Fui ao armarinho

Muito bem, está chegando a hora, estou no final do terceiro ano do meu programa de doutoramento. Agora é escrever para valer, pois falta apenas um ano para a defesa. À parte algum frio na barriga, é a vez de concentrar-se no definitivo. Uma das questões a pensar é a metodologia. Não para prever o que fazer, mas sim, olhar para a experiência e dizer o que se passou. Como o caminhante que, ao final da viagem, já cansado de segurar a lanterna a sua frente, carrega-a às costas e, sem perceber, deixa a luz iluminar o que se passou.

vou construindo o objeto. Precisa-se fazer algo. Um perigo. lãs. a ideia vem. feito uma coceira na mão. como uma maneira de apresentar o "como" da pesquisa. livros. algo como "metodo-logia do contato-improvisação" ou "metodologia da presença". não importa se irá bordar. Espalho tudo e. faço assim: pego o que trouxe do armarinho e espalho tudo.Hoje. é sempre assim mesmo comigo. teses. Fiquei vivendo com esse material uns dias. Quase todo mundo sabe o que é um armarinho. Sempre preciso de muito espaço. peguei tudo que tinha lido. talvez. compra-se no armarinho coisas diversas sem se preocupar com o seu "para quê". ao invés de se traçar a metodologia "a frio". Pensando bem. tricotar ou crochetar. desse contato. Por enquanto estou apelidando esse procedimento metodológico de "Fui ao armarinho". Afinal. Depois fui pegando os que me chamavam atenção e copiando. mas mantém o devir. fitas. a partir daí. Aí. impossível deixar de coçar. No meu caso. apostilas. Neste primeiro momento é o desejo do fazer que vale. O movimento de construção vem antes da ideia. fui ao armarinho. Impede que a metodologia engesse o modo de existir-experiência. à imanência. do contato com elementos diferentes. Quem vai ao armarinho nem sempre sabe o que fará com o que comprar lá. separando. lia uma coisa. Falar da forma como atuei na pesquisa e sua escrita. Sente a potência do fazer se movendo. Aí. costurar. Compor. Deste modo. a metodologia surge como um dizer da experiência. em cima da cama ou na mesa da cozinha. será depois.. é só o que eu posso garantir: ficar na presença daquilo. Assim. Penso em atribuir um nome científico a esse modo de pesquisar. . Na pesquisa também é assim. primeiro eu mexo. eu escrevia. depois eu penso. aquilo me dizia. juntando. Não tinha a menor ideia de como escrever o projeto. essas coisas. a vida-viva da pesquisa. olhando aquilo. É uma forma de pesquisar que se mantém rente ao movimento. linhas. experimento aqui dissertar sobre o procedimento metodológico da tese. e isso foi compondo. mas explico: é aquela loja que vende artigos para artes-manuais: botões. pode ser sobre o tapete da sala. nem sempre previamente combinantes. Desde o projeto de pesquisa. corre-se o risco de perder-se. tudo espalhado em cima da cama. Vou movimentando. se algo surgir. desse movimento expansivo. Esta vem depois.. O resto é risco. uma metodologia a posteriori. Eu não havia percebido que este modo de agir era um procedimento metodológico. antes da experiência. tudo o que me afetava e espalhei. Dormi no meio daquilo. ao imprevisível.

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