As costas largas

Viagens com bolso
profissionais a fazerem do jornalismo o bobo, o bombo, a besta. Para não falar desse limbo extra-judicial que é a internet dos anónimos — racistas, cobardes, criminosos, gente que se desse o nome seria julgada. Há dias em que só apetece saber karaté, como um jornalista que cresci a ler, José Amaro Dionísio. A vinda de Malalai foi organizada pelo Bloco de Esquerda. Depois de Malalai falar, a eurodeputada Marisa Matias desancou em tudo o que se noticia sobre o Afeganistão, rematando: “Não precisamos de tradutores.” Uma senhora na assistência quis saber se havia jornalistas presentes para “publicitar” tudo o que finalmente estava ali a ser dito. Foi então que olhei para a Margarida, do outro lado da sala (e também lá estava, pelo menos, a Lusa). Porque, além daquela lição pós-autárquica que o Rui Tavares diz que o Bloco precisa de aprender, haverá uma lição anti-arrogância mais geral: para dizer como é bom ouvir uma afegã, não é preciso dizer que antes do Bloco era o dilúvio. Nos jornais, em Portugal, não precisámos de Marisa Matias para saber quem é Malalai Joya e contar a história dela, e de muitos outros desalinhados. É o nosso trabalho. Há quem ache que contamos de menos, há quem ache que contamos demais. No Campo Pequeno ouvi um dos meus heróis, José Mário Branco, cantar contra “os jornalistas que facturam com a desgraça”. Mas estaria a falar da TVI ou de Kapuscinski? Da teleficção ou dos jornalistas que não obedecem aos militares e vão ver o que a guerra faz à gente? Portanto, Joana, estudante de jornalismo apesar de tudo, costas largas. Costas largas e um pouco de karaté. viagenscombolso@gmail.com Jornalista

Alexandra Lucas Coelho
a O jornalismo é uma besta porque não conta o que acontece, e é uma besta porque conta o que acontece. Nós, jornalistas, somos a besta de todos vós, e assinamos por baixo ou por cima. Margarida Mota, minha cúmplice no Expresso, lembrou-me que há uma expressão para isto: costas largas. Conheci a Margarida em Jerusalém. Ela estava lá de férias, a fazer aquilo que gostaria de fazer em trabalho se houvesse dinheiro e interesse. Isto foi em 2005. Reencontrámo-nos domingo no café Guarany do Porto. A afegã Malalai Joya ia falar, e ambas tínhamos entrevistas com ela. Como o meu comboio chegou horas antes, instalei-me no Guarany a trabalhar até aparecer uma estudante que pôs medicina em primeiro e chorou quando se viu em jornalismo, a Joana. Agora está no segundo ano. — E não me imagino a fazer outra coisa. Apesar dos jornais estarem a fechar. Apesar dos jornalistas cederem parte do salário para não haver despedimentos. Apesar dos falsos recibos verdes e dos recibos à peça por 150 euros. Apesar dos jovens jornalistas terem de saber escrever, fotografar, filmar e gravar som mas não terem emprego. Apesar da rádio ser cada vez mais podcast e menos em directo, até ao fim da rua, até ao fim do mundo. Apesar dos telejornais serem cada vez mais o prime time da ficção. E o espírito do esgoto derrama, cobre-nos com a sua porcaria: mercenários, arrivistas, criados

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