A José Saramago, a todos os meninos e às sementes de flores.

A maior flor do mundo

Uma vez, José Saramago escreveu:

“Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...”
Esta é uma história feita a muitas mãos, com as tuas palavras mais as nossas.
Os alunos da Escola Básica 1º Ciclo de Lustosa

A maior flor do mundo
O Zé atravessou o quintal e saiu pelos fundos. Era mais uma manhã que prometia brincadeira. Avistou o rio e correu para lá. Saltou de pedra em pedra encarrapitou-se nos ramos mais baixos e deixou-se escorregar pelas ladeiras de folhas macias. Sempre ao longo do rio. O Zé conhecia bem de mais aquelas terras, metia nelas todos os lugares do mundo, os que ouvia falar e os que inventava. E o dia ia passando, sem horas, como se o tempo fosse feito à sua medida. Chegou como das outras vezes ao pé da oliveira grande. Era o fim do seu espaço. Nunca se tinha aventurado para além dele. Parou, limpou a testa à manga da camisola e pensou: “ vou ou não vou?” E foi. Trocou os passos para a esquerda e desatou numa correria despreocupada. O caminho estreitava e as urtigas faziam-lhe uma comichão danada mas nem por isso desistiu. Atravessou campos com cheiro a erva seca, ora salpicados de campainhas brancas, ora pintados de papoilas vermelhas… Meteu-se pelo bosque de sobreiros em tronco nu e de pinheiros mansos a cheirar a frescura. Enquanto caminhava, apanhava umas bolotas, tirava-lhes a tampa e metia-as à boca para fazer de assobio que imitasse os melros e o rouxinol-bravo. O Zé andou, andou muito e nem as dores que sentia nos pés o impediram de continuar. Tudo o espantava e o que poderia vir depois atiçava-lhe a curiosidade. O seu corpo roçava nas ervas altas que ele ia afastando com os braços em leque e quando encontrava alguma clareira, demorava-se a fazer desenhos na terra, com um pauzito que estivesse ali à mão. Que feliz ia o Zé! Caminhou até esbarrar os olhos numa colina alta e

Subiu a encosta na esperança de encontrar alguma coisa completamente nova. Mas não, apenas uma flor murcha, descaída e sozinha, no meio de tanto nada. Decidiu que tinha de a ajudar. Mas como? Pensou em tudo o que tinha percorrido e lembrou-se do rio. Desceu, andou, correu e atravessou mundos até chegar às margens. Mergulhou as mãos em concha e levou toda a água que pôde, tomando o caminho de volta com muito cuidado. Quando chegou ao cimo, tinha apenas três gotas que deu de beber à flor. Repetiu a viagem vezes sem conta até notar que a flor se erguia forte e cheia de vida, espalhando perfume à sua volta. Ficou assim, parado, num diálogo mudo que só flores e meninos entendem. Depois, cansado, enrolou-se ao pé do caule e adormeceu. Tinha anoitecido e os pais e vizinhos estavam numa aflição. Já tinham corrido as redondezas à procura do miúdo. Foi então que repararam ao longe no que parecia ser uma enorme flor. Nunca a tinham visto antes e apressaram-se para lá. Subiram a encosta em carreirinha e encontraram o Zé, adormecido debaixo de uma pétala. Pegaram nele e quiseram levá-lo ao colo. O menino soltouse das mãos que o seguravam e foi abraçar a flor. O que viram nem dava para acreditar! A flor chorou lágrimas de sementes que o Zé recolheu na palma da mão e depois apertou contra o peito. - Vamos filho, já é tarde! - Atou os dedos à roda do pescoço do pai e deixou-se levar. Ia triste e não quis olhar para trás. Acabava de perceber o que era a saudade. Em silêncio, porque as palavras estorvavam mais que o cansaço, desceram a encosta em procissão. Ao entrar na aldeia, todos se juntaram nas ruas e seguiram atrás do menino, agora levado em ombros como um herói. - Um verdadeiro milagre! Um verdadeiro milagre! – Ouviase à sua passagem. Muitos anos depois nasceu no fundo do quintal uma flor muito grande que encheu o povo de lembranças e foi à sombra dela que o Zé escreveu esta história.