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Uma Abordagem Jurídica do Turismo Sexual

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O Turismo é uma atividade econômica de grande representatividade global que movimenta mais de cinqüenta setores da economia, gerando renda, emprego e desenvolvimento. A Constituição Federal ratificou tal pensamento, elegendo o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico a ser promovido e incentivado pelos entes federados, observando os princípios fundamentais da república, quais sejam a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, conforme art. 1º da CF/88. Por meio da atividade turística, vem se desenvolvendo nos destinos turísticos o turismo sexual, fenômeno controverso e pouco estudado, caracterizado por ser, basicamente, uma forma de exploração da prostituição através do Turismo. Os órgãos internacionais, entre estes a OMT, proscrevem tal prática por se tratar de um atentado contra a ordem pública, salientando ainda a impropriedade do termo “turismo sexual”, já que a atividade do Turismo não poderia ser utilizada neste contexto. Veda ainda a OMT, no Código Mundial de Ética no Turismo, a exploração sexual de seres humanos, vez que as atividades turísticas devem promover e respeitar os Direitos Humanos. A ciência jurídica, que tem como objetivo a manutenção da justiça social, nutre a preocupação de entender criar mecanismos hábeis para preservar tanto a profissão e atividade turística, quanto às sociedades receptoras da atividade turística. O primeiro passo para tais mecanismos é a compreensão do turismo sexual, delineando-se os seus contornos e profundidade, para então saber em que ponto ele toca os princípios e as leis brasileiras.
O Turismo é uma atividade econômica de grande representatividade global que movimenta mais de cinqüenta setores da economia, gerando renda, emprego e desenvolvimento. A Constituição Federal ratificou tal pensamento, elegendo o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico a ser promovido e incentivado pelos entes federados, observando os princípios fundamentais da república, quais sejam a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, conforme art. 1º da CF/88. Por meio da atividade turística, vem se desenvolvendo nos destinos turísticos o turismo sexual, fenômeno controverso e pouco estudado, caracterizado por ser, basicamente, uma forma de exploração da prostituição através do Turismo. Os órgãos internacionais, entre estes a OMT, proscrevem tal prática por se tratar de um atentado contra a ordem pública, salientando ainda a impropriedade do termo “turismo sexual”, já que a atividade do Turismo não poderia ser utilizada neste contexto. Veda ainda a OMT, no Código Mundial de Ética no Turismo, a exploração sexual de seres humanos, vez que as atividades turísticas devem promover e respeitar os Direitos Humanos. A ciência jurídica, que tem como objetivo a manutenção da justiça social, nutre a preocupação de entender criar mecanismos hábeis para preservar tanto a profissão e atividade turística, quanto às sociedades receptoras da atividade turística. O primeiro passo para tais mecanismos é a compreensão do turismo sexual, delineando-se os seus contornos e profundidade, para então saber em que ponto ele toca os princípios e as leis brasileiras.

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

AIAN CERQUEIRA COTRIM

UMA ABORDAGEM JURÍDICA DO TURISMO SEXUAL

ILHÉUS-BAHIA 2008

AIAN CERQUEIRA COTRIM

UMA ABORDAGEM JURÍDICA DO TURISMO SEXUAL

Monografia apresentada como requisito parcial, para obtenção do título de graduado em direito, à Universidade Estadual de Santa Cruz. Área de concentração: Direito Público Orientadora: Prof. Maria Luiza Silva Santos

ILHÉUS-BAHIA 2008

Cotrim, Aian Cerqueira Uma abordagem jurídica do Turismo sexual. Ilhéus (BA): UESC, 2008. 55 p. Monografia (Graduação) – Universidade Estadual de Santa Cruz 1. Turismo 2. Prostituição 3. Direito do turismo.

AIAN CERQUEIRA COTRIM

UMA ABORDAGEM JURÍDICA DO TURISMO SEXUAL

Ilhéus – BA, 25/11/2008.

________________________________________ Maria Luiza Silva Santos - MS UESC (Orientadora)

________________________________________ Elias Lins Guimarães - DR UESC

________________________________________ Jane Hilda Mendonça Badaró Junqueira - MS UESC

DEDICATÓRIA

À minha família, pelo apoio incondicional. Aos meus colegas, fonte de inspiração, críticas e idéias infindáveis. À minha orientadora, pelas valiosas lições. À minha namorada, por dar uma razão mais amorosa à minha vida.

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UMA ABORDAGEM JURÍDICA DO TURISMO SEXUAL

RESUMO

O Turismo é uma atividade econômica de grande representatividade global que movimenta mais de cinqüenta setores da economia, gerando renda, emprego e desenvolvimento. A Constituição Federal ratificou tal pensamento, elegendo o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico a ser promovido e incentivado pelos entes federados, observando os princípios fundamentais da república, quais sejam a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, conforme art. 1º da CF/88. Por meio da atividade turística, vem se desenvolvendo nos destinos turísticos o turismo sexual, fenômeno controverso e pouco estudado, caracterizado por ser, basicamente, uma forma de exploração da prostituição através do Turismo. Os órgãos internacionais, entre estes a OMT, proscrevem tal prática por se tratar de um atentado contra a ordem pública, salientando ainda a impropriedade do termo “turismo sexual”, já que a atividade do Turismo não poderia ser utilizada neste contexto. Veda ainda a OMT, no Código Mundial de Ética no Turismo, a exploração sexual de seres humanos, vez que as atividades turísticas devem promover e respeitar os Direitos Humanos. A ciência jurídica, que tem como objetivo a manutenção da justiça social, nutre a preocupação de entender criar mecanismos hábeis para preservar tanto a profissão e atividade turística, quanto às sociedades receptoras da atividade turística. O primeiro passo para tais mecanismos é a compreensão do turismo sexual, delineando-se os seus contornos e profundidade, para então saber em que ponto ele toca os princípios e as leis brasileiras.

Palavras chave: turismo, prostituição, direito do turismo.

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LISTA DE SIGLAS

CF CNTur

Constituição Federal Conselho Nacional do Turismo

Combratur Comissão Brasileira do Turismo Embratur Fiset Fungetur IATA ICAO LGT OMT ONU PNUD UIOOT UNESCO WTTC Instituto Brasileiro de Turismo Fundo de Investimento Setorial de Turismo Fundo Geral de Turismo Associação Internacional de Transporte Aéreo Organização Internacional da Aviação Civil Lei Geral do Turismo Organização Mundial do Turismo Organização das Nações Unidas Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento União Internacional de Organismos Oficiais de Turismo Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura World Travel and Tourism Council

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SUMÁRIO

Resumo..................................................................................................... Lista de siglas.......................................................................................... INTRODUÇÃO........................................................................................... CAPÍTULO I: UM POUCO DE TURISMO................................................. 1 2 3 3.1 3.2 3.3 4 1 1.1 2 2.1 1 2 2.1 2.2 3 4 Definições de turismo................................................................................ Classificação da atividade turística............................................................ Fases do desenvolvimento do turismo no mundo..................................... O pré-turismo............................................................................................. O turismo industrial.................................................................................... O pós-turismo............................................................................................ A intervenção pública no turismo............................................................... CAPÍTULO II: O DIREITO E O TURISMO................................................ As Organizações Internacionais e o Turismo............................................ O Código mundial de ética do turismo....................................................... O Ordenamento Jurídico do Turismo no Brasil.......................................... A lei geral do turismo................................................................................. CAPÍTULO III: O TURISMO SEXUAL...................................................... Características do turismo sexual.................................................. A gênese do turismo sexual....................................................................... Análise macroscópica do sexo turismo...................................................... Análise microscópica do sexo turismo....................................................... Uma perspectiva de mercado do turismo sexual....................................... O tráfico de pessoas e o turismo sexual.................................................... CONCLUSÃO............................................................................................ REFERÊNCIAS......................................................................................... ANEXO......................................................................................................

v vi 8 10 10 13 14 15 16 17 17 20 24 26 28 30 32 32 36 37 40 43 46 48 49 53

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INTRODUÇÃO

O turismo é uma atividade social e econômica de grande representatividade global que movimenta mais de cinqüenta setores da economia, gerando renda, emprego e desenvolvimento. A Constituição Federal ratificou tal pensamento, elegendo o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico a ser promovido e incentivado pelos entes federados, observando os princípios fundamentais da república, quais sejam a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, conforme o seu artigo primeiro. Paralelo à atividade vem se desenvolvendo nos destinos turísticos o turismo sexual, fenômeno controverso e pouco estudado, caracterizado por ser,

basicamente, uma forma de exploração da prostituição através do turismo. Os órgãos internacionais, entre estes a Organização Mundial do Turismo, proscrevem tal prática por se tratar de uma atividade, exploradora e subversiva para a consecução dos objetivos fundamentais do turismo que consistem em fomentar a paz, os direitos humanos, o entendimento mútuo, o respeito para todos os povos e culturas e o desenvolvimento sustentável. No mesmo passo combate a OMT a exploração de seres humanos, em qualquer de suas formas, principalmente a sexual, e em particular quando afeta as crianças, pois essa prática, assim como a do turismo sexual, fere os objetivos fundamentais do turismo e estabelece uma negação de sua essência. O posicionamento da OMT contra a exploração sexual e o turismo sexual não podem, contudo, ser tido como absoluto e inquestionável, especialmente quando observado em conjunto com as características do local da prática do fenômeno, posto que a análise da ocorrência da prostituição através do turismo revela diferentes aspectos de comportamento tanto do turista sexual quanto da garota de programa. Para os fins dessa pesquisa foi levado em conta somente a relação de turismo sexual heterossexual e adulto, afastando das análises a prostituição infantil, que por si só já constitui crime, e a relação homossexual e de transgêneros.

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A ciência jurídica tem como objetivo a manutenção da justiça social, nutre a preocupação de entender e criar mecanismos hábeis para preservar tanto a profissão e atividade turística, quanto às sociedades receptoras da atividade, bem como o respeito aos direitos humanos. O primeiro passo para tais mecanismos é a compreensão do turismo sexual, delineando-se os seus contornos e profundidade, para então saber em que ponto ele toca os princípios e as leis brasileiras. O turismo sexual é o objeto principal deste trabalho, mas não o único. Ele é o centro gravitacional ao redor do qual orbitam o direito e o turismo. O turismo seria o local onde o turismo sexual se proliferaria e a ciência do direito iluminaria o olhar do pesquisador, direcionando a sua perscrutação. Dessa forma o fenômeno do turismo sexual estaria contextualizado com um enfoque jurídico. Salientamos que a pesquisa teve cunho exploratório, vez que não é usualmente tratado o tema na seara do direito, tendo tal estudo o intuito de amenizar essa distância entre as ciências jurídica e turística. Para tanto os capítulos foram dispostos em uma ordem gradual. O primeiro capítulo explora a atividade turística propriamente dita, abordando elementos históricos e conceituais que introduzem brevemente o leitor na história, prática e desenvolvimento do turismo. No segundo capítulo tratamos da relação entre o direito e o turismo. Aqui dispomos sobre a forma como os Estados e as organizações internacionais disciplinam a atividade turística, demarcando os limites e princípios do seu desenvolvimento. Especial atenção para o Código Mundial de Ética para o Turismo e para a recém aprovada lei nº 11.771, a Lei Geral do Turismo. Finalmente tratamos do turismo sexual no último capítulo, analisando a sua gênese e as inter-relações do tema com a atividade turística. No decorrer do capítulo traçaremos também a forma como as características do turismo sexual são abordadas pela legislação interna e pelos organismos internacionais.

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CAPÍTULO I UM POUCO DE TURISMO

A atividade turística tem um relevante papel na economia global. Segundo a Organização Mundial do Turismo (2008) tal atividade movimentou US$ 856 bilhões com 903 milhões de turistas no ano de 2007. A quantia não só é vultosa como também mais expressiva do que em 2006: o faturamento cresceu 6,6% e o número de turistas foi 5,6% maior.1 Trata-se ainda da maior indústria da União Européia, respondendo por 6,5 % do PIB comunitário, gerando emprego direto para nove milhões de pessoas e recebendo 17 % dos gastos de consumidores (SIMON, 2003). Além de uma expressiva atividade econômica o turismo é um fenômeno social de grande escala vez que a ocorrência do turismo envolve o deslocamento de pessoas de um lugar para o outro. Neste capítulo inicial analisaremos algumas facetas do fenômeno turístico para ter uma compreensão mais ampla do mesmo, perscrutando desde a sua conceituação até as tendências atuais do seu desenvolvimento. Ao final do capítulo trataremos da intervenção pública no turismo, demonstrando algumas razões para o Estado se envolver na atividade.

1 Definições de turismo

O primeiro passo para estudar um fenômeno é isolar as suas características por meio da conceituação. Não há definições conceituais claras que delimitem a atividade turística. Cada definição existente tende a se prender a um ou outro fator entre os tantos que a atividade engloba. O turismo passou a ser objeto de estudo acadêmico no período entre as duas grandes guerras mundiais (1919-1938). Dessa época remonta a definição de

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Dados obtidos no UNWTO World Tourism Barometer. No mesmo documento a análise do primeiro quadrimestre de 2008 aponta um crescimento de 5% em comparação com o mesmo período de 2007.

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Hunziker e Krapf, que tinha o turismo como “a soma de fenômenos e de relações que surgem das viagens e das estâncias dos não-residentes, desde que não estejam ligados a uma residência permanente nem a uma atividade remunerada” (AMPARO; DIMITRIOS, 2001, p. 37). A definição é genérica, alimentando muitas incertezas. O único elemento que se aproveita é a referência a uma estada temporária no local de destino. Este antigo conceito faz referência ainda a uma atividade não-remunerada, o que não procede na atualidade em razão da existência do turismo de negócios. Observando a temporaneidade da permanência Burkart e Medlik

acrescentaram ainda que os deslocamentos se dão para destinos fora do lugar de residência e de trabalho, compreendendo as atividades empreendidas durante a estada nesses destinos (AMPARO; DIMITRIOS, 2001, p. 37). Utilizando as características expostas nas conceituações acima Oscar de La Torre define o turismo de maneira concisa como sendo:

um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente, por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem de seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa ou remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural (apud IGNARRA, 2001, p. 28).

Observando esse conceito sobre uma outra ótica, principalmente no que tange ao aspecto financeiro – no sentido da geração de divisas para o local receptor, e talvez observando o fenômeno de uma outro lugar teórico, Herman Von Schullard entende o “turismo como a soma das operações, especialmente as de natureza econômica, diretamente relacionada com entrada, a permanência e o deslocamento de estrangeiros para dentro e para fora de um país, cidade ou região” (apud VAZ, 2001, p. 35). O entendimento de Lage (2005, p. 42), contempla ambos os aspectos, pois ressalta que o atrativo turístico engloba “todo lugar, objeto ou acontecimento de interesse turístico que motiva o deslocamento de grupos humanos para conhecêlos”. Seria o turismo, o deslocamento de pessoa ou de um agrupamento, para local diverso daquele em que reside ou trabalha, com o intuito de conhecer as características sócio-culturais do destino a ser visitado, podendo ainda ter como

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motivo principal o desenvolvimento de determinada atividade econômica, utilizando de recursos financeiros que movimentem a economia local. Em 1991 a ONU, a OMT e o governo do Canadá promoveram a Conferência de Ottawa com o fim de debater os sistemas de estatísticas usados para medir a atividade turística. Ante a falta de um conceito globalizado de turismo e a necessidade da homogeneização dos dados existentes surgiu deste evento o conceito de turismo adotado pela OMT, publicado em 1994: “o turismo compreende as atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes ao seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano, com finalidade de lazer, negócios ou outras” (AMPARO; DIMITRIOS, 2001, p. 38). A objetividade deste conceito é reduzida à previsão de um lapso temporal máximo para a caracterização da atividade. Desta forma, caso a viagem dure mais de um ano, não se trata de turismo. Além de não inovar nem enfeixar as tantas características do fenômeno ele é vago ao prever as finalidades em lazer, negócios ou outras. A inexistência de um conceito único advém do aspecto multifacetado da atividade. É mais preciso então referir-se a diferentes abordagens para o tema, e consequentemente diferentes conceituações. Conforme Goeldner (2002, p. 27-29) temos a abordagem institucional, de produto, histórica, econômica e a sociológica. Esta última será o foco do nosso interesse, e trata da análise do comportamento turístico de indivíduos e grupos, cotejando o impacto da atividade na sociedade. Enaltecendo a perspectiva social temos que a atividade turística é, antes de tudo, um deslocamento, uma movimentação voluntária de pessoas ou grupos de pessoas de seu lugar de residência habitual para um lugar novo, diferente, movidos pela curiosidade e nostalgia quanto aos países longínquos, que gostariam de conhecer (KRIPPENDORF, 2000, p. 14). A razão desse deslocamento constitui o tipo do turismo, podendo ser cultural, geográfico, de lazer, gastronômico ou de negócios, entre tantas outras motivações existentes. Temos que o essencial é compreender a atividade turística como um intercâmbio de pessoas e culturas.

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2 Classificação da atividade turística

A classificação do turismo difere conforme a forma como observamos o fenômeno. De acordo com a nacionalidade do turista a atividade pode ser nacional ou estrangeira. O turismo nacional é desenvolvido por pessoas de um determinado país e se subdivide em interno e externo, caso o turista permaneça dentro dos limites do seu país ou os ultrapasse. O turismo estrangeiro é feito pelo grupo de pessoas estrangeiras que visitam um determinado país. Numa perspectiva econômica o turismo estrangeiro é de exportação, e o turismo nacional externo de importação. Esclarece Badaró (2003, p. 28) que o turista que entra no país gasta o dinheiro ganho fora, trazendo divisas para o país receptor, enquanto o turista que sai do país gasta seu dinheiro fora deste. Para a balança comercial do país o turista estrangeiro equipara-se à exportação e o turista interno à importação. Salienta o mesmo autor que não se deve confundir turista estrangeiro com turista internacional. O turismo é internacional quando envolve mais de um país, logo o turismo nacional externo também é estrangeiro. Em relação à demanda o turismo é classificado como de minorias ou de massa. Os destinos turísticos procurados por muitas pessoas caracterizam o turismo de massa, já os procurados por poucas pessoas são conhecidos como de minorias. Tendo como base o deslocamento do turista no local de destino o turismo será estável se fixar-se em um determinado local ou itinerante, caso ele passe mais tempo viajando do que fixado num único destino. O turismo pode ainda ser classificado conforme a geografia, autonomia, financiamento ou motivação da viagem. Esta última classificação é muito conhecida em razão da sua grande utilidade. Por meio do exame da motivação da viagem pode-se analisar a razão do deslocamento do turista e preparar os locais receptores de acordo com as expectativas do viajante. Sob um enfoque econômico trata-se de uma perspectiva de mercado através da qual a indústria turística planeja a venda do seu produto, qual seja o destino turístico.

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Ainda em razão do deslocamento do turista a Embratur destaca sete tipos de atividade turística: sol e praia, cultura, ecoturismo, esporte, negócios e eventos, aventura e rural2. Mais de um tipo de turismo pode ser praticado pelo viajante, cabendo à indústria turística e às políticas de desenvolvimento do turismo a diversificação e especialização das atividades, para atender mais e melhor aos turistas enquanto consumidores.

3 Fases do desenvolvimento do turismo no mundo

O turismo como viagem é um fenômeno antigo, mas não é esse que interessa aos teóricos, pois não é só o deslocamento do local de origem que caracteriza a atividade, como vimos anteriormente. No período do império novo egípcio, de 1600 a 1200 a.C. os faraós começaram a aproveitar os recursos excedentes e as pedras do Vale do Nilo para erguer tumbas monumentais. Essas grandiosas construções atraiam muitas pessoas, mas, chegando ao Egito, os visitantes não tinham um suporte material para se estabelecerem, tendo que dormir ao relento e se alimentarem da melhor forma que conseguissem (GOELDNER, 2002, p. 44). Desde 776 a.C. as cidades-estados gregas promoviam competições atléticas para homenagear Zeus. O principal festejo dessa época eram os Jogos Olímpicos. Tais festejos consistiam numa variedade de atrações. Simultaneamente ocorriam competições, sacrifícios, orações e festas. Esta movimentação atraia muitas pessoas, sendo apontado inclusive por alguns autores como o marco do nascimento do turismo3. Entre os povos da antiguidade os que tinham mais condições de viajar eram os romanos, de tal forma que há quem afirme terem sido os primeiros povos a viajar por prazer (BADARÓ, 2003, p.61). No início do século I o império romano tinha uma rede de aproximadamente 80 mil quilômetros de estradas que se estendia ao norte
Esta classificação pode ser encontrada no site www.turismobrasil.gov.br, portal da EMBRATUR para promoção e divulgação do turismo no Brasil. Acesso em 17 de setembro de 2008. 3 Badaró (2003, p. 60) cita a posição de De La Torre e Lévy que propugnam o evento dos Jogos Olímpicos como o início da história do turismo. Goeldner (2002, p. 43) cita uma época ainda mais remota, 4000 a.C., quando os sumérios, por terem inventado o dinheiro, a roda e a escrita cuneiforme, seriam os fundadores do setor turístico.
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até as proximidades das atuais Escócia e Alemanha, ao sul, dentro do Egito e até o longo do Mar Mediterrâneo. No oriente as estradas iam até o Golfo Pérsico, no atual Iraque e o Kuwait (GOELDNER, 2002, p. 45). Os turistas romanos faziam passeios de uma forma similar a que fazemos hoje em dia, utilizando guias profissionais, hospedagem e até guias turísticos, tendo Pausanias escrito o Guia Turístico da Grécia entre 160 e 180 d.C. (GOELDNER, 2002, p. 45). A derrocada do império romano nas décadas IV e V foram um desastre para o desenvolvimento das viagens e turismo de lazer. Num continente fragmentado e instável viajar passou a ser algo perigoso e caro, não sendo mais associado a uma atividade prazerosa. A partir do século XIV, com o fim da Idade Média, as viagens recuperam o seu prestígio, sendo a sua motivação mais comum a visitação a santuários. Tais fatos históricos servem para mostrar as diferentes etapas do turismo sem, contudo, explicar a sua evolução. Molina (2004) propõe a divisão do desenvolvimento turístico em fases, o que faremos a seguir.

3.1 O pré-turismo

A primeira grande fase começa durante o século XVII com o pré-turismo, extendendo-se até o século XVIII. Esse momento tem o seu principal expoente nas viagens realizadas pelos filhos mais velhos das famílias nobres, diplomatas e ricos comerciantes com a finalidade de melhorar a sua educação e aumentar a sua rede de influência nos grandes centros europeus. O viajante era acompanhado de uma comitiva composta por seu tutor e servos. Essa fase é simbolizada pelo Grand Tour, que era descrito como algo convencional e regular. Havia até uma forma para a sua realização, que incluia uma longa estada na França, especialmente em Paris, visitando Gênova, Milão, Florença, Roma e Veneza na Itália e depois um retorno à Alemanha e aos Países Baixos, via Suiça. Esse roteiro poderia ser alterado, obviamente, mas como salienta Robinson:

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"não havia muito mais a ser visto no mundo civilizado depois da Itália, da França e dos Países Baixos, apenas completo barbarismo" (apud GOELDNER, 2002, p. 49).

3.2 O turismo industrial

No século XIX surge a fase industrial do turismo, que dura até o início da segunda guerra mundial. Em meadas do século XIX Thomas Cook foi o primeiro a organizar uma viagem com uma série de serviços incluídos a partir de um único preço pago pelos clientes. Na fase industrial surgem os primeiros hotéis urbanos e desenvolvem-se os balneários costeiros no mar mediterrâneo. Alguns governos criam escritórios governamentais de turismo e aparecem os primeiros destinos turísticos na América Latina. Após a segunda guerra o turismo teve um crescimento ininterrupto, passando dos 25 milhões de turistas internacionais na década de 1950 para mais de 600 milhões na década de 90 (BADARÓ, 2008, p. 50-51). Este período compreende o turismo industrial maduro, fase em que o turismo se converte em um fenômeno de deslocamento de massa gerando importantes conseqüências sociais, políticas, culturais, ambientais e financeiras. O turismo pode desde então ser entendido como indústria, ao ser composto, enquanto fenômeno econômico, por um conjunto de empresas que se guiam por um código conceitual e operacional. Os governos nacionais assumem papéis diretivos na organização e gestão da atividade. São criadas leis de fomento e regulamentação, bem como organismos públicos encarregados de estabelecer políticas nacionais para o desenvolvimento do turismo. Em meados da década de 1980 surge uma forma de atividade turística que despreza os valores, metodologias e técnicas tradicionais que foram o suporte para a expansão do modelo industrial maduro. Estamos agora diante da fase pósindustrial, que se caracteriza pela diferenciação dos produtos e serviços turísticos através da desmassificação dos mercados, a personalização dos serviços, a descentralização das decisões nas empresas e a preocupação com os direitos ambientais, que se desdobra na estratégia do desenvolvimento sustentável.

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3.3 O pós-turismo

Essa classificação foi proposta por Molina (2004, p. 27) e aponta para uma nova tendência do turismo moderno. Segundo o autor essa fase é caracterizada pelo uso da tecnologia. O pósturismo quebra a dependência existente entre a atividade turística e os ciclos da natureza. Essa dependência cria na prática tradicional da atividade os conceitos de alta e baixa estação. Através do uso da tecnologia a indústria turística cria espaços fechados e altamente controlados. Temos então um ambiente artificial através da manipulação de todos elementos ao alcance da ciência para a satisfação do imaginário que move o turista enquanto consumidor. O turista procura se isolar, sem qualquer contato com as comunidades locais. Não se busca conhecer a cultura local, mas sim a experiência propiciada pelo ambiente criado. Como exemplo do pós-turismo temos os parques temáticos da Disney ou a rede de cassinos Venetian, que simula o ambiente da cidade italiana em seus empreendimentos em Las Vegas e Macau.

4 A intervenção pública no turismo

O Estado tem um relevante papel na atividade turística em razão do grande impacto do seu desenvolvimento. A intervenção do estado na economia é um tema polêmico, mas esquivamo-nos um pouco desse ponto delicado ao lembrar que turismo não é só economia. O turismo envolve, entre outras coisas, o fluxo de um grande número de pessoas para determinados locais, exigindo por exemplo uma dispendiosa infra-estrutura de transporte (estradas, aeroportos, portos) e o controle das atividades praticadas pelos turistas para se evitar o desgaste do ambiente natural do local de destino.

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A intervenção se dá de uma série de formas, tendo estas sido descritas por Cibotti e Sierra (apud MOLINA, 2005, p. 31) de forma bastante objetiva. A primeira forma seriam as ações de regulação, cuja finalidade consiste em criar condições para que as entidades econômicas assumam determinado comportamento. O Estado pode ainda agir mediante ações para produzir bens e serviços, com o propósito de preencher vácuos na produção e para competir com o setor privado. As ações de acumulação são voltadas para o incremento de instalações e equipamentos e para a diversificação de economias externas, como sistemas de transporte e comunicação. Há também as ações de financiamento, que têm o objetivo de estabelecer um determinado mecanismo de controle dos fluxos financeiros para canalizá-los conforme as necessidades existentes. Como exemplo de ações de financiamento temos a promoção do investimento privado por meio de favorecimentos públicos e as políticas de auxílio e suporte econômico para certos grupos da população. A intervenção estatal é direcionada pelo planejamento, que prevê as áreas da economia a sofrer interferência pública e as formas de atuação estatal. O objetivo do planejamento é assegurar o desenvolvimento sustentável da atividade turística (MOLINA, 2005, p. 46). O planejamento turístico e a intervenção do Estado fazem parte da política de turismo, que consiste num

conjunto de regulamentações, regras, diretrizes, diretivas, objetivos e estratégias de desenvolvimento e promoção que fornece uma estrutura na qual são tomadas as decisões coletivas e individuais que afetam diretamente o desenvolvimento turístico e as atividades diárias dentro de uma destinação (GOELDNER, 2002, p. 294).

Tal política tem como grande objetivo compatibilizar os princípios da liberdade de mercado e de empresa com a preservação das vantagens estruturais que asseguram a continuidade da atividade turística em condições adequadas, ou seja, um turismo sustentável, no qual a exploração da atividade não implique na sua extinção.

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Para salientar a necessidade da ação governamental Amparo e Dimitrios (2001, p. 154) narram o “paradoxo da degradação que é uma conseqüência da maneira como os agentes econômicos tomam decisões que afetam o mercado”. No cerne do problema situa-se a existência de grupos de pressão com interesses econômicos específicos, que dão ao processo de produção uma dinâmica baseada na obtenção de lucro rápido a curto e médio prazo (get-rich-quick) ao invés de uma estratégia que garanta um lucro contínuo e a longo prazo.

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CAPÍTULO II O DIREITO E O TURISMO

A atividade turística tem um amplo reflexo na sociedade. A sua prática envolve uma gama de atos albergados pelo direito, vez que a mais simples viagem é constituída de vários atos jurídicos, considerando-se apenas os contratos que serão feitos para tanto na execução do deslocamento quanto na estadia do indivíduo no destino turístico. Há ainda o efeito jurídico causado pelo deslocamento das pessoas e coisas de um lugar regido por uma ordem jurídica para outro sob ordem jurídica diversa. Observamos então que o turismo é uma atividade social e o direito, ao regular os atos sociais, interfere nas engrenagens que movimentam a atividade turística. Não basta, contudo, que analisemos qualquer interferência do direito no fenômeno turístico, mas sim o contrário, pois só quando a atividade turística afetar o direito teremos a exata medida da sua importância social. Para exemplificar a afirmação acima pode se registrar numa perspectiva histórica que em 1909 surge na França a primeira lei do turismo no cenário internacional, colocando o país na vanguarda do Direito do Turismo. Após a criação da lei surgiram diversos regulamentos e organismos ligados ao setor turístico: em 1910 foi instituído o Office National du tourisme, em 1917 criou-se a Chambre d’Hôtelleirie, em 1918 surgem as primeiras leis regulamentando as estações de esqui e em 1936 promoveu-se a difusão do turismo com a regulamentação das férias pagas. Mas a França não foi o único país a abordar o tema do turismo na primeira metade do século XX. Dois governos ditatoriais europeus fizeram uso do turismo como estratégia para o desenvolvimento da economia e do nacionalismo: a Itália e a Alemanha. Em 1925 Mussolini criou um programa de lazer e turismo viabilizado pelas férias pagas instituídas pelo governo italiano. O programa era denominado de

Dopolavoro e foi incorporado à Carta do Trabalho. Pretendia-se ocupar o tempo livre do cidadão italiano com atividades de lazer, instituindo o turismo como direito garantido ao trabalhador. Pouco mais de 10 anos após a sua criação o programa

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italiano reuniu cerca de 3,5 milhões de pessoas em torno de suas atividades. (BADARÓ, 2006, p. 74). A idéia italiana foi copiada pela Alemanha em 1933, à época sob o domínio de Hitler. Na ocasião foi instituído o programa Kraft durch Freude que visava convencer os germanos de que sem lazer e diversão o trabalho não teria significado. Foram organizadas diversas colônias de férias no país, principalmente na Baviera e no litoral, e os cidadãos eram convidados a não se retirar do país e apreciar o que este lhes podia oferecer. Assim como na Itália o sucesso foi sensível e o número de turistas subiu de 100 mil em 1923 para 3 milhões em 1934 (BADARÓ, 2006, p. 74). Os programas alemães e italianos, assim como o movimento de vanguarda francesa na legislação e criação de instituições específicas da atividade turística, marcaram a primeira metade do século XX, mas não seriam as únicas formas como o turismo seria tratado até o fim desse período histórico. Tanto a primeira quanto a segunda guerra mundial foram um entrave para o setor turístico, e os grandes acontecimentos neste só foram possíveis depois do fim de cada período belicoso. Após a primeira guerra mundial ocorreu a adoção das férias remuneradas por grande parte dos países europeus, permitindo que as classes menos favorecidas da população européia pudessem viajar e cultivar o hábito do turismo. As férias remuneradas foram um ponto importante para a massificação do turismo, ocorrida após a segunda guerra mundial. De 1950 a 1975, ocorreu um crescimento exponencial do turismo mundial, concretizando a difusão da prática do turismo, razão pela qual esse período é chamado de boom do turismo ou período de massificação. Este período pós-guerra foi caracterizado pela internacionalização da economia mundial sob o patrocínio dos Estados Unidos por meio, principalmente do Plano Marshal, bem como a adoção do fordismo como sistema de produção, incentivando os mercados de consumo em massa. Badaró (2008, p. 41) aponta que o boom do turismo foi motivado pela paz em zonas de estabilidade política aliado ao aumento do poder aquisitivo da população e às mudanças nas leis trabalhistas ocorridas em vários países, difundindo as férias remuneradas e o direito ao lazer.

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A busca pelo entretenimento foi captada pelos governos e lhes serviu satisfatoriamente, pois se tratava de uma alternativa tanto para gerar empregos quanto para ampliar o intercâmbio cultural. Tratava-se de uma oportunidade de recuperação para um mundo pós-guerra. Vale salientar que nessa fase de expansão o turismo ainda era um tema com mais influência enquanto política econômica e estratégica do que jurídica. Só após as conseqüências do boom do turismo que a atividade seria efetivamente regulamentada, levando-se em conta as suas peculiaridades. Enquanto tais efeitos não surgiam as leis se preocupavam em organizar as áreas que compõe a atividade turística, tais como hospedagem e transporte, sem se preocupar com a atividade como um todo e os seus efeitos na sociedade. A partir de 1950 houve uma formação moral orientada ao prazer e a indústria das viagens tinha um papel sedutor nessa nova proposta. A prática do turismo teve ainda mais força para ser alavancada nessa época por se tratar de um fenômeno inicialmente concentrado nos países desenvolvidos. Com o aumento da procura o mercado se desenvolveu para atender a demanda. As viagens passaram a ser um negócio, e criou-se a idéia do produto turístico, que visava a padronização da oferta turística para a sua melhor comercialização. Um dos setores da indústria turística que mais influenciaram o crescimento desta e possibilitaram a massificação da atividade foi a do transporte aéreo. A criação de aviões a jato dobrou a velocidade aérea, difundiram-se os vôos noturnos e os assentos nas aeronaves passaram de cem para quase quinhentos, convertendo o luxo de voar em necessidade. Em 1957, houve pela primeira vez mais passageiros transportados por via aérea do que pelo mar (BADARÓ, 2008, p. 44). A indústria automobilística também cresceu, impulsionando o turismo interno através do aumento da freqüência das viagens individuais e para locais próximos, incentivando opções de alojamento como albergues, camping, pousadas e aluguel de casas de veraneio. Os hotéis foram reestruturados para se adaptarem melhor à crescente indústria turística. As mudanças da hotelaria foram no sentido de reduzir os custos de manutenção e operação ao mesmo tempo em que se aumentava a qualidade gerencial. As redes de hotéis norte-americanas absorveram melhor essa nova necessidade, o que não aconteceu com os hotéis europeus. Como reflexo

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temos que em 1973 nove entre as dez maiores redes de hotéis do mundo eram americanas (BADARÓ, 2008, p. 46). Em 1973, a prática do turismo já era uma realidade global. A receita gerada pela atividade passou de US$ 2,1 bilhões em 1950 para US$ 31,1 bilhões em 1973. O crescimento das chegadas internacionais também foi expressivo, passando de 25 para 198 milhões de pessoas (BADARÓ, 2008, p. 49). Depois um intenso desenvolvimento da atividade houve um despertar para os seus efeitos. Salienta Badaró que:

O boom do turismo ocorreu de forma desenfreada e, por vezes, irresponsável em relação ao meio ambiente; um movimento crítico dos residentes e do poder público, chamando a atenção dos empresários e turistas para as causas da preservação histórica e ecológica, obrigou haver uma conciliação entre a continuidade daquela expansão e a conscientização da preservação e expansão do meio (BADARÓ, 2008, p.47).

Deste movimento, nasce a filosofia do desenvolvimento sustentável, que passou a ser a tônica da prática do turismo a partir de então. A idéia básica desta filosofia é a de que a prática do turismo deve assegurar a preservação do destino turístico para que o mesmo possa ser feito no futuro. Essa necessidade decorre também do fato de o turismo, após a sua massificação, ter se consolidado como direito de todos os cidadão, e não mais uma prática exclusiva das elites. Outro pensamento que decorre dos efeitos da massificação do turismo e da valorização do turismo sustentável é a do turismo alternativo, que se contrapõe ao turismo de massa. Enquanto um se importava em atrair cada vez mais turistas independente das condições suportadas pelo destino o outro se preocupa em valorizar o destino e adaptar o número de visitas a este com o intuito de preservá-lo. Como exemplo de turismo alternativo temos o ecoturismo e o turismo de aventura. De 1974 em diante, o turismo continuou a crescer, mas nesse período a atividade já se encontra sob a necessidade de concretizar a prática sustentável da atividade. Atualmente a atividade do turismo já não pode mais ser considerado mero instrumento do Estado para atingir a determinado fim. A complexidade e

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repercussão social da atividade exigem do poder público um conjunto de normas específicas e impregnadas das características e peculiaridades do setor. Em 1999 o direito francês incluiu no seu sistema de ensino o direito do turismo (droite du tourisme) que, segundo Badaró, trata-se de “um ramo que transcende todos os demais, dado que se utiliza de contribuição do direito civil, do direito do consumidor, do direito comercial, do direito internacional, entre outros” (BADARÓ, 2006, p. 80). O direito do turismo francês busca conceituar todas as atividades advindas do turismo, descrever suas inter-relações e organizar todas as legislações esparsas referentes ao tema. Na União Européia o direito do turismo encontra-se consolidado graças ao programa plurianual a favor do turismo europeu que incentivou a criação por parte dos países membros de um novo ramo do direito que desse suporte legal ao turismo e às áreas conexas a ele.

1 As Organizações Internacionais e o Turismo

O modelo e prática da competência nacional exclusiva foi abalado no decorrer do século XX em razão do surgimento de diversas organizações internacionais. Até então o Estado era a fonte primordial de produção do ordenamento jurídico. A descentralização dessa função e poder estatal se deu com a criação e desenvolvimento das organizações internacionais enquanto sujeitos ativos do Direito Internacional. Salienta Badaró que:

As vantagens das organizações internacionais surgiram ao retirarem das mãos dos Estados o monopólio da condução das relações internacionais, forçando-os a observar os esforços das organizações para assegurar a observância das normas do direito internacional (BADARÓ, 2008, p. 68).

As organizações internacionais possibilitaram uma maior pluralidade e especialidade das fontes de criação do direito. Certo é que as normas de direito internacional não tem primazia sobre as normas de direito interno do Estado4, mas o
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Rezek salienta que o primado do direito das gentes sobre o direito interno ainda é uma proposição doutrinária, vez que dificilmente uma das leis fundamentais desprezaria o ideal de segurança e estabilidade da ordem jurídica para se submeter ao produto normativo dos compromissos exteriores

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que surtiu maior efeito foi a pressão criada pelas organizações na defesa dos temas que cada uma tem como objeto. Elas elaboram diversos encontros e documentos em todas as partes do globo, influenciando de uma forma ou de outra a produção e adaptação do direito interno aos anseios da comunidade internacional. Desde o início do século XX, foram criados vários organismos internacionais relacionados ao turismo. Já em 1904 foi criada a Aliança Internacional do Turismo, órgão que reunia as operadoras e as empresas do setor da Europa ocidental e os parcos organismos estatais vinculados ao turismo. A Sociedade das Nações teve uma pequena atuação no setor turístico através da resolução de 21 de outubro de 1920 que versava sobre passaportes, formalidades aduaneiras e bilhetes, chegando a propor a adoção de uma espécie de passaporte internacional e único escrito em dois idiomas: o francês e o oficial de cada país. Em 1944, surgiram dois organismos que representavam um decisivo impulso ao turismo internacional: a Organização Internacional da Aviação Civil (ICAO) e a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA). Estas duas organizações foram de grande importância para o desenvolvimento do setor de aviação, que contribuiu para a expansão da atividade turística. A atual Organização Mundial do Turismo (OMT) surgiu da União Internacional de Organismos Oficiais de Turismo (UIOOT), criada em 1946 e oficialmente reconhecida em 1974, durante o II Congresso Internacional de Organismos Nacionais de Turismo em Paris, ocasião em que a recém criada ONU preparou algumas recomendações para simplificar as formalidades aduaneiras e políticas de controle cambial e sanitário nas fronteiras. Tais recomendações foram conhecidas como o Código de 1947. Em 1967 a UIOOT foi transformada em organismo intergovernamental e direcionado para cuidar de assuntos em escala mundial por meio da atuação conjunta com iniciativas internacionais, em particular os da ONU e UNESCO. Em 1970 a UIOOT mudou o seu nome e estatuto para se transformar na OMT. Em 1975 a OMT organiza a sua primeira assembléia geral na cidade de Madri que viria a ser

do Estado. Na Constituição Federal os tratados sobre direitos humanos que o Congresso aprove com o rito de emenda à Carta integrarão a ordem jurídica constitucional.

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adotada neste ano como sede oficial da organização. Em 1976 a OMT converteu-se em agência executiva do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e firmou um acordo oficial com a ONU. Em 2003 as relações entre a OMT e a ONU seriam estreitadas com a conversão daquela em agencia especializada desta5. Outro organismo internacional de grande importância é o World Travel and Tourism Council,uma coalizão global dos 100 mais importantes executivos de todos os componentes do setor turístico, entre hospedagem, cruzeiros, entretenimento, recreação, transportes e serviços relacionados a viagens. O WTTC publica periodicamente pesquisas e relatórios sobre o turismo global, financia o desenvolvimento do setor e promove atividades globais para a difusão e prática do turismo sustentável.

1.1 O Código mundial de ética do turismo

Atenta para a necessidade do desenvolvimento responsável e sustentável do turismo mundial a OMT criou um código de ética inspirado em declarações e códigos profissionais que o precederam. O Código serve para ajudar a minimizar os efeitos negativos do setor no meio ambiente e no patrimônio cultural. Por meio deste documento, a OMT afirma ainda o direito ao turismo e a liberdade de deslocamentos turísticos, expressando a vontade de promover um ordenamento turístico mundial eqüitativo, responsável e sustentável, em benefício mutuo de todos os setores da sociedade e uma volta da economia internacional aberta e liberalizada. As disposições do Código de Ética se apresentam como princípios, dentre os quais destacamos o princípio da contribuição do turismo para a compreensão e o respeito mútuo entre homens e sociedades (artigo 1º), sendo a compreensão, a promoção de valores éticos, a alteridade e a tolerância, ao mesmo tempo, fundamento e conseqüência do turismo (BADARÓ, 2008, p. 159).

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Mais informações sobre a formação e estrutura da OMT em http://www.unwto.org/aboutwto. Acesso em 29 out. 2008.

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O turismo é ainda instrumento de desenvolvimento pessoal e coletivo e fator de desenvolvimento sustentável. As atividades turísticas deverão respeitar a igualdade entre os gêneros. Os direitos humanos devem ser promovidos e em particular, os direitos específicos dos grupos de populações mais vulneráveis. Todos os agentes de desenvolvimento turístico devem proteger o meio ambiente e os recursos naturais, com perspectiva de um crescimento econômico constante e sustentável, que seja capaz de satisfazer eqüitativamente as necessidades e aspirações das gerações presentes e futuras. Na salvaguarda dos Direitos Humanos dispõe o Código que

A exploração de seres humanos, em qualquer de suas formas, principalmente a sexual, e em particular quando afeta as crianças, fere os objetivos fundamentais do turismo e estabelece uma negação de sua essência. Portanto, conforme o direito internacional, deve-se combatê-la sem reservas, com a colaboração de todos os Estados interessados, e penalizar os autores destes atos com o rigor das legislações nacionais dos países visitados e dos próprios países destes, mesmo quando cometidos no exterior (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TURISMO, 1999, grifou-se).

Assim Organização posicionou-se contra a exploração sexual, vez que a sua prática choca-se frontalmente com os demais princípios do Código. Esse ponto é essencial para o desenvolvimento em capítulo posterior desse trabalho da relação entre turismo sexual e violência sexual. O Código de Ética só se refere ao turismo sexual em um momento, quando trata das obrigações dos agentes do desenvolvimento turístico, mais

especificamente dos meios de comunicação que

Deverão ter o cuidado de divulgar indicações precisas e fiéis aos consumidores dos serviços turísticos. Com esse objetivo, desenvolverão e empregarão novas tecnologias de comunicação e comércio eletrônico que, igual a imprensa e os demais meios de comunicação não facilitarão de modo algum o turismo sexual (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TURISMO, 1999, grifou-se).

Seguindo na análise das disposições do Código de Ética ressaltamos a importância dada pela OMT em consagrar a necessidade da adoção e difusão do direito ao turismo6 como conseqüência do direito ao descanso e lazer, e em
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Badaró (2008, p. 166) aponta que a previsão do direito ao turismo foi uma inovação da OMT que acabou por fornecer ainda mais substrato para o direito do turismo.

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particular a limitação razoável da duração do trabalho e a férias anuais pagas. A participação cada vez mais difundida no turismo nacional e internacional deve ser entendido como uma das melhores expressões possíveis do contínuo crescimento do tempo livre, e a ele não se colocará obstáculo nenhum.

2 O Ordenamento Jurídico do Turismo no Brasil

Assim como ocorreu nos outros países, o direito brasileiro preocupou-se em legislar primeiro sobre as áreas da economia que compõem a indústria das viagens. Em 1938 surgiu o decreto-lei nº406, prevendo autorização governamental para a atividade de venda de passagens para viagens aéreas, marítimas e rodoviárias. Em 1940 surge o decreto-lei 2.440 abordando exclusivamente as empresas e agências de viagens e turismo, classificando-as em categorias e impondo a todas a obrigatoriedade do registro prévio junto aos órgãos do governo como condição de funcionamento (MAMEDE, 2002, p. 21). Só em 1958 o poder público assume um papel mais ativo no desenvolvimento turístico nacional, através do decreto nº 44.863 que criou a Comissão Brasileira do Turismo (Combratur) encarregada de realizar o planejamento turístico nacional. A existência da Combratur foi curta,sendo extinta em 1962. Com o decreto-lei nº 55 de 1966, foi implantado o Sistema Nacional de Turismo mediante a criação do Conselho Nacional do Turismo (CNTur) e a Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), sendo esta vinculada ao Ministério da Industria e Comércio. Competia à Embratur organizar e estimular o turismo brasileiro, seguindo as diretrizes traçadas pelo CNTur. Posteriormente as ações de estímulo foram otimizadas com a criação do Fundo Geral de Turismo (Fungetur) em 1971 e o Fundo de Investimento Setorial de Turismo (Fiset) em 1974. Os fundos serviam para financiar projetos de desenvolvimento do setor, mas a sua atuação não implicou num efetivo crescimento do setor, ao utilizar os incentivos com grupos internacionais que se implantaram no país para usufruir das benesses recém instituídas sem dar uma contraprestação efetiva (MAMEDE, 2002, p. 21). Em 1977, foi criada a Lei 6.505, que revela uma opção estatal de direcionamento da atividade turística através de uma postura ativa. Os serviços

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turísticos seriam aqueles que atendessem a determinadas condições estipuladas pelo Poder Executivo, que podia ainda regulamentar as atividades das empresas prestadoras dos serviços. A lei 6.505 foi regulamentada em parte pelo decreto 84.910, dirigido apenas para as empresas ou entidades que explorem ou administrem meios de hospedagem, restaurantes e acampamentos turísticos (campings). Em 1988, a constituição deu dimensão constitucional ao turismo, dispondo no art. 180 que “a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios promoverão e incentivarão o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico.” O dispositivo traduz a importância do tema enquanto atividade econômica e social, estabelecendo que a atividade turística seja adotada preferencialmente pelos administradores públicos. Foi criado um dever estatal de atenção para a atividade, uma condição constitucional privilegiada que implica na obrigatoriedade de incluir o turismo no universo das escolhas administrativas e legislativas e ainda caracterizá-lo como caminho preferencial para se alcançar o desenvolvimento social e econômico (MAMEDE, 2002, p. 24). Ao salientar o papel estatal na promoção e incentivo do turismo, a Carta ratificou o regime de intervenção estatal na atividade, seguindo a linha de pensamento exposta nas leis infraconstitucionais existentes até o momento. Oportunamente, aponta Mamede, a previsão constitucional não dá margem a uma

abordagem economicista, fria, baseada em números (investimentos e lucros financeiros), devendo ter por fim igualmente o desenvolvimento social, ou seja, a satisfação de outro objetivo fundamental da República: “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”(art. 3º, III, CF), formas de atingir a cidadania e a dignidade da pessoa humana (art. 1º, II e III, CF) (MAMEDE, 2002, p. 25).

Em 1991, com a lei nº 8.181, a Embratur foi transformada em autarquia especial, sendo-lhe transferida as competências e atribuições do extinto CNTur. Competia à Embratur formular a Política Nacional de Turismo, funcionando como um órgão gestor que planeja alternativas e estratégias, verifica a execução de projetos e fiscaliza a atuação dos agentes econômicos que atuam na área do turismo buscando garantir e estimular a produção dos melhores resultados. Em 2003 o

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Decreto n.º 4.898 transferiu a competência da Embratur para o recém-criado Ministério do Turismo. A Embratur passou a ser vinculada exclusivamente para a promoção internacional mediante a execução da Política Nacional de Turismo no que diz respeito à promoção, marketing e apoio à comercialização dos destinos, serviços e produtos turísticos brasileiros no mercado exterior. A política nacional do turismo passou então a ser formada por um núcleo estratégico, encabeçado pelo Ministério do Turismo, através do Conselho Nacional de Turismo e as Câmaras Temáticas, o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo e os Fóruns / Conselho Estaduais de Turismo.

2.1 A lei geral do turismo

Organizado um sistema político para a atividade turística o próximo passo foi a estrutura legislativa. Em setembro de 2008 foi promulgada a lei nº 11.771, conhecida como Lei Geral do Turismo (LGT). A lei define as atribuições do governo no desenvolvimento e estímulo do setor turístico, não se diferindo das outras leis até então existentes no que tange à finalidade. A lei 11.771 inovou ao tratar o tema como uma atividade específica, considerando as nuances tão conhecidas e destacadas no primeiro capítulo deste trabalho. Dessa forma o Estado aborda o tema de maneira ampla. Logo no início a LGT demonstra essa nova preocupação:

Art. 2 Para os fins desta Lei, considera-se turismo as atividades realizadas por pessoas físicas durante viagens e estadas em lugares diferentes do seu entorno habitual, por um período inferior a 1 (um) ano, com finalidade de lazer, negócios ou outras. Parágrafo único: As viagens e estadas de que trata o caput deste artigo devem gerar movimentação econômica, trabalho, emprego, renda e receitas públicas, constituindo-se instrumento de desenvolvimento econômico e social, promoção e diversidade cultural e preservação da biodiversidade.

o

Adverte a doutrina que a lei não deve conceituar os institutos. O conceito adotado pela LGT é, como vimos, o mesmo adotado pela OMT e não seria o mais apropriado para definir a atividade, mas, por outro lado, revela a preocupação do legislador.

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Além de conceituar a atividade a LGT reservou espaço para dispor sobre os princípios que regem a atividade, incorporando no arcabouço jurídico interno nacional os pontos principais do Código Mundial de Ética do Turismo. Mas fora essa nova abordagem dada à matéria a LGT não inovou muito. O Sistema Nacional do Turismo foi recriado e o Fungetur foi remodelado. Revitalizouse também o cadastro obrigatório, segundo o artigo 22 “os prestadores de serviços turísticos estão obrigados ao cadastro no Ministério do Turismo, na forma e nas condições fixadas nesta Lei e na sua regulamentação”. Para fazer cumprir a exigência do cadastro obrigatório A LGT outorgou ao Ministério do Turismo, no âmbito de sua competência, a função de fiscalizar o cumprimento desta Lei por toda e qualquer pessoa, física ou jurídica, que exerça a atividade de prestação de serviços turísticos, cadastrada ou não, inclusive as que adotem, por extenso ou de forma abreviada, expressões ou termos que possam induzir em erro quanto ao real objeto de suas atividades, podendo esta competência ser delegada a órgãos e entidades da administração pública, inclusive de demais esferas federativas. Um grande avanço deixou de ser tomado pela lei nº 11.771 em virtude do veto de um dispositivo do projeto de lei que sacramentava a responsabilidade objetiva das agências de turismo pela execução direta ou intermediação dos serviços ofertados e solidariamente pelo serviço de fornecedores que fossem estrangeiros ou não pudessem ser identificados.

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CAPÍTULO III O TURISMO SEXUAL

A atividade da pesquisa busca uma nova perspectiva para se perceber os fenômenos. É reconhecida a importância de tal atividade, mas ela não se justifica sem um fim prático, para que não fique apenas nos meandros dos grandes mistérios da ciência social que precisam ser desvendados com um grande estudo e vasta quantidade de dados. Seguindo esse papel onírico do pesquisador teríamos a caricatura feita por Becker do pesquisador social: alguém que gasta US$ 100 mil dólares estudando a prostituição para descobrir o que qualquer motorista de táxi poderia lhe dizer (2007, p. 36). A pesquisa deve ter efeito prático, sendo tão simples quanto possível, e não tão complicada quanto imaginável. Neste capítulo, trataremos do cerne da nossa monografia. Após termos definido o papel e atividade do turismo e do direito do turismo questionaremos a situação do turismo sexual lembrando que, conforme disposto na introdução do trabalho, a análise será voltada exclusivamente para o turismo sexual feminino adulto, afastando-se desde já a prostituição masculina e de transgêneros, bem como a prostituição infantil.

1 Características do turismo sexual

No início do século XIV nobres do sul da Europa viajavam até a cidade alemã de Baden-Baden para participar das orgias que aconteciam nos banhos públicos (BADARÓ, 2003, p. 65). Seria ingênuo acreditar que esse foi o primeiro caso de turismo sexual, mas serve como exemplo para registrar que tal fenômeno não é novo, em termos históricos. O turismo sexual é a prática do turismo com o fim de obter uma relação sexual no destino final, devendo o sujeito necessariamente conduzir sua viagem para esse fim. Trata-se da prática da prostituição através do turismo. Atenta para este fenômeno a Assembléia Geral da OMT, na sua décima primeira reunião ocorrida no Cairo em 1995, adotou a Declaração sobre a

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Prevenção do Turismo Sexual Organizado. Para todos os efeitos dispõe a referida declaração que o turismo sexual organizado pode ser definido como

viagens organizadas no setor de turismo, ou no exterior do mesmo, mas utilizando suas estruturas e suas redes, com o propósito principal de facilitar aos turistas a prática de relações sexuais comerciais com residentes do lugar do destino.

A principal preocupação da OMT ao definir o fenômeno é explicitar a correlação entre a relação sexual de caráter comercial, ou seja, a prostituição, e a estrutura do destino turístico, restando claro que a Organização não vê uma colaboração entre as duas atividades, mas sim uma exploração da infra-estrutura turística pela prostituição. Falar em turismo pressupõe deslocamento, lazer, geração de divisas para destinos turísticos, movimentação econômica nos meios de transporte, transplantes culturais e uma preocupação com a sustentabilidade dos destinos das viagens. Alguns teóricos e segmentos sociais não aprovam a utilização do termo turismo atrelada á variante sexual, outros admitem que essa classificação poderia ser considerada mais uma segmentação, para os que negam a utilização do termo, esse fim não pode ser considerado como impulsionador da atividade turística, e sim com algo que vai contribuir negativamente para o perfil daquela localização. De acordo com a cartilha produzida pela UNICEF em parceria com a Universidade de Brasília, citando o Código Mundial de Ética do Turismo:

A exploração dos seres humanos sob todas as suas formas, nomeadamente sexual, e especialmente no caso das crianças vai contra os objetivos fundamentais do turismo e constitui a sua própria negação (TURISMO SUSTENTÁVEL & INFÂNCIA, 2007, p. 4).

Ainda seguindo essa acepção, o turismo sexual, embora esteja disseminado como prática cada vez mais visível nas sociedades contemporâneas, não poderia ser considerado um segmento a mais da atividade turística (por pressupor a existência de um mercado configurado), mas uma de suas perniciosas deformações. “Turismo sexual não é turismo! É crime! (TURISMO SUSTENTÁVEL & INFÂNCIA, 2007, p. 4). Sua existência termina por refletir, de fato, a preexistência de problemas bem mais profundos, os quais, por sua vez, estão ancorados no coração das

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sociedades receptoras e emissoras de turistas (BEM, 2005, p. 19). Feitas estas considerações temos o entendimento de que o termo é usado por alguns com uma certa reserva e por outros, o uso do termo turismo sexual se dá livre da culpa de estar professando uma apologia a sua prática, pois o termo está sedimentado na literatura que o aborda não implicando em qualquer insinuação ou incitação abjeta. O turismo sexual não deixa de aparecer como um fenômeno social, mesmo compreendendo uma das modalidades de exploração sexual comercial, como explicita o Relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da exploração sexual de crianças e adolescentes (BRASIL, 2005). Dessa forma o turismo sexual não pode ser caracterizado como turismo, pois carrega em sua origem características antagônicas ao mesmo: a violência. Segundo Fortes (2007):

Inserida num contexto histórico social e com profundas raízes culturais, a violência sexual atinge todas as faixas etárias, classes sociais e pessoas de ambos os sexos, estimando-se que produza cerca de 12 milhões de vítimas mulheres anualmente, atingindo desde recém-natos até idosos (BEEBE In: FORTES, 2007 p .1-2).

A prostituição, o outro fenômeno imbricado, que vai suscitar a característica da ilicitude, não é vedada pela legislação brasileira, mas, o Código Penal penaliza as atividades correlatas a prostituição, ações ou delitos que atingem frontalmente as mulheres que se prostituem, tais como indução à atividade (art. 227), a facilitação ou o impedimento de abandono (art. 228), a manutenção de casa de prostituição (art. 229) e o tráfico de mulheres, além da violência sexual infantil, previsto no art. 244-A do Estatuto da Criança e do adolescente. Como cita Leirner no artigo da revista Marie Claire:

Como a prostituição no país não é crime, os estrangeiros se sentem a vontade para transar com brasileiras. O problema é que no rastro do sexo pago, forma-se um esquema que movimenta o tráfico de drogas, o tráfico de mulheres, a falsificação de documentos e, pior, a exploração sexual de crianças e adolescentes (LEIRNER, 2007, p. 76).

Ocorre que estamos em terreno delicado. Qualquer posição abrupta pode determinar conclusões viciadas, unilaterais, ruindo assim a aproximação e observação do fenômeno em distanciamento e preconceito. Destacamos que o

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turismo sexual é comumente envolto em um moralismo que dificulta a sua compreensão. Como exemplo citemos algumas situações noticiadas pela mídia nacional. Em maio de 2005, 29 americanos e 40 prostitutas brasileiras foram detidos no Rio de Janeiro pela Polícia Federal ao embarcarem num barco que os levaria a uma festa particular na Baía de Guanabara. A Polícia Federal atestou que nenhuma das mulheres envolvidas era menor de idade e não tiveram nenhuma prova de exploração sexual. A notícia publicada no jornal Folha de São Paulo sobre a prisão informava o público que o grupo estava na escuna Shangrilá, saindo da Marina da Glória com 40 mulheres, que seriam prostitutas, um fotógrafo e um brasileiro, que também tem a cidadania americana. Além da suspeita de prática de turismo sexual, os turistas estavam sem documentos. Um dos integrantes do grupo, Kenneth Graham, ficou preso na sede da Polícia Federal por ser acusado de agenciar turismo sexual. O delegado Felício Laterça, do Núcleo de Operações da Delegacia de Imigração da Polícia Federal, no entanto, não encontrou drogas, menores, nem provas de que houve exploração sexual.

Além da prisão de Graham, que foi encaminhado para a Polinter, todos os turistas foram autuados por estarem sem o passaporte e multados em R$ 828 (US$ 340). Pela suspeita de turismo sexual, também tiveram o prazo de estadia reduzido de 90 para três dias e terão de deixar o país até amanhã. As prostitutas foram ouvidas e liberadas em seguida. A polícia já vinha investigando as práticas de turismo sexual quando recebeu uma denúncia de que os americanos promoveriam uma festa no barco (AMERICANO, 2005, grifou-se).

No dia seguinte ao fato, o colunista Nelson Motta discutia o tema da seguinte forma:

No Brasil, ao contrário dos EUA, a prostituição não é ilegal. Então por que um grupo de americanos foi preso num barco cheio de mulheres na baía de Guanabara mesmo sendo todas profissionais e maiores de idade? Reserva de mercado sexual? Xenofobia genital? Combate ao turismo sexual? Por que combater o turismo sexual se os objetos de desejo dos visitantes são homens e mulheres adultos que fazem isso porque precisam ou gostam? E, certamente, não estão fazendo mal a ninguém, muito pelo contrário. Então qual é o problema? Seria... humm... moral? Qual delas? A oficial? A petista? A católica? A evangélica? Mas o Estado e a igreja não estão separados há muito tempo? (MOTTA, 2005).

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Outro exemplo: na madrugada de 31 de março de 2006 cento e dez turistas estrangeiros foram presos na praia de Ponta Negra, em Natal, Rio Grande do Norte. Setenta policiais federais cercaram a boate Hollywood numa ação que visava combater o turismo sexual. Como não estavam cometendo nenhum ilícito os turistas estrangeiros foram detidos por não estarem portando passaporte. Todos eles foram levados à superintendência da Policia Federal e liberados após pagamento de multa (ESTRANGEIROS, 2006). Se a prostituição não é crime e o turismo sexual é a prática da prostituição através do turismo temos que o turismo sexual é visto com o mesmo preconceito e receio que a prostituição. Antes de defender ou acusar a prática do fenômeno temos que entender as suas nuances, e só assim analisar as conseqüências.

2 A gênese do turismo sexual

O turismo sexual não pode ser visto de maneira isolada da atividade turística. O boom do turismo, que representa o período de massificação e grande crescimento da atividade, causando efeitos que moldaram a atividade, também devem ser analisado para tentar entender o turismo sexual. Como conseqüência desse período de expansão, tivemos o surgimento de pacotes de viagens cada vez mais acessíveis a um público maior, em razão do aumento de produtividade e concorrência no setor turístico. Além disso os centros de férias tradicionais ficaram cada vez mais sujeitos a medidas restritivas para conter a destruição ecológica e os impactos da exploração desordenada do destino turístico, o que impulsionou o surgimento de novos roteiros de viagem. Na construção desses novos roteiros, foi observada a relação preçodesempenho oportuna na maior parte dos países do terceiro-mundo, compensandose então os altos custos com transporte e permanência. Com a saturação da massificação do turismo surge ainda o aumento da demanda por países, culturas e paisagens distantes. Mas esses novos destinos turísticos não surgiram ao acaso. O produto turístico é vendido pelo que ele representa, pelo imaginário que ele é capaz de construir. A migração internacional para a reconstrução da Europa, que

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se desenvolveu aceleradamente após a segunda guerra, trouxe importantes conseqüências para que o turismo sexual fosse embasado e estabilizado.

2.1 Análise macroscópica do sexo turismo

De início, observamos que o processo de migração atualizou e redimensionou as representações coloniais nos países emissores. Tais imagens servirão posteriormente para dar legitimidade às novas práticas de hierarquização. Outra conseqüência da migração foi a fixação de clichês específicos e a construção de estereótipos que culminam na identificação de uma subalternidade das populações receptoras (BEM, 2005, p. 37). Tais conseqüências só foram possíveis porque, neste período de

crescimento, como já foi levantado posteriormente, a atividade turística era tida como alternativas para o desenvolvimento econômico de determinadas regiões, sendo a atividade construída no Brasil de modo intuitivo, sem o suporte de pesquisas científicas ou profissionais especializados capazes de compreender a amplitude e a complexidade das atividades, sem esquecer das limitações

orçamentárias e da infra-estrutura urbana carente de melhorias, além de um problemas característicos da política nacional: a falta de continuidade entre as diversas iniciativas empreendidas para a consecução de um fim. Somente no fim do século XIX pode-se identificar uma mudança na estratégia dos países receptores, ao mudarem a forma de atuação e venda dos destinos turísticos nacionais evitando a vinculação dos mesmos com a figura de mulheres em trajes e posições sugestivas (BEM, 2005, p. 38). Dessa abordagem, podemos observar que a essência do turismo sexual é a desigualdade, e ela se apresenta de várias formas, razão pela qual não é certo se ater a apenas uma delas. Uma análise mono causal pode ser útil na medida em que explique determinadas nuances do fenômeno, mas é ineficaz para tentar entende-lo amplamente. O eixo de análise da desigualdade não deve ser somente o econômico, pois as diferenças entre os países emissores e receptores do turismo sexual,

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economicamente, é a mesma de um país desenvolvido e outro subdesenvolvido. Outra razão de se reduzir a termo econômicos é que, assim procedendo, os países subdesenvolvidos seriam o bordel do primeiro mundo. Há valores culturais historicamente sedimentados que apontam tanto os países emissores quanto os receptores para a ocorrência do turismo sexual. Da mesma forma há fatores internos das sociedades em questão que direcionam os homens das sociedades emissoras para as mulheres das sociedades receptoras. Não podemos nos afastar dos cenários imaginários e fantasias que compõem o destino turístico. Quanto à situação da mulher no mundo globalizado Bem (2005, p. 36) salienta que elas são afetadas pela exclusão social, não obstante o discurso hegemônico procure sugerir um desenvolvimento neutro entre os gêneros no processo de globalização. As mulheres são símbolos dos antigos e dos novos espaços de marginalidade, vítimas de uma relação histórica de exploração pelo mercado, de uma relação assimétrica entre os gêneros que foi reconfigurada pelo processo de globalização. O sistema patriarcal-escravocrata da colonização brasileira sustentava-se na exploração do corpo de homens e mulheres para o trabalho, bem como a exploração sexual de mulheres negras e índias como forma de selar a subordinação sexual e forma material de exclusão social. Essa situação de exclusão adquiriu novas formas com as mudanças históricas, preservando-se contudo uma linha de continuidade em relação às formas de exclusão colonial (BEM, 2005, p. 81). A abolição da escravatura não significou a chegada da igualdade de condições, lançando os ex-escravos à própria sorte e preterindo-os em favor dos operários imigrantes europeus. A população escravizada adquiriu acesso a um modelo de liberdade que redundou na renovação da sua condenação. Aponta Bem que

Nesse momento instituiu-se um sistema de apartação social de mercado, que reservou para os homens negros, como única forma de integração social, o botequim, e para as mulheres negras, o trabalho doméstico. No contexto do turismo sexual os europeus são servidos como senhores pelos mesmos escravos que foram por eles preteridos. O sentimento de serem “reis” por algumas semanas é que confere a muitos turistas a possibilidade da “gratificação”, que lhes dá o mesmo “privilégio” da apropriação sexual de

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mulheres vulneráveis compartilhado pelos antigos senhores de engenho (BEM, 2005, p. 84).

Alertamos que não pretendemos induzir uma análise reducionista do fenômeno. Os momentos históricos citados são simples análise do passado histórico nacional com o objetivo de apontar conseqüências modernas tanto no imaginário dos países emissores quanto na população do Brasil enquanto país receptor. Bem analisa ainda a importância da desagregação familiar brasileira. A partir da década de 1940 a migração da zona rural para a zona urbana afeta consideravelmente as famílias oriundas dos setores populares. A migração já é naturalmente uma experiência desagregadora, ao forçar os membros da família a buscar estratégias de sobrevivência que os desarticulam espacialmente, reduzindo a força de seus vínculos. Na migração para a cidade a baixa qualificação obriga uma desarticulação potencializada, submetendo os migrantes a condições de vida tão ou mais precárias quanto aquelas experimentadas na origem (BEM, 2005, p. 88). Para o mesmo autor, o ciclo de desagregação iniciado com a imigração se fecha com uma marginalização ocorrida na década de 1970 que transforma a massa de manobra obreira em excluídos desnecessários na Sociedade de Informação. Trata-se da derrocada da família, agora “órfã de um mercado que a rejeita e de um Estado que a negligencia como objeto de sua ação” (BEM, 2005, p. 90). Nesse passo conclui Bem que o turismo sexual se estabelece em contrapartida a um mundo pobre de alternativas reais. Os grupos agora desagregados e destituídos da solidariedade familiar passam a ser alvo preferencial de redes criminosas, que ampliam crescentemente seu raio de ação com a expansão natural do capitalismo (BEM, 2005, p. 91). Certo é que as mulheres constituem um grupo vulnerável que, como bem aponta Séguin (2002, p. 12), não obstante sejam um grande contingente numérico da população, são considerados como grupo vulnerável por serem destituídos de poder. Esses grupos sentem diretamente a diferença a que estão expostos por estarem situados em uma posição desprestigiada, sem chances objetivas de participar das promessas de mobilidade social inscritas como ideologia da racionalidade capitalista (BEM, 2005, p. 86).

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2.2 Análise microscópica do sexo turismo

Na prática do turismo sexual uma pessoa deve se dispor a viajar para um determinado lugar com o objetivo de ter relações sexuais no destino final. Mas não é unicamente a relação sexual que estimula a viagem, como também os cenários imaginários e fantasias construídas pelas preferências físicas associadas a características temperamentais e culturais. Os viajantes à procura de sexo buscam, mediante diversas estratégias, descobrir aspectos dos locais visitados. A busca pode se dar em paisagens, praias, cidades, bairros ou o contato com os nativos, constituindo tanto uma busca externa quanto interna, através da procura de sensações autênticas supostamente suscitadas, segundo Piscitelli (2002), pela autenticidade daquilo com o que eles entram em contato. Segundo Bem (2002, p. 68) o exotismo é o elemento mais marcante na caracterização das mulheres dos países receptores pelos guias turísticos. Na construção destes cenários temos fatores como exotismo e autenticidade. Quanto ao exotismo, Piscitelli (2002) ressalta que é um “elemento simbólico-interpretativo que, entre outras coisas, possibilita aos membros de um grupo social compreender outro grupo social percebido como diferente”. O exotismo procurado pelo turista pode referir-se a algo primitivo, ultrapassado ou até em vias de extinção, mas em todo o caso a alusão ao exotismo serve para uma constante valorização negativa da alteridade, sendo o mundo dos nativos considerado em termos comparativos em referência aos locais de origem dos viajantes.

A masculinidade nativa tende a ser inferiorizada, particularmente nos graus de encontros mais extremos com a alteridade. Essa valorização é relativizada quando se traça algum grau de proximidade entre nacionalidades. Nesses casos, o diálogo entre masculinidades, superando as diferenças atribuídas às origens nacionais, põe em evidência a particular inferiorização das mulheres nativas (PISCITELLI, 2002, p. 10).

A autenticidade é a correspondência com a realidade. É obter um sentimento de identificação entre o que se tem e o que se busca. No caso da atividade turística trata-se da experimentação do produto turístico em conformidade com a sua

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propaganda, com as expectativas do viajante. A sensação de autenticidade para o viajante pode estar ligada à emoção produzida pelo fato de ser o único estrangeiro no meio dos nativos, numa praia ou num transporte público (PISCITELLI, 2002). Em contrapartida, os países receptores são dotados de garotas de programa, além de serem comercializáveis enquanto um produto turístico atraente, aptas a comercialização do sexo. Nesse ponto a análise do turismo sexual se confunde com a análise da prostituição, mas não se trata da mesma coisa, pois o turismo sexual é uma forma de exercício da prostituição. Para se configurar o turismo sexual, é necessário que o turista conduza as atividades para esse fim. Esse requisito é o que diferencia um turista sexual de um turista comum que venha a ter relações com uma prostituta em seu local de destino. O mesmo requisito serve para combater o lugar comum de que todo turista estrangeiro é, de fato, um turista sexual.

Tal confusão expressa-se na construção da figura do turista sexual, um personagem nitidamente caracterizado nos discursos de atores envolvidos na luta contra o turismo sexual e o tráfico das mulheres no Brasil. Nestes, o turista sexual, por meio de seu suposto aliciamento predatório de meninas ingênuas, é tipicamente apresentado como um agente privilegiado na transformação de brasileiras em vítimas do tráfico internacional das mulheres. Esta visão está longe de considerar essas mulheres como agentes ativas na construção de seus destinos, assim como de contemplar qualquer noção mais nuançada sobre "o" turista sexual. E, o que é mais grave, essa procura de vítimas e vilões oculta o funcionamento das relações que constituem os nexos entre turismo internacional, migração e sexo operando na maioria das grandes cidades brasileiras (SILVA; BLANCHETTE, 2005, p. 1-2).

A análise do problema do turismo sexual encontra-se então reduzida ao comportamento sexual dos estrangeiros em sua interação com as prostitutas, sem considerar os complexos fatores que permeiam essa relação. Dessa forma a análise do tema conduz a uma equação simples e maniqueísta, especialmente pela mídia, elegendo desde já o turista sexual como um aproveitador da comunidade receptora e dotado de um comportamento sexual que ofenda aos nativos. As garotas de programa também não são olhadas da devida maneira quando se parte do ponto de vista maniqueista do turismo sexual. A atividade da prostituição é para elas uma forma de mobilidade social, na ausência de canais legítimos de

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mobilidade7, mas a atividade por meio do turismo sexual potencializa a condição de mobilidade, vez que as garotas de programa têm acesso a um novo tipo de cliente. O turista sexual faz parte de uma estratégia interessante no que diz respeito à posição profissional e/ou pessoal da prostituta envolvida e às oportunidades que possam se abrir a partir daí. Assim temos uma situação muito bem ilustrada por Piscitelli na análise da migração brasileiras para a itália:

Essas mulheres, com idades entre 22 e 31 anos, originárias das camadas baixas e médias-baixas de diversos estados do Nordeste do Brasil, chegaram à Itália em momentos diferenciados no tempo (entre quinze meses e sete anos). Elas oferecem exemplos de um dos paradoxos envolvendo o turismo sexual. Em alguns casos, ele oferece vias de saída da indústria do sexo, através da migração para os países do Norte e do casamento (PISCITELLI, 2007, p. 723, grifou-se).

Deixa claro a autora que não é todo o caso de migração ou casamento que acabam em uma história feliz, vez que há casos em que as mulheres permanecem na indústria do sexo.

No contexto no qual elas acharam seus parceiros, dinheiro, sexo e amor entremeiam-se em um terreno ambíguo. Os relacionamentos com os estrangeiros tendem a estar marcados pelo interesse econômico. Mas, tingidos por noções de gênero, etnicidade e cor, podem também envolver romantismo e uma certa idealização, combinada com o desejo de residir fora do Brasil. Esses últimos aspectos diluem-se quando as garotas se decepcionam com esses turistas, o que acontece com freqüência. Mas, quando já não se apaixonam, a maioria investe esforços consideráveis para promover a paixão dos visitantes (PISCITELLI, 2007, p. 723, grifou-se).

Observamos, assim, uma característica particular do turismo sexual pela análise das motivações dos seus atores. O turista escolhe o destino turístico em razão de um conjunto de fatores exóticos e autênticos, dentre os quais se inclui o sexo. As garotas de programa, atendendo ao movimento do turismo sexual, idealiza a possibilidade de obtenção de melhores condições devida, por meio do contato com os estrangeiros.

7

Essa opinião é demonstrada por Bem (2005, p. 105) em parte, vez que o autor atribui essa forma de mobilidade à população excluída pelo processo de globalização. Seguindo esse raciocínio conclui o autor que a configuração do turismo sexual cria uma infra-estrutura e uma dinâmica propícia à proliferação do tráfico de mulheres.

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3 Uma perspectiva de mercado do turismo sexual

Vimos anteriormente que a atividade turística foi intensamente desenvolvida globalmente como uma alternativa econômica viável, especialmente a partir da segunda metade do século XX. Conforme salientamos a organização da atividade foi inicialmente precária, baseando-se em objetivos de curto prazo e retorno imediato. Somente após o surgimento de conseqüências indesejadas da exploração e crescimento do turismo de massa os países e as organizações internacionais passaram a se preocupar com a fiscalização e o planejamento da atividade, afirmando-a como sustentável, ao preservar o meio ambiente e as populações receptoras. Assim como o turismo o turismo sexual já serviu como ferramenta política, sendo utilizado em virtude de seus resultados imediatos e com uma organização inconsciente dos seus efeitos. Como exemplo temos o caso das Filipinas que durante o governo de Ferdinando Marcos (1965 a 1986) usou a atividade turística para atender os anseios dos estrangeiros, especialmente com relação ao turismo sexual, demonstrando assim que o país se adequava aos tempos modernos ao acompanhar a expansão dos países do primeiro mundo. Ao longo da década de 1970 foi construído no país suntuosos hotéis em Manila para receber os turistas atraídos por meio de propagandas e folders sugestivos que incitavam o sexo turismo (BADARÓ, 2008, p. 67). Imaginar o incentivo governamental ao turismo sexual como meio de promoção do país e da atividade turística fere aos princípios expostos pelo Código Mundial de Ética do Turismo. Dessa forma não teríamos a prática da prostituição através do turismo, como vastamente analisamos até aqui, mas sim o incentivo da atividade da prostituição como um incentivo turístico. Fique claro não concordando com a prática e desenvolvimento do turismo sexual enquanto política pública nem como estratégia de mercado. Mesmo assim analisaremos a possível ocorrência de um turismo sexual de massa, posto que ele explicita mais alguns detalhes da prática do fenômeno aqui estudado. Em 2001, o escritor francês Michel Houellebecq causou alarde com o livro Plataforma. O autor abordou de uma só vez o antiislamismo e a prática do turismo

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sexual, dois temas conhecidamente polêmicos, aproveitando o ensejo para discutir o empobrecimento cultural do homem moderno, que se deixa ludibriar por promessas de paraísos ilusórios nos folhetos de propaganda de viagem e por logotipos de grife. Mesmo em se tratando de uma obra de ficção, Houellebecq construiu um livro que demonstra as razões do crescimento do turismo sexual, analisando as razões para a sua prática na modernidade sob uma dimensão eminentemente capitalista e cultural. O protagonista do livro é Michel, um entediado funcionário do serviço público francês, de 40 anos, que cultiva a condição de solteiro com uma aversão a qualquer relacionamento amoroso.8 Com a herança decorrente da morte do seu pai o protagonista decide modificar a sua vida, iniciando tal mudança com uma viagem. O narrador se reconhece nos desejos de liberdade que atribui aos habitantes da Europa Ocidental. Seu maior desejo, análogo ao que atribui aos outros europeus, é viajar. Do ponto de vista de Michel, viajar é consumir: ele reflete sobre os circuitos a serem escolhidos considerando, simultaneamente, as diferentes perspectivas teóricas que tratam do consumo. O sexo a ser obtido durante a viagem é um fator como qualquer outro, influenciando assim na escolha do destino. Analisando as opções o protagonista escolhe pelo destino Tropic Thai, um pacote de viagens na Tailândia classificado sob o rótulo de turismo de aventura. Mais uma vez o autor dá sinais da sintonia da obra com a atualidade. A Tailândia é um dos principais destinos do turismo sexual internacional. Outro detalhe importante é a classificação do pacote de viagem escolhido como sendo uma oposição ao difamado turismo de massa. É como se o autor quisesse se distanciar da atividade turística comum, optando por um roteiro mais exótico possível.

Algumas abordagens caracterizam o turismo de massa como marcado pela falta de autenticidade, considerando-o uma forma de experiência organizada para evitar o contato real com o outro, uma forma de ser trivial, manufaturada, uma forma de viagem maculada, tornada segura através da comercialização (PISCITELLI, 2002, p. 3-4).

8

Dessa forma Houellebecq encaixa o protagonista do livro no estereótipo de turista sexual, um cidadão de classe média, solteiro e de meia idade que faz a viagem de maneira solitária.

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O sucesso da viagem foi tamanha que, além de Michel adorar o destino, conseguiu estabelecer uma relação afetiva estável com uma mulher francesa, alta executiva do ramo turístico que ele encontrara na viagem. Além disso, ambos têm a idéia de transformar o turismo sexual internacional num negócio, a partir da construção de tours sexuais para europeus no terceiro mundo. O novo negócio tem sucesso imediato, justificando-se na idéia de criar uma situação de troca entre a prostituição do Terceiro Mundo e o dinheiro ocidental:

Por um lado há centenas de milhões de ocidentais que possuem tudo o que desejam, mas não conseguem mais encontrar satisfação sexual: procuram o tempo todo e não encontram nada; são infelizes até não poder mais. Por outro lado você tem alguns bilhões de indivíduos que não possuem nada, passam fome, vivem em condições insalubres, morrem jovens e só tem para vender os seus corpos e sua sexualidade intacta. É simples, realmente simples de entender: uma situação de intercambio ideal (HOUELLEBECQ, 2002, p. 261-2).

Dessa forma, o autor destaca uma das nuances do turismo sexual. A depender do ponto de vista adotado essa troca pode ser uma exploração do turista do primeiro mundo sobre a garota de programa do destino turístico do terceiro mundo ou um exercício do direito individual da garota de programa em dispor livremente do seu corpo.9 Essa questão abrange o debate sobre se uma mulher pode consentir na prostituição, segundo Bassiouni:

[...] os defensores dos direitos humanos afirmam que os trabalhadores do sexo têm direitos como quaisquer outros trabalhadores. Alguns baseiam seus argumentos na irrefutável presunção de nulidade de qualquer concordância com a prática da prostituição e outras formas de trabalho sexual que se fundamentam na natureza lucrativa dessa atividade. Outros apóiam esse ponto de vista porque consideram esse tipo de consentimento para se prostituir como resultado da coação econômica ou abuso da vulnerabilidade econômica da pessoa em questão. Aqueles que se posicionam no lado contrário do debate sustentam que as mulheres podem admitir livremente em se tornarem trabalhadores sexuais e que essa escolha deve ser respeitada. Existe consenso quanto à incapacidade de um menor de idade dar consentimento válido a esse tipo de exploração mas, ainda assim, discute-se qual a idade para o consentimento à luz da diversidade cultural no mundo (BASSIOUNI apud BRASIL, 2005, grifou-se). Franck (2006) salienta que a tendência é a construção da prostituição como a defesa de um direito individual, pois tal teoria conta com o lobby da indústria do sexo, especialmente a da pornografia. Dessa forma o turismo sexual seria livre de toda a responsabilidade ou culpa. O autor adverte para o turismo sexual como uma forma de exploração: ao pagar pelo sexo o turista estaria comprando a liberdade de uma pessoa sobre a qual, por um tempo determinado, ele detém todos os direitos, operando assim a redução da prostituta à condição de uma mercadoria.
9

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4 O tráfico de pessoas e o turismo sexual

Segundo o artigo 231 do Código Penal, incorre no tráfico internacional de pessoas “aquele que promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exercê-la no estrangeiro”. A legislação penal é objetiva, ignorando qualquer referência à coerção ou às violações de direitos humanos. Assim a pessoa traficada é qualquer pessoa que cruza as fronteiras nacionais para trabalhar como prostituta, sendo ela explorada ou não por terceiros.

A questão do consentimento da vítima é irrelevante para a caracterização do tráfico, uma vez que a vítima pode até ter concordado em trabalhar para a prostituição, mas jamais imaginou que seria escravizada, explorada sexual e economicamente e violada em seus direitos fundamentais (MASSULA;MELO, 2004, p. 6).

Ao

desconsiderar

a

vontade

da

pessoa

traficada

como

elemento

caracterizador, a análise da ocorrência do tráfico se dá de forma viciada. A lei englobam como traficada tanto a brasileira adulta que imigra para os Estados Unidos com um visto de turista e que acaba trabalhando numa casa de strip-tease em Miami por vontade própria quanto a criança raptada e transportada ilegalmente a um país estrangeiro para ser vendida como escrava. O pensamento legal é reproduzido pela mídia e pela produção acadêmica e logo temos no mesmo bojo dois problemas distintos.

Toda afirmação e denúncia sobre o tráfico são apresentadas como um fato e servem à função política maior de mobilizar opiniões. Portanto, histórias que envolvem violações de direitos humanos de indivíduos forçados a se prostituir são enfatizadas, em detrimento de histórias de prostitutas estrangeiras que estão sendo presas em grande número, no mundo inteiro, sob a justificativa de "protegê-las do tráfico". (SILVA et al., 2005, p. 7)

A conceituação legal do tráfico causa o mesmo problema da indefinição conceitual do turismo sexual. Ambos os casos giram em torno da prostituição e, mais uma vez, conforme entendamos a prostituição como uma forma de exploração ou um exercício de direito teremos um entendimento diverso.

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Advertem Silva et al. (2005) que para enfrentar o problema do tráfico no Brasil é necessário levar em conta a textura real das vidas dos assim chamados traficados, em vez de abstraí-las, colocando todos – crianças violentadas, mulheres e homens adultos, inclusive quando agem por vontade própria – na mesma rubrica.

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CONCLUSÃO

A situação do turismo sexual depende da forma como o Estado se refere à prostituição. O Brasil é partidário do abolicionismo, que é a não-intervenção estatal no tema, por considerar a matéria imoral. Como reflexo disso o ordenamento jurídico nacional não se posiciona nem contra nem a favor da atividade, proscrevendo contudo todas as práticas que venham a favorecer ou facilitar a sua atividade. O projeto de 98/2003, de autoria do Deputado Federal Fernando Gabeira prevê a exigibilidade de pagamento por serviço de natureza sexual e suprime os artigos 228, 229 e 231 do Código Penal sob a seguinte justificativa:

Com efeito, a prostituição é uma atividade contemporânea à própria civilização. Embora tenha sido, e continue sendo, reprimida inclusive com violência e estigmatizada, o fato é que a atividade subsiste porque a própria sociedade que a condena a mantém. Não haveria prostituição se não houvesse quem pagasse por ela. (BRASIL, 2003, p. 2).

A prostituição não é incriminada, mas se encontra numa incômoda situação marginal, atraindo para essa zona gris toda a matéria que seja vinculada a ela. Porém, analisando detidamente a situação do turismo sexual, algumas confusões devem ser evitadas. É certo que temos uma diferença entre o turismo sexual e a violência sexual, pela proscrição universal da constrição da liberdade advinda da violência. Dessa forma não podemos confundir os dois fenômenos, e essa atitude já seria um avanço para uma compreensão mais precisa do tema abordado neste trabalho. Da mesma forma, não é certo relacionar a prostituição infantil com o turismo sexual, pois o sexo turismo não implica necessariamente na exploração sexual infantil.10 Com tantas diferenciações propostas salientamos a necessidade de discutir o tema em conjunto com as mulheres prostitutas e suas entidades representativas enquanto cidadãs e sujeitos de direitos e não objeto de ações pretensamente salvadoras (INTERVENÇÃO, 2005).

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Badaró (2008) pauta a sua obra no combate ao turismo sexual, partindo do pressuposto que este inclui o turismo sexual infantil.

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ANEXO

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DECLARAÇÃO DA OMT SOBRE A PREVENÇÃO DO TURISMO SEXUAL ORGANIZADO Adotada pela Assembléia Geral da OMT em sua undécima reunião Cairo(Egito), 17-22 de outubro de 1995 [Resolução A/RES/338(XI)] Levando em conta de que a Carta do Turismo e Código do Turista da OMT(Sofia, 1985) insta aos Estados e aos particulares de prevenir toda possibilidade de utilizar o turismo para a exploração da prostituição de outros, Consultadas as organizações internacionais e nações interessadas, tanto governamentais como não governamentais, assim como os representantes do setor do turismo, Considerando a preocupação da comunidade internacional sobre a persistência do turismo sexual organizado, que pode definir-se como “viagens organizadas no setor de turismo, ou no exterior do mesmo, mas utilizando suas estruturas e suas redes, com o propósito principal de facilitar aos turistas a prática de relações sexuais comerciais com residentes do lugar do destino”, Consciente das graves conseqüências sanitárias, sociais e culturais que esta atividade implica para os países receptores e emissores de turistas, em especial quando explora a desigualdade entre sexos, grupos de idade e situação social e econômica no destino visitado, A Assembléia Geral, Rechaça essa atividade, exploradora e subversiva par os objetivos fundamentais do turismo, que consistem em fomentar a paz, os direitos humanos, o entendimento mútuo, o respeito para todos os povos e culturas e o desenvolvimento sustentável, Denuncia e condena em particular o turismo sexual que afeta a infância por considerá-lo como violação do artigo 34 da Convenção sobre os direitos da criança(Nações Unidas, 1989), e requer uma estrita ação jurídica pelos países emissores e receptores de turistas, Pede aos governos dos países emissores e receptores de turista que Mobilizem seus departamentos competentes, incluídas as administrações nacionais de turismo, para tomar medidas contra o turismo sexual organizado, Reúnam provas sobre o turismo sexual organizado e alentem a educação dos funcionários governamentais interessados e os altos dirigentes no setor do turismo sobre as conseqüências negativas dessa atividade, Difundam diretrizes ao setor do turismo insistindo em que se abstenha de organizar toda forma de turismo sexual e de explorar a prostituição como atração turística, Estabeleçam e apliquem, quando seja possível, medidas jurídicas e administrativas para prevenir e erradicar o turismo sexual que afete a infância, em particular

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mediante acordos bilaterais para facilitar a perseguição dos turistas implicados em toda atividade sexual ilícita que envolva crianças e jovens, Assistam às organizações intergovernamentais e não-governamentais interessadas em sua ação contra as formas de turismo sexual organizada, Insta aos países doadores, organismos de ajuda e outras fontes de financiamento a empreender projetos de desenvolvimento turístico para melhorar e diversificar a oferta de serviços turísticos nos destinos afetados pelo turismo sexual, com objetivo de fomentar o emprego no setor de turismo, reforçar seus nexos com outros setores da economia nacional e contribuir para sua sustentabilidade social e econômica, Enaltece as empresas de turismo e as organizações da indústria do turismo, assim como as organizações não governamentais, com a ECPAT, que já empreenderam medidas contra o turismo sexual, em particular com respeito à exploração sexual de crianças e jovens, Insta ao setor turístico a: 1. Unir esforços e cooperar com as organizações não governamentais para eliminar o turismo sexual organizado, tanto na origem e destino dos movimentos turísticos, definindo-se e centrando-se nos pontos críticos em que essa atividade pode proliferar, 2. Educar o pessoal acerca das conseqüências negativas do turismo sexual, incluindo sua incidência na imagem do setor turístico e dos destinos turísticos, convida a que se investigue os meios para eliminar da oferta os serviços sexuais comerciais, 3. Desenvolver e reforçar os códigos profissionais deontológicos e os mecanismos autoreguladores contra a prática do turismo sexual, 4. Adotar medidas práticas, promocionais e comerciais como, por exemplo, uma auto-identificação positiva das empresas que se abstém da promoção do turismo sexual; proibição dos serviços sexuais comerciais, em particular os que afetam à infância, nos locais contratados com fins turísticos; informação aos viajantes acerca dos riscos sanitários relacionados com o turismo sexual, etc., 5. Advertir aos turistas contra a participação do turismo sexual que afete a infância, denunciando sua natureza delituosa e a maneira como as crianças e os jovens se vêem forçados a cair na prostituição, 6. Estimular aos meios de comunicação a ajudar o setor do turismo em sua ação conduzida a descobrir, isolar, condenar e prevenir toda forma de turismo sexual organizado, Convida aos países e a sua entidades turísticas a contribuir ao Congresso Mundial sobre exploração comercial sexual da infância, organizado pelo Governo da Suécia e a UNICEF e que terá lugar em Estocolmo(Suécia) em agosto de 1996.

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