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Memórias e brincadeiras na cidade de São Paulo no início do século XX

Memórias e brincadeiras na cidade de São Paulo no início do século XX

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na Cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX

BIBLIOTECA D A EDUCAÇAO Série 1 - ESCOLA
Volume 7

Dados de CatalogaMo na Publicaflo (CIP) Internacional (Cgmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Silva, Maria Alice Setúbal Souza e. Memória e brincadeiras na cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século X X / Maria Alice Setúbal Souza e Silva, Maria São Paulo : Alice Lima Garcia, Sônia Campaner Miguel Ferrari. Cortez : CENPEC, 1989. - (Biblioteca da educação. Série 1 . Escola; v. 7) Bibliografia. ISBN 85-249-0206-X

-

1 . Brinquedos - Aspectos psicológicos 2. Brinquedos - Brasil - São Paulo (SP) 3. Família - Brasil - São Paulo (SP) - Aspectos . Recreação - Brasil - São Paulo (SP) I. Garcia, Maria sociais 4
Alice Lima. 11. Ferrari, Sônia Campaner Miguel. 111. Título.

89-1347
fndkbs para catálogo sistemático:

CDD-649.550981611 -306.850981611 -394.30981611 -649.55019

1. Brinquedos : Aspectos psicológicos 649.55019 2 . São Paulo : Cidade : Brincadeiras e brinquedos : Educação doméstica 649.550981611 3 . São Paulo : Cidade : Brincadeiras e brinquedos : Costumes sociais 394.30981611 4. São Paulo : Cidade : Brinquedos : Costumes sociais 394.3091611 5. São Paulo : Cidade : Família : Aspectos sociais : Sociologia 306.850981611

Maria Alice Setúbal Souza e Silva Maria Alice Lima Garcia Sônia Campaner Miguel Ferrari

MEMORIA E BRINCADEIRAS
na cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX

CENPEC

MEM6RIA E BRINCADEIRAS N A CIDADE DE SAO PAULO NAS PRIMEIRAS DgCADAS DO SfiCULO XX Maria Alice Setúbal Souza e Silva, Maria Alice Lima Garcia, Sônia Campaner Miguel Ferrari

Capa: Edição de arte: Maria Regina Da Silva (criação concebida sobre détalhe Jogos Infantis, de Pieter Bruegel, 1560). Coordenação editorial: Ana Cândida Costa Revisão: Ana Maria Lébeis, Josephine S. Hernandez Supervisão editorial: Antonio de Paulo Silva Reprodução das fotos do miolo: Ronaldo Fábio de Sousa, sobre Jouets, une sélection du musée de Sonneberg Musée des Arts Décoratifs Palais du Louvre -'Pavillon de Marsan Exposição - outubro 1973 - janeiro 1974 Eletropaulo (1908) e MZS - Museu da Imagem e do Som (1916; 1922; 1932)

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa das autoras e do editor.
O 1989 by Autoras Direitos para esta edição CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel.: (011) 864-0111 05009 - São Paulo - SP Impresso no Brasil - 1989

SUMARIO

Introdução, 9

I

-A

importância do brincar

1. O brincar e as brincadeiras, 13 2. Breve histórico do papel da criança, das brincadeiras e dos brinquedos nas diferentes estruturas familiares, 16 2.1 A criança e a estrutura familiar aristocrática, 16 2.2 A criança e a estrutura familiar camponesa, 18 2.3 A criança e a estrutura familiar burguesa, 20 2.4 A criança e a estrutura familiar operária, 23 3. O brinquedo e suas transformações, 25

1 1 - Notas para uma justificativa metodológica

1. As fontes, 31 2. Por que trabalhar com relatos, 32 2.1 Memória e experiência, 34 2.2 Significado da perda, 38 3. Por que contextualizar os relatos, 43

I

I11

- Lembranças da

infância

I

1. Introdução, 45 1.1 Os atores: perfil dos entrevistados, 45 1.2 A cena: São Paulo na primeira metade do século XX, 52 a) A rotina de vida da cidade: 190011940, 53 b) A mudança da cidade a partir da década de 40, 68 1.3 O grupo de brincadeiras, 73 1.4 Procedimento na coleta e análise dos dados, 79 2. Os relatos, 81 A cidade, o bairro, a rua. A rotina de vida na infância. Festas e comemorações. A vizinhança e os gnipos de brincadeiras. O folclore nas brincadeiras. Participação e criatividade na construção de brinquedos. A tradição da narrativa oral. Sobre o significado da infância. Percepção sobre a infância de uma geração posterior. Considerações finais, 122 Bibliografia, 127

A análise do brincar, ou mais especificamente de grupos de brincadeiras, tem sido explorada sob vários aspectos em estudos feitos nas diferentes áreas do conhecimento. Na psicologia temos o enfoque do jogo como elemento fundamental nas construções da personalidade e cognição da criança. Na educação o jogo aparece como suporte pedagógico. No folclore as pesquisas se referem a coletas de dados do que hoje é chamado "cultura espontânea". Nosso estudo tem como objeto de análise as brincadeirás de crianças na cidade de São Paulo durante a primeira metade do século XX. Pretendemos não apenas descrever os fatos, mas, a partir de dados históricos e relatos, levantar questões pertinentes e significativas para a compreensão do momento presente, resgatando o sentido do brincar e das brincadeiras. O trabalho está dividido em três capítulos: iniciamos com uma discussão acerca do significado do brincar e do

grupo de brincadeiras na construção da identidade da criança e sua importância na relação que ela estabelece com o mundo. Colocamos a seguir um pequeno histórico do papel da criança e do brincar a partir do século XVII com o intuito de mostrarmos o brincar como parte da história dos indivíduos nas diferentes épocas e contextos sociais. No segundo capítulo justificamos os procedimentos adotados. Partimos da idéia de que o passado da cidade assim como de seus moradores nos traria elementos para a compreensão do brincar e suas transformações. A memória é, então, o "meio" que vamos usar "para explorar o -de um trabalho de passado" (Benjamin, 239, v. 2). Através entrevistas com pessoas que viveram sua infância na pri---- meira metade do século XX em São Paulo, procuramos construir um panorama da vida da cidade na época e, dentro dele, o brincar. Através do trabalho de rememoração 6stabelecemos uma relação pessoal com um passado que é comum e, por isso, fonte para formação de identidade. Memória e identidade representam, dessa forma, um papel essencial a medida que podem iluminar e levantar questões para se refletir sobre o brincar ao longo da história. É ainda nesse capítulo que apontamos outra vertente de nossa pesquisa: a contextualização dos depoimentos coletados através da história da cidade, ou seja, quais eram as condições que São Paulo oferecia para a formação dos grupos de brincadeiras. E no terceiro capítulo discutimos os relatos por nós coletados. O objetivo aqui é compreender o significado do brincar no passado, na cidade de São Paulo, a partir de narrativas contadas por personagens reais; qual sua relação com o brincar e com as brincadeiras, qual a importância dessa atividade na vida das crianças e que condições havia que possibilitavam o brincar nas características encontradas. Para uma melhor interpretação dessas

narrativas, procurando fazer do leitor um verdadeiro ouvinte, delineamos aqui o caminho de nossa análise: 1) apresentação dos entrevistados através de um breve perfil de sua trajetória de vida; 2) descrição da cena onde se deu o que foi relatado: características da cidade de São Paulo e suas transformações até meados do século XX; 3) discussão sobre o grupo de brincadeiras como suporte para formação de relações sociais e da preservação das tradições culturais; 4) análise dos depoimentos coletados. Na elaboração do trabalho, os dados históricos foram, sem dúvida, importantes. No entanto, os relatos pessoais contribuíram sobremaneira para ilustrar com força e riqueza os fatos levantados, adicionando um pouco de Em - especial, os relatos nos poesia ao estudo realizado. dizem respeito porque: 1) embora individuais, nos trazem a vivência de cada pessoa com o coletivo e, portanto, as relações estabelecidas com o contexto social em que se . encontravam; 2) nos possibilitaram levantar questões importantes sobre o brincar numa cidade como São Paulo, onde há dificuldades e limitações de espaço e tempo para o estabelecimento e formação de grupos de brincadeiras. Gostaríamos de agradecer, inicialmente, àqueles que tornaram possível a realização deste trabalho: os entrevistados - seus depoimentos descontraidos e autênticos, ricos em lembranças e acontecimentos, transportaram, através do tempo, um passado esquecido tomando-o parte de nosso presente. Agradecemos também a toda a equipe do Cenpec Centro de Pesquisas para Educação e Cultura - pela leitura e primeiras discussões do projeto e, em especial, à Cláudia Davis e Yara Lúcia Esposito pela clareza de suas colocações e o rigor de suas análises. Assumimos, no entanto, toda a responsabilidade pelo resultado final

do trabalho. A Beatriz Almeida Bessa agradecemos a realização de entrevistas com o Sr. Fausto. Por fim, agradecemos o apoio financeiro do grupo Vicunha ao Cenpec, viabilizando essa pesquisa. São Paulo, 1989

As Autoras

I A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR

1. O brincar e as brincadeiras A compreensão do brincar e das brincadeiras nos remete à discussão de diversos aspectos dessa questão. Winnicott (1975:59-93) coloca o brincar como uma área intermediária de experimentação para a qual contribuem a realidade interna e externa. Nesse sentido, a criança pode relacionar questões internas com a realidade externa e é capaz de participar de seu contexto e perceber-se como um "ser" no mundo. Sendo assim, o brincar é fonte de crescimento, saúde e conduz aos relacionamentos grupais. A busca da vida em grupo se faz necessária a medida que a vivência do coletivo promove a relação entre o que é pessoal (interior) e o que é do grupo (realidade objetiva). Ao realizar essa experiência o indivíduo pode deixar fruir sua criatividade e utilizar sua personalidade integral. O brincar é, portanto, uma das possibilidades que o indivíduo tem de postular o seu "eu" em relação ao contexto.

Junto a esse processo de construção da personalidade acontece a formação da identidade, pois, ao mesmo tempo em que o indivíduo postula seu "eu" em relação a um contexto, identifica-se com este, afirmando-o ou negando-o. Segundo Ulpiano Bezerra de Meneses, "a identidade, quer pessoal, quer social, é sempre socialmente atribuída, mantida e transformada. Nenhum indivíduo existe por representação própria; o processo de identificação é um processo de construção de imagem, onde o suporte fundamental é a memória, através da qual se obtêm informações, conhecimentos, experiência e, por isso mesmo, a possibilidade de dar lógica, sentido e inteligibilidade aos vários aspectos da realidade" (1987:183). Podemos identificar a memória no brincar em dois momentos: primeiro, nas brincadeiras tradicionais, momento em que a criança se insere na memória coletiva; segundo, na história de vida da própria criança, que recorre às suas experiências no momento de brincar. Ao relacionar-se com conteúdos do passado e do presente, através de sua participação no grupo de brincadeira, pode dar sentido ao seu mundo e ao seu existir neste mundo. No grupo de brincadeira a criança entra em contato com experiências passadas através das brincadeiras tradicionais que fazem parte da história da humanidade, trazendo elementos do passado para seu presente e, a partir da vivência deste passado relacionado aos conteúdos do seu presente, encontra-se em condições de projetar seu futuro. Neste processo a criança, enquanto indivíduo, tem a possibilidade de "transformar o desconhecido em conhecido, o inexplicável em explicável e reforçar ou alterar o mundo" (Heller, 1985:65-6). Pode levantar questões, discutir, inventar, criar, transformar. Revelam-se, nesse brincar, o teórico e o historiador que A. Heller coloca como características de todo ser humano. Teórico, quando a criança coloca suas questões em relação à realidade compartilhada e tenta resolvê-las e conceituá-Ias; historiador

no sentido de que, como ser que participa e vive seu presente, pode relacionar o passado com o presente e projetar o futuro; faz sua história e continua a história da humanidade (1985:70-1). A repetição insere-se também na essência do significado do brincar. Segundo A. Heller (1985:55-9) tanto a criança como o adulto gostam de contar ou escutar histórias repetidas, mas esse repetir não se refere a qualquer história. Fazemos uma seleção e sempre voltamos a recontar ou ouvir novamente histórias que estão relacionadas com nosso presente. O que é importante está relacionado com o que é contemporâneo. Se o narrador e/ou ouvinte estão envolvidos com a questão "o que existe, por que existe, como existe?" e se a história proporciona um relato corrente dos tempos passados significativos para o presente, então o sujeito se volta para o passado, e esta relação efetuada a partir do que é vivenciado no atual - contemporâneo - lhe revela uma importante mensagem que tem significado no presente. A repetição é uma lei fundamental na brincadeira; a criança quer não só ouvir as mesmas histórias como também repetir as mesmas experiências e isso lhe dá um grande prazer. Essa satisfação está relacionada com a busca da primeira experiência, que pode ser o primeiro terror ou a primeira alegria. Assim, a repetição não só é um caminho para tornar-se senhor de "terríveis experiências" como também de "saborear sempre com renovada intensidade os triunfos e vitórias" (Benjamin, 1984:74-5). Refletindo sobre as colocações de A. Heller e W. Benjamin podemos dizer que: se o fazer novamente possibilita que o indivíduo se torne senhor de suas experiências, isso só ocorre quando o refazer tem um significado no presente; desta forma, a criança seleciona brincadeiras e histórias a serem repetidas, relacionadas com seu contexto atual, e ao retomá-las ela as ressignifica no seu presente. Neste sentido o brincar não pode ser considerado

apenas como uma imitação da vida do adulto, pois, em cada fazer novamente, a criança pode encontrar o significado da sua experiência relacionada com seu contexto e colocar-se como um agente de sua história, que aceita uma realidade ou a transforma. -Um breve panorama histórico mostrando as transformações do papel da criança e do brincar na sociedade nos permite perceber que, apesar das diferenças nas formas d a s brincadeiras ou na confecção dos brinquedos, o brincar sempre foi uma maneira de o homem se relacionar com o coletivo.

2. Breve histórico do papel da criança, das brincadeiras e dos brinquedos nas diferentes estruturas familiares
Partindo da Idade Média, vamos observar que os jogos, brinquedos e as brincadeiras eram comuns a toda sociedade (independentemente de idade ou classe social), formando um dos principais meios de que dispunha uma sociedade para estreitar seus laços coletivos e para se sentir unida. Isso se aplicava a quase todos os jogos e brincadeiras e era mais evidente nas grandes festas sazonais e tradicionais onde crianças, jovens e adultos participavam de modo igual, desempenhando papéis que lhes reservava a tradição. Estamos nos referindo à sociedade européia, e para que fique clara a força da coletividade colocaremos em linhas gerais as estruturas dos diferentes tipos de famílias predominantes a partir da Idade Média.
2.1 A criança e a estrutura familiar aristocrática A aristocracia dava pouco valor à privacidade, à domesticidade e aos cuidados maternos, sendo a vida da criança desenvolvida diante de uma vasta gama de figuras de adultos.

Nas casas aristocratas circulavam várias pessoas como parentes, criados e clientes. As relações estavam marcadas por papéis segundo uma hierarquia fixada pela tradição. "O'castelo era um lugar público e político, símbolo do poder do senhor sobre o campesinato" ost ter, 1979:197), autônomo em seu domínio, limitado apenas pelo poder do Estado centralizado. A terra era a principal propriedade, considerada um patrimônio da família; a riqueza era para ser herdada e transmitida, e não ganha ou acumulada. Nesta estrutura familiar o casamento era considerado um ato político através do qual se preservava a linhagem da família, estando pouco relacionado com o amor ou sexo. Um outro costume que vigorava desde o fim da Idade Média até o século XVII era o benefício ligado ao primogênito ou ao filho escolhido pelos pais como único herdeiro, meio de salvaguardar o patrimônio e sua integridade. "O cotidiano era uma roda-viva de trocas públicas, cujo centro era o status da casa e não a unidade conjugal" (Poster, 1979:197). A função do homem nobre consistia em servir o Rei em tempos de guerra e manter a ordem em seus domínios. O papel da mulher não era menos importante, gerando filhos e organizando a vida social. As crianças não eram o centro das relações familiares e muitas delas, de ambos os sexos, eram enviadas a outras casas nobres para serem criadas. O treinamento de hábitos higiênicos era mínimo, devido aos padrões sanitários da época serem baixos, e a sexualidade infantil era publicamente reconhecida. A educação da criança consistia em ensiná-la a obedecer as regras e tradições, que levavam ao estabelecimento da hierarquia, e uma maneira utilizada para que respeitasse as normas, quando transgredidas, e cultivasse a humildade era o castigo corporal, como chicotadas.

Os brinquedos eram os mesmos tanto para meninos como para meninas: cavalo-de-pau, cata-vento, pião, peteca, boneca, arco, miniaturas, bola.. . As brincadeiras eram comuns aos adultos e crianças, que muitas vezes misturavam-se para realizá-las no dia-a-dia ou em comemorações e festividades. Encontraremos entre os jogos mais realizados as mímicas, rimas, cabra-cega, escondeesconde, os chamados jogos de salão e cartas, dados, gamão, cara ou coroa, jogos de azar. Também o teatro, a música, a dança e a literatura eram comuns ao universo do adulto e da criança. Todas essas atividades aparecem como divertimentos que levam o indivíduo a participar na comunidade e estabelecer relações sociais, bem como seu papel e lugar dentro do grupo ao qual pertence. "A criança nobre, portanto, estava inserida num mundo público e complexo em que a lição básica dizia respeito ao conhecimento do lugar de cada um" (Poster, 1979:201).

2.2 A criança e a estrutura familiar camponesa No campesinato europeu havia grandes disparidades econômicas, pois estavam incluídos nessa classe meeiros, trabalhadores diaristas e agricultores independentes. Os indivíduos viviam numa relação estreita com outros aldeões e parentes que moravam nas proximidades, o que firmava e preservava os laços de dependência com o coletivo. Este era importante para a sobrevivência, já que esta não era possível ser mantida apenas no âmbito familiar. Cada indivíduo fazia parte de um grande círculo de relações sociais, onde a aldeia exercia funções da família e possuía toda força de autoridade. A vida da comunidade era regulada pelos costumes e tradições cultivados na própria aldeia, e tudo que ocorria a cada um passava pelo conhecimento do coletivo, não existindo nenhuma
1. O estudo da estrutura familiar do campesinato foi feito com indivfduos que residiam em aldeias. Ver Poster (1979: 202).

privacidade. "As mulheres eram subordinadas, mas dispunham de considerável poder, pois seu trabalho era vital para a sobrevivência da família e da comunidade. Trabalhavam arduamente por longas horas - cozinhavam, cuidavam dos filhos, dos animais domésticos, da horta, e juntavam-se a toda a aldeia em épocas que era necessário o trabalho de todos, como a colheita" (Poster, 1979:204). Também tinham como função regular os casamentos, fiscalizar os namoros em reuniões realizadas a noite e transmitir os conhecimentos tradicionais às mães jovens. As mães eram auxiliadas por outras mulheres da aldeia nos cuidados dispensados aos filhos; a integração das crianças na comunidade fazia-se através do cultivo da memória dos mortos presente nas histórias e tradições orais e do respeito aos mais velhos e as normas e tradi, ções da aldeia. Era costume as crianças aprenderem desde cedo a tomarem conta de si mesmas e arranjarem-se como pudessem nas situações, pois passavam grande parte do dia sozinhas. As mães que possuíam mais recursos deixavam os filhos com amas-de-leite, e as mais pobres entregavam seus filhos para outras pessoas para poderem trabalhar. Os bebês eram enfaixados com o propósito de liberar a mãe para suas atividades diárias, e a amamentação era feita com pouco envolvimento emocional, considerada incomoda e consumidora de tempo. O treinamento higiênico e a vida sexual das crianças passava por uma preocupação superficial. Também era costume enviar as crianças à casa de outro camponês por um período, considerado como aprendizado. Desta forma, as crianças relacionavam-se com vários adultos, criando laços de dependência com a comunidade. Os acontecimentos significativos como festividades, cultos, divertimentos, brincadeiras e jogos eram realizados com a participação de toda comunidade, e a vida simbólica e religiosa era dominada pelo culto público de figuras cristãs sagradas. A vida era regida por normas fixas

que estavam relacionadas às tradições e nunca questionadas pelos indivíduos. O ciclo da natureza indicava e apontava as formas de se viver bem. Portanto, coletividade e natureza eram as bases que formavam e estruturavam a convivência destes indivíduos.

2.3 A criança e a estrutura familiar burguesa O aparecimento da estrutura familiar burguesa é um marco importante nas transformações das concepções de família, infância e da relação dos indivíduos com o coletivo, pois é no seio da burguesia européia que vão se desenvolver novos sentimentos em relação a estes aspectos e conseqüentemente levar os jogos, os brinquedos, as festas e as brincadeiras a tornarem-se gradativamente exclusivos ao universo da criança. Desenvolve-se de maneira muito diferente da estrutura familiar da aristocracia e do campesinato, caracterizando-se por um cotidiano mais afetivo e privatizado. O casamento está marcado por conflitos entre necessidades de se preservar a acumulação de capital de um lado, e o valor da escolha individual de outro. Surge o conceito do casamento para sempre, e o traço mais forte nestas uniões, principalmente no início do período, estava ligado a interesses sociais e financeiros. Por outro lado, o jovem burguês era levado a cultivar o amor romântico e, à medida que se aproximava o final do século XIX, este sentimento passou a ser a principal motivação do casamento. As relações eram estabelecidas com um certo rigor no que se refere as divisões dos papéis sexuais. O marido aparece como autoridade máxima na família e responsável pelo sustento desta através de seu trabalho. Era um ser autônomo edivre, de quem a esposa era dependente, e esta por sua vez, considerada menos racional e capaz; a preocupação exclusiva desta era o lar; por vezes contava com o auxílio de criados, dependendo do status social do marido. Seu papel e personalidade dependiam do lugar

que o marido ocupava no mundo. Seu interesse girava em torno dos filhos aos quais dedicava toda atenção. A vida da mulher passa a ser o lar, e tudo que acontece fora deste contexto, como transformações políticas e econômicas, não lhe diz respeito. O lar se coloca agora como um lugar mais íntimo e afetuoso, reservado ao lazer e as relações de proximidade com a família. Essa nova maneira de viver resulta na intimidade doméstica e no surgimento de novos sentimentos em relação a seus membros, e para que tais aspectos se desenvolvam é necessário um mínimo de privacidade. Desta forma, a família começou a manter a sociedade a distância e confinar-se a um espaço limitado. A vida nesta estrutura familiar não era como na aristocracia e no campesinato, vivida em público e oralmente. Separavam-se mais nitidamente vida pública, profissional e privada, onde, para cada uma, era determinado um local apropriado. A reorganização da casa e a reforma dos costumes deixaram um espaço maior para a intimidade, que reduzia-se aos pais e as crianças, excluindo os criados, clientes e amigos. "Assim, no fim do século XVIII não era mais comum ir a casa de amigos ou sócios a qualquer hora, sem antes avisar; as visitas eram realizadas em dias de recepção ou através de cartões enviados pelos criados ou correio" (Ariès, 1986/266). O relacionamento com os filhos começa a ser revisto dentro da estrutura familiar burguesa e estes passam, gradativamente, a assumir um grau de importância considerável para os pais. Surge neste momento a escola como uma instituição social que, junto com a família, irá cuidar de educar, moral e espiritualmente, as crianças. É a partir deste novo sentimento em relação à infância que começa a existir uma preocupação com a moral, direcionando os fundamentos de educação infantil. Den.tro desta perspectiva alguns jogos são considerados inadequados para as crianças, enquanto outros são re-

forçados por seu caráter educativo. Portanto, os cultos, festividades e brincadeiras que eram realizados por toda coletividade, e que agitavam e marcavam todos os indivíduos em seus laços com seu contexto social, passam a perder espaço para as novas idéias de organização familiar, educação e formação moral. A igreja e os leigos que lutavam pelo rigor e pela ordem, com o objetivo de organizar e civilizar os costumes da sociedade, vão, de forma gradativa, colocando limites bastante claros a essas atividades. A atitude rigorosa de reprovação de alguns, em relação aos antigos costumes, foi modificando-se ao longo das transformações do novo sentimento em relação a infância, principalmente sob a influência dos jesuítas, que mostraram as possibilidades educativas dos jogos. Assim, estes foram adotados pela escola a partir de uma seleção, regulamentação e controle. Dentro desta perspectiva de defender os jogos, os médicos iluministas conceberam uma nova técnica de higiene corporal, a cultura física; e há ainda outra justificativa que surge no final do século XVIII em relação aos jogos: a de que estes preparavam os rapazes para a guerra. Estabeleceu-se assim um parentesco entre os jogos educativos dos jesuítas, a ginástica dos médicos, o treinamento do soldado e as necessidades do patriotismo; e esse tipo de preocupação com a moral, a saúde e o bem comum e mais a questão do destino dos jogos segundo a faixa etária faz parte do processo que leva à distinção de atividades que eram comuns originariamente a toda sociedade. Assim, assistimos a transformações na maneira de perceber, pensar a criança, e de relacionar-se com ela. Na Idade Média a aprendizagem da criança era feita com outros adultos que não eram seus pais; esta era a forma comum de educação. As escolas eram raras e destinadas apenas a alguns, como, por exemplo, os clérigos. De modo geral a transmissão do conhecimento de uma

geração a outra era garantida pela participação das crianças na vida dos adultos, através de jogos, brincadeiras, festas e no dia-a-dia da coletividade. Desde muito cedo a criança saía de sua própria família para ser educada por outros adultos e pela própria comunidade. Mas, a partir do século XV, a educação passa a ser fornecida cada vez mais pela escola, tornando-se o instrumento normal da iniciação social e caminho que prepara a passagem da infância para o mundo adulto. A passagem da aprendizagem para a responsabilidade da escola demonstra também uma aproximação entre família e criança, pois, embora esta relação mais próxima não tenha ocorrido desde o início devido as escolas serem em geral distantes, as crianças quase nunca eram internas; moravam em pensionatos onde eram frequentemente visitadas pelos pais. Além disso, no século XVII discutiase muito sobre as vantagens em mandar-se uma criança a escola, e muitos eram favoráveis a educação em casa realizada por um mentor. São escritos tratados de educação que se preocupam em apontar os deveres dos pais em relação à escolha do colégio ou do mestre, bem como à supervisão dos estudos e repetição das lições quando a criança dormia em casa. A escolarização, que teve grande importância e contribuição para o novo sentimento familiar, não foi imediatamente generalizada. Ao contrário, uma grande parcela da população infantil continuou a ser educada segundo antigas práticas de aprendizagem, principalmente as meninas.

2.4 A criança e a estrutura familiar operdria Com o início da industrialização surge a família da classe trabalhadora, formada a partir do campesinato deslocado de seu local de origem e a sociedade urbana de baixa renda. Seu desenvolvimento vai ocorrer sob condições sociais e econômicas muito ruins, passando por trans-

formações marcantes num período de menos de dois séculos. Nesta estrutura familiar a expectativa de vida era muito baixa devido às péssimas condições de sobrevivência, preservando-se a alta fertilidade e a alta mortalidade existentes na aristocracia e no campesinato. O lar proletário não era constituído por uma atmosfera de domesticidade, privacidade; a figura do pai não era de autoridade, e o jovem saía cedo de casa para trabalhar, afirmando sua independência. O casamento não era regido por interesses de propriedade e acumulação de capital, pois estes indivíduos não possuíam nenhum bem ou capital a ser acumulado ou investido. Viviam do trabalho que era realizado num período de horas muito extenso, e devido aos salários muito baixos a família toda tinha necessidade de trabalhar. Portanto, vamos encontrar nesta estrutura familiar crianças muito novas já trabalhando e com pouco tempo e espaço para as brincadeiras, preocupadas em buscar atividades remuneradas para ajudar na sobrevivência familiar. São criadas nas ruas sem uma constante atenção e fiscalização da mãe, onde "aprendiam depressa e bem o que era a vida sob o capitalismo" (Poster, 1979:211). A família trabalhadora preservou de início os antigos laços comunitários de dependência da coletividade e ajuda mútua, buscando melhorar as condições de vida. Mas essas comunidades não existiam isoladamente e nem eram auto-suficientes, relacionando-se e recebendo influências e interferências da vida na fábrica ou nas minas e moinhos, deparando-se com as figuras dos capitalistas com as quais não podiam identificar-se, mas de onde recebiam uma série de normas e regras, inclusive a disciplina das crianças que era realizada no próprio ambiente de trabalho.

As colocações sobre as estruturas familiares a partir da Idade Média nos mostram a forte relação dos indivíduos com a comunidade. Dentre as atividades que reforçavam esse vínculo encontramos as festas, os jogos e as brincadeiras como constituintes do cotidiano da sociedade. Não havia separação entre brincadeiras e jogos reservado às crianças e aos adultos. Os mesmos eram comuns a ambos e desde tempos muito remotos vamos encontrar os jogos pula-sela, cabra-cega, casinha, pegapega, esconde-esconde, amarelinha etc. como integrantes das festas e comemorações da comunidade. Mesmo nos castelos ou nas mansões burguesas era comum a prática de jogos de salão. Observamos como até o século XVIII não havia ainda sido destruída a antiga sociabilidade e participação de grande parte dos indivíduos nas festividades, nos jogos e nas brincadeiras. Mas é a partir daí que a distinção entre o que é público e o que é privado começa a estender-se cada vez mais aos indivíduos das diferentes camadas sociais.

3. O brinquedo e suas transformações
Do mesmo modo que os jogos e as brincadeiras, os brinquedos faziam parte do convívio social. Em seus primórdios, eram feitos dentro da própria família e por artesãos, de acordo com a matéria-prima que trabalhavam. Existia, portanto, uma relação do indivíduo que criava e fabricava com sua criação; e também da criança e seus pais com os brinquedos que eram fabricados na própria família. Sendo assim, o que podemos observar é que todos, inclusive a criança, podiam ter acesso ao próprio processo de construção do brinquedo. Com a industrialização esta relação se transforma. A produção do brinquedo aparece como função de uma única indústria, existindo

com isso uma preocupação na busca de variedade de materiais, de diversidade de brinquedos, bem como da produção de brinquedos mais elaborados. Nestas transformações o brinquedo ganha um novo tamanho e também movimento: mecanização. A relação da criança com os brinquedos conta com participação direta do adulto não s6 como aquele que dá o brinquedo, mas também como criador, fabricante e mesmo como participante de jogos e brincadeiras. É também o adulto que passa as crianças objetos que antes eram utilizados em cultos e rituais (como chocalho, boneca) que integravam os laços coletivos da comunidade. Com a transformação da estrutura familiar e a passagem das brincadeiras e dos brinquedos para o universo exclusivo da criança, os objetos que pertenciam aos cultos transformaram-se a partir da imaginação da criança em brinquedos e passaram a ser utilizados no ato de brincar. O brinquedo começa a fazer parte da preocupação de pais e educadores como um meio que ajuda na formação da criança, e que continua sendo oferecido a ela pelo adulto, só que agora esta tem universo próprio, que já não é tão comum ao do adulto. A visão que se tem da criança é de um organismo em formação, um ser incompleto que se define em função de algo que é evoluído, completo - "o adulto" (Perrotti, 1982:12). Esta idéia, diz Edmir Perrotti, se não foi invenção da sociedade capitalista, acentuou-se nesse período e continua a acentuar-se cada vez mais, à medida que o próprio capitalismo vai passando por diversas transformações. Temos, por um lado, a criança como não-participante, não-produtiva (não produz para o mercado) e, por outro lado, como um consumidor em potencial. O brinquedo é produzido pela indústria para que a criança o consuma. Chega para ela carregado de idéias, valores, mensagens identificadoras dos pilares da cultura capi-

Cavaleiros sobre rodas, Salzburgo (Século XVIII)

Mobiliário rústico para cozinha de boneca, Salzburgo (Século XVIII)

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talista (Salles Oliveira, 198653); não só tem a proposta de ser consumido mas também de como ser consumido. Dentro desta visão a criança deve ser um consumidor passivo de produtos culturais elaborados para ela pelo grupo social, a fim de que ela possa tornar-se um ser humano evoluído, completo. Entretanto, isto não significa que receba esses produtos e os introjete exatamente como chegam até ela, pois, a partir do momento em que esta criança está inserida num contexto social, que tem uma história, sua relação com o mundo passa pelos vários aspectos e diversidades de conceitos e propostas que chegam até ela, possibilitando diferentes confrontos com o mundo e composições da realidade vividas nas situações de brincadeira, que não podem ser encarados sempre como pura assimilação de idéias prontas: assim, "se a criança é um dado etário (indivíduo em crescimento), este dado está imerso na história e conseqüentemente é em relação à história que esse etário se define" (Perrotti, 1982:14). A reflexão sobre os jogos, brincadeiras e brinquedos passa por um olhar da criança na relação com o mundo que a rodeia, ficando claro que ela não faz parte de uma comunidade isolada e sim que está inserida num contexto onde seus jogos, brincadeiras e brinquedos representam um "diálogo simbólico" com o mundo (Benjamin, 1984:70). Diálogo este que se dá em duas direções: 1) na relação com a história da humanidade que, embora transformada no decorrer dos anos, trouxe até o século XX uma essência que permanece: o lúdico como parte integrante do homem e, mais recentemente, especialmente da criança, e 2) um diálogo entre o próprio eu e a compreensão do momento e da experiência que vive. Cabe-nos analisar e refletir o conteúdo e significado dessas relações no século XX, apreendendo as mudanças de contexto e de sentido.

Carrossel com música, Sonnenberg (Século XVIII)

Carrinho de bebê com bebê mecânico que fala mamãe (Hamburgo, 1860) e boneca, Thuringen (em torno de 1880)

NOTAS PARA UMA JUSTIFICATIVA METODOLOGICA

1. As fontes Na tentativa de refletir sobre as condições e o significado do brincar hoje, numa metrópole como São Paulo, nos voltamos para o passado da cidade a fim de compreendermos as características, o lugar e o sentido da brincadeira nesse passado recente e, ao mesmo tempo, apreendermos suas transformações. Para a realização da pesquisa optamos por dois tipos de fontes de dados: 1) A literatura acadêmica sobre o tema, além de crônicas, relatos de época ou memórias, o que nos permitiu o estudo das condições que São Paulo oferecia para a formação de grupos de brincadeiras nas primeiras décadas do século XX. 2) Entrevistas com pessoas que viveram a infância em São Paulo no período de 1900 a 1950. O objetivo aqui é compreender o significado do brincar

no passado a partir de narrativas contadas por personagens reais, que incorporaram e transformaram, enquanto sujeitos, as brincadeiras de sua época, ao mesmo tempo que vivenciaram e analisaram as transformações provocadas nas mesmas brincadeiras pelas gerações seguintes. A escolha do período (19001950) se deve, de um lado, a possibilidade de encontrarmos informantes vivos, e, por outro lado, à constatação de que São Paulo se afirmaria definitivamente como metrópole, principalmente a partir da década de 60, configurando-se portanto uma nova realidade sócio-cultural.

2. Por que trabalhar com relatos Consideramos fundamental, para compreender a importância do brincar hoje, a exploração do passado, pois se o significado em geral do brincar permanece, suas condições de existência mudaram. Que mudanças são essas, podemos constatar a partir do conhecimento de como se dava o brincar em tempos anteriores. Além disso, resgatar esse passado significa nos colocarmos como "ouvintes" de muitos narradores. Narrar significa intercambiar experiências, e o trabalho da memória é exatamente o de resgatar essas experiências e transmiti-las. Se o que temos hoje é uma dificuldade cada vez maior de experimentarmos e podermos transmitir essas experiências, esse diagnóstico nos faz exatamente caminhar no sentido oposto, buscando resgatar essa experiência do passado, não com a intenção de revivê-lo, mas de fazer com que ilumine o presente. Para nós, lembrar é um trabalho não para reviver fatos acontecidos, mas para rememorar fatos esquecidos, guardados na memória e que podem ter um significado para o momento atual. Não se trata de lembrar somente

aquilo que ficou na memória, porque tem um significado, mas também de lembrar aquilo que, por algum motivo, "foi esquecido". Portanto, lembrar é muito mais uma atitude diante do quadro da situação social, política, econômica e cultura do presente do que uma atividade, um exercício intelectual que traz para o presente fatos já vividos. Está claro para nós que os relatos trazem uma visão particular de alguns acontecimentos, mas, ao mesmo tempo, a pessoa que conta retrata a vida e os costumes de uma época, sua relação com a família, a Igreja, a escola etc. Portanto, os depoimentos, as histórias da infância dos entrevistados serviram não para comprovar fatos, mas para descrever um "ambiente que encerra nele mesmo elementos reveladores da sociedade global" (Ortiz, 1988:79). Cada um desses relatos está repleto de histórias há muito tempo esquecidas, mas guardadas na memória e a nós transmitidas. Ao nos colocarmos como ouvintes desses narradores, tornamo-nos mais um elo na corrente de transmissão dessas experiências vividas, que podem nos permitir estabelecer a ligação entre presente, passado e futuro. A memória não se mantém intacta. Ela sofre a ação do tempo e da experiência vivida. Portanto, esses relatos vêm acompanhados de uma reflexão sobre o significado desses acontecimentos para essas pessoas. Resgatar esse período da vida das pessoas numa cidade como São Paulo é parte de um trabalho para buscar, neste caso, o significado do brincar e das brincadeiras nesse passado recente e refletir sobre as transformações que esse tipo de atividade sofreu nas últimas décadas. Se a importância da memória está no fato de que nos possibilita colocarmo-nos como destinatários de uma herança cultural e de um passado que pode ter muito a nos dizer, a busca da infância nesses relatos se inscreve nesse contexto.

Nesses relatos conhecemos São Paulo ainda com ruas sem calçamento em pleno centro da cidade, onde as crianças brincam de roda, amarelinha ou jogam futebol. A cidade mudou muito de lá para cá, mas ainda há crianças cantando cantigas de roda, brincando de amarelinha ou jogando futebol nas ruas de pouco movimento. A permanência dessas brincadeiras e de outros aspectos da vida passada ainda hoje nos faz pensar que o elo com o passado não foi totalmente interrompido. Ele pode ser mais uma vez acionado, levando-nos a refletir sobre as características da vida hoje. Essa relação com o passado é que nos permite saber onde estamos e para onde direcionamos nossa vida.
2.1 Menzdria e experiência A experiência está diretamente ligada à memória e ao fato de se contar histórias. A memória evoca um passado que pode conter outras possibilidades de continuidade para a história em curso, ou seja, ao contar uma história, resgatar um acontecimento do passado, o narrador está transmitindo uma experiência desse passado que é sua ou que também lhe foi transmitida. Essa experiência, que possibilita a memória e o resgate da história passada, está se perdendo. Walter Benjamin discute a importância da experiência e o fim de suas condições de existência em dois textos (O narrador, Sobre alguns temas em Baudelaire)', nos quais nos baseamos para a exposição- que se segue. As condições de existência da experiência estão se extinguindo: este é o diagnóstico de Benjamin feito nos anos 30. Essas condições estão ligadas, principalmente, à
1. O texto O narrador encontra-se publicado em W. Benjamin, Obra Escolhida, vol. I, São Paulo, Brasiliense, 1987; Sobre alguns temas em Baudelaire faz parte do volume dedicado a Benjamin, Horkeimer, Adorno, Habermas da coleção Os Pensadores, São Paulo, Abril, 1975.

estrutura da vida econômica e social, que se modifica rapidamente a partir de meados do século XIX.2 O desenvolvimento do capitalismo destrói as condições para a realização da experiência que são basicamente: 1) a experiência transmitida deve ser comum ao narrador e ao ouvinte; 2) essa comunidade da experiência funda a dimensão prática da narrativa, isto é, a possibilidade de a narrativa poder oferecer a continuidade de uma história em curso; 3) essa comunidade entre "vida e palavra" apóia-se na organização pré-capitalista do trabalho; o desenvolvimento do capitalismo rompe esses laços de tradição, com~nidade.~ A organização social se modifica em função da organização do trabalho nas cidades. A experiência diz respeito não só ao fato vivido mas também a sua relação com outras experiências, isto é, aquilo que foi vivido por alguém e que pode ser transmitido para outros porque diz respeito a eles também. Não -é a experiência enquanto experimento, limitado pelo empírico; é a possibilidade de poder transmitir acontecimentos, contar uma história que tenha um significado para o ouvinte. Seu caráter principal é que ela é coletiva, por isso diz respeito a quem ouve. A experiência isolada do homem que trabalha, do morador da grande cidade, nada tem a ver com aquela experiência transmitida pelo narrador. Não cabe a nós recriar aquela experiência, pois suas condições estão extintas, mas, ao lembrarmos dela, podemos perceber as relações desse passado lembrado com o presente, e ele pode ser uma chave para a compreensão tanto do passado quanto do presente.
2. A importância dessa discussão geral para nosso trabalho em particular está no fato de que Benjamin, vivendo na Europa da década de 30, fala de um processo pelo qual começamos a passar, em especial São Paulo, a partir da década de 50. 3. A análise das condições para a realização da experiência encontra-se na Apresentação de Jeanne-Marie Gagnebin ao volume I da Obra Escolhida de W. Benjamin (1987).

Podemos agora compreender por que, ao iniciarmos uma discussão sobre a memória, começamos falando sobre as condições de possibilidade da experiência. Segundo as análises de W. Benjamin, as obras de Proust e Baudelaire revelam suas tentativas de recuperar a experiência e um passado que Ihes diz respeito através da memória. São tentativas tensas e difíceis, pois procuram se constituir num momento em que as condições de sua existência estão desaparecendo.' Para nós interessa reter dessa discussão o significado que Benjamin atribui à obra de Marcel Proust, A lu recherche du temps perdu. Para ele a grandiosidade deste árduo trabalho está em mostrar, através da lembrança, a possibilidade da recuperação do passado no presente, de ver a presença desse passado no presente, abolindo, assim, os limites entre os dois. Metodologicamente falando, as relações entre passado e presente se revelam a partir das semelhanças que podem ser estabelecidas entre os dois (Gagnebin, 1987). A análise de Benjamin se refere, neste ponto, também a Baudelaire, poeta lírico que se dedica a um público que não é mais leitor de poesia lírica. Baudelaire, ao se manter em contato com a experiência, transmite sua experiência - que é a do leitor - em suas poesias: a experiência fragmentada do indivíduo na grande cidade. Baudelaire, ao falar do passado, estabelece uma relação com a vida vivida. Vida essa 'que se insere num contexto social, não se limita somente ao indivíduo. A perda da experiência diz respeito à multidão de transeuntes que enche as ruas de Paris, e com a qual Baudelaire se mistura. A tentativa de recuperar o passado e a experiência desse passado é
4. Não vamos aqui reproduzir a bela e genial análise que Benjamin faz dos conceitos de memória e experiência, passando por Bergson e Proust, pois não é nosso propósito fazer uma discussão profunda sobre o assunto.

possível, principalmente, através de um intenso engajamento no presente. Baudelaire trabalha sob o impacto dos choques, dos estímulos diários a que estão sujeitos os cidadãos na sua vida c~tidiana.~ Procura, vivendo intensamente as condições adversas a qualquer experiência e a qualquer relação com o passado, novas experiências e novas relações inscritas no presente. Novas porque reconhece a perda e esse reconhecimento leva a buscar alternativas em vez de tentar restabelecer tradições que nada mais têm a ver com a época em questão (Gagnebin, 1987). No início colocamos quais eram as condições que possibilitavam, numa sociedade pré-capitalista, a experiência e sua transmissão. O fim dessas condições impõe uma mudança na sua estrutura e a busca de novas alternativas, ao lado das tentativas nostálgicas de buscar recuperar essa mesma experiência, já perdida. O enfraquecimento da experiência deixa aos indivíduos somente a vivência imediata que não estabelece nenhum vínculo com o passado e com a tradição. Essa vivência é como a do jogo, onde cada partida independe da anterior, como o gesto do operário na fábrica, na linha de montagem. Esse trabalho é impermeável à experiência. A vivência do trabalhador nas máquinas corresponde à vivência do transeunte na rua: ambos agem mecanicamente, como o jogador (Benjamin, 1975:51). Essa situação se reflete em todos os níveis. Também a criança como integrante desta sociedade sofre a perda da experiência. Para ela também, assim como para o indivíduo adulto, a experiência de mundo é fragmentada; este não termina nada, não tem a idéia do todo. O tempo, essencial para
5. Essa discussão remete a Freud e sua afirmação de que não há nenhuma correlação entre memória, no sentido da memória involuntária de Proust (discutida mais adiante no texto), e a consciência. A consciência trabalha para aparar os choques, e isso faz com que o acontecimento seja caracterizado como vivência (e não como experiência).

a reflexão, e portanto para a experiência, é agora uma sucessão infinita de instantes iguais preenchidos pelos gestos do operário na fábrica, pelo movimento dos transeuntes no meio da multidão, pelas tarefas a serem cumpridas por cada um em seu local de trabalho. Nesse sentido, a importância da memória está no fato de que, ao relembrar o passado, procuramos nele os gérmens de uma outra história possível. Por isso, Benjamin considerou tão importante a tentativa proustiana. Proust não escolhia os fatos lembrados, todos eles tinham a mesma importância. Trata-se, portanto, de contar a história levando em conta todos os fatos, e todo acontecimento pode ser importante e trazer uma mensagem que promova uma compreensão maior lento presente. 2.2 Significado da perda Qual o significado da perda de experiência? O que acontece com o homem que vê as condições de sua transmissão se extinguirem? Ulpiano Bezerra de Meneses (1987: 183) fala da memória como suporte fundamental da identidade; a memória é um acumulo, não só de informações, conhecimento, mas, muito mais, de experiência. A perda da experiência significa, portanto, perda da memória e, como conseqüência, fica prejudicado o processo de busca de identificação que, segundo Ulpiano, é construção de imagem "que se alimenta do ritmo, que é a repetição" (1987:183). O processo de identificação está ligado à primeira imagem, à qual sempre voltamos (repetição) para ressignificá-la. Além disso, a identidade de um indivíduo ou grupo está ligada aos laços criados entre os participantes desse grupo, que os mantêm unidos em torno de uma visão do passado, a qual possibilita compreender o presente a fazer projeções para o futuro (Bosi, 1987:16). Fazem parte dessa

tradição os ritos e mitos através dos quais o homem busca se relacionar com o mundo e explicá-lo. O mito representa uma imagem que uma dada coletividade tem de si mesma e do cosmo que a rodeia: Os mitos expressam a maneira como uma sociedade entende acontecimentos e fenômenos'e se relaciona com eles. A partir dessas primeiras imagens, outras novas vão sendo construídas à medida que novos fatos e acontecimentos exigem, do homem, uma posição, ou um entendimento. A memória vai armazenando cada imagem formada, resultado da vivência de novos acontecimentos por esse grupo social. A memória, portanto, pela transmissão das experiências acumuladas, Faz a ponte entre a tradição e o passado e o presente. Por isso ela é essencial para compreender as mudanças e refletir sobre elas. A relação entre memória e identidade é feita através de um tratamento da memória como fenômeno social. O passado que se conserva em cada indivíduo aflora a consciência, mas Maurice Halbwachs (Bosi, 1987a) em sua teoria psicossocial vai procurar dar uma ênfase maior à relação da memória com a história, ou seja, ao caráter coletivo da memória. Para ele, a memória do indivíduo se relaciona com as coisas lembradas, as relações estabelecidas entre as pessoas e os fatos acontecidos. E importante a memória do indivíduo e sua relação com a família, a Igreja, a escola, o ambiente profissional. Cada fato lembrado se relaciona com o social e com a vida vivida individualmente. A lembrança é marcada pelo tempo transcorrido, ou seja, o passado não sobrevive lá, nas "prateleiras" da memória, "tal como foi" (Bosi, 1987a:17), mas é objeto de um trabalho de reconstrução das imagens do passado. Encontramos também em W. Benjamin o caráter coletivo da lembrança, além da importância da memória não
6. Ver em Vernant (1973) a análise das transformações sofridas pelo mito em função das modificações da vida social.

como a fonte que faz jorrar os acontecimentos lembrados, mas como a inspiração para um procedimento. Ou seja, não se trata simplesmente de lembrar, mas do que o lembrar significa. "Não descreve, narra. Mais: torna a narrar o que escutou. . . (Essa narrativa) é um eco do que a cidade contou antigamente à criança.. . em que a recordação não é a fonte, mas a musa. Ela toma a dianteira, percorrendo as ruas, cada uma das quais é um declive. Vai descendo, senão até o ventre materno, pelo menos em direção a um passado que é ainda mais apaixonante pQrnão ser um passado individual. No asfalto em que caminha ecoam ressonâncias surpreendentes. A luz do gás, que se reflete na pavimentação, lança uma luz ambígua sobre esse amplo solo. Enquanto ajuda mnemotécnica do andarilho, a cidade evoca mais que a infância e a juventude desse andarilho, mais que sua própria história" (Rouanet, 1981:66). Acreditamos, com o que foi dito, ter estabelecido a relação entre memória e identidade que interessa para nosso trabalho: a memória do indivíduo está ligada (não determinada) à vivência desse indivíduo em vários grupos sociais e à vivência em comum desses grupos. Portanto, as lembranças de cada um contam também uma parte da história desses grupos, das relações neles e de como, dentro desses grupos, os indivíduos se fqrmaram. Não é nossa intenção mostrar esse processo em cada indivíduo entrevistado, ou seja, mostrar como foi em cada indivíduo o processo de identidade nos grupos de que fizeram parte. Nosso objetivo, ao falar da memória, é apenas de ressaltar a sua importância como algo que vai além da lembrança individual, que esta nos conta sobre o social e que a memória tem um papel mais amplo que o de apenas levar indivíduos a lembrarem e refletirem sobre o seu passado. Esse papel mais amplo é o de levar a uma reflexão sobre o presente. A lembrança dos tempos de infân-

cia não é um reviver desse período, mas um trabalho de pensar, refletir sobre o seu significado hoje e no passado. A ação e a reflexão do homem sobre o presente implica que ele conheça esse presente e possa relacioná-lo com o passado e, a partir dele, fazer projeções para o futuro. Tem um papel importante a sua participação numa coletividade, e a sua relação estreita com o passado e a cultura dessa coletividade. A partir do momento em que o homem se distancia de seu passado e perde o vínculo com suas experiências transmitidas, ele perde suas raízes? O desenraizamento é, segundo Ecléa Bosi, não só resultado das migrações, da perda das ligações do homem com seu lugar de nascimento, mas também da alienação imposta pelo desenvolvimento capitalista. Este transforma a tradição cultural em mercadoria, impede a experiência e, por isso, torna vazias as lembranças e também as aspirações, pois não há mais uma relação com o passado onde o futuro pode estar inscrito. O elo presente-passadofuturo está rompido. Como recuperar esse significado? Para Ulpiano Bezerra de Meneses, a recuperação da memória é essencial, mas não como processo nostálgico, e sim como aprofundamento da consciência histórica (1987: 185). Sem a memória não somos capazes de compreender as mudanças, participar delas e refletir sobre elas. Ao estabelecer a relação entre presente e passado, através da memória, o homem dá significado à sua vida, revive e ressignifica os signos e pode, com isso, dar continuidade ao que está em curso e bzer projeções para o futuro.

7. Eclh Bosi (1987: 16) discute a questão do desenraizamento ligada h migração e ao trabalho operário. Chamamos desenraizamento também a perda das raizes com o passado individual e coletivo.

Agnes Heller (1985)) através de uma análise do processo da consciência na história, chega a uma concepção de temporalidade em que presente, passado e futuro se encontram no agora. O passado se encontra no presente a partir das experiências vividas, o presente se encontra no passado enquanto possibilidade, e o futuro é o que pode ser a partir do que vivemos. Essa concepção traz em si a possibilidade de modificarmos o presente histórico agindo sobre ele; essa modificação se opera a partir da reflexão sobre as experiências vividas e sobre o momento presente (o que queremos dele), e a partir de nossos anseios em relação ao futuro. Para Agnes Heller, o homem sempre buscou explicar os fatos à sua volta, sempre foi historiador. A diferença de hoje com os tempos passados é que o significado de nossas vidas não está dado socialmente. Cada indivíduo busca esse sentido para si mesmo, e desse modo reconstrói o social. Somente com a liberdade podemos dar sentido a nossas vidas. Podemos ver, então, que a recuperação da memória e da possibilidade da experiência está inserida numa luta contínua contra a sua própria destruição, operada pela organização social baseada no desenvolvimento capitalista da indústria. Benjamin, Ecléa Bosi, Ulpiano, Agnes Heller, todos colocam como essencial, primordial, a ação de cada um no presente. A importância da preservação da memória e do resgate das experiências passadas está exatamente no fato de não perdermos esses referenciais, de podermos, a partir das experiências do passado, reconhecer o presente e buscar alternativas válidas para este.

3. Por que contextualizar os relatos

Se os relatos nos permitiram compreender a dimensão do-brincar e das brincadeiras para cada entrevistado, o que ficou guardado na memória e como, hoje, eles percebem esse período, o contexto dado pela história da cidade nos possibilitou verificar que condições havia que permitiram o brincar com tais características. Para isso traçamos um perfil da evolução da cidade desde o início do século XX, enfatizando a vida cotidiana dos paulistanos e suas transformações. A análise das condições sócioeconômicas foi inserida dentro de um contexto mais amplo acerca do perfil da cidade. A leitura de crônicas, relatos, biografias e autobiografias relativas às primeiras décadas do século XX nos permitiu um amplo panorama da história da vida da cidade abrangendo os mais diferentes aspectos: a família, a vizinhança, a escola, o lazer, manifestações religiosas, culturais, as brincadeiras, a infância, o trabalho, a vida política. Nossa leitura enfocou a vivência do espaço público por seus moradores, a vida das ruas que nos permitiu identificar suas tradições, sua gente, seus conflitos. Através das transformações no espaço público de São Paulo, pudemos entender e refletir sobre o significado das mudanças ocorridas.
A rua vive: a rua sofre, a rua goza, E é por isso que eu creio inabalavelmente,

Que a rua deve ter uma alma misteriosa.. .
(Guilherme de Almeida)

Para nós, essa alma misteriosa de que nos fala o poeta se deve a um movimento contraditório de integração e conflito que nela podemos perceber. O espaço público da rua permite a interação com o coletivo, é um

lugar onde as pessoas se encontram e se vêem, podem conversar, onde acontecem as festas, os grupos de brincadeiras, as manifestações religiosas, políticas e culturais. É também onde é possível estar s6 em meio à multidão. Na rua estão também os símbolos do trabalho, do comércio, da indústria. Finalmente na rua estão todas as contradições da sociedade: a riqueza, a pobreza, as reivindicações políticas, os movimentos estudantis, os movimentos populares, as agressões, a insegurança, o isolamento.

I11 LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA

1.1 Os atores: perfil dos entrevistados Foram realizadas 9 entrevistas com 7 pessoas do sexo feminino e 2 do sexo masculino. Apenas 2 entrevistados nasceram no início da década de 50, enquanto os demais nasceram entre 1905 e 1933. Todos eles passaram sua infância em São Paulo, com exceção de um, que alternava sua moradia entre São Paulo e Jaú. Nossa preocupação maior foi ouvir as narrativas de pessoas que viveram a infância até a década de 40 e que, portanto, são protagonistas das transformações ocorridas em São Paulo até hoje, vivenciando-as através de três gerações. A s entrevistas das pessoas que nasceram na década de 50 nos permitiram ouvir como foi a infância, ainda muito próxima dos nossos dias, já numa cidade grande, numa época onde a aceleração da industrialização está se

cristalizando, embora São Paulo não tivesse ainda as características de uma grande metrópole. Esses relatos são complementados pela visão que os outros entrevistados têm da infância nessa década, geralmente de seus filhos ou sobrinhos. A escolha desses entrevistados deveu-se não apenas a maiores condições de acesso para realização das entrevistas, mas, principalmente, por serem pessoas que tinham uma lembrança muito viva de sua infância e pertencerem a diferentes camadas sociais. Transcrevemos a seguir um rápido perfil de cada entrevistado para que o leitor possa se situar na análise dos depoimentos. Nosso intuito não é o de mostrar como a história de vida influi naquilo que é guardado na memória, mas de buscar lembranças, esquecidas ou não, que têm um significado coletivo. As pessoas entrevistadas tiveram vidas muito diferentes, mas notamos, em todas, um aspecto que é comum: a importância do brincar na infância, do grupo de brincadeiras e de como eram gostosos esses momentos.

D. Mercedes
Nasceu em 1930 em Jundiaí. Seu pai fez o curso primário e era marceneiro. Sua mãe fez o curso primário e cuidava dos afazeres domésticos. D. Mercedes tinha duas irmãs menores. Sua mãe abandonou a casa, os filhos e o marido quando ela tinha 7 anos de idade, e seu pai resolveu mudar-se para São Paulo. Ela e as irmãs ficaram na casa dos tios, e, embora o pai não morasse junto, sustentava as filhas e sempre as visitava levando-as a passear. Foi uma presença forte em sua vida. Sua tia (com quem morava) fez o curso primário e lavava roupa para fora. Moravam numa casa no Alto da Lapa - rua Barbania com quintal grande onde havia uma horta, árvores frutíferas e flores.

A religião da família - pai e tios - era católica, sendo todos praticantes. O pai era muito religioso e participava de todas festas, rituais, procissões. D. Mercedes frequentou a escola primária até a 4.a série. Na época de sua infância ajudava sua tia no trabalho, entregando as roupas na casa das freguesas. Começou a trabalhar com 15 anos, como empregada doméstica. Teve uma filha. Na década de 60 comprou um apartamento (Cohab) e mudou-se para Carapicuíba. A filha foi criada pela tia de D. Mercedes e o seu contato com ela era só aos domingos, seu dia de folga. Trabalhou como doméstica até aposentar-se e hoje mora em Carapicuíba com a filha, a irmã e sobrinhos.

D. Nina
Nasceu em 1912 na Fazenda Maná em Pederneiras, onde ficou morando com seus pais até mais ou menos os 6 anos de idade. Seu pai era fazendeiro, abandonou o curso de engenharia em São Paulo e foi para o interior onde comprou uma fazenda (segundo orientações médicas). Sua mãe fez o curso primário e cuidava dos afazeres domésticos. A mãe era católica e o pai ateu. D. Nina tem uma irmã, um ano mais moça. Aos 6 anos ela e a irmã foram morar em Jaú com os padrinhos que achavam que as meninas deveriam ter uma educação na cidade. A madrinha ocupava-se dos afazeres da casa e dos empregados e às vezes fazia um pequeno trabalho de agulha. O padrinho tinha uma fazenda na região. A religião dos padrinhos era católica. A partir dessa época, D. Nina passou sua infância dividindo temporadas entre Jaú, São Paulo e as férias na fazenda dos pais ou da madrinha. Passava de 3 a 4 meses em cada um desses lugares. Frequentou, em Jaú, uma escola pequena, depois foi para o externato São José. Começou a fazer o curso normal e aos 15 anos interrompeu os seus estudos, quando mudou-se definitivamente para São Paulo, vindo morar

com seus padrinhos numa casa na av. Higienópolis. Seus pais ficaram morando em Pederneiras e mais tarde em Jaú. Em São Paulo voltou a estudar com o professor particular das primas e depois no externato Santa Cecília. Nessa época, residindo em São Paulo, costumavam fazer estação de águas no Rio de Janeiro. D. Nina não casou e trabalhou durante muitos anos num ateliê de alta-costura, até aposentar-se. Saiu da casa dos padrinhos para morar com a irmã casada, com quem ficou durante muitos anos, acompanhando o dia-a-dia de seus sobrinhos. Por volta dos anos 60 foi morar sozinha num apartamento e hoje sua vida é dedicada aos sobrinhos e sobrinhos-netos.

D. Edith
Nasceu em 1919 no bairro da Luz em São Paulo, onde passou sua infância. Seu pai trabalhava na Força Pública e sua mãe fez o curso normal e trabalhava como professora. A religião da família era católica, a qual D. Edith seguiu. Tinham uma babá que tomava conta das crianças enquanto sua mãe trabalhava. D. Edith tem 2 irmãos. Passavam as férias num sítio da família em Bragança Paulista ou em uma casa em Itanhaém. Seu pai morreu quando ela tinha 7 anos. Estudou na escola Caetano de Campos, onde cursou desde o Jardim de Infância até o curso normal. Não se casou, e ao se formar começou a trabalhar no próprio Caetano de Campos, apenas por uns 3 ou 4 meses, como professora substituta, e logo em seguida em funções administrativas na secretaria da escola onde ficou até 1959. Fez curso de Administração Escolar no Rio de Janeiro e trabalhou no Departamento Trabalhista, secretariando o Conselho Estadual de Educação, e no Governo

Jânio Quadros participou do Gabinete da Secretaria da Educação junto a Ana Carolina Ribeiro. Morou com sua mãe até a década de 80 e atualmente está aposentada e mora sozinha. Acompanhou a infância dos sobrinhos e principalmente dos sobrinhos-netos quando já estava aposentada.

D. Liliana Nasceu em 1928. Sua mãe era dentista e morreu quando Dona Liliana estava com 2 anos de idade. O pai era contador e trabalhava como comerciante; casou-se outra vez. A madrasta fez o primário e ocupava-se dos afazeres da casa. Moravam na rua Capitão Macedo na Vila Clementino e depois mudaram-se para o Paraíso na rua Afonso de Freitas, de onde D. Liliana saiu para se casar. A religião da família era católica. O pai católico ortodoxo e a madrasta católica. D. Liliana estudou até o 2.O Colegial, ocasião em que se casou. Até o ginásio fez seus estudos em colégio de freiras - Colégio Santa Inês, na rua Três Rios. O curso colegial foi feito num colégio leigo. Costumavam passar as férias em Santos e Poços de Caldas. Tem 4 irmãs mais novas, do segundo casamento do seu pai. Conheceu o marido no escritório de seu pai. Ele era contador e trabalhava no comércio e com jornalismo tinha uma revista que falava sobre TV. Teve 4 filhos. Quando estava grávida do último filho, ficou viúva, com 31 anos. Um ano depois começou a trabalhar tinha um salão de beleza. Trabalhou durante 7 anos. Casou-se novamente com mais ou menos 38 anos, ficando uns 10 anos casada com o segundo marido; depois separou-se. Hoje mora com 2 filhos solteiros no bairro de Pinheiros, dedicando-se a casa, aos filhos, netos e sobrinhos.

Sr. Fausto Nasceu em 1905 em Santa Rita do Passa Quatro. Passou sua infância na rua Alvernando Coutinho, no Bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Seu pai era médico clínico e morreu quando ele tinha dois anos e meio. Sua mãe cuidava dos filhos e afazeres domésticos. Seus pais eram espíritas, religião também seguida por ele. Tinha 5 irmãos: 3 homens e 2 mulheres. Estudou no Colégio Caetano de Campos. Não se casou e trabalhou vários anos como bancário. Hoje está aposentado e mora na Vila Madalena com um sobrinho. D. Lúcia Nasceu em São Paulo, em 1933, no Bairro do Ipiranga. O pai, imigrante italiano, trabalhou como camponês em fazendas no interior de São Paulo. Casou-se com D. Maria e veio com ela morar em São Paulo, em 1927. Ela dedicou-se ao trabalho doméstico e ao cuidado dos filhos; ele foi motorneiro de bonde e depois trabalhou como químico industrial numa indústria têxtil. A família se estabeleceu no Bairro do Ipiranga, onde D. Lúcia passou a infância junto com 8 irmãos. Aos 14 anos começou a trabalhar, também na indústria têxtil, e'à noite estudava. Até essa idade brincava e ajudava a mãe nas tarefas domésticas. Aos 18 anos terminou o curso de nutricionista, mas continuou trabalhando na indústria têxtil como operária. A religião da família era católica. Todos iam a missa aos domingos. D. Lúcia casou-se aos 22 anos com um médico e teve 3 filhos. DY. Hubhy Os pais do Dr. Hubhy chegaram ao Brasil, vindos da Síria, entre 1914 e 1917. Foram morar no Ipiranga. Dr. Hubhy nasceu em 1925 e tem 2 irmãos mais velhos. O pai

era opèirário na indústria de fiação, e a mãe se ocupava das tarefas domésticas. O irmão mais velho ajudava a manter a casa trabalhando como ambulante. Em 1937 a família abriu um comércio na rua Silva Bueno. Nessa época, o Dr. Hubhy tinha 12 anos; estudava e ajudava na loja. Continuou estudando e ajudando na loja até formarse médico. Só então passou a ter um emprego efetivo, fora de casa. A religião da família era cristã ortodoxa, mas ninguém era praticante. Dr. Hubhy casou-se com 30 anos e tem 3 filhos. Mora hoje na Vila Mariana.

Idalina Nasceu em 1950 na rua Tutóia e um ano e meio depois mudou-se para o Itaim. Seu pai fez o curso de contador e trabalhava no comércio e com jornalismo. Sua mãe (D. Liliana) fez até o 2." colegial e ocupava-se dos afazeres domésticos até a morte do marido, quando então começou a trabalhar. A religião seguida pela família era a católica. Idalina tem 3 irmãos mais novos e passou sua infâncai na rua Tabapuã no Itaim. Passavam as férias em São Vicente enquanto o pai era vivo e depois em Santos. Quando seu pai morreu ela estava com 9 anos. A mãe casou novamente quando ela estava com mais ou menos 16 anos. Estudou até o 2." colegial, interrompendo os estudos para trabalhar como encarregada de escritório. Casou-se com 33 anos e parou de trabalhar, voltando mais tarde por mais ou menos um ano e meio, quando nasceu seu filho, que vai completar um ano de idade. O marido é desenhista-técnico, trabalhou em um escritório de arquitetura e decoração durante vários anos e atualmente é comerciante. Idalina e o marido não seguem nenhuma religião.

Atualmente mora no Sumarezinho e dedica-se à casa e ao filho.

Rose Nasceu em 1952 no Bairro do Itaim em São Paulo. Seu pai fez o curso de contador e trabalhava no comércio e com jornalismo. A mãe (D. Liliana) fez até o 2." colegial e ocupava-se dos afazeres domésticos até o marido morrer. A religião da família é católica. Rose tem 3 irmãos, uma irmã mais velha e 2 irmãos mais novos. Passou sua infância na rua Tabapuã no Itaim. Passava as férias em São Vicente quando o pai era vivo e depois em Santos Embaré. Squ pai morreu quando ela estava para completar 8 anos de idade. A mãe casou-se novamente quando ela estava com mais ou menos 14 anos. Estudou até o colegial, fazendo cursinho para medicina, mas abandonou para casar-se. Trabalhava como secretária até 3 anos atrás. Seu marido é administrador de empresas e trabalha na área. Tem 2 filhos, um com 9 anos e outro com 7 anos. Ela e o marido não seguem uma religião fixa. É católica e tem o espiritismo como segunda opção, mas não frequenta nenhuma. Atualmente mora no Jardim Bonfiglioli e dedica-se aos afazeres da casa e cuidados com os filhos.

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1.2 A cena: São Paulo na primeira metade do século X X
Procuraremos traçar um perfil da rotina de vida da cidade de São Paulo tomando como eixo para análise a rua - espaço onde ocorrem relações que encerram uma rede de significados conflituosos e contraditórios. No nosso caso, a rua é especialmente importante, pois é o local que proporcionava as condições para a formação e permanência dos grupos de brincadeiras: espaço e relações de vizinhança. Dividimos a análise em dois momen-

tos: a rotina de vida da cidade até 1940 e as mudanças ocorridas a partir da década de 40. Obviamente não se pode tomar uma data como um marco divisório absoluto, mas é a partir da Segunda Guerra Mundial e, especialmente, a partir dos anos 50, que São Paulo vive um intenso processo de modernização que traz consigo amplas transformações na vida da cidade. a) A rotina de vida da cidade: 1900/1940 Talvez o leitor tenha dúvidas sobre como pode ser descrita a rotina de uma cidade em que habitam pessoas tão diferentes e, sobretudo, com modos de vida diversos decorrentes das classes e camadàs sociais a que pertencem. Certamente essa questão é fundamental, e não pretendemos aqui homogeneizar esse cotidiano e muito menos eleger um modelo da vida da cidade. Nossa intenção, nesse momento, é identificar o ritmo de vida que pulsava na cidade, no período citado, considerando tanto os aspectos mais comuns a quem aqui vivia como aqueles diferenciados. São Paulo, no início do século XX, embora já se delineasse como uma cidade em transformação ', ainda permitia aos seus moradores um ritmo de vida tranquilo com um tempo e espaço maior para atividades sociais e de lazer. Em 1900, São Paulo contava com 240.000 habitantes *, e suas ruas eram ainda iluminadas com lampiões de gás
1. Os recenseamentos industriais mostram a grande expansão da indústria entre 1900/1920. Ver Dean (1971: 116). 2. População de São Paulo: 1900 240.000 1920 579.033 1.326261 1940 1950 - 2.227.000 1960 - 3.825.351 8.300.000 1979

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Avenida Range1 Pestana (1904)

Bosque da Saúde (1908)

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e percorridas por bondes puxados a burro. A regularidade do dia-a-dia marcava uma cadência na vida de seus habitantes. Era comum, após o trabalho, o encontro diário com os amigos em locais como velhos cafés, bares e gté mesmo farmácias, que se constituíam em espaços de reunião para conversas informais, discussões políticas, culturais ou profissionais. Eram também comuns os lanches ou chás em casas particulares, onde aconteciam jogos de prendas, ou se falava sobre poesia, literatura e teatro. Para as mulheres (de classe média ou classe alta) esses encontros aconteciam nas confeitarias tradicionais como a Progredia, Nagel, ou o salão de chá do Mappin. Como não podiam sair de casa sozinhas, as mulheres faziam-se sempre acompanhar de seus irmãos ou filhos. A tarde as visitas a parentes, vizinhos e amigos eram completadas por um lanche. Era costume ficar à janela observando o movimento da rua, ou frequentar reuniões de amigas ou vizinhas interessadas em ler romances de folhetim. Elas aproveitavam a ocasião para fazer tricô e crochê, enquanto ouviam a leitura dos novos fascí~ulos.~ Os cuidados com as crianças e os afazeres domésticos ocupavam a maior parte do tempo das donas de casa (com exceção daquelas mulheres que trabalhavam fora). A relação que se estabelecia com essas tarefas implicava uma outra dimensão do tempo disponível e o capricho em oferecer à família e amigos quitutes caseiros. A descrição a seguir ilustra todo o processo de cozimento que envolve a feitura de biscoitos, utilizando-se de um forno de barro. A profusão de detalhes revela que não havia economia de tempo e trabalho na realização das tarefas domésticas pelas mulheres. "Havia o forno de tijolos para assar pão, bolos e biscoitos. Para aquecer esse forno, enchia-se de lenha picada.
3. Zélia Gattai relata sobre esses encontros realizados pelas mulheres que moravam na sua vizinhança. Ver Gattai (1983).

Quando estava tudo bem aceso, esparramava-se com uma vara comprida e continuava o fogo. Quando ia acabando, ficando só o braseiro, o teto e as paredes do forno deviam estar brancos. Então com um rodo molhado com água, puxava-se todo o braseiro para fora, com cuidado para não jogar as brasas nos pés, deixava-se o rodo, pegava-se uma vassoura verde que era um amarrado de guanchuma, alecrim ou outras folhas, metia-se a vassoura no forno e puxava-se, varrendo bem de todos os lados. Sentia-se um cheirinho bom de alecrim. A forneira punha então no forno um pedaço de folha de bananeira ou um punhado de fubá de milho e tampava o forno com uma tábua bem ajustada alguns segundos e abria o forno. Se o fubá ou a folha de bananeira já estavam pretejando, o forno estava quente demais. Pegava a vassoura, molhava de novo na bacia velha que ali estava com água e salpicava dentro do forno. Ou esborrifava água por todos os lados. Já estava ali perto um tabuleiro com folhas de banana cortadas em quadrados; em cada folha, cabiam 9 ou 12 biscoitos em forma de argola, da grossura de um dedo fino. Com uma pá de cabo bem comprido colocavase no forno, de uma a uma, todas aquelas folhas com biscoitos. Tampava, e, uns 20 minutos depois, abria para espiar: os biscoitos já haviam crescido e grudado uns nos outros, mas faltava corar; feche depressa o forno, não pode tomar vento, abra agora o suspiro do forno! Mais alguns minutos; estava tudo bem corado, bem crescido. Deixe mais um pouco para secar. Então metia-se uma varinha no forno, fisgando pelo buraco o biscoito, levantava-se e lá vinha uma penca, outra penca" (Lacerda). Entretanto, para a mulher operária ou para a que trabalhava como doméstica em casa de família, a vida não oferecia tempo para encontros, passeios ou trabalhos manuais. O trabalho era tão exaustivo, que os dias de folga eram preenchidos com o descanso em casa, ou os

afazeres domésticos que não podiam ser feitos durante a semana. O trabalho fazia parte integrante da vida da sociedade, especialmente dos homens, e para aqueles que trabalhavam nas fábricas a jornada era longa, dura, exaustiva e com poucas leis que os pudessem proteger. Movimentos políticos reivindicatórios surgem como conseqüência dessa situação: a rua é palco, nos primeiros anos do novo século, de movimentos anarquistas liderados por trabalhadores italianos. Os movimentos começavam nas associações, nos salões onde se debatiam as idéias libertárias e nos periódicos que divulgavam suas idéias. Daí então ganhavam os bairros e depois o centro da cidade, marchando em colunas. A estratégia anarquista era a agitação para a propagação das idéias. Se a rua se constituía no espaço para os movimentos anarquistas, era também o local de integração entre os cidadãos através das brincadeiras e atividades de lazer. Os passeios a pé - footing pelo centro da cidade -, nas ruas Direita e Barão de Itapetininga, eram comuns naquela época. Lá se localizavam as lojas chiques da cidade. Aos domingos à noite assistia-se aos concertos do coreto do Jardim da Luz. Era a oportunidade para namoros, conversas e outras diversões. Com a inauguração do Teatro Municipal (1911) não houve mais concertos no Jardim da Luz, mas fazer o footing pelo centro, olhar vitrines e ir, à tarde, às confeitarias permaneceram como costumes. O Jardim da Luz era também local de passeios nos fins de semana à tarde, onde se faziam piqueniques nos quiosques ali existentes. Todos os homens, inclusive operários, usavam colarinho, gravata e chapéu. Todas as mulheres usavam chapéus.
4. As hist6rias de vida coletadas por Eclba Bosi (1987a), assim como a anáiise de M. Auxiiiadora G. Decca, mostram a realidade da mulher trabalhadora na São Paulo daquela bpoca.

Jardim da Luz (1908)

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Havia ainda os passeios ao Parque Antártica que, além de locais para piqueniques, possuía campos de bocha, tablado para patinação, roda-gigante, circo de cavalinhos de pau, Teatro João Minhoca, corridas a pé e passeios de balões. No Jardim da Aclimação havia animais e banda de música. A cidade tinha também os campos de várzeas onde se jogava futebol, e a rua era, por excelência, o local de brincadeiras das crianças: esconde-esconde, acusado, pulasela, jogo de bola na mão, bolinhas de gude, futebol, varinha tangendo rodas, pipas, brincadeiras de roda, bonecas. . . As crianças se organizavam em turmas, trocinhas ou clubes de acordo com seu bairro, realizando competições e desafios entre os diferentes grupos. Era também na rua que grande parte do abastecimento da cidade era feito: entregador de jornais, leiteiro (que tirava leite da cabra na hora), carrocinha de verduras, fruteiro, peixeiro, amolador, vendedor de frangos e OVOS, baleiro, sorveteiro, o mascate com baú de tecidos, pipoqueiro, vassoureiros, balaieiros, cada um deles com quadrinhas e dizeres característicos para atrair a freguesia. A rua tinha então uma sonoridade especial que era ainda completada por muitos outros grupos como as figuras famosas apelidadas de "Zé Prequeté", "João Assombração" (Marques); as bandas nas praças, os grupos de cantadores das procissões; o desfile do circo onde o Palhaço anunciava o horário do espetáculo ao som do "Hoje tem marmelada. . ."; as cavalhadas, touradas na Praça da República; as peladas de futebol, as brincadeiras e cantigas de roda ou ainda os enterros puxados a cavalos. A noite podia-se ouvir também as serenatas ou concertos musicais no Jardim da Luz. Cinemas, teatros, clubes e circos eram também programas coletivos, embora pertencentes à rede privada. O cinema é sempre descrito como ponto alto da programação semanal por pessoas das diferentes camadas sociais.

Localizados nos centros e bairros próximos, eram um programa obrigatório do paulistano desde os tempos da lanterna mágica e do cinema mudo. O teatro, muito apreciado, incentivava a existência de diversos grupos amadores; era também costume montar peças em festas de família. O Teatro Municipal, programa máximo da cidade, era frequentado não só pela classe alta mas também por operários, principalmente os imigrantes italianos, que lá iam assistir às óperas (Gattai, 1983 e Bosi, 1987a). Para as crianças havia o teatro de fantoches, João Minhoca como era chamado, que Ihes proporcionava alguns momentos de sonhos e fantasia. Muitas vezes era representado nas praças ou jardins; outras vezes as apresentações eram feitas em casas particulares onde se reunia a vizinhança, e enquanto as crianças, atentas, participavam do espetáculo, os adultos se divertiam com os bate-papos. A magia das temporadas dos circos é lembrada como momentos especiais, sobretudo na infância. O Palhaço Piolim, com seu chapéu coco redondo e a copa enterrada até as orelhas, "jaquetão de defunto", sapato 84 bico largo e a famosa bengala, é mencionado como um personagem folclórico da cidade (Schmidt, 1954). Os clubes também proporcionavam momentos de diversão, promovendo festas e a prática de esportes (Bruno). Os bailes faziam parte da programação dos fins de semana. Esses "bailecos" aconteciam não s6 nos clubes mas também nas casas de amigos ou da vizinhança. A rua era também o cenário de muitas festas tradicionais, geralmente religiosas. Havia em São Paulo inúmeras procissões como: Divino, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aquiropita, Corpus Christi etc. Ou ainda as festas em comemoração aos santos Pedro, João e Antônio, da Penha, São Vito, São Benedito, Reis. Esses rituais representavam não apenas o culto a um santo, mas a comemoração que se seguia ao culto. Na festa de São Vito, além de uma procissão com a imagem do santo,

Corso Carnavalesco, São Paulo (1932)

havia a comemoração nas ruas do Brás com palanques, bandas e fogos. A homenagem à Nossa Senhora Aquiropita, padroeira dos peixeiros, era feita através de procissão, seguida de banda de música e barraquinhas de quermesse. São Benedito era um marco no calendário para seus seguidores. A procissão era preparada com muita antecedência e o ritual seguido com seriedade. O culto era seguido de comemoração com muita comida e dança na porta da igreja durante 3 a 4 dias. Começava no dia 1." de janeiro indo até o dia 6 de janeiro - festa de Reis (Bosi, 1987a:309). As festas juninas eram realizadas geralmente com a vizinhança, envolvendo a colaboração de todos os moradores: adultos e crianças. A fogueira aparece como o símbolo mais importante, mas não podia faltar o mastro em homenagem ao santo, o pau-de-sebo,

danças e comidas como: batata doce, quentão, pé-de-moleque, milho etc.

Procissão d e N. Sr." Aparccida São Paulo (1932)

Somente o carnaval aparece como uma manifestação coletiva separada dos festejos religiosos. O corso e as brincadeiras com água e farinha na rua aconteciam durante o dia, e as danças e os bailes eram realizados nos clubes. As festas cívicas eram realizadas principalmente nas escolas, e as comemorações do 1." de Maio - dia do trabalhador - aconteciam com discursos e manifestações, seguidas geralmente de almoços ou piqueniques. Paralelamente a essas festas que se realizavam nas ruas, aconteciam os festejos familiares do Natal e Páscoa. O Natal era a festa mais importante; as comidas especiais eram preparadas com dias de antecedência. O presépio e a Missa do Galo eram os símbolos do Natal. Os presentes também faziam parte do ritual, mas com um significado secundário, e o Papai Noel era chamado de São Nicolau.

A importância do Natal estava concentrada na reunião da familia, que algumas vezes ficava reunida desde a noite de 24 de dezembro até o almoço de 25 de dezembro. O Natal era comemorado também com muita música, tocada por membros da família, e com a realização de jogos e prendas onde todos participavam. Na Páscoa geralmente havia um almoço especial; e os italianos festejavam também a Pascoela (segunda-feira depois da Páscoa). São Paulo sofre inúmeras transformações nos fins do século XIX e durante as primeiras décadas do século XX: industrialização, urbanização, construção de ferrovias, eletricidade, imigração, criação de escolas, teatros, cinemas, aumento da população etc. Esses fatores trazem mudanças importantes no perfil da cidade que vai se despontando como um pólo de desenvolvimento e mudando paulatinamente os hábitos de seus habitantes, embora sem destruir a tradição de seus moradores. Mas as fábricas e ferrovias são um prenúncio de mudanças mais amplas que vão formando uma rede de relações contraditórias. O desenvolvimento da imprensa irá suscitar uma polêmica contundente com poetas e escritores, refletindo as contradições decorrentes desse início de modernização. Discute-se, por exemplo, a produção literária fragmentada sob a forma de crônicas que captam o instantâneo do cotidiano, ou romances em capítulos reproduzidos nos jornais, em contrapartida a produção de poesias e romances. Olavo Bilac, colaborador em diversos jornais do país, demonstra seu desprezo por esse ofício e ao mesmo tempo o justifica: "Afinal, que somos nós todos, jornalistas e cronistas, senão profanadores da arte e ganhadores das letras? A arte pura é o ninho de escol, que raros paladares apreciam. Mas a humanidade não é um viveiro de alunos superiores". (Sussekind, 1987:20). Tem início já nessa época a discussão sobre o tempo no espaço urbano como movimento veloz, onde o ritmo é fragmentado paralelamente ao tempo na zona rural, onde

Rua Direita esquina com XV de Novembro, 1.' década do século XX

Largo da Sé, fevereiro de 1916

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Avenida São João (entre 1922-1925)

a vida é calma e o trabalho segue o ritmo da natureza. A introdução de novas técnicas - a máquina de escrever, a tipografia - cria adeptos e resistentes a essas inovações que são consideradas símbolos de uma nova época que está se descortinando. Exemplo desse tema e hesitação está na carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, escrita em 18/04/1925. Comunico que comprei esta máquina. Se você estivesse aqui era um abraço pela certa, tanto que estou contente. Já se sabe: pelo processo amável da prestação. Engraçado, por enquanto me sinto todo atrapalhado de escrever diretamente por ela. A idéia foge com o barulhinho, me assusto, perdi o contexto com a idéia.
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Isso: perdi o contato com ela. Não apalpo ela. Mas isso passa logo, tenho a certeza, e agora é que você vai receber cartas bonitas de mim" (Andrade, 1966). As transformações suscitam polêmicas nos meios culturais da época, e a consciência da perda do processo da obra de arte, ou o início de uma indústria cultural, é a questão que tem aqui um fórum de debate, embora muito restrito aos intelectuais. Renato Ortiz discute a aplicabilidade do termo "indústria cultural" ao Brasil na década de 30. Para ele a sociedade brasileira ainda está "fortemente marcada pelo localismo", apesar da centralização iniciada por G Vargas, enquanto que o "caráter integrador" é um principais características da indústria cultural. O pr ucesso político iniciado por Getúlio não significou uma ruptura com a ordem social vigente, mas uma reordenação das forças políticas que disputavam o poder. Isto é, o poder é dividido entre as elites dominantes: a oligárquica (burguesia agrária) e a moderna (burguesia industrial). Essa unificação promovida por Vargas não significa umaintegração cultural nos moldes de uma sociedade de massa. Há uma "convivência" entre as propostas de modernização e a cultura tradicional herdada (1988:48-50). É essa convivência que permitia a São Paulo manter suas tradições, ainda que estas sofressem a influência das transformaçóes do sistema sócio-econômico. A preservação do espaço público como local do coletivo era concretizada no cotidiano dos moradores da cidade que tinham na rua o cenário de suas principais manifestações: as relações de vizinhança tecidas nas conversas, nos lanches, festas ou grupos de brincadeiras; os passeios, circos, cafés, rituais religiosos, cinemas e teatros representavam não apenas a possibilidade do lazer mas também a troca de idéias, experiências, de modo a aproximar o indivíduo

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ao seu grupo e também ao coletivo da cidade. E as manifestações culturais e religiosas expressavam a visão cole tiva desse cotidiano e das relações estabelecidas na so. ciedade.
b) A mudança da cidade a partir da década de 40

Até a década de 30, a urbanização de São Paulo, emt)ora intt:nsa, ficc3u restriita prati camente: ao cent:ro e bairr.os que o circuoidavam. As área.s valorizadas p c210s ben, . .e':A-A , . .-.mc..l+fi A"...-. 1. . . . . . A y ~ I L I UUG ~ a a L a I L u . agua, IUL, p ~ ~ ~ i ao ma centro, s são habitadas pcIr vJho s imigrantes em pequenas casinhas, enquanto sI classe alta localizava-se nos bairros de Campos TT2-?--1. e região da Avenida Paulista. A parElíseos, n~~ienopolis tir da década de 30 tem início, ainda em ritmo lento, um processo de deslocamento de setores da população para a periferia, localizada longe do centro e sem qualquer benefício. Na década de 40, com a Segunda Guerra, o Brasil entra no processo de substituição de importações, embora esse processo seja restrito e a expansão esteja confinada a alguns setores, e não a sociedade como um todo. A industrialização se intensifica na década de 50 com o plano de metas de Juscelino Kubitschek e a implantação da indústria automobilística sediada em São Paulo. É na década de 60 que São Paulo consolida-se como um centro urbano: verticalização da cidade, substituição do bonde pelo ônibus, a estruturação da cidade em função do automóvel graças a uma indústria automobilística nascente, aumento crescente dos empreendimentos imobiliários, crescimento da periferia.. . Enfim, São Paulo afirma-se como o pólo industrial mais importante do país. Inúmeros planos de urbanização e construção de pontes e avenidas faziam a ligação entre o eixo central e os bairros mais distantes, embora não atingindo amplamente a periferia.
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Os antigos vendedores ambulantes de ovos, frangos, frutas, verduras, legumes são substituídos por barracas, mercearias, quitandas, e mais tarde pelos supermercados. As quadrinhas dos diferentes vendedores na rua, a música de uma vitrola, o apito do trem, o cantar dos galos de madrugada ou o cacarejar de galinha e o som das brincadeiras das crianças são substituídos pelos ruídos do trânsito, das buzinas, dos congestionamentos, das sirenes de fábrica. São Paulo é invadida pela propaganda visual dos cartazes, outdoors, placas que se espalham por todos os espaços disponíveis nos bondes, ônibus, telhados, topos de prédios, muros, cinemas, teatros, sem falarmos nos meios de comunicação. As áreas verdes tornam-se cada vez mais escassas; São Paulo tem poucos parques, para uma cidade de seu tamanho. As festas religiosas e procissões vão diminuindo com o passar dos anos e, praticamente, restringem-se àquelas localizadas em alguns bairros de colônias estrangeiras em homenagem ao seu padroeiro. As festas juninas são ainda comemoradas em igrejas e em algumas poucas ruas, promovidas pelos moradores. O grande acontecimento da década de 50 foi o IV Centenário, onde o slogan "São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo" serviu de tema para as comemorações. O aniversário da cidade foi comemorado com exposições, shows, espetáculos folclóricos como a cavalhada, danças populares, carnaval, fogos de artifícios. O carnaval é a grande festa que permanece na vida da cidade, incrementada ano a ano pelo poder público que acaba por regularizar o desfile de escolas e blocos carnavalescos. A cidade moderna sofre as transformações do planejamento. Por um lado ela é unificada através da construção de grandes avenidas que cortam todo o seu espaço e trazem a magia das luzes; de outro lado, esse projeto

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torna transparente toda a contradição da vida urbana: congestionamentos, falta de segurança, falta de tempo, distância entre casa e trabalho, intensa diferenciação da renda de seus moradores etc. A vivência dessa transformação da vida urbana foi intensamente captada e transmitida por Baudelaire, poeta francês do século XIX (Bermann, 1988). Ao transitar pelos boulevards parisienses, ele experimenta os choques e os encontros com a multidão, que continua, impassível, o seu caminho. Na rua o transeunte, sem tempo, lança-se no turbilhão do tráfego, mistura-se ao aglomeramento humano e ali se perde. Esse ritmo louco e alucinante da grande cidade não conhece fronteiras, impõe seu ritmo aos passantes, ao seu modo de interação e aos seus movimentos no espaço comum. A cidade moderna, captada por Baudelaire, começa a se delinear em São Paulo nos anos 50. O crescimento econômico amplia as camadas médias da população, principalmente a partir da década de 60, que têm acesso a um mercado de trabalho em crescente desenvolvimento e às boas condições de moradia, em bairros com ampla infraestrutura. As camadas de baixa renda vêem-se cada vez mais empurradas para os bairros da periferia, perseguindo o sonho da casa própria através da compra de loteamentos em bairros sem nenhum melhoramento. "Para o trabalhador que estava sendo despejado e expulso - pelo progresso - de sua moradia situada em bairro central e bem servido de equipamentos urbanos, para o migrante que vinha procurar 'o progresso', a 'cidade que não podia parar' reservava um loteamento sem água, sem luz, com ruas intransitáveis. O progresso e o moderno terminavam nas longas e intermináveis filas de ônibus" (Kowarick, 1988:141-2). Para essa população o desenvolvimento não significou a sua inclusão nos processos de participação da sociedade. O progresso, ao contrário, trouxe condições de vida desumanas: a luta acirrada pela sobrevivência, a perda

das raízes culturais - tanto pelo imigrante quanto pelo trabalhador das indústrias, obrigado a repetir, durante horas, o mesmo gesto mecânico -, as largas horas perdidas na condução, a exaustão física. Em entrevista recente, Walter Avancini, diretor de TV, referindo-se h história de seu pai, declarou: "Depois de refazer sua (do pai) trajetória, compreendi que nenhuma criatividade, nenhuma ambição é possível para quem acorda às 4:30 da manhã, come mal, de marmita, e volta às 9:00horas da noite para cair duro na cama e no outro dia recomeçar (Avancini, 88). A perda da experiência, da possibilidade da reflexão, da memória como suporte da identidade, do enraizamento cultural e da participação no coletivo, o desaparecimento de todos esses elementos, resultado da modernização, significou o advento do indivíduo desmemoriado, sem vínculo com a tradição, que vive os sobressaltos e choques da vida cotidiana sem a possibilidade de reflexão. Trechos de uma crônica de Jorge Americano ilustram o vazio dessa vida moderna, no início da década de 60: "quando alguém tinha que entender-se com duas ou três pessoas tinha o dia inteiro ocupado. Hoje com dois ou três telefonemas resolve - sobra tempo -, então preciso preenchê-lo e multiplico os negócios - Paris, Londres, EUA. Mas meus nervos não resistem muito e produzem enfarte cardíaco. . . Não interessa voltar para a casa vazia. . . clube, para jogo, cinema, bar. . . Antigamente o meu tempo era cheio, e a minha mentalidade estava sempre ocupada. Agora não tenho tempo para procurar as soluções, porque já chegaram antes de ser necessário pensar. E a cabeça continua vazia, o tempo sobra em excesso. Ligo a TV - anúncios, notícias. Tudo é coisa sem interesse e o tempo continua sobrando. A vida comporta 50 vidas das de antigamente. Mas como uma s6 nos basta para o essencial, as 49 que vivemos a mais, ou são vazias de tédio, ou preenchemo-nas com loucuras, ou passamo-

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nas correndo de automóvel, de avião, telefonando, telegrafando, vendo ao mesmo tempo o que se passa aqui, em Istambul, Hollywood ou Tóquio, e não entendo nada" (1963:313-14). No Brasil, o processo de construção de uma identidade nacional ocorreu paralelamente a um projeto de modernização, iniciado no começo do século XX, sob forte influência européia, tanto em relação aos valores da elite dominante como em relação à formação dos intelectuais. Para a criação da Universidade de São Paulo, por exemplo, foram contratados professores da França, Itália e Alemanha, que permaneceram no Brasil durante alguns anos. Importante ressaltar que em países em desenvolvimento, como o Brasil, o "Modernismo ocorre". . . "sem modernização" (Ortiz, 1988:32). "O modernismo, em países subdesenvolvidos, foi forçado a se constituir a partir de fantasias e sonhos de modernidade, a se nutrir de uma intimidade e luta contra miragens e fantasias. Para ser verdadeiro com a vida da qual emerge, é forçado a ser estridente, grosseiro e incipiente. Ele se dobra sobre si mesmo e se tortura por sua incapacidade de sozinho fazer a história, ou se lança a tentativas extravagantes de tomar para si toda a carga da história" (Bermann, 1988:220). O projeto brasileiro de modernização conviveu com situações de extremo atraso cultural e tecnológico e se implantou a partir do Sul do país. São Paulo foi (e é), sem dúvida, a encarnação desse projeto, onde a transformação da cidade e das relações entre seus habitantes se deu de forma mais acelerada. Isso não significa que a modernização não tenha chegado aos mais longínquos pontos do país. Os meios de comunicação fazem esse trabalho. Em São Paulo, a urbanização acelerada, a transformação da cidade em grande centro urbano, destruiu muitos locais que preservavam um pouco de sua história. Como resgatar esse passado se tão pouco ficou da paisagem da Cidade? Como imaginar que se brincava nas ruas,

se estas hoje tornaram-se grandes avenidas? Como imaginar as serenatas, o desfile do circo, as procissões, se hoje o que vemos é uma grande metrópole, atropelada pela multidão de carros e pessoas que não têm tempo para parar e conversar ao encontrar o outro? "Olá, como vai, eu vou indo e você? Me desculpe a pressa. . . amanhã telefono, quem sabe?" (Paulinho da Viola). W. Benjamin enfatiza a função do historiador que "não é extinguir a tradição em que os 'bens culturais' são transmitidos de geração em geração, mas impedir, pelo contrário, que ela perca sua eficácia subversiva, ao ser remanejada pelos poderosos, ou desapareça, condenando o homem à amnésia e inibindo a redenção do passado" (Rouanet, 1987: 113). É preciso descobrir a beleza da cidade, a sua força e energia, a vivência que ela proporciona, como acolhe aqueles que a procuram. Tudo isso é, sem dúvida, diferente do passado; mas é preciso, para tanto, que conheçamos sua história, que pensemos na possibilidade de participarmos dela, de não sermos apenas espectadores. A partir dos relatos sobre as lembranças da infância podemos perceber uma vivência diferente na cidade, e percorrendo-a hoje sabemos que não é possível reviver, ou procurar reviver, de maneira nostálgica, as situações do começo do século. Mas podemos, a partir do resgate de um passado que é nosso, compreender nossas raízes culturais e, com isso, atuar no presente de forma participativa. 1.3 O grupo de brincadeiras Em São Paulo, nas primeiras décadas do século XX, o brincar está fortemente relacionado ao grupo de brincadeiras. Encontramos no estudo de Florestan Fernandes (1979:lS) uma análise sobre os grupos de brincadeiras como suporte para formação de relações sociais importantes no processo de identificação e construção da per-

sonalidade da criança. Ao promover a integração social, o brincar se apóia em dois elementos fundamentais: 1) o folclore, formado de elementos do passado (que persistem em processo de desintegração), mas que exige em suas brincadeiras a formação de grupos, e 2) os próprios grupos, cuja condição para formação é a vizinhança e a existência de um espaço onde possa se reunir. Para o autor, a criança, nos jogos e brincadeiras em que aspectos do folclore estão presentes, pode viver situações que dão sentido às suas inquietações, pode, além disso, experimentar a convivência social e apreender "certas distinções fundamentais para o comportamento humano" (1979:16). Neste estudo, F. Fernandes se refere às trocinhas do Bom Retiro, que constituíam-se em grupos de crianças daquele bairro (1979: 161). Procura analisar as influências socializadoras das brincadeiras folclóricas no grupo formado na vizinhança, por ser este o mais estável e integrado. Essa integração e estabilidade consistem basicamente numa relação duradoura entre as crianças, na proximidade e na existência de espaço onde elas possam se reunir diariamente. A análise do autor aponta para a permanência de grupos de brincadeiras, o que permite a sua existência, qual sua importância e, ao mesmo tempo, quais são os elementos novos que estão surgindo paralelamente às brincadeiras folclóricas, e quais as mudanças que estão ocorrendo na cidade e que começam a dificultar as brincadeiras na rua e em grupo. Os dados de F. Fernandes, coletados nas décadas de 40 e 50, permitiram-nos traçar parâmetros para a análise do brincar e das brincadeiras nas primeiras décadas do século XX, onde consideramos que: 1) a existência de um espaço é fundamental para a concretização do grupo e, portanto, para a perpetuação do folclore; 2) a atividade em grupo encaminha a criança para uma participação ativa na construção de relações sociais; 3) a possibilidade de manutenção das tradições culturais está relacionada à

existência de grupos, uma vez que essas brincadeiras tradicionais são coletivas por excelência; 4) a permanência do folclore permite uma relação da criança com valores humanos universais surgidos da convivência na comunidade, e que têm um significado para ela. As brincadeiras são, então, um meio para se chegar ao coletivo geral da humanidade; nelas a criança trabalha questões importantes da essência do ser humano: medo, fantasia, faz-de-conta, além de experimentar relações sociais presentes em determinado coletivo (grupo social a que pertence), como cooperação, competição, ganhar, perder, comandar, subordinar-se etc . . . Selecionamos algumas brincadeiras cuja existência remonta há séculos e que foram mencionadas por todos nossos entrevistados. Podemos perceber em cada uma delas a possibilidade de a criança lidar com esses valores, reelaborando-os no seu contexto de vida.

Casinha Na brincadeira de casinha a criança pode ressignificar conteúdos do passado de acordo com seu presente, construindo e postulando "conceitos" sobre esses papéis: mãe, pai, filho, irmão etc. A partir desta construção pode projetar-se para o futuro, isto é, imaginar viver esses papéis na realidade objetiva do futuro.

Boneca
A boneca é um dos brinquedos mais antigos e difundidos em todas as culturas (povos primitivos, antigos, modernos). Possui grande significado em cultos e ritos religiosos, muitas vezes considerada perigoso instrumento do feiticeiro e do bruxo, "indispensável na magia simpática do envultamento, onde é a presença simbólica da vítima nos processos do feitiço, catimbó, muambas, coisafeita, canjerê, no plano universal e milenar" (Câmara Cascudo, 1972:178). Também serviu às mulheres elegantes

(séculos XVI-XIX) como manequim de moda, substituída, depois, pelti gravura (Aries, 1986:89-91). A boneca esteve sempre na esfera da magia, entre o belo e o místico, trazendo em sua presença afeto e significado para o ritual, para o vestir-se e para o brincar. No brincar, a relação entre a criança e a boneca é uma relação de amor, de paixão. A boneca, na brincadeira, cria vida e, assim, torna-se um ser único naquele momento, e por mais que existam réplicas idênticas, em cada relação ela é única, tem uma história, um jeito de ser que cativa, traz afeto; submete-se à criança e/ou revela a própria criança (Benjamin, 1984:98-101).

Pegador
A brincadeira de pega-pega é uma brincadeira de perseguição como gato e rato (Benjamin, 1984:74). Ao brincar de pegador a criança se relaciona com esse "jogo" em que, independente da época ou lugar, existe sempre o que persegue e o que é perseguido. No jogo, o que persegue busca, através de estratégias, pegar o outro: pára, disfarça, finge que não está vendo o outro, até conseguir agarrá-lo. O perseguido provoca, faz acenos com o corpo, espera a aproximação do que o persegue e sai correndo.. . Até que em um momento existe o encontro, e a perseguição termina para ser reiniciada; os papéis são trocados. No jogo de perseguição, a busca do outro é marcada pelo aproximar-se e afastar-se, entre gritos e risadas, até o momento do encontro. Outros jogos dentro desta mesma temática são: menino pega menina e menina pega menino. A perseguição do feminino e do masculino, busca do outro sexo; em meio à excitação do próprio jogo acontece o encontro, o prazer. . . E através da brincadeira a criança trabalha uma questão inerente à humanidade, a da fusão do feminino e masculino, da paixão e desejo.. . Na cabra-cega temos a perseguição e descoberta. O pegador persegue

alguém que s6 será possível conhecer e desvendar quando conseguir tocá-lo. Na queimada, a perseguição é de um alvo, que é alguém escolhido para que se imprima uma marca (a queimada com a bola). Ao imprimir a marca o outro perde sua vida e vai para o cemitério.. . Polícia e ladrão, uma perseguição com papéis determinados e adaptada para nossos dias. Esconder A relação nesta brincadeira é entre o esconder e procurar o que está escondido. A magia do esconderijo e o mistério de descobrir o que está oculto e pode se revelar. W. Benjamin em "Criança escondida" (1984:80) nos mostra a relação da criança no brincar de esconder ou de procurar o escondido. "Criança Escondida" "Já conhece todos os esconderijos da casa e retorna para eles como a um lugar onde se está seguro de encontrar tudo como antes. O coração palpita, ela prende a respiração. Aqui a criança está refugiada no mundo material. Este se lhe torna extraordinariamente nítido, acerca-se em silêncio. Somente o enforcado, no momento da execução, se dá conta do que significa cordas e madeira. Atrás do cortinado, a criança transforma-se, ela mesma, em algo branco e que sopra como o vento, converte-se em fantasma. A mesa de jantar, debaixo da qual ela pôs-se de cócoras, deixa-a transformar-se em ídolo de madeira em um templo onde as pernas talhadas são as quatro colunas. E por detrás de uma porta ela própria é porta, carrega-a consigo como uma pesada máscara e enfeitiçará, como um sacerdote mágico, todas as pessoas que entrarem desprevenidas. Por nenhum preço ela pode ser encontrada. Quando ela faz caretas, dizem-lhe que basta o relógio

bater as horas e a careta ficará para sempre. O que há de verdade nisso tudo, a criança sabe-o em seu esconderijo. Quem a descobrir pode fazê-la petrificar-se como ídolo debaixo da mesa, incrustá-la para sempre como fantasma na cortina, bani-la pelo resto da vida na pesada porta. Por isso, quando é tocada por aquele que a procura, a criança deixa escapar, com um forte grito, o demônio que a transformaria, para que este não a encontre - na verdade nem espera por esse momento, antecipa-se a ele com um grito de autolibertação. Por isso ela jamais se cansa de lutar com o demônio. A casa é o arsenal das máscaras. Contudo, uma vez por ano, encontram-se presentes nos lugares mais secretos, nas órbitas vazias de seus olhos, na severa boca da casa. A mágica experiência tornase ciência. A criança desencantada, como seu engenheiro, a sombria moradia do país e procura ovos de páscoa".

Na discussão da repetição levantada por Agnes Heller
(1985:55-9) vemos que esta passa por um processo de se-

leção: só repetimos elementos do passado que têm significado no presente. Podemos encarar a questão do esquecimento ou desaparecimento de brincadeiras deste ponto de vista. A criança, como qualquer indivíduo, preserva e repete experiências que ela pode relacionar com seu universo e que dão sentido ao seu presente. Assim, o conteúdo de algumas brincadeiras pode já não ter um significado para a realidade vivenciada hoje pelos grupos de brincadeiras. Muitas vezes sabemos que são de início impostas por uma moda - bambolê, iô-iô - mas, muitas vezes, renascem no próprio contexto do grupo e vão passando para outros grupos pela oralidade - cama de gato, corda e elástico, sela, menino pega menina.

A partir do significado das brincadeiras tradicionais e do estudo de Florestan Fernandes, pudemos perceber em que condições se formavam os grupos de brincadeiras em São Paulo nas décadas de 40150 e a importância do brincar na vida dessas pessoas. Esse material foi importante para formularmos a análise sobre as condições que propiciam a formação de grupos de brincadeiras e o papel das tradições culturais nos relatos que coletamos.
1.4 Procedimento na coleta e análise dos dados As entrevistas seguiram um roteiro prefixado, embora não tenha havido por parte dos entrevistadores uma rigidez para se ater ao roteiro, e o narrador muitas vezes nos contou outros fatos de sua vida. Tratou-se, portanto, de coletar depoimentos, e não histórias de vida, uma vez que o colóquio foi dirigido pelo pesquisador, que procurou ouvir do narrador os acontecimentos que mais se inseriam dentro do trabalho. Nesse sentido, o foco principal foram as narrativas em torno da infância. A análise do material coletado nos trouxe várias dúvidas sobre como trabalhar os dados. Na verdade, se de um lado não queríamos perder a riqueza de cada narrativa, de outro lado nos deparávamos com uma quantidade muito grande de material que poderia tornar-se difícil para o entendimento do leitor. Depois de muitas leituras de cada entrevista, optamos por analisá-las, tendo como parâmetro algumas categorias selecionadas (e, portanto, organizamos cada entrevista em função dessas categorias), ao mesmo tempo em que retomávamos à leitura individual de cada narração, para nos certificarmos da não-descaracterização dos depoimentos. Nossos esforços foram não só de preservar o conteúdo de cada depoimento e do conjunto dos depoimentos mas também de transmitir toda a riqueza das narrações que traduzem de forma muito viva a infância no período de 1900 a 1950.

Gostaríamos ainda de salientar que há nos relatos um certo tom homogêneo, como se todos os entrevistados tivessem passado por experiência de infância semelhante, independente do fato de pertencerem a diferentes classes sociais. Essa homogeneidade se encontra, principalmente, na visão que o entrevistado tem da infância e de si mesmo enquanto criança, ou seja, que lugar a criança ocupa na família, quais são os limites estabelecidos para sua atuação. Além disso, no período enfocado não há grande produção industrial de brinquedos, o rádio era o único meio de comunicação de massa ao lado dos jornais que tinham pouco alcance. Não há, portanto, grande "apelo" ao consumo através da propaganda. Os locais para brincadeira, passeio e diversão são as ruas, parques, ou seja, lugares públicos, aos quais todos tinham acesso. Os relatos foram analisados segundo as seguintes categorias:
1) Descrição de características da cidade, do bairro e da rua como condições materiais que propiciavam a existência dos grupos de brincadeiras. 2) Rotina de vida e dimensão do aspecto lúdico no cotidiano. 3) Festas e comemorações - papel das tradições coletivas na formação desses indivíduos; importância de aspectos religiosos nessa formação. 4) Brincar e brincadeiras: - a vizinhança e os grupos de brincadeiras, - o folclore nas brincadeiras, - participação e criatividade na construção de brinquedos, - a tradição da narrativa oral. 5) Significado da infância para os entrevistados este aspecto nos deu uma dimensão do que ficou na memória e foi transmitido, e sua importância naquela época e hoje.

6) Percepção que os entrevistados têm da infância de uma geração posterior (filhos e/ou sobrinhos), processo importante para se compreender as mudanças ocorridas.

2. Os relatos
A cidade, o bairro, a rua

São Paulo, nas primeiras décadas da século XX, é descrita como calma, bonita, cheia de árvores, e sobretudo gostosa e tranquila para se sair às ruas. Em todos os relatos transparece de novo, assim como nas crônicas e autobiografias, essa visão de uma cidade onde o ritmo de vida obedecia a uma cadência regular e onde o espaço público integrava o lazer dos moradores. Mas fica claro que as primeiras lembranças da cidade como um todo já não são lembranças da infância, mas da juventude. A imagem é de uma cidade bonita, em contraposição com a percepção de São Paulo hoje. No entanto, podemos sentir que por trás desse conceito de beleza, está também a nostalgia, ou a lembrança de uma cidade que proporcionava uma vida mais gostosa, alegre e divertida. Citamos a seguir dois relatos de pessoas com vidas muito diferentes, onde a beleza da cidade se confunde com o tipo de vida que São Paulo proporcionava.
( A cidade) "Era totalmente diferente. Tinha algumas coi-

sas mais antigas. Na minha época, a gente achava tudo bonito. Tinha as casas de chá, tinha o Mappin. Naquelas ruas, não recordo os nomes das ruas, tinham aquelas casas de chá que as moças se reuniam para tomar chá com os namorados, os colegas. Tinha tudo isso que agora não tem mais. . . " (D. Liliana)

"Na minha época, quando eu fiquei moça, eu gostava muito de ir pros bailes, e eu achava que era gostoso São Paulo. Naquele tempo tinha, no Parque D. Pedro, um parque chamado Parque Shangai.. . eu adorava ir no parque. Nos domingos, eu acabava o serviço, e então eu ajudava a copeira, arrumadeira. Eu trabalhava nas Perdizes, fazia o serviço pra sair logo, pra ela me levar lá.. . mas nós não íamos lá pra andar de roda-gigante, pra andar naqueles divertimentos, nós íamos pra dançar, porque no meio daquele parque tinha um baile. . . Depois comecei a frequentar o circo do Piolim, quando não ia pro Parque Shangai. Depois eu descobri aquele salão de Baile Paulistano na rua da Glória.. . A gente ia dançar lá, e eu adorava ir dançar lá. Depois a gente corria o tempo todo, sem parar, pra chegar na estação, pegar o trem pra ir pra casa. A gente andava da rua da Glória até a estação Sorocabana, lá em Carapicufba. E eu achava que São Paulo era muito mais bonita do que agora, né?" (D. Mercedes). Se é nas recordações da juventude que aparecem as imagens da cidade, a rua onde foi vivida a infância é uma lembrança muito viva para os entrevistados. A rua era um prolongamento da casa e integrava o cotidiano da vida. E é na sua descrição que vemos como era precária a urbanização da cidade; ruas em bairros como Ipiranga e Itaim não tinham iluminação e calçamento; a iluminação de bairros como os da Luz e Santa Cecília era feita com lampiões de gás, e eram raros os estabelecimentos comerciais, localizados geralmente na rua principal do bairro. "A minha rua era uma rua totalmente sem calçamento e não havia passagem de automóvel, pois tinha mato no meio da rua. Passava só carroça que na época fazia a entrega do pão. . . Os padeiros passavam servindo o pão e o leite pela carroça.. . E luz, só tinha nas casas". (D. Lúcia).

"Na Silva Bueno era um deserto total. Quando passava o bonde é que você via alguém na rua. Era uma escassez de iluminação tanto na Sorocabana, quanto na Silva Bueno.. . A Silva Bueno naquela parte não tinha muitas casas de comércio e havia poucas residências.. . E lá perto, onde é o Ginásio Visconde de Itaúna, era um morro, onde a gente ia brincar; era um campinho de futebol". (Dr. Hubhy).
"A rua em que eu morava na minha infância era uma rua com mais ou menos dois quarteirões, era iluminada com lampião de gás, e movimento, muito pouco. Tinha só gato nas esquinas naquele tempo, de modo que as crianças eram bem protegidas". (Sr. Fausto).

São Paulo na década de 50 já era uma cidade grande, com maior movimento e, embora o centro ainda fosse o local onde havia maior número de teatros, cinemas, lojas, os bairros estavam desenvolvendo-se cada vez mais. Entretanto, ainda era possível, em muitos bairros, a preservação das brincadeiras na m a e do grupo de crianças, como nos descreve F. Fernandes e nos confirma o depoimento de Idalina: "Eu morava na rua Tabapuã; não tinha muito trânsito, mas acho que em São Paulo nem tinha, né? Era asfaltada e as paralelas e as transversais não eram; eram de terra e eu gostava de ficar andando de bicicleta o tempo inteiro. . . a gente tinha assim muitos amigos de nossa idade, amigos e amigas, então a gente passava o dia inteiro brincando". (Idalina).

A rotina de vida na infância
Embora relatos de pessoas com histórias de vida tão diversas, podemos perceber nitidamente em todos eles que o significado da infância estava dado no brincar e, aos 7 anos, brincar e frequentar a escola. A brincadeira acontecia todos os dias com os primos ou com a criançada

da vizinhança, para alguns no período em que não se ia à escola, para outros a noitinha, logo depois do jantar. A escola, que naquele tempo assumia uma postura tradicional e rígida, é lembrada por todos como um espaço gostoso, onde aconteciam, além dos estudos, as brincadeiras com amigos e comemorações das datas cívicas. Apesar de alguns lembrarem às vezes de uma professora que foi mais severa, o essencial do que ficou guardado na memória foram as brincadeiras no recreio, ou mesmo nas aulas de religião, as festas, as "bagunças" e as histórias contadas.

"Ah, eu me lembro do jardim da infância que n6s brincávamos muito no jardim e nas salas de aula.. . A gente cantava muito, as crianças cantavam.. ., e havia muita festa e a gente brincava.. . No curso primário do Caetano de Campos, havia uma cerimônia cívica toda quinta-feira, vamos dizer assim, uma homenagem à Bandeira. Então eram escolhidos os três melhores alunos de uma classe, um era porta-bandeira e os outros seguiam ao lado dele. A bandeira vinha trazida por essas crianças, assim com uma solenidade, iam até o pátio, todas as classes estavam formadas ali, e alguém recitava uma poesia sobre a Bandeira e depois cantava o Hino à Bandeira. Depois a Bandeira era recolhida e a gente entrava em aula.. . A gente tinha que ir toda enfeitadinha, toda de fita nova no cabelo, pois as meninas tinham fita no cabelo, e então deviam ir muito arrumadinhas, porque quinta-feira era o dia da Bandeira. . . Eu me lembro que havia também a festa da árvore onde se plantava uma árvore na Praça da RepúbIica. A festa de 7 de setembro e 15 de novembro. . . Não me lembro bem, pois o que me gravou muito foi exatamente essa homenagem à Bandeira que era semanal". (D. Edith).
(Na minha escola) " A aula de religião era dada aos domingos e era bem frequentada, vinham muitas crianças. Não sei de onde aparecia tanta criança que vinha pra

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aula de religião. Porque a gente não tinha o que fazer no domingo, então assistia a aula de religião, porque os padres davam muita brincadeira, muita competição. Tinha até a hora do calouro, quem gostava de cantar ia lá cantar. . ." (D. Lúcia).
(Na escola) "Ah, a gente brincava, tinha os recreios; o recreio da manhã era passear, a gente saía passeando por um pastinho lá, que dava a volta pelo meio do pomar. . . No recreio da hora do almoço e da hora do jantar é que a gente fazia jogos ou tinha a Banda, a Banda da Bandeira que chamava-se. . . Nos dias de chuva as irmãs (freiras) jogavam vêspera e contavam histórias, sempre baseadas na história sagrada, na religião, pois era o que se usava na época. Elas eram pessoas deliciosas. Hoje em dia que a gente pensa bem. . ." (D. Nina).

Se o dia-a-dia caracterizava-se pelas brincadeiras e pela escola, as lembranças do final de semana não se diferenciavam muito desse cotidiano. Nos fins de semana havia mais tempo para brincar, e, aos domingos, o programa comum a muitos entrevistados era a missa. Alguns relatos mencionavam a presença do pai em casa como uma figura mais severa e, portanto, as crianças tinham que se comportar melhor. Eventuais passeios aos parques da cidade eram realizados nesses dias, assim como visitas a parentes, idas ao cinema e ao circo, programas característicos de São Paulo. Mas podemos depreender que o fim de semana não é uma recordação especialmente viva nos relatos que coletamos. Volta a impressão de uma cadência muito regular da vida, onde tudo acontecia num ritmo igual e tranquilo. "Fim de semana naquele tempo era tudo tão pacato né, não havia programa assim, fora do comum. . . Não tinha nada diferente, aquela mesma rotina, a não ser brincar mais na rua. . ." (Sr. Fausto).

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"Os dias eram todos iguais. Não é como hoje que no fim de semana precisa fazer algum programa diferente. Naquele tempo a gente não fazia e nem em férias. Quando ia fazer um passeio ou férias ia a família inteira junto.. . Não tinha uma coisa especial para criança não. Ia a família inteira passear na Praça da República. A gente andava por lá, espiava os peixinhos que tinham lá naqueles espelhos d'água.. . E os homens passeavam de um lado e as mulheres de outro.. . Cinema era um divertimento importante. A gente ia uma vez por semana, mais que isso às-vezes, à matinê do Odeon, às vezes havia um filme que a gente podia ir (mas eu era mais mocinha). Depois aparece o Metro que fica lá na avenida São João. . . tinha o Rosário, o Aliambra. Eram todos ali no centro, porque a vida, as coisas, a gente comprava tudo lá no centro". (D. Nina) "Meu pai levava sim, no cinema, mas matinês, antigamente. Tinha um cinema na rua Doze, então meu pai levava a gente no cinema. Levava passear em quermesses, essas coisas. . . Meu pai levava passear no Jardim da Luz, tirava fotografia no Jardim da Luz, na Praça da República. . . Tinha a banda, tinha os pipoqueiros, essas coisas, periquitinho pra tirar a sorte". (D. Mercedes)

"O que eu me lembro de fim de semana, na época de minha infância, até 7 anos com meu pai vivo, era que domingo nós íamos à missa das 10 horas na Igreja de São Bento, e depois da missa nós íamos comprar qualquer coisa numa leiteria que se chamava Leiteria Peri. Depois voltávamos pra casa. Eu não tenho recordação do que se fizesse, tenho a impressão que a gente ficava em casa, meu pai lendo o 'Tesouro da Juventude'. . . .Nós íamos sempre a circos. Talvez aos domingos a gente devia ir ao Jardim da Luz, eu tenho uma lembrança do velho Jardim da Luz, que era possível ser frequentado na época, mas depois disso ele passou a ser proibido". (D. Edith)

"Feriados não se trabalhava, papai ficava em casa, o que a gente não gostava muito. Não se ia A escola, não se fazia nada, era dia de descanso mesmo. Era dia de pôr um vestidinho mais bonito, porque papai estava em casa tinha que estar mais arrumadinha. Não podia se sujar que a mamãe ficava brava.. . Era o dia em que não podia ir pra rua brincar, ele (pai) não deixava sair na rua. Ninguém saía na rua, ficava todo mundo no quintal ou dentro de casa.. . E a gente gostava de correr na rua, de brincar de pega-pega, de todas essas coisas, então pra gente não era um dia assim gostoso, era um dia de castigo pode-se dizer". (D. Lúcia)
(No domingo) "Era um dia de sair pra rua. O pai queria descansar por causa do feriado, e então não se podia brincar dentro de casa, não podia fazer barulho". (Dr. Hubhy)

Também nos depoimentos dos entrevistados que passaram a infância na década de 50 e inicio da década de 60, a rotina dessas pessoas ainda se centralizava n o brincar na rua e na escola. "A gente passava o dia inteiro brincando, era escola, brincar.. . o tempo inteiro.. . Na rotina em geral era mais brincadeira, escola. Nos fins de semana a rotina não era muito alterada, geralmente se visitava parentes ou se ficava na vizinhança, na casa de um, na casa de outro. Eventualmente se faziam passeios. Todo fim de semana ia visitar a família, meus primos. Eu, pelo menos, curtia muito porque eles eram da minha idade". (Idalina) "Durante a semana a gente brincava, ia h escola e fazíamos as refeições com a família toda reunida. Nos fins de semana, quando o meu pai era vivo, a gente visitava os avós em São Roque e também em São Paulo. . . As vezes fazíamos piquenique". (Rose)

Festas e comemorações
As lembranças de festas comemoradas na infância são muito vivas para alguns entrevistados. Mas essas festas eram geralmente de caráter religioso. Podemos sentir, em todas as entrevistas das pessoas que passaram a infância até a década de 40, que o sentimento religioso integrava o cotidiano dessas famílias, e as comemorações eram ritualizadas e respeitadas, sem dúvida, por serem todos pertencentes a famílias onde se praticava a religião. As festas, para alguns, significavam a possibilidade de encontrar pessoas, parentes e amigos. Eram comemorações coletivas, como as festas juninas, ou familiares como o Natal. Alguns entrevistados lembram da Primeira Comunhão como uma data importante, onde as meninas usavam um vestido branco especial e geralmente havia depois um almoço ou lanche para os parentes.

". . . quando a gente fez Primeira Comunhão, à tarde a minha tia fez em casa chocolate e um bolo para os parentes e amigas. Então aquilo pra nós foi uma grande coisa, nós ficamos todas entusiasmadas, tão contentes, porque a gente achava que no dia da Primeira Comunhão íamos receber Jesus. Agora já as crianças não têm mais essa ilusão, né? Mas era dia de Primeira Comunhão, que a gente ia receber Jesus, colocávamos vestido branco, comprido, tudo isso. Quando foi à tarde, teve uma procissão, porque era dia da Imaculada Conceição. E nós fomos pra Igreja, depois da volta da procissão que teve o chocolate em casa". (D. Mevcedes) "Eu fiz minha Primeira Comunhão e eu ainda tenho meu véu; vou lavá-lo bem direitinho e faço questão que a minha sobrinha use. Mas eu tive uma enorme decepção, porque me disseram que quando a gente fazia a Primeira Comunhão podia pedir três graças que seriam concedidas por Deus, eu não me lembro de duas graças, mas de uma terceira eu me lembro muito bem; eu não

era uma criança que tivesse voz boa para cantar, a minha mãe tinha, a madrinha Ana tinha, mas eu não tinha, e tinha outras meninas no colégio, minhas companheirinhas lá que tinham voz bonita, que cantavam, né. Então eu pedi prá Deus pra ter voz.. . e a voz não veio. Então eu fiquei muito descrente". (D. Nina) "Quando fazia Primeira Comunhão tinha chocolate e brevidade.. . A minha mãe fazia bastante chocolate e todo mundo tomava chocolate, as amigas da gente vinham em casa, geralmente as primas". (D. Lúcia) Para o Dr. Hubhy, de religião católica ortodoxa, o ritual religioso mais importante de que tem lembrança é o batizado. "Como eu era o caçula, não tive chance de ver nenhum batizado da minha casa. Eu vi de algumas crianças mais novas do que eu. Os padres ortodoxos iam na casa e batizavam mesmo. E.. . batizar, enfiavam a criança dentro d'água". (Dr. Hubhy)

O significado das datas religiosas variava para cada entrevistado. Para o Sr. Fausto, as datas eram momentos para reza, não para comemorações. Isso talvez se explique por pertencer a uma família de religião espírita, e não católica.
"Eu nunca apreciei. Acho que essas comemorações deveriam ser todas com respeito, rezando, elevando o pensamento a Deus, e pedindo forças para as pessoas melhorarem a sua alma, o seu espírito. Mas esse negócio de 'comedoria' e festança nunca foi do meu gosto." (Sr. Fausto) Para outros entrevistados, as datas religiosas seguiam uma tradição que lhes era, significativa, acontecendo no coletivo, onde as comemorações envolviam festejos. Em

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alguns depoimentos, além das festas, algumas figuras como o Anjo da procissão, o coroinha, imagens de santos e de Jesus ficaram gravadas na memória. Essas festas faziam parte do calendário católico e são lembradas algumas vezes com muitos detalhes. "A primeira vez que me levaram a uma igreja eu fiquei muito espantada, porque eu tinha uns 6 anos, nunca tinha visto aquilo. Fui a uma reza que tinha o padre, uma porção de coroinhas, aqueles ajudantes dele, que hoje a gente quase não vê mais nas igrejas, mas no ritual antigo tinha. Aí, quando saímos da igreja, meu padrinho perguntou o que que eu gostei mais lá na igreja, e eu, como toda criança, disse que eu gostei mais dos filhinhos do padre. (Que eram os coroinhas). . . E tinha as procissões. Foi quando eu sai de anjo. O padrinho me perguntou: Você quer sair de anjo, ou quer passar as férias no Rio? Eu preferi aquele ano sair de anjo. Então, tinha asas, eu achava lindo ser anjo, subir lá no altar e ficar lá em cima, e coroar Nossa Senhora era pra gente uma coisa muito gostosa". (D. Nina) "Tinha sim, procissão. Festejava dia 31 de maio por exemplo, era coroação de Nossa Senhora, não sei se 30 ou 31 de maio, era importantíssima no colégio essa data. . . O colégio inteiro participava. Tinha também na época da Páscoa aquela procissão que fazia quando Jesus ressuscitava, Jesus morto primeiro, depois Ele ressuscitando. Tinha procissão e a gente acompanhava". (D. Liliana)

O Natal é sempre lembrado como a festa mais importante do ano, quando a família se reunia para um almoço ou uma ceia especial. A missa era parte das comemorações, assim como a montagem do presépio e da árvore. Um dos entrevistados lembrou que antigamente o Papai Noel era chamado de São Nicolau. As crianças ganhavam um presente, mas fica muito claro, em todos os

depoimentos, que o Natal tinha um significado religioso e de encontro familiar: o presente não era o foco principal da festa. Para o Sr. Fausto, de religião espírita, o Natal é lembrado com menor intensidade, embora com respeito, como ele próprio afirma. "A gente comemorava com respeito, mas esse negócio como hoje, que fazem mesas fartas, isso não havia, não, era costume mesmo.. . Acho que era só uma reza e nada mais". (Sr. Fausto)

O Natal, assim como o 1." de Janeiro, eram as únicas festas comemoradas na família do Dr. Hubhy.
"Só havia Natal e 1 . O do ano, mas era só entre família; mãe, pai, filhos, avós e as vezes alguma tia. Me lembro inclusive que havia uns doces especiais, uns doces árabes. Eu me lembro deles só nestas festas, não havia outras festas". (Dr. Hubhy) Nos demais depoimentos, essas lembranças são muito vivas e ricas em detalhes.

"O Natal era principalmente reunir a família quase que inteira, só quem não podia vir mesmo, mas era quase que toda família. Então tinha importância, e pra mim até hoje parece assim, uma tradição, uma coisa importante que se eu não vou, tá faltando alguma coisa.. . Lembro que meu pai adorava fazer surpresa pra nós quando nós éramos pequenos, escondendo os presentes. Então eu procurava fazer da mesma maneira com meus filhos, e todo mundo gostava". (D. Liliana)
"No Natal minha tia fazia uma comida melhor.. . Matava um leitão que era pro almoço, meu pai comprava bastante frutas, e comprava peixe. Teve um ano que meu pai comprou até camarão e eu falei: '- Pai, essa comida é de rico! Isso não se compra é comida de rico!' '- Mas

eu gosto de comer muito bem!. . .' (ele respondeu) . . . A gente punha o capim no sapato e deixava na janela, porque meu pai queria que n6s tivéssemos aquele pensamento que íamos ganhar presentes". (D. Mercedes)
"O Natal em casa era comemorado assim.. . a passagem de 24 para 25, que a gente assistia a missa do galo, depois tinha a ceia. Geralmente eles não levantavam da mesa, emendavam a ceia com o almoço. Isso meus pais, as crianças iam dormir. Mas eles ficavam ali, depois do almoço é que iam descansar. Na ceia tinha o presépio que o meu pai fazia, tinha a reza e então acendia o presépio.. . A gente catava uma espécie de musgo pra meu pai fazer o presépio. Ele armava assim, como uma cabaninha de bambu, dentro da sala, ele trançava os galhos de bambu. Tinha o menino Jesus que era grande na caminha e então ele colocava bem embaixo daquela cabaninha de bambu e tinha umas velas, tudo em volta. Depois que a gente vinha da missa do galo ainda tinha uma reza, acendia as velas. . . E presente nada.. . o nosso presente era no dia da Epifânia, dia de Reis, né? Vem a ser no dia 6 de janeiro. . . Mas dificilmente a gente ganhava brinquedo. . . geralmente' a gente ganhava vestido, sapato, meia e um saquinho de bala, esse era o presente". (D. Lúcia)

A Páscoa era comemorada com um almoço especial,
e as famílias de tradição italiana comemoravam a Pascoela. Não havia ovos de chocolate, mas ovos coloridos pintados em casa.

"A mamãe fazia em casa ovos coloridos, pintava com papel e fervia com chá, aí eles ficavam amarelos, então ela desenhava, pintava, esse era o ovo de páscoa do nosso tempo. De chocolate eu fui ver já era bem crescidinha . . ." (D. Lúcia)
"A mamãe tinha sangue italiano. Ela gostava muito da Páscoa. Ela fazia tortas, e os ovos de Páscoa eram

ovos mesmo, comuns, que ela pintava com anilina azul, cor de rosa, amarelo. . ." (D. Nina) As festas de São João, São Pedro e Santo Antônio (juninas) foram sempre comemoradas em São Paulo com toda uma tradição da zona rural. São recordações muito fortes e lembradas principalmente como uma festa de rua, pela maioria dos entrevistados. "Meu pai comprava lenha, armava uma fogueira, comprava o mastro de São João, fazia bastante doce de laranja, bastante pipoca, né? Ele comprava os fogos que ele gostava: rojões, buscapé, essas coisas. Mas antes de começar a festa tinha que rezar o terço e oferecer pra São João dar bastante saúde pra ele (pai se chamava João). Então, aí rezava o terço, levantava o mastro, soltava os fogos daí começava um baile. Todo mundo dançava, o baile era com vitrola. Tinha quadrilha, marcava a quadrilha. E os convidados eram os vizinhos". (D. Mercedes) "Na festa junina a rua inteira comemorava. Então era pinhão, batata doce, bolo de fubá, pipoca, amendoim, tudo eles torravam na fogueira. Acendiam aquela fogueira enorme e às vezes até churrasquinho de lingüiça era feito na fogueira.. . Tinha um vizinho que soltava o buscapé pra correr atrás da gente". (D. Lúcia) "As festas juninas eram vibrantes. Comemorava-se na minha família, os três santos, cada dia era numa fazenda.. . (interior de São Paulo). Era com fogos, com fogueira, com festa com os colonos juntos da fazenda. Tinha batuque, tinha dança no terreiro, tinha quadrilha, fogos, soltavam balões e montavam mastros com a bandeira do santo, tinha pau-de-sebo. . . Ai! Que delícia!" (D. Nina)

Finalmente, o carnaval: festa coletiva da cidade. Na rua, a tradição era o corso e brincadeiras de água. Nos salões dos clubes havia os bailes.

". . . Mesmo quando n6s éramos pequenos, com meu pai vivo, ele nos levava pra cidade, eu acho que era ali na Rua XV de Novembro.. ., por ali onde passavam os blocos, passavam os carros alegóricos". (D. Edith)
"Tinha a festa do carnaval, né? Desde pequena, porque o meu tio era o diretor no salão, e então ele levava a gente pra dançar o carnaval na sede e eu gostava demais, nós gostávamos.. . sempre gostei dos bailes de carnaval". (D. Mercedes) Na década de 50, São Paulo já não contava com tantas procissões e manifestações religiosas, e isso é caracterizado nas entrevistas das pessoas que passaram a infância nessa época e não guardam lembranças dessas comemorações. A Páscoa, e principalmente Natal, são preservados, seguindo uma tradição aprendida, mas já nesse momento o Natal, para a criança, começa a se centrar mais nos presentes. A festa junina continua se caracterizando como uma festa de rua e conta com a participação de toda a vizinhança. "Eu gostava de Natal. Aquela história de roupinha nova, não ligava muito não, ir pra casa do avô, da av6, dos avós do lado do pai, do lado da mãe, eu lembro que eu não curtia isso não. Eu curtia s6 o Natal por causa dos brinquedos, sabe? Páscoa também passava um tempo na família, antigamente tinha duas tradições né, mas eu não me lembro muito bem. Na festa junina todo mundo ajudava a fazer uma fogueira enorme, a gente ficava arrecadando madeira duas ou três semanas.. . era importante porque a gente batalhava pra ter a festa junina". (Idalina)

"Das festas Natal, Páscoa, junina, a que mais me marcou foram as festas juninas. Natal, Páscoa eram passadas com a família na casa da avó. E o Natal é preservado atC hoje (festa onde reúne toda família). Mas a festa junina reunia toda a criançada da vizinhança. Tinha uma grande fogueira e comidas da festa: pipoca, batata doce, bolo de fubá.. . Não tinha quadrilha e ninguém ia 'fantasiado', mas soltavam balão, rojão, fogos. . . Para mim festa junina era fogueira e reunir todo mundo. Dos aniversários lembro, mas não muito. Lembro que tinha festa, chamava os amigos. . . Lembro também de minha Primeira Comunhão que foi importante, apesar de ter sido uma reunião mais familiar (seu pai tinha morrido há pouco tempo). Mas a festa que tinha mais significado e ficou muito marcada para mim foi a junina. É foi sim.. . Nossa eu achava um barato!!! No carnaval a gente se fantasiava e fazia sangue de diabo e aí íamos todos para a rua brincar e muitas vezes as pessoas nos xingavam, pois nós molhávamos todos que passavam". (Rose)

A vizinhança e os grupos de brincadeiras

A brincadeira é, Sem dúvida, um símbolo diretamente relacionado à criança e isso não representa uma novidade. Mas, ao fazermos uma viagem no tempo descobrindo como era São Paulo de 1900 até por volta de 1940, retratamos uma cidade que estava em transformação, sim, mas uma cidade tranquila, cheia de árvores, pouco trânsito e com muitas ruas sem calçamento e vários terrenos baldios. Prédios não são mencionados, pois esses, geralmente, estavam localizados no centro. A casa era o local padrão de se morar. São Paulo era uma cidade com muitos locais de encontro, ruas de passeio, uma cidade que se caracterizava, também, pelos sons das quadrinhas dos vendedores, pelo batuque de estudantes, pela música dos ho-

mens do realejo, pelas canções, gritos e corridas das crianças brincando na rua. . . A criança brincava ontem, brinca hoje e brincará amanhã. Mas em cada tempo esse brincar tem uma característica e um significado especifico. O brincar de "ontem" era o brincar coletivo, o grupo de brincadeiras constituído pelas crianças da vizinhança ou pelos primos. Esse brincar acontecia na rua, no quintal. A infância era caracterizada pela brincadeira e pela escola. Era só isso. Talvez pareça pouco a primeira vista, mas acreditamos que por trás dessa simplicidade podemos descortinar um mundo de uma riqueza enorme de significados e experiências. Os brinquedos, é claro que existiam, mas não tinham importância tão grande como as brincadeiras coletivas. As crianças se encontravam todos os dias, e esse vínculo, sem dúvida, permitia que o grupo tivesse um repertório grande de brincadeiras que aumentava com as contribuições individuais. A troca de experiências e a participação de cada um significavam um momento de socialização e de identificação com um coletivo. Esse espaço de brincadeira era restrito às crianças, que se agrupavam sem complicação, com muita simplicidade. "Todo dia a gente brincava. Saíam todas as crianças na rua, aí a gente brincava e 9 horas todo mundo era chamado, e todo mundo entrava. E eram s6 as crianças, os adultos não tinham uma interferência". (D. Edith) "As brincadeiras eram assim grupos de crianças que não eram formadas por ninguém, as crianças que faziam sozinhas seus grupos. Juntava, brincava. 'Posso brincar?' 'Pode.' Então entrava e brincava". (D. Lúcia) "Ficar amigo das crianças na rua, isso é uma coisa natural, porque a gente sai pra fora de casa, vê um menino, aquilo é uma coisa instintiva, natural". (Sr. Fausto)

Para algumas crianças a rua era um local proibido pelos pais, podendo, às vezes, brincar na calçada. Mas a brincadeira, mesmo no quintal, era sempre feita em grupo, com as crianças da vizinhança, ou com os primos que tinham um convívio muito próximo.

"A gente brincava em casa, porque nossa casa tinha um quintal grande, e esse quintal era todo plantado pelo meu tio. Tinha uma porção de pés de frutas: mexeriqueira, laranjeira.. . E a gente subia nas árvores. E embaixo dessas árvores meu tio tinha uma horta. Dava brócolis, almeirão, e tudo quanto era verdura, até pimentão dava. Na rua minha tia não deixava brincar. A gente morava no Alto da Lapa, e na rua passava muito carro. A minha tia não gostava de ver a gente solta na rua, ela era muito severa.. . A gente brincava com as primas e as amiguinhas que moravam por ali brincavam junto". (D.Mercedes)
"Não me permitiam brincar na rua porque diziam que eu era uma menina de família. Na rua quando saía era acompanhada. Eu brincava com minhas primas dentro de casa (quintal)". (D. Nina) "Eu brincava com as meninas da vizinhança. Ou eu ia na casa delas ou elas vinham na minha.. . Era mais no quintal de casa, uma vez ou outra brincava na porta da rua, mas ao alcance, né.. . Fazia um pouco de amarelinha assim na calçada, mas em frente de casa.. . E mesmo esconde-esconde, cabra-cega, era tudo no quintal de casa, não na rua". (D. Liliana)

O gmpo de brincadeiras estruturado em função da
vizinhança ainda pode ser encontrado a partir dos anos 50, como os depoimentos abaixo ilustram.
"A gente brincava o dia inteiro. O grupo era formado com o pessoal da rua mesmo né, entendeu, o pessoal da rua, sei lá, acho que nasceu todo mundo lá junto, cresceu junto. As brincadeiras eram só pras crianças.

..

Quando aparecia adulto, era pra ralhar, pra brigar, porque a gente tinha feito alguma arte. Realmente a gente aprontava de longe, mas toda hora que a gente via adulto era pra correr, porque era o pai de um, pai de outro, porque as casas eram todas juntas, não sabia pra quem ia a bronca né?". (Idalina) "Muitas vezes eu pulava a janela do quarto e ia para o campinho da rua para brincar. Brincava mais com os meus vizinhos japoneses e tinha os vizinhos dos fundos, os italianos. A casa era grande, tinha um quintal que encontrava com o quintal do vizinho, onde a gente brincava muito. Brincava na rua, no quintal e às vezes dentro de casa, de casinha". (Rose)

A vizinhança mantinha relações de troca e camaradagem, enfim um espírito de comunidade que ainda permanecia em bairros de São Paulo. Em vários depoimentos menciona-se que era todo mundo amigo, e que as pessoas se comunicavam das janelas das casas para pedir algo que faltava em sua casa. Compartilhavam até das novidades eletrônicas, como conta Idalina.
"Era um grupo grande de crianças. Eu me lembro que no bairro a primeira televisão foi na casa da minha mãe. Então, quando meu pai comprou a televisão, minha casa parecia um cinema, porque já tinha assim toneladas de crianças. Ficavam todas sentadas em fileiras, e ia assim todo mundo junto assistir o raio da televisão né, todo mundo louco pela televisão. . . Que nem o telefone. . . o primeiro que apareceu no bairro também foi lá em casa.. . aí cada vez-que tocava o telefone vinha a vizinhança inteira para ouvir. . ." (Idalina)

I

O folclore nas brincadeiras
Ao lermos histórias e depoimentos com a descrição de brincadeiras, vem-nos de imediato a pergunta: Mas

onde as crianças aprendem essas brincadeiras que são sempre as mesmas desde tempos tão antigos? Como as crianças, em bairros tão diversos de São Paulo, brincam das mesmas brincadeiras? Sabemos que muitas brincadeiras remontam à antiguidade, como a amarelinha, e que há um "processo de seleção", segundo o qual algumas brincadeiras permanecem e outras são esquecidas. E as que permanecem são transmitidas de geração a geração, de boca em boca pelas crianças no grupo. As brincadeiras tradicionais, que vêm do folclore, necessitam do grupo para executá-las, e a existência desses grupos preserva aquelas brincadeiras que continuam tendo um significado para as crianças. E ao perguntarmos a todos os entrevistados com quem aprenderam essas brincadeiras, a resposta era sempre a mesma, como no exemplo do Sr. Fausto. "Onde aprendi as brincadeiras e coisas que a gente fazia.. . Ah!. . . isso é na rua, com os amigos, né?" (Sr. Fausto)

A descrição dessas brincadeiras, a maioria possível somente em grupos, revela o seu significado: um espaço onde a criança participa, é criativa, tem um papel e uma atuação.
"Eu brincava de roda, de cirandacirandinha, de esconde-esconde, de casinha. . . Tinha jogo de amarelinha, riscava a calçada e depois a gente ficava pulando.. . A gente pulava corda, jogo de fazer pular que nem chicote. Ah! vai sacudindo com bastante força e a pessoa vai pulando sem bater na perna, se não bater na perna, pulava de cá, pulava de lá.. . se você não conseguir pular você cai fora". "Peteca era em grupo também. Uma turminha do lado de cá e uma turminha do lado de lá. Você não podia derrubar a peteca no chão".

"De bilboquê também era em grupo. Conforme você conseguisse encaixar o bilboquê, quem encaixava mais ganhava a partida". (D. Liliana)

(Na rua) " A gente brincava de Barra Ball, de acusado, de roda; as meninas brincavam de roda com aquelas cantigas de roda, de soldado-ladrão. Tinha uma brincadeira que a gente gostava muito. . . brincar de estátua.. A gente brincava também de pedrinfias . . ." "Nós em casa, adquirimos um hábito, porque na casa havia um corredor grande.. . então nós brincávamos com os discos de casa. Jogando os discos assim. Essa era uma das brincadeiras que nós fazíamos, e a outra, como nosso corredor era relativamente estreito, então nós púnhamos as duas mãos nas paredes e os pés também, e subia. E ficávamos tudo lá em cima encosEdith) tados no teto, conversando". (D.

.

"Nós brincávamos muito de barra-manteiga, pegapega, esconde-esconde, mas só com as meninas. Tinlia uma brincadeira que no nosso tempo chamava mão-na-mula. A gente colocava uma pessoa que ficava abaixada, a gente colocava a mão do lado, depois abaixava e ia indo, formava uma fila e ia todo mundo pulando. Brincava também de amarelinha, de pula-pula, pulapau que chamava. A gente colocava a madeira, colocava dois pauzinhos e ia aumentando até quando a gente conseguia pular. . . E tinha outra brincadeira que chamava de atirar a faca. A brincadeira era na época de chuva, e como a rua era de barro formava uma lameira, então a gente tinha uma faca que atirava no chão e a faca tinha que cair em pé, dentro do risco. Então ia jogando, quem não deixava a faca cair era o campeão, a faca tinha que enterLúcia) rar no chão, de bico". (D.
"A brincadeira maior mesmo era futebol.. . as peladinhas de rua, e uma vez ou outra no domingo, no sá-

bado, formava-se aqueles timinhos de futebol e jogavam contra uma vila. Os garotos de cada lugar da várzea.. . não tinha regra, não tinha nada. Era só chutar a bola e fazer gol.. . só mais tarde, no ginásio, tinha time de 11.. . tinham os grêmios.. ." (Dr. Hubhy)
"A gente brincava de passa-passa três vezes, brincava de passar anel, de roda, de amarelinha, de pular corda e brincava muito de casinha também. Os meninos jogavam bola, pelada, né, que chamava antigamente.. . Agora quando a gente já estava maior, a minha tia lavava roupa e mandava a gente entregar na casa das freguesas dela. E nessas saídas então é que a gente fazia pega-pega na rua". (D. Mercedes)

No estudo de brincadeiras folclóricas deparamo-nos sempre com textos de parlendas, cantigas, canções e adivinhas que são coletados desde o século passado e encontrados até hoje em muitas regiões. As lembranças de cantigas de roda como: "Sra. Dona Sancha", "A canoa virou", "O cravo brigou com a rosa", "Ciranda, cirandinha", ou canções de ninar como "Nana nenê" estão ainda muito presentes nos relatos. Aparecem também adivinhas e brincadeiras que envolvem textos ou canções folclóricas.

". . .Escravos de Jó. Nós todos brincávamos com isso, com as caixinhas de fósforo; tinha umas musiquinhas; 'Um, dois feijão com arroz; três, quatro feijão no prato; cinco, seis é o freguês', como é?" (D. Liliana)
As brincadeiras também podiam ser uma dramatização: casinha e mamãe-filhinha são as mais significativas e as que persistem através dos tempos. É a possibilidade de expressar sua visão de mundo, de experimentar a vivência do mundo adulto a partir do seu enfoque. E também coletamos um relato de dramatização de teatro inventado pelas próprias crianças.

". . .Que eu me lembre assim de casinha, era isso mesmo; lá em casa eu me enfiava com as bonequinhas, fazia comidinha, fingia que estava fazendo comidinha, trocava as bonecas, vestia as bonecas, mas era isso mesmo, de mamãe, de papai, brincava de médico, botava o esteto pra uma olhar a outra, tudo brincadeirinha mesmo, que nem as de hoje". (D. Liliana)
"Brincava de casinha, brincava de ser cabeleireira, enrolar cabelo, brincava de escolinha também.. . e eu era sempre a professora, eu s6 queria ser professora". (D.Lúcia) "N6s também gostamos de encenar, brincadeiras de cenas, teatro, né? N6s apresentávamos para as duas irmãs do meu amigo e elas riam muito com as brincadeiras que n6s fazíamos." (Sr. Fausto) Também nos momentos onde a vivência se restringia a grupos pequenos (duas ou três crianças) fica muito evidente a criação e a fantasia da criança como o motor da brincadeira. No relato abaixo não há menção a brinquedos, e a integração com a natureza é tão grande que seus elementos tornavam-se os principais brinquedos. "Eu inventava, e apesar de ser ainda muito menina quando eu vivia no Maná, eu já fazia os desenhos. Eu podia s6 fazer na cozinha, no chão da cozinha, eu fazia com carvão do fogão. E eu contava a minha história, fazendo meu desenho.. . Eu tinha dois cães. O Tigre e o Eriti. Tinha um gato que dormia comigo todas as noites, e eu tinha também uma cabra chamada Bretanha. Tinha também as plantas.. . os lírios do brejo que ficava tudo branco.. . Eu brincava com tudo isso, e havia um pasto que eu ficava deitada lá com os cachorros. E sobretudo nos dias que tinha vento, bastante vento, e as nuvens passavam correndo, o meu mundo era limitado ali, naquele vale. E eu desejava ardentemente ser uma nuvem pra ir prá lá:

Eu brincava também com a Geni e a Vicência.. Fazia minhas cacas de bonecas ou de outras coisas, sempre em cima de uma árvore. Porque o mundo era mais bonito lá em cima". (D. Nina)

.

"Na casa de minha tia tinha assim um jardim na frente, então eu vivia plantando matinhos.. . dai o meu pai um dia fez um canteiro não é, comprou umas sementes de flores e semeou lá pra mim. E cresceram as flores Bonitas. Eu tomava conta, molhava de manhã, molhava de tarde.. . Então quando eu ia pra escola.. . passava por uma rua e aquelas casonas bonitas que tinha uma roseira. Então eu levava uma tesourinha, apanhava três galhos de roseira, né, na cerca, enrolava um papelzinho e levava pra professora". (D. Mercedes) Assim como o grupo da vizinhança se manteve n a década de 50, os jogos e brincadeiras eram praticamente os mesmos lembrados desde as primeiras décadas do século: esconde-esconde, pega-pega, bola, futebol, roda, passa anel, casinha. . .
"A gente brincava muito de cabra-cega, de pelada no meio da rua, futebol, bolinha de gude, de boneca, assim de casinha. . . Fazia cirquinho, teatrinho . . ." "Eu curtia muito bolinha de gude. A gente pegava aquelas tampinhas de garrafa, fazia buracos na terra e aí os moleques é que montavam lá o quadrado e tal, e tinha que acertar as bolinhas para ganhar as bolinhas. A gente ganhava muitas bolinhas e ia tampando os buraquinhos. E pouca coisa que eu lembro, não me lembro mais exatamente. De casinha, a gente brincava em casa. A gente empurrava um raio de um armário que a minha mãe tinha, enorme, e fazia a casinha perto do armário, punha lençol, e num sei que.. . Quando a gente brincava de casinha, era comidinha, não era que nem agora, que brinca os meninos com as meninas, não tinha não.. . Era mais curtir sozinha, comida com pãozinho, a gente comprava

aqueles arroizinhos doce que tem até hoje e metia nas panelinhas, era coisa tudo assim. Mas a gente curtia mais brincar com os meninos mesmo, que era na rua, né.. . trepava nas árvores. Lá perto da nossa casa tinha uma casa, tinha pé de goiaba, pé de manga, pé de tudo, e a gente trepava naquelas árvores. A gente curtia muito comer frutas na árvore, então vivia pendurada, coisas assim". (Idalina) "As brincadeiras que lembro que eu mais fazia eram casinha, futebol, queimadas, bicicleta, roda, pegador., esconde-esconde, amarelinha. Uma das brincadeiras de roda que lembro que eu fazia era passa anel, onde quem ia passar o anel coloca entre as mãos fechadas e todos também fechavam a mão e tinha uma música que iam cantando, até passar por todos e depois alguém é chamado para descobrir com quem está o anel. Outra brincadeira de roda que lembro é 'Eu fui no Tororó'. No pegador, esconde-esconde, não fazia nada para escolher: começava com alguém e conforme a brincadeira ia acontecendo, quem fosse pego era o próximo a pegar ou bater cara". (Rose)

Participação e criatividade na construção de brinquedos
O brinquedo é essencial na relação da criança com o mundo, tornando-se um instrumento através do qual ela pode transformar suas fantasias num jogo. A boneca é a filhinha, a bola possibilita inúmeros jogos de perseguição, um pedaço de madeira é um barquinho, a lata é um carrinho.. . Enfim, o brinquedo pode ser também as árvores, as nuvens. . . e portanto não é necessariamente algo acabado, pronto e embalado, mas tudo o que possibilita a criança e a imaginação no brincar. Todas essas possibilidades ficam muito claras na infilncia das crianças daquela época, quando a indústria de brinquedo era ainda muito restrita. Os brinquedos eram

poucos, geralmente a boneca, panelinhas, carrinhos, bicicleta, bola, pião, bilboquê. "Lembro que tinha bastante boneca, me lembro de um jacaré que eu tinha, gostava muito, meu pai me deu. Era só isso mesmo, boneca, e uns brinquedinhos mais.. . panelinha, casinha de boneca, fogãozinho, era assim. . ." (D.Liliana) "Não tinha muito brinquedo. . . mas a madrinha me deu uma casinha.. . Tinha a caminha que era feita de madeira, de algum artesanato, e também ganhei as primeiras xicrinhas com bulinho que era de louça, porque a nossa coisa de brinquedo era muito limitada, naquele tempo, como livro de história". (D. Nina) "Brinquedo, olha, a gente ganhava todo ano no Natal uma boneca. . . Mas naquele tempo tinham umas bonecas que não era plástico, era um negócio que amassava se a gente apertasse.. . quando não eram daquelas era um bonecão de papelão que não podia molhar". (D. Mercedes) "Eu ganhava no Natal uma boneca, um fogãozinho com panelinhas, mas era só no Natal e . . . Mas eu nem dava bola, não interessava pra mim aquele brinquedo, não me chamava atenção. Eu gostava mesmo era de brincar na rua, de correr, eu sempre corria muito, pular corda, pega-pega, barra-manteiga, lencinho atrás, nossa! Eu gostava dessas brincadeiras, pular amarelinha". (D. Lúcia) Nos jogos em que se usavam brinquedos, estes eram complementados pela construção com madeira, papel, lata etc. feita pelas próprias crianças. Ela é aqui, de novo, um agente participante, capaz de integrar, nessa constru@o, o processo como um todo, relacionando-o com todos os elementos que estão ao seu alcance. Os depoimentos

abaixo enfatizam essa realidade quando, ao contar-nos sobre as brincadeiras de m a naturalmente aparecia uma gama enorme de brinquedos construídos pelas crianças.
"A tarde era brincadeira na m a . . . patinete, carrinho de rolemã que a gente fazia em casa.. . Aquelas rodinhas são de automóveis, caminhões, então você ia nas oficinas mecânicas, e eles davam pra gente e faziam esses patinetes de rolemã, que chamavam ou então aqueles carrinhos pra serem empurrados". (Dr. Hubhy)

"Brinquedos. . . eu 6rincava muito, sempre gostei desde criança de marcenaria, de modo que me divertia muito pegando uma madeira, serrando e pregando prego. Fazia uma coisa, fazia outra, construindo brinquedos". (Sr. Fausto) "Fazia também a brincadeira de perna de pau.. . A gente mesmo fazia, colocava prego, batia, eu e meus irmãos, a gente fazia. E fazia telefone sem fio, que a gente falava. Eram duas latinhas. Então pegava uma latinha de massa de tomate, fosse do que fosse, e passava um barbante dentro de cada, uma falava de um lado e outra do outro. Também brincava com pneu, pneu de carro abandonado. A gente entrava 'dentro, o outro empurrava, então rolava dentro do pneu". (D. Lúcia)
" . . .Fazia aquelas bonecas de trapo, porque ajuntava aquela turma de meninas mais velhas, e a gente arranjava pano para fazer boneca de pano. Minha tia dizia que era bruxa. As vezes, a gente pegava pedacinhos de pau pra fazer mesinhas, cadeirinhas, essas coisas.. .". (D. Mercedes)

A construção de brinquedos estava também muito
ligada a o calendário, às estações do ano, onde em determinadas épocas se brincava de brinquedos específicos.

"A gente fazia fogueira de São João. E então as brincadeiras mudavam porque fazia fogareiros de lata de óleo. Meu irmão que fazia, ele fazia um buraquinho embaixo, pra poder acender aquelas lanternas e então amarrava um barbante comprido assim na latinha como uma alça. . . e quantas vezes pegava fogo no barbante e arrebentava. Mas aí quando tinha arame fazia de arame. Aí chamava de lanterna, colocava fogo dentro dessa lata e aquele buraquinho é que mantinha a labareda por causa do vento que entrava, a gente rodava aquilo assim com a mão. Também na época de junho a gente fazia outra brincadeira com mamão verde. A gente fazia uma careta, fazia os olhos, o nariz e os dentes, e colocava uma vela acesa dentro. Isso a gente fazia para apavorar os outros.. . Fazia porque era época de inverno. Na época de inverno eram todas essas brincadeiras iie fogo. Na época de outono tinha muito vento e a gente fazia pipa. Nós brincávamos de pipa, capucheta. Capucheta era um tipo de pipa feita de jornal, e eu não sei por que se chamava capucheta". (D. Lúcia)
Ainda não havia TV, veículo de comunicação de massa responsável pela grande divulgação dos brinquedos. Não havia a necessidade do consumo. "Existia brinquedos mas.. . lá na Silva Bueno, por exemplo, não tinha uma loja que tivesse brinquedo que pudesse chamar a atenção de uma criança, como uma bicicleta, não tinha. A gente diz que não tinha porque a gente não tinha nem a chance de ver.. . Tinha algumas crianças assim que tinham um padrão de vida um pouquinho melhor e tal, mas eu, durante a primeira infância, até os 7 anos, nunca vi. Depois dos 7 anos começaram a aparecer umas lojas e começavam a aparecer esses brinquedos, patinetes sofisticados com rodinhas de borracha e mesmo carrinho". (Dr. Hubhy)

Ao ouvirmos os depoimentos mais recentes percebemos uma mudança em relação aos brinquedos. Nessa época a indústria de brinquedos já estava muito desenvolvida e a descrição das brincadeiras já aparece acompanhada dos novos brinquedos, onde andar de bicicleta na rua, andar de patins, patinetes, com os amigos, era um grande divertimento. A TV ainda era algo muito novo, acessível a poucas crianças, mas a variedade de brinquedos já bem maior do que aquelas descritas nos relatos acima.
"A gente tinha uma variedade grande de brinquedos. O brinquedo que eu mais gostava era da bicicleta". (Idalina)

"Eles (sobrinhos) brincavam na rua. Eles andavam de patinete, patins, bicicleta". (D. Nina) "Brinquedos eram boneca, bola, apetrechos de médico, panelinhas, fogão, bicicleta". (Rose)
A tradição da narrativa oval

Além da brincadeira e do jogo, as histórias têm um papel fundamental na vida da criança, que gosta de ouvila, sobretudo aquelas com as quais se identifica. Algumas são contadas há séculos, como os contos de fada, e falam de sentimentos essenciais do ser humano. Outras fazem parte da identidade cultural de um povo e por isso também permanecem. Cada vez que contamos essas histórias, reportamo-nos a história do homem e do grupo a que pertencemos, preservando, assim, um passado que nos diz respeito. Narradas pelo pai, pela mãe, pelos tios, pelos avós, e também muitas vezes pela empregada, esses momentos em que, caladas, as crianças ouviam histórias marcaram fortemente suas lembranças. "Minha tia contava essas histórias do Chapeuzinho Vermelho, da Branca de Neve.. . contava umas histórias

do Lobisomem pra morrer de medo. Ainda há pouco, eu acreditava em Lobisomem. Depois que eu comecei a ver nas novelas eu achei que é ilusão. Saci Pererê, essas Mercedes) coisas também minha tia contava". (D. "Lembro que meu pai contava as histórias do 'Tesouro da Juventude' e minha mãe contava uma história que não acabava nunca. Ela não acabou. Porque é a história da princesa que ficou louca, e tinha a bruxa que acho que ela arrancou um pouco do cabelo da princesa e ela fervia o cabelo da princesa num tacho e por isso que a princesa era louca. Isso aqui era, vamos dizer assim, a parte principal da história, agora o resto ela inventava, e esta história não acabou, porque ela sempre contava a história, a princesa continuava louca, porque a bruxa continuava fervendo o cabelo da princesa. E tinha outras histórias do João e Maria, do Gigante, Cinderela, Branca de Neve.. . No sítio, eu me lembro que nós éramos pequenos, a gente saía à noite, as crianças e os adultos, e a gente ia em outras casas e era assim meio impressionante.. . Tinha aqueles fogões a lenha, então as crianças ficavam sentadas ali num foguinho não muito forte, arrebentava pipoca, e os adultos primavam por contar histórias de terror, sempre, não havia outra conversa. E depois pra voltar pra casa a gente morria de medo.. . Eram histórias de Saci, de Lobisomem, de Mula-semCabeça. Em casa tinha uma babá nossa. Agora ela era contra tudo o que se diz de uma empregada, pelo tipo de história que ela contava. . . Ela punha medo na gente que o Bicho-Papão vinha pegar você, que o soldado vinha pegar você, e não sei mais o quê. Isso ela fazia sempre. Edith) mas isso não marcou em nada". (D. "Eu me lembro que minha mãe me contava do Saci Pererê, que ele aparecia à noite, quando o pessoal estava dormindo e trançava o pêlo dos cavalos. A história do Lobisomem que quando tinha 7 irmãos homens, o 7 . O , quando tinha lua cheia, virava lobisomem e assustava o

pessoal, andando pela noite. Tem também da Mula sem Lúcia) Cabeça que soltava fogo pelo pescoço". (D. "As lendas, as histórias que eu ouvia eram histórias árabes que minha mãe contava.. . Lembro de uma que tinha um tipo meio preguiçoso que pediram pra ele tomar conta de uma casa e era inverno, na neve, e ele não podia; se ele agiientasse aquele frio sem se agasalhar, ele ganhava um prêmio. . ." "Outra lenda importante que eu acho é das estações, porque lá na Siria os velhinhos têm medo do inverno, igual aqui só que eu não me lembro o que uma estação disse pra outra.. ." (Dr. Hubhy) "Aprendi tudo com minha mãe. Em noites que a gente não podia sair de casa, que chovia, é que ela contava essas lendas, as modinhas, porque a gente falava Lúcia) modinhas, essas cantigas de roda". (D. "Eu gostava dessas histórias da Gata Borralheira, de príncipe, princesa, da Bela Adormecida. Tinha a minha mãe que contava, meu pai. Como eu era a mais velha, então quem começou a contar pras minhas irmãs fui eu. . . às vezes a própria empregada contava também do jeito dela, e da Branca de Neve e outras.. . A minha avó era muito legal. Ela não morava muito perto da minha casa, mas vinha muito me ver, assim pelo menos uma ou duas vezes por semana.. . Ela contava muitas, inventava histórias, nossa! Ela adorava contar histórias, e ela sabia que eu adorava, e eu me fazia de toda interessada por eu ver ela tão feliz né, às vezes .eu tava um pouco cansada de história, mas eu ficava com o olho bem arregalado e ela me contava coisas. Então era muito gostosa as historinhas dela, ouvia até eu dormir já de grandinha, eu me lembro bem". (D. Liliana) As histórias de tradição oral também são lembradas nos depoimentos de Rose e Idalina. Lembram dos contos de fadas e também de personagens do folclore brasileiro.

"Que eu me lembro é da Maria contando do Lobisomem, de fantasmas, de diabo, de mula-semcabeça, e na época me impressionava viu, hoje eu dou risadas, mas na época eu tinha um medo desgraçado dessas histórias: A Maria contava todas essas histórias, porque ela se realizava de ficar contando. Acho que ela via que a gente ficava era com medo, mas a gente pedia pra contar, a gente queria mais que contasse, porque a gente achava que era um negócio real, você entende, a gente curtia assim, a gente queria era ter medo mas que a gente curtiu. Ela acabava de contar porque a gente dormia, dai ela ia pôr a gente na cama, e ela não sabia contar história de Cinderela, Branca de Neve, e ela queria entreter a gente com aquelas histórias que ela conhecia, e a gente curtia mesmo essas histórias. A gente ficava esperando a noite pra ela contar, eu pedia pra ela repetir, e a gente ria muito inclusive, você acredita? Com medo, a gente ria muito das histórias dela porque, ela contava muito engraçado, dramatizando muito a história tal, e, a minha irmã e os meus irmãos já eram bem menores né, então era mais eu e a baixinha, a gente curtia muito". (Idalina)

Sobre o significado da infância
A percepção da própria infância como uma fase gostosa é muito explícita nos depoimentos. Sem dúvida, ela está marcada pela distância temporal que pode se traduzir por uma visão nostálgica, ou por uma mescla de percepções de outras épocas. Ao falar sobre sua infância, os entrevistados estão também refletindo sobre o significado desse período de suas vidas tanto naquela época quanto hoje, ou seja: o que foi ser criança do modo como isso ocorreu, e qual o significado dessa infância para cada um hoje.
Alguns pontos são significativos para anaIisarmos mais detalhadamente a visão que os entrevistados nascidos até a década de 30 têm daquele período. Os relatos expressam uma percepção de que a educação na infância

dessa época foi muito severa e rígida, assim como era bastante claro para todos quais os limites possíveis e as sanções que acarretavam as transgressões. A criança tinha um espaço muito definido que não deveria ser questionado em hipótese nenhuma.

".. . As crianças da minha época não eram pra fazer perguntas, então ela (a madrinha) me ensinou o catecismo. Eu nunca tinha ouvido falar de nada, né? A primeira coisa que ela ensinou foi sobre Jesus Cristo. E na casa do meu pai tinha um grego, um empregado que chamava Cristo. E eu fiquei muito espantada de botar o nome daquele Cristo. O Cristo lá era um beberrão, tomava uns porres daqueles. E então me ensinaram Ave Maria cheia de Graça. Mas como eu não podia perguntar.. . eu não sabia o que era Graça, eu só conhecia as graxas das carroças, e eu dizia: 'Coitada.. . cheia de graxa, será da preta ou da amarela?'. . . Depois quando chega no fim da oração dizia 'Rogai por nós pecadores' e eu não sabia o que era pecador. Pescador eu sabia o que era, então, quando eu via um pescador, eu chorava por causa do coitado. Ele com a varinha nas costas e n6s duas (minha irmã e eu) chorando". (D. Nina)
"Quando a gente pegava flores nas outras casas pra levar pra professora, e chegava em casa e contava pra minha tia, minha tia batia na gente.. . Minha tia tinha uma colher de pau, abria a mão da gente e batia. . . mas a gente continuava apanhando as rosas.. . No dia da Primeira Comunhão, eu cheguei em casa chorando, com o lírio rasgado (um cachorro estraçalhou o lírio) e com isso levei uns tabefes do meu tio, que disse: Bom, vou pedir perdão a Deus porque hoje você recebeu Jesus, mas você já fez arte, você vai apanhar". (D. Mercedes)

"... A minha infância foi mais rígida, os brinquedos, tudo mais em ordem, só com aquela menina podia brincar, com aquela outra, por exemplo, não. Com aquela

vizinha, sim, com aquela outra, não. Então foi uma infância mais rígida. . ." (D. Liliana)

". . . eu montava o cavalo sem sela, sem nada. Eu montava e minha mãe ficava muito zangada, era às vezes que eu apanhava. Meu pai dava com a cinta. Eu só torcia na hora pra que não fosse do lado da fivela, aí doía muito". (D. Nina)
Os princípios e valores morais eram explicitados e reforçados pelos ditados e provérbios populares, muito comuns naquela época, e que exprimiam, muitas vezes, uma filosofia de vida. "A madrinha Ana dava muita atenção a gente sim, ela ensinava como a gente devia se comportar, me lembro das pregações da madrinha 'é na mesa que se conhece a educação de uma pessoa', e 'é na mesa da comunhão também'. Eu era uma menina que gostava, que tinha muita vontade de ler. Ela (madrinha) não deixava muito porque ela dizia: 'Os romances são como os cogumelos, os melhores não prestam'." (D. Nina) "Minha vó costumava falar muito provérbio né, por sinal que agora qualquer coisa que eu falo, eu arrasto um provérbio junto, mas vem espontâneo eu não me lembro assim todos que ela falava mais. Tinha um provérbio que ela dizia: 'Quando a barba do vizinho está pegando fogo, a gente põe a nossa de molho' e outro 'Não atire pedra no telhado, porque senão o teu telhado é de vidro também', e daí pra fora. Tinha mil, nossa senhora!" (D. Liliana)

A severidade, rigidez da educação, e principalmente a
impossibilidade de a criança participar das decisões que lhe diziam respeito, acarretam conseqüências tanto ao nível individual como ao nível dessa geração, que construiu sua personalidade calcada sobre esses princípios. Entre-

tanto, é importante ressaltar também que ficou nelas a admiração por seus pais e sobretudo um sentimento de proximidade, apesar da aparente distância.

". . .Mamãe ficou viúva com 32 anos, mas era uma senhora de valor. Muito enérgica e educou bem os filhos. Eu com a minha irmã quando nós saíamos, assim, em uma casa de uma amiga de minha mãe, a mamãe sempre recomendava: 'olha, vocês sentam, fiquem quietinhos, não façam coisas que não devem'." (Sr. Fausto)
"Eu tive mais afinidade com a madrinha do que com minha mãe.. . foi normal, ela tava tomando conta e ela zelava muito pela gente. Mas a minha mãe também era uma pessoa cem por cento. Ela era. E o meu pai era formidável.. . E gostava de ver o progresso de São Paulo". (D. Nina)

". . . A proximidade que a gente tinha com os pais era uma proximidade diferente do que a proximidade de hoje. Eu acho que as crianças hoje estão mais próximas dos pais quando elas têm possibilidades de reivindicar, de discutir, de fazer valer sua vontade. Nesse sentido, eu acho que as crianças estão mais próximas dos pais. Mas antes havia uma possibilidade, não sei se poderia falar, não é bem uma questão de carinho, mas uma possibilidade assim de contar história, sabe, da gente ficar junto, e que hoje em dia é diferente. Hoje em dia existe uma outra aproximação, que eu acredito que seja uma boa aproximação. . . Mas acredito que se perdeu um outro tipo de aproximação.. . se perdeu aquele contato familiar. Hoje é todo mundo ocupado, as crianças ocupadas, aulas disso, aulas daquilo.. . eu acho que não dá, aquilo não dá pra voltar, aquilo já foi, já acabou, já se passou, é outra coisa". (D. Edith)
Dentre as lembranças significativas da infância, as festas religiosas foram importantes para alguns entrevistados, à medida que proporcionavam uma participação

no coletivo e, para outros, por se tornar uma tradição a ser preservada e transmitida aos filhos.
" . . .tinha procissão, tinha quermesse, era. . . tinha muita festa, muito mais alegria, tinha muito mais comunicação a igreja católica. Naquele tempo a protestante era muito rígida e eu me lembro de um antepassado que ouviu um protestante que queria arranjar adeptos. Ele ouviu falar sobre essa religião e disse 'não, eu não vou mudar para o protestante porque a minha é muito mais divertida'." "Tinha uma comunicação entre as pessoas. A comunicação a gente tinha, o convívio naquela hora, naquele momento, as pessoas todas se aglomeravam, elas estavam festejando alguma coisa em comum, a mesma coisa, certo?" (D. Nina)

"Natal pra mim até hoje parece assim, uma tradição, uma coisa importante. . . procurei conservar o Natal, ou eu vou na casa da minha família, ou faço em casa mesmo. Mas preservando essa tradição antiga". (D. Liliana) "Bem, todas as festas que a gente comemorava em casa, Natal, Páscoa, e outras festas que achamos importantes, isso passa de pai para filho sem que você force. O crescimento e o conhecimento da importância delas que fica pra outra geração. É isso que passa de pai para filho, é aquilo que agrada". (Dr. Hubhy) Se as lembranças das brincadeiras, dos grupos e da rua são muito fortes, a percepção de qual foi o significado da própria infância está impregnada da visão de mundo que os entrevistados têm hoje. "A minha infância foi mais gostosa do que da minha filha. Eu acho que no meu tempo os pais da gente eram mais severos, a gente tinha mais respeito. Mas eu tinha

uma infância mais gostosa.. . São Paulo era uma cidade muito mais bonita.. . no nosso tempo, não tinha televisão, então a gente não via certos brinquedos que tinha, por exemplo: quando eu fui trabalhar que eu comecei a ver o que era presente bom, essas coisas. Mas quando eu era menina eu não conhecia brinquedo bom. Conhecia meu bonecão de papelão mesmo. E as crianças de agora, eles assistem muita televisão, eles assistem muito desenho. Então vêem os brinquedos e então eles pedem".
(D. Mercedes)

No relato acima pode-se depreender que na visão de D. Mercedes os valores morais eram mais preservados na sua época. Podemos também levantar a hipótese de que sua infância foi mais gostosa porque ela morava em São Paulo, embora não tão perto do centro (Alto da Lapa), mas tinha acesso aos parques, cinemas, à vida da cidade. Também com o pouco desenvolvimento dos meios de comunicação, não havia um apelo tão grande do consumo e a possibilidade tão marcante de estabelecer relações entre diferentes padrões de vida, enquanto na infância de sua filha (elas moram em Carapicuíba) estava distante de tudo o que São Paulo podia oferecer. A vida é pior, pois está longe da vida da cidade, sem benefícios, sem muitas alternativas de lazer com ruas movimentadas e conseqüentemente pouco espaço para brincar. É um caso típico da expulsão para a periferia. Em outros depoimentos encontramos a visão de que a infância das primeiras décadas deste século oferecia mais liberdade para brincar e era um período mais importante na vida da criança. Tal valorização aparece junto com uma visão da infância nos dias de hoje (anos 80). "Na minha rotina de criança.. . A infância de antigamente.. . era uma infância muito grande, que se prolongava bastante. Hoje em dia eu acho que as crianças não têm mais uma infância muito grande. Eu acho que

eles brincam pouco, estudam muito, ficam muitas horas na escola, se bem que tem escolinha de brincar que eles ficam, por exemplo, no jardim de infância, ou pré, ou até antes.
É pra brincar, mas é mais um compromisso. E hoje em dia se eles não vão pra escola, não brincam, porque Lúcia) não têm onde brincar". (D.

"Quando nós éramos pequenos, nossas brincadeiras desde muito cedo eram brincadeiras de rua, brincadeiras de moleque, de brigar com a outra turma. Em Itanhaém (onde passava férias) existe um rio muito perigoso, sempre foi considerado muito perigoso, aquela praia na costa do rio, era uma praia na costa do rio, era uma praia que não se podia tomar banho. E nós cumpríamos a risca isso, não entra no mar e não entra mesmo, nem quando nós estávamos sozinhos, porque a gente tomava café, ia pra praia, ia pra praia ao lado lá do rio, e depois a gente almoçava e sumia, aparecia pra jantar.. . . . .então a gente era mais livre dentro daquele espaço que a sociedade tinha estabelecido que era o espaço da criança. Ela não podia sair daquilo, mas dentro daquilo, mas dentro daquele espaço, ela era mais livre do que hoje em dia, com um espaço maior". (D.Edith) "Eu acho que as crianças no meu tempo puxavam mais pela cuca dela; porque precisavam pensar. Porque ela (a criança de antigamente) não tinha a comunicação mostrando o quadro, como hoje tem a televisão. Tá tudo pronto, 116s não, nós tínhamos que pensar, usar nossa imaginação. . . É isso mesmo. . . Eu fui uma menina que pensei tanto, pois eu matutava com as coisas, com o Cristo, com os filhinhos do padre.. . A gente quando era criança, não sei, a gente sonhava com a Branca de Neve, com a Borralheira e o Príncipe, com essas coisas, né, o Chapeuzinho Vermelho. Tinha, é verdade, o Lobo Mau, tinha a madrasta ruim, tinha essas coisas né? Tinha a fada boa, a fada ruim. . ." (D.Nina)

As lembranças de uma infância mais gostosa apareceram em alguns relatos em oposição às conseqüências da rápida urbanização e do desenvolvimento da cidade que foram, principalmente neste caso, a falta de espaço e os problemas de segurança. "Hoje ampliou-se muito os esportes.. . Mas do lado dos meninos, o futebol é em lugar cercado, não é um futebol de rua, aquelas peladas. Hoje faz pelada dentro da escola. Quer dizer, as crianças não têm mais a chance que eu tive de brincar numa rua, na Silva Bueno há 50 anos atrás, em que passava um bonde a cada uma hora. . . hoje, se você não tomar cuidado, você é atropelado. Não dá nem pra atravessar a rua". (Dr. Hubhy) "Era muito mais gostoso no tempo que as crianças tinham maior convivência, lá na rua, na pracinha.. . Hoje eles ficam trancados no apartamento, e o encontro é só com um coleguinha de escola, com as pessoas da família. . ." "Não tem mais espaço pra brincar". (D. Nina) "Antes não tinha tanto perigo pra gente andar na rua, como tem agora, porque agora não se pode soltar uma criança na rua, ne mesmo, moço.. ." (D. Mercedes) Encontramos no relato do Sr. Fausto lembranças de brincadeiras de rua, de amigos e até teatros que realizava. Mas é também em seu depoimento que nos deparamos com uma percepção de uma infância mais dura e difícil; provavelmente, pelas dificuldades enfrentadas com a viuvez de sua mãe. "Bom, eu, francamente, acho que desde criança fui uma pessoa amadurecida.. . Sempre desejei ter uma bicicleta, mas não conseguia, porque não havia meios monetariamente pra comprar. Meu pai morreu com 50 anos e eu fiquei com 2 anos e meio de idade com a minha mãe viúva com 6 filhos. . ."

Foi difícil para ele expressar o significado da sua própria infância, pois seu relato está impregnado da sua visão da infância hoje, utilizando-se da diferença de poder aquisitivo para fazer a comparação entre as duas. "As brincadeiras da minha época é,. . ., como eu disse,. . . hoje tudo é diferente porque como o poder aquisitivo hoje é bem maior, as crianças têm muitos brinquedos que as crianças de antigamente nem sonhavam de ter". Mas, ao ser questionado sobre quais brincadeiras foram significativas para ele e que considera importante serem transmitidas e preservadas, muda o tom de sua narrativa afirmando que a brincadeira é muito mais importante que a possibilidade que a aquisição de brinquedos oferece hoje às crianças. "Brincadeira. . . eu acho. . . . Uma coisa interessante que a gente nota nas crianças, por exemplo, o pai dá um brinquedo que custou muito caro, mas a criança põe aquele brinquedo de lado, pega uma lata, um pedaço de pau, e fica batendo com aquilo. Ela fica muito mais contente com o seu brinquedo do que com o brinquedo de grande valor. A criança vê naquele objeto uma coisa mais acessível ao seu modo de brincar". (Sr. Fausto)
Percepção sobre a infância de uma geração posterior

No que se refere à década de 50, alguns dos entrevistados mais velhos vêem a infância dos filhos ou sobrinhos como uma época em que as mudanças na cidade ainda não tinham destruído os espaços para brincadeira e a possibilidade de se manter relações mais estreitas com o coletivo. Além disso, consideram que essas crianças tiveram uma infância mais aberta.

Nos anos 50, as brincadeiras permanecem, a rua ainda se conserva em muitos lugares como o lugar onde as brincadeiras acontecem, o brincar e a escola eram a essência do dia-a-dia. A principal mudança percebida pelos entrevistados é em relação à educação dada aos filhos. "Ah! Eu creio que eles (filhos) tinham mais liberdade do que eu tinha. Brincavam com mais crianças do que eu brincava. No restante. . . Eles brincavam de roda, peteca, de corda. Eles brincavam de boneca, de bola.. Mas eu acho que eles fizeram mais brincadeiras do que eu fazia.. . subiam em árvores para pegar frutas, e os vizinhos a correr com aquela meninada toda.. ." (D.Liliana)

.

"Eles (sobrinhos) tinham a infância deles muito mais aberta, no sentido que aquilo que eles sentiam, o que eles queriam saber, eles expunham. E eu na minha época não podia expor nada, não podia abrir a boca, uma menina bem educada nem fazia perguntas.. . Eles já entravam na comunicação do adulto, na conversa.. (D. Nina)

."

"Minha vizinhança era muito legal, se você precisava de alguma coisa era só dar um gritinho, aparecia já as coisas. Eu tinha uma vizinha que morava em cima: era uma casa térrea, mas tinha do lado um sobrado que subia, né, com a escada. Era só pedir uma coisa, era um tal de sobe escada, desce escada, né? Então todo mundo era amigo, todo mundo. Você podia, assim, da porta da rua você gritava pra um vizinho em frente: 'Fulano tem isso?' 'Tem!' Foi muito legal no tempo que os meninos eram pequenos. Nessa época a Festa Junina era uma reunião com os vizinhos, cada um fazia uma coisa, e todo mundo se reunia na rua ou no quintal. Fazia uma fogueira, colocávamos batata na fogueira para assar. Todo mundo levava pinhão, doce, tudo quanto é coisinha, pipoca, vinho. Todo

mundo pulava fogueira, comia, bebia, era mais uma reunião mesmo da vizinhança todinha.. . Todo mundo ficava animado por esse dia. O pessoal se preparava pra isso mesmo, uns dias antes todo mundo se preparava, isso era tradicional". (D. Liliana) Nos depoimentos dos entrevistados que passaram a própria infância na década de 50, encontramos também uma percepção positiva dessa época, estabelecendo como referência para essa avaliação a sua percepção da infância hoje. "Eu acho que as crianças de agora não curtem a infância. Elas não têm espaço pra curtir, o que eu acho uma diferença fundamental. Eu acho que a criança ou tá presa num playground, ou numa escolinha, sempre com alguma orientação, sempre com algum adulto por perto.. . Na minha época, por exemplo, você brincava na rua e não tinha adulto por perto. . . a gente se virava. A criança hoje cai, vai logo chorando pra mãe.. . a gente não.. . a gente brincava solto na rua". (Idalina) "As crianças hoje querem fazer tudo rápido, mal começam uma brincadeira já passam pra outra, parece que têm pressa. Na minha época a gente passava a manhã inteira brincando da mesma coisa, não sinto que as crianças hoje curtam tanto as brincadeiras". (Rose)

CONSIDERAÇOES FINAIS

"A gente perdeu todo o contato que a gente tinha um com o outro, o ser humano com o outro ser humano, mesmo sendo da mesma família.. . Hoje em dia a amizade é uma coisa relativa, um indivíduo não tem amizade pelo outro, ele luta para sobreviver, e já está começando a época que ele podendo, ele passa os outros pra trás.. . Antigamente não existia isso porque as pese soas tinham tempo de terem amizade, um com o outro, de se encontrarem, de terem comunicação entre eles, o que hoje em dia não tem mais. As crianças vão perdendo o convívio, o sabor de um amigo, de uma amizade. Isto eles estão perdendo. Eles não têm. Antes tinha tempo até demais, o tempo não passava, o tempo era longo. Hoje em dia acho que até para a pr6pria criança ele passa em um fechar de olhos. A vida dela é tão ocupada, vão dando tanta coisa pra ela fazer, quando ela vê, já está no fim de semana, já começou outra, quando ela vê, acabou o ano!

Agora se ela assimilou tudo isso, o que ela vai desfrutando, vivendo no dia-a-dia dela, eu não sei. Não sei se ela vai aproveitar tudo.. . porque ela fica passando meio superficialmente por cima de tudo, ela não se aprofunda, não vai dar tempo dela se aprofundar. Como? Tanta informação não dá! A criança hoje em dia não tem tempo pra pensar. Não vai arquitetando nada. Como a Nina) gente arquitetava!" (D. "Aquilo não dá pra voltar, aquilo já foi, já era, já Edith) acabou, já se passou, agora é outra coisa". (D. Podemos perceber nestes relatos, e também nas outras entrevistas, um sentimento de perda irremediável em relação ao passado, um certo clima de nostalgia, uma certa tristeza ao lembrar da infância, um período gostoso da vida, onde havia tempo e espaço para brincar. Esse tom nostálgico se deve muito ao fato de que o que se perdeu não foi só a infância mas também a cidade, que se transformou; o modo de viver e de pensar, as relações entre as pessoas, tudo mudou. Além disso, a nostalgia se instala, porque a experiência daquilo que foi vivido por essas e outras pessoas da mesma época não é transmitida, e não se dá muita importância a ela. Quando esse passado é lembrado, ele não é confrontado com o presente, com as transformações ocorridas; então a lembrança é impregnada de nostalgia, porque aquele que lembra não vê essas mudanças como fruto de suas próprias ações. Vê somentr o passado e o presente como dois momentos estáticos e diferentes. Um exemplo disso é o papel importantíssimo das gerações dos que nasceram durante as décadas de 10, 20 e 30, na mudança das relações entre pais e filhos, e a importância dada por essas pessoas à educação como elemento liberador e que, no entanto, vêem com perplexidade o resultado de um trabalho que elas mesmas começaram.

Acreditamos que o brincar propicia um elemento essencial na construção da identidade da criança. Sabemos que a criança continua brincando e buscando espaços para expressar sua imaginação e criatividade. Para percebermos o significado e o papel do brincar em nosso contexto atual, é necessário que nos reportemos a sua história e que o observemos procurando, assim, percebê-lo tal como ele ocorre hoje em São Paulo, isto é, um mesclado de tradições culturais com as características de uma vida tipicamente urbana, onde ao ditar as "modas" do momento, os meios de comunicação lançam fortes apelos diários ao consumo. Podemos levantar a hipótese de que a criança é capaz de envolver-se nesse universo de ritmos e propostas tão diferentes e contraditórias, compô-las, transformá-las, atuar sobre elas dando um significado ao seu existir presente. E é a partir da aceitação deste contexto e momento como seu presente que o indivíduo pode se colocar como um ser participante que observa, reflete e atua, buscando um equilíbrio e compreensão de seu universo através da mudança ou aceitação da realidade que o cerca. No que diz respeito as brincadeiras e brinquedos como uma das possibilidades de relação do indivíduo com o mundo, o fato de existir uma cultura de massa que impõe à criança uma série de brinquedos que são verdadeiros "kits" prontos para serem consumidos não impede que esta estabeleça outros tipos de relações com estes objetos, mudando suas funções e transformando seus significados dentro da brincadeira. A boneca recebe um nome diferente daquele com o qual já vem batizada da indústria, usa roupas ou panos enrolados que a própria criança inventa em vez das que vêm prontas; e sua casa não é, muitas vezes, a industrializada, mas sim a que a criança constrói com lençóis, pedaços de madeira, ou o guarda-roupa. . . enfim preserva a magia de ser a única embora existam tantas réplicas. O carrinho que se move sozinho quando se aperta o botão

é, quando não tem mais graça, movido manualmente e

entra em garagens construídas com terra, areia, tocos de madeira.. . carrega pedrinhas, areia, despeja e recarrega.. . E muitos outros elementos podem entrar na composição da brincadeira e fazer parte dela, proporcionando todo um clima de magia, imaginação e criação. Se de um lado temos a cultura de massa que promove o consumo e a utilização dos objetos como descartáveis e de fácil substituição apelando para que cada indivíduo reproduza o modo de vida capitalista, de outro lado temos as brincadeiras tradicionais que contêm elementos da tradição e que podem ser ressignificados no presente e dar inteligibilidade e sentido a história de cada um, bem como à história do coletivo. "Refletir sobre nossa presente contemporaneidade significa reconhecer que nosso mundo não é nem melhor nem pior do que já foi em qualquer tempo (é apenas outra coisa, como diz D. Edith); Temos que aceitar esse presente, mas sem reconciliação. Trata-se do mundo em que estamos destinados a viver: temos que encontrar-lhe um sentido" (Heller, 1985). Acreditamos que toda a reflexão sobre a importância da memória, do passado, das raízes, dos relatos de pessoas que viveram suas infâncias em outras épocas, revela-se como um suporte importante, iluminando e clareando nosso olhar de observadores do ato de brincar atual.

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"Eu gostava mesmo era de brincar na r"a, fazia brincadeira de perna de pau. A gente mesmo fazia, colocava prego, batia, eu e meus irmãos .. E fazia telefone sem fio TambBm brincava com pneu. A gente entrava dentro, o outro empurrava, então rolava dentro do pneu" "Na Festa Junina a rua inteira comemorava. A gente fazia fogueira de 30 João. E então as brincadeiras mudavam porque fazia fogareiros de lata de 6leo. Meu i* que fazia Ele fazia um buraquinho embaixo pra poder acender aquelas lanternas e entao amarrava um barbante comprido assim na latinha como uma alça. Chamava de lanterna. Colocava fogo dentro dessa bta e aquele buraquinho B que mantinha a labareda por causa do vento que entrava; a gente rodava aquilo assim com a mao Também na Bpoca de junho a gente fazia outra brincadeiracom mama0 verde, fazia uma careta, fazia os olhos, o nariz e os dentes, e colocava uma vela acesa dentro. Isso a gente fazia para apavorar os outros. Fazia porque era 6poca de inverno. Na Bpoca de inverno eram todas essas brincadeiras de fogo. Na Bpoca de outono tinha muito vento e a gente fazia pipa N6s brincávamosde pipa, capucheta.Capucheta era um tipo de pipa feita de jornal " I (D. Lúcia)

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