CHRÉTIEN DE TROYES O CONTO DO GRAAL

O mais antigo dos manuscritos conservados sobre o Graal, do início do século XIII

Título original: Le Conte du Graal Autor: Chrétien de Troyes

NOTA PRELIMINAR

Escassos são os dados que possuímos sobre a personalidade de Chrétien de Troyes, cuja obra literária se conservam cinco extensas novelas de atribuição segura: Erec, Cligés, Le chevaliers au lion (intitulada também Yvain), Le chevaliers de la charrete (a qual, às vezes, se dá o título de seu protagonista, Láncelot) e Le Conté du Graal. Com certa verossimilhança lhe atribui também outra novela de caráter cavalheiresco e piedoso, Guillaume d'Angleterre (da qual existe uma tradução em prosa castelhana do século XIV), uma adaptação de uma fábula ovidiana sobre o mito de Filomela. Das seis poesias líricas que os cancioneiros atribuem à Chrétien de Troyes, duas são com segurança obra de nosso escritor. Este, por outra parte, confessa, nos versos iniciais de “Cligés”, ter traduzido os “Remedia Amoris” e o “Ars Amatoria” de Ovídio; composto uma narração sobre o mito de Tántalo e Pélope (sem dúvida baseado nas Metamorfoses ovidianas); e um relato sobre "o rei Marc e Iseut la rubia", ou seja, a lenda de Tristão, todo o qual se perdeu. Tendo em conta as pessoas às quais dedica suas obras, chegamos à conclusão de que a produção de Chrétien de Troyes desenvolveu-se entre os anos 1159 e 1190. Trata-se, pois, de um escritor da segunda metade do século XII que, como os homens de cultura de seu tempo, possui uma sólida preparação clássica, posta de manifesto não tão somente em suas versões dos tratados eróticos do Ovídio e em suas adaptações de fábulas mitológicas, mas também em bom número de detalhes retóricos e estilísticos que aparecem em sua obra. Todas as novelas de Chrétien de Troyes conservadas, estão escritas em verso: emparelhados de oito sílabas (nove, contando à castelhana) de rima consoante, forma que desde a metade daquele século tinha adotado a narrativa francesa culta, tão distinta da narrativa tradicional das gestas. Antes de

Chrétien de Troyes os narradores franceses cultos, precursores e criadores do román, ou seja, da novela, empregavam os emparelhados octosilábicos em suas versões de obras clássicas (a “Tebaida” de Estado, “Eneida”, algumas fábulas tiradas de “Metamorfose” de Ovídio, etc.) e na famosa tradução da “História regum Brittanniae”, de Godofredo de Mon mouth, feita por Wace e intitulada “Román de Brut”. Esta tradução, que Chrétien de Troyes revela conhecer bem, contribuiu para colocar a moda nos ambientes cultos e aristocráticos o mundo fantástico do fabuloso “rei Artur da Bretanha e dos cavaleiros da Távola Redonda”, recolhendo velhas lendas bretãs, mas estruturando-as em uma narração que pretendia ser histórica. São de tema artúrico algumas das narrações breves que, antes ou contemporaneamente à Chrétien, tinha escrito, também em verso octosílabo, María da França e que revistam intitular-se “Lais”. Artúricas são as cinco novelas conservadas de nosso escritor, embora o “Cligés” só parcialmente, pois sua trama principal tem caráter bizantino. “Le chevaliers de charrete”, ou “Lancelot”, é dedicado por Chrétien à sua senhora, a condessa María de Champagne, filha de Luis VII da França e de Leonor de Aquitania, esposa do conde Enrique de Champagne, que estava acostumado a residir em seu palácio de Troyes, capital do condado, e, sem dúvida, cidade em que nasceu nosso escritor. Tanto María de Champagne como sua mãe Leonor de Aquitania

desempenharam um papel muito importante no florescimento da literatura chamada cortesã. Contribuíram para instaurar na França os achados e as novidades da poesia dos trovadores, de sorte, que a aventura cavalheiresca uniu-se ao sentimentalismo amoroso, união que constitui uma das características da novela do século XII. Entretanto, Chrétien de Troyes não se limitou, em suas novelas, a direta narração de uma peripécia cavalheiresca, com seus lances heróicos; seus episódios "maravilhosos e a exaltação das virtudes militares de seres extraordinários; nem adotou a aventura de um conteúdo amoroso; esboça uma hábil e acertada caracterização psicológica dos personagens

Esta intenção superior não deve ser esquecida quando se lê “O conto do Graal” (Le Conté du Graal). em sua obra literária. pois. pois nos versos iniciais de “Le chevaliers de charrete” distingue. em alguns trechos poderia parecer um ingênuo conto. exclusivamente. Esta dedicatória surpreende. que é o assunto. glosa nela vários versículos neo-testamentários e disserta sobre a caridade.principais da ação. quem. partiu para Ultramar como cruzado em setembro de 1190 e morreu em Acre em junho seguinte. foi conde de Flandes. Chrétien escolheu como protagonista de sua narração um moço em plena adolescência. que deve ser a interpretação doutrinal da obra. O criar novelas de Chrétien de Troyes é. pretendeu dar à suas novelas o transcendente valor de uma lição moral e espiritual destinada ao aperfeiçoamento da sociedade na qual vivia. Tal propósito é decisivo e deliberado em nosso escritor. a matéria (matière). pois se nos ativermos. ou argumento da narração. constitui a junta (conjointure) da novela. desde 1168. da aristocracia que lia suas obras. a sua matéria. iniciou Chrétien de Troyes a redação do conto do Graal. de modo principal. forte. Entre 1168 e 1191. ou uma insignificante novela de aventuras. pois. algo que ambiciona ser muito mais que o simples narrar. hábil caçador e ingênuo. A obra vai precedida de uma dedicatória ao conde Felipe de Flandes. ou seja. Além de tudo isto. o simples relato de feitos novelescos. do sentido (sans). ou seja. De uma afirmação feita no “Erec” desprende-se que a ordenação e articulação da matéria com o sentido. vivendo em uma "erma floresta solitária" . o que chamaríamos sua tese. colocando uma rica trama de aventuras a serviço de uma tendência à exaltação dos valores morais do cavaleiro. o que dá à estas páginas introdutórias. e os intentos feitos para precisar mais a data se revelaram pouco firmes. Correríamos o perigo de valorizá-lo só em atenção a seus inegáveis méritos literários. Felipe de Alsacia. um acusado matiz cristão que por força tem que corresponder com o profundo sentido que o autor pensa dar em sua obra. a acomodação da intriga do relato à uma tese. por seu caráter religioso.

pois. consagra-o cavaleiro. para tudo o que tenha que exercer na cavalaria. prognosticam que aquele galhardo e ingênuo jovem está destinado a ser o melhor cavaleiro do mundo. Chrétien leva seu protagonista ao castelo de Gornemant de Goort. Este moço pertence à uma ilustre linhagem de cavaleiros. como corresponde a todo cavaleiro. tanto a donzela que jamais sorriu. tanto seu pai. encontra-se com alguns cavaleiros. deve-se à primária habilidade daquele no lançamento de flechas.isolado do resto do mundo. devido a isso. cavaleiro amadurecido e experiente. principalmente da cavalaria. A vitória do moço sobre o cavaleiro Vermelho. seu amor pela formosa Blancheflor. assim que o moço. Chrétien pode expor a seus leitores as etapas da formação cavalheiresca. há nele um remorso que o tortura: a sorte de sua mãe. nasce no jovem herói. o qual produz tal desgosto a sua mãe que cai morta ao vê-lo partir de seu lado. condições naturais. Entretanto. mas ali também. que o moço aprende com grande precisão e rapidamente. Nosso protagonista já é um cavaleiro. que gosta muito das virtudes e da simpatia do jovem selvagem. depois desta primeira vitória. Por esta razão. decide irrevogavelmente ser um deles encaminhando-se à corte do rei Artur para que lhe arme. é robusto e valente. como seus dois irmãos maiores. por fim. Sua chegada à corte do rei Artur provoca dois maravilhosos vaticínios. indispensáveis. situadas em Gales. Unicamente entregue à caça e sem outra relação humana a não ser sua mãe e os lavradores que cultivam suas terras. quanto o bufão. os episódios da defesa do castelo de Belrepeire demonstram seu acerto e sua maestria no manejo das armas. a força do sangue se impõe aos planos maternos. que seu jovem herói percorre numa velocidade vertiginosa. no início da novela. Desta sorte. que viu cair . Todavia. sua mãe o criou em completa ignorância de tudo quanto acontece no mundo. Ao sair da solitária morada materna. foram vítimas das guerras e dos combates. Ensina-lhe lições de cavalaria. o herói está na plenitude de suas forças físicas. adquirida em suas caçadas: é um tipo de luta que se acha muito distante do sábio tecnicismo da nobre arte das armas.

nome que se dava a certos recipientes. ou Rei Aleijado. já que. Este tipo de milagre deu-se. teria reparado uma série de males que afligiam precisamente a sua linhagem. oferece-lhe a mais alta de suas aventuras: a prova do castelo do Graal. episódio culminante da novela. que empunha uma lança de cuja ponta emana uma gota de sangue. não cabe dúvida de que a lança que sangra é a de Longinos. por um acidente. quer dizer. oferece uma surpreendente similitude com a cerimônia da Páscoa dos . entusiasma aos cristãos. o jovem cavaleiro janta na ampla e suntuosa sala quadrada do castelo. prostrado pela paralisia e sem a posse de suas terras. e outra com um prato de prata. Esta situação. mas. O Graal.desvanecida ao abandonar sua morada solitária. Não sabe ainda que morreu. mas. A razão de seu mutismo —o esclarece depois Chrétien— é mais profunda: o fato de achar-se em pecado travou-lhe a língua. ou seja. O herói. é um riquíssimo cálice sagrado no qual se leva diariamente uma hóstia ao Rei do Graal — pai do Rico Rei Pescador e irmão da mãe do protagonista—. averiguaremos logo. não é estranho no folclore. nem a quem se serve com aquele Graal. ainda hoje em dia. sem dúvida alguma. não se atreve a perguntar por que sangra a lança. a bandeja que fica debaixo do queixo. O prato de prata é. com a alma manchada por ele ter pecado. conduzindo à maus danos. uma formosa donzela que leva em suas mãos um Graal. Vê desfilar ante si um singular cortejo em que figuram um pajem. teria recuperado saúde e domínios se aquelas duas perguntas tivessem saído dos lábios do moço. Convidado pelo Rico Rei Pescador. isso tortura seu ânimo com a consciência do pecado. a sagrada forma caia ao chão. o qual há anos vive exclusivamente graças ao alimento que lhe proporciona a Eucaristia. Chrétien de Troyes não nos esclarece isso pontualmente — veremos que a novela ficou inacabada—. pois. que o Rico Rei Pescador. aquela com a qual foi ferido o flanco de Jesus Cristo. na Idade Média e. O tema das perguntas não formuladas. se tivesse formulado aquelas duas perguntas. Isso constitui o fatal engano do moço. no qual comunga para evitar que. em nosso caso. com freqüência. embora o suspeita. temendo revelar sua rusticidade.

quem lhe faz ver seu engano. na economia da novela. sobretudo se tivermos em conta a importância da comunidade israelita de Troyes no século XII. Por outro lado. sendo agora o melhor cavaleiro do mundo. por sua culpa e por seu pecado. grandiosa metáfora investida. agora que. tenha feito umas ingênuas perguntas. ao encontrar na solidão do bosque sua prima. graças ao qual. A formosa donzela portadora do Graal é. que em representações artísticas da época está acostumada achar-se à direita da cruz. demonstra. sem dúvida. supõe o cumprimento dos augúrios da donzela que jamais tinha sorrido e do bufão. O nome vai unido à personalidade. cujo rito não pode iniciar-se. Nosso herói. deixando em suspense um episódio. depois do verso 9234. que desfila em nosso episódio. sua responsabilidade lhe fez adivinhar seu nome. desde Ovídio até Góngora. fica manifesto que Perceval. A lança empunhada pelo pajem. que tentou mais de uma vez.judeus. impediu que se realizasse um bem e não evitou o mal. se dá conta de seu grande fracasso no castelo do Graal. que redime constantemente. uma figura simbólica: a Igreja personificada. a persistência do sacrifício do Gólgota. O “Conto do Graal” interrompe-se bruscamente. enquanto nosso herói não significou nada para o mundo. para significar. ao ver a branca neve colorida pelo vermelho sangue. Não é estranho que Chrétien tenha adaptado a seu episódio este rito judaico. O episódio das gotas de sangue sobre a neve. a idealização do amor de Perceval pela formosa Blancheflor. que a morte surpreendeu Chrétien de . Então. até que o mais jovem da família. quando por seu engano se faz responsável. grandes poetas. por um lado. no dia seguinte. a cor rosada. de cuja face lhe rememora. com toda segurança. emana sem cessar. o jovem herói da novela adivinha seu nome e o averigua pela primeira vez o leitor: chama-se Perceval. Deve-se a interrupção. este episódio. recolhendo em um rico cálice o sangue do Salvador que emana da ferida produzida pela lança de Longinos. quinze dias antes era um ingênuo moço selvagem. uma das mais belas páginas da literatura francesa medieval. viveu anonimamente.

fantásticas lucubrações sobre o Graal e as intenções de Chrétien de Troyes. de uma delicadeza pouco comum. em "Texte littéraires français". no momento em que lhe surpreendeu a morte. Inclusive a crítica moderna. quando a ação principal desta. ou seja. o qual morreu levando à tumba o profundo e secreto de sua novela. Constitui um magnífico livro de cavalarias. há nas duas tramas contradições tão acusadas que não é inverossímil acreditar que Chrétien de Troyes. que hoje diríamos publicável. Não obstante. vê-se concorrida. o do “Castelo das Rainhas”. a fim de lhes dar uma forma. distava o bastante. Chrétien de Troyes. sem dúvida. que iniciaram seu trabalho ainda no século XII. por outra trama muito distinta. e os da “Orgulhosa de Logres”. O leitor observará que a ação principal da novela. ao cavaleiro veterano. o sobrinho do rei Artur. que tem por herói Gauvain. “Le román de Perceval”. com seu ambiente de magia e de mistérios. A presente tradução foi feita sobre o texto da edição de William Roach. sendo que seus rascunhos foram mesclados e absurdamente fundidos por quem os arrumou. algo misterioso e vago. às vezes. a parte dedicada à Gauvain é de grande beleza e revela a maestria de Chrétien como narrador. Os continuadores anônimos da novela. de ter chegado a seu desenlace. do mesmo modo que o marinheiro do romance castelhano do conde Arnaldos se joga ao mar sem nos dizer sua canção. debateu-se em engenhosas e. as aventuras de Perceval. Perceval. até a mais recente. contar as façanhas de Gauvain.Troyes em plena redação da novela. . que põe à prova o cavalheirismo de Gauvain. Gauvain. acreditando que pertenciam à mesma novela. nem digno do grande tema criado pelo escritor de Champagne. não acertaram a lhe dar um final congruente. Seja como for. no qual se destacam episódios tão notáveis como o da “Donzela das Mangas Pequenas”. ou “Conté du Graal”. Esta dualidade de assunto quis explicar o caso do autor pretender contrapor o cavaleiro inexperiente. estava escrevendo duas novelas muito distintas: uma dedicada a narrar as aventuras de Perceval e outra. a partir de certo momento. Isso motivou que tema do Graal se fizesse logo.

1932. embora no original do século XII amoldem-se a uma determinada técnica narrativa. na parte superior das páginas indico os versos franceses que correspondem a seu conteúdo. implicando ao autor ver-se. 1947. em "Cent romans français". ao converter-se em prosa moderna pode surpreender. que é a do manuscrito “T”. “Perceval de Gallois”. V. às vezes.Genève-Lille. ou o “Conté du Graal”. Chrétien de Troyes. A fim de que em todo momento se possa comparar minha versão. obrigado à rodeios um pouco forçados que. Paris. com o texto de Chrétien de Troyes. Halle. O leitor não deve esquecer que o que está lendo é tradução de um relato escrito em versos curtos de rima consoante. “Der Perceval Roman” (Le conte do Graal) em "Christian von Troyes sämtliche erhaltene Werke". conservei certas repetições do texto original e as freqüentes mudanças de tempos verbais. 1959 (segunda impressão). Foi de grande utilidade a consulta da prosa de 1530 (editada pela Hilka em apêndice) e da tradução em prosa francesa moderna de Lucien Foulet. Martín de Riquer . para ater-me na edição crítica de Alfons Hilka. Em algumas passagens me separei de sua leitura. Procurei ser o mais literal que permite a correção idiomática.

e lhe pesa ouvir falar mal de outro. pois. em terra que nada vale. a lealdade e a Santa Igreja e abomina toda vilania. a esquerda significa vanglória. que jogue sua semente em lugar onde Deus lhe conceda o cêntuplo. segundo o relato. Chrétien semeia e joga a semente de uma novela que começa. Semeiaa em lugar tão bom que não pode ficar sem grande proveito. seja quem for. É mais dadivoso do que se supõe. mas sim se . aquele reuniu em si todos os vícios e todos os defeitos dos quais o conde está limpo e isento. que vê todos os segredos e conhece o mais escondido que há nos corações e nas vísceras. segundo o Evangelho. pouco colhe e o que queira colher algo. que diz: "Não saiba sua esquerda os benefícios que faça sua direita". pois. dá sem hipocrisia e sem engano. a boa semente seca e deteriora. o faz para o mais prudente que existe no império de Roma. que procede de falsa hipocrisia. E o que significa a direita? A caridade. pois. (VS. que não se envaidece de suas boas obras. Eu demonstrarei que o conde vale muito mais. Que saiba quem os recebe e Deus.CONTO DO GRAAL DEDICATÓRIA À FELIPE DE FLANDES Quem pouco semeia. O conde é de tal condição que não escuta nem vis grosserias nem palavras néscias. O conde ama a reta justiça. Trata-se do conde Felipe de Flandes. que vale mais que Alejandro. pois. de quem se diz que foi tão bom. 13-107) Sabem por que diz o Evangelho "esconde os benefícios da sua esquerda"? Porque.

sobre o qual o conde lhe deu o livro. Não vale. quando o filho da Dama Viúva se levantou na Erma Floresta Solitária. ele mais que Alejandro. Ele. pois. e sem preguiça pôs a sela em seu corcel. o trabalho de Chrétien. tinham doze bois e seis rastros. Bem empregado estará. que lhe aconselha obrar bem. nem nenhum benefício? Sim. não o duvidem. Saibam. diz São Paulo. vindo pelo bosque. nunca fala disso com ninguém a não ser com seu bom coração generoso. a erva. Assim entrou na floresta. que se esforça e trabalha em excesso. pois. em rimar o melhor conto que foi contado na corte real: é o “Conto do Graal”. que sabia lançar muito bem as flechas que levava. NA ERMA FLORESTA SOLITÁRIA Era o tempo em que as árvores florescem. Deus é caridade. que lhe rastelavam a aveia. as . até que ouviu. Quem segundo a Escritura vive em caridade. ora para baixo. que as dádivas que faz o bom conde Felipe são de caridade. o bosque e os prados verdes. que mora em Deus. por ordem do conde. Ouçam como cumpre seu encargo. De repente o coração se alegrou nas entranhas pela doçura do tempo. Pela benignidade do tempo sereno tirou o freio do corcel e deixou que pastasse pela verde erva fresca. pegou três flechas e saiu assim da morada de sua mãe. As lanças entrechocavam-se com os escudos. Pensou que iria ver os lavradores de sua mãe. ora para cima. cinco cavaleiros armados com todas as suas armas. e Deus nele. ia em torno. disparando-as ora para trás. na verdade. os pássaros cantam docemente em seu latim pela manhã e toda criatura se inflama de alegria. ora para frente. Enorme ruído faziam as armas dos que chegavam. chocavam-se com os ramos dos carvalhos e dos arranjos. freqüentemente. ao ouvir o canto gostoso dos pássaros: tudo isto lhe agradava. e eu o tenho lido. pois.esconde para que só as saiba aquele que se chama Deus e caridade. a quem não lhe importou a caridade.

quando os viu abertamente. e muito assombrado disse: — Por minha alma! Razão tinha minha mãe. como das armaduras. eu desdenharei este ensino e não me benzerei de modo algum. valha-me Deus. caiu no chão de medo. que os outros. (VS. o azul e a prata. e depois a todos os anjos. acredito que vejo nosso Senhor. senhor Deus. 108-191) O moço ouvia e não via os que a ele caminhavam passo a passo. antes de vê-los. antes bem. ressonava a madeira. minha mãe. parece-me que será tal seu espanto que morrerá. com uma destas flechas que levo e não se aproximará de mim nenhum outro. Eu adorarei a este. exceto Deus. os cascos claros e reluzentes. e para me instruir disse que ante eles terei que benzer-se. Se formos todos juntos para ele. viu as armaduras cintilantes. minha senhora. que é mais belo que tudo. Mas. Todavia. conforme acredito. ressonava o ferro. quando me disse que os anjos eram as coisas mais belas que existem. O principal dos cavaleiros. vê e diz: — Fiquem para trás. contemplo a um tão formoso. atacarei em seguida. O moço que vimos. Contou-me uma fábula. perdão! São anjos os que aqui vejo. tanto dos escudos. Imediatamente atira-se ao chão e diz todo o credo e as orações que sabia. pequei agora muito e obrei muito mal. porque sua mãe as tinha ensinado. o branco e o vermelho resplandecerem contra o sol. pareceu-lhe muito formoso e muito agradável.armaduras chiavam. pois. e não poderá responder . e disse: — Ah. Minha mesma mãe me disse que se deve adorar. não têm nem a décima parte de beleza. Realmente. suplicar e honrar a Deus sobre todas as coisas. Deste modo o moço falou para si. ao dizer que eram diabos. o ouro. quando me disse que os diabos são as coisas mais feias do mundo. assim que o bosque os descobriu. ao mais forte. Aqui.

você que o chamam cavaleiro. a minha fé. tão reluzente e feito deste modo! Enquanto isso o cavaleiro aproximou-se dele perguntando-lhe: —Viu hoje. —Não o tenho —diz o moço—. agarra-a e lhe diz: —Bom senhor amável. e as quer ouvir de mim. Já lhe direi: isto é minha lança. É muito tolo! Ataca-se com ela sem soltá-la. —Assim. por estas bandas. —Jamais conheci um cavaleiro —responde o moço—. Deus? —Não. Todos param e ele se adianta galopando até o moço. Saúda-o e o tranqüiliza dizendo: —Moço. nem ouvi falar nunca de nenhum. Oxalá fosse eu assim. moço. Com a mão toca a lança. pois? —Sou um cavaleiro. vale mais uma destas três flechas que vêem aqui. o que é isto que leva? (VS. meu doce amigo.Dizem que se lança —disse ele— como eu faço com minhas flechas? ...Não.Agora sim. 192-265) . cinco cavaleiros e três donzelas? Ao moço interessa averiguar e perguntar outras coisas. pelo Salvador em quem acredito. —Quem são. Eu que pensei.Parece que vou por bom caminho! —responde o cavaleiro—. porque sempre que . . mas vocês são mais formosos que Deus.a nada que perguntemos. saber novas de ti. nem vi. São vocês. pois. não tenha medo.

com tanto que me ponha no caminho lhe direi tudo o que queira saber. assim Deus me prospere. onde estão e se viu as donzelas.O que é isto e do que lhes serve? . eu lhe direi isso. que os gauleses são. pois. responda-me sobre os cavaleiros. mas sim pergunta como se chama tudo o que vê e o que se faz com isso. se alguém lança ou dispara sobre mim. Isto que levo se chama escudo.Moço —diz ele— isto é uma brincadeira. e não devo desprezá-lo porque me é tão fiel que. É ignorante quem se detém com ele. — Não sei —diz ele—. Eu supunha. Mas. Este é o serviço que me faz. e este é como uma besta. e os mato de tão longe como se poderia fazer com uma lança. interpõe-se a todos os golpes. Leva-me à questões distintas das quais eu peço e pergunto. que você me daria novas em vez de que as soubesse de mim. mas.Sim —diz ele—. assim Deus me perdoe. . O moço agarra a ponta do escudo e lhe diz francamente: . Entretanto. Diga-me se souber.quero com elas mato pássaros e animais a meu prazer.Chama-se escudo? . . e você quer que lhe dê isso. de outro modo não partirei. —Moço. mais tolos que as bestas que pastam. nada do que lhe perguntei respondeu direito nenhuma só vez. saiba de uma vez para sempre. senão quer entreter-se com bobagens e gastar o tempo em tolices. por natureza. e lhe disseram pouco tempo depois: —Senhor. pois eu gosto de agradar. Como é. assim seja Deus. o que lhe diz este gaulês? —Desconhece as maneiras —disse o senhor—. isto não me importa nada. —Senhor. os que estavam atrás vieram a toda corrida para seu senhor.

O moço pega pela armadura e estica-a. diga-me dos cinco cavaleiros e também se hoje encontrou. e é tão pesada como o ferro. o que é isso que têm vestido? —Moço. de tais armaduras preserve Deus. pois não poderia matar a nenhum nem correria nunca mais atrás deles. não me faria nenhum dano. embelezou-lhes desta sorte? . é muito simples de explicar. é impossível que alguém possa nascer assim. apesar dos pesares. valha-o Deus. —Quem. é minha armadura. Se fosse me atirar um dardo. pode me dar novas dos cavaleiros e das donzelas? Ele. moço. às corças e aos cervos. bom senhor. ou viu as donzelas. valha-me Deus. que tinha muito pouco critério. (VS. O que fazem com ela e do que lhes serve? —Moço. —Diga-me agora —disse ele —. —É de ferro? —Bem o pode ver. — Senhor cavaleiro. —Moço. O cavaleiro replicou: — Moço. não sabe? —Não sei. pergunta-lhe uma vez mais: —Moço. pois.Logo. ou me lançar uma flecha. 266-345) —Não sei nada disto —disse ele—. mas é muito bela. disse-lhe: —Nasceram assim? —Não.

—Moço, eu te direi quem. —Diga, pois. — Com muito prazer. Ainda não se cumpriram cinco anos em que o rei Artur, armoume cavaleiro, deu-me toda esta guarnição. E agora me diga de uma vez, o que foi feito dos cavaleiros, que passaram por aqui, levando as três donzelas. Iam passeando ou fugiam? Ele disse: — Senhor, olhe para o bosque mais alto que rodeia aquela montanha. Ali estão os desfiladeiros de Valbona. —Bem, é o que, bom irmão? —Ali estão os lavradores de minha mãe, que semeiam e aram suas terras. Se esta gente passou por ali e eles viram, dir-lhes-ão isso. Respondem-lhe que irão com ele, se os guiar, aos quais rastelam a aveia. O moço monta em seu corcel e vai onde os lavradores rastelavam as terras aradas, nas quais semearam a aveia. Assim que viram seu senhor ficaram tremendo de medo. Sabem por que razão? Porque viram que com ele vinham cavaleiros armados. Sabiam bem que se lhes perguntassem por seu ofício e de sua condição, eles queriam ser cavaleiro; sua mãe perderia o juízo, pois queria evitar que vissem cavaleiros e se inteirassem nesse ofício. O moço disse aos trabalhadores: — Viram passar por aqui cinco cavaleiros e três donzelas? —Em todo o dia de hoje passearam por estes desfiladeiros —respondem os trabalhadores. O moço disse ao cavaleiro que tinha falado tanto com ele: — Senhor, os cavaleiros e as donzelas passaram por aqui; mas, agora me fale mais

do rei que faz cavaleiros, e do lugar onde ele está com mais freqüência. —Moço —respondeu ele—, direi que o rei mora em Carduel. Ainda não passaram cinco dias que ele residia ali, pois, eu estive lá e o vi. Senão o encontrar ali, haverá quem indique aonde se encaminhou. Mas, agora rogo que me diga com que nome devo chamalo. (vs. 346-422) - Senhor —disse ele —, já lhes direi isso: eu me chamo "bom filho". - "Bom filho"? Suponho que tem algum outro nome. —Senhor, a minha fé, meu nome é "bom irmão". —Acredito. Bem, mas se quer saber a verdade, queria saber seu nome verdadeiro. - Senhor —disse ele — , posso dizer isso bem, porque meu verdadeiro nome é "bom senhor". - Valha-me Deus! É um bom nome. Tem algum mais? - Não, senhor, jamais tive outro algum. - Valha-me Deus! Ouvi as coisas mais surpreendentes que jamais ouvi e que nunca penso ouvir. Imediatamente o cavaleiro parte galopando, pois, tinha pressa em reunir-se com os outros. O moço não demonstrava pressa em voltar para sua morada, onde sua mãe tinha o coração enfermo e escurecido por sua demora. Assim que o vê, experimenta grande alegria, não pode escondê-la, porque, como mãe que muito o quer, corre para ele e lhe chama "Bom filho, bom filho!", mais de cem vezes: —Bom filho, meu coração esteve muito torturado por sua demora. A dor me afligiu tanto, que por pouco morro. Onde esteve hoje tanto tempo? —Onde, senhora? Já lhe direi isso, sem mentir em nada, pois tive grande alegria por

uma coisa que vi. Mãe, não costumava dizer que os anjos e Deus Nosso Senhor, são tão formosos que jamais a natureza criou tão formosas criaturas, nem há nada tão belo no mundo? - Bom filho, e lhe digo isso outra vez; digo-lhe isso, porque é verdade e lhe repito isso. - Cale-se, mãe! Acaso não acabo de ver as coisas mais formosas que existem, que vão pela Erma Floresta? Imagino que são mais formosos do que Deus e todos os seus anjos. A mãe toma-o em seus braços e lhe diz: - Bom filho, a Deus o encomendo, pois, sinto grande temor por ti. Você viu, penso, aos anjos dos que a gente se lamenta, que matam tudo que alcançam. - Não, mãe, não, não é isto! Dizem que se chamam cavaleiros. Ao ouvir pronunciar a palavra “cavaleiros” a mãe deprime-se; e assim que se repôs, disse como mulher aflita: (VS. 423-521) — Ai, desventurada, que infeliz sou! Doce bom filho, queria lhe preservar de ouvir falar de cavalaria e de que visse algum destes. Tivesse sido cavaleiro, bom filho, se tivesse agradado ao Nosso Senhor que seu pai velasse por você e por seus amigos. Em todas as ilhas do mar não houve cavaleiro de tão alto mérito, nem tão temido, nem aterrador, bom filho, como foi seu pai. Bom filho, pode se orgulhar de que não desmentem em nada sua linhagem, nem a minha, pois, eu procedo dos melhores cavaleiros desta comarca. Em meus tempos não houve linhagem melhor que as minhas nas ilhas do mar; mas os melhores decaíram, e se viu em muitas ocasiões, que as desditas ocorrem aos nobres que se mantêm em grande honra e em dignidade. Maldade, vergonha e preguiça não decaem, pois não podem, mas aos bons os deixam decair. Seu pai, se não sabe, foi ferido no meio das pernas, de sorte que seu corpo ficou aleijado. As grandes terras e os

foi ao rei Ban de Gomeret. também pequenos. Só três dias o reteve. Ambos os moços foram consagrados cavaleiros no mesmo dia. Assim o equipou a mãe. Com muito gosto iria ao rei que faz cavaleiros. e uma capa com capuz. O outro. Quando seus dois irmãos eram maiores. fechada ao redor. Pelas armas ambos foram mortos. pois. que já não os viu mais. não sei do que me fala. beijou-o e o abraçou chorando e lhe . não pôde fugir. Pela dor do filho morreu seu pai. Do maior chegaram novas terríveis: os corvos e as gralhas lhe arrebentaram os olhos. pelo que eu senti grande dor e grande pena. trouxeram-no aqui em um beliche. O maior foi ao rei de Escavalón. calças e meias de uma peça. Prepara e confecciona uma grossa camisa de cânhamo e calças à guisa de Gales. onde se fazem. No mesmo dia retornariam para casa. A mãe o retém e o cuida tanto como lhe é possível. Você era pequeno. que era menor. que pese a quem pesar. O moço escuta muito pouco o que sua mãe vai dizendo. —Dê-me de comer —diz—. As terras foram devastadas e os pobres abatidos.grandes tesouros que como homem principal tinha. fugiu o que pôde fugir. não sabia outro local no qual se refugiar. pois. tinha pouco mais de dois anos. e eu sofri vida muito amarga desde que ele morreu. que foi rei e pai do bom rei Artur. deserdados e arruinados foram injustamente os gentis homens depois da morte de Uter Pendragon. e caiu em grande pobreza. e o serve tanto que foi armado cavaleiro. um menino de peito. Apressadamente. sentiu a mãe uma estranha dor. e eu irei. perderam-se completamente. Seu pai tinha esta morada nesta Erma Floresta. nunca ficava sem os meus. com a licença e conselho de seu pai foram à corte real para conseguir armas e cavalos. de pele de cervo. Empobrecidos. assim encontraram-no morto. porque queriam dar alegria a mim e a seu pai. conforme acredito. pois. foram vencidos pelas armas. Vocês eram todo o consolo e todo o bem que eu tinha. Então. para mais não foram eficazes suas adulações. e tinha dois formosos irmãos. Deus só me deixou você para que estivesse alegre e contente.

Filho. poderá lhe chegar grande bem. quero lhe dar um conselho que deve compreender muito bem. não guarde nada que lhe desagrade. mas. se por mim quer deixálo. parece-me. Quem não rende honra às damas. se zangar alguma. os mestres não aconselham mal nunca os quais têm ao seu lado. e eu assim acredito. que reze a Nosso Senhor em igreja e em monastério. quero lhe dizer algo mais: nem a caminho. Entretanto. parecerá bom e gentil que leve seu anel.disse: (VS. Sirva à damas e donzelas. temo que mal. e saiba. ao que jamais fizera. 522-613) —Agora sinto uma dor muito grande. para que lhe dê honra neste século e permita-lhe comportar de tal sorte que chegue a bom fim. que não se saiba. sobretudo. nem vira fazer a outros? Realmente. Bom filho. e pôs nela . converse-se com os mestres e esteja em sua companhia. Todavia. Aquele que fez céu e terra. Se lhe consente que a beije. Dou-lhe permissão para tomar o anel e a caritativa. se lhe agrada recordá-lo. Vá a corte do rei e diga-lhe que lhe dê armas. porque não é de admirar. Não haverá nenhum inconveniente. Se ela tiver anel no dedo. em resolução. dentro em pouco. quando chegar o momento de levar as armas. ou caritativa em seu cinturão. Muito consegue de donzela quem a beija. quando o vejo partir. pois. o admirável é que não se aprenda o que vê e ouve freqüentemente. e por amor ou por rogo lhe der isso. o que ocorrerá então? Como poderá dar conta. e será honrado em toda parte. Bom filho. Perto ou longe se encontrar dama que tenha necessidade de amparo. não tenha por muito tempo companheiro sem lhe perguntar seu nome. e. bem sei que dará. nem em estalagem. sua honra deve estar morta. Bom filho. pois toda a honra radica nisso. ou donzela desconsolada. se ela lhe requerer isso. o que é igreja? —Filho. eu lhe proíbo o resto. ali onde se faz o serviço de Deus. que pelo nome se conhece homem. será cavaleiro. se agradar a Deus. será pouco destro. o que não se aprendeu. bom filho. Rogo. preste-lhe sua ajuda. —Senhora —disse ele —.

sacrificado. o santo profeta. Cavalgou da manhã até que declinou o dia. Assim lhe prometo isso. Deus lhe guie. a quem os judeus fizeram tantos insultos. as almas vão para o inferno quando se separavam dos corpos. se pudesse. com muito prazer lhe faria desprender-se das três. despede-se e a mãe chora. o mesmo: uma casa formosa e muito santa na qual há corpos de Santos e tesouros. de muito bom grado às Igrejas e aos monastérios —disse o moço— de agora em diante. Ao separar-se dele.homens e mulheres. para que não parecesse muito gaulês. e onde quer que vá. Quando o moço se afastou já a pouca distância olhou para trás. que tanto o amava. viu sua mãe de cabeça baixa sobre a ponte. —Irei. A sela já estava posta. Ele fustiga com a vara a garupa do cavalo. e levou uma coroa de espinhos. ali se sacrifica o corpo de Jesus Cristo. estava acostumado a levar três flechas. sofreu angústias de morte pelos homens e pelas mulheres. Quis fazê-lo. sem tropeçar. Para ouvir missa. (VS. e Ele as resgatou dali. açoitado. levava nos pés calçados com adorno. orações e para adorar a este Senhor lhe aconselho a ir ao monastério. estava desvanecida como se tivesse morta de cansaço. pois. —E o que é monastério? —Filho. pois. sua mãe lhe fez deixar duas. Então já não se entretém mais. roga a Deus que o encaminhe. Levava uma vara na mão direita para fustigar o cavalo. e o leva a galope pela grande floresta escura. Foi traído e julgado injustamente. e por toda parte onde ia. Aquela noite dormiu . Foi preso à um poste. —Bom filho —disse ela—. mas. chorando beija-o. 614-695) A mãe. dê-lhe mais gozo do que para o que fica. Ia vestido à maneira e guisa do Gales. o qual parte. e.

Minha mãe me aconselhou e recomendou que saudasse às donzelas em qualquer lugar que as encontrasse. e se tem por loucura . que o necessitarei muito. Com fé pedir-lhe-ei que me dê hoje de comer. disse-lhe: —Donzela. em cima havia uma águia dourada. A tenda era maravilhosamente formosa: uma metade era vermelha e a outra bordada de orifrés. aonde fora colher flores frescas com as quais queria atapetar a loja. saudação! Como minha mãe me ensinou a fazê-lo. com o canto dos pássaros. sempre que encontrasse um monastério. Realmente teve razão minha mãe ao me dizer que monastério era a coisa mais formosa que existe.no bosque até que amanheceu o claro dia. que lhe parece bobo. que era simples. A DONZELA DA TENDA Pela manhã. seu cavalo soprou tão forte que a donzela o ouviu e despertou estremecida. O moço. reluzindo todos os campos pelo resplendor da tenda. A donzela treme de medo pelo moço. e acrescentou que. batia na águia. Ao redor dela. e disse antes de chegar: —Deus. O moço foi para a tenda. Quando o moço entrou. que era a mais formosa do mundo. agora vejo sua casa. O sol. Logo vai à loja a qual encontra aberta. levantou-se o moço. entrasse para adorar ao Criador em quem acredito. sozinha. e se levantaram choças gaulesas. vê no meio uma cama coberta com uma colcha de seda. perto do arroio de uma fonte pequena. Montou e cavalgou até que viu uma tenda levantada em uma bela pradaria. Obraria com menosprezo se não o adorasse. havia cabanas de ramos e folhas. uma donzela dormindo. como estava acostumado a fazê-lo. claro e avermelhado. e na cama estava deitada. Seu acompanhante estava no bosque.

sabe-o bem. e é muito melhor beijar você do que a quaisquer garçonetes da casa de minha mãe. tanto se ela o queria como se não. —Moço —diz ela—. pois minha mãe me recomendou isso. até que viu em seu dedo um anel com uma esmeralda muito clara. estende o dedo. passe bem. beijou-a sete vezes. perderia a vida. E ela chora e diz: —Moço. Levanta-o e . e que não lhe fizesse nada mais. ela se defendeu muito e revolveu-se quanto pôde. antes de que meu amigo o veja. que tinha os braços fortes. Dê-me o anel. Ao moço não lhe chega ao coração nada do que ouve. Foge. pese a quem pesar. —Também me disse minha mãe —acrescentou ele—. e diz: —Donzela. segue seu caminho. pois o moço violentamente. senão me arrancar do dedo a força. mas não adiantou de nada. Foge. porque senão o matará. que o quero! —De modo algum terá meu anel —disse a donzela —. asseguro-lhe isso. cedo ou tarde. Encontra uma garrafa cheia de vinho e a seu lado um copo de prata. tira-lhe o anel e o põe no seu. para que meu amigo não o encontre aqui. não leve meu anel. Por isso eu seria maltratada e você. e vê sobre um feixe de junco um guardanapo branco e novo. 696-783) —Eu não o beijarei —disse a donzela—. O moço agarra a mão a força. se posso evitá-lo. Colocou-a debaixo dele toda estendida. conforme diz o conto. Agora partirei bem pago. que tomasse o anel de seu dedo. mas como estava em jejum morria penosamente de fome. —Antes lhe beijarei. pois não tem a boca amarga. (VS. O moço. pois não soube fazêlo de outro modo.comprovada porque a encontrou sozinha. por minha cabeça —diz o moço—. abraçou-a muito simples.

mas. . Cada um terá bastante para si e ainda sobrará um inteiro. na taça de prata verte vinho. que são muito bons. formosa amiga. formosa? Queria que o tivesse bebido e comido tudo. pois por sua culpa terá mais vergonha e mais falta de sorte que jamais teve nenhuma desgraçada. não se aborreça que leve seu anel. e diz: —Donzela. que seguia seu caminho. 784-864) —Senhora. que bebeu tanto vinho seu como lhe agradou e comeu seus três bolos. e o bebe com freqüentes e longos goles. Enquanto isso ela chora. nem ajuda. que não era mau. bebeu até ficar satisfeito. por Deus. Ao encontrar chorando sua amiga. Vou com sua licença. —E por isso chora. Ela chora e diz que não o recomendará a Deus. que saiba bem. viu os rastros do moço. e por muito que ele a negue e exorte. irritante. Ele comeu tanto quanto. asseguro-lhe isso. senhor —disse ela—. acredito. que me tirou e o leva. que aqui esteve um cavaleiro. não lhe responde nenhuma palavra. mas sim chora mais ainda e retorce as mãos com muita dureza. e não lhe desagrada tal manjar. pelos sinais que vejo. vilão e tolo. que a traiu. Ela ficou assim chorando. Pela fome que fortemente lhe angustia parte um dos bolos e o come com grande apetite. Está em jogo meu anel. encomendando a Deus aquela a quem não gostou de sua saudação: —Deus lhe guarde —disse—. —Há algo mais. e não passou muito tempo seu amigo voltou do bosque. estes bolos não serão hoje consumidos por mim. e enquanto viva não terá socorro. tampou o que sobrava e se despediu imediatamente.debaixo encontra três bons bolos de coisa tenra. pois antes de que eu mora de morte lhe recompensarei isso. esteve um moço de Gales. disse-lhe. Preferiria estar morta do que o tivesse levado assim. —Não. senhor. e isso lhe indignou. (VS. Venha comer.

e lhe disse: —Camponês que leva um asno adiante.Aqui ele se turva. nem tão vesgo. —Beijou-lhe? —Seriamente. Não sou tão tonto. Se você for a este castelo. o qual dizem que ali faz cavaleiros. Pensa que não lhe conheço? Sim. me seguirá a pé e nua até que lhe tenha talhado a cabeça. —Senhor —disse ela—. Quero ver o rei Artur. será sangrado até que eu me vingue. Entrou em mau caminho. Esta será minha justiça. ensina-me o caminho mais reto para ir ao Carduel. não encontrou nisso oposição alguma —responde aquele a quem o ciúmes tortura—. —Moço — responde-lhe — nesta direção há um castelo edificado ao lado do mar. O rei Artur. não o esconda. doce bom amigo. Jamais trocarão as roupas as quais vestem. não voltará a ser ferrado. Porém. —Agora satisfará meu desejo me dizendo por que o rei tem alegria e tristeza. seguir-me-ão a pé. com toda sua hoste. certo. que levava um asno adiante. encontrará ao rei Artur alegre e triste. lutou . conheço-lhe bem. beijou-me. E então sentou e comeu. E quando perder as ferraduras. NA CORTE DO REI ARTUR O moço cavalgou até que viu um carvoeiro. Desde o momento que o leva e que fique. —Ao contrário: vocês gostaram e você cedeu. acredito que terá feito algo mais. e se morrer. com o coração angustiado e diz: —Por minha fé. que não veja sua falsidade. já lhe digo isso. Se houve algo mais. em má desdita: seu cavalo não comerá aveia. Mas foi contra minha vontade. isto é um ultraje. —Direi isso em seguida — responde-lhe—.

Que se busque outro mensageiro. gostou e se disse: —Com minha fé. Corre para o castelo. —Vou à corte —responde— para pedir ao rei estas armas. ou que envie quem a defenda contra mim. onde vivem mais amplamente. pavimentada. O rei Artur estava sentado pensativo à cabeceira da mesa. O moço não aprecia as novas artimanhas dadas pelo carvoeiro. e todos os cavaleiros . pois. pois está impaciente para chegar a corte. as pedirei ao rei. o freio e o escudo. Não parou até a corte. (VS. porque este não entendeu nenhuma palavra. se me der. E dirá ao malvado rei que se quer ter sua terra sujeita a meu senhorio. fará muito bem. O moço viu aquelas armas tão belas.com o rei Rión. A sala estava ao mesmo nível terra. e esta é a tristeza que tem o rei. com a esquerda sujeitava a lança. e não sabe o que é deles. o rei Artur está alegre. e era tão larga como longa. —Moço —disse o cavaleiro—. por isso. e volta. E acreditará quando lhe disser que recentemente lhe tirei esta taça que levo com todo o vinho que bebia. e o moço entrou nela a cavalo. estarei muito bem. que me entregue isso. e maldito seja quem procura outras. que eram todas vermelhas. este o reteve um momento e pergunta: —Aonde vai. O rei das ilhas foi vencido e. 865-951) E vê sair pela porta um cavaleiro armado que levava uma taça de ouro na mão. que eram muito novas. onde o rei e os cavaleiros estavam sentados para comer. até que ao lado do mar viu um castelo muito bem situado. encaminhando-se na direção indicada. e na direita levava a taça de ouro. moço? Diga-me. vem. afirmo que é minha. forte e formoso. Assentavam-lhe muito bem as armas. mas quando passa ao lado do cavaleiro. mas está zangado com seus companheiros que partiram de seu castelo. em seguida.

que saia viva disso. que tinha inclinada. e é tão néscio que diz que. e abandonando toda sua preocupação. diante de mim. A rainha veio sentar-se aqui. O moço se adianta sem saber a quem saudar. seja bem vindo. não lhe pude responder por desgosto. quem mais me odeia e mais me consterna. —A minha fé —disse o moço então—. e não acredito. porque não conhece o rei. O rei. você que vem aqui levando uma faca na mão. livremente. encerrou-se em sua câmara. que levava uma faca na mão. veio disputar minha terra. atirou-lhe sobre a mesa um chapéu de feltro que levava. Foi isso um insulto tão feio e tão vil que a rainha. e isso não é fábula. pensativo. veja ali. ainda diante de mim agarrou minha taça e a levantou tão néscio que derramou sobre a rainha todo o vinho que continha. queira ou não. Como poderia fazer cavaleiros se não lhe pode tirar nenhuma palavra? Então se dispõe a partir e fez dar a volta a cabeça de seu corcel. mas. e ele outra vez o interpelou. ensina-me quem é o rei. a possuirá toda. onde morre. inflamada de cólera e de indignação. Não estivesse indignado com o muito que o cavaleiro disse. tão perto do rei o tinha conduzido. responde-lhe: —Amigo. O rei volta para o moço a cabeça.riam e brincavam uns com outros. o rei continua muito pensativo e não pronuncia palavra. como homem de pouco julgamento. que diante dele. ao que diz: —Vassalo. Rogo que não leve a mal que não tenha respondido a sua saudação. . Chama-se o cavaleiro Vermelho da Floresta de Quinqueroi. que era muito cortês. Yonet. não lhe disse uma palavra. e para ele vai Yonet. Ele em seguida foi para ele e o saudou como soube. Deus me perdoe. que estava pensativo e mudo. diz-lhe: —Bom irmão. para consolar e ver os cavaleiros feridos. salvo ele. este rei não fez jamais nenhum cavaleiro. pois o pior inimigo que tenho.

que o guardará e fará seu gosto. farei com muito gosto para seu proveito e para minha honra. Mas. —Ah! —disse o rei—. Não desmontarei. e vocês querem que eu desmonte. por minha cabeça. que quero partir. Diz: —Faça-me cavaleiro. Ao contemplá-lo ninguém o teria por sensato. o qual encontrei diante da porta. Porque se o moço é simples. e tanto faz sua mulher. e que se zangou pelo que tinha ouvido. à sua educação. disse: —Amigo. 952-1038) Ao moço não importa nada o que o rei diz e conta. senhor rei. isso é uma grande mácula em um mestre. a qual teve um . é justo. Não procedeu como parvo quando veio aqui em busca disto. O mordomo. para minha honra e seu proveito. isso deve-se: se for nobre. indignou-se e disse ao Keu: —Muito injustamente zomba deste moço. mas todos os que o viam o consideravam formoso e galhardo. em meus dias serei cavaleiro se não for cavaleiro vermelho. nem sua dor. desmonte e dê seu corcel a um pajem. nem sua afronta. Vai agora mesmo pegar as armas porque são suas. Dentro de pouco será cavaleiro. Dê-me as armas iguais as daquele que leva sua taça de ouro. bom senhor rei. E o moço responde: —Não foram desmontados aqueles que encontrei por estas bandas. tenho que ir. —Amigo —disse o rei—. —Pela fé que devo ao Criador —disse o moço—. que estava ferido. bom amigo amável. apresse-se. O rei ao ouvi-lo.(VS. Claros estavam os olhos na face do moço selvagem de arma.

pois ganharia a má vontade de quem. e desde que o prometeu. estimo e acredito. e aliena o coração de seu amigo. . Saibam. penso e acredito no interior de meu coração que em todo mundo não existirá. que é preferível negar uma coisa que fazê-la esperar em vão. o moço não se entretém e parte. saltou e com a palma lhe deu um bofetão tão rude na tenra cara. um bufão. quem faz uma promessa e não cumpre. portanto. atrás do Cavaleiro Vermelho." E assim.mau professor. e ainda pode chegar a ser um digno vassalo. nem haverá. a quem tais palavras zangaram muito. que a fez cair no chão. aspira ter a promessa. deu um chute no fogo ardente. e ao moço que partia vinha uma donzela. a si mesmo engana. é seu amigo. e com indignação e cólera. É vilania burlar-se de outro e prometer sem dar. já que este bufão estava acostumado a dizer: "Esta donzela não sorrirá até que veja aquele que alcançará todo o senhorio da cavalaria. 1039-1123) Assim falava o rei ao Keu. sem conselho de ninguém. formosa e gentil avisando-o e sorrindo diz o seguinte: —Moço. Depois de esbofetear a donzela encontrou. nem se conhecerá melhor cavaleiro que você. Keu. junto a uma chaminé. enquanto ele grita e ela chora. assim o penso. A donzela não sorria desde há mais de seis anos e disse tão alto que todos ouviram. O mestre não deve prometer a outro nada que não possa. Para falar a verdade. se viver longo tempo. (VS. ou não queira lhe dar. sem lhe prometer nada. de si mesmo se burla.

que o fez agachar-se até o pescoço do cavalo. Já não as levará mais. —Como. pela espera. e o cavaleiro. tinha deixado a taça de ouro em um degrau de rocha granítica. pela ponta que não tinha ferro. Saiba que lhe atacarei se me fizer falar mais. não me esconda isso. eu pergunto se vem alguém da parte do rei que queira combater comigo. O moço chegou para ele com grande pressa para lhe tirar suas armas. Pela dor o coração parou. —Senhor cavaleiro.LUTA COM O CAVALEIRO VERMELHO Yonet. que ainda não tirei as armas? Tire-as! É isso o que mando. E o cavaleiro lhe pergunta: —Moço. Ia sozinho por um jardim que havia ao lado da sala e saia por uma porta até que chegou diretamente ao caminho no qual o cavaleiro esperava cavalaria e aventura. deu-lhe tal golpe ao longo das costas. porque o rei Artur lhe manda isso. o moço gritou: —Deixe suas armas. sem adverti-lo. senhor cavaleiro. O moço se encolerizou ao sentir-se ferido pelo golpe que tinha recebido. aponta o melhor que sabe no olho do cavaleiro e atira-lhe o dardo. Inclina-se e cai estirado ao chão. de modo que pela nuca escorria sangue e os miolos. diabo! Está zombando de mim. vem alguém aqui para manter o direito do rei? Se vem alguém. Que não tenha que ser eu quem as estorve. —Moço —responde ele—. . pois não tolero que as tenha mais. conhecia os melhores atalhos e com muito prazer levava novas à corte. nem ouvi-lo. Quando estava próximo o suficiente para que pudesse ouvir. Então o cavaleiro se irritou. levantou com as duas mãos a lança e. tire as armas. do meio do olho lhe atravessou até o cérebro.

(VS. pois ignora como separá-lo. Entretanto. Yonet põe mãos à obra e o descalça até a junta. troque suas boas vestimentas por outras tão más. Yonet. que não suportaria nenhuma gota? Maldito seja o cangote de quem. que é sutil e delicada? Queria que trocasse meu couro. nem nenhuma outra armadura. 1124-1217) O moço desmonta. Por mais rogos que lhe façam. Dura tarefa é instruir a um néscio. Pensei que seu rei me tinha dado estas armas. deixa a lança de lado e tira-lhe o escudo do pescoço. —Faça logo. antes conseguirei esquartejar ao morto para fazer chuletas. agora e sempre. a qual o cavaleiro vestia debaixo da armadura. o de dentro está tão unido ao de fora. prefere deixar uma cômoda capa de tecido de seda felpuda. —Não se preocupe com nada. nem elmo na cabeça. pois —respondeu o moço—. que minha mãe me fez outro dia. pois. se quiser —disse Yonet. pelas deste cavaleiro? Minha grossa camisa de cânhamo pela sua. Todavia. e me dê isso imediatamente. ao vê-lo em tais apuros. Tem vontade de descer-lhe a espada. Todavia. quando estava vivo. por mais que Yonet o diga. sacode e estira. nem consegue tirar da bainha que leva a arma. Replica: —Diabo! Que brincadeira é esta? Trocaria minhas boas roupas. só quer ficar com . que não penetra água. não sabe como arrumar-lhe com o elmo que leva na cabeça. do que levar uma de suas armas. Nem autoriza que tire as botas que calça. fica rindo e lhe diz: —O que é isto. o moço não quer tirar a vestimenta. não sabe como fazê-lo. Agarra. parecendo-me que são tudo um só. por este. estão tão pregadas ao corpo. amigo? O que faz? —Não sei. porém. pois eu as separarei muito bem. não deixou no corpo nenhum armamento ou proteção.

pois. antes de morrer. o moço pagou tão caro. antes que se vá. Depois observou a armadura: era tal qual nunca houve outra melhor. Yonet ata os armamentos e sobre as botas calça as esporas. devolve-lhe sua taça. Diga à donzela que Keu pegou na bochecha. —E como foi isto. E assim separam-se e segue cada um para um lado. tome meu corcel e leve-o. o moço lhe diz: —Amigo. só conhecia o látego e a vara. Yonet entra pela porta da sala onde estão os barões. quanto às esporas. que se puder. bom amigo? . senhor. Yonet lhe traz o escudo e a lança dando-os e. logo após põe o pé no estribo e monta no corcel. penso surrar àquele banana. é muito bom e lhe dou porque já não o necessito mais. Jamais tinha visto estribos. entrega ao rei sua taça e lhe diz: —Senhor. alegre-se. que amavelmente a deu? —Ao contrário. daquele cavaleiro que você fez tantos insultos quanto pôde? —Refiro-me a ele. o seu cavaleiro que esteve aqui. —De que cavaleiro me fala? (VS. Ele responde que devolverá ao rei sua taça e transmitirá a mensagem entendida.as armas. Leve ao rei sua taça e saúdem-no de minha parte. —Refere-se ao moço gaulês —diz o rei— que me pediu as armas na reunião em nosso acampamento. sobre a touca coloca o elmo. que morreu. Ensina-lhe rodear a espada folgada e pendente. 1218-1304) Responde Yonet: —Daquele que a pouco saiu daqui. de tal modo. —E como conseguiu minha taça? Ama-o e aprecia-o tanto. verdadeiramente. que ela se considerará vingada. que lhe assentou muito bem.

derramando o cérebro e deu com ele em terra. se encontrar algum vassalo que. comprada e paga cara. por pouco esteve de maltratá-lo diante de todos até matá-lo. Quando o bufão. ouviu estas palavras. por minha cabeça: ele manda dizer por mim à donzela da rainha que Keu golpeou por despeito. porque lhe quebrará o braço direito entre o cotovelo e o sovaco. nem muito. o qual disse: —Ai. com tanta alegria que saltava e saltava. Meio ano o terá pendurado do pescoço. tínhamos. sua língua néscia e vilã. nem sequer saberá desembainhar a espada se o precisar. muito justo e é tão certo que obrará assim quanto tem que morrer. Mas não o atacou porque desagradaria ao rei. assim Deus me salve. Agora vai armado em seu cavalo. ai. Keu. Então disse o rei ao mordomo: —Ah. um bom cavaleiro. a bofetada que deu à donzela. e disse: —Senhor rei. nem pouco. O moço por sua vez deu com um dardo na viseira. o cavaleiro terá vingado o chute que me deu. de modo que lhe fez sair o sangue por detrás. que mal obrastes hoje! Por culpa de sua injuriosa língua. Tanto arderam estas palavras ao Keu que por pouco arrebenta de indignação e de cólera. . —Senhor —disse Yonet ao rei—. não sei. agora se aproximam nossas aventuras. sem dúvida alguma. será bem devolvida. proferiu tantas inconveniências. E eu lhes prognostico que Keu pode estar seguro de que em má hora viu seus pés. que estava sentado ao lado do fogo. se encontrar ocasião para isso. arrebatando o moço que hoje tanto me ajudou. nem de nenhuma outra coisa. suas mãos. vi que o cavaleiro o golpeou com a lança. Keu. pois. zangando-o muito. antes de que transcorra uma quinzena.—Senhor. que a vingará. ficou em pé e muito contente foi ante o rei. mas não sabe de armas. por aversão e ódio a ele. de modo que tivesse aprendido um pouco a servir do escudo e da lança. Mas. Com freqüência as verão dolorosas e duras. quanto me zangou hoje! Se alguém tivesse dirigido e adestrado nas armas ao moço.

O castelo estava muito bem situado e bem disposto em seu interior. e facilmente perderá a partida. Era alto. como não pudia reparar nada. até que chega numa terra plana.para ficar com suas arreios. pois. o moço se voltou para a esquerda e viu nascer as torres do castelo. No meio da ponte havia uma torre. COM O GORNEMANT DE GOORT (VS. mais profunda que a de Loira. Logo o matará. de tão simples e bruto como é. Quando o rio chegava à desembocadura. Segue ao longo da borda. pelo que se entretém num mestre vestido com roupas . não entrou na água porque a viu muito veloz e negra. No meio do castelo se erguia uma torre sólida e grande. 1305-1389) O moço sem demora vai cavalgando pela floresta. um declive descia por volta do mar e havia um castelo muito rico e resistente. deixa de continuar falando. havia quatro baixas torres que eram muito compactas e belas. adiante uma ponte elevada. em suas partes mais largas. ou o aleijará. tem um campo suspenso. Todavia. Nas quatro paredes do muro. não duvidará em aleijá-lo. um poderoso muro que combatia com o mar e o mar batia a seu pé. Frente ao redor do muro havia uma ponte de pedra. sólido e cercado por pilastras. cujos blocos de pedras eram duros. não saberá defender-se. Assim o rei lamenta e deplora ao moço tendo o rosto entristecido. que parecia estabelecida para o que justamente lhe compete: de dia era ponte e de noite porta. sobre a qual. perto de uma grande rocha viva. Em frente à baía. Atravessa toda uma pradaria para o grande rio que ressona. firme. O moço caminha para a ponte. e na extensão do leito se acumulou toda a água. areia e cal suspensa sobre a água. Todavia. pois lhe pareceu que nasciam e que surgiam da rocha. pela qual discorre um rio que.

que ao falar conheceu que era simples e tolo —.De onde? Da corte do rei Artur. — Cavaleiro! Deus me proteja! Não suspeitava que agora. Para mostrar autoridade. isto me ensinou minha mãe. O moço recorda bem o que sua mãe lhe ensinou. e as levo com tanta agilidade que não me pesam . o mestre leva um bastão na mão. Digame. que boa ventura haja.E o que fazia? —O rei. como fazia com o corcel que tinha antes. quem te deu estas armas? —O rei me deu —responde isso. e com isso nenhum conto ganha nada. Bom irmão. E o mestre lhe pergunta o que sabe fazer com o cavalo. do modo como me armou com elas o pajem que diante de mim desarmou o cavaleiro que matei. precisamente. .de cor púrpura. (VS. —Deus te abençoe. bom amigo. que trouxe da casa de minha mãe. e detrás dele seguem dois pajens guardiães. 1390-1468) —Diga-me também. amável irmão. imaginava que lhe preocupavam coisas muito distintas para fazer cavaleiros. —Deu-lhe isso? Como? E lhe conta o que já ouvistes no conto. Se o contasse eu outra vez seria irritante e aborrecido. lembrasse disto. — Faço-o correr acima e abaixo. o que sabe fazer com suas armas? — Sei prepara-las e arrebatar. pois. Eis aqui aquele que vem fazer a ponte. de onde vem? . bom irmão —respondeu o mestre. cumprimenta e diz: —Senhor. fez-me cavaleiro.

. quer me dizer algo mais? —Sim. toma a lança e diz: .Com muito gosto —diz o mestre — . E ele desmonta. Todavia. que lhe tinha dado sua mãe.Uma coisa somente: que me albergue hoje. diga-me senão o molesta. desmonte. pendura no pescoço o escudo. minha mãe ensinou aproximar-me dos mestres em qualquer lugar que os encontrasse. —Pois. . mal feita e mal cortada. Um dos dois pajens que o acudiu toma seu cavalo. Porém. monta em seu cavalo. O mestre fez calçar as esporas cortantes de aço que o pajem havia trazido. Assim ficou em seu rústico traje. pois muito proveitos ganham os que os escutam. com a condição de que me outorgue um dom do qual verão seguir-se grande benefício. . —Por minha fé —disse o mestre—. outorgo-o —disse ele. —Por minha fé. que tão bem lhe aconselhou.Que seguirá os conselhos de sua mãe e os meus. E o mestre responde: — Bom irmão. mas. e que acreditasse o que me dissessem. o que lhe traz por aqui? — Senhor.nada. e o outro o desarma. —O que? . bendita seja sua mãe.Qual? —diz ele. com as botas e a capa de cervo. aprovo-o e me agrada.

que corria mais elegante. como você jamais o fizera. nem o vira fazer a ninguém. Logo o mestre o fez montar. que tinha estado muito atento. mostra e ensina como se deve pegar o escudo. mais rápido e com mais vigor que nenhum. bem e garboso. não merece desprezo. Com estes três meios se chega a conhecê-lo. o qual valia cem marcos. o escudo. espetar e conduzir o cavalo? E ele responde decidido que não quer viver. de cavalos e de lanças. para que alcance o pescoço do cavalo. o qual se fixou em tudo o que fez. Concedia muito ao moço. afirma a lança e espeta o cavalo. trabalho e costume. pois. pois lhe vinha da natureza. aprendeu na sua infância. saberiam dirigir assim a lança. não o teria aprendido tão bem. até sabê-lo fazer assim. Quando o moço acabou sua trajetória. O mestre conhecia muito de símbolos.— Amigo. ter coração. nem censura por não saber fazê-lo. amável amigo —diz o mestre—. Logo desdobra a insígnia. retornou ao mestre com a . dizendo em seu interior que se toda sua vida se aplicasse e ocupasse em armas. volta com a lança erguida e lhe pergunta: — Amigo. Fixa bem como se deve levar a lança. ante o moço. quando a natureza o ensina fica em todo o coração. Quando demonstrou tudo. nada pode ser árduo para o esforço da natureza e do coração. aprenda agora a dirigir as armas. tivesse percorrido todas as terras em demanda de batalhas e aventuras. Tudo desempenhava tão bem. se a gente puser nisso afã e entendimento. — O que não se sabe pode aprender. Em todo ofício convém. nem possuir fazenda. nem um só dia mais. que o mestre estava muito satisfeito. ele começou a levar tão distraído a lança e o escudo como se sempre tivesse vivido entre torneios e guerras. espetar e reter o cavalo. Joga-o um pouco para frente.

e lhe diz: _Senhor. —Assim. se encontrasse um cavaleiro que lhe atacasse. como lhe tinha visto fazer. —Nisto. não deve se inquietar de modo algum.lança erguida. —E se sua lança rompesse? —Depois disto não teria mais receio de lhe atacar a murros. ninguém sabe tanto como eu. o mestre que tanto deseja lhe ensinar armas e lhe instruir de modo que saiba bem defender-se com a espada. São Julião nos dará bom albergue. o que faria? —Atacaria-o por minha vez. tenho-o feito bem? Crê que convém mais esforço. obrigando-se a isso a atacar quando se apresente a ocasião. —Amigo. vamos pra casa. e três vezes o fez montar. logo lança mão à espada e diz: —Amigo. pois. Então. pois me exercitei com os almofadinhas e as faíscas da casa de minha mãe. e esta noite.O que farei. finca no chão a lança muito direita.Deve lhe obrigar a esgrimir a espada. Deus me valha —responde—. deste modo se defenderá se o atacarem. . se puser seu coração nisso. ao ponto de fatigar-me em algumas ocasiões. A última lhe disse: — Amigo. . em que pese a quem pesar. e três vezes lhe ensinou tudo quanto pôde lhe ensinar em matéria de armas.Amigo —responde o mestre—. Três vezes o mestre montou. porque já não sei que mais ensinar —diz o mestre—. mas queria saber tanto como sabe você. . pois? . se quero fazê-lo? Jamais viram meus olhos nada que tanto desejasse. não faça isto. conseguirá.

que era muito cortês. o frio não lhe fizesse mal. Sei bem que caiu deprimida pela dor que lhe produzi quando a deixei. Não é preciso que faça relação de quantos manjares houve nem de sua qualidade. chegaram ao castelo. pois a vi cair deprimida ao pé da ponte.Senhor. O mestre sentou ao lado do moço e comeu com ele na mesma tigela. eu me chamo Gornemant do Goort. com o qual correu a abrigar ao moço para que. E se o que me recomendou é sensato. sem outra conversa vão se deitar. de bom grado o acolheria se quisesse um ano inteiro. O mestre vê que de nada serve insistir. ou morta. se lhe parecia bem. e enquanto isso lhe ensinaria. O mestre se levantou de manhã e foi à cama . quero saber seu nome. diante da porta. (VS. depois do calor. e por esta razão não é possível que me ausente muito até saber seu estado. A comida boa. e o moço diz a seu anfitrião: . um ao lado do outro. não sei se estamos perto da morada onde minha mãe vive.Amável amigo —diz o mestre—. o mestre. pois comeram e beberam o suficiente. agradável e bem preparada. Os cavaleiros lavaram-se e sentaram-se à mesa. Quando levantaram da mesa. um ao lado do outro. que ficasse um mês. mas peço a Deus que conduza a ela para que ainda a possa ver. 1549-1638) Assim. O mestre tinha ricas estadias. Irei amanhã ao amanhecer. Não diz nada mais. . minha mãe me recomendou que soubesse o nome de todo aquele com quem fora ou com quem fizesse longa companhia. E o moço lhe respondeu: —Senhor. pois. formosas. Ao início da escada aproximou-se um agradável pajem levando um manto curto. grandes e bons servidores. e já não falo mais da comida. rogou ao moço que esteve sentado a seu lado.E assim se vão. e não sei se estava viva. as camas já estavam feitas. estava disposta. coisas que lhe seriam úteis em uma necessidade.

do moço o qual encontrou deitado, e lhe fez levar, doando-lhe camisa e calças muito finas como véu; calças importadas do Brasil e capa de tecido de seda indiana, uma malha que se faz na Índia. Orientou-o para que se vestisse com aquelas vestimentas e disse: —Amigo, se me crê, vestirá estas roupas que vê aqui. E o moço respondeu: - Bom senhor, por muito que me diga, acaso as roupas que fez minha mãe não valem mais que estas? E quer que ponha isso? -Moço, por minha cabeça e pela fé que devo a meus olhos, estas valem muito mais. Replicou o moço: —Valem menos. - Você disse, bom amigo, quando o trouxe aqui dentro, que obedeceria todos os meus mandatos. - E assim o farei —disse o moço—, e não o decepcionarei em nada. Apressa-se a colocar as roupas e deixa as de sua mãe. O mestre agacha-se e calça a espora direita, pois era costume ao presentear um cavaleiro calçar a espora neste. Havia muitos outros moços, e todos os que podem aproximar querem intervir em armá-lo. O mestre pegou a espada rodeou-a e beijou-a; dizendo que com a espada, tinha-lhe dado a mais alta ordem que Deus tenha feito e instaurado: é a ordem da cavalaria, que deve ser sem vilania. E acrescenta: (VS. 1639-1721) —Bom irmão, se por acaso precisar combater com algum cavaleiro, lembre-se do que agora quero dizer e rogar: se você vencer, de modo que ele já não possa defender-se de você, nem se opor à você, ou seja obrigado a ficar à sua mercê, tenha compaixão e

apesar de tudo não o mate. Não me agrada falar muito: se a gente for muito falador, às vezes, diz coisas consideradas desnecessárias, pois, o sábio diz e repete: "Quem fala muito, machuca-se a si mesmo." Por isso, o aconselho, bom amigo, que não fale demais. Também rogo que se encontrar homem, ou mulher; seja órfão, ou seja dama, desorientados, aconselhe-os; fará grande bem se souber aconselhá-los e se tiver autoridade para tal. Recomendo-lhe outra coisa que não deve desdenhar, porque não deve ser desdenhada: vá de bom grado ao monastério para pedir Àquele que tudo tem feito, que tenha piedade de sua alma e que neste século terreno, guarde-o como cristão dele. O moço disse ao mestre: —Por todos os apóstolos de Roma seja abençoado, bom senhor, pois, o mesmo ouvi dizer minha mãe. —Não diga nunca, bom irmão —acrescenta o mestre—, que sua mãe o ensinou, diga apenas que fui eu. Saiba que não o reprovo por havê-lo dito até agora, todavia, daqui em diante, por favor, rogo que se emende; pois, continuar dizendo é desnecessário. Rogolhe, pois, que guarde este conselho. —Como direi, pois, doce senhor? —Poderá dizer que quem lecionou e ensinou isso, foi quem o presenteou e calçou sua espora. O moço dá sua palavra, promete ao mestre que pode ficar seguro, enquanto viva, só falará dele, pois parece muito certa tal instrução. Então o mestre o benze, com sua mão levantada para o alto e diz: —Posto que quer partir, vai com Deus e que Ele o guie, já que o intranqüiliza ficar aqui.

NO BELREPEIRE

O novo cavaleiro separa-se de sua hospedagem, pois, tem muita pressa em chegar para ver sua mãe e encontrá-la viva e sã. Adentra por florestas solitárias, pois nelas se encontra melhor que na terra plana, porque estava acostumado aos bosques. Cavalga até que vê um castelo forte e bem situado; fora dos muros não havia nada, salvo mar, água e terra erma. Apressa-se em caminhar para o castelo até que chega à porta, porém, antes de alcançá-la, teve que passar por uma ponte tão fraca que duvida que possa sustentá-lo. O moço sobe a pontezinha e cruza sem que lhe ocorra dano, vergonha, nem inconveniente algum. Quando chegou ante a porta a encontrou fechada com chave; golpeia-a não brandamente e grita não muito baixo. Tanto chamou que se aproximou da janela da sala uma donzela fraca e pálida, que disse: —Quem chama? (VS. 1722-1805) Ele olhou para a donzela, viu-a e disse: - Boa amiga, sou um cavaleiro rogando-lhe que me faça entrar aqui e albergue-me esta noite. - Senhor —contesta ela—, posso consenti-lo, mas, me agradecerá muito pouco por isto; não obstante lhe albergaremos o melhor que pudermos. A donzela retira-se. Ele, que espera diante da porta, receia fazer muito tempo que está ali e chama de novo. Em seguida chegaram quatro servidores com tochas, cada um dos quais rodeava uma boa espada. Abriram a porta e lhe disseram: —Entre!

Se os servidores desfrutassem de prosperidade, talvez tivessem sido muito mais gentis; entretanto, padeceram de tanta miséria entre jejuns e vigílias, que um não ficaria assombrado caso um caísse. Além disso, o moço observou, que por fora, a terra estava nua e deserta; muito pouco encontrou dentro. Por qualquer lugar que ia, achava desfeitas as ruas e via as casas arruinadas, sem que as habitasse homem nem mulher. Havia na vila dois monastérios, que foram duas abadias: uma de monjas aterrorizadas e a outra de monges desamparados. De modo algum encontrou bem adornados, nem paramentados aqueles monastérios; antes, bem viu arrebentados e fendidos seus muros e as torres destruídas. As casas estavam abertas tanto de dia como de noite. Em nenhum lugar de todo o castelo havia moinho para molar, nem forno para cozer; ali não havia nem vinho, nem pão, nem nada à venda que se pudesse adquirir com dinheiro. Tão desprovido encontrou o castelo, que não havia nem pão, nem massa, nem vinho, nem cidra e nem cerveja. Os quatro servidores levam-no a um palácio coberto de tábua, onde o fazem desmontar e o desarmam. Em seguida, desce um pajem por uma das escadas da sala com um manto pardo que põe nas costas do cavaleiro. Outro leva seu cavalo ao estábulo no qual havia muito pouco trigo, feno e aveia, pois, na casa não ficava mais. Outros pajens fazem-no subir por uma escada de uma sala muito formosa. Saem ao seu encontro dois mestres e uma donzela. Eles tinham os cabelos grisalhos, embora não completamente branco; teriam todo o sangue da juventude e todas as suas forças, se não padecessem dor e desgosto. A donzela aproximou-se mais graciosa, mais elegante e mais atrativa que gavião, ou papagaio. Seu manto e sua estola eram de púrpura escura, adornada de ouro, e as peles de arminho não estavam puídas. O colarinho do manto estava bordado com enfeites negros e chapeados. Se alguma vez me agradou descrever a beleza que Deus pôs em corpo ou em face de mulher, agora agrada-me em fazê-lo de novo sem mentir nem em uma só palavra. Ia descoberta, e eram tais seus cabelos que

aquele que os visse imaginaria que eram de ouro puro, pois eram loiros e com muito brilho. A frente era alta, branca e lisa como se tivesse sido obrada por mão de homem acostumado a esculpir pedras preciosas, marfim ou madeira. Sobrancelhas perfeitas e amplo sobrecenho; na face os olhos brilhantes, claros e rasgados; tinha o nariz reto e aquilino; e em seu rosto melhor se advinham o branco sobre o vermelho do que o sinople (verde) sobre a prata. Na verdade, para roubar os corações da gente, fez Deus dela um prodígio, depois não criou outra semelhante, nem antes a tinha criado. Assim que o cavaleiro a viu, saudou-a e seus dois acompanhantes saudaram-no. A donzela amavelmente o pega pela mão e diz: (VS. 1806-1900) —Bom senhor, em verdade, seu albergue esta noite aqui, não será como conviria a um mestre. Se agora lhe dissesse qual é nossa situação e nosso estado, poderia parecer que o fazia com má intenção para partir daqui; mas, se lhe agradar, venha e aceite o albergue tal qual é, e Deus lhe dê um melhor manhã. Conduzindo-o pela mão até uma câmara retirada, que era muito formosa, larga e ampla. Sentam-se os dois sobre uma colcha de seda estendida em cima de uma cama. Também chegaram outros cavaleiros, que se sentaram em grupos de quatro, cinco e seis, permanecendo calados, olhando àquele que estava ao lado de sua senhora e não dizia uma palavra. Abstinha-se de falar porque recordava o conselho dado pelo mestre, enquanto isso, todos os cavaleiros debatiam em voz baixa, e diziam: — Deus! Muito me surpreende que este cavaleiro seja mudo. Seria grande lástima, pois, jamais nasceu de mulher cavaleiro tão gentil. Agrada-nos muito estar ao lado de minha senhora, e a minha senhora também estar ao lado dele, se não fossem ambos mudos. Tão formoso é ele e tão formosa é ela, que nunca houve cavaleiro e donzela tão adequados para estar juntos, e parece que Deus fez um para o outro, para que juntos estivessem.

Assim comentavam entre eles todos os que estavam ali. A donzela esperava que lhe falasse algo, até que se deu conta de que ele não pronunciaria uma palavra enquanto ela não se dirigisse primeiro; deste modo disse-lhe muito amavelmente: -Senhor, de onde vêm hoje? -Senhora —respondeu—, dormi em casa de um mestre, num castelo onde fui bem e gentilmente albergado. Há cinco torres fortes e excelentes, uma grande e quatro pequenas; poderia descrever todo o edifício, porém, não sei o nome do castelo; sei, entretanto, que o mestre se chama Gornemant do Goort. - Ah, bom amigo! —disse a donzela—, muito agradáveis são suas palavras e fala de modo muito cortês. Que o soberano Deus lhe premie por havê-lo chamado mestre, pois, jamais disseram uma palavra mais certa. Posso lhe assegurar, por São Riquier, que ele é mestre. Saibam que sou sobrinha dele, todavia, faz muito tempo que não o vejo. É bem certo que, desde que saíra de sua casa, não conheceu, assim acredito, ninguém mais mestre que ele. Muito brilhante e alegre albergue lhe deve ter dado, pois, sabe fazêlo bem, como mestre, amável, poderoso, acomodado e rico. Mas aqui dentro só há cinco miseráveis pães que um tio meu, prior, homem muito santo e religioso, enviou-me para jantar esta noite junto com uma tina de vinho fermentado. O único alimento que temos é um corço, morto nesta manhã, com uma flecha de um dos meus servidores. (VS. 1901-1992) Então ordena que ponham as mesas e, depois disso, sentam-se para jantar. Pouco tempo ficaram sentados comendo, todavia, com grande apetite. Após cearem separaramse em dois grupos: os que a noite passada velaram foram dormir e prepararam-se os que deviam aquela noite velar o castelo. Eram cinqüenta servidores e cavaleiros. Os demais trabalharam em excesso acomodando seu hóspede; ocupando-se da cama, põem brancos lençóis, colchas muito rica e um travesseiro na cabeceira. O cavaleiro desfrutou

naquela noite. maldade. entretanto. Afasta-se de sua cama. 1993-2093) —Ah. Não é precisamente uma vã empreitada. não havia nada que lhe preocupasse. muito se sobressalta. Ele dorme tranqüilamente e ela considera uma batalha que se dá em si mesmo e contra a qual não tem defesa. Faz-lhe a cortesia de tomá-la imediatamente entre seus braços e atrai-la para si. ele não sabia nada sobre o amor. porque me matarei com minhas próprias mãos. Surpreso e admirado ao sentir sua cara molhada. Coloca sobre a camisola um manto de seda de cor de grão. nem tão desventurada que eu não o seja mais. exceto o prazer da donzela. nem vilania. Vai para a cama onde ele dorme lamentando-se e suspirando muito. Agita-se muito. volta-se muitas vezes. de modo algum imaginei loucura. toda a comodidade e todo o deleite que se pode imaginar em uma cama. ajoelha-se e chora até molhar toda a cara com suas lágrimas. lançando-se à aventura como audaz e atrevida. porque tem o propósito de ir ao seu hóspede e lhe dizer parte de seu pensamento. ajoelhada ante sua cama e estreitamente abraçada nele pelo pescoço. se a agradasse. nem mais dia que o de amanhã. o que lhe acontece? Por que veio aqui? (VS. nem passei um só dia sem dano. ou o da dama. nem de coisa alguma. a que o albergara não repousa. gentil cavaleiro. encerrada em sua câmara. piedade! Rogo-lhe por Deus e por seu Filho que não me considere vil porque vim aqui. dormiu pouco depois. porque no mundo não existe criatura tão desgraçada. Nada do que tenho me satisfaz. Chorou tanto. Ao sair da câmara tem tal medo que todos os seus membros tremem e o corpo sua. Saiu chorando. Sou tão desventurada que nunca mais virei outra noite depois da de hoje. pois. Dos . E embora esteja quase nua. se lhe fosse permitido. não tem ousadia para fazer mais. Inclina-se. dizendo: —Formosa. Porém. muito se intranqüiliza. Assim. que ele acordou.

Anguinguerón. a não ser sem vida e sem alma. porque ela unicamente foi chorar sobre sua cama. se o fizer por ela. Agora estamos tão perdidos porque amanhã. se o quiser. pois. este castelo lhe entregará. que quer me ter. Guardo em meu porta-jóia uma faca de fino aço. se se atrever. Ele a beijava e a tinha estreitada entre seus braço. e agora retomarei meu caminho e lhe deixarei repousar. Tanto me pesa os quais estão na prisão. porque duzentos e sessenta foram levados. que é bastante larga para os dois. Morta. só ficaram aqui cinqüenta. Muito brandamente e com cuidado . embora lhe desse a entender outra coisa. Clamadeu. não me terá de modo algum. porque sei bem que morrerão e nunca poderão sair. as provisões esgotadas. não chore mais. já não pode defenderse. pouco me importará que me leve. a ponto de não ficar nem para alimentar uma abelha. Anguinguerón passou todo um inverno e um verão em assédio. Console-se. que afundarei em meu coração. quanto os mortos. coloque nesta noite um semblante mais belo. daqui pra frente. Deite-se comigo nesta cama. E ela diz: —Faria-o se pudesse. Hoje não me deixará. Ele responde: — Amiga querida. fará amanhã mais bem do que o que me disse. matar-me-ei. mordomo de Clamadeu das ilhas. Logo. para lhe colocar no ânimo de empreender à batalha. Isto é o que tinha para dizer. a fim de defender sua terra. Porém. Deus. Tantos mestres morreram por mim que justo é que esteja desconsolada. poderá o cavaleiro fazer-se digno de elogio. antes que me leve viva.trezentos e dez cavaleiros com os quais estava guarnecido este castelo. se Deus não o remediar. sem mover-se. me levará com ele como cativa. mortos e aprisionados por um cavaleiro muito mau. aproxime-se mais de mim e enxugue as lágrimas de seus olhos. sempre aumenta sua força. A nossa está minguada.

nem garçonete. porém se lhe recusasse tomaria como orgulho. mais vinho e mais boas coisas do que neste. deixarei toda sua terra em paz. embora nenhum dano lhe faça. sem criada. porque não seria cortês que isso me pesasse. se o matar e vencer. que isto lhe zangue. onde haja mais pão. a ninguém despertou. o que efetuaram sem tardança. despertaram os que dormiram e os fizeram levantar da cama. de certo seu corpo e sua idade não são tais que lhe permitam .a põe debaixo da colcha. pede-me coisa muito pobre e muito pequena. não diga que eu sou sua amiga com a condição e o trato de que você tenha que morrer por mim. A noite foi tão agradável. antes de partir daqui. assim que puderam ver o dia. (VS. nem o tratamos bem. Deus lhe dê bom dia. Naquele mesmo momento a donzela foi a seu cavaleiro e lhe disse amavelmente: — Senhor. pois. pesar-me-á que fique ali mais tempo. Assim estiveram toda a noite deitados. como galardão. Não obstante. braço com braço. até a manhã que traz o dia. vestiuse e se compôs. se me for possível. Ao amanhecer a donzela retornou a sua câmara. não será hoje o dia que procure outro albergue. boca com boca. Caso encontre seu inimigo lá fora. Responde-lhe com muito puritanismo: —Senhor. porque saiba. Acredito que não fará longa estadia aqui. Os que de noite velaram. 2094-2179) Ele contestou: —Formosa. já que aqui não lhe honramos. porque boca com boca. pois seria em vão. seria um grande dano. um ao lado do outro. pois. Todavia. Peço a Deus que lhe proporcione melhor albergue. dormiram até que amanheceu. Não aceitarei nenhuma outra recompensa. por isso. que seu amor seja meu. peço-lhe. Irá e não me pesa. Ela permite ser beijada e não acredito. não lhe quero negar isso.

Ela fica em tal transe. de desgraça e da prisão. nem batalha com cavaleiro tão duro. armou-se rapidamente. mostraram-no. e quando o vêem fora do castelo. gritam todos a uma só voz: — Gentil senhor. ou que alguém sairia do castelo para lutar com ele corpo a corpo. Anguinguerón. Deve buscar paz ou batalha? . em seguida. Ele diz que lhe tragam as armas que pediu. Sua gente estava muito contente porque acreditava ter conquistado o castelo e todo o país. e dê grande mal ao servidor. tão forte e tão robusto. como o que lá fora espera. Assim oram todas e todos. Devolva-o sem machucado.opor-se. Não há quem não lastime dizendo: — Senhor. Deus o ajude neste dia. porque ocorre. às vezes. de alguém resistir renunciar ao que deseja. quando a outro é desejoso fazer toda sua vontade. à Anguinguerón. deleitando-se e satisfeito. armam-no e o fazem montar em um cavalo que lhe prepararam no meio da praça. quem o envia? Diga-me o motivo de sua vinda. que destruiu todo este país. guarde-lhe hoje de perigo de morte. Foi até ele mais compassado em um corcel forte e robusto. Acompanham-no até a porta. Quando os da hoste o viram chegar. que a verdadeira cruz na qual Deus permitiu que padecesse seu Filho. e lhe disse: —Moço. que por um lado o reprova e por outro o instiga. Ela obrou sabiamente. trazem-nas. —Isto já veremos hoje — diz — porque irei combater com ele. sem que nenhum conselho me impeça. assim que o viu. Parecia que lhe entregariam o castelo antes de anoitecer. Assim todos oravam por ele. ao lugar onde seja feliz. Já tinha empacotado os armamentos. pois lhe colocou no ânimo o que tanto o está reprovando. que estava sentado diante de sua tenda. Anguinguerón. a fim de que o deseje mais ainda. nem sustentar combate.

não seja tão desumano. Não saberia lhes descrever mais detalhadamente o que se passou. O moço avançou ferozmente sobre ele. quem não tem culpa. nem todos os golpes um por um. nem muita. O moço. Confesso-te e te concedo que você é o melhor. Pela indignação e a sanha que tinham e pela força de seus braços fazem voar por aqui e por lá as peças e as lascas das lanças. — Malditas sejam tais novas e quem te disse isto! —responde o moço—. que muito me resistiu e meu senhor terá a donzela. até pedir misericórdia. Será necessário renunciar a quanto disputa. Você me dirá primeiro por que matou aos cavaleiros e devastou todo o país. a ponto de não me outorgar misericórdia. ferido através do escudo. lembrou-se de que o mestre lhe tinha aconselhado que vencendo não matasse o cavaleiro vencido e submetido. Todavia.(VS. E aquele lhe dizia: —Doce amigo. —Por São Pedro —diz Anguinguerón—. que não sabia atacá-lo a cavalo. Quem não tenha visto nosso combate e conheça ambos. O moço diz que não concederia nem pouca. e ambos deixaram que os cavalos corressem quanto podiam um contra outro. toma a espada e o ameaça. Ele responde todo orgulhoso e arrogante: —Quero que hoje me esvaziem este castelo. Então o moço se zangou e afirmou a lança na bainha da cinta. Na verdade é um bom cavaleiro. que sentiu dolorosamente o braço e o flanco. Às vezes ocorre pagar os danos. fica de pé na terra. 2180-2287) — E você o que faz nesta terra? —responde ele—. mas a batalha durou muito e muito rudes foram os encontros até que Anguinguerón caiu. não . Só caiu Anguinguerón. Rendam a torre. que me está dizendo boas necessidades. mas não até onde acreditava.

do qual não lhe tenha recompensado. das torres menores. Caso me enviasse à ela. E ele responde: —Mate-me! Porque também ela me mataria. Sabe aonde irá você? A este castelo. Não há no mundo pedreiro que melhor descrevesse a construção do castelo como ele o fez. má prisão me daria e não poderia me fazer nada pior. em mãos más. se eu der testemunho. entretanto. só com suas armas. a morada de um mestre. (VS. do mestre não lhe diz o nome. Porém. pois esta. já que nada deseja tanto como minha desonra e minha dor. que me derrotou com suas armas. que neste ano matei e prendi seus cavaleiros. lhe fui tão danoso. sem dúvida alguma me tiraria a vida. da ponte. Valha-me Deus! Quer colocar-me em maus caminhos.acreditará que você. matou-me em batalha. e disse: —Não há salvação para mim onde você me envia. que é minha amiga. envie-me a ele. inteirou-se bem. Doce . ante minha gente e em minha tenda mesmo. minha palavra será o suficiente. ou alguma outra amiga. eu irei de sua parte. —Maldito seja quem procura algo melhor! —disse ele—. Pensa: se houver algum senhor o qual tenha feito benefício. ou algum serviço. que não tenha desejos de me fazer malefício. pois. Tomei parte na morte de seu pai. 2288-2373) Então lhe diz que vá à um castelo. até que o outro se deu conta. envie-me à algum deles. e dirá à formosa. Falou detalhadamente do rio. Sua honra crescerá tanto que jamais cavaleiro a deixou maior. de que lhe queria enviar prisioneiro ao lugar onde mais odiava. nesta guerra matei um de seus irmãos. Contarei como me venceu com suas armas e entregar-me-ei à ele na qualidade de prisioneiro para que faça comigo quanto lhe pareça. Mas se tiver algum outro amigo. da torre maior e dos muros exteriores que o circundam. que em toda sua vida não lhe fará mal algum e ficará total e completamente a sua mercê. se me tivesse em seu poder.

porque me sorriu. pois. Todos do castelo saem para receber ao que volta. o cavaleiro vencedor volta ao castelo. senhores. abraçam-se e conversam amavelmente. E sabem qual foi esta clemência? Se mantiver sua palavra. Chega então a donzela manifestando grande alegria. à prisão do rei Artur. mas têm um grande desgosto porque não cortou a cabeça do cavaleiro vencido e não a traz. Desmontam-no com grande alegria. brincam. à ela entregará como prisioneiro e lhe dirá. mate-me você antes de me obrigar a ir até ele. De modo algum lhe veda que a abrace e a beije. Morreu-lhe para seus parentes. Em lugar de comer e de beber. Eu não poderia dar segurança porque o teriam matado para meu pesar. na metade do caminho encontrou um pajem. Ele responde que fará bem e com muito prazer este serviço. chorando . porque acredito que não tivesse procedido bem. constituir-se-á prisioneiro do rei Artur. nem loiro. saudará ao rei e lhe dirá de minha parte que te ofereça àquela golpeada pelo mordomo Keu. Então. se te agradar. ali será minha morte. Ele contestou dizendo: —Irá. beijam-se. desarmam-no em um degrau e todos lhe dizem: —Por que não trouxe Anguinguerón e por que não lhe cortou a cabeça? Ele responde: —A minha fé.amigo. porque imagina que imediatamente lhe ofereceram o castelo sem defesa. senão tivesse misericórdia quando o submeti. Clamadeu tem néscias ilusões. de modo que ali não ficou nem moreno. Muito pouco bem haveria em mim. Se ali me empurrar. que oxalá Deus não permita que eu mora até que a tenha vingado. O outro encaminha-se à prisão e faz que levem seu estandarte. A hoste levanta o acampamento. Leva-o à sua câmara para repousar e descansar.

o que me aconselha? —Diz àquele. se te acreditasse. Será muito fácil fazer. que tinha sido professor de Clamadeu. porque se continuar não conseguirá nada. —Quem fez isto. acrescenta: —Senhor. senhor? Que volte. o único que me consta é o que vi sair do Belrepeire armado com umas armas vermelhas. que tirava as duas mãos dos cabelos. obraria nesciamente. não sei quem foi o cavaleiro. seu mordomo foi vencido por armas e agora vai constituir-se prisioneiro do rei Artur. —Em nome de Deus. —E você. como pôde acontecer? De onde pode vir um cavaleiro capaz de arredar com as armas um mestre tão valente? E ele responde: —Amável senhor. quer saber como poderá fazer com o cavaleiro e com o castelo? Dir-lheei muito bem e claro. E dirigindo-se a Clamadeu. Aqui convém um conselho mais sensato e melhor do que o teu. pois em minha opinião deve seguir adiante. pajem? Diga-me. 2374-2461) —Senhor. pajem. Dentro dos muros de Belrepeire não há o que . as coisas vão mal agora —disse o pajem.amargamente. que está a ponto de perder o juízo. —O que. Clamadeu pergunta: —Por que? (vs. não é acertado o que diz. chegou um cavaleiro meio grisalho. senhor. a minha fé —disse o pajem—. e disse: —Pajem. que lhe contou as novas do mordomo Anguinguerón. Quando estavam nestas palavras.

—responde Clamadeu— Temos aqui quatrocentos cavaleiros armados escolhidos e mil peões bem preparados: agarraremos todos como se fosse gente morta. Os outros mantinham-se muito perto da porta. não puderam resistir aos outros reforçados com os peões. Nós estamos fortes e sãos. Todavia. a este derruba e aquele prende. eram quatrocentos homens armados. —Aprovo com minha fé o que diz. estavam débeis. aleijada e morta. quem.beber. Clamadeu enviou diante da porta vinte cavaleiros que desdobravam ao vento os emblemas e as bandeiras. o peito. Presenciam a grande batalha os o que haviam atravessado o vale. e tiveram que retirar-se de seu castelo. saiu para mesclar-se com os cavaleiros. Assim que os do castelo os viram. O cavaleiro que em Belrepeire se deleita com sua formosa amiga. porque o quis assim o moço. que os tinham seguido. apertados em sua porta receberam com bravura. quererá fazer cavalaria. pois. um rompe o braço. a clavícula. abriram as portas de par em par. Os de fora. outro. Os vinte vão enganá-los até darmos em cima deles improvisadamente por este vale e os rodeemos pelos flancos. que estão tão débeis. e como não poderá resisti-lo. ao ver à míngua sua gente. pouca ajuda lhe prestarão os outros. nem fome e poderemos suportar um grande combate se os de dentro ousarem vir misturarem-se conosco lá fora. ataca todos conjuntamente que são alcançados por ele. que eram de muitas categorias. vão em desordem e desconcerto para a porta. Como audaz. outro. nem o que comer e os cavaleiros estão debilitados. Os defensores estavam bem formados. Enviaremos vinte cavaleiros diante da porta como chamariz. (VS. a vista de todos. não temos nem sede. que estava aberta. será preso ou morrerá. não lhe parece que seja acanhado nas armas. de um atravessa o tórax. além dos peões que os acompanhavam. mata um e aquele aleija. eram poucos. Entrega os prisioneiros e os cavalos aos que os necessitam. forte e saudável. Muito próspero foi aquele dia: com a lança tira várias tripas. 2462-2550) .

Então os que haviam trazido tendas e bandeiras montam. O professor dele. considerar-se-iam detentos com lealdade. mas não os meteram em torres. responderam-lhes: . porque se entregarão a sua mercê. os seus estão desfeitos e os de dentro ganharam. que o aconselha. Todavia. seu será o castelo e a torre. Em resolução perde. não há santo que não tenha sua oitava. atracasse diante do castelo. nem os ataram aos ferros. Os de dentro derrubam a porta sobre eles. Arranque-me os dois olhos. o castelo ficará em suas mãos. diz-lhe: —Senhor. deixando-o pra fora.Em cima da porta havia arqueiros que disparavam sobre a grande multidão. não lhes fariam nenhum dano. inteiro e incólume. Deus quis que. Seus defensores. os outros se acomodam e acampam como podem. Se puder ficar aqui hoje e amanhã. Embaixo da porta morreu muita gente sua. porém. matando e aniquilando todos os que alcançaram na queda. foram ao navio e perguntaram quem eram. Naquele mesmo dia um vendaval impeliu pelo mar um navio que levava um grande carregamento de trigo e estava cheio de outras provisões. A tempestade caiu sobre você. Os do castelo desarmaram os cavaleiros que tinham feito prisioneiros. e assim ficaram dentro do recinto. A todos vai o mal ou o bem. assim que o viram. esteja bem certo de que perderão. não é coisa surpreendente que para um só sobrevenha desgraças. até que um grupo consegue introduzir-se com vigor e com força caindo no chão. Quando os do castelo baixaram. de onde vinham e aonde foram. só porque lhes juraram lealdade como cavaleiros. não há outro remédio senão ficar inativo. segundo ao Nosso Senhor agrada e convém. enviaram para averiguar quem eram os do navio e o que buscavam. A massa estava muito enaltecida e ávida de entrar impetuosamente no castelo. caso permaneça aqui dentro três dias. Nada podia ter visto Clamadeu que mais lhe doesse. inclusive aquela que tanto lhe rechaçou. pedirá por Deus que digne tomá-la. Um assalto em tão duras condições seria trabalho em vão.

de contar os lingotes de ouro e de prata que lhes daremos em troca do trigo. os cozinheiros tinham tanta pressa. dizem que não tinha outra solução senão levantar acampamento. e ainda mais. podem matá-los. Agora já pode ficar Clamadeu. ela o abraça e ele a beija. já podem imaginar a grande alegria que tiveram. Quando os do castelo viram aos que levavam as provisões. A sala já não está silenciosa. se for necessário. não deixarão de receber. levantam-se satisfeitos. 2551-2644) Agora sim fizeram um bom negócio os que compram e vendem. porcos. porque os de dentro têm bois. E os do castelo respondem: —Bendito seja Deus. que fazem sentar às mesas aos que tanto o necessitavam. pelo vinho. Temos pão. carneseca e muitos bois e porcos que.—Somos mercadores e levamos provisões para vender. e trigo para toda a estação. um se regozija com o outro. (VS. já que o castelo não pode ser reduzido por fome. Comunica o cavaleiro vermelho que até o meio-dia do dia seguinte . nem conselho de ninguém. Clamadeu. que deu força ao vento para que aqui lhes trouxessem! Sejam bem vindos e desembarquem. vinho. envia ao castelo uma mensagem sem aprovação. Muito se indignou Clamadeu e sua gente quando souberam a nova do bem-estar que tinham os de dentro. Agora já pode deleitar o moço ao lado de seu amiga com toda tranqüilidade. pela carne. Todos estão contentes pela comida. e com grande celeridade prepararam a comida. Depois de comer. porque prolonga-lo seria em vão. esperando fora. descarregam o navio e levam tudo para confortar aos sitiados. Os cozinheiros não estão ociosos e acendem o fogo na cozinha para cozer a comida. receberão um carro carregado de riquezas. que tão desejada. se for necessário. Venham em seguida pegar seu dinheiro. toucinho em grande quantidade. antes bem há nela alegria e grande rumor. que tudo lhes compraremos tão caro quanto ousam vendêlo. raivoso. tanto tempo quanto queira.

pois a todas e a todos pesava. era estranha a maravilha que ele encontrava. que as guardava e as trouxe o mais rápido que pôde. eu acredito que ele não renunciará. e não se entreteve muito com todos eles. a cada palavra o beijava tão doce e brandamente que lhe colocava a chave do amor na fechadura do coração. deixou-os com grande dor. apesar disso. já que o desafiou. vão deitar se e dormem até a manhã seguinte. Já não se atrevem a falar mais. ao sair o sol. uma grande doçura nas carícias dela. Ele por sua vez responde que. todavia estão muito preocupados com seu senhor.o poderá encontrar sozinho na planície para combater com ele. antes bem reclamou suas armas. embora. a quem não sabem como implorar para fazê-lo desistir. não obteve em modo algum que desistisse de ir à batalha. Enquanto se armava houve grande duelo. De noite sua amiga rogou muito para que não fosse à batalha e que ficasse em paz. Entretanto. farão muito melhor se se calarem. Assim que partiu. pois. Todos e todas lhe rogam muito que não vá combater com aquele que nunca nenhum cavaleiro superou em batalha. Mas o moço replica: —Senhores. Mas. Quando a donzela ouviu o anúncio a seu amigo. aumentando e acrescentando muito a dor da donzela. que haviam lhe trazido. por muito que ela se lamente. só estavam eles dois. Ambos tinham a lança apoiada diante da sela. De nada adianta tudo isto. No campo plano e formoso. pois Clamadeu tinha licenciado e feito partir toda sua gente. já não tinham que se preocupar com Clamadeu. teve o néscio convencimento de que muito rapidamente esvaziaria a sela da montaria. montou em seu cavalo norueguês. aconteça o que acontecer. porque por nada do mundo abandonaria este combate. e ele. Assim responde com suas palavras. ficou dolorida e triste. recomendando a todos e a todas ao Rei dos reis. nem com sua gente. irá à batalha. (VS. pois. na bainha. 2645-2742) Quando Clamadeu viu chegar o que devia combater com ele. e puseram-se a correr .

com muito pesar. se Deus lhe desse forças para isso. imediatamente. Clamadeu empreende o caminho completamente sozinho. Depois o fez prometer que. aonde retornaram os cavaleiros que . um derrubou o outro. que os cavaleiros se constituiriam prisioneiros com a mesma equipe que levava na batalha na qual tinham sido vencidos. Eis aqui os prisioneiros soltos. porém. Clamadeu empreende a marcha atrás de Anguinguerón. antes que do amanhecer retornariam. com ferro aguçado. prometeu que aceitaria a prisão do rei Artur e que diria de sua parte à donzela que ultrajou Keu ao pegá-la. nem ficar nada mais. que desejava vinga-la. Por outro lado. onde o rei devia ser cortês. se pudesse. as lanças quebraram-se. Explicaria como tudo ocorreu se quisesse me entreter nisso. sãos e salvos. indo para Dinasdarón. todos os detentos em suas torres. Deste modo. Naquela época era costume. mas não vale a pena. havia grande alegria no castelo. imediatamente atacaram-se com as espadas com igual brio e durante muito tempo. que a donzela jamais seria incomodada. que enquanto ele estivesse com vida. sem tirar. Assim que disse tais palavras. cujo mordomo se negou. que se vão imediatamente com todas as suas guarnições. os cavalos velozes e os cavaleiros fortes odiavam-se de morte. Todavia. robusta e manejável. Amoldou-se a todos os seus desejos. suas ordens foram cumpridas. como encontramos escrito em livros. não lhes reteve nada. E assim Clamadeu se foi à sua terra. ficaram em pé. Por sua parte. qualquer hoste que sitiasse o castelo. Trombaram-se tão bruscos que as lâminas dos escudos rangeram. tampouco não quis constituir-se prisioneiro no Belrepeire. Nem por todo o império de Roma ia ao mestre que possuía o castelo bem construído. igual está dito em uma palavra como em vinte palavras: Ao final. Clamadeu teve que pedir mercê. como tinha feito seu mordomo. afugentaria. pesasse a quem quer que fosse. nem por ele. Ambos levavam lança de freio. nem por seus vassalos.um para o outro sem desafiar-se e sem grandes raciocínios. Ao chegar ordenou que todos os prisioneiros fossem tirados da prisão e fossem embora em completa liberdade.

e o reconheceu Anguinguerón. Keu entrou por meio da sala. aquele cavaleiro que vêem. Enquanto Anguinguerón falava assim. pois ninguém os assalta. que não haveria melhor cavaleiro no império de Roma. damas e cavaleiros acabavam de chegar do monastério depois de ouvirem todas as missas. Estou completamente seguro de que o venceu. contado e referido sua mensagem a noite anterior. tinha sido retido na corte para formar parte da mesma e do conselho. Era um dia de Pentecostes. mas também cai a desgraça sobre os mestres. Quando chegou. nem monja. Clamadeu chegou e um correu para o outro ao se encontrarem na corte. senhores. Daqui distingo bem o sangue e a ele mesmo também. onde o rei Artur reunia-se em suas salas uma corte muito luzidia. Chama-se Clamadeu das ilhas. Muito gozo existe agora no castelo. à cabeceira da mesa. Viu seu senhor coberto de sangue vermelho. reis e duques. Pelas ruas e pelos lugares iam todas e todos dançando. porque está talhado de sangue. o qual havia já completo. rainhas e condessas. na . Toda a sala e as moradas dos cavaleiros ressonam de alegria. Vêem o Clamadeu. que dormiu três noites nos mesmos albergues nos quais aquele tinha parado. apesar disso. 2743-2820) Enquanto isso. nas capelas e nos monastérios tocavam todos os sinos de júbilo. vejam que maravilha! O moço das armas vermelhas envia aqui. como era sua obrigação. Clamadeu. Anguinguerón vai seguindo seu caminho e atrás dele. que chega completamente armado. o reconheceu e disse imediatamente: —Senhores. Não havia monge. me acreditem. Foi-o seguindo pelos albergues até chegar ao Dinasdarón. no Gales. que é meu senhor e eu sou seu vassalo. Havia muitos condes. eu imaginava que seria tal. na mão direita empunhava um bastão. (VS. nem guerreia. não levava manto. A Rainha estava sentada ao lado do Rei Artur. que não desse graças a Nosso Senhor.tanto tempo estiveram em dura prisão.

e disse: (VS. que. em festa tão solene. Ao mais generoso e ao mais galhardo.cabeça um chapéu de feltro e cabelo loiro. que. não comerei até que chegue aqui uma grande nova. Por ordem dele. devo reconhecer que me envia aqui um cavaleiro que me venceu. temiam suas ruins jactâncias. Não é sensato o que não teme as ruindades muito descobertas. diga-me em verdade: . entretanto. pois devo dizer minha mensagem. não posso evitá-lo. sua beleza e sua galhardia ficavam empanadas por suas ruins jactâncias. por isso. todavia. embora esteja reunida toda minha corte. ou sejam verdadeiras. levava o cabelo amarrado. preciso entregar-me prisioneiro a você. —Amigo. agora poderiam comer. E se alguém me perguntasse como se chama. 2821-2924) —Deus salve e abençoe ao melhor rei que há com vida. deixam livre o caminho. Sua capa era de um rico tecido. Todo mundo se retira para deixalo passar quando entra por em meio da sala. que Nosso Senhor te valha —disse o rei—. Acima de tudo o mundo se dirigiu aonde estava o rei e lhe disse: —Senhor. armado como era seu dever. quando entrou na corte Clamadeu. tinta de grão e bem colorida. Não havia no mundo cavaleiro mais formoso. posso notificar que suas armas são vermelhas e diz que você as deu. cuja fivela e todos seus adornos eram de ouro: lembro-me bem. sejam em brincadeira. vinha a constituir-se prisioneiro. rodeada com um cinturão trabalhado. pelos olhos de minha cara. porque a história assim o testemunha. Embora me pese. se quiser. bom senhor. responderia que não. Isto estava dizendo. como o testemunham todos quantos estão inteirados das boas obras que tem feito. todos temiam suas ruins jactâncias e sua má língua. e ninguém disse nada. Todos os que ali estavam. deixe-me tranqüilo. Escute-me agora. —Keu —disse o rei—.

julga-as uma idiotice. ao lado dela joga e deleita-se. O bufão. —Amável senhor. a bofetada será bem vingada. a uma ordem do rei. conduziramno àquelas câmaras. contente e são. se Deus lhe dá poder para isso. mas não estava esquecida. está livre. é muito ruim quem esquece a afronta e o ultraje que recebeu. a qual Keu fez tal ultraje que lhe deu uma bofetada. mas. mas sim. Por sua néscia língua e por sua culpa se foi. nem passada a afronta. Clamadeu cumpriu sua mensagem. No homem vigoroso e forte a dor passa e a afronta dura. como o mais valente cavaleiro que jamais conheci. agora não o levo na brincadeira. Já estava curada da bofetada que tinha recebido. para ouvir estas palavras. sua amiga formosa—. saltou de alegria e gritou: —Senhor rei. O rei moveu a cabeça e disse ao Keu: —Muito me dói que não esteja aqui comigo. Os que tinham recebido o encargo do rei. Depois destas palavras. mostraram a donzela. contando quão novas tanto desejava ouvir. Keu. se pudesse evitar que seu . não poderá evitar que rompa o braço direito e lhe desloque a clavícula. diz que a vingará. e o cavaleiro se inclina ante eles. se levantaram Girflet e seu senhor Yvain. que melhora a todos os que acompanha.conserva seu vigor. Logo. Toda a terra seria livremente dele. o rei o reteve em sua corte e em seu exército. mas no ruim morre e se esfria. esteja completamente seguro —responde Clamadeu—. Deus me benza. pois. durante toda sua vida. saibam que não se absteve de lhe maltratar por covardia. Aquele que disputara a terra e a donzela Blancheflor. o que me pesa muito. E me disse que falasse com a donzela que lhe sorriu. O rei lhes disse que se fizessem cargo daquele cavaleiro e o conduzissem às câmaras onde se entretêm as donzelas da rainha. ainda se doía da afronta que fez em sua bochecha. que ouve estas palavras. por respeito ao rei e por vergonha.

salvo que ele faça a promessa que. a fim de que Deus e São Abraham a alojem entre as almas pias. Se estiver viva. Se estiver morta. podem estar seguros de que ficará possuindo a terra. Os monges. pois foram todos os monges revestidos de capas de seda e todas as monjas veladas. se Deus me permitir. não deixarei de fazê-lo de modo algum. Deixa a sua gentil amiga muito triste e dolorida. E ele lhes diz: —Não devem continuar chorando mais. isso não lhes deve pesar. Agora mais se lembra de outra coisa. 2925-3016) Assim segue caminho prometendo voltar. a qual deixei sozinha no bosque chamado Erma Floresta? Voltarei. porque tão logo quer nos abandonar. se encontrar a sua mãe viva. que nos tirou do desterro. celebrarão festejando por sua alma. farei dela uma monja velada em sua igreja. e entristecerse não serve para nada. Eu voltarei. tanto se ela estiver viva como se não. que vá ver minha mãe. Justo é que nossa dor seja a maior que possa existir. ajudando-nos a retornar para nossas casas.coração estivesse em outro local. Quando saía da vila segue-o brava procissão. porque ela o veda. trará consigo e após. como se fora o dia da Ascensão ou um domingo. (VS. Não se atreve a despedir-se de sua amiga. porque tem no coração a sua mãe. porque eu lhes farei muito bem em benefício de sua alma. e ele partiu com a lança na bainha. fará o mesmo. que viu cair desvanecida. Senhores monges e vocês. não é de admirar nossa dor. e se estiver morta. Não crêem que esteja bem. Mas nada conseguem com o que dizem. proibe e ordenou a toda sua gente que lhe peça muito que fique. e também a outros. e tem mais desejo de ir vê-la que de nada mais. E aqueles e estas diziam: —Senhor. formosas damas. como chegou. as monjas e todos outros voltaram. . completamente armado. se Deus me permitir que volte.

senhores. saúda-os e lhes pergunta: —Digam-me. estou convencido de que do outro lado encontraria a minha mãe. por Deus. pois acredita que seguiriam navegando até chegar onde estava. irmão. Não cessava de pedir a Nosso Senhor. pois —diz ele—. Então viu que descia pelo rio um barco que vinha de cima. levantando seu anzol com uma pequena pesca. se esta fosse sua vontade. porque tinham ancorado. onde poderia achar albergue. disse: —Ah. — Indique-me. que lhe concedesse encontrar a sua mãe cheia de vida e de saúde. Como não sabia o que fazer. a minha fé. impedindo-o de ir mais adiante. se estiver viva. ao pé de um outeiro. nem cristão. nem passagem. não há balsa.NO CASTELO DO GRAAL Durante todo o dia seguiu sua viagem sem encontrar criatura terrena. Vai seguindo a margem até chegar numa rocha que tocava o rio. há neste rio passagem ou ponte? E o que pesca lhe responde: (VS. que não poderia levar nem a cinco homens. Mas. E acredito não há outro barco maior que este no qual estamos. ponte. Quem estava adiante pescava com vara. Para e espera. Eu lhe albergarei esta noite. Senhor todo-poderoso! Se pudesse atravessar este rio. Ainda durava esta prece quando viu. pois. . um rio de água rápida e profunda. o supremo Pai. nem para onde caminhar. no qual iam dois homens. E lhe responde: — Imagino que terá necessidade disto e de outras coisas. nem cristã que lhe pudesse indicar o caminho. Em vinte léguas para cima e para baixo não se pode atravessar a cavalo. detiveram-se no meio do rio e ficaram quietos. e sem atrever-se entrar nele. 3017-3106) —Não.

o quarto o cobre com um manto de escarlate. colocado entre quatro colunas. perto do rio e perto do bosque. com a cabeça coberta por um chapéu de pele de cebellinas negras como as amoras. até que chegou à cúpula da colina. porque encontrou onde albergar. com véus de púrpura por cima. Saiba que. por muito que buscasse. olhou tudo ao redor dele. nem veria outras tão formosas até o Limoges. Diante dele ardia claramente um grande fogo de lenha seca. num vale. nem tão bem fundada. Embora fosse até Beirut não encontraria outra tão formosa. Ele vai imediatamente acima. o terceiro leva seu cavalo para dar feno e aveia. e quando chegar acima verá num vale. e disse: — O que vim buscar aqui? Bobeiras e necessidades. tinha dos lados duas torres pequenas. não encontraria. confessa que lhe encaminhou bem o que lhe enviou ali. Passa pela ponte e quatro pajens vão até ele. Era quadrada. de rocha granítica. . que enviou dois servidores para ele.Suba por esta quebrada que há na rocha. e assim era toda sua roupa. nem mentiroso. A sala estava diante da torre e as galerias diante da sala. a mansão em que moro. Assim chega à porta. dizendo que encontraria uma mansão assim que chegasse aqui em cima. Pescador que tal me disse: se disse isso com má intenção. No meio da sala viu sentado em um leito. logo introduziram-no nas galerias. Com eles foi à sala. dois deles o desarmam. frente à qual encontrou uma ponte elevada que estava jogada. Então viu a frente. a quem aqui me enviou! Encaminhou-me tão bem. reconciliando-se com o pescador. que aparecia no topo uma torre. desleal. Era quadrada e tinha tanto de comprimento como de largura. O moço ficou nas galerias até que chegou o momento de apresentar-se ao senhor. fresco e novo. Apoiava-se no cotovelo. já não lhe chama traidor. um agradável mestre de cabelo grisalho. Que Deus envergonhe hoje. cometeu uma grande deslealdade. O moço desce para aquela parte. não viu a não ser céu e terra.

pois sustentavam uma chaminé alta e larga de bronze maciço. não posso levantar.fez hoje muito longa jornada. pois. asseguro-lhe. As colunas eram muito fortes. Enquanto assim falava. pela porta da mansão entra um pajem que leva no pescoço pendurada uma espada. esta manhã saí de um lugar que se chama Belrepeire. de que parte veio hoje? .Valha-me Deus! —disse o mestre — . não me incomoda de modo algum. aproxime-se. pois na espada estava escrito. —Por Deus. eu lhe ordeno. 3107-3195) —Amigo. Saíram antes de que o vigia tivesse anunciado a alvorada esta manhã? —Eu inicie a caminhada na primeira hora do dia —diz o moço—.Senhor —responde—. ao vê-lo chegar. Apresentaram-se ante seu senhor. Não se consterne por mim e sente-se sem reparos aqui a meu lado. pelo gozo e a saúde que Deus me dê. salvo aquele que a tinha forjado e contemplado. o qual. saudou-o e lhe disse: (VS. não se incomode de não me levantar para recebe-lo. . O pajem que a trouxe disse: . entregando ao rico homem.Quatrocentos homens sentaram-se comodamente em torno do fogo e todos tinham lugar suficiente. Este a desembainhou até a metade e viu onde tinha sido feita. O mestre é tão solícito com ele que se desdobra tudo o que pode e lhe diz: —Amigo. senhor. estavam um de cada lado. nem diga isto —disse ele—. Os que conduziam o hóspede. que unicamente se poderia romper em um só transe que todo mundo ignorava. O moço se senta a seu lado e o mestre lhe diz: —Amigo. Viu também que era de bom aço.

Tão ricamente adornada o senhor a deu ao moço dizendo: —Bom irmão. volta a meter na bainha de arma. uma gota de sangue saía do extremo do ferro da lança. que ardia claramente. quero que a possua. porque se lembrava do conselho daquele que o fez cavaleiro. o senhor colocou a espada. Viu atrás do fogo. sua formosa sobrinha. logo a saca nua da bainha de arma. sem estreitá-la muito. estivesse bem empregada. o qual fez cargo dela. Dêem a quem lhes agrade. Passou entre o fogo e os que estavam sentados no leito. parecia que. quando precisasse servir-se dela. Todos os que estavam ali viam a lança branca e o ferro branco. vê este prodígio. Agradece-lhe e a rodeia. que valia um grande tesouro. se o perguntar. depois de olhá-la um pouco. por isso. que em tudo o fazia grande honra. envia este presente. uns pajens. O pomo da espada era do melhor ouro da Arábia ou da Grécia. Saibam que estava muito bem no flanco e melhor na mão. e a bainha da arma de orifrés de Veneza. ataria-o como um barão. até a mão do pajem emanava aquela gota vermelha. 3196-3292) Havia ali dentro uma iluminação tão grande como poderiam procurar as candeias num albergue. e morrerá sem forjar nenhuma outra depois desta. mas sem cerimônia e desembainhada. Enquanto falavam diversas coisas. não perguntou nada. mas se abstém de perguntar como ocorreu tal coisa. . Naquele momento. de uma câmara chegou um pajem levando uma lança branca empunhada pela metade. jamais viram nada mais belo tão longa e larga é. esta espada foi reservada e destinada. considerará rusticidade. a loira donzela. mas minha senhora estaria muito contente se. encomendou a espada ao que guardava suas armas. disse e ensinou que se guardasse de falar muito. Quem forjou esta espada só fez três. O moço que aquela noite tinha chegado ali. pelo cinturão.— Senhor. àquele que ali era forasteiro. ali onde fora parar. Logo voltou a sentar ao lado do senhor. (VS. Teme que.

formosa. Depois desta. e colocaram a toalha. Mas o que diria da toalha? Nem legado. Tanto isso lhe traz bem. como conduz mal —eu não sei exatamente— . no Graal havia pedras preciosas de diferentes classes. nada pergunta. derramou-se uma claridade tão grande. Não . das mais ricas e das mais caras que haja em mar e terra. A mesa foi montada sobre estes cavaletes. O senhor ordena aos pajens dar a água e pôr as toalhas. ou a lua. passaram diante do leito e de uma câmara entraram em outra. O primeiro prato foi uma perna de cervo com azeite e pimenta picante. Temo eu que isso lhe seja prejudicial. Fazem-no os que deviam e costumavam fazê-lo. Do mesmo modo que passou a lança.Enquanto isso. Mantiveram-na um momento diante de seu senhor e do moço. que vinha com os pajens. pois sempre conservava em seu coração as palavras do sensato mestre. Dois pajens trouxeram uma larga mesa de marfim. uma madeira que ninguém espera que apodreça. a gente tanto pode calar muito como falar muito. chegaram outros dois pajens levando nas mãos candelabros de ouro fino trabalhado. nem cardeal. superavam a todas as demais pedras. já que não há medo que ocorra nenhuma destas duas coisas. veio outra que levava um prato de prata. O moço os viu passar. que as candeias perderam seu brilho. Quando ali entrou com o Graal que levava. Em cada candelabro ardiam pelo menos dez candeias. não ousou em modo algum perguntar a quem servia o Graal. que ia diante. gentil e bem embelezada. O Graal. às vezes. as do Graal. era de fino ouro puro. nem que queime. porque ouvi dizer que. nem papa comeram nunca em cima de uma tão branca. Os pajens que levavam os candelabros eram muito formosos. porque são de ébano. O senhor e o moço lavaram as mãos com água morna. a história testemunha que era toda de uma peça. sem dúvida alguma. Uma donzela. sustentava entre suas duas mãos um Graal. até que chegaram outros dois pajens que traziam dois cavaletes feitos de madeira. como ocorre às estrelas quando sai o sol. com duas virtudes muito notáveis: suas peças duram sempre.

quando se despedir do senhor e de todos os demais do exército. irei dormir na minha câmara. Um pajem. que são gostosos e agradáveis. Na mesa não se regulam os vinhos e os manjares. Com o moço ficaram outros pajens que o serviram e . O moço se admira muito de tudo porque desconhecia. figos. destrinchou-a diante deles e lhes ofereceu aos pedaços em cima de um bolo muito cabal.lhes faltou vinho claro. Esperará a manhã seguinte. nozes. de gosto suave. os dois conversaram durante a sobremesa. que tinha pego a perna de cervo em pimenta e a tinha posto no prato de prata. pois a cada prato servido. e você. que docemente o repreendeu por falar muito. Mas se cala mais do que lhe convém. Naquela noite. (VS. já é hora de deitar-se. o tem sempre em seu coração e o recorda. espiga cozida e outras amadurecidas. Depois de ter comido. quando tiver vontade. velho vinho de amoras e xarope claro. antes de partir. Depois tomaram várias bebidas: pigmento sem mel nem pimenta. das quais havia muitas e de grande preço: tâmaras. embora desejasse sabêlo. a um dos pajens da corte. Quatro decididos e fortes servidores naquele momento saíam da câmara. Não tenho nenhum poder sobre meu corpo e será preciso que me levem. agarraram nas quatro pontas da colcha que estava estendida sobre o leito no qual se sentava o mestre e levaram-no onde deviam. deite-se aqui fora. condes e imperadores. e não sabe quem se serve com ele. Abstinha-se disso pelo mestre. e o moço não perguntou a quem se servia com o Graal. Assim diferiu a coisa ocupando-se em beber e comer. diz para si mesmo. O mestre lhe disse: —Bom amigo. ao mestre e ao moço que estava com ele. 3293-3386) Enquanto isso o Graal voltou a passar diante deles. Se não o desagradar. bebido em taças de ouro. Os pajens prepararam as camas e as frutas para a noite. serviram mantimentos próprios de reis. Terá ocasião de perguntar. vê passar uma vez mais diante dele o Graal completamente descoberto. A comida é boa e saborosa.

Parece que todos os pajens devem ter ido. e viu que tinham levantado a ponte. e aonde se leva o Graal. que não o vejo? . foi às portas das câmaras que de noite havia visto abertas. e. vai à porta da sala. Quando vê que deve fazê-lo por si mesmo. pela ponte que vê jogada. Dormiu até a manhã seguinte. aí disse: —Você ouça! Você que levantou a ponte! Fala-me! Onde está. mas não encontra homem vivo. ao bosque a fim de reconhecer seus laços e suas armadilhas. ninguém lhe abre. Quando quis. 3387-3470) Sai então pelo da porta. chama. vê sua lança e seu escudo apoiados em um muro. logo vai procurar suas armas e as encontra ao pé de uma escada. Então monta e vai por toda parte procurando. Quando chamou o bastante. sentiu que os pés de seu cavalo se elevavam muito alto. se pode ser por alguma pena. nem vê escudeiro. nem lhe responde palavra. levanta-se como melhor sabe. onde as tinham deixado. se não tivesse saltado bem. (VS. e antes de que tivesse passado a ponte de tudo. Chamou e ninguém lhe respondeu. maltratado tivesse ficado o cavalo e o que o montava. Vai de um local a outro. nem pajem. despiram-no. onde encontra seu cavalo selado. Vai diretamente para a porta e encontra a ponte caída. quando iniciou a alvorada do dia e todo exército se levantou. pois o tinham deixado assim para que nada o detivesse quando chegasse nela e pudesse passar sem obstáculo. golpeia e empurra muito. e que dava um salto tão grande que. calça-se sem esperar ajuda. encontra-a aberta e desce todos os degraus até chegar embaixo. encontra-as muito bem fechadas. O moço voltou o rosto para ver o que tinha passado. teve que levantar sozinho. Quando estava bem armado seus membros. descalçaram-no. deitaram-no em brancos e finos lençóis de linho.lhe ajudaram assim que necessitou. Não quer ficar mais ali e propõe ir atrás deles para ver se algum lhe diz por que sangra a lança. mas quando ele olhou a seu redor não viu por ali ninguém. embora lhe desagradasse. mas em vão.

Até agora jamais me ocorrera nada que tanto me doesse. do que me serve a vida? Sem ele de nada me serve a vida nem o corpo. O moço. e ela a ele com a cabeça baixa e sem deixar por isso seu duelo. até que improvisadamente vê uma donzela ao pé de um carvalho que chora. que o verei e perguntarei novas de outras coisas que queria saber. assim que a viu. Mas me . Quando estava perto a saudou. tira fora minha alma! Que seja servidora e companheira da sua. A morte. e diz: — Acredito que por aqui passaram quem procuro. quem matou este cavaleiro que jaz sobre você? —Gentil senhor. não se deteve até chegar a ela. por que tomou antes sua alma que a minha? Quando vejo morto o ser que mais queria. grita desesperada como uma infeliz desventurada. um cavaleiro o matou esta manhã —respondeu a donzela—. Morte. digna-se aceitá-la. O moço lhe perguntou: — Donzela. porque muito melhor tivesse obrado se ele estivesse vivo e eu morta.Aproxime-se. se Deus o tivesse querido. Vai dizendo: — Desgraçada de mim. desafortunada! Em que vil hora nasci! Maldita seja a hora na qual fui consumada e a que nasci. Assim perde o tempo falando em vão. COM A PRIMA Interna-se na floresta e vai por um atalho no qual encontra rastros recentes de cavalos que tinham passado por ali. Não devia ter matado meu amigo. que tanto me desgosta. Precipita-se bosque adentro seguindo aqueles rastros. porque ninguém lhe quer responder. Deste modo fazia grande duelo sobre um cavaleiro que tinha em seus braços com a cabeça no atalho.

Se não tivesse alimentado e preparado um jazigo de aveia e de feno. pois foi alcançado por um dardo entre as duas coxas. nem o cabelo alisado se alguém não o tivesse lavado. nenhuma outra distração. é rei! Posso lhe assegurar isso. de sorte que já não se pode valer. nem o cabelo tão liso. por Salvador! Eu não sei se foi pescador ou rei. Este. Todavia. tem montadores. mas é muito discreto e cortês. digno e são. —Ah. formosa. arqueiros e caçadores que vão por suas . cavalgar quarenta léguas. Não pode caçar. sem encontrar nem um só albergue que fora bom. gritasse agora fortemente. diretamente no sentido em que você vêm. parece-me que esta noite estive folgado descansando. assim o afirmam. aqui onde estamos. por isso se chama o Rei Pescador. mostrou-me sua casa e albergou-me nela. senhor! Vocês dormiram na casa do rico Rei Pescador. ontem tarde. salvo que ontem. Por esta razão se distrai assim. Quando quer distrair-se ou tomar alguma distração. Se alguém. nem tolerar. E quanto a você mesmo. (VS. pois sem discussão alguma eu obtive o melhor albergue que jamais tive. nem percorreu bem este país. em uma batalha foi ferido e aleijado sem remédio. nem entregar-se ao animal de caça. ontem à noite desfrutei da maior folga possível. Nada mais posso dizer dele. Seu cavalo não teria os flancos lustrosos. encontrei dois homens que navegavam placidamente em um barco. é natural. mete-se em um barco e vai pescando com o anzol. Você não conhece. Entretanto. ao entardecer. não poderia suportar. —Donzela. E a donzela disse: —Gentil senhor. assim Deus me guarde. e se nota. e isso ainda lhe angustia tanto que não pode montar a cavalo. não teria o ventre tão cheio.surpreende extraordinariamente uma coisa que observo: que se poderia. 3471-3558) —A minha fé —diz ele—. poder-se-ia ouvir com toda claridade ali onde dormi ontem a noite. Um governava e o outro pescava com anzol.

fez muita grande honra ao sentar a seu lado.Entrou em outra câmara. e eu me sentei junto dele.Se a vi? É claro que sim. .florestas flechando.E aonde foi? . vira a lança cuja ponta sangra sem que haja nela carne nem veia. Diga-me agora se. . gosta de estar nesta morada aqui perto. E vira o Graal? . e fez tal mansão como convém a um rico rei. pois. assim Deus me valha. muito bem. por minha fé que é certo o que lhe ouço dizer.Não disse absolutamente nada.E perguntara ao rei por que sangrava? . —Realmente. Em todo mundo não há nenhuma mais adequada para ele. Por isso também. . que procedera muito mal. Disse-me que sentasse a seu lado e que não considerasse altivez senão se levantava para me receber. por minha fé. quando estava sentado junto a ele.E quem o levava? . porque não lhe era fácil. assim que estive diante dele.Uma donzela. —Donzela. 3559-3634) —De uma câmara. .Sim. . .De onde vinha? (VS. nem possível. Eu me mantinha um pouco afastado. porque ontem tarde me surpreendi extraordinariamente.Saiba. .

que não sabia seu nome. Quando a donzela o ouviu. me valha Deus. —Pior muito pior. e lhe chegariam muitos bens.Como ? —Perceval. . embora não sabia. pelo pecado com respeito a sua mãe. Como se chama.Outra donzela. tinha recuperado o domínio de seus membros e a posse de sua terra. e não sabe dizer se era verdade ou não.E o que levavam nas mãos? .E o que levava? —Um pequeno prato de prata. mas dizia a verdade. —Quem? . ficou em pé ante ele e lhe disse encolerizada: .. Ai. o Desventurado. bom amigo. Porque se tivesse reparado. que está aleijado.Sim.Só dois pajens. . que morreu pela . Perceval infortunado. Isso já ocorreu. Tem que saber que muitas insipidezes virão a ti e a outros. — Perguntara às pessoas aonde foram deste modo? —Tal pergunta jamais saiu de minha boca. o gaulês. adivinha-o e diz que se chamava Perceval. . .Ia alguém diante do Graal? .Seu nome mudou. sabe-o bem. quão mal aventurado é agora por causa de tudo o que não perguntou. amigo? E ele. o bom rei.E quem vinha depois do Graal? .Candelabros cheios de candeias.

porque este que jaz aqui morto asseguro-lhe. já não servirá de nada. de onde saiu esta espada pendurada no flanco esquerdo. que jamais derramou sangue de homem. (VS. a morte de sua mãe. Eu gostaria muito se quisesse vir comigo. que sem dúvida alguma lhe trairá quando estiver em grande batalha. durante muito tempo: sou sua prima irmã e você é meu primo irmão. prima! —diz Perceval—. que eu mesma a vi enterrarem. por sua bondade —disse Perceval—. contigo me criei na casa de sua mãe. Os mortos com os mortos e os vivos com os vivos. ou me vencerá ou eu o vencerei. Mas. Sigamos ao que o matou. nem me separarei dele.dor que você lhe produziu. para lá.Sei tão certo —responde a donzela—. nem foi desembainhada em nenhum transe? Eu sei bem onde foi feita e sei bem quem a forjou. Procure não confiar nela. -Tenha Deus piedade de sua alma. se o que me disse é certo. que não pode mitigar a grande dor que sente no coração. não disse tudo isto por querer que você vá atrás dele. . Posto que está enterrada. pois voará aos pedaços. responde-lhe: —Bom amigo. Parece-me desnecessário ficar aqui custodiando este morto. Eu o conheço melhor que você a mim. vamos juntos você e eu. por que tenho que seguir procurando-a? Só ia porque queria vê-la. até que o enterre. . de modo algum irei com você. prometo e asseguro que. Triste história me contou. agora devo empreender outro caminho. se consigo alcançá-lo. mais do que a que me causa pena este cavaleiro. . 3635-3726) E ela. diga-me como sabe. por aquele caminho foi o cavaleiro malvado e cruel que matou a meu doce amigo. pois você não sabe quem sou. Se acredita-me. siga por aquele meio-fio. Não me causa pena a desgraça que ocorreu não indagando o que se fazia com o Graal e aonde o levavam.Ah. mas sim porque desejo seu dano como se me tivesse morrido.Valha-me Deus. amava-o e o queria muito porque me chamava sua amiga amada e me queria como franco cavaleiro leal.

De . sofreria muito se rompesse. de tão fraco tremia como se estivesse congelado. Ali. cansando-o muito de dia e cuidando pouco a noite. porque ele a fez e a refará. Não obstante. poderia refazê-la. o que não obterá jamais. e pelos trapos saíam os seios do peito. a mais miserável que jamais foi vista. Levava uma sela no lombo e um cabresto muito em consonância com tal animal. —disse Perceval—. temperar de novo e restabelecer. como se faz com cavalo emprestado. O ORGULHOSO DO DESERTO Ele vai seguindo uns rastros no atalho até que encontra um cavalo esquálido e cansado indo a frente dele. Montava-o uma donzela. Suas crinas estavam cortadas e as orelhas caíam. mas seria muito trabalhoso para que soubesse seguir o caminho que leva ao lago que há ao pé do Cotoatre. inquieta-me muito o que me disse. se a ventura o levasse. poderia reparar-se? —Sim. enviou-a ontem noite uma das sobrinhas de meu bom anfitrião. um ferreiro que assim se chama. Assim era aquele cavalo. porque não saberia como consegui-lo. se for certo. Procure que nenhum outro ponha nela suas mãos. Entretanto. Diga-me agora. ia tão desarrumada vestindo roupas rasgadas. pois. não quer se separar do corpo daquele cuja morte tanto causa pena em seu coração. o focinho e os dentes esperavam dele isca e pasto. pois só tinha o couro em cima dos ossos. se souber: no caso de que se rompesse. Vá somente à casa do Trebuchet.—Formosa prima. de nenhum homem que se empenhe nisso. Ele então vai e ela fica. Imaginou que estava tão fraco e miserável porque tinha cavalgado em más mãos. Deu-me isso e eu estou muito satisfeito. arrumada. Parecia muito fatigado e mau alimentado. Entretanto. seria muito formosa e gentil. —Certo.

respondeu: . 3727-3816) Perceval. tenha seu coração quanto deseje eu não tenho permissão para saudá-lo. de certo. disse-lhe: —Formosa. em seu rosto havia feios sulcos produzidos por suas lágrimas. Embora ele soubesse. Muito sofrido devia ter o coração que tanta desdita padecia. Então Perceval. quem me alivie esta pena. Não sei por que deseja. minha companhia. Ia descoberta e sem manto. abaixou a cabeça e respondeu em voz baixa: — Senhor que me cumprimenta. a qual apertou seu vestido para cobrir suas carnes. porque paguei tão caro. Perceval. a não ser porque deseja minha vergonha e minha desgraça. (VS. Na verdade. Deus. pálida e tão miserável. se o agradar. Alcança-a Perceval descolorida. estava aberta e tostada pelo calor. você que sabe bem que em nada faltei. —Deus! —dizia—.quando em quando aparecia um remendo de grossa costura. deveria ter piedade. o vento e o gelo. Ao aproximar-se ouviu doer-se tristemente de sua pena e sua desdita. se me conservasse algum afeto. assim que a viu. mas isso fazia que se abrissem outros buracos. com tanto empenho. que eu o merecia. tampava um buraco e abria cem. que estava já a seu lado. me envie. não permita que siga vivendo assim. ou livra-me daquele que me faz viver em tal opróbrio. sua carne parecia rasgada por um tridente. Quando a donzela o ouviu. foi veloz para ela. por debaixo da roupa chegavam até regar os joelhos. no momento em que me leva atrás dele. nem ele quer me matar. Quando cobria uma parte. que sem deterse em seu caminho lhes desciam pelo seio. pois. nenhum afeto tem. nem posso escapar dele viva. tão dura vida. Não mereci em modo algum ser tanto tempo tão desventurada e sofrer tanta desventura. Deus lhe guarde. sem se importar com nada. a quem a vergonha alterou a cor. No qual não encontro piedade.

quando ninguém me persegue. mas sim meu caminho me trouxe até você. Fuja enquanto é possível. fuja e obrará sabiamente. certamente.Por Deus. senhor. Neste ano. Que aventura lhe levou a tal dor e a tal pena? — Ah. nem ultraje. não o matarei até explicar por que motivo e por que má ação a faço viver com tanta desonra. —disse ela— Porque sou tão desventurada e tanta é minha pena. 3817-3913) —Senhor —diz ela—. Enquanto falava assim. Caso o encontrasse aqui.. O pecado o faz ficar aqui. Todavia. Parte. que não surpreenda esta conversação o Orgulhoso do Deserto.Sim. Posto que a vi tão maltratada. suo de angústia quando alguém fala comigo. . gritando muito alto: —Caiu a desgraça sobre você que vai ao lado da donzela. fuja daqui e me deixe estar em paz. —Queria saber —diz ele— de que temor e de qual ameaça tenho de fugir. que só ambiciona batalhas e brigas. pela areia e pelo pó. de que o mataria imediatamente. mas antes ele conta a todos por que cai em tanta baixeza e miséria. — Asseguro-lhe que eu não pretendia causar nenhum mal —diz Perceval—. não se apiede. não terei alegria em meu coração até saber a verdade. tinha ido um dia ao bosque e deixei em meu pavilhão esta . ou me olha. Eu não vim aqui para lhe fazer desonra. se chegar a tempo. Não faz muito que matou um. Tem que saber que chegou seu fim. esteja seguro. por havê-la retido e parado um só passo. donzela! Por que? Penso e acredito. agora escuta e ouvirá a história. deixa-o sem cabeça. que nunca a vi. por piedade! —diz ela—. pobre e nua. o Orgulhoso saiu do bosque e chegou como um raio. Incomoda-lhe tanto que alguém pare ou que me retenha conversando que. (VS. nem lhe fiz nada de mau. que ninguém me deve saudar.

que está impaciente e quer que lhe faça a força.donzela. muito ligeiramente dá todo o resto. respondeu-lhe palavra por palavra: —Amigo. e não faz nada mais. nisto não obrei como um néscio. A mulher que entrega sua boca. remói e luta. (VS. mas. matasse e cortasse a cabeça do que a tinha forçado. nada mais passou. Agora minha amiga recebe o cortês salário que lhe corresponde. arranha. nem nada mais fiz. eu sou o que a beijou. do que os que vestia então. Quem beija uma mulher. se comi. que já cumpriu sua penitência. sem dúvida alguma. o que me indigna. que a pague. se houver quem bem o entenda. já se sabe. que seu cavalo não comeria aveia. Como tinha razão. O que a impedia de me mentir? E se a beijou contra sua vontade. um bolo e meio e bebi tanto vinho quanto quis. para que se guarde de reincidir. pois. era quão único que amava. exceto unicamente naquela briga em que pega o homem pela garganta. Quando Perceval o escutou. e sinto muita pena. Quem faz uma loucura. Não sei quem era. saiba. 3914-3978) . Tirou-lhe um anel meu. que ela levava no dedo e o levou. Então se queria vencer. estando os dois sozinhos. nem manto. até que eu derrotasse. segundo ela me confessou. —Por minha cabeça —replica o Orgulhoso—. acaso não cumpriu ele depois todo seu desejo? Sim. passou por ali um moço Gales. mas antes bebeu o forte vinho e comeu os bons bolos que eu guardava. confesso. acredito que é ele o que não segue adiante. Por isso acredito que ele a fez sua. Embora ela se defenda. que a mulher sempre quer vencer. pois ninguém acreditaria que a beijasse sem fazer nada mais. jurei solenemente. Tomei o anel de seu dedo. nem seria sangrado. Pôde ver-me muito encolerizado quando voltei e soube. pois lhe doeu muito. defendia-se. Ela não levaria mais capa. e logo não o agradece. sem dúvida alguma. nem onde ia. conseguiu beijar à força. É tão covarde em sua entrega. nem ferrado de novo. até que por acaso. disse agora coisas admiráveis ao reconhecer isto. pois uma coisa traz a outra.

tenho o coração triste e negro pelo mal que lhe tenho feito sofrer. que a amava mais do que a seus olhos. você não terá minha misericórdia. por minha fé. —A morte não está ainda tão perto como parece — disse Perceval. Perceval está muito triste coração porque lhe falhou sua espada. faz banhar-se a seu prazer até que fique curada e sã. pois. sem dizer mais. O Orgulhoso não se atemorizou. Perceval deu primeiro com a espada dada de presente. quero fazer a reparação que vocês disponham. porque queria prová-la. Desembainha a qual foi do cavaleiro Vermelho e ataca de novo. Atirou-lhe um golpe tão forte na parte superior do elmo de aço. Não me ordenarão nada que não esteja disposto a fazê-lo. antes recolhe todos os pedaços da outra e os guarda na bainha de arma. deixaram correr os cavalos um contra outro e se toparam com tal ímpeto que fizeram suas lanças lascar. bem composta e . Ele. posso jurar. que não esquecia que o mestre rogou nunca matasse a cavaleiro que lhe pedisse mercê. a boa espada do Rei Pescador. porém.. A batalha foi forte e rude.Fez-se merecedor da morte ao confessar a verdade. que de modo algum mereceu o dano que você lhe tem feito padecer. até que sua amiga a tenha. que se rompeu em dois pedaços. Então. Prepare-a e leva-a. e o devolveu com muita força em cima do elmo lavrado derrubando flores e pedras. disse-lhe: — Cavaleiro. pois. Não quero descrevê-la mais porque me parece que seria trabalho em vão: combateram os dois até que o Orgulhoso da Landa se rendeu e pediu mercê. —Vem. Então empreendem um combate tão robusto que jamais viram outro maior. à morada mais próxima que possua nestes arredores — disse—. Em seguida ficaram de pé e despiram as espadas e atiraram-se grandes golpes. Ambos esvaziaram as selas e derrubaram-se mutuamente. E aquele. respondeu-lhe: — Gentil senhor.

sou prisioneiro. 3979-4071) Ele responde que irá muito agradecido e que dirá tudo que lhe ordenou. fez banhar sua amiga e vestir-se ricamente. pois. Mando que a busque e que lhe diga de minha parte que. Tão bem cuidou dela que recuperou sua formosura. os dois empreenderam diretamente o caminho ao Carlión. tão bem. para fazer de mim quanto queira. preocupa-se de outras coisas. com a rainha e as donzelas. Keu lhe deu tal bofetada que a deixou completamente aturdida. —Vai agora. entre as quais há muitas formosas. Quando esteve diante dele disse: —Gentil senhor rei. e que boa ventura tenha —diz Perceval—. Depois. E que muito a gosto a levaria ele mesmo. vingado que esteja alegre e contente. nem o outro esperam mais. Saúda-o de minha parte e coloque-se à sua disposição equipado tal como vai agora. diga-lhe que de parte daquele que ele fez cavaleiro vermelho. Naquela noite. ao rei Artur. atendesse suas feridas e suas chagas. curasse. sem mais demora que a que seja precisa para que sua dama se reponha e se embeleze como lhe será mister. Se perguntar de parte de quem vai. Que vinha com sua dama se constituiu em prisioneiro do rei Artur acima de todo o mundo. se separam sem mais raciocínio. para que descansasse. sob nenhum pretexto entrarei na corte que o rei Artur reuna. de modo que o ouçam todos os que ali se encontrem e todas. . pois assim me ordenou o moço que lhe pediu armas vermelhas e as obteve. Acaba assim a conversação.bem vestida. nem um. onde o rei Artur tinha sua corte muito privadamente. que eu procurarei albergue em outro sítio. Acima de todas elas aprecio uma. até que a haja. que. só havia três mil cavaleiros de mérito. pois. com a aprovação e o conselho de meu senhor Keu. o mordomo. (VS. E terá que relatar na corte a penitência e o dano que tem feito sofrer a sua dama. porque me sorriu. É bem razoável e justo.

por nada que ocorra. Não contarei até que esteja presente aquela que foi golpeada na bochecha só por ter sorrido. compreendeu muito bem o que queria dizer. gritando: . Penso que a rainha e suas donzelas devessem ouvir as novas que lhes trouxe. o rei Artur. Por ele será apreciado e honrado em minha casa. que é esta donzela que está aqui. Depois enfurecera aquela que o mordomo Keu pegou. Que tenha gozo e boa ventura quem me deu de presente você. do soco. jamais fez outro mal. Ela chegou com todas as suas donzelas. (VS. ficou em pé de um salto. que lhes deram por ele.Assim que o rei o ouviu. Assim dá fim a suas palavras. disse tudo sem esconder nada. e lhe disse: —Donzela. ainda tenho que lhe dizer algo antes de me desarmar. quem me enviou aqui me rogou que a saudasse de sua parte. que não descalçasse meus pés até que dissesse: se Deus lhe ajudar. saúde o envia um cavaleiro ao qual aprecio muito e que me venceu com suas armas. que ficaram em pé em duas filas. muito o agradeço —disse a rainha. 4072-4162) Quando o bufão ouviu. Seja bem vindo. mas sim envia minha amiga. Quando a rainha se sentou ao lado de seu senhor. Conta-lhe toda a baixeza e o ultraje que largamente lhe impusera. —Amigo. —Senhor. gentil senhor. as penas que tinha passado e a razão porque o fez. Quando o rei ouve que é preciso que a reina se ache presente. —Desarme-se — disse—. manda procurá-la. não entrará. em nenhuma corte que reúna o rei Artur até que lhes tenha vingado da bofetada. o Orgulhoso da Landa lhe disse: —Senhora. Nada mais posso dizer dele.

o rei dá as armas e lhe entrega isso. e isso ocorrerá próximo. venceu a tão bom cavaleiro como é esse? Pois. que o pagarão muito seriamente. Keu. nem jogaria pé a terra até que tivesse armas vermelhas. jamais quer dizer nada bom. E depois do bufão acrescentou o rei: —Ah. não dormirei duas noites seguidas em câmara. ao que se ora e reza em Gales. que levava minha taça de ouro. cavaleiro que possa comparar-se a esse. mas sim que o cavaleiro Vermelho da Floresta do Quinquerroi o golpeou com altivez com sua lança. quem pode ser este. com muito prazer." E ele. assim Deus me abençoe. assim agora mesmo pode ir tomá-las. disse-lhe: "Irmão.—Keu. pergunta: —Por Deus. mas desmonte. muito cortesmente obrou quando zombou do moço! Suas brincadeiras deram nisso. nem em sala. E meu senhor Gauvain. mas quando o vi não me pareceu oportuno lhe perguntar nada. por meu senhor São David. O moço lhe atravessou um olho com seu dardo. Não sei como começaram a briga e a refrega. eu não o conheço —diz o rei—. em todas as ilhas do mar não ouvi nomear. que só com suas armas. Logo o rei fez sentar ante si seu cavaleiro prisioneiro." E ele respondeu que nem tomaria. que era irritante. nem em armas. senhor. nem em cavalaria. o é ainda. —Gentil sobrinho. Foi atrás daquele e o matou com um dardo que lhe lançou. embora o vi. não sei por que motivo. Disse também outras coisas surpreendentes: que não queria ter outras armas a não ser as do cavaleiro. nem vi. Keu. até que saiba se viver em mar . Disse-me que o fizesse cavaleiro imediatamente. Keu. e o será sempre. matou-o e ficou com suas armas. Eu ao vê-lo gentil e agradável. que estava sentado ao lado direito do rei. nem conheci. perdoou-lhe sua prisão e lhe ordenou que se desarmasse. Depois me serviu tão a meu prazer que. que não soube entender a brincadeira. de modo que já não espero vê-lo nunca mais. disse-lhe: "Irmão. acreditou-se que dizia seriamente. que enquanto isso lhes irá procurar umas armas douradas.

entretanto. como estava acostumado. Encaminhou-se ao prado. porque queria procurar e encontrar aventura e cavalaria. carregar a cem milhas. voava um bando de gansos que a neve tinha deslumbrado. toda a tropa e vestimentas que prepararam imediatamente. AS GOTAS DE SANGUE NA NEVE Então. O ganso estava ferido no pescoço. . Derramou três gotas de sangue que se pulverizaram sobre o branco. cobertas e travesseiros em malas. De noite acamparam em um prado próximo a uma floresta. 4163-4248) Todavia. todos convenceram-se de que não havia mais remédio que partir. era tão cedo. e toda a comarca estava muito fria. que se foi sem querer enfurecer-se na pressa. gelado e nevado. e não fica donzela que a rainha não leve para pompa e senhorio. e partirei para ir em sua busca. Perceval se levantou de madrugada. Assim com seu exército parte o rei de Carlión. viram colocar lençóis. até que encontrou uma separada do bando. nem dor que a detivesse em terra. a qual atacou. carretas e carros. Um clérigo sábio e muito letrado. encher cofres. O ganso não sentia mal. e parecia cor natural. Atacou de tal modo que a derrubou em terra. tendas ou barracas. Assim que o rei fez este juramento. (VS. Seguem-no todos os barões. Antes dele chegar.ou em terra. Perceval segue para onde viu o vôo. antes que chegasse às tendas. não poderia escrever em um só dia. onde tinha acampado a hoste do rei. Não regulavam pavilhões. que vinha as acossando com grande ímpeto. já havia empreendido o vôo. Viu-as e ouviu como chiavam por causa de um falcão. À manhã seguinte nevou muito.

Ali. A contemplação na qual estava embevecido agradava-lhe tanto. por que vêm aqui tão cedo? —Senhor —respondem eles—. Também lhe diz e roga que o traga sem demora. na verdade. Completamente armado saiu da hoste e se aproximou do cavaleiro e lhe disse: . Os escudeiros. encontraram ante o pavilhão real ao Sagremor. apoiou-se na lança para contemplar aquela aparência. que lhe parecia que estava vendo a jovem cor da face de sua formosa amiga. Interpela-os: —Digam-me e não me ocultem nada. Cumpriu-se assim que o disse. empregou as primeiras horas da manhã. há um cavaleiro dormindo. Quando das tendas saíram escudeiros. ainda dormindo em sua tenda. —Está armado? —Sim. porque em seu rosto o vermelho estava colocado sobre o branco igual aquelas três gotas de sangue que apareciam sobre a neve. envolve-se tanto que se esquece. viram-no tão absorto que pensaram que dormia. Em seguida mandou Sagremor que lhe tirassem as armas e pediu seu cavalo. —Eu irei falar com ele —lhes diz—. que por seu excesso era chamado o Desmesurado. Imediatamente Sagremor corre à tenda do rei e o acorda dizendo: —Senhor. e o trarei para a corte. fora da brigada. fora da tropa vimos um cavaleiro dormindo sobre seu cavalo. O rei lhe ordena que vá. O sangue e a neve juntas lhe rememoram a fresca cor da face de sua amiga. Perceval absorvido na contemplação das três gotas. antes do rei despertar.Quando Perceval viu pisada a neve sobre a qual tinha descansado o ganso e o sangue que aparecia ao redor. e se fez armar bem e logo.

—Muito contente estou —responde Keu— de que o agrade que eu vá. Virá em seguida. que não se dava conta de nada mais. Os que no acampamento estavam levantando o vêem. Traz o cavaleiro pelo freio e o conduz com seu arrependimento. Perceval olha para ele e o vê galopando. Traz o cavaleiro entorpecido. Repete-o. Ficando um pouco atrás para tomar ímpeto. sem demora. venha ao rei. conduzindo-o com seu abatimento. Desde muito longe lhe grita: —Vassalo. O outro se cala. O cavalo. por minha fé. zomba e diz ao rei: —Gentil senhor. não está bem que deste modo burle dos mestres. —Keu —diz o rei—. Armar-se demoradamente. Então desdobra sua insígnia. Assim que encontra um com o outro. ou o pagará muito . 4249-4340) —Pelo apóstolo São Pedro. faz correr o cavalo até ele e lhe avisa que fique em guarda. quebra a lança do Sagremor. ele indignado diz: (VS. Assegurolhe que o trarei pela força. que nunca podia abster-se de dizer sarcasmos. fuge para o acampamento com a cabeça erguida. vassalo. O outro não se move e dá a impressão de não ouvi-lo. Empurra-na com tal vigor que o derruba no meio do campo. a mais de um foi desagradável. têm que ir ao rei. que levava enrolada na lança. vê como volta Sagremor. vejam como volta Sagremor. Vá você e veremos se faz melhor que ele.—Senhor. e lhe farei dizer seu nome. mas a do Perceval nem se rompe. nem se dobra. Mas Keu. porque lhe atacará se não se acautelar. com seu pesar! Arrependo-me de gastar tantas palavras em vão ao lhes rogar isso —Gentil senhor. tanto se quiser como se não. Sobe e vai para aquele que tão absorto estava na contemplação das três gotas. abandona sua contemplação e sai ao encontro arreando.

Meu senhor Gauvain disse ao rei: (VS. senhor! Valha-me Deus! Não é sem razão. Ambos desejam fazê-lo bem e se atacam sem dissimulação. que um cavaleiro parte a outro em sua contemplação. O rei. que lhe encaixaram a clavícula. O cavaleiro estaria pensativo porque teria perdido . o certo é que saíram mal. sempre que houver médico que saiba colocar de volta a clavícula em seu lugar e ajustar o osso quebrado. Derruba-o sobre uma rocha. encontram-no desvanecido e percebem que está morto. Então todos e todas começaram a fazer um grande duelo sobre ele. partindo o osso do braço direito. entre o cotovelo e o sovaco. Keu se desvanece pela dor. qualquer que seja. que se curará. O rei sentia grande desgosto porque o mordomo estava ferido: está tão triste e causa tanta pena que lhe diz que não se deprima. Perceval. como bem sabe e como você mesmo sempre diz e julga acertadamente. 4341-4434) —Senhor. em seu coração amava-o muito. Ficando como fragmentos secos. os pajens montam. como esses dois fazem. Quando os bretões vêem que volta o cavalo sem o mordomo. Levaram-no logo à tenda do rei e reanimaram-no muito dizendo que curaria completamente e que não se desesperasse por nada. Perceval não se atrasa e lança-se em cima. colocou nisso todo seu vigor. volta a cabeça de seu cavalo e lança-o com as esporas de aço para aquele que não vem lentamente. Eu não sei se eles tiverem razão. damas e cavaleiros acodem. soldaram-lhe o osso quebrado e enfaixaram o braço. deslocando sua clavícula. Perceval volta a se apoiar na lança sobre as três gotas. sentia grande ternura por ele.caro. tal como disse o bufão. ao ouvir a ameaça. Envia-lhe um médico muito sábio e duas donzelas de sua escola. Keu dá tão forte que rompe e quebra sua lança como uma cortesã. que muito freqüentemente prognosticava: certo foi o prognóstico do bufão. e seu cavalo foge para as tendas a grande trote.

Sobe em um cavalo forte e destro. deste modo fará muitos prisioneiros. Estas palavras indignaram Keu. Arma-se de acordo aquele que tinha fama e o mérito de todas as bondades. Como o sol tinha derretido duas das gotas de sangue que estavam na neve e a terceira ia apagando-se. Caso o encontrasse já fora de seu êxtase. que disse: —Ah. asseguro-lhe que o trarei. como se amansa a um gato acariciando-o. Se observassem. sobrinho —disse o rei—. porque desarmado não irá em modo algum. meu senhor Gauvain! Trará o cavaleiro preso pela atadura apesar dos pesares. dê gozo e saúde". que estava apoiado na lança e ainda não se cansou de seu êxtase. Gauvain. rudes e altivas? Maldito seja quem acreditou. Vai direto ao cavaleiro. Ocorre-me dizer mais amavelmente. o que sabe é dar de presente com palavras muito belas e elegantes. cem vezes seja maldito meu pescoço se você não for tão néscio que não lhe possa ensinar algo." —Ah. Deus o guarde. ou sua amiga lhe tinha sido roubada. porque amansará isso. e todos dirão: "Agora combate ferozmente meu senhor Gauvain. Proferirá acaso palavras insultantes. Quer vingar em mim sua cólera e seu mau humor? Se puder. e se entristecia e condoía-se por isso. —Vá em seguida. mas leve todas suas armas. se tolerar isso e lhe outorgar a batalha. Se for possível. senhor Keu! —respondeu ele—. Quando o cavaleiro está fatigado e brigou muito. o cavaleiro já não . Não será preciso nem desembainhar espada. que fala muito cortesmente. Na verdade que este negócio poderá resolver em pele de seda.alguma coisa. na hora fará sua vontade. então é o momento oportuno para aquele que é um mestre peça um dom e vá combater. doce amigo. Nada tenho que ensinar. nem a clavícula deslocada. traga-o. que muito lhe agradava. Bem feito estará. diriam e rogariam que viesse até aqui. iriam ver sua moderação. E não voltarei com o braço quebrado. Só poderá se orgulhar de quem não faltar a língua para lhe dizer: "Senhor. porque eu não gosto nada deste salário. nem quebrar lança. embora seja eu mesmo.

estava tão absorvido em meu êxtase. quebrou-lhe o braço direito e deslocou a . sem pôr o rosto feroz lhe diz: (VS. mas. agradava-me tanto. tão bem como conheço o meu. O que eu posso lhe dizer é que sou um mensageiro do rei. —Na verdade —disse meu senhor Gauvain—. tão cara saiu a clavícula.estava tão absorto como antes. Todavia. ao que acredito. Porque neste lugar havia três gotas de sangue fresco iluminando o branco. se não lhe desgostasse. —Sim. Quando meu senhor Gauvain o ouviu se surpreendeu. se não souber. se está ali o mordomo Keu. Meu senhor Gauvain aproxima-se cavalgando devagar. senhor. Agora muito quero e desejo saber o que pensa fazer você. que por mediação minha. amável amigo —fala Perceval—. muito cortês e doce. que os que me queriam apartar disso não procuravam meu proveito. mas. e estremecendo. e você? luta que. —Já estiveram outros dois aqui —responde Perceval—. manda e roga-lhe que vá falar com ele. senhor? —Perceval. à donzela que ele pegou. na verdade está! Saiba que foi ele quem recentemente lutou com você. o saudaria se conhecesse seu coração. 4435-4520) —Senhor. porque. esta contemplação não era vil. Seria perverso e rude afastar seu coração disso. —Diga-me primeiro. tirando meu prazer e queriam levar-me como se fosse um prisioneiro. muito agradecido o conduziria até o rei. Ao contemplá-las parecia que estava vendo a fresca cor do rosto de minha formosa amiga e não queria me apartar daqui. disse: —Senhor. valha-me Deus! O rei não procura outra coisa a não ser você. —Pois então me vinguei bem. Como se chama.

e sim mais. embora pusemos nisso todo nosso poder e nosso . nem lhe desmentiu as palavras. Considerome muito mais digno a partir do momento que sou seu amigo. nem o outro sentiu nenhum golpe dele.—Senhor. porque é justo. —Gauvain? —Sim. Quantos ouvem a nova saem da lareira e correm a seu encontro. seu sobrinho. que se diga que obteve o que nós não pudemos conseguir. ouvi falar de você muito bem em muitos lugares. Desejava que entre nós dois houvesse amizade. Keu diz ao rei. senhor! Meu senhor Gauvain traz o cavaleiro. se não me equivocar. Perceval se alegrou muito e disse: —Senhor. ao que acredito. que os viram abraçar um ao outro onde estavam postos. Um e outro vão muito contentes. —Na verdade —disse meu senhor Gauvain— não me agrada menos que a você. Os pajens. É justo que receba louvor e prêmio. gentil senhor. aonde você queira. Muito perigosa e dura foi a batalha. pois. se o agradar e convier. Então se abraçam um ao outro e ficam desatando elmos. saiba certamente que meu nome de batismo é Gauvain. pois volta tão alegremente como partiu: não recebeu nenhum golpe do outro. correram à presença do rei e lhe disseram: —Senhor. Perceval respondeu: —Assim. as toucas e as viseiras. eu irei com muito prazer. seu senhor: —Já alcançou o prêmio e a honra meu senhor Gauvain. Tiram as malhas e vão prazerosamente.

Assim que Perceval a viu. —A minha fé! Não lhe ocultarei —disse Perceval—. seja justo ou não. apressando-se em ficar de pé para recebê-lo. Este é aquele de quem tanto falava. que lhe caíam muito bem. Perceval. lhe dizendo—: Gentil senhor. ao rei. Meu senhor Gauvain não quer levar à corte seu companheiro armado e sim desarmado.esforço. averiguou em seguida e toda minha corte soube da donzela e do bufão que a golpeou. conheceu com muito agrado faz exatamente quinze dias. Meu senhor Gauvain lhe disse: —Senhor. Quando estava bem. gentil sobrinho —disse o rei. disse quem era. Keu está acostumado a dizer tudo o que deseja. Advertiu detrás à donzela que sorriu quando ele a olhou. (VS. sentado diante de sua tenda. foi em seguida para elas e disse: —Deus dê gozo e honra a mais formosa. —Ah. de quantas damas existem. Você faz completamente verdadeiros seus prognósticos. o mordomo Keu. Muito lamentei quando o vi pela primeira vez e não soube compreender a reparação que Deus lhe tinha destinado. o Gaulês. trago-o aqui está ele. um ao lado do outro. que lhe apresenta e lhe oferece para que as vista. 4521-4607) Assim. conforme acredito. gentil doce amigo! Desde o momento que entrou em minha corte. Enquanto dizia estas palavras chegou a rainha. —Graças a você. não partirá dela com minha vênia. bom senhor rei: meu nome é Perceval. trago aquele que. elegantemente vestido com capa e manto muito bons. a melhor. bem-vindo seja. Entretanto. . dirigiram-se. que tinha ouvido as novas de que tinha chegado. Rogo que me diga como devo chamá-lo. este é aquele que procurava. Em sua tenda o desarma e ao acaso pega de um cofre umas roupas. Agora ninguém põe em dúvida que tenha ouvido novas verdades de suas cavalarias.

Seus olhos eram dois buracos pequenos. o gaulês. eu serei o cavaleiro que jamais lhe negará sua ajuda. Grande festa fizeram toda aquela noite. abraça-a e lhe diz: —Formosa. A FEIA DONZELA DA MULA Grande foi a hospedagem que o rei. A donzela agradeceu. quando viram chegar uma donzela montada em uma mula marrom e que levava na mão direita uma cinta. nunca houve nada tão completamente feio. Na metade do peito tinha uma concha e pelas costas parecia encurvada. com o qual naquele mesmo dia. E se forem certas as palavras com as quais o livro descreve-na. até o terceiro. seus lábios de asno ou de boi. Seus quadris e seus ombros eram muito adequados para dançar com . Nunca viram ferro tão enegrecido como seu pescoço e suas mãos eram o de menos. (VS. como cavaleiro experimentado em altas e belas empreitadas. e tinha barbas como num focinho.como testemunham todos os quais a vêem e todos os quais a viram. Logo Perceval saúda a donzela que lhe sorriu. 4608-4706) Esta donzela levava duas tranças torcidas e negras. se for necessário. seu nariz era de borracha ou de gato. comparadas com suas outras fealdades. como olhos de rato. retornaram ao Carlión. a rainha e os barões deram a Perceval. A Rainha lhe respondeu: —Você é o bem achado. o mesmo no dia seguinte. nem mesmo no inferno. Seus dentes eram de uma cor tão avermelhada que pareciam de gema de ovo.

as terras serão devastadas. Muito desventurado é o que vê a ocasião que mais lhe convém e ainda espera que venha outra melhor. gentis damas. Logo disse a donzela ao rei: —Rei. porque esta noite devo me albergar longe daqui. as donzelas. o rico rei. Você é o desventurado. Avança com sua mula até situar-se frente a todos os cavaleiros: jamais em corte de rei se viu donzela semelhante. retorcidas como duas tochas. não sairá defraudado. corteses e formosas. Todos estes males virão por sua culpa. Não sei se ouviram falar do Castelo Orgulhoso. Saúda em geral ao rei e a todos os seus barões.a corcunda detrás e as pernas. o que já não conseguirá outra vez. pois não acolheu a Fortuna quando a encontrou. mas esta noite tenho que estar ali. já me vou! Não se aborreça. Foi tão penoso abrir a boca e falar que não pôde perguntar por que brota aquela gota de sangue da ponta do ferro branco. Entrou em casa do Rei Pescador. Se tivesse perguntado. se ali as buscar. que agora adoece. Perceval! Fortuna é calva por detrás e na frente tem uma mecha. Há neste castelo quinhentos e sessenta e seis cavaleiros de mérito. parecia estar a ponto de abrir o baile. tampouco perguntou nem indagou. ou procure algum bem. porque teve ocasião e lugar de falar e te calou. se for capaz de . Da mula marrom disse o seguinte: —Ai. Dou-lhes a nova de que ninguém vai ali que não encontre luta ou batalha. já estaria completamente curado de sua ferida e possuiria sua terra em paz. viu a lança que sangra. foi sua grande oportunidade. Sabe o que ocorrerá devido o rei não possuir a terra e não ser curado de suas feridas? As damas perderão seus maridos. Saibam que todos têm por amigas consigo. Maldito seja quem te saúde e quem te deseje. Que queira fazer cavalarias. desamparadas. Quem queira alcançar o maior prêmio de todo o mundo. Grande desgraça foi calar. eu acredito saber o local e lugar da terra onde poderá conquistá-lo melhor. ficarão órfãs e morrerão muitos cavaleiros. que mestre se servia com o Graal que você viu. exceto Perceval.

Quando tivesse novas de um caminho difícil. 4707-4787) Então a donzela. Girflet. o filho de Do. iria ante o Castelo Orgulhoso. Na colina que há perto do Montescleire há uma donzela sitiada. e não retrocederei até chegar ali. Quando soubesse de um cavaleiro que vale mais que outro. (VS. Disse que em toda sua vida não dormiria duas noites seguidas no mesmo albergue. Perceval falou de modo distinto. ganharia a melhor fama e. —E eu subirei ao Monte Doloroso —disse Kahedín—. até saber a quem serve o Graal. Meu senhor Gauvain ficou de pé em um salto. calou-se e não nada mais. que já havia dito tudo o que queria. por nenhum trabalho deixará de fazê-lo. poderia rodear com todo direito a Espada do Estranho Cinturão. Por sua parte. não deixaria de passar por ele. se Deus lhe desse tão boa ventura. disse que.empreendê-lo. PROVOCAÇÃO DE GUINGANBRESIL . se Deus lhe ajudasse. Disse que iria e faria tudo que pudesse para socorrer à donzela. Até encontrar a lança que sangra e lhe diga a verdade comprovada do porquê sangra. não se absteria de lutar com ele. Levantaram-se perto de cinqüenta cavaleiros. embora seja em uma daninha terra. comprometendo-se e juramentado a dar toda sorte de maravilhas e aventuras de que tenham notícia. grande honra conquistaria o que pudesse levantar o cerco e liberar à donzela. ou que outros dois.

se eu machucasse algum cavaleiro e soubesse. crítica. você matou a meu senhor. acuso-o de traição. e ali veremos quem imporá seu direito. ninguém me defenderá a não ser eu mesmo. Todavia. sou eu quem deve defender-se porque só a mim acusa. Eu lhe defenderei desta recriminação. é mais formoso que Absalón. mas não saudou Gauvain. Saibam bem todos estes barões que não menti nem em uma só palavra. e o fez sem havê-lo desafiado. recriminação e censura. Como o que disse é um ultraje.Enquanto preparavam-se e armavam-se. 4788-4866) E ele diz que lhe provará a vergonhosa e vilã traição ao cabo da quarentena. ante o rei do Escavalón. ergueu-se. Agrevain o Orgulhoso. a seu julgamento e parecer. no qual um pedaço azul ocupava a terceira parte perfeitamente medida. . vergonha que este cavaleiro lhe acusa. gentil senhor! Não desonre sua linhagem. que tanto seus amigos como meus encontrariam-no bem. ofereço minha prenda. Guinganbresil reconheceu ao rei e o saudou como devia. ao qual acusou de traição dizendo: —Gauvain. —E eu te juro —diz Gauvain— que imediatamente te seguirei. (VS. censura. entra Guinganbresil pela porta da sala. reprovação. quem. prometo-lhe! Ele contestou: —Irmão. com um escudo de ouro. Por isso é digno de vergonha. com muito prazer pediria paz e proporia tal reparação. Ao ouvir isto meu senhor Gauvain ficou em pé de um pulo muito deslocado e seu irmão. reteve-o e lhe disse: —Por Deus. eu defendo-me dele. aqui ou onde o agrade.

um cavalo espanhol e um escudo ao pescoço: —Escudeiro. Quem tinha bom cavalo. é Meliant de Liz. levando guarnição. boa armadura. um cavaleiro nobre e valente. meu senhor se chama Traé d'Anet. e não vale menos que ele. Aonde vai? Não me oculte isso. —Deus! —exclamou então meu senhor Gauvain—. —É você dele? —Não. que conheço bem Traé d'Anet. Antes de sair da corte se fez por ele grande duelo: houve peitos golpeados. Não houve dama. e meu desejo seria que fossem ao castelo para lutar contra os de fora. ou boa espada. GAUVAIN E A DONZELA DAS MANGAS PEQUENAS Primeiro viu passar de um lado uma comitiva de cavaleiros. cabelos arrancados e muitas caras arranhadas. Guinganbresil volta e meu senhor Gauvain prepara-se para segui-lo sem demora. diga-me quem são estes que passam por aqui.Nesse instante. por mais judiciosa que fosse. —A minha fé —disse meu senhor Gauvain—. que ia sozinho atrás. Ouvir-me-ão relatar muito longamente as aventuras que encontrou. e meu senhor Gauvain se vai. não foi Meliant de Liz criado na . Levou consigo sete escudeiros. vai a um torneio que Meliant de Liz fixou contra Tiebaut de Tintaguel. porém não lhe agradou levar nada alheio. Grande pranto derramam muitas e muitos. E lhe respondeu: —Senhor. sete cavalos e dois escudos. que não manifestasse grande dor por ele. —Senhor. apressou-se a oferecer-lhe. Perguntou a um escudeiro. boa lança.

que não ousaria negar nada que se dignasse lhes ordenar. Então ele partiu. jovens e anciões. que desejava grandes batalhas. sem deixar de dirigir-se ao Tintaguel. terá grande necessidade de você. que era menino. fez-se armar cavaleiro em seguida e insistiu em sua petição. que já não necessitou . tinham muito medo que os queria destruir completamente. 4867-4955) E lhe respondeu: —Vá. não são tão doces e saborosas como as que compram. pois. seu pai amou muito ao Tiebaut como amigo dele. As portas foram muradas com pedras duras e morteiro. Tiebaut não encontrou em seu conselho privado aprovação para tornear com seu senhor. ela disse que não lhe concederia seu amor enquanto fosse escudeiro. porque amor tem tão grande senhorio sobre aqueles que estão sob seu domínio. a minha fé. e tanto confiou nele. Fizeram murar bem o castelo e revogar todas suas entradas." E. que em seu leito de morte encomendou a seu filho. Tiebaut reunia todos os seus parentes e primos. Chamou seus vizinhos. poderosos e humildes. (VS. se o quer ajudar. "Isso não será de modo algum —disse a donzela—. Ele o criou e cuidou o mais carinhosamente possível. e deixa estar tudo isto. E ele. Meu senhor Gauvain seguiu seu caminho. até que. o torneio foi fixado. diante de mim. Se quer ter meu amor. pois. irmão! Segue a seu senhor. pois não podia passar por outro local. porque quero me assegurar bem de que meu amor estará seguro se o ponho em você. é o melhor que pode fazer. todos atenderam. porque as coisas que se adquirem de balde. faça tantas armas e lute tanto que meu amor lhe custe caro. tal como ela propôs. faça um acordo para um torneio com meu Pai.casa de Tiebaut? —Sim. assim Deus me salve. Muito indolente seria você se não entrasse no recinto do castelo. até que foi capaz de pedir e requerer o amor de uma filha dele. senhor.

De minha parte aconselharia que fôssemos decididamente ao torneio. meteu-se por uma plantação cercada com estacas que havia ao pé da torre. 4956-5047) Seguindo este conselho. antes de que tivessem entrado no prado cercado. desmontou-se ao lado de um carvalho em que pendurou seus escudos. Isto . por aqui tinha que passar ao voltar. porque se suspendeu o torneio. qualquer que fosse o resultado. Quando viu que a abertura estava fechada. Viam-no a gente do castelo. até sete léguas largas. Para esta porta dirigia-se meu senhor Gauvain com todo seu impedimento. nosso será o ganho e deles a perda e a quebra.outro porteiro. cuja porta não era precisamente de vidro. e vêem. Dizem que se colocaram acima para ver tudo. Não havia outra via. A meu ver são companheiros do rei Artur. pois têm bons cavaleiros. acreditavam em tudo que dizia. Tiebaut permitiu a todos que se armassem e que saíssem armados os que ali fossem. Quando os que chegavam lhe foram mostrados de longe. Para que durasse. Poderoso por suas terras e por sua linhagem. Os escudeiros correm às armas. era de cobre. foi falar com Tiebaut e o aconselhou: —Senhor. As damas e as donzelas sentam-se nos lugares mais altos para contemplar o torneio. consideram-se nascidas em boa hora porque poderão ver estes dois cavaleiros que se armarão diante delas. bons soldados e bons arqueiros que lhes matarão os cavalos. fechavam-na com uma barra e havia nela o ferro que cabe em um carro. Só deixaram limpa uma pequena abertura. aos cavalos e selam-os. que vi cavalgando dois cavaleiros vindo aqui. assim Deus me salve. e até um só pode vencer em um torneio. Se seu orgulho os trouxer até aqui. debaixo delas. (VS. Havia no castelo um velho lavrador. nem caminho. Dois mestres têm muita categoria. No início parecia que havia dois cavaleiros com dois escudos pendurados. muito temido e muito sábio. o impedimento de meu senhor Gauvain. a maioria da qual tinha grande pena. Estou seguro de que deverão tornear para esta porta. Agora alegram-se os cavaleiros. na esplanada.

o que lhe pesou muito. não havia ninguém tão arrumado como Meliant de Liz. vejam que maravilha! Nunca viram. que se levantou para pegá-la. subiu à parte alta da torre. dirigir lança e escudo. quem luta com Meliant de Liz. leve dois escudos. e o faz melhor que quantos há em uma ou em outra parte. comprimidas. ao julgamento de sua amiga. bem tem que montar a cavalo. Naquele momento. mas as damas jogaram-na para trás. que vestia seus braços tão graciosamente que era chamada a Donzela das Mangas Pequenas. pois ante sua lança não há quem resista sem cair pelo duro chão. a qual solicitou o torneio. nem ouviram falar de nada parecido. Caso quebre a lança. Começa o torneio. deram-se muitos golpes com as espadas e houve muitos cavaleiros derrubados. .supunham umas. Há maior distração e deleite que contemplar a tão formoso cavaleiro? Quem tão bem sabe conduzir-se. que estava sentada a seu lado. Enquanto falavam deste modo e os cavaleiros saíam. diante do castelo reúnem-se ao torneio. meu senhor! Este cavaleiro leva tanta guarnição e tantos corcéis que haveria suficiente para dois. mas havia outras que diziam: —Deus. pois as levava muito justas. atira grandes golpes com a espada. muito caro lhe custa. Parece-lhes assombroso que se aquele cavaleiro for sozinho. O que fará com dois escudos? Nunca foi visto cavaleiro que levasse dois escudos juntos. E aquela se encolerizou tanto. Com a maior estava a pequena. e não vai com nenhum companheiro. que dizia às damas ao seu redor: —Senhoras. mas lhes asseguro que nunca vi nenhum cavaleiro que eu gostasse tanto como Meliant de Liz. detiveram-na e impediram-na que lhe desse. E sua irmã. não saberia lhes mentir. disse-lhe que havia outro mais galhardo. Sua amiga sente tanto prazer que não pode calarse. Junto com as duas filhas do Tiebaut subiram todas as damas e as donzelas. a filha maior de Tiebaut. no qual se quebrou muita lança. Saibam que. e diz: —Senhoras. apertadas.

interpela-a: —Você. mais parece um torneiro que um . como acesa e fogosa. —Não. A única coisa que quer é distribuir dinheiro que leva entre os pobres escudeiros que há por aqui. Pela fé que devo ao Espírito Santo. Outra acrescenta depois: —É um mercador. Não parece que intervenha no torneio. —Têm muito má língua. que jamais viram seus olhos. Pouco depois voltam a falar entre elas de meu senhor Gauvain: —Por Deus! —diz uma das donzelas—. 5048-5126) E lhe pega de tal modo que lhe marca todos os dedos no rosto. O cavaleiro que está debaixo daquela árvore. Naquele momento aquela. que espera. e lhes guarde de voltá-lo para fazer. menina. E a pequena disse: —Eu vejo outro que talvez é mais galhardo e melhor. na verdade —diz a pequena—. Não creiam que vos engano: nestes sacos e nestas malas há moeda e baixela. As damas que estão a seu lado a repreendem muito e tiram-na. Todos estes cavalos os traz para vendê-los. é o mais formoso e o que melhor luta de todos os que há no torneio. por que não se arma? Outra mais inoportuna lhes diz: —Jurou a paz. é um banqueiro —diz a quarta—. fostes tão atrevida que por sua má ventura ousastes censurar a criatura que eu tenha gabado? Tenha esta bofetada. (VS. Imaginem um mercador com uma lança tão grande como a que leva? Têm-me morta com as diabruras que dizem.Vejam aqui ao mais valente moço. e se equivocam.

É cavaleiro. houve torneio diante da porta. vê que a briga cada vez se faz mais forte e melhora. escudeiro. desta não passa sem que seja detento como ladrão. que é um louco desatado. Vejo muito perto de você. que lhe acusam de traição e que deve se defender. surpreendido em um pendurem uma corda ao pescoço. Meu senhor Gauvain ouve claramente os escárnios que as damas dizem dele. que não se moveria embora lhe cortassem os bigodes. Todo o dia. Uma das damas lhe chama néscio e tolo. e tem razão. não participara do torneio. 5127-5229) roubo vil e néscio. (VS. dizendo: —Deus me valha. Quem algo ganhou o leva onde melhor aprouver para ter mais a salvo. Meliant de Liz pede lanças grossas para atacar melhor. bem o parece. pensa. Caso não se apresentasse na batalha. Sente grande vergonha e grande irritação. preso. Não menospreze este troféu. Assim se equipa de escudeiro? Quem tanto se rebaixa. Néscio é quem não pensa em seu proveito enquanto pode consegui-lo. ou um banqueiro. Vai pela refrega roubando ferros de lança. É tolo! Creio. Temendo a possibilidade de ser ferido ou preso. até o entardecer. formosa amiga: se o parece é que não o é. proceda corretamente dando procuração de todos estes cavalos e do resto da fazenda. Mas.mercador. lascas e pedaços. embora tivesse muita vontade. Vejam o cavaleiro mais bondoso que jamais existiu. que ninguém lhe impedirá disso. As damas vêem um escudeiro gordo e calvo que agarrava uma parte de lança e levava uma renda ao pescoço. pouco se aprecia a si mesmo. Todas as damas lhe atalham: —Têm razão. rendas. finge sê-lo porque assim imagina defraudar os impostos e os pedágios. neste campo debaixo de nós. como jurou. desonraria a ele primeiro e depois a toda sua linhagem. pois. e . uma fortuna sem custódia nem defesa.

entrou atrás da comitiva e encontrou diante da porta o nobre lavrador que tinha aconselhado a seu senhor que começasse o torneio. Ao separar-se de noite. Se seguisse mais adiante. e temia cair prisioneiro.Imediatamente aquele entrou no campo. não era capaz de atrever-se a insistir em coisa que o zangasse. —Senhor —lhe respondeu—. ficarei muito agradecido. pois. depois de haver-se comprometido a reunir-se no dia seguinte no campo para tornear. Com graça e amabilidade lhe pediu que o albergasse. E lhe deu cumprida razão: que lhe acusava de traição. deu num dos cavalos com a ponta da lança e disse: —Vassalo. segue teu caminho e te ocupe de ti mesmo. rogo: fique aqui. neste castelo têm albergue preparado para descansar se o agradar. e a ti o que te importa? Talvez chegarás a saber o motivo da abstenção. o que o impediria de justificar-se da injúria. os de dentro ganharam ganância. senão fosse na hora em que a . Parecia-lhe que com sua demora poderia desonrar a si mesmo e a todos seus amigos. por isso. Houve muitos cavaleiros prisioneiros e muitos cavalos mortos. falando disso e daquilo. —Gentil senhor — disse Gauvain—. hoje não encontraria bom albergue. sem fazer absolutamente nada e sem simular escudo. coisas piores ouvi dizer. se os de fora levaram o mérito. Também meu senhor Gauvain. entraram no castelo os que dali tinham saído. Sai daqui. agora não é digno explicar. O lavrador o leva a sua casa. nem quebrar lança? —Diga-me —contesta—. Afastou-se dele em seguida. acaso não está bom e são que lhe aconteceu todo o dia aqui encostado. ou ser ferido ou maltratado. por minha cabeça. Suspendeu-se o torneio. perguntou a que se devia que durante todo o dia não tivesse intervindo com suas armas no torneio.

havia tornado a montar a cavalo e. O lavrador o elogiou. conduz cavalos para parecer cavaleiro. mas sim. Dêem o prêmio que merece. na mesma hora sobe e caminha à casa de meu senhor Gauvain vivia. e diz: —Senhor. entretanto. o filho da Berta. na qual os dois desmontam. . Ele respondeu que ia recrear-se na sua casa. porque queria ir em pessoa. pois desta sorte se finge isento quando viaja com suas mercadorias. (VS. encontraram-no no meio da rua. e assim. que tinha duas filhas muito formosas. defraudar nos impostos. Foi diretamente ao albergue de meu senhor Gauvain. saiu por uma porta traseira. Quando a filha pequena viu que se ia em tal disposição. sabe o ódio da sua irmã. junto com seu filho Hermán. Disse que lhe parecia muito bem. Tomaram-na pelas mãos e receberam-na com grande prazer beijando-lhe os olhos e a boca. na casa de Garín. pois se por isso se inibiu do torneio. Erraria se limitasse a ordenar que vá prendê-lo. que não era pobre nem carente. Quando viram estas donzelas que sua pequena senhora se aproximava. sentiram-se obrigadas a manifestar alegria. escudos. O senhor. era muito razoável. O lavrador saudou-o e perguntou onde ia. Leva consigo lanças. pois não se atreverá a defendê-lo quem o entrou nesta vila. porque queriam falar com seu senhor. porque vive de malas super cheias. E o acompanha até sua casa. o que fizeram sem dissimulação. como de costume. 5230-5317) Assim esforçava-se em que lhe fizesse humilhação. está na casa de Garín. A gente do castelo dedica-se a culpá-lo duramente e sustenta uma grande discussão para decidir como seu senhor poderia prendê-lo. sem preocupar-se de que a visse. dirigia-se a corte. bem sei que hoje nada perdeu. o filho da Berta. A filha maior insiste nisso quanto pode. Por aqui passou recentemente e vi que ele o levava para lá.batalha fora acertada. que o albergou. Garín. creio que ganhou muito mais do que imagina e lhe direi porque.

imagino. até chegar à casa onde estava meu senhor Gauvain. absteve-se de tornear. É um mercador que deve vender cavalos e se faz passar por cavaleiro. sem dúvida alguma —disse o senhor—. sem negar. e sua casa e seu hóspede só receberão de mim honra. nem me desagrada: você poderá ver o mais galhardo cavaleiro da terra. devo me apresentar ante o rei de Escavalón. porque isso lhe produziu rubro e vergonha. não é esta precisamente minha intenção. O senhor daquele país lhe perguntou por que durante todo o dia. porque me tenha aconselhado isso e tenha sido admoestado. Aproximam-se um ao outro e vão juntos em seguida. mas aqui mesmo lhe devolvo sua comemoração. —Vá! —disse Garín—. mas prendê-lo. em meu nome e de toda minha linhagem. não precisamente. (VS. viu-o. a minha fé. e vou pelo caminho mais reto. conta-lhe em seguida que um cavaleiro o acusava de traição e que ia a uma corte real defender-se. —Justo motivo teve. De muito vil assunto me falam. assim Deus me valha —diz o senhor—. que tinha muito boa criação. Eu sou seu vassalo e você meu senhor. 5318-5400) . e será para mim uma grande honra se vier a meu hóspede.—Por minha fé —disse Garín—. —Por minha fé —atalha o senhor—. antes que tolerar que em minha casa faça a este alguma inconveniência. —Muito obrigado —diz o lavrador—. levantou-se e disse: —Bem vindo seja. Mas onde será esta batalha? —Senhor —responde—. Os dois saudaram-no e sentaram-se ao seu lado. Ele. já que tinha vindo ao torneio. Quando este. Agora mesmo o desafio. que isto não me molesta. —Nunca pretendi fazê-la.

—Eu lhe darei uma escolta que lhe conduzirá —disse o senhor—. que me pegou. todavia ao fazê-lo vê que pela outra parte vem sua filha pequena. esta é. É muito menina. por amor a mim. dar-lhe-ei mantimentos e cavalos para levar. —E a mim. Como precisa passar por uma terra muito pobre. nem amo. a qual imediatamente abraçou ao Gauvain pelas pernas e dizendo: —Gentil senhor. e como? —Senhor. mas não faça caso de suas palavras. queixo-me de minha irmã. para ouvir o que sua filha pedia lhe disse: —Filha. uma boba criatura amalucada. porque não sabia a quem se referia. o que me diz respeito? —diz ele—. que já se despediu. sua filha? —Sim —responde o senhor—. Faça-me justiça. Meu senhor Gauvain ficou calado. Também bom albergue e tudo o que necessite. a qual não quero. quem vos manda vir reclamar ante os cavaleiros? E Gauvain perguntou: —Amável senhor. mas eu seria muito grosseiro —diz meu senhor Gauvain— se não escutasse o que quer. Passou a mão pela cabeça da donzela ela sai dele e diz: —Com você falo. se o agradar. formosa. pois. gentil senhor. só é preciso que amanhã. Que justiça posso lhe fazer? O senhor. pois. —Sim. vá onde vá. que venho quedar-me em seus pés.minha doce e boa menina. se os pode encontrar à venda. Diga-me —acrescenta—. que justiça poderia lhe fazer de sua irmã. terá grande abundância de mantimentos. por minha irmã. ele não aceita o oferecimento. me escute. porque por sua causa hoje. Meu senhor Gauvain responde que não tem necessidade de aceitá-lo. Nisso o senhor levanta para ir-se. fez-me uma grande afronta. agrade-me entrando armado no .

o que me afetaria muito. (VS. responde-lhe: . mas. —Não faça caso do que diz —interrompe o senhor—. gentil senhor cavaleiro— disse ela. —Diga-me. já que o deseja. era-me muito desagradável ouvir minha irmã que assegurava que Meliant de Liz era o melhor e o mais formoso de todos. Ela. à grande vento pouca chuva. que tinha visto abaixo no prado este cavaleiro. amiga querida. em meio a briga. Pergunta-lhe porque surgiu tal questão. por ser de grande cortesia. há dito umas criancices tão graciosas. Então partiram sem dizer nada mais. assim Deus me ajude. Meu senhor Gauvain lhe disse: —Senhor. que hoje sustentou uma grande discussão zangando todas as damas. Por isso minha irmã me chamou néscia menina e me surrou. em troca de que no dia de amanhã meu cavaleiro. Eu. Cessariam então os gritos de minha senhora irmã. senhor. não pude evitar contradizê-la afirmando que via um mais formoso. Deixaria-me cortar as duas tranças até a nuca. que era muito inocente. seja uma touca. derrubasse Meliant de Liz. —Nunca. e maldito seja o que lhe divertiu. Conta-lhe a verdade de cabo a rabo. seja uma manga. O senhor coloca sua filha no pescoço do cavalo. que estava tão contente que se inclinou a seus pés. se alguma outra sua vez viu necessidade de requerer a algum cavaleiro. e não escute suas tolices. que não o negarei. 5401-5493) —Formosa filha — diz o senhor—. recomendo-lhe e permito-lhe. —Agradeço-lhe muito. como qualquer donzela tão pequena. dizendo: —Senhor. que lhe envie algum objeto pela amizade. amanhã serei por um momento seu cavaleiro.torneio.

levante amanhã bem cedo e vá ao cavaleiro antes de sair. e que a leve quando for ao torneio. fizeram-na vestir-se e levantar-se. porque todos se levantaram antes para ir ao monastério ouvir uma missa cantada para eles. chamou sua filha e lhe disse: —Filha. Talvez não a apreciasse em nada. mas. despertará com muito prazer e se lavará e se comporá. que ela vale mais que você. um tecido de seda vermelha. sentiu grande sanha em seu coração e lhe disse: —Senhor. . Agora cale-se. assim que veja amanhecer a alvorada clara. A donzela se levantou cedo. o que muito me pesa. Completamente só foi ao albergue de meu senhor Gauvain. pois assim que viram pela madrugada quebrar a alvorada.—Muito grata o farei. Não obrou com cortesia. Este tirou de um cofre. já pensei nisso. a Donzela das Mangas Pequenas? Já sabe muitas manhas e muitas argúcias. Pegou e puxou suas tranças. Assim falando. de onde vem minha irmã. até que chegam ante o palácio. Quando a outra o viu chegar levando diante à pequena. que estou muito satisfeito. Mas onde a levastes? —E a você o que importa? —responde ele—. Grande prazer proporciona que a abrace e a agarre. —Filha —disse o senhor — . A donzela aguardou na casa do lavrador até que rezaram longamente e ouviram tudo o que deviam ouvir. e se aviva muito breve. fez uma manga muito longa e folgada. cortou. Cumpriram-no fielmente. Ela responde a seu pai que. Deveria calar-se. minhas mangas são tão pequenas que não ousaria lhe enviar uma. Dê-lhe por amor esta manga nova. Ela muito agraciada rogou à todos os seus acompanhantes que não a deixassem dormir muito pela manhã e que se apressassem a despertá-la assim que vissem amanhecer. se realmente queriam seu amor. se você disser. Ficou muito turvada pela rixa e reprimenda de seu pai. leva-a entre seus braços. Depois destas palavras o pai se foi. Não chegou tão cedo.

menina! Se voltar a ouvir dizer uma só palavra. Mas. O pajem leva o cavalo com sua sela à donzela. Assim. entrega-o a um pajem.Quando retornaram do monastério. com toda a intenção. que o deixa em terra de barriga para cima. por meu amor leve esta manga que lhe trago. porque quer que seja dela. 5494-5583) —De bom grado a levarei e muito agradeço. deixando seus companheiros atrasados duas trampadas e meia. Meu senhor Gauvain ataca-o. vai mortificando sua irmã. não pode calar a língua. ao qual tanto ponderou. darei tantas bofetadas que os pés não lhe agüentarão direita. correu para meu senhor Gauvain e lhe disse: —Deus o salve e lhe dê honra no dia de hoje. Ela cansada da gozação diz: —Cale-se. amiga —respondeu meu senhor Gauvain. Causa-lhe tal quebra. Tende a mão para seu cavalo. quem vale mais. Por outro lado as donzelas e todas as damas do castelo. Só o bom conhecedor sabe elogiar justamente. e diz: —Senhoras. Agora confirma-se o que disse ontem. subiram às muralhas e viram a chegada das comitivas de cavaleiros fortes e bravos. Diz ainda que envia o primeiro troféu que ganhou naquele dia. . assim Deus me salve. Agora se vê bem claro. Adiantando-se a todos Meliant de Liz galopa para o campo de batalha. agarra-o por freio. devem ver o qual possui a fama e o senhorio da cavalaria. Diz para entregar àquela pela qual torneia. Quando a amiga vai a seu amigo. para aquele que não teme e que faz pedaços de sua lança. Reuniram-se fora da vila. Meu senhor Gauvain precipita-se tanto quanto pode correr seu cavalo. que de uma janela da torre tinha visto cair Meliant de Liz. (VS. e diz: —Irmã. Não demorou muito para começar armarem-se os cavaleiros. agora pode ver pelo chão Meliant de Liz.

Então viram o escudeiro vindo. não haverá . Em sua volta acompanhava meu senhor Gauvain. uma grande comitiva de cavaleiros. —Donzela.—Não tente Deus. e as duas filhas deste tiveram o terceiro e o quarto. o ofereceu. minha cabeça estará branca antes de que me desentenda de lhe servir. que ganhou com seu esforço. que assim que o viu lhe sujeitou o estribo. com o segundo correspondeu aos cuidados da mulher do lavrador. 5584-5677) Finaliza o torneio. por mais destro que seja. que se lhe aponta com a lança. compreendendo bem o que queria dizer. quando encontrou à donzela sentada em uma janela. gentil senhor. Embora arrebentado. saudou-o e lhe disse: —Quinhentas mil vezes obrigada. respondeu-lhe muito afável: . pois não há cavaleiro. a quem lhe agradou muito. (VS. e me parece que ainda não tem forças para levantar-se. O certo é que eu o vi bem derrubado. e você tão bem como eu. devo-lhe acrescentar que não há aqui dama que não o veja espernear jogado no chão. que levava o cavalo preso com a mão direita. o qual bem parecia ser o amo e senhor do torneio. em qualquer lugar que me ache. mas as damas que estavam ao redor não deixaram que a pegasse. enchendo a vila. Ainda não era meio-dia quando saiu do campo de batalha. Todos quantos o seguiam perguntavam e queriam saber quem era e de que país. Meu senhor Gauvain retorna pela porta levando a primazia de um campo e de outro. o qual. O pajem foi transmitir as graças a seu senhor. porque não é justo que me pegue por haver dito a verdade. Ele. Por mais afastado que esteja de você. Frente à porta de seu albergue encontra à donzela. A outra. Nunca tinha tido tanta ânsia de ganhar corcéis. não lhe solte os estribos. e fez guardar o cavalo. ofereceu naquele dia: o primeiro o enviou à donzela pequena. Deu-lhe mais de sessenta obrigado. irmã —diz a donzela pequena—. não podia suportá-lo. Quatro. Tinha lhe dado um soco.

Meu senhor Gauvain lhe perguntou com que intenção o tinha feito. Todavia. Quando o senhor ouviu que era meu senhor Gauvain. mas nunca o disse se antes não me pedia. jamais ocultei meu nome quando perguntado. se souber que necessita. acudir assim que receba a primeira mensagem. todos o recomendaram a Deus. que não era néscia. senhor! Admita que esta noite lhe obsequie. desde que parta daqui jamais lhe esquecerei. GAUVAIN EM ESCAVALÓN . formosa amiga. e lhe respondeu que lhe tinha beijado o pé com o propósito de que se lembrasse dela em qualquer lugar que estivesse.obstáculo que me impeça. A donzela pequena. Meu senhor Gauvain declinou o convite e lhe disse: —Senhor. ajoelhou aos seus pés para beijá-los recomendando-o a Deus. depois de despedir-se de sua hospedeira. diga-lhe seu nome. e lhe posso jurar que jamais vi cavaleiro a quem queria honrar tanto. Então partiu. —Muito obrigada —disse a donzela. de toda a gente. se o tiver a bem. nem má. mas antes lhe pede e lhe roga que. meu senhor Gauvain não aceitou o que tanto lhe rogava. que pôs todo seu empenho em que meu senhor Gauvain ficasse aquela noite e se albergasse em sua casa. que ontem não o fiz. E lhe disse: —Não duvide! Valha-me Deus. seu coração se encheu de alegria e lhe disse: —Fique. Conversavam quando chegou à praça o pai. meu nome é Gauvain.

pois nota que seu cavalo se debilita com seu peso. logo vinham caçadores com arcos e flechas. uns moços arregaçados que levavam cães. e depois cavaleiros. Adiante. detenho-lhes. Foram seguindo seu caminho até que viram um grupo de gente que saía de um castelo e que avançava por um meio-fio. a não ser que a pata tivesse torcida. que se dedicasse ao melhor de seus cavalos. Gauvain fica perseguindo os veados. iam a pé. onde não lhe faltou nada. para não se entreter e sem demora lhe entregar o cavalo e a lança. Deu tantas voltas e os enganou com tantos ardis. o veado salta como um cervo e lhe escapa. dando-lhe a mão e lhe disse: —Senhor. Este foi o único que saudou meu senhor Gauvain. que apanhou um branco em um sarçal atingindo-lhe no pescoço com a lança. Pediu para preparar uma lança muito resistente e forte. Segue suas ordens. ia cavalgando por seu caminho e deparou-se com uns veados que pastavam nos confins de uma floresta. e isso lhe preocupa muito. e diz: (VS. não anda se não seguir muito devagar até que encontremos um ferrador que possa voltar a ferrá-lo. Detrás destes cavaleiros iam dois em dois corcéis. terá que ferrá-lo. Meu senhor Gauvain volta a empreender o caminho atrás de seu impedimento.Meu senhor Gauvain dormiu aquela noite em uma abadia. o mais gentil e galhardo de todos. muito de amanhã. que se fizesse cargo de seu cavalo. 5678-5780) —Senhor. Chamou em seguida Yonet e lhe ordenou que o desmontasse. que levava com a mão direita. que coxeava excessivamente. um deles era jovem. Mas. Vão ali de onde eu venho e entrem em minha mansão. Disse ao Yonet que se detivera. vê que lhe falta uma ferradura. que visse o que acontecia com seu cavalo. Já . levanta-lhe uma pata. Ao dia seguinte. Não sabe porque coxeia. Ele o persegue e está a ponto de alcançá-lo. e o tivesse apressado se seu cavalo não tivesse perdido a ferradura de uma de suas patas dianteiras.

(VS. e ele. e toda classe de mercadorias. Depois dela recebê-lo. pimenta. trate-o como me trataria. até que retornemos. de tanta riqueza estava cheia: cera. outros os penteiam e outros os tingem. O cavaleiro empreende a marcha. vê os muros e a torre. tigelas. Outros fundem prata e ouro. sejam todos agradáveis. porque eu voltarei para lhe fazer companhia o mais rápido que possa. Senhor. ordenou-lhe: —Gentil companheiro. Contempla a situação do castelo. se não lhes incomodar. 5781-5874) Olhando tudo. um selas. por sua vez. não crê ter de precaver-se. Dir-se-ia e acreditar-se-ia que a vila estava sempre em feiras. dizendo: . vá com estes senhores e os leve à minha irmã. que sou seu irmão. Dirigindo-se ao aludido. com toda a amabilidade. outros os tecem. que estava edificado em um braço de mar. Olha a vila toda. sigam-nos rapidamente. outro armaduras. uns lustram espadas. povoada de gente muito agradável. peles de arminho e cinzas. em nome do amor e da grande fé que deve existir entre ela e eu. chegaram à torre. anéis. Conduziu-o à câmara da donzela.é hora e ocasião de albergarem-se. todavia. O cavaleiro entrou na torre. grão. Dê-lhe distração. jóias incrustadas em esmaltes. outro esporas. as praças e as ruas cheias de bons menestréis entregues a diversos ofícios. Tenho uma irmã muito cortês que lhes tratará com muita atenção. faça-lhe companhia. só com meu senhor Gauvain dando-lhe a mão. armação da sela de montar. copos. que ame e queira a este cavaleiro como a mim. detendo-se em cada posto. cinturões e broches. Conduz a meu senhor Gauvain ali onde todos o odeiam de morte. outro escudos. não o conhecem porque nunca o viram. este que vêem meu lado lhes conduzirá. outros batem tecidos. da qual saíram pajens que recolheram todos os cavalos e toda a bagagem. tão forte que nada pode temer. Após apresentá-los. São tão diversos os ofícios que um faz cascos. os bancos de câmbio de ouro e de prata cobertos de moedas. diga que lhe encarrego. para fazerem obras ricas e preciosas: taças.

bem ao contrário. que eu vou. com todo o coração. como se você fosse sua irmã e ele seu irmão. maldita seja! Deus a aniquile e a desoriente porque deixa ser acariciada pelo homem que mais deveria odiar em todo mundo. venha sentar-se aqui ao meu lado. era o que devia fazer. Gentil senhor —acrescenta a donzela—. prazerosamente. Meu senhor Gauvain fica. porque com suas mãos e não com a boca. Por meu irmão que me pede isso. Encontrou-os beijando-se e desfrutando muito. Procure não se esquivar de fazer toda sua vontade. o que muito lhes incomodou.—Formosa amiga. beija-o e abraça-o. mas teria feito melhor se o tivesse destroçado com as mãos. um lavrador que reconheceu meu senhor Gauvain. Assim que viu aquele prazer não pôde manter a boca calada e gritou com grande força: —Mulher. far-lhe-ei a melhor companhia. quem me proporciona tão gentil companheiro não me odeia. Cuide dele. mulher desafortunada e néscia. seu irmão envia saúde recomendando que este senhor seja honrado e servido. Ambos falavam de amor. Porque o vejo valente e gentil. arranca o coração das vísceras. e ela não o rejeita. De modo algum se queixa de estar sozinho com a donzela. Faz o que é bem próprio que faça. Nada tem de mulher a que odeia o mal e ama o bem. diz: —Bendito seja quem me enviou tal companhia como esta. franca e amável. ao contrário o aceita muito de bom grado. De repente entrou ali. Ela. Equivoca-se quem continuar chamando-a mulher. só perderiam o tempo. Era tão bem educada que não podia imaginar alguém vigiando ao ficar só com ele. porque devo seguir seu irmão no bosque. Em seguida o cavaleiro se volta. mas. Se seus beijos lhe chegarem ao coração. deveria lhe arrancar o coração das vísceras. pois não permanece mais com eles. seja liberal. que era muito cortês e muito formosa. não o façam a contra gosto. Meu senhor Gauvain solicita amores. roga-lhe e lhe diz que toda sua vida será seu cavaleiro. porque perde o nome quando só ama o . porque se falassem de outra coisa.

Todavia. por mim. que talha ao ferro como se fora madeira. a partir de agora estava disposto a defender a porta e a entrada da torre. Com grande celeridade chegou à reunião. e logo haverá mais de dez mil aglomerados diante desta torre.bem. Quando retornou em si disse: (VS. Um mestre só poderia defender esta abóbada contra toda uma hoste. Quando a mulher consegue o que deseja. Quando estava revestido com a armadura. ao que acredito. que tinha saído dali. Atirou as peças pelo chão. 5875-5958) —Ah. mas como este. fez um com um tabuleiro de xadrez. porque estava protegido com Excalibur. a melhor espada que jamais existiu. por desgraça. encontrou o prefeito. mortos estamos! Muito injustamente morrerei hoje por você. e lhe disse: —Amiga. não necessito que me busque outro escudo. Bem vejo que você é mulher. Ao acabar estas palavras sai. O lavrador. dez vezes maiores e do mais duro osso que qualquer outro xadrez. Ela caiu no pavimento e esteve longo tempo desvanecida. que eram de marfim. porque estavam gordos e roliços. e você. rapidamente. antes de que meu senhor Gauvain lhe pudesse dizer nada. aqui dentro há muitas armas. dizendo: . não pôde conseguir escudo. Suponho que virá aqui a plebe desta vila. Viesse quem fosse. os regentes e grande multidão de burgueses sentados juntos com os vizinhos. tanto ela como meu senhor Gauvain sentiram-se mais seguros. pouco lhe importa todo o resto. Meu senhor Gauvain levanta-a muito amargurado e doído pelo temor que ela havia sentido. com as quais lhe armarei muito em breve. os quais não estavam acostumados alimentarem-se de peixes. Muito intranqüila corre em busca das armas. porque o que se senta a seu lado matou seu pai e você o beija.

indignos servos! Que diabo lhes traz aqui? O que procuram? O que querem? Que Deus os estorve todo prazer! Valha-me Deus. se a Deus agrada. porque meu senhor o preferirá vivo que morto. nem jamais imaginei loucura. Venham em seguida. capturem-no vivo. Não chegou aqui voando. pico ou suplício. pois antes. Para matar o lesma nunca houve tanto alvoroço na Lombardía. Gauvain. não há ninguém tão humilde que deixe de ir com alguma arma.—Às armas. malho. 5959-6055) —Hu. Puderam então ver vilões furiosos tomando tochas e lanças. abraça e beija a nossa donzela. senhores! Vamos prender ao traidor. O traidor merece ser tratado afrontosamente. entretendo-se naquela torre —lhes diz—. e ela não tão somente não o rechaça. Alvorocem toda a vila e cumpram com o dever. —Onde está? Onde está? —dizem uns e outros. vilarejo. Tocam os sinos da comunidade para que não falte ninguém. cães raivosos. A divulgação espalha-se ao bando reunindo todo o povo. e não sem razão. mas o enviou meu irmão em qualidade de hóspede. Eis aqui meu senhor Gauvain morto. O que mais lhes censuro é que me façam tanta . Via-se quem agarrasse: escudo sem tiracolo. mas. Consideram-me vilã se lhe fizer companhia. — Dou-lhes fé de que encontrei Gauvain. Na mesma hora levantaram-se o prefeito e todos os regentes. haverá não sei quantos mortos e aleijados. recomendando muito que o tratasse como a sua própria pessoa. der alegria e distração rogada por meu irmão? Quem quer escutá-lo que o escute: não o fiz por nenhuma outra razão. A donzela prepara-se valiosamente a lhe ajudar. Se o entregarem a meu senhor. que matou meu senhor. que os mortos não têm nada que temer. hu. mas sim gosta e o deseja. porta e passador de sela. e grita aos da comunidade: (VS. far-lhe-ão um grande serviço. se Deus não o iluminar. que não levarão o cavaleiro que está aqui. o traidor comprovado. não obstante. nem por caminhos ocultos. nenhum há tão carente que não vá com forca. que iremos prendê-lo.

Mesmo sabendo. sem saberem dizer por que razão. nem que queira avançar um só passo. Têm que me acreditar. já que não ousam assaltála. por isso. todavia. enquanto isso. Não sabia se meu senhor Gauvain estava no castelo. os outros golpeavam a porta com suas tochas até parti-la em duas metades. nem há quem é capaz de tocá-lo com a mão. jurando encolerizada que. Com picos de aço escavam a torre a fim de derrubá-la. A donzela atira-lhes com muita gana as peças de xadrez que havia pelo chão. aqueles se defendem mais e melhor com as grossas peças de xadrez que lhes atiram. que a porta era tão estreita e baixa que só com muita dificuldade poderiam-na franquear dois homens ao mesmo tempo. homens desarmados e maltratá-los. que nada sabia de toda esta aventura. Enquanto ela dizia o que tinha vontade. Mas os vilões retiram-se e decidem afundar a torre por cima deles. com firmeza. Nenhum deles é tão valente que não tenha medo do porteiro. um valente só podia defendê-la e guardá-la. antes de morrer fará aniquilar a todos. senão o entregarem. Chegou ao castelo galopando e ficou muito atônito pelo ruído e o martelar que faziam os vilões. atrevendo-se a remover uma só pedra . nada sabia o senhor que o albergara. Não era necessário melhor porteiro que o que ali havia. apreciaria sua pessoa. eis aqui Guinganbresil. nem combater a bem defendida porta. nada me disseram. Ata a roupa e arregaça-a. De repente. Quando se inteirou disso.desonra desembainhando suas espadas à porta de minha câmara. fosse quem fosse. escavavam a torre com picos de aço. interceptou-os com sua espada premiou tão bem o primeiro. se puder. para defender até os dentes. Aqueles. De tudo isto. ordenou que ninguém. Retornou o mais rápido que pôde do bosque onde fora caçar. que outros se acovardaram e nenhum atrevido seguiu adiante. o que é para mim uma grande afronta. todos cuidam de si mesmo e temem por sua cabeça. O porteiro de dentro. A maioria põe-se a correr para trás porque não pode suportar o assalto. se lhes agradar.

Como bem sabe. foi a corte do rei o acusar de traição. se puder. Como o rei já estava retornando do bosque. não ficou nenhum. Responderam-lhe que por ele não deixariam o que tinham empreendido. como sabem. nascido naquela vila. —Senhor —disse este lavrador—. agora devo lhe aconselhar bem e de boa fé. Não tem que me surpreender que minha gente o odeie para a morte. não lhes perdoarei isso. pois aqui. Que hoje mesmo derrubariam-no. propôs-se ir procurar ao rei e lhe trazer para o alvoroço que tinham iniciado os burgueses. Muito me zanga e me pesa o que ocorreu. a partir do momento em que o converti em hóspede. deve protegê-lo e garanti-lo. porque é seu hóspede. Na praça havia um lavrador. Disse ao prefeito para ir embora e para os da comunidade que se retirassem. mas. o qual aconselhava todos do país por ter muito bom julgamento. saiu ao encontro e lhe explicou: (VS. . porque esta foi a vontade do prefeito. sepultando sua própria pessoa caso entrasse no castelo. De modo algum é surpreendente que quem matou seu pai a traição tenha sido assaltado. não receberá tal enquanto nós negarmos. eu tinha acusado Gauvain de traição. pelo que vejo. Encontraram-na rodeada de gente movendo-se em muito alvoroço. Seria muito justo e razoável que. 6056-6148) —Senhor. é ele quem albergo em minha mansão. é justamente odiado a morte. que desde esta manhã assaltam e derrubam a torre. Se não o pagarem muito caro. Mas o fato de ter sido albergado por você deve garantir isso e proteger de ser preso e de morte. grande afronta fez seu prefeito e seus regentes.que fosse. Se não quer mentir. Quando viu que sua proibição não servia de nada. Foram-se. Guinganbresil. nem ultraje. Assim chegaram à torre. não recebesse aqui nem desonra. E o rei respondeu a Guinganbresil: —Mestre. evitarei a prisão e as feridas desta pessoa.

que não muda a cor nem treme por medo que tenha. que estava muito mudada. A quem se deve exigir contas se os vilões o assaltaram? O pleito não teria falhado no dia do julgamento. (VS. entregar-lhe-á a lança cuja ponta goteja o sangue claro que chora. mas. Encarregame e eu digo que. Asseguro que não poderiam lhe impor trabalho mais difícil de levar a termo. impus a condição de que não fosse tão ousado de entrar no castelo. Que ele vá procurar a lança cujo ferro sangra sempre. como está aqui. 6149-6242) Um sábio lavrador disse: —Senhor. assim Deus me ajude. Agora não é momento de debater o que aqui fez. encontrou-a muito encolerizada. Entrou na torre. Ao que se odeia terá que lhe impor o mais oneroso que se pode e que se sabe. Ou que lhes entregue esta lança. Então encontrarão melhor pretexto do que o que teriam agora para retê-lo preso. e não o permito fazê-lo. até dentro de um ano. e para torturar a seu inimigo não saberia lhes aconselhar nada melhor. nem a ele. Todavia. junto com meu senhor Gauvain. se procederá segundo o parecer do rei. dirigiu-se para ele. ou que fique a sua mercê em tal prisão. meu senhor. Guinganbresil aproximou-se dele trazendo abraçado a donzela. nem na cidade que fosse de meu senhor. eu o aconselho a postergar esta batalha por um ano. ambos posterguem. mas. tudo se pode resolver. que está aqui. Ao ver sua irmã. e nunca está tão enxuto. senhor Gauvain. que dele não caia uma gota de sangue. Meu senhor Gauvain se vai. será . depois de haver tomado meu senhor seu juramento: que antes de um ano. eu lhes havia tomado sob minha guarda. Está escrito que chegará a hora na qual todo o reino de Logre. esta batalha. O rei se atém a este conselho. sem mais prorrogação.Não deve ocultar que ele veio a sua corte defender-se. disse-lhe inutilmente estas palavras: —Senhor Gauvain. a condição de que isso não pese nem a você. que antigamente foi a terra dos ogros.

Aqui precisamente o conto cala-se sobre meu senhor Gauvain e começa a tratar de Perceval. Os pajens separam-se de seu senhor e vão. nem da dor que sentiram. Antes de sair da torre. isso não lhe causará desonra. —Na verdade —disse meu senhor Gauvain— antes me deixe morrer ou adoecer sete anos aqui dentro. Não tenho vontade de falar mais deles. Imediatamente lhe trouxeram um precioso relicário. reintegrar-lhe-ão nesta torre e completará o juramento. e se não voltar com ela. PERCEVAL E O ERMITÃO . exceto Gringalet. e ele jurou que poria todo seu empenho em procurar a lança que sangra. estou disposto a prestar o juramento. do que fazer este juramento e comprometer minha palavra. no sentido que quero dizer. Assim suspendeu-se a batalha entre ele e Guinganbresil.destruído por esta lança. Disse a todos os seus pajens que voltassem para sua terra. nem passará a pior estado. Este juramento e esta fiança quer ter meu senhor o rei. Foi postergada um ano e escapou de grande perigo quando desta já estava salvo. levando todos os cavalos. Não tenho tanto medo à morte que não prefira sofrê-la e suportá-la com honra a viver com vergonha e perjurar. A meu ver: você jurará que colocará todo seu empenho em procurar a lança. —Tal como você diz —respondeu—. despediuse da donzela. —Gentil senhor —disse o lavrador—.

acaso não crê em Jesus Cristo. nem adorasse a Deus. quando encontrou três cavaleiros. não se preocupava com o dia. 6243-6330) —Amável amigo. nem razoável. sem que entrasse em monastério. mas. hoje foi cravado na cruz o que foi vendido por trinta dinheiros. Aquele. salvo grande engano. quando as encontrou mostrou-se digno delas. com eles até dez damas. Viu que a culpa atava e manchava todo mundo e se fez homem por nossos pecados. Enviou detentos a corte do rei Artur e sessenta cavaleiros de mérito no transcurso de cinco anos. armado de todas suas armas. pela salvação de suas almas e pelos pecados cometidos. cruéis e duras. É verdade que foi Deus e homem. Cinco vezes passaram abril e maio. Assim. nem com o tempo. não é bom. na verdade. faziam penitência a pé. nascido . Ia em demanda de extraordinárias aventuras. passou cinco anos sem lembrar-se jamais de Deus. descalças e vestidas de tecido simples. que escreveu a nova lei e deu aos cristãos? Porque. pois. hoje? —Que dia senhor? Não sabe? Hoje é sexta-feira santa. Estas damas. andando a pé. Passou cinco anos. surpreenderam-se muito ao vê-lo armado sustentando lança e escudo. pois. nem sua cruz. a hora. por um deserto. cinco anos inteiros. dia em que se deve adorar a cruz e chorar os pecados. não por isso. respondeu: —Que dia é. com as cabeças cobertas com capuzes. Ao cabo destes cinco anos aconteceu que ia caminhando. que tão torturado tinha o coração. levar armas no dia que Jesus Cristo foi morto. ou seja.A história nos diz que Perceval perdeu a memória de tal sorte que não se lembrou mais de Deus. Um dos três cavaleiros o parou e disse: (VS. Ele. como estava acostumado. deixou de procurar cavalarias. que livrou de toda culpa. ordinário.

Tomou forma e alma de homem com sua Santa divindade. —Por Deus. o que fizeram ali? Que pediram? O que buscavam? —O que. Nasceu de Nossa Senhora. colocamos enquanto passamos. e aos mortos os ressuscitou de morte a vida. que só vive da glória de Deus. e. Os falsos judeus. recomendaram-se. 6331-6423) Então. Ouvindo isso. Foi divindade coberta por carne humana. mutuamente. pelo qual viemos. por ódio que lhe tinham. com o qual Deus recebeu carne e sangue. pereceu na cruz e tirou do inferno todos os seus amigos. um santo ermitão que habita nesta floresta. Muito santa foi aquela morte. porque se sentia culpado para com . verdadeiramente. O coração lhe suspirava nas vísceras. hoje não deve levar armas nem em campo. se acredita em Deus. de onde vêm agora. Quem nisto não crê. —E. Fizemos estes sinais para que não se extraviasse quem quisesse ir ao santo ermitão. se eu soubesse o atalho e o caminho. aqui perto. Fomos a um mestre. que pode fazer um cristão. Deve observar os ramos que. nem pelo caminho. (VS. pois eles se perderam e nos salvaram. —Queria ir lá —disse Perceval—. —Senhor. Perceval chorou e propôs ir falar com o mestre. assim? —perguntou Perceval. fizeram grande mal a si mesmos e grande bem a nós. senhor? —disse uma das damas— Pedimos conselhos para nossos pecados e nos confessamos. que salvou aos vivos. isto é coisa certa. que deveriam ser mortos como cães. se quiser ir. em tal dia como hoje. com nossas próprias mãos. que queira ser semelhante a Nosso Senhor. deve seguir sempre reto neste atalho. quando o elevaram na cruz. —Senhor. não lhe verá a face.de quão virgem concebida pelo Espírito Santo. senhores. Fizemos o mais importante. Quem. Através do bosque cerrado e denso. a Deus e não disseram nada mais. Internase no caminho. Todos os que nele acreditam devem fazer hoje penitência. e que é um varão tão santo.

que caiu desvanecida no chão. O bom homem. Na verdade. Encontrou-o em uma capela. por reconhecer o nome. —Perceval. Logo. juntou suas mãos rogando que lhe desse conselho. desmontou. não a reparei. diante da porta. senhor. —Ah. Perceval ficou de joelhos. que vi pender da ponta do ferro branco. como se chama. sangra. nem amei a Deus. pelo que se arrependia muito. ao vê-lo muito singelo. Ao ouvir esta palavra o mestre suspirou. na verdade. Perceval. com a cabeça na ponte. — Ah. que temia muito ter ofendido a Deus. e isso me doeu tanto depois. faz cinco anos que eu não sei onde me encontro. e por esta dor morreu. sem dúvida alguma. nem acreditei nele e não fiz a não ser mal. estive uma vez na casa do Rei Pescador e vi a lança cujo ferro. Não alcança remissão. que as lágrimas chegavam emanando até o queixo. e nada perguntei sobre aquela gota de sangue. Quando chegou ao templo. Devido o pecado que há . atou o cavalo a um carvalho e entrou na morada do ermitão. —Senhor —disse ele—. bom amigo! —disse o mestre—Diga-me porque tem feito isto e pede a Deus que tenha piedade da alma de seu pecador. O bom homem o induziu à confissão. Esqueci Nosso Senhor e não lhe pedi perdão. quando começavam o mais alto e mais doce serviço que possa fazer-se na Santa Igreja. Assim que entrou na capela. e chorando atravessou todo o bosque.Deus. Inclinou-se diante dele. e disse: — Irmão. tinha muita necessidade. desarmou-se. Não sei a quem serve o Graal que ali vi. ajoelhou-se aos pés do ermitão. com um presbítero e um coroinha. nem fiz nada. chorando de tal sorte. gentil amigo! —disse o mestre— Diga-me agora. —Senhor. pois. senão se confessar e se arrepender. muito se prejudicou com um pecado do qual você não sabe nada: tratase da dor que sentiu sua mãe quando se separou dela. chamou-o. que desejei a morte. que eu saiba. para que pudesse ser perdoado.

e tão espiritual. preservou-o de morte e salvou-o da prisão. nem salmão. Ao começar a missa. acode assim que soe o sino ou antes. e não perguntou a razão disso. 6424-6518 ) —Assim o quero eu de todo coração. Não imaginava que nele há peixe. vieram muitos males. por isso. arrependa-se seriamente. Agora quero impor e dar penitência por seu pecado. que para sua vida não necessita nada mais. suas palavras tiveram tal virtude. gentil sobrinho. isso não o afligirá.em você. Se encontrar onde haja monastério. Antes de ir a outro lugar. mas agora escuta. Néscio critério foi o seu. quando não soube perguntar a quem serve o Graal. ocorreu não perguntar nada sobre a lança. poderá alcançar grande prêmio e conseguirá honra e paraíso. quando viu diante de si o ferro. Tão santa coisa é este Graal. se já está levantado. —Verdade é. acredita em Deus. porque prosperará muito sua alma. que jamais deixou de sangrar. o santo varão sua vida sustenta e vigoriza. é um serviço que custa pouco e que Deus estima muito seriamente porque procede de humildade. badejo. honra aos barões e às damas veneráveis e ponha-se em pé na presença de clérigos. e devo lhe amar mais. deve-me chamar sobrinho e eu a você. Com uma só hóstia. que não sobreviveria tanto. em atenção à ela. Ama a Deus. que leva neste Graal. tio. Assim esteve doze anos sem sair da câmara onde viu entrar o Graal. Se tiver piedade de sua alma. do que a hóstia que vai no Graal. Entretanto. (VS. se ficar fará muito bem. bom tio —disse Perceval—. e tem que saber. porque será proveitoso e não o deixe por nenhum motivo. vem todas as manhãs fazer penitência ao monastério. Já que minha mãe foi sua irmã. nem sobre o Graal. O pecado travou sua língua. permanece até que o padre o haja dito e cantado tudo. adora a Deus. que Deus. Se uma donzela reclamar sua . e acredito que o rico Pescador é filho do rei que se serve naquele Graal. Aqueles que com ele se servem é meu irmão e minha irmã que foi sua mãe. capela ou paróquia. se ela não o tivesse encomendado a Nosso Senhor. Se fizer isto com vontade.

agrião. a não ser. ou uma órfã. que boca de homem não deve pronunciá-los. Terminado o serviço. Perceval recordou que. procura não deixar de o fazer por nada. Esta esmola é muito cabal: ajude-as e obrará bem. antes de me ouvirem contar algo dele. O ermitão lhe confiou ao ouvido uma oração. salvo em grande perigo. Deus recebeu morte e foi crucificado. Nesta oração mencionavam-se vários dos nomes do Nosso Senhor. GAUVAIN E A ORGULHOSA . senhor. Perceval outorga tudo. muito agradecido. Ficou. Naquela noite comeu o mesmo alimento do santo ermitão. pão de cevada e de aveia. repolho. e água clara da fonte. se quer recuperar a graça e tê-la sua. —Rogo. e que em penitência coma os mesmos mantimentos que eu. em transe de morte.ajuda. e insistiu tanto. ou uma dama viúva. e entre eles os mais sublimes. Na Páscoa recebeu Perceval a comunhão muito dignamente. que durante dois dias inteiros. Quando aprendeu bem a oração. na sexta-feira santa. presta-a. So alimentou-se de acelga. —Sim. O conto aqui não fala mais longamente de Perceval. Isto é o que quero que faça por seus pecados. até que soube. milho. E lhe assegurou: —Farei como diz. proibiu-lhe pronunciar sob nenhum pretexto. ouviu o serviço e experimentou grande gozo. Ouviram falar muito de meu senhor Gauvain. alface. permaneça aqui comigo. adorou a cruz e chorou seus pecados. que será melhor para você. Seu cavalo teve uma terrina cheia de palha e cevada. senhor. Diga-me agora se quer fazê-lo.

porque são coisas que não se emparelham. no meio da cabeça uma grave ferida de espada. armas e cavalo. não sabia se estava morto ou vivo. o que pensa que o cavaleiro têm? Ela respondeu: —Já pode ver que suas feridas são muito perigosas. o rosto e a boca. no meio dos flancos. acreditaria que algum vassalo. Quando meu senhor Gauvain chegou. Quando meu senhor Gauvain se aproximou. Com freqüência o cavaleiro se desvanecia pelo dano que tinha. Doía-se por um cavaleiro ao qual muito freqüentemente beijava os olhos. que ao meio-dia chegou a um outeiro e viu um carvalho alto. . Viu um escudo pendurado no carvalho e a seu lado uma lança direita. corria-lhe muito sangue. porque quero lhe perguntar novas do que ocorre nesta terra. viu que o cavaleiro estava muito ferido.(VS. pelo que consta. Ao olhar ao pé do carvalho viu sentada uma donzela. Encaminhou-se ao carvalho e viu a seu lado um pequeno cavalo norueguês. Se o cavalo fosse um grande cavalo. não se compadeça. grande e tão frondoso dando uma boa sombra. pois. o que lhe surpreendeu muito. teria subido naquela colina. 6519-6604) Meu senhor Gauvain tanto andou desde que escapou da torre onde a comunidade lhe tinha assaltado. Ele acrescentou: —Formosa amiga. percorrendo o país para alcançar fama e mérito. que lhe pareceria muito formosa se estivesse contente e alegre. e disse: —Formosa. mas tinha os dedos fincados na trança para arrancar os cabelos e se esforçava em manifestar grande duelo. da mais leve poderia morrer. por ambos os lados. até que finalmente se acalmou. desperte-o. Tinha o rosto destroçado.

que estou tão maltratado que. obraria muito estupidamente. enquanto eu exista. pois. porque tão afável me sacudiu e despertou que não me produziu o menor dano. se me quer escutar. por minha fé. 6605-6695) —A minha fé—disse meu senhor Gauvain— Eu não vim aqui para voltar.—Senhor —disse a donzela—. Bem néscia e estúpida seria agora. que não lhe causou nenhum dano. antes de despertá-lo. Porque encontrei um cavaleiro. nem quererei a nenhum. seguirá adiante porque deseja ver crescer e elevar seu mérito. O cavaleiro despertou sem pesar. Poderia imputar-me como muito vil covardia. este é o limite de Galvoya. Seguirei adiante até que saiba e veja por que ninguém pode retornar. Então investe a lança e com o canto tocando-o um pouco na espora. agradeço muito. pois. para seu bem. Mas. —Vejo que está disposto a fazê-lo —disse o cavaleiro maltratado—. Melhor será se voltar. salvo eu. quero despertá-lo —disse meu senhor Gauvain. pois nunca quis tanto a nenhum homem. deixaria esfolar-me viva. jamais dava com um tão valente nem me medi com um tão forte. rogo que daqui não siga adiante. não viverei mais uma noite. voltasse. Nunca tornou nenhum. Não obstante. foi tão brandamente. se fizesse-lhe algo de que pudesse se queixar de mim. Detê-lo-iam. se tendo empreendido o caminho. —Pois eu. forte e feroz. valoroso e ousado. (VS. ao que acredito. a volta é muito árdua. —Deter-me? E por que? —Eu lhe explicarei isso bem. por minha fé. pois. se isso não lhe . Não há cavaleiro que o franqueie e logo possa voltar. e até lhe agradeceu dizendo: —Senhor. Jamais pôde retornar cavaleiro por campos ou caminhos que foi para lá. acredite em meu conselho. vejo que dorme e repousa. do que descer desta colina.

que discorria abaixo e ia rodeando toda a muralha. Desta sorte. —Sei. Quando chegou acima. nem outro). Não se precipite tanto. Se estiver morto. retorne aqui. Meu senhor Gauvain esporeia para a donzela. a minha fé. cavaleiro. confinava pela outra parte com vinhedos e com um grande rio. senhor. ou piorado. Deus nunca criou. Venha. e esta lhe grita: —Calma. voltará para ele e dará à donzela o melhor apoio possível. Este castelo. até dar com seu curso no mar. que valia pouco menos que Pavía e era de grande nobreza. uma doce donzela sozinha. sob uma árvore. formosa amiga. que eram mais branco que a neve. se lhe agradar. Assim deixa-os e caminha. até que vê um castelo muito forte. —Donzela. se eu estiver morto ou vivo. Diga-me. Sem deter-se em planícies. que vêm muito loucamente. prisão. Acrescenta caso não seja dominado pelas dificuldades. Faça de boa vontade. é estúpido o que se empenha em vão. . ou qualquer outro impedimento. devagarzinho. Um fino aro pôs na cabeça como coroa.pese. Um lado dava ao mar. Meu senhor Gauvain o concede. Meu senhor Gauvain passou pela ponte. ou se tiver melhorado. —O que é? —disse ele. por caridade e pela santa Trindade. nem você. nem mais afável. encontrou num campo. Ele olhava seu rosto e seu pescoço. que tome conta desta donzela para que não receba afronta nem angústia. o que imagina ao recomendar-me tão logo mesura. calma. Sei muito bem o que pensa. nem quis criar outra mais generosa. muito agradecido rogaria se Deus lhe outorgar a honra. se não sabe o porquê. rogo. o castelo e o burgo estavam completamente circundados. que esbanja seu galope. no ponto mais compacto do castelo. que jamais alcançou cavaleiro algum (a qual eu acredito que nenhum a obterá absolutamente. Deus lhe abençoe —disse meu senhor Gauvain—. pois. com um porto muito grande e navios. nem em florestas.

—É. porém. se ousasse. donzela. Guarde bem de pensar que subirei em seu cavalo. porque se não ficar quieto. . poderia ir me acompanhando. diz a verdade —disse ele— Fica livre de responsabilidade. e a tantos mestres tem feito cortar a cabeça que é uma grande dor. deixe-o e você passa do outro lado a pé. encontra muita gente reunida olhando-o admirados e dizem: —Cem diabos queime a donzela. donzela. Se quer dar-se ao trabalho de ir procurar naquele jardim meu cavalo. como se escapar. —Disse a verdade. —Já sabia —disse ela—. apresse-se em voltar. tanto se lhe tirarem. a mim você não levará. antes haverá alvoroço e briga do que ele voltar sem trazê-lo. malharia quem tal coisa imaginou. mas. ao que parece. Todavia. dor. porque jamais quis um mestre. vergonha e desdita caíssem sobre você em minha companhia. Cavaleiro que quer lhe levar o cavalo. Eu não sou dessas boba e tonta. que tanto dano tem feito! Má ventura haja seu corpo. com as quais os cavaleiros se divertem. Pensa em levar todas as armas consigo. formosa amiga? —disse ele. Cavaleiro. e não volte a falar mais nisso. ainda não sabe quão maus cairão sobre você se o tocar com sua mão. cavaleiro. não se incomode. acaso encontre no campo quem pretende vedar-lhe ou proibir-lhe que agarre o cavalo.—Quer me agarrar e me levar lá embaixo no pescoço de seu cavalo. Em seguida atravessa a pontezinha. não poderei sujeitá-lo muito tempo. —E onde ficará meu cavalo. Entrega-o e vai. Eu lhe guardarei o cavalo enquanto possa retê-lo. Levam-nas nos cavalos quando vão a suas cavalarias. —Só basta ousadia para empreender isto. eu iria consigo até que desgraça. desgosto. ou se por acaso tiram-no à força antes que você retorne. se passo pra lá? Porque não poderia passar por aquela pontezinha a qual vejo. —Sim. vassalo —disse a donzela. —Não. por que se aproxima? Não se aproximaria. Não obstante.

6787-6884) —Nem por isso o deixarei. de tal sorte que parecem sentir muito grande angústia e grande preocupação. em vão vieste pegar o cavalo. Meu senhor Gauvain não se detém nem pouco. e voltasse. Ele os ouve e os entende muito bem. diz-lhe: —Cavaleiro. nem proibi-lo. encontrará grande obstáculo. porque a donzela que está olhando lá debaixo daquela árvore. que não recebesse tão grande dano cortando-lhe a cabeça fora. se você quiser. Todavia. o que tivesse vindo a procurar aqui? Seria desonrado na terra como covarde e tímido. Por Deus. que lhe chegarão. ao qual queria entregar minha alma! Jamais existiu cavaleiro ousado para agarrá-lo como você agora pretende. Não obstante. nem freio. porque queriam induzir meu senhor Gauvain que não fosse ao cavalo. —E você ficará maltratado. porque. nem por ninguém que aqui veja. nem muito depois. maus serão seus caminhos se ousa tirá-lo daqui. porque se levá-lo fora daqui. pois não lhe faltavam. bom irmão —disse o forte cavaleiro—. todos e todas retribuem-lhe a saudação. Eu não aconselho que o faça. destas palavras. nem sela. porque perderia a cabeça. Aconselho que vá. se o levar. Temo que isto ocorra. gentil senhor —disse meu senhor Gauvain—. porque seria grande presunção de sua parte. se tanta vontade tiver de agarrá-lo. eu não lhe quero disputar isso. Vai saudando os quais estão agrupados. mas não quer deixá-lo por nada. um musculoso cavaleiro. nem sequer um só dedo. Não aproxime. não foi com má intenção. Se eu lhe proibi isso. o pai soberano. . (VS. Diziam todos e todas. leve-o e não se abstenha por mim.se soubesse as grandes afrontas. Entretanto. os grandes danos e as grandes penas. que estava sentado sob uma verde oliveira. E se não levasse comigo. enviou-me por ele. Meu senhor Gauvain dirige-se ao cavalo e abre a mão para agarrá-lo pelo freio.

que eu mesma montarei. para dizer insultos a um cavaleiro. A donzela. que não sou nem a metade tola que lhe aparento. que lhe ajudarei montar. Não tenho o menor desejo de que me sirva. até que por minha culpa sobrevenha-lhe algum grande contratempo. que não era lenta. Dê-me logo o cavalo. Sentir-me-ia muito desventurada se contasse. nem de minhas roupas. de modo algum. passe diante dele a pontezinha. ou que ponha na cabeça. ou soubessem. o que lhe importa meu manto e minha touca? Por Deus. não necessito de sua ajuda. Se com sua mão nua tocasse algo que tivesse sobre mim. —Que Deus não o permita contar —respondeu ela— na corte aonde me leve. tentasseo ou apalpasse. teria afrontado-me. Meu senhor Gauvain. que tinha uma parte da cabeça negra e outra branca. mas não se aproximará. Meu senhor Gauvain entrega-lhe o cavalo com sua sela e lhe diz: —Aproxime-se. olha-o e diz: —Vassalo. para poder ver-se sem estorvo o rosto e o corpo. humilhação. minha frente . Sabia fazê-lo muito bem porque já tinha passado e era nisso esperto e experiente. Que Deus me conceda ver hoje o que desejo a você: que receba grande afronta antes do anoitecer. Olhe para onde queira. que tocou minha carne. nem covarde. Eu irei sempre atrás de você. Quem é você para agarrar algo que toque meu corpo.Faz com que o cavalo. ao elmo onde a donzela se olhava. Preferiria que esta com a pele me arrancasse até o osso: aqui mesmo me atrevo a afirmá-lo. ou má ventura. que me teve em seus braços. pois não tem as mãos suficientemente limpas para tocar nada que eu vista. minha boca. escuta tudo o que a donzela altiva lhe diz sem responder palavra. Entrega-lhe devolvendo seu cavalo. donzela. Estou completamente segura de que o farei maltratar: não pode evitar. diretamente. nem de meu corpo. Tinha deixado cair no chão o manto e a touca. como a morte. Meu senhor Gauvain tomou-o pelas rédeas. Inclina-se para recolher do chão o manto dela para que se vestisse. que eram de seda indo.

Meu senhor Gauvain desce do cavalo. dizendo em seguida: —Cavaleiro. Ausculta o pulso muito acelerado. Eu o seguirei constantemente. seguiu até encontrar a donzela fazendo seu duelo ao pé do carvalho. para ver o cavaleiro que tanto necessitava de médico por quão feridas tinha. esteja completamente segura. compassado.ou meu rosto? Que Deus não me conceda nunca a honra de que de algum modo me agrade aceitar seu serviço. assim que a toque lhe tirará parte da dor das chagas. Imediatamente ao vê-lo. pois já não me ouve. Afirmam que tem tão grande virtude. nem as bochechas. Meu senhor Gauvain cala-se. veste-se e cobre a cabeça. Subia muito envergonhado e com a cabeça baixa. Trago uma erva e suponho que o aliviará muito. até que o veja afrontado por minha culpa. Seu amigo não estará em perigo de morte. Está com boa pulsação. vá agora aonde queira. Dizem os livros que não existe melhor erva para pôr sobre as feridas. a condição de que não esteja seca de tudo. e lhe disse: —Donzela. mas para fazer uma atadura convém um tecido fino. assim que lhe tenhamos enfaixado bem as feridas com esta erva. que se alguém a adere à casca de uma árvore doentia. e a agarrou. disselhe: —Gentil senhor. Meu senhor Gauvain sabia melhor que ninguém curar feridas. (VS. e nenhuma ferida mortal. com fôlego. se Deus quiser. sem lhe responder nenhuma só palavra. donzela. Viu numa vegetação uma erva muito boa para tirar a dor das chagas. Uma vez colhida. isso ocorrerá hoje. as raízes se recuperarão e a árvore sanará de tal sorte que dará folhas e flores. Segue para o carvalho onde tinha deixado a donzela. nem me entende. . este cavaleiro está vivo. sente que não tinha muito fria a boca. 6885-6980) E assim a donzela monta. agora sim acredito que este cavaleiro está morto.

não temeria a morte. Tira da cabeça a touca. 6981-7074) Quando ouviu isto meu senhor Gauvain volta-se e vê chegando um desagradável escudeiro. iria dizer lhe e a lhe enumerar meus pecados em confissão e receberia a comunhão. Façam-me agora um favor. . repartida e logo frisada. Meu senhor Gauvain não se aparta até que o cavaleiro suspira. que este cavalo. Sei de um capelão que está aqui perto. se tivesse no que montar. Meu senhor Gauvain se dispunha a aproximar-se dele para saber se poderia conseguir o cavalo. que era muito leve e branca. iguais eram suas sobrancelhas. o pescoço curto e o peito estufado. Meu senhor Gauvain corta-a como convém. porque tive grande temor de morrer sem confissão. rígidos e arrepiados como porco-espinho irritado. e a donzela lhe ajuda o melhor que sabe e pode. Como era? Dir-lhes-ei: tinha os cabelos emaranhados e vermelhos. seja como for. mas antes disse ao cavaleiro: —Senhor. que os tinha retorcidos e compridos. (VS. porque não tenho aqui outro. se aqui os tivesse sujeitos da rédea. Os diabos em procissão já tinham vindo aqui procurar minha alma. Antes de ser enterrado queria me confessar. que lhe tampavam todo o rosto e todo o nariz até os bigodes. recupera a fala e diz: —Deus recompense a quem me devolveu a fala. Tinha a boca estreita e a barba espessa. a qual isto não pesava—. Uma vez tivesse confessado e comungado. Mas. se não lhes zangar: dêem-me o cavalo daquele escudeiro que por ali vem trotando. com a erva que havia trazido lhe enfaixa todas as feridas. valha-me Deus! Não sei quem é este escudeiro.—Imediatamente lhe darei um de minha touca —respondeu ela. antes lhes daria sete corcéis.

. que não quero sair daqui. montarei nele e irei aonde me possa confessar. ou mais. Quando está a ponto de ficar em pé. mas não lhe fiz muito dano.—Senhor — disse ele—. Deixe e obrará sensatamente. tenha em conta que só procura lhe fazer mau. gentil senhor. Imediatamente meu senhor Gauvain toma o cavalo e o entrega ao cavaleiro. tinha-a . se puder. e lhe pergunta onde vai. Pega-lhe com a palma da mão aberta. E caiu de novo sete vezes. Meu senhor Gauvain imediatamente dá-lhe seu merecido. Se puder. Quando se levantou definitivamente disse: -Vassalo. que não era precisamente afável. Deus é testemunha. Meu senhor Gauvain dirige-se ao escudeiro que se aproximava. sem exagero algum. ajude depois a donzela montar. o que te importa onde vou. a quem a vista havia lhe tornado e lhe tinha esclarecido. que não será perdoado. ao cavaleiro ferido reanimou-se o coração. e disse a meu senhor Gauvain: —Deixe este escudeiro. Derruba-o e o faz esvaziar a sela. E embora me pesa havê-lo feito. —Pois. não deixarei de lhe dizer em pagamento pelo recebido: perderá a mão e o braço com o qual me deu o golpe. Coloque a sela no cavalo. que tinha muito desacordado.É certo que o peguei —respondeu ele—. como levava o braço armado e dá-lhe com muito prazer. Viu meu senhor Gauvain e então o reconheceu. ou de onde venho? Em qualquer lugar que me encaminhe. que você antes me disse grandes bobagens. disse-lhe: —Vassalo. E ele. má ventura haja. Meu senhor Gauvain tinha tomado à donzela. Traga-me seu cavalo e dê a esta donzela que vê ao meu lado. pegaste-me. Enquanto ocorria isto. que não quero retroceder até ter confessado e comungado e ter sido ungido com a extrema-unção. em menos espaço que a longitude de uma lança de abeto. Não ouvirá dizer nada que lhe honre. como amável e cortês. cambaleia-se e volta a cair.

mau galardão. Toma o cavalo e fará melhor. que raptou à força a donzela e fez com cedesse? Não obstante. 7075-7161) —Senhor cavaleiro. porque eu o fiz pela estrita justiça . —Sim merece. o cavaleiro apoderou-se de seu cavalo. porque que eu saiba. Não acredito merecer tal coisa. Fiz corcovear o cavalo. surpreende-se e tornando-se a rir diz: (VS. bem sabia você que na terra do rei Artur as donzelas estão protegidas. —Gauvain. —É você. nem fiz isso em toda minha vida. —Agora entendo bem —responde Gauvain— aquele provérbio que diz: a bom serviço. por muito mal que caísse sobre mim. —Como é isto? Venho aqui pelo seu bem. queria o arrancar com minhas duas mãos o coração das vísceras. Queria muito saber por que queria me arrancar o coração e por que me tira meu cavalo. Já não se lembra daquele ao qual você causou tanto mal. Não acredito. Enquanto ajudava a montar. nunca quis maltratá-lo. a viva força. em meu proveito. nem procure meu mau. e levarei ele como se fosse meu. Greoreás. Desmonte e dê-me isso. a fé minha! Não é necessário que fazer corcovear meu cavalo. nunca o tinha visto. até agora. porque ficou sem o cavalo. que cometeria traição. Meu senhor Gauvain olha. Gauvain! Viu-me quando me fez uma grande afronta. nem penso que por este dano me odeie. e você me pagará com mal? Não leve meu cavalo. com as mãos atadas às costas? Tem que saber que procedeu tão tolamente. que lhe fez comer com os cães durante um mês.subido ao cavalo norueguês. o rei lhes outorgou seu amparo e as defende e salvaguarda. que agora recebe grande afronta. que poderia piorar e fazer que lhes abrissem as feridas. quando o vê galopar pelo campo. pois. subiu nele e o fez corcovear por ali. pois. Gauvain. Ele responde: —Cale-se.

estabelecida e assentada em toda a terra do rei. 7162-7257) — Ah. ou um mês. a sela. com as . foi uma burrice. agora sim que vai bem a coisa! —diz a donzela exasperada—. agora é preciso sofrer o que eu farei. as orelhas largas e papa. ou três semanas. bem me lembro. não levava coberta. porque não pode fazer outra coisa. Em seguida meu senhor Gauvain monta no no cavalo trotando e ridículo. tinha fraca a garupa e torcido o espinhaço. Agora sim que será divertido o seguir. oito ou quinze dias inteiros. que tirou o cavalo do escudeiro! Se o quisesse. fazia muito tempo que foi nova. Deus me valha! Em qualquer lugar que vá. As rédeas e a frente do freio eram de corda. Agora sim vou me divertir. todos os achaques da velhice. Tinha os olhos turvos e escuros. o seguirei. —Gauvain. Agora parece um cavaleiro adequado. Então Greoreás o deixa e vai seguindo rapidamente estendido em sua amiga. Assim. A perversa donzela ri de meu senhor Gauvain e lhe diz: —Vassalo. agora irei contente e alegre aonde você queira. vendo suas desventuras. No momento. para acompanhar uma donzela. O rocín era uma besta horrível: tinha o pescoço esquálido e gordo. ainda seria mais vergonhoso para você. a cabeça. Agora é justo e razoável que lhe siga com muito agrado. Encontra os estribos curtos e frouxos. pois não pode ter nenhum outro. Era esquálido e comprido. o que fará agora? Bem se pode aplicar a você aquilo com que nem todos os parvos morreram. que ia com grande celeridade. (VS. um beiço de sua boca não encaixava com o outro. vassalo. não fica melhor justiça que substitui-lo pelo cavalo do escudeiro que derrubou. de maneira que não se atreve a afirmar-se neles. não posso tomar maior vingança. Irei ao Gringalet. a justiça você a tomou comigo. com muito prazer. Oxalá. Cutuque um pouco. pois. as patas perebentas e os flancos duros e destroçados pelas esporas. Com boa guarnição monta um bom corcel.

Montado no rocín vai por ermas florestas solitárias. com estolas de várias cores e tecidos finos com ouro. porque combinamos. cortês e discreta. — Como. No palácio havia pelo menos quinhentas janelas abertas. feito sobre rocha viva.esporas. que não fica mais remédio a não ser fazê-lo ir mais lento. nem alcançaria uma flecha que fosse lançada. Tanto faz como tanto fez. . Havia nele um palácio muito grande. muito forte e muito rico. tem que ir devagar. só podiam admirar-se da cintura pra cima. não obtém que corra. porque é muito veloz e corredor. diga o que lhe pareça. que jamais olhos humanos viram fortaleza tão opulenta. tão largo que nenhuma catapulta atiraria pedra até a outra margem. cavaleiro? Por sua má ventura me quer dar lições? Suas lições não me importam nada. nem que galope. como eu lhe queria ver. porque por mais que trabalhe em excesso. que era todo de mármore escuro. Siga adiante e cale-se. Em silêncio cavalgaram até o entardecer. Se fizer uso de razão tem que ser bem educada. sacudindo de tal modo as vísceras. Aparecendo nas janelas. Ele não sabe o que fazer com seu cavalo. Todavia. As mais belas donzelas vestidas de seda. até que chega às terras planas perto de um profundo rio. da parte de fora. ele na frente e ela atrás. Na outra parte do rio eleva-se um castelo muito bem construído. deixavam ver suas resplandecentes cabeças e os formosos corpos que. não é próprio de donzela ser tão maledicente quando já tem mais de dez anos. todas cheias de damas e donzelas contemplando os prados e a vegetação florida que tinha adiante. Seguir-lhes-ei. E lhe responde: —Doce amiga. Não o deixarei. seu cavalo e faça-o dar uma corrida. Não se desanime. até que realmente lhe sobrevenha afronta. Não pretendo que me deixe mentir: o castelo estava edificado em cima de um descampado e era de tal riqueza. Dando-lhe com as esporas faz tão duro o caminho. que agora vai equipado. que não lhe faltará.

que o tirou. cavaleiro. —De modo algum fugirei dele. desceu do pequeno cavalo e encontrou na borda uma barco que estava fechado com chave e suspenso num degrau. que o enviou atrás de você. —Não lhe impedirei disso de modo algum —disse a donzela— Todavia. que já o tinha feito muitas vezes. senão quer receber aqui a morte. desmonte agora e entre aqui comigo com seu cavalo rocín.(VS. não lhe ocultarei isso: é o sobrinho de Greoreás. Por isso. Então meu senhor Gauvain voltou a cabeça e viu pela margem um cavaleiro completamente armado. depois seu cavalo. Na barco havia um remo e no degrau a chave com a qual estava fechado. porque será muito bizarro seu espetar e galopar diante dessas donzelas. que por nada do mundo lhe diria isso. calo-me. —E por que. posto que me perguntou. que entre por aqui e fuja. por São Martín —disse a donzela alegremente—. Seu tio lhe encomendou que o siga até que morra. que vil coração tinha nas vísceras. se nisso visse algum proveito para você. direi por que. —Vassalo —disse—. Tem que saber a verdade. Desamarre este bote e mau ano para você. donzela? —Não vê o que eu vejo. entrou no barco. não se zangue e me diga. quem é este montado em meu cavalo. Parou. eu o esperarei. Como estou segura de que vem para sua má ventura. Acaso visse fugiria velozmente. foi diretamente ao rio. gentis e . que está mais fraco que um pintinho. senão atravessarem logo este rio ou se não lhes põem a nadar em seguida. 7258-7352) A mais perversa criatura do mundo que levava meu senhor Gauvain. e lhe perguntou: —Amiga. donzela. o recomendo que desmonte. A donzela. aquele traidor a quem curei as feridas esta manhã? —Eu lhe direi isso. e que leve sua cabeça como presente.

estarei muito contente. avança contra ele seu próprio cavalo. Qual mal é para um cavaleiro montar rocín. Todavia. Não encontrou nem ela. irei a seu encontro. Bate-lhe tão forte que atravessa. que não coxeia em modo algum. que esta se dobra e se quebra e o ferro fica parecido com um escudo. quando quer exercitar as armas! O outro cavaleiro. Muito agradável foi esta aventura. Derruba-o na miúda areia. (VS. de um lado ao outro. Em seguida. Espete! Gostarão muito. porque vai sobre um bom corcel. —Ai de mim!—diz—. desagradando-se muito tê-la perdido. para o cavalo e salta sobre sua sela. em troca. Espera então. afiança-se tão regiamente nos estribos. o cavaleiro sem que o rocín arranque. donzela. —Custe o que custar.formosas que aparecem às janelas para ver e sentir prazer de sua situação. descalçando o direito. . Não escapulirei. estende a mão. dando-lhe tal golpe atravessado. que rompe sem remissão o esquerdo. 7353-7437) Meu senhor Gauvain atira-lhe na parte superior do escudo. teve em seu coração a maior alegria de sua vida. agora parece bem um cavaleiro que vai ajustar-se com outro. com a lança. nem o barco. ao contrário. porque se recuperar meu cavalo. volta-se para a banda e dirige a cabeça de seu rocín para aquele que vinha pelo areal espetando com as esporas. por mais que o esporeie não consegue se mover. Meu senhor Gauvain o espera. escudo e armadura. Dirige-se para a donzela que entrou no barco. não soube mais o que tinha sido dela.

caso queira resistir. Meu senhor Gauvain lhe disse: —Amigo. se tanto vale. ao mesmo tempo. sem que eu tivesse seu cavalo. Assim que chegou a embarcação. e senão tive o cavalo. aquelas donzelas que ali vê considerar-lhe-ão desleal e tomar-lhe-ão por muito mau. que eu saiba. poderei confiar em que você? Guardará meu cavalo com boa fé? . Aí disse: —Amigo. pois. levado por um barqueiro. Dou-lhe isso. —A minha fé.GAUVAIN NO CASTELO DAS RAINHAS Enquanto estava pensando na donzela. —Amigo. conforme acredito. nem se soube. não quero fazer injustiça. Mas. este feudo seria muito difícil satisfazer. senhor—disse o barqueiro—. viu vindo do castelo um bote. fica sem discussão alguma com o cavaleiro. ante meus olhos derrubou um cavaleiro. daria muito trabalho capturá-lo. Não obstante. lhes mandam que não detenha meu feudo. o barqueiro disse-lhe: —Senhor. Traga-o e ficará livre de meu feudo. Se não quer ser injusto comigo. trago-lhes saudações da parte daquelas donzelas. cavaleiro! Se não me der meu feudo. não me faltou o cavaleiro. que um cavaleiro fora derrubado neste porto. vá prende-lo. ao mesmo tempo. a companhia das donzelas e você. não me interessa este presente. A você mesmo. Jamais ocorreu. Eu devo receber seu cavalo. porque me obrigaria a partir a pé. —Ah sim. Pediram-me para entrega-lo. Se desmontar. deve dar-me o corcel. Ele responde: —Deus benza. Nada que possa reclamar justamente será negado por mim. que feudo me pede? —Senhor.

Segue o parecer do barqueiro. já que neste porto tem feito cortar muitas cabeças de cavaleiros. Se quer acreditar-me. desce de seu cavalo. Enquanto. Guardarei com lealdade. porque é uma terra selvagem cheia de grandes maravilhas. em qualquer lugar que tenha ido. se as souber. —Eu acredito —disse ele— sob sua palavra e por sua fé. 7438-7530) —Senhor — diz aquele. viva. para aquele que já tinha muitas quebras. Não é uma donzela e sim algo pior que Satanás. Ao que responde: —Senhor. Vão até chegar à . Já que me aconselha isso. O outro toma-o e lhe diz que o guardará lealmente. aconteça o que acontecer. — Levante-se daí! —disse ele.—Sim. com toda segurança —disse ele—. Estava ferido no flanco e perdera muito sangue. dirige-se com a espada desembainhada. quero ater-me a seu conselho. Devolverei o cavalo de bom grado. A seguir. —Amigo. venha albergar-se hoje em minha casa. Não lhe faria nenhum bem ficar nesta ribeira. não poderia lhe ocultar que estou tão ferido. quem lhe agradece. perdi muito sangue e coloco-me a sua mercê. (VS. Levanta-se com dificuldade e meu senhor Gauvain o leva ao barqueiro. Meu senhor Gauvain. Entra no barco com seu cavalo. Recomenda-o. que não pode me ocorrer nada pior. Meu senhor Gauvain o ameaça. que estava muito desfalecido—. de uma donzela que o levou até ali e diga-lhe aonde tinha ido. não se preocupe com a donzela. dou-lhe minha palavra e prometo que não lhe causarei nenhum dano. gravemente. Meu senhor Gauvain pede que lhe dê novas.

outra borda. tintos. pois. Ambos apareceram às janelas de uma pequena torre. nem nunca soube. brancos. que não sei. 7531-7631) —Senhor. perdiz e outras aves. Gostava e acostumara-se a levantar cedo. novos e velhos. claros. Em atenção a ele. Gauvain encontrou-se muito bem nela. —Gentil hóspede. que jamais deixariam de disparar e não se cansariam nunca. ao amanhecer. senão lhe pesar. . há nele muito boa guarnição. tirou-se a mesa e voltaram a lavar as mãos. tão engenhosamente estão dispostos. também levantou o barqueiro. porque é servidor do castelo. Meu senhor Gauvain contemplou o país. Meu senhor Gauvain foi servido com quanto corresponde a um mestre: faisão. as planícies e o castelo em cima do escarpado. que era muito formoso. não sei. Quando acabaram de comer. O hóspede lhe respondeu em seguida: —Senhor. (VS. O barqueiro estava muito satisfeito com seu prisioneiro e com seu hóspede. toda classe de veados tinha para jantar. quem defende e guarda o castelo. —Hóspede— disse-lhe—. Tratou-os com atenção o mais que pôde. Agradou-o muito aceitar o serviço do barqueiro. De noite meu senhor Gauvain teve recepção e albergue muito a seu gosto. Estava perto do rio. —Digo-lhe com toda verdade —respondeu ele—. Se alguém quiser fazer mal. Diga-me. recebe dele grandes rendas e não sabe quem é seu senhor. era tal que nela poderia se hospedar um conde. queria interroga-lo e perguntar quem é o senhor desta terra e deste castelo daqui ao lado. Viu as florestas. Os vinhos eram fortes. A casa do barqueiro. No dia seguinte. levantou-se. Quinhentos homens que sempre estão prontos para disparar arcos e flechas. O barqueiro introduziu seu hóspede e seu prisioneiro. —Não sabe? É surpreendente o que me diz.

por arte e por encantamento. como saberá em seguida.“A situação é a seguinte: há ali uma rainha. Um homem sábio em astronomia. que jamais ouviram nada semelhante: nenhum cavaleiro que entre pode permanecer vivo. nem são. cem que a têm mais branca que a lã. exista outra mais formosa. que possa permanecer no palácio. A sala é muito bem guardada. franco. se lhe agradar que diga isso. ou algum mau vício de adulação ou avareza. e cem aos quais vai encarecendo. tem muito ouro e muita prata. que é de alta linhagem. uns barbudos e outros não. Toda esta gente vai e vem pelo palácio com a louca esperança de algo que não poderá ocorrer jamais. nem os traidores. Há damas anciãs que não têm marido. que sob o céu. nem senhor. sensato. Gelará todo o mar antes de que se encontre um cavaleiro. chamando rainha e filha. armaria aos pajens e sem demora . que não podem perdurar. quando seus maridos foram mortos. sem vilania. Injustamente foram deserdadas de terras e honras. se houver nele cobiça. Cem não têm barba. este poderia possuir o castelo. são mais de quinhentos. que não desmerece. Aqui não sobrevivem os covardes. nem bigode. sem cobiça. leal. Devolveria às damas suas terras. Fez construírem esta forte residência que vê. Há também muitos pajens. Faria acordo de paz em mortais guerras. Trouxe consigo uma dama que ama muito. Há também donzelas órfãs. nem mais discreta. o tempo que demora para percorrer uma légua. cem nos quais aponta a barba. casaria às donzelas. nem viver. que as duas rainhas têm em grande consideração. pois. os falsos e os perjuros morrem tão sem remissão. valoroso. cem que se barbeiam e rapam a barba todas as semanas. que servem com as armas. que devolva às damas suas honras. que dê marido às donzelas e que faça cavaleiros aos pajens. fez tais maravilhas. Se fosse possível que um assim chegasse. Não acredito. dama muito especial. Esperam que chegue um cavaleiro que as proteja. valente. que a rainha trouxe para este grande palácio. rica e discreta. nem desonra a linhagem. Ele teria que ser completamente bravo. procedentes de diversas terras. Deve viver neste país com todo seu tesouro. nem mancha alguma. Esta tem por sua vez uma filha.

gentil anfitrião. que as trazem na hora. —Hospedeiro. Faça o favor de devolver em seguida. irei lá encima ver as donzelas e as maravilhas. Saiba que nenhuma outra companhia lhe será mais útil que a minha. 7632-7723) —Que dom. Sobe e parte. —Hospedeiro —disse Gauvain— Desçamos. É preciso que eu o conduza. ou mais ainda. —Já calarei. amanhã. —Aonde. Encontraram. Já que tanto lhe agrada. Que Deus não tenha minha alma se eu escutar mais conselhos.alguma acabaria com os encantamentos do palácio. quero de você um dom. Chegaram ao pé da escada. anfitrião. —Antes de sabê-lo têm que prometer. quer conduzi-lo lealmente. —Cale-se. com a condição de que não seja nada desonroso. Quero ir lá. —Cale-se você. sentado sozinho. ali aonde vai. senhor? Fique aqui. embora muita pena me cause. um coxo que tinha uma perna postiça de prata. Arma-se. que havia diante do palácio. assim Deus o guarda! Hoje. —Farei o que queira. Mas. assim Deus me valha. minhas armas e meu cavalo. contra seu parecer. O barqueiro faz o mesmo em seu cavalo. por minha fé. isto não será agora. Considera-me medroso e covarde. senhor! Se Deus quiser não cometerá esta loucura.” Estas novas foram muito agradáveis a meu senhor Gauvain. Então ordena que tire o corcel do estábulo. anfitrião? Diga-me. e bendita seja sua hospitalidade. ou que tinha . Mas. ir lá. (VS. Pede suas armas. Deixe de fazer caso e fique. em um feixe de plantas como espada. arreado para cavalgar. que não quero estar mais aqui. senhor. Trabalharia em excesso em vão. pois.

nem se fará. O leito descansava sobre quatro figuras de cães que faziam ridículas caretas. é muito belo o que nela vejo. Todo ele era absolutamente. tão ligeiras e mutáveis. Se não o acompanho e o guio. conforme testemunha a história. o que lhe parece este coxo? —Que sua perna não é de madeira de álamo. —Pelo nome de Deus —diz o barqueiro— Este coxo é muito rico. a minha fé —diz meu senhor Gauvain—. que se alguém tocava o leito com um só dedo. estes por sua vez descansavam sobre quatro rodas. e que de vez em quando tinha aros de ouro e de pedras preciosas. muito trabalhado e polido. O barqueiro aproxima-se de meu senhor Gauvain e lhe diz: —Senhor. outro igual. com uma navalha entretinha-se em desbastar um bastão de madeira. igualmente trabalhada. pois. O pavimento do palácio era verde. de ouro. As dobradiças e os ferrolhos eram de ouro fino. e por cima dele estava estendida uma grande colcha de seda. Uma das portas era de marfim. variando em todas as cores. que davam mais claridade que quatro círios acesos. e a outra de ébano. índigo e azulado. corria ali dentro de um lado ao outro. nem para conde. Assim era o leito que estava no meio do palácio. salvo as cordas. que eram todas de prata. vermelho. pois. No centro do palácio. já tinha ouvido novas que lhe tivessem sido muito desagradáveis. e ambas estavam iluminadas com ouro e pedras preciosas. Não dirigiu a palavra aos quais passavam diante dele. havia um leito que não tinha nada de madeira. . O coxo não tinha as mãos ociosas. Assim seguem os dois. nem para rei. cuja entrada era muito alta e suas portas ricas e belas. Sobre este leito não lhes conto nenhuma fábula: de cada um dos laços pendia uma campainha. Para falar a verdade nunca se fez.sido chapeada. muito bem cinzelado por cima. nem eles lhe disseram nada. Sobre cada um dos pés estava engastado um carbúnculo. até que chegam ao palácio. porque desfruta de muitas e valiosas rendas.

tão obstinadamente. anfitrião. Os muros estavam pintados com as cores mais apreciadas e melhores que alguém pode fazer e imaginar. que nem você. pois. Não obstante. pois. nem ninguém. responde-lhe: —Não verá nenhuma das donzelas das quais fala. assim que atravessassem a porta. Vejo-o disposto a conservar sua vida. em minha casa. Agora quero reclamar isso: que volte para sua terra e conte à seus amigos e às pessoas de seu país que viu um palácio tal. nunca vi outro tão rico. —Isso é tão certo. quero que me creia. pedi-lhe um dom. —Ah. mas não quero explicar nem descrever todas as coisas. asseguro-lhe que não deixarei de me sentar neste leito e de ver as donzelas que ontem a tarde vi aparecendo nas janelas. (VS. nada vejo aqui que faça temeroso à entrada no palácio. 7724-7820) Meu senhor Gauvain foi olhando o palácio minuciosamente. porque se o fizesse morreria da pior morte que jamais morreu um cavaleiro. O que diz? O que pretendia quando. veria através de seus vidros todos os que entravam no palácio. por acima e por abaixo. proibia-me que viesse vê-lo? Quero sentar-me neste leito e repousar nele só um pouco. Quando. embora me pareça que o diz por meu bem. Na parte da frente havia umas vidraças tão claras que. Deus me odeie e que eu seja desonrado. e cem abertas. por aqui e por ali.Quanto ao palácio. Ele. —O que farei. decidiu vir aqui. sabe de outro tão rico. mas você não soube qual. se alguém reparasse. anfitrião? —O que. Você . suas paredes eram de mármore. que retrocedia para fugir melhor. Parte daqui como veio. No palácio havia até quatrocentas janelas fechadas. chamou o barqueiro e lhe disse: —Gentil anfitrião. senhor? Dir-lhe-ei. que acrescentarei. nele nada tinha que fosse de gesso. gentil senhor! Deus o livre de aproximar-se.

Já que nem com afeto. através daquelas janelas de vidro. nem resgate.não conseguirá ver aqui absolutamente nada. sonhe. de maneira que ressonou todo o palácio. Será uma grande desgraça que você deixe aqui a vida num objeto. Ao ver que não pode retê-lo deixa de lhe falar. as donzelas. com o escudo pendurado ao pescoço. Deus tenha piedade de sua alma. descobriram-se as maravilhas e manifestaram-se os encantamentos. já que não vejo as donzelas. Abriram-se todas as janelas. sem demorar. nem aos arqueiros que os disparavam. posso separá-lo daqui. que meu coração não poderia suportar que lhe visse morrer. mas não quer permanecer no palácio quando se sente no leito. mil marcos tivesse dado meu senhor Gauvain por não estar ali naquele momento. Meu senhor Gauvain senta-se no leito. 7821-7917) Sai do palácio. nem com discussões. lhe dizendo antes: —Senhor. Todavia. O encantamento era tal. Penso e acredito que foi feito para que se deite nele um gentil-homem ou uma dama principal. levanta-se vivo e são. sem remissão. as cordas deram um grito e todos os sinos soaram. Assim que se sentou. mais de setecentas deram no escudo de meu senhor Gauvain. e parte. assim Deus me guarde. Das janelas voaram para ali dentro dardos e flechas. (VS. Não houve cavaleiro que se sentasse neste leito e que saísse vivo. descanse. que ninguém podia ver de que ponto vinham os dardos. Meu senhor Gauvain. Em troca agora o vêem. ou sente-se nele. as rainhas e as damas que estão nas câmaras do outro lado. Já podem imaginar o ruído que fizeram ao distenderem as flechas e os arcos. que não soube quem o atacara. por minha alma. aconteça o que acontecer. Sentar-me-ei nele. —Por minha fé —disse meu senhor Gauvain— Sentar-me-ei no leito. Em alguns . as janelas voltaram a fechar sem que ninguém as tocasse. armado como estava. no qual ninguém que durma. Trata-se do Leito da Maravilha. arrancou os dardos que se cravaram em seu escudo. sinto e me pesa muitíssimo sua morte.

veio-lhe em cima uma nova prova. ergueu-se em seguida. Tire toda a armadura. bem formada.lugares feriram seu corpo. cravou-lhe as unhas no escudo. despiu a espada. voltou a sentar no leito. entrou uma donzela muito formosa e agradável. Um pajem só. Em virtude de ter vindo aqui será servido e honrado por jovens e anciões. para àquele a quem esperamos e desejamos muito. muito gentis e formosas. abriu-a e de uma abóbada saltou um faminto leão. uma capa. Deus seja louvado. elegantemente vestidos com armaduras. como se fosse de cera. deu-lhe com ela. que levava na cabeça um aro dourado e tinha os cabelos tão loiros como o ouro. que tinha ficado fora. asseguro-lhe: já não têm que temer mais nada. Cessaram para sempre os encantamentos do palácio. um deles começa a desarmá-lo e outros levam seu cavalo. forte. Por tudo isso. grande e temível. Antes de ter arrancado todos. entrou de novo no palácio. Sua branca face tinha sido iluminada. Chegou então uma multidão de pajens. Era muito graciosa. por natureza. encontrou-o sentado no leito. com a cara muito alegre. de modo que lhe cortou a cabeça e duas de suas garras. no estábulo. com uma cor vermelha e pura. porque as garras ficaram dependuradas pelas unhas de seu escudo. Um vilão deu com o pé em uma porta. segundo creio. carregado com umas roupas. Atrás dela vinham outras donzelas. Em seguida. e lhe disse: —Senhor. os quais ficaram de joelhos e disseram: —Amado e doce senhor. por isso lhe emanava sangue. Contente estava meu senhor Gauvain. e o fez cair de joelhos. Enquanto desarmava-se. de modo que uma estava dentro e a outra pendia por fora. —E eu demorei muito em beneficiar-lhes. ou mais. feroz. Seu anfitrião. Com grande sanha. que atacou meu senhor Gauvain com grande ferocidade. oferecemo-lhe nosso serviço. Quando o leão morreu. bela. um manto e uma sobre-armadura. Todavia. O manto era de arminho e de pequenas pedras . alta e erguida.

mas sim estamos dispostas a lhe servir. admirando às donzelas que vê chegar. porque depois do calor. antes de visitá-lo. A primeira inclina-se e diz: —Minha senhora. porque fazem dele seu príncipe e senhor. sem engano. Acabando estas palavras todas ajoelham-se e inclinam-se diante ele. Todas estas donzelas que estão aqui lhe consideram seu senhor. e. em parte porque são formosas. a rainha. a rainha.Veste-as. Ele as faz levantar e sentar-se sem demora. como destinadas a servi-lo e honrá-lo. para que o frio não lhe danifique. que está cheia de cortesia e de discrição. Eu a primeira. porque vêem o melhor de todos os mestres. muito o desejaram. (VS. Agora estão muito satisfeitas. grandes afãs e grande calor. E nada mais. cumprimenta-o. Desfruta do maior prazer que já experimentou. que turva o sangue e o endurece. quando a gente está tremendo. a parte interior era de escarlate vermelho. como o mais cortês do mundo: . mais ainda. envia-lhe estas roupas. senhor. os sensatos guardam-se do frio. imagina que terá sofrido grandes trabalhos. ofereço-lhe meus serviços. Ordenou à todos os servidores que lhe tenham por seu legítimo senhor e que todos venham lhe servir. por esta honra que Deus lhe concedeu. porque ela. Do mesmo modo que a água se transforma em gelo. envia-lhe esta roupa de arminho. Então a donzela adiantou-se e disse: —Minha senhora. pois. sejam bem vindas.preciosas negras como amoras. Minha senhora. o sangue se coagula e se coalha depois do calor. Sente prazer em vê-las. gentil senhor amado. 7918-8007) Meu senhor Gauvain. Prove-nas para ver se são de sua medida. Meu senhor Gauvain responde. não pode evitar ficar em pé e lhes dizer: —Donzelas.

a rainha. diz-lhe: (VS. salve a minha senhora. A donzela parte e meu senhor Gauvain embeleza-se com as ricas roupas. Meu senhor Gauvain contempla o rio. Por isso. e enquanto isso poderá vestir-se e contemplar. Imagino que muito discreta tem que ser a senhora quando tão corteses são suas mensageiras. —Senhor —diz o barqueiro—. Sabe muito bem o que necessita um cavaleiro e o que lhe convém. é tão cortês e tão amável. asseguro-lhe —diz a donzela—. com razão ou sem ela. e. as condições deste país. poderá subir a esta torre para ver as florestas. eu gostaria de muito morar aqui para caçar e cavalgar nas florestas que há a frente a nós. cheias de veados. Sai com sua anfitriã e sobe por uma escada de caracol encostada ao palácio abobadado. nem um só dia. Se lhe agradar. Agradeça-lhe muito de minha parte. até que chegam à parte superior da torre. a quem nenhum bem falta. nem de cavalgar. de onde vêem o contorno do país mais belo que se poderia descrever. por sua grande mercê. —Cale-se. não é conveniente que fale de caçar. pareceria-me sete vezes vinte anos. envia-me roupas para vestir-me. que a aquele que Deus ame tanto. que tão bem fala. anfitrião. será ordenado e destinado a não sair nunca desta mansão. anfitrião —diz ele—. . senhor e protetor. é melhor que se cale. as terras planas e as florestas. esperando que eu volte. que lhe conceda que aqui lhe chamem amo. as planícies e os rios. quando. perderei o juízo. através das janelas. porque muito freqüentemente ouvi dizer. olhando a sua anfitriã. senão pudesse sair todas as ocasiões que quisesse.—Aquele Senhor. Coloca no pescoço um broche que pendia do cachecol. A seguir sente desejo de ir ver o que há na torre. —Farei de bom grado. 8008-8109) —Por Deus. que se lhe ouço falar mais. Têm que residir aqui dentro e não sair fora. e a você. Saiba bem que viver sete dias aqui encerrado.

de que estava zangado por algo. nem de ver o prazer de seu rosto. Ela. aqui embaixo ou lá encima. indignado como estava. porque mudará totalmente. —Neta. muito desconcertada. porque não me disse. que ia prazerosamente. Não sei lhe dizer por que razão. que um não pude deixar de escutar suas palavras. ao notar que tinha mudado a voz e a postura. mas não se atreve a manifestá-lo e lhe diz: —Senhor. minha senhora virá vê-lo. . não me preocupa a comida. se alimento-me ou regozije-me.Volta abaixo e entra de novo no palácio. antes de que receba novas que permitam me alegrar. pois. senhora e honrada rainha! Morta estou de dor e angústia por causa do bom senhor. pois muita falta me faz ouvi-las. Não lhe pode tirar palavra. Por muita tristeza que sinta. acredito que preferia estar morto. volta-se para porta. A donzela. encontrei-o muito afável e falando tão alegremente. Não o conheço e não me atrevi a perguntar-lhe. Mal aventura caia sobre mim. em que situação e em que disposição encontra-se o bom senhor que Deus nos enviou? —Ah. Posso dizer-lhe que hoje. outra rainha. por seu aspecto. o generoso. a primeira vez. Então a rainha dirigiu-se ao palácio. eu a tirarei e em seu lugar lhe darei alegria. que não seja de tristeza e de indignação. levanta-se. Agora. está muito diferente. Quando meu senhor Gauvain a vê. e tudo o zanga. e comerão onde queiram. Com ela. Meu senhor Gauvain lhe responde: —Formosa. deu-se conta. e avisa-a imediatamente. de repente. e a rainha a chama e lhe pede notícias: —Formosa neta —diz a rainha—. assim que me veja. quando lhe agradar. A comida já está preparada. Muito indignado e pensativo senta-se outra vez no leito com a cara muito triste e sombria até que retorna a donzela de antes. não se preocupe.

senhora. porque quero sabê-lo. quando não admite o mérito dos melhores. Mas. —E é você. é muito cortês o que lhe ouço dizer. vestia seda matizada. na verdade sou. que lhe chegavam até as ancas. não ousaria dizer que sou um dos mais famosos. seu coração (porque o coração freqüentemente adivinha) disse-lhe que era a rainha da qual tinha ouvido falar. senhora. mas não acredito estar entre os piores. E lhe responde: — Gentil senhor. Assim que meu senhor Gauvain viu vir à rainha. mas bem o pôde adivinhar porque tinha as tranças brancas. Diga-me se for um daqueles da Távola Redonda. — Acredito-lhe. —Diga-me seus nomes. meu senhor Gauvain adiantou-se para ela e ambos saudaram-se. que são os mais famosos do mundo? —Senhora —respondeu ele—. por acaso.levavam consigo duzentas e cinqüenta donzelas e outros tantos pajens pelo menos. eu sou a senhora deste palácio. depois de você. Ao vê-la. 8110-8194) —Senhor. não me incluo entre os melhores. que têm feito tantas façanhas? —Não. nem a desonra de estar entre os piores. entrego-lhe o senhorio porque ganhou isso. E lhe disse: (VS. é do exército do rei Artur? —Sim. com flores de ouro de trabalho fino. um dos cavaleiros sentinelas. diga-me quantos filhos teve o rei Lot de sua esposa? —Quatro. Mas. . que na mão levava a outra. branca. senhora.

senhora. vêm e partem todos os bens. se tiver cem anos. muito sensatos e muito corteses. mas. —A minha fé. tão bela e tão discreta. senhora. O outro também se chama Yvain. Não sem razão. E bem justo é que o seja. Desde que Deus formou à primeira mulher da costela de Adão. não tem. não houve dama tão famosa. e vence a todos os cavaleiros que fazem batalha com ele. Sabe bem o que vale cada qual e o que deve fazer a cada um para contentá-lo. dos punhos fortes. Valha-me Deus. —Senhora. e os outros dois chamam-se Gaheriet e Guerehés. Oxalá estivessem todos agora aqui conosco! Mas. o orgulhoso. ainda queria que me falasse. ensina e instrui todo mundo. porque do mesmo modo que o sábio professor doutrina aos meninos pequenos. Senhor. como só é seu meio-irmão. tão sensato e tão cortês o encontro. nem pode ter mais. conhece o rei Urién? —Sim. chama-se Yvain. São muito valentes. Não existe homem tão desventurado que se separe . mais ligeiro e mais forte. do estado e condição da rainha. Na manhã que posso vê-lo.—Senhora. e como se encontra agora o rei Artur? —Melhor que nunca. parece-me. —Tem na corte algum filho? —Sim. o maior é Gauvain. minha senhora. nem honras. que jamais fez Deus lei. a rainha. assim se chamam. Ninguém se separa dela desaconselhado. fico todo o dia contente. diga-me. O seguinte Agrevain. mais são. porque o rei Artur é muito menino. Ambos estão na corte. Dela procedem. nem língua. Ninguém faz benefícios. o cortês e o bem criado. Por último. dois muito famosos: um se chama meu senhor Yvain. senão lhe pesar. na qual se encontre tão formosa dama. é ela na verdade tão cortês. — Gentil senhor —disse ela—. sem havê-lo aprendido de minha senhora. o Bastardo. A rainha acrescentou: —Sim.

outros sem cabelos brancos. nada me importava. —Senhor —disse a rainha das brancas tranças—. —Senhora. ou meia. tinham: uns o cabelo branco. Se o preferir. pois. acenderam-se grossas tochas. 8195-8277) —Passa-se o mesmo comigo. que amavelmente lhe serviram a comida. por aquele Deus que me fez nascer. nem bigode. senhor. A comida não foi breve. Nenhum cavaleiro que logo ao sentar-se. triste. aqui comerei. partiu a rainha e deixou suas donzelas. o tempo em que se demora de percorrer uma légua. pois me hão dito que aqui nunca se sentou cavaleiro para comer. Durante a comida . e não lhes acabará nunca. porque antes de lhe ver. —Não. senhora —diz ele—. dobrar-lhe-ão suas alegrias e constantemente crescerá seu prazer. coma quando lhe agradar e onde mais vocês goste. Está contente e alegre. senhor.de minha senhora. senhor? —Bem acredito. um destrinchando e o outro lhe dando o vinho. ou se lhe agradar mais. —Senhora. lá embaixo às câmaras. serviram-no e atenderam-no em tudo que ele desejou. que comeram com ele no palácio. Os pajens. pois durou mais que o que dura o dia nos arredores de Natal. —Dou-lhe de muito grado. por nenhuma câmara trocaria este palácio. outros grisalhos. Cinqüenta formosas donzelas. ou que seguisse com vida. coma aqui em cima. Meu senhor Gauvain fez sentar a seu lado seu anfitrião. Então. E agora estou o mais alegre e contente que poderia estar. Dois destes últimos estavam ajoelhados diante dele e o serviam. de tão triste e doído como estava. e a comida está preparada. Outros não tinham nem barba. Será o primeiro cavaleiro que aqui tenha comido. (VS. Antes de que acabasse já era noite fechada e escura. se der-me licença.

Uma das donzelas lhe pôs um travesseiro debaixo da orelha para que dormisse mais confortável. senhora. eis aqui que chegam. levantou-se já seu senhor? —Sim. e. já faz um momento. que tanto queriam. Naquele momento a rainha levanta-se. senhoras. se Deus quiser. aproximem-se desta janela. —Grande prazer. quero ir com ele. a valiosa. a nobre. até que o encontra na janela de uma torre. Todos trabalharam em excesso. hoje só terá bem. e que seja alegre e contente. as duas rainhas juntas. se lhes agradar. Encontram. deitou-se no Leito da Maravilha. Quando quis dormir. GAUVAIN E GUIROMELANT Ao despertar pela manhã encontrou preparadas roupas de arminho e de seda. que comece bem o dia. pela fé que me deve. pelo outro lado. Esteve presente Clarissant.conversou-se muito e na sobremesa também. (VS. a discreta e de fala elegante. —Senhor —dizem as duas rainhas—. desejava estar com ele. Cedo chegou o barqueiro do qual lhes falei. Enquanto estava olhando-os. Mas. pois. a formosa. em dar muita alegria a seu senhor. houve muitas danças e bailes. 8278-8367) —E onde está. Digam-me . vestir-se e lavar as mãos. doce neta? —Senhora. Isto lhe conceda o glorioso Pai que de sua filha fez sua mãe. foi à torre. prazer e alegria. Antes de deitar-se. de onde olhava uma donzela e um cavaleiro completamente armado que foram por um prado. e não sei se desceu. —Neta. Logo foi às câmaras da rainha sua avó. a qual lhe disse e lhe perguntou: —Neta. dê-lhes Aquele que à terra enviou seu Filho para enaltecer a cristandade. nas janelas meu senhor Gauvain e seu anfitrião. e o fez levantar.

a primeira coisa que lhe pediria é que me dissesse seu nome. Então desceram da torre. —Dir-lhe-ei isso sem demora —disse a dama olhando-os. se não tivesse proibido isso. Deixe-o fazer o que lhe pareça. —Senhor. —Ah. bondosa rainha! Desgosta-me muito. e peço-lhe licença. neste porto. se Deus lhe conservar a vida. dar morte à vários cavaleiros. voltarei. —Como. Se Deus quiser. Que mau fogo consuma. —Deixar-lhe-ei sair. senhora! —disse o barqueiro—. mas a condição de que. que tampouco. porque é muito altiva e perversa. pois lhe vi. que se puder. Mal pago me teria neste palácio se não pudesse sair dele. Não agrada a Deus que eu esteja aqui muito tempo prisioneiro. Batalhar com ele não é um jogo.quem pode ser a donzela que vai por ali com um cavaleiro. não agrada a Deus. se não nos querem fazer injustiça. se lhe convier assim. Deixe esta donzela irritante que faça o que queira. abster-me-ei disso —diz a rainha— Não quero provocar seu desgosto. valoroso por cima de todos. é a que ontem a tarde veio com você até aqui. não se preocupe —disse ele—. mas. Porque daqui não devem sair nunca. pois —disse a rainha—. Não o detenha contra sua vontade. embora seja. Rogo-lhes. não sairão deste palácio para empresa tão vadia. —Senhor. Correram os pajens trazendo suas armas para que as . volte aqui nesta mesma noite. que leva um escudo aquartelado. se me queira conceder: se não se zangar. ocupem-se do cavaleiro que a acompanha. —Senhora. quero falar com esta donzela. não se ocupem mais dela. saibam sem dúvida alguma. que poderia morrer de dor. —Senhora —diz ele—. que lhe dê licença para seu mau. Mas lhe peço e solicito um dom. não pergunte meu nome antes de sete dias.

E a donzela responde: —Não. diga-me se conhece este cavaleiro que armado vem para nós. 8368-8455) E o outro cavaleiro diz à donzela sem piedade: —Amiga. Gauvain aproximou-se. Tive grande temor de que me escapasse. derrubando-o ao chão. o cavaleiro espeta o cavalo. Só lhe afundou no corpo um dedo da extremidade da ponta. que atravesse os desfiladeiros de Galvoya eu o veja. mas. nascido de mãe. e tiraram seu cavalo. Meu senhor Gauvain tomou a fiança e a entregou ao barqueiro. Entram os dois no barco e navegam com vigor até chegar à outra margem. logo depois fatigou-se tanto. desembarca. acompanhado pelo barqueiro. Sem prévio desafio. que o ferro não pôde atravessá-la. Atacou-o com a espada. saudou-a e lhe disse: . Não há cavaleiro. Dá-lhe tão brusco. meu senhor Gauvain. porque tinha tão bem posta a armadura. encontre-o frente a frente. Subiu já completamente armado e dirige-se ao porto. não estava ferido de morte. E a perversa donzela tinha desmontado de seu cavalo. Do momento que Deus o põe diante disso. nem prévia ameaça. Levantou-se e viu com pesar o sangue que do braço e o flanco corria-lhe pela branca armadura. mas sei bem que é o que ontem me trouxe até aqui. mas. que a esperava. será preso e retido. que o fere no braço e no flanco muito gravemente. E ele replica: —Valha-e Deus. que não procurava outro. abraça o escudo e arremete.colocasse. que possa envaidecer-se em algum sítio de ter retornado deste país. que não pôde sustentar-se mais e teve que ficar a mercê. Meu senhor Gauvain dirige-se à ele. (VS. na qual.

quando vemos nosso senhor ir para a morte e para a desgraça? A perversa donzela. fazia por mim meu amigo. se for até ali. desventuradas infelizes! Desventuradas! Por que seguimos vivas. não deixarei de fazer sua vontade. e já não lhe teria mais por covarde. Suas bravatas se desvaneceriam agora. porque Deus nos enviou a quem sabia de tudo bem. ela na frente e ele atrás. rompem-se e rasgam os vestidos. sempre que eu queria. que vou atravessar. mas virá comigo além deste rio. Caminham. Uma vez ali. Assim se doíam elas por seu senhor. Reconheça a verdade: crê valer mais que ele por havê-lo derrubado? Freqüentemente terão visto que o fraco derruba ao forte. nem nenhuma outra virtude. a quem não faltava a valentia. —Donzela —diz ele—. então confessaria sinceramente que você vale tanto como ele.—Monte de novo. —Ah. Se deixar este porto. 8456-8552) —Ah. não zombaria tanto e estaria mais esmagado que se tivessem dado cheque-mate na esquina do tabuleiro. porque não penso em deixar-lhe aqui. cavaleiro! —disse ela —. Ele e ela chegaram à árvore. Desventuradas! Tem cansado a aflição sobre quando nos considerávamos nascidas em tal fortuna. e dizem: (VS. como faz agora o altivo! Muito teria que lutar se meu amigo não estivesse fatigado por antigas feridas que recebeu. As donzelas e as damas do castelo arrancamse os cabelos. que viam ir com a perversa donzela. ah. conduz-o e o leva ali de onde nenhum cavaleiro retorna. formosa amiga. vir comigo àquela árvore e ser capaz de fazer uma coisa que. que colocou no barco. E ela disse: —Queira Deus que não lhe veja voltar. meu senhor Gauvain interpelou-a dizendo: . a mal nascida.

Então meu senhor Gauvain precisou desmontar. e diante dele corriam pelo prado dois cães de caça. que o que pudesse passar a água profunda do Vau Perigoso alcançaria o maior mérito do mundo. passa por nada do mundo. mas o leito do rio era estreito. ficou quieto e tranqüilo. senão for muito valente. faz-o e a investe para que se enxugue. se puder. Recorda que tinha ouvido dizer e contar em muitas ocasiões. e logo volta acima dela galopando para saltar do outro lado. formosa! Temo que não seja possível. Porque o farei. Esforçou-se tanto em saltar que conseguiu alcançar a outra margem. —Já sabia que não ousaria—disse a donzela—. Afasta-se então da borda. não sei por onde é melhor. diga-me se agora já estou livre. Então meu senhor Gauvain empurra seu cavalo até a borda. Quando lhe tirou o penacho. nunca imaginei que tivesse bastante coração para se atrever a passar. dos flancos e das patas. sem poder mover-se mais. pensa que seu cavalo tinha saltado sarjetas maiores. até que viu um cavaleiro que estava sozinho caçando com um gavião. com intenção de tirar a sela. Logo coloca a sela e vai a caminho. Quando meu senhor Gauvain o vê. porque notava que seu cavalo estava muito débil. E a donzela lhe disse logo: —Vê ali uma passagem entre as duas margens inclinadas? Meu amigo costumava passar. Desce em seguida. O cavalo ficou nadando até encontrar terra com as quatro patas. que era muito alta. secou-lhe a água do dorso. É este o Vau Perigoso. O cavaleiro .—Formosa. Certo. que ninguém. ou agrada-lhe que faça algo mais. mas não tomou bem o salto e caiu no meio do vau. —Ah. antes de alcançar sua graça. pois por toda parte a borda é muito alta e não se pode descer por ela. vê abaixo a água muito profunda e a borda muito inclinada. Uma vez ali.

era mais formoso que o que pode dizer alguma boca. Meu senhor Gauvain aproximou-se, saudou-lhe e disse: —Gentil senhor, aquele Deus que lhe fez formoso sobre toda outra criatura, dê-lhe gozo e boa ventura. E ele respondeu com presteza: —Você é bom, nobre e gentil; mas diga-me, senão o contrariar, como deixou sozinha na outra margem a perversa donzela? O que fez de sua companhia? (VS. 8553-8640) —Senhor —disse ele—, quando a encontrei acompanhava-a um cavaleiro que levava um escudo. —E o que fez? —Venci-o com as armas. —O que aconteceu com o cavaleiro? —O barqueiro o levou. Diz que tem direito sobre ele. —Certo, bom irmão, diz a verdade. A donzela foi minha amiga, mas eu não fui para ela, porque não se dignou me amar, nem quis me chamar nunca amigo; e se alguma vez a beijei, foi por força, prometo-lhe isso. Nunca fez nada em meu favor, mas eu a amava a pesar disso. Privei-lhe de um amigo dela que estava acostumado a ir em sua companhia; matei-o e levei-a; esforcei-me muito em servi-la. Todavia meu serviço não serviu de nada, pois, assim que pôde, procurou ocasião para me deixar e fez seu amigo àquele a quem recentemente tirou-a, que não é um cavaleiro desdenhável, é muito valente, me valha Deus; mas não até o ponto que depois ousasse ir aonde pudesse me encontrar. Você fez hoje uma façanha que arreda todo cavaleiro. Como atreveu-se empreendê-la conquistou com seu valor, o mérito e a fama do mundo. Grande valentia supõe-se para ter saltado o

Vau Perigoso, e tem que saber que jamais o conseguiu nenhum cavaleiro. —Senhor —disse ele—, assim, pois, mentiu-me a donzela, quando me disse e me fez acreditar como coisa certa que, por seu amor, seu amigo o passava uma vez ao dia. —Disse-lhe isto, a renegada? Ah! Oxalá se asfixiasse no vau quando disse este embuste, pois está cheia de diabos! Não pode negar que o odeia e queria que se afogasse na água rumorosa e profunda, este diabo que Deus confunda. Mas agora nos prometamos mutuamente o seguinte: se você quer me perguntar algo, seja de minhas alegrias, seja de minhas penas, eu por nada do mundo esconderei a verdade, se souber; e você também me dirá, sem mentir em nada, tudo que eu queira saber, se pode me dizer a verdade. Feita por ambos esta promessa, meu senhor Gauvain começa a perguntar primeiro: — Senhor, pergunto qual é e como se chama uma cidade que ali vejo. —Amigo —responde ele—, posso dizer muito bem a verdade desta cidade, porque é tão absolutamente minha, que só depende de mim e só a Deus devo dar conta dela. chama-se Orquelenes. —E você como se chama? —Guiromelant. — Senhor, ouvi dizer que é muito nobre e muito valente; dono de muitas extensas terras. Mas, como se chama esta donzela, da qual, nem perto, nem longe se conta nenhuma boa nova, como você mesmo testemunha? —E também posso testemunhar —responde ele— que é muito temida, porque é perversa e desdenhosa. Por isso se chama a Orgulhosa de Logres, pois ali nasceu, e muito pequena colocaram-na aqui. (VS. 8641-8723)

—E como se chama seu amigo, aquele que, de bo grado, ou por força, foi-se prisioneiro com o barqueiro? —Amigo, saiba que este maravilhoso cavaleiro chama-se o Orgulhoso da Rocha do Estreito Caminho, e guarda os desfiladeiros da Galvoya. —E como se chama este castelo tão alto, forte e belo que há no outro lado, do qual eu venho hoje e no qual ontem à noite comi e bebi? Ao ouvir isto Guiromelant mudou como homem, transtornado começou a partir. E Gauvain o chamou: —Senhor, senhor, responda-me. Lembre-se de sua promessa. Guiromelant deteve-se, virando a cabeça disse: —Desventurada e maldita seja a hora em que o vi e dei-lhe minha confiança. Vá, dispenso a promessa e você me dispensa disso; porque eu queria perguntar novas dali, mas você, pelo que vejo, sabe tanto do castelo como da lua. —Senhor —disse ele—, ontem à noite estive ali e deitei-me no Leito da Maravilha, que não se parece com nenhum, pois nunca se viu outro igual. —Por Deus —diz ele—, surpreende-me muito as novas que me dá. Agora me deleita e me diverte ouvir suas mentiras, e escuto como escutaria os contos de um narrador mentiroso. Vejo que você é um trovador. Imaginava que era um cavaleiro e que ali tivesse feito alguma façanha. Não obstante, faça-me sabedor de alguma das proezas que fez e de algo que ali viu. E meu senhor Gauvain lhe diz: —Senhor, quando me deitei no leito desencadeou-se no palácio uma grande tormenta. Não creia que lhe minto: as cordas do leito gritaram e soaram umas campainhas que delas pendiam; as janelas, que estavam fechadas, abriram-se por si só; dardos e flechas afiadas atingiram meu escudo. Nele estão ainda aderidas as garras de

muito deslocado por sua necessidade. veja ainda as garras aqui. ocorreu que a rainha. que foi mulher do rei Lot e mãe daquele que oxalá tenha sempre desgraça. lançou-se sobre mim e tão fortemente arremeteu em meu escudo que se aderiu a ele com as unhas e não pôde desprender-se. Yguerna. feroz e cabeludo leão que durante muito tempo estivera encadeado sob uma abóbada. sobre aquela rocha edificou o castelo e o palácio tão rico e formoso como lhe ouvi descrever. 8724-8822) —Pela fé que devo a Deus e a suas virtudes! O rei Artur. porque a cabeça. Um vilão o soltou. mas. senhor: é sua mãe. monte de novo. —Declaro-lhe livre de culpa — disse—. seu pai. parece-me que faz uns sessenta anos. conforme acredito. foi enterrado. Quando Uter Pendragon. e disse: —Senhor.disse ele—. quer dizer. —Conheço muito bem ao Gauvain. junta as mãos e roga que lhe perdoe pelo que disse. a vi e falei com ela. a outra senhora. —Pois é certo. —Pois eu lhe direi isso: é a mãe do rei Artur. Estou seguro de que também viu a outra rainha. e de onde procede. Diga-me se viu ali a rainha de cabelos brancos e se lhe perguntou quem é. —Nunca me ocorreu perguntar. Trouxe consigo todo seu tesouro. (VS. O que opina destas amostras? Depois de ouvir estas palavras Guiromelant abaixa-se na terra o mais que pode. cortei junto com as patas. posso dizer que este Gauvain faz . mãe do Gauvain. ou muito mais. cavaleiro que alcançasse a honra que chegou a você. Deus me é testemunha de que não acreditava que houvesse em nenhuma parte.um grande. alta e formosa. gentil senhor. Ele o fez. nem perto nem longe. ajoelha-se. Crê que não se nota. mas. graças a Deus. faz muito tempo que não tem mãe. veio a este país.

concedo-o. Quero que o dê de minha parte. Recompensarei isso dizendo-lhe o nome deste castelo. Na verdade. Ele mesmo o matou com suas próprias mãos um de meus primo-irmão. prometo-lhe que me fará um grande benefício se levar à minha querida amiga meu presente. que estou seguro. de que preferiria que seu irmão Gauvain. têm amiga cortês e discreta. o anel. um cavaleiro valente e nobre. porque a odeio tanto. Saúde minha amiga e dê-lhe este anel de minha parte. mas quando me lembro de como o pai de Gauvain matou ao meu. Então meu senhor Gauvain colocou o anel no mindinho. Nele se . De nada lhe valeria sua irmã. Se eu amasse a donzela ou a dama. Ficou vivendo junto a sua mãe. Jamais pude encontrar ocasião e maneira de me vingar dele. se estiver de acordo com o que hão dito e contado. bela. que me perguntou. porque a amo muito. que com as mãos lhe arrancaria o coração das vísceras. graciosa e generosa. estando grávida de um menino: que é hoje a alta e muito formoso donzela que é minha amiga e irmã. por seu amor amaria e serviria toda sua linhagem. não voltaria com a cabeça sobre os ombros se eu o atacasse e o tivesse tão perto como tenho a você.pelo menos vinte anos que não tem mãe. Mas me faça um favor: quando voltar ao castelo leve a minha amiga este anel e dê-lhe. senhor. —Por minha alma —disse meu senhor Gauvain—. não o duvide. fosse morto de amarga morte. Diga-lhe que tenho tanta confiança e acredito tanto em seu amor. porque imediatamente iria cortá-la. —Têm razão. —É. que sou seu amigo. não posso lhe desejar nenhum bem. pela fé que lhe devo. Chama-se a Rocha de Champguín. antes de que eu me ferisse no dedo pequeno de meu pé. não lhe quero ocultar isso daquele a quem Deus dê a maior afronta. E ele disse: —Senhor. e disse: —Senhor. você não o ama tanto como eu. gentil dama e de alta linhagem.

senhor. e nada me impediria isso. terei reunido amigo por todo meu reino. mas sim. é com . Se você quiser. nem escudo pendente ao pescoço. Eu sou aquele que tanto odeia: sou Gauvain. assim Deus me valha. traria também três ou quatro homens para que presenciassem nossa batalha. mas. Já lhe disse quanto quer. —Você é Gauvain? —Sim. se não lhe pesar. Você. Quer me pedir algo? (VS. Porque uma batalha entre dois que são considerados tão valentes como nós não deve fazer-se encoberta. só sua licença. —A fé raspava. vendem e compram muitas coisas. É muito atrevido ou muito néscio. não levar agora armadura. verdes e sangüíneos e muitos de escarlate. tenha por certo que agora mesmo cortaria sua cabeça. que meu nome não lhe será oculto. e você também me falou muito bem. enquanto isso. terá enviado a procurar o rei. a verão todos os que aqui venham. pode fazer-se de outro modo: esperemos sete dias. antes de que o deixe separar-se de mim. ao me dizer seu nome. Irrita-me e pesa-me muito. diga-me seu nome.tecem tecidos muito bons. E ele disse: —Senhor. porque se estivesse armado como você o está. o sobrinho do rei Artur. iria procurar minhas armas e deveria combater consigo. e o sétimo compareceremos neste lugar armados. Mas se você ousasse me esperar. Eu de minha parte. sem mentir em uma só palavra. assim nossa batalha não se dará às escondidas. E meu senhor Gauvain lhe disse: —Senhor. a rainha e toda sua gente. 8823-8907) —Nada. pois sabe que o odeio de morte.

ali estará a corte. Dou-lhe minha palavra de que o enviarei amanhã. Seu mensageiro poderá encontrar ao rei e a sua gente preparados. —Gauvain —disse ele—. segundo novas que tive. só há duas jornadas. Envia-o. e obrará prudentemente: um dia do prazo vale cem salários. porque o consideraria . Ele disse: —Não vejo que exista nenhuma razão para que não ouse me combater. antes de fechar os olhos. de modo bom e razoável. ou hoje mesmo. sabe toda a verdade. Porque no Pentecostes reunirá o rei Artur a sua corte em Orcania. quero levar-lhe a melhor ponte do mundo. e faz a que pareça: ou me espera aqui. Aqui o rio é muito rápido e profundo para que possa atravessar algum ser vivente e saltar até a outra borda. nem ponte. com muito prazer o repararia. em atenção à seus amigos e aos meus. de bom grado prescindiria de tudo isso. Proponho duas coisas. caso atrever-se. se fosse possível e pediria que não houvesse batalha. ou irá procurar a sua terra. E quando um de nós tiver vencido e saiba todo mundo. 8908-9004) —Por nada que me possa ocorrer procurarei vau. o vencedor terá mil vezes mais honra que se unicamente soubesse ele. e eu irei procurar minhas armas. Meu senhor Gauvain responde: (VS. e se algum dano lhe tenha feito. suas forças. —Senhor —disse meu senhor Gauvain—. sem dúvida alguma. para que estejam aqui dentro de sete dias. até lá.razão que a presenciem damas e cavaleiros em grande número. Responde: —Deus me valha.

porque. pois faz tempo que queria estar morta. não o esconderei. Este cavaleiro. não me incumbe fazer justiça à você. nenhuma donzela que tenha novas de mim ouse afrontar a nenhum cavaleiro. imaginou honrar-me muito. e o cavalo saltou por cima do rio agilmente sem entorpecimento algum. arrendou seu cavalo à árvore e foi para ele a pé. pretendendo atrair-me a seu amor. Agora . que sem pena nem trabalho. de sorte que me destroçasse. Desde que a morte separou de mim meu primeiro amigo. cometeu o engano de pôr em mim seu amor. que jamais evitava discutir com ninguém. que iremos àquela fortaleza. amou-me e eu o odiei. quero dizer isso. Monte agora. Vêem vir as damas e as donzelas que por ele sentiram pena. que falou consigo mais à frente do rio. Logo. escuta por que fui tão altiva com todos os cavaleiros do mundo que me levaram consigo. de tão altivas palavras. e o fazia de propósito. se não se zangar. —Formosa —disse ele—. manterei o que lhe prometi e irei diretamente a ela. Tanto conversaram que mudou seu coração e seu aspecto. Veja o barqueiro no porto. Gentil senhor. Produziu-me grande desgosto ao matar aquele de quem eu era amiga. deixou-os no outro lado do rio. saudou-o muito. tão vil e tão tola. mas de nada lhe valeu. Acrescentou-lhe: —Gentil senhor. não se entretenha. que Deus o amaldiçoe. Todos os pajens do palácio desesperaram-se de dor. porque queria encontrar um que se irritasse e encolerizasse comigo. —Submeto-me totalmente a sua vontade —disse a donzela. Chegaram ao barqueiro. tal que jamais. Em seguida montou na sela de um pequeno cavalo. Espeta então. Não agrada ao Filho de Nosso Senhor que receba de mim dano algum. pois assim que foi possível escapei de sua companhia e uni-me àquele de quem você hoje me privou.uma covardia a vil donzela. Quando a donzela que tanto o tinha criticado com suas palavras o viu atravessar. faça justiça comigo. o qual me importa um cominho. espera-nos para nos levar ali. durante muito tempo fui tão néscia. e lhe disse que lhe devia pedir perdão como culpada das grandes penas que por ela tinha sofrido.

em atenção a ele. Prazerosamente vão ao palácio e ali sentam todos. Como amostra de amor envia-o um cavaleiro que vi. —Senhor —diz ela—. preferiria meu dano que o seu. que é seu irmão. 9005-9096) Meu senhor Gauvain empreende a sua irmã. e diz que é seu apaixonado. Desventurada sou! Meu irmão nem tão somente sabe que eu tenha nascido e nunca me viu. A Rainha. Também festejaram muito a que havia trazido consigo. —Ah. Todos e todas a serviram. Enquanto eles dois falavam assim e as damas estavam pendentes deles. nem eu o vi. é de longe como sou sua amiga. Com alegria desarmam suas pernas. Cantam. por minha alma. os braços. Faz já tempo que mereci que me desse seu amor. Iniciam-no assim que ele chega e colocam-no entre elas. bem acredito. Por Deus. não sou ainda sua amiga. fez que as donzelas agarrassem as mãos para dançar e manifestar grande júbilo. as donzelas e as duas rainhas o abraçam e lhe falam com grande entusiasmo. pois nunca me viu. cuja esmeralda é muito verde. a não ser através deste rio. que.sua alegria é tal. que jamais houve outra maior. suas mensagens me insistiram tanto que não lhe mentiria se lhe dissesse que lhe entreguei meu amor. não acreditava que fora tão mal criado. dançam e dançam. (VS. —Como. Muito imprudente foi ao me fazer chegar tal mensagem. a velha . formosa! Ele se envaideceu que preferiria muito mais a morte de meu senhor Gauvain. o torso e a cabeça. mas se de algum modo o amo. senhor! Admira-me muito que diga tão grande loucura. porque por ela não fariam nada. senta-a a seu lado no Leito da Maravilha e lhe diz baixo em segredo: —Donzela. Não é certo o que Guiromelant há dito. e embora jamais veio aqui. que estava sentada diante do palácio esperando-o. a que ele recebesse mal nas juntas. As damas. de mais à frente do porto trago-lhe um anel de ouro. não obstante.

pois eu sou Gauvain. a meu senhor o rei Artur. Com sua prece pretende a dama que a ame e tome por esposa. e a mãe terá uma alegria distinta da que agora espera. (VS. mas ela não tinha reconhecido a seu filho: serão como irmão e irmã. Quando meu senhor Gauvain falou com sua formosa irmã. leal e serviçal. Se o confiar meu segredo. para a mais formosa e mais discreta que há neste palácio. e é razoável. o que lhe parece do senhor que está. encomendo-o muito que o guarde porque terá proveito. o mais prudente e mais capaz de todos os que havia na sala. Com ele sozinho detrás da baixa câmara. Deus obre em seu coração de sorte que sejam como irmão e irmã. que lhe pareceu mais veloz. minha neta? _Grande momento – falou-lhe em voz baixa-. Oxalá se casasse com ela e gostasse tanto como Lavinia a nós! —Ah. que estava sentada a seu lado: —Formosa filha. voltou-se e chamou um pajem que viu a sua direita. e seria injusto que isso nos zangasse. seu . e que se amem tanto um ao outro. e quando estiveram dentro lhe disse: —Pajem. muito sensato e muito acordado.rainha disse a sua filha. mas me agrada. pois. —Senhor. irá. Quero enviá-lo a um lugar onde será recebido com grande alegria. suponho-o muito leal. 9097-9188) —Irmão —disse ele—. sentado ao lado de sua filha. pois sua magnanimidade o atrai. e entre eles não existirá outro amor quando um e outro saibam que são irmãos. não sei do que. preferiria que me arrancasse a língua da garganta antes de que me saísse da boca uma só palavra que você quisesse que calasse. senhora! —disse a outra rainha—. que sejam ambos uma mesma carne.

que está muito bem equipado. irá a meu cargo. embaixo desta torre. porque o rei estabeleceu sua corte na cidade de Orcania. mas assim que o cumprimente de minha parte. A Rainha ordenou que fizessem . um dos quais estava arreado para cavalgar e caminhar. acampado no prado. Responde que tem um grande. Quando chegar ante o rei. é meu senhor e eu sou seu vassalo. terá grande alegria. porque tenho uma batalha consertada com um cavaleiro que acredita que nem ele. nem freios. —Não me desagrada —diz ele. onde descansa com grande alegria e grande distração. nem difícil. valemos nada: trata-se de Guiromelant. pela fé que me deve. o pajem empreende o caminho mais reto para a cidade da Orcania. Mas temo muito uma coisa: que não tenha um bom cavalo que o leve logo até lá. Assim envia ao pajem. Tira um corcel forte e repousado. pois é minha senhora e minha amiga. não deixará de levar. no quinto dia da festa. Meu senhor Gauvain volta para seu palácio. pajem—disse meu senhor Gauvain—. que o levará como se fosse seu. O infatigável barqueiro o fez passar. forte e bom. pois tinha muitos remadores. Vai agora. —A minha fé. À rainha dirá o seguinte: que venha pela grande fé que deve existir entre ela e eu. Que lhe acompanhe gente elevada e fina que em sua corte se reuniu. pois. Uma vez na outra borda. O caminho não é longo. Se a viagem até ali custa-lhe muito. por meu amor. para celebrar Pentecostes. às damas e às donzelas que naquele dia estejam em sua corte.sobrinho. voltar e seguir o caminho direito. que acompanha até o rio e encarrega o barqueiro que o leve na outra borda. encontra-lo-á muito pesaroso. Nenhum só dos que ouçam a nova deixará de estar contente. Imediatamente o pajem leva-o a um estábulo. Quando souber estas novas. pois o que sabe perguntar o caminho pode ir por todo mundo. veloz. que sob nenhum pretexto deixe de encontrar-se. porque todos o amam e lhe servem. Dirá ao rei que. nem eu. que me odeia mortalmente. tinha sido ferrado recentemente e não lhe faltava sela. que o Senhor dos reis conceda-lhe ir.

cem reis e cem duques. Confeccionaram vestidos já preparados. viu-se acompanhado. Uma dama. consternados e transtornados porque perdemos àquele que. rodeou-lhes a espada e deu-lhes pancadas nas costas. Os pajens velaram no monastério até depois das matinais. pois está cheio de pena e de irritação. encontrara-lo-a mudo e surdo. 9189-9234) O pajem cavalgou até chegar à cidade de Orcania. via a dor que reinava na . todos correram a sustentá-lo. sustentava-nos e de quem nos chegavam todos os benefícios por amor e por caridade. por toda a cidade. angustiado caiu desvanecido. meu senhor Gauvain. Os contrafeitos e quão sarnentos vêem o pajem. até que encontrou o rei sentado em seu palácio. em nome de Deus. como correspondia à festividade. quem lhes chama a opinar sobre os conselhos do rei? Todos deveriam estar atemorizados. Assim. quando saíram do banho.estufas e esquentassem banhos em quinhentas cubas. Lore. Então. O rei estava sombrio e pensativo ao contemplar seu grande batalhão e não ver entre eles seu sobrinho. As roupas estavam tecidas com ouro e as peles eram de arminho. Fez entrar nelas todos os pajens para que se banhassem. Diga o que disser ao rei. de pelo menos quinhentos cavaleiros novos. Não era vagaroso o que primeiro foi levantá-lo. E quem será capaz de lhe aconselhar quando tiver ouvido o que o mensageiro lhe comunica? —Ora! —dizem outros—. Acredito que traz para a corte novas e mensagens de longe. com suas próprias mãos. (VS. que muito o amavam. sempre de pé e sem ajoelhar-se. Pela manhã. O pajem segue adiante. onde o rei celebrava a corte. depois. dizem: —Este vem muito apurado. a seu redor sentavam-se cem condes paladinos. calçou cada um a espora direita. que estava sentada em uma galeria. lamentavam a meu senhor Gauvain os pobres.

sala. Desce da galeria e vai à rainha como transtornada. Aqui se interrompe O Conto do Graal . Quando a rainha a viu. perguntou-lhe o que lhe ocorria.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful