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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS


DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

RAYANI RAMPINELLI LOUREIRO

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE


ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO
ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO
PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO
INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

VITÓRIA
2009
RAYANI RAMPINELLI LOUREIRO

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE


ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO
ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO
PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO
INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

Trabalho de Conclusão de Curso Apresentado ao


Departamento de Serviço Social do Centro de
Ciências Jurídicas e Econômicas da
Universidade Federal do Espírito Santo, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Bacharel em Serviço Social.
Orientadora: Profª Msª Andréa Monteiro Dalton.

VITÓRIA
2009
Loureiro, Rayani Rampinelli.

O Serviço Social inserido nas políticas voltadas à criança e ao adolescente: um estudo a


partir do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do município de Vitória-ES /
Rayani Rampinelli Loureiro – 2009.

159 f.

Orientadora: Profª Msª Andréa Monteiro Dalton.

Trabalho de Conclusão de Curso – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de


Ciências Jurídicas e Econômicas.

1. Contexto sócio-histórico das Políticas Sociais voltadas à Criança e ao Adolescente no


Brasil. 2. Contexto sócio-histórico do Serviço Social inserido nas Políticas voltadas a Criança e
ao Adolescente no Brasil. 3. Contexto sócio-histórico do Programa de Erradicação do Trabalho
Infantil inserido no Município de Vitória-ES. 4. O Serviço Social no Programa de Erradicação do
Trabalho Infantil do Município de Vitória-ES. I. Loureiro, Rayani Rampinelli. II. Dalton, Andréa
Monteiro (or.). III. Título.
RAYANI RAMPINELLI LOUREIRO

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE


ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO
ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO
PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO
INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

Trabalho de Conclusão de Curso Apresentado ao Departamento de Serviço Social do Centro de


Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial
para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social.

Aprovada em 10 de Julho de 2009.

COMISSÃO EXAMINADORA

__________________________________________________
Profª Msª Andréa Monteiro Dalton
Universidade Federal do Espírito Santo
Orientadora

___________________________________________________
Profª Msª Juliana Iglesias Melin
Universidade Federal do Espírito Santo

__________________________________________________
Vanessa Ferreira Lopes
Assistente Social do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) de
Vitória/ES
AGRADECIMENTOS

À Deus, que me deu toda a sabedoria, trilhou os meus caminhos e me fez encarar
as dificuldades e os desafios frente a mais uma conquista da minha vida.

À meus pais, Regina Aparecida Rampinelli Loureiro e Joceilton Rocha Loureiro, que
são os grandes amores da minha vida, que sempre estiveram ao meu lado em todas
as situações, momentos de alegria, de tristeza, conquistas e incertezas, que
confiaram em meu potencial e nunca desistiram de lutar pela minha felicidade.

À meu irmão, Renan Rampinelli Loureiro. Grande amigo e companheiro que


acreditou em mim e me ajudou nos momentos de desespero com palavras de apoio
e confiança que me deram coragem para enfrentar as dificuldades que surgiram.

À Joyce Caroline, pessoa muito importante na minha vida que se fez presente e não
mediu esforços para me ajudar nessa fase de conclusão de curso. Sou grata a essa
grande mulher por acreditar na minha capacidade, por sua compreensão e toda
atenção dispensada a mim.

À minha amiga, Thatiane Trajano da Silva, que sempre esteve ao meu lado, desde o
primeiro período do curso, me incentivando e me levantando nos momentos mais
difíceis. Que nossa amizade se perpetue.

À Profª Msª Andréa Monteiro Dalton, que me orientou neste trabalho de conclusão
de curso com toda atenção necessária e confiança. Considero-a uma excelente
profissional que realiza seu trabalho na Universidade com muita competência e
dedicação.

Aos profissionais e estagiários do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil


(PETI), que fizeram parte e foram pessoas de fundamental importância para minha
formação profissional.
À todos os professores do Departamento de Serviço Social e outros, que durante a
graduação lecionaram e deixaram sua contribuição para minha formação.

Agradeço imensamente a aceitação da Assistente Social do Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil, Vanessa Ferreira Lopes, e a aceitação da Profª Msª
Juliana Iglesias Melin em compor a banca de avaliação do meu trabalho de
conclusão de curso juntamente com minha orientadora Profª Msª Andréa Monteiro
Dalton.

Por fim, a todos aqueles que fizeram parte e contribuíram para minha formação
profissional e pessoal durante a graduação.

Rayani Rampinelli Loureiro


RESUMO

Este trabalho analisa o processo de trabalho do Serviço Social no Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do município de Vitória-ES, tendo em vista
que este se desenvolve pautado no Estatuto da criança e do Adolescente (ECRIAD)
e, portanto, na política de atendimento preconizada nesta Lei. Para compreender o
trabalho do Serviço Social dentro deste Programa, foi necessário contextualizar
sócio-historicamente as políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no
Brasil; contextualizar sócio-historicamente o Serviço Social inserido nestas políticas;
contextualizar a implementação do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no
município de Vitória; e, analisar o Serviço Social neste Programa. Para o
desenvolvimento do trabalho, que teve como referencial teórico o método crítico
dialético, realizou-se uma pesquisa qualitativa, exploratória, bibliográfica,
documental e de campo. Através do estudo realizado no Programa da Erradicação
do Trabalho Infantil do Município de Vitória, constatou-se que, assim como a política
de atendimento voltada à criança e ao adolescente no Brasil, o processo de trabalho
do Serviço Social sofre diversos rebatimentos do sistema vigente.
Palavras-chave: Serviço Social. Processo de trabalho. Políticas de Atendimento à
Criança e ao Adolescente. Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI).
LISTA DE SIGLAS

ABESS - Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social

AI-5 - Ato Institucional nº. 5

CadÚnico - Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal

Cajun - Projeto Caminhando Juntos

CBIA - Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência

CFAS - Conselho Federal de Assistentes Sociais (hoje CFESS)

CMET - Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil

CMETI - Comissões Municipais e Estaduais de Erradicação do Trabalho Infantil

CNAS - Conselho Nacional de Assistência Social

COMASV - Conselho Municipal de Assistência Social

Competi - Comissão Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil

CONANDA - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente

CONCAVI - Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Vitória

CRAS - Centro de Referencia da Assistência Social

CREAS - Centro de Referencia Especializado da Assistência Social

ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente

ECRIAD - Estatuto da Criança e do Adolescente

FEPETI - Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil

FINSOCIAL - Fundo de Investimento Social

FUNABEM - Fundação Nacional do Bem Estar do Menor


GCA - Gerência de Proteção da Criança e do Adolescente

IPEC - Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil

LBA - Legião Brasileira de Assistência

LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação

LOAS - Lei Orgânica de Assistência Social

MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário

MDS - Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

ME - Ministério do Esporte

MEC - Ministério da Educação

MNMMR - Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua

MPT - Ministério Público do Trabalho

MS - Ministério da Saúde

OIT - Organização Internacional do Trabalho

ONG - Organização não Governamental

ONU - Organização das Nações Unidas

PBF - Programa Bolsa Família

PETI - Programa de Erradicação do Trabalho Infantil

PMV - Prefeitura Municipal de Vitória

PNAS - Política Nacional de Assistência Social

SAM - Serviço de Assistência ao Menor

SEMAS - Secretaria Municipal de Assistência Social


SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

SESI - Serviço Social da Indústria

SETADES - Secretaria de Estado do Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social

SOSF - Serviço de Orientação Sócio-Familiar

SUAS - Sistema Único de Assistência Social

TEM - Ministério do Trabalho e Emprego

UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância (em inglês United Nations
Children's Fund)

UNIS - Unidade de Internação Sócio-Educativa

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...........................................................................................................13

1 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DAS POLÍTICAS SOCIAIS VOLTADAS À


CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL........................................................19

1.1 - AS PRIMEIRAS FORMAS DE ASSISTÊNCIA E POLÍTICAS DE


ATENDIMENTO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: A LEI DO VENTRE
LIVRE, A RODA DOS EXPOSTOS E A PERSPECTIVA CARITATIVA E
FILANTRÓPICA ........................................................................................................19

1.2 - AS DOUTRINAS LEGAIS NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO


BRASIL.......................................................................................................................30

1.2.1 - O Código de Menores de 1927.....................................................................30

1.2.2 - O Código de Menores de 1979.....................................................................41

1.2.3 - O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD)...................................49

2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS


POLÍTICAS VOLTADAS À CRIANÇA E AOS ADOLESCENTES NO BRASIL......58

2.1 - A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL E A INTERVENÇÃO PROFISSIONAL


NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO BRASIL...................................58

2.2 - O PROCESSO DE RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO


BRASIL.......................................................................................................................72

2.3 - O SERVIÇO SOCIAL NA ATUALIDADE: DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA


ATUAÇÃO PROFISSIONAL A PARTIR DOS ANOS 90 COM O ESTATUTO DA
CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E O FORTALECIMENTO DO PROJETO ÉTICO-
POLÍTICO PROFISSIONAL.......................................................................................81

3 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO


TRABALHO INFANTIL (PETI) INSERIDO NO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES..........92

3.1 - O PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL


(PETI).........................................................................................................................92
4 O SERVIÇO SOCIAL NO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO
INFANTIL DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES...........................................................108

4.1 - TEMPO DE TRABALHO, VÍNCULO EMPREGATÍCIO E CARGA


HORÁRIA.................................................................................................................115

4.2 - PRINCIPAIS POLÍTICAS, PROJETOS E ATIVIDADES


DESENVOLVIDAS...................................................................................................116

4.3 - ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DE PROJETOS..............................................119

4.4 - GERENCIAMENTO, PARTICIPAÇÃO E ELABORAÇÃO DE POLÍTICAS


SOCIAIS...................................................................................................................121

4.5 - PRINCIPAIS OBJETIVOS DO PETI-VITÓRIA.................................................122

4.6 - LOCALIZAÇÃO/ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DO SERVIÇO


SOCIAL....................................................................................................................124

4.7 - PRINCIPAIS DEMANDAS................................................................................126

4.8 - ENCAMINHAMENTOS MAIS FREQÜENTES.................................................127

4.9 - ORGANIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL QUANTO A ROTINA DE


TRABALHO..............................................................................................................129

4.10 - NÚMERO E SUFICIÊNCIA OU NÃO DE PROFISSIONAIS DE SERVIÇO


SOCIAL....................................................................................................................130

4.11 - POPULAÇÃO ATENDIDA..............................................................................131

4.12 - SERVIÇOS PRESTADOS..............................................................................133

4.13 - APRIMORAMENTO INTELECTUAL E CAPACITAÇÃO


PROFISSIONAL.......................................................................................................134

4.14 - DIMENSÃO INVESTIGATIVA........................................................................136

4.15 - PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E CONTROLE SOCIAL.....................................139


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................142

6 REFERÊNCIAS....................................................................................................146

APÊNDICES.............................................................................................................150

APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA.........................................................151

APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO........152

ANEXO.....................................................................................................................153

INTRODUÇÃO
O sistema capitalista, no qual estamos inseridos, é pautado no modelo neoliberal de
Estado. Tal sistema, objetivando a manutenção do capital, adota expressamente a
chamada reestruturação produtiva que trás em seu bojo mudanças na organização
do mundo do trabalho.

Visando à economia em detrimento do social, o sistema vigente adota medidas que


rebatem negativamente nas condições de vida da classe trabalhadoras, na
efetivação das políticas sociais e, conseqüentemente no desenvolvimento do
trabalho do profissional de Serviço Social.

Tendo em vista tais questões, o presente trabalho trata-se de uma análise sobre o
processo de trabalho do Serviço Social a partir de um estudo do Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do Município de Vitória-ES.

Tal proposta de análise partiu da minha experiência prática de estágio no Programa


de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória-ES. Saliento que estou
inserida, enquanto estagiária, no Programa desde setembro de 2007. Durante este
período tenho vivenciado diversas situações que me remeteram a questionar, refletir
e problematizar acerca do processo de trabalho do Serviço Social no PETI do
Município de Vitória.

O estudo proposto neste trabalho, além de contribuir para analisar como vem se
desenvolvendo a atuação profissional dos assistentes sociais frente aos limites que
são postos ao profissional em seu processo de trabalho, contribuirá bastante para
um debate acadêmico mais acentuado no que se refere à prática profissional do
Assistente Social no âmbito da Política de Atendimento da Criança e do
Adolescente.

Tal pesquisa contribuirá, também, para os profissionais de Serviço Social que atuam
na área da criança e adolescente e, principalmente, para os que atuam no Programa
de Erradicação do Trabalho infantil do Município de Vitória. Com isso a pesquisa
será válida a estes profissionais para se pensar estratégias de atuação em meio aos
limites postos ao processo de trabalho e, elevação das possibilidades no intuito de
se aperfeiçoar o trabalho tendo em vista a efetivação da Política de Atendimento da
Criança e do Adolescente preconizada pelo ECRIAD.

Os objetivos do estudo consistem em: Contextualizar sócio-historicamente as


políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no Brasil; contextualizar sócio-
historicamente o Serviço Social inserido nas políticas voltadas à criança e aos
adolescentes no Brasil; contextualizar a implementação do Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil no Município de Vitória; e, analisar o Serviço Social no Programa
Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória.

No desenvolvimento da pesquisa de campo a técnica utilizada foi a de entrevista por


meio de roteiro semi-estruturado (APÊNDICE A) com perguntas abertas
direcionadas a quatro profissionais de Serviço Social que atuam e que tem relação
com o Programa na Gerência de Proteção a Criança e ao Adolescente, sendo estes
sujeitos da pesquisa.

Ressalta-se, que encontrei dificuldades para a realização da pesquisa de campo


devido à falta de disponibilidade de tempo de duas entrevistadas. Apesar das
dificuldades, considera-se que todas as entrevistas foram realizadas como previsto
no projeto deste trabalho. Considera-se, também, que a proximidade com os sujeitos
da pesquisa, devido ao fato de ser estagiária atuante no Programa, facilitou a
realização e conclusão da pesquisa de campo.

Para o desenvolvimento do estudo proposto, o trabalho foi dividido em quatro


capítulos. Os três primeiros foram construídos sobre uma perspectiva teórica a
respeito dos assuntos e o último se caracteriza por ser a análise da pesquisa de
campo realizada.

No primeiro capítulo foi realizado um estudo sobre o contexto sócio-histórico das


políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no Brasil. Considerou-se, para
tanto, que a história social da criança e do adolescente no Brasil perpassou por
inúmeras configurações e representações em cada período.
Neste sentido, para compreender a trajetória do contexto sócio-histórico das
políticas sociais voltadas à área da criança e do adolescente, foi necessário
discorrer sobre as primeiras formas de assistência voltadas à infância no Brasil e, foi
necessário, também, retomar um pouco da história do País e a visibilidade que as
crianças e adolescentes tiveram em cada período histórico até a conjuntura atual
com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD) de 1990.

Diante disso, se constatou que a atenção à criança e ao adolescente, inicialmente


desenvolveu-se pela perspectiva caritativa e filantrópica. Acompanhadas destas
perspectivas, com a intervenção do Estado e advento de algumas leis, a atenção á
criança e ao adolescente foi pautada no autoritarismo, no preconceito, no
clientelismo e na repressão desconsiderando-os enquanto sujeitos de direitos e
merecedores de atenção especial e diferenciada. Portanto, a criança e o
adolescente foram, por um longo período da história do Brasil, objeto e alvo de
medidas de um Estado autoritário e repressor.

Isso posto, poderá ser observado, no primeiro capítulo deste trabalho, que somente
com o advento do ECRIAD no Brasil, sendo este resultado de diversas lutas e
movimentos em prol da defesa e conquista de direitos da criança e do adolescente
em âmbito nacional e internacional, notou-se um novo direcionamento para a
proteção deste segmento da sociedade que passou a ser visto enquanto sujeitos de
direito. Além disso, com o avanço jurídico, da proteção integral, a criança e o
adolescente passaram a ser vistos, também, como sujeito em situação especial.

Neste sentido, notar-se-á que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi


considerado um marco histórico no que se refere à atenção a população infanto-
juvenil em termo de legislação no Brasil, pois trouxe detalhadamente os direitos da
criança e do adolescente expressos em forma de diretrizes gerais para uma política
nessa área. No entanto, foi na conjuntura marcada pela implementação do projeto
neoliberal no Brasil que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi promulgado. Isso
posto, neste capítulo poderá ser observado que tal projeto, bem como sua
manutenção, repercutiu negativamente para a efetivação do ECRIAD nos termos
propostos por esta lei, bem como nas políticas sociais voltadas para a criança e ao
adolescente a partir dos anos 1990.
No segundo capítulo foi realizada uma análise do contexto sócio-histórico do Serviço
Social inserido nas políticas voltadas à criança e ao adolescente no Brasil.
Considerou-se, para tanto, que a história do Serviço Social no Brasil foi permeada
por vários interesses, rebatimentos e alterações desde sua emergência, do seu
reconhecimento enquanto profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho e
sua renovação.

Neste capítulo, portanto, problematizou-se a intervenção profissional do Serviço


Social, no Brasil, na área da infância e da adolescência, explicitando as ações e leis
de atenção à criança e ao adolescente que surgiram e foram sendo modificadas ao
longo do contexto histórico no qual o profissional foi requisitado a intervir.

Isso posto, para compreender a atuação do Serviço Social na área da criança e do


adolescente fez-se necessário analisar historicamente sua inserção nas políticas
voltadas a este seguimento no Brasil. Para tanto, foi necessário expor, com clareza
cronológica, como se deu o desenvolvimento, implantação e processo de renovação
da profissão de Serviço Social no país; a partir de quais necessidades e questões;
quais foram os sujeitos envolvidos nesse processo; e, quais são as legislações
próprias da profissão.

Neste capítulo poderá ser observado, que inicialmente o Serviço Social possuía um
cunho conservador de trabalho e com o decorrer da sua formulação, acompanhando
as transformações societárias a nível econômico, político e social, o Serviço Social
foi se reformulando e, assim como as políticas voltadas a área da criança e do
adolescente, foi sendo direcionado a realização de um trabalho coerente
considerando os sujeitos enquanto possuidores de direitos.

Para a realização de um trabalho nesta lógica, visando o indivíduo enquanto sujeito


de direitos, a categoria se renova e estabelece novas diretrizes e competência do
trabalho do assistente social, através da Lei 8662, e, estabelece princípios éticos por
meio do Código de Ética Profissional de 1993. O trabalho do profissional de Serviço
Social, portanto, passou a ser direcionado considerando tais dimensões legislativas
e foi se reformulando e se aperfeiçoando, principalmente nos anos 90, assim como a
política voltada à área da criança e da adolescência com o advento do ECRIAD.
Isso posto, entre outros elementos, poderá ser observado neste segundo capítulo
que a partir dos anos 1990, através de um novo direcionamento do projeto ético-
político profissional, o profissional de Serviço Social passa a desenvolver sua
atuação tendo em vista o compromisso e respeito a essas balizas legais que o
norteiam. No entanto, o sistema vigente, assim como rebate na efetivação da
Política de Atendimento à Criança e do Adolescente preconizada no ECRIAD,
rebate, também, na atuação do profissional de Serviço Social, impondo-lhe vários
desafios.

No terceiro capítulo foi realizada uma análise do contexto sócio-histórico do


Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) inserido no Município de
Vitória-ES.

Portanto, neste capítulo, explicitou-se sobre o surgimento do Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil no Brasil e posterior inserção no Município de
Vitória-ES. Para tanto, foram expostos quais elementos e mobilizações
condicionaram a criação deste Programa no país e implantação no Município de
vitória, e como este foi se alterando no decorrer de seu desenvolvimento e se
encontra atualmente no Município em questão.

No quarto e último capítulo, foi realizada a análise da pesquisa para a compreensão


do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.

Neste sentido, este capítulo abordou a análise das entrevistas da pesquisa realizada
em dezembro de 2008 e abril de 2009 com os sujeitos da pesquisa. Estes se
constituem enquanto Assistentes Sociais em nível de secretaria, coordenação,
gerência e profissional técnico de atuação direta com os usuários do Programa.

Para a utilização das falas das entrevistas, sendo estas, objeto de análise do quarto
capítulo, foi feito menção às profissionais enquanto Entrevistada A, B, C, e D no
sentido de preservar a identidade das entrevistadas.

O roteiro das entrevistas semi-estruturadas foi formulado a partir dos objetivos


iniciais do estudo. Neste sentido foram elaboradas 14 perguntas referentes ao
Programa e ao trabalho do Serviço Social.
Isso posto, para a análise de conteúdo, foram considerados os seguintes eixos do
questionário: Tempo de trabalho, vínculo empregatício e Carga horária;
gerenciamento, participação e elaboração de políticas sociais; Principais políticas,
projetos e atividades desenvolvidas; elaboração e execução de projetos; principais
objetivos do PETI-Vitória; Localização/organização do trabalho do Serviço Social;
principais demandas; encaminhamentos mais freqüentes; organização do Serviço
Social quanto a rotina de trabalho; número e suficiência ou não de profissionais de
Serviço Social; população atendida; serviços prestados; aprimoramento intelectual e
capacitação profissional; dimensão investigativa; participação política e controle
social.

Para a realização da analise proposta no quarto capítulo, considerou-se, entre


outros elementos trabalhados nos capítulos anteriores: o avanço das políticas na
área da criança e do adolescente, principalmente com o advento do ECRIAD; o
avanço da profissão de Serviço Social após sua renovação; o Serviço Social
enquanto uma profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho; e, as políticas
sociais configuradas enquanto espaço sócio ocupacional do Serviço Social.

1 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DAS POLÍTICAS SOCIAIS


VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL
A história social da criança e do adolescente no Brasil perpassou por inúmeras
configurações e representações em cada período da história do país. No intuito de
analisar o contexto sócio-histórico das políticas sociais voltadas à criança e ao
adolescente no Brasil, propõe-se, neste capítulo, explicitar sobre as primeiras formas
de assistência direcionadas a este segmento da população; expor sobre as
Doutrinas Legais na área da criança e da adolescência no Brasil a partir do Código
de Menores de 1927, posteriormente com o Código de Menores de 1979, até a
contemporaneidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD) e sua
Política de Atendimento segundo a Doutrina da Proteção Integral.

1.1 AS PRIMEIRAS FORMAS DE ASSISTÊNCIA E POLÍTICAS DE


ATENDIMENTO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: A LEI
DO VENTRE LIVRE, A RODA DOS EXPOSTOS E A PERSPECTIVA
CARITATIVA E FILANTRÓPICA

A população brasileira, nos primeiros anos após a descoberta do Brasil por Portugal,
era constituída principalmente por indígenas. Com a colonização portuguesa, os
povos indígenas passaram a ser doutrinado pelos portugueses, através dos padres
jesuítas, que pertenciam a Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Inácio
de Loyola (DALTON et al., 2005, p.16).

Compreendendo, pois, que houve esse processo de doutrinação religiosa sobre os


povos indígenas, salienta-se que:

A atuação da Igreja nessa tarefa era fundamentada no alto poder de


dominação ideológica que a Igreja Católica Ortodoxa Romana exercia sobre
a população européia. Os jesuítas tinham a incumbência de subjugar àquele
povo, transmitindo os costumes europeus e a cultura de Portugal (DALTON
et al., 2005, p.16).

Portanto, coube aos Jesuítas difundir os costumes europeus para os povos


indígenas que residiam nas terras brasileiras.
Neste sentido, os portugueses, pela força ideológica, física e bélica dominaram e
impuseram a sua cultura, modos de vida e costumes atravessando a cultura dos
indígenas, o que acarretou num enorme choque cultural (DALTON et al., 2005, p.16).

No intuito de provocar mudanças culturais e nos modos de vida da população


indígena, os portugueses usaram as crianças e os adolescentes como “alvo” de
suas ações. Portanto,

As crianças e adolescentes indígenas foram submetidos ao processo de


doutrinação pelos jesuítas, que adotaram a ideologia dos colonizadores,
repassando toda a carga cultural do mundo europeu a um povo que possuía
outra cultura, diferente daquela que norteava a ideologia colonizadora
(DALTON et al., 2005, p.16).

Nota-se, então, que as crianças nesse contexto histórico eram dominadas pelos
colonizadores na imposição cultural européia. Isso posto, fez-se das crianças,
consideradas fáceis de manipular, objeto de exploração para o trabalho.

Neste sentido, o governo Português juntamente com a Igreja Católica impôs seu
poder para que as crianças indígenas passassem a fazer parte do processo de
exploração e colonização do Brasil. No entanto, os portugueses não obtiveram os
resultados esperados, pois o choque cultural não permitiu o completo domínio dos
indígenas pelos portugueses, ou seja, os povos indígenas possuíam seu modo de
vida e uma cultura bem enraizada, e mesmo submetidos a adotar parte da cultura
portuguesa, eles resistiram a dominação dos portugueses. Por esse motivo os povos
indígenas foram considerados, pelos portugueses, enquanto preguiçosos, frágeis
para o trabalho e de difícil controle (DALTON et al., 2005, p.17).

Não tendo, portanto, sucesso no processo de dominação e aculturamento dos povos


indígenas, para fazerem parte do processo de exploração e colonização do Brasil, o
governo Português passa a escravizar os povos negros. Neste sentido,

Diante dessas negativas no processo de escravidão dos índios no Brasil,


Portugal lança mão da escravidão e da dominação do povo negro, trazidos
da África para trabalharem na exploração das riquezas e desbravamento
das terras do Brasil. Essa prática já era utilizada pelos povos europeus em
suas conquistas de novos territórios pelo mundo (DALTON et al., 2005,
p.17).
Sempre em condições subumanas, os negros foram trazidos da África em
navios negreiros, que não lhes oferecia condições mínimas de higiene,
alimentação e saúde. Amontoados uns sobre os outros, esse povo fora
durante séculos retirados de sua terra natal, afastados de suas famílias,
rotulados como mercadoria, sendo utilizados em trabalhos penosos,
desumanos com total exploração de suas forças físicas e mentais (DALTON
et al., 2005, p.18).

Observa-se, então, a presença do povo negro como alvo de dominação portuguesa.


Este povo passou a ser escravizado e submetido a trabalhos árduos e condições
subumanas de vida. Ressalta-se, que foram eles os responsáveis pelo
desbravamento do país.

As mulheres negras tinham um valor comercial maior, pois geravam filhos,


aumentando o número de escravos para os senhores, e eram alugadas como amas
de leites para obtenção de lucro. Nesse período da escravidão no Brasil, “[...]
crianças negras sofriam com a separação que lhes era imposta pelos senhores ao
alugarem suas mães como amas de leite [...]”, pois no retorno às senzalas, as mães
já não possuíam leite para amamentar seus filhos. Ressalta-se, que parcelas de
escravas negras, em protesto contra a escravidão, abortavam seus filhos, para evitar
que eles viessem a se tornar escravos (DALTON et al., 2005, p.18, apud Cárceres,
1995 ).

Pode-se, observar neste período o descaso e a falta de atenção às crianças, uma


vez que estas seriam submetidas à condição de escravas como seus pais. Neste
sentido, ressaltando a figura da criança e do adolescente, destaca-se que

Os filhos dos escravos já nasciam escravos, sem qualquer tipo de prioridade


ou atenção especial. Começavam a labutar desde muito cedo, a inserção
deles no trabalho se dava a partir dos primeiros anos de vida. A sobrevida
dos escravos era pequena, em média de 10 anos (DALTON et al., 2005,
p.18, apud Arruda; Piletti, 1996).

Portanto, não havia qualquer tipo de atenção voltada aos filhos dos escravos. Estes
seriam submetidos à exploração e a condições indignas de vida desde o
nascimento.
A comercialização das crianças escravas se dava a partir dos 12 anos, pois a partir
desta idade eles eram considerados aptos para a realização do trabalho escravo,
como escravos em idade adulta (DALTON et al., 2005, p.18).

Quanto ao processo de escravidão no Brasil, de acordo com Dalton e outros (2005,


p. 18 e 19),

Há que se destacar que a escravidão negra não excluiu a escravidão


indígena, essa ainda existia, porém, em menor proporção e atuando em
diferentes trabalhos, também de exploração, dominação, que gerava
extermínio das raças, tanto negra quanto indígena, como também
deformidades por conta dos severos castigos.

Portanto, a escravidão negra conviveu com a indígena e, os povos escravizados,


compostos por crianças, sofreram por tempos as duras e severas imposições dos
senhores dominantes.

Neste sentido, desde o Brasil colônia, as crianças e os adolescentes foram utilizados


pela classe dominante como objeto de exploração e dominação para renderem
lucros aos dominantes e ao governo brasileiro (DALTON et al., 2005, p.19).

Observadas as condições postas à infância desde o período colonial, salienta-se


que historicamente a atenção à criança e ao adolescente no Brasil se desenvolveu
inicialmente voltada para a criança negra, filhos de escravas. Ocorreu a política de
libertação dos escravos, porém esta possuía uma abertura para liberdade um tanto
quanto contraditória, pois as “[...] Crianças eram colocadas “livres” após a Lei do
Ventre Livre1, porém não tinham para onde ir. Inicia-se então a institucionalização no
Brasil [...]” (DALTON et al., 2005, p.20). Tendo em vista a institucionalização no
Brasil,

Observando-se que o processo de formação das instituições que prestavam


serviços de assistência a menores, verifica-se que, no período colonial e no
Império a mesma se dava em três níveis: uma caritativa, prestada pela
Igreja através de ordens religiosas e associações civis; outra filantrópica,
oriunda da aristocracia rural e mercantilista e, a terceira, em menor número,
1
A Lei do Ventre Livre foi instituída no ano de 1871, e foi debatida e consolidada pelo Imperador, pela
Câmara, pelo Senado e pela elite cafeeira da época, onde previa a liberdade as crianças, nascidas à
partir deste ano. Porém, as crianças ficavam junto à mãe até a adolescência tendo que
posteriormente arcar com seus “gastos” até mais ou menos até os 21 anos.
fruto de algumas realizações da Coroa Portuguesa (DALTON et al., 2005,
p.21, apud VERONESE, 1997:10).

Portanto, no período colonial e no Império a assistência aos “menores” oferecidas


pelas instituições se desenvolvia segundo ações de benevolência.

Considerando a Lei do Ventre Livre, cabe ressaltar, que com o advento dessa Lei
não houve muitas alterações para a vida das crianças e dos adolescentes neste
período. Portanto,

Essa Lei de fato, não modificou a situação já vivenciada pelas crianças e


adolescentes, pois as mesmas apesar de serem consideradas libertas,
ficavam sob o domínio dos senhores e eram indiretamente transformados
em escravos, uma vez que essa era a condição para que eles permanecem
junto aos seus pais e irmãos, bem como a toda comunidade negra da qual
eles faziam parte. Quando as crianças e adolescentes não ficavam nas
senzalas, por opção da mãe ou dos próprios senhores, estas eram
entregues aos cuidados do Estado que as encaminhava para abrigos de
caridade e filantropia (DALTON et al., 2005, p.19).

Isso posto, considera-se que a Lei do Ventre Livre contribuiu pouco para a situação
das crianças e adolescentes no Brasil durante o período em questão. Além disso,
houve forte presença de ações meramente caritativas e filantrópicas voltadas a este
segmento da sociedade.

Portanto com a promulgação desta Lei, passou-se a observar um aumento do


número de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, pelas
ruas das cidades e abandonados. Disseminaram-se os problemas sociais
envolvendo as crianças e os adolescentes nesta condição de pobreza, de miséria e
mendicância (DALTON et al., 2005, p.20).

Tendo em vista tal realidade da época,

[...] as crianças e os adolescentes permaneciam sob custódia dos senhores,


quando não, eram abandonados pelas mães em organizações de caridade
(Roda dos Expostos) 2 ou até mesmo em locais públicos. Perdurou durante
2
A Roda dos Expostos, criado no século XVII pelas Santas Casas de Misericórdias de caráter
filantrópico, tinha como pressuposto o recolhimento de crianças filhos havidos fora do casamento,
filhos de escravos, ou seja, os enjeitados de forma geral. No Brasil a primeira Roda dos Expostos foi
o período colonial e imperial o total descaso do Governo para com as
diversas expressões da questão social (DALTON et al., 2005, p.20).

Portanto, observou-se nesse período a disseminação do abandono uma vez que o


governo não oferecia condições para suprirem as necessidades das crianças e dos
adolescentes vitimizados pela pobreza.

Ressalta-se, que, enquanto organização de caridade,

A Roda dos Expostos marcou a assistência à infância nos séculos XVIII e


XIX no Brasil. No entanto caracterizou-se como uma política perversa pelas
condições precárias de higiene e de qualidade na assistência, levando a
altas taxas de mortalidade. O financiamento das Santas Casas de
Misericórdia dependia, sobretudo, de doações de particulares (DALTON et
al., 2005, p.22).

Isso posto, considera-se, que assim como a Lei do Ventre Livre, a Roda dos
Expostos não sucumbiu as necessidades e a atenção devida as crianças e
adolescentes desse período uma vez que a política de assistência se dava pelo viés
da caridade e da filantropia.

No principio, portanto, as pessoas da sociedade civil solicitavam ajuda e


voluntariado para as obras de beneficência, ou seja, a sociedade civil cobria as
omissões do Estado utilizando-se da antiga tradição das ações filantrópicas e de
caridade. Além disso, privilegiava-se o internato como a principal ferramenta de
proteção oferecida à criança necessitada (PILOTTI, 1995, p. 37).

Pode-se observar que inicialmente a assistência à infância se deu devido à


notoriedade da pobreza a qual estas estavam submetidas desde o Brasil Colônia. As
formas iniciais de assistência surgiram ao nível caritativo e filantrópico de
concepções tradicionais religiosas. Sendo assim, as primeiras Políticas de
assistência, voltadas à criança e ao adolescente no Brasil, possuíam um caráter de
benesse. Neste viés, o Estado se omitia uma vez que se fazia uso de ações de
filantropia e caridade para com a infância e a adolescência no Brasil.

Ressalta-se que, como classe dominante no século XIX, a aristocracia rural também

criada na Bahia em 1726. A Roda dos Expostos foi implantada pelas Santas de Casa de Misericórdia,
segundo modelo vigente nos países católicos da Europa.
custeou a política de assistência à criança e ao adolescente que era realizada
através de doações aos asilos que recolhiam crianças enjeitadas, pobres,
abandonadas e bastardas (DALTON et al., 2005, p.22).

Com o agravamento da situação de miséria, abandono e omissão quanto a atenção


à criança e ao adolescente no Brasil, o Estado passa a intervir no “Poder Familiar”,
“[...] surgindo assim a necessidade de que a família, sobretudo a mãe, passasse a
ter obrigações junto aos seus filhos [...]” (DALTON et al., 2005, p.23).

Considera-se que várias foram as transformações políticas, sociais e econômicas


que levaram ao aumento dos problemas referentes às crianças e aos adolescentes
pobres. Frente a estas questões, as crianças e os adolescentes passaram a se
constituir em elementos de institucionalização no Brasil (DALTON et al., 2005, p.22).

De acordo com Pilotti (1995, p. 40), as instituições governamentais do sistema de


assistência infantil,

[...] apareceram tardiamente em relação a outros componentes do sistema,


particularmente o marco jurídico e a rede montada pelo setor privado,
especialmente de origem religiosa. Isto determina que, por um lado, sejam
concebidas como um adjunto ao serviço de administração de justiça para
menores, desempenhando um papel subalterno no aprovisionamento de
serviços de proteção e reabilitação. Por outro lado, a assistência oferecida
às crianças está fortemente influenciada por concepções tradicionais que
privilegiam o internamento. Neste contexto, a assistência oferecida ao
menor [...] apresenta sérias limitações (PILOTTI, 1995, p. 40).

Portanto, inicialmente a atenção à infância baseava-se na irregularidade desta frente


à ordem social. Tal atenção, por via de instituições governamentais do sistema de
assistência infantil, apareceu tardiamente e era influenciada principalmente por
concepções tradicionais religiosas não suprindo ás necessidades das crianças e dos
adolescentes.
Neste sentido,
[...] a institucionalização de crianças e de adolescentes no Brasil significou
acima de tudo uma forma de controle social na medida em que estes foram
retirados das vias públicas e institucionalizados em organizações que não
lhes garantia benefícios e direitos. Essas organizações destinavam-se às
crianças e aos adolescentes empobrecidos e vulneráveis socialmente
(DALTON et al., 2005, p.23).
Isso posto, observa-se que a proposta de institucionalização das crianças e dos
adolescentes no Brasil significou, de fato, uma estratégia do governo no sentido de
“limpar” as ruas, pois compreendia-se que a permanência das crianças e
adolescentes nos espaços públicos constituía uma ameaça a ordem social.

Na década de 1920, o aumento e visibilidade da pobreza, a fome, abandono, entre


outras expressões da questão social, em decorrência do processo de
urbanização/industrialização, determinaram que as classes, tanto a burguesia
modernizante como a operária organizada, questionassem quanto a intervenção do
Estado sobre as expressões da questão social (PILOTTI,1995, p. 38).

As situações de “irregularidade” da infância se constituíram enquanto produto


regular de sociedades sobre a qual grande parte da população vivia em extrema
pobreza afetando, fundamentalmente, jovens e crianças. Observou-se no Brasil a
incapacidade e insuficiência de organismos administrativos no que se refere às
respostas aos crescentes problemas da infância que vivia em condição de pobreza
(PILOTTI, 1995, p. 42).

Nesta década, portanto, em decorrência da pobreza existente, mulheres e crianças


com idade imprópria para o trabalho estavam condicionadas ao trabalho insalubre e
com baixos salários. Aos trabalhadores operários impunham-se longas jornadas de
trabalho com condições indignas para o desenvolvimento deste. Sustentando tal
informação, de acordo com Iamamoto (2005, p. 129):

É comum a observação sobre a existência de crianças operarias de até 5


anos e dos castigos corporais infligidos a aprendizes. [...] Mulheres e
crianças estarão sujeitas à mesma jornada e ritmo de trabalho, inclusive no
turno, com salários bastante inferiores. O operário contará para sobreviver
apenas com a venda diária da força de trabalho, sua e de sua mulher e
filhos. Não terá direito a férias, descanso semanal remunerado, licença para
tratamento de saúde ou qualquer espécie de seguro regulado por lei.
Observa-se, portanto, que no período da industrialização foi grande e notória a
incidência de crianças em situação de trabalho infantil.

A mão-de-obra infantil foi muito usada na indústria, pois o salário das crianças e
adolescentes significava uma ajuda para os baixos salários de suas famílias
(PILOTTI, 1995, p. 61).
Constatada a necessidade de intervenção do Estado, frente ao aumento das
expressões da questão social neste período, o Estado sente-se pressionado pela
população e cria políticas para a área da infância. No entanto, de acordo com Pilotti
(1995, p. 49):

As propostas e encaminhamentos de política para a infância fazem parte da


forma como o Estado brasileiro foi se constituindo ao longo da história,
combinando autoritarismo, descaso ou omissão para com a população
pobre com clientelismo, populismo e um privilegiamento do privado pelo
público, em diferentes contextos de institucionalidade política e de regulação
das relações entre Estado e sociedade.

Apesar de se adotar políticas para a infância, estas, portanto, eram direcionadas


segundo os interesses do Estado.

Neste sentido, a luz de Pilotti (1995, p. 49 e 50):

A relação entre o econômico e o político se manifesta na política de


encaminhamento da criança pobre ao trabalho precoce, a relação entre
público e privado implica o confronto de interesses de diferentes agentes
sociais e as relações de poder e ideológicas se traduzem tanto no conflito
entre a esfera estatal e a esfera doméstica, por um lado, quanto no conflito
entre o espaço público e os interesses privados relativos à criança [...].

Portanto, a questão da criança inserida na situação de trabalho gerou conflitos entre


diferentes segmentos da sociedade, ou seja, entre aqueles do interesses públicos e
aqueles do interesse privados.

Neste sentido, Pilotti (1995, p. 50), afirma que a articulação do político com o
econômico se referiu ao processo de valorização e desvalorização da criança
enquanto mão-de-obra e se colocou enquanto uma estratégia de encaminhamento
de crianças e adolescentes pobres para o trabalho naturalizando a desigualdade
social, ou seja, aos pobres a função era de trabalhar. Neste sentido, os discursos e
as práticas referentes às políticas para a infância eram voltados aos “desvalidos”
considerados enquanto força de trabalho na qual sua sobrevivência e preparação
profissional ou escolar estariam apenas ao nível da subsistência.

Isso posto, ressalta-se que, naquele contexto,


As condições mínimas de trabalho para as crianças e adolescentes pobres
parecem máximas aos olhos dos senhores e dos dirigentes das fábricas.
Se, por um lado, fala-se em proteção à criança, em trabalho perigoso, e
promulgam-se certas leis de impedimento de determinados trabalhos, por
outro, a prática é de ignorar a lei, de manter e encaminhar as crianças
desvalidas ao trabalho precoce e futuro subalterno, numa clara política de
separação de classes ou de exclusão de vastos grupos sociais do exercício
da cidadania (PILOTTI, 1995, p. 50).

Portanto, mesmo com advento de Leis de proteção ao trabalho para crianças, na


época da crescente urbanização e industrialização, a legislação era desconsiderada
pelos que dominavam o capital. As crianças consideradas “desvalidas” permaneciam
em situação de trabalho precoce e destituídas de seus direitos de cidadania.

No contexto internacional, a população infanto-juvenil passou a ser vista de forma


diferenciada. Observou-se a preocupação de organizações internacionais em
assegurar os direitos de crianças e adolescentes como a OIT (Organização
Internacional do Trabalho) que promoveu uma das primeiras discussões a respeito
dos direitos da criança (SANTOS et al., 2008, p.24).

Ainda quanto ao contexto internacional ressalta-se, após a criação da OIT, a


Declaração de Genebra, de 1924, que foi um dos instrumentos internacionais que
consolidou a doutrina que reconhece a necessidade de proporcionar à criança uma
proteção especial.3

Em destaque a OIT, constituiu-se enquanto uma fonte de importantes conquistas


sociais que caracterizam a sociedade industrial. Tal Organização surgiu e se
constituiu numa estrutura internacional que tornou possível buscar soluções que
permitissem a melhoria das condições de trabalho no mundo regulamentando a
proteção ao acidente de trabalho, férias e outros. 4

No que se refere à proteção à criança e ao adolescente, a Organização Internacional


do Trabalho estabeleceu como sexto princípio a eliminação do trabalho infantil, e

3
Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Conven%C3%A7%C3%A3o_Internacional_sobre_os_Direitos_da_Crian%C
3%A7a. Acesso em: 19 de junho 2009
4
Disponível em: www.oitbrasil.org.br/inst/index.php. Acesso em: 26 out. 2008.
permitiu que “os menores adultos” pudessem realizar serviço remunerado, caso não
ocorresse prejuízo no processo de educação e desenvolvimento físico destes
(COELHO, 1998, p. 106).

Após a criação da OIT, segundo Pilotti (1995, p. 62), em 1920, realizou-se o 1°


Congresso Brasileiro de Proteção à Infância tornando mais sistemática a agenda da
proteção social. Em 1921, a lei orçamentária federal, Lei 4242, que combinava as
estratégias da assistência a repressão, autorizou o governo a organizar um serviço
de proteção e assistência ao menor abandonado e delinqüente, encarregando-se
José Cândido de Albuquerque Mello Matos de consolidar as leis de proteção e
assistência a menores.

Neste sentido, segundo Pilotti (1995, p. 62), em 1923 (Decreto 16. 272) o Presidente
da República aprovou a regulamentação da proteção e da assistência aos menores
delinqüentes e abandonados, porém o Código de Menores só foi promulgado, em
forma de Decreto (17. 943-A), em 12 de outubro de1927, assinado por Washington
Luis.

Tendo em vista, portanto, o que foi exposto até então, conclui-se que as primeiras
formas de assistência e atenção à criança e ao adolescente foram voltadas àqueles
considerados carentes, abandonados, infratores, ou seja, a atenção e intervenção
voltava-se apenas para determinados seguimentos da população infantil. Essa
lógica se perpetuou por muitos anos, como será observado através dos Códigos de
Menores de 1927 e 1979.
A discussão referente aos Códigos de Menores, que se constituíram enquanto
Doutrina Legal de assistência e proteção à infância e à adolescência será explicitada
nos itens que se seguem.

1.2 AS DOUTRINAS LEGAIS NA ÁREA DA CRIANÇA E DO


ADOLESCENTE NO BRASIL
Quanto as Doutrinas Legais voltadas à área da criança e do adolescente no Brasil,
serão explicitados aqui: o Código de Menores de 1927, o Código de Menores de
1979 – reformulação do anterior – e o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECRIAD) criado em 1990, marco da Doutrina da Proteção Integral da criança e do
Adolescente no Brasil.

1.2.1 O Código de Menores de 1927

Anteriormente ao Código de Menores promulgado em outubro de 1927, é importante


destacar que no ano de 1923, houve a criação da Fundação do Juízo de Menores,
“[...] como primeira instância jurídica legal com intenção clara de atuação na área do
abandono e da delinqüência de crianças e adolescentes [...]”, com destaque para o
jurista Mello Matos, sendo este o primeiro da América Latina a ocupar tal posto
(DALTON et al., 2005, p.25).

De fundamental importância, ressalta-se, que no ano seguinte, em 1924, aconteceu


a afirmação da proteção especial à criança, na Declaração de Genebra sobre os
Direitos da Criança, constituindo um marco internacional significativo de
reconhecimento na intervenção voltada à infância no Brasil. 5

Considerando-se, portanto, a proteção especial à criança e ao adolescente, afirmada


desde 1924, e seguindo a tendência do Estado interventor na área do “menor”,
destaca-se que, em 1927, é oficialmente legitimado o Código de Menores. No
entanto,

Esse Código desponta como alternativa pouco eficaz no que diz respeito à
assistência das crianças e dos adolescentes uma vez que os classificava
por situação econômica e portando dicotomizava a infância mais uma vez,
entre os pobres e os abastados. Fica claro o poder dos juizes de intervir
nas situações envolvendo famílias pobres e que pudessem oferecer risco a
ordem pública, segundo os preceitos da época (DALTON et al., 2005, p.25).

5
Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/cc/3/crianca/marco.htm. Acesso em: 20 abr.
2009.
Apesar de um avanço para a época, quanto a área da infância, o Código de
menores de 1927 é lançado com meios ineficazes para a assistência das crianças e
dos adolescentes, pois a assistência a partir dessa lei permanece direcionada aos
segmentos dos “menores” em situação de miséria.

O Código de Menores de 1927, que ficou popularmente conhecido como Código


Mello Mattos, “[...] estabelecia diretrizes claras para o trato da infância excluída,
regulamentando questões como trabalho infantil, tutela e pátrio poder, delinqüência
e liberdade vigiada [...]” (SANTOS et al., 2008, p. 25, apud LORENZI, 2008, acesso
em: 19 de agosto de 2008).

Com a promulgação do Código de Menores de 1927 houve o fim da roda dos


expostos, porém manteve o registro secreto para a garantia da paternidade. Tal
Código estabeleceu a “proteção legal” até os 18 anos de idade, o que significou a
inserção da criança no âmbito da tutela do Estado (PILOTTI, 1995, p. 63).

De acordo com Pilotti, (1995, p. 63):

O Código de Menores de 1927 incorpora tanto a visão higienista de


proteção do meio e do indivíduo como a visão jurídica repressiva e
moralista. Prevê a vigilância da saúde da criança, dos lactantes, das
nutrizes, e estabelece a inspeção medica da higiene. No sentido de intervir
no abandono físico e moral das crianças, o pátrio poder pode ser suspenso
ou perdido por falta dos pais. Os abandonados têm a possibilidade (não o
direito formal) de guarda, de serem entregues sob a forma de “soldada”, de
vigilância e educação, determinadas por parte das autoridades, que velarão
também por sua moral. O encaminhamento pode ser feito à família, a
instituições públicas ou particulares que poderão receber a delegação do
pátrio poder. A família é, ainda que parcialmente, valorizada.

Nota-se, portanto, que a intervenção pautada no Código de Menores de 1927 se


dava de forma moralista e repressiva, segundo os ditames do Código.

A atenção à criança e ao adolescente era realizada sem política própria ou


sistematização, ou seja, a criança pobre, abandonada e vadia, era “alvo” de
medidas. “[...] Cabendo inclusive a polícia patrulhar as ruas em busca dos ditos
transgressores da ordem social [...]. Portanto, nessa época, as questões
relacionadas às crianças e aos adolescentes “pobres” foram consideradas casos de
polícia (DALTON et al., 2005, p.25 apud RIZZINI, 1997).
Portanto, observa-se que a intenção e a direção que o Código se propunha era, de
enquadramento, direcionamentos e aniquilação de tudo que não correspondesse ao
que estava posto na lei. Neste sentido, o Código de Menores de 1927 foi uma forma
de controle social do Estado (DALTON et al., 2005, p.25 e 26).

Salienta-se que neste período fazia-se, “[...] uma fusão entre as crianças e
adolescentes vítimas do empobrecimento de suas famílias, com as crianças e
adolescentes que por ventura fossem autores de atos infracionais [...]”. As famílias,
na maioria das vezes, eram punidas pela situação de “desviança” e de rua na qual
se encontravam as crianças (DALTON et al., 2005, p. 26).

Ressalta-se que, com o Código de Menores de 1927,

As crianças e adolescentes vítimas do empobrecimento, do abandono, em


situação de trabalho infantil, eram retiradas das ruas numa falsa idéia de
que só a limpeza, a retirada desses e a colocação em lugares criados para
recebê-los trariam à sociedade a tranqüilidade almejada (DALTON et al.,
2005, p. 26).

O Código de Menores caracterizou-se, portanto, por manter uma visão jurídica


repressiva e moralista do indivíduo e, também, uma visão higienista de proteção do
meio e do indivíduo neste.

O Código de Menores de 1927, atuando segundo a lógica do menor em situação


irregular, entre outras determinações, expôs que:

O vadio pode ser repreendido internado, caso a vadiagem seja habitual. O


autor de infração terá prisão especial. O menor de 14 anos não será
submetido a processo penal de espécie alguma (o que acaba com a
questão do discernimento) e o que tiver idade superior a 14 e inferior a 18
anos terá processo especial, instituindo-se também a liberdade vigiada. O
trabalho fica proibido aos menores de 12 anos e aos menores de 14 que
não tenham cumprido instrução primária, tentando-se combinar a inserção
no trabalho com a educação. O trabalho noturno e aquele considerado
perigoso à vida, à saúde e a moral é vedado aos menores de 18 anos, com
multas aos infratores e direito à fiscalização (PILOTTI, 1995, p. 63).

Portanto, pode-se observar que o Código expôs sobre a questão da situação de


trabalho do denominado “menor”, explicitando a proibição do trabalho aos menores
de 12 anos. Além disso, fez algumas objeções quanto a inserção do “menor” aos
trabalhos que acarretariam riscos a eles.

Segundo Pilotti (1995, p. 63) o Código de Menores de 1927, formalizou a criação do


Juízo Privativo de Menores e do Conselho de Assistência e Proteção a Menores,
presidido pelo Ministério da Justiça. Segundo ele, as decisões referentes à criança e
ao adolescente eram baseadas na índole, seja esta boa ou má, e estabelecia que
ficasse a critério do Juiz, detentor do poder, junto aos diretores das instituições, de
definir quais seriam os encaminhamentos institucionais das crianças e dos
adolescentes em situação irregular.

Neste sentido, a prática dos Juízes de Menores, (voltada para aqueles considerados
excluídos da produção e das normas dominantes, considerados suspeitos e
perigosos) voltava-se para o controle da ordem social. Os Juízes viam a internação
em instituições como a única solução para o problema da infância abandonada e da
miséria (PILOTTI, 1995, p. 73).

Portanto, no Código de Menores de 1927 a prática de internação, para os ditos


“menores”, alvo de medidas pelo estado de delinqüência e abandono, constituiu a
principal alternativa de intervenção para com as crianças e os adolescentes neste
período.

De acordo com Pilotti (1995, p. 63):

Se é bem verdade que, na orientação então prevalescente, a questão da


política para a criança se coloque como problema do menor, com dois
encaminhamentos o abrigo e a disciplina, a assistência e a repressão, há
emergências de novas obrigações do Estado em cuidar da infância pobre
com educação, formação profissional, encaminhamentos e pessoal
competente. Ao lado das estratégias de encaminhamento para o trabalho,
clientelismo patrimonialismo, começa a emergir estratégias dos direitos da
criança (no caso o menor) já que o Estado passa a ter obrigações de
proteção.

Portanto, diante da Doutrina Legal estabelecida à criança e ao adolescente, através


do Código de Menores de 1927, notou-se a necessidade de o Estado intervir no que
tange a atenção aos “menores”, alvo de medidas do Código.
Cabe ressaltar, que:

O foco principal deste Código era baseado em medidas corretivas, isto é,


fazia-se necessário educar, disciplinar, física moral e civicamente as
crianças oriundas de famílias desestruturadas ou órfãs. Este Código
possuía uma perspectiva individualizante do problema da população infanto-
juvenil, pois diante desta situação de dependência, a família era
culpabilizada de forma quase que exclusiva, e não se levava em
consideração os fatores estruturais que envolviam o contexto em que a
aquela família estava inserida (SANTOS et al., 2008, p. 25, apud GOLLO,
2006, acesso em 19 de novembro de 2008).

Portanto, as medidas corretivas aplicadas pelo Código de Menores de 1927 visavam


o enquadramento dos “menores” abandonados e/ou de famílias pobres no respeito a
ordem societária. Para tanto, as famílias que descumprissem com as determinações
do Código eram culpabilizadas sem que houvesse a consideração de sua estrutura
social.

Quanto à questão do trabalho, na década de 1930, ocorreram algumas objeções no


que se refere à proibição do trabalho infantil, por parte de donos de indústrias. Neste
sentido,

Reforçando a idéia do trabalho precoce de menores, em 1932 os industriais


conseguem que modifiquem o Código de Menores, eliminando-se a barreira
da proibição para se trabalhar antes dos 14 anos para os que estivessem
em estabelecimentos onde eram empregadas pessoas de uma só família.
Os insdustriais aceitariam uma redução na idade para 13 anos, mas a
Constituição de 1934 fixara a idade de 14 anos. Obtêm, no entanto, do
governo que se transfira para o decreto regulador do horário de trabalho a
fixação da duração do trabalho de menores, que, assim, fica definido em 08
horas (PILOTTI, 1995, p. 66, apud Gomes, 1979, p. 232/233).

Portanto, na década de 1930 houve a promulgação da Constituição de 1934 que,


referindo-se a questão da criança e do adolescente, estabeleceu a proibição do
trabalho aos menores de 14 anos gerando tensão dos setores industriais.

Na Constituição Federal de 1934, em seu preâmbulo teve-se a preocupação com o


“sentimento social do direito”, ao expor como princípios básicos da Nação a
liberdade, a unidade, a justiça e o bem-estar econômico e social. Nesta Constituição
também houve a consolidação do ideário moralizador e liberal da Revolução de
1930 que foi uma época marcada por um crescente antiliberalismo onde as
reivindicações foram mais sociais e econômicas do que políticas (COELHO, 1998, p.
99).

Segundo Coelho (1998, p. 100) a Constituição de 1934 foi a primeira Constituição


brasileira na qual foram incluídas normas de proteção à criança. Segundo o autor, a
necessidade de proteção à criança foi descoberta em detrimento ao forte sentimento
nacionalista ocorrido neste período e que fez com que surgisse o populismo de
Getúlio Vargas.

De acordo com Coelho (1998, p. 100), o país, nos anos trinta, estava passando por
um processo de industrialização tardia em comparação com a Inglaterra no século
anterior. Assim, não querendo ver a reincidência de cenas de crianças trabalhando
nas fábricas, sujeitos a todas as formas de abusos, foi delimitado que as crianças
deveriam, antes de tudo, atingir maturidade intelectual e física.

A proteção à criança na Constituição de 1934 se deu deste seu desenvolvimento


ultra-uterino quando se incluiu a proteção à mãe. Neste sentido, foi estatuído,
portanto, que “[...] é dever da União, dos Estados e dos Municípios o amparo à
criança, para o qual estes deveriam destinar 1% de suas rendas [...]” (COELHO,
1998, p. 100).

Portanto, na Constituição de 1934, houve a preocupação em efetivar a aplicação da


norma de proteção à criança, porém não foi possível analisar a repercussão dessa
proteção, pois tal Constituição revigorou por pouco tempo. A Constituição de 1934 foi
demolida pelo golpe de 1937, que instituiu uma nova ordem político-jurídica no Brasil
e entrou em vigor no país a Constituição Federal de 1937 (COELHO, 1998, p. 100).

A Constituição de 1937 seguiu em uma época política conturbada na qual houve um


grande embate entre as classes, ou seja, uma radicalização das lutas de esquerda e
de direita. Tal Constituição propôs um Estado mais protetor e intervencionista. Neste
sentido, no que tange a proteção à criança, esta apareceu em vários artigos desta
Constituição. A primeira inserção se deu na competência privativa da União em ditar
normas fundamentais de proteção e defesa da saúde da criança (COELHO, 1998, p.
100 e 101).
Portanto, de acordo com Coelho (1998, p. 102) dentro da política protetora e
intervencionista do Estado, este “[...] colocou a infância e a juventude sob sua direta
proteção, encarregando-se de assegurar-lhe as condições físicas e morais de vida
sã, possibilitando-lhes pleno desenvolvimento. [...]”.

É importante destacar que, na vigência desta Constituição, por meio do decreto-lei


nº 2.024, de 17 de fevereiro de 1940, foi criado, no âmbito do Ministério da
Educação e Saúde, o Departamento Nacional da Criança, subordinado diretamente
ao Ministro de Estado. Este Departamento era o órgão soberano de coordenação de
todas as atividades nacionais que diziam respeito à proteção à maternidade, à
infância e à adolescência (COELHO, 1998, p. 103).

Nesta conjuntura, na qual à atenção a infância se deu tendo em vista o Código de


Menores e as Constituições dos anos posteriores, ressalta-se que, juntamente a
estas Doutrinas Legais, ocorreram mudanças econômicas, sociais e políticas no
País. Neste sentido, acompanhou-se, com tais mudanças, o aumento das
expressões da questão social. Assim, pode-se observar um crescente aumento da
incidência de atos infracionais por seguimento de crianças e adolescentes excluídos
e desfavorecidos socialmente.

Neste sentido, diante da disseminação dos atos infracionais, o governo de Getúlio


Vargas, presidente na década de 30 e 40 adotou duras medidas de repressão. A
partir de então, foram criadas organizações próprias para abrigar “os menores
delinqüentes” e retirá-los do meio social 6 (DALTON et al., 2005, p. 28).

6
Que são: Legião Brasileira de Assistência (LBA): uma agencia nacional de assistência social voltada
inicialmente para o apoio aos combatentes na II Guerra Mundial e suas famílias e, posteriormente, á
população carente de modo geral;
Fundação Darcy Vargas :organismos de cooperação financeira que apoiava a implantação de
hospitais e serviços de assistência materno-infantil em diversos pontos do país;
Casa do Pequeno Jornaleiro: programa de atenção a meninos de famílias de baixa renda baseado no
trabalho informal (venda de jornais) e no apoio assistencial e socioeducativo;
Casa do Pequeno Lavrador: programa de assistência e aprendizagem rural para crianças e
adolescentes filhos de camponeses;
Casa do Pequeno Trabalhador: programa de capacitação e encaminhamento ao trabalho de crianças
e adolescentes urbanos de baixa renda;
Casa das Meninas: programa de apoio assistencial e socioeducativo a adolescentes do sexo feminino
com problemas de conduta.
Portanto, quanto ao trabalho e à educação, Pilotti (1995, p. 67) sinaliza que o
Governo estabeleceu, para os denominados menores, um sistema nacional, com
integração do Estado e de instituições privadas. Neste sentido, a ação do setor
público foi conduzida pelo “[...] Conselho Nacional de Serviço Social (1938),
Departamento Nacional da Criança (1940), o Serviço Nacional de Assistência a
Menores (SAM, 1941) e Legião Brasileira de Assistência (LBA, 1942) [...]”.

O Serviço Nacional de Assistência a Menores (SAM) foi criado no período


considerado especialmente autoritário do Estado Novo. Tal Serviço:

Tratava-se de um órgão do Ministério da Justiça e que funcionava como um


equivalente do sistema Penitenciário para a população menor de idade. Sua
orientação era correcional-repressiva. O sistema previa atendimento
diferenciado para o adolescente autor de ato infracional e para o menor
carente e abandonado (MILANEZI, 2004, p. 13).

Observa-se, portanto, que o SAM possuiu uma orientação pautada na correção e


repressão. Além disso, diferenciou o atendimento às crianças e aos adolescentes
segundo suas características e ato cometido.

A implantação do SAM, segundo Pilotti (1995, p. 68), teve mais a ver com a questão
da ordem social que da assistência. O SAM, que tinha o dever de orientar a política
pública para a criança, foi redefinido em 1944 (Decreto Lei n. 6865). Tal instituição,
vinculada ao Ministério da Justiça e aos juizados de menores, tinha como
competência:

[...] orientar e fiscalizar educandários particulares, investigar os menores


para fins de internação e ajustamento social, proceder ao exame médico-
psico-pedagógico, abrigar e distribuir os menores pelos estabelecimentos,
promover a colocação de menores, incentivar a iniciativa particular de
assistência a menores e estudar as causas do abandono [...] (PILOTTI,
1995, p. 68).

Estas foram, portanto, competências próprias do Serviço Nacional de Assistência a


Menores.

Com o advento do SAM, este passou a supervisionar e controlar as instituições


particulares que só podiam receber subsídios após audiência junto ao Serviço
Nacional de Assistência a Menores. Ao Juizado de Menores coube apenas fiscalizar
o regime educativo e disciplinar os internatos, o que levou a uma redução do poder
dos Juízes (PILOTTI, 1995, p. 68).

No que diz respeito à Legião Brasileira de Assistência (LBA) – agência nacional de


assistência social criada pela primeira dama que se caracterizava enquanto uma
instituição voltada primeiramente ao atendimento de crianças órfãs – tinha, entre
outros, o propósito de prover as necessidades dos familiares, executando seu
programa através da colaboração entre a iniciativa privada e o poder público. Neste
sentido, a LBA visava, também, “[...] promover serviços de assistência social, prestar
decidido concurso ao governo e trabalhar em favor do processo de serviço social no
Brasil [...]”. A LBA ampliou seu leque de ação a entidades assistenciais do Brasil
todo e deu auxílio a idosos, estímulo às creches, auxílio aos doentes e, também a
grupos de lazer, ou seja, inseriu estes segmentos na estratégia assistencialista do
Estado (PILOTTI, 1995, p. 68).

Em meio a este contexto, no ano seguinte à criação da LBA, em 1943, a


consolidação das Leis do Trabalho regulamentou a proteção ao trabalho do menor,
proibindo-o até 14 anos, com exceção do trabalho nas instituições beneficentes ou
de ensino, e restringiu algumas modalidades de trabalho entre 14 e 18 anos.
Ressalta-se, que Marcondes Filho, Ministro do Trabalho, criou, neste contexto, uma
Comissão Revisora do Código de Menores adaptando-o às novas leis e
concretizando no Decreto-Lei n°6026 de 24 de novembro de 1943 (PILOTTI, 1995,
p. 67, apud BRITTO, 1959, p. 570).
Ressalta-se que o Governo de Getúlio Vargas foi deposto no ano de 1945 e uma
nova constituição foi promulgada em 1946. Esta constituição, que possuía um
caráter liberal, levou ao retorno das instituições de caráter democrático. Além disso,
“[...] restabeleceu a independência entre os 3 Poderes (Executivo, Legislativo e
Judiciário), trouxe de volta o pluripartidarismo, a eleição direta para presidente (com
mandato de cinco anos), a liberdade sindical e o direito de greve [...]”. Extinguiu,
também, a pena de morte e a censura (MILANEZI, 2004, p. 14).

Tal Constituição, em seu inciso IX, colocou a norma de proibição do trabalho aos
menores de 14 anos e do trabalho de menores de 18 anos em indústrias insalubres
e em trabalho noturno. Como última norma de proteção à criança, na Constituição
de 1946, determinou-se, no art. 164, a obrigação de dar assistência à infância e à
adolescência, e, também, amparo às famílias constituídas por um grande número de
pessoas (COELHO, 1998, p. 106).

No ano de 1950, foi instalado o primeiro escritório do UNICEF (Fundo das Nações
Unidas para a Infância) no Brasil, em João Pessoa, na Paraíba. Ressalta-se, que
seu primeiro projeto foi destinado às iniciativas de proteção à saúde da gestante e
da criança, em alguns estados do nordeste no Brasil (MILANEZI, 2004, p. 14).

Em 1959 houve a aprovação, pela Assembléia Geral da ONU (Organização das


Nações Unidas), da Carta dos Direitos Universais da Criança, que estava em pauta
desde o ano de 1924. Tal Carta trouxe “[...] novas diretrizes no tratamento
dispensado às crianças e aos adolescentes, reconhecendo-se a partir deste
momento que a eles devem ser dispensados cuidados especiais [...]” – proteção
especial – própria a idade. Com isso, a Carta de 1924 é aperfeiçoada e aplicada, na
qual a criança passou a ser vista enquanto detentora de direitos (DALTON et al.,
2005, p. 29, apud Marcílio, 1998).

Neste sentido, salienta-se que,

Sob a influência da Carta dos Direitos Universais das Crianças, o Estado é


chamado a assumir a responsabilidade pela assistência e proteção á
infância vulnerável. Começa então, a ser construída a fase de assistência e
proteção á infância que, no Brasil tem início com tímidas iniciativas voltadas
para as famílias pobres (DALTON et al., 2005, p. 29, apud Marcílio, 1998).
Observa-se, portanto, que no fim da década de 1950, com a aprovação da Carta dos
Direitos Universais das Crianças pela ONU, o Brasil passou a desenvolver, mesmo
que timidamente, a assistência e proteção à criança e ao adolescente, no país,
considerando-os em seus direitos.

Portanto, no início da década de 60, em virtude das lutas de movimentos sociais em


prol da defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes no Brasil, as crianças e
os adolescentes passam a ganhar maior visibilidade, mesmo que as atenções a eles
tenham se dado de forma residual (DALTON et al., 2005, p. 29).
Ressalta-se que a década de 1960 marcou o início da Ditadura Militar, com o Golpe
de 1964, onde os militares tomaram o poder no Brasil e passaram a direcionar e
controlar a vida da população brasileira. Neste contexto, “[...] as políticas públicas
também passaram para o controle dos militares, as crianças e os adolescentes
como não poderiam deixar de ser, passaram a ser orientados e controlados sob esta
ótica [...]”. Nesse sentido, destaca-se a importância da educação, como instrumento
ideológico com o objetivo de doutrinar segundo a orientação da Ditadura Militar,
controlar as crianças e os adolescentes de classes pobres e fortalecer a força
produtiva do país, em principal (DALTON et al., 2005, p. 29 e 30).

Neste panorama, em 1964 ocorreu à extinção do SAM e aprovação de um novo


órgão, a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (FUNABEM), sem
subordinação ao Ministério da Justiça e ao presidente da República (PILOTTI, 1995,
p. 75). Para tanto,

A Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor tinha como objetivo formular


e implantar a Política Nacional do Bem Estar do Menor, herdando do SAM
prédio e pessoal e, com isso, toda a sua cultura organizacional. A
FUNABEM propunha-se a ser a grande instituição de assistência à infância,
cuja linha de ação tinha na internação, tanto dos abandonados e carentes
como dos infratores, seu principal foco (MILANEZI, 2004, p. 15).

A FUNABEM se constituiu, portanto, enquanto uma instituição, de internação, de


respaldo no que tange a assistência à criança e ao adolescente em situação de
abandono, de ato infracional e de carência.

Com o golpe, a presença autoritária do estado tornou-se uma realidade. Houve


restrição à liberdade de expressão e opinião, além de “[...] recuos no campo dos
direitos sociais e instituição dos Atos Institucionais que permitiam punições,
exclusões e marginalizações políticas [...]”. Estas eram algumas das medidas da
nova ordem que golpe havia trazido. Portanto, para condicionar um novo
direcionamento dos direitos sociais foi promulgada em 1967, uma nova constituição
(MILANEZI, 2004, p. 15).
Segundo Pilotti (1995, p. 82), neste período destaca-se que a situação de miséria se
evidenciava cada vez mais no Brasil fazendo com que crianças fossem levadas ao
trabalho. Neste sentido,

A Constituição de 1967 (art. 158, X) reduz a idade da proibição para o


trabalho até 12 anos, visando a incorporar mais cedo a mão-de-obra ao
mercado de trabalho, reforçando a estratégia de utilização precoce de mão-
de-obra infantil. Obriga-se também as empresas a ministrarem, em
cooperação, aprendizagem a seus trabalhadores menores, incluindo-se esta
obrigação também para os trabalhadores adultos e seus filhos (art. 170)
(PILOTTI, 1995, p. 82).

Portanto, na década de 1960, período de grande crise econômica, houve a redução,


da idade de proibição para o trabalho, para 12 anos. Observa-se, portanto, que a
criança torna-se e, é solicitada, enquanto mão-de-obra para levantar a economia do
país e lucros para o capital.

Ressalta-se, portanto, que no período militar houve a elaboração de duas leis


significativas e que indicavam a visão vigente para a área da infância: a Lei 4.513 de
01/12/1964 que criou a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor – citada acima
–, e a Lei 6697 de 10/10/1979 que promulgou o Código de Menores de 1979, que
será explicitada no item que se segue (MILANEZI, 2004, p. 15).

1.2.2 O Código de Menores de 1979

Em 1974 foi apresentando um projeto de lei do senador Nelson Carreiro para a


reformulação do Código de Menores de 1927. A Associação Brasileira de Juízes de
Menores acompanhou e modificou o projeto. Este foi analisado pelo Executivo no
Ministério da Justiça em contato com os juízes de menores. Todas as áreas que
tinham responsabilidade no que tange ao atendimento de crianças e adolescentes
no Brasil consentiram com o texto apresentado. Assim, em 1979 promulgou-se o
Novo Código de Menores, sendo este, portanto, uma revisão do Código anterior
(PILOTTI, 1995, p. 80).

O Código de 1979, no entanto,


[...] não [rompeu] [...] com sua linha principal de arbitrariedade,
assistencialismo e repressão junto a população infanto-juvenil. Esta lei
introduziu o conceito de “menor em situação irregular”, que reunia o
conjunto de meninos e meninas que estavam dentro do que alguns autores
denominam infância em “perigo” e infância “perigosa”. Esta população era
colocada como objeto potencial da administração da Justiça de Menores
(MILANEZI, 2004, p. 15).

Neste sentido, o Código de Menores de 1979 não deixou de direcionar a intervenção


de forma arbitrária e repressiva para os “menores” designados em situação irregular
frente a ordem societária, uma vez que estes eram considerados, pela população da
época, um perigo à sociedade.

Pilotti (1995, p. 80), afirma que, o “novo” Código de Menores adotou notoriamente a
doutrina da situação irregular, na qual os menores seriam assistidos quando se
encontrassem em estado de patologia social, definida por lei. Assim, o Código de
1979 definiu como situação irregular:

[...] a privação de condições essenciais à subsistência, saúde e instrução,


por omissão, ação ou irresponsabilidade dos pais ou responsáveis; por ser
vítima de maus tratos; por perigo moral, em razão de exploração ou
encontrar-se em atividades contrárias aos bons costumes, por privação de
representação legal, por desvio de conduta ou autoria de infração penal.
Assim as condições sociais ficam reduzidas à ação dos pais ou do próprio
menor, fazendo-se da vítima um réu e tornando a questão ainda mais
jurídica e assistencial, dando-se ao juiz o poder de decidir sobre o que seja
melhor para o menor: assistência, proteção ou vigilância. Na prática
consagra o que vinha fazendo a FUNABEM [...]. O novo Código, no entanto,
facilita a adoção, e embora não obrigatório no processo, é previsto o
contrário (PILOTTI, 1995, p. 81).

Portanto, com o Código de Menores de 1979, houve a introdução do conceito


“menor em situação irregular”, considerando situação irregular a falta dos elementos
necessários para a sobrevivência, manutenção e desenvolvimento das crianças e
dos adolescentes, assim como a conduta social imprópria infringindo a ordem
societária.

Tendo em vista as direções postas por essa Lei, segundo Milanezi (2004, p. 16), “[...]
a concepção política social implícita no Código de Menores, era a de um
Instrumento de controle social dirigido às vítimas de omissão e transgressões da
família, da sociedade e do Estado [...]”.
Quanto ao contexto, marcado pelo militarismo, é importante ressaltar que:

A sociedade civil durante o período da Ditadura Militar [...], permaneceu


excluída das decisões políticas, econômicas e sociais do país. Essa
exclusão era normatizada, regulamentada e fiscalizada pelos militares.
Porém, é errôneo pensar que essa sociedade civil realmente ficou a parte
das articulações, mobilizações e reivindicações críticas desse momento.
Sua atuação politizada cresceu consideravelmente nesse período, mesmo
que de forma clandestina, e a partir de 1979 passa a ganhar força e
notoriedade (DALTON et al., 2005, p. 31).

Neste sentido, salienta-se que os movimentos sociais durante o período Militar se


difundiram, uma vez que a direção societária imposta pelo Governo desagradava e
atingia a população negativamente. Com o crescimento desses movimentos pode-se
observar, também, a acentuada preocupação de segmentos da sociedade com a
questão da criança e o adolescente.

Portanto, a luta e mobilização em prol das crianças e dos adolescentes


condicionaram, de forma gradativa, os cidadãos aos debates em favor de
assistência mais comprometida com a questão da criança e do adolescente no país.
Neste sentido, houve a conquista de categorias da sociedade que começaram a
reivindicar um ideal mais justo de proteção e de direito que assegurasse a criança e
ao adolescente sua integridade social e física (DALTON et al., 2005, p. 31).

Neste sentido, na década de 1980, em conseqüência da abertura política do país, no


âmbito da infância e da adolescência houve uma forte mobilização nacional, com
repercussão internacional, visando à defesa dos direitos de crianças e de
adolescentes e reivindicações por mudanças no Código de Menores, na busca de
promover uma mudança das concepções da sociedade e nas políticas judiciais e
sociais do Estado quanto à atenção à criança e ao adolescente (SILVA, 2005, p. 31 e
32).

Portanto, na década de 1980 “[...] os ideais de reformulação da política de


assistência à criança e ao adolescente se confluem com os ideais de libertação do
sistema ditatorial vigente [...]” através da queda do governo militar e conquista de um
modelo de estado mais democrático (DALTON et al., 2005, p. 32).
Isso posto, a década de1980, caracterizou-se pela redemocratização do país, na
qual puderam se observar a expansão de movimentos sociais e a presença de
atores sociais visando lutar por conquistas de direitos. Portanto, nesse momento a
sociedade civil se destaca e representa alguns segmentos da sociedade para
impulsionar a intervenção do governo na efetivação e constituição de direitos para a
população.

Portanto, com o fim da Ditadura Militar e a conquista da abertura política, o Brasil


passou a ser conduzido por paradigmas democráticos, que passaram a valorizar a
atuação da sociedade civil junto às decisões do governo (DALTON et al., 2005, p.
32).

Pilotti (1995, p. 86) destaca algumas ações do governo surgidas no início dos anos
1980. Segundo o autor,

Com a introdução de uma nova contribuição social sobre o faturamento das


empresas, o FINSOCIAL (1982), torna-se possível a ampliação de recursos
para o Estado. O Governo Sarney com o discurso de “tudo pelo social” cria
uma Secretaria de Ação Comunitária, vinculada diretamente à Presidência
da República que se volta basicamente para um programa de distribuição
de tickets de leite às populações pobres das periferias das cidades através
das próprias associações comunitárias. O programa assume um caráter
desmobilizador das ações reivindicativas, ao mesmo tempo em que relança
intervenções populistas, pontuais, clientelistas, desvinculadas da cidadania
(PILOTTI, 1995, p. 86).

Mesmo com aparatos legais em torno da criança e ao adolescente nos anos 1980,
Pilotti (1995, p. 86), chama atenção para a crise econômica, que agravou a situação
da criança neste período. Segundo ele, a visibilidade da miséria da infância
apareceu nas ruas em destaque para “a figura do Menino e da Menina de Rua”,
principalmente nos grandes pólos.

Neste período, de redemocratização do país e de notoriedade da figura do Menino e


da Menina de Rua, houve a criação do Movimento Nacional de Meninos e Meninas
de Rua (MNMMR) que influenciou juntamente com outros atores sociais na
elaboração da Constituição Federal de 1988 no que tange a atenção à área da
criança e da adolescência. É importante ainda salientar, quanto ao MNMMR, que
este constituiu numa grande referência no processo de desconstrução do paradigma
da “situação irregular” do Código de menores de 1979 (SILVA, 2005, p. 32).

Em outubro de 1988, em decorrência dos movimentos sociais da década anterior, foi


promulgada a Constituição Brasileira, que introduziu modelo diferenciado de gestão
das políticas sociais, através do incentivo à participação ativa das comunidades por
via dos conselhos consultivos e deliberativos. Portanto, a Constituição Federal de
1988 configurou um grande avanço na área social no que tange o controle social
(MILANEZI, 2004, p. 17).

Houve a organização de um grupo de trabalho, na Assembléia Constituinte,


comprometido com o tema da criança e do adolescente, que conduziu a elaboração
do artigo 227. Tal Artigo “[...] introduziu conteúdo e enfoque próprios da Doutrina de
Proteção Integral da Organização das Nações Unidas, trazendo os avanços da
normativa Internacional para a população infanto-juvenil brasileira [...]”. Neste
sentido,

Este artigo garantia às crianças e adolescentes os direitos fundamentais de


sobrevivência, desenvolvimento pessoal, social, integridade física,
psicológica e moral, além de protegê-los de forma especial, ou seja, através
de dispositivos legais diferenciados, contra negligências, maus tratos,
violência, exploração, crueldade e opressão. [...] Estavam lançadas,
portanto, as bases do Estatuto da Criança e do Adolescente (MILANEZI,
2004, p. 17).

Portanto, em meio ao processo de construção e elaboração da Constituição Federal


de 1988, a atenção à criança e ao adolescente foi impulsionada por movimentos e
profissionais comprometidos em prol da criança e do adolescente. Com isso,

Os direitos da criança perpassam as diferentes áreas, mas ficam bem


estabelecidos no Artigo 227, 228, 229 da Constituição de 1988. Garante-se
à criança e ao adolescente, “como dever do Estado e da sociedade os
direitos à vida, à saúde, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. A
inimputabilidade penal fica definida até os 18 anos, e o trabalho proibido até
a idade de 14 anos, salvo na condição de aprendiz (art. 7, item XXXIII)
(PILOTTI, 1995, p. 85).
Observa-se, portanto, que a Constituição Federal de 1988 faz menção aos direitos
da criança e do adolescente em três Artigos, que foram fruto de ação de movimentos
e profissionais em torno do direito deste segmento da sociedade.

Tendo por foco as ações de articulação clientelista do governo nos anos 1980,
observa-se a criação de um programa de encaminhamento de crianças para o
trabalho. Tal política denominou-se por “Programa Bom Menino” (foi instituído pelo
Decreto-lei 2.318/86 e regulamentado pelo Decreto 94.338/87) que foi destinada à
iniciação ao trabalho do menor assistido com idade de 12 a 18 anos. Para tanto,
criou-se uma bolsa de trabalho e a obrigação da freqüência na escola. As empresas
com mais de 5 empregados, deviam possuir 5% do quadro técnico com esta
condição de contrato, “[...] com jornada máxima de 4 horas e remuneração de meio
salário mínimo, sem que gere vínculo empregatício ou encargos previdenciários ou
do FGTS para as empresas [...]” (PILOTTI, 1995, p. 87).

Sendo assim, Pilotti (1995, p. 88) dá destaque ao que se pode denominar de


programas alternativos. Segundo o autor,

As políticas e práticas de internação, na década de 1980, vão sendo


confrontadas com políticas e práticas de atendimento direto nas ruas e de
redes de trabalho. As mudanças políticas globais e o trabalho de militantes
junto aos movimentos sociais vão se refletindo na ação junto a criança e
adolescentes, então chamada de “projetos alternativos” em confronto com a
estratégia de internação e repressão (PILOTTI, 1995, p. 88).

Portanto, pode-se observar que as ações através de programas alternativos,


surgidos nos anos 80, confrontaram as políticas e as práticas de internação que
eram adotadas e contidas no Código de Menores.

Neste sentido, os projetos se desenvolveram através de organizações não


governamentais em áreas de cerâmica, venda de produtos, formação profissional,
alfabetização, ensino religioso. É importante ressaltar que foi a partir da articulação
desses projetos que surgiu o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua
(MNMMR), – citado anteriormente – que realizou três encontros nacionais nos anos
de 1986, 1989, 1993, em Brasília e “[...] que contribuíram significativamente para
trazer a questão da política para a infância como debate nacional [...]” na qual as
crianças e adolescentes passaram a ser considerados sujeitos de direitos (PILOTTI,
1995, p. 88 e 89). Neste sentido,

Além de ter um papel ativo na Constituição junto com o UNICEF, o MNMMR


contribui para a mobilização da sociedade no sentido de aprovar e exigir a
aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, juntamente com
intelectuais, juízes progressistas, promotores, Pastoral do Menor,
parlamentares. Vários encontros são realizados, negociações e pressões
para que a lei fosse aprovada em tempo recorde, ou seja, menos de dois
anos após a promulgação da Constituição em 5 de outubro de 1988. A
direção do CBIA [Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência] também
deu apoio significativo para a aprovação da lei (PILOTTI, 1995, p. 89).

Portanto, o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua em conjunto com


intelectuais, juízes progressistas, promotores, profissionais, Pastoral do Menor,
parlamentares e sociedade mobilizada, contribuíram significativamente para a
aprovação e legitimação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil
consolidado em julho de 1990.

Importa salientar, que no âmbito internacional:

[...] a conjuntura que antecedeu a aprovação do ECA – nas décadas de


1970 e 80 – passava por mudanças substanciais na conformação de uma
fase mais evoluída do capitalismo conhecida como globalização. As
metamorfoses na relação capital/trabalho alteraram o padrão fordista de
produção e o gerenciamento da força de trabalho, passando a vigorar o
toyotismo que introduziu a gestão da acumulação flexível e seus
desdobramentos. Na economia política, o neoliberalismo proponha um
Estado mínimo para enfrentar a crise do capitalismo. Essas transformações,
juntamente com a revolução informacional, provocaram um processo de
“reestruturação produtiva”, de desemprego estrutural, de precarização das
relações de trabalho e outras mudanças que tiveram como conseqüência,
dentre tantas, o xenofobisbo, a tolerância zero, sobretudo com o
aparecimento de novas expressões da questão social (SILVA, 2005, p. 33).

Portanto, internacionalmente, no contexto que antecedeu a promulgação do Estatuto


da Criança e do Adolescente no Brasil, ocorriam mudanças no modo de produção,
que provocaram o processo de reestruturação produtiva, no qual se notou,
consideravelmente, um aumento do desemprego, formas de contratação
diferenciada, entre outros. Neste sentido, com o novo modelo de produção e com a
atuação mínima do Estado no âmbito social, proposta de neoliberalismo que já
imperava, notou-se o agravamento e novas expressões da questão social.
Tendo em vista o agravamento e novas expressões da questão social, passa-se a
haver uma forte repercussão internacional quanto a defesa dos direitos da infância e
da adolescência. Neste sentido, enquanto contribuição para impulsionar o
surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, salienta-se que em 1989 as
Nações Unidas aprovaram a Convenção Internacional dos Direitos da Criança,
regulamentando a chamada “proteção integral”, que institui a cidadania das crianças
e dos adolescentes, assim como o sistema de garantias de direitos. Isso posto,
destaca-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi institucionalizado através
do “[...] movimento dialético entre a conjuntura nacional e a internacional que
caminhava na direção ao neoliberalismo [...]” (SILVA, 2005, p. 37).

O Estado brasileiro, portanto, a partir da aprovação da Convenção Internacional dos


Direitos da Criança foi um dos primeiros a tornar-se parte deste instrumento, em
1990, comprometendo-se, assim, a proteger integralmente os direitos humanos da
criança, assim como preconizado na Constituição Federal (1988) e no Estatuto da
Criança e do Adolescente (1990), diplomas legais que refletiram o debate
internacional dos direitos humanos das crianças feito no processo de elaboração da
Convenção sobre os Direitos da Criança (MARSOLIN, 2009).

Isso posto, quanto ao surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, salienta-


se que este:

[...] nasceu em resposta ao esgotamento histórico-jurídico e social do


Código de Menores de 1979. Nesse sentido, o Estatuto é processo e
resultado porque é uma construção histórica de lutas sociais dos
movimentos pela infância, dos setores progressistas da sociedade política
civil brasileira, da “falência mundial” do direito e da justiça menorista, mas
também é expressão das relações globais internacionais que se
reconfiguravam frente ao novo padão de gestão de acumulação flexível do
capital. É nos marcos do neoliberalismo que o direito infanto-juvenil deixa de
ser considerado um direito “menor”, “pequeno”, de criança para se tornar um
direito “maior” equiparado ao do adulto” [...] É no movimento endógeno
[nacional] e exógeno [internacional] que consideramos o ECA uma
conquista tardia das lutas sociais [...] (SILVA, 2005, p. 36).

Portanto, o estatuto da criança e do Adolescente no Brasil é resultado do movimento


nacional e internacional em prol da criança e do adolescente, num período marcado
por mudanças nos padrões de produção e agravamento das expressões da questão
social com o advento da reestruturação produtiva e implantação do neoliberalismo
no Brasil pelo governo Collor de Mello.

1.2.3 O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD)

O surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, em julho de 1990, se deu


após dois anos da promulgação da Constituição Federal de 1988. O Estatuto
revogou o Código de Menores de 1979 e expôs a Doutrina da Proteção Integral
excluindo a Doutrina da Situação Irregular adotada pelo Código de Menores de
1979.

Neste sentido, a Doutrina da Proteção Integral, contida no Artigo 1º do Estatuto da


Criança e do Adolescente:

[...] reconhece a criança e o adolescente como cidadãos; garante a


efetivação dos direitos da criança e do adolescente; estabelece uma
articulação do Estado com a sociedade na operacionalização da política
para a infância com a criação dos Conselhos de Direitos, Conselhos
Tutelares e dos Fundos geridos por esses conselhos; descentraliza a
política através da criação desses conselhos em nível estadual e municipal
estabelecendo que em cada Município haverá no mínimo, um conselho
tutelar, composto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local, de
acordo com a lei municipal; garante à criança a mais absoluta prioridade no
acesso às políticas sociais; estabelece medidas de prevenção, uma política
especial de atendimento, um acesso digno à Justiça com a obrigatoriedade
do contraditório. O ECA é consoante à Convenção das Nações Unidas
sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembléia Geral da UNO em
20/11/1989 (PILOTTI, 1995, p. 89 e 90).

Portanto, o Estatuto trouxe detalhadamente os direitos da criança e do adolescente


já em forma de diretrizes gerais para uma política nessa área.
Como exposto anteriormente, ressalta-se que foi na conjuntura marcada pela
implementação do projeto neoliberal no Brasil que o Estatuto da Criança e do
Adolescente foi promulgado. Salienta-se, portanto, que tal projeto, bem como sua
manutenção, repercutiu negativamente nas políticas sociais voltadas para a criança
e ao adolescente a partir dos anos 1990.

Neste sentido, considera-se que:


O aprofundamento do projeto neoliberal na década de 90 restringe a
participação do Estado no que tange os direitos sociais, e enaltece sua
atuação junto ao mercado financeiro. O dever do Estado de conferir políticas
públicas tais como educação, saúde, moradia, alimentação dentre outras
têm ficado comprometido quando suas prerrogativas de governo estão
aliadas a um projeto que prioriza o capital em detrimento do social. As
políticas focalizadas, segmentadas e compensatórias são resultado do corte
de verbas para a área social, do sucateamento dos equipamentos e da
insuficiência de recursos humanos (DALTON et al., 2005, p. 42).

Pode-se observar, então, que com a adesão ao projeto neoliberal nos anos de 1990,
o Governo brasileiro voltou-se necessariamente aos interesses econômicos e
restringiu sua atuação no âmbito social, mesmo com o conhecimento dos direitos
conquistados pela sociedade até então.

Caberia ao Estado garantir o bem comum, os direitos e a manutenção dos mínimos


sociais capazes de proporcionar às crianças e aos adolescentes o acesso aos bens
e serviços. No entanto, a sociedade civil organizada continuou a desenvolver grande
parte das políticas de atendimento na área social, uma vez que o Estado se
configurou mínimo (DALTON et al., 2005, p. 42).

A questão principal, no entanto, é que nesta conjuntura segmentos da sociedade se


mostram ainda mais fragilizados uma vez que o contexto neoliberal agrava ainda
mais a situação das famílias desfavorecidas socialmente, ao se ampliar a distância
entre as classes através da maior concentração de renda em favor das classes
dominantes da sociedade. Neste sentido as famílias das classes pobres têm cada
vez menos acesso a bens e serviços necessários à sua manutenção (MILANEZI,
2004, p. 27).

Com o Estatuto da Criança e do Adolescente, criado nesse contexto, notou-se um


novo direcionamento para a proteção deste segmento da sociedade. Neste sentido:

No Estatuto os direitos são expressos com enfoque radicalmente inovador,


rompendo com as formas assistencialistas, inquisitórias e estigmatizantes
tradicionais, expressas no anterior Código de Menores que vigorou de 1927
até 1990, tendo formulações comprometedoras com o período da ditadura
militar (MILANEZI, 2004, p. 22).

Portanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente rompe com o tradicionalismo


expresso no Código de Menores.
A Doutrina da Proteção Integral adotada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente,
de acordo com Liberati “[...] é baseada nos direitos próprios e especiais das crianças
e adolescentes que, na condição peculiar de pessoas em desenvolvimento,
necessitam de proteção diferenciada, especializada e integral [...]” (MILANEZI, 2004,
p.22, apud LIBERATI, 1991).

Isso posto, o Estatuto coloca a proteção diferenciada por impor uma diferença entre
o tratamento que se deve dar à minoridade e à maioridade, considerando a
minoridade sendo um processo de desenvolvimento pessoal da criança e do
adolescente. Delibera sobre a proteção especializada, pois tal proteção destina-se a
todas as crianças e aos adolescentes sem exceção. E, por fim dispõe sobre a
proteção integral, uma vez que a atenção às crianças e aos adolescentes deve se
realizar sem qualquer discriminação (MILANEZI, 2004, p. 22 e 23).

Passou-se, portanto, com o Estatuto, a considerar as crianças e os adolescentes


enquanto sujeitos em formação devendo ser respeitado e garantido seus direitos
como posto nesta lei.

Ressalta-se, que entre outras determinações,

O Estatuto impõe a condição sobre o interesse superior, que deve ser as


crianças e os adolescentes. Em todas as circunstancias, crianças e
adolescentes devem ser atendidos como prioridade absoluta, cumprindo
assim o acesso aos direitos. Crianças e adolescentes passam a ser
considerados cidadãos, com direitos pessoais e sociais garantidos,
desafiando os governos municipais a implementarem políticas públicas
especialmente dirigidas a esse segmento (MILANEZI, 2004, p. 23).
Portanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente inova, também, ao tratar sobre a
questão da prioridade absoluta. Neste sentido, expõe que o governo deve direcionar
prioritariamente a atenção e as políticas para este segmento da sociedade.

Tendo em vista, portanto os novos direcionamentos da atenção à criança e ao


adolescente, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo Milanezi (2004,
p. 23), “[...] A concepção política social implícita é a de um Instrumento de
desenvolvimento social, garantindo proteção especial àqueles segmentos
considerados pessoal e socialmente mais sensíveis” (MILANEZI, 2004, p. 23).
Portanto, nota-se que o Estatuto trouxe uma grande inovação no que tange a
atenção à criança e ao adolescente no Brasil. A partir da Doutrina da Proteção
Integral todas as crianças e adolescentes passaram a ser considerados enquanto
sujeitos de direitos, independente de sua situação social, ou seja, reconheceu-se
que todas as crianças e adolescentes são cidadãos de direitos. Além disso,
enquanto pessoas em desenvolvimento possuem prioridade absoluta no
atendimento devendo-lhes ser garantido o acesso aos seus direitos expressos
detalhadamente no ECRIAD.

Os direitos à vida, à saúde, à liberdade, ao respeito, à dignidade, à


convivência familiar e comunitária, à educação, à cultura, ao esporte, ao
lazer, à profissionalização e à proteção no trabalho estão expressos nos
Direitos Fundamentais, do Estatuto da Criança e do Adolescente
(MILANEZI, 2004, p. 23).

Portanto, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente, as crianças e os


adolescentes passam a ser considerados sujeitos em desenvolvimento. Além disso,
com o avanço jurídico, da proteção integral, a criança e o adolescente passam a ser
vistos, também, como sujeito em situação especial (MILANEZI, 2004, p. 24).
Neste sentido, a partir do ECRIAD as crianças e os adolescentes passam a ser
considerados sujeitos de direitos e não mais meros objetos de intervenção estatal ou
da sociedade civil.

Em 12 de outubro de 1991 foi promulgada a lei N. 8. 242 que criou o Conselho


Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA). A instalação do
CONANDA representou o estabelecimento de uma mudança institucional, pois o
Conselho possibilitou um impulsionamento da implantação do Estatuto da Criança e
do Adolescente, que trouxe uma mudança fundamental nas políticas anteriores que
dizem respeito à infância. Houve, também, um forte movimento para se implantar os
conselhos de direitos e os conselhos tutelares dentro da perspectiva de participação
e municipalização do ECRIAD (PILOTTI, 1995, p. 91).

Pilotti (1995, p. 92), sinaliza que em janeiro de 1995, o Presidente Fernando


Henrique Cardoso extinguiu o CBIA (Centro Brasileiro para a Infância e a
Adolescência), – criado em 1990 para substituir a antiga FUNABEM –, juntamente
com os Ministérios da Integração Regional e do Bem-Estar Social, e transferiu para
o Ministério da Justiça o acompanhamento relativos a questão dos direitos da
criança e do adolescente.

Segundo Pilotti (1995, p. 92) o mito do trabalho infantil, como modo de


encaminhamento da criança para vida, se manteve nas relações de produção e na
cultura no final de século XX. Houve, a partir do Estatuto da Criança e do
Adolescente, “[...] o direito à profissionalização, à aprendizagem profissional, à
proteção ao trabalho com todos os direitos trabalhistas [...]”. Com o Estatuto da
Criança e do Adolescente o Ministério Público Federal, o Ministério do Trabalho, e a
Secretaria da Polícia Federal firmaram um Termo de Compromisso visando a
erradicação de trabalho ilegal de crianças e adolescentes, a sua prevenção e
repressão. Para tanto, o autor afirma que:

[...] a presença da miséria, da barbárie, do trabalho precoce, da repetência


convivem na sociedade brasileira com um esforço de parte da sociedade, de
parte do Estado para reverter esta situação, configurando-se um país dual
onde se conflitam estratégias de clientelismo com as de cidadania, de
encaminhamento ao trabalho precoce com as de proteção ao trabalho da
criança, de violência e de defesa dos direitos [...] (PILOTTI, 1995, p. 93).

Portanto, nota-se, com tal citação, que apesar da promulgação do Estatuto da


Criança e do adolescente, ainda há a perpetuação, por parte da sociedade e do
Estado, de certa contradição, à medida que crianças e adolescentes permanecem
em condição de trabalhadores e passam a ter proteção de todos os direitos
trabalhistas, ou seja, utilizam-se estratégias para que a criança permaneça de certa
forma, impulsionando o desenvolvimento da economia e conseqüentemente
favorecendo o capital.

Como visto anteriormente, até meados de 1980 o trabalho infantil foi tolerado pelo
governo e pela sociedade. O problema era praticamente ignorado ou aparecia
diluído em meio às questões sobre crianças que estavam à mercê da sociedade.

A partir dos anos 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleceu em seu


artigo 60 capítulo V a proibição de qualquer trabalho a menores de quatorze anos de
idade, salvo na condição de aprendiz (BRASIL, 1990).
As novas linhas de ação da Política de Proteção Integral, contidas no Estatuto da
Criança e do Adolescente, solicitam uma modificação dos serviços da “política de
atendimento” à criança e ao adolescente expressos em políticas sociais, “[...] cuja
inclusão seja decorrente de um processo de reconhecimento e de garantia dos
direitos que venham a suprir as necessidades de desenvolvimento dos mesmos [...]”
(MILANEZI, 2004, p. 24). No entanto, o atendimento à criança e ao adolescente, a
partir dessa concepção, não se efetiva de fato e vem sofrendo com os rebatimentos
do sistema neoliberal.

Neste sentido, a situação atual da criança e do adolescente, assim como as políticas


sociais voltadas a esta área, exige que haja uma alteração da dinâmica societária
para que possa haver a efetivação os direitos deste seguimento. Faz-se necessário,
também, analisar se os serviços e os programas sociais estão garantindo a
consolidação, de fato, das políticas de atendimento (MILANEZI, 2004, p. 24).

Isso posto, quanto as políticas sociais considera-se que estas:

[...] ficaram, na maioria das vezes, à mercê de processos e práticas


compensatórias, que obstaculizam a implantação de uma política de acesso
aos bens sociais, materiais e culturais que visem assegurar e garantir o
provimento do bem estar e dos direitos sociais dessa faixa etária dos
cidadãos (MILANEZI, 2004, p. 24 e 25).

Isso significa, portanto, que as políticas sociais acabam se configurando numa


prática compensatória do governo. Tal prática impossibilita, às crianças e os
adolescentes, a apropriação dos seus direitos, de fato, como garantido no Estatuto,
uma vez que as políticas do governo, neste norte, são focalistas e segmentas.

Neste sentido, considera-se que, assim como o Brasil possui uma legislação própria
sobre os direitos da criança e do adolescente (e está é comparada como uma das
mais avançadas e complexas do mundo) possui, em contrapartida, uma realidade
totalmente excludente, a qual impede a criança, o adolescente e a maioria da
população brasileira o acesso e a garantia de seus direitos (MILANEZI, 2004, p. 25).
Portanto, nota-se um forte agravamento das expressões da questão social na
realidade social brasileira condicionada pela lógica neoliberal, que rebate
diretamente na condição de vida de crianças e adolescentes de classe pobre
principalmente. Neste viés, considera-se que:

A estrutura social brasileira é marcada por acentuadas desigualdades que,


ao longo do tempo, vem se agravando. No atual contexto da realidade
brasileira essas desigualdades são marcadas pela exclusão da população
do trabalho, levando a marginalização e dificultando o acesso a bens e
serviços necessários para suprir as necessidades básicas. São inúmeras as
questões a serem debatidas e investigadas para diminuir [...] [as expressões
da questão social], para que seja possibilitada uma melhor distribuição de
rendas, permitindo que o trabalhador tenha melhores condições de trabalho
e remuneração (MILANEZI, 2004, p. 25).

De acordo com Milanezi (2004, p. 27):

A pobreza, a fome, a miséria estão espalhadas e ampliadas por todo


território nacional, inclusive a fome é tratada recentemente como ponto
principal de intervenção do Governo Federal. A sociedade muitas vezes é
levada a uma luta pela sobrevivência, travada no dia-a-dia, visando garantir
o mínimo necessário à vida. É neste cenário que as crianças, Filhas dessa
sociedade se inserem nessa luta desde muito cedo, pois elas são educadas
a trabalhar, a adquirirem autonomia, realizar tarefas domésticas, na rua, na
lavoura, em pequenos estabelecimentos, muitas vezes, em troca de roupas
e comida.

Portanto, a ampliação das expressões da questão social condiciona o governo


brasileiro a se posicionar no enfrentamento destas. No entanto, as ações do governo
atingem uma pequena parcela da população necessita. Não havendo o suprimento
das necessidades da população, perpetua-se, entre uma parcela da população, a
condição de miséria. Tal condição leva crianças e adolescentes a viver em situação
de trabalho infantil no país.
Neste viés de pensamento, Milanezi (2004, p. 28) sustenta que:

As crianças e os adolescentes pobres não se configuram como um mercado


consumidor fundamental para a economia. Os setores dinâmicos e nossa
economia não estão voltados para o consumo interno e popular. As políticas
atuais do estado vêm dando uma atenção marginal às políticas sociais e se
ocupando principalmente das atividades de suporte ao capital.

Portanto, a ampliação e consolidação das políticas sociais em favor das classes


subalternas mostram-se na contramão da política vigente, e se tornam cada vez
mais restritas em sua abrangência sendo focalizadas, segmentadas e centralizadas
nos grupos mais miseráveis.

Em síntese, ressalta-se que questão social, agravada pelo modelo neoliberal,


propicia que cada vez mais crianças e adolescentes se encontrem em situação de
trabalho infantil, no narcotráfico, na violência, na exploração sexual, “[...] como
também a ineficiência e ineficácia das políticas públicas de educação, saúde,
habitação, assistência social, entre outras [...]” (MILANEZI, 2004, p. 28).

Segundo Pilotti (1995, p. 51), em decorrência da luta dos movimentos sociais no


bojo da elaboração da Constituição de 1988, a cidadania da criança e do
adolescente passou a ser incorporada nos discursos oficiais e na agenda dos atores
políticos muito recentemente. No entanto, de acordo com o autor citado,

na cultura e estratégias de poder predominantes, a questão da infância não


se tem colocado na perspectiva de uma sociedade e de um Estado de
direitos, mas na perspectiva do autoritarismo/clientelismo, combinando
benefícios com repressão, concessões limitadas, pessoais e arbitrarias, com
disciplinamento, manutenção da ordem, ao sabor das correlações de forças
sociais ao nível da sociedade do governo. As polemicas relativas às
políticas para a infância demonstram esse conflito de visões e de
estratégias, por exemplo a que se refere à divergência entre os que
privilegiam a punição e os que privilegiam o dialogo, a negociação, as
medidas educativas (PILOTTI, 1995, p. 51).

Portanto, pode-se dizer que a questão da infância culturalmente está enraizada nas
correlações de forças sociais e governamentais tratada na perspectiva do
autoritarismo e clientelismo e não numa perspectiva de uma sociedade e de um
Estado de direitos, pois mesmo com advento da Constituição de 1988 e
posteriormente do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, notam-se
enormes lacunas da sociedade e do Governo no que diz respeito ao atendimento e
às ações voltadas à cidadania da criança e adolescente no Brasil na busca da
efetivação de seus direitos e acesso aos mesmos.

Mesmo com um significativo avanço das modalidades de atendimento às


necessidades das crianças e adolescentes, nas suas mais diversas formas e
dimensões: educação, lazer, cultura, esporte, saúde, apoio jurídico, entre outros,
nota-se como a conjuntura social provocou uma deteriorização das políticas
públicas, uma vez que estas estão condicionadas pelo modelo neoliberal de
crescimento econômico o qual tende a levar a exclusão social entre as classes mais
desfavorecidas da sociedade.

Portanto, tanto a efetivação da Proteção Integral quanto das políticas públicas na


área da infância, ou seja, a efetivação de fato do Estatuto da Criança e do
Adolescente, constituem um desafio para a sociedade brasileira e também para os
profissionais que trabalham com políticas públicas formuladas para cumprir o que
está posto nesta Lei.

Isso posto, em se tratando da atuação do profissional de Serviço Social, para que se


possa compreender os desafios e tal atuação na área da criança e do adolescente,
propõe-se, no capítulo a seguir, analisar o contexto sócio-histórico do Serviço Social
inserido nas políticas voltadas à criança e ao adolescente no Brasil, analisando a
prática de intervenção do Serviço Social desde suas primeiras intervenção até a
atualidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente.

2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL INSERIDO


NAS POLÍTICAS VOLTADAS À CRIANÇA E AOS ADOLESCENTES
NO BRASIL

Como visto, no item anterior, o desenvolvimento das políticas, voltadas à área da


criança e do adolescente, se deu a partir dos movimentos sociais na luta por direitos
à qual articulou vários atores sociais dentre eles profissionais de Serviço Social. Isso
posto, para compreender a atuação do Serviço Social na área da criança e do
adolescente faz-se necessário analisar historicamente sua inserção nas políticas
voltadas a este seguimento no Brasil. Para tanto, é necessário expor, com clareza
cronológica, como se deu o desenvolvimento, implantação e processo de inovação
da profissão de Serviço Social no país; a partir de quais necessidades e questões; e,
quais foram os sujeitos envolvidos nesse processo.

Propõe-se problematizar a intervenção profissional do Serviço Social, no Brasil, na


área da infância e da adolescência, explicitando as ações e leis de atenção à criança
e ao adolescente que surgiram e foram sendo modificadas ao longo do contexto
histórico no qual o profissional foi requisitado a intervir.

2.1 A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL E A INTERVENÇÃO


PROFISSIONAL NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO
BRASIL

Foi no contexto de desenvolvimento capitalista industrial e expansão urbana que o


Serviço Social passou a se desenvolver como profissão reconhecida na divisão
social e técnica do trabalho, pois foi nesse contexto, em que se afirmou,
hegemonicamente, o capital industrial e financeiro, que emergiu a “questão social”
propriamente dita, norteando a necessidade de um profissional especializado que
atuaria diretamente nas expressões da questão social derivadas do sistema
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 77). Compreende-se que a questão social:

[...] não é senão as expressões do processo de formação e


desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da
sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do
empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da
contradição entre o proletariado e burguesia, a qual passa a exigir outros
tipos de intervenção, mais além da caridade e repressão [...] (IAMAMOTO;
CARVALHO, 2005, p. 77).

Neste sentido, a questão social é entendida aqui como a contradição entre capital e
trabalho, isto é, a contradição entre a riqueza socialmente produzida e a sua divisão
desigual.

Portanto, a questão social e suas múltiplas expressões passam a ser o objeto do


trabalho profissional e sua gênese encontra-se enraizada na contradição que
demarca a sociedade capitalista, na qual a produção é cada vez mais social e a
apropriação do trabalho, suas condições e seus resultados, são cada vez mais
privadas, assumindo distintas aparências em cada época (MIRANDA; CAVALCANTI,
p. 04, acesso em: 12 abr. 2009).

A emergência do Serviço Social se deu, portanto, no decorrer do processo histórico


no qual emerge a questão social derivada do aprofundamento do capitalismo nas
décadas de 1920 e 1930, no Brasil, onde houve a abusiva exploração do trabalho e
conseqüentemente o surgimento de Leis sociais, sendo estas, fruto das lutas
empreendidas pela classe trabalhadora. A implantação do Serviço Social se deu pela
“[...] iniciativa particular de grupos e frações de classe, que se manifestaram,
principalmente, por intermédio da Igreja católica [...]” (IAMAMOTO; CARVALHO,
2005, p. 127).

Isso posto, explicita-se que Serviço Social no Brasil se desenvolveu pela influencia
da Igreja católica, que manteve por um longo período o domínio da formação dos
agentes sociais, de sua doutrina e ideologia. Além disso, tal profissão se
desenvolveu no momento em que a Igreja se articulava para a recuperação e defesa
de seus próprios interesses, bem como para sua reafirmação na sociedade
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 213).

Após seu surgimento, atrelado a Igreja católica, o Serviço Social passou a ser
requisitado pelo Estado para intervir junto às classes trabalhadoras, no
enfrentamento das expressões da questão social, através das políticas
assistencialistas, implementadas pelo Estado. Sustentando tal afirmação considera-
se, pois, que:

[...] o surgimento do Serviço Social no Brasil se dá vinculado à Igreja [...]


Como estratégia dos setores dominantes para sua legitimação, o Estado irá
incorporá-lo posteriormente para a implementação de políticas assistenciais
buscando atenuar os conflitos de classe e é através desse enfrentamento
da questão social que ocorre sua institucionalização e se altera sua
“clientela” para o atendimento da classe operária [...] (MIRANDA;
CAVALCANTI, p. 04, acesso em: 12 abr. de 2009).

Portanto, o exercício profissional do Serviço Social se deu no interior das relações


sociais existentes na sociedade, em conjunturas históricas determinadas. A atuação
do Assistente Social foi permeada por interesses de classes, sendo cooptada por
aqueles que possuíam uma posição dominante. No entanto, vale ressaltar que,
desde seus primórdios, o Serviço Social participa tanto dos mecanismos de
exploração e dominação como da resposta às necessidades e interesses do
operariado (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.75).

Influenciado pela Igreja católica, em seu período inicial, portanto, o Serviço Social
possuía um componente técnico-operativo formado a partir da incorporação de
instrumentos específicos das formas de assistência tradicionais, aliados às
orientações técnicas e doutrinárias de origem religiosa católica. No entanto, com a
incorporação do Serviço Social na divisão sócio-técnica do trabalho a
instrumentalidade do Serviço Social sofreu alterações para se enquadrar nas
determinações da dinâmica social de acordo com as ideologias capitalistas de
Estado (TRINDADE, 2001, p. 27).

Ressalta-se que na prática pioneira dos assistentes sociais, os procedimentos


comuns utilizados constituíram-se basicamente em:

[...] estudo das necessidades individuais, familiares e de localidades


carentes; avaliação das solicitações de ajuda; triagem dos problemas
constatados; concessão de ajuda material; aconselhamentos; utilização dos
recursos institucionais para encaminhamentos e incentivo á inserção no
mercado de trabalho. Os agentes também realizam visitas domiciliares,
elaboram inquéritos sociais, encaminhamentos e triagem / seleção dos
casos. Essa intervenção tem um cunho eminentemente individualizado,
pautado especialmente na manutenção de um relacionamento entre
assistente social e cliente, mediado pela realização de entrevistas e visitas
domiciliares [...] (TRINDADE, 2001, p. 27, apud CAMPAGNOLI, 1993, p.86 e
87).

Estas foram, portanto, as primeiras técnicas de intervenção desenvolvidas pelos


assistentes sociais. Nota-se que tais técnicas eram pautadas na relação indivíduo e
assistente social.

Vale ressaltar, também, que no início da institucionalização do Serviço social no


Brasil, em conseqüência do modo com que se agia sobre a manifestação das
expressões da questão social, o serviço social de casos aparece como principal
forma de abordagem. O estudo do caso referia-se à fase de investigação sobre
fatores internos e externos que envolviam os indivíduos. Essa fase investigativa era
realizada pela aplicação de entrevistas com o “cliente” e com pessoas que faziam
parte do seu espaço de vivência. Salienta-se que nas duas primeiras décadas do
século XX, Mary Richmond, nos Estados Unidos, desenvolveu o chamado “Serviço
Social de Casos Individuais” (TRINDADE, 2001, p. 30).

Para a realização de seu trabalho, portanto, os assistentes sociais passaram a


acionar um instrumental técnico-operativo, que facilitou a inserção da profissão em
diversas formas de enfrentamento e intervenção nas expressões da questão social.
Dessa forma, os instrumentos e técnicas, ao mediarem à intervenção, passaram a
participar da realização dos efeitos gerados pelo trabalho profissional do assistente
social nas relações sociais das quais eram parte (TRINDADE, 2001, p. 26).

Portanto, destaca-se que inicialmente o Serviço Social caracterizou-se por possuir


uma atuação imediatista e acrítica influenciada pelas ideologias capitalistas do
Estado e ordem dominante na qual estava se inserindo. Sua forma de intervir estava
atrelada ao capital e a Igreja católica.

Nesta fase, por sua postura acrítica, o profissional de Serviço Social não
questionava e nem compreendia a influência do sistema sobre o indivíduo.

Tendo em vista como se deu o processo da emergência do Serviço Social, portanto,


para que se possa compreender a intervenção profissional do Serviço Social na área
da criança e do adolescente, no Brasil, faz-se necessário explicitar o
desenvolvimento e a criação de leis e instituições que contribuíram e que nortearam
a intervenção profissional, no âmbito geral e na área da infância e adolescência,
partindo-se da década de 1920.

Ressalta-se que na década de 1920 foi criado o Conselho Nacional do Trabalho


(1925). Em 1926 há o rompimento parcial da ortodoxia liberal da primeira
Constituição republicana. Neste sentido, “[...] por meio da Emenda Constitucional a
legislação do trabalho passa à competência do Congresso Nacional, abrindo-se o
caminho à do Estado na regulamentação no mercado de trabalho [...]”. Assim, nesse
ano e no seguinte, portanto, foram aprovadas leis, cuja quais deram respaldo a uma
parcela, significativa, da chamada “proteção ao trabalho”, como a lei de férias, o
trabalho feminino, o acidente de trabalho, o seguro-doença, o código de menores
entre outras (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.132).

A partir desta década, através da aprovação de leis de proteção ao trabalho e


Código de Menores de 1927, houve o desenvolvimento das instituições assistenciais
de cunho estatal voltadas aos “menores”. Com o desenvolvimento de tais
instituições, portanto, notou-se a inserção do profissional de Serviço Social nestas
para atuar segundo o que determinava a lei de proteção ao “menor”.

Neste sentido, com o Código de Menores de 1927, segundo Fávero (2004, p. 20 e


21), o profissional de Serviço Social passou a ser integrado em maior número no
interior do Judiciário, pois para a aplicação da lei, caberia ao profissional de Serviço
Social analisar “[...] o contexto sócio-econômico e cultural em que se encontrem o
menor e seus pais ou responsável, bem como ‘o estudo de cada caso’ deveria ser
realizado ‘por equipe de que participe pessoal técnico, sempre que possível’ [...]”.

De acordo com Iamamoto (2005, p. 249), a primeira referência explícita na


legislação Federal sobre os Serviços Sociais esteve expressa na Carta
Constitucional de 1934, na qual o Estado passou a ter a obrigação de assegurar o
amparo dos desvalidos, fixando, também, destinação de rendas tributáveis à
maternidade e infância.

No ano de 1935, segundo Iamamoto (2005, p. 174), foi criado o Departamento de


Assistência Social do Estado segundo a Lei nº 2.497, de 24.12.1935, primeira
iniciativa desse modelo no Brasil. Que, para tanto, teria como competência:

a) superintender todo o serviço de assistência; b) celebrar para realizar seu


programa, acordos com as instituições particulares de caridade, assistência
de ensino profissional; c) harmonizar a ação social do Estado articulando-a
com a dos particulares; d) distribuir subvenções e matricular a instituições
particulares realizando seu cadastramento. A esse Departamento
subordinado à Secretaria de Justiça e Negócios Interiores – caberia, além
dos itens relacionados a cima, a estruturação dos Serviços Sociais de
Menores, Desvalidos, Trabalhadores e Egressos de reformatórios,
penitenciarias e hospitais e da Consultoria Jurídica do Serviço Social a
maior parte dos artigo da lei é, no entanto, dedicada à assistência ao menor
– sua organização cientifica em relação aos aspectos social, médico e
pedagógico - e à fiscalização das instituições pública e particulares que a
ela se dedicam (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.174,175).
Portanto, ressalta-se que ao Departamento de Assistência Social coube, entre outras
atribuições, portanto, estruturar os Serviços Sociais de Menores e Desvalidos, ou
seja, observa-se que a maior parte dos artigos da lei era dedicada à assistência ao
menor. Neste sentido, na década de 1930, estabelecido o Departamento de
Assistência Social e suas competências, nota-se que houve uma necessidade mais
sistemática de intervenção, do profissional de Serviço Social, voltada à criança e ao
adolescente no Brasil.

É importante destacar a existência do Juízo de Menores, que se constituiu em um


setor específico da Assistência Pública. O juízo de Menores foi uma das vertentes
que apontou a iniciativa para a formação de pessoas especializadas na assistência
sendo esta ligada à assistência ao menor (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 185).

No que tange, portanto, a formação e preparação de assistentes sociais para


atuação na área da infância, ressalta-se a criação, em 1936, do “Laboratório de
Patologia Infantil”, que levou ao planejamento de uma estruturação de uma
Fundação com um centro de formação técnica e um centro de estudos de
assistentes sociais, objetivando oferecer auxílio aos serviços sociais do Juízo de
Menores (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 185).

Com isso, os Serviços de Assistência ao Menor da Prefeitura do estado do Rio de


Janeiro e o Juízo de Menores foram os primeiros do setor público a colocarem
Assistentes Sociais na sua dinâmica de trabalho. Havia um número limitado de
Assistentes Sociais diplomados neste período (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005,
p.189).

Além do Juízo de Menores no Rio de Janeiro, em São Paulo uma ampla instituição
de Serviço Social, naquele momento, – Departamento de Serviço Social do Estado
do São Paulo –, introduziu assistentes sociais que atuaram como comissários de
menores no “Serviço Social de menores” (menores abandonados, menores
delinqüentes, menores sob tutela da Vara de Menores, exercendo atividades no
Instituto Disciplinar e no Serviço de Abrigo e Triagem) com a procuradoria de Serviço
Social, do Departamento de Serviço Social, no espaço da Assistência Judiciária com
o objetivo de reajustar indivíduos ou famílias cuja causa de desadaptação social se
colocava como uma questão de justiça civil (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.
191).

Portanto, inicialmente, o profissional de Serviço Social, inserido no campo as


assistência voltada à área da infância e da adolescência, trabalhava respaldado pelo
Código de Menores. Neste sentido, sua intervenção se dava de forma higienista
buscando adaptar, educar e ajustar os indivíduos ao meio compreendendo-os
enquanto transgressores da ordem social.

Segundo Fávero (2004, p. 20), o profissional de Serviço Social, quando iniciou o


trabalho no âmbito da Justiça da Infância e da Juventude, em São Paulo, por volta
dos anos 1940, ocupou o espaço do perito da área social, onde, a princípio, atuava
como estagiário ou como membro do Comissariado de Vigilância. Sendo assim,

Num período em que se evidenciava o agravamento e tentativas de controle


das seqüelas da questão social e se ampliava a ocupação de espaços
institucionais pelo Serviço Social, o assistente social, com formação
generalista na área social, passou a ter, na Justiça da Infância e da
Juventude, espaço privilegiado de ação, o eu fez com que,
progressivamente, deixasse de atuar junto ao Comissário e ocupasse, no
final desses anos 1940, espaço formal de trabalho no então denominado
Juizado de Menores de São Paulo (FÁVERO, 2004, p. 20).

Portanto, nesse período o assistente social, visto enquanto um profissional formado


apto para trabalhar com o social, é solicitado a trabalhar na Justiça da Infância e da
Juventude, levando-o a atuar no Juizado de Menores do Estado de São Paulo no
final dos anos 1940.

Neste sentido, no final dos anos 1940 e nos anos 1950, com implantação do Serviço
Social nos Juizados de Menores de São Paulo, ressalta-se que a intervenção do
Serviço Social era a de casos individuais. A direção teórico-metodológica do “Serviço
Social de casos individuais” pautava-se, ainda, no referencial ideológico conservador
da doutrina social da igreja católica. Neste período a “[...] metodologia operativa
nessa época era influenciada pelo Serviço Social norte-americano, cuja intervenção
junto a “casos individuais” referenciava-se em estudos de natureza psicosocial [...]”,
isto é, abordava sobre fatores internos e sociais dos indivíduos (FÁVERO, 2004, p.
22, apud KFOURI, 1969, p. 07).

De acordo com Trindade (2001, p. 30), mesmo predominando o Serviço Social de


Casos durante essa fase do Serviço Social brasileiro, também houve espaço para a
abordagem grupal, principalmente depois que ela passou a ser reconhecida como
método profissional pelos assistentes sociais norte-americanos, na segunda metade
da década de 1940. Influenciado pela Psicologia e pela Psicanálise, o Serviço
Social de grupos passou a ser utilizado, de modo geral, para solucionar, tanto os
problemas pessoais e de relacionamento quanto os de socialização (TRINDADE,
2001, p. 30).

Com estas abordagens de trabalho, nota-se – como citado anteriormente – que não
havia, por parte dos profissionais, o questionamento do sistema enquanto um agente
influenciador e provocador da manifestação das expressões da questão social.

Ressalta-se que a atuação prática desenvolvida pelos primeiros Assistentes Sociais,


segundo Iamamoto (2005, p. 196), ficou “[...] voltada essencialmente para a
organização da assistência, para a educação popular, e para a pesquisa social [...]”
objetivando trabalhar formas de ajustamento do indivíduo ao meio. Neste início o
público do trabalho assistencial se constituiu de famílias operárias, em especial das
mulheres e das crianças.
A lógica do trabalho assistencial era voltada, portanto, para a educação popular e
familiar uma vez que as expressões da questão social eram vistas pelo Estado e
classes dominantes enquanto frutos de um desajuste social da classe operária. A
exemplo disso, afirma-se nas palavras de Iamamoto (2005, p. 207) que:

A mercantilização da Força de Trabalho feminina e infantil é considerada


uma questão complexa. Sua origem está na situação de “anormalidade
social”, na desorganização e abandono da família. A mortalidade infantil e
abandono ao menor, a desagregação moral da família, têm como uma de
suas causas principais o “abandono do lar” pela mulher. Mas, se o “chefe da
família”, em função de suas deficiências individuais, é capaz de suprir as
necessidades mínimas do lar, não restará à mulher e aos filhos mais velhos
outra alternativa. Mas, desse problema objetivo, deriva ouro que traduz uma
deformação moral: é da mulher não necessitada, que trabalha, aspirando
gozar da decantada independência moderna (IAMAMOTO; CARVALHO,
2005, p. 207).
Neste sentido, de acordo com Iamamoto (2005, p. 208), as expressões da questão
social eram vistas e tratadas enquanto situação de anormalidade e desajuste familiar
e social que tinham como causas a falta de enquadramento e ajuste da sociedade
frente às transformações societárias. Dessa forma, o trabalho do assistente social
tinha um cunho educativo e de aconselhamento consubstanciadas por leis voltadas
às famílias desajustadas ao sistema.

No contexto do Estado Novo, período de desenvolvimento de grandes instituições


sociais, como a LBA, citada no capítulo anterior, foi criado, também, o Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), em 1942, com a missão de organizar
e administrar nacionalmente escolas de aprendizagem para industriários. Tal serviço
se configurou num “grande empreendimento de qualificação da Força de Trabalho”,
a juvenil principalmente. Para tanto, o SENAI, incorporou com rapidez “o Serviço
Social em seu esquema de atuação” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 253). No
que se referiu ao trabalho profissional neste Serviço,

O assistente Social, integrante desse quadro de técnicos manipuladores de


técnicas sociais englobadas no processo educacional, aparecerá,
teoricamente, na estrutura do SENAI como coordenador e reforçados dessa
prática social e como explicitamente encarregado dos casos de desviança
mais aparentes verificados no âmbito da instituição (IAMAMOTO;
CARVALHO, 2005, p. 266).

Em 1946 surgiu o Serviço Social da Indústria (SESI) com a atribuição de “[...]


estudar, planejar e executar medidas que contribuam para o bem-estar do
trabalhador na indústria [...]”. No SESI a assistência relacionou os problemas
domésticos, que acorriam no cotidiano dos indivíduos, às pesquisas e atividades
culturais e educacionais, visando o valor do homem e incentivar à atividade
produtora (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 268).

Segundo Iamamoto (2005, p. 268) o surgimento do Serviço Social na Indústria,


baseando-se na experiência inicial do SENAI, fez parte da evolução do
posicionamento do empresariado frente à “questão social”, que se aprofundou no
pós-guerra.
No entanto, Iamamoto (2005, p. 279) ressalta que o que caracterizou as práticas
sociais desenvolvidas no SESI foi “[...] a radicalização na sua utilização como
instrumento de contraposição à organização autônoma da classe operária e de luta
política anticomunista [...]”, ou seja, sua prática visava impossibilitar o envolvimento
das classes operárias em movimentos de caráter comunistas.

No mesmo ano de surgimento do SESI, 1946, surgiu a Fundação Leão XIII,


implementada nas favelas do Estado do Rio de Janeiro. Como já explicitado, o
Serviço Social institucional trabalhava com base no enquadramento da população.
Na Fundação Leão XIII o Serviço Social também trabalhou no “tratamento” de
questões de “desviança” da ordem vigente e “Educação Popular” (IAMAMOTO;
CARVALHO, 2005, p. 283).

Neste sentido, a intervenção profissional do Serviço Social, pautada no controle


popular, partiu, segundo Iamamoto (2005, p. 288), de um “empreendimento” que
tinha como intenção “o disciplinamento do tempo livre do proletariado”.

Portanto, pode-se notar que neste período o empresariado entra em cena se


posicionando diante do enfrentamento da questão social. No entanto, seu objetivo
central foi de conduzir a classe operária no sentido de inibir seus movimentos de
lutas e sua possível aderência às idéias comunistas da época.

É neste sentido, portanto, que o Serviço Social, inseridos nessas instituições,


trabalhou com o ajustamento do indivíduo à ordem e disciplinamento de seu tempo
livre visando favorecer o empresariado, ou seja, o capital, que almejava o aumento
de seus lucros e em contrapartida oferecia um falso bem-estar ao trabalhador.

É importante ressaltar que a incorporação do empresariado na intervenção das


expressões da questão social, – como se pôde notar a partir do surgimento do SESI,
SENAI e outras instituições de caráter empresarial –, foi o processo de
institucionalização e legitimação da profissão de Serviço Social, pois a profissão de
Assistente Social só pôde se consolidar a partir do momento em que seu mercado
de trabalho se abriu com o surgimento de grandes entidades (IAMAMOTO;
CARVALHO, 2005, p. 309). Isso posto, nas palavras da autora,
A partir desse momento só é possível pensar a profissão e seus agentes
concretos – sua ação na reprodução das relações sociais de produção –
englobados no âmbito das estruturas institucionais. O Assistente Social
aparecerá como uma categoria de assalariados – quadros médios cuja
principal instância mandatária será, direta ou indiretamente, o Estado. O
significado social do Serviço Social pode ser apreendido globalmente
apenas em sua relação com as políticas sociais do Estado, implementadas
pelas entidades sociais e assistenciais (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.
309).

Portanto, através da relação com as políticas sociais do Estado, o Serviço Social,


neste período, em que se inseriu em estruturas institucionais, adquiriu maior
visibilidade social fazendo das políticas sociais seu espaço ocupacional.

Neste sentido, de acordo com Iamamoto (2005, p. 310), o Serviço Social se colocou
em meio ao aparelho de Estado e às grandes instituições assistenciais, porém
assegurou as suas características fundamentais. O Serviço Social manteve sua
ação doutrinária e educativa de “enquadramento” e de controle da população cliente.

A partir de então, os profissionais passaram a desenvolver vários procedimentos


técnicos. Para melhor esclarecimento, ressalta-se que para a realização de uma das
linhas do trabalho do profissional, que consistia na realização de investigações sobre
as condições de vida das famílias de classe operária, utilizava-se da aplicação de
inquérito sociais e da visita domiciliar, por meio de entrevistas com as pessoas que
faziam parte de seu convívio social. Outra linha de trabalho profissional referiu-se ao
trabalho de educação moral, higiênica e racionamento da renda. Este tipo de
orientação moral e social recaiu, sobretudo, na doutrinação religiosa, que se
fundamentava no objetivo da reforma social, através de um procedimento técnico
que visava o ajustamento do homem e de sua família. Por fim, nas empresas, como
procedimento técnico, os profissionais realizavam instrumentos de abordagem
individual, realizavam palestras e outros instrumentos de cunho educativo
(TRINDADE, 2001, p. 28). Assim, pode-se notar, então,

[...] que os procedimentos desenvolvidos pelos assistentes sociais, nesse


início de profissionalização, não se diferenciam muito daqueles próprios às
tradicionais formas de assistência, de caridade. Entretanto, isso não
significa uma mera transposição do “como fazer”, na medida em que a
modernização do apostolado social, fornecedora das bases formadoras do
Serviço Social, põe as iniciativas filantrópicas num patamar diferenciado
daqueles desenvolvidos desde o século XIX. A forma de operacionalizar as
tarefas específicas até podem ser as mesmas, no entanto o contexto
histórico das relações sociais em que elas estão inseridas é diferenciado.
Trata-se, agora, de uma forma de intervenção ideológica que se insere em
novas correlações de forças entre as classes, especialmente devido ao
crescimento numérico e organizativo do proletariado. Para conter
exacerbação das contribuições, gerada nesse novo contexto sócio-político,
a intervenção nas manifestações da questão social exige práticas mais
eficientes do que as dispersivas iniciativas benevolentes. É necessário que
a assistência seja o suporte de uma atuação voltada ao enquadramento das
populações pobres e dos trabalhadores, aos ditames econômico-ideológicos
da burguesia, que ora consolida sua condição de classe dominante, no
Brasil (TRINDADE, 2001, p. 28).

Portanto, a crescente demanda por uma intervenção técnica, sendo esta organizada
e planejada, desencadeada nas instituições de prestação de serviços sociais, se
articulou às exigências colocadas pelas mudanças na configuração da questão
social brasileira e, também, às conseqüentes medidas governamentais formuladas
para enfrentar as expressões da questão social. Neste sentido, as ações
filantrópicas e espontâneas não seriam mais suficientes para atender à
racionalidade exigida pelo Estado, nas décadas de 1930 e 1940 (TRINDADE, 2001,
p. 28).

Explicita-se aqui que durante a década de 1940 e até a metade da década seguinte,
1950, a economia nacional apresentou uma elevação das taxas de crescimento.
Esse período, de elevação positiva da economia, foi designado de ideologia
desenvolvimentista no Brasil (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 340). Neste
sentido, tal ideologia,
[...] se define, assim, por meio da busca da expansão econômica, no sentido
de prosperidade, riqueza, grandeza material, soberania, em ambiente de
paz política e social, e de segurança – quando todo o esforço de elaboração
de política (política econômica) e trabalho são requeridos para eliminar o
pauperismo, a miséria, elevando-se o nível de vida do povo como
conseqüência do crescimento econômico atingido (IAMAMOTO;
CARVALHO, 2005, p. 341).

Portanto, com a expansão econômica, conduzida pela ideologia desenvolvimentista,


o Estado buscou intervir na pobreza social e melhorar as condições de vida da
população. Ressalta-se, porém, que tal intervenção, com o propósito de eliminação
da pobreza, era envolvida por interesses do capital. A ideologia desenvolvimentista,

[...] constituir-se-ia em meta e mobilização de toda a coletividade, sendo,


portanto o desenvolvimento um ponto de convergência entre Estado e o
povo. O desenvolvimento significa, pois, no plano desse discurso, a
valorização do homem brasileiro, e trás como conseqüência o fim do
pauperismo, a elevação do nível de vida (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005,
P. 342).

Dessa forma considera-se que esse período de desenvolvimento do Brasil visou


uma mobilização coletiva frente a eliminação da pobreza no país. Com isso, o
profissional de Serviço Social foi solicitado a intervir segundo a ideologia
desenvolvimentista, ou seja, através do trabalho de cunho coletivo no
desenvolvimento de comunidades.

Neste sentido, tendo em vista este período de desenvolvimento do país e maior


intensificação da intervenção Estatal na área social, considera-se que:

Nos anos 50 e, com maior vigor, na década seguinte, amplia-se o campo de


atuação do Serviço Social brasileiro, quando os profissionais passam a se
envolver em trabalhos sociais de caráter “comunitário”. Nestes,
desenvolvem-se processos de mobilização e organização de grupos de
população – rural e urbana – através dos quais busca-se promover o
desenvolvimento econômico-social de pequenas localidades. No início dos
anos 40 esses trabalhos são próprios às prática de Organização de
Comunidade, mas a partir dos anos 50 passam a se desenvolver no âmbito
das práticas de Desenvolvimento de Comunidade (TRINDADE, 2001, p. 31).

Isso posto, foi a partir do período desenvolvimentista que o Serviço Social aumentou
seu espaço de atuação, pois neste período evidenciou-se o cunho de
desenvolvimento comunitário no país e o profissional de Serviço Social foi chamado
a intervir nessa lógica.
Portanto, quando o Serviço Social passou a atuar nos processos de
desenvolvimento de comunidade, foi possível identificar mudanças em seu eixo de
intervenção profissional, ou seja,

[...] de uma prática restrita a atendimentos individuais e grupais centrados


na promoção da tríade “ordem, moral e higiene”, a profissão volta-se
também para o desenvolvimento de práticas cujo objetivo se expande para
a promoção da harmonia social na relação Estado/Sociedade, através de
uma abordagem mais coletiva. A intervenção em organização de
comunidade busca melhorar o meio, as condições imediatas, deixando de
centrar-se apenas nas mudanças comportamentais do indivíduo e da
família. Além disso, pode-se afirmar que o engajamento do Serviço Social
no desenvolvimento de comunidades também significa uma busca de
modalidades interventivas mais abrangentes o que o Serviço Social de Caso
e de Grupo, ainda que estes continuem sendo aprimorados e utilizados nas
grandes instituições assistenciais. Os processos educativos até então
assumidos pelos assistentes sociais atingem indivíduos e pequenos grupos;
com o desenvolvimento de comunidade os profissionais se engajam num
trabalho voltado a parcelas mais abrangentes da população. Isso traz
algumas inovações aos procedimentos interventivos do Serviço Social
(TRINDADE, 2001, p. 31).

Considera-se, portanto, que a partir desse momento, em que a intervenção técnica


do profissional de Serviço Social volta-se ao trabalho comunitário, ocorreu uma
inovação da prática. O Serviço Social assumiu procedimentos interventivos de cunho
coletivo e não apenas individualizantes.

Neste sentido, de acordo com Trindade (2001, p. 32):

Isso significa uma ampliação nas abordagens profissionais dos assistentes


sociais, Isto é, as demandas colocadas pelo trabalho “comunitário” levam os
assistentes sociais a não limitar sua prática apenas às abordagens
individuais. É justamente nesse momento que o trabalho com grupos
adquire maior importância, o que impulsiona o desenvolvimento do Serviço
Social de Grupos no país, embora ele já fosse conhecido desde os anos 40.

A partir de então, o Serviço Social passou a se configurar e a pensar novas formas


de atuação, uma vez que a conjuntura da época, marcada pelo
Desenvolvimentismo, o impulsionou a alterar sua intervenção frente ao social.
Portanto, a categoria dos assistentes sociais, reconhecendo a necessidade de
alteração da prática profissional, acompanhando as mudanças econômicas, sociais
e políticas, passou a problematizar a necessidade de se pensar em uma
renovação/modificação do Serviço Social, que será tratada nos próximos itens.
2.2 O PROCESSO DE RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO
BRASIL

Netto (2006, p. 128), afirma que o Serviço Social no Brasil, até a primeira metade da
década de sessenta, “mostrava uma relativa homogeneidade” no seu fazer
interventivo, “carecia de uma elaboração teórica significativa”, colocava-se enquanto
uma categoria profissional que possuía uma intervenção sem questionamentos e
problematização. Segundo o autor, a ruptura com este cenário tem suas bases na
laicização do Serviço Social. Tal laicização, – desvinculamento da profissão aos
preceitos religiosos –, constituída pela “[...] diferenciação da categoria profissional
em todos os seus níveis e a conseqüente disputa pela hegemonia do processo
profissional em todas as suas instâncias [...]”, isto é, projeto de formação,
paradigmas de intervenção, órgãos de representação entre outras, constituiu em um
dos elementos caracterizadores da renovação do Serviço Social.

De acordo com Netto (2006, p. 129), a classe burguesa instaurou condições para
essa renovação do Serviço Social. No entanto, seu objetivo era de renovar o Serviço
Social criando um campo onde houvesse meios de desenvolver e aplicar alternativas
aos procedimentos profissionais que ela demandava de acordo com suas
necessidades e interesses.

Neste sentido, ao profissional de Serviço Social, para atuar nos espaços


institucionais, foi requisitado uma postura “moderna” no sentido de tornar
compatíveis seus procedimentos com as normas, rotinas, fluxos e finalidades
demandantes daquela racionalidade burocrático-administrativa burguesa. Essas
exigências provocaram um direcionamento para a “erosão do Serviço Social
tradicional”, pois levou a uma direção técnico-racional que acabava com os
comportamentos profissionais fundados em supostos humanistas. Em síntese, com
esse processo, houve uma alteração no perfil do profissional demandado pelo
mercado de trabalho (NETTO, 2006, p. 123).

A Renovação do Serviço Social no Brasil foi composta por três direções que serão
tratadas ao longo desde texto de acordo com os períodos de manifestação de cada
uma.

A primeira direção foi a perspectiva modernizadora, 1965 a meados da década de


1970, que para as concepções profissionais constituiu-se em:

[...] um esforço no sentido de adequar o Serviço Social, enquanto


instrumento de intervenção inserido no arsenal de técnicas sociais a ser
operacionalizado no marco de estratégias de desenvolvimento capitalista,
às exigências postas pelos processos sócio-políticos emergentes no pós-64
[...] uma linha de desenvolvimento profissional que, se encontra o auge da
sua formulação exatamente na segunda metade dos anos sessenta – seus
grandes monumentos sem dúvida são os textos dos seminários de Araxá
[1967] e Teresópolis [1970] –, revelar-se-á um eixo de extrema densidade
no evolver da reflexão profissional: não só continuará mobilizando energias
nos anos seguintes como, especialmente, mostrar-se-á aquele vetor de
renovação que mais fundamente vincou a massa da categoria profissional
[...] o núcleo central desta perspectiva é a tematização do Serviço Social
interveniente, dinamizador e integrador, no processo de desenvolvimento
(NETTO, 2006, p. 154).
Neste sentido, Netto (2006, p. 155), afirma que o que caracterizou esta perspectiva,
foi a nova fundamentação utilizada para regularizar o função e as metodologias
profissionais. A perspectiva modernizadora aceitou sem questionamentos a ordem
sociopolítica derivada do golpe de abril, ou seja, ela adequou a profissão a Ditadura.

Portanto, o trabalho do assistente social, na lógica da perspectiva modernizadora,


pautava-se na adequação aos ditames da ordem sociopolítica, ou seja, não havia
por parte do profissional de Serviço Social um questionamento do sistema, ele
trabalhava a favor do capital, respondendo às suas demandas, adequando-se a ele.

A segunda direção da renovação do Serviço Social foi denominada de reatualização


do Conservadorismo que se desenvolveu durante a segunda metade da década de
70. Tal perspectiva constituiu-se numa vertente que recuperou os elementos mais
estratificados do legado conservador do Serviço Social. Para tanto, ela repôs tais
componentes sobre uma base teórico-metodológica posta como nova, negando os
padrões que possuíam vínculos com a tradição positivista. Portanto, observou-se
uma reatualização e sofisticação do caráter conservador da profissão (NETTO,
2006, p. 157).
Nas palavras de Netto (2006, p. 158),

[...] esta perspectiva [...] se beneficia de todo um acúmulo ainda vigente de


expectativas, historicamente respaldadas no desempenho tradicional dos
assistentes sociais, referentes ao exercício do Serviço Social fundado no
circuito da ajuda psicossocial. O extremo conservadorismo desta
perspectiva não reside apenas no seu referencial ideocultural [...] antes, ela
é perceptível no embasamento “científico” com que constrói a relação do
Serviço Social com seus “objetos” [...].

Neste sentido, nota-se que essa perspectiva, de reatualização do conservadorismo,


possuía expressamente uma inspiração fenomenológica. Dessa forma, pautada na
fenomenologia, ela propôs uma abordagem individual no intuito de transformar a
situação vivenciada pelo “cliente” exonerando-se da necessidade de intervenção
externa do assistente social, ou seja, a vertente fenomenológica propunha uma
abordagem na qual o processo de transformação fosse desencadeado pelo próprio
“cliente” com a ajuda profissional (TRINDADE, 2001, p. 34 e 35).
Portanto, nesta perspectiva, a prática profissional do assistente social voltou-se para
a ajuda psicossocial – inspirado pela fenomenologia – que se fundamentava por
uma compreensão de indivíduo desarticulada das determinações históricas. Assim,
nessa vertente, a transformação proposta manteve-se no nível da individualidade, o
que não alterava a situação do indivíduo que, como se sabe, era marcada pelas
relações sociais contraditórias.

No que se refere ao fazer profissional, no mercado de trabalho da década de 70, os


assistentes sociais, além das atividades de execução final, assumiram atividades de
coordenação, planejamento, acompanhamento e avaliação de programas sociais.
Dessa forma, houve a necessidade de novos instrumentos de intervenção que exigiu
dos profissionais um domínio técnico mais sofisticado condizente com as novas
formas de intervenção demandada neste período (TRINDADE, 2001, p. 32).

Essa nova exigência posta ao Serviço Social esteve, portanto, sintonizada com o
padrão técnico-burocrático de gestão do desenvolvimento capitalista do período,
advindo da racionalização do processo produtivo e da gerência da força de trabalho,
assim como das políticas estatais. Neste sentido, o assistente social passou a fazer
parte do conjunto de profissionais cuja formação foi colocada a serviço do projeto de
modernização do capitalismo monopolista brasileiro (TRINDADE, 2001, p. 32 e 33).

É importante ressaltar que, de acordo com Trindade (2001, p. 33), inicialmente, os


profissionais “modernizadores” na década de 70 propuseram superar as limitações
da prática profissional consolidada durante as décadas de 30 a 60 objetivando sua
modernização e adequação ao sistema. No entanto, o que se pode alcançar foi dar
aos tradicionais métodos utilizados (Caso, Grupo e Comunidade) um molde pouco
mais moderno e sofisticado.

No contexto correspondente ao final da década 70 e início da década de 80, no


Serviço Social, tem destaque a terceira direção do processo de renovação do
Serviço social no Brasil denominada intenção de ruptura, uma intenção de romper
com o Serviço Social “tradicional”.
Segundo Netto (2006, p. 159 e 160) ao contrário das anteriores, a intenção de
ruptura possuiu uma crítica profunda ao tradicionalismo e aos seus suportes
teóricos, metodológicos e ideológicos. Neste sentido, a intenção de ruptura
manifestou a intenção de romper com a herança teórico-metodológica conservadora
e com os seus paradigmas de intervenção no social.

Portanto, de acordo com o autor citado, tal perspectiva,

[...] toma forma pela elaboração de quadros docentes e profissionais cuja


formação se dera entre as vésperas do golpe e a fascitização assinalada
pelo AI-5. Na sua evolução e explicitação, ela recorre progressivamente à
tradição marxista [...] e revela as dificuldades da sua afirmação no marco
sociopolítico da autocracia burguesa: sua emersão inicial [...], na primeira
metade da década de setenta, permaneceu por longos anos um signo
isolado. [...] Na primeira metade dos anos oitenta, é esta perspectiva que dá
o tom da polêmica profissional e fixa as características da retórica politizada
[...] de vanguardas profissionais de maior incidência na categoria,
permeando o que há de mais ressonante na relação entre esta e a
sociedade – e de forma tal que fornece a impressão de possuir uma
inconteste hegemonia no universo profissional (NETTO, 2006, p. 159 e
160).

Neste sentido, destaca-se que a perspectiva de intenção de ruptura recorreu aos


poucos à tradição marxista, e, foi na metade dos anos 1980, que tal perspectiva se
caracterizou pela prática politizada do discurso na categoria.
Ressalta-se, ainda, que a vertente de intenção de ruptura, tendo recebido
ponderável influência do pensamento latino-americano reconceptualizado, teve
muito da sua audiência contabilizada ao descrédito político da perspectiva
modernizadora e à generalizada crítica às ciências sociais acadêmicas (NETTO,
2006, p. 160).

Netto (2006, p. 161), ressalta que, numa primeira caracterização desta perspectiva,
ela conservou suas características dominantes de oposição ao Serviço Social
tradicional.

Segundo Netto (2006, p. 163), não seria possível pensar a intenção de ruptura sem
a hegemonia cultural das correntes de esquerda e as correntes progressistas até
1968/1969, e, também, sem o desenvolvimento do “marxismo acadêmico”.
Considera-se, portanto, que:

O esforço da ruptura com o Serviço social tradicional e modernizador


adquire maior consistência na passagem para a segunda metade da década
de 80 e alguns fatores contribuem para este fortalecimento. No plano
teórico, os profissionais buscam uma análise das fontes originais marxianas,
surgindo inúmeros estudos que procuram tanto a aprofundar as formulações
originais, quanto explorar as possibilidades de sua utilização para a
compreensão de questões próprias do Serviço Social e de seu objeto de
intervenção. Os textos produzidos por assistentes sociais demonstram mais
consistência e melhor fundamentação teórica, consolidando a hegemonia
das produções de inspiração marxista. A convivência com várias áreas do
saber, na Universidade, possibilita um intercâmbio mais qualificado com as
Ciências Sociais e com a tradição marxista, enriquecendo esse processo
(TRINDADE, 2001, p. 36).

Neste sentido, no esforço por essa “validação teórica da profissão”, houve uma
abertura para a conquista de um espaço no envolvimento com os problemas e com
as disciplinas das ciências sociais que, na questão intelectual, contribuiu bastante
para oferecer um contrapeso à subalternidade da profissão de Serviço Social
(NETTO, 2006, p. 132).

É importante ressaltar, que na passagem dos anos 70 para os anos 80, em meio ao
projeto de ruptura, o clima político de discussão e de luta pela redemocratização do
país possibilitou e favoreceu a cultura crítica assumida pelos profissionais de Serviço
Social. A conjuntura marcada pela ditadura, nos anos 70, tinha posto inúmeras
dificuldades políticas à perspectiva de ruptura, assim somente com a abertura
política é que foi possível a emersão dos novos propósitos profissionais advindo
deste projeto (TRINDADE, 2001, p. 35).

Ressalta-se, também, neste período, final da década de 70 e início da década de 80,


no qual se apresentou a terceira vertente da renovação do Serviço Social, tem-se
destaque, na área da criança e adolescência à criação do novo Código de Menores,
de 1979, que passou a direcionar a intervenção profissional na área da infância e da
adolescência, explicitado no capítulo anterior.

Quanto à prática, portanto, a intenção de ruptura potencializou-se trabalhos de


cunho coletivo. Neste sentido a atuação profissional, voltada para abordagens
coletivas, direcionou-se e se desenvolveu no intuito de mobilizar a população, para
que ela reivindica-se o atendimento às suas necessidades. Dessa forma, a
intervenção profissional passou a priorizar o incentivo à participação da população
na demarcação das necessidades a serem atendidas e na execução de ações de
organização e mobilização social. Por isso, portanto, que houve a preocupação por
parte dos profissionais com a conscientização política da população (TRINDADE,
2001, p. 35).

Tal postura foi assumida pela categoria, também, como conseqüência do III
Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, de 1979, que ficou denominado de
“Congresso da Virada” no qual foi questionado o conservadorismo da profissão pela
categoria. Neste sentido, no Congresso da Virada houve o rompimento emblemático
com o conservadorismo e a afirmação de novas reflexões sobre a formação e o
exercício profissional com a introdução do marxismo – pois este foi reconhecido
como compatível com a ruptura do conservadorismo político –, o estabelecimento de
uma maturidade teórica e o enriquecimento do debate filosófico cujas características
ao caráter conservador da prática profissional marcaram a década de 1980 quando
a categoria se vinculou aos movimentos sociais desta década (MIRANDA;
CAVALCANTI, p. 08, acesso em: 12 abr. de 2009).

Portanto, a luz de Trindade (2001, p. 37), nota-se que para a realização dos
objetivos profissionais de ruptura exigiu-se dos profissionais de Serviço Social a
superação dos modelos interventivos formais e abstratos. Colocava-se cada vez
mais a necessidade dos profissionais serem críticos e realista capazes de notarem
as contradições e possibilidades contidas na dinâmica das políticas sociais, uma vez
que estas se constituíam no espaço ocupacional privilegiado de intervenção.
Portanto, considera-se, que:

[...] a incidência do projeto de ruptura, a partir do segundo terço da década


de oitenta, se penetra e informa os debates da categoria profissional, dá o
tom da sua produção intelectual, rebate na formação de quadros operada
nas agências acadêmicas de ponta e atinge as organizações
representativas dos assistentes sociais. Numa palavra: a partir de meados
dos anos oitenta, patenteia-se que a perspectiva da intenção de ruptura não
é apenas um vetor legítimo do processo de renovação do Serviço Social no
Brasil – evidencia-se o seu potencial criativo, instigante e, sobretudo,
produtivo (NETTO, 2006, p. 267).
Com a perspectiva de intenção de ruptura a categoria profissional dos assistentes
sociais passou a se posicionar de forma mais crítica frente ao sistema. Essa nova
postura profissional exigiu modelos de intervenção condizentes com a
intencionalidade da perspectiva, que consistia em romper com o Serviço Social
“tradicional” pautado no pensamento conservador. Com essa nova postura
profissional dá-se destaque a criação do código de ética de 1986.

Neste sentido, em meio ao contexto dos anos 80, período caracterizado pela intensa
mobilização e avanços dos direitos no Brasil, houve, por parte da categoria, a
criação deste Código de Ética que constituiu um importante marco para a profissão.
No entanto, apesar do Código de Ética de 1986 constituir-se como um avanço,
recusar a neutralidade da prática profissional, reconhecer a dimensão histórica e
política da profissão - esta em favor da classe trabalhadora - e das relações de
força, superando a análise do objeto sob a perspectiva da anormalidade, e de
reconhecer também o historicismo da moral, a ética foi tomada apenas em sua
dimensão política (MIRANDA; CAVALCANTI, acesso em: 12 abr. de 2009).

Portanto, em síntese, no que se refere ao avanço do projeto profissional nos anos


80, este,

[...] deveu-se à construção de elementos que o matizaram entre nós, dentre


eles, o código de ética de 1986. Nele tivemos o coroamento da virada
histórica promovida pelas vanguardas profissionais. Tratou-se da primeira
tentativa de tradução não só legítima como legal (através do órgão de
fiscalização do exercício profissional, o CFAS – Conselho Federal de
Assistentes Sociais, hoje CFESS) da inversão ético-política do Serviço
Social brasileiro, amarrando seus compromissos aos das classes
trabalhadoras. É bem verdade que soava mais como uma carta de
compromissos ídeo-políticos do que um código de ética que, por si só, exige
certo teor prático-normativo. Mas, por outro lado, ao demarcar seus
compromissos, mais que explicitamente, não deixava dúvidas de “qual lado”
estávamos. Nesta mesma década, aferem-se também, avanços em torno do
projeto no que tange à produção teórica que dá saltos significativos tanto
quantitativamente quanto qualitativamente, trazendo temas fundamentais ao
processo de renovação tais como a questão da metodologia, as políticas
sociais e os movimentos sociais (REIS p. 409 e 410).

Isso posto, considera-se, segundo Iamamoto (2007, p. 113), que:

É no cenário dos anos 1990 [...] que tem sentido pensar ações que possam
reverter no fortalecimento de um projeto político profissional que, desde a
década de 1980, vem sendo coletivamente construído pela categoria dos
assistentes sociais [...] [no Brasil]. [Um] Projeto profissional comprometido
com a defesa dos direitos sociais, da cidadania, da esfera pública no
horizonte da ampliação progressiva da democratização da política e da
economia na sociedade.

Portanto, na década de 1990, após grandes conquistas sociais por direitos, como
visto no capítulo anterior com a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da
Criança e do Adolescente, a categoria profissional de Serviço Social passou a
pensar no fortalecimento de seu projeto ético-político profissional.

Neste sentido, tal projeto profissional,

[...] se materializou no Código de Ética Profissional do Assistente Social, na


Lei de Regulamentação da Profissão de Serviço Social (Lei 8662/93),
ambos de 1993, assim como a nova proposta de Diretrizes para o Curso de
Serviço Social da Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social –
ABESS – de 1996, que redimensiona a formação profissional para fazer
frente a esse novo cenário histórico (IAMAMOTO, p. 113).

Esse novo cenário histórico, portanto, é o cenário na qual se deve repensar a


questão social, uma vez que as bases de sua produção sofrem na atualidade, uma
profunda transformação advinda do padrão de acumulação do neoliberalismo.
Portanto, o projeto ético-político consolidou-se nos 1990 e permanece em
construção, tencionado pelos ditames neoliberais da sociedade brasileira.

Neste período, o trabalho interventivo do profissional de Serviço Social se recolocou


com algumas novas configurações. Estas novas configurações referem-se aos
canais institucionais voltados à garantia da participação dos usuários das políticas
sociais nos processos de “controle social”. Em exemplo, as experiências com
Conselhos da Saúde, da Assistência Social e das políticas de atendimento à criança
e ao adolescente estão conectadas á exigência profissional de mobilizar e organizar
as condições necessárias para o exercício dessa prática de “controle social”
(TRINDADE, 2001, p. 38). Neste sentido,

[...] o que é novo, portanto, não é a atuação dos assistentes sociais junto às
formas coletivas de organização da população, mas o contexto e a
configuração dessas formas organizativas. Trata-se de uma nova
experiência que nem é a participação outorgada dos anos da ditadura, nem
é a mobilização e organização de movimentos populares independentes das
estruturas institucionais. O fato dos Conselhos, fazerem parte das
instituições de políticas sociais, coloca o trabalho de mobilização e
organização num patamar diferenciado. E não só os Conselhos, pois
também podemos citar a atuação dos assistentes sociais nos processos de
elaboração dos “orçamentos participativos”, também uma experiência
própria dos anos 90 (TRINDADE, 2001, p. 38).

A partir dos anos 1990, evidenciou-se, portanto, a importância da atuação


profissional do Serviço Social nos mecanismos de controle social nos quais foi
garantida a participação da população.

Ressalta-se, segundo Iamamoto (2007, p. 51), que no cenário dos anos 1980, no
contexto de ascensão dos movimentos sociais, das mobilizações em torno da
elaboração e aprovação da Carta Constitucional de 1988, entre outras
manifestações, que a categoria dos assistentes sociais foi sendo questionada pela
prática política de diferentes segmentos da sociedade. Neste cenário, o trabalho de
Serviço Social e a formação profissional se solidificaram tornando possível, portanto,
um avanço qualitativo na análise sobre a profissão na contemporaneidade. Isso
posto a autora sustenta que,

A relação do debate atual com esse longo trajeto é uma relação de


continuidade e de ruptura. É uma relação de continuidade, no sentido de
manter as conquistas já obtidas, preservando-as; mas é, também, uma
ruptura, em função das alterações históricas da monta que se verificam no
presente, da necessidade de superação de impasses profissionais vividos e
condensados em reclamos da categoria profissional (IAMAMOTO, p. 51).

Sendo assim, segue-se a discussão referente às novas configurações que perpassa


a profissão de Serviço Social no Brasil após alteração e renovação de sua prática
interventiva frente às mudanças societárias e legislativas, especialmente na área da
infância com o Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil.

2.3 O SERVIÇO SOCIAL NA ATUALIDADE: DESAFIOS E


POSSIBILIDADES DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL A PARTIR DOS
ANOS 90 COM O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E O
FORTALECIMENTO DO PROJETO ÉTICO-POLÍTICO PROFISSIONAL
Situar o Serviço Social na atualidade requer pensar e analisar o contexto presente
bem como as transformações advindas desde momento histórico, marcado pelo
neoliberalismo, que rebate diretamente no convívio social, na efetivação das
políticas, das leis e, conseqüentemente na atuação profissional do Serviço Social.

A partir dos anos 1990, através de um novo direcionamento do projeto ético-político


profissional – com a criação do Código de Ética em 1993 e com a Lei de
Regulamentação da profissão de Serviço Social, também de 1993 –, o profissional
de Serviço Social passa a desenvolver sua atuação tendo em vista o compromisso e
respeito a essas balizar legais que o norteiam. No entanto, tal atuação, no Brasil, se
desenvolve dentro da lógica neoliberal do Estado e sofre diversos rebatimentos.

Neste sentido, os novos padrões de produção do trabalho, resultantes do modelo


neoliberal, trouxeram conseqüências nítidas à população como, por exemplo, a
redução da demanda de trabalho, ampliação da “população sobrante” fazendo
aumentar a exclusão econômica, política, social, cultural de toda população das
classes subalternas (IAMAMOTO, 2007, p.18).

Portanto, neste cenário, a partir da notória acumulação de capital, pode-se observar


um conseqüente aumento das expressões da questão social. Assim, nos locais de
trabalho do Serviço Social, cresce a demanda por serviços sociais, aumenta a
seletividade no âmbito das políticas sociais, diminuem os recursos, os salários e
colocam-se critérios com menores possibilidades da população acessar aos seus
direitos sociais, através dos serviços sociais públicos (IAMAMOTO, 2007, p. 18 e
19).

Neste sentido, o atual quadro sócio-histórico rebate na atuação cotidiana do


profissional de Serviço Social e afeta as suas condições de trabalho assim como
afeta as condições de vida dos usuários dos serviços sociais (IAMAMOTO, 2007, p.
19).

Tendo em vista estas questões, Iamamoto (2007, p. 20), sustenta que “[...] para
garantir uma sintonia do Serviço Social com os tempos atuais, é necessário romper
com uma visão endógena, [...] focalista [...] do Serviço Social [...]”. Neste sentido, a
autora afirma que:

Um dos maiores desafios que o Assistente Social vive no presente é


desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de
trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de
demandas emergentes no cotidiano. Enfim, ser um profissional propositivo e
não só executivo (IAMAMOTO, 2007, p. 20).

Portanto, mesmo inserido dentro de um sistema que impõe, ao seu fazer


profissional, vários limites, o profissional de Serviço Social tem o desafio de
“encarar” a realidade, na qual vive e faz parte, para poder buscar, propor e lutar por
um novo modelo de sociedade assim como posto em seu Código de Ética
profissional.

Neste sentido, o Código de Ética profissional do assistente social de 1993, – criado


frente a este contexto de instauração do projeto neoliberal no país –, indicou um
rumo ético-político, um horizonte para o exercício profissional. Assim, como
Princípios Fundamentais do Código de Ética, tem-se:

• Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas


políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos
indivíduos sociais;
• Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do
autoritarismo;
• Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de
toda a sociedade, com vistas á garantia dos direitos civis sociais e políticos
das classes trabalhadoras;
• Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da
participação política e da riqueza socialmente produzida;
• Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure
universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e
políticas sociais, bem como sua gestão democrática;
• Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando
o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente
discriminados e à discussão das diferenças;
• Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais
democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o
constante aprimoramento intelectual;
• Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção
de uma nova ordem societária, sem dominação-exploração de classe, etnia
e gênero;
• Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que
partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores;
• Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com
aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional;
• Exercício do Serviço Social sem ser discriminado, nem discriminar, por
questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade,
opção sexual, idade e condição física (BRASIL, 1993).

O Código afirma como “valor ético central”, o compromisso com a liberdade, expõe
sobre a autonomia profissional, a plena expansão e emancipação dos indivíduos
sociais, o que gera, portanto, repercussão no modo de se realizar o trabalho
profissional. No entanto, a grande questão vista enquanto desafio ao profissional de
Serviço Social, é fazer efetivar seus princípios éticos em seu trabalho cotidiano
(IAMAMOTO, p. 77).

Assim como o Código de Ética, criou-se, neste mesmo contexto a Lei de


Regulamentação da Profissão, Lei nº 8.662 (1993), que, entre outras delimitações,
expôs como competência do profissional de Serviço Social, em seu Artigo 4º:

I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos


da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e
organizações populares;
II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que
sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da
sociedade civil;
III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos,
grupos e à população;
IV - (Vetado);
V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido
de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na
defesa de seus direitos;
VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais;
VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a
análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais;
VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública
direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às
matérias relacionadas no inciso II deste artigo;
IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria
relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis,
políticos e sociais da coletividade;
X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de
Unidade de Serviço Social;
XI - realizar estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de
benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta
e indireta, empresas privadas e outras entidades.

Portanto, a partir dessa Lei, o profissional de Serviço Social, no ano de 1993, tem
sua profissão regulamentada e suas devidas competências sinalizadas.
Tal Lei, nº 8.662 (1993), assim como delimitou as competências do profissional de
Serviço Social, delimitou o que constituiria atribuições privativas deste profissional
em seu artigo 5°. Tais atribuições constituem em:

I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas,


planos, programas e projetos na área de Serviço Social;
II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de
Serviço Social;
III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e
indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço
Social;
IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e
pareceres sobre a matéria de Serviço Social;
V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação
como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos
próprios e adquiridos em curso de formação regular;
VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço
Social;
VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de
graduação e pós-graduação;
VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de
pesquisa em Serviço Social;
IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões
julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes
Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social;
X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados
sobre assuntos de Serviço Social;
XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e
Regionais;
XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou
privadas;
XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira
em órgãos e entidades representativas da categoria profissional.

Estas são, portanto, atribuições próprias do profissional de Serviço Social, ou seja,


nenhum outro profissional pode realizar.

Na contemporaneidade do Serviço Social, além da criação do Código de Ética e da


Lei 8662, é importante ressaltar, também, a criação da Lei Orgânica de Assistência
Social (LOAS), promulgada em sete de dezembro de 1993 (Lei nº 8.742), que surgiu
para regulamentar os artigos 203 e 204 da Constituição, nos quais estabelece que a
Assistência Social é política pública da Seguridade Social. Neste sentido, a LOAS
estabelece o sistema de proteção social para os grupos mais vulneráveis da
população, por meio de benefícios, serviços, programas e projetos. 7

7
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/publi_04/COLECAO/TRABIN3.HTM. Acesso em: 27 abr.
2009.
Em seu art. 2º a LOAS, estabelece que a assistência social tem por objetivos dentre
outros: I) a proteção à família, à infância e à adolescência; II) o amparo às crianças e
adolescentes carentes. Isso posto, salienta-se que as ações de assistência social
não se dirigem ao universo da população infanto-juvenil, mas a um segmento
específico que delas necessita por se encontrar em estado de carência, exclusão ou
risco pessoal e social. 8

Explicitado tais balizas legais que norteiam a atuação profissional, o profissional de


Serviço Social, possui, portanto, um grande desafio na atualidade que é: materializar
todos estes direcionamentos a favor de seus usuários. E, essa é a grande
dificuldade do fazer profissional diante na conjuntura capitalista na qual estabeleceu
o projeto neoliberal e a reestruturação produtiva como modelos de sustentação do
capital.

Neste sentido, segundo Iamamoto (2007, p. 32):

[...] as tendências do mercado de trabalho [...] indicam uma classe


trabalhadora polarizada, com uma pequena parcela com emprego estável,
dotada de força de trabalho altamente qualificada e com acesso a direitos
trabalhistas e sociais e, de outro uma larga parcela da população com
trabalhos precários, temporários, subcontratados [...] [entre outros].

Estas configuram, portanto, algumas conseqüências do sistema capitalista, de


projeto neoliberal, para a classe trabalhadora a partir dos anos 1990. Observam-se,
diversas formas de contratação e posição no mercado de trabalho. Diante disso,
afirma-se que o profissional de Serviço Social uma vez inserido na divisão sócio-
técnica do trabalho não foge a esta realidade.

Isso posto, nota-se, portanto, que o neoliberalismo, ao apostar no mercado como a


grande esfera reguladora das relações econômicas, levou a uma ampliação das
desigualdades sociais e do desemprego (IAMAMOTO, 2007, p. 35).
Salienta-se, de acordo com Iamamoto (2007, p. 37), que:

O discurso neoliberal tem a espantosa façanha de atribuir título de


modernidade ao que há de mais conservador e atrasado na sociedade
brasileira: fazer do interesse privado a medida de todas as coisas,

8
Ibid.
obstruindo a esfera pública, a dimensão ética da vida social pela recusa as
responsabilidades e obrigações sociais do Estado. É isso que se verifica no
trabalho cotidiano do Serviço Social.

Portanto, o sistema neoliberal levou a recusa do Estado de suas obrigações e


responsabilidades sociais atribuindo tais papeis ao mercado. A partir de então,
observou-se significativamente o aprofundamento de piores condições de vida da
população através de um notável aumento das expressões da questão social, dos
modos de contratação e desemprego que refletem, também, no trabalho cotidiano
do Serviço Social.

Portanto, todas estas questões são decorrentes das transformações no mundo do


trabalho. Neste sentido, em conseqüência da crise fiscal do Estado num contexto
recessivo, ocorre a redução das possibilidades de financiamento dos serviços
públicos e a diminuição dos gastos governamentais no que tange ao social
(IAMAMOTO, 2007, p. 34).

Neste sentido, Iamamoto (2007, p. 39), afirma que o “[...] desemprego, flexibilização
do trabalho e terceirização estão na base da sustentação da exploração do trabalho
infantil, aliadas às políticas de ajuste, de corte dos gastos sociais [...]”, pois a
contratação da mão-de-obra infantil reduz o custo da força de trabalho levando,
portanto, ao desemprego dos adultos e aumento do trabalho infantil.
Isso posto, segundo Iamamoto (2007, p. 40),

Várias esferas da sociedade estão se mobilizando em torno da defesa da


criança e do adolescente na sociedade brasileira e os assistentes sociais
somam-se a outras forças sociais, contribuindo para dar visibilidade pública
a essa face da questão social. Como categoria, os assistentes sociais lidam
com essas múltiplas expressões das relações sociais da vida quotidiana, o
que permite dispor de um acervo privilegiado de dados e informações sobre
as várias formas de manifestação das desigualdades e da exclusão sociais
e sua vivência pelos indivíduos sociais.

Portanto, com o agravamento das expressões da questão social na sociedade e


conseqüente rebatimento nas crianças e nos adolescentes desfavorecidos, nota-se
um forte posicionamento da sociedade e de parcelas de profissionais de Serviço
Social no que tange a defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes, segundo
o ECRIAD.
Como exposto no capítulo anterior, o Estatuto da Criança e do Adolescente, se
configurou enquanto uma grande conquista da qual a categoria esteve presente nos
anos 90. O Estatuto universalizou o discurso legal, dispôs sobre a proteção integral
a todas as crianças e adolescentes, vedando, com isso, a discriminação pelas
condições de pobreza, como sugeriam os Códigos de Menores de 1927 e de 1979,
que eram direcionados à segmentos de crianças e adolescentes pobres
(abandonados, delinqüentes, entre outros). No entanto, mesmo transcorrido tanto
tempo de promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, a maior parte da
população demandante dos serviços jurídicos voltados à área da criança e do
adolescente possuem baixa renda (FÁVERO, 2004, p. 16).

Vale salientar, também, que, segundo Fávero (2004, p. 11),

Ainda que o meio sócio-jurídico, em especial o judiciário, tenha sido um dos


primeiros espaços de trabalho do assistente social, só muito recentemente é
que particularidades do fazer profissional nesse campo passaram a vir a
público como objeto de preocupação investigativa. Tal fato se dá por um
conjunto de razões, das quais se destacam: a ampliação significativa de
demanda de atendimento e de profissionais para a área, sobretudo após a
promulgação do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente; a valorização
da pesquisa dos componentes dessa realidade de trabalho,inclusive pelos
próprios profissionais que estão na intervenção direta; e, em conseqüência,
um maior conhecimento crítico e valorização, no meio da profissão, de um
campo de intervenção historicamente visto como espaço tão-somente para
ações disciplinadoras e de controle social, no âmbito da regulação caso a
caso. Alia-se a isso o compromisso de parcela significativa da categoria com
ações na direção da ampliação e garantia de direitos, e na provocação de
alterações nas práticas sociais.

Neste sentido, pode-se notar, portanto, que após várias conquistas profissionais e,
também, de direitos – na área da criança e do adolescente com o ECRIAD, por
exemplo, – parcelas de profissionais de Serviço Social se colocam na
contemporaneidade com um novo perfil. Perfil este, investigativo, comprometido,
crítico e disposto a melhoria de sua prática interventiva.

O Estatuto da Criança e do Adolescente aponta, para a necessidade de assessoria


de equipe interprofissional na esfera da justiça. A esta equipe compete, dentre outras
atribuições que lhes forem reservadas pela legislação local, fornecerem subsídios
por escrito, mediante laudos, ou verbalmente, na audiência, bem como desenvolver
trabalhos de orientação, encaminhamento, prevenção e outros. Essas atribuições
contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente “[...] fazem parte de um conjunto
de normas relacionadas à doutrina da proteção integral, que norteia as ações junto à
criança e ao adolescente [...]”. A partir dessas ações, o Poder Judiciário têm
solicitado, com mais freqüência, a presença de profissionais com formação na área
social para atuarem em medidas de prevenção e de suporte à aplicação da lei
(FÁVERO, 2004, p. 21).

Portanto, com o advento do ECRIAD nos anos 1990, o profissional de Serviço Social
passou a ser solicitado para trabalhar no sentido de dar aplicabilidade ao Estatuto.

Neste sentido, salienta-se que:

O momento presente desafia os assistentes sociais a se qualificarem para


acompanhar, atualizar e explicar as particularidades da questão social nos
níveis nacional, regional e municipal, diante das estratégias de
descentralização das políticas públicas. Os assistentes sociais encontram-
se em contato direto e cotidiano com as questões da saúde pública, da
criança e do adolescente, da terceira idade, da violência, da habitação, da
educação [...] [entre outras], acompanhando as diferentes maneiras como
essas questões são experimentadas pelos sujeitos (IAMAMOTO, 2007, p.
41).

Em sua atuação profissional, portanto, é importante que, em todas as áreas, o


profissional comprometa a se qualificar, se atualizar, uma vez que a realidade é
dinâmica e passa a exigir dos profissionais conhecimentos de leis e políticas
contemporâneas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Neste sentido, de acordo com Iamamoto (2007, p. 51), os assistentes sociais se


colocam nos anos 1990, como uma categoria pesquisadora. Além disso, “[...]
amadureceram suas formas de representação político-corporativas, contando com
órgãos de representação acadêmica e profissional reconhecidos e legitimados [...]”.
Há, também, a presença de um amplo debate em volta das políticas, especialmente
da assistência social, posta no campo dos direitos sociais, nas relações entre o
Estado e a sociedade civil, possibilitando seu fortalecimento e auto-reconhecimento.

Quanto à área da infância, é importante ressaltar que o Estatuto da Criança e do


Adolescente comemorou no ano de 2008 dezoito anos. No entanto, apesar da
legislação, atualmente pode-se notar que os direitos e as necessidades das crianças
e dos adolescentes no Brasil não estão sendo respeitados. Além de não terem seus
direitos e necessidades supridas, as crianças e os adolescentes estão sendo
penalizados injustamente no país (COMISSÃO DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE, 2003, p. 74).

Isso posto, aos profissionais de Serviço Social, cabe assumir a luta para o
fortalecimento e concretização do Estatuto da Criança e do Adolescente para que as
crianças e adolescentes possam ter garantidos seus direitos fundamentais
(COMISSÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2003, p. 74).

Ressalta-se que o Serviço Social na contemporaneidade, portanto, deve participar


do movimento da realidade, compreender a realidade vivida e se compreender nela
para poder lutar e fazer efetivar os direitos da população (IAMAMOTO, 2007, p. 55).

Neste sentido, a luz de Iamamoto (2007, p. 80), exige-se que o profissional de


Serviço Social seja preocupado com a qualidade de seus serviços, com o respeito a
seus usuários. Para tanto é necessário que ele invista na melhoria dos programas
sociais, na rede de abrangência dos serviços públicos e reaja contra a imposição de
seletividade no acesso aos atendimentos prestados.

Isso posto, depois de assumido nova postura profissional na contemporaneidade,


com o advento de um novo projeto ético-político profissional, o assistente social
possui enormes desafio no seu cotidiano de trabalho.
Portanto, o Serviço Social na atualidade deve trabalhar de forma diferenciada na
qual não venha a recusar as tarefas socialmente atribuídas, mas direcionar sua
intervenção segundo o que está posto em seu Código de Ética Profissional
(IAMAMOTO, p. 80).

Em conclusão, dar dimensão ao novo no trabalho profissional significa estar atento e


“[...] captar as inéditas mediações históricas que moldam e norteiam os processos
sociais e suas expressões nos vários campos em que opera o Serviço Social [...]”
(IAMAMOTO, 2007, p. 80). Um novo direcionamento do trabalho na atualidade
exige-se do profissional de Serviço Social:
[...] uma bagagem teórico-metodológica que lhe permita elaborar uma
interpretação crítica do seu contexto de trabalho, um atento
acompanhamento conjuntural no qual se insere, que potencie o seu espaço
ocupacional, o estabelecimento de estratégias de ação viáveis, negociando
propostas de trabalho com a população e entidades empregadoras
(IAMAMOTO, 2007, p. 80).

Para finalização deste capítulo, ressalta-se, como exposto, que a década de 1990 foi
marcada, para a área da criança e da adolescência, por grandes avanços. O
principal deles foi a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Destaca-
se, pois, que a partir da implantação desta Lei, para lhe dar aplicabilidade, houve a
criação de inúmeros programas sociais de atendimento à criança e ao adolescente
no Brasil. Estes Programas voltam-se ao atendimento de crianças e adolescentes
vítimas de abuso e exploração sexual, em situação de trabalho infantil, em conflito
com a lei, em situação de rua, crianças e adolescentes que tiveram seus laços
familiares rompidos ou enfraquecidos, entre outros.

Portanto, em decorrência do agravamento das expressões da questão social e


visibilidade do trabalho infantil no país, – devido à adoção ao projeto neoliberal,
diminuindo seus investimentos na área social e privilegiando a economia, – o
governo cria programas e políticas sociais para “compensar” o que deveria ter
garantido a população em seu direito. No entanto, estes programas e políticas não
respondem e nem respaldam, de fato, os direitos da população, pois permanecem
inseridos na lógica neoliberal.

Dentre os Programas Sociais criados a partir da implantação do Estatuto da Criança


e do Adolescente no Brasil, será explicitado, no capítulo que segue, o Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) que surgiu para enfrentamento da situação
de trabalho infantil, de crianças e adolescentes. Além da exposição deste Programa,
será analisado, no último capítulo, o trabalho do Serviço Social no PETI do Município
de Vitória-ES.
3 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO PROGRAMA DE
ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) INSERIDO NO
MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES

Este capítulo abordará sobre o surgimento do Programa de Erradicação do Trabalho


Infantil no Brasil e posterior inserção no Município de Vitória-ES.

Será explicitado, portanto, quais elementos e mobilizações condicionaram a criação


deste Programa no Brasil e implantação no Município de vitória, e como este foi se
alterando no decorrer de seu desenvolvimento e se encontra atualmente no
Município em questão.
3.1 O PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL
(PETI)

Como exposto em capítulos anteriores, a questão social emerge e ganha


notoriedade no contexto da revolução industrial na qual o sistema capitalista passa a
explorar a força de trabalho de homens, mulheres e crianças sem o respaldo de
proteção alguma ao trabalho destes. Frente a esta realidade vivenciada por estes
sujeitos, houve inúmeras conseqüências para o social diante da intensificação das
expressões da questão social tais como: aumento da pobreza, favelização, trabalho
infantil, entre outros. Todos estes fatores desencadearam uma forte queda do padrão
de vida das classes trabalhadoras e conseqüentemente acarretou num grande
descontentamento da população frente ao sistema, desencadeando, ao longo dos
anos, em movimentos de lutas por condições dignas de trabalho, por combate a
precarização das formas de trabalho e por melhor intervenção do Estado na área
social, na área da criança e do adolescente, entre outras. Assim, as reivindicações
da população por melhorias e atenção as diversas áreas do social passaram a ter
respaldo em Constituições Federais e legislações específicas com a intensificação
da intervenção do Estado através de políticas públicas ao longo de cada fase da
história.

Quanto ao uso de crianças e adolescente como mão-de-obra produtiva no Brasil,


este data de um longo período, com suas raízes fincadas ainda na época escravista,
que vigorou por mais de três séculos. Mais tarde com o fim da escravidão e a
expansão das indústrias, portanto, temos, o uso da criança como força de trabalho
nas fábricas (OIT, 2001).

Apesar de a Organização Internacional do Trabalho (OIT) desde 1919, legislar sobre


a regulamentação da jornada laboral de crianças, a temática “trabalho infantil” só
ganhou destaque social na década de 1980, quando a questão começou a ser
encarada como expressão da questão social ao invés de solução para a vida de
crianças pobres. Neste sentido, o combate ao trabalho infantil começa a ganhar
força no Brasil durante a década de 1980, auge dos movimentos sociais durante o
período de repressão do regime militar, onde muitos movimentos sociais se
articularam a fim de garantir melhoria das condições de vida da população, dentre
eles estavam os movimentos em prol da infância e juventude (OIT, 2001).

Portanto, a década de 1980 foi marcada pelo crescimento desses movimentos


sociais de lutas que reivindicavam direitos, solicitando políticas públicas, melhorias
legislativas e melhor intervenção Estatal na área social. Nesta década ressalta-se a
criação da Constituição Federal de 1988 que, quanto ao trabalho infantil, admitiu
trabalho a partir dos 14 anos, mas somente na condição de aprendiz.

Como já explicitado em capítulos anteriores, dois anos após a criação desta


constituição, houve a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente que também
foi fruto dos movimentos sociais de luta visando à melhoria da proteção e
atendimento às crianças e adolescentes no Brasil. Quanto ao trabalho infantil, o
Estatuto preconizou em seu artigo 60 a proibição do trabalho infantil e, assim como
na Constituição Federal de 1988, a permissão na condição de aprendiz a partir dos
14 anos.

Mesmo com a criação destas legislações proibindo o trabalho infantil no Brasil, a


situação de trabalho infantil perpetuou e permanece até os dias de hoje.

Isso posto, nota-se que crianças e adolescentes são obrigados a trabalhar por várias
razões, sendo a pobreza o principal fator que desencadeia essa expressão da
questão social. Muitos governos ao enfrentarem crises econômicas não priorizam o
social: saúde, educação, moradia, saneamento básico, programas de geração de
renda, treinamento profissional, entre outros. Sendo assim a vida para as famílias de
baixa renda se torna uma luta diária pela sobrevivência. Dessa forma, as crianças
são forçadas a assumir responsabilidades, ajudando em casa para que os pais
possam trabalhar, ou indo elas mesmas trabalhar para ganhar dinheiro e
complementar à renda familiar (OIT, 2001).

Neste sentido, o sistema neoliberal, no qual estamos inseridos, privilegiando a


economia em detrimento do social, provoca o aumento do trabalho infantil e sua
manutenção, uma vez que o Estado não garante, de fato, os direitos fundamentais
da população.

Frente a estas questões, o tema trabalho infantil continuou tendo visibilidade no


cenário brasileiro e no cenário internacional. Assim, ao longo dos anos a discussão a
cerca do trabalho infantil foi ganhando destaque através de estudos acadêmicos,
reportagens, denúncias, seminários e debates. Toda essa mobilização em torno
desse tema veio, portanto, acontecendo de maneira gradativa, através da
reivindicação pública, da mobilização da sociedade, conseguindo várias vitórias,
como principalmente a mudança na forma de encarar a questão como “solução”
para o “problema” da infância “pobre”, passando hoje a ser reconhecido
universalmente como um grave problema revelador da situação de miséria e
exclusão social vivida por diversas famílias.

Tendo em vista as mobilizações em vários âmbitos, tratados e convenções foram


sendo formuladas nos anos de 1990, principalmente pela Organização Internacional
do Trabalho (OIT) para se trabalhar a questão do trabalho infantil em diversos
países.

Nos anos 1990, ressalta-se, pois, que o Brasil ratificou a Convenção Internacional
dos Direitos da Criança. Com relação ao trabalho infantil, o país participa, desde
1992, do Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC) da
Organização Internacional do Trabalho, que se propõe a apoiar os países
participantes a combater progressivamente o trabalho Infantil, objetivando a
erradicação deste (CAMPOS, 1999, p. 11).

Portanto, vale destacar que o trabalho infantil foi condenado pela Organização
Internacional do Trabalho e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF),
sendo considerado um trabalho escravo. Diante disso, a OIT e a UNICEF, após
aprovação da maioria dos países, assinaram tratados e convenções a favor da
erradicação do trabalho infantil no mundo. Os governos brasileiros assinaram todos
os tratados e convenções, mas só quando foi formado o Fórum Nacional de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil é que o tema ganhou maior visibilidade
(BONFIM, 2000. p. 07).
Tendo em vista todas as legislações e convenções visando o combate ao trabalho
infantil e, principalmente, as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente
que visa sobre a Proteção Integral e sobre Políticas de Atendimento de crianças e
adolescentes no Brasil lance-se mão, em 1995, da criação de um Programa
específico de combate ao trabalho infantil fruto, também, da luta de movimentos
sociais que nos anos 1990 colocaram em pauta a erradicação do Trabalho Infantil no
Brasil.

Portanto, no ano citado, o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho


Infantil elaborou o Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (PETI),
visando solucionar o problema em São Paulo, no setor de fabricação de calçados;
Mato Grosso do Sul (extração de carvão); Pernambuco, na cana-de-açucar; Sergipe,
plantação de laranjas; e na Bahia (sisal, pedreiras e olarias). Feitas as parcerias com
o UNICEF, governos federal, estadual e municipal e com diversas entidades, formou-
se a Comissão Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Competi)
(BONFIM, 2000. P. 07).

Ressalta-se, entre outras legislações, que o Programa de Erradicação do Trabalho


Infantil foi criado visando efetivar, portanto, os direitos da criança e do adolescente,
contido no Estatuto da Criança e do Adolescente, especificamente no artigo 60
quanto à proibição do trabalho infantil.
Tal Programa esta inserido na política de atendimento preconizada pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente, nas disposições referidas nos artigos 86 a 97. O artigo 86
do Estatuto da Criança e do Adolescente explicita que:

A política de atendimento da criança e do adolescente far-se-á


através de um conjunto articulado de ações governamentais e não-
governamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios (BRASIL, 1990).

Inicialmente, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil foi lançado, como uma


das primeiras ações concretas resultantes de denúncias e reivindicações
relacionadas ao trabalho de crianças no Brasil. Surgiu com a perspectiva de eliminar
as piores formas de trabalho laborioso de crianças e adolescentes no País.
A primeira experiência foi implantada, portanto, em 1996 nas carvoarias do Mato
Grosso do Sul e, nos anos seguintes, nos canaviais de Pernambuco e na região
sisaleira9 da Bahia. Em 1998, o Programa alcançava as regiões citrícolas do
Sergipe, um garimpo de Rondônia e canaviais do Rio de Janeiro (CAMPOS, 1999, p.
13).

Em 1999, o programa passou a contemplar os Estados de Alagoas, Espírito Santo,


Pará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. No Município de Vitória, o
PETI foi implantado em 2001 tendo como meta atender 500 crianças/adolescentes.

Em âmbito geral, o Programa reconhece como bases para o desenvolvimento de


suas ações:

1. A necessidade de envolvimento da sociedade e do governo, de forma


coordenada, no processo de erradicação do trabalho infantil. Ambos são
chamados a um processo de intervenção que exige atuação pactuada
conjuntamente, dentro das capacidades e competências de cada
organização, tendo como uma de suas diretrizes básicas a descentralização
político-administrativa. A articulação entre organizações privadas e os
diversos setores e instâncias governamentais antecedeu sempre a
implementação do Programa, sendo desenvolvida nos moldes do
relacionamento estabelecido com as diferentes regiões brasileiras, pelo
Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, desde sua
criação.
2. A criação, como componente estratégico, de condições para o acesso,
ingresso, permanência e sucesso de crianças e adolescentes na escola, já
que, com relação ao trabalho infanto-juvenil, as pesquisas têm demonstrado
que este influi negativamente no desempenho escolar.
3. A importância da compreensão do trabalho infantil no contexto de cada
uma das atividades econômicas focalizadas, de forma a fazer depender sua
erradicação não apenas da intervenção junto ás famílias, mas da alteração
do conjunto das condições tecnológicas e das relações de produção em
geral inerente à posição dessas atividades econômicas nas chamadas
“cadeias produtivas”, que implicam etapas nacionais e internacionais.
4. A exigência de se procurar o envolvimento dos setores empresariais,
tanto aqueles ligados a essa “cadeia”, como outros, vinculados à economia
local, caracterizada pelos problemas da monocultura e do baixo
desenvolvimento tecnológico, já que a utilização pelo Programa do conceito
inovador de “cadeias produtivas” permitiu alcançar maior compreensão das
causas econômicas do trabalho infantil.
5. O caráter estratégico da aliança com a família dos trabalhadores infantis,
incluindo sua participação consciente desde a época de implantação do
Programa, não apenas mediante apoio psicossocial e subsídio financeiro
imediato, mas com a busca conjunta de outras opções de geração de

9
O sisal é uma planta utilizada para fins comerciais. O A. sisalana é cultivado em regiões semi-
áridas. No Brasil, os principais produtores são os estados da Paraíba e da Bahia. Do sisal, utiliza-se
principalmente a fibra das folhas que, após o beneficiamento, é destinada majoritariamente à indústria
de cordoaria (cordas, cordéis, tapetes etc) (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sisal. Acesso
em: 01 de junho de 2009).
emprego e renda. Reconhece-se a relevância da mediação da família no
uso do trabalho infantil e, conseqüentemente, no processo de sua
erradicação Assim, as famílias atingidas apresentam elevado grau de
incorporação ao Programa, efetuando-se de maneira constante a
substituição do trabalho infantil pela escola na vida das crianças e dos
adolescentes.
6. A definição da erradicação do trabalho infantil como uma das estratégias
de intervenção do Governo Federal no desenvolvimento social, através da
área de justiça, compondo um conjunto de programas e ações
estabelecidos como prioritários, com recursos que foram previstos, para o
ano de 1996, de forma a eliminar o trabalho escravo ou perigoso de 60 mil
crianças nas carvoarias, no sisal e setor sucro-alcooleiro (CAMPOS, 1999,
p. 17, 19, 20 e 21).

Portanto, estes seis itens são as bases para o desenvolvimento das ações para o
combate ao trabalho infantil através do PETI. Em síntese, tais bases ressaltam: o
envolvimento da sociedade e do governo no combate ao trabalho infantil; a criação
estratégica de condições para a vivência escolar das crianças e adolescentes; a
importância da compreensão do trabalho infantil no contexto das atividades
econômicas; envolvimento dos setores empresariais no combate ao trabalho infantil;
a aliança estratégica com a família das crianças e adolescentes em situação de
trabalho infantil; e, erradicação do trabalho infantil como uma das estratégias de
intervenção do Governo Federal no desenvolvimento social.

Para que os Municípios participem do PETI, respaldado por tais bases, é necessário,
portanto, que existam casos de trabalho infantil. Esse levantamento é feito pelos
estados e Municípios, por meio de seus órgãos gestores de assistência social. Neste
sentido, é importante destacar que para que o PETI seja implantado em qualquer
Estado, exige-se a existência das Comissões Municipais e Estaduais de Erradicação
do Trabalho Infantil (CMETI). As atribuições delegadas ao CMETI são:

• contribuir para a sensibilização e mobilização de setores do governo e


da sociedade em torno da problemática do trabalho infantil;
• sugerir procedimentos complementares às diretrizes e normas do PETI;
• participar, juntamente com o órgão gestor municipal da Assistência
Social, na definição das atividades laborais priorizadas e no número de
crianças e adolescentes a serem atendidos no Município, inclusive os
casos específicos adolescentes de 15 anos de idade participar da
elaboração do Plano Municipal de Ações Integradas;
• interagir com os diversos programas setoriais de órgãos ou entidades
executoras de políticas públicas que tratem das questões das famílias,
das crianças e dos adolescentes, visando otimizar os resultados do
PETI;
• articular-se com organizações governamentais e não-governamentais,
agências de fomento e entidades de defesa dos direitos da criança e do
adolescente, para apoio logístico, atendimento às demandas de justiça
e assistência advocatícia e jurídica;
• sugerir a realização de estudos, diagnósticos e pesquisas para análise
da situação de vida e trabalho das famílias, crianças e adolescentes;
• recomendar a adoção de meios e instrumentais que assegurem o
acompanhamento e a sustentabilidade das ações desenvolvidas no
âmbito do Programa;
• acompanhar o cadastramento das famílias, sugerindo critérios
complementares para a sua seleção em conjunto com o órgão gestor
municipal da Assistência Social;
• aprovar, em conjunto com o órgão gestor municipal da Assistência
Social, os cadastros das famílias a serem beneficiadas pelo PETI,
inclusive os casos específicos adolescentes de 15 anos de idade;
• acompanhar e supervisionar, de forma complementar, as atividades
desenvolvidas pelo Programa;
• denunciar aos órgãos competentes a ocorrência do trabalho infantil;
• receber e encaminhar aos setores competentes as denúncias e
reclamações sobre a implementação e execução do PETI;
• estimular, incentivar a capacitação e atualização para profissionais e
representantes de instituições prestadoras de serviços junto ao público-
alvo;
• contribuir no levantamento e consolidação das informações,
subsidiando o órgão gestor municipal da Assistência Social na
operacionalização e na avaliação das ações implantadas (BRASIL,
2001).

No ano de 2001, a Secretaria de Estado de Assistência Social publicou, no Diário


Oficial da União, as Diretrizes e Normas do PETI sob a portaria nº 458, de 4 de
outubro de 2001. De acordo com tal Portaria, as Diretrizes e Normas do Programa
de Erradicação do Trabalho Infantil foram formuladas considerando o disposto:

[...] na Constituição Federal de 1988 que em seu Artigo 227 elegeu a criança
e o adolescente como prioridade absoluta e em seu Art. 7º, inciso XXXIII,
modificado pela Emenda Constitucional nº 20, de 16/11/1998, proíbe o
trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer
trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a
partir de quatorze anos; na Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA), que em seu Art. 60, ratifica a proibição do trabalho
infantil e que em seu Art. 62 considera que a condição de aprendiz diz
respeito à formação técnico-profissional, ministrada segundo as diretrizes e
bases da legislação em vigor; no estabelecido no Parágrafo II do Art. 2º da
Lei nº 8.742/93 - Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), que tem como
objetivo o amparo às crianças e aos adolescentes; na Lei de Diretrizes e
Bases da Educação (LDB), nº 9.394/96, que em seu Art. 89, § 5º,
estabelece que serão conjugados todos os esforços objetivando a
progressão das redes escolares públicas urbanas de ensino fundamental
para o regime de escolas em tempo integral; nas Convenções nº 138 e 182
da Organização Internacional do Trabalhos (OIT), ratificadas pelo Governo
Brasileiro, que estabelecem, respectivamente, a priorização de erradicação
do trabalho infantil nas suas piores formas, bem como a idade mínima de 16
anos para ingresso no mercado de trabalho; no previsto na Política Nacional
de Assistência Social, aprovada pela Resolução CNAS nº 207, de
16/12/1998, que tem como uma de suas diretrizes: a efetivação de amplos
pactos entre Estado e sociedade, que garantam o atendimento de crianças,
adolescentes e famílias em condições de vulnerabilidade e exclusão social;
na Resolução nº 7, de 17/12/1999, da Comissão Intergestora Tripartite –
SEAS/MPAS; na Resolução nº 5, de 15/02/2000, do Conselho Nacional de
Assistência Social-CNAS (BRASIL, 2001).

Portanto, tendo em vista tais mecanismos legais foram formuladas as diretrizes e


normas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil nas quais especifica seu
objetivo geral, objetivos específicos, público alvo, propõe a centralidade na família,
entre outras.

Através da Portaria nº 458, foi definido que o objetivo geral do PETI seria erradicar,
em parceria com os diversos setores governamentais e da sociedade civil, o trabalho
infantil nas atividades perigosas, insalubres, penosas ou degradantes nas zonas
urbana e rural. Os objetivos específicos seriam: possibilitar o acesso, a permanência
e o bom desempenho de crianças e adolescentes na escola; implantar atividades
complementares à escola - Jornada Ampliada; conceder uma complementação
mensal de renda - Bolsa Criança Cidadã, às famílias; proporcionar apoio e
orientação às famílias beneficiadas; promover programas e projetos de qualificação
profissional e de geração de trabalho e renda junto às famílias (BRASIL, 2001).

O público alvo, a partir da Portaria nº 458, caracterizou-se por ser famílias com
renda per capita de até ½ salário mínimo, com crianças e adolescentes em idade
inferior a dezesseis anos, atendendo as diversas situações de trabalho (BRASIL,
2001).
Quanto à centralidade na família, a Portaria nº 458 expôs que as ações
desenvolvidas no âmbito do PETI devem ter como lócus de atenção a família, a qual
se trabalharia por meio de ações sócioeducativas e de geração de trabalho e renda,
que visem garantir a sua proteção e inclusão social, promovendo melhoria na sua
qualidade de vida (BRASIL, 2001).

Destaca-se, que, enquanto uma política pública, o Programa de Erradicação do


Trabalho Infantil, faz parte de um conjunto das políticas do governo federal.
Seguindo o que está posto no Estatuto da Criança e do Adolescente, o PETI surgiu
do trabalho parceiro entre as esferas dos governos federal, estadual – responsável
pela supervisão do Programa –, e municipal, cabendo as prefeituras o
desenvolvimento do trabalho na ponta, ou seja, com os usuários e seus familiares
(LEITE, p. 01 e 02, acesso em: 27 abr. 2009).

Vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o


PETI caracteriza-se atualmente, por ser um programa de transferência de renda do
Governo Federal integrado e unificado ao PBF. A integração do Programa de
10
Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) ao Programa Bolsa Família (PBF) vinha
sendo viabilizada desde 2004, efetivando-se em 2006, regido pela portaria 666.

Trata-se de "uma decisão do governo brasileiro", disse o secretário de


Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome, Oswaldo Russo, em entrevista à Agência Brasil. "É importante
racionalizar a aplicação de recursos para que a população seja melhor
atendida", afirmou Russo [...] No caso do PETI, o foco é tirar as crianças
em situação de trabalho infantil e colocá-las na escola, na convivência
familiar e comunitária. No Bolsa Família, as ações têm o objetivo de dar
uma renda mínima às famílias para que as crianças freqüentem as
escolas e progridam nos estudos, explicou Russo. "São focos
parecidos", disse o secretário. Por essa razão, o Ministério decidiu
promover a integração dos programas (RUSSO, 2006).

Portanto, a integração entre o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e o


Programa Bolsa Família (PBF), regulada pela Portaria GM/MDS nº 666, objetivou o
enfrentamento da duplicidade de benefícios, unificação do valor do Serviço
Socioeducativo, a ampliação do atendimento segundo as demandas registradas de
trabalho infantil, melhoria na gestão e a universalização do acesso. 11

Esse processo possibilita o acesso dos usuários inseridos no Programa Bolsa


Família, às ações de enfrentamento ao trabalho infantil, uma vez que estende o
Serviço Socioeducativo, ofertado contrário ao escolar, e o trabalho sócioassistencial
às famílias com crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, que fazem
parte do Programa Bolsa Família. 12

10
O Programa Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência direta de renda com
condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, de acordo com
a Lei 10.836, de 09 de janeiro de 2004 e o Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004. (Disponível
em: www.mds.gov.br/bolsafamilia/o_programa_bolsa_familia/o-que-e - 45k - acesso dia 01 de
junho de 2009)
11
Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-de-
erradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.
12
Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-de-
erradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.
É importante destacar que este processo de integração objetiva a garantia da
especificidade e do foco de cada programa. Neste sentido, tal processo possibilita
que ambos os Programas continuem atingindo seus principais propósitos, com a
diferença, no entanto, de promover a potencialização das ações, a unificação das
condicionalidades entre os dois Programas e a universalização do acesso. 13

O PETI é, portanto, um programa do Governo Federal executado no âmbito


Municipal pelas Prefeituras através de parcerias e convênios. Ao Governo Federal é
atribuído o pagamento das bolsas, R$ 40 reais por criança beneficiada. Com a
integração do PETI ao Programa Bolsa Família (PBF), houve a unificação dos
benefícios, de forma que a família receberia o maior beneficio, nesse processo, a
maioria das famílias acompanhadas pelo PETI migraram para o PBF, mas ainda
permanecem sendo acompanhadas pelo PETI. 14

De acordo com o site do MDS, as condicionalidades para permanência no PETI são:

[...] retirada de todas as crianças/adolescentes de atividades laborais e de


exploração;- freqüência mínima da criança e do adolescente nas atividades
de ensino regular e no Serviço Socioeducativo, no turno complementar ao
da escola, de acordo com o percentual mínimo de 85% (oitenta e cinco) da
carga horária mensal exigida;-acompanhamento do crescimento e
desenvolvimento infantil, da vacinação, bem como da vigilância alimentar e
nutricional de crianças menores de sete anos (BRASIL, acesso em: 22 jan.
2009).
Destaca-se que a realização das atividades no horário extra aula, sendo esta uma
condicionalidade, se dá por meio de entidades parceiras ou conveniadas. Entende-
se por parcerias, aquelas entidades que prestam serviços as crianças do PETI, mas
não recebem recursos da PMV para isso. As conveniadas recebem recursos
financeiros, destes recursos, 50% são enviados pelo Governo Federal ao Município,
e 50% são pagos pela PMV. 15

Ressalta-se, que atualmente o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI)


compõe o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) articulando o Serviço
Socioeducativo e a Transferência de Renda para as famílias que fazem parte do
13
Ibid.
14
Ibid.
15
Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-de-
erradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.
Programa. Na perspectiva do SUAS, o programa visa trabalhar com ações
socioassistenciais com foco na família, potencializando sua função de proteção, os
vínculos familiares e comunitários. 16

O Sistema Único de Assistência Social, criado em 2004, possui um modelo de


gestão descentralizado e participativo. Tal sistema constitui-se na regulação e
organização das ações socioassistenciais em todo o território nacional. Neste
sentido, o SUAS preconiza que,

[...] os serviços, programas, projetos e benefícios têm como foco prioritário a


atenção às famílias, seus membros e indivíduos e o território como base de
organização, que passam a ser definidos pelas funções que desempenham,
pelo número de pessoas que deles necessitam e pela sua complexidade.
Pressupõe, ainda, gestão compartilhada, co-financiamento da política pelas
três esferas de governo e definição clara das competências técnico-políticas
da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com a participação e
mobilização da sociedade civil e estes têm o papel efetivo na sua
implantação e implementação (BRASIL, 2004, p. 32 e 33).

Portanto, o Sistema Único da Assistência Social visa a materialização do conteúdo


da LOAS, objetivando a conquista de direitos de cidadania e inclusão social posta
nessa Política (BRASIL, 2004, p. 33).

O SUAS define e organiza os elementos essenciais e imprescindíveis à execução da


Política Nacional de Assistência Social (PNAS) possibilitando a normatização dos
padrões nos serviços, qualidade no atendimento, indicadores de avaliação e
resultado, nomenclatura dos serviços e da rede socioassistencial (BRASIL, 2004, p.
33).

Portanto, o trabalho do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil se desenvolve


de acordo com o que esta posto no SUAS e nas políticas que o MDS (Ministério de
Desenvolvimento Social) coloca em todo território nacional, a centralidade na família,
sendo esta o foco do trabalho em rede constituindo enquanto objetivo do Programa
e do Serviço Social no Programa.

Na Política Nacional de Assistência Social (PNAS), o PETI se enquadra nos serviços


de Proteção Social Especial. Segundo a PNAS (2004), a proteção social especial,
16
Ibid
[...] é a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e
indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por
ocorrência de abandono, maus tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual,
uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio-educativas,
situação de rua, situação de trabalho infantil, entre outras (BRASIL, 2004, p.
22).

De acordo com a PNAS, os serviços da proteção social especial visam à realização


de acompanhamento individual, e maior flexibilidade nas soluções protetivas. Além
disso, os serviços de proteção especial possuem estreita interface com o sistema de
garantia de direito exigindo uma gestão mais complexa e compartilhada com o
Poder Judiciário, Ministério Público e outros órgãos e ações do Executivo (BRASIL,
2004, p. 31).

Os serviços de Proteção Social Especial são divididos em: média complexidade e


alta complexidade. Os de média complexidade são aqueles que oferecem
atendimentos às famílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos
vínculos, familiar e comunitário, não foram rompidos. Neste sentido, requerem maior
estruturação técnico-operacional e atenção especializada e mais individualizada, e
também, um acompanhamento sistemático e monitorado. Os serviços de alta
complexidade são aqueles que garantem proteção integral (Casas de Passagens,
Repúblicas, Casa Lar, entre outros) que envolve: moradia, alimentação, higienização
e trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem referência, em
situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e comunitário
(BRASIL, 2004, p. 32).

Portanto, o PETI, de acordo com a PNAS, compreende os serviços de Proteção


Social Especial de média complexidade, pois ouve a violação do direito da criança e
do adolescente, encontrado em situação de trabalho infantil, porém os vínculos,
familiar e comunitário, destes não foram rompidos.

Inserido, portanto, na Política Nacional de Assistência Social, a identificação de


situações de violação de direitos gerada pelo trabalho infantil poderá ser feita por
intermédio da equipe técnica da Secretaria Municipal de Assistência Social, pela
Sociedade Civil, pelo Ministério Público, Conselho Tutelar, pela equipe da
Superintendência Regional do Trabalho, e outros parceiros. Assim, com base na
identificação de violação de direitos, essas crianças e/ou adolescentes, bem como
suas famílias, são cadastrados no Cadastro Único de Programas Sociais do
Governo Federal (CadÚnico). 17

Portanto, o luta em enfrentar o trabalho infantil conta com vários atores estratégicos,
além do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que são:
Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério da Educação (MEC), Ministério do
Trabalho e Emprego (TEM), Ministério do Esporte (ME), Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA), Ministério da Cultura, Ministério da Saúde (MS),
Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil, Organização Internacional do Trabalho
(OIT), e todos que participam de atividades intersetoriais de enfrentamento ao
trabalho infantil. 18

A participação da sociedade no controle das ações desenvolvidas pelo Programa é


garantida por meio da Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil –
CMET. Esta é constituída no Município por membros do governo e da sociedade,
tem caráter consultivo e propositivo, e tem por finalidade acompanhar a efetividade
das ações do PETI. Em Vitória a Comissão está em processo de rearticulação, e
estabelecendo uma nova representação – a dos beneficiários do Programa. 19

Atualmente, o PETI tem como objetivo contribuir para a erradicação de todas as


formas de trabalho infantil no País, atendendo famílias cujas crianças e
adolescentes com idade inferior a 16 anos se encontrem em situação de trabalho. O
Programa está inserido em um processo de resgate da cidadania e promoção de
direitos de seus usuários, bem como de inclusão social de suas famílias. Portanto,
hoje, como público-alvo, o PETI atende famílias com crianças e adolescentes
retirados das diversas situações de trabalho, com idade inferior a 16 anos em
qualquer situação de trabalho infantil e não mais de 7 a 15 anos em situação de

17
Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-de-
erradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.
18
Ibid.
19
Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-de-
erradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.
trabalho infantil considerado perigoso, penoso, insalubre e degradante como era no
início de sua implantação. 20

No que se refere especificamente ao Município de Vitória, o programa de


Erradicação do Trabalho Infantil foi implantado, no ano de 2001 e, ao longo dos
anos, foi se ajustando as novas formulações das normativas e legislações que
envolvem o Programa em nível Federal (VITÓRIA, 2006).

Quando implantado no Município de Vitória o PETI atuava, inicialmente, dentro da


21
ótica do Programa Rede Criança que se constitui em um sistema integrado de
atenção à criança e ao adolescente em situação de risco pessoal e social, com
objetivo de articular o poder público e a sociedade civil, através da integração de
seus programas, projetos e ações. Atualmente o PETI não atua na chamada Rede
Criança, pois essa denominação deixou de ser utilizada com o fim da gestão anterior
da Prefeitura de Vitória (VITÓRIA, 2006).

No Município o Programa é norteado por três eixos básicos: Escola, atividades


sócioeducativas e de Convivência e o trabalho com as Famílias, sendo que este é
realizado numa perspectiva de inclusão social e estímulo a mudanças de atitudes,
buscando a melhoria da qualidade de vida familiar e social. Neste sentido, a Equipe
Técnica do PETI busca envolver as famílias nas atividades desenvolvidas, visando
despertar mudanças e repensar seus entendimentos e suas ações em relação às
crianças que trabalham, de modo que estas venham a compreender que o trabalho
infantil compromete o futuro de suas crianças (VITÓRIA, 2006).

Portanto, as crianças e adolescentes atendidos pelo Programa são estimuladas a


estudar e participar de atividades recreativas, lúdicas, artísticas e esportivas no
período complementar à escola (Jornada Ampliada), que são desenvolvidas nas

20
Ibid.
21
A Rede Criança, criada em 1999, é um sistema que articula instituições governamentais (poder
público) e não-governamentais (sociedade civil) da cidade de Vitória, Espírito Santo. Todas as
entidades e instituições de atendimento à criança e ao adolescente formam a chamada Rede de
Atendimento. A Rede integra programas, projetos e ações desenvolvidos por diversos atores. Sua
filosofia baseia-se na participação e superação de ações isoladas, iniciativas pontuais e medidas
aleatórias, que determinavam a rotina de muitas ações. Tudo isso na verdade é a consolidação do
que está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (Disponível em:
http://www.redecria.es.gov.br/oquee/. Acesso dia 27 de abril de 2009)
ONG’s, nos Cajuns (Projeto Caminhando Juntos), em Escolinhas de Esportes e
Clubes, de forma a despertar o potencial destas crianças e adolescentes para um
caminhar mais crítico e participativo na sociedade (VITÓRIA, 2006).

É importante salientar que na PNAS, a proteção especial de média complexidade,


na qual se encontra o PETI, envolve também o CREAS (Centro de Referencia
Especializado da Assistência Social), visando à orientação e o convívio sócio-familiar
e comunitário. O CREAS difere-se da proteção básica oferecida pelos CRAS (Centro
de Referencia da Assistência Social) por se tratar de um atendimento dirigido às
situações de violação de direitos (BRASIL, 2004, p. 32).

Isso posto, de acordo com uma das entrevistadas da pesquisa realizada, o PETI
vitória, ainda este ano, além de localizado na Gerência de Proteção da Criança e do
Adolescente (GCA) da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS) contará
com equipes, também nos CREAS’s (Centros de Referência Especializados da
Assistência Social) que serão instalados no Município. A implantação dos Centros
Referencia Especializados da Assistência Social visa a melhoria dos serviços de
média complexidade prestados a população. Isso implica um melhor
desenvolvimento do trabalho quanto ao enfrentamento do trabalho infantil no
Município de vitória.

Ressalta-se, portanto, a fala da entrevistada D:

[...] é importante colocar que o PETI é um serviço da média complexidade,


mas nós temos outros serviços da média complexidade. E esses serviço
irão se articular entre si, irão interagir entre si e nós iremos integrar esses
serviços em espaços físicos descentralizados na cidade de Vitória. Nós
vamos criar o que se chama na Política Nacional de Assistência Social, os
CREAS, que são os Centros de Referência Especializados da Assistência
Social. Quando eu falo da implicação da família ai nós já estamos
começando a trabalhar metodologias no sentido de aprofundar realmente
métodos para atingir mais de perto essas famílias. Porque todas as
vulnerabilidades da média complexidade, ou seja, todas as famílias que têm
os seus direitos violados, ai incluindo todos os membros das famílias, irão
para este espaço físico, que se chama pela Política Nacional de Assistência
Social, os Centros de Referência Especializados da Assistência Social,
então o PETI é um dos serviços desses Centros Especializados. Nós
implantaremos três serviços na cidade até o segundo semestre [...] o PETI,
em todos os três centros na cidade, terá diferentes lugares para atender a
questão de crianças no trabalho infantil. Então, isso amplia o serviço, facilita
a visibilidade (ENTREVISTADA D).

Neste sentido, a dinâmica do trabalho no PETI e o próprio Programa, no Município


de Vitória, sofrerão alteração uma vez que estarão inseridos nos CREAS’s como
citado acima.

Isso posto, para a compreensão do trabalho do Serviço Social, em si, no PETI-


Vitória, foi realizada uma pesquisa que será analisada no capítulo que se segue.

4 O SERVIÇO SOCIAL NO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO


TRABALHO INFANTIL DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA

Este capítulo abordará a análise das entrevistas a partir da pesquisa: Limites e


Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço Social no Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória-ES.

Para o desenvolvimento de tal análise serão considerados os seguintes pontos do


questionário: Tempo de trabalho, vínculo empregatício e carga horária;
gerenciamento, participação e elaboração de políticas sociais; principais políticas,
projetos e atividades desenvolvidas; elaboração e execução de projetos; principais
objetivos do PETI-Vitória; localização/organização do trabalho do Serviço Social;
principais demandas; encaminhamentos mais freqüentes; organização do Serviço
Social quanto a rotina de trabalho; número e suficiência ou não de profissionais de
Serviço Social; população atendida; serviços prestados; aprimoramento intelectual e
capacitação profissional; dimensão investigativa; participação política e controle
social.

Ressalta-se que para a realização da analise aqui proposta, considerar-se-á, entre


outros elementos trabalhados nos capítulos anteriores: o avanço das políticas na
área da criança e do abdolescente, principalmente com o advento do ECRIAD; o
avanço da profissão de Serviço Social após sua renovação; o Serviço Social
enquanto uma profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho; e, as políticas
sociais configuradas enquanto espaço sócio ocupacional do Serviço Social.

Considerado tais argumentos, considera-se, como explicitado no segundo capítulo,


para a compreensão do trabalho do assistente social no PETI-Vitória, que o trabalho
do Serviço Social está inserido nas relações sociais em meio a um sistema de
produção que gera inúmeras expressões da questão social, sobre as quais o
profissional é requisitado a intervir. Neste sentido,

[...] é possível dizer que o argumento para a requisição do trabalho do


assistente social está circunscrito às políticas sociais e às relações mantidas
com as mesmas pelos sujeitos sociais carentes de recursos privados de
reprodução espiritual e material no contexto das sociedades urbano-
industriais. Pois, apesar do amplo e difuso campo e a habilitação
tecnológica parecem se dirigir àquele mesmo universo institucional
(BARBOSA et al., 1998, p. 111).

Portanto, as políticas sociais se configuram enquanto espaço ocupacional do


Serviço Social. Através delas, o profissional viabiliza direitos necessários à
população usuária de seus serviços. Portanto a requisição do trabalho do Serviço
Social, entre outras atribuições, visa à intervenção no social por meio das políticas
sociais.
Tendo em vista, portanto, a requisição do trabalho do assistente social, outra
contribuição que enfatiza tal necessidade encontra-se na fala de Iamamoto (2008, p.
417 e 418):

A revisão da literatura recente sobre os fundamentos do trabalho


profissional permitiu concluir que ela se concentra em apreender, sob
distintas ênfases, uma dimensão de fundamental importância para
caracterizar o Serviço Social: a natureza qualitativa dessa atividade
profissional, enquanto ação orientada a um fim como resposta às
necessidades sociais, materiais ou espirituais, (condensadas nas múltiplas
expressões da questão social) de segmentos sociais das classes
subalternas na singularidade de suas vidas: indivíduos e suas famílias,
grupos com recortes específicos. Parece haver um consenso de que se
trata de uma atividade inscrita predominantemente no terreno político e
ideológico, com refrações nas condições materiais da existência dos
sujeitos via serviços, programas e projetos implementados pelas políticas
públicas –, com destaque para o campo da seguridade social e, nela, da
assistência –, que interferem no padrão de consumo e na qualidade de vida
das famílias trabalhadoras.

Considerando tais fundamentos da necessidade de intervenção do profissional de


Serviço Social, é fundamental que se compreenda e analise o trabalho do Assistente
Social de forma geral e dentro do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do
Município de Vitória.

Isso posto, a categoria trabalho do Serviço Social será aqui compreendida como
processo social de transformação que objetiva atender as necessidade sociais de
reprodução dos indivíduos, ou seja:

Trabalho então apresentado sob a forma de processo, conduzido pelo gasto


de energia e fundamentalmente orientadas pelas necessidades sociais
inerentes à reprodução humana. Desse modo, há uma condição humana e
social no trabalho – e no seu processo – que se reveja pela possibilidade de
o produto do trabalho responder a uma carência motivadora do processo de
transformação e por esse impulso de mudança – motivado pelo carecimento
– ser alimentado pela busca de uma finalidade – algo que se quer satisfazer
e que já se apresenta idealmente no pensamento do trabalhador antes
mesmo de sua realização prática. Essa atividade orientada a um fim ou o
trabalho mesmo é um dos elementos simples centrais do conceito de
processo de trabalho seguido do próprio objeto e seus meios (BARBOSA et
al., 1998, p. 112 apud Marx, 1988: 142-7).

Portanto, compreende-se o trabalho enquanto um processo pensado e orientado a


um fim dentro de uma dada realidade cuja qual se pretende transformar.
Para tanto, o trabalho do assistente social deve ser compreendido enquanto um
processo laborativo na lógica do trabalho capitalista, ou seja, é inserido na divisão
sócio-técnica do trabalho no contexto do capital (BARBOSA et al., 1998, p. 113).

Portanto, estruturado na lógica do trabalho capitalista, o trabalho do Serviço Social


se configura enquanto assalariado, uma vez que o profissional vende sua força de
trabalho em troca de um salário.

Nas palavras de Iamamoto (2008, p. 416):

[...] o exercício da profissão realiza-se pela mediação do trabalho


assalariado, que tem no Estado e nos organismos privados -, empresariais
ou não -, os pilares de maior sustentação dos espaços ocupacionais desse
profissional, perfilando o seu mercado de trabalho, componente essencial
da profissionalização do Serviço Social. A mercantilização da força de
trabalho do assistente social, pressuposto do estatuto assalariado subordina
esse trabalho de qualidade particular aos ditames do trabalho abstrato e o
impregna dos dilemas da alienação, impondo condicionantes socialmente
objetivos à autonomia do assistente social na condução do trabalho e à
integral implementação do projeto profissional [...].

Neste sentido, enquanto um trabalho assalariado imerso na lógica capitalista, o


trabalho do Serviço Social não está alheio ao processo de alienação que afetam a
autonomia e efetivação de seu projeto profissional.

Assim, cabe ressaltar que:

Conceber o trabalho e executá-lo aparecem então como dois processos


distintos e desiguais. E, como tais, se constituem no móvel principal da
organização e controle do processo de trabalho nos tempos modernos,
porque asseguram a real subordinação do trabalho e a sua desqualificação,
além de engendrarem modos de se obter um comportamento desejado no
trabalho. Por isso, a desqualificação, a fragmentação do trabalho e a criação
de um aparato de concepção aparecem na tradição da sociologia do
trabalho como tendências caracteristicamente centrais do processo de
trabalho e se convertem, em nossas investigações nesta área, em
categorias analíticas – chaves para a compreensão do processo de trabalho
do assistente social e a problematização da relação entre determinação
estrutural e autonomia técnica, de modo que seja possível pensar as
dimensões mais genéricas e particulares do trabalho manifestadas e
reinventadas no processo laborativo do assistente social. Isto porque se
essa lógica estrutural modela as “instituições da sociedade capitalista que
executam processos de trabalho”, determina então a possível impotência do
assistente social para dominar a globalidade do trabalho que executa e o
seu significado social no processo de dominação burguesa. E, dessa
possível alienação adviria aquela realização social dos interesses
burgueses que motivam a própria contratação do assistente social
(BARBOSA et al., 1998, p. 116).

Compreende-se, portanto, que diante do processo de alienação e dominação


burguesa, o processo de trabalho do assistente social é condicionado e subordinado
ao capital, conseqüentemente, desqualifica-se, uma vez que se encontra imerso na
lógica capitalista de produção que dita as regras a serem seguidas, e estas, de fato,
não correspondem ao projeto ético-político do profissional de Serviço Social.

Salienta-se, assim como explicitado no segundo capítulo, que o assistente social


possui legislação própria. Tais legislações asseguram as condições para o seu
exercício profissional que deve ser levada em conta para análise de seu processo de
trabalho. Deve-se verificar, também, o papel que essa regulação cumpre na relação
entre estrutura e os profissionais que possuem uma relativa autonomia técnica, uma
vez que se manifesta no contexto da organização do trabalho capitalista que supõe
controle e alienação (BARBOSA et al., 1998, p. 117 e 118). Ressalta-se que:

Na realidade, essa autonomia legal é confrontada com a própria condição


de assalariamento com que o assistente social sempre exerceu o seu
trabalho. Pois, ao vender sua força de trabalho para sobreviver, fica privado
ou tem reduzido o controle sobre os meios de produção do seu trabalho,
submetendo-se às normas regulatórias e hierárquicas administrativas que
organizam os serviços (BARBOSA et al., 1998, p. 118).

Neste sentido, considera-se, segundo Iamamoto (2008, p. 420), que “[...] o trabalho
humano é expressão da atividade humana num contexto de alienação e a divisão do
trabalho é a expressão econômica do caráter social do trabalho dentro da alienação
[...]”.

Portanto, o trabalho profissional do Assistente Social é alienado ao sistema, e


mesmo sendo possuidor de uma relativa autonomia no seu fazer profissional, o
Assistente Social muitas vezes fica “engessado” de utilizá-la, uma vez que o modo
de se trabalhar no social já foi conduzido e delimitado pelo sistema capitalista, que
influencia todas as formas de trabalho e relações sociais.

Portanto, sendo o assistente social um trabalhador assalariado ele vende sua força
de trabalho especializada aos empregadores que a conduzirão. Neste sentido,
O assistente social é proprietário de sua força de trabalho especializada. Ela
é produto da formação universitária que o capacita a realizar um “trabalho
complexo”, nos termos de Marx (1985). Essa mercadoria força de trabalho é
uma potência, que só se transforma em atividade –, em trabalho –, quando
aliada aos meios necessários à sua realização, grande parte dos quais se
encontra monopolizado pelos empregadores: recursos financeiros, materiais
e humanos necessários à realização desse trabalho concreto, que supõe
programas, projetos e atendimentos diretos previstos pelas políticas
institucionais (IAMAMOTO, 2008, p. 421).

Portanto, a força de trabalho que o Assistente Social vende ao empregador é


produto da sua formação universitária que o capacitou para atuar sobre as
expressões da questão social tendo como espaço ocupacional as políticas sociais.

É importante ressaltar que o conhecimento das legislações específicas advindas da


bagagem acadêmico-profissional do assistente – projeto ético-político, Lei Orgânica
da Assistência Social, Código de Ética Profissional, Lei que regulamenta a profissão,
entre outras –, este respaldo político profissional, mostra-se, no cotidiano, como uma
importante estratégia de alargamento da relativa autonomia do assistente social,
contra a alienação do trabalho assalariado (IAMAMOTO, 2008, p. 422).

De acordo com Iamamoto (2008, p. 422), o sujeito que trabalha não tem o poder de
livremente estabelecer suas prioridades, seu modo de operar, acessar todos os
recursos necessários, direcionar o trabalho exclusivamente segundo as suas
intenções, pois existe o poder institucional. No entanto, deve-se considerar que o
assistente social tem como base social de sustentação de sua relativa autonomia, ou
seja, a possibilidade de redirecionar o seu trabalho para rumos sociais distintos
daqueles esperados pelos seus empregadores. Para tanto, na defesa de sua relativa
autonomia, no âmbito dos espaços ocupacionais, o assistente social leva em
consideração a sua qualificação acadêmico-profissional especializada, com a
regulamentação de funções privativas e competências.

Uma vez que o Serviço Social se insere na divisão sócio-técnica do trabalho,


compreende-se, que há rebatimentos do sistema neoliberal no trabalho cotidiano do
Assistente Social, pois está inserido na lógica da reestruturação produtiva do
sistema que fragmenta o trabalho, estabelece formas diferenciadas de contratação e
dificulta a realização do trabalho do assistente social segundo o que determina as
leis que o norteiam, condizentes com seu projeto ético-político.

Portanto, ao se discutir sobre o processo trabalho do Serviço Social, é necessário


que tal discussão seja inserida no contexto da reestruturação produtiva que afeta
diretamente o exercício profissional, uma vez que se observam alterações no mundo
do trabalho e, portanto, no mercado de trabalho e nas condições de trabalho do
profissional.

É importante destacar, porém, que inicialmente o Serviço Social possuía um cunho


conservador de trabalho – como observado em capítulos anteriores – e com o
decorrer da sua formulação, acompanhando as transformações societárias a nível
econômico, político e social, o Serviço Social foi se reformulando e, assim como as
políticas voltadas a área da criança e do adolescente, foi sendo direcionado à
realização de um trabalho coerente considerando os sujeitos enquanto possuidores
de direitos.

Para a realização de um trabalho nesta lógica, visando o indivíduo enquanto sujeito


de direitos, a categoria se renova e estabelece novas diretrizes e competência do
trabalho do assistente social, – como se pôde observar no segundo capítulo –,
através da Lei 8662 e estabelece princípios éticos por meio do Código de Ética
Profissional de 1993. O trabalho do profissional de Serviço Social, portanto, passa a
ser direcionado considerando tais dimensões legislativas e foi se reformulando e se
aperfeiçoando, principalmente nos anos 90, assim como a política voltada à área da
criança e da adolescência com o advento do ECRIAD.

Pode-se notar na fala de uma das entrevistadas um pouco desse percurso que o
Serviço Social incorpora no Brasil em relação à profissão propriamente dita e em
relação à área da infância e adolescência no que tange ao trabalho infantil e
surgimento do PETI:

Mas, assim, eu acho que talvez a gente tenha que entender que o PETI,
nasceu numa conjuntura dos anos 90. Nos anos 90 a política de atenção à
criança foi muito forte porque o Estatuto da Criança e da Adolescência
entrou em vigor em 1990 e ai, então foi uma década de grande mobilização
pelos direitos da criança. Naqueles anos de 1990, o Brasil e o mundo quase
todo levantou a bandeira do trabalho infantil, acho que é preciso resgatar
um pouco essa história. Teve a marcha global contra o trabalho infantil e
nós fizemos em Vitória um seminário para fortalecer a idéia da marcha que
era para denunciar o trabalho infantil [...] o trabalho infantil ganhou muita
visibilidade [...] e ai então, o mundo inteiro se mobilizou e o Brasil também,
e em resposta a esta mobilização mundial o Governo Brasileiro criou o
Programa de Erradicação do Trabalho infantil com a proposta do repasse da
bolsa às famílias e da jornada ampliada [...] e, ai, então, também, assim
como o Brasil colocou em pauta a questão da exploração sexual, o turismo
sexual. [...] ai então, a Lei Orgânica para a Assistência Social foi aprovada
em 1993 e a partir daí ela começa e ser discutida, debatida, implementada
e já nos anos 2000 quando o Presidente Lula chega ao Governo que lança
o Bolsa Família, que se delibera pela implantação do SUAS com uma lógica
da baixa, da média e da alta complexidade dentro dessa lógica, então isso
agora nos impõe a um novo desafio que é compatibilizar esses Programas
dentro dessa nova lógica do SUAS. Então, isso que é importante para a
gente estar entendendo, que o PETI está, certamente num processo de
reformulação, de se repensar, de se ajustar ao SUAS e a política de
transferência de renda que o Governo vem fazendo, no caso a Bolsa
Família. Então, está ai um ajuste e uma adaptação. [...] Também, naqueles
anos 90 o Brasil assinou a convenção que proíbe o trabalho até 15 anos, e
ai o Estatuto fala que é possível de 14 a 16 na condição de aprendiz e o
Brasil então, preferiu ficar com a opção do Estatuto até 16 e na condição de
aprendiz de 14 à 16. Ai o Brasil também definiu com outros países as piores
formas do trabalho infantil, existe essa resolução da OIT. Então, tudo isso
foi feito nos anos 90. Foram anos de muita ênfase e de muita força, o
trabalho infantil reduziu muito, mas ele sempre corre o risco de voltar. Sobre
trabalho infantil, nunca vamos poder dizer que acabou, porque a cada
conjuntura de crise o primeiro membro da família, que sente o desemprego
do pai e a falta de opção de trabalho, é a criança. Então, o que faz a família:
bota o filho para vender coisa na rua. Por sua vez, a gente fala que por trás
de uma criança que está trabalhando na rua sempre tem um adulto que
agencia essa criança, que organiza o trabalho dessa criança. [...] é muito
perigoso este tipo de trabalho, a exposição da criança, principalmente
vendendo balas a noite na sociedade” (ENTREVISTADA D).

Portanto, nota-se que os anos 90 foram anos de significativas mudanças e


alterações tanto para a profissão de Serviço Social quanto na política voltada à
criança e ao adolescente.

Considerando, portanto, o Serviço Social enquanto uma categoria de trabalho


assalariado, inserido na divisão socio-técnica, respaldado por legislações próprias
sobre as quais desenvolve sua atuação profissional, que tem nas políticas sociais
seu espaço ocupacional; e, considerando, também, o avanço das políticas sociais
voltadas à área da criança e do adolescente com o advento do ECRIAD em 1990, é
que se analisa aqui o Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho
Infantil no Município de Vitória.
4.1 TEMPO DE TRABALHO, VÍNCULO EMPREGATÍCIO E CARGA
HORÁRIA

Os rebatimentos da reestruturação produtiva podem ser observados nas formas de


contratação e vínculo empregatício de alguns profissionais do PETI. A exemplo disso
tem-se nas falas das entrevistadas, quanto ao tempo de exercício no Programa,
vínculo empregatício e carga horária:

Estou no Programa desde 2005, têm três anos que eu estou no Programa,
minha carga horária de vínculo empregatício é de seis horas na Prefeitura,
sou efetiva, porém, eu fico mais, eu faço mais do que isso. Por quê? Porque
a coordenação do PETI não é só coordenação do PETI, é coordenação de
média complexidade incluindo as ações de enfrentamento à violência,
abuso sexual e o enfrentamento ao conflito com a lei, então, são três ações
de média que faz parte dessa coordenação conforme está no organograma
da GCA, [Gerencia de Proteção a Criança e ao adolescente], e da SEMAS,
[Secretaria Municipal de Assistência Social] (ENTREVISTADA A).

Estou há três anos no Programa e o vínculo que eu tenho com relação a


aqui, meu vínculo empregatício, sou contratada. [...] carteira assinada,
convênio com uma entidade [...] antes disso eu era contratada de forma
temporária. E a carga horária é de oito horas por dia, quarenta horas
semanais (ENTREVISTADA B).

Sou Secretária desde 2005, Gestora do PETI desde 2005, como Secretária.
Minha carga horária é a de Secretária. Eu sou Secretária, e, portanto eu sou
gestora de todos os Programas da Secretaria [SEMAS] (ENTREVISTADA
C).

O vínculo que eu tenho com o PETI é de 4 anos, enquanto Gerente. Eu sou


efetiva da prefeitura e minha carga horária é de oito horas de trabalho, 40
horas semanais (ENTREVISTADA D).

Através das falas, pôde-se notar que os profissionais de Serviço Social possuem
vínculos empregatícios diferentes com cargas horárias distintas. A entrevistada A
relatou que sua carga horária é de seis horas, pois é efetiva, no entanto como é
sobrecarregada com coordenações de outras duas ações além do PETI, ela trabalha
mais que isso. Isso mostra o quanto o profissional inserido na lógica capitalista é
explorado e precarizado no seu fazer profissional. Outro exemplo dessa
precarização encontra-se na fala da entrevistada B, que está no Programa a três
anos e já passou por dois tipo de vinculação empregatícia para continuar atuando no
PETI. Um vínculo por contratação temporária e, atualmente, por carteira assinada
através de uma instituição conveniada com a Prefeitura de Vitória.
Portanto, assim como citado no último tópico do segundo capítulo deste trabalho,
tendo como referência Iamamoto (2007), a reestruturação produtiva do sistema
capitalista de produção condiciona uma grande parcela da população, inserida no
mercado de trabalho, à trabalhos precarizados, temporários e subcontratados. Tais
características, deste modelo de produção, refletem significativamente no trabalho
do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil de Vitória.

Compreende-se o Serviço Social, portanto, enquanto um trabalho assalariado


inserido na divisão sócio-técnica do trabalho que sofre todos os rebatimentos da
conjuntura neoliberal e da reestruturação produtiva do trabalho.

4.2 PRINCIPAIS POLÍTICAS, PROJETOS E ATIVIDADES


DESENVOLVIDAS

O Serviço Social no PETI direciona sua rotina de trabalho no objetivo de promover


as famílias inseridas, através de visitas domiciliares, atendimentos individuais e
reuniões de grupo/encontros de famílias, entre outros, facilitando-as o acesso aos
seus direitos. Além disso, busca desenvolver ações de prevenção ao Trabalho
Infantil na sociedade, nas escolas, nas ruas, praças e eventos dando publicidade ao
tema através de campanhas, oficinas e teatros nas escolas, com o intuído de
incentivar a sociedade civil a “abrir os olhos” para a questão do Trabalho Infantil no
Município de Vitória e incentivando-os a denunciar casos de exploração de trabalho
infantil. Sustentando essa afirmação:

As atividades desenvolvidas para atingir os objetivos [...] é o


acompanhamento às famílias dessas crianças. Esse acompanhamento se
dá por meio de atendimentos individuais, visitas domiciliares, reuniões
sócio-educativas, articulação com as entidades, com os serviços que
compõem a rede sócio-assistencial [...] busca-se não simplesmente verificar
se a criança está na escola e na jornada, mas sim como ela está nestes
espaços, como ela está se adaptando, se relacionando com os colegas, os
educadores [...] um acompanhamento de uma forma mais global [...] por
meio de reuniões com os responsáveis, atendimentos tanto com os
responsáveis quanto com as crianças e acompanhamento às entidades.
Busca de certa forma atingir esse objetivo [...] de forma geral são essas as
atividades desenvolvidas pelo PETI e pelo Serviço Social, porque não tem
muito que se diferenciar, se o Serviço Social faz algo a parte, ele está
dentro de um Programa [...] e apenas o que diferencia é o forma de
intervenção, de intervir própria [...] houveram a realização de algumas
ações diferenciadas [que ocorreram no ano de 2008] a realização de
oficinas de cidadania nas escolas visando a aproximação com crianças e
adolescentes não apenas encontrados em situação de trabalho infantil, mas
sim com a população de forma mais abrangente, buscando trabalhar o
conceito não apenas de trabalho infantil [...] mas, trabalhar principalmente a
noção de cidadania para eles terem o mínimo de compreensão daquilo que
são direitos e deveres [...] então, nesse ano, [2008] foi uma das ações
implantadas: as oficinas sócio-educativas de cidadania que foram
realizadas no espaço das escolas públicas atingindo principalmente
crianças [...] aí, o Programa entra com uma ação preventiva, quer dizer, não
só está próximo de quem está em situação de trabalho infantil, mas também
daquele que ainda não foi. Dentro dessas ações nós realizamos campanhas
para mobilizar a sociedade [...] sensibilizar a sociedade e a população local
da importância de valorizar e respeitar os direitos das crianças e dos
adolescentes (ENTREVISTADA B).

Nesta fala da entrevistada B pode-se observar vários elementos significativos para a


análise.

A entrevistada destaca, inicialmente, que para se atingir os objetivos do Programa


são realizados, entre outras atividades, acompanhamentos às famílias por meio de
atendimentos individuais, visitas domiciliares e reuniões sócio-educativas. Observa-
se que estas ações fazem parte da instrumentalidade do Serviço Social. Estes
procedimentos, como exposto no segundo capítulo – tendo como referência
Trindade (2001) – acompanham o fazer profissional do Assistente Social desde o
início da profissão, ou seja, desde o Serviço Social tradicional. Portanto, salienta-se
que mudaram as características das expressões da questão social – juntamente
com as mudanças social, políticas e econômicas – houve a renovação da profissão,
porém instrumentos de intervenção do Serviço Social, como os citados acima,
permanecem no fazer interventivo do Serviço Social na atualidade, com escopo
teórico diferente.

Outro elemento significativo, a se destacar nesta fala, refere-se ao momento em que


a entrevistada expõe que: [...] de forma geral são essas as atividades desenvolvidas
pelo PETI e pelo Serviço Social, porque não tem muito que se diferenciar, se o
Serviço Social faz algo a parte, ele está dentro de um Programa [...]
(ENTREVISTADA B). Observa-se nesta fala que o Serviço Social, por estar contido
em um Programa Social, desenvolve as atividades propostas pelas diretrizes do
Programa não diferenciando, portanto, o que é próprio do Programa do que é próprio
do Serviço Social.

Ao questionar a entrevistada A quanto às principais políticas, projetos e atividades


desenvolvidas pelo PETI-Vitória e pelo Serviço Social a entrevistada relatou que:

O Serviço Social se inclui, não tem nada específico do Serviço Social. O


Serviço Social é a equipe multiprofissional que faz parte do Programa, que
é psicossocial [...] especificamente o que a equipe faz é o acompanhamento
psicossocial, os encaminhamentos, as inclusões, as exclusões, manutenção
do sistema [...] agora, o Projeto específico é o Projeto do PETI, no qual a
equipe multiprofissional se inclui [...] [as atividades realizadas pelo Serviço
Social no Programa são] encaminhamentos para as jornadas ampliadas,
para inclusão no mercado de trabalho, realização de oficinas, fortalecimento
da cidadania, encaminhamentos para unidade de saúde, e tudo o que for
demandado [...] a equipe PETI ela trabalha intermediando, fortalecendo,
reconhecendo o que tem na rede [...] uma coisa que nós avançamos no ano
de 2008 foi a realização das oficinas educativas nas ruas no sentido de
sensibilizar a população sobre o que é o Programa de Erradicação do
Trabalho Infantil, realizada no dia 12 de junho, as oito oficinas nas escolas,
no projeto de educação de tempo integral, em algumas turmas mesmo que
nós fomos interagir com a população, criança e adolescente para dizer o
que é o PETI, o que é trabalho infantil [...] [no que tange a principal política
norteadora do Programa é a] Política de Atendimento a Criança e ao
Adolescente preconizada no Estatuto da Criança e do Adolescente e a
Resolução de 12 de Junho que estabelece as formas de trabalho infantil
[...].

Os principais projetos e políticas do Serviço Social, portanto, seriam o


desenvolvimento e realização do trabalho no Programa por via do que se é atribuído
ao profissional de Serviço Social diante da formação profissional no qual ele atue no
Programa tendo por conhecimento a política de atendimento a criança e ao
adolescente preconizado no Estatuto e fazendo uso de todos os recursos existentes
na rede de proteção.
Observa-se, também, nessa fala, que o trabalho desenvolvido dentro do Programa é
realizado por uma equipe multiprofissional composta por psicólogo, assistentes
sociais e seus respectivos estagiários. No entanto, quando a entrevistada ressalta
mais uma vez que não há nada específico do Serviço Social no Programa, ou seja,
um projeto relatando o que compete ao profissional de Serviço Social no PETI-
Vitória, ela deixa claro que as atividades dos diferentes profissionais seguem a
mesma direção, ou seja, não se diferenciam uma vez que as áreas seguem uma
diretriz única que é a do Programa a nível nacional. O que merece ser destacado é o
fato de que o que diferencia o trabalho das diferentes áreas são as leis próprias da
profissão de Serviço Social que adere à política trabalhada, a formação acadêmica
de ambos, e, portanto, o “olhar” diferenciado de cada área.

Portanto, não há um projeto sistematizado sobre o que o Serviço Social faz no


Programa, ele segue a diretriz do Programa, realiza suas funções segundo sua
formação acadêmica assim como o profissional de Psicologia. Sabe-se que é
atribuição do profissional delimitar qual é o seu trabalho dentro da instituição
esclarecendo seu fazer profissional e sistematizando-o respaldado nas leis e
princípios éticos que norteiam a profissão.

Depois de apontado tais questões, destaca-se, que frente ao sistema capitalista –


que emprega o modelo neoliberal e a reestruturação produtiva como meios de
alavancar a economia em detrimento do social – a postura profissional requisitada é
de um profissional generalista e polivalente. Tais características são observadas,
portanto, nos profissionais do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, uma
vez que as atividades dos profissionais de diferentes áreas acabam sendo as
mesmas e não se diferenciam.

4.3 ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DE PROJETOS

Tal fragilidade pode ser observada, também, na resposta obtida quanto a questão da
organização do trabalho do Serviço Social no PETI-Vitória, no que se refere a
elaboração e execução de projetos. Nesta questão a entrevistada B enfatizou que:
O que aconteceu este ano de novo foram as oficinas, [de cidadania nas
escolas] não deixa de ser um projeto que foi elaborado a partir de algumas
demandas percebidas, ou seja, em relação a necessidade de a gente
aproximar das escolas, de levar esta reflexão, de trabalhar numa
perspectiva de prevenção [...] [No entanto não houve sistematização desse
trabalho, ou seja, a realização das oficinas foi por via da execução sem
elaboração de um projeto de fato] [...] se pensa e se elabora de uma forma
meio que superficial, ainda é uma fragilidade do Serviço Social dentro do
Programa, em algumas ações que poderiam ser sistematizadas em um
projeto, mas não é [...] planeja-se, se executa, mas não de uma forma
detalhada [...] muitas vezes devido o decorrer do dia a dia e a urgência de
desenvolver essas ações [...] leva-se a realização do planejamento das
ações, porém não de forma detalhada, em forma de projeto [...] exatamente
pela carência de profissionais dificulta um pouco [a elaboração de fato dos
projetos das ações desenvolvidas e conclusão de projetos elaborados
como, por exemplo, a pesquisa referente ao trabalho infantil nas feiras livres
de vitória que teve um projeto elaborado e foi aplicada, porém não
concluída][...] as ações acabam sendo eventuais. Falta muito, falta muito
planejamento [...].

Portanto, nota-se que há abertura para propor novas ações. No entanto, a maioria
das ações acaba sendo eventuais com planejamentos superficiais sem que haja, de
fato, sistematização em forma de projetos.

Em resposta a esta questão, a entrevistada A afirmou:

Projeto específico dentro do nosso trabalho nós não temos. Nós temos um
Programa maior que é o que determina as diretrizes nacionais e nós
trabalhamos ali dentro. Para cada ação existe um projeto escrito? Não. Para
cada ação existe uma referência e o seu objetivo. Então, nós trabalhamos
em cima do Programa, tanto que o Programa chama-se Programa, então
nós não temos projetos específicos ali dentro.

Observa-se na fala da entrevistada que não há, por parte dos profissionais de
Serviço Social no Programa, um projeto específico por escrito sobre o Serviço Social
no PETI, o que ele desenvolve, quais as demandas postas a este profissional, os
objetivos de seu trabalho no Programa e outros. O que existe são as diretrizes do
Programa com as quais o profissional direciona seu trabalho.

Ressalta-se que o processo de elaboração, desenvolvimento, avaliação,


planejamento e sistematização das ações, são procedimentos de grande
importância no fazer profissional atribuído enquanto competência profissional por
meio da Lei 8.662 que regulamenta a profissão.

4.4 GERENCIAMENTO, PARTICIPAÇÃO E ELABORAÇÃO DE


POLÍTICAS SOCIAIS

Apesar de seguir diretrizes já estabelecidas pelo Programa em nível Federal,


segundo a entrevistada A, há uma grande abertura para a realização do trabalho
dentro do Programa, pois ao questioná-la como se organiza o trabalho do Serviço
Social no PETI-Vitória no que se refere ao gerenciamento, participação e elaboração
de políticas públicas a entrevistada relatou que:
[...] nós contribuímos para a avaliação das que já existem. Elaborar nós não
elaboramos, nós executamos. Executamos a da política pública de
erradicação do trabalho infantil. E acompanhamento é quando nós temos
essa liberdade aqui na Secretaria de avaliar e poder opinar. Nós não
estamos engessados nas nossas ações, nós seguimos diretrizes, mas nós
temos o poder e a capacidade de avaliar, sugerir adequações sem ferir o
que determina as diretrizes nacionais, dar o nosso molde, o nosso recorte.
Porque, como eu já falei, as oficinas que nós fizemos com as escolas, o ir à
rua, participar do dia de comemoração do aniversário do Estatuto, dia 13 de
julho, tudo isso nós vamos construindo com a capacidade de avaliar nossas
ações. Então, nós temos o poder de alterar, nós temos o poder de louvar,
nós temos o poder de avaliar sem ferir o que determina.

Portanto, o profissional de Serviço Social no PETI-Vitória cumpre com as normativas


e determinações hierárquica e administrativa estabelecidas pelas diretrizes do
Programa, no entanto, fazendo uso de sua autonomia de trabalho, nota-se que o
profissional que trabalha no PETI-Vitória possui abertura para a realização e
elaboração de ações no Programa. Essa mesma autonomia pode ser usada para a
sistematização de um projeto sobre a especificidade do trabalho do Serviço Social
no PETI. Ressalto aqui, enquanto estagiária do PETI, que em reuniões de
supervisão de estágio foi pensado a construção de um documento para especificar o
Serviço Social no Programa. No entanto, por questões diversas e rotina de trabalho
este documento ficou no esquecimento não sendo finalizado, apenas iniciado.

O trabalho desenvolvido pelo profissional de Serviço Social no Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil considera sua formação universitária na qual
reconhece suas dimensões ético-políticas, suas competências e atribuições para o
desenvolvimento do seu trabalho junto à população usuária.

De acordo com a fala da entrevistada D:

Eu penso que esse profissional ao se relacionar com as famílias, ao se


relacionar com a comunidade [...] ele é um profissional que tem habilidade
particular ao serviço na comunidade, para fazer fundamentalmente a
reflexão com esses familiares e também junto com a psicologia os
atendimentos individuais [...]. Eu vejo o profissional de Serviço Social com
uma habilidade mais reflexiva, mais mobilizadora, mais provocadora dessa
família, da comunidade. Ele é um articulador na comunidade, ele é, acima
de tudo, reflexivo todo o tempo. [...] Eles encaminham, conhecem a rede de
proteção à criança e do adolescente [...] então, essa rede de proteção ele
conhece, ele sabe onde buscar essa rede ao encaminhar as crianças [...] o
profissional trabalha com o fortalecimento dessas famílias, que é
responsabilidade do profissional que trabalha com a média complexidade.
Portanto nota-se que o profissional de Serviço Social do PETI-Vitória possui
capacidade para o desenvolvimento de seu trabalho tendo em vista sua formação
acadêmica e seu projeto ético-político. Neste sentido, em seu fazer profissional
objetiva respeitar os princípios fundamentais do Código de Ética de 1993 no qual
estabelece, entre outros, – como citado no segundo capítulo deste trabalho – a
defesa intransigente dos direitos humanos, a ampliação e consolidação da
cidadania, o posicionamento em favor da equidade e justiça social e o compromisso
com a qualidade dos serviços prestados à população.

4.5 PRINCIPAIS OBJETIVOS DO PETI-VITÓRIA

Como explicitado no capítulo anterior, através da portaria nº 458, de 4 de outubro de


2001 definiu-se os objetivos geral e específicos do Programa de Erradicação do
Trabalho Infantil. Assim, constitui-se o objetivo geral erradicar, em parceria com os
diversos setores governamentais e da sociedade civil, o trabalho infantil. E, os
objetivos específicos: possibilitar o acesso, a permanência e o bom desempenho de
crianças e adolescentes na escola; implantar atividades complementares à escola -
Jornada Ampliada; conceder uma complementação mensal de renda às famílias;
proporcionar apoio e orientação às famílias beneficiadas; promover programas e
projetos de qualificação profissional e de geração de trabalho e renda junto às
famílias.

Na entrevista às profissionais, foram questionados quais seriam, portanto, os


principais objetivos do PETI-Vitória. A esta questões obteve-se as seguintes
respostas:
Objetivos que estão nas diretrizes do trabalho: erradicação do trabalho
infantil de crianças e adolescentes [...] é este o objetivo. Com que linha de
trabalho? Com a linha de trabalho proposta no Plano Nacional por meio da
inclusão das políticas públicas de base e também por meio da Jornada
Ampliada (ENTREVISTADA A).

De forma geral, as diretrizes do PETI, em nível nacional, [tem por objetivo]


garantir a freqüência dos bolsistas na escola, garantir a permanência e a
freqüência nas atividades sócio-educativas, a jornada ampliada, e
principalmente trabalhar de forma com que a criança não volte a situação
de trabalho infantil. O Programa não trabalha tanto com a prevenção, ele
trabalha com a situação do direito já violado, então, o Programa trabalha no
sentido de fazer com que a criança não retorne ao trabalho infantil pra que
seja garantido a ela o direito a educação e desenvolvimento dela
participando de atividades culturais, esportivas e principalmente não voltar a
situação que ela estava anteriormente (ENTREVISTADA B).

[...] certamente, os objetivos do PETI- Vitória não se separam dos objetivos


do PETI em geral, que são: retirar a criança do trabalho infantil, oportunizar
a criança a experiência da atividade sócio-educativa que possam melhorar
a sua condição de vida, melhorar a sua condição de aprendizagem na
escola, melhorar a sua integração na escola, pensar um futuro melhor para
ela, fazer com que ela consiga concluir os níveis de ensino, melhorar o
futuro [...] os objetivos do PETI-Vitória não se distinguem dos objetivos do
PETI de modo geral (ENTREVISTADA C).

A gente atende uma normativa que vem do governo Federal, mas com
certeza absoluta aqui a gente trabalha para a erradicação do trabalho
infantil. Mas, temos um desafio muito grande de trabalhar e enfrentar a
questão cultural que se tem na cidade, não só na cidade de Vitória, mas no
Brasil inteiro, essa questão da cultura do trabalho infantil que é legitimada.
Então é um desafio neste sentido. Na medida em que os profissionais da
psicologia, do serviço social e os estagiários trabalham com as famílias e
em outros espaços de discussão, também os Conselhos Municipais, tanto
da Assistência quanto do Conselho Municipal da criança, esse debate vem
a tona no sentido de dizer: escuta, o trabalho infantil não deve acontecer, o
lugar de criança é na escola (ENTREVISTADA D).

[...] um dos principais objetivos, também, que a gente pode colocar, – assim
como coloca a Política de Assistência social, no qual o PETI está inserido,
na média complexidade –, é a centralidade na família que também é um
objetivo do PETI (ENTREVISTADA D).

Nota-se, portanto que a maioria das profissionais expôs com clareza os objetivos do
Programa seguindo suas diretrizes em nível nacional.

Dá-se destaque a fala da entrevistada D que relatou, também, a centralidade na


família sendo um dos objetivos do PETI-Vitória. Como citado, no terceiro capítulo,
atualmente o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) compõe o
Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Na perspectiva do SUAS, o programa
visa trabalhar com ações socioassistenciais com foco na família, potencializando sua
função de proteção, os vínculos familiares e comunitários.

O Serviço Social no PETI, portanto, trabalha tendo em vista os objetivos


preconizados nas diretrizes do Programa, que visa à erradicação do trabalho infantil
no Município de Vitória, e desenvolve o trabalho com as famílias no intuito de fazer
cumprir o que está posto no Sistema Único de Assistência Social.
4.6 LOCALIZAÇÃO/ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DO SERVIÇO
SOCIAL

Como explicitado no capítulo anterior, o PETI, está inserido na Proteção Social


Especial da PNAS de 2004. Portanto, o PETI, de acordo com a PNAS, compreende
os serviços de Proteção Social Especial de média complexidade. Os serviços de
média complexidade são aqueles que compreendem que houve a violação do direito
da criança e do adolescente, porém os vínculos familiares e comunitários destes não
foram rompidos.

Isso posto, ao questionar a entrevistada D quanto a organização do trabalho do


Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de
vitória, ela esclarece a localização do PETI segundo a PNAS. Segundo a
entrevistada, o Serviço Social, no Programa,

Organiza-se pela Política Nacional de Assistência Social. A gente se


organiza através das complexidades que existem. A básica, a média
complexidade e a alta complexidade [...] o que fazemos na média
complexidade? Fortalecemos essa família no sentido dela voltar para a
básica. Para ela fazer cursos motivacionais, para ela se relacionar no grupo,
para ela se fortalecer ainda mais e aí, ela cuidar da vida dela independente
do Estado. Também, há situações nessa organização dos serviços que ao
tentar fortalecer essas famílias, as famílias não se fortalecem e elas vão
para a alta complexidade. Então, a gente perpassa nestes três níveis de
complexidade [...] por isso que a gente está organizando melhor a média
complexidade, saindo do isolamento dos programas da média
complexidade, organizando, quebrando paradigmas dos trabalhos isolados,
colocando-os nesse espaço físico, no sentido de adotar uma metodologia
que leve em conta todos esses sujeitos, para implicar mais as famílias,
fortalecer ainda mais essas famílias. A organização se passa um pouco por
aí, essa gestão que estamos buscando fazer e que, até no meio do ano
pretendemos implantar esse serviço [os CREAS’S (Centro de Referencia
Especializado da Assistência Social)] (ENTREVISTADA D).

Neste sentido, os serviços prestados diretamente pelo PETI e pelo Serviço Social no
programa sofrerão alteração e serão diferenciados a partir da implementação dos
CREAS’S, possivelmente até julho deste ano.
Portanto, quanto a implantação dos CREAS’S, sendo estes de orientação nacional,
a entrevistada D, ressaltou que o Município possui dados que possibilitou propor tal
implantação. Segundo ela:

[...] esses serviços nos dá elementos para que a gente possa fazer políticas
públicas e elaborar políticas públicas neste sentido. E, ainda nesta
elaboração de políticas públicas, não é a Prefeitura que trabalha nesta
questão, mas é uma questão que a gente, e aí eu sou membro do
Conselho, representando o Governo, bem como a Secretária representa o
Governo, no Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente
que tem como responsabilidade a formulação de políticas públicas. É um
Conselho paritário, onde tem governo e sociedade civil que se articula e que
faz um plano de trabalho, um plano de ação onde se elabore Programas,
Projetos e indicações, enfim, que se elabore, formule políticas públicas para
que o município realmente execute políticas em direção a crianças e
adolescentes de modo geral, em direção a média complexidade
(ENTREVISTADA D).

[...] o que tem nos ajudado muito é a Política Nacional de Assistência, que já
tem o eixo que nos orienta (ENTREVISTADA D).

Neste sentido, segundo a Entrevistada D:

[...] o processo de trabalho [do Serviço Social] vai ser mais rico, mais
interessante, mais ousado quando da implantação dos CREAS’S, porque aí
vão ter mais pessoas, vai ter uma possibilidade maior porque é a integração
dos serviços em diferentes lugares, então acho que vai facilitar. Não vai um
pouco ao isolamento do PETI na erradicação do trabalho infantil, claro que
ele não é isolado, mas ele cai no micro.

Ressalta-se, também, que o Serviço Social da Prefeitura Municipal de Vitória, bem


com no PETI desenvolve suas ações de acordo com a Lei n°8.742, LOAS de 07 de
dezembro de 1993, que expõe, em seu Art. 1º, que a assistência social, enquanto
direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não
contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto
integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento
às necessidades básicas.

De acordo com Art. 24 da LOAS (1993): “[...] Os programas de assistência social


compreendem ações integradas e complementares com objetivos, tempo e área de
abrangência definidos para qualificar, incentivar e melhorar os benefícios e os
serviços assistenciais [...]”. Isso posto, considerando que o PETI é um Programa
designado, portanto, a seguir tal direção proposta pela LOAS, observa-se na fala de
uma das entrevistadas:

[...] se a gente conseguir articular [...] em rede com a maior brevidade


possível e tentar acompanhar sistematicamente essas famílias com o
objetivo [...] de que fiquem menos tempo na média complexidade, que é no
atendimento de PETI e outros, aí a gente vai conseguir atingir uma eficácia,
porque o nosso objetivo é que estas pessoas não se eternizem na
dependência de programas sociais [...] (ENTREVISTADA A).

Portanto, nota-se, na fala da entrevistada, um conhecimento do que preconiza a


LOAS em seu Artigo 24, quanto aos programas de assistência social, uma vez que
reconhece a necessidade do trabalho em rede buscando uma eficácia no seu
desenvolvimento e reconhecendo a existência de tempo de abrangência dos
programas sociais quando ressalta como objetivo a não eternização dos usuários na
dependência dos programas.

O Serviço Social no PETI, portanto, organiza-se e se direciona tendo em vista todas


as balizas legais que norteiam a profissão.

4.7 PRINCIPAIS DEMANDAS

Tendo nas expressões da questão social a base das demandas ao Serviço Social,
no que se refere ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil constataram-se
como principais: a exigência de acompanhamentos mais constante, visitas
domiciliares, encaminhamentos para atividades sócio-educativas de acordo com o
interesse da criança e adolescente. Além destas, também se tem demandas
voltadas para a área de habitação, e da saúde.

Os principais encaminhamentos [ás demandas] estão sempre na violação


dos direitos [...] violência sexual, a negligencia, o abandono e a questão do
tráfico que está aí no meio, é a questão das drogas que está aí no meio [...]
a falta de habitação e também o desemprego dessas famílias
(ENTREVISTADA D).

As demandas mais freqüentes chegam por todas as portas de entrada.


Chegam pela Abordagem Social de Rua, quando detectado situação de
trabalho infantil na rua e [essa demanda] vem para nós. As outras
demandas podem vir pela escola e as demandas espontâneas também
podem vir. Pode vir pela Unidade de Saúde, pode vir também pela Vara da
Infância e da Juventude [...] então nós vamos trabalhar essas demandas.
Como? Nós vamos lá fazer a visita de inclusão [...] então, as demandas
mais freqüentes são estas: demanda de inclusão, de acompanhamento, e a
sistematização do acompanhamento das condicionalidades [...]
(ENTREVISTADA A).

[...] outra demanda também, que nós sentimos necessidade, foi a realização
de uma pesquisa nas feiras livres de Vitória [a fim de constatar entre outras
questões], quantas crianças e adolescentes estão trabalhando nas feiras
(ENTREVISTADA A).

Pode-se observar que são várias as demandas postas ao Serviço Social no


Programa. A partir delas, os profissionais se posicionam e desenvolvem o trabalho
no intuito de responder o que lhe foi demandado.

Neste sentido, as ações e o trabalho desenvolvido com as famílias têm o objetivo de


promovê-las, facilitando-as o acesso aos seus direitos, a partir do que elas
demandarem, ou através do que é observado pela equipe técnica no que diz
respeito á efetivação dos direitos das mesmas. Para tanto, tem-se a finalidade de
interá-las socialmente subsidiando-as com atendimentos e suprindo suas demandas
através de encaminhamentos e soluções as quais estarão ao alcance do PETI ou da
rede sócio-assistencial.

4.8 ENCAMINHAMENTOS MAIS FREQÜENTES

Quanto aos encaminhamentos mais freqüentes oferecidos pelo Serviço Social no


Programa, a partir das demandas dos usuários, as entrevistadas relataram que:
[...] é o escolar, pois uma vez que se constata a situação de trabalho infantil
a primeira atitude a se tomar é colocar a família na rede da educação, da
educação profissional ou da formação profissional, encaminhamentos à
rede das oficinas de lazer através dos cajun’s, e de outras entidades
conveniadas da Prefeitura, para realização de esporte, cultura, arte. [...]
nunca esquecendo que o nosso trabalho sozinho, a nossa equipe sozinha,
a nossa Secretaria sozinha, não vai conseguir acabar com a situação do
trabalho infantil no Município. É essa compreensão que agente tem que ter
[...] (ENTREVISTADA A).

Em relação à escola, pois as crianças muitas vezes estão fora, evadidas da


escola, aí a gente articula com o Conselho Tutelar [...] às vezes as crianças
estudam em escola muito distantes do seu domicílio e as famílias buscam
contato com o Programa para facilitar, quer dizer, garantir que as crianças
estejam na escola, e uma escola mais próxima de sua residência, tanto em
relação à locomoção e para evitar riscos aos mesmos. Além do
encaminhamento em relação a educação tem-se o encaminhamento para
realização de jornada ampliada, as crianças mudam freqüentemente de
espaços e atividades sócio-educativas. É uma demanda trazida por elas, às
vezes elas não se adaptam muito bem em determinada instituição e
solicitam mudança. Outro encaminhamento mais freqüente é em relação à
estágio, porque a cada ano os adolescentes vão completando sua idade
limite e antes mesmo de completarem a idade de sair do Programa,
demonstram esse interesse [...] então os encaminhamentos mais freqüentes
é em relação a escola, estágio, jornada ampliada, cursos de qualificação
profissional para as famílias [...] (ENTREVISTADA B).

A partir das falas das entrevistadas, nota-se que o Serviço social no PETI busca
efetivar suas ações em parceria com outros programas e instituições que se
preocupam com a defesa e garantia dos direitos da criança e do adolescente, ou
seja, o Serviço Social no PETI visa se articular com a rede de proteção para suprir
as demandas dos usuários quanto à escola, jornada ampliada, profissionalização e
outros.

A pesar de reconhecida, pelas entrevistadas, a questão do trabalho em rede sócio-


assistencial, é importante destacar, porém, que existem lacunas neste trabalho de
tamanha importância. Tais lacunas podem ser observadas no fazer cotidiano dos
profissionais que vêem a dificuldade em desenvolver suas ações em rede uma vez
que se observam a falta de retorno dos encaminhamentos, o distanciamento das
ações, a falta de troca entre as equipes, entre outros.

4.9 ORGANIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL QUANTO A ROTINA DE


TRABALHO

Quanto à organização do Serviço Social no que se refere à rotina de trabalho no


PETI, de acordo com as entrevistadas:

A rotina de trabalho se coloca da seguinte forma: as reuniões que são


bimestrais com grupos de famílias, nós já fizemos também, num período,
reuniões com grupos de adolescentes e crianças. E a rotina de trabalho
sistemática é: primeiro a equipe chega-se a Prefeitura [à SEMAS], e já se
tem aquela programação, que são: visitas de inclusão, visitas de
acompanhamento, visitas à escolas, visitas de acompanhamento às
jornadas ampliadas, as reuniões bimestrais e o atendimento as demandas
espontâneas, ou seja o que se demandar, [por exemplo], demanda-se ir a
justiça, demanda-se ir ao SOSF [Serviço de Orientação Sócio-Familiar],
demanda-se ir a um outro Programa, demanda-se articular com Gerencia
do Idoso, [...] demanda-se fazer um contato com alguma unidade de
internação porque um pai daquela família está no sistema prisional ou
porque um filho daquela família está na UNIS [Unidade de Internação
Sócio-Educativa], vamos fazer contato [...] demanda de planejamento para
verificar se as nossas ações estão sendo respondidas com a aderência das
famílias acompanhadas. Será que o que desenvolvemos está fazendo com
que essas famílias se promovam socialmente e está fazendo com que
essas famílias entendam qual é a proposta do trabalho? Qual é a proposta
do trabalho? Que as famílias saiam da situação de exploração do trabalho
infantil [...] (ENTREVISTADA A).

[...] na visita de inclusão [que faz parte da rotina de trabalho] nós vamos
divulgar o Programa, falar da situação, do enquadramento da família,
detectar se a família tem o perfil de elegibilidade, uma vez a família sendo
incluída, a família assina o termo de adesão e essa família passa a ser
acompanhada. Se a família se enquadrar em todos os pré-requisitos ela vai
receber o benefício [de transferência de renda do PETI, caso não receba
nenhum outro, e o acompanhamento psicossocial recebendo ou não
benefício específico do PETI] [...]. A maior parte das famílias é incluída,
recebendo o benefício e tendo ciência do acompanhamento das
condicionalidades, uma vez não cumprindo as condicionalidades elas são
excluídas ou suspensas do Programa [...] (ENTREVISTADA A).

Em relação à rotina de trabalho, não só específico do Serviço Social, a


equipe realiza planejamento mensal e semanal das atividades [...] a partir
das demandas que surgem vai se modificando esse planejamento [...]
reuniões com as famílias, reuniões de equipe, supervisão de Serviço Social,
busca-se fazer mensal, mas nem sempre é possível por ter apenas um
profissional da área para realizar reunião de supervisão de Serviço Social. A
supervisão existe no decorrer da atividade, mas, aqui no Serviço Social
sempre se buscou realizar reunião de supervisão para refletir sobre a
prática, repensar e trazer novas idéias, discutir um pouco sobre a prática.
Então, a rotina é a partir desse planejamento, planejando e executando [...]
as atividades de visitas domiciliares, que é a atividade mais constante que
tem no Programa, pois, é a partir da visita que se tem contato com a
realidade dessas famílias, dos usuários [...] é a partir das visitas domiciliares
que se vai planejar e desenvolver as demais ações [...] reuniões de equipe
para refletir, repensar sobre tudo que se tem feito a partir daquilo que foi
planejado e avaliar [...] (ENTREVISTADA B).

Pode-se observar nas falas das entrevistas que o “leque” de atividades que
compreende a rotina de trabalho no Programa é bastante intenso o que exige,
portanto, muito trabalho à equipe. Como já exposto, a intensificação do trabalho, a
intensificação das atividades imposta aos profissionais é característica do modelo
capitalista pautado na reestruturação produtiva que exige e atribui cada vez mais
atividades ao trabalhador em sua rotina de trabalho.
4.10 NÚMERO E SUFICIÊNCIA OU NÃO DE PROFISSIONAIS DE
SERVIÇO SOCIAL

O Serviço Social, como já exposto, se configura enquanto uma profissão assalariada


dentro da lógica neoliberal de produção que gera a reestruturação produtiva
afetando diretamente o trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do
Trabalho Infantil no Município de Vitória. Entre outras questões, a Reestruturação
produtiva propõe a redução do número de profissionais e sobrecarga de trabalho. É
ai que nota-se o quanto o trabalho do profissional de Serviço Social no PETI é
afetado.

Isso posto, constatou-se na pesquisa realizada que o número de profissionais de


Serviço Social no PETI não é suficiente para atender as demandas e a população
usuária do Programa.

Portanto, na questão referente ao número e suficiência ou não de profissionais de


Serviço Social no PETI-Vitória, observou-se nas falas das entrevistadas que:

Atualmente dois, uma na coordenação e uma técnica [...] Este número é


suficiente? Não. Exatamente porque, como eu falei, uma está no cargo mais
de coordenação e outra atua diretamente no atendimento as famílias. [...]
para poder atingir o objetivo de um acompanhamento mais efetivo, de uma
forma bem sistemática a essas famílias e não só no momento em que elas
apresentam uma demanda e para se ter uma maior proximidade com as
crianças que ultimamente temos percebido essa fragilidade do Programa,
[deveria haver um quadro maior de profissionais de Serviço Social] [...]
então eu percebo que não é suficiente [...] o trabalho fica distanciado [...]
conseguimos fazer os encaminhamentos devidos, houve as demandas, mas
a gente não consegue ter a aproximação que gostaria [...] (ENTREVISTADA
B).

Nada é suficiente, eu quero dizer isso possivelmente acredito que a equipe


não seja suficiente, até porque nós fomos perdendo gente ao longo desses
anos, mas eu vejo isso, eu vejo que o PETI tem um enorme desafio que é,
agora, se ajustar, se reformular e se inserir na política de assistência social
(ENTREVISTADA C).

Um, e o número não é suficiente, mas nós temos um problema aí com


concurso público que não deu conta de atingir. Na verdade, são dezesseis
anos na prefeitura sem concurso público e esse atual governo fez um
concurso, mas só chamou uma quantidade que não é suficiente. Então,
carece de profissional de Serviço Social. Na verdade, a gente sabe que tem
outro, [na função de] coordenador, que é assistente social, que também
facilita e contribui na discussão, nesse diálogo e na busca de erradicação
do trabalho infantil (ENTREVISTADA D).

Portanto, no PETI-Vitória o número de profissionais de Serviço Social para atender


as demandas de trabalho não é suficiente. E as entrevistadas reconheceram tal
insuficiência.

Tal insuficiência de profissionais caracteriza uma precarização do trabalho do


Serviço Social. Essa precarização, como já citado, advém da reestruturação
produtiva que visa, acima de tudo, à obtenção e aumento dos lucros intensificando
as atividades a um número reduzido de profissionais.

4.11 POPULAÇÃO ATENDIDA

Quanto ao público atendido pelo Serviço Social na contemporaneidade, é importante


destacar que este não se diferenciou. Assim como no início da assistência voltada
às crianças e aos adolescentes no Brasil, como explicitado nos primeiros capítulos
deste trabalho, o público atendido pelo Serviço Social continua caracterizado pela
população mais carente da sociedade. Destaca-se, portanto, que apesar da
assistência social ser um direito de quem dela necessitar, esta, frente ao modelo
neoliberal de estado, é oferecida aos mais necessitados dentre os que necessitam.

Ao questionar as profissionais sobre a população atendida pelo PETI-Vitória e pelo


Serviço Social no Programa a entrevistada A afirmou que:

A população atendida pelo PETI-Vitória é a mesma população atendida pelo


Serviço Social e pela psicologia que está dentro do Programa. Que
população é essa? Famílias em situação de exploração do trabalho infantil,
crianças e adolescentes atendidos pelo programa. No último levantamento,
constatou que são atendidas cerca de 450 pessoas [...] crianças
adolescentes e responsáveis (ENTREVISTADA A).

A gente atende uma população principalmente de crianças e adolescentes


de 7 a 14 anos e suas famílias numa média de quase 40 bairros [...] um
número de trezentas famílias divididas nesses 40 bairros [...]
(ENTREVISTADA B).
Pode-se, observar, portanto, que há um grande número de usuários para serem
acompanhados pelo baixo número de profissionais do Programa. Neste sentido, é
possível notar a insuficiência de profissionais no PETI-Vitória frente essa população,
como constatado anteriormente.

A insuficiência de profissionais para atuar na área social tem sua explicação,


também, pelo posicionamento do Estado. Este, como já explicitado, se constitui
enquanto mínimo no enfrentamento das expressões da questão social o que
acarreta numa diminuição de investimentos para a área social. Neste viés de
pensamento, portanto, considera-se que:

Atualmente, o “Estado Mínimo” neoliberal vem reduzindo a sua


responsabilidade na garantia dos direitos sociais, delegando-a à sociedade
civil sob o reforço da solidariedade, intervindo apenas em situações
restritas. Tal postura implica no corte de verbas para a área social, no
sucateamento dos equipamentos, em insuficientes recursos humanos e
efetivo desrespeito às leis (SOLCI, acesso em: 03 de Junho de 2009).

Portanto, tendo em vista que o Estado constitui-se enquanto mínimo no


enfrentamento das expressões da questão social, há que se questionar se os
serviços assistenciais expressos em Programas, como o PETI, por exemplo,
garantem de fato os direitos estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente na política de atendimento preconizado por ele e, se garantem de fato,
os direitos dos usuários da assistência preconizados na PNAS.

Para se alcançar uma conclusão quanto a questionamentos como estes, é


necessário que continue a realização da análise proposta neste capítulo
compreendendo, para isso, quais são os serviços prestados diretamente pelo PETI e
pelo Serviço Social no Programa.

4.12 SERVIÇOS PRESTADOS

Neste sentido, ao questionar as entrevistadas quanto aos serviços prestados


diretamente pelo PETI-Vitória e pelo Serviço Social no Programa, obteve-se as
seguintes falas:
Os serviços prestados diretamente pelo PETI e pelo Serviço Social são os
acompanhamentos psicossociais, o fortalecimento dos sujeitos com todos
os recursos da rede, atendimento individual, atendimento em grupo através
das reuniões bimestrais que o Programa tem como planejamento contínuo e
as outras demandas que surgirem através das vulnerabilidades sociais,
econômicas e ambientais que muitas vezes não são as que estão previstas
e estabelecidas nas linhas gerais de nossas ações, ou seja, surgem
demandas que muitas vezes nem imaginávamos que seriam demandados
nossa intervenção [...] (ENTREVISTADA A).

Nesta fala, pode-se observar que há grande demanda de trabalho aos profissionais
do Programa ao ponto de muitas vezes surgirem demandas que não se previam.
Sabe-se que é necessário que o profissional de Serviço Social tenha a compreensão
e clareza das demandas que a ele são postas ou que podem lhe ser demandadas.
No entanto, a rotina de trabalho, a insuficiência de profissionais são alguns fatores
que o impede de perceber tais questões no seu fazer profissional cotidiano.

A grande demanda posta ao Serviço Social pode ser explicada, como exposto em
capítulos anteriores, pelo agravamento das expressões da questão social diante dos
rebatimentos do sistema capitalista, que estabelece o projeto neoliberal e a
reestruturação produtiva como modelos de sustentação do capital. Neste sentido, os
rebatimentos do neoliberalismo e da reestruturação produtiva afetam o social,
aumentando a procura pelos serviços sociais, e afetam o trabalho do profissional de
Serviço Social, que trabalha de forma precarizada e diante de limites postos pelo
sistema.
4.13 APRIMORAMENTO INTELECTUAL E CAPACITAÇÃO
PROFISSIONAL

Apesar de algumas dificuldades do fazer profissional do Assistente Social no PETI-


Vitória, devido à grande demanda de trabalho e insuficiência de profissionais, ao
questionar a participação em seminários, eventos, cursos e congressos, as
entrevistadas relataram que existe tal participação sem problemas maiores de ser
efetivada. Portanto, nas falas das entrevistadas, quanto à freqüência e participação
nestes espaços tem-se:

Na política da Secretaria, política da Gerencia e da coordenação nós nunca


tivemos problema algum de participar de eventos de troca, de crescimento.
Inclusive uma coisa que nós temos que avançar é escrever para se
começar a divulgar. Porque nesse espaço a gente não está avançando [...]
esta participação existe muito, a única coisa aqui que nós temos é o rodízio
que nós fazemos por que as ações não podem parar, mas isso é
respeitado, porque, a coordenação é feita pelo Serviço Social, Serviço
Social tem um compromisso ético de incentivo, nós incentivamos a
participação, e, a única coisa que a gente pede para preservar é que o
serviço não para e que o usuário não seja prejudicado em detrimento de
avanço, em detrimento de troca, em detrimento de ampliação de
conhecimento, nunca (ENTREVISTADA A).

Portanto, de acordo com a entrevistada A, existe a participação contínua nestes


espaços sem que ocorra prejuízo no desenvolvimento do trabalho e atenção ao
usuário, uma vez que a equipe se organiza em rodízio para a participação em
eventos, seminário e outros no Município de Vitória, que possui uma agenda muito
intensa.

No entanto, além dessas questões, apesar de haver tal participação, a entrevistada


B levanta algumas que seriam importantes destacar. Segundo ela,

No PETI-Vitória chega-se informações de vários eventos neste sentido, que


contribui para a formação e há participação. A freqüência é bem constante,
mas o que ocorre é que, devido a carga horária de trabalho e devido ao
trabalho que a gente é exigido a fazer e não muitas vezes tem como está
garantindo mesmo um trabalho efetivo, um acompanhamento efetivo, nem
sempre é possível que se esteja presente nesses eventos. Chega-se a
informação, toma-se conhecimento, mas nem sempre é possível. [...] vai lá
participa, assiste, mas nem sempre é feita a reflexão e partilha com a
equipe, fica-se de uma forma solta. Um profissional ou outro colega
participa do evento e nem sempre trás essa informação, esse conhecimento
e partilha [...] fica ai um crescimento individual, contribui para quem vai [...]
de repente poderia ter um momento específico dentro do Programa para
poder estar socializando essas informações e consolidando, por exemplo, a
partir daquilo que foi assimilado, da informação que se obteve lá e o que
pode ser feito a partir daí, então, muitas vezes há um crescimento de quem
participa, mas na sua prática diária [...] nem sempre consegue socializar
com toda a equipe [...] é uma fragilidade, pela questão do tempo, da
correria, das demandas, então, muitas vezes fica um crescimento individual,
mas deixa de ser compartilhado com a equipe e de contribuir para o
crescimento da equipe de forma geral e melhorar conseqüentemente a
atuação de toda a equipe.

Ou seja, na fala da entrevistada B pode-se observar que apesar de haver a


participação nos eventos que chegam à equipe PETI, somente alguns participam,
nem sempre toda a equipe, devido à rotina de trabalho. E, as informações e o
crescimento advindo desses espaços não são, muitas vezes, compartilhados com a
equipe no geral. Tal fato, a entrevistada coloca como uma fragilidade do Programa e
reconhece que tal fragilidade se dá devido às demandas do trabalho e a falta de
tempo em socializar. Dessa forma, nota-se que fica um crescimento individual, de
quem teve a oportunidade de participar do evento, e não de toda a equipe que faz
parte do Programa.

Segundo a entrevistada D:

Todos os profissionais já foram capacitados, já fizeram a formação sobre o


SUAS em módulos diferentes e tantas outras formação, e tantos outros
momentos que tivemos além da participação em seminários [...]
Evidentemente é sempre importante a formação. E, agora na implantação
dos CREAS’s, nós já temos a formação sendo elaborada, vamos trazer
assessoria de fora e também vamos trabalhar com profissionais daqui com
experiência, mas, assim, já tem coisas pensadas que são bastante
interessantes na linha da média complexidade [...] no sentido de estar
habilitando esses profissionais a esses desafios que são novos na violação
dos direitos, na questão da violência e exploração sexual que não é tão
evidente assim esse trabalho.

Pode-se notar na resposta da entrevistada D que há preocupação quanto à


capacitação dos profissionais de Serviço Social no sentido de aprimoramento da
formação profissional.

4.14 DIMENSÃO INVESTIGATIVA

Entre outras questões, foi perguntado as entrevistada se há, no Programa, uma


preocupação no que se refere à realização de Pesquisas e quais pesquisas. Quanto
a esta questão obteve-se as seguintes respostas:

Se eu disser por mim, na condição e posição de Assistente Social e


Coordenadora, [há sim a preocupação no que se refere à realização de
Pesquisas] [...] o Programa em si não [o Programa não tem realizado
pesquisa] a pesquisa da feira [iniciada em 2007] ainda não foi concluída
[está em fase de análise de dados. Não houve no ano de 2008 a conclusão
de pesquisas e finalização da pesquisa sobre “o trabalho infantil nas feiras
livres de Vitória” no Programa] então, concluímos alguma pesquisa este
ano? Não. Não concluímos nenhuma pesquisa no ano de 2008 [...] está
dentro da rotina do trabalho realizar pesquisa? Não. E, não por quê?
Porque depende do movimento de todos, e depende, também, de organizar
um horário destinado para isso. Como não tem linha de investimento para
pesquisa da Prefeitura ou de qualquer convênio ou qualquer parceria com
faculdade nenhuma, esse espaço não tem essa realização garantida
(ENTREVISTADA A).

É importante ressaltar que a pesquisa, a dimensão investigativa no fazer profissional


é um instrumento próprio da profissão que deve ser utilizado no cotidiano
profissional. Não é necessário um tempo diferenciado para a realização de pesquisa,
pois essa prática constitui e faz parte do processo de trabalho do Serviço Social.
Nota-se na fala da entrevistada que a dimensão investigativa, a realização de
pesquisa no PETI-Vitória, está enfraquecida. Houve apenas a realização de uma
pesquisa em 2007, no entanto, até o momento presente, esta ainda não foi
finalizada em sua análise.

Ainda no que se refere a esta questões obteve-se na fala da entrevistada B


elementos importantes de serem destacados e mencionados aqui. Em sua fala,
portanto, tem-se:

Sim, tudo que se refere à questão do trabalho infantil, da criança e do


adolescente, na nossa equipe aqui do PETI-Vitória, existe sim uma
preocupação, a intenção. Mas, como eu falei até o momento a única
pesquisa que foi feita e ainda não concluímos exatamente por questões de
tempo e as demandas que a equipe tem que atender, ainda não foi possível
concluir, que foi a pesquisa para observar e fazer um levantamento em
relação às crianças e adolescentes que trabalham nas feiras livres. Essa
pesquisa foi feita não apenas para traçar o perfil desse público, mas a partir
disso, sugerir e elaborar uma proposta [...] ainda não foi possível realizar a
análise dos dados exatamente por causa dessa rotina das demandas que
surgem [...] tudo aquilo que é percebido a partir dos acompanhamentos
feitos às famílias, a equipe do Programa tem intenção de realizar pesquisa,
mas como falei anteriormente, essa questão de planejar, de parar para
planejar, de traçar objetivos, aplicar e executar não é possível. Surgem
muitas outras demandas que a gente identifica que seria necessário fazer
uma pesquisa exatamente para se pensar uma atividade, uma ação que
possa ir ao encontro dessa questão, que possa intervir melhor sobre essa
questão. Muitas vezes, tem demandas que a gente observa que são muito
freqüentes e o Programa, mesmo articulando com outros serviços, não
consegue atingir e até por isso mesmo, falta uma pesquisa [...] [por
exemplo,] em relação mesmo a questão desse grande interesse que surge
nos adolescentes de 14 em relação a questão do trabalho, quer dizer, a
gente sabe a partir das demandas que chegam desse interesse, mas, de
repente a gente poderia fazer uma pesquisa voltada em relação a isso para
traçar uma ação que pudesse oferecer uma oportunidade melhor para eles
[...] (ENTREVISTADA B).
A entrevista também menciona que existe a preocupação em realizar pesquisa no
Programa, como a que foi realizada em 2007 e ainda não finalizada. Como se pode
notar, o que impossibilita, na fala da entrevistada, finalizar esta pesquisa e realizar
demais pesquisas de interesse da equipe, são as demandas postas no cotidiano de
trabalho e o número insuficiente de profissionais que atuam no Programa.
Empecilhos que comprometem, portanto, a dimensão investigativa no fazer
profissional cotidiano do assistente social que atua no PETI-Vitória.

Como se pode notar na fala da entrevistada B é de reconhecimento da equipe a


necessidade de realizar pesquisa no campo a fim de se pensar novas propostas e
ações que visem a melhoria no atendimento das demandas postas.

Já na fala da entrevistada C, captaram-se outros elementos significativos para


análise quanto à preocupação e realização de pesquisa no PETI-Vitória. Segundo
ela,

Claro que há, nós temos preocupação sim, mas a gente, também, tem
muito que aprender ainda a fazer pesquisa. E eu acho que a gente tem que,
na verdade, fazer as vezes o que Marilda fala, incorporar a conduta
investigativa no seu dia-a-dia profissional. Eu acho que é bem possível você
incorporar, você caminhar, tanto exercendo o seu trabalho profissional e ao
mesmo tempo sistematizando o conhecimento que você tem ao trabalhar. E
eu acho que o nosso profissional não faz isso com muita freqüência não,
por exemplo, você pode trabalhar a partir dos cadastros que você faz,
sistematizar dados a partir dos cadastros que você faz, você pode colher as
representações das crianças e das famílias para entender porque as
famílias as vezes, preferem tirar seus filhos da escola e botar no trabalho.
Então, você entender a importância de você estar atenta ao que a família
diz, como a família significa o trabalho, como ela significa a escola [...] você
pode muito bem conciliar o seu trabalho com procedimentos investigativos
que te permitam sistematizar conhecimento. Só que nosso profissional, ele
se debate no dia-a-dia com as exigências da prática, como se a prática
fosse desvinculada da teoria, ele ainda não compreendeu a riqueza que é a
sua inserção na prática, o quanto essa prática, essa experiência, esse
contato com o usuário te dá de possibilidades de você sistematizar o
conhecimento a partir dessa prática. Nós fizemos uma pesquisa com
meninos que trabalham nas feiras fazendo frete [...] mas os resultados
dessa pesquisa não foram divulgados, então ninguém sabe, então não
gerou conhecimento para a gente tomar decisão política, isso é muito ruim.
Então, consideramos extremamente importante, extremamente necessário.
Não há como fazer gestão sem a avaliação, a pesquisa, a sistematização
de dados, de resultados. Você tem que se orientar com isso, mas nós ainda
não fazemos isso de uma forma satisfatória. Por sua vez, as monografias
ficam nas prateleiras e a gente também não sabe, não conhece. Então, eu
acho que é preciso fazer um esforço maior.
Assim como nas falas das demais, nota-se na fala da entrevistada C que existe a
preocupação em incorporar a dimensão investigativa na prática. No entanto, ela
expõe com clareza que há no profissional do PETI uma deficiência em incorporar a
prática investigativa em seu cotidiano. De acordo com a entrevistada, é importante
destacar que falta no profissional a compreensão da riqueza que é o
desenvolvimento do seu trabalho no cotidiano, pois é a partir da prática cotidiana
que se abrem as possibilidades do profissional sistematizar o conhecimento.

Ainda quanto a esta questão, obtiveram-se, também, elementos significativos na fala


da entrevistada D. De acordo com ela,

Há essa preocupação sim, com certeza absoluta. A pesquisa de modo geral


sim, mas, assim também a idéia da participação, da escuta do usuário para
também dar um retorno para nós, que estamos fazendo a gestão, de que
tamanho que está as nossas ações, se realmente tem ressocialização ou
não, se as crianças estão sendo socializadas, se as famílias estão sendo
fortalecidas ou não. Isso é através de pesquisa, é através de relatórios de
gestão que a gente faz e que a gente escuta o usuário [...] a pesquisa é
importante, nos favorece na elaboração de Programas, Projetos, enfim de
elaboração de políticas públicas.

A entrevistada D, enfatiza a escuta do usuário do Programa, que se dá por meio da


pesquisa, como sendo de fundamental importância para compreender e avaliar os
serviços prestados. Reconhece, também, a importância da pesquisa no que tange a
elaboração de Programas, Projetos e políticas públicas. Quanto a esta colocação,
considera-se, nas palavras de Iamamoto (2007, p. 142), que:

Uma aproximação, por meio da pesquisa criteriosa, às condições de vida e


de trabalho das classes sociais, com ênfase nas classes subalternas –
público-alvo preferencial do trabalho do assistente social – é um requisito
indispensável para a efetivação daqueles valores e princípios mencionados.
Aproximação que permita captar interesses e necessidades em suas
diversas maneiras de explicitações, englobando formas diferenciadas de
organização e luta para fazer frente à pobreza e à exclusão econômica,
social e cultural [...] O desafio é captar os núcleos de contestação e
resistência, as formas de imaginação e invenção do cotidiano, de defesa da
vida e da dignidade do trabalhador.

Portanto, a prática investigativa é de fundamental importância no fazer cotidiano do


profissional de Serviço Social, pois é a partir dela que o profissional terá dimensão
das questões que a ele são postas, é a partir dela que ele efetiva o que está posto
nas suas diretrizes profissionais e éticas. Além disso, é na prática investigativa que o
profissional se coloca enquanto propositivo e crítico para se posicionar frente às
demandas e sugestões de intervenções inovadoras a fim de romper com alguns
entraves que o impossibilitam agir tendo em vista a defesa das classes subalternas
em seu cotidiano profissional.

4.15 PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E CONTROLE SOCIAL

Além da importância da dimensão investigativa no fazer profissional do Serviço


Social, também há de se considerar a relevância da participação política. Neste
sentido, foi questionado as entrevistada se há, por parte dos profissionais de Serviço
Social, relações entre a sociedade civil organizada por via de conselhos de direito,
fóruns ou outros. Diante desta questão obtiveram-se as seguintes respostas:

Há. Nós temos acento no Fórum [FEPETI - Fórum Estadual do Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil] Fórum que foi desmotivado um pouco [...]
hoje está desarticulado [...] não sei como é que está agora porque quem
“puxava” era a SETADES [Secretaria de Estado do Trabalho, Assistência e
Desenvolvimento Social] [...] sempre somos convidados para tomar acento
nesses espaços de controle social. A nossa própria Gerente é membro do
CONCAVI [Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Vitória], a
nossa Secretaria é presidente do COMASV, Conselho Municipal de
Assistência Social de Vitória, e tudo passa nesse campo de discussão [...]
Não tem um conselho hoje específico para trabalhar a questão do Trabalho
Infantil. Existe o Conselho de Assistência Social e o Conselho da Criança e
do Adolescente que é o espaço de participação. Então, a sociedade civil
está ali [...] (ENTREVISTADA A).

Em relação à equipe do Programa sim, ela não tem acontecido com


freqüência e deveria haver uma participação melhor [nesses espaços] isso
está até dentro da Lei, nas diretrizes do Programa, a participação da equipe
na Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil [CMETI] ela,
aqui no Município de Vitória, há bastante tempo que não se reúne essa
Comissão e, até pouco tempo tinha retomado suas ações, mas se
interrompeu devido às demandas que surgem a cada dia dos usuários dos
diferentes órgãos envolvidos, por isso, não se conseguiu dar continuidade a
Comissão Municipal, mas existe uma diretriz [...] só que o trabalho está
interrompido. Nessa Comissão, reuni representante da sociedade civil
organizada por entidades que oferecem atividades sócio-educativas às
crianças, além do PETI, representantes da Secretaria de Saúde, Secretário
do Trabalho. Nessa Comissão, a equipe PETI pensou em convidar para
participar dessa Comissão representante dos beneficiários [...] mas, não foi
possível a participação, o representante não conseguiu participar das
reuniões da Comissão e também a Comissão depois não deu continuidade
[...] ela existe, mas as reuniões foram interrompidas, essas reuniões são
para discutir as ações do Programa, para avaliar, para pensar juntos,
representantes do Governo, das entidades civis, para sair novas propostas
para esse público atendido pelo Programa. Além da CMETI existe o FEPETI
que é o Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
que o PETI-Vitória também está inscrito embora recentemente também não
tem participado das reuniões [pois ele também interrompeu suas atividades]
[...] (ENTREVISTADA B).

Há. Nós temos, no caso da SEMAS, cinco conselhos ligados a nós. Então,
com certeza há sim. Nós temos muitos conselhos, Vitória tem 21 conselhos
em todas as áreas, conselhos de políticas sociais e conselhos de direitos.
Só que, por exemplo, a questão do trabalho da criança e do adolescente ela
muitas vezes fica sub-representada dentro do Conselho de Direitos da
Criança não sendo tão focada [...] há muitas fragilidades, há muitas
necessidades, às vezes você não dá conta de tudo. O PETI tinha um
Conselho Municipal, um Fórum, FEPETI (Fórum Estadual do Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil) mais não se manteve estruturado, portanto
ficou perdido e precisaria estar sendo resgatado (ENTREVISTADA C).

Acho que tem aquele Fórum que discute a questão do trabalho infantil, o
FEPETI, porém, ele deu uma baixa muito grande inclusive do Município,
tanto do Estado quanto do Município. São canais que realmente estão
murchos e acho que devem ser revitalizados, que precisam ser repensados,
mas, assim, não especialmente só na questão do trabalho infantil, mas
entendendo todo o seu serviço da média complexidade. Acho que são
canais de mobilização, podem ser também só do trabalho infantil, pode e
deve ter canais só para isso, mas fazendo articulação com outros serviços
da média complexidade e que deve ser provocado novamente a voltar a
provocar as entidades para participar. O Conselho Municipal é o vigilante
nessa questão, mas também precisa realmente de maior fortalecimento, os
Conselhos e os Fóruns (ENTREVISTADA D).

Portanto, pode-se notar nas falas das entrevistadas que existe um comprometimento
com a participação, ou seja, nota-se que existe a visão por parte dos profissionais
que é importante que se participe desses espaços – tanto eles quanto a sociedade
civil no geral. No entanto, a própria conjuntura fragiliza, enfraquece os espaços de
participação. Neste sentido, percebe-se que o CMETI e o FEPETI, que constituem
espaços de participação no que se refere à discussão da temática acerca do
trabalho infantil, estão enfraquecidos e esquecidos necessitando de retomar a
articulação nestes espaços. Entre tantos outros desafios, este seria mais um para o
profissional de Serviço Social no PETI-Vitória.

Isso posto, considera-se, na fala de Iamamoto (2007, p. 143):

Reafirma-se, portanto, o desafio de tornar os espaços de trabalho do


assistente social, espaços de fato públicos, alargando os canais de
interferência da população na coisa pública, permitindo maior controle, por
parte da sociedade, nas decisões que lhes dizem respeito. Isso é viabilizado
pela socialização de informações; ampliação do conhecimento de direitos e
interesses em jogo; acesso às regras que conduzem a negociação dos
interesses atribuindo-lhes transparência; abertura e/ou alargamento de
canais que permitam o acompanhamento da implementação das decisões
por parte da coletividade; ampliação de fóruns de debate e de
representação etc.

Portanto, para haver de fato interferência da população e, também, do profissional


com novas propostas para intervenção nas questões trabalhadas é necessário que
os canais de interferência, que são os fóruns, Conselhos e demais espaços de
debates, sejam alargados e impulsionados em seu funcionamento, ou seja, é
necessário que se utilize e que se tenha visibilidade desses espaços uma vez que é
por via deles que se é possível sugerir, avaliar e propor novos direcionamentos em
busca da efetivação dos direitos da população.

É importante ressaltar, também, enquanto mecanismo de participação, a articulação


dos profissionais de Serviço Social com os movimentos sociais. Neste sentido,
ressalta-se que o Código de Ética do Assistente Social, de 1993, atribui em um dos
seus princípios fundamentais a “[...] Articulação com os movimentos de outras
categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral
dos trabalhadores [...]” (BRASIL, 1993). No entanto, tal articulação com os
movimentos sociais constitui um grande desafio ao Serviço Social, pois os
movimentos sociais de luta no geral, diante dos rebatimentos do modelo neoliberal,
encontram-se fragmentados, enfraquecidos e cada vez mais desmobilizados.
Portanto, o engajamento, a mobilização e o fortalecimento dos espaços de
participação social é um dos maiores desafios do profissional de Serviço Social na
atual conjuntura.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo objetivou a realização de uma análise do processo de trabalho do


Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do Município
de Vitória-ES tendo em vista que este se desenvolve pautado no Estatuto da criança
e do Adolescente (ECRIAD) e, portanto, na política de atendimento preconizada
nesta Lei. Desta forma, após a finalização da pesquisa, vale salientar algumas
questões relevantes para a conclusão deste estudo.
As políticas voltadas a crianças e ao adolescente no Brasil tiveram, ao longo da
história, várias reformulações até considerar, de fato, a criança e o adolescente
enquanto sujeitos de direito com proteção integral, como posto no Estatuto da
Criança e do Adolescente. No entanto, diante na realidade que se vive na conjuntura
atual, e segundo a análise problematizada neste trabalho, nota-se que as políticas
que conduzem a efetivação dos direitos deste seguimento da sociedade não
correspondem e nem respaldam o que está posto em lei, ou seja, os direitos das
crianças e dos adolescentes não são respeitados segundo o ECRIAD.

Salienta-se, que o Serviço Social após sua renovação, como observado no


desenvolvimento deste trabalho, possui uma atuação para a intervenção que é
própria da profissão, possui um olhar diferenciado para a intervenção no social.
Sendo este, um olhar que deve ser a favor da classe trabalhadora, que deve ser
competente, respaldado pelo seu Código de ética que pressupõe os princípios que o
norteará em seu fazer profissional cotidiano. No entanto, o grande desafio de
efetivar o trabalho da forma com que é colocado no seu Código de Ética, nas suas
diretrizes e atribuições da profissão deve-se ao fato dessa conjuntura, na qual se
insere o trabalho do profissional de Serviço Social, ser extremamente desafiadora,
que impõe a precarização do trabalho, como se pode observar no PETI-Vitória o
qual possui uma equipe de trabalho extremamente reduzida, profissional com
vínculo empregatício frágil, entre outras questões, que rebatem diretamente no fazer
profissional do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do
Município de Vitória.
Portanto, tendo em vista os rebatimentos e desafios postos pelo sistema vigente,
salienta-se que a Política de Atendimentos à criança e ao adolescente e as ações
profissionais do Serviço Social, de certa forma, não atingem a população
necessitada e permanecem clientelistas, fragmentadas, discriminadora e imediatista,
insuficiente e emergencial como se constatou em períodos históricos anteriores no
Brasil.

A partir da pesquisa realizada concluiu-se que os profissionais têm clareza dos


principais objetivos do PETI-Vitória e da localização e organização do trabalho do
Serviço Social. Pode-se observar, também, – como citado anteriormente – que os
profissionais do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de
Vitória são em número reduzido e há profissional que trabalha com vínculo
empregatício frágil.

Constatou-se, com a pesquisa, que a elaboração e execução de projetos, assim


como o desenvolvimento das principais políticas e atividades – devido ao número
reduzido de profissionais e a grande demanda – ocorrem mediante alguns entraves,
muitas vezes sem planejamento sistematizado, configurando-se, portanto, numa
fragilidade da equipe do Programa.

Com a pesquisa, concluiu-se que há, por parte dos profissionais de Serviço Social
do PETI, a preocupação quanto ao aprimoramento intelectual, capacitação
profissional e dimensão investigativa. No entanto, a efetivação dessas diretrizes de
trabalho, assim como a participação política e controle social, ocorre com algumas
limitações e não se realiza como é esperado pelos profissionais de Serviço Social no
Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória.

São vários os desafios postos aos profissionais de Serviço Social no PETI-Vitória,


pois como se pôde observar, estes estão atuando num Programa do Governo
Federal que tem por objetivo maior erradicar o trabalho infantil, porém com tantas
dificuldades em seu fazer profissional o assistente social entra em conflito uma vez
que está cotidianamente na conciliação de trabalhar com as demandas e
participação política, demandas e estudos, demandas imediatas e qualificação
profissão, ou seja, são muitas as atribuições ao reduzido número de profissional e é
grande o leque de atividades a eles impostas para dar conta de concretizar seu fazer
profissional segundo as diretrizes de seu trabalho e segundo as diretrizes do
Programa propriamente dito condizente com o Estatuto da Criança e do
Adolescente.

Considera-se que, para trabalhar diante de tantos entraves, o profissional deve ter
em mente a realidade na qual se insere e se colocar no desafio de atuar diante de
todos os empecilhos, já citados, impostos pela conjuntura. Para tanto, o profissional
deve atuar segundo seu projeto ético-político na direção de uma mudança societária
a favor das classes subalternas e da defesa dos direitos dessas.
Diante da realidade inserida, o profissional tem o desafio de se posicionar contra os
ditames que dificultam seu fazer profissional. Cabe a ele ser comprometido com seu
projeto ético-político e cabe a ele acompanhar as mudanças societárias, a realidade
na qual se insere para, a partir de então, propor novos direcionamentos para sua
prática cotidiana junto a seus usuários que são sujeitos de direitos. Direitos estes,
conquistados frente muitas lutas e dificuldades em vários períodos históricos e que
não devem deixar de se efetivar.

Portanto, mediante as constatações a partir da pesquisa realizada, reconhece-se


que o trabalho do Serviço Social, diante da lógica do sistema vigente, realiza-se com
inúmeros limites e impõe a estes profissionais grandes desafios em seu trabalho
cotidiano. No entanto, salienta-se que, mesmo diante dos entraves postos, o
profissional de Serviço Social não está engessado em suas ações, pois carrega
consigo uma relativa autonomia de trabalho. Esta autonomia deve ser trabalhada
através de uma postura propositiva, crítica e criativa de trabalho. O profissional deve
estar atendo às possibilidades cotidianas de trabalho, deve investir na sua
capacitação intelectual e, principalmente, fortalecer os mecanismos e instrumentos
de participação social.

Esta pesquisa evidenciou a dificuldade dos profissionais de Serviço Social, que


atuam no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória-ES,
em indicarem suas particularidades no campo de trabalho. Neste sentido, tendo em
vista a realidade na qual estes profissionais estão inseridos, fica a sugestão de
realizarem a sistematização das particularidades profissionais.

É importante salientar que no estudo desenvolvido neste trabalho não tive a


pretensão de esgotar o debate quanto ao trabalho do Serviço Social inserido na
política de atendimento à criança e ao adolescente no Brasil. Ficam aqui algumas
lacunas que ainda serão problematizadas em meu processo de formação.

Este estudo foi relevante para acentuar o debate acadêmico acerca da prática
profissional do Assistente Social, pois nota-se que tal discussão tem sido pouco
problematizada nos trabalhos de conclusão de curso.
Com a realização do estudo proposto neste trabalho, observou-se como vem se
desenvolvendo a atuação profissional dos assistentes sociais, de um determinado
Programa do Governo Federal, frente aos limites e desafios que são postos ao
profissional em seu processo de trabalho.

6 REFERÊNCIAS

1 A CONVENÇÃO internacional dos direitos da criança e do adolescente. Curso de


Direitos Humanos - Módulo III Conselho dos Direitos da Criança e do
Adolescente. Unidade I - O Marco legal Internacional e Nacional dos Direitos
da Criança e do Adolescente. Disponível em:
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trabalho” e o trabalho do assistente social. Revista Serviço Social e
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escola (publicado originalmente no Jornal A TARDE, 18 jan. 2000). Revista: Visão
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Assistência Social. Portaria Nº 458, de 4 de outubro de 2001; Estabelece
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Disponível
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Erradicação do Trabalho Infantil. Disponível em:
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de-erradicacao-do-trabalho-infantil-peti>. Acesso em: 22 jan. 2009.

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brasileiras: 1824 a 1969. Revista de Informação Legislativa. Brasília a. 35 n. 139
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14 COMISSÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Estatuto da Criança e do
Adolescente. CRESS, 7ª Região – RJ. Assistente Social: Ética e Direitos.
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Adolescente nas Organizações Não Governamentais no Município de
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Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do
Município de Vitória – ES. 2008. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli
Loureiro, Vitória 12 dez. 2008.

18 ENTREVISTADA B. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do


Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do
Município de Vitória – ES. 2008. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli
Loureiro, Vitória 17 dez. 2008.

19 ENTREVISTADA C. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do


Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do
Município de Vitória – ES. 2009. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli
Loureiro, Vitória 01 abr. 2009.

20 ENTREVISTADA D. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do


Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do
Município de Vitória – ES. 2009. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli
Loureiro, Vitória 02 abr. 2009.

21 FÁVERO, Eunice Teresinha. O Estudo social em perícias, laudos e pareceres


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formação profissional. 11. ed. São Paulo, Cortez, 2007.

24 ____. Marilda Villela. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital


financeiro, trabalho e questão. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
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27 MIRANDA, Ana Paula Rocha; CAVALCANTI, Patrícia Barreto Cavalcanti. O


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Brasil pós-64. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2006.

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36 SILVA, Maria Liduina de oliveira e. O Estatuto da Criança e do Adolescente e o


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Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br/c_v4n2_Solci.htm>. Acesso em: 03
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38 TRINDADE, Rosa Lúcia Prédes. Desvelando as Determinações Sócio-


Históricas do Instrumental-Técnico Operativo Do Serviço Social Na
Articulação Entre Demandas Sociais e Projetos Profissionais. Revista
Temporális, nº 4, ABEPSS, 2001.

39 VITÓRIA. Prefeitura Municipal de Vitória. Secretaria Municipal de Assistência


Social. Gerência de Proteção Social à Criança e ao Adolescente. Relatório
Anual: Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Vitória - ES: 2006.

40 WIKIPEDIA. Sisal. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sisal>. Acesso em:


01 jun. 2009.
APÊNDICES

APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA

1. Identificação do Programa: Nome, endereço, telefone, e-mail.

2. Nome e cargo do responsável por responder a entrevista.

3. Quais são os principais objetivos do PETI-Vitória?

4. Quais são as principais políticas, projetos e atividades desenvolvidas pelo PETI-


Vitória? E pelo Serviço Social?

5. Qual a população atendida pelo PETI-Vitória? E pelo Serviço Social no


Programa?

6. Quais são os critérios para inserção dos usuários no PETI-Vitória?

7. Quais os serviços prestados diretamente pelo PETI-Vitória? E pelo Serviço Social


no Programa?

8. Quais são os encaminhamentos mais freqüentes?


9. Quantos profissionais de Serviço Social atuam no Programa? Este número é
suficiente?

10. Qual é o seu tempo de exercício no Programa? E qual o vínculo empregatício e


carga horária?

11. Como se organiza o trabalho do Serviço Social no PETI-Vitória no que se refere


à:

 Demandas mais freqüente.


 Rotina de trabalho.
 Elaboração e execução de projetos.
 Gerenciamento, participação e elaboração de políticas públicas.

12. Há participação em seminários, eventos, cursos, congressos? Com que


freqüência?

13. Há uma preocupação no Programa no que se refere à realização de Pesquisas?


Quais?

14. Há relações entre a sociedade civil organizada por via de conselhos de direito,
fóruns ou outros?

APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E


ESCLARECIDO

Por este documento você está sendo convidado (a) a participar da pesquisa: Limites e
Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço social no Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil do Município de Vitória - ES . O propósito desse trabalho é analisar
quais são os limites e as possibilidades do processo de trabalho do serviço Social no Programa
de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória no período correspondente ao
ano de 2006 a 2008. Pretende-se com esta pesquisa levantar aspectos referentes à prática
profissional do Serviço Social no PETI.
No que tange as técnicas de coleta de dados, serão aplicados questionários com perguntas
abertas e fechadas, que serão respondidas individualmente e posteriormente analisadas pelo
pesquisador.
O presente termo assegura os seguintes direitos:
a) Garantia de esclarecimentos antes e durante o curso da pesquisa, sobre todos os
procedimentos empregados em sua realização;
b) Liberdade de se recusar a participar ou retirar seu consentimento em qualquer
fase da pesquisa;
c) Garantia de sigilo quanto aos dados confidenciais envolvidos na pesquisa,
assegurando absoluta privacidade;
d) Opção de solicitar que determinadas falas e/ou declarações não sejam incluídas
em nenhum documento oficial, o que será prontamente atendido.

Você receberá uma cópia desse termo em que constará o telefone dos
pesquisadores, podendo tirar suas dúvidas a qualquer momento sobre o projeto e
sua participação.

“Eu, ___________________________ portador do RG________________, declaro


que, após conveniente esclarecimento prestado pelos pesquisadores e ter entendido
os objetivos da pesquisa, consinto voluntariamente em colaborar para realização
desta. Fico ciente também que uma cópia deste termo permanecerá arquivada com
os pesquisadores do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do
Espírito Santo, responsáveis por esta pesquisa”.

Vitória, _____de ________________de 2008.

____________________________________

Assinatura do Declarante
ANEXO