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Enviado por O Globo 3.3.

2014

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7h00m

Luiz Ruffato: um conto inédito
AS VANTAGENS DA MORTE

Ouvi um toc-toc-toc, virei de lado, tentava pegar no sono, calor e pernilongos, ouvi de novo o toc-toc-toc, levantei, escancarei a janela e deparei com meu irmão montado em sua Gärick preta com frisos dourados, segundo andar do prédio do conjunto habitacional onde morava, perguntando, daquele jeito bonachoso, Vai me dei ar muito tempo aqui fora ainda, !iquim" #le pousou dentro do quarto sem dificuldade, abriu o descanso, estacionou a bicicleta num canto, # a$, como vão as coisas" %oi quando notei que eu estava bem mais velho que ele, ele havia morrido com vinte e dois anos, um neg&cio esquisito, chegou da f'brica, trabalhava de torneiro mec(nico na )anufatora, falou que não estava sentindo bem, jogou na cama de roupa e tudo, a mãe ainda perguntou se queria tomar um ch' de boldo, disse que não, queria apenas dormir um pouco, deitou, dormiu, não acordou mais, e fiquei com a sensa*ão de que uma manhã eu ia despertar e l' estaria ele na co+inha tomando café, enfiado no macacão fedendo a gra a, pronto pra ir pra f'brica, mas os anos passaram, ele não levantou mais, # agora reaparece, como não tivessem decorrido trinta anos, a cara ainda com marcas de espinhas, o cabelo emplastrado de br-lcreem, # a$, como vão as coisas" .ntrigado, perguntei como me havia achado em /ão 0aulo, tão grande, ele riu, disse que tinha demorado um tanto pra encontrar, mas que precisava saber not$cias, afinal desde que sa$ de 1ataguases nunca mais ninguém escutou falar de mim, 2espondi que vivia preso na labuta, sabe como é, mas na verdade havia jurado s& voltar quando tivesse juntado dinheiro suficiente pra dei ar todo mundo com inveja, o que nunca aconteceu, #le olhou pra um lado e outro, me eu no guarda-roupa, vasculhou debai o da cama, abriu a gaveta da mesinha, Voc3 não est' muito melhor do que quando a gente morava em 1ataguases, falou, e come*ou a criticar, /e a mãe visse voc3 assim, nessa dificuldade, ia ficar muito triste, 1riar um filho pra isso4, posso até ouvir ela choramingando, 0ra não aborrecer ainda mais, mudei de assunto, perguntei se via muito ela l' onde estavam, e fiquei com medo de perguntar onde estavam, ele respondeu, 2apa+, é uma felicidade aquilo, eu, o pai, a mãe, a vov&, o vov5, e desfilou um monte de nomes de parentes, vi+inhos, colegas e amigos, nem sabia tanta gente assim, e disse que onde estavam era sempre uma festa, 6epois que a gente morre junta todo mundo de novo, e fiquei com vontade de morrer também, pra encontrar com minha mãe, meu pai, sentia tanta falta deles4, e quis saber o que ficavam fa+endo l', e ele e plicou que onde estavam viviam em comunidade, todos se conheciam, o dia inteiro 7 toa, a mãe co+inhava, comida não faltava, e o pai andava pra cima e pra bai o, vestido dentro do terno dele, chapéu na cabe*a, pregando, que desde que virou crente tinha aquela mania de pregar, o dia inteiro s& falava em 8$blia, e na hora do almo*o sentavam todos juntos numa mesa enorme, depois descansavam, porque fa+ia calor l' tanto quanto em 1ataguases, e eu desconfiei então de onde eles estavam, mas a minha mãe, ser'", e ele, meu

continua naquela lida de lavar roupa pra fora. s& aproveitamos os grandes. e o fim era quando meu pai desistia. porque eles eram assim.irmão. falei. porque me viam angustiado. ele disse. agora é viciado em pelada. era meu estado de abandono. vivendo alegre ladeado pelos amigos.aneiro trabalhar num banco. mas limpo. quando come*avam uma discussão levavam até o fim. fiquei pasmo. e gostei da defesa que meu pai fe+ de mim. largado pela mulher. 0ena nada. e ele ficou bravo também. 0arece uma rodovi'ria lotada em véspera de feriado. e pode beber l'". 9$ fiquei bravo. e essa era a grande afli*ão da mãe. 0ra voc3 ver. se parar. meu irmão falou. respondeu. afinal não viam vantagem nenhuma estar ali. pode não encontrar a gente nunca jamais. batendo cabe*a. voc3 é que tem que obedecer. como fosse pagão. rodeava. 9 madrugada ia alta. disse. até que tocou no assunto que verdadeiramente tinha levado ele ali. so+inho. mas pensei também que talve+ por minha causa ele e a mãe deviam até ter brigado. e se eu morresse naquela lonjura. nas brigas na rua. V3 se se en erga4 #u sou mais velho que voc3 agora. 0arou nada. e do meu pai também. perguntei. e riu da pr&pria piada. Olha como voc3 fala comigo4. até cansar e dar o bote final. dali a pouco meu tempo esgotava. e eu. a mando da minha mãe. gostava muito dele. que pena. e ele. humilhado pelos filhos. se voc3 de repente se perde. falei. # a mãe. pu a vida. parecia uma coisa de gato brincando com rato. 9 gente v3 os pei es chegando e mordendo a isca. chipe. :embra dele". . dei ava fugir e pegava de novo. talve+ não conseguisse juntar com eles. gargalhando. gostava dele. 1omo chama o time. daquele jeito. 6ei a disso. mas é titular do nosso time. ela morre. então falei. passa o dia inteiro 7 toa. falei. devia muita coisa a ele. e dei a mão pra ele e ele apertou e a gente se abra*ou. não queria brigar com meu irmão. é uma maravilha. e o bom é que tomou gosto por bola. d' um abra*o nele. 0or qu3". )orreu. tinha até tirado diploma de contador. com certe+a. 9mor e 1ana. a$ ri. e noutro sa$a pro brejo pra ca*ar rã de noite. e perguntavam se não era melhor eu voltar pro lugar de onde vim. e plicou. convers'vamos bai o pra não incomodar os vi+inhos. )as ele nem gostava de futebol. repetiu. di+ que mandei lembran*as. junto com o 1hiquim 2ã+inha. fica de fogo. tive pena. #st' &tima4. que era igual ao rio 0omba. ela morre. e eu pensando no meu rol de contrariedades. Opa4. 1laro. est' bem". embora o pai discordasse di+endo que eu não era bobo. /e parar. =em depois de mortos voc3s dei am de meter na minha vida. rodeava. não joga grandes coisas não. #ntão me contou que a mãe e o pai estavam muito preocupados comigo. sem dinheiro. ele sempre tinha me protegido. tem uns anos j'. e eu sentia cada ve+ mais aumentar minha vontade de morrer. somos sangue do mesmo sangue. dei ava fugir e pegava de novo. ele est' feli+ agora. 0orque sou mais velho que voc3. mas no dia seguinte acorda bon+inho. <uando voltar. até la*ar o sujeito. tchum4 =o caso. rodeava. porque em algumas coisas eles uniam. chipe. o 1hiquim era da minha idade. e ele gabando que não precisava importar com nada. num dia sa$a cedo de casa e ia pescar no rio. perguntei espantado. > uma confusão danada na hora que a gente morre. inventando armadilhas pra pegar rã. não tem ressaca não. ele me falava da bele+a que era a morte. minha fam$lia era assim. e quando é pequeno demais a gente espanta ele. nas ve+es que tinha feito alguma burrada em casa. voc3 tem que obedecer. voc3 bebe e bebe e bebe. atropelado. tinha ido pro 2io de . o que tinha levado ele ali. #le morreu". alterando a vo+. =ão parou não". e então notei que ele ficou confuso.

recolheu o descanso. e falei pro meu irmão que não precisava incomodar não. consente4. e minha mãe gritava.ia pra rua batendo o pé. estava passando por um momento complicado. mas logo logo tudo se ajeitava. parecia tão contente. acho que j' vou indo. estavam todos mortos. derrotado. e ele saiu pedalando céu afora. condenado para sempre 7 solidão e 7 amargura. 8om. . o firmamento j' tinha uma barra avermelhada. e ele. !iquim. meu irmão falou. mas no fundo a verdade é que. mas acho que ele não chegou a ouvir. mesmo que quisesse. é uma grande viagem de volta. meu caminho era sem volta. porque quando ficava nervoso tinha essa mania de mastigar a dentadura. ainda falei. quem cala. sa$a cantarolando hinos da igreja e mastigando a dentadura. ele não merecia. pegou a bicicleta. mas não quis demonstrar isso pra ele não ficar desgostoso. abra*amos novamente. não tinha pra onde ir. porque estava tudo bem. =ão falei". 9parece de ve+ em quando. e notei que a manhã vinha querendo nascer.