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TV DESTINO

23/01/2009
Central Destino de Produção Cap. 15

FOGO SOBRE TERRA


Novela de
Walter de Azevedo

Inspirada no original de
Janete Clair
Colaboração de
Eduardo Secco

Direção
Claudio Boeckel e Marco Rodrigo

Direção Geral
Luiz Fernando Carvalho

Núcleo
Luiz Fernando Carvalho
Personagens deste capítulo

BÁRBARA EDUARDA CORINA


GUSTAVO ANDRÉ PADRE LUÍS
TALITA LEILA BRISA
DIOGO PEDRO JULIANO
CELESTE CHICA LUCENA
HEITOR LOURDES
VERA MINERVINA

Atenção
“ Este texto é de propriedade intelectual exclusiva da TV DESTINO LTDA e por conter informações confidenciais, não
poderá ser copiado, cedido, vendido ou divulgado de qualquer forma e por qualquer meio, sem o prévio e expresso
consentimento da mesma.No caso de violação do sigilo, a parte infratora estará sujeita às penalidades previstas em
lei e/ou contrato.”
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 2

CENA 01. BOATE. INTERIOR. NOITE

CONTINUAÇÃO DA CENA 22 DO CAPÍTULO 14. GUSTAVO E BÁRBARA ESTÃO NO


CAMAROTE DA BOATE. A MOÇA ESTÁ SEM SABER O QUE FAZER COM A PRESENÇA
DELE. PARECE SEM GRAÇA.

GUSTAVO — Achei que nunca mais ia conseguir falar com você.

BÁRBARA — Imagina, Gustavo. Deixa de ser exagerado.

GUSTAVO — Posso me sentar?

BÁRBARA — Pode.

BÁRBARA NÃO ESTÁ NEM UM POUCO ANIMADA COM A PRESENÇA DE GUSTAVO.


ELE SE SENTA.

GUSTAVO — Tô tentando falar com você há muito tempo, Bárbara.

BÁRBARA — Eu tava viajando.

GUSTAVO — Eu sei, mas eu liguei. Liguei várias vezes, deixei mensagens. Você
nunca me retornou.

BÁRBARA — Gustavo, quando eu viajo quero distância da minha rotina. Eu não


atendia nem aos telefonemas do meu pai.

GUSTAVO — Ele me disse.

BÁRBARA — Então pronto.

GUSTAVO — Mas é que... Eu não sei, mas eu tive a impressão de que você estava
fugindo de mim.

TALITA CHEGA TRAZENDO DOIS DRINQUES.

TALITA — Eu trouxe...

FICA SURPRESA AO VER GUSTAVO.

TALITA — Oi Gustavo.

GUSTAVO — Oi Talita.

BÁRBARA — Bom que você chegou.

BÁRBARA SE LEVANTA.

BÁRBARA — Assim você faz companhia pro Gustavo.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 3

GUSTAVO — Mas Bárbara...

BÁRBARA — Já volto, meus amores.

BÁRBARA SAI.

GUSTAVO — Mas... Eu tava conversando com ela.

TALITA SE SENTA.

TALITA — Gustavo, eu já disse que você tá indo com muita sede ao pote. Desse
jeito não vai conseguir nada. Aliás, vai sim. Vai conseguir afastar a
Bárbara ainda mais.

GUSTAVO — Eu não entendo por que ela foge assim de mim. Eu sou tão chato? Sou
feio?

TALITA — Não é nada disso. A Bárbara não gosta de ninguém no pé dela. Ela
gosta de se sentir livre. Você tá sufocando ela.

GUSTAVO — É. Acho que você tá certa. Eu tô metendo os pés pelas mãos.

TALITA — Vai com calma. Não fica tão em cima. Talvez se você não fosse tão
desesperado assim a Bárbara já tivesse te enxergado com outros olhos.

GUSTAVO — Você acha?

TALITA — O que eu acho é que desse jeito o que você vai conseguir é afastar ela
ainda mais.

GUSTAVO FICA PENSATIVO.

CORTA PARA:

CENA 02. BOATE. BANHEIRO. INTERIOR. NOITE

BÁRBARA ENTRA BRAVA. DUAS MULHERES ESTÃO CONVERSANDO.

BÁRBARA — Cara chato!

BÁRBARA VAI ATÉ A PIA E PASSA UM POUCO DE ÁGUA NO ROSTO.

BÁRBARA — Era só o que me faltava. Se esse cara começar a me seguir, eu... Eu


chamo a polícia!

BÁRBARA PERCEBE PELO ESPELHO, QUE AS DUAS MULHERES PARARAM DE


CONVERSAR E OBSERVAM ELA FALAR SOZINHA.

BÁRBARA — O que foi? Tão olhando o quê? Nunca falaram sozinhas no banheiro
da boate? Aposto que quando tão de porre fazem muito mais do que isso!
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 4

AS DUAS MULHERES SAEM, FALANDO MAL DE BÁRBARA.

BÁRBARA — Bando de mal-amadas.

BÁRBARA OLHA PARA O ESPELHO E DE REPENTE PARECE NÃO PASSAR BEM. DO


PONTO DE VISTA DELA, A IMAGEM COMEÇA A FICAR EMBAÇADA CORTA PARA A
TOMADA NORMAL, VISTA PELA CAM.

BÁRBARA — Não. Não começa isso de novo.

BÁRBARA VAI TATEANDO PELA PIA ATÉ ENCONTRAR A TORNEIRA. ENCHE AS


MÃOS DE ÁGUA E LAVA OS OLHOS.

BÁRBARA — Vai passar. É só eu esperar um pouquinho que passa.

A MOÇA SE ENCOSTA NO BALCÃO DA PIA E FICA PISCANDO E PASSANDO A MÃO


NOS OLHOS POR ALGUNS SEGUNDOS. CORTE RETORNA PARA PONTO DE VISTA DE
BÁRBARA. A VISÃO PARECE MELHORAR AOS POUCOS. CORTE PARA TOMADA
NORMAL.

BÁRBARA — Pronto. Tá passando.

NERVOSA, BÁRBARA APANHA SUA BOLSA E SAI DO BANHEIRO.

CORTA PARA:

CENA 03. BOATE. INTERIOR. NOITE

BÁRBARA PASSA APRESSADA PELAS PESSOAS QUE ESTÃO DANÇANDO E VAI ATÉ O
CAMAROTE, ONDE ESTÃO GUSTAVO E TALITA.

BÁRBARA — Vamos embora, Talita.

TALITA — Já?

BÁRBARA — Já.

GUSTAVO — Bárbara, eu quero falar com você.

BÁRBARA — Agora não dá, Gustavo. Outra hora.

GUSTAVO — Mas é que...

BÁRBARA — Agora não, Gustavo! Será que é tão difícil de você entender?! (p) Tô
te esperando lá fora, Talita.

BÁRBARA SAI.

GUSTAVO — Nossa. Nunca vi a Bárbara brava desse jeito. Será que aconteceu
alguma coisa?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 5

TALITA — Não sei. Tchau.

GUSTAVO — Tchau.

TALITA SAI.

CORTA PARA:

CENA 04. CARRO DE BÁRBARA. INTERIOR. NOITE

TALITA DIRIGE ENQUANTO BÁRBARA, SENTADA DO LADO DO CARONA, OLHA


PREOCUPADA PELA JANELA.

TALITA — Bárbara, isso não pode ficar assim. Você precisa descobrir o que tá
acontecendo!

BÁRBARA — Você vem dizer isso pra mim? Esqueceu que eu passei a manhã
inteira fazendo exame. Acontece que eu já fiz isso um monte de vezes e
nunca deu nada. Todos os exames dizem que eu tô perfeita.

TALITA — Eu vou te dizer uma coisa, mas acho que você vai querer me bater.

BÁRBARA — O que é? Pode falar.

TALITA — Eu acho que tá mais do que na hora de você procurar um psicólogo.

BÁRBARA — Vai me chamar de louca, também? Quer fazer corinho com a Celeste?

TALITA — Não é nada disso, Bárbara. Você mesma tá dizendo que cansou de
fazer exame e nunca deu nada.

BÁRBARA — Porque os exames são uma porcaria!

TALITA — Ou porque o que você têm não é físico.

BÁRBARA — Chega, Talita. Não quero mais ficar pensando nisso. Me deixa quieta
aqui no meu canto.

TALITA NÃO FALA MAIS NADA.

CORTA PARA:

CENA 05. SÃO PAULO. EXTERIOR. MANHÃ

A CIDADE AMANHECE. Sonoplastia: “AMARGO” – ZECA BALEIRO. TOMADA AÉREA


DE SÃO PAULO. CORTE PARA O PRÉDIO DE HEITOR.

CORTA PARA:

CENA 06. APARTAMENTO DE HEITOR. QUARTO DE DIOGO. INT. MANHÃ


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 6

DIOGO ESTÁ ARRUMANDO A MALA. CELESTE BATE NA PORTA.

DIOGO — Pode entrar.

CELESTE ENTRA.

CELESTE — Bom dia.

DIOGO — Oi, Celeste. Bom dia.

CELESTE — Você não vêm tomar café?

DIOGO — Já vou.

CELESTE PERCEBE QUE DIOGO ESTÁ COLOCANDO ROUPAS EM UMA MALA.

CELESTE — Fazendo a mala? Não me diga que você já vai voltar pro Canadá.

DIOGO SORRI.

DIOGO — Não. Vou pra mais perto. Pra Divinéia.

CELESTE — Você... Vai pra Divinéia?

DIOGO — Vou. Já passou da hora de eu me reencontrar com o Pedro. Tenho que


retomar a relação com o meu irmão. Tô há anos com isso martelando na
minha cabeça. Os meus pais não iam gostar que nós ficássemos vivendo
assim, como se o outro não existisse.

CELESTE — Lógico. (p) E quando é que você está pensando em ir?

DIOGO — Se possível, hoje mesmo. Vou falar com o tio Heitor pra ver se têm
como eu usar o avião dele.

CELESTE — Eu acho que não vai haver nenhum problema.

DIOGO — Se não der, eu pego um avião até Cuiabá e de lá tomo o trem.

CELESTE — Então eu vou deixar você sozinho pra poder terminar mais rápido. Tô
esperando você pro café.

DIOGO — Eu já vou.

CELESTE OBSERVA UM POUCO DIOGO ARRUMANDO A MALA E DEPOIS SAI.

CORTA PARA:

CENA 07. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA DE JANTAR. INT. MANHÃ

HEITOR ESTÁ TOMANDO CAFÉ. CELESTE ENTRA E SE SENTA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 7

CELESTE — Acho que você vai ter que adiantar a sua estratégia.

HEITOR — Estratégia? Do que você tá falando?

CELESTE — Daquela conversa que a gente teve ontem à noite. (p) A sua idéia de
separar os irmãos Karamazov.

HEITOR — Tá falando do Diogo e do Pedro?

CELESTE — Lógico. Diogo tá no quarto arrumando a mala. Disse que vai hoje
mesmo pra Divinéia.

HEITOR SE ESPANTA.

HEITOR — Como é?

CELESTE — Isso mesmo que você ouviu, meu querido. Disse que não pode mais
ficar esperando e que precisa resolver essa situação de uma vez. Se
prepara porque o Diogo vai pedir o seu avião emprestado.

HEITOR — Mas por que essa pressa toda? Ficou tantos anos sem ver aquele
matuto do Pedro!

CELESTE — Ah, você sabe como são essas coisas de voltar pro país, retomar as
origens. Essas coisas piegas que nós brasileiros adoramos. Vai ver o
cheiro da terra mexeu com a cabeça e com o coração dele.

CELESTE RI, IRÔNICA.

HEITOR — E você acha tudo isso muito engraçado.

CELESTE — Você quer que eu faça o quê? Que corte os pulsos? Heitor, eu
sinceramente acho que você está se preocupando à toa. Tenho certeza de
que o Diogo vai até lá, revê o irmão, faz um mea culpa básico e pronto.
Daqui há pouco tudo volta a ser como antes.

HEITOR — Eu queria ter a sua certeza.

CELESTE — Eu sei. Mas já que não têm, o que você pretende fazer?

HEITOR — Não sei. Não sei, mas eu preciso pensar rápido. (p) Posso dizer que o
avião tá com problema.

CELESTE — Nem adianta. Ele falou que se não for com o seu, pega um vôo
comercial mesmo. Ele tá decidido. Não pense que vai ser fácil. É bom
pensar rápido mesmo porque daqui a pouco ele entra por aquela porta.

DIOGO ENTRA.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 8

CELESTE — Viu?

DIOGO — Bom dia, tio.

HEITOR — Bom dia, Diogo.

DIOGO SE SENTA PRA TOMAR CAFÉ.

DIOGO — Tio, eu queria pedir um favor pro senhor.

HEITOR — Pode pedir.

DIOGO — Eu queria saber se posso usar o seu avião.

HEITOR — O... Avião?

DIOGO — É. Eu quero ir hoje mesmo pra Divinéia. Quero reencontrar o Pedro.

CELESTE OLHA PARA HEITOR DE RABO DE OLHO.

CORTA PARA:

CENA 08. APARTAMENTO DE HEITOR. QUARTO DE BÁRBARA. INT. MANHÃ

O QUARTO ESTÁ NO ESCURO. BÁRBARA PARECE TENTAR DORMIR, MAS NÃO


CONSEGUE. FINALMENTE, SE SENTA NA CAMA.

BÁRBARA — Se continuar assim eu vou ficar cheia de olheira! Saco!

BÁRBARA SE LEVANTA E ABRE A JANELA. A CLARIDADE QUE ENTRA A


INCOMODA.

BÁRBARA — Precisa esse sol todo? Coisa mais desagradável!

BÁRBARA SE SENTA NA CAMA, APANHA O CELULAR E FAZ UMA LIGAÇÃO. ESPERA


ALGUNS INSTANTES.

BÁRBARA — Que demora pra atender esse telefone, Talita! (p) Tá acordada? (p)
Então acorda. Acorda, toma um banho, toma café que daqui a pouco eu
tô aí. (p) Porque sim, ué! Porque eu preciso falar com você. (p) Vou
tomar um banho e já chegou aí. Beijo.

BÁRBARA DESLIGA O CELULAR.

BÁRBARA — Que ódio ter que fazer isso! Se a Celeste descobre, vai me infernizar.

BÁRBARA VAI PARA O BANHEIRO.

CORTA PARA:
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 9

CENA 09. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA DE JANTAR. INT. MANHÃ

CONTINUAÇÃO DA CENA 07. CELESTE, HEITOR E DIOGO TOMANDO CAFÉ.

HEITOR — Mas... Você quer ir hoje mesmo? Por que não espera mais uns dias?

DIOGO — Fiquei a noite toda acordado pensando. Já esperei tempo demais.

HEITOR — Eu entendo, mas é que... Se você pudesse esperar um pouco, talvez eu


mesmo pudesse lhe acompanhar. Faz tempo que não vou pra Divinéia.
Tenho umas coisas pra tratar lá.

DIOGO — E daqui há quanto tempo o senhor está pensando em ir?

HEITOR — Não sei. Umas duas semanas.

DIOGO — Muito tempo, tio. Daqui a duas semanas eu preciso estar em


Vancouver, senão a Christiane me mata.

HEITOR — Mas você vai voltar pra lá sem... Sem ter tomado uma decisão? A
história da hidrelétrica.

DIOGO — Não sei, tio. Mas talvez eu estando lá possa avaliar melhor a situação.
Isso pode me ajudar a decidir o que fazer.

HEITOR — Sei. Bom, se é isso mesmo que você quer, não têm problema. Pode
usar o avião. Depois eu peço pra deixarem ele preparado.

DIOGO — Muito obrigado, tio.

HEITOR — Nada. Eu... Vocês me dêem licença. Eu preciso dar uns telefonemas.

DIOGO — Claro.

HEITOR SE LEVANTA E VAI PARA O ESCRITÓRIO.

DIOGO — Que bom que eu vou poder usar o avião do tio Heitor. Se fosse em um
vôo comercial ia ter que ficar um tempão em Cuiabá esperando até ter
trem pra Divinéia. Ele só sai uma vez por dia.

CELESTE — Assim você ganha tempo. (p) Diogo, você me dá licença? Esqueci de
pedir uma coisa pro seu tio. Eu já volto.

CELESTE SE LEVANTA E VAI ATÉ O ESCRITÓRIO.

CORTA PARA:

CENA 10. APARTAMENTO DE HEITOR. ESCRITÓRIO. INTERIOR. MANHÃ


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 10

HEITOR ANDA DE UM LADO PARA O OUTRO, COMO SE FOSSE UM ANIMAL ACUADO.


CELESTE ENTRA E FECHA A PORTA.

HEITOR — E agora? O que é que eu faço?

CELESTE — Calma. Não adianta ficar assim. Agora é hora de manter a cabeça no
lugar e pensar na melhor forma de agir.

HEITOR — Você fala isso como se fosse fácil.

CELESTE — Não disse que é fácil, mas também não é nenhum cavalo de batalha.

CELESTE SE SENTA.

HEITOR — Eu tenho quase certeza de que posso convencer o Diogo a tocar a


construção da hidrelétrica, mas isso se o Pedro não fizer a cabeça dele.

CELESTE — Você fala como se o Diogo fosse uma criança fácil de ser manipulada.
Ele é um homem, Heitor. Um homem decidido, de personalidade forte.
Não vai ser um reencontro com o irmão que vai acabar com isso.

HEITOR — Pode não acabar, mas fazer ele enxergar as coisas de outra forma. (p)
Se ele tivesse topado tudo logo de início, eu não estaria nem me
preocupando, mas ele se mostrou reticente. Não têm certeza se acha certo
o que nós vamos fazer. Eu preciso de um tempo pra mostrar pra ele que a
construção da hidrelétrica vai ser boa pra todo mundo. Só que, como o
Diogo está em cima do muro, essa balança pode pender pra qualquer um
dos lados. O sentimentalismo desse reencontro pode ser fundamental na
decisão dele, e é isso que eu tenho que impedir.

CELESTE — Só se você amarrar o Diogo em casa.

HEITOR — Se eu pudesse, bem que eu faria isso.

CELESTE PARECE TER UMA IDÉIA.

CELESTE — Acho que eu tive uma idéia!

HEITOR — O quê?

CELESTE — Você poderia mandar alguém junto com ele.

HEITOR — Alguém?

CELESTE — É. Uma pessoa que ficasse com ele praticamente o tempo inteiro. Que
não deixasse ele e o irmão ficarem sozinhos. Ou pelo menos que não
tenham tanto tempo sozinhos.

HEITOR — Não sei. Acho que isso não daria certo.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 11

CELESTE — Se não ajudar, pelo menos atrapalhar não vai. Pensa bem, Heitor.
Você pode mandar alguém que tenha as mesmas visões que você têm
sobre essa hidrelétrica. Seria como se você estivesse ao lado dele.

HEITOR — Alguém da empresa.

CELESTE — De preferência.

HEITOR SE SENTA.

HEITOR — É. Pode ser que dê certo. Assim eu ganho algum tempo. (p) Poderia
ser o André.

CELESTE — O André?

HEITOR — É. Engenheiro lá na firma. É de Divinéia também. Filho do Juliano.


Você sabe quem é.

CELESTE — Sei. Agora que você falou eu tô lembrando.

HEITOR — Eu posso mandar ele pra lá com a desculpa de que é pro menino rever
a família e, claro, fazer alguns levantamentos sobre o rio Jurapori.
Complementar o que já fizeram.

CELESTE — Eu tenho uma idéia melhor.

HEITOR — Qual?

CELESTE — Você pode até mandar o André. É bom porque assim não chama
muito a atenção. Os dois filhos da terra que voltam pra rever as famílias.
Lindo! Mas têm uma pessoa que é ambiciosa o suficiente pra fazer
exatamente o que você quer e que ainda por cima têm... Atributos, se é
que nós podemos falar assim, pra atrair a atenção do Diogo.

HEITOR PENSA POR ALGUNS SEGUNDOS E DEPOIS SORRI.

HEITOR — Tá falando da Eduarda, não é?

CELESTE — Lógico. Aquela ali venderia a mãe pra subir no seu conceito.

HEITOR — É. Você têm razão. A Eduarda pode ser uma ótima aliada. (p) Mas
será que... Que ela não pode entender isso de forma errada? Como se eu
quisesse que ela se jogasse em cima do Diogo?

CELESTE — Heitor, entendendo da forma certa ou da forma errada, eu tenho


certeza absoluta de que ela aceita. Quer apostar?

HEITOR SORRI PARA CELESTE.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 12

CORTA PARA:

CENA 11. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA DE JANTAR. INT. MANHÃ

DIOGO ESTÁ TERMINANDO DE TOMAR CAFÉ. BÁRBARA ENTRA.

BÁRBARA — Bom dia, meu irmãozinho lindo.

DIOGO — Bom dia.

BÁRBARA DÁ UM BEIJO NO ALTO DA CABEÇA DE DIOGO, SENTA E SE SERVE DE


MAMÃO.

DIOGO — Caiu da cama?

BÁRBARA — De novo. Vou dormir no chão assim me poupa o trabalho.

OS DOIS RIEM.

BÁRBARA — Cadê todo mundo?

DIOGO — O tio e a Celeste estão no escritório.

BÁRBARA — Logo cedo? Medo.

DIOGO — Medo por quê?

BÁRBARA — Esses dois, quando começam com segredinho, pode se preparar que
alguma coisa grave vai acontecer. (p) Vai pra construtora com o papai?

DIOGO — Não. Vou viajar.

BÁRBARA — Não me diga que você já vai voltar pro Canadá?!

DIOGO — Não. Vou pra Divinéia.

BÁRBARA — Misericórdia! O que você vai fazer naquele fim de mundo?

DIOGO — Vou rever o meu irmão. Esqueceu que eu tenho um... Lá no fim de
mundo.

BÁRBARA — Completamente. (p) Sabe que eu nem me lembro do Pedro? A última


vez que vi ainda era bem pequena.

DIOGO — Depois que a gente veio pra São Paulo eu vi pouco também. (p)
Tenho medo de que ele tenha raiva de mim por ter me afastado assim.

BÁRBARA COLOCA A MÃO CARINHOSAMENTE SOBRE A MÃO DE DIOGO.

BÁRBARA — Por isso que você anda com esse ar triste?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 13

DIOGO — Também. (p) Eu ando meio perdido, Bárbara. Sabe quando você
chega em um ponto da sua vida que você olha pra trás e não sabe se
tomou o caminho certo?

BÁRBARA — Saber, eu não sei, mas posso imaginar como é. Você tá insatisfeito
com exatamente o quê?

DIOGO — Nossa. Tanta coisa.

BÁRBARA — Isso é mau.

DIOGO — Muito. (p) Isso tá me cheirando à crise dos quarenta.

OS DOIS RIEM.

BÁRBARA — Ainda falta pra você chegar lá. (p) Se você quiser conversar, eu posso
ser maluquinha, mas tenho um ombro pro meu irmão favorito desabafar.

DIOGO — Eu sei. (p) Acho que eu tô mesmo precisando conversar com alguém
que tenha a cabeça mais aberta.

BÁRBARA — Mais do que eu você não vai encontrar.

CELESTE ENTRA NA SALA E VÊ BÁRBARA.

CELESTE — Meu Deus! Você acordou cedo de novo? Têm certeza de que você é
mesmo a Bárbara?

BÁRBARA — Você ia adorar se eu não fosse.

CELESTE SE SENTA.

CELESTE — Diogo, o seu tio pediu pra você ir com ele pro escritório e depois ele
vê a história da viagem.

DIOGO — Tá bem. Eu vou então pegar a minha mala. Dá licença.

DIOGO SE LEVANTA E SAI.

BÁRBARA — Diogo não tá bem. Conheço meu irmão.

CELESTE — E desde quando você se preocupa com alguém, Bárbara? Que eu


saiba, o seu mundo se resumo ao seu umbigo.

BÁRBARA — Aí é que você se engana, loira.

BÁRBARA SE LEVANTA E APANHA UMA TORRADA.

BÁRBARA — Eu me preocupo só com quem vale a pena. Meu pai, meu irmão. Você
não é top. Não tá na lista. Tchau, lindona.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 14

BÁRBARA SAI.

CELESTE — Insuportável.

CORTA PARA:

CENA 12. SÃO PAULO. EXTERIOR. MANHÃ.

Sonoplastia: “SÓ PRA VARIAR”/BARÃO VERMELHO. O CARRO DE BÁRBARA


ESTACIONA NA FRENTE DE UM PRÉDIO. ELA E TALITA DESCEM E ENTRAM.

CORTA PARA:

CENA 13. CLÍNICA. INTERIOR. MANHÃ

ALGUMAS POUCAS PESSOAS ESTÃO SENTADAS NA SALA DE ESPERA. UMA


SECRETÁRIA FALA AO TELEFONE. BÁRBARA E TALITA ENTRAM.

TALITA — Precisava me tirar de casa desse jeito pra me trazer aqui?

BÁRBARA — Precisava. Se eu não fizesse na hora, perdia a convicção, aí já viu.

TALITA — Tudo isso pra se consultar com um psicólogo. Você é muito besta
mesmo.

BÁRBARA — Não fica me censurando que eu volto daqui mesmo!

TALITA — Vai logo falar com a secretária e não me enche!

BÁRBARA — Tá bom. Tô indo.

BÁRBARA SE APROXIMA DA ATENDENTE E SORRI.

BÁRBARA — Oi. Bom dia.

ATENDENTE — Bom dia.

BÁRBARA — Eu queria marcar uma consulta.

ATENDENTE — Pois não. Pra quando?

BÁRBARA — Agora.

A ATENDENTE FICA SURPRESA.

ATENDENTE — Agora?

BÁBRARA — É. Já. Têm como ele me atender?

ATENDENTE — Infelizmente não. Todos os horários estão ocupados.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 15

BÁRBARA — Porcaria. (p) E quanto ele têm hora?

A ATENDENTE CONFERE NO COMPUTADOR.

ATENDENTE — Na segunda-feira.

BÁRBARA — Só na segunda-feira?! Mas tá pior do que o meu cabeleireiro!

ATENDENTE — A senhora quer que marque?

BÁRBARA PENSA UM POUCO.

BÁRBARA — Quero. Pode marcar.

ATENDENTE — O seu nome, por favor.

BÁRBARA — Bárbara, Bárbara Gonzaga.

A ATENDENTE COMEÇA A DIGITAR NO COMPUTADOR.

CORTA PARA:

CENA 14. CONSTRUTORA. ANTE-SALA. INTERIOR. MANHÃ

HEITOR E DIOGO SAEM DO ELEVADOR E CAMINHAM ATÉ A SALA DE HEITOR. VERA


ESTÁ EM SUA MESA TRABALHANDO.

HEITOR — Bom dia, dona Vera.

VERA — Bom dia, doutor Heitor. Bom dia, doutor Diogo.

DIOGO — Bom dia.

HEITOR — Diogo, vai entrando que eu preciso falar aqui com a dona Vera e já
lhe alcanço.

DIOGO — Tá certo.

DIOGO ENTRA NA SALA DE HEITOR.

HEITOR — O André e a Eduarda já chegaram?

VERA — Já.

HEITOR — Peça pra os dois irem agora pra sala de reuniões.

VERA — Sim senhor.

HEITOR VAI PARA A SALA DE REUNIÕES E VERA PEGA O TELEFONE.

CORTA PARA:
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 16

CENA 15. CONSTRUTORA. CORREDOR. INTERIOR. MANHÃ

EDUARDA E ANDRÉ VEM ANDANDO PELO CORREDOR. OUTROS FUNCIONÁRIOS


TRANSITAM POR LÁ.

EDUARDA — O que será que o Todo Poderoso têm de tão importante pra falar com
a gente?

ANDRÉ — Eu é que vou saber? A Vera só disse que era pra gente ir pra sala de
reuniões.

CORTA PARA:

CENA 16. CONSTRUTORA. SALA DE REUNIÕES. INTERIOR. MANHÃ

HEITOR, EDUARDA E ANDRÉ ESTÃO SENTADOS CONVERSANDO.

HEITOR — E é isso. Com esse relatório de impacto ambiental que saiu, logo a
construção da hidrelétrica vai ser liberada. É questão de alguns meses.
Eu preciso que vocês dois vão até Divinéia pra fazer um estudo do lugar,
construção de canteiro de obras, infra-estrutura, tudo isso.

EDUARDA — Mas Doutor Heitor, nós ainda não precisamos vencer a concorrência?

ANDRÉ — Mais do que isso. A concorrência precisa ser aberta.

HEITOR — Quanto a isso, vocês deixem que eu me preocupo. É assunto meu. Eu


preciso de vocês dois lá. O André, além de ser um excelente profissional,
é filho da terra. Conhece aquilo lá muito bem. Acho que isso pode ajudar
muito. (p) Posso contar com vocês ou não?

EDUARDA — Claro que pode.

ANDRÉ NÃO PARECE MUITO SATISFEITO.

ANDRÉ — Pode.

HEITOR — Ótimo!

EDUARDA — E quando nós vamos?

HEITOR — O ideal seria hoje.

EDUARDA E ANDRÉ SE OLHAM SURPRESOS.

ANDRÉ — Hoje?

HEITOR — É. Hoje à tarde. É só vocês arrumarem a mala, eu mando preparar o


jatinho e pronto.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 17

ANDRÉ — Eu tenho vistoria de obra pra fazer.

EDUARDA — E eu, uma reunião...

HEITOR — Isso não é problema. Eu mando outra pessoa. É só vocês falaram


direitinho o que é, explicaram o que precisa ser feito, que qualquer um
desses engenheiros que fica andando o dia inteiro aí pela firma pode
fazer.

EDUARDA — Se o senhor têm mesmo essa urgência, por mim não têm problema.

ANDRÉ — Se é necessário.

HEITOR — É. É necessário. Então tá certo. Vocês podem ir se preparando que


entre três e quatro horas vocês estão decolando no meu avião. Vão ficar
lá na fazenda. Vou ligar pro Lucena e avisar. (p) Podem ir.

EDUARDA E ANDRÉ SE LEVANTAM E CAMINHAM ATÉ A PORTA ENQUANTO HEITOR


APANHA O TELEFONE.

HEITOR — Eduarda.

ANDRÉ E EDUARDA PARAM ANTES DE SAIR.

HEITOR — Você fica, por favor, que eu quero ter uma palavrinha com você.

EDUARDA E ANDRÉ SE OLHAM E O RAPAZ SAI, FECHANDO A PORTA. ELA VOLTA A


SE SENTAR.

HEITOR — Vou só dar umas ordens aqui pra dona Vera e a gente já conversa.

CORTA PARA:

CENA 17. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA. INTERIOR. MANHÃ

BÁRBARA E TALITA ENTRAM.

TALITA — Só você mesmo pra fazer essa palhaçada toda por causa de um
médico.

BÁRBARA — Psiu! Fala baixo, menina! Não quero ninguém aqui dentro sabendo
que eu fui em médico nenhum!

TALITA — Por quê?

BÁRBARA — Porque não! Já vivem pegando no meu pé. Já pensou a aporrinhação


se meu pai descobre que eu tô indo a médico? Vai querer saber o que eu
tenho, ficar em cima de mim, me controlar. Não, não, não! Sem contar a
outra lá. A loira. Aquela tá doida pra ver eu me ferrar.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 18

TALITA — Eu acho que às vezes você exagera com a Celeste. Ela é tão simpática
comigo.

BÁRBARA — É? Leva pra casa. Só eu sei o que passei na mão da megera quando
era pequena. Nunca gostou de mim. Trato a Celeste como ela merece. (p)
Agora tenho que esperar essa porcaria desse psicólogo. Ele não podia ter
uma horinha pra mim?

TALITA — O cara é um dos melhores, Bárbara. Você até que deu sorte de
conseguir horário pra essa semana.

BÁRBARA — Quero ver se ele é tão bom assim. (p) Falando sério, Talita, eu não sei
mais o que fazer. Se esse cara não conseguir me ajudar, não sei a quem
eu vou recorrer.

TALITA — Você ainda precisa esperar o resultado daqueles exames. Quem sabe
dessa vez não dá alguma coisa?

BÁRBARA — É. Bom, não adianta eu ficar aqui me martirizando. Vamos lá no


quarto pegar a bolsa pra você.

AS DUAS VÃO PARA O QUARTO. CELESTE ENTRA NA SALA, VINDA DO ESCRITÓRIO.


OUVIU A CONVERSA TODA.

CELESTE — Exames? Psicólogo? Então é por isso que a Bárbara tá acordando tão
cedo. (p) Será... Será que ela tá sofrendo aquelas crises de novo? Heitor
precisa saber disso.

CELESTE VAI ATÉ O TELEFONE, COMEÇA A FAZER A LIGAÇÃO, MAS DESISTE.

CELESTE — Não. Primeiro é melhor eu ter certeza de tudo o que está acontecendo.
Vai que eu falo uma coisa e não é nada disso? Com a Bárbara, nunca se
sabe.

CORTA PARA:

CENA 18. CONSTRUTORA. SALA DE REUNIÕES. INTERIOR. MANHÃ

HEITOR E EDUARDA CONVERSAM.

HEITOR — Eduarda, o assunto que eu tenho pra falar com você é um pouco...
Delicado. Na verdade eu pensei muito na forma em que ia abordá-lo.
Não queria que você me entendesse mal.

EDUARDA — Pode falar, Doutor Heitor. Não precisa ter esse tipo de cuidado.

HEITOR SORRI PARA EDUARDA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 19

HEITOR — Gosto muito de você, menina. Esse seu jeito corajoso, decidido. (p)
Vou direto ao ponto, então.

EDUARDA — Por favor.

HEITOR — Eu... Estou tendo um probleminha com o meu filho Diogo. Não é
segredo pra ninguém que eu quero que ele seja o engenheiro responsável
pela hidrelétrica. Acontece que ele têm algumas dúvidas e eu preciso de
algum tempo pra convencê-lo. Não tenho dúvida de que vou conseguir,
mas parece que pode surgir um... empecilho. Uma pedra no meu
caminho.

EDUARDA — Que tipo de empecilho?

HEITOR — O Diogo têm uma irmão que vive em Divinéia. O nome dele é Pedro.
Pedro Azulão. Os dois não se vêem há muito tempo, mas agora o Diogo
quer reencontrá-lo. Acontece que esse rapaz não gosta de mim. Nunca
gostou. Sempre se coloca contra as minhas idéias. (p) Eu tenho certeza
de que não vai ser diferente em relação à hidrelétrica. O Pedro vai ser
contra.

EDUARDA — E exatamente pra que o senhor precisa de mim?

HEITOR — Eu não posso deixar o Pedro e o Diogo se aproximarem. Pelo menos


não por enquanto. Eu tenho medo de que, essa indecisão do Diogo seja
uma brecha por onde o Pedro possa entrar. Ele pode tentar convencer o
irmão a ser contra o projeto. Eu não posso deixar isso acontecer.

EDUARDA — Entendi.

HEITOR — Aí é que você entra. Eu preciso que você encontre uma forma de...
Distrair o Diogo. De deixar ele o mínimo de tempo possível ao lado do
irmão.

EDUARDA — Distrair?

HEITOR — É. Como eu disse antes, não quero que você me entenda mal.

EDUARDA — E o que eu ganho se... Distrair o Diogo?

HEITOR — A minha gratidão.

EDUARDA — Muito bom. (p) E o que mais?

HEITOR ENCARA EDUARDA POR UM TEMPO.

HEITOR — Não é o suficiente?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 20

EDUARDA — Doutor Heitor, vamos colocar as cartas na mesa. O senhor está aqui
pedindo pra que eu “distraia” o seu filho. É claro que a sua gratidão é
muito cara pra mim, é muito importante. Acontece que eu já aprendi que
nem sempre nós podemos contar com a gratidão dos outros. Eu preciso
de algo mais palpável.

HEITOR — O quê, por exemplo?

EDUARDA — Eu quero ser a segunda engenheira do projeto.

HEITOR — Segunda engenheira?

EDUARDA — É. A Engenheira financeira, por exemplo. Tenho qualificação e


competência pra isso. Eu mantenho o Diogo afastado do irmão, convenço
ele a tocar a obra e o senhor me dá esse cargo. É uma troca justa. O que o
senhor acha?

HEITOR FICA PENSATIVO.

CORTA PARA:

CENA 19. CONSTRUTORA. SALA DE HEITOR. INTERIOR. MANHÃ

DIOGO ESTÁ SENTADO LENDO O JORNAL. BÁRBARA ENTRA.

BÁRBARA — Vera me disse que o senhor estava sozinho aqui.

DIOGO — Oi.

BÁRBARA DÁ UM BEIJO NO IRMÃO E SE SENTA.

BÁRBARA — Papai saiu?

DIOGO — Não. Foi resolver umas coisas e já volta. Tá aqui pela empresa
mesmo.

BÁRBARA — Vim acertar as contas da minha viagem com ele. Vai falar pra
caramba na minha orelha.

DIOGO RI.

DIOGO — Gastou muito?

BÁRBARA — Mais do que o normal.

DIOGO — Então bota muito nisso.

OS DOIS RIEM. HEITOR ENTRA.

HEITOR — Bárbara?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 21

BÁRBARA — Oi paizinho.

HEITOR — Lá vem facada.

HEITOR BEIJA A FILHA.

BÁRBARA — Olha só o juízo que ele faz de mim.

HEITOR — Te conheço, Bárbara.

HEITOR SE SENTA.

HEITOR — O que você quer. Minha filha?

BÁRBARA — Nada. A gente não precisa acertar as contas da viagem?

HEITOR — Tenho medo disso.

DIOGO — Tio, sobre o avião...

HEITOR — Ah! Já falei com o piloto. Só que você não vai sozinho pra Divinéia.

DIOGO — Não?

HEITOR — Não. O André e a Eduarda vão com você.

DIOGO — Hoje mesmo?

HEITOR — É. Eles já foram se preparar. Eu preciso dos dois lá pros primeiros


levantamentos do projeto.

BÁRBARA — Que projeto?

HEITOR — Coisa da empresa.

BÁRBARA — Uau! Top secret. Sabe que já tá até me dando vontade de ir na


excursão pantaneira?

DIOGO — Por que você não vêm?

HEITOR — A Bárbara em Divinéia? É mais fácil uma galinha ir voando até a lua.
Ela detesta aquilo lá.

BÁRBARA — Detesto mesmo. Muito mato, muito mosquito e muito capiau pro meu
gosto.

HEITOR — Viu?

BÁRBARA — Mas também, eu nunca tive a companhia do meu irmãozinho querido.


Quem sabe não é diferente?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 22

DIOGO — Tá falando sério? Você iria comigo?

BÁRBARA — Até iria. Aproveito pra rever aquele doce de pessoa que é a minha
avó, dona Hilda Maria.

HEITOR — Bárbara, eu não vou deixar você ir até Divinéia pra aborrecer a sua
avó.

BÁRBARA — E quem disse que eu vou pra isso? Não tenho culpa se ela não gosta
de mim e já fica aborrecida só de saber que eu existo. Aliás o que não
aborrece a velhinha? (p) Pronto! Decidi. Eu vou com vocês pra Divinéia.

DIOGO SORRI E HEITOR PARECE FICAR UM POUCO PREOCUPADO.

CORTA PARA:

CENA 20. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA. INTERIOR. MANHÃ

CELESTE ESTÁ FALANDO AO TELEFONE. LEILA A ESPERA JÁ DE PÉ.

CELESTE — A Bárbara também vai? (p) Mas não pode, Heitor! Ela vai acabar
atrapalhando! (p) Não sei. Inventa uma desculpa. Fala que ela não pode
ir. (p) Sei! Eu sei que quando ela coloca uma coisa na cabeça, não têm
quem tire. Se você não pode controlar a sua filha, eu é que não vou
poder. (p) Depois a gente se fala.

CELESTE DESLIGA O TELEFONE.

LEILA — Algum problema?

CELESTE — O de sempre: Bárbara.

LEILA — O que ela aprontou dessa vez?

CELESTE — Por enquanto, nada. Acredita que ela resolveu ir pra Divinéia?

LEILA — E isso não é bom pra você? Fica mais uma temporada longe dela.

CELESTE — Pensando assim é, mas por incrível que pareça, dessa vez eu queria
que ela ficasse aqui. (p) Leila, você conhece algum psicólogo? Um bom
mesmo?

LEILA — Não. Por que?

CELESTE — Nada. Foi uma coisa aqui que me passou pela cabeça. Tô pensando
numa forma de me livrar da Bárbara por um bom tempo.

LEILA RI.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 23

LEILA — Não vai me dizer que você tá pensando em internar ela numa clínica
pra doidos?

CELESTE — Até que era uma boa idéia, mas não é isso não. (p) Deixa pra lá.
Vamos andando que a gente têm um monte de coisa pra fazer.

LEILA E CELESTE SAEM CONVERSANDO.

CORTA PARA:

CENA 21. CAMPO. EXTERIOR. MANHÃ

Sonoplastia: “SINÔNIMOS” – CHITÃOZINHO & XORORÓ E ZÉ RAMALHO. PEDRO


VEM ANDANDO À CAVALO, COM CHICA EM SUA GARUPA. OS DOIS DESCEM E
COMEÇAM A ANDAR DE MÃOS DADAS. BRINCAM, SORRIEM E SE BEIJAM.

CHICA — Ocê num devia de tê me tirado do hospital.

PEDRO — Tira não. Eu nem deixei ocê entra. Lhe raptei na porta.

OS DOIS RIEM E SE BEIJAM.

PEDRO — Eu já lhe devolvo procê ajudar o doutor. Só queria ficá um pouco


assim com ocê. Faz tempo que nós não temos um tempo só pra gente.

CHICA — É verdade. Eu já tava até pensano em arranjá ôtro namorado. Um que


me desse mais valor.

PEDRO — Ocê num seja besta.

OS DOIS SE BEIJAM, DEPOIS PEDRO OLHA BEM NOS OLHOS DE CHICA.

PEDRO — Ocê nunca vai achar alguém que lhe dê valor como eu dou. Nunca vai
achar alguém que ame ocê como eu amo.

NOVAMENTE OS DOIS SE BEIJAM, AGORA MAIS DEMORADAMENTE.

CHICA — Entendi o recado.

PEDRO — Que recado?

CHICA — Que ocê é o único que me agüenta. Que eu sô chata e implicante


demais.

PEDRO — É mais ou menos isso.

CHICA — Ah é?

CHICA, RINDO, COMEÇA A DAR TAPAS NOS BRALOS DE DIOGO, DEPOIS SAI
CORRENDO COM ELE ATRÁS. OS DOIS ACABAM DEITANDO NO MATO.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 24

CHICA — Acho que eu num quero me casa com ocê, não.

PEDRO — Ocê é mentirosa, né Chica?

CHICA — Só se ocê decidi saí daqui e i lá pra capital. E aí a gente vai leva uma
ôtra vida. Não essa vida porquêra de interior.

PEDRO — Num começa, Chica. Pelo amor de Deus, num começa. Ocê sabe
como anda a minha cabeça.

CHICA — E num me chama de Chica! (p) É Débora.

PEDRO — (Sorrindo) Como ocê é vaidosa. Agora cismou com esse raio desse
nome; Débora. Chica! Chica Martins que é o seu nome.

CHICA — (Rindo) Vem cá, seu tonto!

OS DOIS COMEÇAM A SE BEIJAR E ROLAR NO CHÃO. A TOMADA MOSTRA UMA


VISÃO AÉREA DA CENA. CHICA SE LEVANTA E SAI CORRENDO, COM PEDRO ATRÁS
DELA.

CORTA PARA:

CENA 22. DIVINÉIA. PRAÇA. EXTERIOR. MANHÃ

LOURDES, MINERVINA E CORINA VEM ANDANDO PELA RUA E CONVERSANDO.


ENTRAM NO HOSPITAL.

CORTA PARA:

CENA 23. HOSPITAL. SAGUÃO. INTERIOR. MANHÃ

VÁRIAS PESSOAS ESTÃO ESPERANDO PRA SER ATENDIDAS. PADRE LUÍS E BRISA
CONVERSAM COM TODOS, ORGANIZANDO. LOURDES, MINERVINA E CORINA
ENTRAM.

LOURDES — Bom dia pra todos!

PADRE — Bom dia, dona Lourdes.

BRISA — Não vá me dizê que a senhora também tá doente?

LOURDES — Deus que me livre! Eu vim pra ajudar!

BRISA — A senhora?

LOURDES — Claro! Eu, dona Minervina e dona Corina. Não viemos antes porque
eu só fiquei sabendo ontem à noite do que estava acontecendo. Como
estão as coisas?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 25

PADRE — Ruins.

LOURDES — Tão sério assim?

BRISA — Têm gente perigano morrê.

MINERVINA — Meu Deus! Que judiação!

CORINA — E o que é que nós podemos fazer?

LOURDES — É. Nós viemos pra ficar o dia inteiro se for preciso. Viemos pra
colocar a mão na massa.

BRISA — Só quero vê no que isso vai dá.

LOURDES — O que você disse?

BRISA — Nada não. Se ocês querem mesmo ajudá, têm muita coisa pra fazê.

BRISA COMEÇA A MOSTRAR PARA AS TRÊS MULHERES O QUE ELAS DEVEM FAZER.

CORTA PARA:

CENA 24. CASA DE JULIANO. INTERIOR. MANHÃ

JULIANO ESTÁ PENSATIVO. INSERT FLASHBACK: CENA 11/CAPÍTULO 08. NILO E


JULIANO CONVERSANDO NA NOITE DO ASSALTO À FAZENDA.

NILO — Num sei por que, mas eu num tô acreditando nessa sua história. Beato
num devia mentir. Num é pecado?

JULIANO — Eu num tô mentindo, Nilo.

NILO — Acho bom que num teja mesmo. (p) Num vô mais perde tempo aqui
com ocê Juliano. Só vô lhe dizê uma coisa. Ocê nunca me viu aqui,
entendeu? Nunca!

JULIANO NÃO RESPONDE.

NILO — Porque se ocê abri essa boca, num me custa nada fecha ela pra
sempre. E num é só ocê que tem a perdê não. (p) Como eu sei que ocê é
tão ligado em Deus, num deve de tê medo de morrê. Só que ocê num é
sozinho nesse mundo.

JULIANO OLHA APREENSIVO PARA NILO, QUE SORRI.

NILO — Já entendeu o que eu tô querendo dizê, né? É isso memo, velho. Se eu


soube que ocê abriu esse bico, a sua mãe, a índia, e a Brisa, que ocê gosta
como se fosse filha, vão pagá pela sua falação.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 15 Pag.: 26

FIM DO FLASBACK. JULIANO SE LEVANTA E VAI ATÉ A JANELA.

JULIANO — Ocê nunca que foi covarde, Juliano. Vai ficá dispois de velho? Ocê
precisa fazê isso. Precisa ajudá Pedro. Se esse bandido de Nilo Gato
continuá sorto, vai fazê de novo contra ele. (p) Preciso protegê Pedro.

JULIANO APANHA SEU CHAPÉU E SAI.

CORTA PARA:

CENA 25. DIVINÉIA. PRAÇA. EXTERIOR. MANHÃ

LUCENA SAI DO MERCADO DE SALIN E FICA OLHANDO O MOVIMENTO NA PRAÇA


ENQUANTO COME ALGUMA COISA. ELE VÊ JULIANO ATRAVESSANDO A PRAÇA E
SE ENCAMINHANDO PARA A DELEGACIA. PARECE DECIDIDO.

LUCENA — Juliano? Indo pra delegacia? (p) Isso num é bom.

CORTE PARA A PORTA DA DELEGACIA. JULIANO VAI ENTRAR E LUCENA ENTRA NA


FRENTE DELE.

JULIANO — Lucena?

LUCENA — Que bom lhe encontrá, Juliano. Preciso muito falá com ocê.

LUCENA SORRI PARA JULIANO, QUE O OLHA COM EXPRESSÃO SÉRIA. A IMAGEM
CONGELA E SE TRANSFORMA EM UM MURO DE TERRA, QUE VIRA A BARRAGEM DE
UMA HIDRELÉTRICA.

FIM DO CAPÍTULO

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