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ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA

ANTOLOGIA Nº 1

1993

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Direitos autorais reservados para
ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA

Organizadora
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO

Coordenação Editorial
PROF. ALBERTO LIBÂNIO RODRIGUES
(Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais)

Editoração eletrônica e secretaria gráfica
CARLOS ALBERTO MOREIRA

Planejamento gráfico e montagem
JOSÉ LUIZ RIBEIRO

Revisão/copidesque
. Organizadora
. Equipe do CMC

Arte Final, fotolitos, impressão e acabamento
CMC – CONSÓRCIO MINEIRO DE COMUNICAÇÃO LTDA
Rua Bueno Brandão, 388 – Santa Tereza – B.H.
Tel. (031) 226-7666 – Cep 31010-060 – C.P. 1402 – Cep 30161-970 – BH

* Digitado em 2007 para disponibilização na Internet *
Digitação e Arte: Aurélio Mezêncio

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SUMÁRIO

ESTATUTO AILC 9
SÓCIOS E PATRONOS 15
ITAPECERICA 18
OS COMPADRES 22
MUNICÍPIOS 28
AUTOS DE CRIAÇÃO E ABERTURA 29
COMBATE DO CAJU 30
VIAGENS DE SAINT-HILARE 32
ITAPECERICA – 200 ANOS 36
A COMARCA – JEFFERSON RIBEIRO FILHO 37
DOM ANTÔNIO CARLOS MESQUITA 41
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO 47
DJALMA TEIXEIRA DE OLIVEIRA 73
FRANCISCO BARBOSA MALAQUIAS 76
JOÃO PEREIRA DA SILVA 78
JOSAFÁ DA COSTA MESUITA 79
JOSÉ LOURENÇO DE SIQUEIRA 85
LEVY ANTÔNIO BEIRIGO MALAQUIAS 101
LINDOLFO PENA PEREIRA 118
MARINA COUTO 127
RAYMUNDO NONATO DE ARAÚJO 133
ROBERTO GOMIDES 153
DOM SEBASTIÃO ROQUE RABELO MENDES 158
AITA 163
SEVERO AUGUSTO RIBEIRO 164
MAJOR ZIRICO 170

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DEDICATÓRIA
O amor por nossa terra natal nos levou a empreender este despretensioso trabalho
pois acreditamos no ensino e na memória popular.

Dedicamos a ANTOLOGIA nº 01 a todos que se preocupam com o futuro de
Itapecerica e por ela trabalham.

A história de uma cidade pode ser singela e de pequena importância no âmbito
nacional, todavia, se cada uma preservar seus momentos no tempo e no espaço, através da
palavra escrita, teremos preservada a história de toda a nação.

Homenageando o município, lembramos que aqui viveram e vivem PESSOAS que
dedicaram suas vidas a Itapecerica, sustentando com persistência e amor suas bases vitais.
A elas nosso aplauso e homenagens.

Academia Itapecericana de Letras e Cultura – 1993

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ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA
Criada em 29.12.80 – Utilidade Pública Lei 1016/86
35550-000 – Itapecerica-MG – CNPJ: 20.896.999/0001-06
Reg. Cartório de Títulos e Doctos. sob nº 57.9/10/81

1ª Diretoria: 1980/85
Presidente – Roberto Duarte Gomides
Secretário – José Lourenço de Siqueira
Tesoureiro – Severo Ribeiro da Silva
Sócios fundadores – 16

2ª Diretoria: 1986/88
Presidente – Célia Lamounier de Araújo
Vice-pres. – Roberto Duarte Gomides
1º Secretário – Lindolfo Pena Pereira
2º Secretário – Carlos Mesquita Maia
Tesoureiro – Levy Antônio Beirigo Malaquias
Conselho Fiscal:
José Lourenço de Siqueira
Francisco Barbosa Malachias
Tereza Tuffi Amin Batista

3ª Diretoria: 1989/93
Presidente – Célia Lamounier de Araújo
Vice-pres. – José Lourenço de Siqueira
1º Secretário – Jorge Malaquias do Couto
2º Secretário – Severo Ribeiro da Silva
Tesoureiro – Carlos Mesquita Maia
Conselho Fiscal:
Jefferson Ribeiro Filho
Lindolfo Pena Pereira
Roberto Duarte Gomides

Patrono – São Bento de Tamanduá

Lema: Com Amor aos Irmãos mostrar a Liberdade através da Cultura.

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A PALAVRA DO EDITOR
Prof. Alberto Libânio Rodrigues
Diretor de Editoração do CMC*
e membro do Instituto Histórico
e Geográfico/MG – Cadeira nº 46

Muito feliz, proveitosa e oportuna a iniciativa da jornalista, poetisa e advogada, Célia
Lamounier de Araújo, como organizadora desta primeira Antologia da Academia Itapecericana de
Letras e Cultura, que reúne trabalhos dos mais expressivos representantes da prosa e do verso
desta histórica e hospitaleira cidade.
Itapecerica, núcleo de bandeirantes, situa-se entre as cidades mais antigas das Gerais e foi,
no passado não muito distante, um dos maiores municípios do estado, cujo território, depois de
desmembrado, deu origem a diversos municípios do Leste Mineiro.
Cidade de heróis da história do Brasil, de grandes homens e de feitos grandiloquentes,
Itapecerica vem, uma vez mais, se posicionar na vanguarda das comunas mineiras, com a
publicação deste trabalho pioneiro, que encerra não só a beleza de versos bem alinhavados, mas
também a prosa impecável, no conto, na crônica, no discurso...
Este trabalho não se presta somente ao lazer ou ao deleite das pessoas que ainda apreciam
a literatura de boa qualidade, porque ns entrelinhas do verso e da prosa, descreve, de maneira
romântica e lírica, a história e as tradições da velha Tamanduá até a Itapecerica de nossos dias.
Por isto mesmo, esta obra extrapola seus próprios limites para se transformar num gesto cívico
daqueles que, com recursos próprios, investiram neste valioso projeto cultural.
As antologias que têm vindo a lume, só o conseguem graças ao sistema de cotização e/ou
subscrição antecipada de exemplares pelos participantes. Daí, o agradecimento dos editores e
organizadores aos literatos e intelectuais de Itapecerica que não se furtaram de participar desta
empreitada.
Caberia ao poder público o dever de patrocinar, pelo menos parcialmente, trabalho
cultural desta natureza, mas diante da eventual falta de recursos da iniciativa oficial, nas esferas
municipal, estadual e federal, um grupo de idealistas, formado por homens e mulheres decididos,
que amam Itapecerica e que sabem valorizar as iniciativas culturais desta terra, se uniu em torno
deste ideal, ora concretizado.
Acompanhei a luta quase insana e diuturna da presidente da AILC, Célia Lamounier, no
afã de não deixar que este projeto sofresse embargos; e sei que ela sacrificou a maior parte do seu
precioso tempo, nos últimos meses, para levar a bom termo um trabalho arrojado e dinâmico como
este.
Nós todos, editores, autores e organizadores desta Antologia, esperamos que, ano que vem,
possamos, com menos dificuldades, editar novo volume desta obra, com, quem sabe, maior número
de participantes.
Disse Platão que “Atenas foi perdendo seu valor, quando a encheram de portos e docas, de
muros e tributos, em vez de a encherem de retidão e esperança”. Infelizmente estamos vivendo, nos
dias de hoje, a síndrome da decadência grega. Parodiando a escritora Avelina Noronha de
Almeida, que me ajudou a editar a Antologia dos Poetas Queluzianos e Lafaietenses, eu diria que
quando nos aprofundamos, na coordenação editorial desta obra, pudemos comprovar que
Itapecerica não se afoga na onda generalizada de materialismo: viveu no passado e vive no
presente, imersa num clima de amor e poesia, que não deixa morrer a fé no presente e a esperança
no futuro.
Em seu peito forte pelas riquezas naturais, bate um coração sensível, que se abre em
pétalas de sonho e beleza que esta Antologia retrata muito bem.

*CMC – Consórcio Mineiro de Comunicação, responsável pela edição desta obra.

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ESTATUTO

(elaborado para estudo por Célia Lamounier de Araújo: registrado no Cartório de
Títulos e Documentos sob o nº 57 - Livro A2 – fl. 127/131 em 09.10.1981; extrato
publicado no “Minas Gerais” em 18.08.81)

O Estatuto da ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA,
fundada em 29.12.1980, aprovado em reunião dos sócios fundadores, terá a seguinte
redação:

Capítulo I
DA ORGANIZAÇÃO E OBJETIVOS

Art. 1º - A Academia Itapecericana de Letras e Cultura é uma sociedade cultural,
sem fins lucrativos, com duração ilimitada, tendo como sede a cidade de ITAPECERICA,
Estado de Minas Gerais, sendo totalmente organizada para funcionar através da palavra
escrita;

Art. 2º - A Academia tem como objetivos específicos:
1 – congregar pessoas ligadas à cultura para uma convivência mais proveitosa;
2 – estimular o desenvolvimento da cultura e da arte em Itapecerica;
3 – incentivar e descobrir novos valores culturais e folclóricos através de
promoções, palestras, concursos e apoio;
4 – principalmente: resguardar nosso patrimônio cultural.

Capítulo II
DO QUADRO SOCIAL

Art. 3º - A Academia será formada por um quadro social com as seguintes
categorias de membros fundadores, efetivos, correspondentes, honorários e beneméritos.

Parágrafo único - Os membros fundadores, efetivos e correspondentes, com idade
superior a 25 anos, ocuparão 100 cadeiras patronais de acordo com a aptidão de cada um e
nomeadas por cem itapecericanos ilustres já falecidos.

Art. 4º - Serão membros acadêmicos fundadores aqueles que idealizaram a
entidade, promovendo a reunião de fundação, assim considerados os que dela participaram
ou que assinaram a Ata de Fundação.

Art. 5º - Serão acadêmicos efetivos os membros necessariamente nascidos em
Itapecerica que, sendo convidados, comprovarem através de documentação própria enviada
(curriculum vitae, livros, trabalhos ou composições de bom nível literário) seu real valor
cultural. A posse sé será dada após estudo e votação em AG.

Art. 6º - Serão acadêmicos correspondentes, a convite da Diretoria, os membros

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nascidos em cidades mineiras, um por um município de origem, que por seus trabalhos se
comprometa a engrandecer Itapecerica e auxiliar na realização dos objetivos da entidade.

Art. 7º - Serão membros honorários, a critério da Diretoria, os amigos que se
dispuserem a auxiliá-la contribuindo financeiramente para seu desenvolvimento e
patrocinando suas promoções anuais.

Art. 8º - Serão membros beneméritos os amigos merecedores de prêmio especial
em virtude de doações patrimoniais à entidade.

Art. 9º - O membro cujo procedimento for contrário ao alcance dos objetivos ou ao
bom nome da Academia será oficialmente advertido, sendo desligado do quadro social em
caso de reincidência, perdendo seus direitos inclusive à cadeira patronal cuja vacância será
declarada para novo preenchimento.

Capítulo III
DOS ÓRGÃOS

Art. 10º - As atividades da Academia serão dirigidas pelos seguintes órgãos: 1 –
Assembléia Geral e Conselho Fiscal (deliberativos); 2 – Diretoria (executivo).

Seção I
Da Assembléia Geral (AG)

Art. 11º - A AG é a opinião escrita de todos os membros para decidir as questões de
acordo com este estatuto.

Art. 12º - Fica convocada para o dia 29/12 nos anos pares, uma AG Ordinária para
eleição de Diretoria, verificação e apreciação das contas e patrimônio, estudo do
procedimento de membros e da entidade.

Art. 13º - Será convocada pelo Presidente, em qualquer data, uma AG
Extraordinária para apreciar e votar assuntos de interesse da entidade ou dos seus membros,
desde que, por iniciativa de qualquer um membro seja feito um requerimento; será também
convocada para eleição de membro efetivo, após dar conhecimento aos membros do
parecer do Conselho Fiscal sobre a documentação recebida e estudada, sendo eleito
somente o candidato que obtiver votação superior a 2/3 dos membros.
Parágrafo único - No caso futuro de preenchimento de uma só vaga, por morte ou
exclusão de membro, será dado aos membros parecer do Conselho Fiscal sobre todos os
candidatos, sendo eleito o que receber mais votos.

Art. 14º - Os membros se farão presentes às reuniões pessoalmente ou através de
cartas, votando ou emitindo opiniões sempre por escrito solicitadas em circulares para que
se comprove e se arquive em pastas próprias.
Parágrafo único – O prazo para se fazer presente através de resposta por carta será
sempre de 10 dias contados da circular.

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Seção II
Do Conselho Fiscal

Art. 15º - O Conselho Fiscal será constituído de três acadêmicos fundadores ou
efetivos, eleitos pela AGO fixada para 29/12 dos anos pares.

Art. 16º - Compete ao Conselho Fiscal:
a – fiscalizar os atos da Diretoria e aprovar o balanço anual;
b – aprovar o planejamento e orçamento geral ou modificações;
c – no prazo de 10 dias estudar e resolver sobre punições ou desligamento de
membros, requeridos por qualquer membro contra outro que proceda em desacordo com
este estatuto, permitindo-se defesa escrita;
d – anular atos da Diretoria, comprovadamente em desacordo com este estatuto,
convocando eleição extraordinária, caso os membros sejam destituídos do cargo ocupado;
e – estudar a documentação apresentada por candidatos convidados a dar parecer
por escrito no prazo de 10 dias.

Seção III
Da Diretoria

Art. 17º - A Diretoria eleita em AGO no dia 29/12 dos anos pares será responsável
pelos destinos da entidade durante dois anos e se comporá de: presidente e vice-presidente,
secretário e 2º secretário, tesoureiro e 2º tesoureiro.
Art. 18º - Compete à Diretoria:
a – cumprir e fazer cumprir este estatuto;
b – encaminhar relatórios, convocações e correspondências;
c – dar posse em reuniões festivas aos novos membros;
d – deferir a demissão requerida por membro que ocupe cargo, designando outro no
prazo de 10 dias, bem como licenciar membros por motivos imperiosos;
e – fazer cumprir as decisões de AG e do Conselho Fiscal;
f – organizar e trazer em dia o Livro das Efemérides; álbum de recortes com notícias
sobre a entidade, seus membros e trabalhos.

Art. 19º - Competem aos membros eleitos as seguintes responsabilidades:
§ 1º - Compete ao Presidente:
a – dirigir e representar a Academia em atos públicos;
b – convocar e presidir as reuniões da entidade;
c – nomear comissões ou trabalhos pessoais necessários aos objetivos e promoções
ou para revisão de textos que levam o nome da Academia;
d – designar membros para os cargos de confiança na qualidade de bibliotecário,
oradores ou qualquer outro cargo que fique vago, de comum acordo com a Diretoria e
Conselho Fiscal;
e – autorizar ou não todo e qualquer ato ou publicação em nome da Academia;
f – assinar toda a documentação da entidade, principalmente no que se refere à
tesouraria, cujos papéis só terão validade quando assinados em conjunto pelo tesoureiro e
presidente;

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g – empossar novos membros responsabilizando-se pelas assinaturas do
compromisso no Livro de Ouro e diplomas;
h – admoestar por escrito o membro cujo procedimento incidir no art. 9º e 22, no
prazo de 10 dias, e oficiar punições ou desligamento resolvidos pelo Conselho Fiscal,
conforme art. 16, letra c, mesmo prazo.

§ 2º - Compete ao Secretário:
a – redigir imparcial e minuciosamente os fatos em atas;
b – organizar e distribuir a correspondência, responsabilizando-se pelo arquivo
cronológico em pastas de “expedida” e “recebida” mantendo contato mensal com todos os
sócios através de circulares;
c – trazer assinados os livros de Presença e Atas.

§ 3º - Compete ao Tesoureiro:
a – responsabilizar-se pelos valores recolhidos, depositando-os em conta bancária da
entidade, movimentando-a em conjunto com o Presidente;
b – apresentar o Relatório Anual com balancete de Receitas e Despesas de acordo
com recibos numerados, cheques e notas fiscais, com base no orçamento aprovado;
c – assinar com o Presidente cheques e documentos para movimentação de recursos,
assumindo pessoalmente dívidas feitas sem autorização;
d – cobrar, receber e dar recibos das mensalidades, subvenções e doações,
computando-se nos livros próprios.

§ 4º - Compete ao Bibliotecário:
a – organizar, zelar e dirigir a biblioteca e arquivo;
b – registrar todas as doações e aquisições por ordem cronológica, anotando nomes,
datas e números sobre doações, doadores ou notas de compras;
c – manter livro de carga e descarga dos volumes, fitas e bens manuseados
exclusivamente pelos membros.

Capítulo IV
DAS FINANÇAS E PATRIMÔNIO

Art. 20º - O patrimônio da entidade se constituirá de: mensalidades, subvenções,
doações, arrecadações promocionais e bens móveis, e bens imóveis (estes inalienáveis).

Parágrafo único – Constituirá procedimento contrário ao bom nome da Academia o
não-pagamento das mensalidades quando estabelecidas e a falta de apoio às promoções.

Capítulo V
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 21º - Constitui direito dos membros:
a – Acadêmicos fundadores: vetar por opinião única modificação estatutária ou
dissolução da entidade; todos os demais direitos abaixo;

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b – Acadêmicos efetivos: ser votado para cargos de Diretoria e Conselho Fiscal,
todos os demais direitos abaixo;
c – Acadêmicos correspondentes: ocupar cadeira patronal por escolha ou indicação
da Diretoria, demais direitos abaixo;
d – Membros Honorários: candidatar-se ao cargo de tesoureiro, se desejar, todos os
demais direitos abaixo;
e – Membros beneméritos: fazer uso da palavra em reuniões festivas e demais
direitos abaixo;
f – Todos os membros: participar de reuniões, votar e opinar em AG, requerer ao
presidente votação de assuntos conforme art. 13, defender-se por escrito quando acusado,
usar da Biblioteca para si e para outros e ainda vetar, por opinião única, a dissolução da
entidade.

Art. 22º - São deveres do membros:
a – fazer uso do voto por escrito;
b – cumprir e fazer cumprir este estatuto e auxiliar nas promoções;
c – pagar as mensalidades fixadas;
d – divulgar a cultura municipal, seus valores individuais e compilar dados e
documentos para arquivo;
e – remeter cópias de trabalhos publicados e recortes de jornais para o arquivo da
entidade;
f – zelar pelo patrimônio da entidade, especialmente volumes e fitas da Biblioteca,
repondo-os em caso de estrago ou perda;
g - fazer o possível e o impossível para que a entidade nunca seja dissolvida,
resguardando os nomes de todos os que dela fizeram parte, suas obras e atos.

Parágrafo único – Será considerada infração estatutária, passível de
punição/advertência, a falta de resposta às circulares e qualquer ato contrário aos estatutos.

Art. 23º - A eleição de Diretoria e Conselho Fiscal será feita cargo por cargo, a
critério de cada membro que votará, se quiser, em alguma chapa apresentada.

Parágrafo único – Em caso de empate, ocupará o cargo aquele que foi empossado
primeiro.

Art. 24º - As cem cadeiras criadas por este Estatuto terão sempre o nome de
itapecericanos falecidos, seguindo-se o nome dos ocupantes vivos pelo tempo de posse,
relembrados em saudação pelos novos ocupantes.

Art. 25º - As cem cadeiras patronais citadas serão assim subdivididas, atendendo à
aptidão dos futuros membros:

de um a dez – Letras Jurídicas e Oratória;

de onze a vinte – Línguas e Poesia;

de vinte e um a trinta – Romance e Contos;

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de trinta e um a quarenta – Comp. Musical e Pintura;

de quarenta e um a cinqüenta – Jornalismo, História e Crítica;

de cinqüenta e um a sessenta – Humorismo, crônicas e trovadores;

de sessenta e um a setenta – Repentistas e sertanejos;

de setenta e um a cem – membros correspondentes convidados dois por aptidão
citada.

Art. 26º - Cada diretoria poderá empossar anualmente 5 membros novos.

Art. 27º - A sociedade entrará em liquidação somente por decisão unânime, pessoal
e escrita de TODOS os sócios em Assembléia Geral.

Art. 28º - Os membros da diretoria e Conselho Fiscal não serão remunerados pela
sociedade.

Art. 29º - A sociedade não distribuirá a seus sócios qualquer parcela de seu
patrimônio ou rendas que venha a possuir.

Art. 30º - A sociedade aplicará integralmente no município os recursos que venha a
possuir, na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais.

Art. 31º - Em caso de dissolução da sociedade, o patrimônio remanescente, após
liquidação de todos os compromissos, será doado a instituição congênere municipal.

Este Estatuto entra em vigor na data de sua aprovação, sendo registrado em Cartório
da Comarca de Itapecerica. Janeiro de 1981.

assinado Célia Lamounier de Araújo – redatora
assinado Roberto Duarte Gomides – presidente
assinado José Lourenço de Siqueira – secretário

Primeira ALTERAÇÃO de Estatuto com ata lavrada, aprovada e assinada. AGE de
20.10.88 – Averbada no CRI em 31.10.88 Reg. 57 L. A2.

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AILC – SÓCIOS E PATRONOS
Dr. José Lourenço de Siqueira – Cadeira nº 01-F
Seção de Letras Jurídicas e Oratória
Patrono: Waldemar Malburges de Oliveira

Dr. Levy A. Beirigo Malaquias – Cadeira nº 02-F
Seção de Letras Jurídicas e Oratória
Patrono: Mons. José dos Santos Cerqueira

Dr. Severo Ribeiro da Silva – Cadeira nº 03-F
Seção de Letras Jurídicas e Oratória
Patrono: Padre José Theodulo Mendes

Dr. Severo Augusto Ribeiro – Cadeira nº 04-F
Seção de Oratória - Falecido
Patrono: José Bernardino Corrêa

Dr. Jefferson Ribeiro Filho – Cadeira nº 05-F
Seção de Letras Jurídicas e Oratória
Patrono: Dr. Gabriel Passos

Dr. José Geraldo de Araújo – Cadeira nº 06-E
Seção de Letras Jurídicas e Oratória
Patrono: Padre Herculano Paz

Dr. Lindolfo Pena Pereira – Cadeira nº 07-E
Seção de Letras Jurídicas, Oratória, Contos e Poesia
Patrono: Dr. José Ribeiro Pena

Dom Antônio Carlos Mesquita – Cadeira nº 10-E
Seção de Oratória e Letras Religiosas
Patrono: Carmelo Mesquita
Endereço: Cx. Postal 102, São João d’El Rei – 36300

Dr. Antônio Felizardo Siqueira – Cadeira nº 11-F
Seção Línguas - Falecido
Patrono: Padre Manuel Xavier

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Dr. Carlos Mesquita Maia – Cadeira nº 12-F
Seção de Línguas – Patrono: Bento Ernesto Júnior

Dra. Célia Lamounier Araújo – Cadeira nº 13-F
Seção de Poesia e Jornalismo
Patrono: Gastão Lamounier

Marina Couto – Seção de Línguas e História – Cadeira nº 14-E
Patrono: Alberto Cordeiro do Couto
End.: R. Bernardo Guimarães, 464 ap. 701 – Belo Horizonte 30140

Francisco Barbosa Malachias – Cadeira nº 15-F
Seção de Poesia – Patrono: Cesário Mendes Cerqueira

Roberto Duarte Gomides – Cadeira nº 28-F
Seção Romance – Patrono: Severo Rios Corrêa

José Lara – Seção Conto e Trovas – Cadeira nº 29-E
Patrono: Padre Francisco de Paula Barreto
End.: Rua do Ouro, nº 777 ap. 302 – Serra – Belo Horizonte 30210

Tereza Tuffi Amin Batista – Cadeira nº 31-F
Seção de Pintura e Poesia
Patrono: Tufi Amin Murad Bourjaille

Padre Carlos Pinto da Fonseca – Cadeira nº 41-F
Seção de História e Jornalismo
Patrono: Pedro Rodrigues Loures

Dalila Valle Corrêa – Cadeira nº 42-F
Seção de História e Línguas - Falecida
Patrona: Professora Cota Pinto

Cônego Lucas Rabelo Malaquias – Cadeira nº 42-E
Seção História e Línguas – Patrona: Dalila Valle Corrêa
End.: Rua Leopoldo, nº 434 – Andaraí – Rio de Janeiro 20541

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Dr. Fábio Antônio Coutinho – Cadeira nº 43-E
Seção de Jornalismo
Patrono: Mons. Otaviano José de Araújo

Dr. Jorge Malaquias do Couto – Cadeira nº 45-E
Seção Jornalismo, História e Crítica
Patrono: Vigário João Antunes Corrêa

Dr. Djalma Teixeira de Oliveira – Cadeira nº 46-E
Seção Jornalismo, Crítica, Oratória e Psiquiatria
Patrono: Con. Belchior Mendes Cerqueira
End.: Rua Goitacazes, 43 – sala 708 – Belo Horizonte 30190

Dom Sebastião Roque Rabelo Mendes – Cadeira nº 50-E
Seção História e Crítica
Patrona: Maria José de Abreu – D. Cotinha
End.: Palácio Episcopal – Belo Horizonte

Dr. Raymundo Nonato de Araújo – Cadeira nº 51-F
Seção de Trovas e Crônicas - Falecido
Patrona: Maria da Conceição Menezes Beirigo

Josaphat da Costa Mesquita – Cadeira nº 60-F
Seção de Humorismo e Cordel
Patrono: Theodoro Afonso Lamounier Netto

Sócio Honorário 1988 pelo patrocínio do jornal “Quatro Bicas”
Prefeito José Sabino Filho

***

“O patriotismo não é uma explosão brusca e arrebatada de emoção mas a
tranqüila e constante dedicação de toda uma vida”. (Stevenson)

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Brasão
Desenho de José Maria Guimarães
idealizado por CLA

18
ITAPECERICA

Feliciano Cardoso de Camargo foi o tipo do sertanista aventureiro, daqueles que
não conseguiram fixar-se em lugar algum. Depois de andar ceca-e-meca, vamos encontrá-
lo descobrindo ouro, com um grupo numeroso de companheiros, no Quilombo, algumas
léguas de Itapecerica. Depois de aí minerar por cerca de um ano, o capitão Feliciano
Cardoso de Camargo resolveu explorar um pouco mais adiante, “na diligência de achar
ouro”, e, depois de percorrer umas cinco léguas, descobriu um ribeiro, a que deu o nome
de Tamanduá, e outro córrego que se chamou Rosário. Duas fontes seguras nos garantem
a época do descobrimento do Tamanduá: 1739. O local imediatamente encheu-se de
mineiros vindos de São José, de São João e principalmente do Quilombo, cujas minas
ficaram abandonadas. O guarda-mor de Paraopeba foi ali servir na mesma função. Em
1740, estava formado o arraial; e não demorou a chamar a atenção dos oficiais da
Câmara de São José del Rei. De fato, a 30 de maio de 1744 em acórdão, “a bem desta
República”, deliberou aquela Câmara que devia tomar posse do novo descoberto e do
arraial. E a 18 de junho de 1744, no “lugar do descobrimento e arraial de São Bento”, o
Juiz Ordinário, capitão-mor Manoel de Seixas da Fonseca, o vereador Manoel de Araújo
Sampaio, o Escrivão da Câmara Diogo Antônio de Oliveira e João de Souza Lisboa
tomaram posse solenemente do descobrimento e do arraial, para a vila de São José. Os
mesmos representantes da Câmara de São José nomearam, em seguida, as primeiras
autoridades locais: almotacé, o capitão Vicente Ferreira da Costa; tabelião, Miguel da
Costa; juiz vintenário, Joaquim Pereira, e escrivão, Manoel da Silva Gral.
Nos primeiros anos, a assistência espiritual foi dada aos moradores pelo vigário de
Curral del Rei; depois devido à distância, acabaram ficando os moradores, por três anos,
sem padre. Foi quando o vigário de São José se dispôs a ministrar-lhes o pasto espiritual.
Mas, depois de um ano, comunicou, por escrito, ao bispo de Mariana, a impossibilidade de
continuar dando assistência, devido às distâncias. A solução foi D. Frei Manoel da Cruz
criar ali a paróquia, o que fez por provisão de 15 de fevereiro de 1757. Mandou o bispo,
como primeiro vigário encomendado daquele sertão, no mesmo ano de 1757, o Pe. Gaspar
Alvares Gondim, filho de fazendeiro abastado da zona, e que vinha funcionando como
capelão da Sé de Mariana. O vigário encontrou, em Tamanduá, uma ermida coberta de
palha. Sua primeira providência foi promover a construção de uma igreja decente. O
termo que o vigário emprega amiúde, em sua correspondência, com referência a seu
apostolado, é “domesticar” os moradores daquele sertão. Pe. Gaspar foi sempre zeloso,
conseguiu realmente “domesticar” os aventureiros, edificou boa matriz, chegou a
construir sete capelas filiais da freguesia de S. Bento do Tamanduá, e, acima de tudo,
conseguiu formar ali uma verdadeira e sã comunidade de homens trabalhadores, com
famílias de moral rígida, e depois de 25 anos, ou seja, em 1782, quando a paróquia rendia
17 mil cruzados de dízimos, entre em cena o vigário de São José, Pe. Carlos Correia de
Toledo, pretendendo transformar aquela freguesia que vinha funcionando havia um quarto
de século, em simples capela filial de sua matriz. O Pe. Carlos Toledo fora nomeado
vigário de São José em 1776, quando se achava em Lisboa; e lá mesmo tomou posse do
cargo. Inicialmente, apresentou sua pretensão ao Bispo, que indeferiu a petição. Recorreu,
então o vigário da vara ao juízo da Coroa e teve ganho de causa. Com a decisão favorável,

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pediu e obteve do governador ordem ao Bispado, no sentido de que o vigário encomendado
de Tamanduá desistisse de seu emprego e todos os moradores obedecessem a ele, Pe.
Toledo. Depois disso, dirigiu-se a Tamanduá, em companhia do Juiz Ordinário da vila de
São José. Chegaram os dois, hospedaram-se e trataram de dormir. Mas não dormiram.
Durante a noite, fizeram-se ouvir gritos de protesto, tiros, uma barulheira infernal; e, a
verta hora, apareceu debaixo da porta do quarto do Juiz Ordinário uma carta,, intimando-
o a sair cedo do arraial, pois, do contrário, o vigário iria assistir ao seu funeral. O juiz
não se intimidou e não saiu. No dia seguinte, pela manhã, dirige-se Pe. Toledo à igreja,
que encontra fechada; e ninguém dava notícia das chaves. A quase totalidade da
população saíra do arraial. O Comandante Inácio Correia Pamplona, depois disso,
escreveu ao governador, reclamando providências do governo. Era o protetor do vigário,
que ali, não pudera exercer seu ministério. No ano seguinte, 1783, usando da faculdade
concedida aos vigários da vara, o vigário de São José nomeou o Pe. Lourenço Pinto
Barbosa como capelão, o Comandante e Mestre de Campo Inácio Correia Pamplona
escreveu ao Comandante de Tamanduá, capitão José Pais de Miranda, ordenando que
facilitasse a posse do novo capelão. Chegou o Pe. Lourenço. Mas o capitão Miranda
alegou que havia perdido as chaves da igreja. Durante dois dias procurou-se inutilmente.
Pe. Lourenço teve ímpetos de mandar arrombar a porta da igreja; mas examinando o
ambiente em que se encontrava, julgou mais prudente não o fazer. Afinal, desiludido,
retirou-se de Tamanduá, segundo ele próprio declarou em carta a Pamplona, “antes que
façam alguma desatenção”. Foi então o próprio Pamplona a Tamanduá, abriu inquérito e
expulsou do arraial três elementos dentre os que julgou mais responsáveis pela resistência
popular: Antônio Rodrigues Azambuja, Custódio José da Silva e João da Silva Pereira. O
comandante do distrito de Desterro, a pedido de Pamplona, também esteve em Tamanduá,
numa tentativa de conciliar a situação. Tudo inútil. O bravo povo de Tamanduá não se
submeteu. A carta que o Mestre de Campo remeteu ao Governador constitui verdadeira
catilinária contra o povo de Tamanduá e seu padre; e terminou com estas palavras: “Eu
considero estes padres do Tamanduá (referia-se ao Pe. Gaspar e seus capelães) e seus
arrabaldes como jesuítas com os índios nas missões”. Na época da terrível perseguição
aos jesuítas, o que ele achou de mais forte para jogar sobre o Pe. Gaspar foi o nome de
jesuíta. O Comandante de Tamanduá, cap. José Pais de Miranda, por sua vez, escreveu ao
Governador; sua carta é um libelo contra Pamplona; declarava que Pamplona estava
avançando demais em suas atribuições e que Tamanduá estava fora de sua regência.
Cônego Trindade faz referência ao requerimento do Pe. Correia de Toledo ao Bispo,
acrescentando o ilustre historiador que nada mais encontrou sobre o assunto. Pois bem, a
disputa terminou com a mais completa vitória do bravo povo de Tamanduá. Não ficaram
inativos os moradores. Dirigiram seus apelos ao Bispo e pediram sua proteção a favor do
antigo vigário, Pe. Gaspar. E, num dos avulsos do Arquivo Público Mineiro, encontra-se
um documento assinado pelo Vigário Geral do Bispado, Cônego Dr. Francisco Pereira de
Santa Apolônia que, mais tarde, como vice-presidente da Província, esteve por duas vezes
à frente do governo mineiro. Com data de 17 de novembro de 1783, determinava: “mando
a qualquer oficial da justiça do Distrito Eclesiástico que, em cumprimento deste, indo por
mim assinado, a requerimento dos fregueses de Tamanduá, notifiquem ao Revmo. Vigário
da freguesia de S. José, Carlos Correia de Toledo, e seu coadjutor, operário Lourenço
Pinto Barbosa, para que, no termo de oito dias, exibam no juízo geral e contencioso desta
cidade os despachos que obtiveram do mesmo juízo, e ainda de S. Exma. Revma. depois de
que, posta em juízo a ação pendente entre os mesmos padres, sem a suspensão de posse e

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execução dos acórdãos da Coroa, por certidão e Cura paroquial na forma referida nos
mesmos Autos, pena de se julgarem nulos e de nenhum efeito”. A freguesia foi elevada a
colativa, por alvará de 1780. Atendendo a insistentes requerimentos dos moradores, o
governador Visconte de Barbacena resolveu a 20 de novembro de 1789, criar vila, na
freguesia de S. Bento do Tamanduá. E, a 18 de janeiro de 1790, o Dr. Desembargador
Ouvidor Geral e Corregedor Luís Ferreira de Araújo Azevedo, em nome do Governador,
erigiu o arraial em vila, com as solenidades de estilo, levantando o pelourinho na Chapada
do Morro, da banda do Sul, por detrás da Igreja Matriz. A primeira Câmara
imediatamente eleita pelos homens bons e pela nobreza, compunha-se de Domingos
Rodrigues Gondim, Juiz Ordinário Ten. Bel. João Pinto Caldeira, Antônio Garcia de Melo,
José Joaquim Carneiro, José Ferreira Gomes e Antônio Joaquim de Ávila. Nos primeiros
anos do século passado, o município de S. Bento do Tamanduá abrangia enorme área:
Bambuí, Piuí, Formiga, Candeias, S. Antônio do Monte, Campo Belo, Luz, S. Roque,
Carmo da Mata, etc. Eram ao todo, 34 distritos, incluindo o do arraial velho, nome com
que ficou sendo conhecido o povoado primitivo, pois a vila desenvolvera-se ao redor do
pelourinho.
O povo de Tamanduá sempre foi valente e brioso; por ocasião da guerra de
independência, em janeiro de 1823, mandou para a Bahia substancial auxílio: novecentos
e vinte e nove mil e novecentos réis, importância obtida em subscrição popular, logo
depois de instalada a vila, é ali iniciada a construção de novo e grandioso templo. Mas...
ficou anos, nos alicerces. Só depois de uma visita pastoral, com um apelo do Bispo,
animou-se o povo a terminá-la; e, em 1853, estava recebendo o telhado (Avulsos A.P.M.).

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas
Gerais. Belo Horizonte, 1968. 541 pp.

***

Formação Judiciária:

Tendo a Câmara de São José d’El Rey tomado posse do arraial em 1744 passou a
pertencer à Câmara do Rio das Mortes. Por ocasião da criação do município e vila em
20.11.1789 passou a ser sede do Termo da Comarca do Rio das Mortes e somente em 1839
foi criada a Comarca do Rio Grande que abrangia Tamanduá, Formiga e Oliveira, mas
nesta época o município tinha ainda muitos distritos. Em 1872 passou a ser sede d Comarca
do Itapecerica.

“Quanto menos tempo decorrer entre o crime e a pena, maior a certeza no espírito do
povo de que não há crime sem castigo.”
“A punição serve de freio aos celerados.”
(C. Beccaria)

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OS COMPADRES

O sertanista Antônio Afonso Lamounier entrou com Inácio Pamplona nos sertões do
Tamanduá em 1765, obtendo sesmaria na serra da Marcela em 1767. Tornaram-se
compadres, em virtude de ter sido Pamplona honrado para ser padrinho de sua filha Ana
Luiza, batizada em Lagoa Dourada, nesse ano de 1767.
Era licenciado em cirurgia, função que viria exercer, mais tarde, o filho homônimo, o
capitão Antônio Afonso Lamounier.

Ao que parece, este compadresco entre o velho Lamounier e Pamplona teve certa
influência na formação, ou melhor, na criação da vila de Tamanduá. Lamounier foi o braço
forte do “conquistador do Oeste”. O visconde, ao resolver “criar uma vila na Conquista do
Campo Grande e Picada de Goiás”, o fez atendendo a reivindicações dos dois sertanistas.

Pamplona, apesar de denegrido pela sua atitude no episódio da Inconfidência, é
credor dos itapecericanos. Sem a sua influência não teria o governador feito vila a freguesia
de São Bento.

Aos “Lamounier” se deve, em grande parte, a expansão do vale do Alto Santana,
Camacho, Candeias e outras regiões. Na formação étnica tiveram suas raízes ligadas aos
Montijos (os Gontijos de hoje), aos Mendonça Ribeiro, Furtados de Souza, Arantes e outros
mais.

A dupla Lamounier-Pamplona não deve ser esquecida. Os compadres fizeram época e
urdiram coisas extraordinárias no passado.

José Gomide Borges
do IHGMG

***

Nada nos garante vencer mas devemos lutar por nossos ideais.

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MUNICÍPIOS

(Trecho da Revista Instituto Histórico e Geográfico de MG – Vol. X-63)

“Os descobertos surgiam em todos os quadrantes do território, por isso mesmo
chamado das minas gerais; e ao lado deles os arraiais, mais ou menos densos, conforme a
maior ou menor abundância de ouro e diamantes, a reclamar vigilância e assistência das
autoridades.
A eficácia das medidas representadas pela criação das vilas dependia da existência
das condições mínimas para o seu funcionamento, tais como a fixação de interesses
econômicos, o elemento humano para as funções públicas e um nível de cultura suficiente
para a formação do espírito comunitário com base nos princípios morais que informaram a
vida social do Brasil desde o início de sua colonização.
Em todo o século dezoito foram criadas somente catorze vilas:

1711 – Vila de Ribeirão do Carmo, hoje Mariana
1711 – Vila Rica, hoje Ouro Preto
1711 – Vila Real do Sabará
1713 – Vila de São João d’El Rey
1714 – Vila Nova da Rainha, hoje Caeté
1714 – Vila do Príncipe, hoje Serro
1715 – Vila Nova do Infante, hoje Pitangui
1718 – Vila de São José d’El Rey, hoje Tiradentes
1730 – Vila das Minas do Fanado, hoje Minas Novas
1789 – Vila de São Bento do Tamanduá, hoje Itapecerica
1791 – Vila de Barbacena
1792 – Real Villa de Queluz, hoje Cons. Lafaiete
1798 – Vila da Campanha da Princesa da Beira, hoje Campanha
1798 – Vila de Paracatu do Príncipe, hoje Paracatu.”

VOCÊ SABIA?
Que em 1881 foi publicado um livreto de 12 páginas sobre nossa terra? Chamava-se
“Memórias sobre o município de Tamanduá, província de Minas Gerais”. Organizadas e
descritas por Marciano Henriques de Araújo, presidente da Câmara Municipal de
Tamanduá, e oferecidas à Biblioteca Nacional para figurar na Exposição de História e
Geografia do Brasil no Rio de Janeiro.

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AUTO DE LEVANTAMENTO E CREAÇÃO DE SAM BENTO
DO TAMANDOÁ
“Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Crispto de mil setecentos e noventa
aos dezoito dias do mês de Janeiro do dito anno neste Arrayal de Sam Bento do Tamandoá
minas e comarca do Rio das mortes onde veyo por ordem do ilustrisimo e Excelentisimo
Visconde de Barbacena, Governador e Capitam general desta capitania das minas geraes,
o Douto Dezembargador Luís Ferreira de Araújo Azevedo profeso na ordem de Crispto, do
Dezembargo de Sua Magestade Fedelisima que Deus goarde, e ouvidor geral e Corregedor
da dita comarca com alsada no civil e crime, para effeito e Levantar a Vila o dito Arrayal;
e logo em execução da dita ordem que neste Livro se acha copiada a folhas huma, com a
instruçam na mesma mencionadas creou, e erigio em vila com todas as Solenidades do
estilo. Levantando Pelourinho no Logar que melhor pereseu a contento, e com aprovação
dos moradores dela, a saber na xapada do Morro que fica para a banda do Sul, por detras
da Igreja matris da predita Vila, por ser o citio maes Comodo, e capas o qual ele dito
Doutor Dezembargador apelideu com o nome de Sam Bento do Tamandoá, e mandou que
com este Titulo fose de todos nomeada e reconhecida, e lhe assinou por Termo todo o
terreno, da parte do termo da Vila de Sam Jozé, que pertense a Freguezia desta dita Vila
de Sam Bento do Tamandoá, ficando servindo de diviza, e Limite entre hum e outro termo,
que divide as ditas duas freguezias o Ribeirão Lambary, athe onde desagoa no Ryo Jacaré,
e dahy em diante o mesmo Ryo Jacaré visto as Moradores, e vezinhos do Arrayal de Nossa
Senhora da Oliveira declararem que lhe hera mais conveniente ficarem no termo da dita
Vila de Sam Jozé. Como se ve do termo de sua declaraçam escripto neste Livro, e por eles
asignado retro, ficando no enquanto as mais confrontações, que servem ao dito termo da
Vila de Sam Jozé, na mesma forma, sem delas se desmembrar terreno Algum; e sendo pelo
dito Ministro examinado, e averiguado quaes herão os distritos, confrontantes com a Vila
de Pitanguy, em que se tinhão sucitado duvidas em prejuizo do Sucego, e tranquilidade dos
habitantes de hum, e outro Territorio, e vindo no conheçimento de serem as perturbações
ocazionadas por orgulho de particulares, que só servem de fumentarem discordias, e
diçenções; e atenta a ordem Regia datada em des de Janeiro de mil e sete centos e oitenta e
tres, que se acha registrada na Camera da dita Vila de Sam Jozé; ficase servindo de deviza
entre o termo desta Vilia de Sam Bento do Tamandoá, e o da dita Vila de Pitanguy, o
destrito chamado Calháo de Sinaque he huma lage, que fica vizinha ao Rio denominado
Pará, e segundo rumo direito par baixo da Serra negra a passagem velha do Rio Sam
Francisco, apelidado à Piraquara, e desta seguindo o mesmo rumo a Pedra Menina, e
dahy a Serra das Saudades, e no mesmo rumo seguir athe confinar com a Capitania da
comarca de Goyaz, asestindo nesta nova creação o Mestre de campo Regente destes
distritos Ignácio Correia Pamplona, como tambóm a Nobreza, e o Povo dela, e se levantou
com efeito do dito Pilourinho, e houve ele dito Menistro por erecta a dita Vila e para
Logradouros, e comodidade dos habitantes dela lhe comsedia e dito Ilustriçimo e
Excelentisimo governador, e Capitão general huma Sesmaria de meya Legua de terra e por
vertude da dita ordem criou os officiaes necessarios de justiça, comduçentes ao bom
regimen dela e mandou se procedeçe a eleição de Pelouros para os offiçiaes que homdem
servir em camera na forma da Ley, e de tudo mandou fazer este auto que asinou e eu João
Pedro Lobo de Araújo Pereira escrivão da ouvedoria geral que o escrevy – Luiz Ferreira
de Araújo Azevedo.

29
AUTO DE ABERTURA DO PELOURO DAS JUSTIÇAS QUE NESTA
VILA ONDEM SERVIR O PREZENTE ANNO

“Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezuz Crispto de mil e seteçentos e noventa
aos dezenove dias do mez de Janeiro do dito anno nessa Vila de São Bento do Tamandoá
minas e comarca do Rio das Mortes em cazas apozentadoria do Doutor Dezembargador
Luiz Ferreira de Araujo Azevedo profeso na ordem de Crispto do Dezembargo de Sua
Magestade Fedelisima que Deos Guarde Ouvidor geral e Corregedor desta dita comarca
com alsada no civel e crime donde eu escrivão ao diante nomeado estava ahy depois do
dito Menistro Proçeder a Pelouros para o futuro das justiças que nesta Vila hondem servir
o prezente anno e os dois futuros para o que procederã Editaes tudo na forma da Ley; em
prezença do dito Menistro foy aberto hum dos Pilouros das Justiças que hondem servir o
prezente anno, o qual logo foy publicado pelo Porteiro dos auditorios Manoel Antonio de
Souza, do qual sahirem eleitos para Juizes ordinarios o Tenente coronel João Pinto
Caldeira, e o Sargento mor Domingos Rodrigues Gondim, e para vereadores o Alferes Jozé
Joaquim Carneiro, Antonio Garcia de Mello, e o Ajudante Jozé Ferreira Gomes, e para
procurador Antonio Joaquim de Avila, e para Thezoureiro Francisco Machado Borges, e
para servir de Juiz de orphãos o prezente anno, e os dois futuros o Sargento Mor Manoel
Alves Gondim, o que tudo se achava escripto e asignado pelo dito Ministro de que todo o
sobredito dou minha ffé, e para de tudo constar fis este auto no qual asinou o dito Ministro
comigo João Pedro Lobo de Araujo Pereira escrivão da Ouvedoria geral que o escrevy –
Azevedo – João Pedro Lobo de Araujo Pereira.”

Ao Governo Provincial. – Officio do Coronel da Legião da G. N. de
Tamanduá dando parte do combate, que teve lugar no sitio de – Caju.
(26 de Julho)

Ilmº. Exmº. Sr. tendo levado ao conhecimento do Exmo. Sr. General das Armas
desta Província, e Commandante em Chefe das Forças Legaes, que dessa Capital marchão
sobre Queluz, e S. João d’El Rei, os acontecimentos mais notaveis depois da epocha em
que officiei a V. Exc., julgo de meu restricto dever leva-los também aos conhecimentos de
V. Exc. ora em que se me offerece a opportunidade de portador.
Depois que forão solemnemente repelidas as proposições absurdas, que o sedicioso
Dr. José Jorge dirigio as Autoridades desta Villa, (48) força foi dobrar de esforços, e
actividades nos meios de neutralisar os planos de aggressão, que por ventura tentassem os
sediciosos contra os Legalistas, sendo hum delles o distribuir Destacamentos por todos os
pontos mais transitaveis em direcção da Villa da Oliveira para esta, Villa Nova da Formiga,
Araxá, e Uberaba.
Ora tendo o Chefe dos sediciosos intimado que se não accedessemos as suas
pretenções até o dia 6 do corrente mez, como foi presente a V. Exc., certo seriamos
accommettidos, destaquei para a estrada do Areado, que da Oliveira se dirige para esta, e
Formiga, uma Força de 60 Praças commandadas pelo Alferes de G.N. Ladislao Ferreira de
Oliveira no mesmo dia 6, e decorridos cinco dias, eis que de improviso desfila a Força dos
sediciosos pela mesma estrada em numero, segundo hoje se sabe, de perto de 400, e ao

30
passar ao campo do Cajú, o Destacamento Legal, então constante de 30 Praças, por estarem
as outras dispersas por pontos visinhos, arroja-se denodadamente ao transito dos sediciosos,
e depois de vivissimas descargas e de fogo continuado por espaço de huma hora, os
inimigos virão-se na necessidade de retroceder em confissão, e debandada, deixando o
campo juncado de muitos cadaveres, treze ponxes, uma reuna, nove cavallos, e doze malas,
excepto outros muitos despojos, que forão extraviados, por se não poder explorar no
mesmo dia o campo por estar visinho a huma mata, em que se embrenharão os mesmos
sediciosos; o número dos feridos foi para mais de 40, sendo que da nossa parte, apenas
soffrerão levemente 3, que já se achão restabelecidos.

Este golpe, Exmº. Sr. descarregado tão opportunamente desassombrou a Villa de
Tamanduá e Formiga, e Oliveira, por que immediatamente as Forças sediciosas organizadas
de gente de Santo Antonio do Amparo, Lavras, Bom Suceso, Claudio, e Perdões,
dispersarão-se cada hum para o seu rumo.
Não é possível, narrando este brilhante feito das Armas da Legalidade, deixar em
silencio a bravura, e denodo com que se portou este Destacamento, merecendo especial
menção o Commandante, e o Instructor José Maria, que também ali se achou, pelas
medidas promptas, e energicas, que desenvolveo.
Em consequencia do que fica expedido cuidei logo em organizar outro
destacamento constante de 15 Praças, que partio no dia 19 do corrente para a Villa da
oliveira, conjunctamente com o Dr. Juiz de Direito do Rio das Mortes, que aqui se achava,
afim de restabelecer naquelle Municipio o regimen Legal, e as Autoridades constituidas,
que tinhão sido esbulhadas pelos sediciosos.
Depois da partida deste Destacamento tem chegado ao meu conheciménto, que
muitos dos sediciosos acossados não só de Lavras do Funil, como de S. João, e mesmo da
Oliveira, e desta Villa, procurárão o Arraial do Cláudio do Municipio da mesma Oliveira,
em distancia desa Villa oito legoas, e ali reunidos procurarão aliciar gente; o logar é difficil
em suas entradas, e por isso demanda não só maior numero de Praças, como Officiaes
habeis, affim de que se não sacrifiquem alguns Legalistas, por isso reclamo de V. Exc.,
alguns auxilios de Tropa, que trabalhe de harmonia, e combinação com a que existe nesta
Villa, e na Oliveira, sendo este o único, e principal motivo por que me não tenho dado
pressa em procura-los, e dispersa-los, dispersando-nos na defensiva.
Constando-me que alguns G.N. forão iludidos pelos sediciosos, e hoje se apresentão
arrependidos procurando o Quartel da Legalidade, solicito de V. Exc. o esclarecimento
necessario, e se devo recebê-los.
Deos Guarde a V. Exc. Quartel do Commando da Força da Legalidade reunida em
Tamanduá, 26 de Julho de 1842. Illmº. e Exmº. Sr. Bernardo Jacinto da Veiga, Presidente
desta Província de Minas Geraes – Narciso Ferreira de Oliveira, Coronel Chefe da Legião,
e Commandante.
Deus Guarde a V. Ex. por muitos annos.
Villa de Pouso Alegre, 15 de Agosto de 1812. Illmº. Exmº. Sr. Paulino José Soares
de Sousa, Ministro e Secretario d’Estado dos Negócios da Justiça – Julião Florencio Meyer,
Coronel chefe da Legião.

31
Com essa Força marchou também o Juiz de Direito interino da Comarca do Rio das
Mortes (Manoel Antônio Fernandes) que se havia reunido aos Legalistas de Tamanduá
depois que a Cidade de S. João d’El Rei, e a Vila da Oliveira forão occupadas pelos
rebeldes.
Também acabo de ter certeza de achar-se ocupada a Cidade de Sabará por huma
Columna Legalista, comandada pelo Coronel Manoel Antonio Pacheco, que ali entrou entre
mil demonstrações de jubilo da população, que alguns dias estivera opprimida sob dominio
dos rebeldes.

Governo Provincial – Portaria louvando a conducta da Forças de
Tamanduá no combate do Cajú
O Presidente da Provincia accusa a recepção do Officio, que em data de 26 de
julho p.p. lhe dirigio o Sr. Coronel Narcisio Ferreira de Oliveira Chefe de Legião de G. N.
do Municipio da Villa de Tamanduá expondo o brilhante feito das Forças da Legalidade
contra os rebeldes no campo do Cajú, e em resposta tem a declarar que muito digna de
louvor é certamente a bravura e denodo, com que os Tamanduenses repellirão os rebeldes,
alias em numero muito superior, prestando assim os mais importantes serviços a Causa
Publica; e que o Governo reconhecendo-os espera o que o mesmo Sr. Coronel fará chegar
seus agradecimentos a todas as Praças que compunhão o Destacamento alli estaccionado,
especialmente ao Alferes Ladislau Ferreira de Oliveira, e ao Instructor José Maria.

Quando porém ao reforço que pede para o Municipio de Oliveira, resolveo
igualmente declarar-lhes que segundo as ultimas participações recebidas daquela Villa, e
das ultimas occorrencias que tem havido a respeito dos rebeldes, que apenas conservão,
alguma Forças para alem da Cidade de Sabará, e essas mesmas seguidas pelo Exercito
Pacificador, que tem à sua frente o distincto General Barão de Caxias, não se faz mais
mister tal auxilio.

Quanto finalmente, aos esclarecimento que solicita o Sr. Coronel a respeito de
alguns G. N., que tendo sido illudidos pegarão em armas, mas que arrependidos se
apresentarem, são elles satisfeitos transmittindo-lhe o incluso Edital do Exmº. General
Barão de Caxias.

Ouro Preto, Palacio do Governo, em 18 de Agosto de 1842 – Bernardo Jacinto da
Veiga – Ao Sr. Coronel Naciso de Oliveira.

***

“A ciência dos projetos consiste em prevenir as dificuldades futuras.”
(Vauvenargues)

32
TRECHOS DO LIVRO “VIAGEM ÀS NASCENTES DO RIO SÃO
FRANCISCO” POR AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE
ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO

Eu já disse que os lavradores da Comarca de São João del Rei eram mais
desleixados com suas casas do que os fazendeiros dos distritos auríferos. É evidente que
essa parte da comarca, mais afastada dos centros de civilização do que o resto da Província
de Minas, não constitui exceção. A propriedade de Cachoeirinha, situada um pouco antes
de Tamanduá, tem três léguas de comprimento por duas de largura. Vi aí uma quantidade
considerável de gado vacum, de porcos e de carneiros. Seu proprietário, o Capitão-Mor
João Quintino de Oliveira, vendera nesse ano, no Rio de Janeiro, porcos no valor de dois
contos de réis. Era um homem educado e cuja mesa atestava se sobra a sua riqueza. Não
obstante, a casa que ocupava era quase tão mal cuidada e modesta quanto as que eu vira em
todas as outras fazendas. Ficava situada, como as senzalas, ao fundo de um vasto terreiro e
rodeada por mourões que tinham a grossura de uma coxa e a altura de um homem, tipo de
cercado muito em uso na região. Da varanda, bastante ampla, em cuja extremidade fora
erguido um pequeno oratório, passava-se para uma grande peça coberta de telha-vã e de
paredes sem caiação, cuja única mobília consistia em alguns bancos de madeira, tamboretes
forrados de couro e uma enorme talha com um caneco de ferro esmaltado para retirar a
água. Os poucos quartos que davam para essa sala eram pequenos e não apresentavam
mobiliário mais variado.
Depois de Tamanduá, principalmente, já nos limites do sertão, as casas da sede das
fazendas se compõem de várias edificações isoladas, mal construídas, e dispostas sem
ordem.
A estrada que leva a essa fazenda atravessa terras mais montanhosas que as que eu
percorrera nos dias anteriores. Os vales são mais profundos, as matas mais extensas, e só o
alto dos morros é coberto de capim. O morro mais elevado das redondezas ergue-se acima
de um pequeno curso de água denominado Camacho, e do seu cume se descortina uma
vasta extensão de terras. Encontrei aí algumas plantas que ainda não tinha visto desde o
início da minha viagem.
A pouca distância do Morro de Camacho vê-se no fundo de um vale um pequeno
lugarejo denominado Curral e formado por uma meia dúzia de casinhas construídas junto a
uma fazenda de certas dimensões. Desse ponto até Cachoeirinha a distância é de apenas
uma légua e meia.

Já descrevi em outra parte a fazenda da Cachoeirinha, cujo proprietário, João
Quintino de Oliveira, Capitão-Mor de Tamanduá, me recebeu com perfeita cortesia. A
fartura de sua mesa não condizia com a pobreza de seus alojamentos. A comida era
abundante e seria considerada excelente em qualquer país. Diante de cada conviva havia
um garrafão de vinho-do-porto de ótima qualidade, acompanhado de um pãozinho
saborosíssimo, o que era realmente uma raridade. O dono da casa desmanchava-se em
gentilezas, mas sem afetação, no que era secundado pelo seu capelão.
Eu fora tão bem tratado na casa do Capitão-Mor e ele me cumulara de tantas
atenções que foi com pesar que o deixei. Esse homem trazia a bondade estampada na sua
fisionomia e tinha sabido granjear a estima de todos os seus vizinhos.

33
José Mariano partira na frente com o resto da tropa e devia esperar-me na fazenda
de um certo Marcos, distante duas léguas de Cachoeirinha. Quanto a mim, fui até
Tamanduá acompanhado do advogado dessa cidade, do ajudante do capitão-mor e do
cirurgião, que tinham ido passar dois dias na fazenda. Durante todo o tempo em que estive
com eles a conversa gioru quase que unicamente sobre a França. Os mineiros nunca se
cansavam de ouvir falar de Napoleão Bonaparte e da história trágica de nossa revolução.
Tamanduá, onde logo cheguei, deve sua fundação a um punhado de criminosos que
fazia uns cem anos tinha ido procurar asilo no meio das matas cerradas da região. pelo fato
de terem matado um papa-formigas no local, onde se tinham instalado, esses homens deram
ao lugar o nome de Tamanduá, que tanto em português, como em guarani, designa o
comedor de formigas. Descobriu-se ouro ali, a população do lugarejo foi aumentando, e em
1790 o arraial foi elevado a cidade, durante o governo de Luís Antônio Furtado de
Mendonça, Visconde de Barbacena,, capitão-geral da Província de Minas.
Ainda se vêem nos arredores de Tamanduá algumas lavras de extensão
considerável, que hoje estão inteiramente abandonadas. Elas forneceram muito ouro, que no
entanto foi dissipado pelos que o recolheram e cujos descendentes vivem atualmente (1819)
de esmolas – um triste exemplo das conseqüências da mineração e de uma imprevidência
demasiadamente comum entre os mineiros.
Os atuais habitantes de Tamanduá são em sua maioria agricultores que só vão à
cidade aos domingos e nos dias de festa. Há também alguns negociantes e trabalhadores
comuns, além dos indigentes, que se aproveitam da abundância existente na região para
pedir comida ora numa casa, ora outra, e passam a vida na ociosidade.
Sede de um termo e de uma paróquia, Tamanduá é administrada por juízes
ordinários. Sua população (em 1819) conta com 1.000 habitantes aproximadamente, e a do
território sujeito à jurisdição da paróquia, que se estende num raio de mais de duas léguas,
soma 3.000. Finalmente, a do termo todo tem de 24 a 25.000 habitantes, estendo-se o seu
território por 30 léguas na direção norte-sul e 16 de leste a oeste. O número de habitantes da
região aumentou bastante depois que começou a se desenvolver ali a agricultura e a criação
de gado.
O fumo é uma das plantas mais extensamente cultivadas nos arredores de
Tamanduá, sendo esse produto exportado em quantidades consideráveis.
Contam-se 36 léguas de Tamanduá até Vila Rica, 24 até São João del Rei e 32 até
Sabará. A cidade está situada num vale e é rodeada de morros bastante elevados e cobertos
de matas. Suas ruas são inteiramente irregulares, cheias de pedras e de ladeiras. As casas
são geralmente isoladas uma das outras e cercadas por muros, tendo algumas uma aparência
bastante bonita. Não obstante, quando se contempla a cidade de um ponto mais elevado a
sua própria irregularidade produz um efeito muito agradável na paisagem. No seu conjunto,
a cidade oferece um belo contraste contra o verde sombrio das matas que a rodeiam de
todos os lados, não somente devido à brancura das paredes de suas casas e ao colorido dos
telhados, mas também, e em especial, por causa da posição das casas, que parecem lançadas
no meio das massas de verdura formadas pelas bananeiras e laranjeiras que enchem os seus
quintais.
Tamanduá possui três igrejas: a de S. Francisco de Paula, a igreja paroquial,
dedicada a São Benedito, e a do Rosário. Há também duas capelinhas, mas que não são
dignas de menção.
Segundo me disse o cirurgião da cidade, a hidropisia é ainda a doença que causa o
maior número de mortes na região, não sendo rara também, ali, a lepra.

34
Não posso deixar de mencionar aqui dois fatos que me foram contados pelo mesmo
cirurgião. O primeiro ocorreu em tamanduá e me foi narrado na presença de várias pessoas,
que não o desmentiram. Um cão que se supunha hidrófobo mordeu vários indivíduos, mas
em nenhum deles as conseqüências foram além das dores causadas pela mordida. Um dos
homens tinha pedido a um padre que orasse por ele, e julgou poder atribuir sua cura a essas
preces. Passado algum tempo voltou a procurar o padre e lhe falou sobre algumas coisas
que sentia. Em resposta, o eclesiástico lhe disse que não lhe convinha considerar-se curado,
e o aconselhou a se medicar devidamente. O homem retirou-se apavorado e nesse mesmo
dia, ou no dia seguinte, teve um ataque de hidrofobia e morreu dessa terrível moléstia.
O segundo fato passou-se em Caeté, onde se achava então o cirurgião. Um homem
atacado de morféia foi mordido por um cão raivoso. Quando se manifestaram os primeiros
e terríveis sintomas da doença prenderam-no dentro de um quartinho. Sua mulher, ao lhe
levar a comida, horrorizou-se com o seu estado e saiu correndo, deixando aberta a porta do
quarto. O doente fugiu e se pôs a correr pelos campos. Algumas horas mais tarde ele
reapareceu, inteiramente calmo, dizendo que tinha sido mordido por uma cascavel e
pedindo a presença de um padre. Confessou-se com ele, completamente lúcido. A ferida
causada pela mordida da cobra foi medicada com amoníaco. A partir desse momento
cessaram todos os sintomas da hidrofobia, e passado algum tempo a lepra desapareceu
completamente.
Depois de ter almoçado em Tamanduá, na casa do capitão-mor, parti acompanhado
do tal de Marcos, de quem já falei e em cuja casa eu esperava encontrar os meus
acompanhantes.

Itinerário aproximado da cidade de Tamanduá à Serra da Canastra:

De Tamanduá à Formiga 4 léguas
De Formiga a Ponte Alta (fazenda) 4 léguas
De Ponte Alta a S. Miguel e Almas (fazenda) 4 ½ léguas
De S. Miguel e Pium-I (arraial) 2 ½ léguas
De Pium-I a D. Tomásia (fazenda) 3 ½ léguas
De D. Tomásia a João Dias (fazenda) 3 ½ léguas
De João Dias a Serra da Canastra 6 léguas

35
ITAPECERICA – 200 ANOS

Nossa preocupação com a verdade dos fatos vem de longe pois, já no curso
primário, aprendemos as datas históricas relacionadas com Itapecerica; e se tornou pública
em julho de 1972 quando, através do jornal Janelão, instituímos um concurso com o tema:
“a verdadeira idade de Itapecerica: provas”, publicando posteriormente um resumo de datas
e documentos encontrados. Em outubro de 1982, convidada para oradora oficial,
novamente, levantamos a questão e em 1985 publicamos um folheto “A grande mentira”.
Através do jornal Quatro Bicas (1987/89), no rádio e em palestras, mostramos ao
povo as datas e os fatos. Hoje muita gente se conscientizou da realidade e estamos
iniciando o ano do bicentenário, mudando a data das comemorações, juntando forças e
convidando a população para unida refazer em Itapecerica aquela cidade tradicional,
histórica, culta e ativa que foi.
Contar casos e ser saudosista é uma forma de reavivar o patriotismo e o amor à terra
natal. Conhecer os vultos ilustres é aproveitar sua experiência para construir um futuro
digno. Uma cidade é feita de pedras, de fatos, de almas; precisa sobretudo de
governantes conscientes daquilo que é essencial. Acreditamos estar iniciando um período
brilhante marcado pelas comemorações do bicentenário e, mais uma vez, para que todos
saibam, vejamos as datas:

1676 – Lourenço Castanho Taques abrindo clareiras;
1733 – Primeiras palhoças;
1739 – Feliciano Cardoso de Camargos e Estanislau de Toledo e Pisa, descoberta do
ouro, denominação Conquista do Campo Grande da Picada de Goiás, povoado Casa da
Casca do Tamanduá.
20.11.1789 – Criado o 10º município de Minas Gerais com a denominação de Vila
de São Bento de Tamanduá, fixados os limites de seu termo com 34 distritos;
18.01.1790 – Solenidades de estilo levantando-se o pelourinho na Chapada do
Morro da Banda Sul por detrás da Matriz.
04.10.1862 – Lei 1148: mudança do nome de vila para cidade de Tamanduá. A
emancipação político-administrativa acontecera porém, como para todas as outras cidades
coloniais, na data da criação do município: em 1789;
19.10.1882 – Lei 2995: mudança do nome de Tamanduá para Itapecerica.

Fomos informados que as comemorações de aniversário com base no ano de 1862
por engano, foram iniciadas por volta de 1945 e depois continuaram sendo feitas assim. na
verdade, o 10º município de Minas Gerais, criado no período colonial, nunca poderia ter
nascido em 1862. Fizemos um comparativo de datas dos municípios e consulta ao Instituto
Histórico de Geografia de MG que também confirmou expressamente os DUZENTOS
ANOS e assim fica então concluído.

Em Itapecerica, 26 de março de 1989.

(a) Célia Lamounier de Araújo
Presidente da Academia Itapecericana de Letras e Cultura

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JEFFERSON RIBEIRO FILHO

A COMARCA

Grato pelo mandado do M.M. Juiz, da digna Representante do Ministério Público e
dos ilustres colegas advogados, todos muito amigos, para que hoje, a 17 de março, fossem
lembrados, com uma humilde solenidade, os 150 anos da criação da nossa comarca, ou
melhor, da comarca do Rio Grande, com sede em Tamanduá e que nos designaram para
fazer uma ligeira palestra alusiva ao significativo evento. Nesta escolha, o mérito está na
nossa ancianidade.
Façamos um retrospecto da organização da justiça em nossa terra. Surgida a
povoação, com a exploração de ouro, nos idos de 1739, há portanto, 250 anos, ela cresceu
rápida e já a 18 de junho de 1744 aqui chegaram representantes da Câmara Municipal de
São José Del Rei, da Comarca do Rio das Mortes, que lavraram um auto de posse no lugar
do descobrimento do Tamanduá e Arraial de São Bento, e foram nomeadas as primeiras
autoridades administrativas e judiciárias: Juiz da Vintena: Joaquim Pereira; seu escrivão:
Manoel da Silva Graal; tabelião para aprovar testamento: Miguel da Costa e guarda-mor:
Feliciano Cardoso Camargos, fundador da povoação.
O distrito progrediu e cresceu, sendo a Freguesia criada em 1757, e declarada
colativa em 1780.
Em 20 de novembro de 1789 foi criada a Vila de São Bento do Tamanduá, instalada
a 18 de janeiro de 1790 a 20 do mesmo mês. A vila limitava-se com São José Del Rei,
Pitangui, rumo à Pedra Menina, Serra da Saudade até confinar com a Capitania de Goiás.
Era Regente do Distrito o Mestre de Campo Inácio Corrêa Pamplona, de triste memória na
Inconfidência Mineira. Foram, então, eleitas as autoridades administrativas e judiciárias,
uma vez que as vilas eram, então, não só sede do município, como termo judiciário. Foram
as seguintes: Juiz Ordinário: Tenente Coronel João Pinto Caldeira; Sargento-mor:
Domingos Rodrigues Gondim; Vereadores: Alferes José Joaquim Carneiro, Antônio Garcia
de Melo e o ajudante José Ferreira de Araújo Azevedo, que designou para servir naquele
ano e nos dois seguintes, como Juiz de Órfão, o Sargento-mor Manoel Alves Gondim.
Os juízes ordinários processavam e julgavam todas as questões que não
competissem aos juízes extraordinários e os juízes de órfãos deveriam zelar pelas causas e
bens dos órfãos.
Após estas rápidas notícias sobre o município de São Bento de Tamanduá,
recordemos que a Vila era a sede do Termo Judiciário, possuindo juiz ordinário e juiz de
órfãos, que eram eleitos anualmente e, portanto, foram numerosos até a criação da comarca.
Esta se deu a 16 de março de 1839, criando a comarca do Rio Grande, constituída de
Tamanduá, sede, Vila Nova de Formiga e Oliveira.
Já a Lei 464, de 22 de abril de 1850, dando nova organização judiciária ao Estado,
fixou que a comarca do Rio Grande fosse constituída de Tamanduá, sede, Formiga e
Piumhi.
De novo, outra organização judiciária declarou que os municípios de Tamanduá,
sede, Formiga e Oliveira constituiriam a comarca do Rio Pará, pela Lei 1391.
A Lei 1740, de 8 de outubro de 1870, declarou que seria a comarca do Rio Grande
composta de Tamanduá, sede, Formiga e Piumhi.
Em 1872 passou a se chamar comarca do Itapecerica, formada por Tamanduá, sede,

37
e Santo Antônio do Monte.
Somente após a República foi criada a comarca de Inhumas, hoje Santo Antônio do
Monte, desmembrada da comarca de Itapecerica.
A eleição de juízes municipal e de órfãos foi feita até 1857, quando passou a ser o
mesmo nomeado e com a exigência de ser bacharel.
Não vamos enumerar todos os juízes de direito e municipais e de órfãos que
passaram pela comarca, dado o seu elevado número, mas, indicar alguns mais assinalados.
O primeiro juiz da comarca foi Dr. Manoel Jacinto Rodrigues Véo, que exerceu o
cargo até dezembro de 1845, quando foi brutalmente assassinado no Arraial de Campo
Belo, onde se achava em diligência.
O primeiro juiz municipal e de órfãos, eleito após a criação da comarca, foi Egídio
de Souza Gonçalves e o primeiro nomeado foi o Dr. Bernardo Jascinto da Veiga, em 1857.
Entre os juízes municipais estão em nossa lembrança o conterrâneo Dr. Francisco de
Assis Tavares, covardemente assassinado, numa tocaia, quando estava em diligência, no
ano de 1882, no interior da comarca.
Assinale-se o juiz de direito Dr. José Afonso Lamounier Júnior, casado com uma
nossa tia materna, que foi depois juiz de direito em Tiradentes e em outras comarcas,
chegando a Desembargador do antigo Distrito Federal, Rio de Janeiro, os drs. Antônio
Ribeiro Pena, José de Castro Pires e Osvaldo Abrita.
Juízes de direito: o Dr. Afonso Cordeiro Negreiros Lobato, que substituiu o
primeiro juiz Dr. Rodrigues Véo. Outros juízes de direito: Drs. Augusto Celso Nogueira,
Carlos Pereira Tinoco, Guido Cardoso de Menezes e Souza, Joaquim Daniel Pereira de
Melo, Benito Esteves Oscerinjarequi, Gorazil de Faria Alvim, Erotides Diniz, Agenor de
Sena Filho, Hélio Costa, Eurípedes Corrêa de Amorim, Fernando Gomes de Morais, Célio
Valle da Fonseca, Tito Lívio de Souza, Jefferson Monteiro, Isnar Soares Pena e, finalmente,
o Dr. Rafael Afonso de Andrade Leite. Todos estes conhecemos e tivemos a felicidade de
conviver e de trabalhar com eles, desde o Dr. Joaquim Daniel Pereira de Melo.
Citaremos aqui os nomes de alguns promotores, desde que nossas pesquisas não
alcançaram todos os nomes e, muitos deles, eram promotores adjuntos e não bacharéis.
Sabemos, por exemplo, que em 1880, era promotor e Dr. Ilídio Salatiel dos Santos,
e em 1893 o Dr. Júlio Belegrade Freire Xavier; em 1895 o Dr. Artur Ferreira Diniz.
sEguiram-se os drs. Oscar Bhering, Amasílio Moreira Pena, Joaquim Pereira da Silva,
Eduardo Ferreira Alves, João Cleto Corrêa Mourão, Paulo Lessa, José Meira, José Torres
Duarte, Waldir de Barros, Sílvio Pélico Piló, Dario Abranches Vioti, Renato Gomide Leite,
Sálvio José Seixas de Siqueira e, finalmente, com brilho e inteligência, a Dra. Vanda Fraga
de Oliveira.
Entre os adjuntos quero, especialmente, lembrar o nome do meu querido pai
Jefferson Ribeiro, que, sendo engenheiro agrônomo, gostou tanto da função que se
provisionou e por mais de 25 anos advogou na comarca. Relembro, também, com carinho, a
figura do Dr. Severo Rios Corrêa que, como adjunto, exerceu as funções por vários anos,
com grande dedicação. Finalmente, o Dr. Carlos Maia, culto, correto e capaz.
Os colegas advogados nos perdoem. Já abusamos em demasia do tempo de todos e
há uma audiência a seguir.
Muito obrigado.

Jefferson Ribeiro Filho – 1989
***

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Obs.: Pela Rádio Difusora de Itapecerica, todas as famílias da cidade foram convidadas a
participarem deste livro com fotografias.

“Jovem, o Brasil somos nós.
Devote-se ao Brasil junto comigo.
Nós temos que dar uma alma ao Brasil”.
Mário e Andrade – 1925

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DOM ANTÔNIO CARLOS MESQUITA

Nasceu em Itapecerica aos 13 de outubro de 1923, filho de Carmelo Mesquita e
Maria Blandina Mesquita.
Freqüentou o Grupo Escolar “Severo Ribeiro” tendo como professoras Dona Rosa
Branca Rabelo e Ofélia Ribeiro de Castro. No início do quarto ano primário ingressou no
Seminário Coração Eucarístico de Jesus, em Belo Horizonte. Cursou Filosofia e Teologia,
ordenado sacerdote do Senhor, no dia 8 de dezembro de 1947, pela imposição das mãos de
Dom Antônio dos Santos Cabral, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte.
Cantou sua primeira missa solene na Igreja Matriz de São Bento, em Itapecerica,
onde fora também batizado e crismado.
Secretário Particular de Dom Antônio dos Santos Cabral, em 1948 a 1949 – Diretor
Espiritual do Seminário Menor e professor, em 1950-1951 e 1952, Vigário de São
Sebastião do Oeste.

Vigário Coadjutor em Nova Lima, em 1952, de agosto até dezembro. Volta para o
Seminário, sendo Diretor espiritual de todo o Seminário (Maior e Menor).
Em 1955, Vigário de Santa Quitéria em Esmeraldas, onde construiu a Nova Matriz,
aumentou o cemitério Paroquial, fundou o Lactário, Diretor do Ginásio “Santa Quitéria” e
professor de religião, latim e francês. Foi transferido para Belo Horizonte, em 1964, como
Vigário de Santa Rita de Cássia, no bairro S. Pedro – Incentivou a devoção à Santa Rita,
organizou obras sociais – Em 1974, o Papa Paulo VI o nomeou Bispo Coadjutor e
Administrador Apostólico “sede plena” de Oliveira trabalhando ao lado de Dom José
Medeiros Leite que o enviara ao Seminário, graças a boa vontade também de Mons. Leão
Medeiros Leite.

Sagrado a 29 de junho de 1947, na Matriz de S. Pedro, no Alto Floresta, por Dom
João Resende Costa, Arcebispo de Belo Horizonte.

Tomou posse no dia 14 de julho do mesmo ano – Passou a ser Bispo Diocesano de
Oliveira, no dia 6 de março de 1977, com a morte de Dom José Medeiros Leite – Em 1983,
o Papa João Paulo II o transfere para Bispo de São João Del Rei, tomando posse no dia 19
de fevereiro de 1984 – Reformou a Residência Episcopal, o Seminário Diocesano São
Tiago, em 9 anos já ordenou 15 sacerdotes a serviço da Diocese, reorganizou a Pastoral, e
realizou três Assembléias diocesanas de Pastoral.

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CARMELO MESQUITA

Saúdo, com reverência e amor, aquele que Deus escolheu para ser o meu pai, na
terra: Carmelo Mesquita.

A evocação da figura de Carmelo Mesquita provoca em meu coração de filho vários
sentimentos: gratidão, amor e muita saudade.

Ao lado de minha mãe, Maria Blandina, soube cumprir sua missão, ser o
instrumento de Deus, para comunicar a muitos filhos o dom da vida e o dom de graça
divina.

Podemos dizer que realizou como sacramento do Pai sua missão de nos preparar
para a vida, moldando-nos força, caráter e nobreza de vida.

Homem do trabalho, soube em vários misteres ganhar o necessário sem luxo e
vaidade para ajudar a seus filhos na luta pela vida.

Seu amor pela arte, especialmente pela música, demonstra a delicadeza de sua alma,
nos acordes festivos de seu violino, alegrando a todos nós e cantando os louvores de Deus e
Nossa Senhora das Dores, nas santas missas, setenários e procissões de Nossa Senhora,
como também nas retretas e festas civis.

Saúdo a meu Pai, com as palavras da Sagrada escritura:
Elogiemos os homens ilustres que exerceram sua autoridade, vivendo em paz em
suas casas, que compuseram cânticos melodiosos e escreveram narrativas poéticas, sua
descendência permanecerá para sempre e sua glória jamais se apagará.

“Quando vosso amigo se cala, vosso coração continua a ouvir seu coração...”
(Gibran)

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FESTA DE NOSSA SENHORA DO CARMO

Dom Antônio Carlos Mesquita – 16.07.86

Festa de Nossa Senhora do Carmo! Monte Carmelo*!

Alegremo-nos todos no Senhor. O carmelo é cantado na Bíblia pelo seu encanto e
beleza – Daí a significação do nome em hebráico: “Karmel – Pomar.
Monte que se eleva do mar com 20 km de comprimento a atinge seu cume com uma
altitude de mais de 700 metros. Chamado Monte do desafio, pois lá Elias, pela sua oração,
como verdadeiro profeta desafiou os sacerdotes do ídolo “BAAL”, mostrando, através do
fogo que desceu do céu, consumindo a vítima do sacrifício, que Javé era o único e
verdadeiro Deus – Monte Carmelo nos lembra aquela nuvenzinha branca que Elias divisou
na fímbria do horizonte, que avançou crescendo até ao Monte e fez cair chuvas abundantes
sobre a terra assolada pela sede e fome, conseqüência de uma seca de vários anos – Lá
viveram em comunidade vários profetas – Com o cristianismo, no século XII, muitos
cristãos se reuniram para se consagrarem a Deus, vivendo no silêncio, no jejum e na oração
sob o patrocínio de Nossa Senhora, invocada sob o Título de Nossa Senhora do Carmo.
Portanto “Carmelo” evoca Maria – Sabemos que Maria ocupa lugar importante na
vida cristã, pois ela, como a nuvenzinha, faz cair sobre a humanidade as chuvas das graças
divinas que se encontram em J. Cristo.
Ela é, na verdade, a Mãe da Graça, porque Mãe de Jesus, a graça por excelência, o
dom que o Pai nos doou para que todos tivéssemos a vida em abundância.
A graça é a própria vida de Deus que nos é comunicada. No seio virginal de Maria,
o Filho do eterno Pai, por obra e graça do Espírito Santo, se encarnou por nós homens e por
nossa salvação, tornando-nos assim participantes da natureza divina.
Como um raio de luz, atravessando a vidraça, recebe dela forma, cor e feitio, assim
a graça divina, merecida por Jesus só pode chegar até nós por meio Dele. Por isso, Cristo
reproduz em nós o seu próprio desígnio, a sua mesma imagem e nos configura cada vez
mais a sua própria pessoa – Pela graça o Pai se nos comunica sempre mais, gerando em nós
seu Filho no Espírito Santo que nos transforma em amor, estabelecendo em nós sua
morada. Tudo isso, através de Maria, Senhora do Carmo, nossa querida Mãe.

FLOR DO CARMELO SALVE, SALVE
NOSSA ALEGRIA MARIA

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CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO
(cadeira nº 13 – Poesias e Jornalismo)

Filha de Raymundo Nonato de Araújo e Isaura Lamounier de Araújo, funcionária do
Tribunal de Contas, advogada, divorciada, mãe de Iula, Ian e Iudja, avó de Laíssa e Célio.
Sócia fundadora das Academias de Letras de Ipatinga e Itapecerica, sócia da Academia
Municipalista de MG e Academia Feminina Mineira de Letras e sócia correspondente de
várias outras. Foi Presidente da UBT seção Vale do Aço, vice-pres. Do Conselho estadual
da UBT/MG e secretária da UBT/BH.

Coordenadora da 3ª Mostra Cultural Campo das Vertentes/87 com a participação de
7 cidades em 7 dias realizada em Itapecerica, rainha do carnaval e uma das “Dez Mais” em
1987. Exerceu as atividades de auxiliar de escritório, recepcionista, datilógrafa, telefonista,
professora de português, matemática, desenho e educação física, secretária, revisora,
radialista, atriz, soprano no Coral de Vozes da Academia Cesário Mendes, colunista, jurada
e editora tendo recebido vários diplomas literários, em recitais e concursos. Foi responsável
pelo programa radiofônico “Meia Hora com Célia” de 03/86 a 11/88 e organizou o 2º e 3º
Concurso Nacional de Trovas de Itapecerica.

Publicações: Jornais Janelão, Itapecerica, Diário da Manhã e Quatro Bicas, como
editora; colaboradora Folha do Comércio, Sempre, Transa Democrático. Diário do Aço,
Revista Gente, O Vale do Aço. Suplementos literários “Motivo” semanal, “Uma poesia
de...”, “De Alma, de Letras, de Aço” e a coluna diária social “O comum-incomum-idade”.
Organização, revisão e prefácio dos livros Abismos da Vida, Minha Voz, Canção da Vida e
Retalhos d’Alma, livretos de trovas Cidade Itapecerica, Cidades e Trovadores, de poesias
com As quatro faces do pensamento de Célia. Participação em antologias: 2ª coletânea de
Colares, Trovas sobre mar e saudade, Mil trovas da Ediouro, Anuário de Poetas Brasileiros,
Cascata de Versos, Ipatinga/88, V Ant. Poetas e Esc. do Brasil v. XIII/90, Literatura Maior,
Enciclopédia de Literatura Brasileira Fae/90. Dicionário de Poetas Contemporâneos.

Publicou Entardecer de Lágrimas e Sirgas e Organsins. Tem inéditos os livros
Crônicas e Discursos, Poesias e Cartas.

“Homem, grão de poeira”
“Homem, às vezes, grão de ouro
misturado entre grãos de areia”.
(Rosalina Coelho Lisboa)

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ODE A TAMANDUÁ
Célia Lamounier de Araújo

As musas evoco Oh! grandes senhores
os deuses conclamo nas bicas beber
Polímnia invoco na terra das flores
a cantar quem amo queremos crescer
- e Tamanduá. com Tamanduá;
Oh! Montes erguidos Há pedras de ouro,
seus olhos olhar granitos, grafite,
são sete sofridos na bolsa de couro
pontos a fechar daquele que habite
um Tamanduá. em Tamanduá.
Capoeira, Calado Não sinto sentida
Pedra Grande, Andreza passar a maldade
Cachorro, Água Santa de ver refletida
Candonga, que beleza tamanha saudade
de Tamanduá. do Tamanduá.
Riacho Vermelho E que um outro nome
o dia já vem - Itapecerica -
um índio no espelho o velho lhe tome
cataguá também fazendo mais rica
no Tamanduá. a Tamanduá.
Senhor Bom Jesus, Aceito risonha,
São Bento, guardai somando nas pedras,
nas matas sem luz que o tempo componha
os filhos amai a história que engendras
por Tamanduá. BiTamanduá...

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ODE A TAMANDUÁ
Célia Lamounier de Araújo
Troféu ERRIENE no 1º Salão
de Poesia em 18.01.90

Venho cantar-te, ó cidade! Muitos filhos de valor
Venho feliz de verdade políticos e orador
exaltar a tua idade doutor, cantor, professor

Raramente alguém completa De tudo a Vila fazia
duzentos anos discreta plantava e tudo crescia
sem acordar um poeta majestosa igreja erguia

E assim sendo, eis-me aqui Índio cataguá passou
não saio mesmo daqui Capitão-mór perdoou
sem fazer o teu croqui: Nosso Reinado ficou

Natureza verde-densa Junto à vila, seus distritos
de presente terra imensa foram crescendo e aos gritos
celebrada pela imprensa formaram outros benditos

Nasceu a Vila em bom ano Tamanduá pequenina,
sob a lei do lusitano Duzentos anos, menina!
lutando por novo plano Das rosas, urbe divina.

Cresceu... e foi a princesa Teu solo é ninho amoroso
do Oeste de Minas presa teu verde é manto cheiroso
de bens, cultura e beleza teu povo, o mais carinhoso...

Abraço Tamanduá.

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TROVAS
Célia Lamounier de Araújo

Na velhice solitária Na UBT o Delegado
ensina aos jovens feliz de verdade é trovador:
que a vida é meta diária prende com versos folgado
e o tempo é força motriz. sem algemas e sem dor.

Vem e vai, o mar trabalha, A madeira retalhando
vem e vai é persistente, GTO em frente e verso
tal o mar, vou na batalha anjos e santos moldando
dia a dia vou contente. formou um novo universo.

O carteiro leva cartas O brasileiro, caramba,
é uma linda profissão, é um artista circense
em suas sacolas fartas que anda só na corda bamba
leva nosso coração. e sorrindo a tudo vence...

Trabalhar Filosófica
Por um mundo de justiça Vai em paz, segue a jornada
onde haja compreensão Que Deus te traçou da cruz
onde o egoísmo e a cobiça vence a vida atribulada
se desfaçam na oração. caminha em busca da luz.

É belo ser trovador Lembra, criança, que o tempo
sentir o verso do irmão passa ensinando a viver:
cantar a vida com amor o passado é entretempo
dando todo o coração. para o futuro vencer.

Devagar, devagarinho A vida que nos foi dada
ele pediu-me um brinquedo é uma jornada esquisita
e o coração de mansinho que nos leva ao fim da estrada
dei de presente, sem medo. para uma estrada infinita.

Desliza a vida qual rio Nós dois, pela madrugada,
levando as almas quebradas de mãos dadas pela rua
vazias... sem o elogio vamos em busca de nada
vão-se n’água naufragadas. castelos de amor na lua.

50
LÍRICAS
CLA

Nº 1 – Lírica do Amor

E pela madrugada
a cidade ainda dorme...
mas o céu veio para a terra
está no corpo dos homens
está na alma das mulheres
está no espírito das luzes
que cintilam como estrelinhas.

Toda gente pode ser estrelas.
Nº 3 – Líricas da Verdade
Nº 2 – Lírica da Vida
Estamos sós... filosofar
Nosso idílio Filosofia pôs-se a voar
passou como o vento sobra-nos tempo... pensar
que varre as impurezas na vida e morte
passou como a noite suave sofisma puro
que vem para descansar Melhor, melhor... é amar.
passou como a chuva
que cai para frutificar. Só queria entender verdades.

Somos escultura Nº 4 – Lírica do Tempo

O tempo cavalga cavalos
ondula na eternidade
manto negro, noite da vida
céu azul, vida e saudade.
Eu pequenino nesta imensidão
passo como o vento indiferente,
perplexo passo e o coração
nem descobre o inconseqüente.

A vida é um segundo no tempo

51
DISCURSO A ITAPECERICA - 1982

DD. Autoridades, prezados companheiros,

Há sempre um tempo certo e um momento oportuno para cada coisa. Tempos atrás,
eu-criança empolgada, vibrante de civismo e de entusiasmo, feliz passava por estas mesmas
ruas, em desfile a homenagear Itapecerica. E pensava: que presente poderia dar? Somos
tantas crianças, quem sabe, reunindo algumas pratinhas de cada uma, compraríamos...
compraríamos o quê? Presente para uma cidade? E me perdia em divagações enquanto
vaidosamente marchava ao som das baterias, acreditando que não poderia errar o passo nem
baixar a cabeça, querendo mostrar a todos que nós, crianças, ali estávamos iguais – peça tão
importante no aniversário e na vida da Cidade das Rosas quanto aquela outra, formada por
pessoas grandiosas, distantes, donas de Itapecerica, que ficava no palanque.
Não imaginava que algum dia estaria emocionada, junto a estas, neste mesmo palco
por onde passaram tantos oradores ilustres, tantos políticos de destaque, os quais bem sei,
por suas vidas e seus atos souberam dignificar o nome de Itapecerica. Estamos hoje ao lado
de dois novos e ilustres filhos da terra: o Exmo. Sr. Dr. Francelino Pereira dos Santos,
governador do estado de MG e o Exmo. Sr. Senador Murilo Badaró.

Não imaginava que poderia trazer-lhes um dia minha mensagem um tanto
contraditória quanto esclarecedora. Mas se aqui estou, mais por bondade do que por
competência, simples poeta-sonhadora-idealista, peço licença para começar dizendo-lhes
minha poesia intitulada “No Palco”:

Estamos todos sozinhos,
entregues a nosso destino:
vede uma dor que aparece,
uma criança que sonha,
um grande amor que se esquece,
um homem velho que tomba!

Vede também quanta guerra
quanta ambição desmedida
e tanta luta perdida.

Sozinhos...
no palco da terra.

52
Mas hoje não... Aqui neste momento de felicidade, e de alegria em que nos
reunimos para saudar Itapecerica, não estamos sozinhos pois nos une o amor à terra natal,
nos une o desejo imenso de vê-la crescer, nos une a vontade de gritar-lhe: “Parabéns,
Itapecerica! Parabéns pelo seu aniversário”.
Parabéns não somente pelos seus 120 anos mal contados que se comemora hoje,
mas principalmente pelos seus 193 anos de idade verdadeira a completar no próximo dia 20
de novembro.
A estes jovens que me escutam, que desconhecem questões e datas, contarei a
história. Um pouco de história é ótimo para mostrar que a vida não é feita de comodismo:
Em 1676, Lourenço Castanho Taques por aqui passou a descobrir florestas e abrir
clareiras. Mas foram Feliciano Cardoso de Camargos e Estanislau de Toledo e Pisa os
primeiros moradores da terra dos Tamanduás. Isto por volta de 1739, lutando contra o
tacape dos cataguases, às margens de ribeirões cheios de ouro e cobras, que logo se
povoaram de mineiradores. Homens audaciosos que mourejavam no garimpo e ao cair da
noite, reunidos em torno de fogueiras, ouviam o canto triste do urutau, de parceria com suas
saudades e esperanças. O sonho era enriquecer e voltar mas acabavam por aqui,
conquistadores conquistados pela natureza.
O bravo povo de Tamanduá “domesticado” pelo Padre Gaspar, transformou-se
rapidamente numa família de gente trabalhadora, corajosa e esperta. Tanto afirmo como se
comprova pois não aceitavam imposições. Reconhecendo o seu valor, o então governador
Visconde de Barbacena, criou por Alvará o 10º município mineiro: a Vila de São Bento de
Tamanduá, em 20.11.1789 e a instalação e a instalação solene se deu em 18.01.1790.
O município, com 34 distritos e grande extensão de terras, caminhou a passos de
gigante e tornou-se importante centro regional, fornecendo à Pátria homens fortes,
inteligentes e capacitados. Mas seus distritos cresceram e se desmembraram, formando
novos municípios.
Aqui faço um parêntesis que foge ao ritmo de minha saudação natalícia, mas é
necessário para completar minha assertiva: todas as cidades mineiras do período colonial
(16 ao todo) e muitas do período imperial (± 95) foram elevadas a município com o título
de “vila” e posteriormente tiveram esse nome trocado por cidade, mas a sua emancipação
política-administrativa se dava realmente na data de instalação da vila, quando então era
levantado o pelourinho, eleita a 1ª Câmara e eleito o 1º Juiz. Por outro lado, para confirmar
o mesmo assunto, perguntamos: é plausível que um distrito, filho de uma cidade, seja dela
desmembrado e se torne mais idoso? Podem acreditar, mas, Formiga está mais velha.
Legitimando nossa argumentação histórica em torno de datas, podemos dizer ainda que, se
Itapecerica recebeu em 1972 uma das medalhas da Inconfidência, distribuídas pelo governo
aos municípios existentes na época da Inconfidência, obrigatoriamente tem mais de 190
anos de idade.
Contudo, se assim querem, continuamos a dizer: Parabéns, Itapecerica, pelos seus
120 anos.
Quisera lembrar aqui o nome de muitas pessoas maravilhosas que ajudaram
Itapecerica a crescer mas direi apenas o nome de Antônio Paulino do Nascimento, um
homem simples que sonhou e realizou muito; do Dr. Severo Augusto Ribeiro, aqui
presente, cujas ações atestam a grandiosidade de sua pessoa, e não posso deixar de citar
também o nome de meu avô, Theodoro Afonso Lamounier Netto. Façamos da mesma
forma, sem alardes, sem ajuda, façamos alguma coisa.
Hoje, eu-mulher que saúdo Itapecerica, em nome de seus filhos, já descobri o

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presente ideal. Disse Rui Barbosa: “Pátria é o sol, o céu, o povo, a tradição, a consciência, o
lar, o berço dos filhos, o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da
liberdade. Os que a servem são os que não infamam; os que não conspiram; os que não
sublevam; os que não desalentam; os que não emudecem; os que não se acovardam; mas
resistem; mas ensinam; mas se esforçam; mas pacificam; mas discutem; mas praticam a
justiça, a admiração, o entusiasmo.”
Esta nossa terra de jovens bonitas e elegantes, de pessoas cultas e inteligentes,
chamada “Atenas Mineira” tem uma tradição que precisa continuar.
É isto que Itapecerica nos pede – um esforço conjunto não somente no dia do
aniversário mas sempre, em busca da realização de suas necessidades. Tenho dito.
Obrigada.
Itapecerica, out/82
(a) Célia Lamounier de Araújo

***

“O Ouro do regato trouxe para cá portugueses e paulistas nos meados do século
XVIII. Aqui construíram sua primeira igreja: uma ermida ao Bom Jesus. Se subimos o
morro da Capoeira, na Praça de S. Francisco, encontramos atrás daquela pequena mata
vestígios interessantes, embora cada vez mais desprotegidos”. Padre Gil.

“Adote seu filho, antes que um traficante o adote”.

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TAREFAS PARA A GINCANA HISTÓRICA/1987
Célia Lamounier de Araújo

Gostaríamos que as equipes pesquisassem nesta semana que antecede a GINCANA,
conversando com as pessoas certas e providenciando o material de cada tarefa, conforme
solicitação feita, trazer notícias escrita ou gravada sobre:

1ª tarefa – A Medalha da Inconfidência que Itapecerica recebeu por ser um dos
municípios de Minas Gerais na época da Inconfidência Mineira. Pista inicial: a última
notícia dela é de que estava num cofre na Prefeitura Velha. Onde e cm quem está?
2ª tarefa – Um quadro com mais de um metro contendo a ampliação e uma
fotografia aérea de Itapecerica, em 1984. Onde e com quem está?
3ª tarefa – O velho teatro de Itapecerica construído no local onde hoje existe o
prédio do Bemge. Pista inicial: o presidente da Câmara era o Dr. Jefferson. Dados para sua
história e fotografias.
4ª tarefa – Acervo do Museu Bento Ernesto Júnior. Por exemplo, uma jóia doada
pelo Dr. Severo Ribeiro, um prato francês doado por Dona Vina, os documentos do C.E.I. e
muitos outros doados por Waldemar Malburges, coleções de jornais e muitas coisas mais.
Onde estão e com quem? O Museu está vazio, passem lá para confirmar.
5ª tarefa – o Arquivo Morto da Prefeitura cujos documentos foram todos ordenados
e guardados em caixas conforme cada período histórico, serviço que durou três meses sob a
coordenação do Dr. Levy em 1977. Pista: funcionários da Prefeitura. Um crime cultural,
queremos a história e os responsáveis.
6ª tarefa – Há 200 anos existia um certo Capitão-Mór famoso, cuja casa hoje abriga
o Museu. Verdade ou lenda, conta-se muita coisa dele. Pista: Padre Carlos e jornal Janelão.
Biografia.
7ª tarefa – Faleceu há pouco tempo e tinha em sua casa uma sala completamente
cheia de presentes que recebia por suas curas. Vinha gente de longe, para vê-lo. Foi
Capitão-Mor do nosso Reinado. Para resguardar sua memória queremos a biografia e
retratos do Zé Gominho.
8ª tarefa – Valendo um ponto por pessoa, de 1 a 20, por escrito e assinado, resposta
à pergunta: Se eu fosse prefeito, o que faria por Itapecerica?

Boa sorte, até domingo.

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MEIA HORA COM CÉLIA
(Cópia da gravação do programa radiofônico do dia 13.03)

Vou dedicar meu programa de hoje às mulheres em geral, meninas, moças,
senhoras, casadas, separadas, viúvas e avós, principalmente às mulheres de Itapecerica e
principalmente às mulheres que além de domésticas encontram tempo para serem
fazendeiras, enfermeiras, professoras, diretoras, atrizes, dançarinas, etc., etc.,
principalmente aquelas que sabem conviver socialmente, lado a lado com o homem,
participando da vida (música Chuvas de Verão).

Vocês sabiam que em 08.03.1857 houve uma greve de operárias em Nova York e
159 mulheres morreram no incêndio criminoso praticado contra elas? Daí ter sido escolhido
este dia para ser o DIA INTERNACIONAL DA MULHER. 1975 foi o Ano Internacional
da Mulher e de 75 a 85 muitos países comemoraram a Década Internacional da Mulher. Em
julho de 1985, aconteceu a Conferência de Nairóbi com participação de 150 países
analisando os acontecimentos da Década, na tentativa de MUDAR: mulher-objeto sexual,
através da educação e da cultura, para mulher-gente. Para acordar as pessoas é necessário
um tratamento de choque... (cantei Sonho).

Tratamento de choque? Então sintam o choque da discriminação! As próprias
mulheres criam e aumentam as diferenças, falando uma das outras. O homem pode fazer o
que quiser mas é bem vindo em todos os lugares. É até exaltado... Quanto às mulheres,
qualquer coisa estão sendo criticadas, as mais corajosas são “pra frente” e se amam são
menosprezadas. Minto... (música Dona).

Quanto ao amor, na realidade as mulheres são cantadas pelos poetas, músicas e
homens em geral. São as eternas musas chamadas de deusas, gatas, amantes, lindas, santas,
tudo o que uma mulher tem direito ela recebe através das músicas e dos versos (música
Linda Demais).

Mas depois que se entrega ao amor, a coisa nem sempre continua bem. A deusa é
chamada de demônio, a santa é anjo mau, a amante é prostituta. Homens matam mulheres
“em defesa da honra” (honra?) e são absolvidos. Mas se é a mulher que mata condenam 12
anos (Prof. Maria Inês Benevides Cruz). É hora de descobrir que as mulheres têm os
mesmos direitos e as mesmas qualidades que os homens. É hora de descobrir que também
sabem trabalhar, decidir, criar, governar e viver. Antigamente, a mulher vivia presa em casa
e se chegava uma visita focava presa no quarto (Saint Hilaire). Nas ruas e caminhos a
mulher andava atrás do homem. Felizmente em nosso tempo a mulher já anda lado a lado,
de mãos dadas, olhos nos olhos (música Sonho).

Falta agora à mulher mostrar que pode estar lado a lado com o homem nas decisões
comerciais, sociais e políticas. Neste setor, apesar de ser a mulher mais da metade das
gentes, a proporção ainda é uma em cem. A participação é quase nada: em cada cem
deputados uma mulher, em cada lista de jurados só homens? Eu me orgulho de ter sido a 1ª

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mulher na lista de jurados de Ipatinga e vocês? Têm também orgulho de participar de
alguma coisa?

É preciso... aprender a compreender nosso próximo, nossas mulheres. Quase todas
as ações – certas ou erradas – acontecem pela necessidade de amor. A solidão é o grande
mal do século e quase todos nós estamos solitários e sozinhos: a criança, o adolescente, a
mãe, o pai, a esposa, a mulher da rua, o bêbado, o ladrão, o pivete, o presidente, a madame,
a avó, a tia, o aluno, a professora, todos nós... todos enfrentamos a solidão e, para fugir dela
é que se fazem tantas coisas – erradas ou certas não sei – quem somos nós para julgar? SEI
que precisamos compreender e amar as pessoas sem cobrança de seus atos, cobrando
apenas a participação de todos e de todas nessa vida, neste dia, em toda hora.

E terminando o programa de hoje que foi oferecido à MULHER, vou cantar para os
meus ouvintes-homens, que já aprenderam a valorizar a mulher como companheira e como
gente, a música “Sábado”. (CLA)

SER LIVRE... UTOPIA
Célia Lamounier de Araújo – 1978

Esta pressão-opressão
de desejar andar e ficar assentada
de desejar voar e estar deitada
de desejar viver e sentir-se morta
de desejar escrever e auto censurar
cria um vazio
que cresce e acresce
o abraço das cadeias
e implode o coração

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O SABOR DE UM ABRAÇO
Célia Lamounier de Araújo

Sem nenhuma dúvida, o melhor da vida acontece diante do imprevisto e da surpresa.
Não se pode deixar a rotina tomar conta do amor!
Lembro minha amiga loira e linda, com sua saia vaporosa, apaixonada pelo pintor
negro, e seu encontro em plena avenida, os dois correndo um ao encontro do outro,
motoristas parando carros curiosos e aquele abraço cinematográfico descarregando a
saudade.
Nascem sensações estranhas, arrepios na pele, uma energia infinda e célere como o
raio quando nossos olhos se cruzam com outros desejados, uma voz ao telefone trazendo
emoção e sorrisos, flores e presentes alegrando nossa fisionomia.
Mas nada se iguala ao sabor do abraço inesperado. Aqueles minutos de surpresa, o
coração em sobressalto se perguntando “é você mesmo?” Os dois se olhando, enquanto
passo a passo a distância menor. Um minuto de pausa e finalmente num impulso o
movimento flexível e macio, o corpo jogado nos braços que amparam e seguram. Um corpo
a corpo que agasalha, conforta, enternece, reanima e faz do minuto uma eternidade.
O coração pulsa no desejo de que pare o mundo e se possa saborear o abraço, néctar
e bálsamo a quebrantar o espírito, a suavizar docemente nossas vidas.
Por que será que nos educamos para mascarar emoções? Seria tão bonito o mundo
com mais abraços, mais elogios e mais amores!...
Afinal, apesar de muitos abraços nada significaram, outros servem para dizer:
“admiro você, gosto de você, sou seu amigo ou amo você”.
(Jornal Quatro Bicas nº 3 – Dez/87)

FELICIDADE
Cla – 1965

É saber que posso escrever
falar, rir, ver e ouvir;
é poder fazer tudo isso;
é sentir que posso fazer;
é poder agradecer a Deus
por tudo isso...
Felicidade é viver!

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MENSAGEM PARA 1988

Véspera de Natal e de Ano Novo... E escuto o “Hino à Felicidade”, composto por
Beethoven, um homem? Não, um gênio surdo e doente...
Milagre de Deus...
Como pôde um homem assim escrever este hino à felicidade enquanto nós
humanos, cheios de vida, de corpo bem feito, somos eternos mendigos dessa tal felicidade?
Noite de Natal que se aproxima e eu peço a Deus, a este menino Deus que nasce
todos os anos em nossos corações para deixar conosco este ano, pelo menos a felicidade de
poder ouvir a música que Beethoven compôs sem ouvir direito, para deixar conosco a força
necessária de, mesmo estando triste ou doente, saber agradecer pela vida, pelo dia-a-dia,
pela condição de poder desejar ser feliz.
E agradecer sabem como?
Dando aos outros o que sabemos fazer, transmitindo otimismo, crença e esperança,
deixando que nossa presença, nossas palavras, nossas coisas, possam ser úteis aos outros
mesmo quando para nós de nada servirem.
Noite de Natal... e eu peço a este menino Deus que fique conosco o ano todo,
fazendo de nós, homens e mulheres, eternas crianças porque só agindo com a pureza das
crianças, poderemos seguir o caminho que nos leva à felicidade.
Oferecendo aos outros alegria, música e sorrisos estaremos construindo a felicidade.
Ela não está nas mãos de uma pessoa. Não...
A felicidade é uma construção individual que a gente nem vê, nem toca. Apenas o
riso de uma criança, sentindo o sabor de um abraço, ouvindo o Hino à Felicidade!

Célia Lamounier de Araújo
Jornal Quatro Bicas nº 4 – Janeiro/88

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TAMANDUÁ hoje ITAPECERICA
(Trabalho de escola)

Em 1676 Lourenço Castanho Taques por aqui passou a descobrir florestas e abrir
clareiras, desbravando este Brasil gigante. Segundo a “História Média de MG” e Carta da
Câmara da Vila de Tamanduá, os 1ºs. moradores chegaram por volta de 1733, vindos do
arraial de Ibituruna e Rio das Mortes. Passou também por aqui, na época da Guerra dos
Emboabas - 1708 o famoso Anhanguera Bartolomeu Bueno.
Tamanduás e cabanas cobertas de cascas de pau deram nome ao povoado de
“Paragem da Casa da Casca do Tamanduá”.
Mas foram Feliciano Cardoso de Camargos e Estanislau de Toledo e Pisa que
realmente começaram em 1739 a construir o arraial às margens dos ribeirões Tamanduá e
Rosário, construindo a Ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. As explorações de
ouro passaram para as margens do Riacho Vermelho e o povoado era chamado “Conquista
do Campo Grande da Picada de Goiás” em virtude de ser o centro de comunicação na larga
faixa sertaneja. A riqueza do povo chamou a atenção de São José d’El Rey pois a paróquia
rendia de dízimo por ano 17000 cruzados, uma fábula, e em 18.06.1744 a Câmara tomou
posse nomeando as 1ªs. autoridades locais “a bem desta República”.
D. Frei Manoel da Cruz criou uma paróquia por provisão de 15.02.1757 nomeando
vigário ao Padre Gaspar Álvares Gondim que chegou a construir uma igreja e sete capelas
filiais. A localidade se chamou então “São Bento de Tamanduá” por causa das cobras
encontradas. A freguesia foi elevada a colativa por alvará de 1780 a atendendo a
requerimento dos moradores e sendo de tal modo notável o progresso do arraial, o
governador Visconde de Barbacena elevou-o à categoria de município e vila em 20.11.1789
(ano da Inconfidência Mineira e da Revolução Francesa). A instalação se deu em
18.01.1790 com as solenidades de estilo, levantando-se o pelourinho em lugar diferente
elegendo-se a 1ª Câmara e o 1º Juiz. ESTAVA CRIADO O 10º MUNICÍPIO MINEIRO
(época colonial). O povo mudou-se e o antigo local de nome Arraial Velho ainda tem
vestígios da 1ª povoação tais como árvores centenárias, mangueiras e velha Estrada Real.
São Bento do Tamanduá abrangia 34 distritos em imensa área e era habitado por
“um povo ordeiro, trabalhador, valente e brioso”. As fazendas prosperavam, o gado era
gordo e a lavoura farta. Houve época em que a produção de leite era de 7 e meio milhões de
litros e 220 mil quilos de manteiga. A sede do município cresceu no vale entre sete colinas.
Mas sua área foi diminuindo muito.
A criação da vila importava na criação da comarca mas a nova vila ficou sendo sede
de Termo da Comarca do Rio das Mortes até o ano de 1839 e somente então foi criada nova
comarca com o nome de Rio Grande.
Em 1799 a Câmara Municipal teve a audácia de criar uma escola e foi censurada por
D. Maria I que ordenou em 1800 o fechamento da escola. Mas em 1822 nasce o Colégio
Tavares Dias, mais tarde em 1882 o Colégio São Bento e em 1917 o grupo escolar Severo
Ribeiro.
Em 1823 ordena-se o 1º padre nascido no município: Padre José Camilo de Faria.
(Até hoje o município deu ao Estado mais de 45 padres católicos).

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Em 1839 Formiga desmembrou-se e foi criada então a Comarca do Rio Grande com
sede em Tamanduá.
Durante a Revolução de 1842, a região foi invadida pelos rebeldes comandados por
José Jorge da Silva mas o Cel. Narciso, fazendeiro de Tamanduá, emboscado com 30
homens no lugar chamado Campo do Caju, destroçou toda a força armada de 400 homens
que se dispersaram. Com isso os rebeldes em Santa Luzia, não recebendo reforços,
renderam-se ao Duque e Caxias.
Em 1872 foi criada a Comarca do Rio Itapecerica tendo sede no nosso município.
Em 1884 surge o 1º jornal impresso: O Itapecericano. Terra de intelectuais e
políticos, logo outros jornais surgiram. Em todas as constituintes brasileiras havia um
itapecericano. (1824 – Vigário Antunes; 1891 – Lamounier Godofredo; 1934 e 1948 –
Gabriel Passos). E Manuel José Soares foi Senador do Império. Hospital surgiu em
27.04.1899.
Em 1891 chega o progresso através da linha férrea que deveria seguir até Formiga,
mas por uma questão política não foi terminada, existindo até hoje o caminho da estrada
com os pontilhões. Em 1904 o município ganha a 1ª Usina Elétrica de captação d’água. Por
essa época desmembrou-se parte das terras para Divinópolis, mas o distrito de Santo
Antônio dos Campos somente foi desmembrado em 1923.
A matriz é inaugurada em 1912, 82 anos depois de iniciada a construção.
Em 1939 a Santa Casa de Misericórdia estava em festa com a chegada das Irmãs
Batistinas vindas da Itália. A 1ª cesariana feita no Oeste de Minas aconteceu aqui em 1925
e foi feita pelo Dr. Carlos Vieira de Menezes.
O Colégio Imaculada Conceição foi criado em 1928 e o Ginásio Padre Herculano
Paz em 1947. A época de ouro renasceu na década de 1950 com a criação da Rádio
Difusora, Associação Comercial e linhas de ônibus. Em nossa terra sempre existiram duas
bandas de música e os partidos políticos tinham nome diferente: tareco e papiatas. Isto deu
margem a muitos fatos e a muito riso pois o povo era forte, firme e cheio de humor.
Verdades ou lendas, os casos são muitos. É do conhecimento geral até mesmo que o
romance “O Seminarista” de Bernardo Guimarães – 1872 – se baseia em fatos acontecidos
nestas paragens.

Célia Lamounier de Araújo – 1957.

“As obras são as verdades incontestáveis de uma administração”. (CLA)

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ITAPECERICA

Na zona da Vertentes nasceu há 198 anos uma doce mineira, filha de mineiros,
tamanduás e cataguases. A mistura deu raça forte, lutadora, de vanguarda, cabeça tamanho
do “a” quando gente abre bem a boca pra falar. Crianças nasceram e falavam todo o Brasil.
Aqui para nós se enganou este ano – muitos importantes saíram do oeste de lá. Décima
dona da terra, de ouro e de vastos quilômetros, pelo olhar de Pamplona 34 distritos, talvez a
maior.
Até D. Maria conheceu desobediência escolar, padres se cuidavam de estrepolias,
povo bravo na guerra, tocaia na cava, e no vestibular de ontem e hoje iam brilhar São
Paulo, Rio, Beagá.
Cabeça de Tamanduá, cabeça dura, escorregadia pedra, boa política de escorregadá,
manda, desmanda, constrói, fazendas, fábricas, teatros; tudo dá na terra boa, campo grande,
casa da casca, São Bento protege enquanto é/há tamanduá.
Filhos crescidos abandonam mãe: formiga campo divino, Bentinho, Gabriel, Pena,
Corrêa, GTO e muitos e muitos outros vão indo; velha mãe se acanha, se curva, se morre
entre sete colinas que ficam cantadas por Barreto e Hilton.
A divisão é a morte. Perde escolas, rosas, jornais, padres, irmãs, mestre Juca. Vida
estudante, moça presa, moço preso, um muro só de sonhos dura pouco. Vida gostosa de
tamanduá, coronéis, fartura, importância deixa de ser, sete dois anos subtraída quando
cidade vila não conta, desconta, desfia fio, cortando tempo morre teatro, avenida, cinema,
fica a tevê. Visita de gente tareco, papiata, em pouco cerra porta janela, luz fraca, sono vem
e gente dorme. Janelão Itapecerica grita acorda é hora de facultare. Fogo queima partituras
coração não mais conversa, não mais velhotas casamenteiras, serestas, vestido de missa e
de baile não mais, semana santa um a um, procissão mulher de cá, homem de lá mais não,
estrada de ferro casa praça prefeitura derrubada, tudo muda cara nova gente e fim a
tamanduá. Terra suja água tiro na co.passa vem só discurso, cabeça dura sem estudo faz
doença mil e oito filho do pai. Brasil ou Etiópia? Dito anda que coberta vira circo e cercada
não sobra um: feliz.idade.
Fica pingo de amigos, nem pinga pra presentear famosa, tradição cultura passado de
nome e museu pra que? morreu morreu o doido, o poeta, o músico, o fotógrafo. Fica pingo
de visionários que se unem em Beagá e Brasília a recordar no clube anos dourados, a
buscar passado na tentativa de tirar da pedra lisa essa loucura que anda por lá e com muito
amor ressuscitar Atenas, hoje apenas Itapecerica.

Itapecerica, 16 de agosto de 1987
(a) Célia Lamounier de Araújo

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ESTUDOS PARA A HISTÓRIA DE
TAMANDUÁ HOJE
ITAPECERICA
por Célia Lamounier Araújo
em 1988/1989

“Da Capitania de São Paulo e das Minas de Ouro, por influência da Guerra dos Emboabas, surgiu em
1720 a Capitania das Minas Gerais. Tantas eram as minas e tão gerais que Minas Gerais ficou sendo”.
(Série Municípios Mineiros – MG - 84 a 87)

Aberto o caminho da Picada de Goiás em 1736, logo nasceu o povoado que se transformou em
20.11.1789 na vila e Município de São Bento do Tamanduá, com uma área de pelo menos 16 mil km²
distribuída por 34 distritos de ordenanças:

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LEGENDA DO MAPA

1 – Bom Jesus de Matosinhos do Arraial Velho – Parque Industrial
2 – Matriz e Rosário – 1744 – sede Itapecerica
3 – Pouso Alegre – Pouso Alegre, povoado
4 – São José do Partidário – Partidário, povoado
5 – N. Sra. do Desterro – Marilândia
6 – Curral – São Sebastião do Oeste
7 – Serra Negra – São Sebastião do Oeste
8 – Santo Antônio do Campo das Hortas – dist. de Divinópolis
8a - +Espírito Santo do Itapecerica – Henrique Galvão, Divinópolis
9 – Sr. Bom Jesus da Pedra do Indaiá – Pedra do Indaiá
10 – Alto S. A. Monte – Santo Antônio do Monte
11 – Diamante Abaixo – Santo Antônio do Monte
12 – Pantano – Lagoa da Prata
13 – Porto Real de São Julião – Arcos
13a - +São Simão - Japaraíba
14 – Rio de São Francisco Abaixo – N. Sra. da Abadia – Iguatama
15 – N. Sra. de Nazaré dos Esteios – Esteios, distrito de Luz
16 – Sra. da Luz do Aterrado ou da Confusão – Luz
17 – Boas Vistas do Bambuí – Bambuí
18 – Santana do Bambuí – Bambuí

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19 – São Roque da Serra da Canastra – São Roque de Minas
20 – N. Sra. do Livramento do Piui – Piui
20a - +Perobas - Doresópolis
21 – Santo Antônio do Capetinga – Dist. de Santo Hilário, Pimenta
22 – São Vicente Ferrer da Formiga – Formiga
22a - +N. Sra. do Carmo dos Pains – Pains
23 – N. Sra. da Ajuda do Rio Grande – Cristais
24 – Córrego do cavalo – Candeias
25 – N. Sra. das Candeias de Bom Jesus de Matosinhos – Candeias
26 – Sete Lagoas – Candeias
26a - +N. Sra. das Dores do Camacho – Camacho
27 – São Lázaro do Miranda - ???
28 – Boa Vista – Eermida da Mata da Sra. do Carmo – Carmo da Mata
29 – São Francisco de Paula – São Francisco de Paula
30 – Jacaré – Distrito de Porto dos Mendes - ???
31 – Mato do Jacaré de Tamanduá – Santana do Jacaré
32 – Bom Jesus de Matosinhos do Jacaré – Cana Verde
33 – Sr. Bom Jesus do Campo Belo e Sra. da Conceição – Campo Belo
34 – Água Limpa – Santo Antônio da Água Limpa – Aguanil

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ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE CADA DISTRITO,
HOJE CIDADES:

* Bom Jesus de Matosinhos do Arraial Velho
Comandante Antônio Afonso Lamounier

* Matriz e Rosário – comandante José Paes de Miranda
Juízes: Domingos Rodrigues Gondim e Cel. João Pinto Caldeira

* Pouso Alegre – pousada no caminho da Picada de Goiás

* N. Sra. do Desterro 1754 – igreja construída 1775 por doação do fazendeiro
Manoel Carvalho da Silva, distrito de Marilândia em 1847.

* Lamounier – distrito em 1953

* Neolândia – distrito em 1962

* Camacho – Índios Cataguazes atacados por Felix Jaques no Taubaté, recuaram
para o Tamanduá; povoado criado em 1885, distrito em 1923, cidade em 30.12.1962 com
área desmembrada de Itapecerica, 227 km².

* São Sebastião do Oeste – Antiga Fazenda do Curral de Honorato Pena, capela de
São Sebastião do Curral, distrito em 1853, três povoados: Serra Negra, Três Barras e Tira
Chapéu; desmembrada de Itapecerica pela Lei 2764 de 30.12.1962 é cidade com 387 km².

* Pedra do Indaiá – Em 1708 os paulistas perseguidos roubaram uma imagem de
Jesus Crucificado e a esconderam num monte, ali iniciando uma povoação, capela em 1771,
distrito em 1852, cidade pela Lei 2764 de 30.12.1962 com 324 km², área desmembrada de
Itapecerica.

* Divinópolis – O distrito de Santo Antônio do Campo das Hortas, povoado em
1760, distrito em 1887, foi desmembrado de Itapecerica para Divinópolis pela Lei 843 de
07.09.1923. Quanto ao distrito de Espírito Santo do Itapecerica que pertencia em 1715 a
Pitangui, foi desmembrado para Tamanduá em meados do século XIX, possivelmente em
1839 ou 1887. A região foi habitada pelos índios Candidés, povoado em 1760, igreja em
1767, freguesia em 1839 desmembrada de Pitangui; povoado de Henrique Galvão criado
em 1890, desmembrado de Itapecerica em 30.11.1911 pela Lei 556, cidade de Henrique
Galvão em 01.06.1912 modificado o nome para Divinópolis pela Lei 590 de 03.09.1912,
vila para cidade em 18.09.1915; área de 716 km².

* Santo Antônio do Monte – povoado de escravos fugidos em 1700 no Ribeirão
Diamante, vila em 1859, cidade em 16.11.1875 com área de 1.101 km² desmembrada de
Tamanduá.

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* Lagoa da Prata – desmembrada de Tamanduá junto a área de Santo Antônio do
Monte em 1875 ou teria sido em 1839 para Formiga?

* Arcos – Área desmembrada de Tamanduá para Formiga em 1839, desmembrada
para Arcos, capela de N. Sra. do Rosário em 1829, grandes reservas de calcário e vestígios
do período pré-histórico, distrito em 1842 pela Lei 239, cidade em 17.12.1938 com área de
507 km² desmembrada de Formiga.

* Japaraíba – Área desmembrada de Tamanduá para Formiga em 1839,
desmembrada para Arcos em 1938; povoado de São Simão surgiu por volta de 1820,
distrito em 1953 e cidade pela Lei 2764 de 30.12.1962, área de 184 km² desmembrada de
Arcos.

* Iguatama – Capela de N. Sra. da Abadia do Porto de São Miguel, construída pelos
moradores do porto em 1829, no distrito chamado Rio de São Francisco Abaixo, termo da
Vila de Tamanduá, área desmembrada para Formiga em 1839.

* Luz – Dois distritos de Tamanduá fazem parte do território de Luz; capela em
1780 por Pires e Camargos, arraial do Aterrado em 1805, em 1822 abaixo assinado contra
falta de assistência do Tamanduá, área desmembrada de Tamanduá em 1839 junto a
Formiga, Bambuí e outras, paróquia do Aterrado ou Confusão em 1856, cidade em
07.09.1923 com 1.185 km² desmembrada de Dores do Indaiá; o distrito de N. Sra. do
Nazaré dos Esteios, desmembrado de Tamanduá em 1839 conserva o nome de Esteios e é
distrito de Luz.

* Bambuí – Capela em 1768, Vila em 22.09.1881 pela Lei 2785 com área
desmembrada de Formiga e Piuí, foi antes desmembrada de Tamanduá para Formiga em
1839; cidade com 1.407 km² em 10.07.1886.

* São Roque de Minas – Capela em 1754 construída por Manoel Marques de
Carvalho; era habitada pelos índios Cataguazes, dizimados por Castanho Taques em 1675;
formaram-se quilombos; distrito pela Lei 239 em 1842; Cabrestos Grandes nome de braço
do Rio São Francisco; em 1802 a capela passa para a freguesia de Bambuí mas volta em
1825 para Piuí; área desmembrada de Tamanduá em 1839; Vila pela Lei 148 de 17.12.1938
desmembrada de Piuí com o nome de Guia Lopes; em 62 muda para São Roque de Minas
com 2.002 km².

* Piuí – povoação iniciada por Manoel Marques de Carvalho em 1707 ou Batista
Maciel em 1731? Em 1736 a região foi cortada pelo caminho Picada de Goiás mas a estrada
foi abandonada por causa dos quilombos que se formaram; destruídos por Vicente Costa
Chaves em 1743; arraial em 1752 e capela construída por Manoel Marques de Carvalho em
1754; freguesia em 1813, área desmembrada de Tamanduá em 1839 para Formiga; distrito
havia sido criado em 26.01.1803 e vila em 01.04.1841 desmembrada de Formiga; cidade
pela Lei 1510 em 20.07.1868 com 892 km².

* Pimenta – O distrito de Santo Antônio do Capetinga do Tamanduá é hoje distrito
de Santo Hilário em Pimenta; primeiras casas datam de 1790; área desmembrada de

67
Tamanduá em 1839 para Formiga; pertenceu também a Piuí, Bambuí e Pains; cidade em
1948 p/Lei 336 desmembrada de Pains c/ 375 km².

* Formiga – Sesmaria 1768; povoação no ribeirão da Formiga em 1776, índios
formiga que comiam tanajuras; distrito de Tamanduá em 1768; capela em 1780 a 1787;
pela Lei 134 de 16.03.1839 desmembrou-se de Tamanduá levando junto enorme área com
vários distritos (tem hoje 1.404 km²) cidade em 06.06.1858 pela Lei 880.

* Pains – Manuel Gonçalves de Melo construiu a capela em 1854; distrito em 1859;
cidade em 31.12.1943 pela Lei 1058 desmembrada de Formiga levou o distrito de Pimenta;
tem hoje 404 km².

* Cristais – Índios Cataguazes perseguidos por Castanho Taques povoaram a região;
Romão Fagundes construiu a capela em 1800; distrito em 1880; área desmembrada de
Tamanduá em 1881 para Campo Belo; cidade em 27.12.1948 com 447 km².

* Candeias – Formada por 3 distritos de Tamanduá; N. Sra. das Candeias em 1771,
Sete Lagoas povoada em 1754; descoberta a faisqueira de Piuí a região se povoou
incentivada pelos comandantes e sesmeiros que desejavam acabar com quilombos; curato
em 1832, distrito em 08.04.1836 pela Lei 50; desmembrada de Tamanduá para Campo Belo
em 1876; cidade em 17.12.1938, pela Lei 148 desmembrada e Campo Belo, 693 km².

* Carmo da Mata – Boa Vista ou Mata da Boa Vista em 1753 com ermida
construída por Inácio Afonso Bragança em 1754, distrito em 1842; área desmembrada de
Tamanduá e de Oliveira para formação da cidade em 17.12.1938, tem 357 km².

* São Francisco de Paula – Capela em 1766 de São Francisco de Paula do
Itapecerica, distrito de Tamanduá desmembrado para Oliveira em 12.03.1846 pela Lei 288;
chamou-se Jacareguai em 1923, cidade de Wenceslau Brás em 30.12.1962, voltou ao nome
primitivo em 1964, tem área de 309 km².

* Santana do Jacaré – Pouso de tropeiros na Picada de Goiás, capela de Santa Ana
em 1750, área desmembrada de Tamanduá em 1802 para São José d’El Rey, pertenceu a
Oliveira, Campo Belo; cidade em 12.12.1953, tem 97 km².

* Cana Verde – Primeira sesmaria em 1729, Lavras do Funil; Diogo Bueno e outros
em 1753, curato em 1832 e distrito em 1858; área desmembrada de Tamanduá em 1802
para São José d’El Rey, pertenceu também a Campo Belo e Perdões; cidade em 20.12.1962,
tem 145 km².

* Campo Belo – Distrito em 1818, sua história está ligada a muitas outras de
Tamanduá; vila em 1848 teve a Lei 373 revogada em 1850 e somente em 13.06.1876 pela
Lei 2221 tornou-se vila, desmembrada de Tamanduá com vários outros distritos, instalação
solene em 28.09.1878.

* Aguanil – Bandeira de Castanho Taques em 1676 “desembaraçou” as terras do
Oeste liquidando com os Cataguazes; área desmembrada de Tamanduá em 1876 para

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Campo Belo? Distrito de Campo Belo em 1948, cidade em 1962 desmembrada de Campo
Belo, tem 167 km².

* Itapecerica – A colonização do Tamanduá deve-se a quatro fatores essenciais: os
emboabas vencidos que se embrenharam nos sertões, a abertura do caminho da Picada de
Goiás, os quilombos e a descoberta do ouro. O povoado surgiu em 1739, São José d’El Rey
dele tomou posse em 1744, freguesia em 15.02.1757 com 7 capelas filiais; três conflitos: a
cobiça do Padre Toledo 1782 e a vitória do Padre Gaspar 1783; as terras do Espírito Santo
do Itapecerica e a questão dos limites com Pitangui; a vitória dos legalistas no Campo do
Caju. Vila e município em 20.11.1789 com 34 distritos, instalação solene em 18.01.1790,
termo da Comarca do Rio das Mortes; termo da Comarca do Rio Grande em 1839; cidade
de Tamanduá em 04.10.1862, Lei 1148 e cidade de Itapecerica em 19.10.1882, Lei 2995.
Décimo município e vila de Minas Gerais.

* Oliveira – Ao ser criada a vila de Tamanduá preferiram os habitantes ficar
pertencendo a São José d’El Rey por 25 votos contra 6 votos (p. 100 APM – 1897, nº 1),
sesmaria em 1754, Cia. Regimento de Pamplona em 1798, vila em 1839 desmembrada de
São José.

* Cláudio – O escravo Cláudio descobriu uma imagem que sumia e aparecia e todos
foram ver o Ribeirão do Cláudio; capela de N. Sra. do Cláudio; área desmembrada em 1911
de Oliveira e parte do distrito de Marilândia.

* Estrada de ferro – O ramal Itapecerica/Formiga, construção contratada em 1889,
teve seu plano modificado. Os dormentes fixados no leito ainda existem até hoje e muitos
foram os pedidos para transformar a estrada em rodovia. Interessante que Leopoldo Corrêa
cita em seu livro, falando sobre a estrada de ferro de Formiga, que São Miguel e Porto Real
são hoje as cidades de Calciolândia e Iguatama. Na Memória Estatística de Tamanduá
encontramos “Porto Real de São Julião e Águas do Rio São Miguel”. José Gomide Borges
do Institituto Hist. Geog. MG afirma em carta que São Julião é Arcos, no que concordamos
e assim, situamos Iguatama como sendo o distrito antigo de Tamanduá “Rio de São
Francisco Abaixo” capela construída pelos moradores do Porto de São Miguel, que pode
perfeitamente ter dado origem a Calciolândia e Iguatama. Nada conseguimos descobrir
ainda sobre São Lázaro de Miranda.

Com tempo e pesquisa, nossas dúvidas e possíveis enganos serão corrigidos.
Célia Lamounier de Araújo - 1989

***

“A alma, enfurecida e desencantada, fala com tristeza... a criação, o trabalho?”
(Alma de uma cidade, Paulo A. Gomes)

As razões existem e a alma deve falar sempre: para os seus e para os que ainda não tem
uma. (CLA)

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BRINCANDO COM NÚMEROS

Itapecerica, hoje tão pequenina e silenciosa, foi um importante núcleo de povoação
na época colonial. Transformada em município abrangia vasto território e 34 distritos. Em
números, como seria?
20.11.1789 – Tamanduá com quantos km de área?

* Em 1802 perde para São José o distrito de Santana do Jacaré (97 km²) e o distrito
de Cana Verde (145 km²);

* Em 1839 perde para Formiga vários distritos, hoje cidades de: Formiga – 1.404
km², Iguatama – 600 km², Arcos – 507 km², Piuí – 892 km², Japaraíba – 184 km²,
Doresópolis – 156 km², Bambuí – 1.407 km², Pimenta – 375 km², Luz – 1.185 km², Pains –
404 km², São Roque – 2.002 km². A área desmembrada para Formiga compreendia todas
estas cidades.

* Recebe de Pitangui em 1839 ou 1887 o distrito do Espírito Santo do Itapecerica.

* Em 1875 perde Santo Antônio do Monte com 1.101 km² e junto vai Lagoa da
Prata com 300 km².

* Em 1876 perde Campo Belo com 500 km² e junto os distritos de Candeias com
693 km² e Cristais com 447 km², este em 1881.
Aguanil teria sido desmembrado quando? Tem 167 km².

* Jacaré e São Lázaro nada descobri – km ???

* Em 1911 perde Esp. Santo do Itapecerica com o nome de Henrique Galvão, hoje
Divinópolis c/716 km², o distrito de S. A. Campo das Hortas em 1923. Perde também parte
da área de Marilândia em 1911 para Cláudio.

* Em 1938 perde Carmo da Mata com 357 km² desmembrada de Itapecerica e
Oliveira.

* Em 1962 são desmembradas as áreas para Camacho – 227 km², São Sebastião do
Oeste – 387 km² e Pedra do Indaiá – 327 km².

* Itapecerica tem 1.042 km².

RESPOSTA: feitas as contas podemos afirmar que Tamanduá tinha mais de 16 mil
km² de área. CLA. 1989.

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71
A ANTIGA TAMANDUÁ

“Conheci um documento interessantíssimo do estado desta cidade, há 40 anos.
O ilustre tamanduense, Revmo. Padre Belarmino Beirigo, quando estudante no
Seminário do Caraça, ideou e levou à execução uma originalíssima planta da povoação
urbana tamanduense.
Nesse trabalho, O Padre Belarmino, que sempre revelara precisas qualidades para o
desenho e para a pintura, apresentava Tamanduá com todas as suas ruas e praças,
guardando exatamente, em redução, as dimensões exatas de todos os edifícios de então.
À derradeira visita minha à cidade natal, ainda vi essa planta no escritório do finado
comendador Belarmino Beirigo, venerando pai do talentoso sacerdote, também, hoje,
retirado à paz serena do campo santo do arraial de Candeias, do qual fora cura d’almas por
muitos anos.
A Câmara Municipal de Itapecerica bem faria procurando adquirir o belo trabalho e
pondo-o a bom recato, pois representa ele um precioso e valiosíssimo subsídio histórico, de
muita importância para os tamanduenses, pois nele verão o que era, em priscas eras, a
cidade natal, dormindo seu sono secular, à sombra de suas verdes montanhas, na doce paz
da vida provinciana”.

BENTO ERNESTO JÚNIOR

Artigo publicado em “Chronica Tamanduense”, em 1905, referindo-se ao talento
artístico do 2º Vigário de Candeias, Padre Belarmino.
Transcrito no Anuário de Minas Gerais, ano de 1906, p. 211 e ainda no livro “O Sertão
de N. Sra. das Candeias da Picada de Goiás” 1992 – p. 227.

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DJALMA TEIXEIRA DE OLIVEIRA

CÔNEGO BELCHIOR MENDES DE CERQUEIRA

Senhora e Senhores,

Ao tomar posse na “ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E
CULTURA”, tenho consciência de que a benevolente indicação de meu nome para compor
o elenco de seus membros, pretende prestigiar, não um cultor das letras, mas simplesmente
um médico, cujas publicações não ultrapassam o acanhado limite de sua profissão,
despojadas dos atavios que a arte literária valoriza. Mas, ao aquiescer à indicação
imerecida, pretendo, de alguma forma, me redimir de minha presunção, confrontando-a
com a humildade de um outro itapecericano, que escondia todas as virtudes que poderiam
enaltecê-lo: o Cônego Belchior Mendes de Cerqueira.

Conheci-o no seu ocaso, apresentando já os sintomas da enfermidade que o
distanciaria do convívio dos livros, das pessoas – e o que foi mais penoso – do exercício
das atividades eclesiásticas.

Posso vê-lo, ainda com suas passadas largas, o corpo curvado para a frente, o
guarda-chuva na mão, passando, alheio, ao que existia a sua volta. Com a fisionomia
carregada e a cabeça baixa parecia inteiramente voltado para um mundo de conjectura.

Em estágio mais avançado do mal que o afetara, costumava colocar na janela de sua
casa objetos, à guisa de presentes, expressão bizarra e singela de uma comunicação efetiva
que a doença pode ter distorcido mas não logrou extinguir.

Era-lhe grato ao coração o dia 22 de maio, por ser o que a Igreja dedica à Santa Rita
de Cássia – Santa para a qual voltara sua devoção, juntando-a à de seus pais. É significativo
que, exatamente nesta data, tenham-lhe cessado os padecimentos. No dia 22 de maio de
1937, toda Itapecerica chorava a morte do Padre Belchior, aos 62 anos de idade.

Passaram-se os anos e mais tarde, estudante, na então longínqua cidade de Pouso
Alegre, encontrei, no Colégio São José, um Quadro de Formatura de que fora paraninfo o
Cônego Belchior. A surpresa e curiosidade me levaram, no mesmo dia, ao velho
Monsenhor Furtado de Mendonça. Eu estava interessado em saber como tinha sido a
passagem do Cônego Belchior por aquele Colégio, a que eu também estava tão ligado.
Ninguém melhor para fazê-lo que Monsenhor Mendonça. Conhecia bem a história da
Diocese, do Seminário, do Colégio e dos Padres. Ao falar-lhe das razões que me levaram
até ele, expressou sua admiração e respeito pelo sacerdote piedoso e pelo professor
distinguido entre os colegas. Destacou o autor do livro “Gnomas e Apotégmas”, em que
fazia reflexões filosóficas de grande lucidez. Exaltou o latinista, o crítico de história, e
conferencista versátil, o jornalista atualizado, o pregador convincente.

Saí daquele encontro, orgulhoso de nosso conterrâneo ao ouvir um mestre no elogio

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de outro. Ficou, porém, a sensação de que Monsenhor Mendonça, por razões afetivas,
poderia ter idealizado a personalidade do Cônego Belchior.

Mais tarde apareceu o excelente trabalho de pesquisa de Padre Gil Antônio Moreira
e Constantino Barbosa, transformado no livro “Itapecerica, sua fé e sua música”, em que se
encontram dados recolhidos pelos autores sobre a vida do Cônego Belchior e sobre sua
atuação em cidades por onde passara.

Há um ditado que diz: Pela carruagem se conhece quem vem dentro. A ligação do
Cônego Belchior com as cidades do Sul de Minas tem início quando, Diácono ainda,
recebeu convite para integrar a comitiva de S. Exa. Revma. Dom Silvério Gomes Pimenta,
em visita pastoral àquela região do Estado. Um tão honroso convite, não teria sido feito
aleatoriamente. Dom Silvério, uma das forças mais expressivas e respeitáveis da Igreja,
escritor de muitos méritos que, no sistema orográfico da intelectualidade brasileira, ocupa
um dos picos de mais elevada culminância. Figura considerada um dos mais belos
ornamentos da cultura nacional, ao selecionar um grupo de sacerdotes que queria junto
dele, incluía o diácono Belchior por lhe ter certamente descoberto as características que lhe
correspondiam às suas exigências. Foi aí que teve a fortuna de disciplinar os hábitos de seu
espírito, nos sentimentos da fé robustecida pelas investigações da filosofia.

A partir daí, o Cônego Belchior deixou marcos de sua vida dinâmica nas atividades
que desenvolveu em S. Gonçalo, Pouso Alegre e Campanha, onde atuava como padre,
professor e jornalista.

Ao final da leitura das notas biográficas do Pe. Gil, concluí que minha impressão
era falsa. Monsenhor Mendonça estava certo.

Tenho aqui, hoje, o que chamaria o meu terceiro encontro com o Cônego Belchior,
propiciado pelos que tiveram a feliz iniciativa de criar esta Academia, aos quais
cumprimento na pessoa de Célia Lamounier Araújo, de cujo trabalho somos devedores.
Esta dívida, no meu caso se avulta, na medida em que me coloca ao lado de confrades cujo
talento, competência e dignidade nobilitam as instituições e as pessoas a que se ligam,
como as engrandeciam aquele homem a quem escolhi para meu patrono, nesta Academia.

Senhores,

Ninguém melhor que um discípulo para julgar um preceptor, mormente quando é
um aureolado escritor lúcido como é o caso de Menotti del Pichia que, por ocasião da morte
do Cônego Belchior, assim se referiu ao antigo mestre: “Na paisagem de minha infância
que tem como fundo Pouso Alegre, seu colégio, seus professores e meus condiscípulos,
uma figura amiga e boa, desaparece, o Padre Belchior, cuja lembrança se fixou,
indelevelmente, nos nossos espíritos. É que estimávamos o Padre Belchior com particular
afeto. Prova-o o fato de o termos escolhido paraninfo, quando orgulhosos e cheios de
esperança, celebramos a festa de nossa formatura, como bacharéis em Ciências e Letras.
Lembro-me, ainda, continua o poeta, que fui eu quem compôs o nosso quadro e de como
pus em destaque sua fotografia, bem no alto, dando-lhe uma posição de primazia sobre
todos os homenageados. A vida nos arrancou do contato com seu alto espírito. Entretanto, o

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que ele impregnou de bondade e de doçura espiritual em todos nós, ficou como a
perpetuidade de um exemplo. Por isso reverenciamos a sua memória limpa e santa”.

Senhores! Essas palavras constituem a melhor versão que eu poderia dar ao meu
sentimento.
Devo interromper aqui. depois do Poeta, só a prece.

Djjalma Teixeira de Oliveira

***

“E porque não dissemos nada já não podemos dizer mais nada”
(Maiakowsky)

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FRANCISCO BARBOSA MALACHIAS

Pseudônimo Tito Lívio, nasceu em 04.l0.1908, filho de Belarmino Malachias e Rita
Barbosa Malachias, sendo sócio da Academia na seção de Poesia, cadeira nº 15, patrono
Cesário Mendes Cerqueira. Estudou no Colégio Padre Chico em Itapecerica e Baeta Neves
em Ouro Preto. É poeta, músico e violinista. Fez parte da Lira Santa Cecília, Corp. Musical
N. Sra. das Dores e Orquestra de Cordas da Academia de Música Cesário Mendes. Foi
diretor e fundador da Rádio Difusora de Itapecerica, tesoureiro da Santa Casa, vereador
1950/53, rádio-amador em 1948, comerciário de 1927 a 1950 e é funcionário aposentado da
Caixa Econômica Estadual.

CIDADE DAS ROSAS
Francisco Barbosa Malachias

ITAPECERICA, cidade das rosas!
És a cidade de meus encantos,
És bela e formosa
És encanto de meus cantos.
Entre todas a mais bela e grandiosa!
A cidade onde ainda se ouve o canto
E o arrulhar da rola sempre ternos
Do sabiá e do bem-te-vi, por encanto
A enaltecer os corações maternos
Oh! Terra! onde a brisa nunca tem prantos!
Tuas manhãs são lindas e maravilhosas
O belo céu de azul sempre se reveste
E tuas tardes são belas e promissoras
Em teus prados cheios de flores silvestres!
E tuas centenárias igrejas, tão lindas!
Nossa vetusta, bela e querida terra,
Cheia de saudades e lembranças infindas,
Imorredouras recordações encerram!
Tuas praças repletas de tantas saudades
Trazem-me as mais belas recordações
Com seus roseirais a espargir amenidades,
CIDADE JARDIM! De belezas tamanhas,
Quantas lembranças em todos os corações ficam
Com o panorama de suas belas montanhas
Oh! Minha cidade de ITAPECERICA!

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ELIANA
Francisco Barbosa Malachias

Eliana, minha filha querida,
É uma criança forte e bem crescida
Muito gárrula e muito ridente,
Inquieta, alegre, papagaia e canta,
Tão garbosa, de olhar inteligente...
É travessa e a todo mundo encanta!

Correndo e pulando muito depressa,
Com o gorjear constante na garganta,
É sempre como o rouxinol não cessa,
No meu lar, traz alegria e muito encanto!

Os lindos cabelos laureando-lhe a cabeça
Juvenil, alegre, que a idade lhe colora
Com belas faces e sempre muito travessa
É uma linda criança, que meus olhos enamora!

Sempre brincando, ora fugindo, ora correndo
Pelos canteiros floridos, sempre marota,
Vendo-a correndo, cuido um druida estar vendo!

Sendo para nosso lar vida, festa e alegria,
Esta gentil, meiga e tão formosa garota,
Tornando a nossa casa em verdadeira poesia!

FRANCISCO BARBOSA MALACHIAS
1 – Vida literária: colaboração em diversos jornais, revistas Itapecerica, Minas
Magazine e Alterosa (pseudônimo Tito Lívio). Publicou um livro “Do coração para o
coração”.

2 – Composições musicais: marchas fúnebres, 1948; Saudades de José Leopoldo
Corrêa, 1953; Lágrimas a uma mãe, 1954; Lembrando uma mãe, 1980; Melodia fúnebre e
Melodia Triste.

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ODE A TAMANDUÁ
João Pereira da Silva – BH/1990
Troféu: Dr. Antônio Felizardo Siqueira

Ó linda e bela Zona das Vertentes
toda cheia de amor e de mistério,
de filhos decididos e valentes
desde os tempos já idos do Império.

De “raça lutadora, de vanguarda”
Deus guiou os teus passos e vitórias.
Tua gente boa cultiva e em si guarda
a vocação do trabalho e da glória.

Na tradição das tuas cavalgadas,
mostras tua bravura e teu valor.
Jovens ou velhos, nas suas montanhas,
Desfilam transbordando cor e amor.

Ruas estreitas cheias de passado,
pedras que falam a alma da gente,
lembrando um antigo reino encantado
dos contos de fadas de antigamente.

E, ó Brasil, a bela Tamanduá
te doou varões da maior valia,
cujos feitos a História guardará
como exemplo a seguir no dia a dia.

Tamanduá, mãe de Itapecerica,
filha linda da Zona das Vertentes,
de terra boa, produtiva e rica,
de muito heróicas e bondosas gentes.

Tamanduá, tão linda como és,
tão grandiosa, tão cheia de luz,
até me lembras, da cabeça aos pés,
a terra onde nasceu o bom Jesus!

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VALSA DA FRATERNIDADE QUEM SOU EU
Josafá da Costa Mesquita

Coro – Fraternidade, sim
A violência, não Ando fantasiada, vestida de verdade
- Venham todos a mim nas esquinas e bancas desta cidade
Vamos dar a nossa mão sou granfina, perfumada e elegante
quando me criticam
Vamos formar a corrente tacho-os de ignorantes
Com vistas à perfeição sou estudada, poliglota, muita bacana
Iluminar nossa gente meio pobre mas finjo ter muita grana
Com amor, dedicação estou no clube, loja, academia,
freqüento culto, igreja, livraria,
Vamos levar à criança vivo no rádio, novela, televisão
Bom exemplo e educação e me colocam até debaixo do colchão
É para ter confiança ando na moda, quase que pelada
De formar um bom cidadão com minha cara bastante mascarada
eu sou da farra e gosto de arrelia
A Religião à Educação me batizaram de que?
Precisa andar bem ligada
Para que a geração Resposta: foi de “pornografia”.
Não se encontre abandonada

Vamos orar minha gente
No combate ao egoísmo
Que nos torna doente
Enfraquece o patriotismo HAICAI
Célia Lamounier
Josafá da Costa Mesquita

Em golpe sutil
na matéria esculturando
GTO eterno.

PENSAMENTO

“O homem que é alguém tem contra si todos aqueles que se desesperam de não
serem alguma coisa” (Rastin)

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ANTÔNIO FELIZARDO SIQUEIRA

Caro collega

Quiseram os nossos amigos fosse eu o pregoeiro protocolar de seus méritos, neste
festim de tão merecidas homenagens consagradas ao distincto amigo. Teria talvez receio de
mostrar-me vaidoso, aceitando com tanta expontaneidade a destacada incumbência que me
foi feita, si não tivesse a certeza de que reconheceram em mim, naturalmente, não só o
amigo, mas o companheiro mais antigo de profissão, e por isso, a primasia coube não ao
mais digno e ao mais capaz, porem ao mais velho. E esta veteranice me enche de autoridade
para reconhecer e proclamar na pessoa do homenageado, os motivos mais justos de toda
esta sympatia e admiração. Como calar aqui a principal razão deste signal de estima dos
seus admiradores, quando é tão belo o motivo de regosijo de todos os seus amigos? Não
poderíamos silenciar o nosso enthusiasmo e a nossa satisfação de itapecericanos diante de
seu conterraneo, que soube enfrentar todas as dificuldades de um longo período de estudos
e vencer as asperezas de uma penosa jornada, para finalmente, como seu merecido premio,
com o seu diploma de medico, regressar ao solo querido da cidade natal.
O termino triumphante de seus estudos, prezado collega, a sua colação de grau em
medicina é um acontecimento social que faz vibrar as nossas almas de grande satisfação e
de sincero regosijo. Reconhecemos e admiramos neste seu triumpho, não somente a
inteligencia mas a tenacidade de um moço, que sabe lutar e vencer denodadamente os
obstaculos que se interpõem às suas aspirações. É um exemplo a seguir na modelação do
espírito da nossa juventude, porque aqueles que o imitarem serão desde logo vencedores em
perspectiva e conseguirão sem duvida, aquilo que indicar a tendência de cada um. Aquele
solar modesto e honrado, admirado e enaltecido pelos itapecericanos, donde já saíram dois
padres e um pharmaceutico, tem agora mais resplandescencia e a sua glorificação mais
admiravel ainda.
Pode crer prezado collega e amigo, que estas minhas palavras expressam um singelo
brinde, porem, se elas perdem em brilho literario, não se desmerecem em sinceridade.
Discurso pronunciado pelo Dr. Severo Augusto por ocasião do banquete oferecido
ao Dr. Antônio Felizardo Siqueira em 8 de dezembro de 1941.

“Aquele que recebe um beijo e deixa o resto para depois, não merece o que se lhe
deu”.
(José Ingenieros)

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JOSÉ LOURENÇO DE SIQUEIRA

IN MEMMORIAM
PADRE MARCIANO

Tu és sacerdote, eternamente, Padre Marciano, segundo a Ordem de Melquisedec.
Foi no teu jubileu de ouro sacerdotal celebrado aqui na nossa Matriz, que alguém quis
repetir o versículo de S. Paulo, e não o fez pelo adiantado da hora, que correu rápida.
“Quão formosos são os pés que caminham para anunciar a verdade e a Justiça”. Teu
sacerdócio foi este anúncio a que alude o Apóstolo.
Itapecerica hoje ressente a presença humilde, silenciosa, tangível e física de um
filho sacerdote que, por mais de meio século de vida apostólica, construiu através de seu
eterno ministério o Reino de Cristo em outras plagas destas Minas Gerais.
Nós pranteamos o amigo, mas celebramos o intercessor junto de Deus, o adorador
das magnificências divinas, que Padre Marciano soube distinguir ao seu rebanho.
Edificados por teus padecimentos, suportados com santa resignação como um novo
São Francisco de Assis, dores e padecimentos envoltos na alegria interior que manava
profusa e tua piedade, mormente quando celebravas a santa missa no curso de seu longo
pastoreio, missas que no final de teus dias, em casa, eram alento de tuas forças combalidas.
Voaste para o céu, onde eternamente com teu irmão Padre José Bernardino, Padre
João da Cruz, o sobrinho, tua extremada mãe D. Maria Rita, pai, parentes e aquele plêiade
de sacerdotes itapecericanos que louvam o Senhor de todos os dons e carismas, enquanto
aguardamos aqui na terra o dia nos unir ao coro dos anjos e santos de que fazes parte, como
“sacerdos alter Christus”.
A imagem de tua presença comunicativa e comunicante há de perenizar teus
exemplos, se não nos mármores frios mas nos corações de teus pósteros, que te veneram e
te pranteiam.
Padre simples como simples a família Macota, alegre e brincalhão porque
extravasava de tua intimidade com Deus, alegre como sua mãe, Padre Marciano se ufana e
se rejubila na posse definitiva de Deus, após fecundo, edificante e tantas vezes
incompreendido munus pastoral, construindo em Martinho Campos magnífica Matriz,
como Salomão edificara no AT o Templo de Jerusalém, a sempiterna magestade de Deus
excelso pai, bondoso, onipotente.
Deixaste a marca de teu zelo apostólico em São Tiago, quando vigário daquela
comunidade e aí preparaste para o sacerdócio, digno e operoso Padre.
Amaste também Padre Marciano os vôos alcandorados do otimismo, dedicando-te à
arte de voar, organizando aero-clubes. E nesta ânsia das alturas, como águia altaneira,
ouviste o aceno de Deus. “Vinde bendito de meu Pai, possuir o reino eterno que
conquistaste e a coroa incorruptível dos santos e assinalados”.
Mas, meus conterrâneos e amigos de Itapecerica, emudeceu-se mais um
confessionário; calou-se mais um sermão enérgico e cheio de bondade; deixou-se de
celebrar mais uma eucaristia; menos um apóstolo para batizar e anunciar o Evangelho de

85
Deus.
Abre-se, porém, na eternidade uma perspectiva sobre adorante de um novo e
poderoso intercessor junto ao trono das Misericórdias. Desapareceu um apóstolo,
alquebrado pelos anos, trabalhos e sofrimentos... evidenciou-se mais um testemunho de fé,
mais um exemplo de resignação na enfermidade suportada em silêncio, inspirado em N.
Sra. das Dores, Rainha dos Apóstolos, dos mártires e dos confessores.
Permanecerão tuas ligações de piedade, Padre Marciano, a bravura de sacerdote
jovem, ardoroso e destemido, a coerência à vocação que tanto amaste, transfundindo,
momento a momento, não obstante tuas limitações de criatura humana, a pujança de teu
ideal, agora transformado pela divinização da nova vida, que não te foi tirada mas
transformada em nurífico Tabor de glórias de Deus trino e uno.
Olha daí da parúsia celeste, Padre Marciano, para os teus familiares, ex-
paroquianos, amigos e conterrâneos.
Invoca instantemente ao Divino Espírito Santo, a florescente eclosão de novas e
santas vocações sacerdotais e religiosas. Vela pela tua Igreja peregrina. Desperta a
religiosidade e o fervor adormecido no coração da juventude. Acompanha daí da tua glória
esta mesma Igreja que tanto amaste e a ela foste fiel até o fim. Reza pelos pobres a quem
revelaste solicitude e compaixão. Consumistes, Padre Marciano e te devoraste no zelo
ardente como o profeta na pregação da justiça e da fraternidade.
Descansa agora na eterna luz que não se apaga, como o Apóstolo que combateu o
bom combate e guardou a fé.
Despetalam-se, sobre tua memória abençoada, as flores da humildade... fossem
lágrimas de fervido pranto sobre teu sacerdócio, suspirem todas as almas pelas colinas
eternas e glorifique-se a Deus Pai, a tua morte, antecâmara radiosa de tua ressurreição.

Em 07.08.85 e 24.08.85 respectivamente. Dixi

Jair Moreira e Levy Antônio Beirigo Malaquias

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E O SONHO ACABOU?

1ª Reunião para compra do Colégio
Convocação feita por telefone para uma reunião na Sala da Câmara sobre proposta
referente à compra do Colégio Imaculada Conceição para o município de Itapecerica,
através de proposta ao Prefeito José Sabino Filho. Convocados para dia l6.06.88 às 19:30h:
Ricardo Renó, Carlos Maia, José Lourenço, Magda Rios Lamounier, Maria Lúcia Rios
Pereira, Luís Roque, Roberto Gomides, Ieda Madeira, José Rita, Jorge Malaquias, César
Malaquias, Lindolfo Pena Pereira, Dr. Rafael Andrade Leite, Levy Beirigo Malaquias,
Mathias Arantes, José Arantes, Mauro Bento e Benedito, e outros, representantes cada um
de setores diversos da nossa comunidade. Convocação feita por Célia Lamounier Araújo.
Durante a demorada reunião todos foram unânimes quanto ao fato de que se deveria
aproveitar a oportunidade e envidar esforços para a realização do negócio. Não foi feita a
ata por ser uma reunião informal, com a finalidade única de saber a opinião dos diferentes
setores da nossa comunidade.

Resumo dos Fatos
O Prefeito Zé Rita, por estar no final de seu mandato, inicialmente disse “não” à
compra do Colégio, mas a Academia, por alguns de seus sócios, se empenhou na realização
do negócio. Várias reuniões foram feitas: “precisamos do Colégio, como comprá-lo?”
Em 18.07.88 uma proposta diferente foi enviada às Irmãs Batistinas – comprar
somente a metade do imóvel. Por telefone a Ir. Virgínia nos disse que desejava o Colégio
em mãos cuidadosas, com o compromisso de zelar pelo imóvel, destinando-o a fins dignos
e conservando o nome da Imaculada Conceição. Assim considerando “preferia vender todo
o imóvel para a Academia fazendo doação de parte dele, ou seja, havia pedido 30 milhões e
resolvia vendê-lo por apenas 20 milhões”.
O valor combinado como pagamento de sinal também não se conseguia e
novamente por telefone este valor caiu de 5 milhões para 400 mil cruzados. Conseguido o
dinheiro (Zé Lourenço, Levy, Tião, Auro, Célia, Martinho, Lindolfo e Ant. Furtado) por
telefone confirmamos o negócio pela manhã e enviamos o cheque à tarde. A Nacional de
Grafite resolveu doar sozinha os 400 mil que foram depositados em conta da Academia. A
Empresa RN Ltda e a Nacional de Grafite se comprometeram a ficar com o imóvel “caso
houvesse algum problema” e assim, garantida a compra, foi feito um Contrato Particular de
Compra e Venda, reunião festiva filmada pelo Zé Arantes, onde D. Marina Couto fez
doação para a Academia da Imagem de N. Sra. (levada para a Capela do Colégio pela Mita
dia 19.11.89).
O imóvel foi entregue à Academia em 30.10.88 e parte dele foi emprestado por
alguns meses ao Ginásio Padre Herculano Paz. Combinamos que o auditório seria da
Academia mas, depois, frustrados em nossas esperanças e sonhos, tudo deixamos nas mãos
dos outros.
Inclusive, no auditório foram colocadas cadeiras do Cine Rios que haviam sido
doadas para o Dr. Levy/Academia.
As cadeiras SUMIRAM e ninguém prestou contas à Academia.
O Prefeito Lindolfo Pena Pereira enfrentou o compromisso, apoiado pelos amigos

87
daquela época: José Lourenço, Antônio Claret, Sebastião Henrique Souza, Matias Arantes e
Célia Lamounier de Araújo, que fizeram empréstimos bancários para quitar os pagamentos
conforme combinado e dar condições, assim, de ficar com o imóvel para a Prefeitura. Os 20
milhões ou 10.362,69 OTNs de 05.08.88 transformaram-se em 120 milhões após seis meses
e a Prefeitura não tinha em mãos este dinheiro. Mesmo assim continuava sendo uma ótima
aquisição.
No dia de passar a escritura para a Prefeitura, chamados ao gabinete do Prefeito,
falamos sobre a parte da Academia e sua resposta foi: “já está tudo pronto, vamos passar a
escritura do imóvel todo e depois eu resolvo isso”. Na boa fé que nos merecia, assinamos.
Infelizmente... o prefeito passou a ter novos amigos, novas idéias e se distanciou do
planejado. Até a biblioteca carinhosamente refeita pelo Zé Lourenço foi passada a outras
mãos. Sequer soube ter um retorno referente ao imóvel que ficou, durante 4 anos
“emprestado” para uma Escola Estadual enquanto a própria Prefeitura reconstruía o prédio
da citada escola: salas alugadas a particulares que não pagaram nada e o sonho da
Faculdade se derreteu frente ao muro do indiferentismo total.
O Prefeito e seu digno assessor chegaram ao cúmulo do absurdo de dizer que não
sabiam nada sobre o direito da Academia em parte do imóvel. Temos o testemunho de suas
próprias assinaturas, de muitas outras pessoas, do sr. Arnaud Antônio da Silva, atual vice-
prefeito, documentos e fatos.
RESSALTE-SE que estava sendo pedido não a parte de direito, mas tão somente o
reconhecimento de nosso empenho através de uma sala, num prédio que foi comprado pela
Academia para a Municipalidade e do qual muitos estavam usufruindo sem nada ter feito
em prol de sua aquisição.
A Academia não precisa de imóveis e sobrevive muito bem sem uma sede. Se
tocamos no assunto hoje é única e exclusivamente para que fique o fato registrado e nos
faça justiça a geração do futuro. Se tudo mudou, fica então resguardado que a omissão não
foi nossa. Queríamos seguir em frente mas fomos retirados do caminho. CLA
Academia Itapecerica de Letras e Cultura
JOSÉ LOURENÇO DE SIQUEIRA

88
PREZADA IR. VIRGÍNIA FERREIRA
PROVINCIAL DA CONGREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA

Conforme entendimentos verbais, a Academia vem formalizar perante essa
Congregação, proposta para aquisição de apenas metade do prédio do Colégio Imaculada
Conceição.
Preço proposto para venda do Colégio Cz$ 30.000.000,00
Preço da metade seria então assim:
Cz$ 15.000.000,00 equivalente a 9.385 OTN/Julho de 88 para compra da metade do
Colégio (salas). Pagamentos: 470 OTN na aceitação, 4458 OTN em seis meses e 4457 OTN
em 12 meses.
Atenciosamente
Célia Lamounier de Araújo
P/AILC em 18.07.88

DA CONGREGAÇÃO PARA A ACADEMIA EM 05.08.88
Estudando a proposta feita, percebemos que tanto para a Congregação como para a
Academia, é de maior proveito a venda integral do imóvel. Para facilitar ainda mais, a
Congregação diminui o seu valor de 30 milhões para 20 milhões de cruzados: 2.072,52
OTNs na assinatura do contrato e 8.290,17 OTNs com até 180 dias. Implorando as bênçãos
de Deus para o bom êxito da Faculdade e para todos os seus empreendimentos, aguardamos
sua resposta.
As. Irmã Virgínia da Conceição Ferreira.

FOGOS
Da Revista do Arquivo Público Mineiro nº 1 de 1897:
O Termo da Vila de São Bento do Tamanduá em 1830 tinha 863 fogos assim
distribuídos
Vila e Matriz de Tamanduá 264
Arraial de S. Antônio do Monte 51
Bom Jesus de Matozinhos A. Velho 30
A. da Formiga 147
A. do Destino 36
A. e M. do Piumhy 83
A. e M. do Bambuy 38
A. e M. de Campo Bello 71
A. dos Cristaes 16
A. Sra. Ajuda do Rio Grande 16
A. de Candeias 39
A. de Matosinhos das Candeias 23
A. de S. Francisco de Paulo 49

89
ATA DA REUNIÃO ESPECIAL DA AILC

Realizamos, após várias reuniões preliminares na sala da Câmara Municipal, no dia
16.08.1988 às 20h, em casa da presidente da AILC, uma reunião especial para tratar de
assunto de interesse municipal, ou seja, a compra do Colégio Imaculada Conceição,
negócio este oferecido ao prefeito José Sabino em meados de junho pp.

Estavam presentes, além de vários sócios da Academia, algumas pessoas ligadas ao
ensino e a área administrativa. A presidente Célia explicou que, após várias conversas
telefônicas mantidas com o sr. João Pereira e a Irmã Virgínia, recebeu uma proposta
irrecusável que resumidamente seria: uma entrada de Cz$ 400.000,00 (quatrocentos mil
cruzados) imediatamente para segurar a compra do Colégio, ficando o restante para ser
pago no prazo máximo de 6 meses, como nos fosse possível, após o período eleitoral
porque, neste período seria impossível aos sócios da Academia angariar fundos. Todos os
presentes concordaram que era uma decisão de suma importância municipal e que tal oferta
seria irrecusável. Foram aventadas hipóteses de como conseguir o dinheiro, algumas
pessoas se prontificaram a dar, cada uma delas cinqüenta mil cruzados, outras apenas
emprestariam o dinheiro e finalmente ficou resolvido que o Colégio seria comprado e o Dr.
Lindolfo, secretário da Academia, advogado da Nacional de Grafite e candidato a prefeito
de Itapecerica, faria a doação por si só destes quatrocentos mil cruzados iniciais. Ficou
decidido ainda que todos os esforços seriam envidados no sentido de receber o Colégio em
1989, ano do bicentenário de Itapecerica, trazendo possivelmente uma extensão da
Faculdade Católica de Minas Gerais, fato já em adiantados estudos e conversas através do
professor Ricardo Renó, hoje funcionário da Grafite. Ficou resolvido ainda que a presidente
Célia deveria providenciar com urgência o registro da Academia no Ministério da Cultura
para que esta entidade possa então angariar fundos para o pagamento do restante. O
contrato de compra e venda do Colégio tem o valor de 10.088,374 OTNs equivalentes hoje
em moeda nacional a vinte milhões de cruzados. Nada mais havendo a tratar deu-se por
encerrada a reunião e lavrou-se esta ata, assinada pelos presentes por estarem de acordo.
Itapecerica, 16 de agosto de 1988.

As. Levy Antônio Beirigo Malaquias, Lindolfo Pena Pereira, José Lourenço de
Siqueira, Carlos Mesquita Maia, Magda Rios Lamounier, Ieda Madeira, Célia Lamounier
de Araújo, Sebastião Henrique de Souza, Roberto Duarte Gomides e Ricardo Antônio
Renó.

90
TERMO DE ENTREGA DO IMÓVEL DO COLÉGIO IMACULADA
CONCEIÇÃO, SITO À RUA J.K., 96, EM ITAPECERICA-MG

I – Irmã Virgínia da Conceição Ferreira, Presidente da Congregação de São João
Batista, em cumprimento ao Contrato celebrado entre a Congregação e a Academia de
Letras, na data de 05 de agosto de 1988, em seu artigo segundo, subcláusula única, entrega
nesta data à Promitente Compradora o Imóvel supra mencionado, como de fato o faz.
II – A Promitente Compradora representada por sua Presidente, Senhora Célia
Lamounier de Araújo, recebe o referido imóvel, após uma vistoria completa do mesmo,
afirma estar, o mesmo integralmente nas condições observadas antes da assinatura do
Contrato de Promessa de Compra e Venda.
III – Fica a Promitente Compradora, emitida na posse precária do Imóvel, podendo
dar ao mesmo a destinação que melhor lhe aprouver, sempre em conformidade com o
Contrato de Promessa de Compra e Venda, ficando, finalmente acordado que é de sua
exclusiva e total responsabilidade, a partir desta data, a manutenção, conservação, contas de
água e luz, impostos municipais e outros emolumentos.
E por estarem justos e de acordo, firmam o presente termo, em duas vias de igual
teor e forma.

Itapecerica, 30 de outubro de 1988.

Promitente Vendedora
As. Irmã Maria Joana da Conceição Ferreira
Promitente Compradora
As. Célia Lamounier de Araújo

TESTEMUNHAS:
As. Geraldo Manoel dos Santos
As. Ronaldo Ribeiro Silva

***

“A verdade é maior do que nossos modos de conhecê-la, por isso é necessário
manter aberto os caminhos para se chegar a ela independente de condições e métodos”.
(Do livro: O homem e a ciência do homem)

91
PROJETO DE LEI Nº 28/88

Autoriza o Executivo Municipal a adquirir o imóvel do ex-Colégio Imaculada
Conceição, a contrair financiamento e contém outras disposições.

Art. 1º - Fica o Poder Executivo autorizado a adquirir o imóvel pertencente à
Congregação de São João Batista, proprietária do ex-Colégio Imaculada Conceição, com
área total de 5.750m² (cinco mil, setecentos e cinqüenta metros quadrados) e um Telefone,
pelo valor equivalente a 10.088.374 OTN e mais o custo atual do Telefone, a ser fornecido
pela Telemig.
Art. 2º - Para fazer face às despesas da aquisição mencionada no art. 1º desta Lei,
fica o Executivo Municipal autorizado a contrair financiamento no valor necessário ao
pagamento do respectivo imóvel, inclusive demais despesas oriundas dessa transação.
Art. 3º - Como garantia a este financiamento fica o Município de Itapecerica
autorizado a vincular quotas do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de
Mercadorias–ICM e/ou Fundo de Participação dos Municípios.
Art. 4º - As despesas decorrentes desta transação imobiliária, correrão à conta da
dotação própria constante do Orçamento vigente e para o exercício de 1989: II-07-4321-
Aquisição de Imóveis, ficando desde já o Executivo autorizado a suplementar a referida
dotação, nos termos das respectivas Leis orçamentárias.
Art. 5º - Fica o Sr. Prefeito autorizado a assinar toda documentação necessária ao
fiel cumprimento da presente Lei.
Art. 6º - Revogadas as disposições em contrário, entre a presente Lei em vigor na
data de sua publicação.

Prefeitura Municipal de Itapecerica, 12 de dezembro de 1988.

JOSÉ SABINO FILHO
PREFEITO MUNICIPAL

Sujeito a 2 discussões
APROVADO em 14.12.88
as. Presidente da Câmara

“Façamos do mundo um lugar melhor”

92
JUSTIFICATIVA AO PROJETO 28/88

Senhor Presidente, Senhores Vereadores,

O presente projeto visa a tornar realidade um velho sonho dos itapecericanos,
necessidade urgente para o progresso de nossa terra, que é a implantação de uma
Faculdade.

Por isso, o Município está adquirindo todo o imóvel do Colégio Imaculada
Conceição, terreno, benfeitorias e telefone, considerando que segundo contatos feitos com a
Universidade Católica de Minas Gerais, foi o imóvel julgado apto para instalação de Curso
Superior.

A negociação foi iniciada pela Academia Itapecericana de Letras, da qual Lindolfo
Pena Pereira é Secretário, ficando resolvido e assegurado, através de contrato particular de
compra e venda em 05.08.88, o valor do imóvel. Ressaltamos que o baixo preço do
imóvel se deve à combinação feita entre as partes de que uma fração do mesmo fosse
doada à referida Academia. O valor inicial era de 15 mil OTN, caindo em função
desse acordo para 10.088.374 OTN.

Consideramos que o Município é indicado para ser proprietário do imóvel e para dar
a ele a destinação adequada. Mas para que isto se concretize há necessidade de se fazer um
financiamento liquidando o investimento, o qual enriquecerá sobremaneira o patrimônio do
Município.

Diante do exposto, pedimos a aprovação deste histórico projeto, marco inicial do bi-
centenário de Itapecerica, fecho de ouro da nossa Administração.

Atenciosamente,

JOSÉ SABINO FILHO
PREFEITO MUNICIPAL

Em 12.12.88

“A César o que é de César”

93
RECIBO NCZ$ 49.796,20

Recebi da ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA, com sede
nesta cidade de Itapecerica-MG, inscrita no CGC sob o nº 20.896.999/0001-06, a
importância de 8.070.698 OTNs, equivalentes a quantia supra de CZ$ 49.796,20 (Quarenta
e nove mil, setecentos e noventa e seis cruzados novos e vinte centavos), proveniente da
venda que a CONGREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA, com sede em Belo Horizonte-
MG, CGC nº 17.257.5l0/0001-41, sito à Avenida Francisco Sales, nº 77, fez à ACADEMIA
ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA do imóvel denominado COLÉGIO
IACULADA CONCEIÇÃO, sito à Rua J. K., nº 96, nesta cidade, conforme contrato
particular de Compra e Venda, assinado em 05 de agosto de 1988, e passando uma
procuração em nome de CARLOS MESQUITA MAIA, brasileiro, solteiro, advogado, e
VÂNIA DINIZ BOAVENTURA, brasileira, casada, advogada, ambos residentes nesta
cidade, procuração essa em caráter irrevogável, e irretratável, para que os ditos
procuradores da CONGREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA possam assinar em seu
nome a escritura de Compra e Venda do mencionado imóvel a quem a ACADEMIA
ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA indicar.

Itapecerica, 03 de fevereiro de 1989

Irmã Maria Joana da Conceição Ferreira

“Congregação de São João Batista”

Escritura passada em 31.03.1989 e registrada no CRI sob o nº R.1.12.972 Livro 2Z
fls. 80 em 03.04.1989.

Cópias e originais de todos os documentos no arquivo da Academia

94
ACADEMIA ITAPECERICANA DE LETRAS E CULTURA

Ofício nº 03/92 de 10.11.92
Exmo. Sr.
Dr. Lindolfo Pena Pereira
Prefeito Municipal de Itapecerica

Excelentíssimo Senhor,
Tendo em vista as negociações feitas em 1988 e 1989 para compra do antigo
Colégio Imaculada Conceição, iniciadas pela Academia Itapecerica de Letras e Cultura, e
finalizadas passando-se o imóvel para a Prefeitura de Itapecerica ficando em suspenso a
doação combinada de uma fração do imóvel para a Academia, conforme é do conhecimento
de muitos, solicitamos vossa especial atenção e temos a certeza de que, com a participação
ativa de V. Exa. o assunto será satisfatoriamente resolvido ainda este ano para o progresso
da Academia e de Itapecerica.
Contando com vossa costumeira justiça e ajuda, pela Academia, atenciosamente,
As. Célia Lamounier de Araújo, Levy Antônio Beirigo Malaquias, Jefferson Ribeiro
Filho, Fábio Antônio Coutinho, Jorge Malaquias, Carlos Mesquita Maia.

***

ITAPECERICA, 14 DE DEZEMBRO DE 1992

Ilma Sra.
Dra. Célia Lamounier de Araújo
Itapecerica-MG

Prezada Senhora,
Em resposta ao ofício de V. Sa. nº 03/92, de 10.11.92, em que trata da possível
doação do imóvel (sala) à Academia Itapecericana de Letras e Cultura, pela Prefeitura
Municipal, temos a informá-la de que foi solicitado um aprofundamento do assunto ao Sr.
Secretário Geral da Prefeitura, o que realmente foi feito, conforme cópia anexa para sua
apreciação.
Sem outro particular, apresentamos a V. Sa. nossas
Cordiais Saudações.
Lindolfo Pena Pereira
Prefeito Municipal

95
ITAPECERICA, 10 DE DEZEMBRO DE 1992

Exmo. Sr.
Dr. Lindolfo Pena Pereira
DD. Prefeito Municipal de Itapecerica-MG

Em resposta ao r. despacho exarado no ofício nº 03/92, de 10.11.92, da Academia
Itapecericana de Letras e Cultura, tenho a informar a V. Exa. o seguinte:

1) Não me lembro de qualquer combinação de V. Exa. com a Academia
Itapecericana de Letras e Cultura, relativa à doação de uma fração (sala) do imóvel
“Colégio Imaculada Conceição” à Academia.
2) Não encontrei na pasta de documentação de compra e venda do Colégio,
qualquer alusão ao assunto.
3) Quanto à doação, ela não consta do Contrato Particular de Promessa de Compra e
Venda, de 05.08.88 nem da Escritura de Compra e Venda, de 31.03.1989, e, nem muito
menos, na Lei nº 1.097/88, de 15.12.88, que autorizou a aquisição do referido imóvel.
4) Simplesmente, o que me foi possível apurar, em conversa com o Dr. José
Lourenço de Siqueira, é que realmente vislumbrou-se a possível doação, tendo ele, na
época, até mandado medir uma sala, para aquela finalidade. É o que me informou nosso
amigo comum.
Nada mais me foi possível coletar sobre o assunto.
Na oportunidade, apresentamos a V. Exa. protestos de estima e admiração.

Atenciosamente,

Carlos Mesquita Maia
Secretário Geral

***

“A única coisa que cresce é a população.
Basta ter olhos para ver.
Os gritos são ouvidos pelo silêncio.
Nunca se sabe o que não se quer saber.”
(Do livro “O longo declive” de Hilton Luiz)

96
JORNAIS DE ITAPECERICA

O primeiro jornal em 1884, chamou-se “O Itapecericano” e foi editado pelo Major
Afonso Henriques Lamounier tendo por redator José Ferreira de Carvalho. Alguns meses
depois, surge “O Raio” redigido por Bento Ernesto Júnior que em 1885 cria também “O
Canário”.

Seguem-se outros de tarecos e papiatas:

A Prosa – O beija-flor – Bento Ernesto Júnior;
O Patriota – Major Afonso Henriques Lamounier;
A Luta – A Reação – Severo Ribeiro e José Henrique Melo;
O Tamanduá – A Navalha – José Procópio de Oliveira;
A Falena – Sílvio Rodrigues Pereira;
O Corta Jaca – José Bernardino Corrêa;
Orvalho – Joviano dos Santos Ribeiro.
1886 – Gazeta de Itapecerica;
1886 – O Itapecericano 2ª fase – Otaviano A. de Araújo;
1901 – O Echo – Joviano dos Santos Jr;
1905 – O Natal – Américo S. Barbosa;
Correio do Oeste 1912 – Severo Ribeiro e Leopoldo Ribeiro;
Correio do Oeste 1917 – Moisés de Castro;
Correio do Oeste 1926 – José Henrique Melo;
1925 – A Voz do Povo – Matos Barbosa;
1925 – A Tesoura – José Mezêncio;
1925 – A Pulga – Herculano Rios;
1930 até 1948 – Gazeta Liberal – João Cleto Moura, José Navarro, Luiz de Melo,
João Evagelista Malaquias;
1938 – Gazeta Forense – O Sapeca – João Faísca;
1939 – O Tesouro Infantil – O Amiguinho das Crianças – CIC
1952 – Juventude – Ginásio Pe. Herculano Paz;
1957 – C.E.I. – Centro Estudantil Itapecericano;
1962 – Informativo Faísca – João Evangelista Malaquias;
1969 – Ita Jornal – Rogério de Araújo (mimeografado);
1971/2 – Janelão – Célia Lamounier de Araújo;
1973 até Jan/77 – O Itapecerica – CLA – PCP – LABM – JLS;
1987 – Quatro Bicas – Célia Lamounier de Araújo;
1988 – Mandapua – editor xerox Mala Preta
1990 – Edificando – Pastoral da Comunicação
1990 – Conquista – Fund. Mun. Cultura

97
PINGOS DE SABEDORIA

* De um folheto da Farmácia Popular:
“Palavras que nada custam e valem muito:
Senhor, Senhora, Senhorita, Faça-me o favor, Com licença, Muito obrigado, Desculpe-me,
Bom dia, Boa tarde, Boa noite. Acompanhadas de um sorriso aumentam de valor.”

* A nova moeda forte do Brasil é o CRUZCREDO, de acordo com o mestre Alopradus
Bebelorium do jornal “A Torre de Babel” considerando que o brasileiro depois que
inventaram o cruzado, só sabe dizer mesmo, ao ver os preços: “Cruzcredo”.

* TROVA de Sônia Vasconcelos de Campos - RJ
Papiata, convencido,
discursou, gritou assim:
– Até Joca, o falecido,
jura dar seu voto a mim!

* “Quem conheceu Itapecerica jamais esquecerá o seu povo elegante e amigo, as Semanas
Santas e o jardim onde era o encontro dos namorados ao som da retreta no coreto
enluarado. Depois as serenatas e o violão de Neto e Victor Bento.”
(Áurea Venâncio – Divinópolis)

98
99
100
LEVY ANTÔNIO BEIRIGO
MALAQUIAS

1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FRANCISCO GONÇALVES BEIRIGO

Francisco Gonçalves Beirigo nasceu a 03.09.1888, filho de comendador Belarmino
Gonçalves Beirigo, advogado provisionado, e de D. Clara Ricardo Menezes Beirigo.
Freqüentou o curso primário na Escola do Prof. Pretextato; na meninice e adolescência foi
fervoroso sacristão do querido e saudoso Padre João Vitor Correa, acompanhando-o na
zona rural e na Igreja das Mercês.
Mas Chico Beirigo precisava trabalhar...
Por isto faixeiro do dinâmico Josefino Correa, o Sô Fino, homem de talento e
iniciativa, verdadeiro mecenas itapecericano para com a arte musical.
Chico Beirigo sentia necessidade de se expandir e crescer. E sendo assim, com o
Telésforo Malaquias, cidadão digno e honrado, compraram do Sô Fino e Confeitaria
Central, ponto de costumeiro encontro dos itapecercanos.
Homem bem formado, casa-se a 31.01.1925 com D. Maria Madalena Malaquias, a
D. Zica, filha do Major Osires Francisco Malaquias e D. Maria das Dores Cerqueira
Malaquias.
Chico Beirigo e D. Zica tiveram quatro filhos: Osires, Maria das Dores, Clara e
Levy. As meninas vieram a falecer na 1ª infância.
Concomitante, já estabelecido na antiga Praça Agostinho Porto, hoje Lincoln da Luz
Ribeiro, com um bem sortido armazém de “secos e molhados”.
Numa opção madura, embora suas famílias pertencessem ao mesmo partido
“tareco” o nosso cidadão filiou-se aos “papiatas” e tornando-se grande amigo do Dr.
Lamounier, chefe político, deputado da monarquia e deputado federal da incipiente
república, amigo também do Dr. Gabriel Passos, deputado estadual e federal e ministro de
Estado.
A amizade entre os três era tão forte e sincera que Osires e Levy eram afilhados de
crisma dos dois eminentes políticos.
Em 1913, aos 25 anos de idade, Chico Beirigo visitou o Rio de Janeiro. Lá visitou o
Deputado Lamounier que o levou para cumprimentar o Presidente da República, Marechal
Hermes da Fonseca, fato histórico visto ter sido ele o 1º itapecericano a conhecer o Palácio
do Catete. Sempre lhe ficou na memória também a lembrança de sua ida no cais do Porto.
Ali se impressionou com a chegada dos navios e seu carregamento e descarregamento
assim como a esperteza da garotada que mergulhava no mar, de lá trazendo à boca as
moedas atiradas n’água pelos cariocas e turistas.
Foi um trabalhador que não lutou em vão porque deixou exemplos de pertinência,
coerência e dedicação ao que fazia.

Francisco Beirigo era um cidadão muito simples. Amigo de todos, confiava
demasiadamente em todos. A sua marca indelével e inconfundível foi realmente ser um
verdadeiro cristão, católico praticante. Era cena comum vê-lo em prolongada vigília aos pés
do sacrário, adorando e louvando a Augusta Presença Real de Cristo, numa antecipação

101
feliz ao Vaticano II que prescreve prioritariamente o culto da latria, para colocar em
vivência os valores da verdadeira piedade. Rezava também nos altares, venerando todas as
sagradas imagens. Por muitos e muitos anos foi festeiro da Ascenção do Senhor, celebrando
o evento com muita piedade, não deixando de vestir o terno de alpaca inglesa da solenidade
que somente é celebrada em nossa terra, com as características locais do conhecimento
itapecericano. A fidelidade à sua vocação de cristão marcou toda a sua história e o projetou
entre seus pares e pósteros, herança que ele nos legou e à sociedade.
Chegara a hora derradeira... e o mistério do Horto nele iria se cumprir. Estava
combalido o corpo e forte o espírito, pronto e disponível. No limiar do definitivo encontro
com o Pai, no silêncio e na paz ele rezou aquela última oração da cruz: “Consumatum est”,
tudo está terminado!

IN MANUS TUOS DOMINE COMENDO SPIRITUM NUNC.

Em 30.06.1972, quando sua alma sedenta de Deus, como corça que busca águas
tranqüilas da fonte, voava para o céu com quase 84 anos de idade bem vividos.
Esse itapecericano não foi um homem célebre na política, nem na tribuna ou nos
feitos dos grandes vultos da história de nossa terra. foi apenas um nobre e humilde cristão,
sujeito às contingências e limitações humanas, herança de nossos primeiros pais. Toda sua
vida foi trabalho e oração.
Assim, a permanência de Francisco Gonçalves Beirigo, em meio a nós se perpetua
hoje e sempre na bondade de seus exemplos.
“Sua vida não lhe foi tirada, mas transformada e arrebatada” para o convívio dos
anjos e dos santos no paraíso celeste, onde ele nos espera um dia para o reencontro
definitivo na CASA DO PAI.

***

“Lembra-te, homem, que és pó e ao pó voltarás”
(Gênese III – 19)

102
ORDENAÇÃO DO PADRE JOSÉ ORLANDO SIQUEIRA

O acontecimento que hoje festivamente comemoramos, transcende
excepcionalmente a qualquer outro, devido a magnitude da excelsa grandeza que ele traduz.
Celebramos jubilosamente a ordenação do Padre José Orlando Siqueira,
circunstância que encerra um duplo significado divino e terreno, celebrado no céu e na
terra, pelo novo Cristo que vem em nosso socorro.
Na terra não existe nada comparável a plenitude do estado sacerdotal, levando o
imortal Carlyle a dizer: “Ocupação mais elevada que o sacerdócio jamais foi outorgada a
homem algum.”
A partir de hoje V. Revma. pe. José Orlando terá o poder inigualável de transformar
todos os dias o pão e o vinho em corpo e sangue do Filho de Deus, aliado à faculdade de
perdoar os nossos pecados. Esse poder de ministrar os sacramentos, torna o mais humilde
padre, no invejável detentor do poder infinitamente mais poderoso do qualquer outro
existente na terra.
O saudoso Presidente Juscelino, paraninfando D. José Pedro por ocasião de sua
elevação ao episcopado, afirmou: “Que são os chefes de estado que sou eu, Presidente da
República, se comparado ao homem de Deus, que reencarna o Filho do eterno, que abre as
portas do Reino aos pecadores?
Que poder maior que o do sacerdote de Cristo, que limpa as almas e lhes indica o
caminho da salvação e a quem foi confiada prerrogativas de unir seres, de assisti-los nos
atos capitais da vida?”
Tudo isto, sois vós doravante padre José Orlando. Alguém vos convocou de maneira
irresistível. Foste na realidade escolhido por Deus. Sois de fato e de direito um privilegiado,
pois, o estado sacerdotal é extra-terreno, que está subordinado apenas à vontade divina, que
o Sumo Sacerdote agracia seus eleitos de maneira inconfundível. “Não foste Vós que me
escolhestes, fui eu que vos escolhi.” (Jo XV, 16).
A predestinação à vida eterna, diz Santo Agostinho, supõe a união de três graças,
das quais depende a salvação: o Batismo, que inicia; a Vocação, que continua; a
Perseverança, que leva a bom termo a vida humana. São como que três anéis que formam
uma misteriosa cadeia. E, sendo a vocação o anel do meio, de tal modo une os outros dois
anéis que, sem ela, não pode prevalecer o primeiro, nem garantir a consistência do
terceiro.”
Neste momento voltamos a render graças a Deus, pela vossa inscrição na sua messe.
Não vamos relembrar como foi renhida a vossa luta, Padre José Orlando, para alcançar o
altar de Deus. Acreditastes no chamado do Senhor, sendo superados todos os obstáculos,
pois, ao vosso lado sempre estavam seus genitores Abigail e Oscar, sofrendo e rezando à
Nossa Senhora, mãe dos sacerdotes, para que a vontade do Altíssimo fosse cumprida.
Queridos pais, efusivas felicitações pela ordenação sacerdotal de vosso filho. A
festa de hoje também é vossa, pela participação consciente que tivestes em fomentar a
vocação e pela doação que fizestes do vosso filho a Cristo.
Santo Afonso dizia: “Quando Deus chama uma alma para a vida religiosa, concede-
lhe, seguramente, uma graça especial.” Cantava o Profeta David: “Ditoso os que vivem em
Tua casa, que Te pertencem, que Te são consagrados”.

103
A messe é grande, dizia o Senhor, e os operários são poucos. E o saudoso Papa Pio
XII dizia que o mais grave e perigoso problema da Igreja é a escassez de clero. Porque onde
falta o sacerdote, falta a voz que repete a palavra da vida eterna; onde falta o sacerdote, a
Igreja fica fria, muda, deserta; sobre seu altar não desce mais Jesus Cristo, e falta a mão
para distribuir a Eucaristia às almas famintas; falta a mão que abençoa, o amor que funda os
lares sobre a proteção divina.”
Em Itapecerica, em cada casa, existe uma prece de agradecimento pelo seu
sexagésimo primeiro filho a alcançar a dignidade do sacerdócio e uma veemente súplica a
Deus para que outros itapecericanos venham aumentar o número dos eleitos do Senhor.
Nem todos itapecericanos puderam estar presentes na vossa ordenação sacerdotal,
padre José Orlando. Entretanto, espiritualmente, se transportaram todos para esta
hospitaleira cidade de Capitólio, parte integrante da acolhedora Diocese de Luz, cuja frente
está o grande vulto da Igreja. D. Belchior Joaquim da Silva neto, autêntico pastor, outro
Cristo em nome do qual, vigilante, usa o báculo para congregar os súditos e afugentar os
lobos que põem em risco o seu rebanho.
A D. Belchior e ao povo de Capitólio, nossos agradecimentos pelo que nos é dado
festejar e pela recepção com que nos acolheram.
Padre José Orlando, rogamos a Nossa Senhora da Glória, mãe caríssima de todos
nós, que aconteça o que acontecer, por mais dificuldades que tenha que enfrentar na vida
sacerdotal, permaneça fiel ao vosso compromisso e possa fazer da frase do saudoso servo
de Deus, D. Luiz do Amaral Mouzinho a vossa senha: “ser padre foi a maior graça de
minha vida.”

Levy Antônio Beirigo Malaquias

(Capitólio, 15/08/81)

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Discurso proferido por Levy A. B. Malaquias por ocasião da posse do
Pe. EDILSON ANTÔNIO MANUEL como Vigário de Itapecerica
Local: Grupo Severo Ribeiro – Janeiro de 1986

Autoridades presentes, Meus Senhores, Senhoras, Crianças.

É para nós muito grato, dirigir uma palavra de saudação ao Revmº Pe. Edilson neste
momento de confraternização entre o Pastor e suas ovelhas.

Atendendo ao chamado divino ingressastes nas fileiras dos levitas do Senhor a fim
de dedicardes toda a vossa vida à santa missão de pastor de almas.

Entregastes toda a vossa existência a Deus, numa abdicação voluntária a todos os
bens terrenos para seguir o conselho do Divino Mestre.

Assumistes, sem dúvida, responsabilidades sobre-humanas, mas tendes a vos
fortalecer o ânimo a graça de Deus que não vos abandonará enquanto lhe fordes fiel.

A Divina Providência ao vos escolher para serdes na terra o pregador da verdade e
do bem, iluminou-vos o espírito e fortaleceu o vosso coração para possais vencer os muitos
obstáculos que defrontareis, sem dúvida, no desempenho de vosso sagrado ministério.

E que haverá de mais nobre que o Sacerdócio que abraçastes? Curar as almas,
confortar os aflitos, amparar os fracos, esclarecer os ignorantes, afervorar os tíbios, trazer
ao bom caminho os transviados, fortalecer os crentes, eis o que de vós espera a nossa
Paróquia, à qual, no dia de hoje, assumistes.

Vossa piedade e vossa cultura são aliás o penhor de que vossa missão será levada a
cabo com fervor e unção, características dos verdadeiros servos de Cristo Senhor Nosso de
quem sabemos ser um soldado incondicional.

E, na certeza e convicção de que sereis aqui o sal da terra e a luz do mundo,
desejamos boas vindas.

“Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”
(Evangelho de Mateus)

105
ANIVERSÁRIO DE SEVERO RIOS
06/05/1987 (Pronunciado no Sítio da Prata)

Aqui estamos reunidos para não só trazer nossos abraços de felicitações a uma
pessoa que, na verdade, merece a nossa admiração, mas também para desejar-lhe com toda
sinceridade e com todo o calor de nossa alma, dias cercados pelo carinho dos familiares e
de nós outros.
Não importa saber que fazer anos é envelhecer. Pessoas como Severo Rios não
envelhecem nunca. Vê-se, perfeitamente, que através do brilho de seus cabelos começando
a ficar grisalhos existe uma perene luz de mocidade, um clarão de energia, essa juventude
que permanece na alma dos fortes, no coração dos bons, no espírito dos honestos e que tem
a música, essa divina arte como eterna companheira.
Ao repassarmos as páginas amareladas de 80 anos de vida do nosso amigo Severo,
damos o nosso testemunho de 50 anos vividos para o trabalho, a família, a música e a
comunidade. Os outros trinta, através de terceiros ficamos cientes que tiveram as mesmas
características.
Severo Rios deixou em inúmeras gerações impressões fortes e saudosas recordações
pelos sons maviosos da inesquecível Jazz Oriental, executando melodias imortais de Noel
Rosa, Pixinguinha, Benedito Lacerda, João de Barros, Ataulfo Alves e outros monstros
sagrados da nossa música popular.
Vale a pena, portanto, fazer anos, reunindo familiares e amigos para festejar 80
anos, vividos plenamente, conhecendo alegrias, sofrimentos, próprios da nossa condição
humana.
Severo, se na terra encontramos momentos de felicidade, essa reunião é o
testemunho vivo da felicidade que desfrutamos graças ao seu aniversário. Portanto,
rendemos graças a Deus que lhe proporcionou este grande acontecimento que muitos
tiveram vontade de vivê-lo e não foi possível.
Do outro lado, invisível aos nossos olhos materiais, mas visíveis aos nossos olhos
espirituais, existem outras pessoas participando da mesma alegria e confraternização.
Se fosse possível parar o tempo, eu o pararia neste instante, transformando este
aprazível Sítio da Prata, num novo Tabor. Entretanto, como isto é impossível, pelo menos
retenho o tempo com a minha inexpressiva palavra para dizer que vêm e vão os
aniversários, a vida vai se acabando pouco a pouco, porém não passará jamais a amizade
que dedicamos a você e que terá sempre o mesmo calor deste momento. Recebe pois estas
palavras de quem não pode parar o tempo, mas que pode vencê-lo com a eternidade do
afeto que concretiza a homenagem que lhe prestamos, que estendemos a todos seus
familiares.

Levy Antônio Beirigo Malaquias

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DEZ ANOS DE SAUDADES...
MAESTRO CESÁRIO MENDES DE CERQUEIRA

“Ontem, uma presença, hoje uma saudade, mas eternamente uma lembrança”.
Este instante é de quietude e pesar. Sabemos que a nossa palavra mal cabe neste
campo santo. Porém, não poderíamos deixar de vir aqui hoje, neste teu segundo berço,
quando fazem dez anos que o Senhor, atendendo a convocação do Maestro dos Maestros
partiu, nos deixando chorosos, para se unir, na Jerusalém Celestial, aos seus familiares e
músicos da Corporação Musical Nossa Senhora das Dores, que sentiam sua falta e
esperavam pelo Senhor para o reencontro definitivo na plenitude da bem-aventurança
eterna, onde não mais haverá angústia, dor, sofrimento e separações.
Entretanto, sua volta à casa do PAI, mesmo acreditando na ressurreição, nos deixou
tristes, e porque não dizer, saudosos nestes dez anos que hoje contamos.
Tio Zaio, invisível aos nossos olhos materiais, mas visível aos nossos olhos
espirituais, num outro plano de vida, mais pleno, não sujeito às limitações humanas e do
tempo, queremos dizer que temos o Senhor sempre presente em nossos pensamentos, que
para nós o Senhor não morreu, apenas assumiu uma nova dimensão: a imortalidade. Nos
antecedeu para provar que um dia esteve entre nós. O Senhor em nossos corações.
“Morrer é debruçar-se sobre a aurora. É ouvir na noite solitária agora a música
infinita do silêncio”.
A nossa presença é para prestar-lhe o culto da nossa amizade, gratidão e saudade.
Consola-nos saber que está junto de N. S. das Dores, da qual foi um devoto piedoso e fiel.
Amigos: “Existe algo imortal que nem o tempo e a distância podem separar: A
lembrança”. Cesário Mendes de Cerqueira é esta lembrança.

Itapecerica, 23 de julho de 1991.

Levy Antônio B. Malaquias

“Se a vida é escura prisão,
horrendo cárcere estreito,
a morte é suave evasão,
para um mundo mais perfeito.”
(Leonardo Hanke)

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MARIA DO ROSÁRIO DE MORAIS

JOSÉ PAULO DE MORAIS

BODAS DE OURO

Meio século de doação e alegrias, compreensão e esperanças, lágrimas e muita fé,
JOSÉ PAULO e MARIA DO ROSÁRIO celebram, hoje, suas festivas bodas matrimoniais,
numa vida firmada no amor cristão e na solidariedade de duas almas amorosas.
Bênçãos e muitos favores se derramaram e se derramou sobre esse casal feliz e
honrado, no curso de mais de 18 mil dias de existência muito feliz, compartilhando
bondade.
Paulinho e Maria do Rosário podem, na culminância destas alegrias que lhes
invadem o espírito, lançar o olhar sobre a seara que plantaram e tão carinhosamente
cultivaram, para se sentirem gratificados pelo que puderam realizar para os filhos, netos,
familiares, o próximo e sua generosa terra Natal.
Vocês PAULINHO e MARIA DO ROSÁRIO recebem as bênçãos celestes e a
promessa dos que são fiéis aos ensinamentos de Cristo Jesus!
Aqui nós invocamos as Sagradas Escrituras:

“Os filhos e netos deste casal exemplar e simpático, são como ramos em redor de
sua mesa e ornamentam de muita alegria e felicidade os dias ditosos de uma família digna”.
A evidência do milagre e perenidade do amor se estampa claramente nesta reunião,
repleta de tanto carinho, oração e fé.
A perpetuidade do amor e doação está nesta confraternização para lição – desafio a
tanta derrocada do suporte da família.
Este casal nos ministra lições de bondade, coerência e amor.
Que estas lições salutares sejam imitadas por nós.
É bom lembrar: “Felizes os que caminham unidos para construção da vida”.
É por toda esta riqueza de bons exemplos que filhos e netos, conterrâneos e amigos
festejam tão ditoso casal.
Aromas de bênçãos pairam sobre este local, porque a Igreja hoje se ufana com a
renovação do sacramento.
PAULINHO DOS BANGUÉS, fazendeiro honesto, trabalhador, pai exemplar,
cidadão probo, religioso, pelas suas qualidades de caráter estendeu sua solicitude e
operosidade à cidade que o viu nascer.
Agricultor, pecuarista, se fez homem público, tendo sido Delegado de Polícia
Municipal, Juiz de Paz, Presidente da Câmara, Vice-Prefeito e Prefeito por dois mandatos,
sendo a tônica dominante por onde passou, a honestidade e o amor à causa pública.
Trabalhou com afinco por Passa Tempo, imprimindo vida nova. Humanista sempre
acolhia os reclamos das obras sociais. Na humildade de seu trabalho, por uma força viva
para Passa Tempo.
Amante da lavoura e da pecuária, delas tirava o sustento da vida, auxiliado na
administração da fazenda por sua dedicada Maria do Rosário e filhos, que hoje se dobram

108
diante do Senhor das Searas e celebram a proteção divina.
E MARIA DO ROSÁRIO, também no recesso da casa se nos apresenta como
exemplo de mãe e mulher religiosa, sempre voltada para a família, sustentáculo das lutas de
PAULINHO.
É aquela mulher cristã que sabe transferir o Evangelho para a vida, para que a vida
seja Evangelho.
Seus filhos, genros e netos têm nela o exemplo do cumprimento do dever, da
solidariedade e do amor fraterno.
É por isto que eles estão aqui diante de todos para o louvor e ação de graças,
rodeados de tanto carinho.
A vossa jornada de união não termina aqui.
“Continuareis unidos pelo resto da existência e mesmo além das fronteiras deste
mundo efêmero, porque soubestes honrar o juramento que fizestes a Deus e enobrecer a
confiança que um coração depositou no outro”.
Queremos festejar a bondade de vocês e rogar a padroeira querida de Passa tempo,
Nossa Senhora da Glória, nossa Mãe Celeste, Rainha do Belo Amor, que os conserve por
muitíssimos anos de vida abençoada para a alegria de todos nós.

PARABÉNS... PARENÉNS... PARABÉNS...

Pronunciado em Itapecerica-MG, no Sítio Betânea em 26.04.1985
por Levy Antônio Beirigo Malaquias

“Fugit irreparabile tempus”.
(Virgílio)

109
UM ANO DE SAUDADES

Dorme tranqüilamente no seio da mãe-terra, o sono dos justos, o nosso querido e
inesquecível amigo DR. SEVERO AUGUSTO RIBEIRO.

A Sepultura, para os que amaram Deus, como o Dr. Severo amor, é a porta da sala
da casa do nosso PAI comum. É taxativa a promessa de Jesus Cristo: “QUEM COME A
MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE TEM A VIDA ETERNA E EU O
RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA”.

Há vultos que escapam ao rolo compressor do tempo e vencem galhardamente o
esquecimento, como acontece com o Dr. Severo quem não tendo filhos carnais, deixou uma
obra que ele estimava como se fosse sua filha: A Santa Casa de Misericórdia e Maternidade
Sant’Ana. Testemunho eloqüente de sua operosidade em favor do próximo.

É missão divina dulcificar a dor. Quando, porém, essa atividade celestial é
praticada, executando a caridade diuturna e silenciosa, é a perfeição evangélica.
Segundo Nosso Senhor Jesus Cristo, a caridade é a síntese da Lei e dos Profetas. Ela
resume todas as virtudes. “A caridade é paciente, é benigna, não busca os seus próprios
interesses... Tudo espera, tudo sofre, na expressiva linguagem paulina”.

Para quantos o conheceram, conviveram no recesso do lar, no consultório, na Santa
Casa, na Prefeitura, saudosamente, retém em suas memórias, a figura amável, elegante do
médico caridoso que levava, indistintamente, a ciência médica, a mais sublime de todas as
ciências, a todos que solicitavam, carentes ou não.

Exerceu, em plenitude, o principal ensinamento do Divino Mestre, que fez da
caridade o seu mandamento e ordenou ver no pobre que se aproxima de nós a sua PESSOA.
O seu visual material nos deixou. A saudade, porém, lembrança de um bem passado,
de um grande benemérito, constitui um sentimento que engana o próprio esforço da morte
na vã tentativa de aniquilá-lo.

Dr. Severo continuará a viver em nossos corações, pois, “Na terra, há sempre um
lugar em que os nossos mortos não morrem nunca: dentro de nós mesmos”.

Concluindo, queremos repetir aqui ALVES MENDES “Homens como o Dr. Severo
Augusto Ribeiro não vão por inteiro à sepultura: deles em caráter imorredouro,
permanecem vivos em nossas lembranças os exemplos, os ensinamentos de sua cultura e
sua inteligência”.

“As cidades que não cultivam a memória dos seus grandes filhos não radicando ao
passado, não se projetam no futuro”.

Levy Antônio Beirigo Malaquias
Setembro de 1991.

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CARTA DE 27.01.1977
Sr. Prefeito,
Antônio Lopes de Araújo

Temos a honra e o prazer de levar ao conhecimento de V. Sa. que a missão a nós
confiada de examinar o arquivo morto da Prefeitura que se encontrava amontoado na parte
inferior deste prédio, foi realizada. Infelizmente, devido ao curto prazo que tínhamos pela
frente não nos foi possível um relacionamento por escrito dos principais documentos que
dizem respeito a nossa história, para facilitar o futuro trabalho de pesquisa que deverá
necessariamente ser feito. Nossa cidade não tem sua história publicada e os documentos
poderão fornecer os dados necessários.
“Na vida do homem ou na dos povos, o passado deve existir para honra do presente,
para crença do porvir”. Esta frase do imortal Afrânio Peixoto deve ser vivida na hora
presente muito embora saibamos que faltam apenas alguns dias para terminar a
administração de V. Sa., entretanto, sem nenhuma pretensão de atirar pedras no passado ou
responsabilizar alguém pelo descaso que até aqui foram tratados os papéis que datam de
1800 até a República Velha, urge que medidas imediatas sejam tomadas, visando um
exame minucioso dos mesmos, naturalmente com assistência de pessoa familiarizada com o
assunto, pois, a missão é daquelas que exige amor, carinho e silêncio. É uma viagem ao
nosso passado, vivido com glórias e sofrimentos que infelizmente estava sepultado como
todos nós, seremos também um dia... entretanto, haveremos de ter uma nova vida. os
documentos deverão ser ressuscitados com a sua publicação.
Todos nós somos responsáveis pelo que vinha acontecendo com o arquivo morto.
Entretanto, existem ou existiram pessoas que poderiam ter evitado que a ação implacável
do tempo destruíssem muitos fatos documentados de nossa história. Para todos aqueles que
deveriam informar da existência dos mesmos a nossa palavra de protesto, pois, o arquivo
morto teve o destino do “Judeu Errante”. Quatro ou cinco mudanças lembramos que a
Prefeitura realizou e ninguém se preocupou de um estudo sobre o nosso passado. É
simplesmente lamentável a omissão que constitui num verdadeiro ato de vandalismo.

Vandalismo não é só ação deliberada de destruição das coisas a exemplo do
Erostrato em 21 de junho de 356 A.C. quando ateou fogo no templo de Diana, considerado
uma das Sete Maravilhas do mundo e as danificações de obras de arte nos dias atuais por
débeis mentais ou energúmenos. Vandalismo é também, a omissão, a negligência, a
sonegação do que existe aos mais novos.
O famigerado descaso que vem recebendo o arquivo morto, exige medidas urgentes
para que o mesmo seja todo levantado e relacionado visando salvar assim o mesmo da
destruição que se consumada seria um CRIME.

Confessamos que não foi fácil vencer o medo à exposição e as conseqüências do
contato com documentos da natureza específica do que foi objeto de exame. Se viermos a
contrair alguma doença pelo fato, receberemos com muita tranqüilidade e resignação, pois,
fomos feridos no campo de trabalho. Muitos dos convidados recusaram participar da
“viagem ao passado”, alegando “Ser alérgicos a papéis velhos”. Naturalmente respeitamos
as desculpas apresentadas. Sem pretensão alguma, queremos num ato de justiça registrar

111
para a posteridade os nomes daqueles que enfrentaram a difícil missão com o risco da
poluição do desconhecido. Eldumar Martins, Antônio Rios, Fátima Mesquita, José Luiz de
Andrade, José Belchior Pereira, Maurício Geraldo da Silva e o autor deste despretensioso
relatório.

Numa sala da parte inferior deste prédio, em CAIXAS estão os documentos
separados assim: Brasil Colônia, Reino Unido, Regências, Governos de D. Pedro I e D.
Pedro II e Brasil República para serem objetos de estudo. (Todos numerados).
“A história seria um luxo perdido, inútil dispêndio de inteligência a que o homem
não se entregaria, se não houvesse a tradição com a sua indiscutível utilidade, estímulo e
orientação”.
Sr. Prefeito: “As cidades que não cultivam e não perpetuam a memória de seus
grandes filhos, não radicando ao passado, não se projetam no futuro”.

Cada um de nós todos passamos na vida. entretanto, cada um teve sua parcela de
responsabilidade nos acontecimentos que envolveu ou foi envolvido seja por ação ou
omissão e deverá prestar contas de seus atos perante o tribunal da história.
A papelada restante do arquivo morto que a nosso ver não constituía objeto de
futuras pesquisas históricas, foi toda amarrada e colocada no prédio alugado pela Prefeitura,
residência antiga e terrena do saudoso e prestativo cidadão OSIRES FRANCISCO
MALAQUIAS do qual com orgulho e sem modéstia temos o prazer de declarar que somos
um dos seus inúmeros netos, naturalmente, o mais humilde a venerar sua imperecível
memória.

Sr. Prefeito, pedimos desculpas por este final sentimental e familiar, é a emoção do
contato com os documentos e a participação dos meus ancestrais que nos levaram a ele.
Com os protestos de nossa estima e reconhecimento, felicitamos V. Sa. pela medida
tomada que assim que deu uma nova dimensão para uma tomada de posição, visando situar
nossa gente e os fatos a ela relacionada para as futuras gerações, subscrevemo-nos
comovidamente.

Levy Antônio Beirigo Malaquias
Advogado da Prefeitura

“A mulher jamais se esquece do seu sexo.
Preferirá falar com um homem a falar com um anjo.”
(Oliver Holmes)

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O SETENÁRIO DE DORES EM ITAPECERICA
REMINISCÊNCIAS E REFLEXÕES

Jair Moreira
Janeiro 1985

Vai-se perdendo na voragem implacável do tempo, aquela primitiva piedade, fausto
e pompas fúnebres, com que a nossa querida cidade, celebrava, anualmente, o Setenário das
Dores.
As comemorações da Paixão de Cristo, se desenrolavam com toda beleza litúrgica e
popular, na veneranda Igreja de São Francisco, ali naquele recanto religioso, sereno e
aprazível.
Quase todas as casas, que circundam o espaçoso largo e mais outra de suas
adjacências, permaneciam fechadas, grande parte do ano, povoam-se de fazendeiros,
roceiros, familiares, ao fluxo de muitas luzes, lampiões, alaridos e movimento desusado.
O singelo logradouro tomava vida nova, porque chegara a Semana Santa.
Antigamente era assim...
Agora, que mais de sessenta anos são passados, extrapolam hoje, desse quadro
saudoso e distante, as convicções de fé e a vivência religiosa de antanho, para nossa
edificação e estímulo.
Esses contatos tão belos com o passado, parecem galvanizados na própria história,
para que aquela pureza e religiosidade, possam humanizar e espiritualizar nossas
convicções de hoje, na contemplação e prática diária dos mistérios e realidades da religião
de Cristo, neste final de milênio tão conturbado, mas de tantas esperanças.
E, ainda dentro desse retábulo tão rico de realidades transcendentes, sopitam, à
nossa investigação e saudades, aquele bando álacre de meninos, a Turma do Picão, que
naquele tempo capinava por quatrocentos réis cada quadra demarcada, no Largo e nas ruas
calçadas de “pés de moleque”, por onde passariam as procissões.
As quadras para capina eram fiscalizadas por jovens feitores municipais, entre os
muitos, o Sr. Geraldo Corrêa, hoje conceituado proprietário de uma grande Corretora e
Financeira, em Belo Horizonte; Pio Araújo, falecido muito moço, filho do Cinico Araújo;
Hilário Coragem, Domício, do Feverino Tavares.
Essa capina era como se estivesse aparando os cabelos de um personagem muito
importante, que iria participar de uma grande festa.
Acompanhava-se, assim, um outro tradicional costume, muito louvável de homens e
senhoras, crianças, moças e adultos, trajarem roupas novas, nesse evento, deduzindo-se daí,
que os alfaiates e costureiras atarefados, não dispunham de muito tempo, para participarem
do Setenário e algumas procissões.
Na segunda-feira, de Dores, bem cedinho, a garotada já estava impaciente, à porta
da Igreja, numa algazarra e corre-corre chupando laranjas e mexericas azedas, ainda verdes,
esperando o início dos preparativos do Setenário, a cargo dos Srs. João Macota, o folheiro
da Rua das Mercês, sacristão mór da Matriz e seus filhos; Lute Grego, responsável pelo
“Centro Telefônico”, e primoroso artista; Vítor do Mestre Bento, Antônio Porfírio,
carpinteiro honrado e bombista da Corporação Musical N. Sra. das Dores; Geraldo Pôpe,
discípulo do Sr. Cesarinho, famoso carpinteiro e outros ajudantes, que levavam, logo bem
cedo, para a Sacristia, a imagem do Senhor Morto, exposto no ano inteiro, até hoje, à

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veneração dos fiéis na urna de vidro, ao pé do altar do Seráfico Pai, São Francisco.
Já na Sacristia, estava o Senhor Morto, coberto com uma colcha de sêda violácea,
entremeada de renda bege, muito bonita, despertando contrição aos adultos, piedade e medo
aos meninos, que raramente, se aproximavam da venerada imagem, impressionados com
seu enorme porte e chagas sangrentas.
Dir-se-ia um cadáver exposto, em velório fúnebre lacrimoso e tétrico.
Amava-se, então, agora, sobre o presbitério até a altura das janelas interiores dos
consistórios ou tribunas laterais, uma grande escadaria de sete degraus atapetados,
encimados por longo tablado, onde seriam colocadas, em cada noite, as imagens dos Passos
da Paixão.
Atrás dessa escadaria, elevava-se uma enorme cruz, que assentada no chão rente ao
altar mór, se projetava até o teto.
Atrás da grande cruz, bem no fundo do palco improvisado, descia um denso manto
negro, enfeitado de ramos, palmeiras e algumas luzes.
Esse manto cobria as refulgências do ouro do altar, seus adornos artísticos e
caprichosos arabescos.
O cenário da Paixão era uma alegria comovida e novidade para a garotada, e, porque
não dizê-lo: um despertar de religiosidade profunda, que transbordava daquelas almas
puras, não contaminadas ainda pela poluição da maldade, do vício e do pecado.
E lá no outro consistório, atrás do altar mór, no primeiro lance da escada, as
Senhoras Dª. Dasdores, Maria José Mesquita, exímias floristas e Dª. Clara Beirigo; Dica e
Zeca Barbosa; São Malaquias e Zica Beirigo, genitora do Ozires, alfaiate, radicado em Belo
Horizonte, e do ilustre Dr. Levy, primoroso zelador e restaurador da Igreja da Ordem
terceira Franciscana; Dª. Ducarmo d’Anunciação e Maria Cândida Porfírio, cantora;
Madalena Libório, a mestra bondosa e enérgica e Dª. Maíta, dedicada costureira das
imagens que até hoje, ficam veladas, o ano inteiro, num cômodo de madeira, tipo capela, no
mesmo local.
Essas senhoras não permitiam, salvo exceção, que os meninos curiosos, assistissem
à piedosa tarefa.
E quando esses meninos teimavam em ficar no recinto, elas os escorraçavam,
dizendo-lhes assim:
– “É proibido... é pecado! Vocês não podem ficar aqui”.
E mansamente, um a um, eles iam saindo todos.
Todas a noites às 18:30h, e ao meio dia da Semana de Dores, os Sinos de São
Francisco bimbalhavam, como suspiros, de almas sofridas e contritas, e como lamentos,
corriam na longa voz dos ventos, e, iam se derramando sobre a cidade compungida,
convidando a todos, para rezar.
E o povo piedoso e dócil, ia contrito, venerar a Mãe Dolorosa, ao pé da Cruz,
lacrimosa.
Iniciava-se, pois, o setenário com o toque da primeira Marcha Fúnebre.
Em seguida, descerrava-se, de alto a baixo, à semelhança do véu do templo, o pano
preto, pesado e grosso do arco do presbítero, para que todos contemplassem, lá no alto da
escadaria, as lágrimas de Nossa Senhora e o Calvário do Filho amado.
Diante de tanta piedade e emoção, mães compungidas, aflitas e esperançosas, bebiam
do pranto de Maria, conforto e confiança, piedade e força, para os trabalhos de cada dia...
Pais cansados e apreensivos, buscando, entre preces e silêncio místico, certeza e
proteção da Virgem Dolorosa.

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Jovens e moças de olhos fitos para o alto, contemplando tanto amor e tanta amargura,
tanta doação e tantos sofrimentos, expressos nos semblantes da Mãe e do Filho mártires em
suas almas sonhadoras.
É por isto que aqueles casais eram bem mais felizes, bem mais compreensivos e
tolerantes no casamento, porque sublimavam seu afeto, na Contemplação mística da vida de
Nossa Senhora. Jamais lhe acabava ou esgotava aquele amor, jurado no altar.
Sabiam perenizá-lo, apesar das limitações e vicissitudes, até que a morte os
separassem.
O corpo da Igreja (nave central) ficava apinhado de gente. As Senhoras mais
humildes, com suas saias grossas e rodadas daquele tempo, se assentavam no chão,
dificultando a passagem a quem quisesse ir até o Altar.
E em toda a extensão dos outros dois consistórios, vulgarmente chamados
“Torrinhas”, ladeando a nave, debruçavam-se nos gradis os rapazes para o furtivo olhar às
jovens senhoritas, na busca de um sorriso e conquista do coração, moças casadoiras e toda
sorte de gente, também tentavam visualizar, melhor, as imagens da Paixão, lá no alto da
escadaria.
Era, pois simplesmente, edificante a presença de Dª. Saçãozinha, da Rua de Santa
Rita, senhora corpulenta e simpática, trazendo brincos e cordões de ouro, instalada,
confortavelmente, em genuflexório, ao lado do altar dos Passos; Sra. Rita, muito alta e
esbelta, escura, de alma branca, moradora da antiga Rua dos Coqueiros, trajando sua
inseparável capa preta, comprida, grossa e rodada, com ares de baronesa; Dª. Altina, a
ceguinha apressada e comunicativa, da Rua Nova, atualmente, Rua Afonso Pena,
devotíssima de Nossa Senhora Visitadora; Dª. Olaia, irmã do Padre Herculano, encurvada e
alegre, de voz afinada e agudo contralto; Dª. Maria Isabel do Sr. Antônio Bamba; Dª. Olina
do Largo e a menina Maria Efigênia; Siá Herculana e Siô Regino, irmãos pequeninos e
inseparáveis, caminhando todas as manhãs e todas as tardes para a Igreja, um atrás do
outro, mas bem distantes; dª. Maria Rita Macota, de gargalhada gostosa, mãe de dois
padres, um médico, um farmacêutico e dois netos sacerdotes; Dª. Nininha do João
Caldeireiro (Macota); Dª. Elísia, gorducha e serviçal, caridosa em extremo, esposa do Sr.
Lafaiete; Paulina do Alto do Rosário; Dª. Ritinha e Beralda Diniz; Siá Germana e
Pantaleão, muito altos, inseparáveis e cortezes moradores do antigo Arranca Tôco.
A par dessas matronas respeitáveis, o Siô Pedrinho, alfaiate, arrastando a sua
bengalinha, velhinho alegre a palrador, parecidíssimo com o Popó, personagem do “Chico
Anísio Show”; Zé Galdino, o congregado mariano exemplar, flautista, capinador de
quintais, rachador de lenha, o moço dos sete instrumentos, alto, magro, de fala grossa e
arrastada, manso e humilde, prestimoso irmão do Ilídio pintor, residente hoje em
Divinópolis; Zé do Ronca ou Zé da Boca Aberta, bom e inofensivo, sempre presente a
todos os enterros e atos religiosos, ia junto da Banda de Música e ficava marcando o
compasso; José Basílio, ou Zé das moças, sempre bem trajado de fraque, colarinho
engomado, gravata borboleta, lenço branco no bolsinho do paletó ou cravo na lapela, óculos
escuros e sapatos polidos.
Este simpático senhor era o esmoler de opa roxa da Irmandade do Senhor dos Passos,
que pedia esmolas, de casa em casa, todas as sextas-feiras da Paixão, o humilde Leandro,
paciente e resignado lavrador de muitas terras, depois pajem carinhoso, de muitas famílias.
Ele era, todos os anos, o Centurião, trajado, como no tempo do Império Romano que
montava a guarda do Santo Sepulcro, na Sexta-feira Santa; Honório Coragem, Crucífero
oficial de todos os enterros, naquele tempo, e nas procissões. Era uma fotocópia do

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eminente Gaspar Dutra; Bibino e Aquiles Araújo, do Largo de São Francisco, fazedor de
lindos presépios; Pedro Surdo, o cabeleireiro ambulante; Sr. Vêncio, fazendeiro
pachorrento, esposo de Dª. Joaninha; Cel. Zirico, católico, comerciante, amigo dos pobres,
festeiro perpétuo de São Bento, era da Ordem Terceira de São Francisco e da Irmandade do
Santíssimo Sacramento; Cel. Zinho, fazendeiro, residente no Ingá, simpático, risonho e
probo, membro da Ordem Terceira de São Francisco e Irmão do Santíssimo; Cel. Egídio
Luiz de Cerqueira, comerciante muito caridoso, benfeitor da SSVP, fundador da Vila dos
Pobres e tesoureiro perpétuo da Matriz, também membro da Ordem Terceira e Irmão do
Santíssimo; o popular Tonico do Morro e muitos outros que se nos fogem à memória, mas
que nos deixaram exemplos de fé e de bondade; e Chico da Olina, tipógrafo da “Gazeta
Liberal” e auxiliar de Cartório, músico da banda, e cantava a baixa no coro.
Hoje, todos eles estão na glória do Pai, vivos nas reminiscências, nos conduzindo,
agora, a piedosas reflexões, despertando tantas e tantas saudades.
As reflexões do setenário a cargo dos Revmos. Cônegos Domiciano, Cesário,
Belchior Mendes, Monsenhor Cerqueira, Pe. João Victor Corrêa e Pe. Herculano Paz
filtravam as almas e os corações dos fiéis, concitando-os à reconciliação e penitência
sacramental, frutos imediatos da Paixão de Cristo.
A meninada irrequieta e dócil, provocava, de quando em vez, reprimendas do Pe.
Herculano, exigindo silêncio e respeito.
É que essa criançada estava mal instalada e espremida na escadaria ou em torno do
altar improvisado, ao pé do cenário da Paixão. Naturalmente, se estabelecia confusão sem
ser desrespeito à Igreja.
O piedoso Pai Lano, presidia todo o setenário, revestido de sobrepeliz fina e rendada,
de estola e capa roxa douradas.
As cerimônias eram abrilhantadas, em anos alternados, pelas corporações musicais de
Santa Cecília e Nossa Senhora das Dores, conduzidas pelo ilustre e honrado maestro José
Pires B. de Moraes e Cesário Mendes de Cerqueira, compositor talentoso e exímio
violoncelista.
Pe. Herculano celebrava e acompanhava os atos, solfejando baixinho, marcando os
compassos, à execução dos motetos e antífonas, ladainhas e partituras, sempre criticado
pelos seus opositores políticos, por essa atitude, que jamais fora desrespeito à liturgia e aos
mistérios que se celebravam.
Após a oração do solene “Oferecimento”, rezado pelo celebrante e acompanhado, em
silêncio, por todos, Pai Lano incensava as imagens e o altar, enquanto vozes e a orquestra
executavam belíssima antífona de Dores.
Essa incensação litúrgica se repetia diante do Santíssimo exposto, ao som do
“Tantum Ergo”.
Era o sagrado momento da adoração e do louvor perene.
A fumaça odorífera do místico incenso e o perfume dos manjericões trescalentes,
subiam até o Coração de Deus, levando preces, votos e pedidos dos fiéis contritos.
Revestindo agora com primoroso véu de ombros brancos e dourados, o Padre dava a
sagrada Bênção do Santíssimo, ao toque festivo das campainhas e espocar dos foguetes.
Encerrava-se, cada noite, o setenário com uma marcha fúnebre.
Os derradeiros acordes impregnavam as almas de sublimes inspirações e aspirações e
paravam no ar suspenso e sombrio daquelas noites evocadoras e melancolicamente tristes,
como triste e transida estava a alma de Maria.
Finalmente, quase vazia a igreja, enquanto a Banda lia no Coro e provava as marchas

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para a noite seguinte, começava, cá embaixo no pé do altar, a encantadora disputa dos
meninos, sempre prediletos de Deus, e naquele tempo, tão afeitos à religião. Queriam, todos
carregar as pesadas imagens para as casas, onde, na 3ª e 4ª-feiras da Semana Santa seriam
montados os “Passos da Paixão”, ao longo do trajeto das procissões de Dores e do
Encontro, sempre muito piedosas e concorridas.
Lindo e edificante realce para nós outros: Na sexta-feira de Dores, consagrada
liturgicamente, aos sofrimentos de Maria, celebrava-se depois das 8 horas, missa solene,
muito concorrida, com orquestra e coral, ocasião em que os velhos devotos de Nossa
Senhora e muita gente nova faziam sua Páscoa anual.
Sextas-feiras tão saudosas tinham sabor de dia domingueiro, quando se praticavam
muitas mortificações, jejuns, intensas orações e proveitosas meditações.
Ah! Se voltassem aquela religiosidade e aquela devoção Mariana... O mundo seria
bem mais feliz e fraterno, como o fora naquele tempo.
Os roceiros e gente humilde edificavam a todos, cumprindo os seus votos e
promessas.
Era um renascer de fé... uma pureza de convicções.
E lá fora no Largo, de temperatura amena e saudável, Dª. Rita Sapateira, Zé
Macotinha, Geraldo Macotinha, Bobó Boaventura, o cambista tranqüilo e mais outros, iam
vendendo doces e salgados, quitandas e pastéis, cafés e chocolates quentinhos, almôndegas
e lingüiças fritas e apimentadas, trescalantes de gostosura, tentando e despertando os mais
exigentes apetites.
E lá no alto da frondosa Capoeira de Saõ Francisco, o misterioso calor da lua, ainda
que distante, ia mansamente dando os seus primeiros toques de indefinida poeira de ôcre,
para envolver de luz todos os espaços, na luz prateada da fé, que ilumina todo homem, que
vem a este mundo.
Os coqueiros, frente à Igreja, perfilavam hírtos e farfalhantes, à semelhança de
testemunhas vivas e verdadeiros epônimos da Paixão de Cristo, alheios ao vozeiro e vai-e-
vem do povo.
Eram, realmente, noites de muita luz interior e paz, de muitas saudades acredoces, de
emoções inesquecíveis, de sonhos e recordações, de muita fé cristalina, envoltas na diáfana
luminosidade religiosa, sob o fascínio daquela luz de fé, ante-câmara do luar de Sexta-feira
da Paixão.
O Setenário de Dores em nossa terra, sempre foi, além de um aprimoramento de fé,
confraternização social e cristã. Era também o encontro de velhas amizades, convívio com
os conterrâneos distantes, que vinham de longe rever os amigos, matar saudades e rezar.
Alegria para os namorados, idílio dos noivos apaixonados, esperança alvissareira de
expansão de novas famílias cristãs, divinamente constituídas.
Sempre foram assim os Setenários de nossos ancestrais e avós. Assim hão de ser hoje
e sempre alforramento de compromissos com a Justiça, com a Verdade e com os Pobres,
esperanças para a Igreja Viva de Itapecerica, um despertar consciente e sincero da nova
Juventude, para os ideais do Evangelho de Cristo.

“É preciso um gesto”
(Jean Paul Sartre)

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HINO DO BICENTENÁRIO

MÚSICA: ANTÔNIO MENDES DE CERQUEIRA FILHO
LETRA: LINDOLFO PENA PEREIRA

Refrão – Itapecerica, avante!
Duzentos anos de vida
Passos firmes adiante
Bicentenária querida.

Tu nasceste, entre serras,
Quando de Deus a bondade
Plantava sobre a terra
Semente de liberdade.

Revolução Francesa! Jamais temas as dores
Inconfidência Mineira! Dos instantes tristonhos,
Eis que surges, em belezas, No horizonte há flores
Dourada, altaneira. No infinito há sonhos.

Teus filhos vibrantes, Benditos sejam agora
Quente sangue nas veias, Os avozinhos queridos
Dos homens bandeirantes, Que fizeram outrora
Das libertárias idéias. Doce terra, quente abrigo.

Refrão – Itapecerica, avante! Teus filhos te agradecem,
Duzentos anos de vida Alma emocionada,
Passos firmes adiante O berço que lhe deste
Bicentenária querida. Bicentenária amada.

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LINDOLFO PENA PEREIRA

AS QUATRO BICAS

Eram apenas quatro
As bicas da Quatro Bicas
Eram apenas quatro
Pequenas
Humildes
Mansinhas
Deslizando, sem cessar,
Água pura e cristalina.

Eram apenas quatro
Mas quão grandes eram elas
Com água de verdade
Pura da natureza
Fluindo de levinho
Caindo de mansinho
Nos panos das lavadeiras
Que cantavam, dolentes

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Ternas canções doridas
Chorando mágoas de amor
Enquanto o sujo se ia
Morrer no puro das águas
A solfejarem também
Seu murmúrio musical
Encantado,
Encantado.

Encantado se tornava
Quem dessas águas bebia
Deixando-se aqui ficar
Nunca embora mais se ia
Prisioneiro enfeitiçado
Da lendária magia

De vez em quando, ao lado,
Vagaroso, passava,
Vagabundo, vagabundo
Resfolegando, sem pressa,
O imponente trem-de-ferro
E respeitoso saudava
As quatro linhas irmãzinhas
Sussurrando as novidades
Lá dos longe donde vinha.
Era sempre a mesma coisa
Nasce dia
Morre dia
Qual perene poesia.

O progresso
Prepotente
Com o asfalto chegou
Frio
Indiferente
Nem notou as quatro bicas
Desprezando a poesia.

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O trem-de-ferro, assustado
Depressa se afastou,
Até hoje ninguém sabe
Por onde anda o coitado.
E as quatro, de tão cândidas
Em si mesmas se fecharam,
Coradas, emudeceram
E nunca mais juntaram
Seu canto com as lavadeiras.

Teria morto o progresso
Os doces da poesia?

Os sonhos ninguém mata
Mais poderoso que seja.

E as quatro se eternizam
Nos eternos da saudade
No sem-fim do pensamento
Nas lendas que o povo conta
Dos encantados sem conta
Que jamais daqui se foram
Perdidos no seu feitiço
No canto das lavadeiras
Cantando, dolentemente:

São apenas quatro
As bicas das Quatro Bicas
Humildes
Pequeninas
Nos desvãos do seu recato,
Mas imensas elas são
No reino da saudade
No sonho
Na poesia!

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LINDOLFO PENA PEREIRA

POBRE DIABO

Numa dessas tardes calmas, marcada por intenso calor, estando só, pus-me,
sonolento, a cismar, após atenta leitura sobre assuntos metapsíquicos, quando, mergulhado,
completamente, em sugestionantes cogitações, vi, num repente, diante de mim, como se
trazido, ali, via dos sortilégios de uma bruxa qualquer, um vulto muito estranho.
Amedrontado, quis fugir. No entanto, dominado pelo pavor, não pude fazê-lo.
Reuni, então, trêmulo, todas as minas forças e apenas consegui fazer breve menção de
afastar-me.
Notando meu precário estado e minha intenção de ir-me, o vulto falou-me, tentando
disfarçar sua voz roufenha e desagradável:
– Não é preciso ter medo, amigo. Fique calmo. Nenhum mal vou fazer-lhe.
Mais à vontade, depois daquelas tranquilizadoras palavras, pude examinar melhor a
esquisita aparição.
Era um velho, alto e magro, de rosto encarquilhado e triangular, arrematado por
uma barbicha inteiramente branca, logo abaixo de bocarra imensa, rasgando-se de fora a
fora, acima da qual pendia, adunco, pontudo nariz. A testa, enrugada, caminhava pela
cabeça acima, em largas e compridas entradas, em cujo centro rareavam cabelos já
grisalhos. Os olhos esfumaçados, mirando, humildemente, o chão, denunciavam amarga
tristeza.
No alto da cabeça, dois rombudos chifres, e, ladeando-a, duas pontudas e imensas
orelhas, um tanto caídas, de tão envelhecidas e murchas. Nas costas, um par de horrorosas
asas, feitas de grossa armação de barbatanas, sustendo cinzenta pele, ralamente coberta de
pelos espessos, pontilhando, de longe em longe, recurva nos intervalos entre uma barbatana
e outra, tal qual nos guarda-chuvas, de aspecto mais asqueroso do que as asas dos
morcegos.
Entre as pernas, longo rabo que se arrastava pelo chão, dolentemente.
A mão direita, na qual sobressaíam gastas unhas, ainda algumas pontiagudas, outras
quebradas, segurava enferrujado tridente, cujo cabo se apoiava no solo.
A mão esquerda, que segurava ensebado livro de capa preta, exibia dedos cujas
unhas apresentavam aspecto idêntico ao observado na direita.
Curvado, por força de acentuada corcunda, o tronco nu mal sustinha arqueados
ombros, torturados, parecia, por insuportável peso.
A pele, cadevericamente pálida, nem sequer escondia os ossos que se deixavam
adivinhar por baixo dela, mostrando asqueroso aspecto enfermiço.
De quando em vez, violenta e irritante tosse estrangulava aquele peito que se
anunciava doente, fazendo temer que sufocaria a terrível visão.
Depois do minucioso exame a que submeti o vulto de ignóbil parecer, meu pavor
inicial transbordou-se em um dó imenso.
Penalizado, dirigi-lhe, por fim,, a palavra, indagando-lhe:
– Quem é você que, tão abruptamente, se , se intromete em meus cismares e quase me

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mata de susto?
Ouvindo minha voz e percebendo que eu estava disposto a uma diálogo, o vulto
pareceu ficar satisfeito, deixando escapar um triste sorriso. Entreabertos os lábios, de um
amarelo inexpressivo, consegui ver, por trás deles, uma boca inteiramente desdentada.
– Amigo, eu sou o diabo, respondeu-me. Você, com certeza já ouviu falar muito de
mim e de minhas façanhas.
– Sim, de fato, já ouvi, e muito, repliquei. Mas o diabo, a respeito de quem ouvi
contar terríveis histórias, não era assim como o vejo agora, desculpe-me a franqueza rude,
velho, débil, acabado, humilde e desanimado. O diabo que me pintaram, desde a infância, e
que, naquela época, colocava inquietantes nuvens negras no límpido azul de meus
descuidados pensamentos infantis e povoava de atrozes pesadelos meus inocentes e
coloridos sonhos de criança, era um diabo diferente, vigoroso, soltando fogo pela boca, por
entre afiadas presas e pelas narinas infladas, cheirando a enxofre e terrivelmente incansável,
correndo o mundo, na sua eterna busca de almas pecadoras, para as chamas do seu
implacável reino infernal.
Vejo-lhe os chifres, porém não mais pontiagudos; noto-lhe o tridente, outrora terrível,
era enferrujado e mal seguro por cansada e velha mão; percebo-lhe a boca má, no entanto,
desdentada; e as unhas gastas; e a calvície acentuada, arrasando com o que resta da antiga e
indomável cabeleira ruiva. Não lhe sinto o característico fedor de enxofre e nem o vejo
botar fogo pela boca.
Cabeça baixa, olhos fitos no chão, o diabo ouviu tudo calado.
Surpreendi-lhe uma lágrima solitária, no canto de um dos olhos, quando levamos as
vistas, pousando-as, sonhadoramente, lá longe, no infinito.
– Verdade; tudo o que você disse é a mais pura expressão da verdade. Este que,
cansado e desiludido, aqui vê, à sua frente, não é nem a sombra do temível demônio de
outrora.
Fui a mais cara criação de Jeová. Entre todas as figuras angelicais, eu era a mais pura
e inteligente.
Preferido do chefe, possuidor de supinas qualidades, num dado momento,
conscientizei-me do grande poder de que fora dotado e julguei-me capaz de ser igual a ele.
Foi apenas isso. Jamais lhe quis o lugar de chefe, conforme, maldosamente, propalaram,
pois sempre julguei que aquele lugar, por direito, até de antigüidade, sempre foi somente
dele, que o exercia, aliás, justiça se faça, com toda competência.
Ele, entretanto, velho frio e insensível, voltou sua ira contra mim, e, sem maiores
indagações, sem nem sequer cuidar de instaurar um inquérito ou coisa parecida para a
apuração da verdade, acreditando nas insidiosas aleivosias de algum colega invejoso do
meu sucesso, acusou-me de traição, expulsando-me, sem dar-me qualquer oportunidade de
defesa, dos territórios de seu vasto domínio.
Minha revolta foi tão grande, pelo que considerei um ato de inominável injustiça, que
o ódio apossou-se inteiramente de mim. Esse sentimento, altamente negativo, constitui
deletéria peçonha que, por não poder, naquele momento, descarregar sobre outrem, atuou
sobre mim mesmo, envenenando-me a delicada tessitura, que, então, transformou-se,
inteiramente.
Minhas belíssimas asas de brancas penas, finamente tecidas, mudaram-se em negras
asas, armadas de barbatanas quais a de um morcego. Meus dentes de pequeninas e alvas
pérolas, cresceram, atingindo descomunal tamanho, semelhando hediondas presas de abjeto
animal. As orelhas se deformaram, transmudando-se em horripilantes orelhas, mais feias

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dos que a de um asno, afiladas e pontudas.
Enormes chifres cresceram em minha testa. Minhas unhas viraram terríveis garras e,
completando-me a desgraça, vi surgir de mim disforme e peludo rabo.
O ódio, represado em meu íntimo, saía-me pelas narinas e pela boca, em forma de
chamas ardentes.
Só não se alterou a minha inteligência apurada. Isso era patrimônio meu e ninguém,
nem mesmo ele, m’a podia tirar.
Senhor de quase toda a sabedoria que era, juntei minha ciência e meu ódio, infinitos,
e jurei vingança, colocando esses dois invencíveis servos meus a serviço do mal, em
implacável e eterno combate a Jeová.
Procurei um local adequado, um local tenebroso e ermo, onde nem os mais horrendos
animais e insetos conseguiam freqüentar e, aí, edifiquei a minha morada; meu reino, onde
imperaria, absoluto.
Ateei fogo ao local, fogo arrancado do meu ódio supremo, crepitando, eternamente,
em chamas indomáveis.
Construi caldeirões imensos, enchendo-os de água e enxofre, em permanente estado
de ebulição. Nesse ambiente passei a viver adequadamente, visto como afinava-se, de modo
perfeito, com as condições do meu estado íntimo.
Mais ou menos por essa época, havia Jeová completado uma obra de cuja perfeição se
orgulhava: um mundo a que deu o nome de terra, e, dentro dele, em local escolhido a
capricho, um maravilhoso jardim a que denominou Paraíso. Para habitar esse jardim de
delícias, fez, o que considerou sua obra prima, um homem e uma mulher, que eram o seu
encanto. Fui informado de que Jeová, velho vaidoso, ficava, horas a fio, admirando o casal
que criara, embevecido com sua beleza e perfeição.
Resolvi, então, que a melhor maneira de feri-lo seria atacar a obra de que mais
gostava, botando a perder o casal, o que, por certo, o irritaria profundamente.
Planejei tudo, minuciosamente, e obtive êxito, completo na empreitada, conforme já é
do seu conhecimento, pois está contado no Antigo Testamento.
Minha maior satisfação foi ver Jeová, no paroxismo do desespero e do ódio, expulsar
o casal do paraíso.
Plenamente realizado com o êxito da empresa, propus-me prosseguir na vingança,
indefinidamente, perseguindo o casal e sua descendência, pelos tempos afora, de forma a
conduzi-los, quando morressem, para o meu reino infernal, que já lhe descrevi, como forma
permanente de irritar o terrível Jeová, conquistando, definitivamente, para mim, o que ele
havia criado para ser só seu.
Para tanto, em constante lições, repetidas, minuto a minuto, dia a dia, de geração em
geração, fui instruindo os homens, descendentes do infeliz casal, ensinando-lhes a prática
reiterada do mal, em todas as suas nuances.
– Não entendo, disse eu, interrompendo-o, qual a causa da tristeza e do desânimo de
que o percebo portador; pelo que sei, é inegável que você vem encontrando grande sucesso
no intento.
– Você se engana, retorquiu o diabo, com acento ainda mais triste na voz. Até certo
tempo sim, venci, gostosamente. Era temido e detestado, com meu inferno azucrinando,
constantemente a humanidade; minhas diabólicas artimanhas pondo-a a perder; e eu
gozando as reiteradas vitórias e a fisionomia decepcionada de Jeová.
Hoje, entretanto, prosseguiu, olhar perdido no infinito, expressão de fundo desgosto
no semblante abatido, não é mais assim.

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– Acaso, atalhei, a humanidade deixou de ouvi-lo, melhorando-se? Não é isso,
absoltamente, o que se nota, hoje em dia. Aliás, o contrário disso é o que se vê, por toda
parte.
– É aí, justamente, continuou, onde está o meu problema. É verdade que os
descendentes do primeiro casal já não me ouvem, mas não é por se terem melhorado. Pelo
contrário. O homem superou-me, infinitas vezes, em maldade, construindo, na terra, um
inferno incomparavelmente mais eficiente do que o meu.
De que vale o meu pobre inferno, com seu fogo eterno, suas caldeiras de água
fervente e mil outros requintados suplícios, criados pela minha sabedoria sempre voltada
para o mal, diante do grandioso inferno, criado pelos homens? O ódio, a vaidade, a astúcia,
a ignorância e inúmeros outros trevosos defeitos que a humanidade cultivou, com esmero
invulgar, gerando guerras hediondas e terríveis que matam populações inteiras, em poucos
minutos, inclusive criancinhas inocentes, constituem maldade, um sem número de vezes,
melhor do que a minha.
As bombas que o homem inventou podem, num simples apertar de botões, destruir a
terra inteira, coisa de que cogitar nem sequer cogitei.
Veja, você, as crianças famélicas, perdidas nas ruas, dormindo ao relento, nas noites
de gelo ou de chuva, cursando a universidade do crime; os mendigos, tristes velhos
abatidos, qualquer que seja a sua idade, sem teto, sem pão, sem rumo e sem esperança, cada
vez aumentando mais, sob a cruel indiferença dos homens absortos em amontoar, só para
si, tesouros na terra.
Tenho assistido a homens torturando outros homens, com a mais espontânea
naturalidade, como se fosse coisa corriqueira. Até máquinas inventaram para isso, o que
aumentou minha frustração ao comparar os métodos que vi, com as ingênuas torturas do
meu inferno criado com tamanho ódio.
Veja, ainda, o afã do ódio, que domina as lutas políticas, no mundo todo, matando,
indiscriminadamente, pessoas inocentes, completamente alheias à disputas, em atos que
chamam terrorismo. Se se matassem entre si, os que disputam e, por isso, se odeiam, eu
aplaudiria, pois seria coisa perfeitamente enquadrada no meu modo de agir. Mas fazê-lo
cegamente, castigando os indefesos porque não podem ferir o inimigo é algo que ultrapassa
o meu diabólico entendimento.
Uma vez, há cerca de dois mil anos, quando eu estava no auge do meu poder e da
minha força, pensei que seria derrotado por causa de um homem, simples, humilde e sábio,
filho de um obscuro carpinteiro galileu que apareceu no mundo e ensinou um caminho, sem
complicações, infalível para derrotar-me. Pois bem, os homens deturparam-lhe os ensinos,
repletos de autêntica sabedoria, abafando-os sob o peso formidável de sibilinas
elocubrações, e, pior, passaram, maquiavelicamente, a utilizá-los em favor de seus
propósitos maléficos.
Diante de tudo isso, e de outras coisas mais de que não preciso falar, porque estão à
vista, meu inferno é um pobre e triste inferno.
Coisa de amador à frente de profissionais competentes e vividos.
Fui irremediavelmente superado pelo mesmo homem, que, um dia, ingenuamente, eu
quis perder.
Ninguém mais me tem medo. Meu reino infernal, orgulho de minha inteligência
superior, virou, até, motivo de chacota.
Dizem, até, que não existo, e, de fato, melhor fora não existisse mesmo, se é para
viver, assim, envergonhado e inútil.

125
Na verdade, é penoso dizê-lo, faço-o a custo, minha presença na terra tornou-se
inteiramente prescindível, por falta de objetivo. Fui vergonhosamente derrotado, não pelo
meu inimigo capital, Jeová, mas pelo produto de sua obra, o que é pior...
Quis prosseguir, mas pranto de inenarrável angústia dominou-o, por completo, e, em
impressionantes convulsões a sacudir-lhe o combalido corpo, desapareceu, deixando-me
triste a cismar, na tarde calma:
Pobre Diabo!

Itapecerica, outubro de 1986.

LINDOLFO PENA PEREIRA

Sócio AILC – Cadeira 07-E
Patrono: Dr. José Ribeiro Pena

Dr. José Ribeiro Pena

126
MARINA COUTO

PEREGRINOS DO AMOR

Sexta-feira Santa, 29 de março de 1991, em Itapecerica. O relógio da Matriz bate as
doze horas. É de silêncio e unção o clima da bicentenária cidade, embora estejam apinhadas
as ruas. À população local vieram agrupar-se centenas e centenas de amigos e
itapecericanos que residem fora, vindos do meio rural, das sedes distritais ou de cidades
vizinhas e distantes, como Formiga, Campo Belo, Santo Antônio do Monte, Camacho,
Divinópolis, Candeias, Belo Horizonte, Rio, Brasília e outras.
Meio-dia e dia muito chuvoso. Para onde se dirige a maior parte dos transeuntes?
Encaminham-se para a centenária igreja de São Francisco. São peregrinos que desejam
participar da piedosa cerimônia da “veneração da imagem do Senhor-Morto”.
Significativamente, essa veneração é marcada com o beijo na imagem e a oferta de esmola
que ajudará nas despesas da Semana Santa. Em troca levam um níquel retirado de uma
bandeja, antigamente esse níquel era de um vintém ou quarenta réis, frações do tostão.
Acreditavam que a posse dessa moedinha, com a bênção do Senhor, seria uma garantia na
obtenção de recursos à sua subsistência.
Muitos e muitos peregrinos trazem braçadas de ramos de manjericão que são
depositadas no esquife, onde jaz a imagem do Senhor Morto. Piedosamente cada peregrino
leva para casa um raminho como lembrança.
Ao lado do esquife está a belíssima imagem de Nossa Senhora das Dores, a “Mater
Dolorosa”. Sua expressão de grande sofrimento, mas de plena aceitação da vontade de
Deus, é tão real que os fiéis lhe rendem também piedosa veneração, em atitude de
solidariedade e grande contrição.
É impressionante a grande afluência de fiéis. Em pouco tempo a igreja se enche e se
forma rápida e espontaneamente um fila dupla do lado de fora na praça. Inicia-se uma
procissão silenciosa. Não há atropelo, ninguém se impacienta. O dia é para o Senhor. O
importante é chegar até as imagens de Cristo e de Nossa Senhora. O clima é de oração e
todos se irmanam na mesma fé. Pais acompanhados de seus filhos, jovens, adultos,
namorados, velhinhos. Operários, domésticas, lavadeiras, doceiras, biscoiteiras. Mecânicos,
comerciantes, bancários, artistas, servidores públicos, professores, estudantes, médicos,
dentistas, engenheiros, advogados, fazendeiros, autoridades. É o povo de Deus unido em
clima de oração. Cristo, do alto dos céus, acolhe cada peregrino e atende a todos,
concedendo-lhes o que for melhor para cada um.
E que oração lhe teriam feito? Que lhe teriam falado os peregrinos? Pela sua
expressão de fé e de confiança poderíamos dizer: louvavam, agradeciam e suplicavam
assim:
– Senhor, em nossos dias, há tanta revolta, tanta insensatez, tanta maldade, tanta
desonestidade! Desses males, livrai as nossas famílias!
– Há também tanto desamor, ó Cristo! Concedei-nos que nos amemos uns aos
outros com a mesma caridade.
– Senhor, mesmo na tribulação, eu me alegro em Vós porque sois a minha força, a

127
minha salvação!
– Senhor, confio em Vós. Sei que ouvireis nosso lamento... Sei que amais os que
são sinceros.
– Confesso, Senhor, as minhas culpas. Perdoai os meus pecados!...
– Criai em mim um coração que seja puro! Dai-me de novo a alegria de viver!
– Ensinai-me a aceitar sempre a Vossa vontade e a exercitar os dons que me destes.
– Concedei-me que eu morra convosco para convosco ressuscitar! Senhor, que nos
guardem sempre vossa graça e vossa verdade!
– Perdoai, Senhor, se às vezes não creio em mais nada. Senhor, Vós, sois meu
alimento na longa jornada...
– Senhor, creio que cada dia estou mais perto da Terra esperada.
– Pai-Nosso que estais no céu, santificado...
– Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós...
E assim, continuava o povo de Deus, em sua caminhada, com fé, esperança e
amor!...

***

“Quereis prevenir os crimes? Marche a liberdade acompanhada das luzes da
ciência e das leis simples e claras”.
(Beccaria)

“Não morrerei de todo; há de viver muita coisa de mim”.
(Horácio)

128
ALBERTO CORDEIRO DO COUTO
UM MISSIONÁRIO DO ENSINO

À Marina Couto, digna filha de um grande educador.

Djalma Teixeira de Oliveira – 1989

Em 1902, sucedendo ao Dr. Campos Sales na presidência da República, o Dr.
Francisco de Paula Rodrigues Alves inicia empreendimentos de grande alcance, marcando,
com seu dinamismo, uma das etapas mais propícias ao desenvolvimento do país.
Foi quando se realizaram significativas transformações na fisionomia do Brasil
como as promovidas pelo Prefeito da Capital Federal, Pereira Passos, cujo auxiliar,
engenheiro Paulo de Frontin, erigiu uma nova cidade do Rio de Janeiro. Foi o período em
que o cientista e higienista Oswaldo Cruz erradicou endemias rurais e urbanas, tornando
possível o intercâmbio comercial, sem reserva, do Brasil, com o resto do mundo. Esse foi o
momento decisivo para nossas relações diplomáticas com o continente europeu, quando Rui
Barbosa defendeu, em Haia, com a força do direito, as pequenas nações, contra o direito da
força, das grandes potências.
Na política, a campanha civilista empolga toda a nação e o povo brasileiro se torna
consciente de que a chefia de um governo não é incompatível com a cultura e o talento. É
ainda Rui Barbosa quem em 1908 como paraninfo dos alunos do Colégio Anchieta, de
Nova Friburgo e, em 1920, como paraninfo dos bacharéis em Direito, da faculdade de São
Paulo mostra, nas “Palavras à Juventude” e na “Oração aos Moços” que as alavancas que
levantam os povos, em todos os tempos são a escola, os livros e os mestres.
Os itapecericanos que atravessaram o período que medeou entre 1900 e 1950
acompanharam acontecimentos importantes e conheceram conterrâneos que foram seus
protagonistas. Pessoas, que pondo mais longe a mira de seus ideais, sintonizaram o espírito
da época e fizeram mais um capítulo da história da velha Itapecerica.
Uma delas, o professor Alberto Cordeiro do Couto, itapecericanos por merecimento,
reverenciamos nesta linhas. Mais tarde em 1976, por ocasião da Festa da Cidade, a Câmara
Municipal conferiu-lhe o honroso título de Cidadão Honorário de Itapecerica.
Dos Açôres a genética lhe trás, por parte do pai, Vitorino, a robustez do caráter, a
consciência de fé, a lealdade no convívio e a discrição nas atitudes. Da mãe, Antônia Lúcia,
brasileira, educada no gosto e refinamento franceses, herda a gentileza no trato, o cuidado
na linguagem, a elegância na conduta. Resultou daí uma pessoa cujas características iriam
ser altamente significativas para a comunidade itapecericana.
Em 1903 chegava à Itapecerica o funcionário federal, 27 anos, engenheiro-
agrimensor e arquiteto que terminara os estudos na Escola Politécnica do Rio de Janeiro,
tendo vindo a nossa cidade em busca de clima propício à saúde abalada. Os costumes que
encontra são os de uma cidade típica do interior de Minas, do início do século. A
Itapecerica dos cantos soturnos dos carros de boi e das serenatas alegres e românticas; a
Itapecerica das conversas de porta de “vendas”; das “folias de reis”; dos leilões do Mártir
São Sebastião; da “Procissão do Encontro” com as janelas semi-fechadas; da “Missa do
Galo”; dos jornais das facções políticas, a chegada do trem, trazendo políticos, da
Itapecerica que não é mais, mas ainda é na lembrança de muitos nós...

129
A sociedade itapecericana acolhe o jovem Alberto Cordeiro do Couto
carinhosamente que, pela simpatia e comunicabilidade conquista o espaço afetivo que será
seu, definitivamente. Encontrou clima que lhe fez bem ao corpo e ao espírito, pois cinco
anos depois de ter chegado à nossa terra, casava-se com Maria da Conceição de Araújo,
itapecericana pertencente à tradicional e ilustre família Corrêa.
Não transpus os umbrais de sua intimidade para aprender os segredos de apurados
meios de educar que lá exerciam. Não foi necessário. As normas seguidas em sua casa,
medidas nos sãos princípios de moral cristã se revelam no ilibado da vida dos que lhe
descendem.
As virtudes da vontade e do coração, da vida em família, não lhe discreparam
daquelas da vida pública. Quer fosse como funcionário do governo federal ou como
servidor do estado, no serviço de saúde ou, ainda como comerciante, observou sempre a
mesma imutável retidão. Esses meandros por onde andou, foram, na realidade, desvios da
estrada real que o conduzia para sua irremediável vocação: o ensino. O ensino, no seu
sentido mais abrangente, de educar, cujo labor ele inicia em 1903, para só terminar com sua
morte, quase meio século depois. Cria escolas em que leciona durante anos para jovens, não
só da cidade, mas dando oportunidade a que também os do meio rural tivessem acesso ao
aprendizado.
De 1922 a 1929, residindo em Divinópolis, revela sua percepção do alcance social
do ensino, que muitos anos mais tarde viria a ser uma das grandes metas dos governos de
nosso país, com a alfabetização de adultos. Como escriturário da Rede Mineira de Viação
pôde sentir que uma grande parte de maquinistas, foguistas e outros ferroviários compunha-
se de analfabetos ávidos de conhecimentos e angustiados por suas limitações. Cria um
curso para esses funcionários que se revelam alunos dedicados. A gratificação do professor
se vê aumentada, na medida em que melhoravam a posição social no meio do núcleo
operário em que viviam, muitos dos quais tendo adquirido o hábito de ler jornais. Outros
chegaram a conquistar melhores posições, cursando o ginásio.
Este único episódio teria sido suficiente para que o retirássemos do esconderijo da
modéstia para mostrar o altruísmo do educador sem fronteiras, cujo desejo era o de ensinar
em qualquer lugar e sob quaisquer circunstâncias.
De volta a Itapecerica, em 1929, não se acomoda o inquieto professor. Deseja ver
sanada uma grande falha da época: o desnível social e cultural dos rapazes, em relação às
moças que se habilitavam com o diploma de normalistas. As dificuldades para o
reconhecimento oficial de um Curso Noturno de Comércio que pensou criar com um
objetivo certo, foram de tal ordem intransponíveis que as aulas tiveram de ser interrompidas
depois de dois anos de funcionamento em caráter provisório. Mais uma vez, o professor
Alberto Couto mostrava sua sensibilidade e tentava resolver um problema de grande
significado para o equilíbrio psico-social da comunidade.
Quando, em 1934 a diretora do Colégio Imaculada Conceição, Maria Luiza Toscano
de Brito, tomou a deliberação de encerrar sua atividade de educadora, Itapecerica corria o
risco de perder um educandário que já estava incorporado ao patrimônio cultural de nossa
cidade. O professor Alberto Couto percebeu, em um relance, todo o sentido daquela perda.
Seria a esterilização intelectual de nossa terra. pela primeira vez lamentou não ser um
homem rico. Mas, os bens materiais nunca foram a sua meta. Jamais teria colocado o
ensino como uma segunda intenção ou como um pretexto. Os que o conheceram,
expressamente o absolvem do amor ao dinheiro. Só uma grande indiferença aos lucros
pessoais levaria uma pessoa a investimentos tão distantes dos interesses pecuniários.

130
Mas o professor Alberto Couto tinha grandes somas acumuladas em um valioso
patrimônio moral das quais lança mão para obter os recursos de que vai necessitar. Sai de
porta em porta, pede a cada um, com a altivez de quem sabe que está pedindo a salvação de
todos.
Terminada a Odisséia, a Escola Normal ficou em Itapecerica e com ela, montando
guarda à sua conquista, o grande batalhador. As dificuldades não pararam aí. Apenas
mudaram de aspectos, mas ele sofreu os contratempos, virilmente.
Não fui dos que privaram com ele, mas recebi os seus efluvios através das filhas
com quem convivi de perto e a quem me ligo pelo afeto: minha professora Adyles Couto e
minha colega Concita Couto, com quem cursei a escola primária.
Bendigo a meus pais por terem tido a lucidez, quem sabe inspiração, de me
colocarem, no início da vida, sob o abrigo que o “SEU ALBERTO” nos ofereceu.
Em um diário ele costumava escrever sobre sua maneira de pensar e de viver,
consoante os princípios do Evangelho. Em um dos seus escritos dizia: “Minha vida é uma
contínua união com Deus. Eu estou com Ele. Ele está comigo. Hei de vencer!” No dia 6 de
agosto de 1948, fechou os olhos na fé.
Ensinou sempre, com a palavra e o exemplo. Foi educador de gerações e ainda o é
dos que o imitam como modelo maravilhoso de civismo.
O professor Alberto Cordeiro do Couto, realmente, venceu. Venceu o próprio tempo
que não conseguiu apagar sua grande figura da memória dos itapecericanos.

O MESTRE QUERIDO
Marina Couto

O grande desejo de falar sobre meu querido mestre superou-me o constrangimento
de destacar méritos de meu pai, o Prof. Alberto Cordeiro do Couto.
Mineiro, nascido em 12 de julho de 1876, em Simão Pereira (antiga Rancharia), no
Município de Juiz de Fora, era filho do português Vitorino Cordeiro do Couto e de Antônio
Lúca do Couto, da sociedade do Rio de Janeiro. Faleceu em agosto de 1948.
Fez o Curso de Preparatórios no Seminário de São Paulo, prosseguindo seus estudos
na tradicional Escola Politécnica do Rio de Janeiro, definindo-se pela área de Engenharia,
como topógrafo-agrimensor e arquiteto.
No exercício de sua profissão, como funcionário federal veio ter em Itapecerica, em
1903, para demarcar o Ramal de Gonçalves Ferreira.
Acolhido pela sociedade itapecericana com carinho e apreço, casou-se em 1908 com
Maria da Conceição Corrêa de Araújo, sobrinho do saudoso Pe. João Victor Corrêa e filha
do Tenente Marciano Henrique de Araújo, jornalista e ex-Presidente da Câmara Municipal
de Itapecerica.
Se a carreira de topógrafo-agrimensor foi a razão de se ter estabelecido em
Itapecerica, se a vida lhe pediu o exercício de outras atividades, tais como as de
comerciante, gerente de hotel e funcionário da Rede de Viação Oeste de Minas,
microscopista de Posto de Saúde, um outro campo de trabalho o atraiu com uma força

131
irresistível: O CAMPO DA EDUCAÇÃO.
Desde o início de sua chegada a Itapecerica, atendendo a pedidos de alguns amigos,
dedicou-se à preparação de candidatos a exames de Admissão ao Colégio Pedro II, no Rio.
Com o decorrer do tempo, durante 45 anos, seu trabalho se ampliou, abrangendo o
Ensino Primário, Ginasial, Comercial e o de Formação de Professores (Curso de
Normalistas). Nesta última categoria, o Prof. Alberto chegou ao clímax de sua realização
pessoal.
Foi o guardião, o diretor e professor da Escola Normal Imaculada Conceição
durante muitos anos, encerrando suas atividades a 6 de agosto de 1948, dia de seu
falecimento.

Encontramos em seu arquivo manifestações expressivas, tais como: “A Escola
Normal Imaculada Conceição é um patrimônio riquíssimo que deve constituir para cada
itapecericano um motivo de muito desvanecimento” – “O que caracteriza, quase diria, o
que individualiza este estabelecimento de ensino é a VERDADE” – “Dentro das modestas
paredes do Colégio vive um espírito de harmonia e de sinceridade, tão solidamente
arraigado àquela Casa, que nela se tornou natural, e, por muitas vezes despercebido pelos
que ali trabalham quotidianamente.”

Um dos Paraninfos de Diplomandas assim se expressa: “Prof. Alberto, fizestes da
Escola Normal um estabelecimento de educação, em que se educa realmente. Pusestes em
Deus o vosso coração e o vosso ideal supremo. Não tereis, talvez, a compreensão unânime
dos homens, mas, muito mais do que isto, tereis imprimido no coração de vossas alunas
uma gratidão tão forte, que nem o tempo poderá destruir.”

Em suas alocuções às alunas, deixou-nos esse legado moral e espiritual:
– “Meu impulso é agir, é fazer alguma coisa, é colaborar com a sociedade, é ajudá-
la a transformar-se.”
– “Educação é para mim algo em que penso e algo que faço com a mais profunda
convicção.”
– “Hei de formar, antes de tudo, jovens que crêem na solidariedade humana; na
necessidade da concórdia, da paz; na dedicação do próximo, com amor; no dever que todos
temos, diante do futuro da Pátria.”
– “Ditoso o homem que pode morrer com a consciência de que fez o bem que pôde
fazer. Ele lega aos seus o exemplo da gratidão, como um espelho cristalino de sua alma
justa, digna e amante da verdade.”
– “Todo homem deve lutar para vencer com virtude e com honra. E somente o
conseguirá se não for fraco, se dominar seus receios, se agir com coragem.”
– “São sagrados os deveres da amizade: a amizade deve ser cultivada para nos
tornarmos dignos dela.”

Assim era meu Pai!

Belo Horizonte, 15/02/93.

132
RAYMUNDO NONATO DE ARAÚJO

Sócio fundador da Academia Itapecericana de Letras e Cultura, ocupando a cadeira
nº 51 seção de Trovas e Crônicas tendo por patrona Maria da Conceição Menezes Beirigo.

Filho de Otaviano Antonio de Araújo e Leopoldina Assunção de Araújo, nasceu em
05.09.1916 e morreu em 19.05.85. Estudou em Belo Horizonte. Foi escoteiro e versejador.
Cirurgião-dentista formado pela Faculdade de Farmácia e Odontologia de Ribeirão Preto,
registrado no Ministério da Educação e Saúde Livro JE-1 fl. 93 nº JE 455 em 22.01.46,
exerceu a profissão em Candeias, Camacho e Itapecerica por uns 15 anos.

Atendendo às necessidades municipais foi concessionário de Transporte Coletivo
com viagens de Itapecerica/Divinópolis e Itapecerica/Campo Belo desde 1949, Belo
Horizonte/Candeias via Itapecerica em 1958 e Itapecerica/Divinópolis, linha 700 via
Marilândia desde 1967. No dia em que morreu havia comprado a linha Formiga/Oliveira.

Casou-se com Isaura Lamounier de Araújo e tiveram cinco filhos: Célia, Marília,
Edna, Eliane e Auro Lamounier de Araújo. Homem inteligente e culto foi cronista do jornal
Janelão e nomeado Delegado Municipal da União Brasileira de Trovadores em 23.01.80.
Promoveu o 1º Concurso Nacional de Trovas de Itapecerica. Em 1984 fez uma Chuva de
Trovas a Itapecerica com participação de trovadores de vários estados do Brasil. Sempre de
bom humor foi até mesmo em 1939 o diretor técnico da Liga Camachense dos Preguiçosos,
participando de algumas peças teatrais. Deixou um vazio imenso quando partiu.

À ERRIENE as homenagens e o carinho de sua família através das páginas desta
antologia.

“No meu verso ele vive”
(Shakespeare)

133
“CONTANDO HISTÓRIAS”

E temos uma história divertida: tempos atrás vivia aqui um certo Cipriano, com sua
Flaubert, tendo por vizinha uma árvore de abacates que caíam todos ainda verdes. A
proprietária triste reclamando e ele “sem saber de nada” diz gostar deles meio verdes
mesmo e passa a comprá-los. E conta-se dele ainda uma história sobre as Quatro Bicas:
acertou o cachimbo na boca de um velho que curtia a tarde e a fonte, dando-lhe depois 10
mil réis para comprar um cachimbo novo.
Agora, a história do velho padre foi contada pelo Dr. Antônio: já velhinho, saindo a
cavalo para ir rezar missa na igrejinha da Caixa D’Água, passa nas Quatro Bicas e conversa
com a comadre. Continua a viagem e lá na frente, premido por certas necessidades, apeia
alguns momentos. O cavalo aproveita para comer o mato e dá meia volta. O velho padre
chega, monta e segue viagem. De repente avista a comadre novamente com sua mala de
roupas e diz: – Uai comadre, a senhora veio também!
Mas já que estamos a falar das Quatro Bicas, vem uma quente: durante o dia
lavavam roupa mas a zona boêmia ficava lá e, à noite, muitos homens aqui chegados se
apaixonavam pela região deixando-se ficar na boemia por dias e dias. Muitos terminavam
conhecendo as moças da cidade e por aqui se casavam. Daí o adágio: “quem bebe água das
quatro bicas aqui fica.”

***

ITAPECERICA (pedra lisa ou escorregadia). ch. bras. Cidade, município e comarca
do estado de Minas Gerais. O mun., situado a Oeste do Estado, é servido pela estrada de
ferro Oeste de Minas, que possue, além da estação da sede, as de Sucupira, Barra,
Gonçalves Ferreira, Desterro, Henrique Galvão e Alberto Ysacson. Comprehende as
parochias de S. Bento de Tamanduá, S. Sebastião do Curral e Espírito Santo de Itapecerica.
Seu clima é temperado. Produz cereaes, café, fumo, etc., exporta café, arroz, fumo, gado
bovino e suíno, queijos, creme de leite para manteiga e couros não preparados. Possue uma
fazenda modelo, denominada Diniz, a 9 km da séde, para fins agrícolas. Tem minas de
ferro e outros metaes. A cidade é iluminada a luz electrica, tem theatro, canalisação de
agua, etc. Pop. da cidade, 5.000 hab. do mun., 32.000 hab.

Trranscrito da Encyclopedia e Diccionario Internacional
W.M. Jackson INc. Editores – Coleção 20 volumes de Erriene

134
VERSOS DE ERRIENE

Infância que não tive Queria outra infância ter,
porque menino era homem seria tão diferente!
trabalhando me contive Criança queria eu ser
não brinquei... os sonhos somem. Feliz a brincar somente.

Se uma trova comportasse Olho neste calendário:
o que eu queria dizer na tribo é noite de festa
pediria que voltasse por mais um aniversário
você que é meu bem querer. do trovador em seresta.

Eu quando criança era, Guerreiros e trovadores
inventei artes e até são homens que se parecem
em festa de primavera, ambos lutam com ardores
ao chefe, com sal fiz café. da honra jamais esquecem.

Cidade Itapecerica Falem de mim se quiserem
tem rosas e trovadores mas sou rei no mundo inteiro
feliz a minh’alma fica vivam sem mim se puderem
quando lhe canto louvores. não sou ninguém: sou dinheiro.

É mentira o que se diz Às vezes devagarinho
ou pelo menos parece: chegava, não esperado,
– “Longa vida, sê feliz!” e me ia de mansinho
Ao coitado que envelhece. dar-te um abraço apertado.

Sorridente, vagabundo, Se na vida nada fiz
as noites iluminando, de que possa me orgulhar,
vai o luar pelo mundo como posso ser feliz
a nós beleza mostrando. para em trovas recordar?

É gostoso ver alguém A – Desejo a você neste dia
perto de nós a dizer M – tudo de bom que se possa ter:
que nos gosta, amor nos tem I – saúde, dinheiro, alegria,
somos parte do seu ser. G – mulheres, amores, saber
O – e o que mais possa querer.

135
VERSOS DE ERRIENE

A sua casa chegando “Sereis retribuídos na
em sua porta vou bater ressurreição dos justos”
um sorriso vou levando (Lucas 14)
quero outro sorriso ver.

Ser pai é querer aos filhos A – Sua carta aqui chegou
mais que a si mesmo e estar CE – a fim de me convidar
orgulhoso de seus brilhos LI – com um sorriso aqui estou
pronto a lhes abençoar. A – vou contente lhe abraçar.

Como é bom compartilhar I – A você eu já dizia
da alegria de quem tem S – que estou no fim, devo ir,
em dia de aniversário A – aqui não deixarei nada
só quem é triste não vem. U – daqui nada vou levar
R – foi triste minha jornada
TROVA é uma gota de poesia A – pois a ninguém nem a mim
em quatro versos. RNA/81 - adiantou meu versejar.

Nada se constrói de uma vez Do seu projeto, Tancredo,
só mas, com boa vontade, tempo, tão bem aqui implantado,
colaboração e união, tudo José Sarney fará credo
é possível. RNA/81 salvando o Brasil amado?

Minhas trovas não revelam O sorriso é a linguagem
a mágoa que dentro tenho o sorriso é a expressão
de tantos anos vividos o sorriso é a mensagem
sem nada ter para empenho. que sai do meu coração.

Minha vida não tem nódoas **ERRIENE**
honesto aprendi bem cedo: um sonhador que fez de seu sonho
da vida não levo mágoas, uma vibrante realidade: a Empresa
da morte não tenho medo São Bento, hoje, R N Ltda. desde
1949 servido a Itapecerica.

136
“NÃO RAPO NADA”

Marcha carnavalesca para 1937
Letra e música de Raimundo Nonato Araújo

EU NÃO RAPO NADA
Não é por não querer
Pois se você quisesse
Tinha me vindo ver.

Eu aqui teria vindo
Mesmo sem saber se quer
EU NÃO RAPO NADA
Se você quiser BIS
EU NÃO RAPO NADA?

Conversa de casamento
Isto é que não me agrada
Quando falam nisso
É QUE NÃO RAPO NADA...

Gonçalves Ferreira, 29 de janeiro de 1937

137
CONVERSA COM PAI

Em que estrela tu estás?
Em que estrela, em que canto
tu te escondes?

Venha ouvir a valsa
do teu encanto
talvez o som das notas
que “o destino desfolhou”
possa te encontrar...

Venha ver a dança
das crianças, o balé
dos sonhos nossos...
talvez os passos
possam te tocar.

Venha ver a tua terra
tua cidade de Tamanduá
andar por estas ruas
conversar nas madrugadas
com teus velhos doidos amigos.

Venha ver a festa de hoje
falar da China e dos outros
ilustres que partiram,
escrever teus alegres artigos
no gostoso Janelão.

Em que estrela tu estás?
Em que estrelas, em que canto
tu te escondes?

Noite Festiva de Posse na Academia em 06.10.86
Célia Lamounier de Araújo

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PARECE MENTIRA

ERRIENE – Fevereiro 1972 – Jornal Janelão nº 8

Em madrugada próxima passada, nas proximidades do Cemitério do Bonfim, um
pedreiro foi perseguido e quase atropelado por uma misteriosa e veloz roda de carro, que o
acompanhava inclusiva em “duas ou três curvas de rua”. Assim nos conta ele o susto:
– “Parece mentira mas é verdade mesmo. Você já pensou? Encontrar-se em local
ermo e que local! Pressentir um leve ruído que se aproxima rapidamente atrás de você,
parecer-lhe ser um veículo mas sem barulho de motor e sem luzes, apesar do lusco-fusco da
madrugada, e, quando você ao esfregar os olhos para se certificar tratar-se ou não de uma
Visão, ouvir nitidamente ainda que um pouco à distância uma barulhada ensurdecedora,
semelhante a trovoada contrastando com o leve ruído de antes e que, por cúmulo, vem
exatamente em sua direção. Olhar e ver uma roda girando. Você correr assustado de uma
coisa que está lhe cheirando sobrenatural e, na corrida, quando você dobra a esquina, a tal
roda zig-zagueando continua atrás de você. Você já pensou o que pode acontecer quando,
depois de tudo isso, você olha para trás e a maldita e silenciosa roda continua em sua
perseguição?... Pois foi o que me aconteceu; não ria, nem vá fora de hora, para o lado dos
mortos, porque é assim que as vezes eles conversam com a gente e, não sei o que pensam
depois quando somos encontrados de olhos esbugalhados, com a roupa “empoeirada”,
rasgada e... e... e... às vezes até molhada!”
Ora, amigo CHIBATA! O que aconteceu em verdade foi que um jeep, antes
estacionado, perto do cemitério, desengrenou-se e desceu desgovernado rua abaixo, quando
então já em grande velocidade, ao passar rente a um poste, teve sua roda sobressalente
arrancada, fato que mudou a direção do jeep que foi de encontro a uma casa. A roda seguiu
ladeira abaixo indo em sua direção. O fato é “real” e você pode ir ver o carro, o local e o
estado em que ficou, bem como ver a roda que foi encontrada.
– “Depois do que passei, não vou mais por aqueles lados, não quero ver automóvel
nenhum, nem jeep, nem roda e... nem namorada.”

“O importante é nossa postura diante da vida”
Kazvo Ohno

145
PARECE MENTIRA
(mas é verdade)

ERRIENE – 02.03.1971 – Jornal Janelão nº 9

Conta-nos o Tio Nicas que, indo a São Paulo, foi abordado por um lépido e
simpático rapaz que, mostrando-se seu grande conhecido, alegremente lhe disse: – “Olá,
amigão, como vai? Sempre progredindo, hein? Gente boa, terra boa, não me esqueço. Você
tem duas notas de cinco, aí?” Atordoado ante aquele inesperado amigo, o Tio Nicas tira do
bolso, separa e mostra-lhe duas notas de cinco cruzeiros, quando então, rapidamente, o seu
amigo, pegando em uma delas, lhe diz: “ME DÁ UMA E FIQUE COM A OUTRA.”
Assim se despediu, correu e sumiu, aquele amigo do Tio Nicas.

Ao ouvir esta, austero e seguro conterrâneo nosso contou-nos, que há dias, estando
em Belo Horizonte, na Av. Afonso Pena, veio ao seu encontro uma bonita jovem, vestes
bem atualizadas, olhos ternos, penetrantes e sorridentemente lhe disse: – “Como vai o sr.?
Sempre folgado e aproveitando a vida, não é? Vá lá em casa tomar o nosso cafezinho”.
Mesmo não se lembrando quem fosse a sua linda interceptora (e, cá entre nós, já
antegozando o agradável sabor daquele cafezinho) o nosso amigo arriscou: – “Mas, onde
moram vocês agora?” – “Rua tal, nº tal, disse-lhe ela, e para não pedir-lhe um cigarro em
plena rua, dê-me o dinheiro para comprar um maço.” Ante mais esta demonstração de
intimidade o nosso amigo não hesitou em entregar-lhe uma nota de dez cruzeiros que por
ela foi colocada na bolsa e, ato contínuo, retira-se elegantemente, repetindo-lhe: – “Tome
nota do endereço”. Feliz e apressado o nosso amigo procura localizar o endereço anotado:
Rua tal, nº tal – “Compra-se Ferro Velho”.

“O que vemos não é o que vemos senão o que somos”
Fernando Pessoa

146
PARECE MENTIRA...
MAS É VERDADE

ERRIENE – Jornal Janelão nº 10

No carnaval, aquele “careca”, após levar esposa e filhas a um dos bailes de lá,
discretamente escapuliu, foi a um bar próximo, onde num reservado, colocou farta
cabeleira, pôs costeletas e um bonito bigode, tipo português, tirou a gravata e trocou a
camisa branca por uma de exagerado e colorido estampado. Ao espelho, sorriu contente
com a transformação conseguida.
Noutro bar tomou algumas doses de coragem e confiante voltou ao salão recebido
como autêntico jovem cabeludo, foi alvo da maior e mais disputada acolhida.
Deslumbrado pelos convites que lhe chegaram através dos trejeitos e olhares
daquelas mais ousadas, em pouco, pulava, dançava, sorria, bebia e retribuía com carinho as
demonstrações recebidas.
Horas depois, embriagado pelo sucesso “do cabeludo” e talvez mais ainda “por
muitas e outras” que bebeu, ei-lo à nossa frente, exuberante de alegria, braços em torno dos
quadris de duas jovens que pareciam carregá-lo e, sorridente para ele cantavam: – “Ui, ui,
ui me deram um beliscão; ui, ui, ui, no meio do salão” enquanto ele cantava: – “É dos
carecas que elas gostam mais”.
Alguém a nosso lado comentava: – “Por que será que este jovem cabeludo teima em
cantar a marchinha dos carecas?” Era a esposa dele que também, quem sabe, simpatizara
com o jovem cabeludo.

***

Há dias, estávamos na Panificadora Santo Antônio, de propriedade do sr. J.B. mais
conhecido por “Seu Bem” quando o telefone tocou.
Ele apanhou o fone, enquanto a pessoa que chamou, provavelmente, mais apressada
deve ter feito aquela extravagante pergunta: – “Quem fala?”. Ao que ele prontamente
respondeu – “Aqui é Seu Bem”.
Parece ter ouvido mais qualquer coisa e admirado olhou para mim e para o fone, de
tal modo, que tomei-o de sua mão e coloquei no ouvido, pois entendi que o chamado era eu.
Nunca ouvi em tão poucas palavras, tamanha descompostura! Aquela senhora não
conhecia o meu amigo e muito menos o seu apelido. O Seu Bem ria-se a valer.

147
PARECE MENTIRA...
mas é verdade!

ERRIENE –Jornal Janelão nº 11

Naquele tempo quando, ao anoitecer, alguns meninos ou meninas pobres percorriam
a cidade pedindo sobras de comida, sobras estas que iam sendo recolhidas em uma ou mais
latas... foram bater na porta da casa de uma mocinha que, exatamente naqueles momentos
estava ouvindo sua costumeira NOVELA. A mocinha foi rapidamente atender, porém
decidiu despachá-los no menor tempo possível pois não queria perder parte da novela.
Assim, estabeleceu-se o seguinte diálogo:
– Sobrou comida? Não.
– E um pedaço de pão?
– NÃO.
– E uma roupa véia?
– NÃÃÃO.
– Nem um chinelo véio?
– Também NÃÃÃÃO!
– Intão, convém ocê arranjá uma lata vim pedí junto cum nóis.

***

A Agência da Caixa Econômica Federal de Itapecerica foi visitada por ladrões tão
corretos que, não conseguido seu intento e mesmo sendo forçados a uma retirada meio
brusca, decidiram deixar-nos um deles de lembrança. Em retribuição à gentileza, boa parte
da população, em verdadeira romaria, foi visitá-lo na Delegacia onde, exibindo reluzentes
pulseiras que distintamente a polícia colocou em seus anti-braços, ele recebeu aquela
cordial homenagem.
Quase sempre, em fatos desta natureza, tem tido a Bela Adormecida quem vele pelo
seu sono; desta vez, na pessoa do Tonho, do Roxinho, do Fabiano, Chico Tuffy, Pedro
Américo e tantos outros que lhes serão apresentados no próximo número em “a estória
alegre de um assalto”. Pena é que não poderemos contar com a colaboração daquele
representante aqui deixado pelos senhores ladrões pois, não sabemos porque, a polícia local
não se afeiçoou muito a ele mandando-o em “bom despacho”.

“Aqueles que nos matam ou difamam nos fortalecem para a vida eterna.”

148
PARECE MENTIRA MAS É... VERDADE

ERRIENE – Jornal Janelão nº 12 de 15.04.72

* Nos dias em que o louco ou, monstro de Capinópolis colocou em pânico cidades
daquela região, o nosso amigo Diomar chegou a Ituiutaba para onde levava algumas
mercadorias, inclusive um manequim de mulher, sem embalagem, de modo que deixava à
mostra as suas pernas e cabelos muito longos. A vista das notícias sobre o louco, Diomar
preferiu ele mesmo descarregar o caminhão e tudo correu muito bem enquanto entregava
dois, três volumes aqui, outros tantos ali. Mas, quando chegou a vez do manequim...
Também pudera! Com aquele corpanzil, barba e cabelos grandes, roupa suja, camisa solta,
carregando com aquela facilidade o que a muitos pareceu um corpo de mulher, ninguém
teve dúvidas em ver nele o temido louco. Dado o alarme e aos gritos de “olha o louco” foi
aquela correria e o Diomar não teve a quem entregar o belo manequim que aqui veio parar
e denunciar a estória do “louco de Itapecerica”.

* Sobre a “estória alegre de um assalto, fato ocorrido na madrugada de 21.04.72 à
Ag. da Caixa Econ. Federal daqui, lamentamos a exiguidade do espaço que só nos permite
relatar alguns detalhes: – Assim...
Quando o Tonho, após os vários telefonemas que deu ou mandou dar, voltava para
ficar de espreita na esquina, deu de encontro com um dos ladrões até hoje não soube
explicar-nos onde e como arranjou aquela desculpa de que estava esperando o caminhão
leiteiro.

Um pouco antes, o Chico Tuffy se enervava com o aviso telefônico, xingando a
quem lhe telefonava aquela hora, pois, olhando na rua e vendo um dos ladrões, viu nele a
pessoa do seu cunhado e cumpadre Michel.
Mais tarde um pouco, com os estampido dos tiros, o Chico desceu rápido trazendo
uma garrafa de café, na esperança de dar a seu cumpadre, na hora da morte, um gole do que
ele mais gostava.

O Fabiano, gerente da Caixa, veio célere a fim de evitar o assalto mas foi infeliz
pois chegou no exato momento dos tiros, o que fez empacar o seu Volks em cima do
canteiro.
Mais feliz um pouco foi o Tião do Januário, que, também avisado para o “pega-
ladrão” não acreditou e voltou para a cama. Quando estouraram algumas pipocas perto da
janela de seu quarto, persignou-se, cobriu a cabeça e, de fora, houve quem o escutasse
pedindo misericórdia e prometendo acreditar da próxima vez.
O Dimas Henrique, já calejado com ladrões, pois faz pouco tempo teve um
entrevero com dois deles em sua loja, alta madrugada, mesmo pensando poder ser um trote,
levantou-se, saiu pelos fundos e foi à rua para ver, quando então deu de testa com o Pedro
Américo, que, de cócoras, na esquina, estava à espreita. Felizmente um correu do outro sem
outras conseqüências senão um bom gole d’água.

149
O Zé Roxinho que se comprometera a imobilizar o volks dos ladrões, quebrando-
lhes os faróis, foi sem sorte porque o ladrão chegou correndo e entrou no carro no momento
em que ele se preparava para, sem ruídos, executar a tarefa.
Quase que o Volks, em sua rápida arrancada, o atropela. E pior: o Roxinho não sabe
se deitou ou caiu com os tiros do cabo Raimundo; na verdade ele custou a acreditar não ter
sido atingido.
Por sua sorte, o cabo só tinha 4 balas, o que deu ao 2º ladrão “aquele que não
conseguiu pegar o carro” a oportunidade de passar pelo cabo e dizer-lhe: “eu vou a pé
mesmo”.
Mas a sorte do ladrão foi ter visto, depois de bastante caminhar pela rodovia, uma
certa caminhonete. Resolveu pedir “carona” e achou-se de repente ao lado do pessoal que o
buscava por ali mas não pensava em parar ainda.

***

Dados sobre o município de Itapecerica: de 1741 a 1759 existiu na região o
Quilombo do Rei Ambrósio com vinte mil súditos.
Da publicação do IBGE de 1948 – Sinopse Estatística de Itapecerica: Pelo
recenseamento de 1940 Itapecerica possuía 34.953 habitantes assim distribuídos: sede
14.183, Camacho 4.586, Marilândia 3.787, Pedra do Indaiá 5.887 e São Sebastião do Curral
6.510.
A densidade demográfica foi calculada em 18,92 habitantes por km² e a área era de
2.014 km². Latitude S. 20º28’10” e longitude W. Gr. 45º07’20”. Altitude: 835m.

“Ao meditar e compreender que a minha missão é ser útil e, pelo menos, não
prejudicar o próximo, tento evitar dois grandes defeitos: desonestidade e estrelismo”.
Comendador Murilo Teixeira

150
PARECE MENTIRA...
mas é verdade!

Erriene – Jornal Janelão nº 24 – Nov. 72

QUE estivemos ausentes desta coluna, em função das dificuldades que se tem em
conseguir verdades que pareçam mentiras;
QUE reaparecendo, estamos apenas nos despedindo por algum tempo;
QUE anteriores e até antigas publicações do Janelão tenham amofinado tanto e tal
modo a alguns desajeitados que não escolheram sequer oportunidade para se vingar, alheios
ou esquecidos de alguns resultados positivos já obtidos;
QUE Povo, Política e Políticos locais andam de tal forma desinteressados que
parece não haverá aqui um tão próximo dia quinze.
QUE em Itapecerica, até casamento civil pode ser pago a prazo ou pela financeira e,
até mesmo, adiado por causa do Janelão, não é sr. Osires?
QUE a Banca Examinadora veio e...
O Chico do Tuffy, tão habituado a dirigir mas sempre sonhando com os 13 pontos,
emocionou-se tanto quando o examinador lhe disse ter perdido exatamente 13 pontos que
arrancou adoidado com seu volks zerinho em cima do coitado que estava na sua frente;
A D. Isaura, segura durante o aprendizado, nem sequer arranhou o seu carro mas, no
dia, um pouquinho só antes do exame achou melhor aprender também a dar uma batida. O
nervosismo que lhe adveio não lhe permitiu mais nada e ela nem lá se apresentou;
Boa parte dos alunos da Escola do Clareão ficou no escuro;
O Paulinho, aquele soldado fiscal do trânsito, naufragou no exame porque apenas
não soube colocar a boia;
QUE um ladrão, já bastante conhecido por suas especialidades e pela mania de
esconder as “coisinhas subtraídas” na cerca de ciprestes da Praça de Esportes, não podendo
mais fazê-lo porque a dita cerca virou muro, escondeu no próprio interior da Casa Rios a
máquina de escrever e a de somar roubadas do comerciante vizinho, sr. Josefino Caseca,
tendo levado consigo até os níqueis de um centavo lá encontrados, teve tempo de furar a
parede divisória dos estabelecimentos mas se esqueceu de que o santo aqui é forte.
Cuidado, amigo, seus pais não vão gostar de vê-lo no xadrez. Mude de idéias ou mude-se
daqui enquanto é tempo.
QUE o Zé Curinga em uma de suas últimas preleções, daquelas que geralmente faz
aos sábados, nas esquinas após elevado percentual de caninha a comandar-lhe o cérebro,
houve por bem dizer: “Falo u qui quero, e posso falá purque falo certo! Tapicirica nunca
vai acordá purque o comodismo da maiuria é qui nem corchão de paina dos poucos mais
ispertos. Mi intrega isto proceis vê cumo eu cuncerto tudo! Mi intrega a Profeitura, o
Grafite, a Siderúrgica, o Ginásio, os grupo, as Iscola, os cartório e tudo qui tem aqui,
procêis vê!... Num intrega não, né? Intão dispois num fala qui eu num avisei. Num intréga
não, né?”... E sempre naquele seu estribilho, lá se foi o Zé Curinga, noite afora, pelas ruas
quase desertas da Bela Adormecida. “Dispôis, num fala qui eu num avisei!” Lá mais

151
distante o eco de sua voz!
QUE a volta do Janelão vai em boa parte depender do que nos escreverem os
sugerirem os leitores, conterrâneos, e especialmente assinantes e anunciantes, isto durante o
mês de novembro corrente.

Só quem não tem argumentos apela e briga demonstrando ser um FRACO.

***

VERSOS PARA BRÍGIDA
Cla. em 28.03

Queria dar a você
um coração cor de rosa
com a rosa mais bonita
cor de rosa que eu vi...
Desejando, minha amiga,
que todos os seus momentos
fossem sempre
cor da rosa cor de rosa que colhi.

(mas não encontrei o presente)

Trouxe então aqui comigo
este coração diferente
tão meigo como você...
Guarde os versos cor de rosa
lembrando que rosa são
os corações dos amigos
que hoje estão muitos aqui.

152
ROBERTO LUPERACCI

Nasceu em 1926 sendo o caçula dos 5 filhos do casal Joaquim Duarte Gomides e
Rosa Luperacci Gomides. Concluiu seu curso primário na E.E. Severo Ribeiro e fez o curso
básico e datilografia em Belo Horizonte. Residiu no Rio de Janeiro e trabalhou como
caxeiro-viajante no Nordeste onde conheceu os personagens de seu romance “Eclipse da
Alma”.
Estabeleceu-se no comércio em Itapecerica em 1951. Dirigiu o Conselho Mun. de
Ação Social; conseguiu uma gleba na Fazenda Modelo onde desenvolveu em regime de
parceria com pequenos agricultores o plantio de cereais doando parcelas das colheitas a
entidades filantrópicas. Com apoio da Pref. Mun., Nacional de Grafite e a comunidade,
construiu e fundou a Escola Profissionalizante de Calçados “Dr. Clóvis Cordeiro”. Elegeu-
se vereador, foi Pres. da Câmara, Pres. da Cia. Telefônica, Pres. do Diretório do PDS, Pres.
do Rotary Club, Pres. da AILC onde ocupa a cadeira 28 – seção Romance, tendo por
patrono o Dr. Severo Rios Corrêa.

A ÚLTIMA LEVA
(conto)

Da janela de seu casebre, absorta, Joana mantinha seu olhar perdido no espaço. O
céu se mostrava inteiramente límpido. Nem sequer uma nesga de nuvem ousava macular o
azul do firmamento. O sol se esbaldava na abóbada celeste lançando impiedosamente seus
raios causticantes sobre a terra já torrada, abrindo suas entranhas em sinal de defesa.
Enquanto o céu transmitia bonança, muita luz e harmonia, na terra somente havia
desolação. Da caatinga apenas restavam vestígios de vegetação. As aves e os pássaros
migraram para outras paragens. Os animais silvestres, muitos foram caçados, outros

153
desapareceram, alguns sucumbiram dizimados pela inclemência da seca. A fome e a sede
ameaçavam os últimos habitantes daquele povoado do agreste nordestino. Com exceção de
Joana, toda a comunidade se encontrava reunida na Capela Nossa Senhora da Guia ouvindo
a pregação do Pastor que, após proferir algumas preces, expôs aos fiéis a situação
calamitosa na qual se encontravam, sugerindo a retirada. Mencionou que vários já haviam
partido e que a permanência naquele local seria desastrosa. – “Com as bênçãos de Deus e as
poucas forças que nos restam deveremos partir o mais breve possível”. Todos concordaram,
mas para a família do Pedro existia o problema de Joana que se encontrava grávida de sete
meses e a cidade mais próxima, rumo ao litoral, distava cerca de cinco léguas do povoado.
Pedro pediu a compreensão dos presentes alegando o estado em que se encontrava sua filha
sugerindo aguardarem por mais tempo o momento da retirada. Os demais contestaram
alegando que Joana era jovem e que daria conta da caminhada, disseram ainda que os
suprimentos que dispunham se esgotariam dentro de curto prazo. Ao término da reunião,
todos foram para suas casas cuidar dos preparativos para partida.
Joana, ao tomar conhecimento do ocorrido, não se mostrou animada a enfrentar
aquela empresa. Sentia-se indisposta e depauperada. Mostrava-se bastante desiludida. O
noivo havia partido há seis meses em busca de trabalho e nem sequer notícias tinha lhe
enviado. Aos dezessete anos de existência já encarava a morte como um fator natural ou
talvez a melhor solução para o seu problema. Já via dissipada a esperança de se casar.
Apenas a tristeza residia em seu pobre coração. A devastação causada pela seca não lhe
causava temores. Todavia, ao contemplar seus irmãos mais jovens que se mostravam
ansiosos para partir, ordenou a seus pais que partissem com os retirantes. Afirmou que
sobreviveria comendo raízes colhidas na caatinga e que encontraria água nos cactos. Houve
relutância por parte de sua mãe, mas Joana os convenceu a partir alegando que ficaria com
Deus e Japi, o cão de casa.
Ao romper da aurora do dia seguinte, tendo à frente o Pastor que marchava
lentamente apoiando em seu cajado, deu-se o início da última leva de retirantes do sertão.
Não havia nenhum entusiasmo naquela triste jornada, apenas alimentavam a esperança de
sobrevivência. Com o coração apertado, a mãe de Joana voltava seu olhar melancólico atrás
temendo pela sorte de sua filha abandonada. Orava constantemente pedindo ao Pai Eterno a
proteção Divina para a sua pobre filha. Indiferente a tudo que se passava, Joana bastante
conformada pela situação imposta pela circunstância assistia a marcha dos retirantes
solfejando uma canção sertaneja que certa vez ouvira em um circo referindo-se sobre a
seca.

Roberto Luperacci – 1993

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DOM SEBASTIÃO ROQUE RABELO MENDES

Dados biográficos de
CESÁRIO MENDES DE CERQUEIRA

Filho de Belchior Mendes Pedrosa Ribeiro e de Henriqueta Luisa Mendes
Cerqueira, nasceu em 12.12.1896. Avós paternos: Antônio Mendes Ribeiro e Cândida
Maria Pedrosa; avós maternos: Luís José de Cerqueira e Carolina Marcelina Cerqueira.
Casou-se em 12.12.1927 com Maria Raimunda Rabelo Mendes, sua companheira durante
54 anos, mulher forte e lutadora que o ajudou muito, nos bons e maus momentos de sua
vida. Mestre Cesário faleceu em 23.07.1981.
Cesário teve uma infância como toda criança de sua época, menino levado fora
muitas vezes expulso das aulas do prof. Carmelo pois não queria nada de obrigações, queria
mesmo era aproveitar sua infância para fazer mais peraltices.
Carivaldo Caetano de Carvalho, exímio bombardinista daquela época, talvez até
hoje não haja outro igual, convidou Cesário para aprender música com ele. E vendo que o
menino levava jeito para a música, através de várias tentativas conseguiu nova chance com
o velho e estimado prof. Carmelo. Daí então o Záio progredira assustadoramente, admirado
pelos próprios colegas que passaram a aprender música com ele mesmo.
Aos 15 anos sobressaía dos demais músicos e ocupou o lugar de regente da
Corporação Musical N. Sra. das Dores. Ele a regeu por mais de 60 anos, lutando aqui e
acolá pela sobrevivência da centenária corporação. Compôs nada mais, nada menos que
umas 600 peças, deixando um rico repertório de músicas sacras e profanas. Foi exímio
pistonista e violoncelista sempre dedicando sua vida à música. Tinha esse “orgulho” de ser
o que foi na sua terra natal. Foi um homem sem vaidades pois o conhecimento que tinha da
música jamais quis deixar sua terra por propostas vantajosas recebidas. Viveu pela música e
morreu aos 23 dias do mês de julho de 1981, por volta das 18:40h.
Itapecerica enlutara com a perda deste homem simples que sempre a projetou. O
velho Záio nos deixara para ir fazer parte na Orquestra Celestial, compor maviosas
melodias para nós enquanto aqui ficamos aguardando a chamada do Pai. Cesário Mendes
de Cerqueira, músico e maestro, homem que sempre lutou pela sobrevivência da música,
jamais será esquecido. Onde quer que estejamos, é só lembrar ou ouvir uma banda que logo
nos chega a imagem do querido Cesário com todo seu entusiasmo, segurando os delicados
tons, fazendo cada um desses expressar seus sentimentos internos. Quantas marchas
fúnebres nos trarão recordações? Quantas Semanas Santas o vimos frente a frente para que
tudo saísse a contento?
E muitos instrumentos silenciaram, e muitas vozes. O velho Záio morrera deixando
D. Raimunda viúva, 10 filhos, 25 netos, 2 bisnetos. Que a lembrança dele seja sempre
revivida por nós que o amamos tanto, homem exemplar que deixou tantos amigos; às vezes
ríspido até mas o era em prol da música para alguma correção necessária. Difícil ver a
banda sem ele mas o tempo nos ajudará, não a esquecê-lo mas a acostumarmos com a sua
ausência. Que um dia possamos erguer-lhe um Memorial junto à Igreja de São Francisco

158
onde nela viveu por mais de meio século o nosso Maestro Cesário executando os mais
variados tipos de acordes. Que ele sempre permaneça em nós através de sua música pois o
HOMEM É IMORTAL QUANDO SUA OBRA PERMANECE EM NÓS.

Ita. 29/09/81 – Bmendes

SAUDADES DE MEU FILHO
Cesário Mendes Cerqueira

A cada instante que em meu lar te via,
tão manso e bom e de um olhar tão lindo,
meu coração saltava de alegria
e eu ansioso beijava-te sorrindo.

Mas durou pouco esta felicidade
pois tua vida não foi mais que um sonho,
e assim te vi partir para a eternidade
como um anjinho, pálido e tristonho!

Com que tristeza agora e com que mágoa
encontro o que foi teu e te serviu,
contemplando com os olhos rasos d’água
teu berço pequenino ora vazio...

E ao vir chorar à sepultura tua
onde perante Deus me ajoelho e humilho,
não há o que me console e diminua
a imensa dor de te perder, meu filho!...

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MINEIRO CANTOU DE GALO

(Conforme Revista Quatro Rodas nº 60 de julho/65 e outras informações pessoais)

As galinhas levaram o mineiro Antônio Cesário Mendes Rabelo, o Cesarinho de
Itapecerica, aos Estados Unidos: para se especializar em avicultura. Ao regressar teve de
“cantar de galo” tais foram as peripécias que enfrentou numa viagem de 24 mil km, desde
Connecticut até Itapecerica.

Isso porque se apaixonou pelo Cheba, um Chevrolet 51 e resolveu dele não se
separar. A viagem durou 349 dias até Corumbá, onde seu carro ficou apreendido pelas
autoridades alfandegárias (só no Brasil mesmo!) e de onde foi retirado a muito custo por
leilão, chegando finalmente ao seu destino 4 anos e 6 meses depois: 01.10.60 – 14.09.61 –
22.04.65.

A aventura deu origem a um livro inédito “Meu Chevrolet 51 – Relato de uma
aventura pelas Américas” cujas 20 cópias xérox andam de mão em mão, agradando aos
leitores curiosos que tomam conhecimento das estradas percorridas, das agruras, saudades,
falta de dinheiro, comédias e dramas que a vida nos prepara, roubo, permutas e aventuras
sem fim. Um show de coragem e valentia e o bom Cheba aos pedaços, tão dedicado a seu
dono que até parecia falar. A história chega a seu clímax na pacata Itapecerica, onde os
heróis são recebidos com banda de música, discursos e passeata. O Cheba foi cheirado,
analisado, alisado, apalpado e beijado – finalmente em sua nova casa.

Muitos jornais dos Estados Unidos, de países por onde passaram, e aqui do Brasil
também, deram as notícias do “raid” e Cesarinho ficou famoso pela façanha vitoriosa.

O Boletim Carioca nº 140/65 disse tudo: “Felicitações e parabéns, Antônio, pois um
ideal realizado é tudo na vida de um ser humano. Continue a dividir toda sua ternura com o
Cheba pois ele merece.”

“Ao mais hábil é que se deve dar o melhor instrumento”
(Aristóteles)

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Aos jovens da “AITA”
Marina Couto *

Todos nós nos lembramos com emoção das homenagens prestadas a D. Sebastião
Roque Rabelo Mendes, por ocasião de sua sagração como Bispo de Leopoldina, e ao Dr.
José Maria Borges, recentemente nomeado Secretário da Saúde, do Estado de Minas
Gerais.
Tais acontecimentos de alta expressão religiosa e cívico-social constituíram-se, sem
dúvida, em forte motivação para aqueles que vinham alimentando o grande sonho de
reerguimento do antigo “Centro Itapecericano”. A partir daí, essa aspiração tornara-se
realidade. Surgiu a “AITA” – Associação dos Amigos de Itapecerica!
Impressiona-nos, sobremodo, o arrojo de seus idealizadores. Em poucos meses
conseguiram legalizar a Entidade e empossar a Diretoria Provisória, em memorável festa
que contou com a presença de mais de duas centenas de amigos e itapecericanos, num
reencontro de amizade e de alegria!
A finalidade e os objetivos da instituição traduzem o desejo de seus membros de
cultuar seus antepassados, vivenciar princípios e valores cristãos, tradições e costumes, e de
facilitar e manter a comunicação social entre amigos e conterrâneos.
Fora da terra querida, por contingências diversas, os itapecericanos querem
acompanhar seu progresso, participar de seus anseios, de suas lutas e conquistas.
Surgem agora as indagações para que se efetivem tais propósitos: Como manter o
intercâmbio entre os associados? Como conseguir uma filiação expressiva? Como fazer a
divulgação da Entidade? Como obter recursos? Ninguém desanima, ninguém desiste,
ninguém desestimula... E por quê? Diríamos que essa corrente de amor é sustentada pela
jovialidade de seus quarenta e oito membros da diretoria. Constitui-se de jovens estudantes
ou profissionais bem sucedidos já no início de seu campo de trabalho. Não apenas de
jovens em idade, mas também de adultos jovens que se impõem pela sua vivência, pelo
equilíbrio, pela objetividade, pelo entusiasmo!
E, como “o calor da juventude” é que garante “a temperatura da terceira idade”,
sentimos que o sucesso e a manutenção da “AITA” dependerá muito da vitalidade de
nossos jovens sócios. Cabe-nos a responsabilidade de criar ali um clima moral e social que
os ajudem na busca de sua formação profissional ou de seu campo de trabalho, ou de
descoberta de novas maneiras de viver, individual e coletivamente. Nossa Instituição há de
ajudá-los também a se tornarem consciente das realidades do momento. Há de estimulá-los
à análise dos fatos, à crítica compromissada com o Bem-Comum.
Nossos jovens engrandecerão nossa Itapecerica. O Amor nos unirá e nos fortalecerá
em nossa caminhada. Que Deus nos abençoe!

* Presidente de Honra da AITA-BH
Artigo publicado no “O TAMANDUÁ” de novembro/86

163
DR. SEVERO AUGUSTO RIBEIRO
José de Carvalho Ferreira

Faleceu em Itapecerica, no último dia 7, o médico e humanista Dr. Severo Augusto
Ribeiro, aos noventa e dois anos de idade. Entre tantos vultos da mais alta importância para
a cultura e a sociedade itapecericanas. Dr. Severo teve lugar de incontestável realce, pelo
conjunto de qualidades que definiram sua personalidade marcante de homem e de médico.
Depois de cursar, no início do século, as escolas isoladas, foi ter no Caraça que
definia como “Santuário de Instrução de Minas e do Brasil”. Aluno do Pe. Cruz, famoso
professor de língua pátria, aprendeu português para sempre e, até o seu último dia, manteve
o hábito elegante de falar e escrever corretamente o seu idioma, não lhe faltando eloqüência
para tornar-se orador de fartos recursos, capaz de exprimir com precisão pensamentos
elevados que povoaram seu cérebro de homem culto, guiado por sólidos princípios éticos.
Passou pelo Ginásio São Francisco, em São João del Rei, arrostando ingentes
sacrifícios impostos pela pobreza da família, e afinal matriculou-se na Faculdade de
Medicina de Belo Horizonte, de onde se transferiu para a do Rio de Janeiro, na qual colou
grau em 1924, em solenidade que, dos seus, só contou com a presença do idolatrado irmão
Neném.
Antes de iniciar-se nos estudos, exerceu as funções de balconista e de tropeiro,
vendedor e empalhador de ovos, na quadra infantil que para tantos é feliz e descuidada.
Seu pai, Dr. Alfredo Ribeiro, era advogado provindo da tradicional Faculdade de
Direito de São Paulo e abraçou as carreiras do Ministério Público

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e da Magistratura, vindo a falecer na comarca de Alto Rio Doce, na época, quase
inacessível e onde, é claro, só se chegava a cavalo, depois de léguas e léguas de viagem. Na
vetusta Faculdade do Largo de São Francisco fora colega de João Pinheiro, que viria a ser
presidente do estado de Minas Gerais.
Com o prematuro falecimento do chefe da família, aos 46 anos, deixando a viúva e
nove filhos pequenos, adveio a pobreza de que Dr. Severo, na grandeza de suas
considerações, se orgulhava e via como obstáculo vencido.
Nasceu em Itapecerica e em Itapecerica viveu toda sua vida profícua e dadivosa. Por
duas vezes foi prefeito municipal de sua terra e incontáveis são os benefícios derramados de
suas mãos.
Bravo na defesa intransigente de seus princípios, era de amenidade sem par no trato
com os semelhantes, talvez pela experiência adquirida no exercício da medicina, nos velhos
tempos do atendimento domiciliar.
Sua inteligência era atributo que se não escondia, ainda que não se esforçasse por
demonstrá-la, principalmente quando deveria orná-la com sutilezas irônicas que nem a si
mesmo poupavam.
Quando completou noventa anos de idade, no banquete oferecido pela Associação
dos Amigos de Itapecerica, pronunciou admirável discurso no qual evidenciava a plenitude
de sua lucidez, servindo-se da ironia para revelar completo despojamento, ao fim de tão
longa vida.
No início da carreira, foi o típico “médico da roça” “le medecin de campagne”,
caracterizado por Balzac, e oi tristemente desaparecido médico de família.
Os hospitais eram precários e os pacientes não estavam habituados a freqüentar
consultórios: o atendimento era domiciliar, na cidade ou na zona rural. E como se
orgulhava das longas viagens a cavalo, enfrentando intempéries, atravessando córregos que
na invernia se transformavam em caudais, em noites escuras ou poeticamente enluaradas,
envolvido na sua “capa ideal”, quase sempre acompanhado por um secretário que, mesmo
despreparado, tanta vez se transfigurava em enfermeiro!
Ao completar oitenta anos, deixou o exercício da medicina por entender que a
ciência e arte a que se dedicara evoluíram muito e seus jovens colegas eram mais capazes.
Foi a alma da edificação da atual Santa Casa de Misericórdia e Maternidade
Santana, construída com a ajuda de todos os seus co-munícipes, mas indispensável em tais
empreendimentos que resultam de uma força impulsionadora de cunho nitidamente
idealista. Viu-a inaugurada em outubro de 1959, com a presença do Governador Bias
Fortes, mas, em abril de 1965, fez com que se retomassem as obras para ampliação e
definitiva conclusão. Exibia, com emocionante contentamento, uma fotografia de si mesmo
e do sobrinho, Dr. José Alfredo, em trabalho de cirurgia no Hospital.
O apuro no vestir-se era complemento de suas boas maneiras.
Em decorrência de discreta hemiplegia facial, dizia-se portador de um ricto
diabólico. Não era: apenas uma característica muito pessoal, como reflexo de um elevado e
cultivado hábito ao longo do tempo.
A radicalização da política partidária em Itapecerica chegou, em dilatado período,
ao extremo entre “tarecos” e “papiatas”. Dr. Severo integrava as hostes dos primeiros,
como combatente intimorato e, ao perceber que tal posição poderia dificultar o seu grande
sonho de ver construído o Hospital, entregou a tarefa à neutralidade do então vigário de
Itapecerica, Pe. José Medeiros Leite que seria, depois, o primeiro bispo diocesano de
Oliveira.

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A paisagem sócio-cultural da velha e centenária Itapecerica, antiga Tamanduá, sofre
grande mutilação com a morte de Severo Augusto Ribeiro indispensável à sua inteireza.

Setembro/1990

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DISCURSO

Senhor Prefeito,
Senhor Presidente da Câmara de Vereadores,
Senhores Vereadores,
Autoridades,
Senhoras e Senhores.

Meus conterrâneos.

Quiseram os fados, que ao completar os meus oitenta e oito anos de existência, eu
aqui estivesse, no torrão natal e cercado de simpatia e calor da amizade de todos os
presentes, na oportunidade desta reunião festiva.

Aqui nasci. Aqui me criei e me casei. Aqui constituí família. Aqui travei a boa
batalha, como o diz São Paulo.

Em uma das fases dessa batalha, me foi dada a oportunidade de servir, por duas
vezes, à comunidade itapecericana, quando, por circunstâncias políticas das épocas, tive
que assumir a Prefeitura Municipal.

Quiseram os fados, inda uma vez, que a bondade dos Amigos lembrasse minhas
passagens por esta Casa, fazendo inscrever na memória histórica do município, com esta
homenagem tão comovente, os fatos que vão longe na memória do tempo...

Sou grato a todos e estou profundamente agradecido pela delicadeza da lembrança
e, se me permitem, faço destacar a iniciativa tomada pelo ilustre Vereador Dr. Levy
Malaquias Beirigo, assessorado por esta memória viva das coisas de Itapecerica que é seu
mano Ozires.

A todos conterrâneos presentes, o meu reconhecimento, meus agradecimentos e
minhas homenagens.

MUITO OBRIGADO A TODOS.

Severo Augusto Ribeiro

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OZIRES FRANCISCO MALAQUIAS, O MAJOR ZIRICO

Há pessoas que passam pela vida, marcando-a com o fulgor de seus valores, legando
exemplos de virtude e honradez a seus pares e a seus pósteros.
Major Zirico celebrou sua vida benemérita e perlustrou a história de Itapecerica,
como um dos mais honrados cidadãos da Terra.
Ozires é o seu nome de batismo e, mitologicamente, nos lembra o deus Sol, dos
antigos egípcios. Lá na terra dos faraós. Ozires comunicava forças estranhas a todos que lhe
rendiam culto e adoração.
Aqui, em Itapecerica, Ozires foi o benfeitor que acudia necessitados e indigentes.
Francisco completava também seu nome. Lembra-nos o “poverelo de Assis”, o
cantor do Irmão Sol e da “Dama Pobreza”. Aqui ele foi a luz que o inspirou a servir o
próximo.
Malaquias, seu sobrenome, lembra o do Profeta de Deus, que proclamou o amor e a
justiça e fez do Major, o servidor de sua gente.
Inspirado, pois, no seu próprio nome, nosso ilustre biografado, assumiu a prioridade
do Cristo, que veio à terra proclamar e viver a justiça e a fraternidade, acolhendo humildes
e necessitados.
Cento e dezoito anos são passados do nascimento do Major Zirico, ocorrido a 14 de
maio de 1868. Era filho de Francisco Antônio Malaquias Bolívar e Maria Magdalena Dias
Malaquias. Deixou uma numerosa prole, digna e simpática: o Zé do Zirico, viúvo de D.
Joaninha, já falecidos; Osires Malaquias Júnior, o Ziriquinho, residente em Belo Horizonte,
viúvo de Dona Margarida Mosqueira Malaquias; Maria Madalena Malaquias Beirigo,
casada com Francisco Gonçalves Beirigo, já falecidos; Maria Anunciação Malaquias
Couto, viúva do Sr. Elpídio Cordeiro do Couto; Bento Bolívar Malaquias, engenheiro
agrônomo, viúvo de D. Aracy Ribeiro Malaquias; Marina Carolina Malaquias Mendes,
viúva do fazendeiro Luizinho Mendes, e Maria das Dores, a “Primeira”, filha adotiva, todos
os integrantes da elite itapecericana.
O Major Zirico era exigente e bom, enérgico e compreensivo. Ajudou todos os
filhos a se tornarem independentes. Consumado conselheiro e prudente orientador, levava a
todos sua palavra clarividente e paternal, dando-lhes algo de si mesmo.
“Seo” Zirico nasceu, na casa de José Leopoldo Corrêa, lá no “Largo do Bisaico”,
conservada até hoje, com as mesmas características bisseculares.
Depois, foi viver toda a sua vida de merecimentos no sacarão do Largo que tinha o
seu nome.
Ainda permanece o solar vetusto, à semelhança da “Casa Grande” ou “Sede da
Fazenda” dos tempos coloniais e do Império. Continuará como lembrança de um tempo
feliz e bonançoso, enquanto o homem, sob o signo do progresso, não venha destruí-lo, na
ânsia de modernizar tudo.
Lamentavelmente, porém já demoliram a espaçosa escadaria, que imprimia ao
majestoso logradouro um quê de nobre e solene.
Aquele conjunto harmonioso – casarão e escadaria – sempre foram o epônimo dos
campos, para os itapecericanos, na evocação do poeta. Hoje, porém, está bem desfigurado o
primitivo cenário.
Gigantesca e frondosa magnólia enfeitava e sombreava o patamar da vivenda, em

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cujo tronco, fazendeiros, roceiros e agregados amarravam seus animais, aos domingos e fim
de semana, enquanto assistiam à missa ou procuravam os amigos e faziam outras compras.
Do mesmo lado do casarão, subindo mais o largo, amplo curral murado para compor
o logradouro, dentro do qual se desenvolvia a faina de uma fazenda em pleno coração da
cidade.
É aqui que o gado trazido das Quatro Bicas, Areão e Brucutu, em ordenha, fornecia
o leite gordo tirado até por D. Dada, sua esposa.
- Major Zirico, o comerciante estabelecido na sua própria e espaçosa residência.
Dispunha a sua loja de variadíssimo estoque, porque ele atendia uma enorme gama
de fregueses.
Lá se encontravam armarinhos, secos e molhados, tecidos e apetrechos para a
lavoura, ferraduras e celas para animais, leite gordo e apreciados queijos, toucinho e sal,
açúcar e quitandas, rapaduras e querosene, vinhos importados e nacionais, excelente
cachaça e outras mercadorias.
Comumente sempre estava na “venda”, assentado numa cadeira, rente ao balcão,
para falar com os amigos que chegavam e supervisionar o movimento da loja.
O Major providenciava, com espírito cristão, o sepultamento dos roceiros, cujas
famílias não queriam o velório na Santa Casa. Cuidava também da alimentação dos que
acompanhavam o finado.
- Seu perfil físico era inconfundível: Alto, magro, sorriso discreto e amável. Usava
óculos de aro dourado, com lentes bifocais alongadas, bigode e barba aparados, cavanhaque
à “la baron”, afável e amigo de todos. Trajava sempre roupas escuras e bem cuidadas,
sobretudo de cassemira grossa, debruado de veludo preto na lapela. No bolso do colete
trazia um “omega”, preso à corrente, com um medalhão de São Geraldo.
- Major Zirico, o amigo abnegado e protetor dos pobres.
Suas portas estavam sempre abertas para acolher os pobres, principalmente aos
sábados, conforme costume da época. Distribuía-lhes os “quarenta réus” muito valorizados,
“in illo tempore”, dando-lhes, também, outros agrados com que minorar-lhes as
necessidades.
Construiu muitas casas para os indigentes, velhos e inválidos, na antiga Rua dos
Coqueiros e outros recantos da “pulcherrima urbs”.
- Major Zirico, o cristão fervoroso e praticante. Rezava em casa com a família, na
Igreja e também com os humildes e doentes.
Vivia, antes de tudo, valores do Evangelho. Todas as noites, ele reunia em casa os
filhos e netos e outros familiares para a oração do terço.
No dia 3 de maio, festa de Santa Cruz, celebrava o terço com muita pompa, com
mais pessoas e muita piedade de sempre.
Foi um verdadeiro vicentino preocupado com os pobres.
Membro da Conferência de São Bento, a mais antiga; Irmão do S.S. Sacramento;
Irmão da Ordem Terceira de São Francisco; Presidente da Liga Operária Católica.
- Integrou a Comissão de Construção da Matriz, muito generoso para ajudar a
custear as obras, com seus próprios recursos.
Dourou às expensas, o altar-mór de S. Bento e o altar de N. Senhora do Rosário, na
sua própria Igreja, pelos idos de 1909 ou 1910, quando sua filha Maria da Anunciação fora
“Rainha do Rosário”.
Era o “festeiro perpétuo” e fazia-se presente em todos os novenários e rezava com
edificante piedade. Anualmente, assumia as despesas decorrentes do evento, sem alarido e

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com muita humildade.
Após as memoráveis novenas solenes e procissões do Orago da Cidade, era
festivamente conduzido pelo povo e pela Banda Santa Cecília, até sua residência, onde
recebia a todos com indizível alegria e cavalheirismo. Nunca se mostrava envaidecido pela
homenagem, mas com simplicidade, retirava-se discretamente para os seus aposentos,
deixando que seus familiares se encarregassem da recepção.
- Nas festas anuais do Reinado, seu casarão se transformava numa espécie de Paço
Real, de onde o “Rei”, a “Rainha”, as “Princesas”, “Corte” e “Povo” saíam festivamente
para os rituais solenes, ao toque de dobrados e marchas festivas.
O magnânimo José Pedro Bandeira, seu estimado amigo, quando “Imperador do
Divino” saía também desse Solar, acompanhado do povo, para as Festas de Pentecostes que
marcavam época nos Anais da Cidade.
- Major Zirico, o Provedor da Santa Casa.
Por longos anos revelou-se desprendido e esforçado, o Apóstolo do Bem.
Assumiu a Provedoria do nosocômio, por muitas gestões e, numa delas, em
circunstâncias tão difíceis e dramáticas, que ninguém mais duvidava da precariedade da
situação. Firme e corajoso, conseguiu que o Hospital continuasse atendendo e abrigando
nossos irmãos doentes e necessitados.
Entregava-se aos pesados encargos e jamais faltava com sua presença confortadora,
moral, espiritual e religiosa aos facultativos, funcionários e doentes internos. Aos
indigentes, dava diretamente sua ajuda financeira.
Foi tão generoso e desprendido que doou à Santa Casa belíssimo Carrilhão, não só
para compor a sala de visitas, mas para marcar com muito amor, as badaladas da Caridade.
Sempre provia a dispensa e cozinha, quando dificílima a manutenção.
Foi exemplo e estímulo de bondade para os Servidores da Casa: Chico Alves e D.
Rosa, os enfermeiros de todas as horas. Sabia ser dócil com os faxineiros e os de serviços
domésticos. Todas as manhãs ia verificar o movimento geral do Hospital e voltava à tarde
para a recitação do terço, hora do conforto espiritual.
- Major Zirico, o Político, homem sem vaidade e radicalismo.
Vereador por várias legislaturas. Membro ativo da egrégia Edilidade, Juiz de Paz
por muitas vezes, comprovando em todas as funções inteligência, lisura e descortínio.
Convidado pelo seu adversário político, o ilustre Dr. Gabriel de Resende Passos,
para assumir a liderança da política municipal, declinou dessa honra para ser coerente e fiel
aos seus velhos amigos.
Morreu o Major Zirico a 15 de dezembro de 1939, aos 71 anos, como o modelo do
“pater famíliae”.
Foi padrão de dignidade, honra, respeito e autoridade. Enalteceu sua terra pela sua
trajetória humana.
Pedimos-te, por isso, ó Vô Iço, nesta singela homenagem:
- Abençoa teus filhos, netos, bisnetos, parentes, amigos e conterrâneos e a Terra que
tanto amaste!
- Faze eclodir, na terra itapecericana, homens de tua têmpera, dignidade e fortaleza
de espírito!
Fraternal admiração!
Pelos itapecericanos

Jair Moreira – outubro de 1986

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Rousseau ensina “que se deve conduzir as crianças à virtude pela estrada do sentimento
e da educação”. Só assim teremos uma nação mais forte e feliz.
AILC

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