Folha de S.

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São Paulo, domingo, 18 de outubro de 2009

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HISTÓRIA

Sem papas na língua
A psicóloga Cristine Pombo, 28, que é gaga, coordena no Rio de Janeiro um grupo de apoio a pessoas com disfluência
Daryan Dornelles/Folha Imagem

Brasileiro de Fluência, ele afeta 5% dos habitantes, o equivalente a 9,5 milhões de pessoas. E 1% dos brasileiros gaguejam de forma permanente e há muito tempo. Única em sua casa a apresentar disfluência -termo técnico para a gagueira-, Cristine se deu conta de que "falava diferente", como lhe diziam o pai e o irmão mais velho, ainda na infância, quando pediu à mãe que a levasse a um especialista. Tratamentos de fonoaudiologia e 20 anos depois, a psicóloga conseguiu entender seu distúrbio e, com isso, assumiu uma nova posição. "Uso vários artifícios para obter uma fala fluente como agora. Todo mundo apresenta disfluências, só que o gago disflui mais. Passa a ser gagueira quando existe o incômodo. Quem se incomoda mais é o próprio gago, e não se trata apenas da fala, envolve várias outras questões." Uma delas é o estado emocional de cada um -e os comportamentos que podem surgir da dificuldade em se fazer entender rapidamente. "Antes de 2005, eu dizia que nunca me exporia ao público. Eu escondia o fato de ser gaga, mas isso é algo que todo mundo vê. Já aconteceu de me perguntarem se eu era gaga e eu ficar chocada, envergonhada. Hoje falo do assunto de forma tranquila." Documentário A mudança começou após a conclusão do curso de psicologia no Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação, no Rio, há quatro anos. A partir daí, passou a se interessar em enfrentar a disfluência e a procurar pessoas com características semelhantes. No mesmo ano, assumiu a coordenação da filial carioca da Abra Gagueira (www.abragagueira.org.br). A associação promove encontros, divulga livros e pesquisas relacionados ao distúrbio, presta informações sobre tratamentos e características da gagueira, dá dicas para os gagos realizarem mais tranquilamente tarefas cotidianas, como telefonar, e orienta pais. Uma das metas da organização é que os gagos assumam posições ativas em suas vidas. Um exemplo é o jornalista Maurício Júnior, coordenador do grupo de apoio da Abra Gagueira em Pernambuco e um dos realizadores do documentário "Gagueira Não Tem Graça. Tem Tratamento". No material, disponível no YouTube, Júnior parte da experiência pessoal para detalhar os aspectos relacionados ao transtorno. Levar esclarecimento e avançar no autoconhecimento também é o que impulsiona Cristine. "Em 2005, vi uma moça gaga em uma fila, falando alto, aparentemente numa boa, e fiquei superfeliz. Quando passei a encontrar outros gagos, foi muito legal porque vi que existe esse mundo." A psicóloga apresenta uma disfluência leve e vivencia períodos em que fala praticamente sem interrupções. Ao longo dos anos, por meio da experiência como coordenadora de um grupo pelo qual já passaram mais de 50 pessoas -parte de uma rede existente no Rio e em outros sete Estados-, ela observa, no entanto, que, quanto mais gaga é a pessoa, 19/10/2009 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd1810200901.htm 19/10/2009

A psicóloga Cristine Pombo, 28, que é gaga desde os sete e coordena um grupo de apoio

DENISE MOTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quando não está correndo na lagoa Rodrigo de Freitas, caminhando pela praia de Ipanema, na zona sul carioca, nem emprestando os ouvidos a seus pacientes, Cristine Pombo fala. Fala sem parar. Gaga desde os sete anos, a psicóloga coordena um dos grupos de apoio da Abra Gagueira Associação Brasileira de Gagueira, ONG dedicada a informar e a ajudar na melhoria da qualidade de vida de pessoas que gaguejam. "Sou a faladeira lá de casa", diz. Não é difícil acreditar: energia e desenvoltura não faltam à paulistana, que, aos 28 anos, divide-se entre o consultório onde presta atendimento psicológico e faz sessões de terapia ayurvédica, as saídas com amigos e a rotina doméstica. Filha de uma astróloga e de um professor de inglês, hoje separados, a segunda mais velha de uma família de quatro irmãos é a responsável por, ao lado da mãe, solucionar pendências variadas. "É, é a gaga aqui que resolve as coisas, até marcar o médico de vocês eu marco", costuma dizer, em tom de brincadeira, às caçulas. Estima-se que 1% da população mundial sofra desse transtorno. No Brasil, de acordo com dados do Instituto http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd1810200901.htm

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Folha de S.Paulo - Saiba mais: Cartilha trará informações a professores - 18/10/2009

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melhor lida com o problema. "O cara muito gago tem que assumir." Paciência para escutar Na infância e na adolescência, Cristine não sofreu discriminação. "Ser gaga nunca me atrapalhou em nada. Em casa, na escola, nunca riram disso." No entanto, apesar de não haver chegado a extremos como pedir a mesma refeição dos amigos só para não ter que explicar sua escolha ao garçom -estratégia relatada por gagos em páginas de depoimentos-, a psicóloga conta haver driblado circunstâncias mais complexas em encontros sociais. "Tive algumas hesitações, tipo estar em festa com muita gente, mas não foi nada como enfrentar problemas em uma entrevista de emprego", diz. "Claro que o tempo todo tenho que administrar a fala. Às vezes, não consigo falar, mas já não tenho vergonha nem raiva. E praticamente não evito mais falar em nenhuma situação." E, apesar do bom humor com que encara os múltiplos desafios do cotidiano, ainda há comportamentos que a tiram do sério, como quando o interlocutor a aconselha a respirar e a ficar calma. "É como se a gente gaguejasse porque quer. Essas frases não servem para nada e até irritam. Esse é o jeito que eu falo", afirma. O inferno, porém, não são os outros. Um elemento é central para enfrentar o distúrbio, diz a psicóloga: "A grande briga é da gente com a gente mesmo. É fácil falar: "Ah, porque o fulaninho riu", mas é a gente que não está bem resolvida". Segundo ela, ter preconceito com relação ao próprio problema e querer agradar aos outros são impeditivos para conviver bem com a gagueira e melhorar a comunicação. "Há gagos que dizem: "Eu queria ser como o William Bonner". Olha o grau de exigência! A gente não tem que evitar nada, tem é que falar, mesmo que saia tropeçando. Eu adoro falar. Minha atitude é: "Eu estou aqui. Tenho algo para dizer a você. Por favor, tenha paciência e me escute"."

São Paulo, domingo, 18 de outubro de 2009

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saiba mais

Cartilha trará informações a professores
FERNANDA BASSETTE
DA REPORTAGEM LOCAL

Em comemoração do Dia Internacional de Atenção à Gagueira (22/ 10), o IBF (Instituto Brasileiro de Fluência) e o CFFo (Conselho Federal de Fonoaudiologia) lançam amanhã uma cartilha direcionada a professores do ensino fundamental. Composto de 18 páginas, o material traz orientações e dicas de como os professores devem lidar com alunos que apresentam o transtorno. "Em vez de pedir para o aluno ler um texto em voz alta, por exemplo, o professor pode sugerir uma leitura em grupo, assim a criança gaga deixa de ser o foco das atenções", diz a fonoaudióloga Leila Nagib, presidente do CFFo. Todo o conteúdo das cartilhas estará disponível gratuitamente na internet, nos sites do conselho (www.fonoaudiologia.org.br) e do IBF (www.gagueira.org.br).

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd1810200901.htm

19/10/2009

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd1810200903.htm

19/10/2009

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