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Fédon de Platão

- a chegada à prisão e o encontro com Sócrates a última conversa de Sócrates com os amigos - a atitude do filósofo perante a morte: a bela esperança na imortalidade da alma

A narração de Fedon a Equécrates

acerca de

- a justificação de Sócrates: . a filosofia é um treino de morrer e estar morto . o argumento de geração circular dos contrários . o argumento da reminiscência . o argumento da natureza da alma . as objecções de Símias e de Cebes . a resposta de Sócrates ou o argumento a partir das Ideias
- o mito do Fedon, ou o julgamento das almas e a distribuição das sanções

a morte de Sócrates 1

A alma existe para além da morte: o argumento da geração circular dos contrários .Invoca uma velha doutrina mítico – religiosa e filosófica. e aquilo que nós chamamos morte é uma partida. segundo a qual as almas do que morreram vão para o Hades: é ali que vão ter as almas que daqui partem. Isto significa que. como uma sucessão circular. A sucessão dos contrários não se processa linearmente: eles compensam-se mutuamente por uma constante alternância de gerações. nem morrem. de acordo com a tradição. as almas são eternas no tempo: elas não nascem. e aqui regressam de novo. e o nascimento. 2 . renascendo dos mortos. um regresso. circulam.

aprender. como tal. E dado que os sentidos começam a funcionar logo que nascemos. e significa a acção de evocar. Em suma. Quer dizer. 3 . de chamar à consciência algo anteriormente conhecido. as nossas almas existiam já. na percepção existe sempre outra coisa mais do que simples imagem da coisa percepcionada e. a aquisição desses conhecimentos deve ser anterior: donde se segue que.O argumento da reminiscência Reminiscência – o termo latino reminiscentia equivale ao grego anamnésis. independentemente de um corpo. e eram dotados de entendimento. a existência das Ideias como realidades distintas das coisas e a preexistência das almas antes do nascimento são igualmente necessárias e implicam-se mutuamente. A reminiscência se faz a partir da semelhança. antes de incarnar uma forma humana. é efectivamente reaprender. para a alma. os dados fornecidos pelos sentidos só têm significado – só constituem saber – se existirem em nós conhecimentos anteriores que eles acordam ou despertam. nós evocamos realmente outros objectos – nunca percepcionados – que servem de ponto de referência e aos quais os objectos presentes aspiram a identificar-se. é recordar (as Ideias). e o seu despertar é verdadeiramente um despertar. sem nunca os atingirem.

ao longo da vida. portanto. que a impede de alcançar o verdadeiro conhecimento (a episteme) e a mantém no domínio da doxa. Para se libertar dele torna-se. Deste modo. • O destino da alma após a separação do corpo depende do seu grau de purificação ao morrer. A felicidade junto dos deuses é. 4 . portanto. portanto do tipo de vida que escolheu sobre a terra. necessário uma conversão e uma ascese. a simples opinião. durante a vida. a alma que se desprende do corpo em estado de pureza e nada leva agarrado a si – isto é. • Para Sócrates o corpo é para a alma um mau companheiro que afasta da verdadeira realidade e a mantém no mundo da aparência. o princípio que aguarda aqueles que. se dedicaram à filosofia. se preparou para morrer – para essa começa uma era de felicidade na companhia dos deuses. a alma do filósofo que.O Argumento da Natureza da Alma • Sócrates vai encarar de frente o medo universal da morte e mostrar que ele é destituído de fundamento para aqueles que morrem purificados.

. que pode ser expressa através da música e da matemática: o mundo inteiro é como uma lira de sete cordas que eternamente toca a música celestial. Dentro deste princípio. etc. tal como a harmonia das cordas não pode subsistir à destruição da lira.A alma existe para além da morte: as objecções de Símias e de Cebes • A chamada doutrina da alma – harmonia era uma doutrina de origem pitagórica que. 5 . como tal. o limitado e o ilimitado) são também os elementos de todas as coisas. todos conheciam. Afirmando que tudo é número. a alma resulta do equilíbrio ou harmonia entre os contrários corporais: o quente e o frio. portanto. sobreviver à desintegração do corpo. ela não pode. o seco e o húmido. Isto significa que em cada ser e no Universo inteiro existe uma harmonia perfeita. e que os elementos do número (o par e impar. os pitagóricos extraíram esta consequência essencial: cada ser resulta da oposição de dois contrários em certa proporção (ao conjunto das partes num todo é que os Gregos chamavam harmonia).

. uma vez que lhes servem de modelo ou paradigma. 6 . no primeiro caso (primeiro argumento utilizado). por outro lado. enquanto existir. portanto. possui sempre. que é seu dobro. Logo. Isto significa que. As coisas geram-se a partir das que se lhes opõem. em suma. neve e fogo são coisas que participam da Forma ou ideia de Frio e Quente). prova a imortalidade da alma: • –Apoiando-se na existência das Ideias. o carácter dessa Forma. independentemente das coisas. as Formas ou Ideias em si são imutáveis. agora refere-se às Ideias ou Formas em si mesmas (por exemplo. contém necessariamente uma determinada Forma e rejeita necessariamente as que se lhe opõem (o número cinco não admitirá a Ideia de Par. embora se não identifique com ela. Sócrates referia-se às coisas que participam das Ideias. ela tornaria impossível a existência de almas boas e más.A resposta de Sócrates ou o argumento a partir das ideias • Sócrates refuta a teoria da alma – harmonia mostrando que esta contradiz o argumento da natureza da alma: de facto se todas as almas são igualmente alma e. admitirá a de Impar. e exclui sempre necessariamente a essência contrária. nem o número dez. tal como a neve admitirá a Ideia de Quente ou o Fogo a Ideia de Frio…) • • Dito de um modo mais simples: cada coisa é absolutamente inseparável da essência que lhe é própria. a Ideia de Bem. E cada coisa. não podem coexistir no mesmo ser duas Formas (ou Ideias) entre si contraditórias: nenhum oposto. mas o mesmo acontece com qualquer coisa que. antes se limitaria a segui-los. enquanto permanecer o que é. a Ideia de Justiça.As Ideias não apenas existem em si. • • • • Sócrates a partir das Ideias. seja por presença participação ou qualquer outro processo que torne essa relação possível. ela estaria na inteira dependência dos elementos corporais: em tal caso jamais seria ela a convidá-los. igualmente harmonia -. continuando a ser o que antes era. mas também nas próprias coisas que delas recebem o nome. Sócrates entende que a verdadeira causa de estar ali sentado a conversar com os amigos é a escolha que ele fez do “melhor” – é. se a alma fosse uma harmonia. consentirá em ser e tornar-se no seu oposto. ele infere que são elas as verdadeiras causas das coisas serem o que são. Não só a Forma em si mesma conserva para todo o sempre o nome a que tem direito.

E raciocina assim: Qualquer que seja o corpo que ela ocupe. A fundamentação metafísica da imortalidade da alma leva de imediato Sócrates a extrair uma conclusão prática que se refere à nossa acção. o fogo. Do mesmo modo que o três. O oposto da vida é a morte. e com ele o calor que no fogo existe. Platão recorre à tradição religiosa dos Gregos para reafirmar de uma outra maneira a conclusão a que a dialéctica racional o havia conduzido. não apenas em vista deste espaço de tempo a que chamamos vida. e com ele o ímpar. Entre eles a grande maioria das almas sofre castigos proporcionais às suas culpas e tem possibilidade de purificar-se e regressar a uma outra incarnação. • • Uma alma morta é. isto é. a alma entra sempre nele levando consigo a vida. se a alma é de facto imortal. aliás escolhida por elas. 7 • . a alma recusa ou rejeita a morte. Ou seja. isso implica que cuidemos dela. que se afastaram do corpo e se consagraram às ideias e que vão directamente para a terra superior. portanto a alma é imortal: jamais a alma acolherá a morte. a alma é uma realidade que participa necessariamente da Forma ou Essência que é a vida. até aos grandes criminosos que são lançados no Tártaro de onde nunca mais poderão evadir-se. O que acontece ás almas depois do julgamento? Segundo a sua vida passada são repartidas em categorias: desde os filósofos. nunca será par. mas da totalidade do tempo. uma contradição impossível e impensável. logo. em suma. da eternidade. jamais será uma coisa morta.• • Apliquemos à alma esta doutrina das participações essenciais. nem frio. • • O mito de Fédon ou o julgamento das almas e a distribuição das sanções.