diz que é um caso de oferta e demanda. ante as imensas tensões nela geradas pela pobreza que afeta amplos setores da população. Sua auto-estima é atingida. • O desemprego é um grave problema econômico e social. a taxa de desemprego é elevada. • Nossa civilização tem como fundamento básico a instituição familiar. está se produzindo uma séria deterioração da unidade familiar. Assim. Na América Latina. a pessoa se sente excluída da sociedade. e a dos jovens é mais que o dobro da taxa média. Não só implica não receber uma remuneração. ela tende a se retirar do mercado de trabalho por medo de sofrer novas recusas e também a se retrair socialmente pela “vergonha” de não ter trabalho. A pobreza implica negações concretas dos direitos básicos das crianças ao mais elementar.150 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL são prioridades indiscutíveis no Ocidente. que constitui o pilar do tecido social. O problema não ocorre apenas nas camadas populares. segundo dados recentes. as classes médias em declínio. Segundo as pesquisas. Solow mostra que quando alguém está desempregado por um bom tempo sofre toda uma série de danos psicológicos. bem como o número de crianças que vivem nas ruas das grandes cidades. As estatísticas dizem que o número de mães pobres que ficaram sozinhas e têm de manter a família vem aumentando. diante das incertezas que implica poder sustentá-las. mas ao mesmo tempo não pode deixar de ser considerado uma questão ética. Na América Latina. aumenta dia a dia o quadro extremo que contraria todos os valores éticos. 6 em cada 10 crianças menores de cinco anos de idade são pobres. mas afeta também fortemente os “novos pobres”. Tal economia supõe que os desempregados por períodos prolongados vão buscar ativamente trabalho. Na verdade. que é maior o número de crianças nascidas fora do casamento e que a violência doméstica está atingindo índices alarmantes. As possibilidades de formar famílias e de levá-las a se desenvolver deveriam estar inteiramente abertas. em torno de 8%. que aumentou o indicador de resistência dos jovens a formar famílias. abandonadas pela sociedade.

As pequenas e médias empresas só têm 5% do crédito do sistema financeiro. sistemas de saneamento. Há grandes desigualdades quanto à possibilidade de concluir o ensino fundamental e o médio e quanto à qualidade da educação recebida. Por outro lado. Há desigualdade no acesso ao crédito. que merecem o pleno acesso a oportunidades de se desenvolver. as desigualdades pronunciadas no acesso à tecnologia de ponta. evidentemente há problemas do contexto que estão criando essa situação. Quando uma de cada duas pessoas é pobre. e foram condenadas tanto no Antigo como no Novo Testamento. As desigualdades acentuadas abalam essa crença igualitária. A América Latina apresenta agudas polarizações sociais. Além disso. • Procura-se converter a pobreza em um problema individual. quando as políticas aplicadas criam oportunidades reais. à indolência etc. Entre elas: os 10% mais ricos da população têm uma renda que é de 84 vezes a dos 10% mais pobres (é a maior brecha social do planeta). elas constituem um empecilho fundamental para o desenvolvimento. . a informática. as camadas sociais apresentam diferenças muito grandes de esperança de vida. criaturas da divindade. como água potável (os pobres carecem dela e pagam muito mais caro por ela). Os falsos álibis Diante desses e de outros problemas que constituem uma afronta aos valores éticos de nossa civilização. Aylwin destaca que é evidente que. os pobres as aproveitam tão bem como qualquer outro setor da população. Um difundido informe de uma Comissão de personalidades presidida por Patricio Aylwin (1995) afirma categoricamente que isso não tem nenhuma sustentação. costumam circular certos argumentos que podem ser considerados “álibis” destinados a atenuar ou a ignorar os conflitos éticos existentes. mas ao mesmo tempo contradizem a crença da igualdade de oportunidades. Os pobres seriam pobres por não terem feito esforços suficientes em sua vida ou por serem inclinados ao alcoolismo. Como demonstraram numerosas pesquisas. há também uma nova brecha. Há desigualdade no acesso a fatores básicos em matéria de saúde. eletricidade e assistência médica básica. Apesar dos avanços. Menos de 1% da população tem acesso à Internet.ÉTICA E ECONOMIA 151 • A civilização judeu-cristã considera que todos os seres humanos são iguais. mortalidade infantil e mortalidade materna.

152 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL • Alega-se que as desigualdades são inevitáveis. Isso explica os bons níveis de igualdade obtidos em países como Suécia. Dinamarca. Corresponde a voltar a se perguntar: para onde vamos? Que tipo de sociedade queremos? Que valores são insubstituíveis? Que valores deveriam ser um ponto de referência obrigatório no planejamento de políticas públicas? E outras perguntas semelhantes. Charles Taylor (1995). Noruega. . Os textos bíblicos proclamam o contrário. Albert Einstein refletia a esse respeito: “Quem pode duvidar que Moisés (que entregou os Dez Mandamentos) foi melhor condutor de homens que Maquiavel?”. Recuperar a ética Um dos maiores filósofos da atualidade. diz que elas são claramente influenciadas por fatores como as políticas públicas implementadas e as atitudes culturais predominantes diante da desigualdade. Quando ambas promovem a igualdade. que cada um deve tornar-se responsável por si mesmo. com inúmeras organizações não-governamentais de ação solidária e exércitos de trabalhadores voluntários. adverte o filósofo. Japão. Não se discute sobre eles e. a discussão sobre os meios tende a eliminar e substituir a que deveria ser realizada sobre os fins. mas os textos bíblicos dizem o contrário. Por outro lado. Canadá e Holanda. como a economia e a tecnologia. Proclamam que “o fim não justifica os meios”. muitos dos países atualmente líderes do mundo em economia e tecnologia possuem sociedades civis com altos graus de exercício da solidariedade. Certamente esse era o pensamento de Maquiavel. Atkinson (1998). a situação muda. Assinala que nossa época se caracteriza pelo fato de a discussão ter se concentrado sobre os meios. que são uma espécie de lei da natureza e fariam parte do processo de modernização de uma sociedade. • Afirma-se que a solidariedade é uma espécie de anacronismo. além disso. que os sofrimentos sociais infligidos destinam-se a obter fins superiores. Um famoso economista. faz uma advertência sugestiva. e que é muito importante não esquecer que são meios a serviço de fins últimos. A orientação para a solidariedade é parte fundamental da qualidade humana e enobrece as pessoas. • Diz-se que o fim justifica os meios. e que se deve dar a máxima ênfase ao individualismo. um valor pré-moderno. entre outros. Esta última é o terreno da ética.

A voz profética assinala na Bíblia: “Não haverá pobres entre vós”. forçado por outros. entre outras. os portadores de deficiências. os índios. Que haja ou não pobreza depende das sociedades organizadas. Precisa-se de uma solidariedade que respeite profundamente a cultura dos pobres. consideração como pessoas de segunda classe. os grupos afro-americanos. e sim o que deveria ocorrer. os idosos. • A pobreza deve ser considerada como um tema de direitos humanos violados. destacam-se os seguintes: • A pobreza é intolerável. que abra espaços ao fortalecimento de suas próprias organizações e ao crescimento de sua auto-estima. o profeta não está dizendo o que vai ocorrer. . • A constituição de sociedades democráticas estáveis e ativas requer a construção da cidadania. 2000). seus valores. o respeito pelo outro e a utilidade final da ajuda. como seres inferiores. tendo em conta a genuinidade da vontade de ajudar. Foi o que proclamaram recentemente as Nações Unidas. Os sinais explícitos ou implícitos que recebem são de desvalorização. o grau de anonimato. • Somos todos responsáveis uns pelos outros. Um dos componentes centrais é a restituição dos direitos a oportunidades produtivas e de desenvolvimento que são negados pela pobreza. O superior é quem ajuda de tal modo que o outro depois não necessite de mais ajuda. A falta de solidariedade é contrária à dignidade humana. e os mesmos direitos. • Em pesquisas recentes. O grau inferior dos oito níveis de sua tábua é o que ajuda de má vontade. • É preciso superar todas as formas de discriminação que ainda subsistem ativamente na região. menosprezo. até mesmo por algumas organizações que pretendem ajudá-los (The World Bank. “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Leibowitz (1999). • Há muitas maneiras de ajudar o próximo. Y. como as que são exercidas contra as mulheres. Corresponde a todos os seres humanos o pleno respeito. Essa deveria ser a meta. proclamava Jesus de Nazaré. Como ressalta um eminente filósofo. Dentre outros. Maimônides as classificou. os pobres reclamam que o que mais os incomoda na pobreza é que sentem que são menosprezados diariamente em sua condição humana.ÉTICA E ECONOMIA 153 Enfrentar os problemas éticos e abrir o debate evitado por falsos álibis provavelmente levará ao resgate de valores que deveriam orientar os esforços pelo desenvolvimento. Ataca os direitos mais elementares das pessoas.

Os grandes laboratórios não têm. Segundo informa a American Medical Association. Laboratórios indianos e brasileiros demonstraram que ele pode ser produzido como genérico por menos de 500 dólares. Cinco mil africanos morrem diariamente por causa da doença. No ano 2000. Em resposta a esse clamor. Essa consciência crescente está levando à organização de “frentes éticas” que empreenderam amplas mobilizações e obtiveram resultados concretos. interesse nesses temas. países como África do Sul. em nome do princípio ético básico: o direito à vida. O último remédio contra a tuberculose lançado no mercado foi elaborado em 1967. Vejamos alguns casos recentes. parece haver nas democracias um amplo clamor para que sejam levados em conta. começouse a fazer questionamentos éticos e buscar soluções para eles em temas econômicos chaves. Por outro lado. dos 1223 novos medicamentos lançados entre 1975 e 1997. • Sete milhões de pessoas morrem anualmente por doenças que podem ser prevenidas ou curadas. Outra forte frente de protesto ético está questionando as barreiras pro- . Os laboratórios se viram obrigados a retirar seus processos. e mais de 5 milhões contraíram o vírus. Um grande movimento de opinião pública pressionou. • Existem no mundo 36 milhões de pessoas com aids. Zimbábue e Zâmbia verão devastada sua população e sofrerão dezenas de milhões de mortes nos próximos anos. como a tuberculose e a malária. eles estão na essência da identidade humana. 70% das quais vivem na África. O questionamento ético levou ao projeto de constituição de um Fundo Mundial público para buscar soluções maciças para a aids e para essas enfermidades. A exigência mundial liderada pelo papa João Paulo II pela redução da dívida externa dos países pobres levou à alteração de princípios do sistema financeiro internacional que eram considerados imutáveis. cerca de 3 milhões de pessoas morreram de aids. Diversos laboratórios internacionais processaram o governo da África do Sul por tentar produzi-lo. mas seus preços de venda as colocam fora de alcance. portanto. • Cresce o movimento ético por regras de jogo econômicas diferentes. São pobres em sua grande maioria. não são “mercado”. apenas 13 destinavam-se ao tratamento de doenças tropicais. Se não se tomarem medidas profundas.154 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Será ilusório pretender que valores como esses possam influir nas políticas? Em primeiro lugar. Os africanos não podem pagar 10 mil dólares anuais pelo chamado coquetel antiaids. 80% dos quais africanos. Existem novas drogas para combatê-la.

particularmente na América Latina. simplesmente querem o direito de vender seus produtos em vossos mercados a preços corretos”. e assinalou que as organizações empresariais. Outro abaixo-assinado denunciou a existência nos Estados Unidos de 43 milhões de pessoas sem nenhum tipo de seguro médico. afirma: “O tipo de protecionismo praticado pelas nações industrializadas mais ricas é simplesmente indefensável. Assim. a União Européia tomou recentemente a decisão de abrir seus mercados para os produtos dos 48 países mais pobres do mundo. e os subsídios à agricultura dos países ricos são muito elevados. afirmou: “Os países pobres não querem vossa caridade. • Cresce o movimento mundial ético de protesto pelas extremas desigualdades de nosso tempo e pela simultânea diminuição da ajuda internacional para o desenvolvimento. 2001). e que as ONGs sociais deixariam de receber quase 6 bilhões de dólares anuais em donativos (Responsible wealth. Cada dia que passa sem respostas adequadas aos sofrimentos da população significa . Koffi Annan (2001). um abaixo-assinado de 200 proeminentes empresários expressou sua oposição ao projeto de eliminar o imposto à herança. O secretário-geral da ONU. e os Estados Unidos.1%. Alegaram que isso beneficiaria apenas os 2% mais ricos da população. só quatro países cumprem tal determinação: Noruega. Aqui deveria somar-se a outros valores a noção de que deve haver uma “ética da pressa”. O economista chefe do Banco Mundial.25% de seu PIB. Nicholas Stern. Dinamarca e Holanda. O custo dos países em desenvolvimento em oportunidades de exportação perdidas é muito maior que a ajuda ao desenvolvimento que recebem” (apud Drozdick. sindicais e as ONGs signatárias “pensamos que o direito de acesso a uma assistência médica viável e de boa qualidade para todos deve ser uma prioridade nacional”. nos Estados Unidos. • Em diversos países desenvolvidos surgem protestos éticos diante da aplicação de certas ortodoxias econômicas. O tempo com certeza é curto. Atendendo ao pedido. Os países desenvolvidos destinam em média apenas 0. aumentam quando há valor agregado de processamento nos produtos dos países em desenvolvimento. Suécia. São inícios. apenas 0. levaria a reduções nos projetos públicos sociais.7% do PIB para tal ajuda. dirigindo-se aos países desenvolvidos. Tendo sido determinado que os países desenvolvidos deviam aplicar 0.ÉTICA E ECONOMIA 155 tecionistas postas por muitos países desenvolvidos às exportações básicas dos países pobres. 2001). porém estimulantes. As tarifas aduaneiras são discriminatórias.

B.2001. DROZDICK. A. Polônia.1998. Bruxelas. 2000. W. jovens que o desemprego permanente incentivará à delinqüência. In: BASSU. Discurso em Elk. “Mass unemployment as a social problem”. devido à desnutrição. PATTANAIK. The voices of the poor. RESPONSIBLE wealth. Harvard University Press. Choice. 2001. Informe de la Comisión Latinoamericana y del Caribe sobre el desarrollo social. Abertura da Conferência Internacional sobre países mais pobres. Foreign Service. Cambridge. 15.2001. Crianças que. Clarendon Press. vidas perdidas ou mutiladas. PNUD. AIV. Robert. que não pode esperar”. Venezuela. 8-9. JOÃO PAULO II. The New York Times. Charles. Equity issues in a globalizing world: the experience of OECD countries.6.1999. AYLWIN. 1995.156 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL danos em muitos casos irreversíveis. Koffi. ATKINSON. 1999. welfare and development. 14. 8. Conference on Economic Policy and Equity. Breves reflexiones bíblicas. Washington Post. “Poor nations may not buy trade talks”. 1995. 1995. . Cepal. Yeshahahu.6. Washington. SOLOW. terão danos para toda a vida. Referências bibliográficas ANNAN. “If the estate tax is eliminated someone else will pay”. The ethics of Autenticity. BID. fev.5. famílias que serão destruídas sem que isso possa ser remediado. Oxford.5. SUZUMURA. LEIBOWITZ. Patricio et al. TAYLOR. Como dizia João Paulo II (1999): “A pobreza é algo urgente. IMF. THE WORLD BANK.

O problema aparece em todas as pesquisas de opinião como um dos que mais preocupam a população. Os cidadãos têm uma sensação de insegurança na grande maioria dos centros urbanos. A população se pergunta com ansiedade o que está acontecendo. É indispensável contar com estudos objetivos que superem os chavões existentes sobre os fatores que estão impulsionando estes inquietantes pro- .O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE . um roubo em um táxi ou outras formas de ataque criminoso. apesar da premência. o que se pode esperar? Estes climas de alarme generalizado são propícios ao surgimento de teses extremistas propondo resultados rápidos. Segundo assinala a Revista The Economist. é imprescindível melhorar a qualidade do debate atual sobre um tema tão importante. Existem cidades onde percentuais significativos da população já tiveram a experiência de um assalto. Fazem-se necessárias análises baseadas em evidência séria sobre as características do problema. que encontram receptividade diante da desesperação que se estabelece em amplos setores.. 157 Capítulo 6 O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE NA AMÉRICA LATINA: um tema urgente Um clima de alerta em ascensão Os índices de criminalidade da América dispararam nas duas últimas décadas. Este trabalho aspira. indicar que. todas as cidades da região são hoje mais inseguras do que dez anos atrás. como se pode enfrentar isso. antes de mais nada.. Inclusive cidades tradicionalmente consideradas seguras assistiram a uma rápida deterioração da situação.

Primeiro se levantam informações básicas sobre a situação. Essa é uma taxa que multiplica por seis a dos países que têm uma criminalidade moderada. colocam-se algumas das principais linhas de discussão existentes sobre possíveis respostas. haviam sido objeto de um delito nos últimos doze meses. depois do Saara Africano. quatro de cada cinco entrevistados disseram que a delinqüência e a dependência de drogas haviam aumentado muito em seus países nos últimos três anos. sua magnitude levou à redução da população jovem de certas faixas etárias. As estatísticas mostram que. apresentam-se algumas conclusões. ela se transformou em uma das principais causas de morte da população jovem. Mais alarmante ainda. Estima-se que a América Latina tem 30 homicídios por cada 100. Os estudos do BID e outras organizações indicam que a América Latina é hoje a segunda zona com mais criminalidade do mundo. dois de cada cinco assinalaram que eles.000 habitantes ao ano. As tendências são. desenvolvem-se a seguir vários momentos sucessivos de análise. Terceiro. Segundo. Alguns fatos Os dados disponíveis não deixam lugar a dúvidas sobre a gravidade do tema. enfatizando especificamente certos riscos do rumo atual do debate sobre o avanço da criminalidade na região. como a Organização Panamericana da Saúde. A magnitude da criminalidade na região exige que se a considere como “epidêmica”. realizada em 17 países da região. Na pesquisa Latinbarometro 2001. inclusive em períodos recentes. por outro lado. Finalmente. Este percentual é superior ao que obteve em uma edição similar da pesquisa em 1995 (65%). como a maioria dos países da Europa Ocidental. . muito preocupantes. ou algum membro de sua família. As taxas tendem a aumentar nos anos recentes. Prestigiosas instituições internacionais. Em alguns países. consideram a criminalidade da região como um problema central de saúde pública. É preciso também ter em conta a vasta experiência internacional a respeito do tema. É a instalação de um problema estrutural que está se alastrando. Tratando de contribuir para o estímulo à tarefa coletiva nestas direções.158 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL cessos. são feitas indagações sobre algumas de suas possíveis causas. Apenas com base em abordagens profundas à complexidade do problema será possível conceber soluções realmente efetivas. entre outras conseqüências.

apesar do enorme investimento em segurança pública e privada. Há diversos circuitos de criminalidade operando na região. entre os fundos públicos destinados à segurança e os gastos privados com este fim. o número de homicídios por cada 100 mil habitantes é quase o dobro da já muito alta taxa de toda a região. Estima-se que se gaste neste item 24% do Produto Interno Bruto. Dados recentes do BID (2001) estimam que o Brasil gasta anualmente. levando-as à condição de ser das mais arriscadas em todo o planeta? Por que. e um desvio em grande escala de recursos dos quais as áreas produtivas necessitam com premência.3% do Produto Interno Bruto. o Chile. dos valores e de outras dimensões. do desenvolvimento social. dedicar proporções tão altas do Produto Nacional a este problema implica um peso fenomenal para a economia. Na Colômbia.3% de seu Produto Interno Bruto.. as taxas de criminalidade não estão retrocedendo. mas. e do forte crescimento da população carcerária. São imprescindíveis análises do ponto de vista da economia. a alocação de recursos da economia para este item significa 5. a alocação de recursos públicos e privados para a segurança é ainda maior. Um que é muito relevante e que cresceu fortemente. ao contrário. estão aumentando? O tema é de grande complexidade e requer ser abordado de diversas perspectivas. é o vinculado à droga.. Em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. No Peru. O gasto com a segurança no Brasil é maior que toda a riqueza produzida em um ano por uma das economias mais vigorosas da região. da educação. de implicações múltiplas e amplamente estudado. Boa parte da criminalidade comum tem outras ca- . da cultura. 159 A reação diante de um fenômeno que ameaça diretamente a vida de boa parte da população teve envergadura. O gasto com segurança está subindo fortemente em quase toda a região. o fenômeno deve desagregar-se. Em economias como as latinoamericanas que estão lutando duramente para conseguir taxas de crescimento que superam os 3% ou 4% anuais. Além disso. Indagando causas Por que estas tendências tão preocupantes? O que levou estas sociedades a tais níveis de desenvolvimento da delinqüência. 43 bilhões de dólares. segundo indícios. o que representa 10. problema mundial.O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE .

Os ganhos dos informais tendem a se reduzir. Trata-se de uma zona privilegiada. É impossível não observar que. 11%. a produtividade destas ocupações é um quarto a um terço da produtividade dos postos de trabalho na economia formal. torna-se parte da crônica jornalística diária de quase todas as sociedades da região. subiram paralelamente à deterioração dos dados sociais básicos nas últimas décadas. culturais. de amplos setores da população. segundo as análises da CEPAL. sem apoio tecnológico nem crédito. Esta é uma região onde a pobreza cresceu. Segundo o Panorama Social da CEPAL 2000. a serviços adequados de saúde pública e educação e à habitação. com poucas possibilidades de futuro. As cifras indicam que o número de pobres é hoje maior que em 1980. A tudo isso se somam graves problemas de cobertura e acesso. Sua taxa cresce e. e também que cresceu o percentual que eles representam no conjunto da população. Também subiram as taxas de desocupação aberta. infelizmente. demográficas e outras. os índices dessa criminalidade. o que leva a uma taxa de mortalidade materna que é cinco vezes a do mundo desenvolvido. São delitos cometidos em alta proporção por jovens. A deterioração social está ligada a múltiplos fatores. que é hoje. Tampouco foi cenário de guerras cruentas como a Europa ou a África. a grande maioria em tarefas autogeradas para sobreviver. Um de cada cinco partos se faz sem assistência médica de qualquer tipo. em média. chegando a ser quase a metade dela. em termos tanto absolutos como relativos. Não decorre da escassez de recursos naturais ou de grandes guerras como a África. Os fatores naturais estão a favor. As análises do PREALC da OIT (1999) assinalam que outro processo muito preocupante é a degradação da qualidade dos trabalhos disponíveis. Ganham cada vez menos em poder aquisitivo e trabalham mais horas. excelentes potenciais para a produção agropecuária e um bom posicionamento geoeconômico. A deterioração social se expressa inclusive em deficiências nutricionais severas. Cerca de 60% da mão-de-obra ativa trabalha hoje no setor informal. porém um dos . Como conseqüência de tudo isso. grandes possibilidades de geração de energia barata. com imensas reservas de matérias-primas estratégicas. um terço das crianças da América Latina com menos de dois anos de idade estão hoje em situação de “alto risco alimentar”. de grave magnitude na região.160 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL racterísticas. sem deixar de lado variáveis históricas. A pobreza latino-americana não tem explicações fáceis.

19. Caracas. segundo alguns analistas como Birdsall. é o aumento das polarizações sociais que levaram a que a América Latina hoje seja considerado o continente mais desigual de todo o planeta. n. segundo pesquisas de opinião. e no campo educacional. historicamente possuidora de uma grande classe média. o que uns e outros vão ganhar. como é notório. 161 mais influentes. Reforma y Dmocracia. Este setor da sociedade. como a trava fundamental para que na região possa se dar um crescimento econômico sustentado. Tem consciência de sua envergadura e as considera. A população se ressente fortemente com elas. Além disso. a crise que experimentam os estratos médios em diversos países. registra pronunciadas desigualdades no acesso à terra e outros bens de capital. é impossível deixar de observar que tal clima cria uma série de condições propícias a esses processos de modo direto e indireto. El debate postergado. Sem cair em simplificações. em sua grande maioria. Venezuela. Ross e Sabot (1998). Cresceu fortemente na região um novo estrato social indicador de mobilidade descendente. chave para o desenvolvimento.. passando a ser pobres. Podem-se encontrar dados quantitativos detalhados sobre as tendências à desigualdade na região e sobre as pesquisas recentes sobre o tema em Bernardo Kliksberg (1999). injustas e inaceitáveis. os “novos pobres”. Uma das mais estudadas recentemente é a sensação tida por amplos setores de que passaram a ser excluídos. Nesse clima estão acontecendo os processos atuais em matéria de delinqüência. A desigualdade aparece. e em outros vários planos. de que se encontram fora dos marcos da sociedade.1 Segundo estudos do BID (1999). Os 10% mais ricos da população têm 84 vezes a renda dos 10% mais pobres. . A acentuação das polarizações sociais teve como uma de suas conseqüências. 1. A convivência da pobreza com privações agudas e as amplas brechas na sociedade criam um clima social com alto potencial de conflito. se viu muito afetado nas duas últimas décadas. na Argentina. segundo os cálculos de López (2001). enquanto a escolaridade média dos chefes de família dos 10% mais ricos da população é de 12 anos. As amplas desigualdades geram. Desigualdad y Desarrollo en América Latina. 7 milhões de pessoas deixaram de ser classe média na década de 1990-2000..O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE . há uma brecha de 7 anos que terá efeitos muito intensos nas chances de conseguir trabalho. agudas tensões sociais. Assim. e a região apresenta o pior coeficiente de desigualdade na distribuição da renda. Revista del Centro Latinoamericano de Administración para el Desarrollo (CLAD). segundo indicam numerosas pesquisas recentes. a dos 10% mais pobres é de 5 anos. na possibilidade de obter créditos.

os desocupados nessas condições tendem a abandonar de vez a busca por trabalho. Isso significa que um amplo setor da população jovem não tem possibilidade de inserir-se na economia. Sua autoestima fica prejudicada pela situação. ou só pode alcançar uma renda que os coloca bem abaixo do umbral da pobreza. Se é uma família que funciona bem. transmitirá valores e exemplos de conduta nas idades tenras que . Também tendem a retrair-se socialmente. Dois terços dos jovens internados por delitos vinham de famílias com um só cônjuge à frente. O potencial explosivo desta situação é muito grande. claramente. Verificou que mais de 70% provinha de famílias desarticuladas. 1993) examinou a situação familiar de uma amplíssima amostra de jovens em centros de detenção juvenil. Na América Latina. um estudo em uma das sociedades com melhores recordes sociais como o Uruguai (Katzman. uma instituição decisiva em matéria de prevenção do delito em uma sociedade. 1997) encontrou correlação similar. a desocupação juvenil duplica e até triplica a taxa de desocupação média. Em muitos países. com pai ausente. Observam-se significativas correlações estatísticas em três áreas.162 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL Os estudos disponíveis permitem ver também como alguns componentes deste processo de deterioração social incidem diretamente sobre o aumento da criminalidade. que de nenhum modo esgotam a causalidade da criminalidade. o que é típico hoje de diversas realidades da região. Uma pesquisa nos EUA sobre criminalidade juvenil (Dafoe Whitehead. superior a 20% em boa parte da região. mas que aparecem como chaves para entendê-la. Uma segunda área de correlações intensas é a que vincula deterioração familiar com delinqüência. Segundo as análises do Prêmio Nobel de Economia Robert Solow (1985). e decidem não buscar mais trabalho para evitar novas rejeições que podem afetá-los ainda mais quando se encontram tão vulneráveis. Análises dos últimos anos em várias cidades dos Estados Unidos demonstram claramente que a diminuição das taxas de delinqüência teve como razão principal os bons níveis das taxas de ocupação e o aumento dos salários na economia. As elevadas taxas de desocupação generalizada são ainda muito maiores entre os jovens. Na América Latina a tendência tem sido inversa. sua personalidade se ressente. E faz-se ainda mais intenso quando a desocupação dura períodos prolongados. perderam substancialmente o poder aquisitivo. Os salários mínimos. por outra parte. A família é. Há uma forte correlação entre o aumento da criminalidade e a taxa de desocupação juvenil. A primeira área foi estudada com freqüência.

décadas atrás uma sociedade com índices muito baixos. mas uma delas. com o fato de que a população pobre passou. É impossível não associar. Mais de 17 milhões de crianças menores de 14 anos trabalham. se aumentam os graus de educação de uma população. A violência no interior do lar pode ser. por exemplo. menos do que o primário completo. A tendência estatística que admite. e um significativo percentual deles padece de desnutrição e outras carências. que defendem com grande coragem seus filhos mas o fazem em condições duríssimas. de mulheres pobres. o aumento da criminalidade na Argentina. obrigados pela necessidade. Ainda que se tenha conseguido matricular a grande maioria das crianças na escola. em torno do problema da delinqüência. mais tarde. segundo estimativas. um forte estimulante à insensibilização diante do exercício da violência. Assim parecem evidenciá-lo os estudos mencionados. 163 serão mais tarde fundamentais. todo tipo de exceção. esta instituição chave na ação antidelito está sofrendo severas deteriorações sob o impacto da agravação da pobreza. de alta incidência. quando os jovens devam fazer opções em suas vidas diante de encruzilhadas difíceis.2 anos. O fenômeno é complexo mas as cifras mostram que numerosas famílias pobres e de classe média sofrem tensões extremas durante os períodos de desocupação prolongada e privações econômicas graves. dia e noite. Trata-se. Uma terceira correlação é a que se observa entre os níveis de educação e a criminalidade. As taxas de repetição também são altas. diminuem os índices de delitos.. Por sua vez. deixa de cumprir tal função. A média de escolaridade na região é de apenas 5. 2000). de 5% . Na América Latina. Isso se deve a muitas razões. apesar dos importantes esforços no campo da educação. é o grande stress socioeconômico de que sofrem numerosos lares. famílias desarticuladas e baixos níveis de educação — estão gravitando silenciosamente. Também estão aumentando na região os índices de violência doméstica (Buvinic. em sua grande maioria. Se entra em processo de desarticulação. Na região. o que acaba por desarticulá-las. A evasão e a repetição incidem fortemente sobre a pobreza. Estima-se que mais de 20% das famílias da região têm apenas a mulher a sua frente. os problemas são graves. fazem parte do quadro mais geral da pauperização da região. Esses três grupos de causas — alta desocupação juvenil. é claro.. Para eles fica muito difícil estudar nestas condições. quase 50% delas abandonam os estudos antes de completar o primário.O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE . é que.

Clarín 2001). Defende o aumento do número de efetivos policiais. tornar as crianças responsáveis e encarceráveis desde idades tenras. assinala ele. 2000). que ela obtém alguns efeitos aparentes de curto prazo e sempre passageiros. a população carcerária de países que a praticam cresce rapidamente. o aumento dos gastos com a segurança em geral. e com o fato de as desigualdades terem crescido enormemente. A outra posição. “obstaculizam” o trabalho policial. entretanto. Trataremos de apresentá-las sumariamente. Propõe o castigo implacável de qualquer falta. “Sabe-se que o encarceramento. e afirma que a punição dá resultados muito pobres. por Louis Wacquant em sua obra recente Os cárceres da Miséria (Edições Manantial. propõe baixar a idade de imputabilidade. Ao contrário. A primeira. Wacquant. considera a proposta anterior equivocada e causadora daquilo mesmo que procura evitar. põe ênfase na adoção urgente de medidas de ação direta. entre outros. os índices de delitos continuam subindo. os precá- . renomado pesquisador do Collège de France e professor associado da Universidade de Berkeley. segundo essa proposta. gerando o que ele denomina um Estado hipertrofiado na área da repressão sem que. sobretudo na década de 90. como está sucedendo na América Latina.164 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL nos anos 70 a 41% do total da população atual (Bermúdez. a maior discrição da ação policial. o debate mundial. O debate sobre as soluções Que fazer frente a uma situação que constitui uma ameaça concreta para a vida cotidiana nas grandes cidades e que deteriora profundamente a qualidade de vida? Como enfrentar a escalada da criminalidade que se agravou ano após ano na última década? Que fazem outras sociedades? Em uma gama enorme de propostas. que se poderia denominar “a via preventiva”. os delitos diminuam. além de afetar prioritariamente as camadas mais desprovidas. que poderíamos chamar “a via punitiva”. mudanças nos códigos penais para reduzir as garantias que. é possível diferenciar duas grandes posições que têm representação muito forte no debate público da região. Assim. Esta posição é exposta com grande vigor e ampla evidência empírica. os desocupados. e até chega a propor grupos de extermínio organizados. como a melhor educação para o delinqüente jovem. analisa os dados. Além disso. os estudos das principais universidades e centros do mundo. A médio e longo prazo.

é necessário olhar mais longe e ter seriamente em conta a experiência mundial. os estrangeiros. e. Excetuando-se. 165 rios. como as da droga e outras. a América Latina está “vendendo” uma visão errônea da realidade. é. ao crescimento da pobreza e da desigualdade. Ele adverte que há vários processos inter-relacionados: a saída do Estado da economia em diversos países. Entretanto. Destaca que. fazendo participar toda a comunidade e as igrejas na luta contra a delinqüência e desenvolveram vigorosos programas de apoio a jovens desfavorecidos. Para atacar os fatores estratégicos é necessário que as sociedades invistam fortemente no aumento das oportunidades ocupacionais para os jovens. É possível inferir que estas políticas não estão tocando as causas de fundo da questão. uma parte importante do delito está intimamente ligada ao quadro geral de deterioração social. como San Diego e Boston. é bom recordar sempre as condições e os efeitos deletérios da detenção na atualidade. que têm uma taxa de policiais por habitante muito menor que as cidades que aplicam a via punitiva. como se notou anteriormente. não apenas sobre os reclusos. Neste sentido. na expansão do acesso a ativi- . circuitos de delito que são empresas criminais organizadas. Apesar do incremento acelerado dos gastos públicos e privados com segurança nos países da região. que requerem uma resposta contundente da sociedade que tem todo o direito de defender-se delas. a onda de delitos não retrocede. Não se conhece quase nada na região sobre as experiências das cidades americanas que realmente conseguiram significativa redução da delinqüência nos EUA. Elas optaram por um enfoque puramente preventivo. em muitos casos. da “flexibilização” de garantias jurídicas e processuais. na criação de espaços para os milhões de jovens que estão hoje fora do mercado de trabalho e do sistema educativo. a tese punitiva tem amplas condições para prosperar. Constitui um terreno propício para o surgimento de propostas demagógicas que oferecem uma saída rápida. a debilitação do Estado social. Ante o medo e a incerteza. em si mesmo. mas também sobre suas famílias e vizinhanças”. Seu exemplo foi adotado por muitas cidades americanas.O CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE .. uma tremenda máquina de pauperização. Uma visão de conjunto A pressão do aumento dos delitos é muito grande na América Latina.. em sua opinião. o conseqüente crescimento de uma massa de excluídos e o aparecimento do que ele chama “o Estado penitenciário”.

Joseph Stiglitz.166 FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL dades culturais e esportivas. 40 milhões de pessoas que vivem. julgá-lo e encarcerá-lo é muito mais oneroso que investir para dar-lhe uma bolsa de estudos. substituir os slogans e medidas de fachada por dados sérios. corre-se um enorme risco. no desenvolvimento de políticas sistemáticas de proteção à família. segundo os dados. para levar adiante um grande esforço integrado de ação comunitária. em extrema pobreza e que andam com a impressão de que se implantou um novo delito ao qual chamou “porte de cara” — com freqüência são interrogados ou vistos com suspeita apenas por seu rosto e seu aspecto. identificar as causas estruturais do problema e ter em conta que aí está em jogo. ter plena validade na América Latina. orientado para criar oportunidades de trabalho e de desenvolvimento para os desfavorecidos. A América Latina se encontra em verdadeira encruzilhada histórica diante do angustiante problema do aumento da delinqüência. como o fazem em cidades como aquelas mencionadas acima e outras. afirmou que. no caso dos EUA. em lugar de serem apoiados ajudados. e no fortalecimento da educação pública. com a notável diferença de que assim se reduz a taxa de criminalidade. sejam discriminados e confinados. em sua maioria. O mesmo raciocínio parece. Os desfavorecidos passaram a ser vistos cada vez mais como “potenciais suspeitos” que devem ser trancafiados atrás de barreiras defensivas. do que a qualidade moral básica de nossas sociedades. É possível que se avance por um caminho que. . se a ação se resume à mera punição e põem entre parênteses os direitos básicos do sistema democrático para facilitá-la. Se uma discussão a fundo sobre as causas estruturais dessa alarmante tendência é deixada de lado. ex-vice-presidente do Banco Mundial. que aqueles que mais sofrem a deterioração econômica e social. Por outro lado. nada mais nada menos. de acordo com estudos de custos. como vem acontecendo em diversos países. Seria terrível para a imagem da sociedade livre e plena de oportunidades pela qual aspiram os povos da região. este é um desafio que deveria suscitar uma ação coletiva. ainda sem admiti-lo. Por qual caminho optará? O que vai em direção à criminalização da pobreza ou o da integração social? Cabe aprofundar na democracia este debate transcendental. Estado e sociedade civil deveriam somar seus esforços. prender um delinqüente jovem. Um líder indígena do Continente explicava recentemente que eles são os mais pobres dos pobres. esteja “criminalizando a pobreza”.

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Foi Diretor do Projeto da Organização das Nações Unidas para a América Latina de Modernização do Estado e Gerência Social e Coordenador do Instituto Interamericano para o Desenvolvimento Social (INDES/BID). Nuevas respuestas a nivel mundial (Fondo de Cultura Económica. 1998).FALÁCIAS E MITOS DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL 175 SOBRE O AUTOR Bernardo Kliksberg é assessor de diversos organismos internacionais. destacam-se: Professor Honorário da Universidad Nacional de Buenos Aires. OEA. Pobreza. OIT. Repensando o Estado para o desenvolvimento social (Unesco/Cortez. 1998). entre eles a ONU. É autor de diversas obras. desigualdade e institucionalidade social (Unesco. Professor Emérito da Universidad de Congreso (Argentina). Entre outras distinções que lhe foram outorgadas. 2000). 2000). . O desafio da exclusão (FUNDAP. Doutor Honoris Causa da Universidad del Zulia e Doutor Honoris Causa da Universidad Nacional Baralt (Venezuela). 1998). das quais apontamos as mais recentes: Desigualdade na América Latina. O debate adiado (Unesco/Cortez. América Latina: uma região de risco — pobreza. La lucha contra la pobreza en América Latina (Fondo de Cultura Económica. 2000). e Unesco.

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