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Paul Veyne. Como se escreve a história, cap. 3

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Capítulo I11

NEM FACTOS, NEM GEOMETRAL, SOMENTE INTRIGAS

Se tudo o que aconteceu é igualmente digno d a história, esta não se torna um caos? Por que seria um facto mais importante que outros? Valeria a vida de um camponês do Nivernais a de Luís XIV; este barulho de buzinar que sobe neste momento da avenida equivale uma guerra mundial.. . Pode fugir-se à interrogação histórica? É necessário que haja uma escolha em história, para escapar à dispersão em singularidades e a uma indiferença onde tudo se equipara. A resposta é dupla. Em primeiro lugar a história não se interessa pela singularidade dos acontecimentos individuais, mas pela sua especificidade, como se verá no prQximo capítulo; em seguida, os factos, como vamos ver, não existem na mesma quantidade que os grãos de areia. A história não é um determinismo atómico: ela desenrola-se no nosso mundo, onde efectivamente uma guerra mundial tem mais importância do que um concerto de buzinas; a menos que -tudo é possível -esse concerto desencadeie por si próprio uma guerra mundial; porque os «factos, não existem em estado isolado: o historiador encontra-os completamente organizados em conjuntos onde desempenham o papel de causas, fins, ocasiões, acasos, pretextos, etc. A nossa própria existência, em suma, não nos aparece como uma constelação de incidentes atómicos; tem um sentido no seu conjunto, nós compreendemo-la; por que seria a situação do historiador mais kafkiana? A história é feita da mesm a substância que a vida de cada um de nós. Os factos têm portanto uma organização natural, que o historiador encontra perfeitamente delimitada, depois de escolher o seu tema, e que é imutável. O esforço do trabalho histórico consiste precisamente em reencontrar essa organização: causas da Guerra de 1914, objectivos de guerra dos beligerantes, incidente de Sarajevo; os limites da objectividade das explicações históricas reduzem-se em parte ao facto de que cada historiador consegue levar mais ou menos longe a explicação. No interior do tema escolhido, essa or-

ganização dos factos confere-lhes uma importância relativa: na história militar d a Guerra de 1914, um golpe de mão contra os postos avançados importa menos do que uma ofensiva que ocupa com razão os grandes títulos dos jornais; n a própria história militar, Verdun conta mais que a gripe espanhola. Bem entendido que, num a história demográfica, será o inverso. As dificuldades só começariam quando nos lembrássemos de perguntar qual, Verdun ou a gripe, conta mais em absoluto, do ponto de vista da História. Assim, portanto: os factos não existem isoladamente, mas têm ligações objectivas; a escolha de um assunto de história é livre, mas, no interior do assunto escolhido, os factos e as suas ligações são o que são e ninguém poderá aí mudar nada; a verdade histórica não é relativa, nem inacessível como um inefável para além de todos os pontos de vista, como um ageometral~.
A noção da intriga

Os factos não existem isoladamente, no sentido de que o tecido da história é o que chamaremos uma intriga, uma mistura muito humana e muito pouco «cientifica» de causas materiais, de fins e de acasos; numa palavra, uma fatia de vida, que o historiador recorta a seu bel-prazer e onde os factos têm as suas ligações objectivas e a sua importância relativa: a génese da sociedade feudal, a política mediterrânica de Filipe I1 ou simplesmente um episódio dessa política, a revolução de Galileu(1). A palavra intriga tem a vantagem de lembrar que aquilo que o historiador estuda é tão humano como um drama ou um romance, Guerra e Paz ou António e Cleópatrn. Esta intriga não se organiza necessariamente segundo uma ordem cronológica: como um drama interior, ela pode desenvolver-se dum plano a outro; a intriga da revolução galileana porá Galileu em contacto com os quadros de pensamento da física no princípio do século XVII, com as aspirações que ele sentia vagamente em si próprio, com os problemas e referências a moda, platonismo e aristotelismo, etc. A intriga pode então ser corte transversal dos diferentes ritmos temporais, análise espectral: ela será sempre intriga porque será humana, sublunar, porque não será um bocado de deterrninismo. Uma intriga não é um determinismo onde átomos chamados exército prussiano poriam de pernas para o ar átomos chamados exército austríaco; os pormenores adquirem então a importância relativa que o bom seguimento da intriga exige. Se a s intrigas fossem pequenos determinismos, então, quando Bismarck envia o despacho de Ems, o funcionamento do telégrafo seria poi-menoriza-

(1)

Cf. J. Vialatoux, citado por J. Hours, Vnlelzr de IJHistoire,P. U . F.,

p. 69, comparando a lógica da narrativa a lógica da história.

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do com a mesma objectividade que a decisão do chanceler e o historiador teria começado por nos explicar quais os processos biológicos que tinham ocasionado o nascimento do próprio Bismarck. S e os pormenores não tomassem uma importância relativa, então, quando Napoleão dá uma ordem as suas tropas, o historiador explicaria por que lhe obedeciam os soldados (recordamos que Tolstoi põe o problema da história quase nestes termos em Guerra e Paz). É verdade que, se uma só vez os soldados tivessem desobedecido, esse acontecimento teria sido pertinente, porque o curso do drama teria sido mudado. Quais são então os factos que são dignos de suscitar o interesse do historiador? Tudo depende da intriga escolhida; em si mesmo, um facto não é interessante nem deixa de o ser. É interessante para um arqueólogo i r contar o número de penas que existem nas asas da Vitória de Samotrácia? Dará assim provas, ao fazê-lo, dum rigor louvável ou duma supérflua exactidio? É impossível responder, porque o facto njío é nada sem a sua intriga; ele transforma-se em qualquer coisa se fizermos dele o herói ou o fjgurante de um drama de história da arte onde façamos suceder a tendência clássica de não utilizar demasiadas penas e não fazer floreados, a tendência barroca de se sobrecarregar e de rebuscar o pormenor e o gosto que têm as artes bárbaras de preencher o espaço com elementos decorativos. Façamos notar que, se a nossa intriga de h á bocado não tivesse sido a política internacional de Napoleão, mas sim o Grande Exército, o seu moral e as suas atitudes, a tradicional obediência dos veteranos teria sido um acontecimento pertinente e teríamos de dizer porquê. Simplesmente é difícil adicionar as intrigas e totalizá-1as: ou Nero é o nosso herói e é-lhe somente preciso dizer ~ G u a r das, obedeçam-me~, ou entiio os guardas são os nossos heróis e escreveremos uma outra tragédia; n a história, como no teatro, mostrar tudo é impossível, não porque seriam necessárias muitas páginas, mas porque não existe facto histórico elementar, átomo acontecimental. Se se deixam de ver os acontecimentos n a s suas intrigas, somos aspirados pelo turbilhão do infinitesimal. Os arqueólogos sabem-no bem: se descobrir um baixo-relevo um pouco apagado que representa uma cena cuja significação lhe escapa, como a melhor fotografia não pode substituir uma boa descrição, empreende a tarefa de a descrever. Mas que pormenores é preciso mencionar, que outros deixar passar em silêncio? Não pode dizê-lo, pois não compreende o que fazem as figuras da cena. E portanto é previsível que tal pormenor, insignificante aos seus olhos, forneça a chave da cena a um colega mais engenhoso: essa ligeira inflexão na extremidade duma espécie de cilindro que toma por um bastáo fá-lo-& pensar numa serpente; é mesmo uma serpente que a fi y r a contém, a qual é então um génio... Então, no interesse d a ciência, descrever tudo? Experimente-

-Nãohá facto atómico.

A infelicidade é que, mesmo que recusemos tratar o acontecimento histórico como um comportamento (behaviour) despersonalizado, mesmo que não fechemos os olhos para não ver a sua significação, ainda não chegamos ao fim das nossas penas: também não encontraremos o átomo acontecimental nesta via e seremos aspirados por dois turbilhões em yez de um só. Um acontecimento, seja ele qual for, implica um contexto, dado que tem um sentido; ele remete para uma intriga da qual é um episódio, ou melhor para um número infinito de intrigas; inversamente, pode sempre dividir-se um acontecimento em acontecimentos mais pequenos. Qual poderá ser um acontecimento? A abertura alemã para Sedan em 1940? É toda uma intriga estratégica, táctica, administrativa, psicológica, etc. O átomo do facto histórico seria a conduta de cada soldado dos dois exércitos, um por um? Grande labor é compreender um homem, um só. Ou cada um dos gestos de cada soldado, cada um dos seus passos? Mas um passo não é um comportamento (behaviour) espacio-temporal, registável através de um engenhoso dispositivo: tem um sentido, um soldado não caminha como qualquer pessoa, anda a passo, a passo de ganso; F'rederico I1 não está longe, nem Frederico Guilherme I... Que escolher? Que drama terá a nossa preferência? Não se pode falar de tudo, não se pode contar a vida de todos os peões que se cruzam na rua. É impossível descrever uma totalidade e toda a descrição é selectiva; o historiador não revoga nunca o mapa do acontecimentaf, ele pode quando muito multiplicar os itinerários que o atravessam. Como o escrevia não h á muito tempo F. von Hayek(Z), a linguagem ilude quem fala da Revolução Francesa ou da Guerra dos Cem Anos como de unidades naturais, o que nos leva a crer que o primeiro passo no estudo destes acontecimentos deve ser o de ir ver ao que eles se assemelham, como fazemos quando ouvimos falar duma pedra ou dum animal; o objecto de estudo não é nunca a totalidade de todos os fenómenos observáveis num tempo e num meio dados, mas sempre alguns dos seus aspectos que sãg'escolhidos; consoante a pergunta que fazemos, a mesma situação espacio-temporal pode conter um certo número de diferentes objectos de estudo; Hayek acrescenta que, segundo essas perguntas, o que nós temos hábito de considerar como um acontecimento histórico único pode explodir numa multidão de objectos de conhecimento; é a confusão sobre este ponto que é principalmente responsável pela doutrina, bastante em voga hoje, segundo a qual todo o conhecimento histórico é necessariamente relativo, determinado pela nossa "situação", e votado à mudança como o passar do tempo; o núcleo de verdade
Scientisme et Sciences Soeiales, trad. Barre, Plon, 1953, pp. 57-60 e 80; cf. K. Popper, fifish-e de I'Historicisme, trad. Rousseau, Plon, 1956, pp. 79-80 e n . l .
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que a asserção contém no que respeita à relatividade do conhecimento histórico é que os historiadores se interessarão em diversos momentos por objectos diferentes, mas não que eles sustentarão opiniões diferentes sobre o mesmo objecton. Acrescentemos que, se um mesmo *acontecimento» pode ser disperso entre várias intrigas, inversamente, os dados pertencentes a categorias heterogéneas - o social, o político, o religioso ... - podem formar um mesmo acontecimento; é mesmo um caso muito frequente; a maioria dos acontecimentos são «factos sociais totais» no sentido de Marcel Mauss; a bem dizer, a teoria do facto social total quer dizer muito simplesmente que as nossas categorias tradicionais mutilam a realidade. De facto, ocorre-me ao espírito um pequeno enigma: por que é tão frequente questionar sobre a decomposição do objecto histórico, sobre a crise da objectividade em história, enquanto se fala tão raramente duma decomposição do objecto geográfico e duma subjectividade d a geografia? E o <(factogeográfico total.? É todavia claro que uma região não tem mais existência objectiva do que um acontecimento; nós decompomo-lo à nossa maneira (um Toynbee d a geografia decretaria que há quarenta e três ou cento e dezanove ((regiões»sobre o globo e que todas ~ s h o u l d be regarded as philosophically equivalent~);ela decompõe-se em dados geológicos, climatológicos, botânicos, etc., etc., e não é menos claro que a região será o que nós fizermos dela pelas perguntas que escolhermos para lhe colocar: atrbuiremos nós importância à questão dos openfield e fá-la-emos? Uma civilização, diz-se, interroga a história a partir dos seus próprios valores e gosto de se mirar no seu passado; se é verdade que as civilizações têm destas necessidades existenciais e que as satisfazem na história, com maior razão ainda as satisfarão n a geografia, que lhes permitirá mirarem-se no seu presente. Admiramenos, por consequência, que não tenha existido um geografismo, como houve um historicismo: é preciso pensar que os geógrafos tinham a mente menos filosófica do que os historiadores, ou que os filósofos tinham a mente mais histórica do que geográfica(3)?
(3) Sobre o problema da divisão da superficie terrestre em regiões geográficas, ver o penetrante artigo de H. Schmitthenner, «Zum Problem der allgemeinen Geographie,,, in Geogrnphia Helveticn, VI, 1 951, partic. pp. 126 e 129 (reproduzido na recolha editada por W. Storkebaum, Zum Gegenstand und zur Methode der Geographie, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1967, col. Wege der Forschung, vol. LVIII, pp. 195-200): .As divisões feitas com base nas diferentes categorias geográficas cruzam-se da maneira mais variada»; a ideia de que existiriam regiões naturais é uma ilusão da percepção ingénua, fixada pela toponomástica. A elaboraçiio conceptual do ge6grafo quebra esta divisão de diversas maneiras, segundo o crit6rio escolhido, e não leva de modo algum a encontrar regiões que seriam desta vez cientificamente fundadas e das quais cada uma formaria u m todo orgânico onde os critérios se sobreporiam (com efeito, através de que milagre se sobreporiam?); querer encontrar as ~verdadcirasnregiões

É evidentemente impossível descrever a totalidade do devir e é preciso escolher; também riso existe uma categoria particular de acontecimentos (a história política, por exemplo) que seria a História e se imporia à nossa escolha. É portanto literalmente verdade afirmar, com Marrou, que toda a historicidade é subjectiva: a escolha de um assunto de história é livre e todos os assuntos têm de direito o mesmo valor; não existe História e muito menos asentido da história.,; o curso dos acontecimentos (puxado por qualquer locomotiva da história verdadeiramente científica) não progride sobre uma linha perfeitamente tragada. O itinerário que o historiador escolhe para descrever o campo acontecimental pode ser livremente escolhido e todos os itinerários são igualmente legítimos (ainda que não sejam igualmente interessantes). Dito isto, a configuração do terreno acontecimental é o que é, e dois historiadores que tenham tomado o mesmo caminho verão o terreno da mesma maneira ou discutirão muito objectivamente o seu desacordo.
Estrutura do campo acontecimental

Os historiadores contam intrigas, que são como outros tantos itinerários que traçam à sua maneira através do muito objectivo campo acontecimental (o qual é divisível até a o infinito e não é
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é (<quererrealizar a quadratiira do círculo». - Este artigo de Schmitthenncr é, por.outro lado, uma excclcnte introdução a uma epistcmologia da geo-

grafia, cujo interesse seria exactamente igual ao de uma epistcmologia da história. Nada de mais curioso que o facto seguinte: enquanto o paralelismo entre a geografia e a história é rigoroso, a epistcmologia da história passa por ser um assunto nobre, patético, filosófico, enquanto a epistemologia da geografxencontraria seguramente poucos leitores. Todavia, os problemas das duas disciplinas são fundamentalmente os mesmos (dissoluçiío do facto, causalidade e interacção, liberdade, relações com as ciências de explicação e de intervenção: geologia ou economia; aspecto prático: política ou ordenamento do território, problemas do conceito, do tipo e do método comparado, aspecto «sublunar»); a desigual popularidadc da história e da geografia moderna e o impacte do romantismo- sobre a nossa versão da história: o que faz da epistemologia da história um assunto «nobre» é a idcia romântica de que a história seria tribunal do mundo (ou se se quiser, é porqueljA não acreditamos na teoria dos climas, onde a geografia comandava a liberdade humana e tinha o mesmo valor de lição de relativismo que atribuimos hoje à história; a etnografia continua esta lição). Decididamente, é preciso eliminar na história a sua aur6ola romântica. - De facto, o Toynbee da geografia existiu, foi o geógrafo Carl Ritter, cujo ponto de partida foi a lição de Herdcr fcf. a Escola Geogriifica Francesa sonhando à margem do Tnbleau de Ia France dc Michclct) e segundo o qual as regiões naturais eram realidades, individualidades criadas por Deus que as deu ao homem, w m a obrigação deste de a s tornar habitáveis em conformidade com o destino que o Criador 1hc havia atribuído. Ritter deixou, por outro lado, uma obra positiva cuja importância e originalidade os geógrafos sublinham.

composto por átomos acontecimentais); nenhum historiador descreve a totalidade deste campo, porque um itinerário deve escolher e não pode passar, por todo o lado; nenhum destes itinerários é o verdadeiro, nem é a História. Enfim, o campo acontecimental não compreende os sítios que iremos visitar e que se chamariam acontecimentos: um acontecimento não é um ser, mas um cruzamento de itinerários possíveis. Consideremos o acontecimento chamado Guerra de 1914, ou antes situemo-nos com mais precisão: a s operações militares e a actividade diplomática; é um itinerário tão bom como qualquer outro. Podemos também ver mais largamente e espraiarm+nos nas zonas vizinhas: a s necessidades militares conduziram a uma intervenção do Estado n a vida económica, suscitando problemas políticos e constitucionais, modificando os costumes, multiplicando o número de enfermeiras e de operários e alterando a condição da mulher ... Eis-nos sobre o itinerário do feminismo, que podemos seguir mais ou menos longe. Alguns itinerários são curtos (a guerra teve pouca influência sobre a evoluçfio da pifitura, salvo erro); o mesmo «facto», que é causa profunda para um itinerário dado, será incidente ou pormenor num outro. Todas estas ligações no campo acontecimental são perfeitamente objectivas. Então, qual será o acontecimento chamado Guerra de 1914? Será o que fizerem dele pela extensão que derem livremente ao conceito de guerra: as operações diplomáticas ou militares, ou uma parte mais ou menos grande dos itinerários que o recortam. Se a visão for bastante ampla a vossa guerra será mesmo um ~ f a c to socia 1 total*. Os acontecimentos não são coisas, objectos consistentes, substâncias; são um corte que operamos livremente na realidade, um agregado de processos onde %em e padecem substâncias em i n b racção, homens e coisas. Os acontecimentos não têm unidade natural; não se pode, como o bom cozinheiro do Phèdre, separá-los segundo as suas articulações verdadeiras, porque eles não as têm. Por muito simples que seja, esta verdade, contudo, só se tornou familiar no fim do século passado e a s u a descoberta produziu um certo choque; falou-se de subjectivismo, de decomposição do objecto histórico, o que apenas se pode explicar pelo carácter muito acontecimental da historiografia até ao século XIX e pela estreiteza da sua visão; havia então uma grande históiia, sobretudo política, que estava consagrada, e havia os acontecimentos *recebidos.. A história não-acontecimental foi uma espécie de telescópio que, fazendo aperceber no céu milhões de estrelas para além daquelas que os astrónomos antigos conheciam, nos fez compreender que a nossa divisão do céu estrelado em constelações era subjectiva. Os acontecimentos não existem portanto com a consistência dum a guitarra ou duma terrina. É, pois, preciso acrescentar que, apesar de tudo o que se diga, eles também não existem a maneira dum <<geometral)>; gostamos de afirmar que existem em si próprios à maneira de um cubo ou de uma pirâmide: não vemos nunca um cubo em todas as suas faces ao mesmo tempo, só temos dele um ponto

de vista parcial; em contrapartida, podemos multiplicar esses pontos de vista. Seria a mesma coisa com os acontecimentos: a sua inacessivel verdade. integraria os inumerhvcis pontos de vista que 'teríamos deles e que teriam todos a sua verdade parcial. Mas não é assim; a assimilação dum acontecimento a um geometral é enganadora e mais perigosa do que cómoda. Que o leitor nos permita em primeiro lugar desenvolver um pouco extensamente um exemplo (o que nos acontecerá duas ou três vezes no decurso deste livro, não mais), a fim de que vejamos em que consiste esta pretensa pluralidade de ponto de vista.
Um exemplo: o evergetismo

Na sociedade romana, a dádiva, ou melhor tudo o que se pode incluir sob este vocábulo vago, tinha um lugar tão grande como nas sociedades de potlatch ou naquelas de fiscalidade redistribuidora e de ajuda ao Terceiro Mundo; pão e circo, distribuição de terras aos veteranos, presentes, aprendas» do imperador aos seus funcionários, bakchich elevado ao nível duma instituição, testamentos em que se distribuem os bens pelos amigos e pelos criados, clientela, banquetes para os quais se convida toda a cidade, mecenato dos notáveis que compõem a classe governante (a importância desse mecenato é tal que, numa cidade helenistico-romana, uma daquelas cujas ruínas os turistas visitam no Norte de Àfrica - ou n a Turquia, a maioria dos monumentos que nós consideraríamos públicos foi oferecida à cidade por um notável; e o caso da maior. parte dos anfiteatros; imaginemos que em França a maior parte das câmaras municipais, das escolas e barragens hidráulicas se devesse a magnificiência dos burgueses do lugar, que, além disso, ofereceriam aos trabalhadores o aperitivo e o cinema). Como interpretar essa massa indigesta de dados onde se misturam as condutas mais heterócli tas (os presentes aos funcionários são o seu vencimento, o mecenato substitui o imposto sobre os rendimentos) e as motivações mais diferenciadas: arrivismo, paternalismo, estilo monárquico, corrupção, generosidade, patriotismo 10cal, gosto por rivalizar, desejo de manter o seu estatuto, submissão à opinião, medo do falatório? Pode ver-se em algumas destas condutas - mesmo somente em algumas - um equivalente antigo da assistência e da caridade(4). Respeitam a esta? intriga o pão gratuito, a s distribuições de terras e as fundações de colónias de povoamento, os festins públicos (onde os pobres encontravam ocasião para comer carne e doces), as pensões dadas aos %clientes>> nas boas casas, o dever de filantropia segundo os estóicos ou, melhor ainda, segundo a moral
(4) H . Bolkestein, Wohltütigkeit und Armenpflege im uorchristlichen Altertu rn, 1939.

popular. É certo que as palavras pobre e caridade são estranhas ao vocabulário pagão: esses são conceitos judaicos e cristãos; os pagãos declaravam agir'por generosidade ou patriotismo e os socorros de assistência eram considerados como sendo destinados a todos os cidadãos: era o povo romano que tinha direito ao trigo público, aos cidadãosw que eram enviados para as colónias de povoamento. Mas não sejamos simplórios dos valores: de facto, só os cidadãos pobres beneficiavam do trigo e das terras; a fraseologia não continuava menos a dissolver a categoria económica dos pobres na universalidade qívica da lei. O universalismo não impedia, portanto, os pobres de serem assistidos; ou melhor alguns pobres, aqueles que podiam dizer-se cidadãos romanos; os outros eram abandonados à miséria e à filantropia privada. As distribuições de trigo não são, portanto, exactamente o que diziam os valores antigos, nem o equivalente da assistência moderna; elas são um acontecimento original. Seria falso acreditar que a assistência pública é uma função que, sob fraseologias enganadoras, se encontra, sempre igual, através da história; os valores não são o espelho das condutas e as condutas não se alinham sobre as funções. São concebíveis outras intrigas, que não se sobrepõem 2i da assistência e põem em cena outras condutas e outras motivações. Por exemplo, o evergetismo: este conceito, inventado por Mamou em 1948, designa a atitude da classe governante, composta por fidalgos do campo que vivem na cidade e para os quais o governo da cidade é um direito e um dever de Estado; também se sentem obrigados a fazer andar a máquina, mesmo à sua custa, e a tornarem-se populares pela sua generosidade; se necessário, o povo sabia chamá-los ao seu dever com uma arruaça. Monumentos, anfiteatros, banquetes públicos; espectáculos de circo e de arena ... A intriga tem então por assunto o mecanismo que fez, da classe governante pagã, a prisioneira dos seus próprios privilégios. Essa classe tinha o dever de se arruinar pela cidade, porque a nobreza obriga. O que constitui uma terceira intriga: a generosidade aristocrática; o nobre distribui pensões aos seus clientes, abarca amigos e criados no seu testamento, constrói um anfiteatro, protege as artes e as ]etras; tornado cristão, faz esmolas, liberta os seus escravos, embeleza a bas~íica, multiplica as obras pias e caridosa s . . . Outros itinerários ainda são concebíveis no mesmo campo acont6cimental: a racionalidade económica na Antiguidade, a utilização do ~excedentes, os .bens colectivosw (como conseguiriam as sociedades antigas os bens que não se podem esperar dum honzo oemnomiczis egoísta e que os modernos esperam principalmente do Estado?X5). Todas estas intrigas, que têm cada uma a sua objectividade, não dizem respeito às mesmas condutas, aos mesmos valores e aos mesmos actores. Nós teríamos mesmo podido ventilar de outro modo todas as condutas de dádiva, dispersá-las, como se faz nonnal(5) A. Wolfelsperger,Les Biens CoUectifs,P. U. F . ,1969.

mente, entre o direito público, a ideologia e os costumes e, por outro lado, passar uma boa parte em silêncio, como demasiado anedóti ca.
Crítica da ideia de geometral

Onde estará, então, o nosso geometral? Se bem que se cruzem, estas diferentes intrigas nada têm de convergente, salvo n a medida em que tudo toca em tudo; essas pretensas perspectivas confluem em inumeráveis pontos de vista (o evergetismo abre perspectivas sobre o Estado-providência, a génese da burocracia, o esbanjamento sumptuario...). Não teríamos mesmo tido a ideia de aproximar todas estas condutas como outros tantos pretensos pontos de vista parciais, se não fosse a existência d a palavra «da&va» e uma impressão geral de exotismo («tudo isso está longe dos nosdb costumes; é potlatch romanon); quando acreditamos num geom'etral, somos vítimas duma armadilha semântica: se em vez de falarmos de dádiva^ por termos lido Mauss, tivéssemos falado, como os Gregos, de gosto de rivalizar e de patriotismo ou como os Romanos, de liberdade e de procura da popularidade, ou ainda, como os Indianos, de presentes cerimoniais, teríamos recortado de modo bastante diverso o campo acontecimental, e o vocabulár50 ter-nos-ia feito imaginar outros geometrais. Então, o «verdadeiro» geometral seria o dos próprios interessados? Não convém estudar uma sociedade a partir dos seus próprios valores? O resultado seria engraçado. Estudar a s condutas duma sociedade é uma coisa, estudar o modo que ela tem de recortar o campo acontecimental é outra; é exacto que os Romanos consideravam as distribuições de trigo como cívicas e não é menos exacto que elas eram de assistencia. Vimos um pouco mais atrás o paradoxo: no que respeita a essas distribuições, a ideia antiga de universalismo cívico não corresponde aos factos e o conceito de evergetismo, que pelo. contrário lhe assenta como uma luva (foi talhado sobre elas), data de 1948. Se se quer, em absoluto, falar de geometral, que se reserve essa palavra para a percepção dum mesmo acontecimento por diferentes testemunhos, por diferentes indivíduos em carne e osso: a batalha de Waterloo vista pela mónada Fabrice, a mónada marechal Ney e uma mónada vivandeira. Quanto ao acontecimento ~ b a talha de Waterloo~,tal como o escreverá um historiador, não é o geometral destas visíies parciais: é uma escolha do que as testemunhas viram, e uma escolha crítica. Porque se, iludido pela palavra geometral, o historiador se contentasse em integrar os testemunhos, encontrar-se-iam entre outros, nessa estranha batalha, vários arrebatamentos romanescos provenientes dum jovem italiano e uma encantadora silhueta de jovem camponesa cuja origem seria idêntica. O historiador recorta nos testemunhos e documentos o acontecimento tal como escolheu fazê-lo ser; é por isso que nunca um acontecimento coincide com o cogito dos seus acto-

res e testemunhas. Poder-se-ão mesmo encontrar, numa batalha de Waterloo, grunhidos e bocejos vindos do cogito dum veterano: será assim porque o historiador terá decretado que a eu=, batalha de Waterloo não será somente da estratégia e comportará também a mentalidade dos combatentes. No fim de contas, parece que em história existe um só autêntico geometral: é a História total, a totalidade de tudo o que se passa. Mas esse geometral não é para nós: só Deus, se existe, que vê uma pirâmide sob todos os ângulos ao mesmo tempo, deve poder contemplar a História .como uma mesma cidade olhada de diferentes ladom (assim se exprime a Monadologie). Há em contrapartida pequenos geometrais que o próprio Deus não' contempla porque só existem em palavras: o potlatch, a Revolução Francesa, a Guerra de 1914. A primeira guerra mundial não seria então mais do que uma palavra? Estuda-se realmente «a Guerra de 1914 e a evolução dos costumes», aa Guerra de 1914 e a economia dirigida.: não é a guerra a integral dessas vistas parciais? Precisamente, é uma totalidade, uma confusão; não é um geometral: não se pode pretender que a subida do feminismo de 1914 a 1918 é a mesma coisa que a estrategia dos ataques frontais vista por outros olhos. Mas e a 16gica da guerra, a terrível lógica totalitária dos conflitos modernos? Mas o que se entende pela palavra guerra? De duas, uma: ou se fala do conflito militar e diplomático, ou então de tudo o que se passou durante o desenrolar desse conflito. As guerras totais são ,.como terríveis tempestades. As tempestades são fenómenos climatéricos e meteorológicos. Quando uma tempeitade se desencadeia sobre um maciço montanhoso, a natureza ressente-se sob.todos os pontos de vista: relevo, glaciares, ravinas, hidrografia, flora, fauna, campo magnético, habitat humano, tudo sofre as consequências ou tenta proteger-se; pode chamar-se tempestade só ao fenómeno meteorológico ou à totalidade das suas consequências, mas, neste segundo caso, é preciso não acreditar que existe um geometral da tempestade que integraria todos os pontos de vista. Falar de geometral é tomar uma visão parcial (todas elas o são) por um ponto de vista sobre a totalidade. Ora os «acontecimentos»não são tota.lidades, mas sim nós de relações: a s únicas totalidades são as palavras, aguerra» ou «dádiva», às quais se atribui livremente uma extRnsão ampla ou restrita. Vale a pena que gastemos assim as nossas munições contra uma inofensiva maneira de falar? Sim, porque ela está n a origem de três ilusões: a da profunddade da história, a da história geral e a da renovação do objecto. A expressão de ponto de vista fez ecoar como harmónicas as de subjectividade e de verdade inacessível: «todos os pontos de vista se equivalem e a verdade escapar-nos-8 sempre, ela é sempre mais profunda*. De facto, o mundo sublunnr nBo tem profundidades em lado nenhum, é somente muito complicado; nós atingimos certamente verdades, mas estas são parciais (é uma das diferenças que separam a história da ciência: esta Últim a atinge também verdades, mas que são provisórias, como vere-

mos mais adiante). Dado que nenhum geometral lhe confere unidade, a distinção entre a s .histórias de .... e a história dita geral é puramente convencional: a história geral não existe como actividade que atingiria resultados específicos; ela limita-se a reunir histórias especiais sob uma mesma encadernação e a dosear o número de páginas que atribuiremos a cada uma segundo teorias pessoais ou o gosto do público; é trabalho de enciclopedista quando é bem feito. Que a colaboração do .generalistm e do especialista seja desejável(6), quem o dúvida? Ela não pode de qualquer modo fazer mal; todavia, não é a colaboração do cego e do paralítico. O generalista pode ter vistas penetrantes, como toda a gente: elas esclarecerão uma *história de...» especializada, mas não operarão uma síntese inconcebível. Terceira ilusão, a da renovacão do objecto; é o paradoxo das origens, que fez correr rios de tinta. <<As origens raramente são bel a s ~ ou , melhor ainda, por definição, chamamos origens ao que é anedótico: a morte de Jesus, simples anedota sob o reinado de T i bério, devia metamorfosear-se rapidamente em acontecimento gigantesco; e quem sabe se, neste momento... O paradoxo só é perturbador se se imagina que existe uma história geral e que um acontecimento, em si, ou é história ou não é. Um historiador que tivesse morrido em fins do reinado de Tibério não teria, sem dúvida, falado muito da paixão de Cristo: a única intriga onde ele a podia fazer entrar era a agitação política e religiosa do povo judeu, onde Cristo desempenhou o seu papel, e desempenha ainda para nós, um papel de simples figurante: é na história do cristianismo que Cristo tem papel de relevo. O significado da sua paixão não mudou com o tempo, somos nós que mudamos de intriga quando passamos da história judaica à do cristianismo; tudo é história, mas só existem histórias parciais.
O nominalismo histórico

Em conclusão, quando Marrou escreve que a história é subjectiva, pode estar-se de acordo com o espírito dessa afirmação e tomá-la por um kterna es aei da epistemologia histórica; na perspectiva deste livro, formularemos a asserção de outra maneira: dado que tudo é histórico, a história será o que escolhermos. Enfim, como o faz notar Marrou, subjectividade não quer dizer arbitrário. Suponhamos que olhamos da nossa janela (o historiador enquanto tal é um homem de gabinete) uma multidão que se manifesta nos Campos Elíseos ou na Praça da República. Primo, isso será um espectá-

(6)

A. Tòynbee, in L'Histoire et ses Interprbtat ws,p. 1 32.

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culo humano e não um behuviour, divisível até ao infinito, de pernas e braços: a história não é cientista, mas sublunar. secundo, não haverá factos elementares porque cada facto só tem sentido na sua intriga e remete para um número infinito de intrigas: uma manifestação pública, uma certa maneira de andar, um episódio da vida pessoal de cada manifestante, etc. Tertio, não é permitido decretar que só a intriga «manifestação política» é digna da História. Quarto, nenhum geometral integrará todas a s intrigas que podemos escolher nesse campo acontecimental. Por tudo isto, a história é subjectiva. Continua a considerar-se que tudo o que as substâncias homens fazem n a rua, seja qual for o modo por que o consideremos, é perfeitamente objectivo(7). Vemos então o que significa, pela pena de Marrou, a palavra subjectividade que levantou protestos (a virtude de Clio não deve ser posta em causa): não «idealismo», mas sim «nominalismo»; ora, como desejamos ter persuadido agora o leitor, nada mais razoável do que uma concepção nominalista da história(8).

(7) Do mesmo modo, os geógrafos mais conscientes da metodologia da sua ciência reconheceram o carácter subjedivo da noção de região (que desempenha em geografia um papel que corresponde exactamente ao de intriga em história), e reagiram contra o Toynbee da geografia, Ritter, que acreditava na realidade das regiões da Terra. Ver para além do extenso artigo de Schmitthenner, citado na antepenúltima nota, as observações de H. Bobek e de H. Carol, publicadas na recolha citada de W. Storkebaum, pp. 293, 305 e 479. Para o corte em regiões do continuum espacial, o geógrafo pode escolher entre inúmeros pontos de vista, e essas regiões não têm fronteiras e existência objectiva. Se pretendermos, como Ritter, encontrar o «verdadeiro» corte em regiões, caimos no insolúvel problema de uma agregação dos pontos de vista e numa mctafisica da individualidade orgânica, ou numa fisionomia da paisagem (sendo a ideia de geometral a forma dulcificada destas superstições). Na prática, a agregação dos pontos de vista pratica-se na confusão, quer porque se salta sub-repticiamente de u m ponto de vista para outro no decurso da exposição, que porque se corta o continuum em função de um ponto de vista escolhido arbitrCiria ou ingenuamente Cqucr ele se inspire na toponomástica quer na geografia administrativa). Em geografia e em história, a ideia de subjectividade, isto 6, a liberdade e igualdade dos pontos de vista, conduz a uma clarificação definitiva e faz soar o'dobre de finados do historicismo. Não se conclui, em contrapartida (e Narrou protesta contra essa confusão), que o que se passou no tempo seja subjectivo; do mesmo modo, nada é mais objectivo do que a superficie terrestre, objecto da geografia. Geografia e história são nominativos: donde a impossibilidade de uma história à Tonybee e de uma geografia à Ritter, para quem regiões ou civilizações existem realmente e não são uma questão de ponto de vista. ( 8 ) H. I. M a m u , De In Connaissance Historique, Seuil, 1954, pp. 63 e scgs., 222 e segs. O livro m e n t e de H.-W. Hedingcr, Sujektit'itat und Geschichtswissenschaft, Grurzdziige einer Historik, Duncker und Humblo, 1970,691 páginas, é muito pouco útil.

O problema da descrição histórica

A concepção nominalista permite tomar conhecimento d a ilusão de enriquecimento do passado, da impressão de que o passado recebe retroactivamente um sentido do futuro, que o futuro triunfo do cristianismo modifica o sentido da vida de Cristo, ou que as obras-primas crescem com a humanidade como uma inscrição gravada na casca cresce com a árvore. Em La Pensée et le Mouvant, Bergson estuda esta aparente acção do futuro sobre o passado; a propósito do conceito do pré-romantismo, escreve: (Se não tivesse havido um Rousseau, um Chateaubriand, um Vigny, um Hugo, não só nunca nos teríamos apercebido, mas ainda não teria havido realmente romantismo nos clássicos de outrora, porque esse romantismo dos clássicos só se realiza pelo recorte nas suas obras de um determinado aspecto, e o recortado, com a sua forma particular, não existia na literatura clássica antes da aparição do romantismo tal como não existe na nuvem que passa o desenho agradável de que o artista se aperceberá organizando a massa amorf'a ao sabor da sua fantasia.» Não não será tomar um corte conceptual por uma forma substancial? Os temas que poderemos qualificar um dia como pré-românticos existiam já, sem esse nome, no classicismo; eles nfio podem introduzir-se l i fora do tempo, porque o próprio Deus não pode fazer com que o que não teve lugar tenha tido lugar; o futuro devia trazer a possibilidade de ligar esses temas ao romantismo, quando houve romantismo, mas ele não os criou; não se cria um facto descobrindo-o. - Não é o romantismo que, no seu tempo, cria retroactivamente o pré-romantismo; é simplesmente o historiador da literatura, em qualquer época que viva. O tempo não desempenha, portanto, qualquer papel no paradoxo bergsoniano, apesar das aparências; o mesmo enriquecimento do objecto aocntece, mas em sentido inverso, quando, no século XX, se pretende descrever o romantismo como um pós-classicismo. O verdadeiro problema que o paradoxo coloca é o do corte histórico, o da constituiçi%odo acontecimento tal como o f&emos ser. Do romantismo, do classicismo, podem escrever-se coisas inúmeráveis, pode descrever-se o classicismo como um pré-romantismo, podem ainda recortar-se nele mil outras intrigas que serão todas elas aceitáveis. Porque não se descreve no absoluto; toda a descriciio implica escolha, muito frequentem%nte inconsciente, dos traços que serão decretados pertinentes. O «facto» é que a Guerra de 1914, por exemplo, pode ser descrito, ou melhor, constituído, de mil maneiras diferentes, que vão de uma crónica dos acontecimentos diplom6ticos e militares, a uma analise das condições sociais, mentais, económicas e estratkgicas que implicam esses acontecimentos, a uma espécie de análise «em profundidade», a uma «sociolog,ria» desse conflito, onde a palavra Verdun pouco será pronunciada, excepto a título de exemplo. Estas duas maneiras extremas não respondem evidentemente ao mesmo interesse, não repousam sobre a mesma escolha de traços perti-

nentes, não se dirigem ao mesmo público. Não se pode, portanto, esquecer nunca, quando se começa a escrever, que a crónica dos acontecimentos não é a única maneira de escrever história e que não constitui mesmo um aspecto indispensável; que é antes uma solução de preguiça. O historiador não está reduzido a fazer desfilar os episódios consagrados, o Mame e Verdun. É preciso que ele sinta, em volta do .facto» (tal como ele nos chega dos documentos do tempo, da memória colectiva e da tradição escolar), mil outras estruturações possiveis, e que esteja pronto a modificar com flexibilidade o nível descritivo, se a oportunidade o exige. A oportuqidade, quer dizer, a coerência interna: todas as opções descritivas são boas; o essencial, uma vez que se escolhe uma, é mantê-la. Vm livro consagrado a Guerra de 1914, e só a ela, deve limitar-se*a ser narrativo e a descrever Verdun; no interior de uma história geral, a Guerra de 1914 deve apenas ser representada pelos seus &aços globais, ~sociológicos~~.
Dificuldade duma síntese coerente

A coerência interna, a agilidade em deslocar o nível descritivo dos «factos», são coisas belas, difíceis e raras; muito frequentemente, um livro de história é fèito por uma justaposição de descrições que não são do mesmo nível. Um livro de história romana exporá os acontecimentos militares de maneira narrativa; os aspectos que opõem a estratégia dos antigos à. dos moderiios (ver a est e respeito Ardant du Picq) e o encadeamento fatal do imperialismo romano, serão considerados em lígaçâo com o pormenor das suas manifestações; a história política ser6 escrita, umas vezes, dia a dia, outra, de longe; e a exposição da vida literaria suporá que o fenómeno literário é sempre e em todo o lado o m'esmo e contentar-se-á em enumerar a s obras e os autores; a vida social pelo contrário será vista bastante por alto. Em suma, o historiador parecerá dirigir-se, quer a um especialista para quem a atmosfera romana, os dados não-acontecimentais são familiares e tao evidente como o eram para os romanos (que se banhavam nela e que só se sentiam ainda interessados pelas notícias do dia); quer a um leitor ignorante e inteligente ao-qual é preciso ensinar tudo, a começar evidentemente pelos omnipresentes dados não-acontecimentais; esse leitor quererá que se esclareçam para ele os traços que distinguem ou aproximam a civilização romana d a civilização contemporânea e de outras grandes civilizaçóes no quadro da história universal; ele dificilmente suportará que lhe entreguemos em desordem, sob a mesma encadernação, páginas de <<sociologia»e páginas de cronologia. Satisfazer um leitor tão exigente em matéria de coerência seria uma tarefa hercúlea; seria preciso um Max Weber ou talvez v6rios. Seria preciso dizer o que distingue Roma das outras civi-

lizaçks vistas à mesma escala, analisar, por exemplo, o que distingue a religião romana das outras religiões; essa análise pressupõe, evidentemente, uma tipologia comparada do fenómeno religioso. Seria necessário fazer o mesmo para a administração, a custa de uma visão sintética e comparativa do fenómeno administrativo na história. A sociedade romana deveria ela própria ser recolocada no estudo comparado das civilizações pré-industriais e essa comparação far-nos-ia tom ar consciência, para Roma, de mil particularidades que tinham permanecido para nós, até a í , implícitas e escondi das no-que&vi den te. Em contrapartida de todas estas coisas belas, o nosso exigente leitor consentiria em desculpar-nos do pormenor das guerras entre César e Pompeu. É, portanto, uma tarefa para fazer tremer os mais intrépidos escrever uma história geral, porque não se trata de resumir os «factos», mas de os constituir de outro modo e de ser coerente com o nível adoptado. Será necessário, para a realizar bem, que não rest e nenhum resíduo de dados acontecimentais não repensados, e que só seriam pertinentes à escala de uma crónica ou de uma monografia. Em suma, o que chamamos, desde Fustel de Coulanges, a «síntese>> histórica não é mais do que esforço de constituição do facto a nível descritivo, que não é necessariamente o do documento. Passar da monografia à história geral não consiste em reter, n a segunda, os únicos traços salientes da primeira, porque, quando se passa de uma para a outra, os traços salientes já não são os mesmos; o que cava o abismo entre a religião republicana e a reli- gião imperial no interior da história romana não é a mesma coisa que o que existe entre a religião romana e as outras religiões. Escrever uma boa história geral seria finalmente uma empresa de uma tal dificuldade que a t é agora não parece que tenha sido conseguida por nenhuma civilização; é que o dia ainda não chegou. Quando, graças aos futuros Weber, os grandes traços diferenciais da história universal se tornarem para nós um tópico familiar, tornaremos a falar deles com mais oportunidade. Enquanto esperamos, três consequências podem ser utilmente deduzidas do nomi nalismo histórico. Em primeiro lugar, toda a história comparada. Pofq-ue os traços, retidos como pertinentes, relativamente àqueles em-que se descreve um facto individual, são universais; daí que, qu&ndo se considera pertinente e interessante a existência de seitas n a religião romana, estamos da mesma forma a dizer que não importa que outra religião apresente ou não a mesma característica; e jnversamente, observar que uma outra religião comporta uma teologia leva a tomar consciência de que a religião romana não a tem e a espantar-se de que ela seja o que é. Em seguida, todo o *facto» está envolvido por uma margem de não-acon tecimental implícito e é essa margem que permite constituí-10 de outro modo para além do que se faz tradicionalmente. Finalmente, dado que o «facto» é aquilo que o fazemos ser, se se tem a flexibilidade exigida, a disciplina com que a história poder& ser com-

parada é a crítica literária; porque sabemo-lo bem que o que os manuais dizem sobre Racine é a menor parte do que poderemos dizer sobre este autor; cem críticos que escrevessem cem livros sobre Racine escrevê-los-iam todos muito diferentes, mais verdadeiros e mais subtis uns do que outros; s ó os críticos pouco dotados se restringiriam à vulgata escolar, aos «factos».

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