Exclusão social!

Fiquei chocada ao ver o filme "Feios, Porcos e Maus", de Ettore Scola mas, depois de reflectir, concluo que o realizador se muniu de algum exagero irónico para mostrar uma certa realidade dos anos setenta (e que, em muitas situações, se mantém até aos nossos dias). Segundo o que me parece, o realizador pretende mostrar, com autenticidade, o aspecto feio, porco e mau da pobreza, nua e crua. Imprime, nesta película, uma crítica social bem expressa nas suas personagens de grande intensidade dramática mas também tragicómica. Ettore Scola retrata uma família que vive num bairro da lata em Roma, marginalizada e com leis próprias. Família esta que se afasta de todas as normas civilizacionais em geral, e das dos seus vizinhos residentes em aranha céus, em particular. São pessoas sem recursos, sem liberdade de escolha, onde não há espaço para o sonho ou para a esperança. O pai Giacinto, que deveria zelar pelo sustento da família, só se preocupa em esconder o milhão de liras que recebeu de indemnização por ter provocado um acidente de trabalho a si próprio que o conduziu à cegueira de uma vista. Para se proteger a si e ao seu milhão dormia com uma arma e mudava frequentemente o esconderijo da sua fortuna. Todos, na sua família, cobiçavam esta bela fortuna. A mulher, as filhas, os filhos, as noras, os genros, os netos e a até a sua mãe invalida e senil (de quem a família se apropriava todos os meses da pensão) tentavam por todos os meios roubar Giacinto. Na pequena e apertada barraca onde todos inventavam o seu espaço, incluindo as ratazanas, teve um dia de ser criado um novo espaço para a amante de Giacinto, que era gorda. Até na caracterização desta nova personagem, que era prostituta, Ettore Scola mostra com verdade o aspecto feio e gordo, o que normalmente não acontece no cinema. As prostitutas no cinema, normalmente, nunca são gordas nem têm celulite... por vezes até vestem roupas desenhadas por costureiros famosos! Esta amante, como era previsível, veio trazer a revolta da família em relação ao pai e, por isso, foi planeado o envenenamento de Giacinto, no almoço do baptizado de um neto. Foi-lhe servido um prato de macarrão com raticida, ao qual ele sobreviveu. Por vingança deitou fogo à barraca e vendeu o terreno a outra família. No fim acabam, todos os elementos das duas famílias, por partilhar a velha barraca E assim a vida continuou como até aí, feios, porcos e maus! Com a apresentação deste trabalho tenho a intenção de satisfazer o desejo do meu formador José Leirião, que ministra Gestão Administrativa e Materiais de Stocks, que como bom motivador que é, lançou o desafio ao grupo TAG laboral para que todos desenvolvam um trabalho e se coloque continuamente algo no nosso Blogue. Pessoas como o José Leirião, não deixam que as nossas mentes se acomodem, obrigam-nos a agir, e a reflectir. Pensei em algo que me incomoda e me assusta, por isso, resolvi introduzir no Blogue um trabalho que realizei sobre o filme "Feios, Porcos e Maus", que vi na unidade de formação – Liberdade e Responsabilidade Democráticas. Compromisso Cidadão/Estado, ministrado pelo meu formador Edmundo Bolinhas. Efectivamente, a realidade retratada neste filme, não está nada afastada de muitas realidades actuais. No filme como em qualquer bairro “de lata” de hoje encontram-se situações de miséria idêntica. Uma família inteira (e, normalmente, famílias “desestruturadas” como esta são constituídas por inúmeros membros) a depender dos biscates e das pensões miseráveis

dos mais velhos. Para conseguirem sobreviver, estas famílias, recorrem a pequenos (ou grandes) esquemas para se “desenrascarem”. Depois, a juntar à miséria da falta de condições monetárias, estão a falta de salubridade dos locais onde vivem, a falta de higiene e, por fim (mas não menos importante), a falta de respeito uns pelos outros e por si próprios. O desespero pode chegar a ser tal que, mesmo entre membros da mesma família, se cometem pequenos crimes (ou grandes, como no caso do filme quando tentam envenenar Giacinto), para usufruírem dos eventuais bens alheios. Apesar da quantidade significativa de bens que, hoje em dia, é posto à nossa disposição (quer bens materiais, quer bens culturais, quer outro tipo de bens), isso não significa que todos tenham as mesmas oportunidades de lhes aceder. E, no caso de famílias em dificuldades como são as que vivem abaixo do limiar da pobreza, isso só as torna mais revoltadas e, por consequência, menos empenhadas em melhorar a sua condição. Será que nos últimos 50 anos se criou algo de novo que rompa totalmente com o passado? Porque é que Portugal teima constantemente nas mesmas formas de atraso? Vamos evoluir, vamos arriscar sem medos, vamos investir na educação, na justiça na igualdade de direitos. Juntos vamos construir um Portugal melhor, acabar com a descriminação, racial, religiosa, sexual, por idade ou nacionalidade, que podem levar á exclusão social.

Dulce Vera