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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro

A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo

1

Aposta Imprudente

Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho.
Bravo!... interessante cena! mas certo que desonrosa fora para casa de um estudante de Medicina e já
no sexto ano, a não valer-lhe o adágio antigo: - o hábito não faz o monge.
- Temos discurso!... atenção!... ordem!... gritaram a um tempo três vozes.
- Coisa célebre! acrescentou Leopoldo. Filipe sempre se torna orador depois do jantar...
- E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
- Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no cumprimento
do recém-chegado; naturalmente. Bocage, quando tomava carraspana, descompunha os médicos.
- C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava deitado.
- Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas, por minha vida, que a
carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez
acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém, tendo a cabeça
encapuzada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro do seu robe-de-
chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com
ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romântico
Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda
agora mesmo fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! VV. SS. tomam café!... Ali o senhor
descansa a xícara azul em um pires de porcelana... aquele tem uma chávena com belos lavores dourados,
mas o pires é cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem
xícara... nem pires... aquilo é uma tigela num prato...
- Carraspana!... carraspana!...
- O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traze-me café, ainda que seja no
púcaro em que o coas; pois creio que a não ser a falta de louças, já teu senhor mo teria oferecido.
- Carraspana!... carraspana!...
- Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...
- Carraspana!... carraspana!...
- Não sei de nós quem mostra...
- Carraspana!... carraspana!...
Seguiram-se alguns momentos de silêncio; ficaram os quatro estudantes assim a modo de moças
quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não
deixar concluir uma só proposição, e estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe:
carraspana!...

Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:
- Paz! paz!...
- Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.
- Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio uma hora.
- Está bem, o passado, o passado; protesto não falar mais nunca na carapuça, nem nas cadeiras,
nem no canapé, nem na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...
- Hein?... olha a carraspana.
- Basta! vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant’Ana?
- Por quê?... temos patuscada?... acudiu Leopoldo.
- Minha avó chama-se Ana.
- Ergo!...
- Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco na ilha de...
- Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
- E dois, acudiu Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
- E tu, Augusto?... perguntou Filipe.
- Eu?... eu não conheço tua avó.
- Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.
- Nem eu, acrescentou Leopoldo.
- Não conhecem a avó; mas conhecem o neto, disse Filipe.
- E demais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho de lá ir por
causa da velha.
- Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.
- Sim?... que idade tem?
- Sessenta anos.
- Está fresquinha ainda... Ora... se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!...
- E ela, que possui talvez seus duzentos mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é assim, e
tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu “recebo
a vós” aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas “toma-larguras” da moda.
- Por quem são!... deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais, Augusto?
- Não.
- É uma bonita ilha.
- Não duvido.
- Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.
- Melhor para vocês.
- No domingo, à noite, teremos um baile.
- Estimo que se divirtam.
- Minhas primas vão.
- Não as conheço.
- São bonitas.
- Que me importa?... Deixe-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele: moças!...
moças!... Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.
- É porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
- Ora... o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças bonitas?
- Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a Filipe.
- A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos negros, belos
olhos da mesma cor, e é pálida.

- Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé onde estava
deitado, então ela é pálida?...
- A mais moça tem um ano de menos: loura, de olhos azuis, faces cor-de-rosa... seio de alabastro...
dentes...
- Como se chama?
- Joaquina.
- Ai, meus pecados!... disse Augusto.
- Vejam como Augusto já está enternecido...
- Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
- Sim, é uma moreninha de quatorze anos.
- Moreninha? diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.
- Está sabido... Augusto não relaxa a patuscada.
- É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis, e, assim como vocês, também eu quero
andar em dia com alguns senhores com quem nos é muito preciso estar de contas justas no mês de
novembro.
- Mas a pálida?... a loura?... a moreninha?...
- Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção de belos tipos!...
uma jovem de dezessete anos, pálida... romântica e, portanto, sublime; uma outra, loura... de olhos
azuis... faces cor-de-rosa... e... não sei que mais: enfim, clássica e por isso bela. Por último uma terceira
de quatorze anos... moreninha, que, ou seja, romântica ou clássica, prosaica ou poética, ingênua ou
misteriosa, há de, por força, ser interessante, travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das
três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!...
Está tratado... não há remédio... Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando
alegremente nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar as horas, por
exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página
do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.
- Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a um caloiro, disse Fabrício.
- Bem raciocinado... não tem dúvida, acudiu Filipe; então, conto contigo, Augusto?
- Dou-te palavra... e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
- Sim... já sei... isso dirás tu a ela.
- Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e pensativo, desde que se falou
nas primas de Filipe?...
- Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.
- A pálida?... pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé-de-alferes com a loura.
- E tu, Augusto, quererás porventura reqüestar minha irmã?...
- É possível.
- E de que gostarás mais, da pálida, da loura ou da moreninha?...
- Creio que gostarei, principalmente, de todas.
- Ei-lo aí com a sua mania.
- Augusto é incorrigível.
- Não, é romântico.
- Nem uma coisa nem outra... é um grandíssimo velhaco.
- Não diz o que sente.
- Não sente o que diz.
- Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.
- O que quiserem... Serei incorrigível, romântico ou velhaco, não digo o que sinto não sinto o
que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou, enfim, mau e perigoso e vocês inocentes e anjinhos.

mas sou feliz na minha inconstância. . .. Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de vossa vaidade. que blasonais de firmeza de rochedo.Não.Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitaria a menor. certamente. .. a culpa.Aposto que sim. fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles.. .. exclamaram os três..Todavia.... pelo contrário. verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um “eu vos amo”. escreva-se a aposta.. porque sempre têm damas. Não.. e como ele diz aquilo! . Então vocês querem governar o meu coração?..Ora. se querem..Assevero que não. vós sois tanto ou ainda mais inconstantes que eu!. eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei. minhas belas senhoras da moda! eu vos conheço. eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas todo o tempo que for da vontade dela.. muitas vezes.. .. eu?.. que horror!. . sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis... . Sou inconstante. . duas e três vezes por dia. eu não amarei jamais. ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar. .. é um número de feiticeiras muito limitado. que não é minha. continuou Augusto. mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé. .. e para quê?. que horror!.Está romântico!... meus senhores.. alguma de vós. mas entre nós há sempre uma grande diferença: . .E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de. mentis. e em toda a parte confesso que sou volúvel.Quem?. não é amor. Tens apenas duas primas.Oh!. vós jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas. amante apaixonado quando vos vejo.. E vós. .vós enganais e eu desengano.Que vaidoso!. ah!... porém.. digo a todas o como sou e. às vezes.. ah!. para vê-la lançar-me olhos de ternura. eu nunca amei. rindo às gargalhadas. .... eu não amo ainda. . esta não é má!.. quando me ouve dizer: “sois encantadora”.. pateta. basbaque e namorador?. está romântico!...A alma que Deus me deu.Papel e tinta.Assevero que sim. meus senhores.. lá vai: afirmo... interessantes senhores.Ou. não se ocupa. . Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoques para me . que meu pensamento nunca se ocupou.Pode bem suceder que de ambas.E que todo o resto do ano letivo passarás pela rua de. por causa de uma moça?.. apesar de tal. Eis o que faço.Eu te mostrarei.. esqueço-me de vós duas horas depois de deixar- vos.Juro que não. está dizendo consigo: “ele me adora”..Aposto que não. te digo eu. . inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto. .... certo... loucamente apaixonado de alguma de minhas primas. precisarei melhor o meu programa sentimental. Por minha vida.. porque apaixonando-me tantas vezes não chego nunca a amar uma vez.Ah!.. . nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias.. somente com o fim de vê-la. eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua... eu digo a verdade e vós. numa mesma hora. oh!.. para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo.Que mimos de amor que são as primas deste senhor!. Ah!. exclamou Filipe. se. enquanto eu digo também comigo: “que vaidosa!” . ..Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia... meus pensamentos nunca têm dama.. é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão.. meus caros amigos. . e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?..

Fabrício queria ainda demorar-se e mesmo ficar com Augusto. da “rua de. Ao muito acharão uma estante.Nem almoço.. na sala parlamentar da casa n. escrever-se-á um romance. até duas canastras de roupa. em que qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria.. se até o dia “20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma “só mulher durante quinze dias ou mais. salva a redação. cheia de papéis. de flores e fitinhas misteriosas.encantar. São dez horas da noite. onde pendura a casaca. tendo diante de seus olhos seis ou sete livros e papéis. Augusto está só. sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo. disse Fabrício. sentado junto de sua mesa. a cama. e. . Augusto tinha respondido: Ora vivam! bem basta que eu faça gazeta na aula de partos. um cabide. E. e se ganhares. 2 Fabrício em Apuros A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira. não um sábado como outro qualquer. o seguinte termo: “No dia 20 de julho de 18. Augusto escreveu primeira. Salva a redação. despediram-se amuados.. não vou senão às dez horas do dia. pois. se perderes.. no caso contrário. a mesa onde escreve e que só apresenta de recomendável a gaveta. tenham o direito de te fazer ganhar a aposta. É inútil descrever o quarto de um estudante.. todas as belas. nem camarote. Os sinos tocaram a recolher. . acordaram Filipe e Augusto. o infeliz. pena se toda essa série de coisas que compõem a mobília do estudante. Aí nada se encontra de novo. Leopoldo e Fabrício... é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto. amanhã será sábado. hoje é sexta- feira.Como quiseres.E quem perder?. e um de nós dois.. uma para responder e dez ou doze pela ordem.Pagará a todos nós um almoço no Pharoux. o chapéu. o castiçal. . desse quarto saíram três amigos: Filipe. . 20 de julho de “18. apoiados e aplausos. Trataram da viagem para a ilha de. Já lá se foram quatro dias. que. será o autor. concluiu Filipe. Acordantes: Filipe e Augusto.Bem. meu valente campeão do amor constante! . foi aprovado. será obrigado a escrever um “romance em que tal acontecimento confesse. a vaidade de todas as belas. o moringue. mas um sábado véspera de Sant’Ana. de cartas de família. igual “pena sofrerá o primeiro acordante. segunda e terceira vez o termo da aposta. Sala parlamentar.Qual almoço! acudiu Leopoldo. . Às sete horas. a bengala e a bacia. talvez. mas escreve.” Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo. e entre bravos. . Agora ele está só. também estudantes. E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão. uma. no dia seguinte retiraram-se descontentes.. escreverás a história da tua derrota. mas depois de longa e vigorosa discussão. Meus sentimentos ofendem. onde ele guarda os seus livros. escreverei o triunfo da tua inconstância. depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos. porque Augusto não se quis convencer de que deveria dar um ponto na Clínica para ir com eles ao amanhecer.. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano. caiu tudo por grande maioria. pois...

porque era longo o que tenho de escrever-te. apesar de me ajudares a comer saborosas empadas. estava cuidadoso Augusto. Melhor seria que eu te falasse. e tudo mais que as urgências mandavam que ele fosse. Conto com a tua amizade. “Ora. “Eu então te respondia: “. decerto. enquanto Augusto lia a carta. “Ora. “Estas eram as bases fundamentais do meu sistema. portanto. Ei-la aqui: “Augusto. Felizmente. paixão romântica! Ainda não sentiste como é belo derramar-se a alma toda inteira de um jovem na carta abrasadora que escreve à sua adorada e receber em troca uma alma de moça. nem quitutes nem empadas.. à força. e que foi aprontar o chá.. e as asas dos delírios se desfazem. porém. “Tu sabes.. como eu.. meus beijos por entre os postigos das janelas. Era Rafael. tinha um papel de importância a mandar. acabam de deixar-me. tu exclamavas: . do qual dependerá o meu prazer e sossego na ilha de. derramada toda inteira em suas letras. que. o Sr.. Fabrício quem há de pagar as despesas da Casa de Correção.. Não reqüestar moça endinheirada. cabeleireiro. o poeta por amor não tem. “E tu me tornavas: “. limpa-botas. quitutes apimentados e finos doces. porém tu não ignoras que a semelhante respeito estamos discordes no mais: tu és ultra-romântico e eu ultraclássico. festas e outras impertinências. e nada do moleque. e poupava os meu cobres. que de momento a momento exclamava: . sempre entendi que uma namorada é traste tão essencial ao estudante como o chapéu com que se cobre ou o livro em que estuda.. moço de recados e. Eis o caso. Fingir ciúmes e ficar mal com a namorada em tempo de festas e barracas no Campo.. a saber: não pagava o moleque para me levar recados e dava sossegadamente. O estudante deve considerar o amor como um excitante que desperte e ateie as faculdades de sua alma: pode mesmo amar uma moça feia e estúpida. nem aos bailes para com ela dançar. que trazia uma carta de Fabrício. concordando com algumas de tuas opiniões a respeito de amor. Assim eu não ia ao teatro para vê-la.. Augusto. Pobre do Rafael! que cavaco não dará quando lhe raparem os cabelos! Mas neste momento ouviu-se tropel na escada. O bom Rafael. Não namorar moça de sobrado. Augusto via-se atormentado pela fome.Fabrício! não convém tais amores ao jovem de letras e de espírito. dizia ele.mas Leopoldo e Filipe o levaram consigo.. “2º. e à mercê das trevas. e Rafael. “3º. contanto que sua imaginação lha represente bela e espirituosa.É porque ainda não experimentaste o que nos prepara o que se chama amor platônico. Concordei mesmo algumas vezes em dar batalha a dois e três castelos a um tempo. “Mas tu prosseguias: . Fabrício fez-se acompanhar do moleque que servia Augusto. já tocou a recolher e Rafael está ainda na rua!! Se cai nas unhas de algum beleguim.. porque. Demorei o Rafael. esses derramamentos de alma bastante me assustavam. Eram dez horas da noite. O meu sistema era este: “1º. o seu querido moleque. tanto mais que foram os teus princípios que me levaram aos apuros em que ora me vejo.. com que as belas pagavam por vezes minha assiduidade amantética. tu te lembrarás que bradavas contra o meu proceder. Em amor a imaginação é tudo: é ardendo em chamas.Mas quando as chamas se apagam. que era ao mesmo tempo o seu cozinheiro. não aparecia. E por tal modo livrava-me de pagar doces. que tantas mil vezes se beija. Principio por dizer-te que te vou pedir um favor.Vejam isto!. porque eu me lembro que em patologia se trata mui seriamente dos derramamentos. bem viste as impertinências de Filipe e Leopoldo. como indigno da minha categoria de estudante.. Com justa razão. e. é elevado nas asas de seus delírios que o mancebo se faz poeta por amor.. Daqui tirava eu dois proveitos. Que macistas!. não é.

“. nova desgraça! Mal me tinha levantado.Não tenho que lhe dar satisfações. ou despertar ao momento de ver-se em sonhos sorvendo- lhe nos lábios voluptuosos beijos! “Ainda estes argumentos me não convenciam suficientemente. da casaca o meu lenço branco. sem olhar para o meu lado. nada. e não podia ser de outro modo..Isto só pelo diabo!. Saí fora do meu elemento e espichei-me completamente. “Porém. ó infortúnio!. porque eu pensava: 1º. gemendo e fazendo uma careta horrível. “. que essa imagem que vela no pensamento não será a melhor companhia possível para um estudante. nunca viraste as costas nem fizeste má cara a esses despojos de minhas batalhas. Sr. consegui entrar antes de todos. Augusto de uma figa!. doces. vi-o descer e subir depois. Pedro de Alcântara... Porém. assoei-me. “Mas enfim. saí para fora do teatro. vi uma que olhava para o meu lado. levantou-se o pano. erguendo-me para tornar-me mais saliente. Começou a ouverture.. mas a minha má fortuna ou... Beijos por beijos antes os reais que os sonhados. “Confesso que deveria ter notado que a minha paixão começava debaixo de maus auspícios..Agora sim. nem caso.. e dirigindo- me certa noite ao teatro S. pensando no meu amor. brilhante de luzes. Consultei com meus botões como devia principiar e concluí que para portar-me romanticamente deveria namorar alguma moça que estivesse na quarta ordem. os teus maus conselhos me empurravam para diante com força de gigante. sem dizer por quê. então? acudi. do que sorvê-los em sonhos e acordar com água na boca. “. “. Levantei os olhos. e quer saber como?. tomei tabaco. a moça se tinha voltado completamente para a tribuna. no melhor calo do meu pé direito. com a maior força. quando de novo olhei para o camarote. mas que importa? Um romântico não cura dessas futilidades. sim senhor.. Para ser tudo à romântica. parecia que o negócio com ela não era. melhor. queira perdoar!. apesar de romântico.Pois que lhe fiz eu. eu ia entabular um namoro romântico. principalmente quando ela lhe velasse na véspera de alguma sabatina. ainda o lustre monstro não estava aceso.. porque eu sempre acho muito mais apreciável sorver os beijos voluptuosos por entre os postigos de uma janela.O senhor está doido?! disse-me. retorquiu-me o sujeito. eu quis experimentar o amor platônico... pois. “.Tem. etc. o meu companheiro da esquerda.E depois. fui o primeiro a sentar-me.. Veio o pano finalmente abaixo. exclamei eu involuntariamente. ela voltou os olhos para a cena. Estou em apuros. no meu eles aparecem e tu. 2º.. maldita curiosidade de rapaz!. “.. “ E dando mil desculpas ao homem. respondi-lhe amuado. para fingir que enxugava o suor. tossi. vi se irem enchendo os camarotes. batendo com o pé com toda a força. começará o nosso telégrafo a trabalhar. empinando-se.Ó senhor. “.. disse eu comigo mesmo. Tempo perdido. “Além disto no teu sistema nunca se fala em empadas. espirrei e a pequena. que tinha estado no vácuo.. petiscos. Tirei.. disse entre mim: esta noite hei de entabular um namoro romântico. “Eis o caso: “Nessa noite fui para o superior. “Entabulei-o.. e então pensei comigo mesmo: seja aquela!. alterando-me. . “. quando a moça ergueu-se por sua vez e retirou- se para dentro do camarote. Não sei se é bonita ou feia. como é sublime deitar-se o estudante no solitário leito e ver-se acompanhado pela imagem da bela que lhe vela no pensamento. achei-me no mundo: o teatro estava cheio.Acaba de pisar-me. finalmente eu. abanar-me e enfim fazer todas essas macaquices que eu ainda ignorava que estavam condenadas pelo romantismo. Representou-se o primeiro ato.... “. nem por que não ... entabulei-o..

“.São duas filhas de uma senhora viúva.Sim. lembrava-me que nesse camarote a minha querida era a única que se achava vestida de branco e. grandes..Sim. fiel como um cão e vivo como um gato.Hás de levar um recado à Sra. “.. escravo de meu senhor.Tobias. que fariam inveja a uma baiana.Não precisa dizer duas vezes. o recado de meu senhor é uma carambola que. D. senhor. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje ou só amanhã... lesto e agudo. “.Mais pronto. vivíssimos e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo. etc. tendo dois olhos belos. batendo no meu ouvido. se fores fiel. “O maldito do crioulo era um clássico a falar português..Como se chama a senhora que está vestida de branco? “.Pronto. “. “Ah! maldito crioulo. a inquietação e rapidez de movimento de um macaco e terás feito idéia desse diabo de azeviche. vai logo bater no da senhora D. “. respondeu-me o moleque. A porta estava cerrada. “. meus parceiros me chamam orelha de cesto. rindo-se desavergonhadamente. ao lado esquerdo de quem vai para cima. “. pé de coelho e boca de taramela. eu já sei o que se diz nessas ocasiões: o discurso fica por minha conta..Como te chamas? “. “. n. subi para os camarotes e fui dar comigo no corredor da quarta ordem. Vá dizendo o que quiser que em menos de dez minutos minha senhora sabe tudo. D.º.º 3 (número simbólico. Bastou um movimento de olhos para que o Tobias viesse a mim. que se chama Tobias... etc.. “.E amanhã. perguntei. “.. e que se chama a Ilma. Sra. Nestas coisas Tobias não cochila: com licença de meu senhor. Ora. E. Eu continuei. Levei-o para um canto..Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última cadeira da 4.ª coluna da superior. um crioulinho de 16 anos. que assoar-se com um lenço de seda verde. que também aí está. D. “. espera-me na porta de tua casa. tem 17 anos e morre por casar. O meu defunto senhor era negociante e o pai de minha senhora é padre.. Augusto. “.Hoje.A Sra. ao anoitecer.. lesto e agudo. Joana.. crioulo de qualidades. “Eu tinha visto junto à porta n. e elas moram na rua de. “.. cabalístico e fatal! repara que em tudo segui o romantismo). etc. ocultando duas ordens de finos e claros dentes.Eu recompensar-te-ei. eu cá sou doutor nisto. meu senhor!. passei junto do camarote de minhas atenções: era o n. todo vestido de branco. eu podia muito bem mandar-lhe um recado pelo qual me fizesse conhecido. Joaninha. mais lesto e mais agudo! .E quem são?. agora mesmo. Joana. Luísa. “. “. pois..Quem te disse isso?.. “. a cuja porta te encostavas?. estava-lhe o todo dizendo para o que servia!. “. abracei-me com ele. avancei para o moleque.Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas. repetiu de novo o crioulo.Tu pertences àquelas senhoras que estão no camarote. “.. “Não me foi preciso chamá-lo.. “... com lábios grossos e de nácar. com uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim envernizado.. se acha loucamente apaixonado de sua beleza. quando ela para ele olhar. senhor. fui ao fim do corredor e voltei de novo: um pensamento esquisito e singular acabava de me brilhar na mente. “Sem pensar no que fazia. me respondeu ele.. “. Pinta na tua imaginação.. etc. pois.Pois toma sentido..Ouve. dá-lhe a ligeireza.Pronto.º 3 um moleque com todas as aparências de ser belíssimo cravo- da-índia.

Esta despesa arrasa-me a mesada terrivelmente. de custo de 400rs. apesar dos tratos que dou à minha imaginação. Aqui vês bem. prima de Filipe.Por agora toma estes cobres. Sr.º Devo tratá-la por “minha linda prima” e ela a mim por “querido primo”. “Finalmente. meu senhor! prontíssimo. por último.º Devo ir ao teatro sempre que ela for. a chamariam “pálida”. há três meses que não como empadas e. “Para compreenderes bem o quanto sofro. hoje é ao contrário: sublime languidez!.. mas que importa isso. “Entende que todos os dias lhe devo dar dinheiro e persegue-me de maneira tal que. com seu romantismo a que me não posso acomodar. “Finalmente. D. o negócio adiantou-se. o que. quatro cartas por semana. dou às coisas o seu verdadeiro nome. pelo menos. com antecedência. a despeito da minha má vontade. cum quibus. O que sei é que antes de começar o 2. As que o foram chamam-se agora espirituosas!. Joana leu o Faublas. Daqui concluo que a Sra. apesar de minhas economias. e hoje. Boa recomendação!.º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço ou manta da cor da fita que ela porá em seu vestido ou no cabelo. “1. Vocês.. ando sempre com as algibeiras a tocar matinas. “5. tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante entaladela... a chamarei sempre “amarela”. não posso deixar de convencer-me que a minha “linda prima” é. se torna sobretudo insofrível é o despotismo que exerce sobre mim o brejeiro do Tobias. e então comecei a pôr em ação toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro estava entabulado. Já não tenho tempo de exercer o meu classismo. grandes e excelentes parladores. D.. “E eu. ela quer governar os meus cabelos. porém. pois não há pela vizinhança gordurento caixeirinho que se não ria nas minhas barbas quatro vezes por dia. Já não há mais meninas importunas e vaidosas. se eu não posso pagar-lhe com gratidão?. lestíssimo e agudíssimo. Ora. Joana. “Malditos românticos. principia a minha vergonha. concedendo-me apenas amiudados e curiosos olhares. os reformadores dizem: menina simpática!. e cor dos meus lenços. que têm crismado tudo e trocado em seu crismar os nomes que melhor exprimem as idéias”!. “. os botins que calço. amarela e feia como uma convalescente de febres perniciosas. o mesmo a respeito de bailes. Eu. “Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram com a tal paixão romântica que me aconselhaste.. “3.. portanto. porque eu não sei onde vá buscar mais cruzados para comprar papel. que sou clássico em corpo e alma e que. Isto é um despotismo detestável!.Ó. a folha. D. e.. desenxabimento.º ato já eu havia feito o sinal. Joana. “Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar a sua comissão... O que outrora se chamava em bom português. Para maior martírio a minha querida é a Sra. em papel bordado.. são péssimos financeiros . “4... nem mais asneiras para lhe escrever. aqui para nós. pois o Tobias não me sai da porta.. e no meio de seus caprichos de menina dá-me provas do mais constante e desvelado amor. o que sucede quatro vezes no mês.º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã e duas de tarde. “O Tobias está no caso de muitos que. me é participado. “. porque era isto falta de patriotismo. embora a moça não correspondesse aos sinais do meu telégrafo. ordenou-me que não fumasse charutos de Havana nem de Manilha. mostra amar-me com extremo. aqui te escrevo alguma das principais exigências da minha amada romântica. em consideração ao belo sexo. escorrego-lhe. antigamente. O que numa moça era. isto é detestável.. a minha bengala. moça feia. para ver-me livre dele.. “O que. a minha casaca.º Devo escrever-lhe. A escola dos românticos reformou tudo isso. isso era já muito para quem a via pela primeira vez. as minhas barbas. dir-te-ei. Augusto dos meus pecados.. “2..

muita gente. De tudo isto se conclui que a avó de Filipe tem no lado direito de sua casa um pomar e do esquerdo um jardim. Augusto pagou.. que é mais importante. e. ciumento e delirante. como teu amigo e colega de coração . estimáveis. que sempre depois de longo discurso me apresenta um déficit e pede-me um crédito suplementar. Embarcando às dez horas. Augusto.. o curioso estudante recém-chegado examinava o lindo quadro que a seus olhos tinha e de que. despediu o seu bateleiro. Como eles fazem ao país. “Ela vai passar conosco dois dias na ilha de. graças à eterna primavera desta nossa boa terra de Santa Cruz. mas escolhida. o meu plano: ele é de simples compreensão e de fácil execução. ou pelo aspecto curioso que oferecem.E esta!. e deitou-se para ler mais à vontade o Jornal do Commercio. a tal minha querida. Leopoldo?. pulando fora da tal paixão romântica.. que o vinha chamar para tomar chá. Soprava vento fresco e. daremos idéia em duas palavras. Ainda que ela não te corresponda. farei um discurso forte e eloqüente contra a inconstância e volubilidade das mulheres. E no meio de meus transportes dou-me por despeitado de meus amores com ela e. talvez que te trate com rispidez e que te dirija alguma graça pesada... Lembra-te que foram os teus conselhos que me obrigaram a experimentar uma paixão romântica.” .. à minha vista. ouvindo a voz de Leopoldo que o esperava na praia. exclamou Augusto. sempre brilhantes e viçosas. Leopoldo deu-lhe o braço. “Eis aqui.Bem-vindo sejas. . se não fosse interrompido pelo Rafael. A ilha de. pois que é o teu costume. conto que me ajudarás no que te vou propor.. A que fica à mão direita é mais notável ainda fechada do lado do mar por uma longa fila de rochedos e no interior da ilha por negras grades de ferro está adornada de mil flores. das quais a que fica à esquerda de quem desembarca está simetricamente coberta de belos arvoredos. correrei a apertar-te contra meu peito. ou pelos frutos de que se carregam. . meu Augusto. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro dela. “Eu preciso de um pretexto mais ou menos razoável para descartar-me da tal “pálida”. e começará então o meu. Aí podemos levar a efeito. como por dever. muito antes do que supunha.. não só por amizade. talvez.Não: pouca. Rir-se-ia a noite inteira. principalmente.. Nisto se limita o teu trabalho. A avenida por onde iam os estudantes a divide em duas metades. Joaninha. “Ver-me-ás enfadado. o lamentável estado em que me acho. e com facilidade.. faz Tobias comigo. 3 Manhã de Sábado Seriam pouco mais ou menos onze horas da manhã. E esta!.. o nosso estudante desatou a rir como um doido. orlada de coqueiros. para não ser prolixo. . aproveitarei o primeiro instante em que estiver a sós com D.. Desesperado.Fabrício. “Tu deverás reqüestar.... “Eu então irei às nuvens. depondo a carta sobre a mesa e sorvendo uma boa pitada de rapé de Lisboa. Acabando de sorver a pitada. se dirigiam à elegante casa. . quando o batelão de Augusto abordou à ilha de. que se foi remando e cantando com os seus companheiros. enquanto por uma bela avenida. Não te custará muito isso. persegue-a.... Não sabes o que tens perdido. Augusto ergueu-se.Então. que lhes ficava a trinta braças do mar. não farás caso e continuarás com a reqüesta para diante. é tão pitoresca como pequena.na prática. ele designou ao seu palinuro o lugar a que se destinava. portanto. No entanto.

Em suma. A sala estava ornada com boa dúzia de jovens interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de flores ou o céu semeado de estrelas. Estas observações que aqui vamos oferecendo fez também Augusto consigo mesmo. vamos adiante. A Sra. pelos aromas que exala. outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma elegante sala de cinqüenta palmos em quadro. D. ela dispensa tudo quanto se poderia dizer sobre seu físico. O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que ela é. durante o tempo que gastou em endereçar seus cumprimentos e dizer todas essas coisas muito banais e já muito . achou- lhe mesmo muita harmonia nos cabelos louros. desfolhou um lindo pendão de rosas. assim como Filipe. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes cadeiras. Em consideração a seus sessenta anos. espelhos que brilham. irmã de Filipe. com janelas e portas para o pomar e jardim. Quinquina tem as feições mais regulares. maçando-o duas e três horas com enfadonhas e intermináveis dissertações. inconseqüente e às vezes engraçada. é uma senhora de espírito e alguma instrução. Augusto apresentou-se. este o nome da avó de Filipe. e ainda mais: seu afeto para com essa menina não se limita à doçura da amizade. cheia de bondade e de agrado. Ao lado da Sra. depois que Augusto entrou na sala: é a irmã de Filipe. viva. deu um beliscão em Filipe e Augusto a surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa. porém isso ainda mais lhe sanciona a propriedade da comparação. cujos nomes se adivinharão facilmente: uma é a pálida. para acabar de uma vez esta já longa conta das senhoras que se achavam na sala. Não há remédio senão dizer alguma coisa sobre elas. e. Ana estavam duas jovens. confessando. Verdade seja que. para Augusto. porém. se entretém e se há de entreter em admirar a graça e encantos de duas filhas que consigo trouxera. Além destas. Enfim. no interior meia dúzia de quartos. D.. ela recebe a todos com o sorriso nos lábios. achado no seio da melhor das avós toda a ternura de sua extremosa mãe. Pois bem. curiosa e em algumas ocasiões impertinente. fazendo frente para o mar e em toda a extensão da sala e dos gabinetes. Filipe apresentou o seu amigo a sua digna avó e a todas as outras pessoas que aí se achavam. derramou no chapéu de Leopoldo mais de duas onças d’água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos aparadores. havia também algumas rugosas representantes do tempo passado. uma varanda terminada em arcos. a inocente criança tinha. supondo que lhe têm feito grande honra e dado maior prazer... algumas outras senhoras aí estavam. Ana. depois uma alegre e longa sala de jantar. Imagine-se mais. sentam-no ao pé de si. fez chorar uma criança. Joaninha fizeram-lhe uma brecha terrível no coração. está em pintar aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez. e pretende tratá-la com seriedade e estudo. quando apenas contava oito anos. aos lados dela dois gabinetes proporcionalmente espaçosos. entre esses orgulhos da idade presente. e outra. o do lado esquerdo. Toda a dificuldade. está dizendo que é gabinete de moças. que pertence ao gênero daquelas que nas sociedades agarram num pobre homem. e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos dar. Perdendo seus pais. dos quais um. porque Filipe acaba de receber Augusto com todas as demonstrações de sincero prazer e o faz entrar imediatamente para a sala. seu coração se pode talvez dizer o templo da amizade cujo mais nobre altar é exclusivamente consagrado à querida neta. E fizemos muito bem em concluir depressa. Não vale a pena!. vai ao ardor da paixão. Agora. que só se entreteve. diremos que aí se notavam também duas velhas amigas da dona da casa: uma. caprichosa e mesmo feia. e um não sei quê. que insinua. que as negras madeixas e rosto romântico de D. São as primas de Filipe. todavia. valendo bem a pena de se olhar para elas meia hora sem pestanejar. porque há muitas rosas murchas nos jardins e estrelas quase obscuras no firmamento. para nem desgostar a dona da casa. Quanto aos homens. D. olhos azuis e faces coradas.. mas. finalmente o largam. nem se sujeitar a sofrer as impertinências e travessuras que a todo momento a vê praticar com os outros. a outra a loura. Ambas são bonitinhas. nem o que não é: acha-a estouvada.

Violante são terrivelmente feios e os do estudante não se podem demorar por muito tempo sobre espelho de tal qualidade. mostrando com o dedo carregado de anéis um lugar livre junto dela. .. porque os de D.Muito que dizer?. Falou-lhe sobre a sua mocidade.Com licença de V. Violante. .Eu. .. balbuciou o estudante automaticamente. se um cego as ouvisse. ... seus rendimentos. que mostrava dois únicos dentes que lhe restavam. minha senhora.. batendo levemente com o leque no ombro do estudante. porém. ele voltou o rosto com vistas de achar uma cadeira desocupada junto de alguma daquelas moças. Augusto olhou fixamente para ela e conheceu que na verdade se havia adiantado muito. querem ver que a velha está namorada de mim?!! e recuou sua cadeira meio palmo para longe dela.Já cura? ..Não fuja.. disse ela. Violante sempre tinha novas coisas a dizer. Violante. eu quero dizer-lhe coisas que não é preciso que os outros ouçam.. não fuja. D. S. sua esterilidade.. Finalmente parau um instante. Não havia remédio: era preciso sofrer. como fulminado por um raio..Nada! disse a velha. que lhe está pesando demais o sacrifício de perder alguns momentos conversando com uma velha. estendeu a mão e chamou-o. a segunda das duas velhas. falou mais que um deputado da oposição....E então? pensou de novo Augusto. quando se discute o voto de graças. Ah!. Violante era horrivelmente horrenda.Olhem como ele é lisonjeiro!. mas D.. ó monfina do pobre estudante!. deixando-se cair sobre a cadeira. seu papagaio e até suas galinhas..Não.. Concluída essa verdadeira maçada e reparando que todos tratavam de conversar. S. exclamou a velha. rindo-se com tão particular estudo.Ah! vê-se que a sua delicadeza iguala à sua bondade. eu ainda tenho muito que dizer-lhe. .. porque me faz bem cheio de rudeza e mau gosto. .. fiz ou não uma galante conquista?.O senhor está incomodado?. Ó itempestivo castigo dos seus maiores pecados!. prosseguiu D.. Três vezes tentou levantar-se. arrastando por sua vez a cadeira até encostá-la à do estudante. A conversação continuou por uma boa hora. o martírio que se lhe oferecia.sediças.. . . . para melhor passar as horas e esperar as do jantar. as palavras de V. começar novo ataque de maçada. eu estou às ordens de V.. Augusto quis aproveitar-se da intermitência: estava desesperado e pela quarta vez ergueu-se.O senhor está no quinto ano de Medicina?. Augusto sentou-se ao pé da Sra. com obrigado sorrir nos lábios e indiferença no coração. D. pensou Augusto consigo. detendo-o e apertando-lhe a mão. Ela lançou-lhe um olhar de bondade e proteção e ele abaixou os olhos. seus pais. com olhos enxutos e o prazer na face. e acompanhando esta ação com uma terrível olhadura.Oh. E suava suores frios.. com certo ar de ironia. Violante.... com toda a ingenuidade.. seus amores. . .Sim. porque.Pois eu desejava referir-lhe certos incômodos que sofro. para que o senhor me dissesse que .. . . certo que não faria idéia do vigor e da. e com sessenta anos de idade apresentava um carão capaz de desmamar a mais emperreada criança. S.. o tédio do estudante chegou a ponto de fazê-lo arrepender-se de ter vindo à ilha de.Ó minha senhora! respondeu o moço. de quem há pouco se tratou. seu tempo. . continuou ela com um acento meio açucarado e terno. talvez para respirar. e a si.. perguntou D. .. mas que se dizem sempre de parte a parte. .Adivinho. fazem grande injustiça a si própria e a mim também: a mim. castigo de meus pecados!. minha senhora. seu finado marido.

.. eu ainda não sou médico e só no caso de urgente necessidade me atreveria. o senhor não nasceu para médico. Rogo-lhe que me desculpe. sim. que tão a miúdo sofre. . . Daqui e de certos fenômenos que acusava a macista. Ah!. foi uma relação de comemorativos como nunca mais ouvirá o nosso estudante. enquanto ele se via obrigado a ouvir a mais insuportável de todas as histórias. . calafrios.Hemorróidas.Pois.. Às duas horas e meia a oradora terminou o seu discurso. esperou com paciência que D. quer que lhe prescreva o tratamento conveniente? .Então V. padece de. disse em tom profético: . pela grande vitória que acabava de alcançar. . me diga se conhece a minha enfermidade e o que devo fazer. com toda a sinceridade. concluo e todo o mundo médico concluirá comigo.Pois. afastando-se de D.. Violante.Diga. . disse ele com os seus botões. de sua vida inteira. respondeu com mau humor.Mas ali está um estudante do sexto ano. o estudante ergueu-se. encarou o estudante com despeito. Firme neste propósito.. cuja vizinhança lhe conviesse. minha senhora. Ela soltou uma risada sarcástica.Hemorróidas D.Nada.. etc. dores no ventre. e vendo-o deixá-la. S..moléstia padeço e que tratamento me convém. Violante fizesse ponto final bem determinado a esmagá-la com o peso do seu diagnóstico e ainda mais com o tratamento que tencionava prescrever-lhe... fixando nele seus tristíssimos olhos furta-cores. minha senhora.Este não nasceu para Medicina! Mas Augusto..V. S. perguntou: . tome o meu conselho: outro ofício. . . como tonteiras. Eram duas horas da tarde e ela ainda dava conta de todos os seus costumes.. minha senhora. dizendo: .Agora quero que. certas dificuldades. esse peso dos lombos. E procurava uma cadeira. . a velha já não fez o menor movimento para o demorar. minha senhora.. . me parece que é o único capaz de acertar com a minha enfermidade.. . atendendo tudo quanto ouvi e principalmente a estes últimos incômodos. . mas eu julguei dever dizer o que entendia. nasceu-lhe o desejo de tomar uma vingançazinha. .. por tão insignificante motivo. eu estou pronto para ouvi-la: porém julgo que o tempo e o lugar são poucos oportunos. vou recuperar o tempo perdido. Isto dizendo. Violante fez-se vermelha como um pimentão. há de ser agora mesmo. mostrando-lhe um . A boa da velha falou e tornou a falar. dava graças ao poder do seu diagnóstico e augurava muito bem de seu futuro médico. . horrível como a mais horrível das fúrias.Eu quero o senhor mesmo. pois. e. dá-me licença para falar com toda a sinceridade? .Eu o exijo. S. .Agora.. S.Mas...O que foi que disse.Eu tenho inteira confiança no senhor. enfim.. Às vezes Augusto olhava para seus companheiros e os via alegremente praticando com as belas senhoras que abrilhantavam a sala.. não tenha medo.Menino. que V.Sinto ter desmerecido o agrado de V. A digna hóspede compreendeu perfeitamente os desejos do estudante. senhor?. e de que mais se queixa.

. estava para desarmá-lo o poder indizível da inocência. Augusto gostou da ironia. quem poderá tramar contra o sossego delas?.. ao menos produziu-lhe muito apetite. Violante . minha senhora. Ora. eu o ouvirei mais tarde. minha senhora. .Augusto. . terá de sair de seu empenho com tantas contrariedades. e mal. o lugar e as circunstâncias lhe eram completamente desfavoráveis.Tu me deves dar uma palavra.. Vai exigir que Augusto o ajude a forjar cruel cilada contra uma jovem de dezessete anos... eu estimaria falar-te já. porque Augusto começa a sentir todos os sintomas de apetite devorador. D.Mas.. principalmente do que lhe cheira a maçada.Não. a travessa moreninha correu para fora da sala. D. pois a Sra. Ora. disse a menina erguendo-se. quando Fabrício se chegou a eles e disse a Augusto: . como lhe foram as horas que gozou ao pé da Sra. e já se dispunha a travar conversação com a menina travessa. D. 4 Falta de Condescendência Fabrício acaba de cometer um grave erro e que para ele será de más conseqüências. não é pelo menos louca e repreensível leviandade.. deve medir bem o tempo.. . não é um crime. Fabrício me olhe com maus olhos. . o poderoso magnetismo de vinte olhos belos como o planeta do dia.. as circunstâncias também contrariavam Fabrício. e Fabrício não soube conhecer que o tempo. e ele tem razão! Por último. não quero que o Sr. o Sr.Acabe.Se a Sra. Por mim não seja.. minha avó. preciso seria que Fabrício aproveitasse um momento de loucura. e principalmente um estudante com fome. de uma anjo. porque.. até o dia de hoje ainda não me supus boneca. para conseguir semelhante torpeza. Quem pede e quer ser servido.. de. . Augusto passe junto a mim momentos tão agradáveis. Violante... Além de que. é apenas perdoável e interessante divertimento de rapazes. . querendo retê-la.. quando mais não desse. . dos tais que por semelhante povo são como formiga por açúcar.De estudante. de beleza virgem ainda.. Carolina o permitisse.. o tempo não lhe é propício. acudiu Augusto...Aquela menina lhe poderá divertir alguns instantes. macaco por banana.lugar junto de sua neta. enfim. Ainda quando não houvesse nele muita generosidade. D. . pois leu no seu rosto que a conversação que teve com a Sra. mesmo um apetite de. um rapaz. eu devo ir apressar o jantar. . a fibra do amor.Creio que não é preciso que seja imediatamente. e nessa hora não podia Augusto raciocinar tão indignamente.Contudo. senhor.. O lugar não menos lhe era desfavorável. um desses instantes de capricho e de delírio em que Augusto pensasse que ferir a fibra mais sensível e vibrante do coração da mulher. sem dúvida.. disse: .Nada... o lugar e as circunstâncias. Então Augusto. se aborrece de tudo.Menina!.. criança por campainha. .. exclamou a menina com prontidão. porque é símbolo de um anjo a virgindade de uma jovem bela. diante de um ranchinho de belas moças. . cujo único delito é ter sabido amar o ingrato com exagerado extremo. Violante. a influência cativadora da formosura em botão. eu serei bem feliz se puder fazer com que o senhor. Mas Fabrício olvidou tudo. E mal o disse.

. deixa-te disso.Então. por quem és. . deves respeitar e cultivar nobre sentimento que te liga a D.. . ..Por tua culpa. .Ainda me não perguntaste nada. os rapazes. guardaram alguns momentos de silêncio. Que se diria do teu procedimento. quero te dizer: a teoria do amor do nosso tempo aplaude e aconselha o meu procedimento.Não. Augusto. A inocente D. que tenho dó te ti! Vejo que em matéria da natureza de que tratamos estás tão atrasado como eu em fazer sonetos. se depois de trazeres uma moça toda cheia de amor e fé na tua constância.. Voltados um para o outro. estes três infinitos de verbos: - iscar.Tu estás doido.havia tido o poder de esgotar toda a elástica paciência do pobre estudante. que não acharia nem mais uma só dose homeopática desse tão necessário confortativo para despender com o novo macista. vamos mangar com a moça. chama-se inspiração de bons costumes.. não podíamos deixar de inscrever por divisa em nossos escudos os infinitos destes três outros verbos: fingir.. Explica-me.Estou desconhecendo-te.Pois então cuidas que o amor de uma senhora deve ser peteca com que se divirtam dois estudantes?. para se achar em toda a liberdade. Joaninha..E então?. principalmente por causa dele. Sempre te achei com juízo e bom conceito e agora temo muito que estejas com princípios de alienação mental.Bravo! bravo! foi muito bem respondido. porque as moças têm ultimamente tomado por mote de todos os seus apaixonados extremos ternos afetos e gratos requebros.Quem é que te fala em peteca?. Joaninha os acompanhou com os olhos e riu-se brandamente. .. o que eu quero é desgrudar-me do fatal contrabando.Espero a tua resposta. e entrando. e tu. tive a paciência de lê-la toda... . . talvez.Então o quê.Pois que dúvida? Para viver-se vida boa e livre é preciso andar com o olho aberto e pé ligeiro...Eu a li. Foi Augusto quem teve de rompê- lo..Isso. Pelo contrário. Eles se dirigiram ao gabinete do lado direito da sala. e o primeiro com ares de quem ia tratar importante negócio.. . sim. pescar e casar. respondeu o outro. disse Fabrício. . o braço de Augusto e ambos saíram da sala: este com vivos sinais de impaciência.Aquilo não tem resposta. nós. o qual fora destinado para os homens.Ora.Então tu.. . Fabrício tomou. a pesar teu. Fabrício. encontrando os de Fabrício. sem a mais pequena desculpa?. pois. bem vês que. . mas. a desprezasses sem a menor aparência de razão.. segue-se que estou encadernado nos axiomas da ciência. Ora. fechou Fabrício a porta sobre si.Eu desengano: previno a todas que minhas paixões têm apenas horas de vida.Com efeito!.. para contrabalançar tão parlamentares e viciosas disposições.A resposta?. . .A minha carta?. ficamos a jogar o siso? .. Portanto. tu verás que eu estou na regra.. Não te supunha tão adiantado! . que súbito acesso de moralidade é esse que tanto te perturba. . Enfim. como os outros. Apesar de todo o teu romantismo ou. rir e fugir. Fabrício? . que teve ainda bastante audácia para fingir um sorriso de gratidão. não vês o que se passa a duas polegadas do nariz. com o teu sistema de. Augusto. juras amor eterno. . homem?. estavam sós. . por espaço de três meses. . . .. palavra de honra.. Pois meu amigo.

Tornar-me-ás interessante a seus olhos. .Então as tais sujeitinhas que.. .Mostrarei que a tua moral a respeito de amor é a pior possível. Anda.Ótimo!. .Como?..É um meio de tornar-me objeto de suas atenções.Vê lá o que dizes! . E.Direi que és um bandoleiro.Pois bem. meu Augusto.. juízo e dinheiro.Lembra-te que foste a causa principal de tudo isso. arranja-te como puderes....Puxa-lhe as orelhas.. fingindo ciúmes.. atrapalhar-te continuamente..Esta é melhor!.. não posso suportar o peso: escrever quatro cartas por semana. Tu a deixavas. .. .Desacredito-te na opinião das moças. suspiros a tempo. ... já que te meteste nisso. meu amigo..Olha que te hás de arrepender! .. se ele é a cria de D. zelos afetados e arrufos com sal e pimenta.Tenho dito. .Descubro e analiso o teu sistema de iludir a todas. pois que me acreditas capaz de servir de instrumento para um enredo. .. nestes dois dias.. e há dois meses que não sei o que é o cheiro delas. uma verdadeira traição.Quem... deixa-te de asneiras.Não posso e não devo.Não sei. o Tobias. medeixes aproximando-se.Augusto! . Então.Fabrício. sorrisos.. com a facilidade e indústria com que a aranha prende a mosca na teia.. Joaninha é um peixão. não contava divertir-me tanto! .Que blasfêmia! . se o papagaio é tolo e não voa logo.. elas se esforçarão por fazê-la boa. . Tu.. Joaninha. aí a tens!. ajuda-me! .Além disso é impossível.. .. eu?.. .Eu sou capaz de vingar-me. . meu Augustozinho. D. . uma desenxabida. Joaninha. não é assim?.Bravo!.Torno a dizer-te que estás doido. eu apenas te disse que não sabias o gosto que tinha o amor à moderna.. ..Tu sempre foste um papa-empadas.Então tu teimas no teu propósito?. .... . uma armadilha tão emaranhada que. Eu reqüestaria D. o S. .. .Oh! oh! oh!. .. Benedito da família!. fica de gaiola para todo o resto de seus dias. inconstante por índole e por sistema. são capazes de tecer de repente. elas farão por tornar-me constante. mete por força o pé no laço e adeus minhas encomendas. fui experimentar a paixão romântica.. Isto só! o talento que é preciso para inventar asneiras e mentiras dezesseis vezes por mês! e depois. . pretendes meter-me medo?.. isso não te custava cinco minutos de trabalho. Peço-te que o faças.. .Sim. . deixa-te de insípidos escrúpulos e ajuda-me a sair dos apuros em que me vejo. . palavrinhas doces... saí do meu elemento...Desafio-te a isso.Agora digo mais que não quero. . Fabrício. com os olhares.. Não a quero mais. . a tal paixãozinha me esgotou já paciência. que pensas?. ..Hei de. avante! Além de que. .Ora. o alfenim da casa. . e depois quem me livraria dos apertos em que necessariamente tinha de ficar?.Melhor. . portanto.

. como é moda dizer .. Quinquina (como a chamam suas amigas) conversa sofrível e sentimentalmente: é meiga. que com destreza desafiava. disse: . Cada cavalheiro deu o braço a uma senhora e. Coube a Augusto a glória de ficar entre D. . guerra! .Vamos jantar. . Maliciosa e picante. Durante as primeiras cobertas ela dissertou maravilhosamente acerca de suas companheiras. terna. um apurado observador.. que manejava. Um velho alemão ficava à esquerda dela e. sorriu-se . estes dois dias. disse a irmã de Filipe.Falo da irmã de Filipe. repetido pela boca de Filipe.Portanto. porém D. e a irmã de Filipe. . par a par. que. como o copo de vinho nos do alemão.. sua vivacidade e espírito se empregam sempre em descobrir e patentear nas outras as melhores brechas.Quem?. como querendo não passar por vencida.E que pensa V.. entre senhoras e homens. . para abatê-las na opinião dos homens com quem pratica. por seu turno mais se importava com o copo do que com a moça.. respondeu ela no mesmo tom. D. Clementina é um epigrama interminável. tinha chegado até ao gabinete onde conversavam Augusto e Fabrício. podia Augusto afirmar que D. desta jovem senhora que está defronte de nós? perguntou ele com voz baixa. S. . e uma jovem de quinze anos. que estava defronte ou.Fabrício. também.. Seu moral é belo e lânguido como seu rosto.Pois. se é precisamente agora que estou vendo os bons resultados que ele me promete! . todas nós gostamos de chamá-la Moreninha. não exitaria de classificá-la entre as sonsas. que. Clementina para logo recuou. dirigindo-se aos dois.Bravíssimo. guerra! . e os sorrisos de Augusto.. vinte e seis pessoas. acabava de fixar de repente na terrível cronista dois olhares penetrantes e irresistíveis.vis-à-vis. até o jantar! Neste momento Filipe abriu a porta do gabinete e. se dirigiram para a sala de jantar. D. sem vaidade. Quinquina.. meu Fabrício.Sim. decididamente. . . Quinquina. Clementina.Augusto. . As únicas que lhe haviam escapado eram D. raios de alegria brilharam em todos os semblantes. e. pudibunda..Antecipo-te que meu primeiro ataque terá lugar durante o jantar. Augusto quis provocar os tiros de D. 5 Jantar Conversado Ao escutar-se aquele aviso animador que. cuja cintura se podia abarcar completamente com as mãos. as duas adversárias mostravam-se ambas fortes e decididas.Oh! por milhares de razões. provavelmente por ficar- lhe muito vizinha. não poupa a melhor de suas camaradas. até o jantar! . Clementina contra aquela menina impertinente que tão pouco lhe agradava. Parecia que uma luta interessante ia ter lugar. Clementina pertencia. Eram. D. fingindo antes não prestar atenção ao que conversavam os dois. a falar a verdade. a outro gênero: o que ela é lhe estão dizendo dois olhos vivos e perspicazes e um sorriso que lhe está tão assíduo nos lábios. que lhe dera a honra de aceitar seu braço direito. e mostra ser muito modesta. minha senhora. por mais que contra ela se dispusesse. Clementina prestava mais atenção a ele que aos jagodes. Essa. lançou sobre elas o ridículo. a Moreninha?. tomara eu que chegasse a hora dele!.Acabe D.

. se não por si. D.. ... . talvez cedo demais.. Quinquina. Bela rosa do jardim! teus espinhos feriram a borboleta.. . pregando nela um olhar de quem está pedindo um sim. a Moreninha estendeu e apinhou os dedos de sua mão direita.. que decerto não poderá toda esta tarde e noite olhar para nós outras.. quando se está defronte de uma moça como D. por ofuscada. e apontando depois para D. Já basta de brilhar.Eu gosto de andar só. voltando os olhos por todas as senhoras. sem compaixão ou desgosto.. o Sr.Mas ninguém conclua daqui que. Coitadinho. que agora mesmo já está pensando com os seus botões: ela não será bonita!.. respondeu este. mas nem por isso deixarás de ser beijada por ela!. minha senhora?!. porém feia. A cronista fez-se cor de nácar e a sua adversária. E assim dizendo. inocente como uma boneca.. de vê-lo beber seis vezes... Quinquina.. .Ela é travessa como o beija-flor. com picante ironia. é fato que nenhuma de nós gosta de ser ofuscada com o esplendor de outra... balbuciou D. por sua saúde. não. disse. Carolina... e com tanta freqüência e tão pouca fertilidade que só a Sra. Enfim. continuou: . ao menos por nós. que havia gostado do que lhe dissera o estudante. continuou a menina... imitando-a na malícia do sorriso e no acento gracejador.Não quis vir com seus colegas? . espichou-se tão completamente.. Prevenido contra D.maliciosamente e. . você deu o cavaco?.. . portanto. uma mulher. . não se chegará sempre cedo demais onde se corre algum risco? . Oh! minha camarada.Cedo demais?.. fez estalar um beijo no centro do belo grupo que eles formaram e. . . e curiosa como. Clementina.Aqui. Quinquina. já basta. Augusto deve estar tão enfeitiçado com o seu espírito e talento.Pensa deveras isso. como se atirasse o beijo sobre D. pelo contrário. juro-lhe que ninguém lhe iguala na habilidade de compor um mapa! . floresce e brilha o prazer. apontando para a Moreninha.. isso é demais! .. como quem desejava travar conversação com Augusto..Chegou muito tarde à ilha.... minha senhora..Mas. afetando um acento gracejador: .Penso.Neste lugar. executou com o braço um movimento. tornou-lhe D. D. portanto. e aqui principalmente. com tanta injustiça.Sempre é má e triste a solidão. perco eu o amor que tinha ao astro que me ofuscou. E desde então começou o nosso estudante a demorar seus olhares naquele rosto que. prosseguiu ainda: . cedeu um pouco a tormenta. o tal Sr. enfim. continuou o estudante. faceira como o pavão.Oh! disse Augusto consigo mesmo: a tal menina travessa não é tão tola como me pareceu ainda há pouco. Carolina. porém.Oh! não. com toda a empáfia de um semidoutor. Preciso é que os ouvidos estejam bem abertos e a atenção bem apurada.. decidiu magistralmente que a moça tinha todos os defeitos possíveis. e D. portanto. tachara de irregular e feio. disse a moça enrubescendo. . mas perde-se também a liberdade de um mancebo! Os dois foram interrompidos para corresponder a uma longa e interminável coleção de brindes que o alemão principiou a desenrolar.Certamente. Augusto. Clementina.. Clementina.. por havê-la surpreendido fazendo-lhe uma careta.. Ana teve. D. Carolina.. que sempre tem coisas tão engraçadas e tão inocentes para dizer!.Pois é precisamente agora que eu reconheço ter chegado muito tarde ou.Sim.

porque. até que ele. pela triste conquista que acaba de fazer. porque os olhos. não posso deixar de lastimar a Sra. com acento de repreensão. sons de harpa sonora... . o que poderia também suceder era que. Os Srs...Por desdita dele não houve ocasião de pôr em campo um outro sentido.Depois de amanhã? repetiu ela. estou comprada.. medrosa e muito sonsa D. não ouvir e não cheirar coisa alguma. o gosto ficou em inação bem contra sua vontade. os eflúvios da angélica. Carolina. Augusto hão de estar certamente cansados de tão excessivo trabalho!. o Sr. . . doem-se de ouvir o toque inqualificável da viola desafinada da rude saloia. . eu fingisse não compreendê-lo logo. Digo que. consinta que ela continue a gracejar. minha prima. nem eu mesmo posso de mim formar outro conceito. endireitando-se. . preparou-se para sustentar a luta com todo o esforço. cintilando em céus do mais puro azul. ela era neta da dona da casa. o aroma das rosas. dissesse tudo. e. . . não direi palavra. . minha senhora. continuou a terrível Moreninha. é rica.Menina! exclamou a Sra.. você o teria compreendido no primeiro instante. depois de amanhã. Além de me dar a honra de tomar-me por objeto de seus gracejos.Certamente. de fatigado.Eu não o compreendo bem.. .E eu.. meio aturdido. todavia. dá-me também o prazer de apreciar e admirar seu espírito e agudeza..Mas às vezes também a sociedade se torna insuportável. Uma risada geral aplaudiu as últimas palavras de D. Augusto conservaram-se em justa posição.Quem respirou o ar embalsamado dos jardins.. sem perturbar-se.. Augusto. apesar de amigo e colega de Augusto.Ainda o não entendi. Sr. não é assim?. cujo bafo é um perfume de delícias. Começava então a servir-se a sobremesa.A respeito de tato.. pôs em ação três sentidos. escutando uma voz tão doce como serão as melodias dos anjos. disse por fim Fabrício.Minha senhora. Quinquina terá finalmente compreendido o que o Sr. que com facilidade e sem risco se podem tocar por baixo da mesa. respirando junto de alguém. já sei o que querem de mim os seus elogios.. como algumas costumam fazer. que desta vez me há de compreender perfeitamente. além de falar com habilidade e fogo. não é assim. sorrindo-se. que. .. não há nada mais natural.Agradecida! muito agradecida! tornou o diabinho da menina. Carolina. a ver os olhos pardos e escovados ali do meu amigo Leopoldo. Ora isso quase que aconteceu.. modesta. depois de amanhã o quê? . pois. . . rindo-se com a melhor vontade. estão juntinhos.. enfim. . como que esperando uma resposta. D.Minha senhora!.Minha prima. Joaquina.. além de ser moça.. eu creio que D..Obrigado. Fabrício queria tomar vingança de sua nenhuma condescendência. disse Augusto.. Augusto conheceu que lhe era dado o sinal de combate. . Ana. os ouvidos e o nariz do Sr.. por exemplo. ..Minha prima... exclamou outra vez inesperadamente D. todos olham para nós. não hesitou: . D. se incomoda. e. para dar lugar a mais vivas finezas.Ah!. que. vibrada por ligeira mão de formosa donzela. a ouvir a voz de taboca rachada do meu colega Filipe e a respirar a fumaça dos charutos de meu companheiro Fabrício. atreveu-se a dizer a ingênua. . quem sabe os transes por que passariam os pés de minha prima?. sem figuras e flores de eloqüência. . vendo eu hoje dois olhos que por sua cor e brilho se assemelham a dois belos astros de luz. Devo. declarar . respondeu a mocinha. Augusto tanto se empenha em lhe explicar. se exaspera ao respirar logo depois a atmosfera grave e carregada de miasmas de um hospital. E vendo que todos tinham os olhos nele. não falo mais.Pois juro. ouvidos que escutaram acordes. Quinquina. Eu cá não custo tanto a compreendê-lo como minha prima. Augusto?. se as mãos do Sr. disse.Minha senhora. depois de amanhã preferirei não ver.

. com seriedade. e. se me fosse dado conhecer a ditosa mortal que conseguiu ganhar os pensamentos e o coração do meu colega.Nada de fugir da questão.Misericórdia! exclamou uma das moças. minhas senhoras. Desde as fatais palavras de Fabrício..Apoiadíssimo!.. pois aquela muda superfície reflete a todos e a todos esquece com estúpida indiferença!. e quase de todo esgotada. concluiu Fabrício. Fabrício continuou: .É possível?!.que. Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum modo ocultar que. sem contradição. . que. durante um curto momento. mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la! .. Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. que não entende o dizer de Auber. tira-me todos os lances. . novo prazer de Augusto por merecê-los. acudiram Leopoldo e Filipe. pois. mostravam temer encontrar seus olhos. não há. perguntou a avó de Filipe. .. e foi. fala.Eis o que ele não pode negar. arrancá-lo dela. Reinou silêncio por alguns instantes: Fabrício parecia vitorioso. enfim. o meu colega é e se preza de ser o protótipo da inconstância. respondeu o estudante. .. Carolina. . inexperiente. é um jovem inconstante. antes de três dias de amor.Bravo!. se havia deixá-lo debatendo-se em sua má posição. Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo. apontando maliciosamente para uma garrafa que se achava defronte do orador. que será logo deixada pela vista de uma nova. acessível a toda as belezas. e haja de andar em companhia dele. suspiros e ânsias de condenado. dir-se-ia que receavam que de uma troca de olhares nascesse para logo o sentimento que as devesse tornar desgraçadas. D... manda o meu destino que eu sempre tenha andado. A Moreninha olhou-o com espanto. Novo olhar.Seu coração é pétrica abóbada de teatro. como se ele fosse a inércia da matéria. Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu: . talvez. ande.. Fabrício. . nem pode haver amor que dure mais de três dias.Mas ele deverá viver de lágrimas. se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter essa qualidade?. . certo que lhe eu daria meus parabéns em prosa e verso. . enquanto Augusto. que nem por isso poder-se-á negar que para o nosso Augusto não houve. quando soluça à flauta ternos sons de músico discurso. Augusto respondeu: . também o nosso estudante teve em muita conta aquele sorriso da menina travessa. mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-se exclusivamente de uma fatia de pudim. novo sorriso de aprovação de D. servindo-se de um prato de grosso melado.. quis ainda mais piorá-la. murmurou Augusto. as senhoras embebem nele seus olhos e o aplaudem.É absolutamente verdade.E para que negar. tanto em prática como em teoria.Venha embora o ridículo.o homem perigoso. que conserva uma impressão. Lançou depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram o rosto. . Augusto era naquela mesa o que costumava ser um leproso na Idade Média: . as senhoras olhavam para ele com receio. Sem se explicar o porquê. gostou de o ver manejar a sua arma favorita.. a mais alegre e apreciável conquista! A ironia o feriu. rindo-se. repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra. .Sim. porque. Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário.. porque Fabrício é. apontando também para a garrafa. Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesa-formosura. com a maior crueldade do mundo.Muito bem! muito bem! disseram algumas vozes.. A interessante Moreninha lançou sobre Augusto um olhar de aprovação e sorriu-se brandamente.E o que há aí de mais engraçado é que Fabrício tem culpa disso. afeta prestar pouca atenção ao seu acusador. Augusto estava como em isolamento. cujo contato podia fazer a desgraça de outro.

minhas senhoras. . com efeito.Defender-me?.Peço a palavra para responder! exclamou Augusto. mas de um só objeto que não tem existência real...Atenção!. .Bravo!. por fim de contas... Sou firme amante de um objeto. exclamou D.. assim como das bastas madeixas negras e do rosto romanticamente pálido da última. enfim. este atributo não foi exclusivamente dado a uma só senhora. ao contrário. . procurei uma jovem bem encantadora para me lançar em cativeiro eterno. . . eu repreendi o meu coração pela sua volubilidade. . por que sou inconstante. que me vejo em termos de segui-lo.Bravo!.É exageração! disse uma senhora..Eis aqui. . esta supera aquela na ternura do olhar e na graça dos sorrisos. deixem-no apresentar o seu programa amoroso. Suponhamos que eu estou na agradável companhia de três jovens. que não vive. pela mesma razão. .Mas também quem me conhece bastante conclui que. Minhas senhoras.Sim.Então. .. minhas senhoras. e quando o encontro em outra... é talvez o excesso a que levo as considerações que julgo devidas ao sexo amável. Todo o mundo sabe que não há quem nasça perfeito. mas vendo que era vão trabalho querer extinguir por tal meio uma disposição que a natureza nele plantara.Duas palavras.. só duas palavras. eu entendi que devia recorrer a mim próprio para tornar-me constante.Que folha d’alho!. a qual. Estou achando um não sei quê tão aproveitável no teu sistema. Eu vejo uma senhora bela.Tem a palavra. sem dúvida.A minha inconstância é natural. ganha as duas na sublime harmonia de umas bastas madeixas negras. coroando um rosto romanticamente pálido. bem se vê que seria cometer a mais detestável injustiça se eu.Antes que ninguém. eu olvidei o amor da manhã desse mesmo dia por outro amor. pretendi primeiro achar na mesma natureza um corretivo que o fizesse. Agora eu entro na segunda parte da minha explicação. não há amante algum mais firme do que eu.. o mais inconstante dos homens em negócio de amor.Ouçam! ouçam! . debaixo de certo ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade.Ainda repete?! . Quinquina. que se extinguiu no baile dessa mesma noite!. minhas senhoras. fora injustiça que eu desprezasse nesta aquilo mesmo que tanto amei na primeira.. era esquecida depois. .Sim. . que sempre me sucedia esquecer a bela de ontem pela que via hoje.. defenda-se.É exatamente assim. acudiu Fabrício. estimável. nos meus passeios da tarde. acusar. exclamou Filipe. me esquecesse das ternuras dos olhares e da graça dos sorrisos da segunda. amo-a não porque ela é senhora.. que me faz ser volúvel. mas debalde o fiz. pois. justa e. continuou Augusto. minhas senhoras. Augusto. ora. prosseguiu Augusto. muito bem!. . Consegui-o. eu amo a beleza.Mais ainda.. defenda-se. Ora. minhas senhoras. mas nada de maçada! . .. .. Quantas vezes. logo. vamos ao desenvolvimento da primeira proposição.O senhor está compondo enigmas.. mas a primeira vence a segunda na delicadeza do talhe. mas também não quero. minhas senhoras. porque eu sou tão sensível ao poder da formosura.. . certo que o não farei. viva o raciocínio! . ele vai provar que é constante!.Não o interrompam. e a terceira. porque eu sou.Muito bem. . todas são lindas. . mas porque é bela. . é o respeito que tributo ao merecimento de todas. por amar a delicadeza do talhe da primeira. poderia. .. bravo!... julgo apenas oportuno dar algumas explicações. .

eu creio que vestirei o meu belo ideal de novas formas! . no qual Augusto. Clementina. não faremos tanto. O champagne estourava naquele momento. mas hoje tenho-me apaixonado só de três. Por exemplo. nos não poderá acompanhar. exasperado com um acesso de tosse que atacara Augusto.Que passaremos a mais agradável noite.Então a quem? .. pronunciaremos. . então a quem ama? . graças a meu proveitoso sistema.Como é isto!. esvaziando seu copo. do colo de alabastro desta. muito bem!.. que eu me pude tornar constante e. .A todas as senhoras.M. ..A boneca que se vê na vidraça do Desmarais?.Muito bem!.J. eu formei o meu belo ideal. minhas senhoras.. como Narciso?. . convidando a todos os senhores para um brinde.. Augusto.Augusto desempenhou-se. a dificuldade toda é poder.. ao alfabeto inteiro! Meia hora depois levantaram-se da mesa. minha senhora?. uma coleção não deixa de ser singular.Não. . exclamou. beba o seu copo de champagne ao alfabeto inteiro! . retirando-me desta ilha.. Augusto?. . . . por castigo de sua inconstância... olhando para D.. contudo.A sua sombra. balbuciou Fabrício.Eu. Augusto não beberá conosco. . do talhe elegante daquela..Estou na minha regra. acudiu a interessante Moreninha. escolher o mais amado..De quais destas meninas estás mais apaixonado. maninho. . .. pois. minha senhora.. como Aquídias de Rodes? .Pois bem. ele há de beber também.C.Nada disso.E o que pensas da irmã de Filipe? . pronunciou Filipe.Então que dizes. propor um belo meio de terminar esta discussão. Não é novo que mancebos bebam. resumidas num só ente ideal. a inicial do primeiro nome.Eis! ânimo. principalmente..Sim.. .. Reúno o que de melhor está repartido e faço mais ainda: aperfeiçôo a minha obra todos os dias. continuou a menina. disse Leopoldo....Ah. entre tantos nomes.Eu vou. Leopoldo aproximou-se de Augusto. posso amar a todas as senhoras a um tempo sem ser infiel a nenhuma. . . disse D. a quem tributo o amor mais constante.. Disse.E quem ganhará a aposta? . .. Augusto.. no meio dos prazeres de um festim.Ao cupido de Praxiteles.. Sr. . Acode-me tal número dos que têm tocado o superlativo do amor. .. eu faria o enorme sacrifício de reduzir as que me lembram ao diminuto número de vinte e três.Sim! sim! disse Filipe. das lindas madeixas de outra. .. À custa dos belos olhos de uma. só o inconstante faltava. . . se eles me dessem licença.Viva o cumprimento!.. . ... um copo de vinho depois de pronunciar o nome daquela que é dama de seus pensamentos: aqui não estamos só mancebos e..Alguma estátua da Academia das Belas-Artes?.Nada! nada! nesta saúde não entra o número plural. . . minha senhora! no beber um copo de champagne não está a dúvida.Foi assim. Os outros mancebos pronunciaram suas letras.. Leopoldo tomou a palavra pela ordem. Sr. .Mas que letra. Carolina.

mas era-me completamente indiferente.... não sei.Má.. . importuna e feia. .... .. porque.. ao meio-dia. ...Durante o jantar?. e desejava vê-la longe de mim. .Eu te direi. .E agora? .E daqui a pouco? . é..Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la julgado feia. .Eu a supus estouvada e desagradável.Às duas horas?..À uma hora?.Parece que me sinto muito inclinado a declará-la engraçada e bonitinha.A melhor resposta que te posso dar. . .. . a julgava travessa.

Um braço era uma prisão e a engraçada Moreninha gosta. queriam. por assim o querer. contra a vontade. Carolina. saltava. Menina havia que. vê-lo reqüestando-as. aquela lânguida e sonsinha D. Sem dúvida já fomos condenados por homem de mau gosto. corria. ou se desculparam. aparecer e . pouco a pouco. com seus olhos sempre brilhantes. Mas dissemos que não sabíamos se Keblerc havia feito bem ou mal em não imitar os outros. ágil. apenas algum lhe dizia. que entendeu. E o mesmo fazia a respeito de todas as flores que lhe mostravam. que era muito mais proveitoso ficar fazendo honras a meia dúzia de garrafas de belo vinho do que acompanhar as moças. Deixemo-la. mas também no jardim. de cada palavra. de cada vista d’olhos. antes. Augusto viu de repente todos os braços engajados. Quinquina. andavam. cumpre-nos dar algumas razões. cada uma delas entendeu lá consigo que seria grande glória para qualquer. esgotadas as garrafas e terminado o passeio. D. . com que quase sempre se triunfa da mulher. e. Era uma doutora de borla e capelo em todas as ciências amatórias. com seu pezinho sempre pronto para a carreira. desde o programa de Augusto. agora adiante de todos. correr e saltar. Cada cavalheiro dava o braço a uma senhora. Passeava-se. todos animados e cheios de prazer e harmonia. melhor. voava como um beija-flor. Outro tanto não fizeram os rapazes. inimigo invencível.Existo para ti só! tornava imediatamente. porém. e. a um mesmo fim. Esta última costuma sempre ser mais perigosa. pelo contrário. Em resultado. haverá mona. porque não tinha travo por onde fosse atacado. pois. que por diversos caminhos vão. quando mais perto o via. nem mais nem menos. Queria passear só. era por isso temido e acariciado. ela está em toda a parte. como uma doudinha. solteiros. saltar e entender com as outras. tanto o alemão como os rapazes. divagando-se assim pelo jardim. mas a bela. como se costuma dizer. 6 Augusto com seus Amores Poucos momentos depois da cena antecedente. apontando para a flor: . isto é . ou. e daqui a pouco ser a última no passeio: viva. Ela quer correr. fingiram não ouvi-lo. Eram eles D. Augusto passeava só. o dicionário das flores era lembrado a todo o momento. o prender com inquebráveis cadeias aquele capoeira do amor. que de perto as acompanharam. Exatamente intentavam batê-lo por meio dessa tática poderosa. sobretudo.Acácia! . tornando-se difíceis. e que o melhor meio de o conseguir era fingir desprezá-lo e mostrar não fazer conta com ele. que se foram deslizar pelo jardim. a quem se dirigiu. D. não sabemos se mal ou bem. a sala de jantar ficou entregue unicamente ao insaciável Keblerc. vê. não só na sala do jantar. da liberdade. havia rejeitado dez braços. Carolina e Augusto. O inconstante não lhes fazia conta. e esta menina era. de cada suspiro. cá para nós. assim como pais.Sonhei com você! respondia logo. Entendemos. porque. Pela nossa parte confessamos que não há cachaça que embebede mais depressa do que uma que se bebe nos olhos travessos de certas pessoas. de cada ação que percebia tirava motivo para seus epigramas. como uma abelha ou. observa tudo e de tudo tira partido para rir-se: em contínua hostilidade com todas aquelas que passeavam com moços. maridos e irmãos. dispostos a acabar o dia e entrar pela noite com gosto. cem vezes dela se aproximava o sujeito. Duas senhoras. inocente para não se envergonhar de suas travessuras e criada com mimo demais para prestar atenção aos conselhos de seu irmão. a diferença é que uma será mona de vinho e a outra de amor. Carolina. Fiai-vos nas sonsas! Um moço e uma moça.Amor-perfeito! .

. Finalmente.Sem dúvida bela!..Julgo que sim.Pois o senhor não sabe?.Vê-a muitas vezes? . consinta que lhe diga: no seu pretendido sistema.Não. .a constância?. Não tenho a louca mania de amar um belo ideal..Como? . o que eu não lhes diria. .Mora na Corte?. .Como se chama?. Augusto guardou silêncio e ela continuou: . ... nem à nossa pena é dado o poder acompanhá-la. se lhes faltava a sua base ..Que mistério!. Augusto pensa de maneira absolutamente diversa daquela pela qual se explicou.. D.Pois então a quem? .. onde praticaremos livres de testemunhas e mais em liberdade. satisfazendo a curiosidade que vejo muito avivada no seu rosto.Nunca. entremos nesta gruta.A uma moça? .Mas. devo confessar que me espantei ouvindo-o sustentar com tão vivo fogo a inconstância no amor.Com efeito. o pobre Augusto encontrou uma senhora que teve piedade dele.Não senhor. Vamos ouvi-los: . . é uma opinião. e pois. Se deseja saber o mais interessante episódio da minha vida. o certo é que eu sou e quero ser inconstante com todas e conservar-me firme no amor de uma só. ..O seu semblante? . .Não me lembro dele.Um erro. como pretendi fazer crer. onde iríamos assentar o sossego das famílias. ..Desejo muito sabê-lo. o que há é muita velhacaria.Eu devo mostrar-me grato à bondade com que tenho sido tratado. e se assim acontecesse. . Com efeito. . a paz dos esposos. um sistema perigoso e capaz de produzir grandes males. ou.É uma história muito longa. mas que eu resumirei em poucas palavras.Eis o que também me espanta! .desaparecer ao mesmo tempo. . o único partido que eu procuro e tenho conseguido tirar é o sossego que há algum tempo gozo.Ignoro-o. Estão afastados do resto da companhia. melhor ainda. .. Ana.. porque eles provavelmente rir-se-iam de mim. não sou tal qual me pintei durante o jantar. . a senhora vai ouvir o que ainda não ouviu nenhum dos meus amigos. nada há aqui que exagerado seja. conversa. .... não sei por que se quer espantar!.Creio que deve ser. . para plantar no amor-próprio das moças o desejo de triunfar de sua inconstância. senhor!. deve ser seguido por todos.Juro que não. minha senhora.Então o senhor já ama? . .Eu devo crer que o Sr. .. disse a Sra. . que ela é tão rápida como o pensamento. minha senhora.. finge não se curvar por muito tempo diante de beleza alguma. porém. Eles entraram. rogo-lhe que por um instante pense comigo: se o seu sistema é bom.

. Isto foi há sete anos. então. e cheguei-me.. gota a gota. se expunha a ser apanhado pelas ondas. minha senhora. Com suas lindas mãozinhas arregaçou o vestido até aos joelhos. onde caía. com a graça divina em toda ela. e tornando-se levemente melancólica. que dessa vez vinha mansa e fraca como respeitosa. ela olhou de novo para o mar. quinta onda. agradável e alegre semblante. límpida e fresca água que do alto do rochedo se destilava. D. o lugar. no fundo via-se uma pequena bacia de pedra. quarta... Finalmente. como qualquer porta ordinária.Eu caí! eu caí!. eu ia morrer afogada!. é uma loucura a minha mania.. Foi. pois. mas ficou ainda no mesmo lugar. vendo-se com o vestido cheio de areia. balbuciou com voz pesarosa. e nessa época houve um dia. com cabelos negros e anelados voando ao derredor de seu pescoço. há sete anos. tinham obrigado meu pai a deixar sua fazenda e a vir passar alguns meses na Corte. 7 Os Dois Breves. Foi este lugar escolhido por Augusto para fazer suas revelações à digna hóspeda. com um vivo. O estudante. E como se não bastasse esta passagem rápida do susto para o prazer.. como se fora sucedido ontem o acontecimento que vou ter a honra de relatar. ela fez um movimento. brincando em uma das belas praias do Rio de Janeiro.. eu sabia isto por experiência própria. eu o poderia dizer já. erguendo-se logo e espantada ao ver perto de si a nova onda. Depois. Ana. Uma criança viva e espirituosa. para saber em que pensava a menina. para servir a quem quisesse provar da boa água do rochedo. mas que importa o dia?. segunda. ela precipitou-se sobre a concha. com o sorrir dos anjos nos lábios. porque já tinha adivinhado seu pensamento. e começou a história dos seus amores. assim como toda a nossa família. no banco de relva. Era uma gruta pouco espaçosa e cavada na base de um rochedo que dominava o mar. e tinha eu então treze de idade que. vi uma menina que não poderia ter ainda oito. e sempre a mesma cena de ataque e receio do inimigo. pois. inclinada para diante e na ponta dos pés. sacudindo-o e dizendo ao mesmo tempo: .. e a interessante menina caiu na praia.. terceira. veio sentar-se junto da Sra. mas tão perto do mar. tudo está presente à minha alma. a hora. Figure-se a mais bonita criança do mundo. a pequena distância dela parei. Entrava-se por uma abertura alta e larga. começou a rir-se muito... o dia.Ah!. que rebentavam com força. eu o acompanhei. Ao lado direito havia um banco de relva. apontando para a concha. Ela estava à borda do mar e seu rosto voltado para ele. é porque imagina novas travessuras ou combina os meios para executar alguma a que se põe obstáculos. aproximei-me devagarinho. correu para trás e sem pensar atirou-se nos meus braços. ao refluxo da sexta. e quando a onda recuou. . mas a areia escorregou debaixo de seus pés. exclamando: . Eu vi a travessa menina hesitar longo tempo entre o desejo de possuir a concha e o receio de ser molhada pelas vagas. embora. preso por uma corrente à bacia de pedra estava um copo de prata.. e far-se-á ainda uma idéia incompleta dessa menina.. Na praia estava deposta uma concha. que quem a quisesse tomar e não fosse ligeiro e experiente. em que poderiam sentar-se a gosto três pessoas. depois pareceu haver tomado uma resolução: o capricho de criança tinha vencido. sem risco e com graça. com o fogo do céu nos olhos. depois de certificar-se de que toda a companhia estava longe. quando está quieta. Branco e Verde Negócios importantes..

mas ainda ontem me quebrou a minha mais bonita boneca. pois bem!. nós brincamos juntos.. . É sempre digno de observar-se esta tendência que têm as calças para o vestido. corei.Sou bonita.. Corremos a brincar juntos com toda essa confiança infantil que só pode nascer da inocência.Melhor!. exclamou a menina.. e finalmente murmurei tremendo: .. eu gosto mais dos cabelos pretos. de novo torcido como um caracol. Além disso ele não tem como o senhor os cabelos louros nem a cor rosada..É meu pai que morre! exclamou ele.. nós estávamos como dois antigos camaradas. que nossa imaginação e inconstância de meninos modificava e inventava a cada momento. e depois ríamos ambos de nós mesmos. minha mulher! A viveza. . Era um quadro de dor e luto que tínhamos ido ver. pois. quando formos grandes. . eu o quero. quando fomos interrompidos em nossas travessuras por um outro menino que para nós corria chorando... Uma pobre velha e três meninos . Desde a mais nova idade e no mais inocente brinquedo aparece o tal mútuo pendor dos sexos. Olhe... ou feia?..Havemos. que há de apanhar bonitas conchinhas para mim.. como os melhores amigos.. .. Eu cá sempre fui assim. ela e eu dissemos a um tempo: .O que tem?.. continuou o lindo anjinho de sete anos.. Tínhamos esquecido todo o mundo. posto que já a esse tempo fosse eu um pouco velhaquete e sonso.... tornou-me ela. Ficamos um momento tristemente surpreendidos. e que ainda em parte se dava em mim.Mas. eu vi cair outra vez em seu pescoço. do que com o mais formoso de meus amigos da infância. melhor!. sempre preferia esconder- me atrás das portas com a menos bonita de minhas primas. me casar com o senhor.Pois então.... e perguntou: . e de mistura umas vergonhas muito engraçadas. Este acontecimento fez-nos logo camaradas. como ia dizendo.. por exemplo.Tão bonita!.. Eu quero.. .Oh!.. nós nos esquecemos de procurar saber os nossos verdadeiros nomes. e largando-o depois. Olhe: os meus são pretos! E nisto ela puxou com a sua pequena mãozinha um de seus belos anéis de madeixa. sem o pensar. Depois de uma agradável hora passada em mil diversas travessuras...... Entramos. depois. Eu quis responder-lhe mil coisas. quando brincava o tempo-será. Ainda corremos mais e continuamos a brincar juntos. e pensávamos somente em nos divertir. de: meu marido. eu não quis saber de fluxos nem refluxos de ondas. para mostrar- mo. a minha interessante camarada voltou- se de repente para mim. Ora.. Mas.. embora um pouco molhado mas trazendo a concha desejada. corri para elas com entusiasmo e. . radiante de prazer e felicidade.. sim? . E corremos para a pequena casa. saltando de prazer.. a graça e o espírito da encantadora menina tinham feito desaparecer meu natural acanhamento. apontando para uma velha casinha que avistamos algumas braças distante de nós. como dominados pelo mesmo pensamento. corríamos e caíamos na areia.Vamos lá. como um estudante de latim que era.. porque nos bastavam esses com que já nos tratávamos. e que por tal já procurava minhas blasfêmias no dicionário. o marido não deve quebrar as bonecas de sua mulher!. o meu primo Juca me queria também. Ouvindo a sua voz harmoniosa e vibrante.Porém. havemos de nos casar.. .. perguntamos ambos. apresentei-me à linda menina.. a minha concha!. e..

. amai-vos. bem longe....Deus realize vossos desejos!. uma síncope havia causado todo o movimento. Minha linda mulher e eu tivemos de ser abraçados mil vezes. meus meninos. tornou o velho. não me lembro de que valor e por minha vez a entreguei. da mais nobre e da mais sublime das dores..Não senhor.. Meus filhos! amai-vos. ..Sim. porém é pobre!. e deixando cair dos olhos grossas lágrimas.Seja dado ao homem agonizante lançar seus últimos pensamentos do leito da morte. e penetrar com seus olhares através do véu do futuro!. os meninos que entraram na casa do miserável. deparando conosco.. ..Dois anjos. Eu não vos iludo. Ninguém lhe respondeu. disse: . disse a velha vendo a exaltação e o semblante afogueado do enfermo. . pranto e desolação que observamos. são abençoados por Deus e unidos em nome d’Ele!.. ... exclamou o velho. .. enquanto seus três filhos e o quarto... olhando de novo para nós.. ele tornava a si. Pelo que agora posso concluir. eu não preciso dela.... morre de fome!. .... . . eis aí outra vez o delírio!. Depois. de ver de joelhos a nossos pés a velha e os meninos.. Dava com as mãos.Marido? . respondeu a aflita velha.Oh!... dando-a à velha. se atiravam sobre ele... a promessa realizada! São dois anjos que se unem. perguntou com viva demonstração de interesse.. continuou: .Quem sois? pôde. Quando chegamos ao pé de seu leito.. sempre que faço esmola aos pobres. exclamou: .Ainda não morri..Foi minha mãe que ma deu e ela me dá também um abraço.. dizendo: . olhando com ternura para seus filhos. no excesso da maior.mal vestidos e magros cercavam o leito em que jazia moribundo um ancião de cinqüenta anos.. e escondendo o rosto entre as mãos.. . chamando-nos. A minha camarada dirigiu-se então à velha.É o meu camarada.Foi meu padrinho que ma deu hoje de manhã. O ancião forcejava por falar há muito tempo. disse ainda ela.... sim... enfim. E quem é este menino?.. Meus filhos.Quem são estes dois meninos?.... foi a menina que respondeu. Acabando de pronunciar estas palavras... E eu tirei de meu bolso uma nota. não tenho fome. ele sofre uma enfermidade cruel. dizer.. que tínhamos há pouco visto fora.. morre de miséria!. sufocado em pranto. pouco mais ou menos. Finalmente nós nos aproximamos dele.. que nos apertou com entusiasmo contra o coração. o ancião guardou silêncio por alguns instantes.. vejo lá. bebeu com sofreguidão um púcaro cheio d’água e.. que enxugaram o pranto e mataram a fome da indigência. além dos anos..Duas crianças.. meu. que já não serão para ele. quem sois? . . balbuciou. eu vos vejo casados lá no futuro!. marido. E instintivamente a minha interessante companheira tirou do bolso do seu avental uma moeda de ouro e. e tendo no rosto um ar de inspiração e em suas palavras um acento profético. .. fome! pois também morre-se de fome?. Não é possível descrever o que se passou então naquela miserável choupana.. . sem excetuar a minha bela camarada e eu.Não chorem ao pé de mim.Vosso irmão?. eu quero que ele seja meu marido. e morre mais depressa pelo pesar de deixar seus filhos expostos à fome!. assim como o vício se procura. vede!.Fome! exclamamos com espanto. .. porque todos choravam.Ó. e amai-vos muito! A virtude se deve ajuntar. . mas que poderia não ser mortal.O que tem então ele?..

. entregou-lhe um botão de esmeralda que trazia em sua camisinha.. dizendo: ... voltando-se para mim. O velho o deu à sua mãe. ainda uma vez. dando-me o de cor branca. vós o sentireis.Não. apertou nossas mãos com força. cosa dentro do breve branco este camafeu. Chegou a vez dela. meus meninos. que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao pescoço. dizendo: .... Sinto ainda sobre meus dedos o calor abrasador dos seus e agora compreendo que.Tomais este breve.Menino! que trazeis convosco que possais oferecer a esta menina?. seus olhos flamejantes. então. dai-lho. descosa esses dois breves. A menina. o velho prosseguiu ainda: .Menina! que trazeis convosco que possais oferecer a este menino?.Minha mãe. continuou: .. os descoseu com prontidão. com efeito. a fim de que ela o guarde com desvelo. O doente. cosa esta esmeralda dentro do breve verde. cuja cor exprime as esperanças do coração daquele menino.. Ah! recebei a bênção de um moribundo! recebi-a e saí para não vê-lo expirar. um lindo alfinete de camafeu. Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei. ele delirava quando assim praticou com duas crianças. que meu pai me tinha dado para trazer ao peito e. disse: .. pobre e miserável. apoiando-se sobre um dos cotovelos. senti que seu bafo era como vapor de água fervendo.. Ó meus meninos! Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!. Isto dizendo. para entregar ao admirável homem que me falava. Pois o quê!. continuou ele..Tomai este breve. e eu prendi o breve ao meu pescoço com uma fita que me deram. nós deixamos aquela morada aflitos e admirados.. e Deus olhará para vós. eu senti. E voltando-se para minha bela camarada. Quando tudo isto estava feito. atilada e viva. dai- lho. Depois o ancião. O nosso homem deu-lhe o outro breve. cujas forças pareciam haver reaparecido subitamente. Quando as ordens do ancião foram completamente executadas. pronunciada por um inspirado do Senhor.Ide... acrescentou: • Minha mãe. Minha bela mulher executou a insinuação do velho com prontidão. O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe. Não parou aí a nossa admiração. obedecendo pontualmente. o rosto do ancião se havia tornado rubro. eu acreditei que estávamos ouvindo uma profecia infalivelmente realizável. A velha. Escutando suas palavras. não! não é delírio. Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo. os deu à velha. nós pensamos no velho e choramos . dizendo: .. maquinalmente. Enfim.. Os breves eram dois: um verde e outro branco.. Seus lábios tremiam convulsivamente.. a fim de que ele o guarde com desvelo. . não pode o Eterno abençoar a virtude pela minha boca?. minha mãe.. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele bom anjo. ele tomou os dois breves e.Minha mãe... disse-me: . Nós estávamos espantados.. que estava junto de seu leito. Sós. que sua mão era uma brasa que queimava. Eu mal compreendi o que o velho queria: ainda maquinalmente entreguei o breve à linda menina. crescei e sede felizes! vós olhastes para mim. que o velho ardia. sua mão rugosa tinha três vezes nos abençoado. abriu a gaveta de uma mesa. cuja cor exprime a candura da alma daquela menina. pus-lhe nas mãos o meu camafeu. como que já esperando tal pergunta.. lá no futuro. e tirando de uma pequena e antiga caixa dois breves.

tão cansado estava com a longa narração. De repente. .. ouvindo ruído à entrada da gruta. mostrei-lhe o meu breve verde e gritei-lhe também: • Eu o guardarei!. dirigindo-se à entrada da gruta e observando em derredor dela. . . . porém. minha mãe ralhará comigo! E.. a Sra. depois.. minha linda mulher.Então?.juntos. para cuidarmos em brincar outra vez... e.. . . . esquecer-se-ão disso. .E quando minha mãe perguntar pela esmeralda?. .Enganei-me. disse sorrindo-se: .E eu responderei a meu pai que perdi o meu camafeu nas pedras. esquecendo-se até de despedir-se de mim. pensativa e recostada à efígie da Esperança.Nós os guardaremos?. . perguntou a Sra.Eles mandarão procurar. eu ouvi distintamente a bulha que faz uma pessoa que corre. .E os breves?. na verdade. sem dúvida.Oh! eu o prometo.Diz que é para nos casarmos quando formos grandes.Eu vou pregar uma mentira.E qual?.. passados alguns instantes.Apenas lá vejo sua bela neta.O velho disse que sim. que me parecera estar pensando.Alguém nos escuta! disse ele. a menina olhou para mim e disse: . pois.Eu o juro. minha senhora.. dizendo isto. Carolina.E quando meu pai perguntar pelo meu camafeu? Ficamos olhando um para o outro.. tornou Augusto. e fiz-lhe igual pergunta: ...Tão tarde! exclamou a menina. . Eu cuidei que lhe respondia. ...Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda.Eu direi à minha mãe que perdi a minha esmeralda na praia.. 8 Augusto Prosseguindo .. Esse fatal descuido acabava de entristecer-me. .. Aqui parou Augusto para respirar.Mas vê alguma pessoa?. já de longe. .Neste momento soou ave-maria. isto não merece reparo. mostrando-me o breve branco. Ana.. quando ela. ergueu-se logo. D.. . .Eu o guardarei! Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta. . nas crianças.. correu.Não. . . . gritou: .E não o achando.Para que será isto?.. .Pois então nós os guardaremos. voltou-se para onde eu estava e. nossa dor se mitigou. D.

pois tendo ido passear certas férias na roça. disse-me meu pai com bondade. por conseqüência. apenas entrei em casa escrevi.Ao contrário..O acontecimento que acabo de relatar.. o estudante lhe fez ver que ainda muito faltava para o fim de suas histórias. e voltando de novo ao seu lugar.. sem precisar que eu lho dissesse. pois nem lho perguntei. julgavam que eu dançava com graça e lá ia eu para os bailes. minha senhora. e por tal convidavam-me para cantar em elegantes sociedades. a palavra. tornou este.Cheguei assim aos meus dezoito anos. meu pai o leu à sua vontade e soube o destino do camafeu. e mesmo to mando.. Sem saber seu nome. de sua mulher e do seu breve?! perguntou a Sra. Além disto freqüentava as casas de meus companheiros de estudos e os ouvia contar proezas de paixões. Ana. E isto dizendo. o velho!. porque. minha senhora. Portanto.. e assim introduziram- me em mil reuniões.. minha mulher!. porque. . mas que havia eu de fazer?. em que me julgava longe: . passei cinco anos pensando nela de dia. com suas sonoras palavras soando a meus ouvidos.Temo que esse breve tire o juízo àquele menino: talvez que nos seja preciso casá-lo cedo. Eu já era. porém. exclamando: . para não ser necessário à minha mãe casar-me cedo. .... digo: . produziu vivíssima impressão no meu espírito. nem soube notícia alguma de minha interessante camarada. minha senhora?. palavra por palavra. para não ouvir somente. guarda.Esqueceu-se.Anda. quanto me havia acontecido. porém tão bela. continuou: . A avó de Filipe quis tomar. Eu resumo algumas. doidinho... soube que o velho morrera no dia seguinte e que no momento da agonia abençoara de novo a minha camarada e a mim. socorrendo um velho enfermo. ou seja que meu coração a tivesse amado deveras. mas também para contar alguma vitória de amor. como cheguei a fazer algumas quadras. ouvi a minha mãe dizer uma vez. e com ela sonhando de noite. eu to peço. . pediam-me para recitar sonetos em dias de anos. adormecendo sobre o papel que acabava de escrever. . para entender que todas as moças deviam rir-se de mim e zombar de meus afetos! Pensa que brinco. Meu amor-próprio se despertou. quando quero falar a seu respeito.minha mulher! Riem-se? não me importa: eu não posso dizer de outro modo.o meu breve!. Julguei esta minha determinação ainda mais justa. triunfos e derrotas amorosas. Meu pai fez todas as despesas do enterro do velho e socorreu sua desgraçada família. por sua vez. mas nem por isso a esqueci.. tive vontade de amar e ser amado. deixou-me. ajudado por minha memória de menino de treze anos. ou que esse breve tivesse em si alguma coisa de encantador. minha senhora. determinei-me a amar. agora. foi essa minha resolução que me tornou mais firme e mais amante de minha mulher. e lá falando mil vezes no meu breve e em minha mulher.Não sei. o certo é que eu ainda hoje me lembro com saudade dessa criança tão travessa. nem ela mo disse. finalmente. D. para não endoidecer por causa do breve e. pois. Ele ainda estava junto de mim quando despertei. continuou Augusto. era uma loucura. com seu engraçado sorriso diante de meus olhos. guarda melhor esse breve do que guardaste o camafeu. finalmente. Meus pais nada poupavam para me educar convenientemente: aprendia quanto me vinha à cabeça: diziam que minha voz era sonora. Eu nunca mais vi. que teve o amor comigo. onde as belezas formigavam e os amores eram dardejados por brilhantes olhos de todas as cores. Sempre com sua imagem na minh’alma. em louvor da ação que praticaste. interrompendo Augusto. eu te perdôo tuas novas loucuras. Isto me tirou o trabalho de mentir. Não se falou mais nesse acontecimento. mancebo. . pois foi isso mesmo o que me sucedeu no decurso de minhas paixões.

com quem me dava. Infelizmente eu não conhecia o primo da minha amada.. como das outras vezes. apontou para um gabinete vizinho. continuou ele. certamente. rebentou uma tempestade e choveu prodigiosamente. respondi. Antes de ver-me.O Augustozinho?. e. ainda tomei-me cego amante de uma jovem pálida. tinha três meses de idade. coisa notável. logo depois da minha chegada. onde tinha de haver esplêndida festa.. • Eu penso do mesmo modo. e tudo mais por este teor e forma. oito dias depois. os mesmos estudantes quase que me quebraram a cabeça com cacholetas e gargalhadas.Nós devemos ser amigos. Ela estava sentada junto de um mancebo e com as costas voltadas para a porta: tomavam sorvetes. coitado! é um pobre menino com quem me divirto nas horas vagas!. Lamente-o antes. porque oito dias. ambos nos aproximamos. porém. Cheguei-me de manso: conversavam os dois. mas o meu espanto se tornou em fúria quando ouvi o machacaz falar no meu nome. Um dia tratamos de encontrar-nos em certa igreja. não pude resistir ao desejo de vê-la e fui à reunião. a traidora olhou para mim e.. ela amava um primo e até escrevia-lhe a miúdo.Ora aí tem! perdi por sua causa este divertimento. era a mais agradável sabatina que podia ter um estudante. Soltei um surdo gemido. procurei-a com os olhos e certo moço.. e receber em resposta as seguintes palavras: . de dezesseis anos de idade. Sem emendar-me. pelo que ouvi. . Um sábado mandei-lhe prevenir que faltaria à partida. Belo! disse comigo: vou também divertir-me por minha vez à custa de um amante infeliz! E o negócio ficou assentado. aparecia-me depois chorosa e abatida. mas deste tive eu provas de afeto mui sérias. meu coração se entusiasmou com isso. eles já se correspondiam há muito tempo. li a minha carta e a resposta que havia recebido: fui vivamente aplaudido. sem vergonha nenhuma. . apesar disso eu olhava a todos os momentos para a porta e. mas. Nós nos encontrávamos nas noites dos sábados em certa casa. porém as ruas deveriam ter ficado alagadas e a bela esperada não podia vir. cheguei cedo.. fingindo-se zeloso. se na tal partida eu me atrevia a dançar com alguma outra moça bonita. o meu novo amor chegava a ser tocante demais: a minha querida levava o ciúme até um ponto que atormentava prodigiosamente: se passava algum dia em que a não visse e lhe não mandasse uma flor. Jurei não amar moça nenhuma que tivesse a cor morena. quando entrei na sala. Fiz-lhe a minha declaração na carta mais patética que um pateta poderia conceber: no fim de três dias recebi uma resposta abrasadora e cheia de protestos de gratidão e ternura. Fiquei espantado e tanto mais que. era contar com um desmaio certo. que me entendeu. com a condição de lhe redigir eu as respostas. bem contadinhos. mas essa era a infelicidade mais tolerável possível. voltando- se depois para o seu querido.. E apertamos as mãos. A primeira moça que amei era uma bela moreninha. depois dessa resposta. que parecia mesmo uma rosa francesa. Pouco durou o mau tempo. disse ele. desgraçadamente. que se dirigiam também para lá. . eram onze horas da noite. porém. onde se dava todas as semanas uma partida. Na primeira reunião de estudantes contei a minha vitória. a minha terna amada casou-se com um velho de sessenta anos. mas. disse com o maior sangue-frio: . Jurei não amar moça nenhuma de cor rosada. eu exigi que a minha terceira amada continuasse a receber cartas dele e que as respondesse. tendo terminado cedo meus trabalhos. correspondido por uma interessante jovem tão coradinha. acabada a festa. Apaixonei-me logo e fui. consentiu nisso. em seus amores!. Este amor já estava um pouco velho. Voei para ele...Sou capaz de jurar que adivinho a razão por que o senhor olhava tanto para aquela porta. fui correspondido com ardor. sempre encontrava os olhos de um outro moço. e desmaio de que não acordava sem que eu mesmo lhe chegasse ao nariz o seu vidrinho de essência de rosas.

.. Saímos da igreja.. assim como as normas que eu redigira para as que deveriam ser enviadas ao meu amigo. que minha prima tem bastante habilidade para se corresponder com meio mundo.. ora. ela mandou-me a carta.Não tem dúvida.Concordemos também. é... quando ele me pronunciou com indizível prazer . meu amigo? .Na rua de.Não é coisa de cuidado. Jantamos juntos. abraçando-me. . eu a avistei debruçada na janela. . ..Exatamente. Eu.E eu também..Não me fale mais nela.. que ao menos dessa vez se fez cor-de-rosa.. O bom humor de Jorge tornou-me alegre.. . com efeito. . indo agora vê-las à janela. onde mora a sua?. e eu respondi em seu lugar.. Tratei de dormir. . Julgue.É por certo um famoso pateta. sem dúvida. talvez por ver-me de braço com o meu novo amigo. é tolo rematado.Ainda melhor. Jorge devorou todas as cartas e normas que lhe dei. da minha exasperação! pela terceira vez eu era a boneca de uma menina!.. e que ela me tinha mandado.. . e tirando dela todas as cartas que Jorge havia escrito à sua prima.E a sua amada?.. achará isto imprudência..Bravo!.... . abri a minha gaveta. ..... Jorge.. sem se incomodar com o trabalho da redação de suas cartas!. antes de adormecer.. ....Concordemos ambos que.Pois vamos à minha casa.Está certo disso..Tenho provas. exclamou: .Mas nós vamos. falei ainda comigo mesmo: ..Mas que é isso? está tão pálido!.. disse-me com fogo: .é aquela!. a minha é na mesma rua. que assim se chamava o moço. Passando a maldita casa. . não o foi menos o primo daquela senhora a quem cortejamos na rua de. . depois desatou a rir e. embraçamo-nos e fomos..... Apenas chegamos à minha casa... iremos juntos. por último recebi ainda e de maior confiança. .Fale-me a verdade: eu acho aquela moça com cara de ser sua prima.Acredita muito nelas? . Um estudante a reqüestou e escreveu-lhe. A correspondência tem continuado por minha vontade e sou eu quem sempre faço a norma das cartas que ela deve escrever. o estudante. . um belo divertimento.. abri a boca para dizer ao meu novo amigo: é aquela!. eu lhe conto. rimo-nos todo o dia. . mas. A minha amada morava perto. .. caro estudante. . .Não é bom ir tão longe.Tenho as mais fortes. e eu acho um belo divertimento.juro que não hei de amar moça nenhuma de cor pálida. Não sei por que ainda tive ânimo de tirar o meu chapéu à tal pálida. . e só de noite se retirou. .Eu queria propor a mesma vingança. pois olhava para o lado donde eu vinha. talvez me esperando. minha prima! ... vingar-nos.. minha senhora. acrescentei: .Aquela jovem adora-me! ..Quem lhe disse?.Sim. se o estudante foi um famoso pateta e um tolo rematado..Convenho: esperávamos ambos as nossas amadas e a chuva mangou conosco.

Nunca foi desgraça Um velho marido. frade!. .. logo não me caso com minha mulher e. Suspiros ferventes Bem pode soltar: Não negue a nenhum Protestos de amor. jurei não amar a moça nenhuma que fosse morena. e ouvi-la cantas as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional: I Menina solteira Que almeja casar.ora pois. Mas eu andava triste e abatido e às vezes pensava assim: .. Que. e. A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano. Não tire a esperança De amante nenhum. Minha tristeza. ocupei- me somente em me lembrar de minha mulher e em beijar o meu breve. em falta de moço Que fortuna faça. III Os velhos não devem Formar exceção. frade. estes são os tipos da beleza.. jovial e espirituosa esposa de um de meus bons amigos.. meu abatimento deu nos olhos da digna. uma das tais cores. corada ou pálida. serei celibatário. a pesar meu. portanto. vou ser.. Nem seja notável Por sua esquivança.. isto é.. minha senhora. Desde então declarei guerra ao amor. Porquanto eles são Um grande partido. estas são as cores. minha mulher terá. em última conclusão. tornei-me ao que era dantes. Ela me pediu que lhe confiasse as minhas penas e eu não pude deixar de relatar estes três fatos à consorte de um caro amigo.. II Mereçam-lhes todos Olhares ardentes. Não caia em amar A homem algum. A qualquer que for O pode jurar.

corada ou pálida. pouco mais ou menos. minha senhora? exclamei eu.Já serve. Pronta pra rir. estavam.. . . Dos homens zombando. . minha senhora. o breviário por onde reza a totalidade das moças.Escute: abatido e desesperado com os meus infortúnios. pois.E agora?. Serve muito isto Antes de casar. é este..Estimo que lhe sirva de muito.. VI Pode bem a moça..Certamente.Então o negócio é assim.. .. ao vê-la levantar-se do piano. . se aparecer Algum toleirão. Sem mais reflexão. . V Contra os ardilosos Oponha seu brio: Tenha sangue-frio Pra saber fugir. Mas. esgotados os belos tipos. .E como?. A vida passar. . É logo casar. eu tinha jurado não amar a mais nenhuma moça que fosse morena. Não será loucura Fingida estudar. já tirei grande proveito dele. Assim praticando. me respondeu ela. Assim ganhar tudo Moças se tem visto. eu deveria morre celibatário. .Fico-lhe extremamente agradecido pelo desengano. IV Ciúmes e zelos. Amor e ternura. Em todos os casos Sempre deve estar Pronta pra chorar.

continuou Augusto. pálidas. magras e gordas..Eu lhe vou contar a história das lágrimas de amor.. D. disse ele. guardando e beijando com desvelo o meu querido breve. e enchendo o copo de prata na bacia de pedra.. D. minha senhora. Ana com suas Histórias Finalmente. 9 A Sra.Certamente que não o adivinho. cortesãs ou roceiras.. tão minucioso em minha narração que eu mesmo tanto me fatiguei.V. . sem dúvida.. mas a Sra. a Sra. 1. fiz-me absolutamente um ser novo. feias ou bonitas. o esgotou até ao fim. julgou dever fazer pausa de suspensão. D. graças ao seu lundu. . mas bem apropositada dessa fonte. Terminando assim. finalmente.. que sempre comigo trago.. minha senhora. e que tem muita relação com a história de seus amores e com o copo d’água que acaba de beber..Enganei-me.Mas vê alguém?..Então concluiu. Carolina. que vou beber uma gota d’água. com efeito.Apenas lá vejo a sua bela neta. quando pela segunda vez lhe pareceu ouvir ruído na porta da gruta..Eu o satisfaço com todo o prazer. As Lágrimas de Amor .Não. sem segurar-se. . Ana. Ana.Agora?. quando voltou os olhos. ..É talvez uma nova ilusão. juro que de hoje avante amarei a todas elas. dirigindo-lhe estas palavras pela ordem: . não quis tomar a palavra para responder. A Sra. quando lhe dava para falar.Uma borboleta. que já tinha-o por vezes interrompido fora de tempo e debalde. Sr.... era mais difuso que alguns de nossos deputados novos na discussão do art. S. . e peço-lhe perdão por me haver tornado incômodo. Eis. . Augusto?. tudo serve. . tornou Augusto. Ana principiou. .. que se precipita com a maior graça do mundo sobre uma borboleta que lhe foge e que ela procura prender..Pois estava neste momento lembrando-me de uma tradição muito antiga. D. dirigindo-se à Sra. eu ouvi distintamente a bulha de uma pessoa que corre. D. o bom do estudante que. seguramente fabulosa.. E. dirigindo-se à entrada da gruta e observando ao derredor dela. D. na verdade..Sabe de que estou rindo?. tal qual a ouvi a minha avó.Sim. Ana. morenas.. .Então?. foi ao fundo da gruta. viu que a boa hóspeda estava rindo-se maliciosamente.Alguém nos escuta. . põe em tributo a minha curiosidade. como da outra vez. respondeu a digna hóspeda. . que em pequena a aprendeu de um velho gentio que nesta ilha habitava. . Augusto ia respirar um instante. graças ao lundu. Tais foram as razões que me tornaram borboleta de amor. perguntou a Sra..º dos orçamentos. eu conservo a lembrança mais terna e constante de minha mulher: ela é o amor de meu coração. . . enquanto todas as outras são o divertimento dos meus olhos e o passatempo de minha vida. .. . pois fui. E isto dizendo. disse ela. coradas. minha senhora. a história de meus amores!..

Dizem que um velho frade português. e. Aí cantou. e por isso alegre e folgazona como uma cabritinha nova. tinha por habitação esta rude gruta. O nome dele era Aoitin. e dessa vez a gota de lágrima lhe caiu no lugar do coração e. Aoitin ia adormecer na gruta.No outro dia ele voltou e já. nem fugiu-lhe. e tomando suas flechas. que o mesmo não pôde vencer do insensível moço. por vir sempre temperado com o reativo da esperança. ora lhe apanhava as aves que ele matava. duas gotas das lágrimas de amor. ouvindo- o por tradição depois de muitos anos. que sempre o seguia. tendo de exprimir a doçura. Era no tempo em que ainda os portugueses não haviam sido por uma tempestade empurrados para a terra de Santa Cruz. até que se partia o bárbaro que nunca dela dava fé. mas. ela já tinha compreendido que a grande arma da mulher está no pranto. como na saudade. refrescar a fronte do guerreiro adormecido. que a fazia chorar amargores. então. não olhou para Aí. nem mesmo quando. quando voltava. chorava e cantava horas inteiras. a gota de lágrima lhe veio cair no ouvido. mas. Esta pequena ilha abundava de belas aves e em derredor pescava-se excelente peixe. mas não ouviu ainda o canto dela. disse bem alto: . Seu canto era triste e selvagem. e nem o esqueceu. A pobre Aí. o traduziu para a nossa língua e fez dele uma balada. como era de esperar. que lhe cerravam os olhos. sem que uma só desse fé dos olhares ardentes que lhe dardejava a moça. E o mancebo vinha sempre. ao romper da aurora. e. disse bem alto: . procurou fugir do insensível moço e fazer por esquecê-lo: porém. Mas tantos extremos era tão mal pagos. que é veneno que não mata. ela. dormindo na gruta. selvagem mesma. Uma jovem tamoia. que serve de teto a esta gruta. na volta não só admirou a beleza da jovem. e vinte vezes já o havia feito. pôde do bruto rochedo. e nunca ele a atendia. Ou porque sua dor era tão grande que lhe podia espremer o amor em lágrimas desde o coração até aos olhos. adormecer na gruta. começou a fazer-se tímida e depois triste. Todos os dias. ela entrava de manso e com um ramo de palmeira procurava. mas terno canto. caíram-lhe sobre as pálpebras. como o gemido da rola. sem descanso. Aí chorou. e esperava a piroga de Aoitin. o canto soava sobre a sua cabeça. Uma vez. como sempre. saltando dentro de sua piroga e afastando-se da ilha. quando no fim de seus trabalhos. como das outras. Ora. e nunca um só sinal de reconhecimento obtinha. caçou e cansou. a esperança que no pranto lhe adicionava a doçura.Voz sonora! Terceiro dia amanheceu e Aoitin viu e ouviu Aí. entrou na gruta e adormeceu num leito de verde relva. ora lhe buscava as flechas disparadas. que Aí. ele viu sobre o rochedo a jovem Aí e disse bem alto: • Linda moça! . e já então o rochedo estava todo traspassado pelas lágrimas da virgem selvagem. uma vez veio Aoitin e. veio repousar na gruta. a pobre Aí subia ao rochedo. que tinham passado através do rochedo. onde ainda então não se via a fonte que hoje vemos. depois de caçar veio. olhou para a virgem selvagem. Mas Aí era tão formosa e sua voz tão sonora e terna. movendo o ar. ou porque. uma jovem tamoia linda e sensível. o nome dela era Aí. que diariamente vinha caçar ou pescar na ilha. e sempre ela cantava e chorava. Desde então tomou outro partido: chorou. ao tempo que em mais sossego dormia. a qual minha neta canta. com efeito. E porque também nas lágrimas de amor há. entregou- se a seus prazeres e. Mal a avistava ao longe. quando se sentiu fatigado. dessa vez. seu canto havia amolecido a rocha e suas lágrimas a traspassaram. ouvindo a terna cantiga. Aoitin despertou. cujo rosto moreno parecia tostado pelo fogo em que ardia-lhe o coração. como. correu para o mar. que até aos quinze anos era inocente como a flor. a causa estava no agradável parecer de um mancebo da sua tribo. uma doce amargura. a moça julgou dever separar da dor. nem lhe escutou as sentidas cantigas. de cansada.

tanto na selvagem como na civilizada: a mulher deseja ser amada. a dois passos viu a fonte que manava.era a febre do amor.Sinto amar-te! Mas de repente ela estremeceu. trepando pelo rochedo. por força. que quem bebe desta água não sai da nossa ilha sem amar alguém dela e volta. mas também não fugiu dos braços de Aoitin..Sempre minha neta!. por sua intervenção. um raio de esperança lhe brilhava. . A cada trago que bebia. .. respirando. A fonte nunca mais deixou de existir e há ainda quem acredite que por desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes. Augusto correu à porta e voltou logo depois. . já estava feliz. . D. para a gruta. D. já o insensível era escravo e não vivia longe do encanto que o prendia: correu. Carolina. a fonte era milagrosa. . confessando também o seu amor tão antigo. esperava ver partir o seu amante e ouvir o seu belo grito: . querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem as bebe adivinhar os segredos de amor. . Nada de caça.. foi bebendo as lágrimas de amor. Dizem. e que a ela cumpria responder a este último grito de Aoitin.Tu me amas!? Aí não respondeu. não puderam esconder a sua origem e fizeram com que Aoitin conhecesse que era amado. tenho que pedir-lhe uma graça. e quando a sede foi saciada.Ninguém. E em segundo lugar.E eu sou capaz de jurar. deseja ser senhora do mesmo de quem é escrava: e pois Aí nada respondeu. Quem ama não dorme. .Terminei aqui a minha história. correu açodado para ao pé dela e. Desde então foram felizes ambos na vida. me facilite o prazer de ouvir sua linda neta cantar a balada de Aí. . porque uma mão estava sobre seu ombro: e quando olhou viu Aoitin. foi clamando: . porém já a este tempo as muitas que havia derramado tinham dado origem a esta fonte. sentiu que em suas veias corria sangue ardente. ajuntando as suas mãos. respondeu o estudante. suas lágrimas secaram. Ana. que.. mas riu-se. com os olhos na praia do lado oposto. .. perguntou a Sra. nem chorava: mesmo antes de chegar à praia. que tanto me interessou com o seu amor.Diga. Ana. de manso.. No dia seguinte veio Aoitin. disse Augusto.. que ainda hoje existe.E então?. .. minha senhora.Rogo-lhe que. pois. parece que nada mais faltava a Aí. deitou-se. e foi numa mesma hora que morreram ambos..E eu. mas a natureza da mulher é a mesma.. disse a Sra.. mas não dormiu.E vê alguém no jardim?. nem ficou devendo o beijo que nesse instante lhe estalou na face. pois. que pela terceira vez sinto ruído de alguém que se retira correndo. que seu coração estava em fogo: . e viu a sua amada.Sinto amar-te! E Aí não respondeu e só sorriu-se. Saindo da gruta.. D. que haviam tido o poder de tornar amante o insensível mancebo. .Sinto amar-te! Ora. que já não cantava.Apenas a Sra. que vai apressadamente para o rochedo. Então ele não mais buscou sua piroga... Aoitin teve sede.Pois examine depressa. . fez um rodeio e foi. fingindo não amar. até chegar junto de Aí. nada de pesca. em demanda do objeto amado. As lágrimas de amor. que sorrindo-se lhe disse num tom seguro e terno: . .

. . não carece pedir.. sobre o rochedo?..Será possível?! . E a balada.Oh!. não a ouve cantar..Adivinhou o seu pensamento.. .....

tomando campo no jardim para vencer a altura do rochedo. II O riso de meus lábios Há muito que murchou. IV A face cor de jambo Enfim se descorou. E tenho amor ainda. viram a bela Moreninha em pé e voltada para o mar. Aquele que eu adoro Ah! foi que a desbotou: A face tão rosada De pranto está lavada! . E por tão triste amar Aqui venho chorar. que morreu. com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam pelas espáduas. III O fogo de meus olhos De todo se acabou: Aquele que eu adoro Foi quem o apagou: Onde houve fogo tanto Agora corre o pranto. O pranto sucedeu. e cantando com terna voz o seguinte: I Eu tenho quinze anos E sou morena e linda! Mas amo e não me amam. Aquele que eu adoro Ah! foi quem o matou: Ao riso. 10 A Balada no Rochedo A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e.

Mau sol! queima a florzinha Que adora os raios seus: Tempo é do sol raiar E é tempo de chorar. E sempre o vejo e choro: Por paga a tal paixão Só lágrimas me dão! VII Aquele que eu adoro É qual rio que corre. Que sempre dá pesares: . VIII São horas de raiar O sol dos olhos meus. IX Lá vem sua piroga Cortando leve os mares: Lá vem uma esperança. VI Diurno aqui se mostra Aquele que eu adoro. V O coração tão puro Já sabe o que é amor. E nunca ele me vê. Aquele que eu adoro Ah! só me dá rigor: O coração no entanto Desfaz o amor em pranto. Sem ver a flor pendente Que à margem murcha e morre: Eu sou a pobre flor Que vou murchar de amor.

Qual beija-flor. Ligeiro como a seta Que do arco seu dispara: Quando há de ele correr Somente pra me ver? XII Lá vem do feliz bosque Cansado de caçar. E cai na rude cama. XIII Lá entra para a gruta..Lá vem o meu encanto. XI Lá corre em busca de aves A selva que lhe é cara... Qual flor de belas cores.. Enfim salta apressado. Que sempre causa pranto. Garboso como o cervo Que salta alto valado: Quando há de ele cá vir Só pra me ver sorrir?. X Enfim abica à praia. que cansa De mil flores beijar: Quando há de ele cansado Descansar a meu lado?. . Que cai do pé na grama: Quando há de nesse leito Dormir junto a meu peito? XIV Lá súbito desperta.

. Qual sol que....E na piroga embarca.. Que colo há mais formoso. Qual sonho que se esvai E deixa após pesares: Quando há de ele cá vir Pra nunca mais fugir?. O fim do dia marca: Quando hei de este sol ver Não mais desaparecer? XV Lá voa na piroga. Mais digno de teus braços? Ingrato! morrerei.. E não te abraçarei. Meus lábios murchareis. XVI Ó bárbaro! tu partes E nem sequer me olhaste? Amor tão delicado Em outra já achaste? Ó bárbaro! responde Amor como este. se ocultando. aonde? XVII Somente pra teus beijos Te guardo a boca pura. Seus beijos não tereis! XVIII Meu colo alevantado Não vale teus braços?. Em que lábios tu podes Achar maior doçura?. .. Que o rasto deixa aos mares..

XXI Ingrato! ingrato! foge. E ver pranto de dor!.. Em pé na rocha dura ‘Starei cantando aos ares A mal paga ternura.... E aqui não tornes mais: Que. Terás de ouvir meus ais: E ouvir queixas de amor.. 11 Travessuras de D. XIX Meus seios entonados Não podem ter vala? Desprezas as delícias Que neles te oferecia? Pois hão de os seios puros Murcharem prematuros? XX Não sabes que me chamam A bela do deserto?. Empurras para longe O bem que te está perto! Só pagas com rigor As lágrimas de amor?.. esteve no jardim e em toda a parte.. se amanhã vieres.. ... cantou de sobre o rochedo e ei-la outra vez no jardim! Infatigável. Chorando me acharás!.. Carolina Mas ela não pára: o movimento é a sua vida. sempre que tornares. XXII E.. apenas suas faces se coraram com o rubor da agitação. Cantando me ouvirás.

e cousas vãs. Se. perdido..Travessa menina!... . . doido. . Tu ainda não lhe disseste nada? . apontando para a irmã de Filipe.Que a amas!... faze idéia! Já leu Mary de Wollstonecraft e. à primeira vista. apenas me formasse. graça e espírito..Pois que queres que eu diga? . em prol dos tais direitos das mulheres: além de que..Acho-a bonita. o diabinho da menina nos tem posto o coração em retalhos. Fabrício jurava mesmo que a vira enxugar uma lágrima. enfim! ..Também Fabrício? . que dás o cavaco por ela. adeus! o meu lindo par se levanta do banco de relva em que descansava. pronunciarão a letra C. promoveria a discussão de uma mensagem ao governo-geral. . No entanto D. .. estradas e canais. no caso de chegar a ser general. tornou a brilhar-lhe o prazer em ebulição... .. Não há um só. entre todos. trabalharia para encartar-me na Assembléia Provincial e lá.Dize tudo de uma vez. mas. Carolina continuava a cativar todos os olhares e atenções.Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós.É tão ligeira como um juramento de mulher..Zomba de todos nós.. pois lhe prometi que. Porém. de novo. ela tempera todas as travessuras com tanta viveza. O mesmo Augusto não pôde resistir à vivacidade da menina. em lugar das maçadas de pontes. como a achas agora?. que ela estivera alguns momentos recostada à efígie da Esperança.E ela? ...É tudo o que pensas?. se fizer a saúde que hoje fizemos. é verdade. todos.. tu bem vês que ela me está chamando: adeus!. mas. agastou-se comigo. ..Muito esbelta..Tanto melhor para mim. . que menos valera se não fizera o que faz. . . ..Cousas vãs. e palavras da tarifa.Amá-la? não faltava mais nada! amo-a como amo as outras. isso sim...Só isso?..E pior para ela. ... produziu o gênio inquieto de D. der cuja alma se não tenham esvaído as idéias desfavoráveis que.Pois meu amigo.Então. tinham notado.. . . à exceção de Filipe. . Olha.. espirituosa e capaz de levar a glória ao mais destro casuísta.Nada mais?. . disse Leopoldo. .. vou tomar-lhe o braço. Mas.Tem voz muito agradável. todos nós estamos derrotados..Tem a boca mais engraçada que se pode imaginar.Que mais? . . triste e pensativa. . e a patente de cirurgião do exército.. tenho-me singularmente divertido: a bela senhora é filósofa!.Só?.. Fabrício vê-se doido com ela. porque lhe pedi uma comenda para quando fosse Ministra de Estado.Ora! esse está doente. enfim. fez as pazes. . mas logo depois desapareceu completamente a menor aparência de tristeza.E ela? . como esta defende os direitos das mulheres... Carolina.. Encontrando Leopoldo. disseram duas palavras sobre ela.. ..Interessante. adeus!.. cada cumprimento que lhe endereçamos paga ela com uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio..Palavras da tarifa.

Todos tinham tido seu quinhão, maior ou menor, segundo os merecimentos de cada um, nas
graças maliciosas da menina. Ninguém havia escapado: Fabrício era a vítima predileta, porque também
foi ele o único que se atreveu a travar luta com ela.
Finalmente D. Carolina acabava de entrar outra vez no jardim, depois de ter cantado sua balada.
De todos os lados soavam-lhe os parabéns, mas ela escapou a eles, correndo para junto de uma roseira
toda coroada por suas belas e rubras flores.
Fabrício, que ainda não estava suficientemente castigado e que, além disto, começava a gostar
seu tantum da Moreninha, se dirigiu com D. Joaninha para o lado em que ela se achava.
- É decididamente o que eu pensava, disse Fabrício, quando se viu ao pé de D. Carolina; e
dirigindo-se a D. Joaninha: sim... sua bela prima ama as rosas, exclusivamente.
- Conforme as ocasiões e circunstâncias, respondeu a menina.
- Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou Fabrício.
- Com toda a justiça e, continuou D. Carolina rindo-se, tanto mais que foi a V. S.ª que me dirigi.
Eu queria dizer que, entre um beijo-de-frade ou um cravo-de-defunto e uma rosa, não hesito em preferir
a última.
Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou;
- Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência; a rosa é como a beleza: encanta
mais espinha; V. S.ª o sabe, não é assim?
- Perfeitamente, mas também não ignoro que a rosa só espinha quando se defende de alguma
mão impertinente que vem perturbar a paz de que goza; V. S.ª o sabe, não é assim?
- Oh! então a Sra. D. Carolina foi bem imprudente em quebrar o pé dessa rosa com que brinca,
expondo assim seus delicados dedos; e bem cruel também em fazê-la murchar de inveja, tendo-a defronte
de seu formoso semblante.
- Pela minha vida, meu caro senhor! nunca vi pedir uma rosa com tanta graça: quer servir-se
dela?
- Seria a mais apetecível glória...
- Pois aqui a tem... Querida prima, nada de ciúmes.
E Fabrício, recebendo o belo presente, em vez de olhar para a mão que o dava, atentava em
êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de D. Carolina. Ao momento de se encontrar a mão que dava
e a que recebia, Fabrício sentiu que lhe apertavam os dedos; seu primeiro pensamento foi crer que era
amado; mas logo se lhe apagou esse raio de vaidade, pois que ele retirou vivamente a mão, exclamando
involuntariamente:
- Ai! feri-me!...
Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os espinhos da rosa. Mas a flor tinha caído
na relva: Fabrício, já menos desconcertado, a levantou com presteza, e, encarando a irmã de Filipe,
disse-lhe, em tom meio vingativo:
- Foi um combate sanguinolento, ma ganhei o prêmio da vitória.
- Pois feriu-se?... perguntou D. Carolina, chegando-se com fingido cuidado para ele.
- Nada foi, minha senhora: comprei uma rosa por algumas gotas de sangue... valeu a pena.
- Maldita rosa! exclamou a Moreninha, teatralmente... maldita rosa! eu te amaldiçôo!...
E dando um piparote na inocente flor, a desfolhou completamente; não ficou na mão de Fabrício
mais que o verde cálice. D. Carolina correu para junto de sua digna avó; o pobre estudante ficou
desconcertado.
- E esta! murmurou ele, enfim.
- Foi muito bem feito! disse D. Joaninha, cheia de zelos e dando-lhe um beliscão, que o fez ir às
nuvens.
- Perdão, minha senhora... seja pelo amor de Deus! exclamou Fabrício, que se via batido por

todos os lados.
No entanto começava a declinar a tarde; uma voz reuniu todas as senhoras e senhores em um só
ponto: serviu-se o café num belo caramanchão; mas, como fosse ele pouco espaçoso para conter tão
numerosa sociedade, aí só se abrigaram as senhoras, enquanto os homens se conservavam na parte de
fora.
Escravas decentemente vestidas ofereciam chávenas de café fora do caramanchão, e, apesar
disse, D. Carolina se dirigiu com uma para Fabrício, que praticava com Augusto.
- Eu quero fazer as pazes, Sr. Fabrício; vejo que deve estar muito agastado comigo e venho
trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão.
Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto: ele desconfiava das tenções da
menina; sua primeira idéia foi esta: o café não tem açúcar.
Então, começou entre os dois um duelo de cerimônias, que durou alguns instantes; finalmente,
o homem teve de ceder à mulher. Fabrício ia receber a chávena, quando esta estremeceu no pires... D.
Carolina, temendo que sobre ela se entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto: a
chávena, inda mal tomada, tombou: o café derramou-se inopinadamente. Fabrício recuou ainda mais
com vivacidade, mas, encontrando a raiz de um chorão que sombreava o caramanchão, perdeu o equilíbrio
e caiu redondamente na relva.
Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
- Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corrido do que acabava de sobrevir-
lhe: as risadas continuavam, as terríveis consolações o atormentavam; todas as senhoras tinham saído
do caramanchão e riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício muito daria para ser livrar dos
apuros em que se achava, quando de repente soltou também a sua risada e exclamou:
- Viva as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça: Augusto
estava de calças brancas, e a maior porção de café entornado havia caído nelas.
Continuaram as risadas, redobraram os motejos. Duas eram as vítimas.

12

Meia Hora Embaixo da Cama

Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em auxílio de Augusto. Em verdade
que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira com aquela calça, manchada pelo café; e,
portanto, os dois estudantes voaram à casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens, ia
tratar de despir-se, quando foi por Filipe interrompido.
- Augusto, uma idéia feliz! vai vestir-te no gabinete das moças.
- Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
- Ora! pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo espelho em que elas
se miram!... de te aproveitares das mil comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador
de uma moça?... Vai!... sou eu que to digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países;
óleos aromáticos, essências de formosura e de todas as qualidades; águas cheirosas, pós vermelhos
para as faces e para os lábios, baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as pálidas, escovas e escovinhas,
flores murchas e outras viçosas.
- Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o meu coração adivinha...
- Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.

E, isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi reunir ao rancho
delas.
Ai do pobre Augusto!... mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa, que também se achava
manchada, sentiu rumor que faziam algumas pessoas que entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos, quando se juntam fazem,
conversando, matinada tal, que a um quarto de légua se deixam adivinhar; se é sediço e mesmo insólito
compará-las a um bando de lindas maitacas, não há remédio senão dizer que muito se assemelham a
uma orquestra de peritos instrumentais, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura, incapaz de aparecer a pessoa alguma;
em ceroulas e nu da cintura para cima, faria recuar de espanto, horror, vergonha e não sei que mais, ao
belo povinho que acabava de entrar em casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de cobrir o
rosto com as mãos; e, portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à mente:
ajuntou toda a sua roupa, enrolou-a, e com ela embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama
que se achava no fundo do gabinete, cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita; mas,
ainda outra vez, pobre estudante! teve logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama, pois
quatro moças entraram no quarto. E eram elas D. Joaninha, D. Quinquina, D. Clementina e uma outra
por nome Gabriela, muito adocicada, muito espartilhada, muito estufada, e que seria tudo quanto tivesse
vontade de ser, menos o que mais acreditava que era, isto é, bonita.
Depois que todas quatro se miraram, compuseram cabelos, enfeites e mil outros objetos que
estavam todos muito em ordem, mas que as mãozinhas destas quatro demoiselles não puderam resistir
ao prazer, muito habitual nas moças, de desarranjar para outra vez arranjar, foram por mal dos pecados
de Augusto, sentar-se da maneira seguinte: D. Clementina e D. Joaninha na cama, embaixo da qual
estava ele; D. Quinquina de um lado, em uma cadeira, e D. Gabriela exatamente defronte do espelho,
do qual não tirava os olhos, em outra cadeira que, apesar de ser de braços e larga, pequena era para lhe
caber sem incômodo toda a coleção de saias, saiotes, vestidos de baixo e enorme variedade de
enchimentos que lhe faziam de suplemento à natureza, que com D. Gabriela, segundo suas próprias
camaradas, tinha sido um pouco mesquinha a certos respeitos.
Depois de respirar um momento, as meninas, julgando-se sós, começaram a conversar livremente,
enquanto Augusto, com sua roupa embaixo do braço, coberto de teias de aranha e suores frios, comprimia
a respiração e conservava-se mudo e quedo, medroso de que o mais pequeno ruído o pudesse descobrir;
para meu mor infortúnio, a barra da cama era incompleta e havia seguramente dois palmos e meio de
altura descobertos, por onde, se alguma das moças olhasse, seria ele impreterivelmente visto. A posição
do estudante era penosa, certamente; por último, saltou-lhe uma pulga à ponta do nariz, e por mais que
o infeliz a soprasse, a teimosa continuou a chuchá-lo com a mais descarada impunidade.
- Antes mil vezes cinco batinas seguidas, em tempo de barracas no Campo!... dizia ele consigo.
Mas as moças falam já há cinco minutos; façamos por colher algumas belezas, o que é, na
verdade, um pouco difícil, pois, segundo o antigo costume, falam todas quatro ao mesmo tempo. Todavia,
alguma coisa se aproveitará.
- Que calor!... exclamou D. Gabriela, afetando no abanar de seu leque todo o donaire de uma
espanhola; oh! não parece que estamos no mês de julho; mas, por minha vida, vale bem o incômodo
que sofremos, o regalo que têm tido nossos olhos.
- Bravo, D. Gabriela!... então seus olhos...
- Têm visto muita coisa boa. Olhe, não é por falar, mas, por exemplo, há objeto mais interessante
do que D. Luísa mostrar-se gorda, esbelta, bem feita?...
- É um saco!
- E como é feia!...
- É horrenda!

.. Quinquina..Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo! .Deus me livre!. . dir-se-ia que não temos dormido juntas. . .Ora..Como? . Pobre Augusto!.. pelo menos para mim nunca deve ser. recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas. D... podemos tirar as dúvidas. Clementina e.Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas. suspirou ela..Pernas finas também é moda presentemente. além de que. apesar de se ver em apuros embaixo da cama. D. Quinquina. ah! ah! ah! ... que não parecia estar muito consigo e que só por honra da firma dissera o seu “nem eu!”. D... Gabriela. Clementina.E não vimos a filha do capitão com sua dentadura postiça?. com ar de triunfo. tornou a primeira.Eu não sei por que as outras não hão de ser como nós. . .E a boca?.Não lhe fico atrás.Quem me dera já casar..É uma víbora! .É um bicho! . o nosso estudante. vamos a isto! ... .Ora. não quero. . por sua vez.Ainda que estivesse na moda. disse.Não.Não. .. ...E que língua que ela tem! .. que parece o morro do Corcovado!. Quinquina. e deixando escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito.Pois por mim não era a dúvida. . ele vê a um palmo dos seus olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!. até tocar com o pé no chão. não somos todas moças?.. que me deu pernas grossas.Isso é bom de se dizer. que não dizemos mal de nenhuma delas.. . arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das órbitas.Ora. Ouvindo tal proposição. um pezinho que só se poderia medir a . . disse ela. tornou D. . está absolutamente fora da moda. .. juro-lhe eu! exclamou D. passando a outra coisa. Clementina. porém... você reparou no vestido de chalim de D. mas... através da finíssima meia aprecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e.Diga sempre..Coitadinha! aperta tanto os olhos! . D. .Facilmente: vamos medir nossas pernas. porque se eu quisesse falar.. de modo que ficou à mostra até o joelho. .D.E talvez algum saiote.Um nariz com tal cavalete.. felizmente. pois não posso emendar a natureza. tem uma testa maior que a rampa do Largo do Paço!. .... porque tem pernas de caniço de sacristão. acudiu D. ... .. . não te chamarei eu feliz!.. Clementina. não se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido. veio deixá-lo com água na boca..Por quê? . é um pau vestido!. Joaninha...Parece que anda sempre pedindo boquinhas. D. acrescentou D. Mas..É verdade. .. Agora não faz senão rir!. não há nada que nela assente bem.Havia de ser engraçado. . Joaninha.Que tinha isso?. Josefina aplaude com prazer a moda dos vestidos compridos! . .. acudiu D.. Quanto a mim. rematando este interessante painel róseo.. não me obrigue a rir!. Carlota?..É verdade.. arregaçarmos aqui nossos vestidos!... não.

para não constipar. .. dou dominus tecum aos moços mesmo quando eles não espirram e não posso ver o Sr. Trocou as cartas! . e quando descia a escada. com a destreza precisa. sabem o que fez?..Mas eu sou bem tola! conto tudo o que me sucede e ninguém me confia nada! .. e a tudo isso julga ele ter muito direito por ser tenente da Guarda Nacional! Pois.. Tenente Gusmão sério sem soltar uma gargalhada. Quase que já se não podia suster. eu vejo-me doida!. quem o pensaria? não foram beijos o que desejou o estudante outorgar àquele precioso objeto. Mesmo dizendo- lhe eu dez vezes: a de lacre azul é do Sr. em sinal de sentimento. disse D..E o resultado?.Bravo... te condenam às perpétuas galés do desprezo.. ando agora de fita branca no cabelo. entregou-me este escrito do Sr. . é doutor. .Não... o meu ciúme e justo ressentimento. mas.. . Joaninha. uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas.. de futilidades é que amor se alimenta..Quem me dera já casar!. .. . . um embrulhozinho com uma trança de meus cabelos.Ora pois. o que hei de dizer? respondeu esta.Bem mostra pelo bem que escreve..Isto é fácil. enfim.Que asneira?. Gabriela.. D. nós devemos pagar com gratidão a confiança de D. ao vir embarcar.. apertando-os com força. Joãozinho e a de verde é do Sr. e só te poderás livrar delas se apelares dessa sentença para o poder moderador de minha cega paixão. Eu confesso que me correspondo com cinco.Ora. Eu começo declarando que estou comprometida com o Sr.. digo que ainda não amo..São caprichos de namorados! falou D. meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e... Olhem. e que jamais me ria quando ele estiver sério. ontem. . disse D. perguntou ainda ela a D.. . . que são os juízes. a maldita estava de mona. eu tenho muita vergonha.Isso é razoável.. até parece romântico. Juca. por isso mesmo. Gabriela! o Sr.” . Joãozinho é sem dúvida estudante de jurisprudência? . apesar de todas as minhas explicações.E você.. com uma fita preta no cabelo. Querem ver uma dessas? O meu predileto está de luto e por isso exige que eu vá à festa de. pois bem. respondeu D. . . repetiu D. ..É a única que ama deveras! pensou o estudante. mil beijos. Porém.. mana..Ei-lo aqui. embaixo da quarta roseira da rua do jardim..Olhem lá o diabinho da sonsa! murmurou consigo mesmo Augusto. a quem já doíam as cadeiras de tanto agachar- se. exige ainda que eu não valse mais. pegando no corpo de delito da tua perfídia! Escreves a outro? Compareces por tão horrível crime perante o júri do meu coração.. tomo sorvetes até não poder mais. ...Logo duas?. por que lhe não entrega ou não lho manda entregar?. Filipe a deixar esta noite.. Quinquina... a tal preta.. e que estava mesmo pedindo um.. recebeu da minha mão duas. veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria dando-lhe uma dentada.. . que vai direita ao caramanchão. Clementina. mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?. Clementina.polegadas. que não dê dominus tecum a moço nenhum que espirrar ao pé de mim. e. tirando um papel do seio. embaixo da cama. principalmente se devemos dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. que não tome sorvetes. cem. procurava iludir sua imaginação. isto é só para ver qual dos cinco quer casar primeiro.. lembrando-se da exótica figura em que se via. bem que tenhas nesse tribunal a tua beleza por advogada. Joãozinho: “Ingrata! Ainda tremem minhas mãos. não diz nada?.Eu?.. já estava de boca aberta e para saltar. Gabriela.. valso todas as vezes que posso. apertado em um sapatinho de cetim.. Gabriela.. dez. havia tanto tempo para isso! mas. antes quero assim.

todas nós gostamos de ser conquistadoras. . perseguiram-me constantemente seis. . só as perninhas que ele tem!.. .. Leopoldo. . Joaninha. .... vejo-me sempre cercada de adoradores. Houve já um que não teve vergonha de escrever isto em um papel: Num dia.Eu creio que ele é corcunda. Joaninha. assobiou D. porém. . Não lhe gabo o gosto. assemelha-se muito a uma preguiça..Mas que temos nós feito nesta ilha?.. Fabrício?... . Gabriela.. que triunfos havemos conseguido?. onde quer que esteja. Vaidade para o lado: moças bonitas. mas é uma verdadeira desgraça ser hoje moda ouvir com paciência quanta frivolidade vem à cabeça .. . ainda não tive tempo de olhar para as pernas.Não. . eu não sei se sou bonita. porque parece que os tolos como que não a têm..Pela minha parte não digo nada. D. . isso é verdade.. respondeu aquela. que se ponha outra no meu lugar.Oh!...Como lhe fica mal aquela cabeleira!. Clementina..não direi à cabeça. ..Pois bem.. D. mas também você parece que não se arrepia muito com a corcova do nariz de meu primo. Amo a todas elas... por exemplo.Mas. onde está o seu talento?.. é o único de quem gosto. devemos ter conquistado alguns corações! ..Que tolo!.. Gabriela mirando-se no espelho. No mesmo lugar Eu gosto de amar Quarenta Cinqüenta Sessenta: Se mil forem belas. . não é graça.E o Sr. e o Sr. .Pois bem.. hoje. minha amiga. Leopoldo.Há de ser interessante dançando! . tenho-me visto doida. . Fabrício?. tem-se regalado hoje com o incomparável Fabrício.. confessemos.Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um tempo..Tem as pernas tortas. .. aquilo é magreza.. e esse paspalhão!.Ora..Que pateta!. disse D. acudiu D.. O tal Sr.. como somos. era impossível ter tempo de mangar com todos a preceito.Vamos nós tomá-lo à nossa conta? .. mas enfim. .... .. eu ainda não vi estudante mais desestudável!..Que vaidoso! .Você.Essa opinião segue também o Augusto! ..Forte impertinente! falando é um Lucas..Pois confessemos. murmurou entre dentes o nosso estudante. . numa hora. aos lábios de um desenxabido namorado.. . . mas. exclamaram as três.. estendendo o pescoço a modo de cágado.. Quinquina... tornou D.Ei-las comigo.Juro que estou completamente aturdida com os protestos de eterna paixão do Sr.

ouviu-se um grito de dor. que havia duas mesas. em que se vira em tantos apuros. O caso é simples. mas. ergueu-se e sentiu que as paredes andavam-lhe à roda. onde inda há pouco só se respirava prazer e delícias. . mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai. havia D. saiu de seu esconderijo. O grito de dor foi. junto à mesa. e. Gabriela deixado cair. Mas elas não tiveram tempo de pensar. acreditando sentar-se numa cadeira. Quando daí a pouco a ama de D. o alemão a lobrigou ao entrar num quarto. soltado por D. Joaninha. pareceu-lhe que estava uma nuvem diante de seus olhos. muito estimada de todos. Joãozinho. todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar. D. com efeito. gritando que Paula acabava de ter um ataque. enquanto o alemão. Carolina que. por isso. Augusto. . deixar aquele lugar. neste momento. que não estava menos assustado. se dirigiu para a sala. porque. em resultado as seis garrafas foram-se. Chamou-a. que. e com prontidão e cuidado pôde. duas salas e tudo em dobro. risonha e imóvel. Ana uma pobre mulher. cambaleou e. Paula deixou-se ficar sentada. porque o era da despotazinha daquela ilha. caiu com estrondo contra uma porta. vestiu-se apressadamente e ia. depois. O grito de dor tinha sido.Coitada! que lhe sucederia?. que o assoalho abaixava e levantava-se debaixo dos pés. Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos.. das quais se achava ternamente enamorado. a quem tinha servido de ama. por nome Paula.. por sua vez. Ora.Pareceu-me a voz de minha prima Carolina. mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honras à meia dúzia de lindas garrafas. O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel. contudo. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua meia língua dirigir uma saúde. ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a reqüestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. A primeira pessoa que entrou em casa foi D. Morava com a Sra. quando deu com os olhos na carta do Sr. com a pressa e agitação. As quatro moças levantaram-se espantadas. se alguém corre perigo. As quatro moças correram precipitadamente para fora do quarto. Por infelicidade de Paula.. Passado algum tempo. Carolina. obrigou-a a sentar-se junto de si. sua mãe e sua família. não é certamente ela. sempre sóbria e inimiga de espíritos.. ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela casa. Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira. rubicundo e reluzente. 13 Os Quatro em Conferência Ninguém se arreceie pela nossa travessa. Logo confusão e movimento. na verdade. sem ser visto.Vamos: pensemos nos meios de zombar dele cruelmente. Carolina. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça. correram alguns escravos para o jardim. vendo a infeliz mulher estirada no . exclamou D. Ninguém ousou pensar que Paula. que os copos dançavam. e muito naturalmente. como já estivesse um pouco impertinente. .. e.. de D. se tivesse deixado embriagar.Vamos ver. ...Pois pensemos... Carolina quis levantar-se. . não pôde dar mais que dois passos. Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes. forçava Paula a virar copos cheios. escapar-se do gabinete. seu.

porém. isso é do catecismo dos charlatães! . minha irmã ficaria inconsolável. que mal se entendia uma palavra. que há pouco lhe despejou meia garrafa por cima. não sejas tolo. é espírito maligno que lhe entrou no corpo! venha quanto antes um padre com água benta e seu breviário.Oh diabo!. conhecerá esta patacoada. sempre em voz baixa. se lhe disséssemos que sua ama se embebedou. correndo de uma para outra parte.É ataque de estupor! bradava a quarta senhora. havia algazarra tal. Quem lhe olha para o nariz diz logo que são maleitas! Eu já vi curar-se uma mulher. gritou uma avelhantada matrona. nenhuma delas quer ver o que está diante de seus olhos. por força.... disse Filipe em tom baixo a seus colegas. podemos aproveitar as circunstâncias. .... nem sentir o cheiro que lhes está entrando pelo nariz. digam semelhantes coisas!.. com toda a força de seus pulmões.É espírito maligno! acudiu outra.São lombrigas! gritava uma terceira. mesmo vendo-se a minha dor. Momentos depois Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por toda a família. é fraqueza complicada com o tempo frio. Junto do leito apareceram os quatro estudantes. tornou Augusto. . a minha Paula nunca teve tão feio costume. .Isto não vale a pena. .. .. ficando entendido que as honras pertencerão ao que maior número de asneiras produzir. disse uma senhora. que parecera somente capaz de brincar e ser estouvada. . que teve o mesmo mal. ainda que também nós não entendamos... Oh! é bem cruel que. exclamando com força: .Diremos tudo o que nos vier à cabeça. não senhora! acudiu D. não vale nada.. vamos sossegar estas senhoras.. . pelo lado da parede. o caso é que nos não entendam.. Curto foi o exame. É fazer isso já.Foi este o seu grito de dor. é uma mona de primeira ordem. . prevenindo tudo e aparecendo sempre onde se precisava apressar um serviço ou acudir a um reclamo. e. aturdidas pelo caso repentino e preocupadas pela sobriedade desta mulher. são maleitas!. que se supunha com muito jeito para a Medicina. devemos lançar mão de tudo o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros. Observava- se aquela Moreninha de quinze anos. O rosto e o bafo da doente bastaram para denunciar-lhes com evidência a natureza da moléstia. a culpa é desta senhora. com cauda de cobra moída. . . e.assoalho. tornou Filipe.Mona..Ora..Está claro. .Oh! minha mãe!. brigaria conosco e não nos acreditaria.. para que estão com tal azáfama?. que acabava de entrar no quarto. se está molhada com vinho. caiu sobre ela. não pôde livrar-se de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa porção pelos vestidos. que foi mais ouvida que as primeiras. torrada e depois desfeita num copo d’água tirada do pote velho com um coco novo e com a mão esquerda. por mais que lépida e risonha o fosse engolindo a largos tragos... Violante... Só cuidava de si quando devia enxugar as lágrimas..Mas que iremos dizer nesta conferência. senão que ela está espirituosa demais? perguntou Augusto. . que a boa da Paula tomou? Olhem: até tem o vestido cheio de vinho.Não.Há de ser bonito. zombar de todas elas e divertir-nos fazendo uma conferência.Ora. . à vista de tanta gente que. foi despejando meia garrafa de vinho na boca da pobre Paula que. venha um copo de vinho! E dizendo isto. . .Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza. não pareces estudante. portanto. . Carolina. não se vê logo que isto não passa de uma mona. No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a solicitude da menina travessa!.São maleitas! exclamava D.

penetrando pelas câmaras ópticas.Acabastes.O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado. em minha opinião. ou mesmo o thea sinensis. voltando-se para os circunstantes. vá de um jacto causar um tricocéfalo no esfenóide. o rosto e os olhos da enferma auscultaram e percutiram-lhe o peito e fizeram todas as outras pesquisas do costume. no esfíneter do cerebelo. a língua. as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente. no alcorão de nosso Mafoma. . brilhou o sol da sabedoria.. . Movimento de curiosidade. é... Poucas palavras bastam. Eu diagnostico uma baquites.Eis aí a consideração que os leva ao erro!. sudorária e todas as que acabam em ária. é porque a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo... Seguiu-se novo exame da enferma.Meus senhores. purgantes sem .. Mas eu tenho observações de moléstias de natureza da que nos ocupa e que vão mostrar a superioridade do meu sistema.Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes o têm já tomado?. haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas. que qualquer de vós já a tem padecido muitas vezes. é por se não ter ainda descoberto o meio de dividir em um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores.. disse com voz teatralmente solene: .Sangue! sempre sangue! eis a Medicina romântica do insignificante Broussais! mas eu detesto tanto a Medicina sanguinária.. . . senhores. .Qual conhecer?. porque a verdade está só. perturbam a quimificação da hematose.. tornou Filipe.. mesmo. e promovam uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso. . Filipe teve a palavra. até os nossos dias. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal.. podendo mesmo produzir uma protorragia nas glândulas de Meyer. e acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico.. uma vez que a compresão do diafragma lhes cause vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periósteo dos pulmões. que foi o maior charlatão do seu tempo. enfim. mas já. creio. senhores. o que julgo impossível. já tinha sofrido trinta sangrias. no Organon do grande homem! Ah! se depois do divino sistema morre por acaso alguém. Hahnemann. com o Amazonas ao pé!. como a estercorária. A moléstia de que nos vamos ocupar não é nova para nós. exclusivamente. .. que por isso se tornando em linfa hemostática. passando à garganta. ah!. quebrai vossas lancetas. Senhor meu colega. o cozimento dos frutos do coffea arabica torrados. aqui ninguém nos entende. queremos conferenciar. Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto. Ouçam-me.Muito bem concluído.. capaz de envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea arabica. às vezes só aparece depois de cem.. duzentos e mais anos. como pensam os modernos autores. senhores! para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática. eu concordo com o diagnóstico de meu colega.Como ele fala bem! murmurou uma das moças. Profundo silêncio. eis a grande verdade!..... . rogamos breves momentos de atenção. cause um retrocesso prostático. no qual os quatro estudantes fingiram observar o pulso..Está enganado. queimai todos os vossos livros.C’est trop fort!. . ... herbária. tem triunfado a ignorância. Disse: . que.. e quando isto não baste.. de fazer-me observar uma enfermidade que não nos deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou respeitosamente submeter o meu juízo.Daí. até que..Não respondo aos apartes. Fabrício tomou a palavra... Desde Hipócrates.. Uma taça de líquido fontâneo açucarado. . mas devo combater o tratamento por ele oferecido. Uma mulher padecia este mesmo mal.

quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata. . em boa disposição de brincar. . se arrojaria Paula a morrer. para que comecemos já a aplicar-lhe os passes. um mau enfermeiro e. ficassem a noite inteira pensando na carraspana da rapariga. Doutor. isto pode ser fatal à doente! . minhas senhoras.Pois bem. pois.. só por ouvir falar em escalda-pés!. disse Augusto para se ver livre delas. E além disso. minhas senhoras. Ainda mais: se o diagnóstico do colega que falou em primeiro lugar é exato. caiu a tropa das mezinheiras sobre o desgraçado estudante. e propondo a aplicação da nihilitas nihilitatis na dose da trimilionésima parte de um quarto de grão. Voto. jogava-se. brincava-se.Pois bem.. Carolina tomado seu copo de vinho de mais. contra a ordem expressa dos quatro hipocratíssimos senhores?.Aquilo é pressentimento! . por último.. que se viu quase doido com a balbúrdia de novo alevantada no quarto. mas concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte tal que D. pois. dizia o rapaz. com três doses.Olhem como a doente está risonha. basta. diante de meia dúzia .Menos ruído.. como.. gorda... Todos se haviam já esquecido da pobre Paula.. julgo útil recorrermos ao magnetismo animal. por ter a ama de D. se similia similibus curantur. mas posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia. não tendo entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés. a pôs completamente restabelecida. parece prudente omitir. vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros. É certo que não me lembro agora onde. eu não respondo pelo resultado!. que.. segundo.Senhores. foi pensando consigo mesmo que as coisas que mais contrariam o médico são: primeiro.conta. e umas poucas de velhas determinadas a maçar meio mundo. enfim.... menos o Sr. dou por terminado o meu discurso. por longo demais. dobrada razão acho para sustentar o meu parecer porque. . as senhoras mezinheiras. Além disto.Sr. eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a respeito do diagnóstico e.. Carolina o escolheu para assistente de sua ama. portanto. nos aclara sua enfermidade. levada ao sonambulismo. . quatro semidoutores já haviam pronunciado favorável diagnóstico. para vermos se a enferma. Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias de Filipe. das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas nihilitatis. a saúde alheia. que tanto abismaram Paracelso e Kisker.Ora. necessariamente o magnetismo tem de curar a baquites. Keblerc que.. não era justo que tantas moças e moços.O Sr. 14 Pedilúvio Sentimental Ria-se. esquece-se também do escalda-pés!. Era por isso que todos brincavam alegremente. e quem quiser pode ir vê-la na rua. Leopoldo tem a palavra. Outro fato. eu nunca vi negar-se um escalda-pés! . . . eu tenho fé de que não há moléstia alguma que possa resistir à maravilhosa aplicação dos passes. Seguiu-se o discurso de Augusto que.. mas. enfim. . ...Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda. Augusto determinou as aplicações convenientes ao caso. dêem-lhe o preconizado escalda-pés! E fugindo logo do quarto. com boas cores e até remoçou e ficou bonita..Se não lhe derem um escalda-pés.Basta! basta!. um escalda-pés!. Na verdade também que. .

sem mais nem menos. minha senhora. vivo e delicado. Ana entrou na sala. abolindo-se. Neste momento a Sra. . Batista acabava de dar fim ao jogo da palhinha e começava novo. viúvos. não está na sala! Augusto vê o jogo ir indo o seu caminho muito em ordem. dir-se-ia que entoava um hino. Os rapazes estavam nos seus gerais. sem dúvida!. D.. não! ele esperava isso como castigo de sua inconstância. segundo ele. .de garrafas vazias.. como é seu velho costume... Com efeito. mas. pois outra vez?. ora expliquem.. de pernas arqueadas.. pelo contrário. e depois. a décima urbana.. mas na sua roda não havia nem mesa. a buliçosa. Ana achou a ocasião oportuna para ir dar ordens ao chá. Augusto pediu que o dispensassem e foi ter com a dona da casa. grandes inventores. gordo. Carolina está ausente!. A rapazia empregava melhor o seu tempo: também jogava.Eu já não dei inda agora?... qualquer das duas recua um passo. mas a cada travessura ajunta tanta graça.. está em sê-lo a sua maior graça. Caso célebre!. se é inquieta e buliçosa. D. D. por felicidade deles sempre se encontra desses. Carolina (ele assim o pensa). nem dados. que na verdade as divertia muito. já faz dela idéia absolutamente diversa da que fazia ainda há poucas horas. que nos vieram ensinar os senhores franceses. como se pouca vontade houvesse nelas de dar o abraço. a Baco. que se repetia pela duodécima vez.. Restavam quatro senhoras. perderia metade de que vale. O terceiro agradou tanto.. como o episódio do ás galar o sete. adeus etiquetas e cerimônias!.. no fim de cada jogo. a interessante Moreninha é. tudo se faz em regra e muito direito. ora isto!. D.. Já se vê que D. há um que não está absolutamente satisfeito: é Augusto. se não estivesse em contínua agitação. haviam festejado.. a inquieta.. nem cartas... ajuntava ao ridículo de sua figura muito espírito. Clementina e Fabrício D. Batista (este é o seu nome) era fértil em jogos. tinha o rosto muito vermelho. principalmente aquelas que tinham trazido consigo moças. porém. Carolina é o prazer em ebulição. se são capazes. sentou-se defronte do jardim. grande alemão para roncar!.. .. . O seu jogo tinha diretor que. já se viu que coincidência!. a princípio. cabelos e barbas ruivas. exceção de regra entre os mais. Sr. aquele corpinho. exclama: . que tudo se lhe perdoa. e fazendo-se coradinha. aquele rosto moreno. sem amar D. não podia ter menos de cinqüenta anos. não se rasgou ainda nenhum lenço. outra mesa em que alguns senhores. era uma escala inteira que ele solfejava com bemóis. passada meia hora. principalmente das moças: era.. a tentaçãozinha não está aí..Não joga mais. Joaninha! E sempre. . ligeiro como abelha. Augusto? disse ela. Carolina é um beija-flor completo. D. Agora. a Sra.. a travessa. Filipe ainda não gritou com a dor de nenhum beliscão. sem aumentar os direitos de importação. Violante ocupou-se em desenvolver a um velho roceiro os meios mais adequados para se preencher o defict provável do Brasil para o ano financeiro de 44 a 45.. com aplauso geral. havia. Será por que no tal jogo da palhinha tem por vezes ficado viúvo?. Já se havia jogado o do toucador e o do enfermo. Augusto. enfim. casados e velhos pais perdiam ou ganhavam dinheiro no écarté. travessa. D... vinha logo outro melhor. Violante tinha casas na cidade. Era um homem de estatura muito menos que ordinária.Quantos abraços!.Por ora não. não estava bem senão entre rapazes. Tal o diretor da roda dos moços... cumprimentado e aplaudido as senhoras idosas que se achavam na sala. A causa é outra: a alma da ilha de. O Sr. roncava prodigiosamente. na verdade. bequadros e sustenidos!. quando um aborrecia. que julgaram a propósito jogar o embarque. Tem-se jogado a palhinha doze vezes e em todas as doze tem a sorte feito com que Filipe abrace D. jugo muito bonito e muito variado. nem criar impostos. dirigindo-se à grande varanda da frente.. Estabeleceu-se um cordão sanitário entre a velhice e a mocidade. O beija-flor nunca se mostra tão belo como quando se pendura na mais tênue flor e voeja nos ares.Parece-me pouco alegre. Entre os rapazes.. o jogo da palhinha.

. sai. disse.. assim disseram os moços. D. Tomásia. A porta estava cerrada. tão finas. Carolina está sem dúvida no quarto de Paula. tanta honra!. . que desprezava a sala.. nessa mesma água que fizera lançar um grito de dor à escrava.Vá.Está fervendo!.Ao contrário. A escrava tornou a pôr a mão e de novo retirou-a com presteza tal. mergulhando suas mãos. com presteza e alegria.. e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para não gemer. exclamou D.É a delicada borboleta deste jardim. A escrava abaixou-se. apontando para dentro. tomou os pés de sua ama. Augusto? . o senhor estava aí? . objeto indiferente. . afasta-te.O amigo de meu neto deve merecer minha confiança. tirou-a de repente. . de todo se esvaíram.A Sra.Perdoe.Gosta de minha neta... era tocar-lhe no fraco. . Carolina. Três pessoas havia nesse quarto: Paula.Não está fervendo. Pela sua voz conhecia-se que tinha chorado. se não padecesse. esta casa é dos meus amigos e também dos dele.Então que falta? . pelo quarto em que padecia uma pobre mulher. . disse: . a terceira era uma menina de quinze anos. vá vê-la e consiga arrancá-la de junto de sua ama. disse a menina com tom imperioso. depois. .. Seu orgulho de avó acabava de ser incensado. abriu sem ruído e parou no limiar. ficou em seu lugar o anjo de candura. . era um objeto triste e talvez ridículo. estou satisfeitíssimo.Oh! seu rosto mostra não sentir o que me dizem seus lábios. Ana.. A escrava não obedeceu. que bateu com os pés de Paula contra a bacia. .. mostrando as flores. minha senhora. banhando- os com sossego.. adiantando-se. pondo a mão n’água. tão lindas. e começou a banhá-los. Belo espetáculo era o ver essa menina delicada. se aqui lhe falta alguma coisa. dá-lhe o escalda-pés! disse D. a bacia em que Paula deveria tomar o pedilúvio recomendado. . Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a porta e por isso não viam Augusto: Paula olhava. Carolina. ou antes não sabia o que via.. disse ela. apertou-os contra o peito. a segunda era uma escrava que acabava de depor.Oh!. . por isso não pôde suster-se e. puxou os pés da pobre Paula. A boa senhora riu-se com satisfação.. e sacudindo-a: . Mas o sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da piedosa menina já roxas. Os últimos vislumbres das impressões desagradáveis que ela causara a Augusto.Minha senhora.Estonteada!. tão grosseiras e calejadas!. quando aí tocara de leve com as suas. .Anda. D. disse a Sra. Ana levou Augusto pela mão até ao corredor e depois o empurrou brandamente. curvada aos pés de uma rude mulher. D. D. mas não via.. deve ser bem quente. arregaçando as mangas de seu lindo vestido. chorando. este objeto era nobre.Vá buscá-la.. Sr.Afasta-te daí.. e receba isso como a mais franca prova de minha estima para com o amigo de meu neto. em que borbulhava o prazer. junto do leito.. Carolina. Acabou-se a criança estouvada. respondeu a menina..Na verdade que aqui não está tudo. deitada e abatida sob o peso de sua sofrível mona. minha senhora. .. . A Sra. respondeu ele. e depois abaixou-se no lugar da escrava. Augusto não esperou ouvir nova ordem: e endireitou para o quarto de Paula. .

não cumpria certos castigos que lhe impunham. A chegada de D. o olhava com ternura. Ela não respondeu.O senhor falava de meus escravos. confusa e apontando para a doente. Os estudantes dormiram juntos.. Eis os quatro estudantes estirados numa larga esteira. minha senhora.Ela corre algum risco?. Quando Augusto julgou que era tempo de terminar.. enquanto D.A mim. . ..Pois nem para escravo eu presto? . . de modo que era preciso começar de novo o que já estava no fim. no dos rapazes.Veja se eu sei dar um pedilúvio! E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula. Finalmente. O último que se deitou foi Augusto e ignora-se por que saiu de luz na mão. . perturbava a ordem dos jogos. alto lá! no gabinete das moças. e cada qual tratou de fazer por consegui-lo. depois de uma noite como a da véspera.. suspira.Mas a quem encarregarei? . junto dele.Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos a serem queimadas. murmura frases imperceptíveis. oferecendo a mão direita à bela Moreninha. Agora deixemo-la descansar. pois. mas olhou-o com gratidão. Carolina e Augusto lhes deu ainda dobrada viveza e fogo. os jogos de prendas tinham-se prolongado excessivamente. .Nenhum o fará com jeito. . mil vezes bulhenta.. e como roncam!. . era isso muito natural. Com efeito.. quando todos se achavam acomodados. . Carolina.. disse o moço. não deu um só beijo e aquele que atreveu-se a abraçá-la teve em recompensa um beliscão.Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse Augusto. Um autor pode entrar em toda parte e..Obrigada! . de volta do seu passeio noturno. não senhor. disse: .Experimente. a passear pelo jardim. .Ela me deu de mamar. . São seis horas da manhã e todos dormem ainda o sono solto. . descansando nos braços do sono..Senhor!.. em que tanto se havia brincado... não. . ainda bem.. ouviu-se a voz de: ... outras tantas rebelde.E tenho testemunhado tudo! A menina abaixou os olhos.Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa. e aceitando o braço do mancebo deixou o quarto de Paula. perguntou a menina. A porta está aberta. Não.. a jovenzinha recebeu os pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos braços. Mas que faz o nosso Augusto? Ri-se.. quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia encarregar-se do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada. atirou-se entre Fabrício e Leopoldo e imediatamente adormeceu. 15 Um Dia em Quatro Palavras Ao romper do dia de Sant’Ana estavam todos na ilha de. A bonita Moreninha tornou-se mais travessa do que nunca..vamos dormir.

dois velhos ferraram-se no gamão. por graças e encantos que todos sentiam e que ninguém poderia bem descrever. e ele. Corra-se. mas para isso boas razões havia: esse era o dia dos anos de sua querida avó e a pobre Paula. finalmente. que ele fingira continuar a dormir e ela se sentara à sua cabeceira.. enquanto Filipe faz tenção de dirigir-lhe um discurso admoestador. ria-se ao ver as contrações que produzia a titilação causada pelo sopro. sempre quer. Eis uma deliciosa invasão!. Já se vê que o voltarete não podia seguir marcha muito regular. jurando não dizer palavra.. Nunca também se havia mostrado a Moreninha tão jovial e feiticeira. . dizendo: . que. sua estimada ama. Oh! beleza! oh! inexplicável poder de um rosto bonito que. E apesar do poder todo da cachaça do jogo. não contente com as zombarias que faz ao homem que vela.. para. de quem ele teve até aborrecimento e que agora começa com os olhos travessos a fazer-lhe cócegas no coração. estava completamente restabelecida. quando eu sonhava com um anjo.. vinha terna e amorosamente despertá-lo. (aqui parou o sonho e principiou a realidade) e ele deu um salto e. com toda a força e estouvamento. que às vezes passava com basto e espadilha e era codilhado todas as mãos que jogava de feito. dá um beijo em Fabrício. que olhava para o jardim. apresenta-se. bater com os beiços e nariz contra a testa de Fabrício. Carolina. em lugar de pregar um terno beijo nos lábios de D. mais que as outras. além disto. peste!. em compensação..Então que é isso lá?.. e. o ilude e ainda zomba dele dormindo! Estava o nosso estudante sonhando que certa pessoa. Carolina brilhava no jardim e. fazendo-se de grave. para isso.. assoprando-lhe os lábios. A sociedade se dividiu logo depois em grupos. acordando-o pouco a pouco. alguém queria que ela tivesse maiores olhos. jamais querendo. confessava-se que não era bela. D... em vez de chamá-lo. fala.Sai-te daí. que o rosto chegou à distância de meio palmo e. que ele. deu-lhe dois empurrões. escondendo-se.. acordo-me nos braços de Satanás!. que se acusava de haver sido injusto para com ela. mas que temia vê-la fugir ao menor movimento. colocava-se uma sentinela. outros jogavam. não podendo mais resistir aos seus férvidos desejos. queria rir-se. as que mais apaixonados fossem da doce melancolia de certos semblantes em que a languidez dos olhos e brandura de custosos risos estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo.. dá-se por acabado o jogo e a Moreninha. estava ardentemente desejoso de furtar-lhe um beijo. ao sentir tão perto dos seus os lindos lábios dela. ir de um salto colher o voluptuoso beijo naquela boquinha de botão de rosa. D. sempre em brincadora guerra com todos e em interessante contradição consigo mesma. agora a observava com cuidado e prazer.. foi. A Moreninha já fazia travessuras muito especiais no coração do estudante. ora. ela a um tempo solta um ai e uma risada. render-lhe toda a justiça. Uns conversavam. e como se o colega tivesse culpa de tal infelicidade. as moças espalharam-se pelo jardim e os quatro estudantes tiveram a péssima lembrança de formar uma mesa de voltarete. ela furta-lhe a espadilha e voa. que. para tornar a aparecer logo depois. porém não havia quem resistisse à viveza de seus olhares. Augusto. concordariam por força que no lindo rosto moreno de D.. acorda espantado e ainda em cima empurra cruelmente o mesmo a quem acaba de beijar. dez moças entram de repente na varanda e num momento dado tudo se confunde e amotina. assentara de. Carolina nada iria melhor do que o prazer que nele transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios. graceja.. por exemplo. Carolina atira no meio da mesa do voltarete uma mão cheia de flores. É impossível continuar assim!. porém. distraía- se com freqüência tal. quando se aproximasse o belo rosto. que traquinas como sempre. aproximava seu rosto do dele. ficava na mesa um lugar vazio e junto do arco da varanda. mas jurava-se que era encantadora. um véu sobre quanto se passou até que se levantaram do almoço. de cada vez quer qualquer deles dava cartas.

não haja quem liberte a bela cativa! disse Leopoldo. dou a minha palavra.. os dois velhos deixaram o tabuleiro do gamão! Resuma-se alguma coisa. Augusto foi declarado suspeito na causa.. Carolina está criminosa! disse D.. aceito mas rogo um outro obséquio. que mutuamente se beliscaram. Quinquina. Sr. D.Ora. disse ele. a aurora e a rosa disputam sobre qual primará na viveza da cor. A idéia foi recebida com aplauso geral. perguntou ela.Parabéns. só Filipe se opôs. a menina travessa. Doutor! ... houve um conflito entre duas finas mãozinhas. Sra. Toda a companhia veio tomar parte naquele divertimento improvisado e até. veio sossegadamente conversar junto de D. fingindo-se fatigada. .Certo que não. . Carolina..à custa de um único sorriso. Então começou uma luta de ardis e cuidados entre a Moreninha e D.Ó minha senhora! seria um cruel castigo para ela.Protesto que a hei de furtar.. .. . será satisfeito. Carolina é muito rebelde.Que por ora lhe conceda seus cabelos por homenagem. e eu vejo que ela já tem presa no cabelo uma das duas rivais.Como?. fez cair o leque de sua adversária. .Pois bem. acrescentou D.Ó maninho! não diga isso. . . explique-se.Pois bem.Você jura obedecer?.Pois rejeita?. D. Gabriela e uma outra.Eu juro por você.É verdade. As testemunhas foram D. e com a sua foi acudir a esta. com um rápido movimento. . minha senhora. seja o seu carcereiro! disse D. Augusto. . curvou-se também e soltou logo um grito. . querendo tirar uma linda rosa do cabelo. quem o diria?!. não menos viva. A sessão começou. sentindo a mão da prima sobre a rosa. minha senhora! .. .D. Quinquina. não. Quinquina. que se mostra tão vaidosa! . . que esta minha prima nunca entende as figuras do Sr. . gritaram as moças.. Clementina terá de ser a relatora da sentença. . para oferecê-la a Augusto. eu guardarei a sua rosa. . acudiu D.Não. O .Sua prima. . conservava-se na defensiva.. um instante despercebida. Joaquina. . Longo fora enumerar tudo o que se passou em duas horas muito agradáveis e por isso muito breves. Fabrício foi encarregado da presidência. . um outro moço serviu de escrivão. faz as pazes com o irmão.Qual?.Basta! basta! Organizou-se o júri.. não é suficiente? . Leopoldo abaixou-se para levantá-lo e D. que deram provas de bastante espírito. e em resultado desfolhou-se completamente a rosa.. já triunfou de uma de suas rivais! ..Eu o encarrego com prazer da guarda fiel desta minha competidora. Clementina.Vai ao júri.Mas cuidado. era mais um motivo para se tornar perjura. e se fosse condenada não cumpriria a sentença.. vamos levá-la ao júri. Depois de uma meia hora de hábil afetação. Aquela já tinha debalde esgotado quantos estratagemas lhe pôde sugerir seu fértil espírito. . e Filipe foi escolhido para advogado da ré e Leopoldo da autora. e cinco moças saíram por sorte para juradas. também.Tanto pior. que.Desafio-lhe a isso! respondeu-lhe a prima. Carolina. e enfim. disse Augusto.. Quinquina. . morreu a pobre cativa!.Morreu a bela cativa!.

que não houvera premeditação. porque. e á tarde voltou-se aos preparativos do sarau. A manhã deste dia foi assim passada. perdoada. não carecia eu de sentença do júri.Não! não! . que. que Augusto desse subido valor à rosa. Clementina. queria ser senhora absoluta de todos os corações e até de todos os seres. porque a ré não quisera matar mas. o dono da rosa é o Sr. minha prima. .. Augusto..Não é a mim que o deve dar.O senhor me perdoa?. D. demonstrando que tinha havido a circunstância agravante da premeditação e que o crime se tornava ainda mais feio.clamaram de todos os lados. .Agradecida! disse ela com vivo acento de gratidão e estendeu sua destra para Augusto que. que o ciúme da ré era tão excessivo. as moças são no sarau como as estrelas no céu. por desconfiar que o zéfiro brincava mais com ela do que com seus olhos.. respondeu a autora.. enfim. se havia crime. . O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo.Não! Não! Não! . por lhe ser dada por uma moça bela como a autora e. Carolina. entusiasmado. com seu sorriso feiticeiro e irresistível nos lábios. depois. ainda quando fosse a ré que desfolhara a rosa e mesmo dando-se o propósito de o fazer.Para fazer tal.. estão no seu elemento: aqui uma. Mas a menina parecia contar com o poder de seus lábios. como dizer que não a quem pede como ela?. como resistir ao seu sorriso?.interrogatório de D. por prender uma inocente flor. Leopoldo acusou a ré. pois que D. que tanto a venciam em rubor e viço. procurou provar que D. com um copo de champanha na mão. por último. por ser causado pelo ciúme. os mais intrincados negócios.. e que. . disse: . 16 O Sarau Um sarau é o bocado mais delicioso que temos.. . todos murmuram e não há quem deixe de ser murmurado. só o cometera a autora. que já na tarde antecedente jurara a perda daquela flor. dever-se-ia atribuir tal ação à piedade. Argumentou dizendo que era impossível decidir que mão tinha dado a morte à bela cativa. tome um beijo. com razão. Carolina fez rir a quantos o ouviram. sorrindo-se ainda do mesmo modo. que ela se enchera de zelos supondo. e o moço goza todos os regalos da sua época. . O debate dos advogados esteve curioso.. sim libertar.Me perdoa?. disse a ré. que foi lida por D. Carolina estava.. cônscia de seus encantos e beleza. Filipe não se deixou ficar atrás. eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos. tomou entre as suas aquela mãozinha de querubim e fez estalar sobre ela o beijo mais gostoso que tinham até então dado seus lábios. Em um sarau todo o mundo tem que fazer. As juradas recolheram-se à toilette e cinco minutos depois voltaram com a sentença.. O júri declarou D.. Você deu sua palavra! Ela hesitou alguns momentos.. não podendo ceder tudo com tão criminoso desinteresse. Carolina criminosa e a condenou a indenizar o dono da rosa com um beijo. aproximou-se de Augusto e. colocando-a tão perto de suas faces. Carolina. pois. Quinquina a estava matando pouco a pouco com o veneno da inveja. tornou a perguntar com meiguice e ternura: . . de telhados abaixo.Porém. De rosa fez-se então o rosto de D. exclamou Augusto.O beijo! o beijo! gritaram as juradas. cantando suave cavatina. O diplomata ajusta.

Inúmeros batéis conduziram da Corte para a ilha de... .Basta! acudiu Fabrício interrompendo-o. .. numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa. Augusto poderá dizer se ontem pediu-me ou não a terceira contradança? . que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que veio para o chá. porque.. durante ele. vermelho de despeito e aturdido com um beliscão que lhe dera Leopoldo. . balbuciou Augusto. ao mesmo tempo que conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis. . que com aturado empenho se esforçam por ver qual delas vence em graça. que acabava de rogar à linda Moreninha a mercê da terceira quadrilha. tornou D. mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente. no sarau não é essencial ter cabeça nem boca. diz. Ali vê-se um ataviado dandy que dirige mil finezas a uma senhora idosa. às vezes. Porém. nem com seu lindo colar de esmeraldas. que até pecava contra a moda reinante. um bravíssimo inopinado. para mostrar. encantos e donaires. há cinco minutos que já estava engajada até a duodécima.É verdade. que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua partida no écarté. alegre. já estava engajada para doze quadrilhas. Entre todas essas elegantes e agradáveis moças. Carolina dividiu seus cabelos em duas tranças. contudo. mais a compasso que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional. disse Fabrício. em belo contraste com a alvura de seu vestido branco. vamos ouvi-los. recomendáveis por caráter e qualidades. descobriria que ela adrede se mostrava assim. que tanto a formoseia.Com muito prazer. Hábil menina é ela! nunca seu amor-próprio produziu com tanto estudo seu toucador e. certo que sobrepuja a travessa Moreninha. mas simples vestido de garça. que senta-se ao lado.por entre os quais surde. é a mesma que eu lhe havia pedido. e agora só acabo de ratificar uma promessa: o Sr.Não. disse Fabrício ao ouvido de Leopoldo. Vamos apreciá-lo. Não importa. para alguns é regra..Juro. todo nu. se um atento observador a estudasse.. pelos braços de seus pares. Mas a jovenzinha pensou um momento antes de responder ao pretendente. se deslizando pela sala e marchando em seu passeio. Outras criticam de uma gorducha vovó. Terminam sem dúvida a sua prática. é inútil qualquer juramento de homem. senhoras e senhores.Mas. daí a pouco vão outras. E o mais é que nós estamos num sarau. arrebatou todas as vistas e atenções. e que seu pecado contra a moda reinante não era senão um meio sutil de que se aproveitara para deixar ver o pezinho mais bem- feito e mais pequeno que se pode imaginar.Oh! lá vai ter com ela o nosso Augusto. tendo os olhos pregados na sinhá. princesa daquela festa. e que ela leva aos pequenos que. desafinando um sustenido. olhou para Fabrício e com particular mover de lábios pareceu mostrar-se descontente.Está na verdade encantadora!. por não ser sobejamente comprido. repetiu pela quarta vez aquele. Finalmente. Carolina. Os dois estudantes aproximaram-se de Augusto. .Leva de tábua.Danças com ela? perguntou Leopoldo. D. depois riu-se e respondeu a Augusto: . Sobre ela estão conversando agora mesmo Fabrício e Leopoldo. minha senhora. Enquanto as outras moças haviam esgotado a paciência de seus cabeleireiros. depois das . para ostentar as longas e ondeadas madeixas negras. posto em tributo toda a habilidade das modistas da Rua do Ouvidor e coberto seus colos com as mais ricas e preciosas jóias. E vindo assim aparecer na sala. .. . que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto. que deixou cair pelas costas: não quis adornar o pescoço com seu adereço de brilhantes. dir-se-ia que o gênio da simplicidade a penteara e vestira. lhe ficaram em casa. o elevado colo de alabastro. . vestiu um finíssimo. pensar pelos pés e falar pelos olhos..

o rapaz é incorrigível. Augusto! lembre-se da contradança! ..Agradeço-lhe a condescendência com que ia tomar parte na minha mentira. eu. que diz ele?. minha senhora. e. falaram em política e reqüestaram as moças.Ofendeu-lhe. . erguendo-se. . pois é verdade que esse Sr. como nenhuma. os casados trabalharam por esquecer-se dele. Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou. ninguém cuidou do futuro. . basta dizer o seguinte: Os velhos lembraram-se do passado. as senhoras ouviram finezas.. e temendo que daquela ocorrência tirasse este alguma explicação lisonjeira demais.. .palavras de uma senhora. Violante fez o diabo a quatro: tomou doze sorvetes.. exclamou D.Acabe..Basta não dizer que me ama. disse: . para isso. Sr. .. Tudo esteve debaixo destas regras gerais.. foi esta a única razão. foi preciso que a Sra. o sarau está terminado. . como todos os outros.Ainda há pouco ia jurar falso. .Certo que não. os moços aproveitaram o presente.Pois será preciso dizer que a detesto?.Então. alguns momentos mais e serei réu como Fabrício.. por não ter que fazer nem que ouvir.Pois bem. .Fala tantas vezes em amor. D.. vamos ouvir quatro belas conhecidas nossas. as avós.Tentaçãozinha.Nas palavras de um anjo ou de uma. Fabrício e Leopoldo retiraram-se. as mães. . a tirana princesinha da festa esteve realmente desapiedada.É possível?!. D. . comeu pão-de-ló.Mas eu temo perder a minha contradança. É preciso antecipar que nós não vamos dar ao trabalho de descrever este. . Os homens jogaram.Perdeu a terceira contradança... A interessante D. . Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. mas. tocou em todos os doces. os convidados vão retirando-se e nós. obrigou alguns moços a tomá-la por par e até dançou uma valsa de corrupio. .. . Carolina sempre dançou a terceira contradança com Augusto. mas. do que com aquele seu amigo. levaram todo o tempo a endireitar as toucas e comer doce. E assim tudo mais.. Ana empenhasse todo o seu valimento.. Agora são quatro horas da manhã. trataram de modas e criticaram desapiedadamente umas das outras. dirigindo-se à sua mana.. . Quinquina. que tinha iludido o primeiro. só resta dar conta das seguintes particularidades: D. diz-me coisas que não quero saber.... .Meu Deus! é um crime que eu tenho estado bem perto de cometer! . Carolina. . Os solteiros fizeram por lembrar-se do casamento.É não dizer o que sinto. minha senhora? . vendo brilhar o prazer na face de Augusto.. quis aplicar um corretivo e..A culpa será de seus lábios... já idosas. Aproveitando o passeio. que conversam com ardor e fogo..Antes dos seus olhos.. Augusto lhe fez uma declaração de amor?. é um sarau. não quis passear com o estudante.Misericórdia! eu não falei em amor!. quero antes dançar com qualquer. As filhas deram carreirinhas ao som da música. não sei mentir. foi necessário que eu praticasse assim. tomou o braço de Augusto..Cuidado. entrando no toilette. .. receberam cumprimentos por amor daquelas.

. .. mais alguém estava no toilette.. tem um segredo a confiar-vos.. uma prenda. . seja a zombaria completa: escreva-se uma carta anônima.. . vamos ter com ele...Não....Sim. convidando-o para estar ao romper do dia na gruta. não me pediria como as outras. para beijar-me a face. ... palavras dele.Como se estará ele rindo!.” .. que tem boa letra. . As quatro moças iam sair. ele pensa assim. palavras dele.Isto é nada para quem não tem vergonha!. e ousou dizer-me que me amava com tão subida paixão que..Pois tiremos por sorte! A idéia foi recebida com aprovação e a sorte destinou para secretária D. desmascaremo-lo... talvez por outras mais. D. quando um suspiro as suspendeu.Deus me defenda!... Joaninha. . disse.Por nós quatro.E havemos de ficar assim?.Qual! se ele está apaixonado!.Pois troquemos os papéis: finjamos que estávamos tratadas para desafiar-lhe os requebros.. .. Carolina estava profundamente adormecida.... Joaninha. Clementina. acudiu D. Com efeito.. se fora por mim amado e pudesse desejar e pedir algum extremo. que me jurou ser a mais bela a seus olhos e a mais cara a seu coração..Então.. Gabriela. escreva... .Deus nos livre! à vista de tanta gente!.. escreva você. E por quem? ...Muito bem pensado! vamos! ..Uma idéia!. . por sua vez... D. Quinquina.Que atrevido!.... palavras dele. .Que maldito brasileiro com alma de mouro!. uma lembrança.Como quer que lhe diga. o próprio que afirmou ser-lhe impossível viver sem alentar-se com a esperança de possuir-me.. .. e mesmo do que o sol. tirando de seu álbum um lápis e uma tira de papel. .. porque eu sabia ferir corações com minhas vistas e curar profundas mágoas com meus sorrisos!.. . nos dias mais brilhantes. voltou- se para o fundo do gabinete e o susto para logo se dissipou. obriguemo-lo a dizer qual de nós é a mais bonita. quando e onde? .... Saiamos.Então.Bem... Ao raiar da aurora a encontrareis no banco de relva da gruta. Quinquina.Uma incógnita. Cada uma lhe pedirá um anel de seus cabelos.. porque das virgens do céu somente se beija os pés.. D. ... ..Bravo! então escreva.Mais isto é um insulto feito a todas nós! . . Clementina que. . medrosa de que uma testemunha tivesse presenciado a cena que se acabava de passar.. escreveu sem hesitar: “Senhor: .. eu me encarrego de fazer-lhe receber a carta. Asseverou que meus olhos pretos davam à sua alma mais luz do que a seus olhos todos os candelabros da sala nesta noite.. ridicularizemo-lo como for possível.. recostada em uma cadeira de braços. .Eu não. sede circunspecto e vereis a quem.. D. disse. palavras dele. . e de joelhos!.Oh! que moço abominável!.Uma jovem que vos ama e que de vós escutou palavras de ternura.. nenhuma escreve. . Gabriela.. tornou D. quer ser apenas . maninha?... ele mesmo. porque meus cabelos eram fios d’ouro e a cor das minhas faces o rubor de um belo amanhecer!. disse D. .. ponhamo-lo doido. por meia hora ainda.Que insolente!. bradou D.Apaixonado?!.Vejam como ela dorme!.

suas pálpebras cerradas e coroadas por bastos e negros supercílios. se é que o anjo realmente dormia. finalmente. Carolina. D. na verdade.. encantadora no mole descuido de seu dormir: à mercê de um doce resfolegar. a tornavam mais feiticeira que nunca.. dois rostos angélicos se aproximaram. seus lábios entreabertos e como por costume amoldados àquele sorrir cheio de malícia e de encanto que já lhe conhecemos e. A Moreninha se mostrava. os desejos se agitavam entre seus seios.. correu para ela. Clementina não pôde resistir a tantas graças. Um beijo tinha despertado um anjo.. quatro lábios cor-de-rosa se tocaram e este toque fez acordar D. seu pezinho bem à mostra. suas tranças dobradas no colo. .

Principie você. exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes.. . eu me sinto arder. uma gota desta linfa de fadas!. As moças. então correu logo para um lugar solitário. também duas cartas tão curiosas já eram de sobra em uma só noite. e depois entendeu que. que entendeu não lhes dever nunca dar tempo a tomar a ofensiva.. que tinha entre os lábios o copo de prata.. indo tirar o lenço para assoar-se. entende dever prevenir-vos que no banco de relva da gruta não achareis ao amanhecer uma incógnita. presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de cabelo que lhe escondia as orelhas. era isso mesmo o que ele queria. mas que quer interessar-se por vós.As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que me entusiasmo vendo quatro auroras.. eis-me aqui!.Bravo! exclamou o nosso estudante. deveria avivar o cérebro.. sem esquecer o do relógio... que estavam todas sentadinhas no banco de relva. exclamou o estudante.. porque. Mas.Ei-lo aqui.. que nem é bonita nem namorada.. quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte.Uma incógnita” . juro que tenho sede. o certo é que o estudante. é a fonte encantada que descobre os segredos de quem está conosco!. foi de mansinho se aproximando. serei por agora . e até passou os dedos por sua basta cabeleira. . em lugar de uma só! Belo amanhecer é este. E sem mais dizer.. Porém. lançou a mão ao segundo bolso de sua jaqueta. minhas belas senhoras.Uma moça. sem dúvida. Bem! bem! melhor. para melhor decidir o que lhe cumpria fazer naquela conjuntura. mas. . que pretendem zombar de vós. E nisto pensando. Augusto correu para a gruta encantada. Não procureis adivinhar quem vos escreve. 17 Foram Buscar Lã e Saíram Tosquiadas Se houve alguém que quisesse servir a D. como quatro pombas-rolas enfiladas no mesmo galho. é coisa que pouco interesse dá. Portanto. foi correndo um por um todos os bolsos dos seus vestidos.. “Senhor: . se se dessem ao exercício não de encher. disse D. apesar de ser vossa amiga. Chegando ao pé. Gabriela. abriu e leu o escrito.Oh! se ele vier! . ainda com o lenço acudiu a tempo.. sorvendo uma boa pitada de rapé.. e eis que lhe sai com a caixa do bom Princesa um outro escritinho como o primeiro. que ele adivinha quais eram. Quinquina ou se foi ela mesma quem pôs a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto. O estudante pensou no conteúdo de ambas e ainda reflexionava se lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças. porém sim conhecidas. Joaninha. sentiu o rumor e ouviu que alguém dizia em tom baixo: . achou o interessante escritinho. . Eis ali uma fonte. disse D. temíveis mãozinhas seriam estas.. enfim. mana? exclamou D.. meu Deus..É preciso decidir-nos a começar. estou exatamente representando um papel de romance! mas quem sabe se ainda acharei mais cartas?.. disse Augusto beijando o bilhete.. mas de vazar as algibeiras da gente..O que é que ele está dizendo. pois continuou: . e só depois de devorar o convite sem assinatura foi que lembrou-se que ainda não se havia assoado e que o pingo estava cai não cai na ponta do nariz. apontando para Augusto. Quinquina. ergueram-se sobressaltadas ao ver entrar inopinadamente o estudante. ...Muito bonito! muito bonito!. porque esta mesma noite jurastes amar a cada uma delas em particular. nada mais havia.

para vós amor não existe: é um sonho apenas.Vós. Augusto já estava falando em voz baixa a D.. sim..Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. adivinhado belos segredos: escutai vós.Sr.. porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais três companheiras vossas e. desgraçadamente. estais incursa em igual delito. Joãozinho. porém.Ora. .Começo eu. Qual de vós quer ser a primeira?. boa fada! Quem será?. Clementina..Com muito prazer.Oh! não vos impacienteis. e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas palavras estudado acento: .. a fada mo deu há pouco com sua mão invisível. que tinha acabado de esgotar o seu copo d’água. com uma condição. Escolherei... . Então o estudante. .. . porque pelo jardim talvez estejam passeando alguns profanos. disse então. vinde. .Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender. Iluminai-me. Ela não podia encontrar o escrito. Gabriela. a. e começo por dizer-vos que aquela fonte é realmente encantada. .. Há quatro dias..Eu não. D. . senhora. só olhais como real a galanteria. . quer mais alguma coisa ainda e me dá uma cruel missão! ordena-me que eu diga a cada uma de vós. trazendo-a pela mão para junto da fonte.Sois sobremaneira delicada. na hora de minha partida para a Corte.. senhora. eu lho rogo que me dê esse papel.Eu não... a fada que preside àquela fonte.. agora silêncio. eu vos poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um coração amante?! .Pode dizê-la.. mas dê-me o que lhe pedi. Vós não achareis em vosso álbum o escrito desesperado do Sr. . quereis provas?.Daqui a pouco. . .. vós quereis zombar de mim. por haver amado a todas vós numa só noite. Eu não ouso falar alto. .. Gabriela.Impossível! balbuciou D. a de lacre azul ao Sr. murmurou D.. que se encarrega de vossas cartas. para bem perto do lugar encantado. senhora..A senhora mesma.Ele está mangando conosco. . em particular... ora.Senhor!. disse. . trocou-as e deu.Eu?! respondeu a menina. que sou a mais moça. Será. . Juca e a de lacre verde ao Sr. Então os dois se dirigiram para fora. ouvi... . que ingratidão!. disse Augusto. para melhor provar os seus encantamentos. recuando. sou eu que o tenho. qual de vós quer ser a primeira?. uma vendedeira de empadas. minhas senhoras... Sra. ainda não amastes a pessoa alguma..Mas. enganou-se na entrega de duas. pois só por cartas vos correspondeis com cinco mancebos.Pois não quereis ouvir mais nada?. recorrendo ao seu álbum. Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar de mim. se bem me lembra a fada. enquanto vos falar inspirado por um poder sobrenatural.. passando junto das três companheiras. Gabriela. que vos foi entregue no momento de vossa partida para esta ilha. Pois bem. . Nenhuma se moveu.. este excesso vos deve ser nocivo. voltou-se para elas. senhor! quem lhe contou essas invenções? . Augusto.A fada! e fez mais ainda.. eu tenho. Perdoai e consenti que vos trate assim. à mercê de sua água.. . D. todavia. Gabriela pôde apenas dizer-lhes: .. quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de aceitar a minha mão até à porta da gruta?. comece você. toda vergonha e acanhamento. é preciso obedecer.. algum segredo do fundo de vossos corações. Joãozinho. senhora.

Augusto chegou-se a D. Lúcio.. Gabriela. Quinquina deixou-se levar para junto da fonte.. mas sabe o que ainda tenho de fazer. . não é verdade? Pois o Sr. eu a mostrarei. .Isto é uma invenção. tudo era verdade. muito notável.Quem lhe disse isso.. . podia também gastar meia hora em falar-vos do vosso galanteio com um tenente da Guarda Nacional.Minha senhora. as moças tinham perdido toda a força. além da flor aberta.. e o cravo foi logo da fada e é agora meu.. passeando com um velho militar. chamado Lúcio.. . .. espero que me faça a justiça de crer que fico extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo a glória de acompanhá-la.A fada. mas para tal saber não precisava eu beber da água encantada. o que diante delas se passava pedia uma explicação que não estava ao seu alcance dar. ela estava cor de nácar. sem dúvida. eu não conheço essa flor. disse sete botões. Lúcio viu ser dado e recebido o presente e.. seria uma lágrima se o relento da noite não molhasse também a rosa. mas eu vejo que vossa face está umedecida. . mas daí a um quarto de hora essa mesma flor.. ouviu quanto dissestes e. Quinquina guardou silêncio. fingindo-se zeloso. senhor?. enfim. Quinquina.. porque. . . com gesto apaixonado. . eu poderia dizer-vos. e quando viu o Tobias. O senhor coronel ainda se não retirou e. senhora.. poderei gozar o prazer de conduzir- vos até à porta da gruta?. tão volúveis como eu. por nome Gusmão. senhora.. Dê-me esse maldito cravo.Isto se passou estando vós na grande varanda. . . como lhe é dado tomar todas as figuras. sentados em um banco e com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo. pelo que me conta a boa fada. isso não é comigo.Por nome Gusmão. . vós recebestes da mão dele um lindo cravo e a seus olhos o escondestes.Obrigada. tomou a de moço. .Pois bem. ouvi mais. ora. no palpitante seio.Eu vo-lo darei na hora de minha partida. e ainda me disse mais: por exemplo. respondeu D. Quinquina. dizei. basta.Bem! então consentireis que eu a traga esta manhã no meu peito?. havia sete flores em botão. Quereis descansar.Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo. que não deis dominus tecum quando ao pé de vós espirrar algum moço e que não vos riais quando ele estiver sério. a fada esteve recostada a essa janela. deveria ir parar no bolso de um belo jovem.. ei-lo aqui!. este lhe daria por senha as seguintes palavras: sete botões. disse: . deixando cair uma lágrima na mão de Augusto.Até logo.. Lúcio.. Se não confessais. porque o velho militar não tirava os olhos de vós.Senhor!. balbuciou. Lúcio queria esse cravo... conversando com o Sr.Senhora. que leva o seu despotismo amoroso ao ponto de exigir que não valseis. Augusto falou já em outro tom: . e tomando-lhe a mão.Perdoe-me. D. D. acordastes ambos que ele iria esperar um instante no jardim e que um pequeno escravo. que não tomeis sorvetes. . contou-me que no baile desta noite.. porém. mas vós lho não podíeis dar. que vós sois como as outras de vossa idade. vos pediu esse cravo. Chegando à porta. não poupe as outras. por nome Tobias. se acaso não fosse roubada pela fada que preside esta fonte. ora. e como o tal Tobias ainda não conhecia o Sr.Eu me explico: o Sr. Augusto começou: .Minha senhora. tão ternamente aceita. Ora. não foi assim? D. é chegada vossa vez. Augusto prosseguiu: . lhe levaria a flor. .Basta. Não é possível bem descrever a admiração das três. foi ao jardim.

eu vos explicarei isto.Quereis fatos de anteontem ou da noite passada. o que convosco conversou o meu colega Filipe... . Augusto!. em minhas mãos.Agora nós. a respeito da perda de certo objeto. senhoras.. .. preciso de reféns que assegurem a paz entre nós.Que quereis muito. eu lhe peço que ma dê. .Senhora. e sou eu que lhe peço que me acompanhe até à porta da gruta. senhora? . senhor.. mas só na hora de minha partida. por ser falta de patriotismo.Pergunto.Venceu.Eu já sei que o senhor sabe demais! . porque a vós é que eu mais admiro. . . Filipe.Oh! dê-ma. ei-la aqui. quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente? Augusto ia falar. Joaninha com sentimento. senhora. como as duas primeiras. Sr. . exclamou D. . disse Augusto.Sr. senhora. Clementina: . para servir-vo em tudo.Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada.Quem lhe disse isso.Eu estou pronto. se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco se passou.. Augusto? . oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar o campo? . não concebo até onde iria a vossa vingança. estes são meus. hoje.. . quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro vezes por semana.Que quer dizer. e ainda mais...Eu vos deixei para o fim. Duas guerreiras tinham sido batidas. senhora.Eu estou pronto a obedecer-vos. um pouco excessiva em exigências.. sossegarei mesmo os vossos cuidados e os do Sr. era a vez dela. senhora: quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel.A fada. Vós quatro queríeis zombar de mim. eu agradeço o benefício que recebi. . .Eu não entendo o que o senhor quer dizer.Eu não preciso saber nada disso. pelo menos. . .. como das outras. que não sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas. . foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão. ela o interrompeu.Senhor. que passe por defronte de vossa casa quatro vezes por dia.Não as tenho eu bastante. quando tomáveis chá? . todavia..Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis? . quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos negros.Então dir-vos-ei o que mais vos interessa..Quer. Só restava D. Joaninha.Então. a quem dais a honra de chamar querido primo. quereis saber mais alguma coisa? . Sois. senhora. senhor!? . e até que não fume charutos de Havana nem de Manilha. que sabe que amais a um moço. só a curiosidade retinha as outras: Augusto se chegou para elas e falou a D. e o estudante começou: .. Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte. .Sim. que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais. e essa trança pára. porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido. .Não. .É uma vil traição! . senhor. . o senhor quis zombar de mim.

eu estou lendo no livro da vossa vida. sei amar até o extremo. talvez pensando que D. uma outra toma o cuidado de vingá-las. dizendo: .Agora. 18 Achou Quem o Tosquiasse Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças.. é chegada a sua vez.E quem era ela? como se chamava? perguntou Augusto com fogo. estudante.Amastes.Agradecida. Augusto voltou-se de repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha.Que cruel juízo! . quando uma voz branda e sonora o suspendeu. estou dentro do vosso espírito e de vosso coração! . eu juro que isso é verdade. disse ela... ao menos para ouvir por mais tempo os vaticínios e palavras de tão amável Sibila.Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras. por certo. permita que eu entre só em casa. ela prosseguiu: . porém. balbuciou o estudante. finalmente disse. A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e depois. que se achava junto dela. que enchia o copo de prata.mas não o fez. esmeralda. a uma menina de sete anos.. D.Prossiga. disse: .Senhor. fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às vezes. senhor! eu posso apenas agradecer-lhe. ao contrário.. que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo. Augusto recuou um passo.Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo. a fada só me diz o que se passou em vosso coração e vós. . dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter. atalhou o estudante.Quereis que vos fale do passado.. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso. camafeu. Carolina estava. D. Augusto lhe ofereceu o braço. . adivinhando e podia dizer-lhe o que ele mesmo ignorava. Sr. vós amastes muito cedo. sim. que. e depois assim: . que cedo começava a fazer loucuras..Minha senhora!. foi de idade de treze anos. mas basta de vossa mulher. . eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio. que também não sabeis quem era essa menina e só a conheceis pelo nome de minha mulher. . creio. Sr. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar. Oh! que belas revelações me fez a fada! Sim. permiti que vos diga que mostrava ser uma criança doidinha. com efeito. . Augusto. Augusto ficou só. com quem brincastes à borda do mar. Joaninha ia deixar a gruta.Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha.De todas essas épocas. . estou vendo tudo. sim. soltando uma risada: . confuso. atalhou em princípio uma grande enfermidade.Pois então principiemos pelo passado.. talvez. imitando o estilo de Augusto.. A menina fingiu não entender a alusão e continuou: .Vieram buscar lã e saíram tosquiadas! E já estava para pôr o pé fora da gruta. . Adeus.Oh! sim. minha senhora! .. do presente ou do futuro? .

- Oh! não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a vós, porém, vamos acabar com o
vosso passado. Houve um tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas,
e por justo e bem merecido castigo fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós!
E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.
- Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.
- A primeira jovem que reqüestastes foi uma moreninha de dezesseis anos, que jurou-vos gratidão
e ternura, e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta anos! não foi assim?
E a menina, de novo, desatou a rir.
- Minha senhora, de que gosta tanto?
- Ora! é que a fada está-me dizendo que ainda em cima vossos amigos, quando souberam de tal,
deram-vos uma roda de cacholetas!
- Então a Sra. D. Ana lhe contou tudo isso?
- Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes objetos. Consenti que eu continue.
A segunda foi uma jovem coradinha, a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre
menino com quem ela se divertia nas horas vagas, não foi assim?
- Prossiga, minha senhora.
- A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente, tanto de um primo que tinha, como
de vós. Eis alguns de vossos principais galanteios. Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente
tocado das leras e da música de certo lundu que se vos cantou, tomastes outro partido e desde então vós
pretendeis fazer-vos passar por borboleta de amor.
- Borboleta?!... Sim... sim... lembro-me agora que a senhora passeava pelo jardim. Já sei de
quem foram certas carreirinhas e, portanto, compreendo que sabeis tudo à custa...
- À custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque vós estais bem certo de que eu
devo saber ainda muito.
- Sim, mas diga sempre.
- Não, antes quero falar-vos do vosso presente.
- Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes ao que eu não sei, vamos ao meu
futuro.
- Sois sobejamente sôfrego! não vedes como isso vai contra a boa ordem da narração?
- Mas a desordem é hoje a moda! o belo está no desconcerto; o sublime no que se não entende;
o feio é só o que podemos compreender: isto é romântico; queira ser romântica, vamos ao meu futuro.
- Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como pretendia fazer, se falasse do presente de
vossa vida, dizendo-vos que vós não sois inconstante como afetais.
- Misericórdia!
- Mas que estais a ponto de o ser: digo-vos que perdereis uma certa aposta que fizestes com três
estudantes.
- Como é isso? Então a senhora sabe...
- A fada, que me revelou isso, leu a termo na carteira de quem o guardou.
- A fada? sim, a feiticeira o leu... Compreendo.
- Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje cultivado com religioso empenho o amor de
vossa mulher; mas vós ides ser, porque não longe está o dia em que a esquecereis por outra.
- A culpa será dos olhos dessa outra; porém, quem sabe?...
- Desejo que não; contudo, eu já vos vejo em princípio e temo que vades ao fim; sereis perjuro,
tereis de escrever um romance e perdoai-me se vos desejo este mal: eu quisera que ao pé de meu irmão,
que vos apresentará o termo da aposta, aparecesse a vossos olhos a mulher traída. Do vosso futuro eis
quanto me disse a fada.
- E disse bastante para me confundir.

- Quereis que vos fale agora de vosso presente?
- Oh, se quero! No presente está a minha glória.
- Ontem, no baile, dissestes palavras de ternura pelo menos a seis senhoras.
- Esta agora é melhor! e quem o pôde notar?
- Provavelmente a fada vos observava.
- Então a fada, a feiticeira fazia isso?
- Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.
- Que mãos delicadas...
- Não mo sabe dizer a fada; porém, vós viestes para esta gruta acudindo a um convite e fingistes
adivinhar segredos de corações. Não era verdade: a fada nada vos revelou; o que dissestes sabíeis antes
e a fada me disse como.
- Explique-me, pois, minha senhora.
- Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café nas calças, vós fostes mudar de
roupa e entrastes para o gabinete das senhoras; lá ouvistes tudo o que afetastes adivinhar há pouco.
- E quem me viu entrar?
- A fada, sem dúvida. O cravo de D. Quinquina fostes vós que recebestes no jardim; na noite dos
jogos de prendas, fostes vós ainda quem, com uma luz na mão, procurou e achou a trança de cabelos de
D. Clementina, embaixo da quarta roseira da rua que vai para o caramanchão.
- Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto cuidado?
- A fada, que, segundo penso, vos tem sempre seguido com os olhos.
- A fada?!... a feiticeira me segue sempre com os olhos?!... Oh! como sou feliz!... a feiticeira é
a senhora!
- Senhor! sois pouco modesto; que me importariam vossos passos e vossas ações?...
- Perdão! perdão!... eu sou um tresloucado... um incivil... um doido... não sei o que faço, nem o
que digo; mas continue...
- Basta! vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui.
- Não! não, minha senhora! é preciso dizer-me mais alguma cousa ainda!... por força a fada lhe
deveria ter revelado! ela, que adivinha tudo o que está dentro do meu coração, digo o que ainda se passa
nele.
- Nada mais de disse.
- Beba outro copo d’água...
- Não julgo necessário.
- Pois então...
- Cumpre retirar-me.
- Não, por certo! perdoe-me minha senhora, mas eu devo descobrir todos os meus segredos a
quem conhece tão boa parte deles.
- Eu me contento com o pouco que sei.
- Ouça uma só palavra...
- Não sou curiosa.
- Pois a senhora...
- Sei que sou senhora, mas sou exceção de regra; não quero saber.
- Embora, eu lhe direi ainda contra a vontade...
- E para isso toma-me a saída?...
- É só para dizer que eu amo...
- Já sei, a sua mulher.
- Não é isso: a uma bela moça...
- Ela o deve ser agora.

- Muito espirituosa...
- Já ela o era em criança.
- E que se chama...
- Ah! espreitam-nos da entrada da gruta?
Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha; não aparecia pessoa alguma;
compreendeu então que fora ainda um meio de que se lembrara D. Carolina para não deixá-lo concluir
sua declaração e, disposto a lançar-se aos pés da menina, voltou-se já com o nome da bela nos lábios e...
D. Carolina tinha desaparecido da gruta.

19

Entremos nos Corações

O que é bom dura pouco. As festas estão acabadas; nossas belas conhecidas bordam; nossos
alegres estudantes estão de livro na mão. Mas, pelo que toca a estes, qual é, digam-me, qual é o estudante
que, depois de uma patuscada de tom, não fica por oito dias incapaz de compreender a mais insignificante
lição? Isto sucede assim; essa pobre gente vê, por toda a parte, e misturando-se com todos os
pensamentos, no livro em que estuda, nas estampas que observa, na dissertação que escreve, o baile, as
moças e os prazeres que apreciou.
O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as lições e impertinente com tudo. Rafael
é quem paga o pato; se o inocente moleque lhe apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia de bolos,
porque quer ir vadiar pelas ruas; se no dia seguinte se demora só dez minutos, leva dois pescoções, para
andar mais ligeiro. Não há, enfim, cousa alguma que possa contentar o Sr. Augusto; está aborrecido da
Medicina, tem feito duas gazetas na aula; de ministerial que era, passou-se para a oposição; não quer
mais ser assinante de periódicos, não há para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo; aborrece a
Corte, detesta a roça e só gosta das ilhas.
Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e um pouco menos carrancudo, porque
Leopoldo, o seu amigo do coração, o acompanha e tem a paciência de lhe estar ouvindo, pela duodécima
vez, a narração do que com ele se passou na ilha de...
Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta, entre ele e a bela Moreninha,
porque Leopoldo lhe perguntou:
- E por onde fugiria ela?...
- Por uma difícil saída que eu não havia observado, respondeu Augusto, e que exatamente se
praticava no fundo da gruta.
- Que diabinho de menina!
- Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela, quando eu entrei na sala, me perguntou
sossegadamente: “Esteve dormindo na gruta, Sr. Augusto?...”
- Então ela gostou da tua semideclaração?!...
- Não... não... se ela tivesse gostado, não me fugiria.
- Ora, é boa! não devia fazer outra coisa.
- Se ela gostasse de mim!... mas, por que me não deu um só sinal de ternura?... Também eu, às
vezes, tão adiantado, fui desta um tolo, um basbaque! tremi diante de uma criança que não tem quinze
anos e não soube dizer duas palavras.
- Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que D. Carolina foi mais sensível aos teus
cumprimentos que aos de nenhum outro, e se não, dize por que se não deixou ela dormir, como as
outras senhoras, e foi à hora de tua partida passear pela praia e ver-te embarcar?... Por que ficou ali

. bebi um copo d’água da fonte do rochedo. estamos realmente apaixonados?! .. Augusto. não é a minha cabeça: a causa está no coração. no princípio. sim.. principiando.Eu? Pode ser. disse. . porém não posso mais esconder estes sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo mos lê nos olhos! Leopoldo. .. ainda melhor. mas uma mentira que excitou a minha imaginação. Dize-me. e até mesmo séria. pois. Mas depois.. A água dizia-se milagrosa e quem bebesse dela não sairia da ilha sem amar algum de seus habitantes. então como é isso?. ature-se um namorado!.Isto não significa nada... uma mentira. quando ela dança ou mesmo quando está sentada. este maldito Velpeau!.Escuta.. . nem causa. mas.. .. Esta minha cabeça!.. nem fim. .. . Augusto. no curto trato de um dia. até a própria mentira. angélica! . uma mentira que me perseguiu lá dois dias e que me persegue ainda hoje. Houve um momento de silêncio.. Ora! estou com dores de cabeça. amor.. Augusto abriu um livro e fechou-o logo. um de seus habitantes.... finalmente. acalma-te.. não é graça. depois tomou rapé.... então. olha que estás vermelho como um pimentão.É verdade. em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama.Ora. do baile... nem princípio. O. quando ela canta ou toca ou brinca ou corre. que história é essa? Acabas divinizando a mesma pessoa que.. sim. eu fatigado e sequioso.. quando...Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a lição de amanhã? .. sempre ela é bela. não é lá essas coisas. . que não sei como o chame. que se transformou em verdade.Tratar-se-á das apresentações de. porque o amor é um nome muito frio para que o pudesse exprimir!. tudo isso ao mesmo tempo.Modera-te.. enfim.. parece ter mau gênio. Leopoldo..Deveras que isso não deixa de ser interessante.Oh! tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me.. a nossa boa hóspeda contou-me uma fabulosa e singular tradição daquela fonte.. do. que julguei insuportável e logo depois espirituosa.... Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe conversava na gruta. Para que dizer mais? Sempre. finalmente.. chamaste feia?.Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de D.Amor?. passeou pelo quarto duas ou três vezes e. Leopoldo. que daí a algumas horas comecei a achar bonita.passeando até desaparecer o teu batelão?. Realmente notei-lhe muitos defeitos. com os cabelos à négligé. digo-te que a acho feia.. amor é o diabo.. veio de novo sentar-se junto de Leopoldo. Sr. uma mentira. Carolina...Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu.. Augusto. .. e é tudo. Eu a mim não conheço....Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e. viva! quero divertir-me. formosa. é o teu coração.Que efeito?. Que lição temos amanhã? . é uma coisa que.E tu acreditaste muito nessa senhora?.Então. ou divididos em belas tranças.. não sei onde irá isto parar...Não é a tua cabeça. ah! ela rindo-se. Olha. . . plantou no meu coração um domínio forte... . pois. um sentimento filho da admiração. Leopoldo.. aquela menina que aborreci no primeiro instante. ... . às vezes. Amor não é efeito.. e muito.. tudo. Mas que efeito esperas tu que provenha de toda essa moxinifada? . em alguns minutos de uma cena de amor e piedade. Eu amo! ardo! morro! ... para encurtar razões. tenho tido pejo de te confessar. encantadora. mas venha cá. quando ela fala ou mesmo quando está calada. porque eu bebi daquela água e não pude deixar a ilha sem amar. talvez... .. ou melhor ainda....Ora..... .Quem te disse semelhante asneira?. Eis aqui. mas sentimento que é novo para mim.

porém tu nem cuidas em casamento nem. Assim. Augusto. falemos sério. certamente que o satisfarei com uma das muitas cachopinhas de minha terra. sua alma. . não. a mudar de galanteador em cada contradança.. quanto devem entristecer os suspiros e saudades de que serás testemunha..Tu falas em amor.. Estudemos as duas vidas.. tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras. não se deseja.. O. nem chegará a tal ponto minha loucura.. .Que mal?. certamente. porém. onde ela se acostuma a fingir o que não sente. necessariamente. Ainda bem que somos ambos estudantes da roça e posso dizer- te agora o que entendo.. é para viver e morrer por aquele que ama. quando concebe uma idéia. aqui encontramos nas moças mais espírito. Isto é assim. .Esta agora não é má!. Leopoldo! juraria que desejas casar com alguma moça da roça! . abraça-a. pois. Leopoldo.. de escolher para mulher uma menina que foi criada. sempre a mesma lua que prateia seus raios na lisa superfície do lago. escuta: devendo ir morar na roça.. os brados de alegria e o ruído do povo. compreende. sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral.Oh!. por objetos que se multiplicam e se renovam a todo o momento. que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!. essa tua exaltação estava muito em ordem num moço que quisesse desposar D. Carolina. .. . as nossas roceiras são mais constantes que as cidadoas?. Ali ela está na solidão de seus campos. de tarde. ao romper d’alva. mais jovialidade...E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto. qual o resultado que pensas tirar de tudo isso que me contaste. a pesar dela a ligará ainda a seu passado!.. quando chega a amar... .. roceiro como és. da senhora que passa para o menino que brinca. Augusto?. sem medo de ofender a susceptibilidade de cortesão algum. quando a amada companheira recordar-se de sua família. não a deixa mais. à noite. Queres agora ver o que se passa com a moça da roça?. onde cem óculos fitos em seu rosto parecem estar dizendo . por prazeres e distrações que se precipitam. tem o teatro. durante o dia. .. talvez menos alegre..sinceramente falando. graça e prendas. quanto atormentará o coração do pobre marido à vista dos dissabores e contrariedades que sofrerá na solidão e monotonia campestre a senhora amamentada no seio dos prazeres e festins da Corte!. tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só. educada e pode-se dizer que mora na Corte. amor.. se esse desejo me dominar. enfim. mais livre.. .és bela! e assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade. a moça tem. porém. .. depois. Depois.. nelas não acharemos nem mais beleza... Quando se ama deveras e se está com o objeto do amor.. ela se acostuma a ver e amar um único objeto.. não se quer mais nada!.Oh! não.Eu logo vi que nos teus raciocínios e observações andava o gênio da prevenção. que. dessa cadeia de delícias. ela se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em que vive.. Pois ainda não observaste que o verdadeiro amor não se dá muito com os ares da cidade?. de mudar de costumes e de vida. é sempre e só aurora que bruxuleia no horizonte. se tal pensasses. tão mudável como a moda dos vestidos. considera que é lá em nosso campos que mais brilham esses sentimentos. A moça da Corte cresce e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes. não se recorda. sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos. se o marido for amado por ela!. são sempre os mesmos prados. mas suponhamos o contrário disto: que mal tu achas em que um roceiro se case com uma moça da cidade?. que variedade de sensações! seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro. escuso-me. a ouvir frases de amor a todas as horas. te lembrarias.Que resultado?. os lamentos. anima-a. de suas amigas... que por natureza e hábito. vive eterno com ela. Deveras que ainda não me passou pela mente a idéia do casamento. nem tanta constância.Como estás exagerado. ainda contra a vontade.. do séquito do casamento para o acompanhamento do enterro! Sua alma tem de sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer. seu espírito. do teatro.. os mesmos bosques e árvores.. finalmente. do passeio. Olha. é para nunca mais esquecer. Ora.

Quando. também não há moléstia de mais fácil diagnóstico. ora.. parece que caiu no visco dos olhos e graças da jovem beleza da ilha de. Vamos agora entrar no coraçãozinho de um ente bem amável. E às vezes suspira. Faremos uma visita à nossa linda Moreninha. portanto. pois que falaste em geral e desse modo concedes.. Carolina ama. sem dúvida.Que há muitas exceções. era ela a vida daquele lugar e empunhava com as suas graças o cetro do prazer. tudo tinha que respirar alegria. mas aquela menina não é como as outras: é uma tentação. leva o seu domínio muito cedo aos olhos. eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três vezes. se eu pudesse esquecê-la!. por força ou vontade. perdendo seus belos olhares na vastidão do mar. de estudantes.... depois dos festejos de Sant’Ana. Uma mocinha que não tem cuidados. Assim como o grito tem o eco. tu me forçarias a tomar a palavra para defender a linda Moreninha.. que não quer que se chame médico. um suspiro?. Já temos ouvido bastante o nosso Augusto e demorar-nos mais tempo em seu gabinete fora querer escutar ainda as mesmas coisas: porque o tal mocinho... respondeu Augusto.. que não sabe dizer onde lhe dói. o delírio de quantos a praticavam.. não se despede. vai-se colocando e deixando ficar. e está sinceramente enamorado dela.. e às vezes dá tais saltos no coração. amoldava os corações à sua vontade. eu lhe disse . de responder-te. Eis o que é já um pouco explicativo.porém.Que romance? . tomando por um momento seu antigo bom humor.Perderás a aposta e ao completar-se o mês. uma pessoa a quem confie suas penas. descansa a cabeça em sua mão e pensa. toma conta de todas as ações. hóspede quase sempre importuno. que chega a ir encarapitar-se no juízo. porventura. ela vaga solitária pela praia. Irreconciliável inimiga da tristeza. Augusto! Sr. não desconfia. quando muito. porém. ah! o amor é demoninho que não pede para entrar no coração da gente e. o ídolo. mas. por pior trato que se lhe dê. que não tem.. portanto. nos seguintes termos: “eu olhei e ela olhou... ela ignorava o que era estar melancólica dez minutos e praticava o despotismo de não consentir que alguém o estivesse. acostumada . todos sabem que os amantes têm um prazer indizível em matrequear os ouvidos dos que os atendem com uma história muito comprida e mil vezes repetida que... como aquele. suas bonecas não mudam de vestido.. pois. Augusto.. a flor o aroma e a dor o gemido. um romance? . Carolina.Estás tolo. é porque já ama. Pois muito bem. com quem a mamãe não é impertinente. Hoje suas maneiras são outras. que quer campar de beija-flor. Também suas modificações têm aparecido no caráter de D. quais serão os solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?. afável e carinhosa para com todos.. seu piano passa dias inteiros fechado. . adeus minhas encomendas!. que suspira sem ter flatos. reduzindo- se à expressão mais simples. sabia tirar partido de todas as circunstâncias para fazer rir. sentada no banco de relva da gruta. Deixemos. .. sem dúvida? . que tanto me cativa? . ou.. e. e então. não pode ser”.. que não vê o que olha.. começas a escrever? . D.. a quem?!. e. era essa interessante jovenzinha o prazer da ilha de.. um diabinho. tem o amor o suspiro. enquanto suas músicas se empoeiram. Augusto! a culpa é toda sua... Esta bela menina. junto dela. . Ah! Sr.. sem vergonha nenhuma.Daqui até lá. faz-se dono da casa alheia. ficaria em zero ou. e por isso sofre talvez mais. Em quê?. parece que a tal tentação anda fazendo pelóticas no peito da nossa cara menina. Antes deles.pode ser. e tanto mais que já conhecemos o estado em que se acha. Basta.Bom! quando não. teremos. boa......Então. o senhor Augusto entregue a seus cuidados de moço.. que acha todo o guisado mal temperado.

por isso instava com os seus remeiros para que forcejassem. desde ontem à noite já tem estado sofrivelmente travessa.. que foi crescendo. bateu- se: o combate foi fatal a ambos.falai no mau. D. Carolina.desde as faixas a exercer um poder absoluto sobre todos os que a cercam. E.. aprontai o pau! Filipe estava esperando pelo dia de sábado para aproveitar o domingo todo no seio de sua família. sempre crescendo. disse aquela. por exemplo. que enfim lhe pareceu uma figura de mulher. toda a família está assaltada do mesmo mal. D. inexplicável. Augusto correu a casa de que tantas saudades sofrera. Sr. enquanto seu batelão se deslizava pelas águas.O ingrato ainda o diz. observou. se venceste também estás vencida! Com efeito... e foi preciso que Filipe nos trouxesse a notícia de sua vinda. para ocultar a perturbação que a agitava.. e no fim dele a orgulhosa guerreira apalpou o seu coração e sentiu que nele havia penetrado um dardo. que lhe enchia o inocente coração e ver-se-á que ela tem suas razões para andar melancólica...E quase que deixei a viagem para amanhã. uma pessoa que tinha o mau costume de dormir até alto dia. os objetos foram pouco a pouco se tornando mais e mais distintos. ideou mesmo um plano de ataque. para reviver nossa antiga alegria. Então por quê?. desde a Sra. Carolina ama o feliz estudante. Carolina. Augusto. estudou a natureza e os fracos do inimigo.. quando a aurora começou a aparecer.Pensei. portanto. disse a Sra. ela derramou uma lágrima: doce lágrima. Carolina?. Depois ele tinha desviado um pouco os olhos. todos já se tinham levantado. há na ilha uma epidemia de mau humor que tem chegado a todos. . porém. e. minha boa avó. nós temos passado oito dias de nojo. D. . . 20 Primeiro Domingo: Ele Marca Augusto madrugou. D. e uma mistura de saudades e de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a causa de sua tristeza.Eu lhe agradeço bem. Além de quanto se acaba de expor. . ajunte-se a isto a novidade e os cuidados de um amor nascente e primeiro. depois dos primeiros cumprimentos. viu o rochedo em que outrora a tamoia deveria ter cantado seus amores e de sobre o qual cantara. ela pôs então em ação todo o poder de suas graças. ninguém dormia. Carolina estava vestida de branco. Ana. o incômodo de um sentimento novo. um objeto branco. viu a casa. e muito.. correu a esconder-se em seu quarto. Ana até à última escrava. bem às escondidas. Estas palavras tiveram poder elétrico. Diz o ditado que: . já ele havia vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha de. rápido como uma flecha pelos ares. ouves. que ostentava a alvura de seus vestidos.. Carolina a sua balada. Eis. Enfim o batelão abordou a ilha de. D. a figura branca havia desaparecido como um sonho.. quando os voltou de novo para o rochedo. . era de prazer. acresce que Filipe se deixou ficar na cidade a semana inteira.. não pôde ouvir o estudante vangloriar-se de não ter encontrado ainda uma mulher que o cativasse deveras. sem querer dispensar uma só tarde para vir visitar sua querida avó e a tão bonita maninha.Para vir na companhia de Augusto. que não queria mais ver-nos! .. D. que deve passar o dia conosco.. ele o acusava de pesado. de vagoroso. depois distinguiu sobre esse rochedo negro um ponto. tinha há muito descoberto a ilha de. consultou a sua consciência e ouviu que ela respondia. sem sentir o mais vivo desejo de reduzi-lo a obediente escravo de seus caprichos.. e. ei-lo aí que recebe a bênção de sua avó e beija a fronte de sua irmã. há oito dias. talvez.. eu lhe agradeço a sua boa visita. Lá. o que se chama acusação injusta.

sempre tive fama de desinquieta e prazenteira. mas seus ouvidos e sua atenção pendiam dos lábios de Augusto.O mesmo por lá nos sucedeu. que se passaram muito depressa. . . respondeu a menina. Sr. Que eram saudades conheci eu pelos suspiros que soltavas e também não vai mal nenhum em confessá-lo. Augusto? perguntou a boa hóspeda.Ora. Carolina voltou o rosto. mais do que nenhum outro. . quando mais parecia ocupar-se com seus alegres trabalhos. Augusto teve de agradecer as obsequiosas atenções da avó de Filipe. eu acho tudo o melhor possível.Tem uma bela prenda. foi porque chegou-me um companheiro para traquinar comigo. olhava-o furto. que minha maninha reduz Augusto a aprender a marcar! .Um dia de paciência lhe seria suficiente. . . . Carolina. eu não me poderia haver com uma agulha na mão.De que estás rindo. porque o que tinha diante de seus olhos era uma coleção de modinhas do Laforge. menina. maninha pode mesmo dar-te algumas lições. e se ontem me adiantei. mais lânguida. tens estado melancólica e abatida toda esta semana.Quer dizer que foi pela minha? Adivinhou. Augusto. Mas. Quem não sabe marcar? .Querem ver.É ir muito longe. disse Filipe tomando a palavra. sou muito raivosa e à primeira linha que ele rebentasse. Em resultado de suas observações concluiu que D. por certo. realmente foi ele que o mostrou sofrer maiores saudades. eu o . Carolina tinha os olhos em um livro de música.De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro. .Então. que dizia ter por ele notável predileção. durante essas duas horas. estivemos todos carrancudos e. seja dito em amor da verdade. porém. com uma certa expressão de receio. . . .Eu. a visita que vim ter o gosto de fazer é a melhor resposta que lhe posso dar. ouvindo as últimas palavras do estudante. respondeu a menina. acudiu Filipe.Não. poder-se-ia dizer que este X foi marcado por mão de moça travessa. .É verdade. eram saudades da agradável companhia que tivemos.É porque não posso. . aprecio bem pouco o que todo o mundo pode ter.Minha senhora. Então ele examinou o livro e viu que havia mentido. que a embelecia ainda mais. disse Augusto.E nem por isso merece menos. D. aí o tem.Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado. . repare que barafunda vai por aqui. minha senhora. Carolina estava bonita como dantes. finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de D. minha senhora. gostou de nosso trato e nossa companhia. . seria isso alguma asneira? . . minha avó. se aí não estivesse. observe-o de mais perto.Nada. . . ao muito. que às vezes reparava suas indiscrições e que outras.Eu. passaria desapercebido. ela sorriu brandamente. . Augusto arregalou os olhos e sentiu que a ventura lhe inundava o coração. pejo e ardor.É porque não quer. e também de reparar com esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. Duas horas depois serviu-se o almoço.Não o negues. Carolina? perguntou Filipe. D. .Eu não entendo assim. . Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros objetos.Que é muito comum. e que. no Barbeiro de Sevilla.

. Augusto.Mas. disse Augusto. antes.Ele há de aproveitar muito. .Não. porque era já pela quarta vez que a bela mestra recomeçava suas explicações e o aprendiz cada vez a entendia menos.Pois bem. então quer você. levantando-se. dar-lhe-ei um puxão de orelha.Minha bela mestra não dá licença. . nem o que não quero.. . Levantaram-se da mesa.É uma mão de honra! .Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha!. Filipe derrotou seu competidor em três jogos consecutivos.Se é uma condição que oferece. os dois estudantes não deram atenção a isso e continuaram: o jogo tornou-se duvidoso. estavam no começo do quarto. . . não lhe dou licença. Ana.Menina! disse a Sra.. porque.E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe. mas de cada vez que eu julgar necessário. eu não estou pedindo a ele que venha aprender comigo. com os olhos fitos no rosto dela. Carolina não podia conservar imperturbável sua afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do aprendiz graciosamente se trocavam.Terá os meus elogios. algum tempo foi destinado a descansar.Depois da lição. senhor.chamaria a bolos. as explicações necessárias. D. Filipe desafiou Augusto para uma partida de gamão e incontinenti foram travar combate na varanda. . . são horas de lição. minha bela mestra. e espero que para outra vez não me seja preciso chamá-lo.E se por acaso errar alguma vez? . Daí a pouco estava tudo em via de regra.Porém podes ensinar-lhe com bons modos.Veja o que diz!.É o que pretendo fazer. ele poderia responder que não queria caçar. ela se mostrava mais pacífica e ele menos atento do que haviam prometido.Se me é permitido. quando D. está o senhor matriculado na minha aula de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição. enfim. minha senhora. porque estava pescando. ensine-me com palmatória. palmatória não. são horas de lição. podia doer-lhe muito.Sim..O senhor não ouviu tocar a campainha? .Pois bem. . .Aceito a admoestação. Todo o mundo adivinha que Augusto disse que não. disse com engraçada seriedade: . . Às vezes D.Levará um puxão de orelha. .Ora. . Carolina. . concluiu Augusto.E é preciso obedecer. qualquer dos dois podia dar ou levar gamão. aceito as condições. minha avó. . eu a aceito.. que desconcertaram seu antagonista. senhor. mas rogo-lhe o obséquio de consentir que termine esta partida.Então isso era comigo? . Augusto acabava de lançar uns dois e ás. Filipe apareceu na sala. vamos.Pior está essa! . dirigindo-se ao seu discípulo. sentado em uma banquinha aos pés de sua bela mestra. e convidou o seu amigo para com ele partilhar do mesmo prazer. . gritou ela com mau modo e sem se importar . mas contentou-se com dizer: . fazendo-se de grave... . quando tocou uma campainha. . escutava. pronto para ir caçar. respondeu D.Repito-o. . Carolina apareceu e. . respondeu a mestra. .Não tenho a dizer-lhes o que quero. é boa! acudiu Filipe.

Sr.com Filipe. que de súbito deu um grito e acudiu com as suas. A madrugada seguinte foi triste. lançou uma das mãos à orelha do aprendiz. Hércules. Tudo foi às mil maravilhas.Digo-lhe que já me vai faltando a paciência. . debateram-se. saudades de esperanças. Carolina não conseguiu puxar uma só vez a orelha do estudante e o aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar os dedos da mestra. Carolina.Está bem. e nesse ensejo os dedos da bela mestra foram docemente apertados pela mão do aprendiz. Augusto olhou-a admirado.. já tem quatro vezes rebentado a linha e é a décima segunda que lhe cai o dedal.Menina. e “minha bela mestra”. dizendo isto. Um bonito rosto moreninho fez olvidar todos esses episódios da vida do estudante. porque presidiu às despedidas do aprendiz e sua bela mestra.Até domingo! 21 Segundo Domingo: Brincando com Bonecas (1) Raiou o belo dia.. A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil vezes se repetiu a mesma cena do encontro das mãos. ninguém sabe se de propósito. porque ambos meigamente se disseram: . o dedal estava bem junto dos pés dela e o aprendiz. O prognóstico de D. exclamou a Sra.. essas mãos se encontraram. com seus dedos em um daqueles delicados pezinhos. . não dá um ponto que preste. o amor lhes tinha ensinado outros..Ora. se vai verificando: Augusto está completamente esquecido da aposta que fez e do camafeu que outrora deu à sua mulher. . minha senhora. ao apanhá-lo. O senhor não atenta no que faz!. Ana.. o Sr. não há outro remédio.. Novo fogo de olhares! que aproveitável lição!. Carolina triunfa e seu . saindo. passados entre sonhos. Carolina. E depois acrescentou. minha senhora!. D.. D. aos pés da sua bela Onfale! . eu o vou apanhar e não cairá mais nunca. O resto do dia se passou como se havia passado o seu princípio para Augusto e D. . . eu não os posso aturar.Já não posso mais! exclamou a bela mestra. E. Carolina. que a dez passos cosia.Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto.Minha bela mestra! . Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios. ora. . mas ainda foi bem doce..Fique-se aí.Já lhe tenho repetido três vezes que não é assim que se pega na agulha. e que só podia ver a exterioridade do que se passava entre a bela mestra e o aprendiz. na gruta encantada. D... Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de D. disse este. é um amante que acredita ser amado e que vai. eram: “meu aprendiz”.Ora. rebentou o senhor pela quinta vez a linha. radiante de esperanças. sorrindo-se: . sou sua mestra.. Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição um nome marcado pela sua mão.Não se exaspere. os olhos de ambos se encontram e os olhos de ambos tinham fogo. minha bela mestra. que seguiu a sete outros. tenha modos!. minha senhora! eu não sou sua senhora. levar à sua bela mestra a lição de marca que lhe foi passada. Augusto não é criança. esse contato fez mal. . Um momento se passou. o sossego se restabeleceu. ora. tocou. a menina estremeceu toda.. Ora. Augusto está viajando: já não é mais aquele mancebo cheio de dúvidas e temores da semana passada. .

. agora só sabe dizer “minha senhora!”. o senhor comprometeu-se a trazer-me um nome marcado pela sua mão. essa figura se demora sobre o rochedo. Carolina.Então errarei toda a lição. bela por força. . Venha a marca. . não desaparece como um sonho. que não tenha experimentado esses doces enleios. minha bela mestra. mas para que divagações? que mancebo há aí.Eu não entendo.Eu quero saber quem foi! exclamou com força. de tudo... pois. mas desta vez.Minha senhora. tão leves para a reflexão e tão graves e apreciáveis para a imaginação de quem ama? Pois bem. .Vamos.Vejam!. Augusto esperava com ansiedade ver brilhar nos olhos de sua bonita querida o prazer da gratidão. Carolina que só desce dele para ir receber o feliz estudante que acaba de desembarcar.. e convém dizer apenas o que absolutamente se faz preciso. de minha credulidade. eu não farei tal na lição de hoje. . . Augusto vê o dia amanhecer-lhe no mar. continuou. . mas. ver a sua obra..Não. .Foi uma mulher! isso não carece que me diga. Ela não esperava outra resposta. que estava já sentado a seus pés e em sua banquinha. . vamos. disse ela a custo. . Carolina a Augusto. disse D. fruía já de antemão o terno agradecimento com que contava. como na passada viagem. apreciar sobre si o doce contato de uma bem torneada mão. meu aprendiz.Meu aprendiz!... que sua bela mestra ia gradualmente corando e por fim se fez vermelha de cólera e de despeito.. dizendo-se: almoçaram e chegou a hora da lição... sem inconveniente. com espanto.. e creia que estou pouco disposta a perdoar-lhe. se ela não amasse também.Oh! sempre precisarei que me queira puxar as orelhas. pode-se.. como fiz na lição passada.. • Minha bela mestra!. voluptuoso e palpitante.E se eu merecer? .. que nome marcou? . Augusto apresentou então um finíssimo lenço aos olhos da sua bela mestra. o apanhar o leque que escapa da mão que estremeceu. Ter a ventura de receber o braço de uma moça bonita e a quem se ama. Como da primeira vez. A interessante jovem acabava de ser inesperadamente assaltada de um acesso de ciúme.Nunca a mão grosseira de um homem poderia marcar assim!.Entendi que devia ser o nome da minha bela mestra.. .. Augusto os está gozando neste momento. avista sobre o rochedo o objeto branco. que teve de ler em cada ângulo dele o nome Carolina e no centro o dístico Minha bela mestra. cujo sorrir se considera um favor do céu. que tantas noites se tem sonhado beijar. já nem me quer chamar sua mestra!. Eles se sorriram. já sei que traz nome bem marcado.. preciso é confessar: o aprendiz havia marcado melhor do que nunca o tivera feito D.Vamos. abreviar toda a história de duas horas. não como da outra. e. porque só a ele é isto de grande entidade. de dezesseis anos por diante. até que distintamente conhece nele a elegante figura de uma mulher. . sentir sob sua face perfumado bafo que se esvaiu dentre os lábios virginais e nacarados. Uma moça que lhe marcou este lenço para o senhor vir zombar e rir-se de mim. Augusto . . que vai crescendo mais e mais. roçar às vezes com o cotovelo um lugar sagrado. . quando viu. Tudo estava primorosamente trabalhado.. . à medida que seu batelão se aproxima.Mas.. é uma bonita realidade.orgulho de despotazinha de quantos corações conhece deveria estar altaneiro. mas Filipe acaba de chegar e todos três vão pela avenida se dirigindo a casa.... é D. tudo isso.Talvez.

. ele tem outra mestra.Quis trazer um lenço bem marcado para ostentar meus progressos e motivar alguns gracejos e mandei-o encomendar a uma senhora muito idosa. vi que o senhor estava adiantado demais.E que importa que eu rasgasse um lenço? minha querida avó. minha querida avó. . com a voz entrecortada. chorei diante do meu aprendiz. Augusto. Sabe.. tudo mau.. E dizendo isto. ocultou o rosto no seio da extremosa senhora e começou a soluçar. com os olhos ainda molhados.É verdade.Muito idosa?.Pois rejeita um presente de minha neta? perguntou a amante avó. Então ela ergueu-se e. viu- a correndo para ela.Como se chama ela? . levantando os olhos ao escutar a última exclamação de sua neta. Ana. minha querida avó: aqui está a marca que ele me traz! Eu queria um nome muito mal feito. mas que marca melhor que eu... porém. . o ofereceu a Augusto. basta de marcar.Paguei-o. que é mais bonita!. menina? que tem que ele tomasse outra mestra? pois por isso choras assim? .Mas nem me quer dizer o nome dela!. que não há de ter a minha paciência.Que fazes. só o nome!. julgou a propósito não dar resposta alguma. vamos à minha lição.Que é isto menina? perguntou. veja. tudo péssimo. que já estamos bem. Augusto olhou para a Sra. . acudiu Augusto: exterminou o mau gênio que acabava de fazê-la chorar. não desejo ver a menor hesitação. mas com toda a beleza da dor e delírio do ciúme.Não. tirando de sua cesta de costura um lenço recentemente por ela marcado. . dizendo: . porém. nem o meu prazer. Ana. D.Que loucura é essa. outra bela mestra!.Então fui julgado incapaz de adiantamento? . não me saí bem do magistério.Pois eu o rasgo. .. . . .Veja..Agora. .. D. peço-lhe licença para dar um dos meus ao Sr.. não falemos mais nisto. porém. minha senhora. A Sra.. querendo. .. sou eu quem tem outros cuidados.Ei-lo em tiras. . o que fez? foi para a Corte tomar outra mestra. não. Ana.Não lhe deram este lenço? .Fez o que cumpria. Ana.Juro que não sei. já tarde. . o pano suado e feio. como para ler-lhe n’alma o que ela pensava daquilo. D. quero que aceite este lenço. . . Carolina? exclamou a Sra. . ..Ao contrário. uma barafunda que se não entendesse. D.. . voltou-se para Augusto e perguntou: .. que vive destes trabalhos. .. pelo trabalho que me trouxe. . impedir que sua neta rasgasse o lenço. que começava a desconfiar da natureza dos sentimentos da mestra e do aprendiz. quero saber-lhe o nome.Eu não admito uma só desculpa. Que me importa que seja moça ou bonita? nada tenho com isso.estava espantado e a Sra. disse ele.Pode o fazer. eu me riria com ele. A resposta de Augusto foi um beijo na prenda de amor. respondeu a bela mestra.. .Já tem cuidados?.Não sabe?. mas nem isso desnorteou a viva mocinha que.

jóias e um número extraordinário de bugiarias.. mas suspirou.. ao sentir passos. Ele falou menos baixo: . E o mancebo. o nome de Augusto foi mil vezes pronunciado. como uma varinha ao vento. Augusto o sentiu. o rei humilde cativo. D. O amor faz o velho criança. O pai de família tem os filhos. cada uma das quais tinha seus parentes. No entanto a Sra. enfim. Ora. Filipe acompanhava sua avó e na viva conversação que entretinham. o sábio doido. A virgem guardou silêncio e o mancebo.. essa delicada mão. que era o do pejo. já tem a senhora amado? . perguntou tremendo: . que sou criança. A mão da bela Moreninha tremia convulsamente no braço de Augusto e este apertava às vezes contra seu peito. seus vestidos. . mas. O amor seria capaz de obrigar um coxo a brincar o tempo-será. com que o feio pareça bonito e o grão de areia um gigante. dos dentes postiços que. . batiza. mas.Pois acredita que em amor possa haver felicidade? . Quer vê-las? . despe umas e veste outras. ficaram muito distantes do par que os seguia. começaram a beijar-se com ternura.. tenho as minhas bonecas. apontando para as pombas.São felizes! . Em uma das ruas do jardim duas rolinhas mariscavam. o tal bichinho chamado amor é capaz de amoldar seus escolhidos a todas as circunstâncias e de obrigá-los a fazer quanta parvoíce há neste mundo.Às vezes. o amor está fazendo um estudante do quinto ano de Medicina passar um dia inteiro brincando com bonecas. que iam adiante. alguns suspiros vinham também perturbá- los mais e havia dez minutos eles se não tinham dito uma palavra. ela pareceu não ouvir. O amor foi inventor das cabeleiras. talvez brilhou em ambas aquelas almas.. D. O maior inimigo do amor é a civilidade.Eu?!. às vezes. e o senhor?! . como qualquer moça da moda as tem no seu toucador. a tarde deve de ser empregada em passeios à borda do mar e pelo jardim. . Ana.Já ama também?. alto lá! que isto é bulir com muita gente. conversa com todas. acalenta as bonecas pequenas.. mas esta lhe fez cair a sopa no mel. examina o guarda-roupa.Acaso. Uma vez Augusto e Carolina. em uma palavra. Ana os observa cuidadosa.Quem é que deles não carece?. disse: . o senhor os seus livros e eu.. depois de alguns instantes. Augusto já sabe de cor e salteado todos os nomes dos membros daquela família. como involuntariamente. rogando-lhe que o reservasse para a sua neta..E a senhora já amou também? Novo silêncio. faz mesmo. Como de costume. porque os olhares da menina e do moço se encontraram ao mesmo tempo e os olhos da virgem modestamente se abaixaram e em suas faces se acendeu um fogo..Com o maior prazer. Igual pensamento. tem simpatizado muito Augusto. casa. conhece os diversos graus de parentesco que existem entre eles. dobra- se aos prazeres de sua bela mestra.Elas se amam! E a menina murmurou apenas: . Um momento depois a sala estava invadida por uma enorme quantidade de bonecas. mas nem por isso quer entregar todo o futuro do objeto que mais ama no mundo ao só abrigo do nobre caráter e sérias qualidades que tem reconhecido no mancebo. tendo de oferecer seu braço à Sra. voaram e assentando- se não longe. a um surdo o companheiro companhão e a um cego o procura quem te deu.Comecei a amar há poucos dias. e esta cena se passava aos olhos de Augusto e Carolina!. Com efeito.. em um arbusto.

..Senhor!. Pelo céu!.. apertando-lhe vivamente o braço.Oh!. sem o pensar.Quer que lhe diga?.É a senhora... Não pôde...Serei eu?. . ... não!. para que ninguém o possa ouvir.Mas por que não pode? ... com fogo e ternura: . .Posso eu fazê-lo? . eu não posso!. nem a brisa o leve..E a senhora não me revela o nome feliz?..Eu não pergunto.Eu não. com requintada ternura. depois daquele ...E quando?..Talvez. respondeu Augusto.Quando estiver certa que ele não me ilude. 22 Mau Tempo Tristes dias têm-se arrastado.. ......É impossível. Não lho impeço. ... porém que fez transbordar a glória e entusiasmo na alma do seu amante.Não sei. ele é volúvel?. bem no meu ouvido.. . A vigem tremeu toda e não pôde responder.. . pelo céu!. D....E a quem? . Ela tinha dito somente: .E nunca o dirá?! . . Depois ainda continuou: .. . . A interessante Moreninha quis falar... . .Se eu perguntasse?.Por quantos dias? . .. Voltando da ilha de.Porque não devo.. não posso.Não. . basta o nome pronunciado bem em segredo.Oh!...Eu não perguntei a quem o senhor amava......Oh! para sempre!.. . talvez.Então.. Ela abaixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta disse: . acabe de matar-me!..Serei eu?... . forcejando um sorriso: . levou o braço do mancebo até ao peito e lhe fez sentir como o seu coração palpitava..... perguntou uma terceira vez Augusto. Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns instantes pôde perguntar.. . .Serei eu?. Augusto lhe perguntou ainda..Um só nome que peço!...Talvez um dia.. . Augusto está desesperado.. mas..Ostenta sê-lo. A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido que uma resposta.. ..

esbravejou.belo dia da declaração de amor. e para consegui-lo convém ir despedindo-o com bons modos. vieram por fim dar-lhe a certeza de que o seu bom velho estava ciente de tudo. limpar-lhe o caminho. esperneia. da severidade com que era tratado. e um discurso cheio de conselhos e admoestações. se não é com jeito destravado. para que não corra. sem dúvida para vir consolá-lo e dar-lhe salutares conselhos. quando se engole. Augusto? perguntou o bom pai. nem faltasse à honra. o jantar e a ceia que lhe trouxeram. para que não passe: acabar com as dificuldades e oposições. Para coroar a obra. por ver que ele não chegava. começou a criar mil sublimes quadros e em todos eles lá aparecia a encantadora Moreninha. por mais força que se faça mais o maldito rasga. jurando que não havia de estudar dois meses. Portanto. para que ele disso se desgoste. com seu vestido branco. Uma noite de amargor foi. e pela primeira vez em sua vida. mal passam de certa idade. fez mil planos de fuga. escabuja. escutou um grito de dor semelhante a esse que soltara no primeiro dia que ele tinha passado na ilha! Aqui. apesar de a terem crismado Niterói). saltou exasperado fora do leito em que se achava deitado. na solidão e silêncio das trevas. como nada disso lhe valesse. julgou muito conveniente trancá-lo no seu quarto. Porém os homens. a que se passou para este. sem tocar num só prato. pois. A mais bem merecida repreensão. O amor é um anzol que. o pai de Augusto não falava em voltar para a roça. agadanha-se logo no coração da gente. Chegou o sábado. mais que nunca. mergulha-se inteira em . donde. voltou o rosto para a parede e principiou a roncar como um endemoninhado. foi o nosso estudante às nuvens. prudente é facilitar-lhe o que deseja. não há idéias mais livres que as do preso. escarapela. O experimentado velho fingiu ter-se deixado enganar e. que. O resultado disso é o mesmo que tirará o pai de Augusto da energia e violência com que procura apagar a paixão do filho. para que o filho não cumprisse a palavra. experimentou se podia arrombar a porta. atirou com todos os seus livros para baixo da cama e deitou-se de novo. Ouviu-a acusá-lo de inconstante e ingrato. chora. o nosso encarcerado estudante soltou as velas da barquinha de sua alma. morde. mais forte que seu espírito. mandou voltar o almoço.. erro palmar. soltá-lo no prado. pediu finalmente licença para ir passar o dia de domingo na ilha de. amor é um menino doidinho e malcriado. jurou que tinha dado sua palavra de honra de lá se achar nesse dia e o pai. contra o costume do maior número dos nossos agricultores. esperando-o em cima do rochedo. e. viu-a. e sentindo que seu pai abria a porta do quarto. e obteve em resposta um não redondo. estão no caso do fogo viste lingüiça? e ainda bem não puseram os pés no Largo do Paço já têm os pés na Praia Grande (que por estes bons cinqüenta anos há de continuar a ser Praia Grande. acusou a crueldade dos pais. trancou a porta ao pobre estudante. a alma do homem que padece é. que voou atrevida por esse mar imenso da imaginação: então.. e. Carrancudo e teimoso. muita indústria deve ter quem o quer pôr na rua.Já dormes. concentra-se. parlamentares oferecimentos e nunca bater-lhe com a porta na cara. e o amor. só se lembram do seu tempo para gritar contra o atual e esquecem completamente os ardores da mocidade. retirando-se. viu-a chorar. achou na Corte seu pai e em poucos momentos teve de concluir. e suas lágrimas queimavam-lhe o coração. esburaca e se profunda. A única resposta que obteve foi um ronco que mais assemelhou-se a um trovão. daí a pouco pareceu-lhe que ela soluçava. . Ora. abrindo as cortinas do leito. parecia haver esquecido a moagem e a safra. toda cheia de encantos e graças. Augusto ama deveras. escabelou-se e. Já era tarde. principalmente no caso em que se acha o nosso estudante. a julgar-se pelo sossego e vagar com que tratava os menos importantes negócios. então. depois de muitos rodeios e cerimônias. para que ele durma e muitas vezes morra. exercia nele um poder absoluto e invencível. toda de sua dor. quando alguém intenta refreá-lo. que já alguém o havia prevenido das suas loucuras e dos muitos pontos que ultimamente tinha dado nas aulas. Mania antiga é essa de querer triunfar das paixões com fortes meios. O nosso Augusto. quando vêm à cidade. que. belisca e incomoda mais que solto e livre. passeou a largos passos por seu quarto.

provavelmente. ele estava em violenta exacerbação.. no mesmo instante.. . . louco? perguntou o pai. voltando passadas algumas horas. Os namorados são semelhantes às crianças: primeiro divertem-nos com suas momices.. e vendo-o prostrado no leito. com lágrimas nos olhos: .Querido louco!. estavam azedando a vida dos que lhes queriam bem. como que obsequiavam a luz quando por acaso se entreabriam. por seus lábios.Não vamos bem. Carolina também padecia. tomou outro tipo: Augusto tornou-se pálido. contra o costume da classe. horas inteiras se passavam sem que uma só palavra fosse apenas murmurada. Algumas aplicações se fizeram e um dos colegas de Augusto. mas.E mais nada? . . cuidadoso. tomando e beijando a mão paterna. A enfermidade de Augusto não cedeu.Eu amo. deu-lhe. disse ele: tu me obrigas a fazer loucuras! E saiu do quarto e logo depois de casa.. exclamou. e seus olhos. não concebe. Os nossos amantes acabavam de chegar ao sentimental e. E.Que fizeste. seus olhos se abriram. fez retirar todas as pessoas que aí se achavam e. julga isso pouco? E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única sobre o seu estado. a flor de suas esperanças. com os olhos em fogo e o rosto mais enrubescido que de ordinário. um leve sorriso de gratidão lhe alisou os lábios. mas.O meu filho!. depois incomodam-nos choramingando. não pensa. de modo que. Augusto quis dar dois passos e foi preciso que os braços paternais o sustivessem para livrá-lo de cair. Isto aconteceu a Augusto.. com seu sentimentalismo. com toda fria segurança do homem determinado: . como insensível. eu não sofro nada .seu sofrimento... porém. que as melhoras começaram a aparecer como por encantamento. fez-se esperar pouco. . entrou de novo na câmara do doente. algum elixir tão admirável. também duas lágrimas ficaram penduradas em suas pálpebras e ele.... cujo amargor só pode sentir a alma de um pai.. amortecidos.Meu pai. prolongadas insônias eram marcadas minuto a minuto por dolorosos gemidos. Que milagre não será capaz de fazer o amor dos pais? Novidades do mesmo gênero perturbavam a paz e os prazeres da ilha de. doutor. ficando só com ele. . que o tinha vindo procurar. e entrou apressado e trêmulo no quarto do enfermo.. passei uma noite em claro. como meio morto.. meu pai. sua paixão. Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e quando o médico lhe perguntou: . ao abrir-se na manhã seguinte a porta do quarto. com tanta facilidade como a princípio supôs o médico.. contudo. que também se desenhava no ardor dos olhares. murmurou com voz sumida e terna: .Nada. tão bom!. meu filho!. não vela e não se exalta se não por ele. Uma idéia terrível apareceu então no pensamento do sensível velho: a possibilidade de morrer seu filho.Oh! Sr. fez-lhe o que chamou uma bela sangria de braço. Na visita do quarto dia o médico disse ao pai de Augusto: . uma mudança apenas se operou: a exacerbação foi seguida de um abatimento e prostração de forças notável. D. sombrio e melancólico.O que sente? Ele respondeu. e tal idéia derramou em seu coração todo esse fel. por que me queres matar? Um brando favônio de vida passeou pelo rosto de Augusto. O médico deu por terminada a sua visita. o pai veio encontrá-lo ainda acordado... Doces frases que retumbaram com mais doçura ainda no coração do velho. três dias se passaram sem conseguir-se a mais insignificante melhora. Oh! ele queria dizer que sofria muito! Imediatamente foi-se chamar um médico que. na viveza das expressões e na audácia dos pensamentos.

Retirou-se. vendo a interessante Moreninha que tristemente passeava à borda do mar. ataques de hipocondria. Coitadinha! vai passando uma semana de ciúmes e amarguras. que se prolongaram até a tarde do dia seguinte. enfim. (bradava ela lindamente enraivecida) falsos. a boa avó livrou-a desses tormentos. Pertencia a uma classe. na hora do chá.” E quando o sol começa a fazer-se quente. apontando para o céu: . D. por principiar assim: “Eu tenho quinze anos. teme vê-la fugir vermelha de pejo. da Sra.. E sou morena e linda. No almoço não houve prato que não acusasse de mal temperado: faltava-lhe o tempero do amor. saudou-a com esta simples palavra. às vezes algumas cólicas.. sem exceção nenhuma. porém já menos ciumenta e despeitada. maus. apontou também para o céu. ela busca o rochedo. O dia de sexta-feira trouxe ainda algumas novidades à ilha de. ou ao lado de sua boa avó. pruído de canelas. o chá não se podia tomar. sem exceção. D.. em que um velho e particular amigo de sua família veio da Corte visitá-la e com a respeitável senhora ficou duas horas conferenciando a sós. que mal pode consolá-la. palpitações. o dia estava frio de enregelar. mas. e pondo a outra mão no lugar do coração disse: . e. e. que a terra chegaria a lembrar-se de ser competidora do céu. e. À tarde sentiu- se incomodada. feios. A Sra. Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina. mentirosos e até. com os olhos embebidos no mar. ela. não ceou e não dormiu. conhecendo já a causa da tristeza da querida neta.. que de uma flor já murcha engendra o mais vivo contentamento. fazendo com habilidade e destreza cair . Ana recebeu cartas que a tornaram talvez menos triste. seria tão completa a felicidade cá embaixo.. mas sem dúvida muito pensativa. seu próprio irmão tinha um defeito imperdoável: era estudante. outras amargores de boca.Esperarei! 23 A Esmeralda e o Camafeu Dona Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados. cujos membros eram. porque. que de um nadazinho tira motivos para o prazer de dias inteiros. repetindo com fogo a estrofe que tanto lhe condiz. Esse homem despediu-se.. Ana. deixa o rochedo. A presença da linda neta parecia alentar mais essas reflexões. que por uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um pobre amante em inflamação aguda com o estalar de tantos beijos. como para corresponder a tão animador cumprimento.. tendo debalde esperado o seu estudante até alto dia. no momento em que saltava dentro do seu batel. se não produzisse também agastados arrufos. deixando-a cheia de prazer. toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos. para passar o dia inteiro no fundo do gabinete. Ele. o amor não podia deixar de fazer parte da regra. Acordando-se ao primeiro trinar do canário. canta muitas vezes a balada de Aí. voltou para casa arrufada.Esperança! D. etc. Carolina levantou a cabeça e viu que já o batel cortava as ondas. A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo no rochedo da gruta. que nem mesmo a sorte grande os causaria. se não fingir com finura que ignora o estado de seu coração. Tudo neste mundo é mais ou menos compensado. por sua vez. que por um só cabelo faz escarcéus tais.

.Dize sempre. a amorosa menina despertou e. E..Graças a Deus.. que ainda não mostrava dar fé deles. talvez consiga com algum esforço vir ver-me. então. para ajudá-lo a desembarcar. parece pagar-nos bem a amizade que lhe temos.Eis uma injustiça.. sentado junto de um respeitável ancião. e D. disse: .. Carolina.Oh! pobre moço!.. Desde sábado à noite que Augusto está na cama. A menina hesitou um instante. eu não sei.. voando com asa intumescida para a ilha. . Como ontem já pôde chegar à janela. pensarás acaso de maneira diversa?.a conversação sobre o estudante amado. cheias de amor e de esperança. a bela Moreninha distinguiu dentro dele Augusto.. . abica à praia Enfim. pensava ela.. que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas. Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficientemente. dividiu seus cabelos nas duas costumadas belas tranças. Com força e comoção desusadas bateu o coração a D. vestiu o estimado vestido branco e correu para o rochedo. até que. salta apressado.” Augusto. prostrado por uma enfermidade cruel.” . . ela vendo que chegavam à praia.Eu me alinhei.. Carolina. teria vindo domingo. Carolina. . há uma semana esquecido. No dia seguinte. como por encanto. hoje já pôde chegar à janela. no instante mesmo em que ela dizia no seu canto: “Lá vem sua piroga Cortando leve os mares” um lindo batelão apareceu ao longe. que calou-se para só empregar no batel que vinha atentas vistas. não entendes assim?. hoje é domingo e talvez.... prosseguiu seu canto. buscando o toucador. a quem não pôde conhecer. . assim me mandou dizer Filipe. há dois dias ficou livre dele. pois. e depois respondeu: . ao amanhecer. enfim. em perigo?. todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da inconstância do amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia. porque. . E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso espelho do mar..Aquele interessante moço... quando dizia: “Quando há de ele correr Somente pra me ver. ela principiou também a cantar sua balada: “Eu tenho quinze anos. se não fosse isso teria vindo ver-nos!.. .Minha avó.. saltava nesse momento fora do batel. e depois deu a mão a seu pai. extremamente comovida....Se ele pagasse bem. E sou morena e linda” Mas. Ah! era o batel suspirado. Doente?.. fingiu não tê-los sentido e continuou sua balada: “Enfim.Doente?! exclamou a linda Moreninha. com efeito. Carolina.

. Prazer imenso inundava a alma da menina. sorriu-se como se sorria dantes. Passados alguns instantes a Sra.Augusto. murmurasse apenas: . . No fim de muito tempo eles haviam conseguido dizer-se: . Carolina curiosa. Carolina. Uma hora depois o pai de Augusto e a Sra.. Quando eles se sentaram. . disse: . . agora resta que alcances o sim da interessante pessoa que amas.O dia está sereno.Minha avó..Eu o espero. como quem estava certa do resultado da meia hora de reflexão. A Sra. Carolina. Tanto D. eu acabo de obter desta respeitável senhora a honra de te julgar digno de pretenderes a mão de sua linda neta. e os dois namorados achavam-se.O mar está bem manso. como tremendo pelo êxito dela?. para que possa ser descrito. e já por tal podia gracejar com os noivos.. guardaram silêncio. Carolina.. houve bons cinco minutos de silêncio: o pai de Augusto instou para que ele falasse. o Sr. Augusto parecia querer comunicar alguma coisa bem extraordinária à sua interessante amada. no vão de uma janela. tiveram só olhares para trocar e suspiros a verter. E eles continuavam no silêncio.. Carolina como o pobre estudante ficaram cor de nácar. Alguma grande resolução obrigava o moço a estar silencioso. não sabia mais servir-se de seus sorrisos com a malícia do tempo da liberdade e mostrava-se esquecida de seu viver de alegrias e travessuras. Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez de seus semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias. com os nossos dois amigos Leopoldo e Fabrício. e como lembrando-se dos pesares que tinha sofrido. desceu do rochedo e foi cumprimentar o pai dele. tu que dizes?.Então teremos um excelente dia. o ancião falou: . não pôde vencer-se.Enfim. E o bom do rapaz não fez mais que olhar para a moça. D. D. Ana recebeu com sua costumada afabilidade o pai de Augusto e abraçou a este com ternura. Felizmente para eles a Sra. . E D. Ao servir-se o almoço.Pois creio que ninguém melhor que tu o poderá saber. . ela lhe perguntou: . disse a Augusto: .Eu rogo que daqui a meia hora se vá receber a minha resposta na gruta do jardim. sem levantar a cabeça. Carolina saiu com ar meio acanhado e meio maligno. defronte um do outro. a balada foi nessa estrofe interrompida e D. não tiveram uma palavra para pronunciar.. iremos... D.sentiu que Augusto corria para ela. Foi preciso que se repetisse pela terceira vez a pergunta. D.. mas olhavam-se com fogo. Augusto para aí se dirigiu tremendo.. Ana tomou então a palavra e disse sorrindo-se: .Por que não veio o meu neto? . aceitando o braço do estudante.. D.Ficou para vir mais tarde. com ternura. e erguendo a cabeça. A bela Moreninha pensou um momento. abrir a boca e fechá-la de novo. eu não sei. é necessário que os ajudemos. Ana os convidou a entrar no gabinete. Ana conferenciavam a sós. porém sempre estremecia ao entreabrir os lábios. Nem palavra. cônscia já de sua fraqueza. Augusto te ama e te quer para sua esposa. Desejas que eu responda em teu nome?.Quererás consultar a fonte? Pois bem. D. sem dizer palavra. como todos prevêem. E para que mais?. A Sra. Ana. D. Fala. para que a menina.

pedindo. e. .Eu creio que ainda se não passou meia hora. . . e desejei vingar a injúria feita ao meu sexo. Augusto. Sr.. não sou má. e seu rosto.. cumprirá a palavra que deu. . pede-me para sua esposa?.” . . o senhor só será esposo dessa menina.. ora eu. somente para isso. Escute: na idade de treze anos o senhor amou uma linda e travessa menina.Ela deve ser uma bonita moça!. pois.E quem tem culpa de tudo. . animou o amor que pela senhora sinto?.. e quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que lhe ofereceu e o senhor aceitou?. agora já é impossível! .Acaso veio perguntar-me alguma coisa?..Foi a beleza. mandando.Jamais! . . . e eu devo lembrar-lhe o dever que com a paixão esquece.Embora.Para satisfazer as minhas vaidades de moça.Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na sua infidelidade. retomado o antigo verniz do prazer e malícia.. ..Porém já passou o tempo do galanteio. senhora? .Oh! isso é uma recomendação contra a sua constância!.. . murmurou o estudante!.O senhor é um moço honrado. .. .Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo.. quem venceu: o homem ou a mulher?.. .A senhora? . portanto.E a honra. minha senhora.Não.Juro-lhe que há de sê-lo. . eu emendarei a mão agora. trocou com ela aí mesmo prendas de amor. continuou a cruel Moreninha. .Para que... teria razão de queixar-se contra mim.Ah! podia eu esperar tanto tempo?. ..Pois bem. veja como verificou-se o prognóstico que fiz do seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse “que não longe estava o dia em que o Sr. e. Vendo entrar o moço disse: ... e só casará com sua desposada antiga. Trabalhei.O Sr. .. pois. . Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por mais de três dias.E quem me poderá obrigar? ...A senhora o ouviu há pouco. até por direito de antiguidade. foi um juramento.Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la para sempre...Eu.Foi um juramento de criança.Então.Oh!.. . como agora o faço: “Então.Mas eu nunca fui casado. O senhor há de cumprir a palavra que deu há sete anos! Augusto recuou dois passos. Carolina estava sentada no banco de relva. tinha.. que contava apenas sete.. . D. apesar de ser travessa. havia de esquecer sua mulher”? . portanto.. não quer refletir também no jardim? O estudante não esperou segundo conselho e para logo dirigiu-se à gruta. sem poder ocultar a comoção e o pejo que lhe produziu o objeto de que se tratava. se eu roubasse um coração que lhe pertence. confesso que trabalhei por prendê-lo.. só para ter a glória de perguntar-lhe uma vez. eu só venho ouvir a minha sentença. contudo. . fiz talvez mais do que devia. senhor. .

. ambos choravam e só passados alguns instantes a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao triste estudante. que o presente me enlouquece e me mata.E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz inspirada: “Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!.. senhor. penso que a lembrança do meu passado faz a minha desgraça.. ...Eu lhe diria. em sinal de reconhecimento também este velho me fez um ..Espere...Oh! mas por que Deus não me prendeu a essa menina nos laços indissolúveis. Carolina. que convulsivamente apertou na mão. se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo.Porque eu era um louco. para que ela o guarde com desvelo. volte que eu serei sua. . .” A cena se estava tornando patética. parte?. . deixar aquela cidade detestável. uma criança? .. .E como....E agora pensa no que quer fazer? . . ... Oh! já não haverá futuro para mim! Adeus senhora!. repita-lhe o que acaba de dizer.O breve verde!. e se ela ceder. onde meu Deus?.. enquanto eu padeço. abandonar esta terra de minha pátria. em que eu também socorri um velho moribundo. .Acabe! ....Então eu não pensava no que fazia. meu Deus..... onde não posso ser outra vez feliz!.. Mas. que o futuro. cuja cor exprime a candura da alma daquela menina.. deixe a senhora brincar nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar. abraçar-me-ia com eles e lhe diria: “Perdoai-me. se perdoar...Sim. vá.. matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus filhos. .Então.Sim.. Como o senhor e sua camarada.. quando a minha mãe era viva. e sofro mil torturas. mas já com voz fraca e trêmula: . exclamou D. deve partir... dando-lhe o breve de cor branca disse: tomai este breve. antes que eu visse o lindo anjo desta ilha? . porque eu amo outra que não sois vós. disse. Penso...E para sempre... eu já não posso ser vosso esposo! tomai a prenda que me deste. onde?. perdoai-me. Houve um dia.. . Por que deu o senhor o breve à menina?. lá no futuro vós o sentireis”? Não tem o senhor esperança de ver realizar- se essa bela profecia? não se lembra de ouvi-la? Pois ela soou bem docemente no meu coração quando às escondidas.Atirar-me-ia a seus pés. Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda.Oh! pois bem.. onde poderei achar essa moça a quem não tornei a ver. vá ter com sua desposada... esposa. senhor.Penso que sou um desgraçado. E tornou a deixar correr o pranto.. eu corro.” E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve.. dai-lho.Ah! senhora!. que é mais bela e mais cruel do que vós!. continuou Augusto: “recebei este breve que já não devo conservar. Ah! senhor! nunca lhe seja perjuro.. .Então?.. . a escutei repetida nesta gruta por seus lábios.. Talvez encontre aquela a quem jurou amor eterno. ele contém o vosso camafeu. . penso que é uma barbaridade inqualificável que. .. senhora.. se já o vejo faltar à fé a uma outra?. Senhor! senhor! o que foi que prometeu há sete anos passados?.. posso eu acreditar nos seus protestos de ternura e constância. tornou D.Se eu encontrasse!.. por um momento suspendido... . D. Carolina. nem poderei conhecer?. que faria?.. ..Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal...Quando o velho moribundo. . um louco!. o breve que contém a esmeralda!. escute.

dê-me. Ana e o pai de Augusto entram nesse instante na gruta e encontram o feliz e fervoroso amante de joelhos e a dar mil beijos nos pés da linda menina. . Epílogo A chegada de Filipe.Muito bem! muito bem! disse por fim Filipe.Minha boa avó. . encontrei minha mulher! . que se dizia milagrosa.. isto quer dizer que finalmente está presa a borboleta. e Augusto. .O meu camafeu!. e. descosa-o.Então estás arrependido?. . meu maninho.. eu cosi essa relíquia dentro de um breve. tem o poder uma vez na vida de quem a possui. entusiasmado e como delirante. .. . entregou o breve ao estudante...Já está pronto. . Só falta a derradeira capa do breve. bradava Augusto. acudiu a noiva. ei-la que cede e se descose.. era sua última esperança.Como se intitula? . . ainda não lhe pedi coisa alguma.A Moreninha. que começou a descosê-lo precipitadamente... de dar o que se deseja... tire a relíquia e à mercê dela encontre sua antiga amada.... respondeu Augusto. O projeto de casamento de Augusto e D. eu lha cedo.. que também por sua parte chorava de prazer. Ana.Achei minha mulher!. Obtenha o seu perdão e me terá por esposa. cai aos pés de D. .É verdade! um mês! exclamou Filipe. . Ana. ele se abraçava com ela. respondeu a travessa Moreninha ingenuamente: nós éramos conhecidos antigos. elaborado por Filipe.. isto quer dizer que Augusto deve-me um romance. o meu camafeu!.Como?. . . respondeu o noivo. tendo sido como foi.Eu não entendo isto! disse a senhora D. Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que reinava na gruta. exclamou Filipe..Minha boa avó.Um mês!. mas trago-a sempre comigo.Ah! minha boa avó!.Que loucura é esta? perguntou a senhora D... Ana.Mas. por certo..Que quer dizer isto. A senhora D. Carolina. Carolina?. . semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo se agarra à mais leve tábua. que ainda no dia antecedente viera concluir os ajustes com a senhora D. . . exclamando: . ... portanto.. Carolina não podia ser um mistério para eles. dê-me esse breve! A menina. que fizera a proposta. e com o velho amigo. Aquela relíquia. quem pôs o fogo ao pé da pólvora fui eu. de acordo com o pai do noivo. ele perdeu ganhando.. e. que obriguei Augusto a vir passar o dia de Sant’Ana conosco. gritaram Fabrício e Leopoldo. .Isto tudo me parece um sonho. apesar de me roubares minha irmã.Não..Estamos no dia 20 de agosto: um mês! .. porém. tome o breve. o tempo que se gastaria em explicações passou-se em abraços. salta uma pedra. Finalmente para este tesouro sempre teria de haver um ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste.presente: deu-me uma relíquia milagrosa que. asseverou-me ele. com efeito..