Ángel Rama: uma bússola para a América Latina No dia 26 de novembro de 1983, nos arredores de Madri, Espanha, morreu

, em um acidente de avião, Ángel Rama, 57 anos. O acidente do voo 011 saindo de Paris para Caracas-Bogotá, com escala em Madri, deixou 183 óbitos, num total de 194 passageiros. Desde então, já se passaram 30 anos. Nascido em 30 de abril de 1926, em Montevidéu, Rama era filho de imigrantes espanhóis. Em 1943 iniciou seus estudos em Direito, tendo se destacado no ambiente cultural da capital do Uruguai. Tendo feito cursos na Faculdade de Humanidades e Ciências da Universidade da República, em 1947, Rama entraria em contato um vasto universo intelectual. Nesse momento, ele passou a despontar como uma das figuras mais proeminentes da cultura uruguaia, da segunda metade do século XX. No Uruguai, a estabilidade democrática e os valores sociais vigentes faziam com que Rama brincasse, ao dizer: o “Uruguai me fez”. Com isso, Rama afirmava que a sociedade uruguaia havia cifrado suas esperanças, felicidades e realizações na construção da democracia. Falava em ter sido criado por uma sociedade aberta e que lhe era muito querida. Porém, devido ao golpe militar de 1973, Rama se vê forçado a viver no exílio. Naquele mesmo ano, estava na Venezuela e, após diversas negativas, teve seu passaporte cancelado pelo governo uruguaio, pela oposição ao regime. Coincidentemente, foi nesse período que Rama entrou em contato com uma vasta cultura latino-americana. Por suas leituras e incursões intelectuais, acabou por acumular grande conhecimento da cultura de vários países da América Latina, podendo aplica-lo em seus estudos. A condição de exilado o permitiu despontar como um dos mais proeminentes intelectuais latino-americanos. Com a suspensão dos direitos civis no Uruguai e impossibilitado de voltar ao seu país, Rama teve uma respeitada carreira universitária. Deu aula nos Estados Unidos, França e em outras Universidades do Continente. Devido ao apoio dado a Revolução Cubana, que se iniciara em 1959, Rama teve seu visto negado nos Estados Unidos, o que impediu de continuar a ser professor na Universidade de Maryland. Nesse período, ele formulou as bases do livro A cidade das letras (Brasiliense, 1985), publicado postumamente, onde analisou as relações estabelecidas entre os intelectuais letrados e o poder na América Latina, desde o período colonial até meados do século XX. Nesta e em outras obras, a preocupação crucial de Rama foi a de pensar a cultura latino-americana não como um desdobramento da europeia. Uma das constantes preocupações em sua obra foi a demarcada busca pela autonomia cultural, onde a interpretação da literatura produzida, por exemplo, servisse como modelo para se pensar a produção de uma cultura latino-americana que se conectasse ao mundo, ao invés de ser imitação daquilo que vinha de fora. Por exemplo, Rama deu grande importância à narrativa gauchesca do século XIX. Interpretou-a, pois era composta de elementos populares que se mesclavam com a erudição de seus autores. Para ilustrar a situação, podemos ver o poema El gaucho Martín Fierro, do argentino José Hernández. Rama procurou fomentar a mescla entre

Mediante as dificuldades do exílio. 2008). Rama não se rendeu às incertezas que tomaram conta de sua vida. manter a vitalidade de seu projeto intelectual: uma história cultural comum à América Latina. que começou a escrever o seu Diário (Trilce. É nesse momento. . com grande esforço. notas de pensamento e do cenário intelectual latino-americano dos anos em que o continente experimentou o estrangulamento das liberdades pelos governos ditatoriais que acendiam ao poder. Procurou. onde ficaram relatadas junto às incertezas.cultura popular e erudita e através disso interpretar o que ele via como a “cultura latinoamericana”. entre 1974 e 1983.