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Citar: ALVES, Marco Antônio Sousa. Direito, poder e saber em Édipo Rei de Sófocles.

Revista da Faculdade de Direito Milton Campos, v. 17, p. 107 - 126, 2008. Disponível em http://ufmg.academia.edu/MarcoAntonioSousaAlves/Papers/472944/ Direito_poder_e_saber_em_Edipo_Rei_de_Sofocles. Acesso em: [data de acesso] Contato: marcofilosofia@ufmg.br

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DIREITO, PODER E SABER EM ÉDIPO REI DE SÓFOCLES
MARCO ANTÔNIO SOUSA ALVES

Sumário 1. Introdução à tragédia de sófocles e resumo da história de édipo. 2. Breve apresentação de foucault e de sua leitura da obra de sófocles. 3. Análise dos procedimentos jurídicos de estabelecimento da verdade empregados por édipo. 4. Análise da relação entre o saber e o poder político na peça édipo rei. 5. Referências bibliográficas.

Resumo O artigo analisa a relação entre o direito, o poder e o saber, tendo como objeto de análise a peça Édipo Rei de Sófocles. Baseando-se em alguns especialistas em literatura grega e na cultura antiga, como JeanPierre Vernant e Bernard Knox, o artigo inicia-se com uma introdução à tragédia de Sófocles e um resumo da história mítica de Édipo. Em um segundo momento, apresenta-se a leitura da peça realizada por Michel Foucault em sua segunda conferência proferida no Rio de Janeiro 

Uma primeira versão desse trabalho foi apresentada como trabalho final da disciplina “Fundamentos de Literatura Grega”, ministrada pelo prof. Teodoro Rennó Assunção, na FALE/UFMG em 14 de dezembro de 2007. Posteriormente, foi transformada em palestra e apresentada em 17 de maio de 2008 no Colóquio de Direito e Dramaturgia Grega “A invenção da Justiça” no Serro, MG.
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em 1973 e publicada no obra A verdade e as formas jurídicas, em que se empreende uma pesquisa histórica sobre como se puderam formar domínios de saber a partir de práticas sociais, sustentando que a peça Édipo Rei ilustra uma mudança nas formas de poder e de saber da Antiguidade. Em seguida, o artigo aprofunda a interpretação foucaultiana, analisando os procedimentos judiciários de estabelecimento da verdade empregados por Édipo. A maneira como a investigação sobre a morte de Laio é conduzida, os interrogatórios e a importância concedida ao testemunho humano, contrastam claramente com as formas arcaicas de descobrimento da verdade, baseadas no juramento e na presciência divina. O direito participa de uma grande revolução no saber que marcou o século V a.C., e Édipo, o investigador incansável, ilustra plenamente os novos avanços da ciência do tempo de Sófocles. Por fim, a última parte do artigo realiza um estudo da relação entre saber e poder, tendo como ponto de partida a peça Édipo Rei. Édipo encarna o saber científico, o saber autocrático do tirano, do homem da techné, do profissional do poder político e do saber que se crê capaz de pilotar a cidade e, mesmo ameaçado, mantém a confiança em seu próprio poder e saber. Palavras-chave: Direito. Poder. Saber. Édipo. Abstract This article analyzes the relationship between law, power and knowledge, having as its object of analysis the play Oedipus the King, by Sophocles. Based on some Greek literature and Ancient culture scholars, such as Jean-Pierre Vernant and Bernard Knox, this article begins with an introduction to Sophocles tragedy and a summary of Oedipus’ mythic story. Afterwards, Michel Foucault’s reading of the play, which appears in the second lecture delivered in Rio de Janeiro, in 1973, and published in the book A verdade e as formas jurídicas, is presented. His reading undertakes a historical inquiry concerning how knowledge domains could be established from social practices. He claims that the play Oedipus the King illustrates a shift in power and knowledge forms in the Ancient world. Following that, Foucault’s reading is deepened and the juridical procedures establishing the true, which are used by Oedipus, are analyzed. The way Oedipus guides Laius’ murder investigation, or how he manages interrogatories and
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values human testimony, clearly contrasts with archaic forms of searching the true, which were based upon oath and divine foresight. Law takes part in the huge knowledge revolution that characterizes V b.C. century, and Oedipus, the tireless investigator, fully illustrates the new steps of science at Sophocles time. Finally, the last part of this article studies the relationship between knowledge and power, having as its start point the play Oedipus the King. Oedipus embodies scientific knowledge, the autocratic knowledge of a tyrant, the man of techne, the professional in political power and knowledge that finds oneself capable of driving the city, and that, even if threatened, keeps confident in his own power and knowledge. KeywOrDs: Law. Power. Knowledge. Edipus. I INTRODUÇÃO À TRAGÉDIA DE SÓFOCLES E RESUMO DA HISTÓRIA DE ÉDIPO Sófocles é um dramaturgo grego do século V a.C. que viveu cerca de 90 anos e gozou de grande reputação, vencendo por 20 vezes o concurso de teatro em Atenas e nunca ficando em terceiro lugar. Sabe-se inclusive de um decreto segundo o qual os atenienses decidiram fazer um sacrifício anual a Sófocles. Escreveu 123 peças (segundo um lexicógrafo bizantino), das quais apenas sete chegaram até nós, dentre elas a famosa trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, e Antígona. Essas peças nos contam algumas passagens da história da família dos Labdácias, que convém conhecer um pouco melhor. Antes de tudo, é importante ter em mente a origem da história de Édipo. Ela não foi inventada por Sófocles. Trata-se de uma história mítica, de épocas imemoriais, das mais remotas de nossa cultura ocidental (cf. Garcia, 1984). O chamado ciclo tebano da mitologia grega (que narra a vida de Édipo e seus filhos) foi contado de diversas maneiras, em diferentes épocas e por vários poetas: em poesias épicas da Grécia Arcaica, dos séculos VII e VIII a.C. (como a Edipoidia, a Tebaída e Os Epígonos, das quais temos apenas fragmentos), e sobretudo nas tragédias gregas do século V a.C. (que sobreviveram ao tempo), que são, além da trilogia tebana de Sófocles, Os Sete contra
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Tebas de Ésquilo e As suplicantes e As fenícias de Eurípides. Várias outras peças inspiradas no mito dos Labdácias foram escritas ainda na Antiguidade, mas infelizmente não chegaram até nós. Por exemplo, tanto Ésquilo quanto Eurípides escreveram versões de Édipo. Eurípides escreveu ainda uma peça sobre Laio (pai de Édipo) e outra sobre a Esfinge, além de outra versão de Antígona. Também os romanos, cuja literatura culta nasce imitando os gregos, recontaram esses mitos. Júlio César, em seus arroubos literários juvenis, também compôs um Édipo, mas a representação dessa peça foi proibida por Augusto e o texto acabou por desaparecer. Também Sêneca, já no século I d.C., escreveu seu Édipo, além de outras tragédias. E se avançarmos ainda mais no tempo, essa lista se torna quase infinita (cf. Perozim, 1984; Cardoso, 1984). O que encontramos na peça Édipo Rei (Oidípous Tyrannos) de Sófocles, é, portanto, uma versão da história de Édipo. E uma versão que, apesar de inspirada na tradição mítica, é fruto da criação artística de Sófocles e inclui muitos elementos do momento e do lugar em que foi escrita e encenada (a Atenas de 420 a.C.). Apesar de buscar seus temas nas lendas de heróis, a tragédia assume um distanciamento em relação aos mitos em que se inspira. As primeiras versões do mito de Édipo, por exemplo, não apresentam tantos traços trágicos como nos conta Sófocles e Ésquilo: Édipo morre tranquilamente instalado no trono de Tebas, sem exílio e sem furar os olhos (cf. versão homérica na Od. XI, 275-276). Aristóteles, na Poética, referindo-se à tragédia, observa que “os mitos tradicionais não devem ser alterados (...). Contudo o poeta deve achar e usar artisticamente os dados da tradição” (1453b21). O estagirita ressalta o fato de o mito ser o princípio e a alma da tragédia. Mas, ao contrário da história, que narra como as coisas sucederam, “a poesia é algo mais filosófico e mais sério que a história” (1451b), pois refere-se ao universal. Sendo assim, o que encontramos na tragédia de Sófocles não são apenas histórias míticas da Grécia Arcaica, mas uma recriação artística, uma reflexão filosófica da condição humana (que ainda não recebeu a forma que no século seguinte Platão e Aristóteles criarão para a expressão do pensamento, dando origem à tradição filosófica). Como ressalta Nietzsche (2006: 68), “a reflexão deve ter seu lugar na tragédia (a tragédia, que representa o mais profundo conflito
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entre a vida e o pensar, não pode impedir a reflexão)”. A tragédia traz à cena um mundo lendário, que constitui o passado da cidade, e sobre essa base reflete e questiona, confrontando a riqueza mítica com as novas formas de pensamento jurídico e político e, indo além, interrogando a própria condição humana. O fim da tragédia ocorre exatamente no momento em que esse liame com a tradição se perde, como acontece nas peças de Agatão (contemporâneo de Eurípides e Sócrates), em que a intriga é inteiramente criação sua, perdendo-se de vista o vínculo com o passado heróico. Sintetizando, cito Vernant (1979: 215):
A tragédia tem, como matéria, a lenda heróica. Não inventa nem as personagens nem a intriga de suas peças. Encontra-as no saber comum dos gregos, naquilo que eles acreditam ser seu passado, o horizonte longínquo dos homens de outrora. Mas, no espaço do palco e no quadro da representação trágica, o herói deixa de se apresentar como modelo, como era na epopéia e na poesia lírica: ele se tornou problema. O que era contado como ideal de valor, pedra de toque da excelência, acha-se, no decorrer da ação e através do jogo dos diálogos, questionado diante do público; o debate, a interrogação de que o herói é doravante o objeto atingem, através de sua pessoa, o espectador do século V, o cidadão da Atenas democrática.

Convém, antes de focalizar a peça Édipo Rei, conhecer um pouco melhor a história da família dos Labdácias, o que será feito com base nos estudos realizados por Vernant (1981). O rei Lábdaco, o coxo, morre quando seu filho Laio é ainda um bebê, sem poder, portanto, assumir o trono. Lico, um estranho, assume o trono e afasta Laio de Tebas. Refugiado junto a Pélops, Laio, o canhestro, mostra-se desequilibrado e com uma homossexualidade excessiva (mesmo para os padrões gregos). Laio é violento e faz Crisipo (filho de Pélops) sofrer, levando-o ao suicídio. Assim, Laio rompe as regras de simetria entre os amantes e também as de hospitalidade (uma vez que era hóspede de Pélops). Pélops lança contra Laio uma maldição que condena sua raça ao esgotamento (Laio não deveria ter filhos). Voltando a Tebas e assumindo o trono, Laio casa-se com Jocasta e é advertido pelo oráculo de que não deveria ter filhos. Se desobedecer, esse filho o destruirá e dormirá com sua mãe. Laio, então, mantém com Jocasta uma relação desviada, de tipo homossexual, para não ter filhos. Mas, numa
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noite de embriaguez, não toma o devido cuidado. O filho, ao nascer, é entregue a um servo e pastor para que ele o mate (a criança foi ferida no pé, de modo a não poder se mover, e deveria ser deixada no monte Citerón). Este, com pena do bebê, decide por entregá-lo, em segredo, a um mensageiro de Corinto para que este o levasse para bem longe. Em Corinto, Édipo é criado pelo rei Pólibo e sua esposa Meréope, que não tinham filhos. Enquanto Édipo crescia, ouvia comentários sobre não ser filho legítimo de Pólibo, apesar deste lhe assegurar o contrário. Curioso, Édipo decidiu-se finalmente a viajar para Delfos e consultar o oráculo, que lhe revelou que ele estava condenado a matar o próprio pai e casar com sua mãe. Aterrorizado, Édipo tenta fugir desse destino cruel, decidindo nunca mais voltar a Corinto. Nessa fuga, Édipo encontra em uma encruzilhada com uma carruagem que rudemente ordena que saia do caminho. Irritado, Édipo agride e mata esses desconhecidos, dentre eles Laio, o rei de Tebas e seu próprio pai. Édipo continua seu caminho até Tebas e encontra uma cidade amedrontada pela Esfinge, um monstro metade leão alado, metade mulher, que propunha enigmas e matava os homens que não venciam seu desafio. Quando a morte de Laio se tornou conhecida em Tebas, o trono e a mão da rainha Jocasta foram oferecidos ao homem que pudesse solucionar o enigma e livrar Tebas da terrível Esfinge. Édipo aceita o desafio e vence a Esfinge. Feito rei, Édipo esposa sua própria mãe, Jocasta, realizando o vaticínio oracular e tornando-se parricida e incestuoso. Ele tem com ela quatro filhos: Etéocles, Polínices, Antígona e Ismênia. Considerado um bom rei, Édipo começa a enfrentar um grave problema que demanda toda sua inteligência e destreza como governante: salvar Tebas de uma terrível peste. É nesse ponto que a peça Édipo Rei de Sófocles começa sua história. Édipo, buscando livrar a cidade da peste, envia Creonte, o irmão de Jocasta, ao oráculo de Delfos, que revelou que a maldição 


Numa versão contada por Pausânias, a Esfinge seria uma filha bastarda de Laio. Uma análise filológica do nome ‘Édipo’ também permite encontrar alguns significados esclarecedores. Como observa Vernant (1970:83-4), Édipo (Oidípous) é o homem de pé (poús) inchado (oidos), mas também o homem que sabe (oída). O próprio enigma da Esfinge joga com essas palavras: qual é o ser que ao mesmo tempo caminha com duas pernas (dípous), com três pernas (trípous) e com quatro pernas (tetrápous)? ������������� A resposta é ele mesmo, Oidípous, o homem.

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só passaria se se descobrisse quem matou Laio e se fizesse justiça. Édipo, então, inicia uma investigação para saber quem matou Laio e chama Tirésias, o adivinho, que reluta inicialmente em revelar a identidade do assassino. Depois de ameaçado e irritado por Édipo, o profeta cego Tirésias acaba revelando que Édipo é o autor do crime. Este, furioso, acusa Tirésias de ser um falso vidente e de tramar com Creonte um golpe político. Ao longo da peça, Édipo vai conduzindo sua investigação: ouve Jocasta (que conta que Laio foi morto em uma encruzilhada), fica sabendo pelo mensageiro de Corinto que não era filho de Pólibo e Meréope e, por fim, escuta do velho servo e pastor que a criança entregue ao mensageiro era filho de Laio e Jocasta. A verdade vem à tona. Jocasta, que já havia descoberto tudo desde o testemunho do mensageiro, tenta em vão dissuadir Édipo de continuar a investigação e, sem obter resultado, desespera-se e se enforca. Édipo, encontrando Jocasta morta, arranca os broches de ouro do vestido dela e golpeia seguidamente seus olhos até ficar cego. A história narrada em Édipo Rei termina aqui, mas o ciclo tebano ainda nos mostra o exílio de Édipo e o trágico futuro de seus filhos. 2 BREVE APRESENTAÇÃO DE FOUCAULT E DE SUA LEITURA DA OBRA DE SÓFOCLES

Édipo Rei de Sófocles, como foi visto, já é uma leitura artística e filosófica do mito grego arcaico de Édipo. Na sequência, será feita uma análise da peça de Sófocles a partir das considerações feitas por Michel Foucault em A verdade e as formas jurídicas. Sendo assim, esse texto é uma leitura da leitura da leitura, ou seja, uma leitura de Foucault, que leu Sófocles, que por sua vez leu o mito grego arcaico. Antes de tratar do ponto central (a relação entre saber e poder em Édipo Rei), convém apresentar sucintamente o pensamento de Foucault e sua leitura da peça de Sófocles. Michel Foucault é um filósofo que expõe sempre sua metodologia, seus interesses e suas estratégias de abordagem, o que faz da leitura de seus textos uma boa aula de como conduzir uma investigação, de como pensar um problema. Aliás, creio ser justamente isso que aprendemos com os grandes filósofos. Não vemos respostas, mas
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seguimos um exemplo e somos forçados a pensar por conta própria e a ver com os próprios olhos. É importante, então, apresentar, ainda que em linhas muito gerais, o projeto foucaultiano, que permite situar sua análise da obra Édipo Rei no conjunto de seu pensamento e compreender melhor seu olhar e, por consequência, os resultados obtidos. A interpretação que Foucault faz da peça de Sófocles insere-se claramente em seu projeto filosófico e pretende ilustrar uma certa relação entre poder e saber, típica da Grécia do século V a.C. Foucault pretende desenvolver uma pesquisa histórica sobre como se puderam formar domínios de saber a partir de práticas sociais. O ponto de partida da pesquisa está na tese de que a própria verdade tem uma história, que o saber do homem nasce de práticas sociais. Foucault desenvolve, inspirando-se em Nietzsche, uma história política do conhecimento e do sujeito do conhecimento. Como esclarece Foucault (2003: 23):
Se quisermos realmente conhecer o conhecimento, saber o que ele é, apreendê-lo em sua raiz, em sua fabricação, devemos nos aproximar, não dos filósofos mas dos políticos, devemos compreender quais são as relações de luta e de poder. E é somente nessas relações de luta e de poder (...) que compreendemos em que consiste o conhecimento.

O interesse pelas práticas jurídicas vem dessa aposta, de que elas estão na origem de certas formas de verdade. Para Foucault, o inquérito (enquête), que nasceu no pensamento grego (zêtêma), é uma forma bem característica da verdade em nossas sociedades, sendo utilizada na ordem científica e na reflexão filosófica. É com o objetivo de compreender essa forma de verdade que Foucault analisa a história de Édipo, que é um importante testemunho das práticas judiciárias gregas e, para Foucault (2003: 13), um “episódio bastante curioso da história do saber e ponto de emergência do inquérito”. Essa via de entrada ao texto proposta por Foucault vai descortinar muitas coisas, mas também irá deixar várias na sombra. Foucault lê o texto com um olhar e um interesse bem específicos que, se é verdade que podem limitar a complexidade da obra, por outro lado permitem que se abram novas perspectivas de leituras. Aliás, Foucault
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(2003: 7) alerta que suas conferências foram apresentadas a título de hipótese de trabalho, reconhecendo que elas são “provavelmente inexatas, falsas, errôneas”. Sem retirar o mérito das leituras mais imanentes, fiéis e detalhistas dos especialistas (que aprofundam nosso conhecimento e corrigem possíveis incorreções e exageros em nossas leituras), creio que a leitura mais livre e “interessada” do filósofo (como a de Foucault) tem o poder de ampliar nosso olhar sobre uma obra e permitir novas conexões. Além de seguir alguns insights de Foucault, o presente artigo irá também rechear suas observações com algumas considerações de especialistas em Sófocles e na literatura grega, como Bernard Knox (1979, 2002), Jean Bollack (1995), JeanPierre Vernant (1970, 1979, 1981) e Pierre Vidal-Naquet (1973). 3 ANÁLISE DOS PROCEDIMENTOS JURÍDICOS DE ESTABELECIMENTO DA VERDADE EMPREGADOS POR ÉDIPO

Foucault tem razão ao ressaltar que a tragédia de Édipo é a história de uma pesquisa da verdade. Édipo, para salvar a cidade, precisa, seguindo a indicação do oráculo (em revelação feita a Creonte), descobrir quem matou Laio. Mas, como pergunta Édipo, “onde buscaremos pegadas foscas de um delito antigo?” (Édipo Rei, 108-109). Para Foucault, a pesquisa judiciária empreendida por Édipo nos mostra uma nova forma de estabelecer a verdade, se comparada com o procedimento judiciário grego que encontramos na Ilíada. Foucault analisa a passagem da Ilíada em que Menelau contesta a vitória de Antíloco na corrida de carros, nos jogos que se realizaram na ocasião da morte de Pátroclo. Para estabelecer a verdade e saber se houve ou não irregularidade não se apela a nenhuma testemunha. A maneira de produzir a verdade jurídica baseia-se em uma espécie de jogo, de prova, de desafio, que obriga o adversário a fazer um juramento. Diz Menelau (Ilíada. XXXIII, 580-585): “Antíloco, progênie-de-Zeus, cumpre o costume: diante dos cavalos e da biga, o chicote vibrável à mão, toca os corcéis e jura pelo circuntérreo Treme-terra que não por má fé me abalroaste o carro”. Se o adversário aceita o desafio (como Antíloco, que pede a Menelau para aplacar seu coração e não deseja
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ser ímpio ante os numes), ele se responsabiliza junto aos deuses e pode ser punido por um falso juramento. A maneira como Édipo busca a verdade claramente se distancia dessa prática arcaica da prova da verdade, do juramento ante os deuses, que dispensa testemunha e inquérito. Segundo Foucault (2003: 34), “é por metades que se ajustam e se encaixam que a descoberta da verdade procede em Édipo”. A técnica de se chegar à verdade pela junção de vários pedaços ou metades, que, unidas, revelam o todo, é chamado por Foucault de técnica do símbolo (sýmbolon). Essa forma de saber é também um instrumento de poder, uma técnica jurídica, política e religiosa. O símbolo é aquilo que se relaciona à unidade, que leva ao todo, a metade quebrada de um objeto que serve de signo de reconhecimento. A palavra grega sýmbolon é derivada do verbo sýmballein, que significa juntar, colocar junto, coletar ou ainda comparar. A técnica de Édipo consiste exatamente nisso, em coletar diversos fragmentos, compostos pelos testemunhos humanos, e colocá-los juntos, reconstituindo o todo e descobrindo a verdade. Já Aristóteles, na Poética, havia percebido o papel de destaque que o reconhecimento (anagnórise), definido como “a passagem do ignorar ao conhecer” (1452a30-32), tem na tragédia. Édipo Rei de Sófocles é citado como uma das formas mais belas de reconhecimento ou descoberta, pois ela ocorre juntamente com a peripécia ou revés (peripeteia), que é “a mutação dos sucessos no contrário” (1452a22-33). Ao descobrir ou reconhecer a verdade, saindo da ignorância, Édipo vê também sua situação transformar-se catastroficamente, de rei ele passa a ser um pária exilado, o mais miserável dos homens. Ao analisar os tipos de reconhecimentos (passagens para o conhecer), Aristóteles (Poética, 1455a16-23) observou também que os melhores são aqueles que derivam da própria intriga, de modo natural, sem artifícios e sinais, como no caso de Édipo Rei de Sófocles. Talvez possamos, aproximando Aristóteles de Foucault, dizer que esse encadeamento natural da intriga que leva ao reconhecimento, ao conhecimento da verdade, pode ser descrito como um jogo de encaixes, em que uma metade leva a outra até chegarmos ao reconhecimento final, quando tudo fica claro. Mas como essa técnica da junção dos pedaços para se conhecer a verdade do todo se dá na peça de Sófocles? Sabe-se, desde o início, pois o oráculo revelou a Creonte, que o mal que atinge Tebas
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deve-se a um assassinato. Mas quem matou quem? O oráculo revela a primeira metade da questão: Laio foi morto. Mas e o assassino? Chama-se Tirésias, o divino adivinho, e, apesar de resistir, ele termina por revelar a verdade: Édipo matou Laio. Nesse momento da peça, toda a verdade já está revelada. Mas a revelação não basta. Como ressalta Foucault, temos uma verdade na forma prescritiva, oracular, pelo “olhar mágico-religioso”. Ela não satisfaz o espírito investigador de Édipo. Sobre esse ponto, cito Knox (2002: 14):
A obstinação por conhecimento e clareza totais é característica de sua inteligência. Édipo exige uma fundamentação racional para a sua existência: não admite mistérios, meias-verdades, meias-medidas. Jamais se contentará com menos que a verdade plena (...). Mesmo no momento mais terrível de sua vida, ele deve ter em suas mãos a história completa, sem nenhum traço de obscuridade. Deve complementar o processo investigativo, remover até a última ambigüidade. Sua compreensão do que lhe ocorreu deve ser uma estrutura racional plena.

Édipo quer ver com os próprios olhos. Duvida-se da presciência divina. O instrumento da investigação de Édipo é a inteligência humana (gnômê), que é uma função da mente (nous). Essa inteligência ativa é entendida em contraposição à percepção inspirada e não científica do profeta. Apenas com o testemunho do mensageiro de Corinto, de Jocasta e do servo é que o ciclo se fecha e Édipo chega, por sua própria inteligência, à verdade. É o olhar humano que garante a verdade. Um olhar que, diferentemente do “grande olhar eterno”, não vê tudo. O olhar do testemunho vê apenas um fragmento, uma parte, e cabe ao investigador juntar os pedaços e reconstituir o todo. Como diz Édipo, “o um será matriz do múltiplo” (Édipo Rei, 120). Em Édipo Rei, assistimos a um deslocamento que nos leva do discurso profético, da presciência divina, ao discurso da ciência humana, empírico. Os dois chegam à verdade, mas de maneira completamente diferente. Segundo Foucault (2003: 40): “eles dizem a mesma coisa, eles vêem a mesma coisa, mas não na mesma linguagem nem com os mesmos olhos”. Tanto a revelação divina quanto o saber obtido pelo esforço da inteligência humana chegam à verdade. Tanto o oráculo e Tirésias quanto Édipo chegam à verdade: o parricídio e
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o incesto. Mas a profecia vê pelo olhar divino, que tudo vê, e a inteligência de Édipo vê pelo olhar humano do testemunho, que vê um fragmento. Além disso, o primeiro usa de uma linguagem prescritiva e enigmática, enquanto o segundo fala claramente e no presente. Édipo Rei leva ao palco um pouco da revolução vivenciada pela Grécia do século V a.C.. Na época de Sófocles, inicia-se o período humanista da filosofia antiga, o iluminismo grego, que concilia uma difusão de novos conhecimentos e experiências com uma crise dos antigos valores tradicionais. Sófocles trata das novas formas racionais da prova e da demonstração, vindas da filosofia e da ciência, e do desenvolvimento de um novo tipo de conhecimento, por testemunho e inquérito, típico da nova história, de Heródoto e Tucídides, e também do direito e da medicina. Podemos rechear essas considerações feitas por Foucault com o estudo filológico realizado por Knox (2002: 95-113), que ressalta como a linguagem usada por Sófocles em Édipo Rei associa a figura do herói ao progresso triunfante do homem vivenciado nessa época. Em suas falas, Édipo emprega continuamente palavras que caracterizam o espírito científico e sua dedicação à verdade. A palavra zêtein (procurar, investigar) é frequente na peça, tanto no sentido científico quanto jurídico, como a investigação (zêtêma) de um crime. Bernard Knox ressalta que a palavra zêtêma não foi usada em grego antes do século V a.C., fazendo parte da terminologia da discussão científica e filosófica, sendo comum, por exemplo, em Platão. Édipo encarna o espírito crítico: ele contempla e examina (skopein), questiona e inquire (historein), infere ou julga a partir de evidências (tekmairesthai). Ainda seguindo as análises de Bernard Knox, podemos perceber as associações dessas palavras com a nova ciência grega. Skopein (contemplar, examinar) descreve um escrutínio calculador e crítico, sendo um dos termos favoritos de Tucídides em sua visão histórico-científica. Historein (fazer perguntas) é uma palavra associada ao espírito investigativo jônico e sobretudo à historiai de Heródoto, que marca o início do que conhecemos por história (aliás, Heródoto foi contemporâneo e amigo de Sófocles). Édipo, em sua obsessão por conhecer o passado (quem matou Laio e, depois, qual a sua origem), faz várias perguntas e age efetivamente como um historiador. E a palavra tekmairesthai (formar um juízo a partir de evidências) resume o novo
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espírito científico e é um termo largamente utilizado pela nova ciência, sendo o vocábulo usado pelos escritores hipocráticos para descrever o prognóstico, o processo de inferir o futuro curso da doença a partir dos sintomas atuais. Alcméon de Cróton, famoso médico grego, dizia que “os deuses têm certeza, para o homem existe a inferência”. Reforçando a relação com a medicina, percebemos que Édipo inicia sua investigação na busca de um remédio para o flagelo que aflige a cidade. Édipo é o homem que, fazendo uso de sua inteligência, descobre, encontra, revela, esclarece a verdade. A palavra usada para encontrar, heurein, é também associada à descoberta científica (quem não se lembra do grito de Arquimedes: eurêka!), sendo usada por Tucídides para descrever o resultado do método histórico: a descoberta do passado. Enfim, Édipo é o historiador, o médico e o matemático, o investigador incansável, encarnando plenamente os novos avanços da ciência de seu tempo. Ele, como um historiador, descobre o passado, como um médico, identifica a doença, como um matemático, resolve uma equação, e como jurista ele leva adiante uma investigação criminal e encontra e condena o criminoso. Para Foucault, o direito participa dessa revolução, impondo uma nova forma de descoberta judiciária da verdade, servindo inclusive de matriz ou modelo para os saberes filosóficos, retóricos e empíricos. A idéia de uma revolução no saber, contudo, não deve ser vista como um simples progresso da racionalidade. É preciso manter a dimensão política que a palavra “revolução” traz. O inquérito é antes de tudo uma forma de o poder se exercer e não, como se crê ingenuamente, o resultado natural de uma razão que atua sobre si mesma. Para Foucault (2003: 72-73), “não foi racionalizando os procedimentos judiciários que se chegou ao procedimento do inquérito. Foi toda uma transformação política, uma nova estrutura política que tornou não só possível, mas necessária a utilização desse procedimento no domínio judiciário”. 4 ANÁLISE DA RELAÇÃO ENTRE O SABER E O PODER POLÍTICO NA PEÇA ÉDIPO REI

Édipo é o homem do poder e do saber. Foucault ressalta que o tema do poder atravessa toda a peça. Édipo quer sempre manter
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a realeza, que conquistou ao desvendar o enigma da Esfinge. Assim como ascendeu ao poder por sua inteligência, ele pretende valer-se dela para permanecer no governo. O interesse por salvar a cidade da peste justifica-se como uma estratégia para manter o poder. Essa preocupação política de Édipo fica bastante evidente na discussão que tem com Tirésias, quando duvida da revelação do adivinho e o acusa de tramar juntamente com Creonte a sua queda. Segundo Vidal-Naquet (1973: 282): “Diante de Creonte, de volta de Delfos, Édipo raciocina como técnico da coisa política. Pensa descobrir entre o adivinho e seu cunhado um complô destinado a expulsá-lo do poder. Pois, para Édipo, saber e poder caminham lado a lado”. Édipo transforma tudo em política, vê apenas relações de poder e, como observa Foucault (2003: 42), talvez com um certo exagero: “ele não se assusta com a idéia de que poderia ter matado o pai ou o rei. O que o assusta é perder o próprio poder”. Um elemento que sempre provocou grande discussão na peça de Sófocles diz respeito ao termo que aparece no título da obra: týrannos. É difícil traduzir essa palavra, pois ela não significa exatamente rei, ou basileu (basileus), que recebe o poder legitimamente, mas também não é propriamente tirano, pelo menos não no sentido pejorativo que a esse termo se agregou. Édipo é descrito como um bom rei, com traços democráticos, que ouve o povo e se dirige a ele diretamente. Ele não mantém seu poder pelo terror. Ao invés de temido, ele é amado. Édipo se mostra preocupado com o bem da cidade, disposto a ir até o fim na descoberta da verdade, que viria livrar a cidade da peste que a assola, ainda que isso venha a lhe custar muito caro. Esses traços, é claro, afastam Édipo de um sentido simplesmente pejorativo do tirano. Contudo, ainda assim, Édipo pode ser tido como um tirano, pois encontramos também nele vários elementos característicos dessa figura política comum no mundo grego dos séculos VI e V a.C.. Édipo encarna o típico herói lendário épico, que perdeu sua cidadania e sua pátria e, depois de muito penar, reencontra a glória. Édipo abandona Corinto, que acreditava ser sua pátria, na fuga mata Laio, o rei, e, chegando a Tebas, desvenda o enigma da Esfinge, livrando a cidade desse mal e tornando-se rei e herói. Édipo não é, pelo que se sabia no início da peça, o herdeiro do trono de Tebas, mas um estrangeiro que, mesmo sem origem real, chega ao poder. Essa é uma importante característica do
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tirano, que o difere do rei: o tirano não chega ao trono por uma sucessão legítima, mas por um ato de inteligência. Mesmo amado pela cidade, isso não permite a Édipo ser chamado de rei (basileus). A tendência moderna de opor a tirania à democracia nos leva em uma falsa direção, não condizente com o pensamento grego. Era possível, portanto, ser democrático e tirano ao mesmo tempo na Grécia Antiga. A democracia ateniense era, fora da cidade e mesmo dentro dela, vista como uma tirania, pois aqueles que exerciam o poder não o tinham herdado legitimamente. Sófocles, em Édipo Rei, levou aos palcos uma reflexão sobre a tirania e os limites da experiência democrática ateniense, que colidiam com as crenças religiosas da época e com o antigo discurso de justificação do poder, provocando temores e dúvidas próprios a uma sociedade tradicional. A Tebas de Édipo Rei corresponde à Atenas da época de Sófocles. Outro traço comum ao tirano é o uso da violência para chegar ao poder. Poderíamos pensar que esse traço não está presente em Édipo, pois ele chegou ao poder como um herói, após livrar a cidade da Esfinge. Contudo, como ressalta Bernard Knox (1979: 90), Édipo chega a Tebas “com sangue nas mãos”, pois acabou de matar, sem saber, Laio, o rei. Assim, como é comum ao tirano, Édipo mata o rei e toma o seu trono e a sua mulher. Sem saber, a violência é o seu instrumento de acesso ao poder. Também Bollack (1995: 224) ressalta que, mesmo sem saber, Édipo também comete a desmesura (hybris), confirmando a máxima de que “a violência ou a desmesura engendra o tirano”. Além disso, Édipo recorre à violência e à ameaça ao longo da peça sempre que alguém resiste às suas ordens e, sobretudo, sempre que alguém pretende dificultar a descoberta da verdade, como fizeram Tirésias e o servo, recusando-se a revelar ou testemunhar o que sabiam. Como também observa Bignotto (1998: 80): “tirano pela forma como chegara ao poder, ele irá revelar sua face violenta e cruel à medida que seu poder é ameaçado, mas, sobretudo, a partir do momento em que seu poder de cálculo é posto à prova pelo novo enigma que deve decifrar”. Aliás, Édipo é obcecado pela verdade e leva sua investigação até o final, afirmando sua vontade de saber contra tudo e contra todos, ignorando uma série de tentativas por parte dos outros (Tirésias, v. 320-321, Jocasta, v. 848 e 1060, e pelo servo, v. 1165) de interromper a investigação. Édipo é o tirano
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que segue sua vontade de saber, por cima de todos e, paradoxalmente, levando-o à sua própria destruição. Foucault compara o que ocorre com Édipo na peça com algumas figuras históricas de tiranos da antiguidade grega. Assim como Édipo, que reergueu a cidade, também Sólon se vangloriava de ter reerguido Atenas no fim do século VI por meio de leis justas. Da mesma forma, Cípselo em Corinto teria tido esse papel, por meio de uma distribuição econômica justa. Além desses traços positivos, Édipo também comunga dos traços negativos dos tiranos. Creonte chega a acusar Édipo de crer que a cidade é só dele. Aqui temos um traço comum aos tiranos: eles se crêem donos da cidade. Heródoto dizia sobre Cípselo de Corinto que ele julgava possuir a cidade. Édipo também desconhece as leis e despreza a justiça, substituindo-as por suas vontades e ordens. Além disso, o tirano é aquele que chega ao poder e vê-se sempre ameaçado de perdê-lo. Enfim, Foucault (2003: 46) não hesita em afirmar: “é preciso, portanto, reconhecer em Édipo um personagem historicamente bem definido, assinalado, catalogado, caracterizado pelo pensamento grego do século V: o tirano”. Relacionando essa questão do poder com o saber, Foucault é bastante claro ao dizer que o tirano caracteriza-se não apenas pelo poder, mas também por um certo tipo de saber. O tirano tomava o poder porque detinha um certo saber superior, mais eficaz. Édipo é aquele que desvendou, por sua própria inteligência, o enigma da Esfinge (cf. Édipo Rei, 396-398). Ele é capaz, apenas por meio da inteligência, de derrotar os profissionais em seu próprio jogo. Jogando com as palavras, Édipo (Oidípous) é aquele que possui o saber (oida). Segundo Knox (2002: 41):
Édipo representa tudo que é inteligente, vigoroso, corajoso e criativo no ser humano. Em sua perseguição implacável da verdade, demonstra sua grandeza autêntica: todos os poderes do intelecto e da energia que fazem dele um herói são exibidos em seu progresso solitário e obstinado rumo ao conhecimento.

O saber de Édipo é o saber científico, solitário, que vê com os próprios olhos, o saber autocrático do tirano, auto-confiante, que se crê capaz de pilotar a cidade. Ele desafia o poder de Tirésias e, mesmo
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ameaçado, mantém a confiança em seu próprio poder e saber. Édipo representa exatamente o “saber-e-poder, poder-e-saber”. Por trás de Édipo, o tirano que sabe, podemos, segundo a sugestão de Foucault, ver o sofista, o profissional do poder político e do saber, o homem da techné. Assim como os cientistas e filósofos da época, também Édipo é chamado de “libertador” e “salvador”. O tirano, sofista, é o homem que domina tanto pelo poder quanto pelo saber que possuía. Aliás, poder e saber se identificam no pensamento sofístico. A retórica une claramente essas duas habilidades, pois a forma de se chegar à verdade é igual a de se chegar ao poder: é argumentando, oferecendo razões e persuadindo o auditório. Quem domina essa arte, de convencer os outros, tem poder, pois usa essa mesma técnica para vencer nos tribunais e nas assembléias políticas. Como revela a máxima de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, o único critério do verdadeiro e do falso. O sábio, na perspectiva sofística, é aquele que conhece o relativo mais útil, mais conveniente e mais oportuno, sabendo convencer os outros e por em prática sua opinião. Como deixa claro Foucault (2003: 49): “saber e poder eram exatamente correspondentes, correlativos, superpostos. Não podia haver saber sem poder. E não podia haver poder político sem a detenção de um certo saber especial”. Essa unidade entre saber e poder caracterizou os tiranos gregos e também os sofistas. É justamente essa união que se desmantela na época de Sófocles, o século V a.C.. Após Platão, a verdade obtida empiricamente, pelo testemunho da visão humana, não passa de uma opinião (doxa) presa ao plano sensível, um saber apenas das sombras e das aparências. Esse saber propriamente humano, típico dos sofistas, é desvalorizado em favor de um saber de nível superior, dialético, filosófico, que ascende ao plano inteligível e contempla a idéia pura, a verdade sem a mancha do jogo de poder, sem a contaminação da retórica e da mera opinião humana. De um lado, temos o filósofo e o adivinho, em contato com as verdades eternas, e de outro o povo, a mera opinião. No Banquete, por exemplo, tanto Agatão como Aristófanes (ambos dramaturgos) devem se inclinar diante de Sócrates, o filósofo. Talvez não seja por acaso que Platão, na República (VII, 536d), distinga as almas bem-nascidas (feitas para a filosofia) daquelas que são “estropiadas e coxas”, relacionando o coxear intelectual a
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uma bastardia da alma (talvez Édipo represente esse coxo, tanto fisicamente quanto intelectualmente, esse sofista e tirano típico do século V a.C.). Mesmo sem adotar a postura de Platão em defesa da filosofia e do verdadeiro conhecimento (episteme), Sófocles parece condenar a sofística em sua peça e defender uma visão religiosa, tomando uma posição no debate de sua época acerca da verdade das profecias (a validade da profecia já não era mais assumida como verdadeira na Atenas de Péricles). Os ataques ferozes contra os profetas vinham de todas as direções: filósofos (Protágoras), historiadores (Tucídides) e poetas (Eurípides). Além disso, a Atenas da época era repleta de profetas profissionais degenerados, que pensavam apenas no dinheiro, em como adequar a predição aos desejos dos clientes e estavam sempre envolvidos em intrigas políticas, o que torna ainda mais compreensível a furiosa reação de Édipo contra Tirésias na peça de Sófocles. Indo além, Édipo Rei não debate apenas a verdade ou falsidade da profecia, mas coloca em questão toda uma concepção religiosa tradicional, como fica claro na fala do coro, referindo-se ao desprezo de Édipo e Jocasta pela profecia oracular: “A voz-do-deus rejeitam: não se perfaz o oráculo de Laio. Já não reluzem glórias apolíneas. O divino declina” (Édipo Rei, 906-910). Sófocles rejeita os novos conceitos dos filósofos e sofistas e, na peça, Édipo usa de toda a sua inteligência para, ao final, simplesmente descobrir que a profecia estava sendo cumprida o tempo todo. Sua descoberta racional e científica apenas ratifica a presciência divina. Concluindo, é importante acentuar que Foucault não assume nem a postura de Sófocles (de defesa da religião tradicional), nem a de Platão (de defesa do saber filosófico desinteressado, que se separa da opinião e da política para habitar em um plano mais elevado). Para Foucault (2003: 51):
O Ocidente vai ser dominado pelo grande mito de que a verdade nunca pertence ao jogo político, de que o poder político é cego, de que o verdadeiro saber é o que se possui quando se está em contato com os deuses ou nos recordamos das coisas, quando olhamos o grande sol eterno ou abrimos os olhos para o que se passou. Com Platão se inicia o grande mito ocidental: o de que há antinomia
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entre saber e poder. Se há o saber, é preciso que ele renuncie ao poder. Onde se encontra saber e ciência em sua verdade pura, não pode mais haver poder político.

É justamente esse mito que Foucault, seguindo as pegadas de Nietzsche, pretende demolir, afirmando que todo saber é também um poder, e vice-versa. Em Édipo Rei, Édipo encarna exatamente o personagem do tirano, do sofista, daquele que sabe e, por isso, tem poder. Ou ainda daquele que tem poder, e seu poder é uma forma de saber. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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