labrys,estudos feministas número 3, janeiro/ julho 2003

Os feminismos no Brasil: dos “anos de chumbo” à era global Margareth Rago
Resumo: Este texto analisa a crescente participação das mulheres em todas as esferas de atividade na sociedade brasileira, observando a atuação dos movimentos feministas/de mulheres para a conquista destes espaços, território que tende a ser esquecido ou minimizado.Um histórico dos movimentos feministas no Brasil , que promovem mudanças significativas nas relações feminino/masculino e na própria expressão da sexualidade é assim traçado. Dos anos da ditadura militar a nossos dias, as diversas expressões dos movimentos feministas brasileiros são assim apontadas. Palavras-chave: movimentos feministas, sexualidade, sexismo, histórico.

Um rápido olhar sobre as ruas e praças das cidades brasileiras logo destaca a crescente e colorida presença das mulheres, marcando fortemente uma diferença em relação ao passado. Os espaços públicos se tornam menos constrangedores, percebe a observadora recém-chegada, concluindo que houve uma grande mudança nos hábitos e costumes da população. Progressivamente também nota que nos postos de gasolina, nos restaurantes e bares, nas lojas, bancos, empresas, nas escolas e universidades, ou nas delegacias, seu número aumentou consideravelmente, mesmo que, muitas vezes, não nos postos de comando. Ainda assim, uma mulher é a atual prefeita da maior cidade do país e as negras começam a compor o ministério do governo de esquerda. É bem possível que se a observadora fizer entrevistas com muitas dessas mulheres, especialmente com as mais jovens, concluirá que não se consideram feministas e que nem mesmo conhecem a história do feminismo no Brasil, afinal este não é um país onde o sentido histórico seja predominante. De qualquer modo, esse desconhecimento não deve levá-la a concluir que o movimento feminista não tenha tido um forte impacto sobre as estruturas socioeconômicas, sobre as instituições políticas e principalmente sobre o modo de pensar, no país e que não esteja em plena ebulição ganhando cada vez maior número de adeptas, militantes e associadas. Aliás, tentando satisfazer à sua possível curiosidade, apresso-me a dar algumas pinceladas sobre a história do movimento feminista brasileiro das últimas décadas.

A classe média urbana. à alimentação macrobiótica e naturalista. e colocando em cena as novas exigências e críticas das mulheres negras. assistimos à emergência de um expressivo movimento feminista. paradoxalmente. as mulheres entraram maciçamente no mercado de trabalho e voltaram a proclamar o direito à cidadania. ou mesmo comprometidos com a ditadura militar. recorriam à yoga. por sua vez. das demandas dos feminismos “brancos”. que impediam sua . desfazendo os antigos espaços de sociabilidade e interação social. defendendo o “black is beautiful”. assistia-se à emergência de novas formas de produção cultural. quanto entre os mais indiferentes. emergiu o “feminismo organizado”.Quarenta anos depois da conquista do direito feminino de voto no Brasil. 1994) Nesse contexto de crise e de construção de novos modelos de subjetividade. em especial. Chico Buarque de Holanda. Multiplicavam-se os espaços culturais e desportivos. aos tratamentos psicológicos e psiquiátricos. a exemplo das composições musicais de Geraldo Vandré. questionador não só da opressão machista. em 1932. estendeu seus questionamentos à sociedade burguesa mais ampla. a “revolução cultural” em curso nas décadas de sessenta e setenta. inspirados pelos orientalismos. passou a solicitar e desfrutar das inúmeras formas de tratamento psicológico. no país. entre os anos trinta e sessenta. diferenciando-se. a quebra dos antigos modos de sociabilidade e a destruição da esfera pública e das antigas formas de convívio e solidariedade. denunciando as múltiplas formas da dominação patriarcal. invadindo os espaços públicos das universidades às praças. 1986) Em luta contra a ditadura militar. desde os anos setenta. O movimento negro fortaleceu-se. que afetava radicalmente a vida pública. e se manifestaram em movimentos políticos reivindicando o “direito à diferença” e questionando radicalmente os padrões dominantes da masculinidade e da feminilidade. a exemplo do movimento hippie. que se expressou na crítica política ao regime. A contrapartida à violenta ditadura militar foi a explosão de uma vigorosa cultura da resistência. na maioria intelectualizadas.(Goldberg. que buscavam novas formas de expressão da individualidade. tanto dos que pregavam o “culto californiano do corpo”. quanto dos que criticavam as formas sociais aburguesadas e que. Inicialmente dirigida ao regime militar. mas dos códigos da sexualidade feminina e dos modelos de comportamento impostos pela sociedade de consumo. assim como na proposta de modos alternativos e libertários de vida em sociedade. Caetano Veloso e Gilberto Gil. no mesmo momento em que se vivia aqui uma violenta repressão política e cultural. aos relaxamentos terapêuticos. ao viver de maneira brutal a ruptura de antigos padrões de relações familiares. cerceando a palavra e a ação. tanto nos setores ligados às lutas da resistência. mas também da vitória dos padrões normativos da ideologia da domesticidade. ao lado de outras “minorias” sociais. Assim. encontrando várias correntes do pensamento internacional envolvidas com a crítica à modernidade. como movimentos de mulheres das camadas médias. Também homossexuais masculinos e femininos se organizaram. promovido pela ditadura militar e conhecido como “milagre econômico”. No contexto de um processo de modernização acelerado. em que se desestabilizavam os vínculos tradicionais estabelecidos entre indivíduos e grupos e a estrutura da familiar nuclear. defrontavam-se com o poder masculino dentro das organizações de esquerda.(Figueiredo. Milton Nascimento.

e não precisamente a “guerra entre os sexos”. nos inícios do século 20. inicialmente destinada a pensar a luta entre as classes sociais. entenderam que o movimento pelos direitos das mulheres. Mais do que nunca. como as revistas NOVA e MAIS. as primeiras organizadoras dos grupos e jornais feministas. definiram que o alvo maior de sua preocupação deveria ser as trabalhadoras.participação em condições de igualdade com os homens nos movimentos então construídos. Esta postura obedecia a algumas estratégias políticas: de um lado. das prisões. do grupo homônimo de Londrina. que se estabeleciam no interior dos grupos políticos de esquerda e lutavam para impedir que a dominação machista fosse diluída ou subsumida pelo discurso tradicional da Revolução. conseguir a aliança dos demais setores da esquerda. envolvidos na . desde meados dos anos setenta. inspiradas nos padrões jornalísticos norte-americanos. Assim. como o sexo e o orgasmo da mulher. de sindicatos e partidos de esquerda.(Alvarez. 1988) Marcadas por uma experiência política de oposição. ou então. no Brasil. Acima de tudo. da Editora Abril Cultural. deveria ser diferenciado e não subordinado às lutas que despontavam em múltiplos espaços sociais e políticos pela redemocratização no país. embora construída nos marcos de um pensamento contestador.1980) . surgiam outras revistas destinadas ao público feminino mais amplo. mas também influenciadas por ele.(Moraes e Sarti. que propunham novas linguagens em relação ao corpo e à sexualidade das mulheres e uma reflexão que. Fora do feminismo. iniciaram um movimento de recusa radical dos padrões sexuais e do modelo de feminilidade que suas antecessoras haviam ajudado a fundar. publicado entre 1976-1978 – visavam conscientizar as trabalhadoras pobres. consideradas não como o setor mais oprimido socialmente. em meados daquela década. muitas traziam uma referência ideológica marxista. Os dois principais jornais feministas fundados no período – o BRASIL MULHER. obter o reconhecimento social de um movimento que colocava as mulheres como alvo principal. no público ou no privado. MULHERES. avançaram a discussão de assuntos considerados tabus. que circulou entre 1975-1980 e o NÓS. Assim. as primeiras feministas brasileiras questionavam radicalmente as relações de poder entre os gêneros. a partir da qual pensavam as relações entre os sexos. da Associação de Mulheres de São Paulo. as feministas colocaram em questão o conceito de mulher que a afirmava enquanto sombra do homem e que lhe dava o direito à existência apenas como auxiliar do crescimento masculino. já que muitas eram ex-ativistas políticas e vinham do exílio forçado no exterior. de outro. logo que estabeleceram as estratégias e táticas de seu movimento. mas como as principais portadoras da Revolução Social. as feministas propuseram-se. a denunciar a dominação sexista existente inclusive no interior dos grupos políticos. iniciando-as numa linguagem marxista. como o movimento das mulheres que se organizava na periferia das principais cidades mas que não incluía em sua agenda as bandeiras do feminismo -.o feminismo rebelde Paralelamente aos movimentos sociais que se levantavam contra a ditadura militar. No entanto.

nesse contexto. mas procurando provar como. no Rio de Janeiro. a Associação de Mulheres. as feministas esforçaram-se para dar legitimidade às suas reivindicações. necessária para orientar as trabalhadoras em sua “missão histórica”. no Recife. segundo a perspectiva marxista-leninista. O feminismo. . portanto. de São Paulo. o SOS Corpo. uma estratégia de reconhecimento político e social fundamental num momento em que as barreiras para a entrada das mulheres no mundo da política eram pesadas demais. o Grupo “Sexo Finalmente Explícito”. como o Centro Brasileiro da Mulher. parafraseando o que a esquerda repetia em relação às suas tarefas para com o proletariado. o Coletivo Feminista do Rio de Janeiro. Em suma. que denuncia a opressão da mulher brasileira e luta por uma sociedade livre e democrática. entre outros. as feministas buscavam criar uma linguagem própria. mais ou menos próximos do campo marxista e dos grupos políticos de esquerda. futuramente denominada “Sexualidade e Política”. com os outros movimentos de luta pela redemocratização no país e. Acreditamos que a liderança da luta feminista cabe às mulheres das classes trabalhadoras que não só são oprimidas enquanto sexo. SOS Violência de São Paulo. Era. de esquerda ou de direita. Assim como outros grupos denominados de “minorias”. As feministas se colocavam. mas também exploradas enquanto classe. o SOS Campinas. ao mesmo tempo que abertos para os novos horizontes teóricos e políticos que se abriam no país. o Brasília Mulher. assim. dominando não apenas os conceitos marxistas. era fundamental para se conseguir a aceitação na esfera pública masculina. Além do mais. falando a linguagem marxista-masculina. como vanguarda revolucionária do movimento das mulheres. o Brasil Mulher. Desta experiência. onde os homens davam as cartas e enunciavam um discurso político bastante característico. nesse momento. que progressivamente se reconstituía.” A idéia de que o conceito de classe deveria ser priorizado em relação ao de sexo revelava. seja as criadas pela própria dominação masculina. deste modo. nasceram inúmeros grupos feministas. Na segunda metade da década de setenta e inícios de oitenta. para valorizar suas lutas e apresentarem-se como um grupo político importante e digno de confiança. o Maria Mulher. Articulavam-se para fora. que a apropriação da linguagem masculina. propunha: “ Que as coisas fiquem claras: mantemos a firme convicção de que existe um espaço para a imprensa feminista. o marxismo ainda era considerado o principal instrumento teórico de análise no campo da política revolucionária. seja as impostas pela ditadura militar. eram legitimadas. o editorial de NÓS MULHERES. marxista ou liberal. publicado a 7 de março de 1978. portanto. o Coletivo Feminista de Campinas. era possível também perceber a dimensão feminina. o Centro de Informação da Mulher – CIM.luta pela redemocratização. surgiram inúmeras associações feministas no país. de São Paulo. em cada uma das questões levantadas pelos líderes e partidos políticos. sobretudo com os “novos” movimentos sociais. procurou pautar-se pela linguagem predominante na esquerda do país. capaz de orientar seus rumos na construção da identidade das mulheres como novos atores políticos. em João Pessoa. Por isso. deste modo.

tanto na prática cotidiana dos grupos feministas. As questões do mundo privado. suficientemente inovadora em suas problematizações e conceitualizações. não mais de recusar o universo feminino. ou à moda e. com feministas das novas gerações que defendiam prioritariamente as “políticas do corpo” e as questões da sexualidade. a partir da utilização de uma linguagem diferenciada. Nesse momento de crítica acentuada à racionalidade ocidental masculina. é que as feministas passaram a propor uma nova concepção da política. passaram a pensar em si mesmas sob uma ótica própria. mas que também se colocava na luta pela redemocratização do país. já não mais definida apenas como burguesa. as feministas passavam a feminizar-se valorizando a linguagem feminina. A ampla crítica cultural feminista não deixou de lado as próprias representações do feminismo. 1998) Por vários lados.a “explosão desconstrutivista” nos anos 80 Somente depois desse primeiro momento de afirmação do feminismo enquanto movimento social e político que lutava pelos direitos das mulheres. o que significava mais do que um simples retorno aos seus valores próprios. Mais do que nunca. o que inevitavelmente levou a uma radicalização da potencialidade transformadora da cultura feminista em contato com o mundo masculino. da sexualidade. da família. Tratava-se. podemos dizer. das linguagens corporais ganharam visibilidade e dizibilidade. a exemplo do conceito de “desconstrução” de Derrida. partiu-se para a afirmação do universo cultural feminino. os atributos e os temas femininos. questões antes secundarizadas como essencialmente femininas e relativas à esfera privada.Todos eles mesclavam ex-militantes partidárias. no campo conceitual que vinha sendo proposto pelas correntes do pensamento pós-moderno. então.Partido dos Trabalhadores. que além do mais. isto é. . especialmente a partir da . por sua vez. da subjetividade. como o PT . marxistas e ex-marxistas. para apreender as diferenças. Estes foram buscados. dando visibilidade ao que antes fora escondido e recusado. veiculadas na imprensa alternativa de esquerda. um alargamento do campo conceitual. Isto implicava. ou das noções de “poder disciplinar” e de “subjetivação”. estes grupos buscavam total autonomia em relação aos partidos políticos de esquerda. A despeito das tendências políticas diferenciadas. trabalhadas por Foucault. não pertencentes ao campo masculino da política – a exemplo das relativas ao corpo. revelando suas armadilhas e limitações. embora muitas ativistas fossem também militantes partidárias. o que se traduziu ainda por forçar um alargamento e uma democratização desse mesmo espaço. O distanciamento do discurso marxista-masculino. à sexualidade e à saúde – foram politizadas e levadas à esfera pública. tomando de empréstimo alguns termos de Deleuze. ao desejo. no campo conceitual. que acabava de ser fundado. permitia enunciá-las. a procura de novos conceitos capazes de enunciá-los e interpretá-los. facilitou a incorporação de temas tabus como os referentes às emoções. em todas as dimensões possíveis. sobretudo. mas de incorporá-lo renovadamente na esfera pública. a emergência de uma linguagem especificamente feminina e daquilo que se considera como uma “epistemologia feminista”. através do qual teciam suas críticas à sociedade patriarcal capitalista. Assim.(Rago. por conseguinte . quanto nos debates acadêmicos e nas reuniões dos militantes. ampliando os próprios temas que constituíam o campo das enunciações feministas na esfera pública.

as mulheres precisavam consumir muito mais. por sua vez. associado a histerismo. p. por exemplo. janfev. além dos contornos de sua musculatura. gritaria. E’ o que somos.) Mulherio. espelho meu”. quanto às próprias feministas que reforçavam uma imagem negativa de si mesmas. é o fim da culpa e do medo que sentimos pela nossa sensualidade natural. em conjunto. De uma maneira séria e conseqüente. “gostosura”. desinibido em seu jeito próprio de ser. no interior de um sistema de referências ditadas pelo mundo masculino. entre 1981 e 1988.5. O próprio jornal. a ternura e a autoconfiança que nos tornarão belas. sisuda ou dogmática.publicação do jornal MULHERIO. endereçando suas críticas tanto aos “rapazes” do jornal O Pasquim.” (KHEL. num sugestivo e inteligente artigo perguntava-se “Feminista é Mulher?”. desejos e odores. Enfim. magro. Assim. no. contudo. explicava seu título. é a liberdade. em edição de março-abril de 1981. a estética.14-15). é a conquista do direito e da coragem a uma vida afetiva mais satisfatória. perguntava-se por que lutar pela autonomia feminina implicava numa dessexualização e num certo embrutecimento da mulher. a saúde e a beleza do corpo passavam a fazer parte do leque temático sem. nada mais é do que “as mulheres”. significar uma adesão acrítica aos ideais de beleza veiculados pela mídia. Propunha radicalmente “a subversão de nossos conceitos estéticos”: “A maior beleza é a do corpo livre. E’ a livre expressão de nossos humores. ano 2. os cuidados de si. fofocagem. nós vamos nos assumir como Mulherio e. aceito apenas enquanto expressão de um determinado padrão estético: < “Se os homens afirmam que vêm na mulher antes de mais nada belos contornos. nesse novo feminismo. vista agora numa perspectiva ampliada. É essa a beleza fundamental. A psicanalista feminista reforçava sua crítica observando como para ser ao mesmo tempo “moderna e atraente dentro dos padrões da boneca de luxo de antigamente”. Quase sempre a palavra é empregada em sentido pejorativo. afirmando: “Por que Mulherio? Mulherio. cheiroso e rígido. “Espelho. A antropóloga Eliane Robert Moraes. Estou convencida de que nosso olhar sabe encontrar no homem sinais do que ele é. Mulherio.. gracioso porque todo ser vivo é gracioso quando não vive oprimido e com medo. considero isso como um empobrecimento de sua capacidade de olhar e ver.1982. ou então. passavam a compor as discussões relativas à saúde. para as quais as feministas só poderiam ser mulheres feias e mal-amadas. de Sivia Beck). “Sim. limpo. Muito ao contrário. Mas qual é a palavra relacionada à mulher que não tem essa conotação? (. a beleza e a força que significam as mulheres reunidas para expor e debater seus problemas. em que o corpo feminino deveria ser ágil.” (idem) . é o que este jornal será. vários artigos discutiam que tipo de beleza as feministas desejavam (“A beleza produzida”. pretendemos recuperar a dignidade. Maria Rita. enquanto a psicanalista Maria Rita Kehl questionava a aceitação/negação machista do corpo feminino.” Enfim. mas não malhumorada.. chatice.

Esse movimento. ameaçados de ser absorvidos pelo Estado “pós-autoritário”. Para as feministas. ao corpo e à saúde. como as referentes à moral sexual. ainda. Surgiram inúmeras ONGS feministas. o feminismo também se caracterizou por iniciar um diálogo com o Estado. com a criação do Conselho Estadual da Condição Feminina. à decisão de abrir os guetos feministas e encontrar os inúmeros canais disponíveis e outros movimentos que ocorriam na sociedade. temas bastante pertinentes nos meios pobres e ricos. por transportes urbanos. sobretudo a partir de 1982. espaços de diferentes entidades da sociedade civil e. partidos. porque passavam a atingir uma rede muito mais ampla de mulheres. no “movimento de mulheres”. o Geledés – Instituto da Mulher Negra e o Criola. As feministas ampliaram seu raio de atuação.Rede de Desenvolvimento Humano.Sempre Viva Organização Feminista e a União das Mulheres. porque lhes traziam questões que dificilmente seriam enunciadas espontaneamente. Além disso. . não levantava questões feministas como bandeira de luta. e como parte de seu próprio processo de abertura aos diferentes canais de participação social e política. ao longo dessas décadas.Centro Feminista de Estudos e Assessoria. como em São Paulo. dando destaque às questões da violência contra as mulheres e dos direitos reprodutivos. Assim. serem incluídas questões femininas importantes. o CFEMEA . como o aborto e a violência sexual contra as mulheres. embora mobilizasse um número excepcionalmente grande de mulheres. as mulheres têm reivindicado cada vez mais seus direitos de cidadania e aberto novas formas e espaços de luta. Vale lembrar que. que se articulara. são enormes as conquistas realizadas pelos feminismos em todos os campos da vida social. Fundamental nessa associação. como o Coletivo das Mulheres Negras da Baixada Santista. Lutava por creches. na periferia de algumas cidades. Para muitas. o contato que se estabeleceu entre os dois movimentos liderados pelas mulheres – o movimento feminista e o movimento de mulheres – foi certamente muito lucrativo para todas. sobretudo. que defendem a causa das mulheres negras. Em 1985. questões de gênero Sem dúvida. se de um lado foram implementados determinados programas de ação como o PAISM – Plano de Assistência Integral à Saúde da Mulher – em 1984. para as mulheres pobres da periferia. várias feministas apontaram para as dificuldades de implementação efetiva do programa. em São Paulo. o feminismo desenvolveu e ampliou suas bandeiras de luta. especialmente no que se refere à aceitação das mulheres no mercado de trabalho e ao seu reconhecimento profissional. apoiado pela Igreja de esquerda e pelos grupos políticos envolvidos na luta pela redemocratização. o SOF. desde os anos setenta. entrando nos sindicatos. enquanto outras julgaram os benefícios que daí poderiam resultar. Assim. nesse período. surge a primeira Delegacia Especializada da Mulher. mas ainda machista. contudo. de outro. que não contava com o apoio necessário do Estado. por melhores condições de vida sem. a partir das propostas feministas de cuidados com o corpo e a saúde. Cresceram e têm crescido os grupos feministas.O repensar das práticas feministas levou. das quais se destacam a REDEH . isto significou um enorme perigo de institucionalização dos movimentos feministas.

conceituais. Alfred (org) – DEMOCRATIZANDO O BRASIL. é a dupla jornada do trabalho e o acirramento da competição no mundo masculino. revelando uma criatividade e uma potencialidade indiscutíveis. como continuam a denunciar as feministas. como a Revista de Estudos Feministas. entre outras. sociais e sexuais. aliás.em São Paulo. atualmente vinculada à Universidade Federal de Santa Catarina e os Cadernos Pagu. com suas problematizações diferenciadas. num campo em constante mutação. se considerarmos que a exigência da qualidade do trabalho feminino ainda é muito maior do que a que se dá em relação aos homens. políticas. Finalmente. se acentua nos novos fronts: o profissional e o afetivo. e a despeito do pessimismo suscitado pelo conservadorismo de nossos tempos. especialmente para as casadas ou com filhos. As duas questões não podem ser dissociadas. tem contribuído enormemente para a crítica cultural contemporânea. Sonia . as mulheres se afirmam no mundo público. há que se destacar a enorme contribuição feminista à ciência. . Para além da desconstrução de configurações ideológicas. “Politizando as relações de gênero. Inúmeros núcleos de pesquisas sobre as mulheres e as relações de gênero têm impulsionado pesquisas não só sobre as questões femininas. Na verdade. Referências bibliográficas Feminismo e Gênero Alvarez. Uma das principais queixas das “novas mulheres”. percebendo que a “mulher pública” no Brasil do século 21 deixou de referir-se à prostituta. A observadora já pode se retirar. introduzindo as discussões não apenas relativas às mulheres. aliás. Ao contrário. sociais e sexuais que organizam nosso mundo. Princeton University Press. feminizando indubitavelmente a cultura ocidental. 1990. Por outro lado. em geral.Engendering Democracy in Brazil. seja enquanto modo de pensamento. não há como negar o fato de que todas as conquistas arduamente ganhas ao longo dessas últimas décadas pelos feminismos não estão consolidadas. nas universidades brasileiras. mas ampliadas às questões do gênero. transformando radicalmente o modo de pensamento.. Rio de Janeiro: Paz e Terra. propuseram formas alternativas de organização social e sexual fundamentais para a construção de relações mais igualitárias não apenas entre os gêneros. da qual atualmente quase ninguém mais se lembra. engendrando a democracia”. 1988. mas direcionadas também para os estudos da masculinidade. A guerra entre os sexos não terminou e. e mais do que isso.in STEPAN. os feminismos deram visibilidade às formas perversas da exclusão que operam no mundo público. Enfim. Ao mesmo tempo. a libertação feminina acarretou um aumento muito grande do trabalho feminino. os feminismos. são continuamente ameaçadas por pressões machistas as mais conservadoras. As mulheres ainda pagam um alto preço por participarem da vida pública. seja enquanto conjunto de práticas políticas. resultam algumas importantes publicações. Deste trabalho.. na Universidade Estadual de Campinas. associação. já que se trata fundamentalmente da construção de um novo conceito de cidadania. Contudo.

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É coordenadora do Grupo de Estudos Foucaultianos e da Linha de Pesquisa História. Paz e Terra.Publicou vários livros: O que é Taylorismo? . Do Cabaré ao Lar.Brasiliense.Prostituição e Códigos da Sexualidade Feminina em São Paulo. Foi professora-visitante no Departamento de História do Connecticut College. 2001 .Unicamp. Repensar a História.2000 e Entre a História e a Liberdade.1985. Os Prazeres da Noite.da Unesp. pela Comissão Fulbright. Narrar o Passado. com Renato Aloisio Gimenes . Luce Fabbri e o Anarquismo Contemporâneo. Unicamp .1984. Cultura e Gênero do Programa de PósGraduação em História deste Depto. nos Estados Unidos.Dados biográficos: Margareth Rago é professora livre-docente do Departamento de História do IFCH da Universidade de Campinas. A utopia da cidade disciplinar. ED. Paz e Terra.1989.

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