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Módulo 01 - Professora Mary Del Priore1

Vídeo Aula 12
A Infância como Construção Histórica – Séc. XVI, XVII e XVIII
O Estatuto da Criança e do Adolescente vai completar vinte anos e muitos
professores, pensadores e educadores devem estar se perguntando, neste momento,
para que serviu este Estatuto e qual é a situação da criança brasileira hoje.
Eu, na qualidade de historiadora, gostaria de lembrar que esta situação que
nós vivemos hoje, foi construída ao longo de mais de quinhentos anos de história.
Assim, a nossa receptividade ou a nossa pouca simpatia ao Estatuto, passa, também,
por estes quinhentos anos de história que nos ensinaram e que modelaram a maneira
da gente ver a criança brasileira.
Seria bom começar lembrando, por exemplo, que falar em criança ou falar em
infância é assunto realmente muito atual. Durante quase 550 anos, a criança não foi
preocupação nem das autoridades, nem dos médicos e muito menos dos professores.
Se nós quiséssemos olhar realmente para trás, ao longo da nossa história, nos
perguntando por que foi assim, eu começaria com as primeiras embarcações das
carreiras das Índias, que traziam portugueses para o nosso litoral e passavam por
aqui, antes de se dirigirem às Índias. Nestas embarcações, entre 10% a 20% da
tripulação era formada por crianças abandonadas, que eram recolhidas nas cidades
portuárias portuguesas e que trabalhavam de graça, ou seja, faziam um trabalho
quase escravo no seio destas embarcações.
É interessante que nós temos neste fato uma certa perspectiva de que esta
dessensibilização nasce do entrelaçamento de algumas situações que percorrem a
nossa história, e que são feitas de três fatores:
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Mary Del Priore é historiadora com doutorado em História Social e pós-doutorado em História
da América e do Brasil.
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Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto
escrito.
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1. O trabalho infantil,
2. A ausência ou pouca valorização da educação (do professor ou da
escola),
3. O abandono de crianças.
Estas crianças vinham no bojo destas embarcações, porque eram
abandonadas, e muitas delas foram recrutadas logo no início, pelos primeiros
educadores que nós tivemos no Brasil que eram os padres jesuítas.
Os jesuítas resolveram misturar a colonização do Brasil com o processo de
catequização e para isso precisavam fundar escolas. Para cada igreja construída, uma
escola, mesmo que fosse de palhoça e capim ao lado da igreja. Estas crianças
portuguesas abandonadas, que vinha para cá, tinham que funcionar como os
chamados “meninos língua”. Esta expressão vinha do fato de que estes meninos, por
serem jovens, crianças pequenas, aprendiam muito rapidamente o falar Tupi, eram
capazes de se comunicar com as crianças indígenas e atraíam estas crianças
indígenas para as escolas jesuíticas.
Uma escola que obviamente repetia um pouco toda a agenda educacional da
Europa naquele momento, ou seja, uma alfabetização por “decoreba”, com uma
profunda preocupação com a educação moral das crianças.
Podemos ver que abandono e trabalho já marcam de forma emblemática a
relação que se tinha com crianças. Some-se a isso outro problema muito importante
que nós vamos ter, que é a questão da escravidão no Brasil. Poucos professores
sabem, mas dos viajantes africanos que atravessavam o Atlântico e que desciam num
porto importante como o do Rio de Janeiro, sendo vendidos no Mercado do Valongo,
4% eram população infantil. Eram crianças com menos de dez anos e ao longo de um
ano estas crianças eram imediatamente separadas dos seus pais, e aos quatro ou
cinco anos, tão logo elas se pusessem de pé, eram intimadas a fazer pequenos
serviços, sendo rapidamente iniciadas no trabalho.
Para se ter uma idéia de como a escravidão foi dura com as crianças escravas,
aos oito, nove ou dez anos estas crianças já aparecem nos testamentos ou inventários
que nós temos, do século XVIII ou XIX, com uma profissão definida. “Maria –
costureira”, “João – Pastor”, “Benedito - Aprendiz de Alfaiate”... O próprio aprendizado
da criança escrava para o trabalho também foi uma constante. Logo depois que a
família real portuguesa vem para o Rio de Janeiro e ai se instala, nós temos uma
proliferação da fundação de escolas para crianças de elite, e também a proliferação de
escolas cuja finalidade era ensinar a criança escrava algum tipo de aprendizado ou
profissão. Era uma espécie de embrião da escola técnica, que fizesse com que este
escravo ganhasse mais dinheiro e remunerasse melhor o seu senhor.

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Além das crianças escravas, das crianças que não tinham educação e vinham
trabalhar em escolas jesuíticas, ou das que participaram de todas as viagens
ultramarinas, junta-se à história de nossas crianças um outro fenômeno que nós temos
também no período colonial, e que é muito impressionante, que é o de abandono ou
disposição de crianças enjeitadas.
As Santas Casas de Misericórdia tiveram um papel fundamental nesta questão
e eu tenho certeza que muitos professores, sobretudo nas grandes capitais como
Recife, Salvador, Rio de Janeiro ou São Paulo, conhecem as famosas rodas que
ficavam nos muros das Santas Casas onde as crianças eram colocadas. Havia um
sininho do lado de fora, que a mãe badalava, ela virava a roda para o interior da Santa
Casa e as crianças eram recolhidas do outro lado.
Dom Pedro I, numa das visitas que fez à Santa Casa de Misericórdia do Rio de
Janeiro, ficou absolutamente impressionado com o número de crianças enjeitadas,
que eram ali colocadas, e com o nível de sobrevivência dessas crianças, que era
baixíssimo.
Eu diria que esta dessensibilização que nós temos em relação à criança
brasileira nasce não só desse passado de muito trabalho, de muito abandono e de
falta de educação, mas também de um fenômeno que muitos educadores que
trabalham no interior conhecem bem, que são os altos índices de mortalidade infantil.
Essa presunção de que a criança morrendo muito pequenina iria se transformar
num anjo, e nós temos vários viajantes do século XIX, que mostram enterros de
anjinhos, com as crianças todas paramentadas, deitadas em bandejas, adornadas
com fitas e flores, essa presunção consolava as mulheres que tinham famílias muito
grandes e que viam os seus filhos partirem em muito baixa idade, levados pela morte,
ou muitas vezes levados pelo trabalho, pois as crianças eram deslocadas para
trabalhar em outras regiões.
O século XIX foi um século importante, porque foi um século onde a educação
passou a ter alguma importância no Brasil, sobretudo entre as elites. A vinda da
família real, volto a dizer, multiplicou o interesse pela educação, sobretudo pela
educação feminina.
Nós vamos ver que muitos estrangeiros, sobretudo imigrantes franceses e
ingleses, fugindo das guerras européias, ou porque eram adeptos de Napoleão que
havia caído, migram para o Brasil e tentam instalar aqui estabelecimentos que
oferecessem uma agenda mais diversificada, para meninos e meninas brasileiros, mas
era exclusivamente para as crianças da elite.
Um viajante que passou pelo Rio de Janeiro em 1820, tem uma frase muito
interessante sobre a educação feminina. Ele diz que “as meninas brasileiras iam para
a escola aprender piano, a falar um pouquinho de francês, a fazer alguns passos das
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danças inglesas que estavam na moda e para aprender a descascar gostosamente
uma laranja”. Esta era a agenda educativa para as meninas, enquanto para os
meninos era uma agenda que mirava mais aspectos matemáticos, que dessem aos
meninos uma qualificação melhor do que aquela que seria dada para as meninas.
Eu lembro que no Brasil sempre houve uma política brutal de controle da leitura
dos jovens, e este é um fenômeno que também vai cobrar a sua conta um pouco
adiante na nossa história de educação, uma vez que nós tínhamos a Santa Inquisição
perseguindo as leituras proibidas, perseguindo uma série de autores importantes que
na Europa eram corriqueiramente lidos.
No início do século, na Argentina, com Sarmento, nós já vamos ter a
proliferação de escolas públicas, o que aqui no Brasil vai chegar bem mais tarde. No
século XVIII só para dar um exemplo, depois da expulsão dos padres jesuítas que
eram, por assim dizer, os grandes educadores, nós vamos ter, a partir de 1772 a
tentativa de formar a instrução pública para um maior número de crianças. Mas basta
uma visita ao arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, por exemplo, para a gente
se dar conta de como o professor de instrução pública era desvalorizado, Os salários
não chegavam jamais, os professores eram pagos com sacos de farinha, sacos de
mandioca, sacos de milho ou com frangos. Eles não tinham bibliotecas, educavam na
mesma sala crianças de idades diferentes, sem nenhum suporte institucional e sem
nenhum apoio da própria sociedade, que preferia ver as crianças trabalhando, porque
achavam que o trabalho era melhor formador do caráter da criança do que a própria
escola.
A escola não vai ter um grande apoio no século XVIII e menos ainda no século
XIX, em que a escola passa a ser sinônimo de uma escola de elite. Para terminar, vale
lembrar que muitos dos nossos afro descendentes que foram escravos, tiveram
oportunidade de ler, aprender a contar e ter familiaridade com os números, graças aos
seus senhores. Era muito comum, no interior do Brasil, que numa grande mesa dentro
das fazendas, as Iaiás, as Sinhás, aquelas velhas matronas que tocavam as suas
fazendas, fizessem sentar à volta da mesa, escravas mulheres, as chamadas
“Escravas de Dentro” e ensinassem estas escravas a ler e a escrever junto com suas
filhas. Nós temos vários depoimentos deixados neste período, primeira metade do
século XIX, virada da segunda metade, dando conta deste esforço de educação.
Vamos ter bem claro que, pelo menos até o final do século XIX, o abandono de
crianças, o trabalho infantil e a questão da falta de educação, ou seja, o pouco
prestígio da escola, acabaram por criar uma enorme dessensibilização em torno da
nossa infância. A criança era um trabalhador braçal como outro qualquer, e tinha que
sobreviver graças a suas artes, à sua inventividade e à sua criatividade sem grande
apoio da sociedade.

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Vídeo Aula 2
A Infância como Construção Histórica – Séc. XIX
O séc. XIX trouxe alguma transformação para a situação das nossas crianças
no Brasil? Não! Eu lembro que se mantém a situação econômica no Brasil. Nós
continuávamos sendo uma grande fazenda, que seremos até o final do século, se
antes de cana, doravante de café.
Vamos continuar recebendo um contingente importante de africanos que
continuam desembarcando nos portos de Salvador e do Rio de Janeiro. É importante,
porém, lembrar que, diferentemente do que se pensou no passado, estes africanos
vão conseguir constituir as suas famílias, e que relações parentais vão se estabelecer
dentro das senzalas, implicando em formas de transmissão de conhecimentos sobre
suas etnias, sobre seu passado na África, informações sobre religião, práticas
religiosas, alimentares, sobre conhecimentos fitoterápicos ou remédios.
É interessante constatar que esta parentela dos africanos vai vicejar tanto nas
senzalas, como também nas ruas das cidades litorâneas que começam a ganhar um
movimento maior, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Olinda. Nós vamos ter toda
uma cultura afro que vai estar disseminada nestas cidades, permitindo que, através de
laços de solidariedade que se faziam por meio de confrarias religiosas, que se faziam
por meio de rituais africanos, passem a valorizar estas famílias africanas e dentro
delas a valorizar a transmissão de determinados saberes e de determinados
conhecimentos.
A escravidão, portanto permanece, até o final do séc. XIX. A escola continua
sendo o apanágio das elites brancas, e volto a dizê-lo, formada por professores
estrangeiros. As meninas com pouquíssimos recursos intelectuais, os rapazes em
busca de uma formação melhor, que depois vai ser completada na Europa, a partir da
segunda metade do séc. XIX, com a grande facilidade de transportes que vai
melhorando graças aos vapores que fazem as linhas entre Liverpool na Inglaterra e o
Rio de Janeiro.
Nós vamos vendo que os rapazes de elite, filhos dos barões do café vão
complementando a sua educação na Europa e os frutos desse convívio com o
universo europeu irá aparecer de maneira mais densa justamente no final do séc. XIX,
momento dessa primeira industrialização brasileira. Uma industrialização que tem
início no Nordeste e que começa a descer para o Sudeste. As primeiras grandes
tecelagens são instaladas em Pernambuco, depois na Bahia e em São Paulo.
Com a abolição, e sobretudo com a grande imigração que o Brasil vai receber a
partir de 1860, 70, 80, o que acontece com estas nossa crianças? Elas vão para a

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escola? Vão valorizar a educação, ou o colégio? Não! Elas continuam sendo drenadas
para o mundo do trabalho.
Só pra dar um exemplo, um quarto da população de trabalhadores nas
tecelagens do final do século são crianças. Crianças que passavam de onze a doze
horas diante de máquinas têxteis, máquinas que trabalhavam com muita velocidade.
Crianças que estavam sujeitas a serem mutiladas, a perderem as mãos, os braços. A
ficarem sufocadas, em ambientes absolutamente insalubres de trabalho. As fábricas
raramente tinham ventilação e, em onze horas de trabalho, as crianças tinham apenas
vinte minutos para se alimentar, ou ir ao banheiro.
No final do séc. XIX, nós não só vamos encontrar nos jornais dessas grandes
capitais anúncios recrutando crianças para o trabalho, notadamente os filhos dos
imigrantes italianos ou espanhóis que vinham da Europa, já com algum conhecimento
do funcionamento da indústria, como paralelamente, nós vamos começar a ver, nas
mesmas páginas de jornal, uma incidência enorme de informações sobre violências
cometidas contra as crianças.
Crianças que eram, muitas vezes, mortas no ambiente de trabalho, que sofriam
toda sorte de maus tratos por conta de mestres e contramestres. Isso começa a
pipocar e fica mais interessante ainda com a instalação dos movimentos anarquistas
nas grandes capitais e a circulação dos jornais anarquistas que denunciam, por sua
vez, os maus tratos e a vida absolutamente sórdida e brutal que era a vida cotidiana
destas pequenas crianças.
É nesta situação que, talvez pela primeira vez, nós começamos a perceber a
criança brasileira como vítima desse abandono institucional, da falta de escola, de
família e de instituições que a preservassem da obrigatoriedade de trabalhar de
maneira tão insana. Embora em 1891 nós tenhamos uma primeira lei que busca coibir
o excesso de trabalho de crianças, e notadamente de crianças dentro de fábricas com
máquinas muito rápidas, entre a criação dessa lei e a aplicação dessa lei, a gente
sabe que “muita água vai passar por baixo da ponte” e, por incrível que pareça, os
filhos desses barões de café que têm a sua educação complementada na Europa, é
que começam a perceber que é preciso fazer alguma coisa para tirar estas crianças
das fábricas ou lhes dar um futuro melhor. E por que esta preocupação da nossa elite?
Porque os frutos desse abandono começam a ficar muito evidentes nas grandes
cidades.
No final do séc. XIX o Brasil, graças à proclamação da República, tem um
sonho, tem a utopia de integrar enfim a modernidade, a contemporaneidade. E para
isso era preciso transformar as nossas cidades que ainda eram cidades coloniais, em
cidades modernas, em cidades onde a incidência de epidemias e doenças não fosse
tão alta. Era preciso varrer os cortiços nos quais moravam o grosso dessa população
de operários e de ex-escravos que haviam vindo do interior para as grandes cidades
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em busca de trabalho e o resultado, digamos, dessa efervescência e desse
empobrecimento da sociedade brasileira mais uma vez nós vamos ver no rostinho das
nossas crianças. Nos jornais de época, vamos começar a ver uma verdadeira
perseguição a elas por parte das autoridades, dos criminalistas, dos médicos
higienistas e, sobretudo, da população.
Eu volto a dizer que esta falta de sensibilidade em relação à criança pobre é
alguma coisa que tem muitos séculos na nossa história. Pois é essa gente que vai
escrever para os jornais, dizendo que haviam crianças vagabundas, crianças vadias
que circulavam pelas ruas, que era preciso tirá-las das ruas, que era preciso dar um
destino a estas crianças. Eu me lembro de um texto, se não me engano de Olavo
Bilac, sobre a inauguração da famosa Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco no
Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro era, então, a capital da República, e vai sofrer uma
tremenda reforma urbana, e na pluma, do nosso grande poeta, nós temos um
comentário muito desairoso sobre o dia da inauguração dessa avenida que, afinal de
contas procurava imitar uma avenida francesa, com jardins a francesa, com lampiões
a francesa, com calçadas e vitrines a francesa. O que sujou, o que ‘empanou’ o dia da
inauguração? O fato de que o Presidente da República viu a sua comitiva
acompanhada de um bando de crianças pobres que iam à frente, alegremente, dando
vivas àquela iluminação elétrica, que era uma coisa absolutamente nova, e dando
vivas ao Presidente da República. Mas aquilo sujava o quadro, era preciso tirar
aquelas crianças desta cidade que se queria uma cidade francesa, que se queria uma
cidade européia.
Nós começamos a perceber que começa a haver por parte das autoridades
uma preocupação grande com este contingente de crianças que habita as cidades.
Não que elas não existissem antigamente, se nós olharmos, por exemplo, a história
das cidades mineiras do ouro, quando há o declínio da mineração, as ruas também se
enchem de crianças que prestam pequenos serviços, vivem de pequenos biscates,
ajudam as mães no transporte, muitas vezes, das bandejas nas quais elas vendiam
doces, frutas, enfim, vendiam o fruto do seu trabalho. É rara a gravura sobre Minas
Gerais neste período, em que as mães, sobretudo as escravas ou ex-escravas, não
tenham sempre pelas mãos, ou nas costas, naqueles panos africanos, a companhia
dos seus filhos.
Estas crianças que já eram, digamos, uma presença habitual nas cidades,
começam a encher estas grandes cidades, que agora se querem francesas, querem
viver uma vida como se vivia na França, e é por isso que aparece, em francês, o
primeiro nome pejorativo que os nossos pequenos vadios e vagabundos vão receber:
“pivete”. Pivete vem da palavra francesa “pivett” (escrita com dois “T”), e como na
época os próprios jornais faziam muito gosto em escrever palavras francesas, os
nossos pequenos vadios e vagabundos ganham este nome francês.
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Era preciso, porém, tirá-los desse horizonte que agora se queria europeu. Tirá-
los também das fábricas porque o risco de mutilação, o risco de mortes sempre
colocava em jogo o prestígio de determinados industriais. E nós sabemos que
existiram industriais conscienciosos, que se incomodavam com a exploração do
trabalho de crianças e também de mulheres. Nós começamos a perceber uma
pequena mudança de mentalidade. As crianças começam a ganhar rosto, os
adolescentes começam a aparecer também, porque os adolescentes, nesse universo
fabril, passam de chão de fábrica para aprendizes mais qualificados, o que faz com
que a adolescência comece a ganhar uma importância maior, uma envergadura maior.
Tudo isso vai ficar mais preocupante no início do século XX , em 1902, quando
são criadas as primeiras Casas de Correção para as crianças que cometiam pequenos
delitos pela rua. Nós sabemos a partir de estudos que foram feitos, por exemplo, em
São Paulo, que estes delitos eram de pequena monta. Estas crianças causavam
pequenos furtos, se embebedavam, faziam arruaças, barulho, sujavam as ruas dessas
cidades que se queriam européias.
Estas Casas de Correção são criadas justamente para canalizar estas
crianças, tirá-las das ruas e fazê-las, de alguma maneira, aprender algum tipo de
atividade ou serem punidas pelas faltas que cometeram. Há um grande debate na
época, sobretudo entre juízes e criminalistas, a respeito do discernimento que as
crianças teriam a respeito das faltas cometidas. E é óbvio que as punições eram
definidas a partir do discernimento ou da compreensão que a criança teria da falta
cometida. Havia também uma preocupação grande, em não deixá-las, além dos
dezessete anos dentro da mesma Casa Correcional.
O quadro que nós temos no final do século XIX é um quadro de mudanças
sociais importantes. É um quadro de industrialização, diferente daquele que nós temos
no período colonial, em que a criança nas ruas, muitas vezes era canalizada para
dentro de famílias, era adotada, para ser mais um braço na lavoura, se tornando o filho
de criação, sendo inserida num ambiente familiar de alguma maneira. Aliás, a
expressão “amor de criação”, nós encontramos em muitos documentos do período
colonial, mas à medida que a urbanização começa a se adensar, em que valores
como individualismo e produtividade começam a ganhar um tonos mais musculado na
nossa sociedade, a criança também deixa de ser acolhida, para ser recolhida nestas
instituições, e ai nós temos um momento de grande inflexão para as nossas crianças.
Vídeo Aula 3
A Infância como Construção Histórica – Séc. XX
Se o século XIX colocou muito à vista das autoridades este contingente enorme
de crianças que trabalhavam, de crianças pelas ruas, de pivetes que enchiam as
manchetes de jornal, e nós temos a partir de 1902 o início da criação de Casas de
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Correção, que deveriam funcionar um pouco como lugares de drenagem, para limpar
as grandes urbes, as grandes cidades afrancesadas dessa “sujeira” que estas
crianças significavam, é a partir da República Velha que os nossos políticos vão fazer
da criança uma espécie de bordão para os seus discursos.
Isso que é muito comum hoje, de político prometer escola, prometer cuidar de
crianças abandonas, ou dar um destino melhor às nossas fundações onde os menores
criminalizados estão presos, este discurso vem lá de trás. Só pra dar um exemplo, em
1917, quando da campanha presidencial, tanto Rui Barbosa, quanto Washington Luiz
se digladiaram em público, várias horas, tentando pensar uma solução para as
crianças brasileiras.
Mas, uma questão: onde é que estava a escola nesse momento? Fazendo um
esforço danado para aparecer. É fundamental a presença de anarquistas italianos e
espanhóis dentro das fábricas e na criação de jornais anarquistas e operários, que
batiam tambores, chamando a atenção para a falta de escolas, para a falta de
estruturas das escolas já existentes e, mais do que isso, os anarquistas criaram
escolas. Edgar Leuenroth, por exemplo, em São Paulo criou uma escola justamente
para proteger estas crianças de serem drenada para dentro da profissionalização
precoce. Isto serve para mostrar que os políticos estavam preocupados com o destino
da criança, mas não estavam preocupados com a escola. Graças ao trabalho de
operários anarquistas e pessoas que estavam qualificadas intelectualmente, começou-
se a prestar atenção na escola pública e começou a se multiplicar a escola pública no
Brasil.
Nesse momento colocava-se um outro problema: se estava todo mundo na
cidade, quem é que ia cuidar da vida rural, da vida no campo? Os políticos
encontraram uma excelente solução: as crianças, os ‘novos imigrantes’. Os imigrantes
estavam nas fábricas trabalhando, são adultos, temos uma legislação que de certa
maneira proíbe que as crianças fiquem diante de grandes máquinas, “então vamos
mandá-las para o campo”.
A partir de 1920 são criados os primeiros estabelecimentos agrícolas para onde
são encaminhadas estas crianças que são tiradas das ruas das grandes cidades, na
tentativa de transformá-las em grandes lavradores, em pessoas que tivessem
conhecimentos botânicos e de agricultura. É interessante que estas escolas, quando
nascem, possuem uma agenda bem interessante, na tentativa realmente de aproximar
as crianças de uma qualificação profissional adequada, da mesma maneira que os
institutos penais procuravam, na época, qualificar as crianças para um trabalho
posterior. Para a criança pobre, para a criança desfavorecida, sempre o trabalho
profissionalizante, para a criança rica, uma educação que a permitisse se desenvolver.
No caso destas instituições de guarda de menores infratores, o currículo era
riquíssimo, ia desde língua portuguesa, literatura, gramática, matemática, biologia,
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química, física, até uma coisa que para nós hoje seria praticamente impensável, que
era o preparo para a criança fazer funcionar armas de fogo. Porque como nosso
exército nesse momento estava procurando uma qualificação, estava dando os
primeiros passos para a sua modernização, inclusive com, a presença de militares
estrangeiros, caso, por exemplo dos franceses, que vieram para o Brasil tentando
qualificar melhor o nosso exército, a idéia dos políticos era que estas crianças depois
pudessem integrar as armas e servir a nação. Quer dizer, se eles não tinham mãe,
não tinham pai, não tinham casa, a casa seria a nação, a mãe seria a pátria, e nós
estaríamos formando bons soldados.

A Família ao Longo da História Brasileira


É bom lembrar também que durante o governo do Getúlio Vargas, sobretudo
na fase da ditadura houve uma preocupação grande não só com as crianças
desfavorecidas, mas, sobretudo, com a família. Eu gostaria de encaminhar também a
nossa conversa, um pouco para esta questão da família e do papel das relações entre
pai, mãe e filhos.
Getúlio Vargas tinha uma preocupação enorme em, de alguma maneira,
consolidar a família burguesa, a família casada perante a Igreja. Ele vai fazer uma
excepcional aliança com os bispos brasileiros nesse momento, inclusive promovendo
uma campanha enorme contra concubinatos, contra amasiamentos, sobretudo entre
operários e trabalhadores. A idéia é que o Brasil começasse a se destacar como um
país educado, de famílias organizadas, uma sociedade organizada. O bordão desse
movimento era “Casar ou Largar”, que era um bordão até bastante “sui generis”.
Na preocupação de Getúlio com as crianças desgarradas, as crianças que não
tinham família, ele resolve chamar para o Estado a responsabilização por estas
crianças. Nasce o Serviço de Atendimento ao Menor - SAM, em 1946, que depois vai
se transformar em FEBEM, em FUNABEM. Isso é assunto para especialistas dessa
questão.
Mas eu gostaria de voltar à questão da família no passado. Como é que uma
criança podia ser abandonada, como é que uma criança podia ficar exposta, como é
que uma criança podia ficar sem educação, e qual a sua relação com a família. Nós
podemos imaginar que no passado não houvesse amor materno? Não. Nós temos
testemunhos eloquentes desse amor paterno, em vários processos que nós podemos
encontrar, do século XVII e XVIII, e mesmo em testamentos deixados por mães que,
no momento da morte, manifestam aos seus parentes, aos seus compadres e
comadres, a maior preocupação com o destino dos seus ‘filhinhos do coração’. Eu
posso dizer para vocês que para um historiador é comovente encontrar estas
expressões de amor e afeto.
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Nós vemos também a luta de mães para resguardar os seus filhos em
determinadas circunstâncias terríveis, como é o caso da Guerra do Paraguai,
momento em que as crianças encontradas nas ruas eram drenadas pela marinha
brasileira, para dentro dos seus quadros, para servir na Guerra do Paraguai, muitas
vezes para ficar carregando munição de um lado para o outro, sendo ‘bucha de
canhão’, e atuando como grumetes3 nas nossas embarcações durante a guerra. Pois
nesse momento nós sabemos que existem cartas belíssimas de mães escravas,
pedindo ao Imperador D. Pedro II que não deixasse seus filhos irem para a Guerra do
Paraguai, porque aqueles filhos eram a última coisa que elas tinham, senão a única
coisa que elas tinham.
São muito comoventes também os bilhetes que foram encontrados na
documentação das Santas Casas de Misericórdia, mostrando que muitas mães que
abandonavam os seus filhos o faziam por absoluta indigência, pobreza, nenhuma
condição de criá-los. São bilhetinhos amorosos, pedindo que aqueles funcionários
cuidassem bem dos seus filhos. Muitas deixavam roupinhas tricotadas ou
confeccionadas por elas, para abrigar aqueles filhinhos. Algumas, inclusive, davam
nomes estranhos aos seus filhos, como por exemplo, Napoleão ou Marco Pólo, nomes
diversos daqueles que nós tínhamos comumente no Brasil (João, Jose), na tentativa
de que um dia, voltando a Santa Casa de Misericórdia, elas pudessem identificar no
meio de dezenas de ‘Joãos’ ou de ‘Josés’, o seu Napoleão. Estas manifestações do
amor materno são muito eloquentes e nós temos inúmeros testemunhos desse tipo.
Podemos imaginar que as coisas mudaram nos dias de hoje e que estes laços
familiares que foram uma grande preocupação dos políticos, dos religiosos, dos
moralistas durante quinhentos anos, hoje estejam mais fluídos, inclusive fazendo com
que nós ainda não olhemos as nossas crianças com o devido respeito. Há alguns
dados que são importantes historicamente.
A partir dos anos 80, uma grande migração campo-cidade ocorreu em todas as
grandes cidades do Brasil. Esta é também a década em que a mulher brasileira vai
passar a controlar a sua sexualidade graças à chegada da pílula anticoncepcional. É
um momento em que um contingente importante de mulheres entra para o mercado de
trabalho e as crianças vão ficando sozinhas em casa, na frente da televisão, e hoje na
frente do computador.
Devemos imaginar que nas camadas pobres o problema é mais grave e que ali
haja mais desamor? Não. Nós sabemos, também a partir de trabalhos de sociólogos,
que nas comunidades pobres existe um fenômeno que é interessante que é o da
circulação de crianças entre a casa de mulheres que não vão trabalhar, e que olham
os filhos de outras para que estas possam trabalhar. Assim, não vamos colocar a

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Categoria inferior de marinheiro. Aprendiz que faz trabalhos pesados nos navios.
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questão como uma falta de amor materno, mas talvez fosse interessante nós
fecharmos este nosso bate-papo, nos perguntando qual é a situação das mulheres
brasileiras hoje, qual é o papel que elas querem para elas.
Durante mais de 500 anos o único papel das mulheres brasileiras foi ser mãe.
A maternidade era a coisa mais importante na vida de qualquer mulher. Sobre a nossa
conhecida Princesa Isabel, por exemplo, pairaram inúmeras histórias e anedotas
porque durante mais de dez anos ela não conseguia engravidar e não conseguia dar
um herdeiro ao trono brasileiro. Não ter filhos, não poder criar seus filhos era um
verdadeiro castigo para as mulheres brasileiras.
As coisas mudaram, e as mulheres perderam o enorme poder que tiveram de
ter famílias numerosas, de cuidar individualmente de cada um de seus filhos, de
administrar seus casamentos, fazê-los trabalhar aqui e ali. Isso ocorria em todos os
níveis sociais, porque quando pegamos as listas nominativas, que são um documento
importante para os historiadores do século XIX, percebe-se claramente que são as
mães que vão definir a trajetória que cada um dos filhos vai ter, que vai fazê-los
trabalhar em tal e qual atividade. A mulher no passado tinha, através da maternidade,
um poder que era fantástico. Era ela que cuidava dos seus filhos, pois não havia
pediatra e nem médico, era ela que dava formação oral e espiritual, pois naquela
época não tinha catequese e não tinha iniciação na igreja. Elas, de alguma maneira,
administravam os bens da família e hoje, por conta do individualismo, por conta das
mudanças da vida moderna, mudanças que muitas vezes punem terrivelmente as
mulheres que ficam à frente de suas famílias, muitas vezes sem companheiros, tendo
que educar sozinhas os seus filhos, cansadas, chegando em casa muitas vezes
depois de uma dupla jornada de trabalho. Estas questões todas que dizem respeito ao
amor materno e a educação hoje merecem de todos nós, que somos educadores, que
somos professores, uma profunda reflexão.
Olhar para trás, para a história do Brasil, nos ajuda a entender por um lado que
se não somos sensíveis ainda àquela criança que nos faróis, nos sinais se aproxima
de mãozinha estendida, em busca de um auxílio, é porque nós conhecemos esta
criança há mais de 550 anos. Foi ela que veio na caravela, foi ela que veio trabalhar
com o Jesuíta, foi ela que veio como escrava, foi ela que veio como operária, ela está
ai. Nós não temos nenhuma sensibilidade frente a esta criança, porque ela não nos
apresenta nada de novo.
Pensar qual é o papel que nós, como cidadãos, estamos fazendo não lutando
por um apoio cada vez maior à educação, esta educação que deve ser de todos. Esta
era a grande preocupação, por incrível que pareça, de Getúlio Vargas, lá atrás. Ele
queria que todas as crianças estivessem na escola.
Nós como cidadãos não termos um comportamento mais engajado em relação
às crianças de rua, inclusive ouvindo estas crianças, porque elas têm uma história a
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nos contar, têm o que nos dizer a respeito do que foi a sua infância, ou do que foi a
sua adolescência, enfim, estes são temas que eu acho que devem ser trabalhados em
sala de aula, devem ser trabalhados individualmente por cada um de nós, que somos
educadores. Obviamente contando com o auxílio da história para entendermos que
isso é uma tradição de longa duração, que é preciso mudar, para nós qualificarmos o
nosso país, para nós conhecermos melhor as nossas crianças e, mais do que
conhecer as nossas crianças, para que nós possamos amá-las mais e melhor.

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