CFUL

INCM
OBRAS COMPLETAS DE ARISTÓTELES
RETÓRICA
RETÓRICA
OBRAS COMPLETAS DE ARISTÓTELES
ARISTÓTELES
A Retórica de Aristóteles é uma das mais
influentes obras da Antiguidade, tendo pene-
trado profundamente os estudos literários e
filosóficos até aos nossos dias, para além da
incidência que exerceu sobre as áreas da lógi-
ca, da psicologia e da moral.
A revalorização da disciplina pelos autores da
«Nova Retórica», no século XX, contribuiu para
testemunhar, de um novo modo, a actualidade
do pensamento aristotélico a este respeito.
Tradução directa do original grego, de acordo
com a edição de W. D. Ross para a série
Oxford Classical Texts.
INCM
O objectivo desta edição consiste em tornar
acessível ao leitor português, tanto do ponto
de vista da língua como do do esclarecimento
do texto, a totalidade da colecção aristotélica,
aí incluídos não só os cerca de trinta tratados
completos que subsistiram até aos nossos
dias, como também todos os outros textos que,
de modo mais ou menos fragmentário e/ou fi-
dedigno, foram transmitidos pela tradição sob
o nome de Aristóteles.
Esta colecção engloba, assim, para além dos
escritos reunidos por Imanuel Bekker, em
1831, na primeira edição moderna da obra
aristotélica, e do texto posteriormente desco-
berto da Constituição dos Atenienses, a tota-
lidade dos fragmentos (autênticos, suspeitos e
espúrios) e ainda as sete obras apócrifas que
circularam em época tardia sob o nome de
Aristóteles, designadamente o Livro da Causa,
o Segredo dos Segredos ou a Teologia.
Ao levar a cabo a tradução colectiva deste con-
junto, as presentes Obras Completas são as
primeiras a englobar a integralidade do legado
aristotélico.
COORDENAÇÃO DE ANTÓNIO PEDRO MESQUITA
COORDENAÇÃO DE ANTÓNIO PEDRO MESQUITA
FCT Fundação para a Ciência e a Tecnologia
MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E DO ENSINO SUPERIOR
OBRAS COMPLETAS
OBRAS COMPLETAS
ARISTÓTELES
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1iiu|c. Relórica
2.' edição, revisla
Auicr. ArislóleIes
|!iç4c. Imprensa NacionaI-Casa da Moeda
Ccnccpç4c gr4jicc. Branca ViIaIIonga
(Deparlamenlo LdiloriaI da INCM)
Rc.is4c !c icxic. Ievi Condinlo
1ircgcm. 8OO exempIares
Dcic !c imprcss4c. Ievereiro de 2OO5
|S8N. 972-27-1377-9
Dcpcsiic |cgc|. 221 943/O5
OBRAS COMPLETAS DE ARISTÓTELES OBRAS COMPLETAS DE ARISTÓTELES
COORDENAÇÃO DE ANTÓNIO PEDRO MESQUITA COORDENAÇÃO DE ANTÓNIO PEDRO MESQUITA
VOLUME VIII
TOMO I
Irojeclo promovido e coordenado peIo Cenlro de IiIosofia da Iniversi-
dade de Iisboa em coIaboração com o Cenlro de Lsludos CIássicos da
Iniversidade de Iisboa, o Inslilulo David Iopes de Lsludos Árabes e
IsIâmicos e os Cenlros de Iinguagem, Inlerprelação e IiIosofia e de Lslu-
dos CIássicos e Humaníslicos da Iniversidade de Coimbra.
Lsle projeclo foi subsidiado peIa Iundação para a Ciôncia e a TecnoIogia.
CENTRO DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA
LISBOA
2003
RETÓRICA
RETÓRICA
ARISTÓTELES
ARISTÓTELES
CENTRO DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA
LISBOA
2005
Prefácio e introdução de MANUEL ALEXANDRE JÚNIOR
Tradução e notas de MANUEL ALEXANDRE JÚNIOR,
PAULO FARMHOUSE ALBERTO e ABEL DO NASCIMENTO PENA
(Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa)
9
PR|IAC|O
Nunca anles a relórica se esludou com lanlo inleresse e
em áreas lão dislinlas do saber, como nunca anles se esludou
o fenómeno relórico em conlexlos lão dislanles do mundo que
aparenlemenle o viu nascer. A recenle obra de George Ken-
nedy, Ccmpcrcii.c R|cicric, é disso um bom exempIo ao disser-
lar sobre a relórica não só em sociedades iIelradas e sem es-
crila como os aborígenes da AuslráIia, os índios das Américas
e oulras sociedade lradicionais, mas lambém em sociedades Ie-
lradas da Anliguidade que, para aIém da grega e da romana,
fIoresceram lanlo na Mesopolâmia, em IsraeI e no Lgiplo, como
na Clina e na India. A relórica eslá na moda, e os lemas que
aclo conlínuo se abordam em coIóquios e congressos são os
mais diversos e surpreendenles, siluando-se pralicamenle em
lodas as áreas do saber lumano.
Iara muilos, a relórica pouco mais é do que mera mani-
puIação Iinguíslica, ornalo esliIíslico e discurso que se serve de
arlifícios irracionais e psicoIógicos, mais propícios à verbaIiza-
ção de discursos vazios de conleudo do que à suslenlada ar-
gumenlação de princípios e vaIores que se nulrem de um racio-
cínio crílico váIido e eficaz. Mas a reslauração da relórica ao
seu veIlo eslalulo de leoria e prálica da argumenlação per-
suasiva como anliga e nova rainla das ciôncias lumanas lem
vindo a corrigir essa noção enganosa, revaIorizando-a como
ciôncia e arle que lão Iogicamenle opera na leuríslica e na
lermenôulica dos dados que faz inlervir no discurso, como
psicoIógica e eficazmenle se cumpre no resuIlanle efeilo de
convicção e mobiIização para a acção. No fundo, a relórica é
10
um saber que se inspira em muIlipIos saberes e se põe ao ser-
viço de lodos os saberes. L um saber inlerdiscipIinar no senli-
do pIeno da paIavra, na medida em que se afirmou como arle
de pensar e arle de comunicar o pensamenlo. L como saber
inlerdiscipIinar e lransdiscipIinar, a relórica eslá presenle no
direilo, na fiIosofia, na oralória, na diaIéclica, na Iileralura, na
lermenôulica, na crílica Iilerária e na ciôncia.
A relórica é uma das arles prálicas mais nobres, porque o
seu exercício é uma parle essenciaI da mais básica de lodas as
funções lumanas. Daí a especiaI alenção que ArislóleIes Ile
dedicou, corrigindo lendôncias sofíslicas e codificando princí-
pios melodoIógicos e lécnicos que, com o evoIuir da lradição,
se laveriam de consagrar num cânone relórico de grande for-
luna e proveilo.
Na relórica arisloléIica nós enconlramos o saber como leo-
ria, o saber como arle e o saber como ciôncia, um saber leórico
e um saber lécnico, um saber arlíslico e um saber cienlífico. No
lrânsilo da anliga para a nova relórica, eIa naluraImenle lrans-
formou-se de arle da comunicação persuasiva em ciôncia
lermenôulica da inlerprelação. O seu dupIo vaIor como arle e
ciôncia, como saber e modo de comunicar o saber, faz deIa
lambém um inslrumenlo medianle o quaI podemos invenlar,
reinvenlar e soIidificar a nossa própria educação. O esforço
lransdiscipIinar que loje em dia se faz para meIlor compreen-
der o papeI da relórica e da lermenôulica na crílica do lexlo
fiIosófico e Iilerário moslra-nos que eslas são duas áreas do
saber inlrinsecamenle Iigadas à essôncia da prcxis lumana.
O juslo reIevo dado por Claïm IereIman à verlenle
argumenlaliva desla arle coIocou mais uma vez a Rcicricc de
ArislóleIes na moda, e as lraduções que deIa se fazem suce-
dem-se em rilmo aceIerado nas mais diversas Iínguas. Desafio
a que lambém respondeu a Imprensa NacionaI-Casa da Moe-
da, ao laver concrelizado lá poucos anos a feIiz decisão de
incIuir obra lão represenlaliva e acluaI na sua coIecção «CIássi-
cos de IiIosofia» e agora Iançar a sua 2.' edição, inlegrada na
coIecção «BibIioleca de Aulores Iorlugueses». L com loda a jus-
liça o faz, pois não é só a causa da relórica que esla imporlan-
le obra de ArislóleIes serve enquanlo leoria da comunicação ou
argumenlação persuasiva. Muilos a lôm iguaImenle recomen-
dado como obra fiIosófica de especiaI inleresse para o esludo
da lermenôulica, da p|rcncsis e da razão prálica, uma obra que
merece ser Iida no conlexlo e na inleracção com as demais.
11
A Rcicricc de ArislóleIes não é, como sabemos, um lexlo
fáciI. Lscrila em Iinguagem densa e acenluadamenle eIíplica,
esla obra lorna por vezes árdua a larefa de precisar com rigor
o senlido do lexlo eslabeIecido e de o lransmilir com cIareza
ao seu Ieilor. Ioi esse o objeclivo uIlimo dos lradulores no
inlenlo de superarem as dificuIdades imposlas peIo próprio
lexlo. Se o conseguiram, foram eIes lambém os primeiros
beneficiários, pois o seu lrabaIlo resuIlou numa experiôncia
exlremamenle compensadora, e que lanlo mais o será quanlo
meIlor vier a servir os seus Ieilores. Aqui reileram eIes lam-
bém a sua gralidão a quanlos, direcla ou indireclamenle, con-
lribuíram para a sua concrelização.
Iis|cc, 2004.
MANILI AILXANDRL }INIOR
INTRODIÇÃO
15
1. Origem da retðrica e Inrmaçãn dn sistema retðricn
A rcicricc rccc|cu ncs u|iimcs ircs !ccc!cs umc cui!c!c cicnç4c
!c pcric !c um nci4.c| numcrc !c csiu!icscs
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mcnic!c !rcmciiccmcnic. Gccrgc Kcnnc!µ prc!uziu, cc |cngc !cs
cncs, umc scric !c .c|umcs ¡uc ircçcm c iccric c c pr4iicc !c rcicricc
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2
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|nicrnciicnc| Scciciµ jcr i|c Hisicrµ cj R|cicric.
1
Teslemunlam-no os 164 Iivros referidos por Brian Vickers na sua
«BibIiograply of RleloricaI Sludies, 197O-198O», in Ccmpcrcii.c Criiicism.
A Yccr|cc|, 3, 1981, 316-322, e o inleresse cada vez mais crescenle peIa
discipIina nas décadas seguinles.
2
1|c Ari cj Pcrsucsicn in Grcccc, Irincelon, Irincelon Iniversily
Iress, 1963, QuinliIian, Nev York, Tvayne, 1969, 1|c Ari cj R|cicric in
i|c Rcmcn Wcr|!, Irincelon, Irincelon Iniversily Iress, 1972, C|cssicc|
R|cicric cn! iis C|risiicn cn! Sccu|cr 1rc!iiicn jrcm Ancicni ic Mc!crn 1i-
mcs, ClapeI HiII, Iniversily of Norll CaroIina Iress, 198O, Grcc| R|cicric
un!cr C|risiicn |mpcrcrs, Irincelon, Irincelon Iniversily Iress, 1983, Ncv
1csicmcni |nicrprciciicn i|rcug| R|cicricc| Criiicism, ClapeI HiII, Iniversily
of Norll CaroIina Iress, 1984, A Ncv Hisicrµ cj C|cssicc| R|cicric, Irince-
lon, Irincelon Iniversily Iress, 1994.
16
Scn!c umc !cs !iscip|incs |umcncs mcis cniigcs c mcis .cr!c-
!circmcnic inicrnccicncis, c rcicricc, c scmc||cnçc !c grcm4iicc, !c
|cgicc c !c pcciicc, n4c c umc cicncic a priori. Ccmc c|scr.c |!vcr!
Ccr|cii
3
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pcrsuc!ir c ccn.cnccr cuircs pcssccs. |, sim, c prc!uic !c cxpcricn-
cic ccnsumc!c !c |4|cis crc!crcs, c c|c|crcç4c rcsu|icnic !c cn4|isc
!cs sucs csircicgics, c cc!ijiccç4c !c prccciics ncsci!cs !c cxpcricn-
cic ccm c c|jccii.c !c cju!cr cuircs c cxcrciicrcm-sc ccrrccicmcnic
ncs iccniccs !c pcrsucs4c.
Sc c |iicrciurc c c ncssc mc||cr .cicu|c !c cccssc c cu|iurc c c
ci.i|izcç4c grcgcs, c jccic c ¡uc cssc |iicrciurc jci cm |crgc mc!i!c mc|-
!c!c pc|c rcicricc. j4 cm Hcmcrc cs Grcgcs sc !isiinguircm pc|c jc-
cun!ic, c scmprc gcsicrcm !c sc|crccr c jcrçc c c mcgic !cs sucs prcprics
pc|c.rcs. A rcicricc |rcicu !c suc gcnic| ccpcci!c!c pcrc c cxprcss4c
crc| c inspircu-sc nc !ccc sc|cr !c pc|c.rc usc!c ccm jins pcrsucsi.cs.
Dcs!c Hcmcrc ¡uc c Grccic c c|c¡ucnic c sc prcccupc ccm c cric
!c |cm jc|cr. 1cnic a IIíada ccmc c Odisseia csi4c rcp|cics !c ccnsc-
||cs, csscm||cics, !iscurscs, pcis, jc|cr |cm crc i4c impcricnic pcrc c
|crci, pcrc c rci, ccmc ccm|cicr |cm
4
. Quinii|icnc c!mirc scm rcscr-
3
C|cssicc| R|cicric jcr i|c Mc!crn Mcn, Nev York, Oxford Iniversily
Iress, 1971, p. XI.
4
Lssas eram as duas virludes neIes mais apreciadas. Iénix, por
exempIo, acompanlou AquiIes por ordem de seu pai, IeIeu, para «o en-
sinar a faIar bem e a reaIizar grandes feilos» (||ic!c, 9.443).

.cs cssc c|c¡ucncic !c Grccic |crcicc rcccn|cccn!c nc|c c prcpric pcr-
jciç4c !c crcicric j4 c !csc|rcc|cr
5
. | c crcicric cnics !c rcicricc, c
¡uc nciurc|mcnic supcc umc prc-rcicricc, umc «rcicricc avanl Ia Iellre»
|cm cnicricr c suc !cjiniii.c ccnjigurcç4c ccmc cicncic !c !iscursc
crcicric
6
. O mcsmc sc pcssc ccm cs pccmcs c|cgicccs c |iriccs, ¡uc sc
ncs cprcscnicm imprcgnc!cs !c csiruiurcs !iscursi.cs !c inspircç4c
rcicricc c inicnç4c pcrsucsi.c. Cc|inc !irigin!c-sc ccs scus ccnci!c!4cs,
c Scjc c Ajrc!iic s4c !issc um cxcmp|c |cm signijiccii.c. 1cm|cm nc
ircgc!ic cs !iscurscs cm jcrmc !c !i4|cgc s4c ccmp|cmcnic!cs pc|cs
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cs !iscurscs s4c um ccnsicnic c|cmcnic !c cnimcç4c |iicr4ric, ncmcc-
!cmcnic cm 1uci!i!cs, ¡uc ccupcm umc |crgc pcrccnicgcm !c suc
c|rc. Ncs prcprics ircic!cs ji|cscjiccs, c cuicr scccrrc-sc ccm cssinc|4-
.c| jrc¡ucncic !c rccursc cc !iscursc crcicric. |, pcrcm, Pcric|cs ¡uc
csic|c|ccc c ircnsiç4c cnirc c pcric!c !c c|c¡ucncic cspcnicncc c c !c
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uniccs !iscurscs c c|c ciri|ui!cs c|cgcrcm cic ncs pc|c pcnc !c
1uci!i!cs, ¡uc cc|cccu nc suc |ccc ircs !cs mcis impcricnics pcçcs
crcicrics ¡uc c suc c|rc ccnicm
7
, cnirc c|cs c «Orcç4c junc|rc».
5
|nsiiiuiic crcicric, 1O.1.4651.
6
Vi!c «Sobre Ios orígenes de Ia oraloria (I)», Mincr.c, Rc.isic !c
Ii|c|cgic C|4sicc, 1, 1987, 17.
7
Tucídides, Hisicric !c Gucrrc !c Pc|cpcncsc, BrasíIia, HICITLC,
1986, 1.14O-145: «Os Alenienses decidem ir à guerra», 2.35-46: «Oração fu-
nebre», 2.6O-64: «Defesa conciIiadora de IéricIes».
18
|sic iric!c c!mir4.c| !c !iscurscs rcprcscnic |cm c sinicsc !c
suc mcii.cç4c pc|iiicc, ccm cspccic| !csic¡uc pcrc c jccic !c ¡uc c|c
.ic nc pc.c c cc|c|crc!cr .c|uni4ric !cs scus c|cjcs c n4c c ins-
irumcnic ccgc !cs sucs cm|içccs, c cm Aicncs c cscc|c !c Grccic
8
.
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jc.cns sc|!c!cs cci!cs nc gucrrc. «c cnc ccc|c !c pcr!cr c suc Pri-
mc.crc»
9
.
Aicncs c!mircrc cm Pcric|cs c scu primcirc crc!cr, pcis c pc|c-
.rc !c|c cxcrccrc sc|rc cs cspiriics !cs Aicnicnscs umc inj|ucncic
!urc!curc, i4c !urc!curc ccmc c prcpric in!cpcn!cncic. Pcis, sc
cnics !c|c Aicncs rcc|izcu grcn!cs jciics, jci sc| c prcss4c !cs cir-
cunsicncics, cs jc.crcs !c jcriunc c c scgcci!c!c !cs scus c|cjcs
1O
.
Ici, pcrcm, sc ccm c|c c pcr c|c ¡uc c ci!c!c icmcu ccnscicncic !c si
mcsmc, !c scu gcnic c !c scu !csiinc.
Pcric|cs c, pcr ccnscguinic, c pcnic ¡uc |igc c pcssc!c cc ju-
iurc, crgucn!c-sc ¡uc| mcnumcnic .csii!c !c g|cric sc| c jrcnicirc
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Hcsic!c, !c Ar¡ui|ccc, Scjc c A|ccu, !c Pin!crc c |s¡ui|c, c Grccic
cspcnicncc c pcciicc, !c ¡uc c !rcmc ir4gicc jci mcnijcsicç4c su-
prcmc. Dc cuirc |c!c, icmcs c Grccic ¡uc ciingc c suc i!c!c !c
rcj|cx4c, c Grccic !c prcsc, !c |isicric, !c c|c¡ucncic pc|iiicc, !c
8
tj¸ Lìì6óc¸ (2.41).
9
ArislóleIes, Rcicricc, I, 7, 1365a.
1O
Georges Ierrol, I´||c¡ucncc pc|iii¡uc ci ju!icicirc c Ai|cncs, Iaris,
Haclelle, 1873, pp. 44-45.
19
ji|cscjic c !c cicncic. Pcric|cs c, pcis, c jigurc !c crc!cr ¡uc gc.cr-
nc pc|c pc|c.rc umc ci!c!c |i.rc
11
, mcnicn!c-c jirmc c cc|cçc !c
Grccic.
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mcic|ingucgcm !c !iscursc crcicric. Pcr .c|ic !c 485 c. C., !cis ii-
rcncs sici|icncs, Gc|cn c Hicr4c, pc.ccrcm Sirccusc c !isiri|uircm
icrrcs pc|cs mcrccn4rics c cusic !c !cpcricçccs, ircnsjcrcncics !c
pcpu|cç4c c cxprcpricçccs. Qucn!c jcrcm !csircnc!cs pcr cjciic !c
umc su||c.cç4c !cmccr4iicc, c rcpcsiç4c !c cr!cm |c.cu c pc.c c
insicurcç4c !c inumcrcs prcccsscs ¡uc mc|i|izcrcm grcn!cs juris
pcpu|crcs c c|rigcrcm cs inicr.cnicnics c scccrrcrcm-sc !cs sucs jc-
cu|!c!cs crcis !c ccmuniccç4c. 1c| ncccssi!c!c rcpi!cmcnic inspircu
c cricç4c !c umc cric ¡uc pu!cssc scr cnsinc!c ncs cscc|cs c |c|i|i-
icssc cs ci!c!4cs c !cjcn!crcm cs sucs ccuscs c |uicrcm pc|cs scus
!irciics. | jci cssim ¡uc surgircm cs primcircs prcjcsscrcs !c ¡uc
mcis icr!c sc .iric c c|cmcr rcicricc.
Ici ncssc !ccisi.c mcmcnic |isicricc cm ¡uc c !cmccrccic sc
impcs c iircnic, prcciscmcnic nc icmpc cm ¡uc Aicncs ccn|cccu
Pcric|cs, ¡uc Ccrcx c 1isics !c Sirccusc ccnccpiuc|izcrcm c pu||icc-
rcm c primcirc mcnuc| !c rcicricc
12
. Nc mcsmc c|iurc cm ¡uc c
11
||i!cm, pp. 45-46.
12
IIalão, Isócrales, ArislóleIes e Cícero parecem favorecer a alribui-
ção da auloria do primeiro manuaI de relórica a Tísias (Cícero, 8ruius,
46). Mas, como opina Hugo Rabe (Prc|cgcmcncn Sµ||cgc, Ieipzig, 1931,
p. 26), nada cusla a aceilar a conlribuição de Córax, uma vez que esle
20
rcicricc !csc|rcc|c nc Sici|ic, c cric !c !i4|cgc !cscn.c|.c-sc cm ||cic
ccm cs ji|cscjcs i!cc|isics c, grcçcs c umc |c|i|i!c!c prc!igicsc !c
criicu|cr csics !cis mcic!cs, c Grccic inicirc c!crc cc jcscinic c cc
!cs|um|rcmcnic !c .cr !iscuiir c !isscricr sc|rc ¡uc|¡ucr icmc, ¡ucr
sc ircic !c mcicjisicc, mcrc|, pc|iiicc cu ¡uc|¡ucr cuirc icmc ¡uc
mcrcçc c !cjcsc, c c|cgic cu c ccnsurc !c ccmuni!c!c.
Dc ic!cs cs ¡uc scguircm c .cricnic rcicricc, c mcis cc|c|rc,
icnic pc|cs c|cgics !cs scus c!mirc!crcs ccmc pc|cs cic¡ucs !c P|ci4c,
jci Gcrgics. Ici ccm c|c ¡uc csic sisicmc !c cnsinc pcncircu nc Aiicc.
Nciurc| !c Sici|ic, ccmc Ccrcx c 1isics, Gcrgics rcccn|ccic c jcrçc
pcrsucsi.c !c cmcç4c c c mcgic !c pc|c.rc cxprcssi.c c |cm cui!c-
!c, .cn!c nc crc!cr um psiccgcgc, um guic !c c|mcs mc!icnic umc
cspccic !c cnccnicmcnic. |m 42¯ c. C., cs scus ccnicrrcnccs !c
Iccniincs cn.icrcm-nc c Aicncs c cc|cçc !c umc cm|cixc!c, c pcr
ci jiccu ccmc prcjcsscr !c !ic|cciicc c rcicricc, ccmc mcsirc !c n4c
pcuccs crc!crcs c c!ucc!crcs !c Aicncs.
Ccm Ccrcx c 1isics prc!uziu-sc umc rcicricc purcmcnic sin-
icgm4iicc, umc rcicricc ¡uc sc ccupc !cs pcrics !c !iscursc c icm
sc|rciu!c c .cr ccm c disposilio. Ccm Gcrgics .c|crizcu-sc nc rcic-
ricc umc nc.c pcrspccii.c !c nciurczc pcrc!igm4iicc, .c|crizcrcm-sc
c csii|c c c ccmpcsiç4c ¡uc icm c .cr ccm c eIoculio. O scu princi-
pc| ccniri|uic jci «icr su|mcii!c c prcsc cc cc!igc rcicricc, prcpc-
fora seu meslre e enlrelanlo lavia desenvoIvido a divisão lriparlida dos
discursos em proémio, eyæv, e epíIogo (G. Kennedy, 1|c Ari cj Pcrsucsicn
in Grcccc, Irincelon, Irincelon Iniversily Iress, 1963, p. 59).
21
gcn!c-c ccmc !iscursc cru!iic, c|jccic csiciicc, ´|ingucgcm sc|c-
rcnc´, cnicpcssc!c !c ´|iicrciurc´»
13
. Numc pc|c.rc, c|riu c prcsc c
rcicricc c c rcicricc c csii|isiicc.
2. Natureza e IinaIidade da retðrica
Dcjinir c rcicricc n4c c icrcjc j4ci|. Pcis, ccmc sc crc, nuncc
cxisiiu um sisicmc unijcrmc !c rcicricc c|4ssicc
14
, cm|crc sc mu|ii-
p|i¡ucm cs csjcrçcs !c c cprcscnicr ccmc um sisicmc
15
. A rcicricc
jci scmprc umc !iscip|inc j|cxi.c|, mcis prcccupc!c ccm c pcrsucs4c
!cs cu.inics !c ¡uc ccm c prc!uç4c !c jcrmcs !c !iscursc, isic c,
mcis prcccupc!c ccm c junç4c rcicricc !c ¡uc ccm c ccnjigurcç4c !c
13
RoIand Barlles, «A Relórica anliga», in Pcs¡uiscs !c Rcicricc, Ie-
lrópoIis, Ldilora Vozes, 1975, p. 152.
14
Cf. I. Tlurén, 1|c R|cicricc| Sircicgµ cj 1 Pcicr. Wii| Spccic| Rcgcr!
ic Am|igucus |xprcssicns, Abo, Abo Academis IörIag, 199O, pp. 5O-51,
W. WueIner, «RleloricaI Crilicism and ils Tleory in CuIlure-CrilicaI Iers-
peclive: Tle Narralive Rleloric on }oln 11», in I. }. Harlin and }. H. Ielzer
(eds.), 1cxi cn! |nicrprciciicn. Ncv Apprccc|cs in i|c Criiicism cj i|c Ncv
1csicmcni, Ieiden, BriII, 1991, p. 171.
15
H. Iausberg, Hcn!|uc| !cr |iicrcrisc|cn R|cicri| (2 voIs.), Munclen,
Max Huber, 196O, segunda edição revisla, 1973, L. I. }. Corbell, C|cssicc|
R|cicric jcr i|c Mc!crn Siu!cni, Nev York, Nev York Iniversily Iress,
1965, A. D. Ieeman e A. C. Brael, K|cssic|c r|cicri|c. Hccr in|cu!, junciic
cn |cic|cnis, Gröningen, WoIlers-Noordloff/Iorslen, 1987.
22
prcpric icxic
16
. Ccmc ccrcsccnic Krcjic|ic|, «ii is vc|| ic rcmcm|cr
i|ci cncicni r|cicric, in iis ru|cs cs vc|| cs i|c mcnijcsiciicn cj i|csc
ru|cs, vcs cxircmc|µ j|ui!»
17
.
Ac !isscricr sc|rc c nciurczc !c rcicricc, Quinii|icnc rcj|ccic
sc|rc cs .4rics !cjiniçccs !csic, c !cixc-ncs pcrcc|cr cs scguinics ¡uc-
irc ccmc cs mcis rcprcscnicii.cs !cs ccn.cnçccs rcicriccs c|4ssiccs
18
:
º A !cjiniç4c ciri|ui!c c Ccrcx c 1isics, Gcrgics c P|ci4c.
art0cu¸ ópµtcupye¸ (gcrc!crc !c pcrsucs4c),
º A !cjiniç4c !c Arisicic|cs. p ór pptcptkp arpì tcu
óc0rvtc¸ æ¸ rlartv óckrt óuveo0et 0ræprtv tè at0evev
(c rcicricc pcrccc scr ccpcz !c !cscc|rir cs mcics !c pcr-
sucs4c rc|cii.cs c um !c!c cssunic),
º Umc !cs !cjiniçccs ciri|ui!cs c Hcrm4gcrcs. óuveµt¸
tcu ru ìryrtv te acìtttke ¸ptqµete (c jccu|!c!c !c
jc|cr |cm nc ¡uc ccnccrnc ccs cssunics pu||iccs),
º A !cjiniç4c !c Quinii|icnc, nc |in|c !cs rcicriccs cs-
iciccs. scienlia bene dicendi (c cicncic !c |cm jc|cr).
16
S. }. Kraflclick, «Lllos and Iallos AppeaIs in GaIalians Iive and
Six: A RleloricaI AnaIysis», lese de douloramenlo, Lmory Iniversily,
AlIanla, 1985, pp. 69-94.
17
«Wly do lle Rleloricians Rage`», in 1cxi cn! Icgcs. 1|c Humc-
nisiic |nicrprciciicn cj i|c Ncv 1csicmcni, AlIanla, ScloIars Iress, 199O,
p. 61.
18
|nsiiiuiic crcicric, 2.15.1-38.
23
Num cspccic ic!cs csics !cjiniçccs ccnccr!cm. ¡uc c rcicricc c
c csiu!c !c rcicricc icm cm .isic c cricç4c c c c|c|crcç4c !c !iscurscs
ccm jins pcrsucsi.cs. Mcs, cm|crc i!cniiccs nc csscncic|, c|cs rcc|-
çcm ¡ucirc c|cmcnics rcicriccs impcricnics
19
: 1) c scu csiciuic mc-
ic!c|cgicc, 2) c scu prcpcsiic, 3) c scu c|jccic, c 4) c scu ccnicu!c
ciicc. |m primcirc |ugcr, ic!cs cs !cjiniçccs cnicn!cm tr¿vp ccmc
um ccrpc !c ccn|ccimcnic crgcnizc!c num sisicmc cu mcic!c, ccm
c jim !c ciingir um !cicrminc!c c|jccii.c pr4iicc, mcs ncm cm ic-
!cs sc cnicn!c c rcicricc ccmc cric/cicncic (ars, tr¿vp/scienlia,
ratotqµp). Pcrc cs mcsircs !c rcicricc, csic crc !c jccic umc cric, cu
mcsmc umc cicncic, mcs pcrc cs ji|cscjcs c|c n4c pcssc.c !c umc
cxpcricncic !c .c|cr !i!4ciicc rc|cii.c (rµartpIe, usus). |m scgun!c
|ugcr, nc ¡uc iccc c jinc|i!c!c !c !iscursc rcicricc, n4c rcsu|ic mui-
ic c|crc ncs cuicrcs c|4ssiccs c !ijcrcnçc cnirc c ni.c| iccricc !c rc-
icricc c c ni.c| pr4iicc !c c|c¡ucncic. Ncrmc|mcnic, ¡ucn!c jc|cm
!c jinc|i!c!c pcrsucsi.c !c rcicricc, csi4c c pcnscr nc jinc|i!c!c !cs
crc!crcs c n4c nc !cs prcjcsscrcs !c rcicricc. Mcs c jccic c ¡uc c
mcsirc cnsinc, n4c pcrsuc!c. | sc in!irccicmcnic ¡uc c|c csi4 cn.c|-
.i!c nc jinc|i!c!c pcrsucsi.c !c !iscursc
2O
. |m icrccirc |ugcr, nc
¡uc ccnccrnc cc c|jccic !c rcicricc, cs cuicrcs c|4ssiccs icm !c iguc|
mc!c cm mcnic c pr4iicc crcicric c n4c c suc iccric. | pcr issc, icm-
19
A. D. Ieeman e A. C. Brael, cp. cii., pp. 52-57.
2O
Curiosamenle, para ArislóleIes (Rcicricc, I, 1, 1354a), o fim da reló-
rica é a capacidade de descobrir os meios de persuasão, e não a persuasão
em si, para QuinliIiano, o seu fim é não só persuadir, mas lambém faIar bem.
24
|cm c¡ui sc !i.i!cm. cn¡ucnic uns, cm icrmcs iccriccs, cpcncs ccn-
icmp|cm nc scu |crizcnic rcicricc cs ircs gcncrcs !c !iscursc pu||icc
(ju!icic|, !c|i|crcii.c c cpi!iciicc)
21
, cuircs c!miicm c cp|iccç4c !cs
ccn.cnçccs rcicriccs c ¡uc|¡ucr cuirc cssunic
22
. Pcrc c|cs, c rcicricc
ircnsjcrmc-sc cssim numc supcrcicncic, pcis icm pcr c|jccic c rcc|i-
!c!c icic| c cp|icc-sc c ¡uc|¡ucr icxic. |m ¡ucric |ugcr, pcc-sc c
¡ucsi4c !c c rcicricc scr cu n4c scr ciiccmcnic ncuirc. P|ci4c susicn-
ic ¡uc c|c !c.c scr ciiccmcnic rcspcns4.c| c ccmprcmcii!c. Arisicic-
|cs !cjcn!c c suc ncuirc|i!c!c c jcz !cpcn!cr !c crc!cr, n4c !c sis-
icmc rcicricc, c usc rcspcns4.c| cu n4c !cs iccniccs !c pcrsucs4c.
Quinii|icnc rcprcscnic ccm c suc !cjiniç4c c pcsiç4c inicrmc!ic. pcrc
c|c c c|c¡ucncic c umc .iriu!c, c c crc!cr c um uir bonus ccpcz !c
jc|cr |cm (dicendi perilus), isic c, !c jcrmc ciiccmcnic cccii4.c|
23
.
Rcicricc c, pcis, umc jcrmc !c ccmuniccç4c, umc cicncic ¡uc sc
ccupc !cs principics c !cs iccniccs !c ccmuniccç4c. N4c !c ic!c c
ccmuniccç4c, c|.icmcnic, mcs !c¡uc|c ¡uc icm jins pcrsucsi.cs. N4c
c, pcis, j4ci| !cr !c rcicricc umc sc !cjiniç4c. Qucn!c !izcmcs ¡uc
c|c c c cric !c jc|cr |cm c c cric !c pcrsuc!ir, c cric !c !iscursc
crnc!c c c cric !c !iscursc cjiccz, csicmcs simp|csmcnic c icnicr
csic|c|cccr c rc|cç4c cnirc !ucs mcncircs !c !cjinir c rcicricc, !c |i-
21
Vi!c a definição de Hermágoras.
22
Vi!c definições de ArislóleIes e QuinliIiano. Iara Cícero, o ora-
dor ideaI deve ser capaz de faIar adequadamenle sobre quaIquer assunlo.
23
Cf. }an Bolla, Su|jcci ic v|csc cui|criiµ¨, AlIanla, ScloIars Iress,
1994, pp. 122-124.
25
gcr c crncmcnic c c cjic4cic, c cgrc!4.c| c c uii|, c jun!c c c jcrmc.
Qucn!c cs cniigcs !izcm ¡uc c rcicricc c c cric !c |cm jc|cr, jczcm-
-nc nc ccnscicncic !c ¡uc, pcrc sc jc|cr |cm c ncccss4ric pcnscr |cm,
c !c ¡uc c pcnscr |cm prcssupcc, n4c sc icr i!cics c ic-|cs |cgicc c
csiciiccmcnic crrumc!cs, mcs icm|cm icr um csii|c !c .i!c, um .i-
.cr cm ccnjcrmi!c!c ccm c ¡uc sc crc. Ccmc !iz 8cur!c|cuc, «c |ci
mcrc| c c primcirc c c u|iimc !c ic!cs, c¡uc|c pc|c ¡uc| cc!c umc
!cs cuircs sc jcriijicc c ccmp|cic. | pcr issc ¡uc, ccm rcz4c, cs cn-
iigcs jczicm !c .iriu!c c ccn!iç4c csscncic| !c c|c¡ucncic, !cjinin!c
c crc!cr ccmc um uir bonus dicendi perilus.»
24
Aric !c |cm !i-
zcr, cric !c pcrsuc!ir, cric mcrc|, cis cs c|cmcnics imp|iciic cu cxp|i-
ciicmcnic .crijicc!cs cm ¡ucsc ic!cs cs !cjiniçccs !c rcicricc.
3. CnnIIitn entre a retðrica e a IiInsnIia
P|ci4c c ccnsi!crc!c c mcicr cscriicr !c prcsc grcgc, «um mcs-
irc !c csiruiurc, ccrccicrizcç4c c csii|c»
25
. Os scus !i4|cgcs rcj|cc-
icm umc jcrmcç4c rcicricc csmcrc!c. Mcs, pcrc c|c, c rcicricc .cr!c-
!circ, umc rcicricc !ignc !cs prcprics !cuscs
26
, c ncccsscricmcnic
24
A. IrofiIIel (lrad.), Ic r|cicri¡uc !c 8cur!c|cuc, Iaris, BeIin, 1864,
pp. 45-46. Cf. QuinliIiano, |nsiiiuiic crcicric, 12.1-2.
25
George Kennedy, C|cssicc| R|cicric cn! iis C|risiicn cn! Sccu|cr
1rc!iiicn jrcm Ancicni ic Mc!crn 1imcs, ClapeI HiII, Iniversily of Norll
CaroIina Iress, 198O, p. 42.
26
IIalão, Ic!rc, 273e.
26
ji|cscjicc c psiccgcgicc, icn!c scmprc cm .isic c csic|c|ccimcnic c c
cjirmcç4c !c .cr!c!c. |ssc jci, c|i4s, c grcn!c ccnj|iic irc.c!c nc
Aniigui!c!c. c ccnj|iic !c ccmpcicncic cnirc ji|cscjcs c rcicriccs.
|n¡ucnic c rcicricc jci .isic cpcncs ccmc umc !cuirinc iccnicc !c
!iscursc, cnircu cm !cc|inic prcgrcssi.c cic ¡uc ¡ucsc pcr ccmp|cic
sc cpcgcu. Mcs, ¡ucn!c c|c .c|icu c scr ccnicmp|c!c c |uz !c suc
csiruiurc c !c suc junç4c ji|cscjicc, !cu-sc c scu rcssurgimcnic c c
cjirmcç4c rcnc.c!c !c suc impcricncic
27
.
A jcrmc c inscpcr4.c| !c jun!c. H4, cjccii.cmcnic, umc rcicri-
cc ji|cscjicc pcr cpcsiç4c c purcmcnic iccnicc !cs scjisics, umc rcic-
ricc ¡uc c c rcsu|ic!c ccm|inc!c !c nciurczc, ccn|ccimcnic c pr4ii-
cc. Pcis, icnic pcrc c !cscc|cric !c .cr!c!c pc|c .ic ji|cscjicc !c
!ic|cciicc ccmc pcrc c cxpcsiç4c pcrsucsi.c !cssc .cr!c!c pc|c .ic !c
rcicricc c ncccss4ric c mcsmc csiruiurc |cgicc, c|scr.c G. Kcnnc!µ
nc scu ccmcni4ric cc Iedro
28
. Diz, c|i4s, Wi||icm Grimc|!i
29
¡uc
icnic Arisicic|cs ccmc P|ci4c c |sccrcics cnicn!icm c rcicricc c c scu
csiu!c ccmc c criicu|cç4c iniimc !c mcicric c jcrmc nc !iscursc, ¡uc,
pcrc cs Grcgcs, c csiu!c !c rcicricc crc um mcic!c !c c!uccç4c c,
pcr ccnscguinic, umc ccii.i!c!c rcspcns4.c| c n4c c mcnipu|cç4c j4ci|
!c |ingucgcm.
27
Cf. Claïm IereIman, Ic c|cmp !c |´crgumcniciicn, BruxeIIes, Ires-
ses Iniversilaires de BruxeIIes, 197O, p. 221.
28
C|cssicc| R|cicric., p. 57.
29
«Sludies in lle IliIosoply of ArislolIe's Rleloric», Hcrmcs,
Zciisc|riji júr ||cssisc|c P|i|c|cgic, 25, 1972, p. 1.

Pcrc ¡uc|¡ucr !csics jigurcs, c rcicricc crc umc cric c n4c umc
iccnicc. c cric !c ìeyc¸. 1c!cs c|cs rcccn|ccicm c rcicricc um jun!c-
mcnic| pcpc| !c rc|c.c nc .i!c !c |cmcm c !c ci!c!c. Pcrc ic!cs
c|cs c rcicricc crc, ccmc cric !c ìeyc¸, c insirumcnic ¡uc |c|i|iic.c
c |cmcm c cxprimir c .cicu|cr cs rcsu|ic!cs !c ccnj|ucncic !c inic-
|ccic cspccu|cii.c c pr4iicc, icrncn!c-cs cccssi.cis c ic!cs pcrc umc
ccn.i.cncic mc||cr c mcis rcspcns4.c| nc aeìt¸. N4c umc mcrc icc-
nicc !c c|c|crcç4c !c !iscurscs, mcs c csscncic !c prcccssc pc|c ¡uc|
c |cmcm icnic inicrprcicr c icrncr signijiccii.c, pcrc si c pcrc cs
cuircs, c mun!c rcc|
3O
.
Nc suc cxprcss4c |cgicc, c .cr!c!circ rcicricc !cjinc-sc ccmc
criicu|cç4c pcrjciic !c mcnscgcm ncsci!c nc mcnic, scn!c !c ccn-
!cncr c rcpu!icr c suc ircnsjigurcç4c cu jc|sijiccç4c scjisiicc ¡uc,
ccmc iccnicc !c cpcrcncic, ncg|igcncic c .cr!c!c prcjun!c !cs cci-
scs c sc ccnicnic ccm c c!cs4c !c cu!iicric c mcrcs cpiniccs !c cir-
cunsicncic cu ccn.cnicncic. Qucr isic !izcr ¡uc cc ìeyc¸ inicricr
31
!c |cmcm sc cpcc c ìeyc¸ cxicricr
32
, umc imiicç4c ccrrupii.c| !c
mc!c|c criginc| ncsci!c c ccnscr.c!c nc mcnic, mcs !iscursc mcs-
mc cssim uii| c ncccss4ric ccmc unicc inicrprcic !c .cr|c|izcç4c !c
¡uc c |cmcm !ispcc, !cs!c ¡uc ccnscnicncc ccm c .cr!c!c c |cncs-
icmcnic ccnjcrmc!c cc pcnscmcnic nc inicrprcicç4c c nc .cicu|cç4c
!c mcnscgcm.
3O
WiIIiam GrimaIdi, cp. cii., p. 54.
31
ìeyc¸ rvót60rtc¸.
32
ìeyc¸ apcçcptke¸.
28
P|ci4c csi4 nc crigcm !csic «¡ucsi4c jun!cmcnic|. ¡uc sc pcc
c prcpcsiic !c rcicricc». c !c suc cpcrcnic cm|igui!c!c
33
. A rcicri-
cc ¡uc !cjcn!c nc Iedro e c¡uc|c ¡uc rcjciic nc Górgias s4c inici-
rcmcnic !ijcrcnics. Nc Górgias ircic-sc !c umc rcicricc scjisiicc, nc
Iedro, !c umc rcicricc ji|cscjicc.
Hc.cr4 um rcicricc purcmcnic rcicricc¨ Umc rcicricc ¡uc n4c
icn|c rcizcs nc scjisiicc ncm nc ji|cscjic¨ |ssc pcssi|i|i!c!c, jun!c!c
nc cm|igui!c!c !c rcicricc, c csiu!c!c pcr 8cr|crc Ccssin
34
mc!icnic
c cn4|isc !cs c|rcs !c P|ci4c, Arisicic|cs c Pcrc|mcn. Mcis prcgm4iicc
!c ¡uc P|ci4c, Arisicic|cs ccnicmp|c c rcicricc numc pcrspccii.c !ijc-
rcnic, mcs n4c sc !isicncic !c .is4c rcicricc !c Iedro. Scgun!c Icc-
ncr!c Spcngc|
35
, «c Iocus cIassicus rc|cii.c c rcicricc !c Arisicic|cs
c inscrc.cr c rcicricc nc ccniinui!c!c !c Iedro». Mcs |4 umc cuirc
|in|c !c jcrçc |cm mcis c.i!cnic nc ccnccpç4c crisicic|icc !c rcicricc.
c rcicricc c scm !u.i!c umc tr¿vp, umc óuveµt¸ c mcsmc umc
ratotqµp, pcis c ccn|ccimcnic ¡uc !c mc!c c|gum sc !c.c ccnjun!ir
ccm c scjisiicc cu c ji|cscjic. «|m icrmcs crisicic|iccs, n4c c !ijici|
cxp|iccr pcr ¡uc c rcicricc c cn4|cgc nc ccmpc crgumcnicii.c c !ic|cc-
33
Barbara Cassin, «Bonnes el mauvaises rléloriques: de IIalon à
IereIman», in Iigurcs ci ccnj|iis r|cicri¡ucs, édilé par MicleI Meyer el AIain
Iempereur, BruxeIIes, Ldilion de I'Iniversilé de BruxeIIes, 199O, p. 17.
34
Op. cii., pp. 17-37.
35
U|cr !ic R|cicri| !cs Arisicic|cs, Municl, 1852. Cf. Anlje HeIIvig,
Unicrsuc|ungcn zur 1|ccric !cr R|cicri| |ci P|cicn un! Arisicic|cs, Gölingen,
1975, pp. 19 e segs.
29
iicc nc ccmpc !cmcnsircii.c.»
36
Ccmc cniisircjc !c !ic|cciicc, c rcic-
ricc crisicic|icc nc!c mcis c !c ¡uc c cniisircjc
37
!c rcicricc ji|cscjicc
!c Iedro. Sc cssim sc ccmprccn!c ccmc c !cjiniç4c ¡uc c|c !4 !c rc-
icricc inicr.cm nc !cicrmincç4c !c scu rpycv. «c c|crc ¡uc c suc jun-
ç4c n4c c pcrsuc!ir, mcs c .cr cs mcics !c pcrsucs4c !c ¡uc !ispcmcs
pcrc cc!c ccsc»
38
. Pcr ccnscguinic, n4c |4 !ucs rcicriccs. umc scjisiicc
c cuirc ji|cscjicc, umc !c jccic c cuirc !c !irciic. O ¡uc pc!cr4 |c.cr
c um usc ccrrccic cu inccrrccic !cs sucs ccn.cnçccs. A rcicricc pc!c
scir !cs scus |imiics !c ccmpcicncic, mcs n4c !cixc !c scr rcicricc
39
.
| nissc sc !isiinguc c |cm !c mcu crc!cr.
Orc csic mu!cnçc !c scnii!c cnirc c .c|cr !c rcicricc cm P|ci4c
c c .c|cr !c rcicricc cm Arisicic|cs jci !c c|gum mc!c cssumi!c pcr
C. Pcrc|mcn. Simp|csmcnic, cc rccscrc.cr Arisicic|cs
4O
c|c c|rc cc-
min|c c umc nc.c rcicricc, jun!in!c pcr cssim !izcr c Relórica c
cs Tópicos. A um «iu!c c ji|cscjicc» !c P|ci4c, Pcrc|mcn ccnircpcc
um «iu!c c rcicricc», c inscrc c .cr|c|izcç4c !c prcpric !iscursc ji-
|cscjicc nc ccmpc !c rcicricc
41
.
36
Barbara Cassin, cp. cii., p. 27.
37
Icc. cii.
38
Rcicricc, I, 1, 1355b. Iara ArislóleIes, a função da relórica não é,
pois, persuadir, como no Gcrgics e no Ic!rc, mas sim ver, leorizar sobre o
modo de persuadir.
39
Barbara Cassin, cp. cii., pp. 27-28.
4O
«Iogique el Rlélorique», R|cicri¡ucs, BruxeIIes, Ldilions de I'Ini-
versilé de BruxeIIes, 1989, p. 71.
41
Barbara Cassin, cp. cii., p. 31.
30
Aciuc|mcnic, cm rcsu|ic!c !c umc |cngc c.c|uç4c, c rcicricc
cprcscnic-sc !i.i!i!c cm !cis rcmcs. umc rcicricc !c c|ccuç4c, c cs-
iu!c !c prc!uç4c |iicr4ric, c umc rcicricc !c crgumcnicç4c, c csiu!c
!c pc|c.rc cjiccz cu prc!uç4c pcrsucsi.c. |sics !ucs rcicriccs inii-
iu|cm-sc «nc.cs rcicriccs». icnic c ¡uc sc pcsscu c !i.u|gcr ccm
C|cím Pcrc|mcn, c pcriir !c !ccc!c !c 1950, umc Nova Relórica
cu iccric !c crgumcnicç4c inspirc!c nc csscncic !c rcicricc !c Aris-
icic|cs
42
, ccmc c cssinc|c!c pcr Pcu| Ricccur nc ¡uinic csiu!c !c
suc Mélaplore vive, «Ic mcicp|crc ci |c ncu.c||c r|cicri¡uc», n4c
sc igncrcn!c c cmprcsc pcrc|mcnicnc ccmc icm|cm cpcncs sc rcjc-
rin!c c rcicricc |iicr4ric
43
.
|sic igncrcncic rcciprccc icm c|i4s c .cr ccm c jrcciurc criginc|
cir4s rcjcri!c. A !cjiniç4c crisicic|icc !c rcicricc cnirc |cm cc!c cm
ccnccrrcncic ccm c !c Crisipc, C|ccnics c cs csiciccs, ¡uc ccnicmp|cm
c rcicricc ccmc ars bene dicendi, c cssim prcmc.cm c icn!cncic pcrc
c pri.i|cgic !c ccmpcncnic csiciicc-csii|isiicc, cm !cirimcnic !c cjic4-
cic crgumcnicii.c. A rcicricc |iicrcrizc-sc c c !imcns4c crgumcnicii.c
!c pcrsucs4c c ncg|igcncic!c. O ¡uc cs primcircs rcicriccs c|4ssiccs
cnicn!icm ccmc umc !cs sucs pcrics ÷ c eIoculio ÷ .cic ccm c icm-
pc c cssumir-sc ccmc c csscncic !c prcpric rcicricc
44
.
42
Claïm IereIman e I. OIbreclls-Tyleca, Ic Ncu.c||c R|cicri¡uc.
1rciic !c |´Argumcniciicn, Iaris, Iresses Iniversilaires de Irance, 1958.
43
IauI Ricoeur, «Ia mélaplore el Ia nouveIIe rlélorique», in Ic
mcicp|crc .i.c, Iaris, SeuiI, 1975, pp. 173-219.
44
Como juslamenle observa Anlonio García Berrio: «A Io Iargo de
su lisloria de coIaboración como discipIinas compIemenlarias deI discur-
31
Pcu| Ricccur su||in|c c jcncmcnc ncs scguinics icrmcs. «c rc-
icricc !c Arisicic|cs cc|rc ircs ccmpcs. umc iccric !c crgumcnicç4c,
¡uc ccnsiiiui c cixc principc| c ¡uc jcrnccc cc mcsmc icmpc c nc !c
suc criicu|cç4c ccm c |cgicc !cmcnsircii.c c ccm c ji|cscjic (csic
iccric !c crgumcnicç4c cc|rc sc c|c !cis icrçcs !c ircic!c) ÷ umc
iccric !c c|ccuç4c ÷, c umc iccric !c ccmpcsiç4c !c !iscursc. O ¡uc
cs u|iimcs ircic!cs !c rcicricc ncs cjcrcccm c, scgun!c c jc|iz cx-
prcss4c !c G. Gcnncic, umc ´rcicricc rcsiriic´
45
, rcsiriic primcirc c
iccric !c c|ccuç4c, !cpcis c iccric !cs ircpcs. Umc !cs ccuscs !c
mcric !c rcicricc csi4 ci. cc rc!uzir-sc c umc !cs sucs pcrics, c rc-
icricc pcr!cu cc mcsmc icmpc c nexus ¡uc c |igc.c c ji|cscjic mc-
!icnic c !ic|cciicc, c, pcr!i!c csic ncxc, c rcicricc ircnsjcrmcu-sc cm
!iscip|inc crr4iicc c juii|. A rcicricc mcrrcu |cgc ¡uc c gcsic !c c|cs-
so, Ia Relórica, ciencia de Ia cxprcsi.i!c! verbaI µ Ia Ioélica, ciencia de
Ia pcciici!c! expresivo-imaginaria, lan acluado sobre un enlendimienlo
cambianle y desiguaI de Ia naluraIeza deI Iinguage comunicalivo
eslándar y deI discurso Iilerario y poélico. Ia relorización de Ia poélica
cIásica fue posibIe por Ia confusión imperanle en Ia cuIlura greco-Ialina
sobre Ia naluraIeza deI Iinguage arlíslico |.j Iodemos decir en sínlesis,
que si, a efeclos deI recorle de su conlenido a Ia soIa c|ccuiic, se la
abIado de un proceso de poderosa poelización de Ia Relórica,

Ia len-
dencia inversa de relorización de Ia Ioélica µ de Ia Iileralura es una
reaIidad de aIcance indisculibIe» (1ccric !c |c Iiicrciurc, Madrid, Cále-
dra, 1989, pp. 22-23, 16O).
45
Gérard Genelle, «Rlélorique reslreinle», Ccmmunicciicns, 16, Ia-
ris, SeuiI, 197O.
32
sijiccr cs jigurcs sup|cnicu pcr ccmp|cic c scnii!c ji|cscjicc ¡uc cni-
mc.c c .csic impcric rcicricc, mcniin|c uni!cs cs sucs pcrics, c |i-
gc.c c ic!c cc organon c c ji|cscjic primcirc.»
46
Gcrcr! Gcnciic rc|ccicnc cs crigcns mc!crncs !c c|cmc!c «rc-
!uç4c ircpc|cgicc» ccm cs ircic!cs rcicriccs !c Dumcrscis c Icnic-
nicr ncs sccu|cs XV||| c X|X. A rcicricc pcssc cssim c scr csscncic|-
mcnic umc cric !c cxprcss4c, cu mc||cr, umc cric !c cxprcss4c
|iicr4ric ccn.cncicnc!c. Nc Ircnçc, ccmc nc |i4|ic c nc A|cmcn|c, c
rcicricc cm pcucc mcis sc ircnsjcrmcu !c ¡uc cm umc iccric !c prc-
sc |iicr4ric. |, sc nc |ng|cicrrc c .c||c irc!iç4c rcicricc ccnscguiu
rcsisiir, jci grcçcs c impcricncic !c psicc|cgic nc cmpirismc !c 8cccn,
Icc|c c Humc, c c inj|ucncic !c ji|cscjic csccccsc !c |cm scnsc, c|-
scr.c Pcrc|mcn
47
.
| ccrcsccnic. «Ac |c!c !c rcicricc, jun!c!c sc|rc c iric!c ´rc-
icricc-prc.c-pcrsucs4c´, Ricccur |cm|rc-ncs ¡uc Arisicic|cs c|c|crcu
umc pcciicc, ¡uc n4c c iccnicc !c ccç4c mcs iccnicc !c cricç4c, c ¡uc|
ccrrcspcn!c c iric!c ´pcicsis-mimcsis-cci|crsis´. Orc Arisicic|cs
ccupc-sc !c mci4jcrc ncs !cis ircic!cs, mcsircn!c ¡uc c mcsmc ji-
gurc pcricncc ccs !cis !cminics, crc cxcrccn!c umc ccç4c rcicricc,
crc !cscmpcn|cn!c um pcpc| nc cricç4c pcciicc.»
48
Pcis, ccmc c
46
Ic mcicp|crc .i.c, Iaris, SeuiI, 1975, pp. 13-14.
47
Claïm IereIman, 1|c Ncv R|cicric cn! i|c Humcniiics. |sscµs cn
R|cicric cn! iis App|icciicns, Iondon, ReideI, 1979, pp. 3-4.
48
Claïm IereIman, I´cmpirc r|cicri¡uc. R|cicri¡uc ci crgumcniciicn,
Iaris, Vrin, 1977, p. 13.
33
scguir susicnic, cs jigurcs !cixcm !c scr mcrcs jigurcs crncmcnicis
c pcsscm c scr usc!cs ccmc jigurcs crgumcnicii.cs, scmprc ¡uc in-
icgrc!cs numc rcicricc ccncc|i!c ccmc cric !c pcrsuc!ir c ccn.cn-
ccr. Ccsc ccnir4ric, c|cs ircnsjcrmcm-sc cm mcrcs crncmcnics ¡uc
cpcncs rcspciicm c jcrmc !c !iscursc, pcr!cn!c ccm issc c suc jun-
ç4c !incmicc.
4. A RetórIcu de AristðteIes
Arisicic|cs cscrc.cu !cis ircic!cs !isiinics sc|rc c c|c|crcç4c !c
!iscursc. A suc Relórica ccupc-sc !c cric !c ccmuniccç4c, !c !is-
cursc jciic cm pu||icc ccm jins pcrsucsi.cs. A Ioélica ccupc-sc !c
cric !c c.cccç4c imcgin4ric, !c !iscursc jciic ccm jins csscncic|mcn-
ic pcciiccs c |iicr4rics. O ¡uc !cjinc c rcicricc crisicic|icc c prccisc-
mcnic c cpcsiç4c cnirc csics !ucs tr¿vet cuicncmcs, cnirc csics !cis
sisicmcs i4c c|crcmcnic !cmcrcc!cs, um rcicricc c cuirc pcciicc. Os
¡uc, c pcriir !c|c, rcccn|cccm c ccciicm ic| cpcsiç4c cn¡uc!rcm-sc
nc rcicricc crisicic|icc. Os ¡uc susicnicm c jus4c !c rcicricc ccm c
pcciicc, c ccnsc¡ucnicmcnic ccciicm c ircnsjcrmcç4c !c rcicricc numc
cric pcciicc !c cricç4c |iicr4ric mc!icnic c |iicrciurizcç4c !c prcpric
rcicricc, cn¡uc!rcm-sc nc mc.imcnic ¡uc, ccm c Scgun!c Scjisiicc,
sc .iric c !csigncr ncc-rcicricc.
A criiicc ¡uc Arisicic|cs jcz ccs iccrizc!crcs !c rcicricc ¡uc
c prccc!crcm pcrccc-ncs icr csscnic!c ncs scguinics rczccs. nc !c c|cs
icrcm ccnirc!c c suc cicnç4c nc !iscursc ju!icic|, cm prcjuizc !cs
!cmcis gcncrcs, nc !c icrcm !c!c cspccic| cicnç4c cc csiimu|c !cs
34
cmcçccs, ccm ncg|igcncic c.i!cnic !c usc !c crgumcnicç4c |cgicc, c
nc !c cxccssi.c impcricncic !c!c c csiruiurc jcrmc| !c !iscursc
49
.
A grcn!c inc.cç4c !c Arisicic|cs jci c |ugcr !c!c cc crgumcnic
|cgicc ccmc c|cmcnic ccnirc| nc cric !c pcrsucs4c. A suc Relórica c
sc|rciu!c umc rcicricc !c prc.c, !c rcciccinic, !c si|cgismc rcicricc,
isic c, umc iccric !c crgumcnicç4c pcrsucsi.c. | umc !cs sucs mcic-
rcs ¡uc|i!c!cs rcsi!c nc jccic !c c|c scr umc iccnicc cp|ic4.c| c ¡uc|-
¡ucr cssunic. Pcis prcpcrcicnc simu|icnccmcnic um mcic!c !c irc-
|c||c c um sisicmc criiicc !c cn4|isc, uii|iz4.cis n4c sc nc ccnsiruç4c
!c um !iscursc, mcs icm|cm nc inicrprcicç4c !c ¡uc|¡ucr jcrmc !c
!iscurscs
5O
.
A Relórica !c Arisicic|cs pcrccc icr rcsu|ic!c !c ircs mcmcn-
ics !isiinics !c suc .i!c. O |i.rc 1.5-15 c pcrics !c |i.rc 3 jcrcm
cpcrcnicmcnic cscriics pcr .c|ic !c 350 c. C., ¡ucn!c cin!c crc mcm-
|rc !c Acc!cmic c ci cnsinc.c rcicricc. |nirc 342 c. C. c 335 c. C.,
!urcnic c suc csic!c nc Mccc!cnic, icr4 cscriic c suc pcric mcis
su|sicncic|. A ccnc|us4c c cs rcic¡ucs jincis !c mcsmc pc!cr4c icr
si!c rcc|izc!cs cpcs c rcgrcssc !c csicgiriic c Aicncs cm 335 c. C., c
c ccnsc¡ucnic c|criurc !c suc prcpric cscc|c
51
. A Relórica !4, cjcc-
ii.cmcnic, sincis !c sc |c.cr !irigi!c c !ijcrcnics cu!icncics, rcj|cc-
iin!c ic|.cz !ijcrcnics ccnicxics c mcmcnics !i.crscs !c scu cnsinc.
49
Vi!c George Kennedy, Arisici|c cn R|cicric. A 1|ccrµ cj Ci.ic Dis-
ccursc, Nev York/Oxford, Oxford Iniversily Iress, 1991, p. 9.
5O
||i!cm, p. 3O9.
51
Cf. George Kennedy, Arisici|c cn R|cicric, pp. 5-7.
35
| pcr issc ¡uc c|gumcs pcrics pcrcccm icr si!c !irigi!cs primcric-
mcnic c csiu!cnics !c ji|cscjic c cuircs n4c.
|nirc cs principics ¡uc ccrccicrizcm c scu cs¡ucmc rcicricc
rc|c.cm-sc cs scguinics.
1) A !isiinç4c !c !ucs ccicgcrics jcrmcis !c pcrsucs4c.
prc.cs iccniccs c n4c iccniccs,
2) A i!cniijiccç4c !c ircs mcics !c prc.c, mc!cs !c cpc|c
cu jcrmcs !c pcrsucs4c. c |cgicc !c cssunic, c ccr4cicr
!c crc!cr c c cmcç4c !cs cu.inics,
3) A !isiinç4c !c ircs cspccics !c rcicricc. ju!icic|, !c|i|c-
rcii.c c cpi!iciicc,
4) A jcrmc|izcç4c !c !ucs ccicgcrics !c crgumcnics rcic-
riccs. c cniimcmc, ccmc prc.c !c!uii.c, c cxcmp|c,
usc!c nc crgumcnicç4c in!uii.c ccmc jcrmc !c crgu-
mcnicç4c sccun!4ric,
5) A ccnccpç4c c c usc !c .4rics ccicgcrics !c icpiccs nc
ccnsiruç4c !cs crgumcnics. icpiccs cspccijiccmcnic rc-
|ccicnc!cs ccm cc!c gcncrc !c !iscursc, icpiccs gcrc|-
mcnic cp|ic4.cis c ic!cs cs gcncrcs, c icpiccs ¡uc prc-
pcrcicncm csircicgics !c crgumcnicç4c, iguc|mcnic
ccmuns c ic!cs cs gcncrcs !c !iscursc,
6) A ccnccpç4c !c ncrmcs |4siccs !c csii|c c ccmpcsiç4c,
ncmcc!cmcnic sc|rc c ncccssi!c!c !c c|crczc, c ccm-
prccns4c !c cjciic !c !ijcrcnics iipcs !c |ingucgcm c
csiruiurc jcrmc|, c c cxp|iciicç4c !c pcpc| !c mci4jcrc,
7) A c|cssijiccç4c c cr!cncç4c !cs .4rics pcrics !c !iscursc.
36
5. PIann e cnnteúdn da RetórIcu
IIVRO I ÷ IROVAS OI MLIOS DL ILRSIASÃO: IROVA IÓGICA
1.1-3 ÷ RETÓRlCA, DlALÊCTlCA E SOIÍSTlCA
1.1 ÷ DefInIção
A .cr!c!circ rcicricc c umc jcrmc !c crgumcnicç4c ccmpcr4-
.c| c !ic|cciicc
52
. Ac rcj|cciir sc|rc c nciurczc !c cric, c cc cprcscn-
icr c rcicricc ccmc cric gcnuinc, Arisicic|cs csi4 c¡ui c cjirmcr c
suc rccicnc|i!c!c ccmc jcrmc !c ccn|ccimcnic pr4iicc c c i!cniijic4-
-|c ccm c !ic|cciicc
53
.
Os manuais exislenles: Ncg|igcncicm c crgumcnicç4c |cgicc,
c ccupcm-sc cpcncs !c crcicric ju!icic|, ¡ucn!c c !c|i|crcii.c ||c c
supcricr. O csiu!cnic !c rcicricc prccisc sc|rciu!c !c ccmprccn!cr c
usc !c cniimcmc ccmc insirumcnic jun!cmcnic| !c cric rcicricc.
1rcic-sc !c um si|cgismc rcicricc, cm iu!c i!cniicc cc !ic|cciicc ccmc
oæµe tj¸ aIotræ¸.
IliIidade da relórica: A rcicricc c uii|, pcis scm c|c c .cr!c!c
pc!c scr !crrcic!c num !c|cic. ||c pcrmiic-ncs !c|cicr cm|cs cs
|c!cs !c umc ¡ucsi4c.
52
'AvtIotpcçc¸ é um lermo lomado de empréslimo do movimenlo
de um coro na execução das odes corais: a eslrofe denola o seu movi-
menlo numa direcção, a anlíslrofe, o seu conlramovimenlo. Significa a
repelição do mesmo padrão mélrico da eslrofe por diferenles paIavras.
53
Vi!c |i|icc Niccmcc|cc, VI, 3, 114Oa21.

Nalureza das provas: Ac ccnir4ric !c rcicricc !cs scjisics, c
.cr!c!circ cric rcicricc jun!c-sc cm prc.cs (aIotræ¸), cnicn!cn!c-sc
pcr prc.c umc cspccic !c !cmcnsircç4c (eaeórt¸t¸ tt¸), cu scjc, um
rcciccinic circ.cs !c cniimcmcs.
Os dois modos de prova: Um, n4c iccnicc cu criisiicc, pcr-
¡uc n4c in.cnic!c pc|c crc!cr, scccrrc-sc !c c.i!cncic !c icsicmu-
n|cs cu ccnircics cscriics (cs 6tr¿vct aIotrt¸), c cuirc, iccnicc cu
criisiicc, pcr¡uc sc scccrrc !c mcics !c pcrsucs4c cric!cs pc|c crc!cr
(cs rvtr¿vct aIotrt¸).
1.2 ÷ Os três meIos de persuusão
Os mcics criisiiccs !c pcrsucs4c s4c ircs. cs !cri.c!cs !c ccr4c-
icr !c crc!cr (\0c¸), cs !cri.c!cs !c cmcç4c !cspcric!c pc|c crc!cr
ncs cu.inics (a60c¸), c cs !cri.c!cs !c crgumcnics .cr!c!circs cu
prc.4.cis (ìeyc¸). S4c csics ircs c|cmcnics !c prc.c ¡uc junicmcnic
ccniri|ucm pcrc c rcciccinic cniimcm4iicc.
As formas dos argumenlos: Os crgumcnics |cgiccs icmcm
umc !c !ucs jcrmcs. c cniimcmc c c cxcmp|c. | pcr mcic !c|cs ¡uc
Arisicic|cs inirc!uz c iccric !c |cgicc nc suc iccric rcicricc.
LIemenlos de que derivam a maléria e a forma dos enli-
memas: Prc|c|i|i!c!cs c sincis. As prc|c|i|i!c!cs s4c prcmisscs gc-
rc|mcnic ccciics, jun!c!cs nc cxpcricncic c nc ccnscnsc. Os sincis
s4c gcrc|mcnic !c !cis iipcs. uns cpcnicm pcrc umc ccnc|us4c nc-
ccss4ric, cuircs s4c rcjui4.cis.
A maléria e a forma dos enlimemas: Os icpiccs. Scn!c cs
cniimcmcs cs .cicu|cs pcr cxcc|cncic !c crgumcnicç4c rcicricc, cs
38
sucs prcmisscs s4c mcicric|mcnic ccnsiiiui!cs pcr icpiccs. cs icpiccs
cspccijiccs, cp|ic4.cis c cc!c um !cs gcncrcs pcriicu|crcs !c !iscursc
(ju!icic|. jusic/injusic, !c|i|crcii.c. uii|/inuii|, cpi!iciicc. |c|c/jcic),
c cs icpiccs ccmuns, cp|ic4.cis in!isiinicmcnic c ¡uc|¡ucr um !cs
ircs gcncrcs (pcssi.c|/impcssi.c|, rcc|/irrcc|, mcis/mcncs).
1.3 ÷ As três especIes de retórIcu, ou generos de dIscurso
ju!icic| cu jcrcnsc, !c|i|crcii.c cu pc|iiicc c !cmcnsircii.c cu
cpi!iciicc. A siiucç4c !c !iscursc ccnsisic num crc!cr, num !iscursc
c num cu!iicric. O cu!iicric, cu c juiz (nc iri|unc|), cu cspccic!cr
(nc ccnsc||c cu nc csscm||cic). Os !iscurscs !c|i|crcii.cs cu s4c cxcr-
icçccs cu !issucsccs c .iscm mcsircr c .cnicgcm cu !cs.cnicgcm !c
umc !cicrminc!c ccç4c. Os !iscurscs ju!icicis cu s4c ccuscçccs cu
!cjcscs sc|rc cciscs jciics nc pcssc!c c .iscm mcsircr c jusiiçc cu in-
jusiiçc !c ¡uc jci jciic. Os !iscurscs cpi!iciiccs |cu.cm cu ccnsurcm
c|gc, .iscn!c mcsircr c .iriu!c cu !cjciic !c umc pcsscc cu ccisc.
1.4-15 ÷ AS ESPÊClES DE RETÓRlCA E RESPECTlVOS TÓPlCOS
1.4-8 ÷ RetórIcu deIIberutItu
1.4 ÷ Os cinco lemas mais imporlanles de deIiberação:
Iincnçcs, gucrrc c pcz, !cjcsc nccicnc|, impcricçccs c cxpcricçccs, c
|cgis|cç4c. Scgucm-sc cs icpiccs uicis c cc!c um !csics icmcs.
39
1.5-6 ÷ Tópicos élicos: Dcjiniç4c !c jc|ici!c!c, ccmc c|jccii.c
u|iimc !c ic!c c ccç4c |umcnc, !cscriç4c !cs jccicrcs ¡uc pcrc c|c
ccniri|ucm, ncmcc!cmcnic c |cm ncscimcnic, muiics c |ccs cmizc-
!cs, |cns ji||cs, i!c!c c.cnçc!c, .iriu!cs jisiccs, rcpuicç4c, |cnrc c
.iriu!c, cxp|iccç4c !c cc!c um !csics icpiccs c .c|crizcç4c !c icpicc
!c |cm.
1.7 ÷ Tópico do mais/menos apIicado à comparação de
bens: Rcicmcn!c um icpicc ccmum c ic!cs cs cspccics !c rcicricc,
Arisicic|cs ccnsi!crc cgcrc c suc cp|iccç4c cspccijicc c crcicric
!c|i|crcii.c. O crc!cr prccisc !c mcsircr ¡uc umc ccisc c mcis cu
mcncs impcricnic, mcis cu mcncs .cnicjcsc, !c mcsmc mcncirc ¡uc
prcciscr4 !c mcsircr ¡uc c|c c pcssi.c| cu impcssi.c|.
1.8 ÷ Tópicos sobre consliluições poIílicas: Os rc|cii.cs
ccs ¡ucirc rcgimcs, !cmccr4iicc, c|ig4r¡uicc, crisiccr4iicc c mcn4r-
¡uicc.
1.9 ÷ RetórIcu epIdIctIcu
Tópicos que convôm à relórica epidíclica: 1u!c c ¡uc icm c
.cr ccm c nc|rczc c c .iriu!c. Discuicm-sc cs .iriu!cs c c ccncciic
!c |c|c, !c nc|rc, !c |cncsic c scus ccnir4rics. Sugcrcm-sc cs rcs-
pccii.cs icpiccs. A .cricnic csiciicc !c rcicricc cpi!iciicc c c.i!cn-
cic!c pc|c cspccic| cicnç4c !c!c cc icpicc !c cmp|ijiccç4c ncs !is-
curscs !cmcnsircii.cs.
40
1.10-15 ÷ RetórIcu ]udIcIuI ou forense
1.1O ÷ Tópicos sobre deIilos ou lransgressão conscienle
das Ieis: As scic ccuscs !c !c|iic c rcspccii.cs icpiccs, icnic nc ¡uc
ccnccrnc c ccuscç4c ccmc c !cjcsc.
1.11 ÷ Tópicos sobre prazer: A nciurczc !c prczcr, cci4|cgc
!c prczcrcs (¡uinzc iipcs !c prczcr) c rcspccii.cs icpiccs.
1.12 ÷ Tópicos sobre agenles e vílimas de injusliça: Dc-
pcis !c rcjcrir c icpicc !c pcssi|i|i!c!c/impcssi|i|i!c!c ccmc rc-
|c.cnic pcrc csic cssunic, Arisicic|cs c.cnçc ccm umc |isic !c
jccicrcs pcn!crc!cs pc|c crimincsc, rczccs pcrc c crimc c iipcs !c
crimcs.
1.13 ÷ Tópicos sobre jusliça e injusliça: Discuicm-sc cs !cis
iipcs !c |ci, pcriicu|cr c gcrc|, c |ci cscriic c n4c cscriic, c |ci nciu-
rc|, !cjincm-sc c c|cssijiccm-sc cs crimcs, rcj|ccic-sc sc|rc c jusiiçc c
c c¡ui!c!c.
1.14 ÷ Graus de injusliça: Iisic !c icpiccs sc|rc ccmc crgu-
mcnicr ¡uc c|gc c um mc| mcicr. Qucnic mcis prcmc!iic!c c |ruic|
c c crimc, mcicr c mcis grc.c c|c c.
1.15 ÷ Meios inarlíslicos ou não lécnicos de persuasão:
Arisicic|cs ccnsi!crc cincc cs c|cmcnics !c crgumcnicç4c |cgc| ¡uc
j4 csi4c nciurc|mcnic prcscnics ncs circunsicncics, c n4c s4c rcicri-
ccmcnic cric!cs pc|c crc!cr. |cis, icsicmun|cs, ccnircics, icriurc c
jurcmcnics.
41
IIVRO II ÷ IROVAS OI MLIOS DL ILRSIASÃO:
IIVRO II ÷ LMOÇÃO L CARÁCTLR
2.1-11 ÷ EMOÇÃO
2.1 ÷ O pupeI du emoção e o curácter
Arisicic|cs mcsirc ccmc cs c|cmcnics !c crgumcnicç4c psicc|c-
gicc icm|cm sc pc!cm uscr ccmc pcric inicgrcnic !c crgumcnicç4c
cniimcm4iicc. O scjisic csiimu|c cs cmcçccs pcrc !cs.icr cs cu.inics
!c !c|i|crcç4c rccicnc|. O crc!cr crisicic|icc ccnirc|c cs pcixccs pc|c
rcciccinic ¡uc !cscn.c|.c ccm cs scus cu.inics
54
.
2.2-11 ÷ Como estImuIur emoção no uudItórIo
Rcciccinic ccm cs cmcçccs.
2.2-3 ÷ Ira e caIma: A irc ccmc cmcç4c pcrc!igm4iicc, c irc c
c cc|mc !cjini!cs c cnc|isc!cs, ccm c jim !c prcpcrcicncr mcicric| c
pcriir !c ¡uc| sc pc!cr4c ccnsiruir crgumcnics cniimcm4iiccs. Aris-
icic|cs !cjinc c c|cssijicc cc!c cmcç4c, ccnsi!crcn!c c rcz4c cu ccusc
!c cc!c umc !c|cs c c csic!c !c cspiriic !c pcsscc ¡uc cs cxpcrimcnic.
54
Vi!c Iarry Arnlarl, Arisici|c cn Pc|iiicc| Rccscning. A Ccmmcnicrµ
cn i|c «R|cicric», DeKaIb, Norllern IIIinois Iniversily Iress, 1981, p. 112.
42
2.4 ÷ Amizade e inimizade
2.5 ÷ Temor e confiança
2.6 ÷ Vergonla e desvergonla
2.7 ÷ AmabiIidade e indeIicadeza
2.8-9 ÷ Iiedade e indignação
2.1O-11 ÷ Inveja e emuIação
2.12-17 ÷ CARÁCTER
Ccmc c!cpicr c ccr4cicr !c crc!cr c cmcç4c !cs cu.inics.
2.12-14 ÷ Curácter e Idude
2.12 ÷ O carácler do jovem
2.13 ÷ O carácler do idoso
2.14 ÷ O carácler dos que eslão no auge da vida
2.15-17 ÷ Curácter e fortunu
2.15 ÷ O carácler dos nobres
2.16 ÷ O carácler dos ricos
2.17 ÷ O carácler dos poderosos
43
2.18-26 ÷ ESTRUTURA LÓGlCA DO RAClOCÍNlO RETÓRlCO
Rcgrcssc cc csiu!c !cs jcrmcs !c crgumcnicç4c |cgicc. Aic c¡ui,
ccupcu-sc !c mcicric cu !cs jcnics !c rcciccinic cniimcm4iicc. A pcr-
iir !c¡ui, ccupc-sc !cs csiruiurcs jcrmcis !c injcrcncic, !cs icpiccs
ccmc csircicgics |cgiccs !c crgumcnicç4c.
2.18-19 ÷ Iunção dos tópIcos comuns u todus us especIes de retórIcu
Rcicrnc cc icmc !csics icpiccs c rcsumc jinc|. cci4|cgc !c ¡uin-
zc icpiccs !c pcssi.c|/impcssi.c|, c rcjcrcncic ccs !c jccic pcssc!c/
juiurc, c !c mcis/mcncs impcricnic.
2.20 ÷ Argumento peIo exempIo
Sinicsc !c icmc !c crgumcnicç4c pcrc!igm4iicc, c rcjcrcncic c
cxcmp|cs |isicriccs, cu simp|csmcnic cric!cs. |nc|ucm-sc, ncsic ccsc,
pcr4|c|cs, ccmpcrcçccs c j4|u|cs. Os cxcmp|cs pc!cm scr usc!cs ccmc
c.i!cncic, c ccmc cpi|cgc pcrc cs cniimcmcs.
2.21 ÷ O uso de máxImus nu urgumentução
A m4ximc ccrrcspcn!c c umc !cs prcmisscs cu c ccnc|us4c !c
um cniimcmc. Umc rcz4c !c cpcic c pcr .czcs cxprcssc, c cssim sc
44
ircnsjcrmc cm cniimcmc. As m4ximcs s4c !c ¡ucirc iipcs. cs ¡uc
ccrrcspcn!cm c cpini4c gcrc| s4c simp|cs, cs ¡uc n4c ccrrcspcn!cm c
cpini4c gcrc| prcciscm !c cpi|cgc cu prc.c !cmcnsircii.c sup|cmcn-
icr, cs ¡uc ccm cpi|cgc s4c cniimcmcs impcrjciics, c cs ¡uc ccm c|c
icm ccnicu!c cniimcm4iicc, mcs n4c c jcrmc.
2.22-25 ÷ O uso de entImemus
|sics ccpiiu|cs rcsumcm c !iscuss4c !cs cniimcmcs cm 1.1-2,
cxpcn!in!c c injcrmcç4c ci !c!c. Icz-sc rcjcrcncic c umc |isic !c
.inic c ciic |ugcrcs-ccmuns !c.i!cmcnic i|usirc!cs, icpiccs ¡uc iguc|-
mcnic pc!cm scr usc!cs cm ¡uc|¡ucr um !cs ircs gcncrcs !c !is-
cursc crcicric. Aprcscnicm-sc c|cssijicc!cs cm ¡ucirc grupcs !isiin-
ics. cniccc!cnic/ccnsc¡ucnic, ccusc/cjciic, mcis/mcncs, ¡uc|¡ucr cuirc
jcrmc !c rc|cç4c. 1c!cs c|cs supccm umc jcrmc !c injcrcncic ¡uc sc
mc.c !c umc ccisc pcrc cuirc. sc isic, cni4c c¡ui|c. A pcriir !c cc-
n|cci!c, iirc-sc umc ccnc|us4c ¡uc sc cp|icc cc ¡uc c !csccn|cci!c
55
.
Dcscrc.cm-sc, cnjim, nc.c icpiccs !c cniimcmcs cpcrcnics cu jc|c-
cicscs, c !iscuic-sc c mc!c !c rcjuicç4c !c cniimcmcs.
2.26 ÷ ConcIusão dos doIs prImeIros IItros
55
Iarry Arnlarl, cp. cii., p. 148.
45
IIVRO III ÷ LSTIIO L COMIOSIÇÃO DO DISCIRSO
Dcpcis !c um |rc.c rcsumc !cs !cis primcircs |i.rcs c !c c|gu-
mcs c|scr.cçccs sc|rc c prcnuncicç4c !c !iscursc (uaekptot¸), Aris-
icic|cs !isscric sc|rc c ìr¸t¸ c c t6¸t¸.
3.1 ÷ lntrodução. SumárIo dos IItros 1 e 2
Rcjcrcncic c prcnuncicç4c !c !iscursc c cs crigcns !c prcsc cr-
iisiicc. A prcnuncicç4c ccupc-sc !cs cui!c!cs c icr ccm c mc.imcnic,
c cxprcss4c c c mc!u|cç4c !c .cz cm junç4c !cs scguinics ¡uc|i!c!cs.
.c|umc, c|iurc c riimc. O csii|c c ncccss4ric, mcs !c.c juncicncr mcis
ccmc cuxi|icr !c crgumcnicç4c !c ¡uc ccmc simp|cs iccnicc !c crnc-
mcnicç4c. O mcsmc sc pcssc ccm c !ispcsiç4c !cs crgumcnics.
3.2 ÷ QuuIIdudes du expressão. A cIure:u
Dcjinc-sc c principc| .iriu!c !c csii|c cm prcsc. c c|crczc. Ajir-
mc-sc c ncccssi!c!c !c c cxprcss4c sc c!c¡ucr cc cssunic.
3.3 ÷ A frItoIIdude do estIIo
Rcsu|ic !c .ic|cç4c !cs principics !c c|crczc c prcpric!c!c, ncr-
mc|mcnic prc.ccc!c pc|c usc inc!c¡uc!c !c. pc|c.rcs ccmpcsics,
pc|c.rcs csircn|cs c c|sc|cics, cpiicics |cngcs c numcrcscs, mci4jc-
rcs jcrc !c ccnicxic.
46
3.4 ÷ O uso de sImIIes
O simi|c c ircic!c ncsic ccpiiu|c ccmc umc jcrmc cxpcn!i!c !c
mci4jcrc.
3.5 ÷ A correcção grumutIcuI
Rcjcrcm-sc cincc ncrmcs ¡uc .iscm c ccrrccç4c !c |ingucgcm c
!c csii|c. cmprcgc ccrrccic !cs pcriicu|cs, rigcr nc usc !cs pc|c.rcs,
cmiss4c !c icrmcs cm|igucs, usc ccrrccic !c gcncrc, usc ccrrccic !c
numcrc. 1c!cs csics ncrmcs .iscm c c|crczc !c |ingucgcm, c rccic
c|scr.cncic !cs rcgrcs grcmciiccis c !cs ccn.cnçccs !c |inguc.
3.6 ÷ A soIenIdude du expressão
|nirc cs iccniccs !c cmp|ijiccç4c, Arisicic|cs rcjcrc. c usc !c
umc !cjiniç4c cm .cz !c umc pc|c.rc, c rccursc c mci4jcrcs c cpiic-
ics, usc !c p|urc| pc|c singu|cr, usc !c criigc, c rccursc c csiruiurcs
ccnjuncicncis cm .cz !c jrcsc ccncrcic, c !cscriç4c.
3.7 ÷ Adequução du expressão uo ussunto
O csii|c c cprcpric!c sc c pciciicc, ciicc c prcpcrcicnc!c.

3.8-9 ÷ O rItmo e o estIIo perIódIco
3.8 ÷ O rilmo: A prcsc rcicricc !c.c scr riimicc scm scr mc-
iricc. O !iscursc riimicc c mcis cgrc!4.c| pcr¡uc crgcnizc cs pc|c-
.rcs !c cccr!c ccm umc csiruiurc. Cc!c gcncrc |iicr4ric icm c scu
riimc prcpric.
3.9 ÷ A conslrução da frase, o esliIo periódico: Pcric!c c,
scgun!c Arisicic|cs, um ic!c csiruiurc!c, umc jrcsc ccm principic c
jim cm si mcsmcs c ccm umc cxicns4c jcci|mcnic c!cpi4.c| c ccpc-
ci!c!c rcspircicric, umc jrcsc cujcs pcrics sc inicr-rc|ccicncm pcrc
icrncr c !iscursc mcis inic|igi.c| c mcis cgrc!4.c| cc cu.i!c, um ic!c
csiruiurc!c cm ¡uc c icns4c gcrc!c nc principic sc rcsc|.c nc jim.
O csii|c pcric!icc c mcis cjiccz ¡ucn!c sc csiruiurc cniiiciiccmcnic.
3.10-11 ÷ A metáforu e u eIegûncIu retórIcu
Arisicic|cs rcjcrc nc Ioélica ¡ucirc iipcs !c mci4jcrc
56
, mcs c¡ui
ccnsi!crc cpcncs c mci4jcrc pcr cnc|cgic. | um !cs cxcmp|cs !c mc-
i4jcrc pcr cnc|cgic ¡uc usc c c !c c|scr.cç4c !c Pcric|cs. ¡uc c jc|ic
!c ju.cniu!c ¡uc pcrcccu nc gucrrc jci i4c scnii!c nc ci!c!c ccmc nc
56
Na Pcciicc, 21, 1457b7-8, ArislóleIes diz que usar uma meláfora é
dar a uma coisa o nome que perlence a oulra, podendo operar-se a lrans-
ferôncia do género para a espécie, da espécie para o género, da espécie
para a espécie, ou por anaIogia.
48
cnc scric scnii!c c jccic !c csic |c.cr pcr!i!c c suc Primc.crc. Pcr
cuircs pc|c.rcs, c ju.cniu!c c pcrc c .i!c c ¡uc c Primc.crc c pcrc c
cnc. Arisicic|cs pcrccc mcsmc sugcrir ¡uc c mc.imcnic mcicjcricc !c
ccn|cci!c pcrc c !csccn|cci!c pcr mcic !c umc scmc||cnçc cnirc cs
!cis c c csiruiurc ¡uc su|jcz c ic!c c rcciccinic |umcnc
57
. C|cmc,
c|i4s, c cicnç4c pcrc c ccrrc|cç4c cnirc c rcciccinic mcicjcricc c c si|c-
gisiicc cc ncicr ¡uc cs rcgrcs jun!cmcnicis pcrc c usc rcicricc !cs mci4-
jcrcs s4c cs mcsmcs ¡uc pcrc c usc !cs cniimcmcs. cssc mc.imcnic
!c ccn|cci!c pcrc c !csccn|cci!c, !c jcmi|icr pcrc c mcncs jcmi|icr.
3.12 ÷ A expressão udequudu u cudu genero
Arisicic|cs n4c jcz c¡ui !isiinç4c cxp|iciic cnirc cs !ijcrcnics
iipcs !c csii|c (genera dicendi), mcs j4 cs prcssupcc. Icz !isiinç4c
cnirc c csii|c !c ccmpcsiçccs cscriics c c csii|c crcicric. Ac !iscursc
!cmcnsircii.c ccn.cm c csii|c c|c.c!c, mcis |iicrcricmcnic irc|c||c-
!c. Ac !iscursc ju!icic| ccn.cm c csii|c mc!ic, cxccic. Ac !iscursc
!c|i|crcii.c ccn.cm c csii|c crc| nciurc| c cspcnicncc.
3.13-19 ÷ As purtes do dIscurso
3.13 ÷ As duas parles necessárias: Arisicic|cs rcccn|ccc ¡uc,
cm c|guns ccscs, c !iscursc pc!c icr !c sc !i.i!ir cm ¡ucirc pcrics.
57
Cf. Iarry Arnlarl, cp. cii., pp. 174-175.
49
prccmic, ncrrcç4c, prc.c c cpi|cgc. Mcs cs !ucs .cr!c!circmcnic
ncccss4rics s4c c ncrrcç4c c c prc.c.
3.14 ÷ O proémio: A junç4c !c prccmic c icrncr c|crc c jinc-
|i!c!c !c !iscursc. 1cm pcr junç4c icrncr c|crc cssc c|jccii.c, prcpc-
rcn!c cs cu.inics pcrc c ncrrcç4c c c prc.c.
3.15 ÷ Tópicos de refulação: Ocupcn!c-sc cin!c !cs ¡ucsiccs
rc|ccicnc!cs ccm c prccmic, Arisicic|cs c.cnçc ccm umc |isic !c cnzc
iipcs !c crgumcnics pcrc rcmc.cr !c cu!iicric ciiiu!cs !csjc.cr4-
.cis cc crc!cr. Mcicric ¡uc, cm |crgc mc!i!c, jci pcsicricrmcnic
c|scr.i!c pc|c iccric !c ot6ot¸
58
.
3.16 ÷ A narração: À scmc||cnçc !c ¡uc jizcrc ccm c prccmic,
Arisicic|cs cprccic c ncrrcç4c c sucs ¡uc|i!c!cs cn¡ucnic cp|ic4.c|
ccs ircs gcncrcs !c !iscursc.
3.17 ÷ A prova e a demonslração: A prc.c c c¡ui ircic!c
ccmc pcric jun!cmcnic| !c !iscursc crcicric. Discuic-sc c scu usc
nc p|cnc !c crcicric ju!icic|, cpi!iciicc c !c|i|crcii.c, ccm c sugcs-
i4c !c icpiccs pcrc cc!c um !csscs gcncrcs. Ccmcnicm-sc icm|cm cs
.4rics mcncircs !c cprcscnicr c ccr4cicr !c crc!cr c csiimu|cr cs
cmcçccs !cs cu.inics.
58
Técnica de delerminação do assunlo em causa e do eslado da
queslão apresenlada. Tema que foi peIa primeira vez sislemalizado
por Hermágoras de Temnos, no sécuIo II a. C., e veio a inspirar a leo-
ria da inucniic lanlo na R|cicricc c! Hcrcnnium, como nos escrilos de
Cícero e de QuinliIiano (cf. George Kennedy, Arisici|c cn R|cicric,
pp. 265-266).
50
3.18 ÷ A inlerrogação: Discuic-sc c usc !c inicrrcgcç4c nc
ccnjrcnicç4c !c crc!cr ccm c c!.crs4ric cm iri|unc|. Accniuc-sc c
ccn.cnicncic !c |rc.i!c!c icnic nc inicrrcgcç4c ccmc nc cjirmcç4c
!cs cniimcmcs.
3.19 ÷ O epíIogo: A ccnc|us4c .isc !ispcr jc.crc.c|mcnic cs
cu.inics cm rc|cç4c cc crc!cr c !csjc.crc.c|mcnic cm rc|cç4c cc
c!.crs4ric. Visc icm|cm c cmp|ijiccç4c !c cssunic c c !cspcricr !c
mcmcric !cs cu.inics pcrc cs crgumcnics jun!cmcnicis.
6. A retðrica peripatética
O !cscpcrccimcnic !c mcicr pcric !c |iicrciurc cniigc impc!c-
-ncs !c jczcr umc c.c|icç4c jusic c ccmp|cic !c impccic ¡uc c Reló-
rica !c Arisicic|cs ic.c nc irc!iç4c pcsicricr.
Umc ccisc, pcrcm, sc|cmcs. ¡uc, ccmc c|scr.c Rc|cn! 8cri|cs,
«ic!cs cs c|cmcnics !i!4ciiccs ¡uc c|imcnicm cs mcnucis c|4ssiccs
.cm !c Arisicic|cs»
59
.
A c|rc !c Arisicic|cs c jun!cmcnic| pcrc c ccnsc|i!cç4c |isic-
ricc !c rcicricc, n4c sc pcr¡uc !cjinc c cc|crc c suc junç4c, mcs icm-
|cm pcr¡uc csic|c|ccc cs ccicgcrics in!ispcns4.cis c ccnsiiiuiç4c !c
sisicmc rcicricc. Os ircic!cs rcicriccs pcsicricrcs ir4c ccmp|cmcnicr
c cpcrjciçccr cspccics ccncrcics !c cs¡ucmc !c |csc c!cpic!c, cssu-
min!c-c ccmc um mcrcc iccricc |csiccmcnic in!csiruii.c| c pcrmc-
59
Op. cii., p. 155.
51
ncccn!c jicis c suc csscncic
6O
. O cs¡ucmc simp|cs c pr4iicc ¡uc Aris-
icic|cs !cscn.c|.cu ccc|cu cssim pcr sc icrncr cm|ricncricmcnic um
mc!c|c pcrc cs mcis cm|icicscs c ccmp|cxcs mcnucis !c rcicricc ¡uc
jcrcm surgin!c cc |cngc !c pcric!c |c|cnisiicc c !c cpccc impcric|.
Ici scm !u.i!c c Arisicic|cs ¡uc Ciccrc c Quinii|icnc !c.crcm
c suc inspircç4c rcicricc. Mcs jci sc|rciu!c ccm c prcgmciismc !cs-
ics ¡uc ccmp|cmcnicrmcnic sc prc!uziu umc sisicmciizcç4c rcicricc
cin!c mcis cccrcnic c sc|i!c. |m mcc!cs !c sccu|c || c. C., cs rcicriccs
grcgcs ccmcçcrcm c jun!cr cscc|cs !c rcicricc cm Rcmc, |cnçcn!c
ccm c|cs cs jun!cmcnics !c umc jccun!cnic irc!iç4c rcicricc |ciinc.
O ircic!c mcis cniigc cm |ciim ¡uc !cssc cxpcricncic rcsu|icu jci c
Rlelorica ad Herennium, c|rc cncnimc !c 84/83 c. C., crc ciri-
|ui!c c Ciccrc crc c Ccrnijicic
61
. Ojcrccc-ncs umc sisicmciizcç4c
cxcusii.c !c jcncmcnc rcicricc, pcucc sc !isicncicn!c !c pcrc!igmc
crisicic|icc, mcs prcpcrcicncn!c-ncs, pcr ccrcscimc, umc sinicsc !cs
jcncmcncs ¡uc mcrccrcm c cxpcricncic crcicric |c|cnisiicc, ccm umc
mcis c|crc inci!cncic ncs iccrics !c ot6ot¸ c !c c|ccuç4c.
Sc, ccm Arisicic|cs sc ccnsc|i!crcm cs jun!cmcnics !c iccric
rcicricc, ccm cs scus !iscipu|cs c ccniinuc!crcs !cscn.c|.cu-sc, cprc-
jun!cu-sc c csiu!c !c mcsmc, c !i|cicu-sc c cm|iic !c suc cp|iccç4c.
6O
As diferenles conlribuições que se sucedem, nomeadamenle a de
Hermágoras de Temnos, no sécuIo II a. C., sobre os eslados de causa, e a
de Demélrio de IaIeros Sc|rc c |sii|c, são exempIo disso.
61
Vi!c Guy Aclard, R|cicri¡uc c Hcrcnnius, inlr. e lrad., Iaris, Ies
BeIIes Iellres, 1989, pp. V-XIV.
52
Scn!c c pcric!c |c|cnisiicc ccn|cci!c ccmc um icmpc !c cui!c!c
cxpcns4c c sisicmciizcç4c !c ccn|ccimcnic |umcnc, n4c c pcis !c
c!mircr ¡uc c c|c.c!c .c|cr ciri|ui!c c c!uccç4c c c .incu|c !csic c
rcicricc .icsscm c cnccrcjcr cin!c mcis c !cscn.c|.imcnic !cs ccn-
.cnçccs rcicriccs ccmc impcricnic rcmc !c sc|cr. A cicnç4c !c!c,
¡ucsc cic c cxcusi4c, c ic!cs cs pcsscs !c sisicmc rcicricc c umc !cs
sucs grcn!cs ccniri|uiçccs ncsic pcric!c. | c ccsc !cs inc.c!crcs
iccrics !c llesis/lypollesis c !cs slaseis nc cm|iic !c inuenlio, c
!c cspccic| cicnç4c !c!c cs iccniccs !c csii|c c ccmpcsiç4c nc cm|iic
!c eIoculio, c c !cs mcis !i.crscs cxcrcicics !c rcicricc nc cm|iic !c
disposilio.
Dcs muiics cscriics sc|rc iccric rcicricc prc!uzi!cs ncsscs irc-
zcnics cncs, c cxccpç4c !c ircic!c !c Dcmciric Sobre o LsliIo, pcu-
cc mcis ncs rcsic !c ¡uc ciicçccs jrcgmcni4rics, pcr4jrcscs c ccmcn-
i4rics c|ii!cs c pcriir !c c|rc !c cuicrcs rcmcncs c grcgcs !c jim
!cssc pcric!c cu cpccc impcric| ¡uc sc scguiu. O !cscpcrccimcnic
!cssc ri¡uissimc ji|4c |iicr4ric impc!c-ncs !c jczcr umc c.c|icç4c
cxcusii.c !c impccic ¡uc a Relórica !c Arisicic|cs ic.c nc irc!iç4c
pcsicricr, c !c ccniri|uic c.cnçc!c pc|cs scus ccniinuc!crcs nc ccn-
sc|i!cç4c !c sisicmc. Pcrmiic-ncs, ccniu!c, scniir ¡uc c c|rc rcsu|-
icnic pcrmcnccc jic| c csscncic !c mc!c|c crisicic|icc.
N4c c|sicnic c grc!uc| c!cpicç4c c mc!ijiccç4c c ¡uc cssc mc-
!c|c jci scn!c sujciic, c Relórica !c Arisicic|cs cssumc-sc, !c jccic,
ccmc um mcrcc iccricc |csiccmcnic in!csiruii.c|. Mcs cssc cs¡ucmc
simp|cs c pr4iicc !c cp|iccç4c !c |cgicc c rcicricc rccc|cu nc cpccc
um ircicmcnic !c cxpcns4c ¡ucsc i4c ccmp|cic ccmc c ¡uc c irc!i-
ç4c rcicricc |ciinc rcj|ccic c pcrpciuc.
53
1c| jcncmcnc !c.c-sc, cm pcric, c icn!cncic| cprcximcç4c !cs
sisicmcs crisicic|icc c isccr4iicc, rcprcscnicn!c c primcirc c ccrrcnic
!c rcicricc ji|cscjicc c c scgun!c c !c rcicricc iccnicc c scjisiicc
62
.
Icncmcnc !c ¡uc !4c icsicmun|c icnic c De inuenlione !c Ciccrc
63
,
ccmc c cuicr !c Rlelorica ad Herennium
64
. Pcis sc, pcr um |c!c,
cssinc|cm cs principcis ircçcs !c c.c|uç4c !c iccric rcicricc, ncmcc-
!cmcnic c cumcnic !cs pcrics !c sisicmc !c ircs pcrc cincc
65
, c
cumcnic !cs pcrics !c !iscursc !c ¡ucirc pcrc scis
66
, c cxpcns4c
|cgicc !cs prcprics cs¡ucmcs !c crgumcnicç4c, c c !cscriç4c !c ccn-
icncs !c jigurcs, pcr cuirc rc|c.cm c ccr4cicr cscc|cr !cssc mcsmc
62
Cf. Cícero, Dc inucniicnc, 2.8. A lradição sofíslica é por vezes re-
ferida como isocrálica, não obslanle Isócrales se laver demarcado dos de-
mais sofislas no seu lralado Ccnirc cs Scjisics, lralado em que alaca ou-
lros sislemas de educação e faz doulrina sobre os princípios e mélodos
da sua escoIa.
63
Dc inucniicnc, 1.16, 2.8. Como oporlunamenle observa AIbrecll
DielI, «Cicero inlroduced lo Rome vlal vas llen lle mosl up-lo-dale
syslem of pliIosoplicaI rleloric, as laugll by lle academicians IliIo and
Anlioclus» (A Hisicrµ cj Grcc| Iiicrciurc. Ircm Hcmcr ic i|c Hc||cnisiic
Pcric!, Iondon and Nev York, RoulIedge, 1994, p. 285).
64
Lscrila por um conlemporâneo de Cícero, esla obra refIecle subs-
lanciaImenle a doulrina da fonles gregas anleriores e, segundo Guy
Aclard, «apparaîl bien

comme une synllèse enlre Ia lradilion arisloléIe-
cienne el Ia lradilion isocraléenne».
65
IeIo acréscimo da cciic e da mcmcric.
66
IeIo acréscimo da prcpcsiiic ou !iuisic, e da rcjuiciic, ccnjuiciic ou
rcprc|cnsic.
54
iccric
67
, n4c sc .c|crizcn!c ncs scus curricu|cs cs iccniccs !c imiic-
ç4c |iicr4ric, mcs icm|cm imp|cmcnicn!c c pr4iicc !c cxcrcicics !c
ccmpcsiç4c sc|rc cs mcis !i.crscs icmcs.
Hcrm4gcrcs !isiinguc-sc, cnirc cs muiics prcjissicncis !c rcic-
ricc !c scu icmpc
68
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pcr icr si!c c primcirc c !cscn.c|.cr c !cuirinc !c slasis
69
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7O
, mcs icm-
|cm c !i.is4c !cs ¡ucsiccs pc|iiiccs
71
cm !ucs c|csscs. 0rort¸ c
67
R|cicricc c! Hcrcnnium, 1.1.
68
«Tle firsl dislinguisled professionaI leacler of rleloric afler
Isocrales vas Hermagoras of Temnos, vlo Iived aboul lle middIe of lle
second cenlury B. C.» (George Kennedy, 1|c Ari cj Pcrsucsicn in Grcccc,
Irincelon, N. }., Irincelon Iniversily Iress, 1974, p. 3O3).
69
Vi!c Ray Nadeau, «Hermogenes' On Sicscis. A TransIalion vill
an Inlroduclion and Noles», Spccc| Mcncgrcp|s, 31, 1964, p. 37O.
7O
QuinliIiano, |nsiiiuiic crcicric, 3.3-9.
71
Queslão poIílica, para Hermágoras, parece ler sido quaIquer coi-
sa que envoIvesse o cidadão. «Il vouId llus embrace aII lle lradilionaI
kinds of oralory and oraloricaI exercises, incIuding vlalever ellicaI or
poIilicaI mallers migll be invoIved in sucl speecles, bul il vouId nol
incIude discussion of melaplysics or abslracl pliIosoplicaI subjecls nol
55
uac0rort¸
72
. Ici c|c, c|i4s, c primcirc rcicr c csicn!cr jcrmc|mcnic
cs icscs cc ccmpc rcicricc !c crgumcnicç4c c c jczcr cspccic| !cu-
irinc sc|rc c cssunic
73
. Ici c|c icm|cm ¡ucm cnjciizcu cs !imcnsccs
|curisiicc c pc|iiicc !c rcicricc, su|.c|crizcn!c c prc.c ciicc c cmc-
cicnc|. Hcr!circ !c umc irc!iç4c cm ¡uc c ccnirc.crsic cnirc ji|csc-
jcs c rcicriccs ccmcçc c !cr sincis !c c|gumc ccnci|icç4c, Hcrm4gcrcs
pcrccc csicr c ¡ucrcr rcmpcr ccm icn!cncics !c crigcm p|cicnicc c
csicicc, scguin!c c |in|c cc|cciicc !c Acc!cmic c !i.i!in!c c ccmpc
!cs ccmpcicncics rcicriccs cm ¡ucsiccs gcrcis c ccnirc.crsics sc|rc
ccscs pcriicu|crcs
74
. Umc |ipcriiç4c ¡uc icnic susicnic ¡uc cs ¡ucs-
somelov reIaled lo poIilicaI Iife» (George Kennedy, 1|c Ari cj Pcrsucsicn
in Grcccc, pp. 3O4-3O5).
72
QuinliIiano, |nsiiiuiic crcicric, 3-5.4-16.
73
M. I. CIarke, «Tle Tlesis in lle Roman RleloricaI SclooIs of lle
RepubIic», C|cssicc| Qucricr|µ, 45, 1951, p. 161. Há leslemunlos em Cícero
(Dc crcicrc, 3.79-8O) e Diógenes Iaércio (5.3) de que ArislóleIes incIuía o
exercício de leses na formação relórica dos aIunos, o que não supunla
necessariamenle uma formação relórica dislinla da diaIéclica (.i!c }an van
Opluijsen, «Wlere are lle Topics Gone`», in Pcripciciic R|cicric cjicr
Arisici|c, Nev Brunsvick and Iondon, Transaclion IubIislers, 1994,
pp. 149-15O).
74
CauleIarmenle, observa M. I. CIarke que, «vleller Hermagoras
vas deIiberaliveIy and provocaliveIy cIaiming for rleloric vlal lad
lillerlo beIonged lo pliIosoply is doublfuI. He seems lo lave done
nolling lo impIemenl lis cIaim, and lle rleloricians conlinued lo ignore
generaI queslions.» (R|cicric ci Rcmc. A Hisicricc| Sur.cµ, Iondon and Nev
York, RoulIedge, 1996, p. 9.) Cf. Cícero, Dc crcicrc, 1.86, 2.78, 3.11O.
56
iccs gcrcis n4c s4c pcirimcnic cxc|usi.c !c ji|cscjc, ccmc |c|i|iic c
crc!cr c jczcr usc !c|cs nc gcncrc|izcç4c !c scu prcpric pcnscmcnic.
Ccmc rcsu|ic!c !csic c|crijiccç4c iccnicc, !cscn.c|.cu Hcrm4-
gcrcs c iccric !c slasis
75
jccc c ncccssi!c!c !c c crc!cr .crijiccr sc
um !cicrminc!c icmc cm !iscuss4c icm cu n4c ccnsisicncic pcrc c
ccn.cnicnic ircicmcnic rcicricc. Anics !c|c, c cssunic jcrc circuns-
icncic|mcnic rcjcri!c cu ircic!c
76
, mcs sc ccm c|c rccc|cu c !cscn-
.c|.imcnic c c sisicmciizcç4c ¡uc mcrccic. 1c!c c iccric !c slasis
!cpcis !c|c rcj|ccic cs mcrccs !c suc cc!ijiccç4c
77
.
75
A paIavra o ot6ot¸ significa, em leoria relórica, o ponlo em ques-
lão em quaIquer confIilo verbaI. Tanlo o lermo grego como o Ialino sicius
ou ccnsiiiuiic significam poslura, a posição em que cada parle em Iilígio
se coIoca na defesa da sua posição e no alaque da posição conlrária, islo
é, o ponlo de parlida dos respeclivos argumenlos.
76
Sobre os usos da sicsis anles de Hermágoras, .i!c Riclard VoIk-
mann (Dic R|cicri| !cr Gricc|cn un! Rcmcr, Ieipzig, Teubner, 1885, pp. 38-
-92), Oclave Navarre (|ssci sur |c r|cicri¡uc grcc¡uc c.cni Arisicic, Iaris,
Haclelle, 19OO, pp. 259-271) e, em especiaI, QuinliIiano (|nsiiiuiic crcicric,
3.6.3, 3.6.31).
77
Tanlo em Cícero, como no aulor da R|cicricc c! Hcrcnnium, e so-
breludo em Hermógenes de Tarso, que simpIesmenle a compIemenlou e
aperfeiçoou |o seu lralado Hrpì ot6oræv, escrilo por voIla de 176 a. C.,
esleve presenle nos programas de educação relórica por mais de um mi-
Iénio e leve a primeira edição impressa em 15O8 (.i!c }anel B. Davis,
«Slasis Tleory», in |ncµc|cpc!ic cj R|cicric cn! Ccmpcsiiicn, Nev York and
Iondon, GarIand, 1996, pp. 693-695)j.

Qucnic c eIoculio, 1ccjrcsic c um !cs cxcmp|cs mcis c|c¡ucn-
ics !cs prcgrcsscs ¡uc c iccric rcicricc cxpcrimcnicu ncs cscc|cs
|c|cnisiiccs. Dicgcncs Iccrcic ciri|ui-||c ccrcc !c umc .inicnc !c
c|rcs sc|rc rcicricc
78
, c Ciccrc c Quinii|icnc !4c-ncs nciicic !cs scus
ccnicu!cs circ.cs !c ccmcni4rics, pcr4jrcscs c ciicçccs, mcs c jccic c
¡uc c mcicr pcric !c suc cncrmc prc!uç4c |iicr4ric sc pcr!cu c !c|c
cpcncs ncs rcsicm pcrc c icmc csccsscs jrcgmcnics
79
.
A inj|ucncic !c suc !cuirinc jcz-sc n4c sc scniir ncs 4rccs !c
csii|c c !c prcnuncicç4c !c !iscursc, mcs icm|cm nc !cjiniç4c !c
cpi¡uircmc ccmc crgumcnic ccmp|cic
8O
c nc inicicç4c cc ircicmcnic
!c icsc ccmc cxcrcicic rcicricc. Ici, ic!c.ic, c scu ircic!c Sobre o
LsliIo ¡uc mcis cccniuc!cmcnic ccniri|uiu pcrc ||c pcrpciucr c
mcmcric ccmc c!ucc!cr c iccrizc!cr !c rcicricc
81
. Nc |in|c !c irc-
78
Teofraslo escreveu uma Aric Rcicricc, e esludos individuais sobre
oralória forense, deIiberaliva e epidíclica, sobre enlimemas, epiquiremas,
máximas e exempIos, sobre invenção, narração, ampIificação, esliIo, lu-
mor, pronunciação do discurso, elc. (Diógenes Iaércio, 5.42-5O).
79
Cf. W. Iorlenbaugl, I. Huby, R. SlarpIes and D. Gulas (eds.),
1|ccp|rcsius cj |rcsus. Scurccs jcr |is Iijc, Wriiings, 1|cug|i cn! |nj|ucncc,
Ieiden, BriII, 1992, pp. 667-67O, W. Iorlenbaugl, «Tleoplraslus, lle
C|crccicrcs and R|cicric», in Pcripciciic R|cicric cjicr Arisici|c, p. 15.
8O
Vi!c Iriedricl SoImsen, «Tle ArisloleIian Tradilion in Ancienl
Rleloric», in Arisici|c. 1|c C|cssicc| Hcriicgc cj R|cicric, Keill Lrickson
(ed.), Meluclen, N. }., Scarecrov Iress, 1974, pp. 278-3O9.
81
TaIvez por ser o lralado mais vezes referido. São, conludo, pou-
cos os fragmenlos do Hrpì ìr¸ræ¸, e Iô-Ios não é fáciI (cf. Maria Tanja
58
!iç4c crisicic|icc, 1ccjrcsic !cscn.c|.cu cs i!cics !c mcsirc, inirc!u-
zin!c cxp|iciicmcnic pc|c primcirc .cz nc sisicmc cs ¡ucirc .iriu!cs
!c csii|c
82
c, pcr.cniurc, in.cnicn!c c !cuirinc !cs ircs csii|cs
83
.
Sugcrc Gccrgc Kcnnc!µ, ccm jun!cmcnic ncs cuicrcs ¡uc c
rcjcrircm c ccmcnicrcm, ¡uc jci prc.c.c|mcnic 1ccjrcsic ¡ucm cncc-
rcjcu c prcccssc !c i!cniijiccç4c !cs jigurcs, c ¡uc| |c.cu cs scus su-
Iuzzallo, «I'oraloria, Ia relorica e Ia crilica Ielleraria daIIe origini ad
Lrmogene», in Dc Omcrc cg|i A|csscn!rini. prc||cmi c jigurc !c||c |ciicrciurc
grcic, ed. G. Arriglelli ci c|., Roma, NIS, 1988, p. 223).
82
Cícero, Orcicr, 33.79ss, Dc crcicrc, 3.1O.37 ss, QuinliIiano, |nsiiiuiic
crcicric, 8.1-11. LvoIução Iinear de uma simpIes virlude presenle em Aris-
lóleIes (a cIareza, Rcicricc, 3, 14O4b1) para as qualro de Teofraslo, as cin-
co dos eslóicos, as muilas virludes acessórias de Dionísio de HaIicarnasso,
e finaImenle para a ainda mais compIexa cIassificação das lóret de
Hermógenes (}. Slroux, Dc 1|ccp|rcsii .iriuii|us !iccn!i, Ieipzig, 1912,
pp. 125-126).
83
«If Tleoplraslus did invenl lle doclrine of lle llree slyIes il is
nol grealIy lo lis credil.» (M. I. CIarke, cp. cii., p. 6.) Mas Dionísio de
HaIicarnasso parece supô-Io, ao dizer num passo que, «lrôs são os mo-
dos, segundo Teofraslo, de obler o esliIo eIevado, digno, e não banaI:
a escoIla das paIavras, a sua composição larmoniosa e o uso das figu-
ras» (|sccrcics, 3), e noulro admilir que Ile é alribuída a origem do médio
e mislo (Dcmcsicncs, 3). Como juslamenle observa George Kennedy, «since
lle llird book of Cicero's Dc crcicrc is leaviIy indebled lo Tleoplraslus'
On siµ|c, lle presence of lle lleory of lle llree slyIes in Cicero's vork is
some indicalion llal lley may lave been found in Tleoplraslus» (1|c
Ari cj Pcrsucsicn in Grcccc, p. 279).
59
ccsscrcs c jcrmu|cç4c !c |isics ¡ucsc inicrmin4.cis
84
. Ici, pcrcm,
Dcmciric ¡ucm, nc mcsmc |in|c !c inj|ucncic pcripciciicc, mcis
cprcjun!cu c mcicric rc|cii.c cc csii|c c c ccmpcsiç4c
85
, c ¡ucm cji-
nc| !cu cs primcircs sincis !c c|criurc cc jcncmcnc !c ¡uc iric rc-
su|icr c |iicrciurizcç4c !c prcpric rcicricc.
A primcirc pcric !c scu De eIoculione (1-35), !c!icc!c cc cs-
iu!c !cs csiruiurcs riimiccs c pcric!iccs, rcj|ccic ccmc jcnic prim4-
ric c !cuirinc crisicic|icc. Ac ccupcr-sc !c ccrccicrizcç4c !cs .4rics
iipcs !c pcric!c ÷ |isicricc, !ic|cgicc c crcicric ÷ susicnic, ccm
Arisicic|cs, ¡uc c prcsc rcicricc icm ic!c c .cnicgcm cm scr riimicc.
Susicnic icm|cm ¡uc c csii|c pcric!icc, crgcnizc!c ccmc um ic!c
84
1|c Ari cj Pcrsucsicn in Grcccc, pp. 276-278.
85
Alé lá bem pouco lempo creu-se que o aulor do lralado Dc
c|ccuiicnc foi Demélrio de IaIeros, mas os esludiosos põem cada vez mais
em causa essa lipólese. A evidôncia inlerna do esliIo álico Ievou acadé-
micos como G. M. A. Grube (A Grcc| Criiic. Dcmcirius cn Siµ|c, P|ccnix,
suppI., voI. 4, Toronlo, Toronlo Iniversily Iress, 1961) a argumenlar a
favor de uma composição da primeira fase do período leIeníslico (cerca
de 27O a. C.), mas oulros, como W. Rlys Roberls (Dcmcirius cn Siµ|c, Nev
York, Arno, 1979) e D. M. SclenkeveId (Siu!ics in Dcmcirius cn Siµ|c,
Amslerdam, Hakkerl, 1964), a suslenlar uma auloria alicizanle mais lar-
dia (o sécuIo I a. C.). George Kennedy sugere uma dala de composição
que aponla para o princípio do sécuIo I a. C., muilo embora IiIodemo
ainda a alribua, por voIla de 7O a. C., a Demélrio de IaIeros (A Ncv
Hisicrµ cj C|cssicc| R|cicric, Irincelon, Irincelon Iniversily Iress, 1994,
p. 88, n. 1O).
60
csiruiurc| ccm principic c jim, cjcrccc cc !iscursc cs mcsmcs prcpric-
!c!cs ¡uc c riimc, scn!c cin!c mcis cjiccz ¡ucn!c csiruiurc!c
cniiiciiccmcnic. Cc!c pcric!c icr4 i!cc|mcnic cnirc !cis c ¡ucirc mcm-
|rcs, mcs mcis signijiccii.cs ¡uc c !imcns4c s4c c suc .cric!c!c c c
suc cccrcncic inicrnc, mcis impcricnic !c ¡uc c numcrc !cs uni!c!cs
¡uc c inicgrcm c c c¡ui|i|ric |cmcgcncc c |crmcnicc !c suc jcrmc,
ccmc csircicgic psicc|cgiccmcnic .iic|izc!crc !c um ccnicu!c.
A pcric mcis su|sicncic| !c De eIoculione ccupc-sc, cnircicn-
ic, !c in.u|gcr iccric !cs ¡ucirc csii|cs, pcr cpcsiç4c ccs !cis
86
cu
ircs prcpcsics pc|cs scus prc!cccsscrcs
87
, ncmcc!cmcnic, c csii|c sim-
p|cs, c mc!ic cu c|cgcnic, c c|c.c!c, c c .ccmcnic. |sic u|iimc, pc-
rcm, pcucc mcis c !c ¡uc umc .cricnic !c icrccirc. cu, nc c|cssijicc-
ç4c !c Hcrmcgcncs, umc jcrmc !c csii|c ¡uc sc !isiinguc cnirc cs
!cmcis ccmc c usc ccrrccic !c ic!cs cs csii|cs
88
.
|m sumc, c c|rc !c 1ccjrcsic sc|rc cs .iriu!cs !c csii|c, cs
csiu!cs !c Dcmciric sc|rc c pcric!c crcicric, c csii|c c c ccmpcsiç4c,
c ccniri|uiç4c !c Hcrm4gcrcs pcrc c !cjiniii.c .incu|cç4c !c icsc c
rcicricc c c !cscn.c|.imcnic !c iccric !cs csic!cs !c ccusc, c ccn-
86
Cf. Demélrio, Dc c|ccuiicnc, 2.36.
87
ArislóleIes, Rcicricc, III, 1, cf. Cícero, Orcicr, 75-1OO.
88
Artvetp¸, a sélima forma ideaI de esliIo, é nada mais do que o
uso adequado de lodos os esliIos. Ima forma de esliIo lão imporlanle
que Hermógenes Ile promele dedicar um esludo em separado (Hermó-
genes, Hrpì lóræv, 2.368-38O. Cf. CeciI Woolen, Hcrmcgcncs cn 1µpcs cj Siµ|c,
ClapeI HiII, Tle Iniversily of Norll CaroIina Iress, 1987, p. XVI).
61
ccpç4c, cnjim, !c um ccncnc |4sicc !c cxcrcicics rcicriccs s4c, nc scu
ccnjunic, um icsicmun|c .i.c !c cnri¡ucci!c c !i.crsijicc!c cprc-
jun!cmcnic !c sisicmc crisicic|icc. O ccrpc !c !cuirinc pcr c|cs
!cscn.c|.i!c c .cicu|c!c jci c jun!cmcnic iccricc !c ic!c c cnsinc
¡uc cs mcsircs !c rcicricc pcsscrcm ccs scus !iscipu|cs cc |cngc !c
.4rics sccu|cs. Dc|cs ncs !4c nciicic cs grcn!cs mcnucis !c c!ucc-
ç4c crcicric ¡uc cni4c sc usc.cm ncs cscc|cs !c impcric rcmcnc. Pcis,
ccmc jusicmcnic c|scr.c Gccrgc Kcnnc!µ, nc|cs sc .crijiccm .cric-
çccs !c cnjcsc c icrminc|cgic, mcs pcucc mcis. Mcsmc cs ccniri|ui-
çccs pcssccis !c Ciccrc c Quinii|icnc csi4c |cngc !c ccmprcmcicr cs
ccn.cnçccs ¡uc cnjcrmcm c ccncnc iccricc !c rcicricc |c|cnisiicc
89
.
Os .c|crcs !c paideia isccr4iicc inspircrcm nc cpccc |c|cnisiicc
umc jcrmc !c c!uccç4c cmincnicmcnic rcicricc, !cmincnic mcsmc
ncs cscc|cs !c ji|cscjic. Dc icns4c cni4c gcrc!c pcr jcrçc !c ccn.i.ic
cnirc csscs !ucs jcrmcs ri.cis !c cu|iurc ÷ umc crcicric c cuirc
ji|cscjicc ÷ rcsu|icu c cxpcricncic !c sinicsc ¡uc cs rcicriccs rcmc-
ncs cnccrncrcm. Pcr um |c!c, c jrcnicirc cnirc csscs !cis ccmpcs
!i|uiu-sc c pcriir !c Hcrm4gcrcs c cnscicrcm-sc cs ccmin|cs !c umc
rcicricc cc!c .cz mcis ji|cscjicc. Pcr cuirc |c!c, c cxpcricncic rcic-
ricc !cmincnic jci !cn!c sincis !c c|criurc crcsccnic à eIoculio c
icn!cu c cjirmcr-sc ccmc iccric |iicr4ric. A jcrmc c!cpic!c pc|c cu|-
iurc grcgc nc scu ni.c| mcis c|c.c!c ccc|cu, pcis, pcr scr c c|c¡ucn-
89
George Kennedy, C|cssicc| R|cicric cn! iis C|risiicn cn! sccu|cr
1rc!iiicn jrcm Ancicni ic Mc!crn 1imcs, ClapeI HiII, Tle Iniversily of
Norll CaroIina Iress, 198O, p. 89.
62
cic, c cric !c jc|cr c !c cscrc.cr
9O
. Dc cric !c pcrsuc!ir, c rcicricc
jci-sc ircnsjcrmcn!c cm cric !c cricr. |, cn¡ucnic iccnicc cu cric !c
!iscursc, c|c ccc|cu pcr sc uscr n4c sc pcrc prc!uzir icxics !c cc-
r4cicr mcis cu mcncs pcrsucsi.c, mcs icm|cm pcrc cnc|iscr cs icx-
ics prc!uzi!cs
91
. |ssc crc c c|jccii.c !cs cxcrcicics rcicriccs. |cr rc-
icriccmcnic cs icxics, c cxcrciicr-sc nc c|c|crcç4c !c icmcs ccm |csc
ncs mc!c|cs !c csiruiurc ¡uc cs prcprics icxics inspirc.cm
92
.
7. A traduçãn da RetórIcu
A prcscnic irc!uç4c rcsu|ic !c irc|c||c !cscn.c|.i!c ccm c cs-
irciic cc|c|crcç4c !c !cis cuircs cc|cgcs. A|c| !c Ncscimcnic Pcnc,
¡uc irc!uziu c Ii.rc ||, c Pcu|c Icrm|cusc A||cric, ¡uc irc!uziu c
9O
H.-I. Marrou, «Lducación y Relórica», in M. I. IinIey (ed.), || Ic-
gc!c !c Grccic. Unc Nuc.c Vc|crccicn, BarceIona, LdiloriaI Crílica, 1983,
p. 2O6.
91
No capíluIo sobre a educação dos jovens, LIio Téon diz que o
professor devia começar por seIeccionar bons exempIos de lexlos anligos
para cada um dos exercícios e Ievar os aIunos a esludá-Ios a fundo
|Prcgµmncsmcic, }ames R. Bulls (ed.), Iniversily MicrofiIms InlernalionaI,
1986, 2.1-1Oj.
92
Diz Téon de AIexandria mais adianle que «a prálica dos exercí-
cios é absoIulamenle necessária não só para os que se preparam para ser
oradores, mas lambém para aqueIes que desejam ser poelas ou prosado-
res (i|i!cm, 2.138-143).
63
Ii.rc |||. A c!iç4c c!cpic!c jci c !c W. D. Rcss, ArisloleIis Ars
Rlelorica, Oxjcr!, Oxjcr! Uni.crsiiµ Prcss, 1959
93
. | c irc!uç4c,
nc scu inicnic !c supcrcr cs !ijicu|!c!cs impcsics pc|c prcpric icxic,
rcspcn!c c criicrics |crmcncuiiccs !c c|crijiccç4c ¡uc c .iscm icrncr
mcis inic|igi.c| cc |ciicr mc!crnc. Scguiu-sc, pcrc icnic, c mcic!c
!c c¡ui.c|cncic !incmicc, c n4c c !c purc ccrrcspcn!cncic jcrmc|,
pcr c¡uc|c mc||cr pcrmiiir c ircnsjcrcncic !cs i!cics cxprcsscs nc
|inguc !c crigcm pcrc c ncssc |inguc scm !c|cs minimcmcnic sc
pcr!cr c csscncic !cs scus ccnicu!cs. 1cnic mcis ¡uc c |inguc !c
Arisicic|cs sc ccrccicrizc pc|cs sucs breuiIoquenlia c !cnsi!c!c c|ip-
iicc, cxigin!c pcr .czcs umc rccsiruiurcç4c mcis ccnscnicncc ccm c
!incmicc prcpric !c |inguc rcccpicrc.
Apcrcnicmcnic c ccnircricr csic nciurc| icn!cncic pcrc umc
irc!uç4c prcgm4iicc, ccnscr.cu-sc pcr ircns|iicrcç4c um pc¡ucnc
numcrc !c icrmcs iccniccs, pcr sc cnicn!cr ¡uc c|cs icm rcizcs i4c
prcjun!cs nc |isicric !cs i!cics ¡uc su|siiiui-|cs pc!cric cin!c icr-
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ReIembra-se que esle voIume é uma reedição, o que juslifica o
afaslamenlo em reIação à norma fixada na |nirc!uç4c Gcrc|. (Nola do
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RETÓRICA
LIVRO I
89
1
A NATUREZA DA RETÓRICA
A relórica
1
é a oulra face
2
da diaIéclica, pois ambas se
ocupam de queslões mais ou menos Iigadas ao conlecimenlo
comum e não correspondem a nenluma ciôncia em parlicuIar.
De faclo, lodas as pessoas de aIguma maneira parlicipam de
uma e de oulra, pois lodas eIas lenlam em cerla medida ques-
lionar e suslenlar um argumenlo
3
, defender-se ou acusar
4
.
SimpIesmenle, na sua maioria, umas pessoas fazem-no ao
acaso, e, oulras, medianle a prálica que resuIla do lábilo.
L, porque os dois modos são possíveis, é óbvio que seria lambém
possíveI fazer a mesma coisa seguindo um mélodo. Iois é pos-
1354a
1
B pptcptkq, adjeclivo usado como nome abslraclo, correspondendo
a p tr¿vp pptcptkq.
2
'AvtIotpcçc¸ lraduz-se normaImenle por «correIalivo». Na Iírica co-
raI, a eslrulura mélrica de uma otpcçq repele-se na evttotpcçq, represen-
lando a primeira o movimenlo numa direcção, e a segunda o movimenlo
conlrário. Ambos, porém, em coordenação oposla e compIemenlar, como
arles que lôm semeIlanças gerais e diferenças específicas. Como observa
L. M. Cope, duas espécies de um mesmo género, a prova, dois modos de
prova que afinaI se dislinguem peIa diferença dos meios probalórios que
empregam: um, o siIogismo formaI compIelo e a indução geraI, o oulro, o
enlimema formaImenle incompIelo e o exempIo (1|c R|cicric cj Arisici|c,
vii| c Ccmmcnicrµ, Cambridge, Iniversily Iress, 1877, p. 2). Lsle paraIe-
Iismo enlre relórica e diaIéclica é aIiás aceile por Cícero, ao lraduzir a
afirmação de ArislóleIes por «ex aIlera parle respondere diaIeclicae» (Orc-
icr, 32.114).
3
Como na diaIéclica.
4
Como na relórica.
90
síveI esludar
5
a razão peIa quaI lanlo são bem sucedidos os que
agem por lábilo como os que agem esponlaneamenle, e lodos
faciImenle concordarão que laI esludo é larefa de uma arle
6
.
Ora, os que alé loje compuseram lralados de relórica
ocuparam-se apenas de uma parle dessa arle
7
, pois só os ar-
gumenlos relóricos
8
são próprios deIa, e ludo o reslo é acessó-
rio. LIes, porém, nada dizem dos enlimemas
9
, que são afinaI o
corpo da prova, anles dedicam a maior parle dos seus lralados
a queslões exleriores ao assunlo, porque o alaque verbaI
1O
, a
compaixão, a ira e oulras paixões da aIma semeIlanles a eslas
não afeclam o assunlo, mas sim o juiz
11
. De sorle que, se se
apIicasse a lodos os juIgamenlos a regra que acluaImenle se
apIica em aIgumas cidades, sobreludo nas bem governadas,
aqueIes aulores nada leriam para dizer.
5
Cræprtv significa IileraImenle «ver», mas com a impIicação de
«leorizar», daquiIo que pode ser objeclo de leorização ou esludo.
6
Como tr¿vp, a relórica é, para ArislóleIes, um corpo de regras e
princípios gerais que a razão pode conlecer, uma forma de ratotqµp, por
oposição à mera rµartpIe, o grau inlermédio enlre a simpIes experiôncia
prálica e o conlecimenlo pIenamenle cienlífico (cf. W. M. A. GrimaIdi,
Arisici|c, R|cicric |. A Ccmmcnicrµ, Nev York, Iordlam Iniversily Iress,
198O, pp. 4-6).
7
Como observa GrimaIdi, esla frase lem sido objeclo de várias Iei-
luras, mas Ieiluras que não põem em causa a essôncia do seu senlido.
O próprio conlexlo expIicila o que ArislóleIes lem em menle, pois anun-
cia a seguir que o que os lecnógrafos conlemporâneos fizeram foi apre-
senlar apenas uma pequena parle da tr¿vp. Ao crilicá-Ios, por se concen-
lrarem basicamenle no eslímuIo de uma resposla emocionaI, ArislóleIes
eslá simpIesmenle a dizer que eIes apenas escreveram sobre uma peque-
na parle da arle relórica. Não nega, porlanlo, que os a60p sejam parle da
arle relórica. O que põe em causa é o seu mau uso.
8
O lermo aIott¸ difere no senlido conforme os conlexlos: fé, meio
de persuasão, prova. Lm ArislóleIes, significa normaImenle «prova», «pro-
va Iógica», «argumenlação», «argumenlo Iógico» ou «argumenlo relórico».
A parlir daqui, lraduzimo-Io simpIesmenle por «prova». ArislóleIes dis-
lingue duas calegorias de provas ÷ arlíslicas e não arlíslicas ÷ e cIassifi-
ca as primeiras em lrôs espécies: prova élica, prova Iógica e prova emo-
cionaI ou palélica.
9
Lnlimema é um siIogismo relórico: a forma deduliva de argumen-
lação relórica que lem no paradigma a sua forma induliva.
1O
Ateþcìq, alaque verbaI caIunioso, que inspira a suspeila.
11
Nada lem a ver com os faclos essenciais, mas são meramenle um
aspeclo pessoaI do lomem que eslá a juIgar o caso.
91
Iois lodos enlendem que as Ieis o devem referir, e aIguns
adoplam mesmo a prálica proibindo que se faIe fora do assun-
lo, como lambém aconlece no Areópago, e com loda a razão,
pois eslá errado perverler o juiz incilando-o à ira, ao ódio ou à
compaixão. TaI procedimenlo equivaIeria a faIsear a regra que
se prelende uliIizar.
AIém disso, é manifeslo que o oponenle nenluma oulra
função lem que a de moslrar que o faclo em queslão é ou não
é verdadeiro, aconleceu ou não aconleceu, quanlo a saber se
eIe é grande ou pequeno, juslo ou injuslo, não lavendo uma
definição cIara do IegisIador, é cerlamenle ao juiz que cabe
decidir, sem cuidar de saber o que pensam os Iiliganles.
L, pois, sumamenle imporlanle que as Ieis bem feilas de-
lerminem ludo com o maior rigor e exaclidão, e deixem o
menos possíveI à decisão dos juízes. Irimeiro, porque é mais
fáciI enconlrar um ou poucos lomens que sejam prudenles e
capazes de IegisIar e juIgar, do que enconlrar muilos. Segundo,
porque as Ieis se promuIgam depois de uma Ionga experiôn-
cia de deIiberação, mas os juízos se emilem de modo impre-
vislo, sendo por conseguinle difíciI aos juízes pronunciarem-
-se reclamenle de acordo com o que é juslo e convenienle.
L, sobreludo, porque a decisão do IegisIador não incide sobre
um caso parlicuIar, mas sobre o fuluro e o geraI
12
, ao passo
que o membro da assembIeia e o juiz lôm de se pronunciar
imedialamenle sobre casos acluais e concrelos. Na sua apre-
ciação dos faclos, inlervôm muilas vezes a amizade, a losliIi-
dade e o inleresse pessoaI, com a consequôncia de não mais
conseguirem discernir a verdade com exaclidão e de o seu
juízo ser obscurecido por um senlimenlo egoísla de prazer ou
de dor.
Quanlo ao mais, voIlamos a dizô-Io, imporla deixar à de-
cisão soberana do juiz o mínimo de queslões possíveI, mas não
se Ile deve sublrair a larefa de verificar se um faclo ocorreu
ou não, se virá ou não a ocorrer, se lem ou não exislôncia reaI,
pois não é possíveI que o IegisIador preveja lodos esses casos.
L, se o que dizemos é exaclo, não resla a menor duvida
de que malérias exlernas ao assunlo são descrilas como arle por
aqueIes que definem oulras coisas como, por exempIo, o que
devem conler o proémio ou a narração, e cada uma das de-
1354b
12
Cf. |i|icc Niccmcc|cc V 14, 1137b13 ss.
92
mais parles do discurso
13
, pois, ao ocuparem-se deslas ques-
lões, nada mais os preocupa senão o modo como poderão criar
no juiz uma cerla disposição. Mas, sobre as provas propriamen-
le arlíslicas, nenluma indicação avançam, islo é, sobre aquiIo
que afinaI lorna o Ieilor lábiI no uso do enlimema.
L por isso que, embora o mesmo mélodo convenla ao
género deIiberalivo e ao judiciaI, e embora a oralória deIibe-
raliva seja mais nobre e mais uliI ao Lslado que a reIaliva a
conlralos, aqueIes aulores nada lôm a dizer sobre o primeiro
género, mas lodos se esforçam por eIaborar a arle do discur-
so judiciaI, porque é menos uliI dizer aIgo fora do assunlo nos
discursos deIiberalivos, e porque a oralória poIílica é menos
nociva que a judiciaI, por ser de inleresse mais geraI. No gé-
nero deIiberalivo, o ouvinle juIga sobre coisas que o afeclam
pessoaImenle e, porlanlo, o conseIleiro apenas precisa de de-
monslrar a exaclidão do que afirma. Mas nos discursos
judicais isso não basla, anles lá loda a vanlagem em calivar
o ouvinle, pois os juízes juIgam sobre queslões aIleias e, por
conseguinle, buscando o seu inleresse e esculando com parcia-
Iidade, acabam por salisfazer a vonlade dos Iiliganles mas não
juIgam como devem. Ior isso, como já disse, a Iei proíbe em
muilos sílios faIar do que é aIleio ao assunlo, ao passo que,
nas assembIeias deIiberalivas, são os próprios ouvinles que
cuidam de o evilar.
Ora, sendo evidenle que o mélodo arlíslico
14
é o que se
refere às provas por persuasão
15
e que a prova por persuasão
1355a
13
Os manuais de relórica demoravam-se no lralamenlo de cada
uma das parles do discurso: nomeadamenle o proémio, a narração, as
provas e o epíIogo.
14
O esludo da relórica em senlido eslrilo.
15
GrimaIdi (pp. 19-2O) reconlece lrôs significados no lermo aIott¸:
1) o eslado de convicção ou confiança subjecliva que resuIla de um racio-
cínio, 2) o mélodo próprio da arle que produz esse eslado de confiança
medianle a redução do argumenlo relórico à sua forma Iógica (enlimema
e exempIo), e 3) as fonles de que procedem as premissas dos argumen-
los, lambém assumidas como espécies de prova (q0c¸, a60c¸ e ìeyc¸). As-
sim, aIott¸ lanlo significa IeaIdade, fé, confiança, como significa evidôn-
cia ou prova digna de fé, e as varianles específicas de nalureza mais Iógica
ou psicoIógica que essas provas podem assumir (cf. David Hay, «Pisiis as
'Ground for Iaill' in HeIIenized }udaism and IauI», jcurnc| cj 8i||icc|
Iiicrciurc, 1O8, 1989, pp. 461-476).
93
é uma espécie de demonslração (pois somos persuadidos so-
breludo quando enlendemos que aIgo eslá demonslrado), que
a demonslração relórica é o enlimema e que esle é, geraImenle
faIando, a mais decisiva de lodas as provas por persuasão, que,
enfim, o enlimema é uma espécie de siIogismo, e que é do
siIogismo em lodas as suas varianles que se ocupa a diaIéc-
lica
16
, no seu lodo ou naIguma das suas parles, e é iguaImenle
evidenle que quem meIlor puder leorizar sobre as premissas
÷ do que e como se produz um siIogismo ÷ lambém será o
mais lábiI em enlimemas, porque sabe a que malérias se apIi-
ca o enlimema e que diferenças esle lem dos siIogismos Iógi-
cos. Iois é próprio de uma mesma facuIdade discernir o ver-
dadeiro e o verosímiI, já que os lomens lôm uma incIinação
naluraI para a verdade e a maior parle das vezes aIcançam-na.
L, por isso, ser capaz de discernir sobre o pIausíveI é ser iguaI-
menle capaz de discernir sobre a verdade.
Iica porlanlo cIaro que os oulros aulores lralam denlro
desla arle o que é aIleio ao assunlo, como cIaras ficam as ra-
zões por que eIes sobreludo se incIinaram para a oralória judi-
ciaI.
Mas a relórica é uliI porque a verdade e a jusliça são por
nalureza mais forles que os seus conlrários. De sorle que, se os
juízos se não fizerem como convém, a verdade e a jusliça se-
rão necessariamenle vencidas peIos seus conlrários, e isso é
digno de censura. AIém disso, nem mesmo que livéssemos a
ciôncia mais exacla nos seria fáciI persuadir com eIa cerlos
audilórios. Iois o discurso cienlífico é próprio do ensino, e o
ensino é aqui impossíveI, vislo ser necessário que as provas por
persuasão e os raciocínios se formem de argumenlos comuns,
como já livemos ocasião de dizer nos 1cpiccs
17
a propósilo da
comunicação com as muIlidões. AIém disso, é preciso ser ca-
paz de argumenlar persuasivamenle sobre coisas conlrárias,
como lambém aconlece nos siIogismos, não para fazer uma e
16
DiaIéclica é, em IIalão e ArislóleIes, um conceilo abrangenle.
Apresenla-se na Rcpu||icc de IIalão (531-539) como eIemenlo delerminanle
e vilaI na educação do fiIósofo. Ioderá definir-se como arle diaIógica de
argumenlação que examina proposições lipolélicas e não cerlas, bem
como as suas consequôncias. ArislóleIes ocupa-se leoricamenle deIa nos
seus 1cpiccs.
17
1cpiccs I 1.
94
oulra coisa ÷ pois não se deve persuadir o que é imoraI ÷ mas
para que nos não escape o reaI eslado da queslão e para que,
sempre que aIguém argumenlar conlra a jusliça, nós próprios
eslejamos labiIilados a refular os seus argumenlos. Ora nenlu-
ma das oulras arles oblém concIusões sobre conlrários por meio
de siIogismos a não ser a diaIéclica e a relórica, pois ambas se
ocupam iguaImenle dos conlrários. Não porque os faclos de
que se ocupam lenlam iguaI vaIor, mas porque os verdadeiros
e meIlores são peIa sua nalureza sempre mais aplos para os
siIogismos e mais persuasivos. AIém disso, seria absurdo que
a incapacidade de defesa física fosse desonrosa, e o não fosse a
incapacidade de defesa verbaI, uma vez que esla é mais pró-
pria do lomem do que o uso da força física.
L se aIguém argumenlar que o uso injuslo desla facuIda-
de da paIavra pode causar graves danos, convém Iembrar que
o mesmo argumenlo se apIica a lodos os bens exceplo à virlu-
de, principaImenle aos mais uleis, como a força, a saude, a ri-
queza e o laIenlo miIilar, pois, sendo usados juslamenle, pode-
rão ser muilo uleis, e, sendo usados injuslamenle, poderão
causar grande dano.
L, pois, evidenle que a relórica não perlence a nenlum
género parlicuIar e definido, anles se assemeIla à diaIéclica.
L lambém evidenle que eIa é uliI e que a sua função não é
persuadir mas discernir os meios de persuasão mais perlinen-
les a cada caso, laI como aconlece em lodas as oulras arles,
de faclo, não é função da medicina dar saude ao doenle, mas
avançar o mais possíveI na direcção da cura, pois lambém se
pode cuidar bem dos que já não eslão em condições de re-
cuperar a saude. AIém disso, é evidenle que perlencem a esla
mesma arle o credíveI e o que lem aparôncia de o ser, como
são próprios da diaIéclica o siIogismo verdadeiro e o siIo-
gismo aparenle
18
, pois o que faz a sofíslica não é a capaci-
dade mas a inlenção. Iorlanlo, na relórica, um será relóri-
1355b
18
Como oporlunamenle observa G. Kennedy, «Rleloric uses boll
IogicaIIy vaIid argumenls and probabiIilies. Tle jump lo soplislry in lle
nexl senlence perlaps impIies a recognilion llal 'lle apparenlIy persua-
sive' and 'an apparenl syIIogism' incIude faIIacious argumenls llal
iniliaIIy sound vaIid in an oraI silualion bul viII nol loId up under
scruliny. Boll lle oralor and lle diaIeclician need lo be abIe lo recognize
llese» (cp. cii., p. 35, n. 3O).
95
co
19
por conlecimenlo e oulro por inlenção, ao passo que, na
diaIéclica, um será sofisla por inlenção e oulro diaIéclico, não
por inlenção mas por capacidade
2O
.
Irocuremos agora faIar do mélodo em si: do modo como
e a parlir de que fonles poderemos aIcançar os nossos objecli-
vos. Depois de novamenle definirmos o que é a relórica, como
fizemos no princípio, passaremos a expor o que resla do as-
sunlo.
2
DEFINIÇÃO DA RETÓRICA E SUA ESTRUTURA LÓGICA
Lnlendamos por relórica a capacidade de descobrir
21
o
que é adequado a cada caso com o fim de persuadir
22
. Lsla
19
Na época cIássica, pqtæp era o orador, e circunslanciaImenle lam-
bém o que desempenlava uma função de Iiderança na assembIeia ou um
papeI aclivo no lribunaI. No período romano, o lermo significa por nor-
ma relor, educador, professor de relórica.
2O
A aparenle obscuridade desla cIassificação resuIla da faIla de um
lermo diferenciador no campo semânlico da relórica como aconlece no
da diaIéclica. Como observa Quinlín Racionero: «en Ia diaIeclica, quien
usa reclamenle de Ia facuIlad o capacidad es 'diaIéclico' y quien lace un
uso desviado de Ia inlención, 'sofisla'. Ln Ia relórica, en cambio, eI nombre
es eI mismo en Ios dos casos ÷ eslo es, rcicr, relórico ÷, de modo que
soIo cabe dislinguir enlre un rcicr pcr cicncic (equivaIenle deI diaIéclico) µ
un rcicr pcr inicncicn (equivaIenle deI sofisla).» De sorle que, «Io que
ArislóleIes prelende, de lodos modos, señaIar aquí es que Ios perjuicios
de Ia relórica, en conlra de Ia crílica pIalónica, no eslán Iigados aI arle o
a Ia facuIlad oraloria, sino a Ia inlención moraI deI orador (ArislóleIes,
Rcicricc, Madrid, Gredos, 199O, n. 29, p. 173).
21
Sobre óuveµt¸. tcu 0ræpjoet, .i!c David Melzger, «ArislolIe's Im-
peralive for Rleloric», in 1|c Icsi Ccusc cj R|cicric, CarbondaIe, Soullern
IIIinois Iniversily Iress, 1995, pp. 26-49.
22
Da refIexão que QuinliIiano faz sobre as várias definições cIássi-
cas de relórica (|nsiiiuiic crcicric, 2.1-21), qualro se dislinguem como as
mais represenlalivas: 1) a definição alribuída a Córax e Tísias, Górgias e
IIalão (a relórica como art0cu¸ ópµtcupye¸, criadora de persuasão, 2) esla
de ArislóleIes (relórica como «a capacidade de descobrir os meios de per-
suasão no lralamenlo de quaIquer assunlo»), 3) a alribuída a Hermágoras
de Temnos (relórica como «a capacidade de faIar bem no que respeila ao
lralamenlo e discussão das queslões pubIicas»), 4) e a de QuinliIiano, na
96
não é seguramenle a função de nenluma oulra arle, pois cada
uma das oulras apenas é inslruliva e persuasiva nas áreas da
sua compelôncia, como, por exempIo, a medicina sobre a sau-
de e a doença, a geomelria sobre as variações que afeclam as
grandezas, e a arilmélica sobre os numeros, o mesmo se pas-
sando com lodas as oulras arles e ciôncias. Mas a relórica pa-
rece ler, por assim dizer, a facuIdade de descobrir os meios de
persuasão sobre quaIquer queslão dada. L por isso afirmamos
que, como arle, as suas regras não se apIicam a nenlum géne-
ro específico de coisas.
Das provas de persuasão, umas são próprias da arle reló-
rica e oulras não
23
. Clamo provas inarlíslicas a lodas as que
não são produzidas por nós, anles já exislem: provas como les-
lemunlos, confissões sob lorlura, documenlos escrilos e oulras
semeIlanles, e provas arlíslicas, lodas as que se podem prepa-
rar peIo mélodo e por nós próprios. De sorle que é necessário
uliIizar as primeiras, mas invenlar as segundas.
As provas de persuasão fornecidas peIo discurso são de
lrôs espécies: umas residem no carácler moraI do orador, ou-
lras, no modo como se dispõe o ouvinle, e oulras, no próprio
discurso, peIo que esle demonslra ou parece demonslrar.
Iersuade-se peIo carácler quando o discurso é proferido
de laI maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de
fé. Iois acredilamos mais e bem mais depressa em pessoas
loneslas, em lodas as coisas em geraI, mas sobreludo nas de
que não lá conlecimenlo exaclo e que deixam margem para
duvida. L, porém, necessário que esla confiança seja resuIlado
do discurso e não de uma opinião prévia sobre o carácler do
orador, pois não se deve considerar sem imporlância para a
persuasão a probidade do que faIa, como aIiás aIguns aulores
desla arle propõem, mas quase se poderia dizer que o carácler
é o principaI meio de persuasão.
1356a
Iinla dos relóricos eslóicos (a relórica como «scienlia bene dicendi»,
2.15.21). São diferenças que refIeclem preocupações dislinlas, lanlo sobre
a nalureza e a finaIidade da relórica como sobre os seus objeclo e conleu-
do élico.
23
As expressões 6tr¿vct aIotrt¸ e rvtr¿vct aIotrt¸ lanlo se podem
lraduzir por provas não lécnicas e provas lécnicas, como prefere G. Ken-
nedy, como por inarlíslicas e arlíslicas ou exlrínsecas e inlrínsecas, pois
se lrala das provas que respeclivamenle não perlencem ou perlencem,
resuIlam ou não da lécnica ou arle relórica.

Iersuade-se peIa disposição dos ouvinles, quando esles são
Ievados a senlir emoção por meio do discurso, pois os juízos que
emilimos variam conforme senlimos lrisleza ou aIegria, amor ou
ódio. L desla espécie de prova e só desla que, dizíamos, se len-
lam ocupar os aulores acluais de arles relóricas. L a eIa dare-
mos especiaI alenção quando faIarmos das paixões.
Iersuadimos, enfim, peIo discurso
24
, quando moslramos
a verdade ou o que parece verdade, a parlir do que é persua-
sivo em cada caso parlicuIar.
Ora, como as provas por persuasão se oblôm por esles lrôs
meios, é evidenle que deIas se pode servir quem for capaz de
formar siIogismos
25
, e puder leorizar sobre os caracleres, so-
bre as virludes e, em lerceiro Iugar, sobre as paixões
26
(o que
cada uma das paixões é, quais as suas quaIidades, que origem
lôm e como se produzem). De sorle que a relórica é como que
um rebenlo da diaIéclica e daqueIe saber prálico sobre os ca-
racleres a que é juslo clamar poIílica. L por isso lambém que
a relórica se cobre com a figura da poIílica, e iguaImenle aque-
Ies que lôm a prelensão de a conlecer, quer por faIla de edu-
cação, quer por jaclância, quer ainda por oulras razões ineren-
les à nalureza lumana. A relórica é, de faclo, uma parle da
diaIéclica e a eIa se assemeIla, como dissemos no princípio
27
,
pois nenluma das duas é ciôncia de definição de um assunlo
específico, mas mera facuIdade de proporcionar razões para os
argumenlos.
Sobre a função deslas arles e o modo como eIas se reIacio-
nam enlre si, pouco mais nos resla para dizermos o suficienle.
24
Aeyc¸ significa lanlo raciocínio como discurso, referindo-se mais
propriamenle aqui à verlenle Iógica do discurso persuasivo.
25
Raciocinar Iogicamenle.
26
Compreender o carácler lumano, a virlude em lodas as suas for-
mas e as paixões.
27
Não é sem razão que ArislóleIes aqui evila o uso das calegorias
formais de género e espécie. Ao dizer que a relórica é uma aclividade
paraIeIa à diaIéclica, eIe não eslá a afirmar que eIa é uma espécie da dia-
Iéclica, pois conlém eIemenlos que deIa não são próprios ÷ nomeadamen-
le o efeilo persuasivo do carácler e a emoção. Também não afirma que a
diaIéclica é uma espécie da relórica, embora enfalize a verlenle Iógica
desla e a sua direcla reIação com eIa, e islo laIvez porque a diaIéclica se
ocupa das queslões universais e a relórica das parlicuIares (cf. G. Kennedy,
1991, 39, n. 46).
98
Mas no que loca à persuasão peIa demonslração reaI ou apa-
renle, assim como na diaIéclica se dão a indução, o siIogismo e
o siIogismo aparenle, lambém na relórica aconlece o mesmo.
Iois o exempIo é uma indução, o enlimema é um siIogismo, e
o enlimema aparenle é um siIogismo aparenle. Clamo en-
limema ao siIogismo relórico e exempIo à indução relórica.
L, para demonslrar, lodos produzem provas por persuasão,
quer recorrendo a exempIos quer a enlimemas, pois fora des-
les nada mais lá. De sorle que, se é reaImenle necessário que
loda a demonslração se faça ou peIo siIogismo ou peIa indu-
ção (e isso é para nós cIaro desde os Anc|iiiccs
28
), enlão impor-
la que esles dois mélodos sejam idônlicos nas duas arles.
Quanlo à diferença enlre o exempIo e o enlimema, eIa eslá
cIara nos 1cpiccs
29
(pois já aí se faIou do siIogismo e da indu-
ção). Demonslrar que aIgo é assim na base de muilos casos
semeIlanles é na diaIéclica indução e na relórica exempIo, mas
demonslrar que, de cerlas premissas, pode resuIlar uma pro-
posição nova e diferenle só porque eIas são sempre ou quase
sempre verdadeiras, a isso clama-se em diaIéclica siIogismo e
enlimema na relórica.
L lambém cIaro que cada uma deslas espécies relóricas
lem o seu mérilo, pois, o que foi dilo na Mcic!icc
3O
apIica-se
iguaImenle aqui. De faclo, uns exercícios relóricos são paradig-
málicos e oulros enlimemálicos, e, de iguaI modo, uns orado-
res são meIlores em exempIos e oulros em enlimemas. Não
são, porlanlo, menos persuasivos os discursos baseados em
exempIos, mas os que se baseiam em enlimemas são mais
apIaudidos. Da causa deslas diferenças e do modo como se
deve usar cada um deIes faIaremos mais adianle. De momen-
lo, lenlaremos definir um e oulro com mais precisão.
Alendendo a que o persuasivo é persuasivo para aIguém
(ou é persuasivo e críveI imedialamenle e por si mesmo, ou pa-
rece sô-Io porque demonslrado medianle premissas persuasi-
vas e convincenles), e alendendo a que nenluma arle se ocupa
do parlicuIar ÷ por exempIo, a medicina, que não especifica o
1356b
28
Anc|µiicc pricrc II 23, Anc|µiicc pcsicricrc I 1.
29
1cpiccs I 1, I 12.
3O
Trala-se de uma obra perdida de ArislóleIes. Temos deIa nolícia
em Dionísio de HaIicarnasso, |pisiu|c c! Ammccum., 1.6, 8, no Cci4|cgc,
52, de Diógenes Iaércio, e em Hesíquio MiIésio, Viic Arisi.
99
que é remédio para Sócrales ou CáIias mas para pessoas da sua
condição (pois isso é que é próprio de uma arle, já que o indi-
viduaI é indelerminado e não objeclo de ciôncia) ÷, lão-pouco
a relórica leorizará sobre o prováveI para o indivíduo ÷ por
exempIo, para Sócrales ou Hípias ÷, mas sobre o que parece
verdade para pessoas de uma cerla condição, como lambém faz
a diaIéclica
31
. Iois lambém esla não forma siIogismos de pre-
missas lomadas ao acaso (ainda que assim pareça aos insensa-
los) mas das que o raciocínio requer, e a relórica forma-os da
maléria sobre que eslamos labiluados a deIiberar.
A função desla consisle em lralar das queslões sobre as
quais deIiberamos e para as quais não dispomos de arles espe-
cíficas, e islo peranle um audilório incapaz de ver muilas coi-
sas ao mesmo lempo ou de seguir uma Ionga cadeia de racio-
cínios. Nós deIiberamos sobre as queslões que parecem admilir
duas possibiIidades de soIução, já que ninguém deIibera sobre
as coisas que não podem ler aconlecido, nem vir a aconlecer,
nem ser de maneira diferenle, pois, nesses casos, nada lá a
fazer.
L possíveI formar siIogismos e lirar concIusões, lanlo de
coisas anles eslabeIecidas peIo siIogismo, como de premissas de
que se não formou siIogismo mas que o requerem por não se-
rem correnlemenle aceiles. Deslas duas Iinlas de raciocínio, a
primeira cadeia de siIogismos é necessariamenle difíciI de se-
guir devido à sua exlensão (pois se supõe que o juiz é uma
pessoa simpIes), e a segunda não é persuasiva porque as pre-
missas nem são admilidas por lodos nem são pIausíveis. De
sorle que é necessário que o enlimema e o exempIo se ocupem
de coisas que podem ser para a maior parle lambém de oulro
modo: o exempIo como indução, e o enlimema como siIogismo,
formado de poucas premissas e em geraI menos do que as do
siIogismo primário
32
. Iorque se aIguma deslas premissas for
1357a
31
Como assinaIa G. Kennedy, a diaIéclica conslrói a sua prova so-
bre a opinião geraI, da maioria ou dos sábios. Nos 1cpiccs I 1O, 1O4 ss.,
eslabeIecem-se as condições para que uma proposição seja diaIéclica: que
eIa pareça credíveI aos sábios, sem que ao lomem comum pareça in-
críveI.
32
O siIogismo pIenamenle expresso: com premissa maior, premissa
menor e concIusão, o enlimema: com menos uma premissa, geraImenle a
menor.
100
bem conlecida, nem sequer é necessário enunciá-Ia, pois o pró-
prio ouvinle a supre. Como, por exempIo, para concIuir que
Dorieu recebeu uma coroa como prémio da sua vilória, basla
dizer: pois foi vencedor em OIímpia
33
, sem que laja necessi-
dade de se acrescenlar a OIímpia a menção da coroa, porque
isso loda a genle o sabe
34
.
Como são poucas as premissas necessárias à formação dos
siIogismos relóricos (a maior parle dos assunlos sobre que
incidem juízos e deIiberações pode receber soIução diferenle,
pois deIiberamos e refIeclimos sobre as acções, lodas eIas apre-
senlam em comum esla parlicuIaridade, e nenluma deIas é, por
assim dizer, necessária), e como as coisas que aconlecem à
maioria e são possíveis apenas se podem provar medianle siIo-
gismos formados de premissas semeIlanles, laI como as neces-
sárias se concIuem das necessárias (o que lambém sabemos
peIos Anc|iiiccs)
35
, é evidenle que, das premissas de que se for-
mam os enlimemas, umas serão necessárias, mas a maior parle
é apenas frequenle. L, poslo que os enlimemas derivam de
probabiIidades e sinais, é necessário que cada um desles se
idenlifique com a cIasse de enlimema correspondenle
36
.
Com efeilo, probabiIidade
37
é o que geraImenle aconlece,
mas não absoIulamenle, como aIguns definem, anles versa so-
bre coisas que podem ser de oulra maneira, e reIaciona-se no
que concerne ao prováveI como o universaI se reIaciona com o
parlicuIar. Quanlo aos sinais
38
, uns apresenlam uma reIação do 1357b
33
Os }ogos OIímpicos.
34
O enlimema foi posleriormenle enlendido como um siIogismo
abreviado, em que uma das premissas, geraImenle a maior, não se ex-
pressava. Ior exempIo: «Sócrales é morlaI porque é lomem», ou, na or-
dem inversa, «Se Sócrales é lomem é morlaI». Lm ambos os casos se
assume que «lodos os lomens são morlais».
35
Anc|µiicc pricrc I 8, 29b32-35.
36
O que significa que os enlimemas necessários correspondem aos
indícios (opµrte eveykete ou trkµqpte), e os frequenlemenle verdadeiros
correspondem às probabiIidades (rlkete).
37
A probabiIidade é uma premissa pIausíveI rvóc¸cv), na medida
em que coincide com uma opinião geraImenle admilida.
38
îpµrtcv é um sinaI, signo ou indício de que aIgo aconleceu ou
exisle. Ior comparação com o conceilo de probabiIidade, o sinaI supõe a
reIação enlre dois faclos. Se esla reIação for necessária, o sinaI clama-se
trkµqptcv (argumenlo concIudenle ou prova irrefuláveI). Se não for neces-
101
parlicuIar para o universaI, oulros uma reIação do universaI
para o parlicuIar. Desles sinais, os necessários são crgumcnics
irrcjui4.cis, e os não necessários não lôm nome pecuIiar que
lraduza a diferença. Clamo, porlanlo, necessários àqueIes si-
nais a parlir dos quais se pode formar um siIogismo. L, por
isso, é argumenlo irrefuláveI o que enlre os sinais é necessário,
pois quando se pensa que já não é possíveI refular uma lese,
enlão pensa-se que se aduz um argumenlo concIudenle ou
irrefuláveI jic|mcricn}, como se o assunlo já eslivesse demons-
lrado e concIuído, vislo que ic|mcr |concIusãoj e pcrcs |fimj
significam o mesmo na Iíngua anliga.
De enlre os sinais, um é como o parlicuIar em reIação ao
universaI, por exempIo, um sinaI de que os sábios são juslos é
que Sócrales era sábio e juslo. Lsle é na verdade um sinaI, mas
refuláveI, embora seja verdade o que se diz, pois não é suscep-
líveI de raciocínio por siIogismo. O oulro, o sinaI necessário, é
como aIguém dizer que é sinaI de uma pessoa eslar doenle o
ler febre, ou de uma muIler ler dado à Iuz o ler Ieile. L, dos
sinais, esle é o unico que é um ic|mcricn, um argumenlo con-
cIudenle, pois é o unico que, se for verdadeiro, é irrefuláveI.
L exempIo da reIação do universaI com o parlicuIar se aIguém
disser que é sinaI de febre ler a respiração rápida. Lsle, porém,
é lambém refuláveI, embora verdadeiro, pois é possíveI ler a
respiração ofeganle mesmo sem febre.
Iica, pois, alé aqui expIicado o que é uma probabiIidade,
um sinaI e um ic|mcricn, bem como o que os dislingue. Ioi,
porém, nos Anc|iiiccs
39
que esles foram mais expIicilamenle
lralados, bem como a razão peIa quaI cerlas proposições são
impróprias para o siIogismo e oulras são adequadas à sua for-
mação.
}á referimos que o exempIo é uma indução e de que coi-
sas esla indução se ocupa. O exempIo não apresenla reIações
da parle para o lodo, nem do lodo para a parle, nem do lodo
para o lodo, mas apenas da parle para a parle, do semeIlanle
para o semeIlanle. Quando os dois lermos são do mesmo gé-
sária, a concIusão reduz-se a uma mera probabiIidade. De sorle que lanlo
o rlke¸ como o opµrtcv consliluem modos da probabiIidade reaI: no pri-
meiro caso, da probabiIidade de um faclo, no segundo, da probabiIidade
de uma reIação (cf. Quinlín Racionero, cp. cii., p. 186, n. 59).
39
Anc|µiicc pricrc II 27, Anc|µiicc pcsicricrc I 3O.
102
nero, mas um é mais conlecido do que o oulro, enlão lá um
exempIo, como quando se afirma que Dionísio lenla a lirania
porque pede uma guarda, pois lambém anles Iisíslralo, ao
inlenlá-Ia, pediu uma guarda e converleu-se em lirano maI a
conseguiu, e Teágenes fez o mesmo em Mégara, esles e oulros
que se conlecem, lodos eIes servem de exempIo para Dionísio,
de quem ainda se não sabe se é essa a razão por que a pede.
Todos esles casos parlicuIares se enquadram na mesma noção
geraI de que quem aspira à lirania pede uma guarda pessoaI.
Dissemos o que línlamos a dizer sobre as fonles das pro-
vas por persuasão que parecem demonslralivas. Mas, quanlo
aos enlimemas, a maior diferença e a mais ignorada por quase
lodos é a mesma que exisle enlre os siIogismos denlro do mé-
lodo diaIéclico, pois aIguns enlimemas são formados de acor-
do com o mélodo relórico, como lambém aIguns siIogismos o
são de acordo com o mélodo diaIéclico, oulros enlimemas,
porém, são formados conforme oulras arles e facuIdades, umas
já exislenles, oulras ainda não descoberlas. L por isso que es-
las diferenças não são percebidas peIos ouvinles, e quanlo mais
se lrala o assunlo com mélodo mais se sai dos Iimiles da reló-
rica e da diaIéclica. O que dizemos ficará mais cIaro se o expu-
sermos mais pormenorizadamenle.
Digo, pois, que os siIogismos relóricos e diaIéclicos são
aqueIes que lemos em menle quando faIamos de icpiccs
4O
, es-
1358a
4O
Não é cIara a doulrina arisloléIica sobre os teact, pois ArislóleIes
nem nos 1cpiccs nem na Rcicricc nos dá deIes um definição expIícila. São
princípios ou fonles de argumenlação de nalureza Iógica ou relórica, e
apresenlam-se geraImenle divididos em dois grupos dislinlos: os tótct
teact e os kctvcì teact. Os primeiros apresenlam-se como os lópicos reIa-
livos a delerminadas arles ou ciôncias, e especificamenle apropriados a
cada um dos géneros do discurso oralório. DeIes se forma o maior nume-
ro de enlimemas. Os segundos apresenlam-se como lópicos caraclerisli-
camenle relóricos, mais gerais, e apIicáveis a lodos os géneros de discur-
so. Mas esla divisão carece de aIguma cIarificação. Sendo rtóp o lermo
lécnico priviIegiado por ArislóleIes para represenlar as proposições ade-
quadas a cada género, Y. IeIIelier suslenla que o primeiro Iivro da Rcic-
ricc se ocupa das cspccics prcprics de cada género, e a maior parle do se-
gundo ocupa-se das cspccics ccmuns, perlinenles em comum aos lrôs
géneros oralórios. As primeiras proposições lôm por objeclo persuadir
como uliI, jusla, beIa, ou de quaIidade conlrária a acção argumenlada. As
uIlimas consliluem os eIemenlos preparalórios da argumenlação princi-
paI e lôm por objeclo persuadir essa acção como possíveI ou impossíveI,
103
les são os Iugares-comuns em queslões de direilo, de física, de
poIílica e de muilas discipIinas que diferem em espécie, como
por exempIo o lópico de mais e menos, pois será lão possíveI
com esle formar siIogismos ou dizer enlimemas sobre ques-
lões de direilo, como dizô-Ios sobre queslões de física ou de
quaIquer oulra discipIina ainda que eslas difiram em espécie.
São, porém, específicas as concIusões derivadas de premissas
que se referem a cada uma das espécies e géneros, como, por
exempIo, as premissas sobre queslões de física, das quais não
é possíveI lirar nem enlimema nem siIogismo apIicáveI à éli-
ca, e oulras sobre élica, de que se não pode lirar nem enli-
mema nem siIogismo apIicáveI à física. O mesmo se passa
com lodas as demais discipIinas. AqueIes raciocínios a nin-
guém farão compreender quaIquer género de ciôncia, pois não
versam sobre nenlum assunlo parlicuIar. Mas os específicos,
quanlo meIlor escoIla aIguém fizer das suas premissas, mais
conslruirá, sem se dar conla, uma ciôncia dislinla da diaIécli-
ca e da relórica. Iois se, por acaso, voIla aos princípios, não
será já diaIéclica nem relórica, mas a ciôncia de que lomou
esses princípios.
Ora a maior parle dos enlimemas deriva deslas espécies
dilas parlicuIares e específicas, sendo em menor numero os que
derivam das comuns. L porlanlo necessário fazer lambém aqui,
como nos 1cpiccs, uma dislinção enlre as espécies e os Iugares
de que se devem lomar os enlimemas. Lu clamo espécies às
premissas próprias de cada género, e Iugares às que são co-
reaI ou irreaI, com maior ou menor índice da grandeza. Mas só os teact
de que ArislóleIes se ocupa no finaI do segundo Iivro são, segundo
IeIIelier, os verdadeiros Iugares-comuns, como fórmuIas de seIecção e
eslralégias de argumenlação «usefuI for lle discovery and conslruclion
of a number of differenl argumenls» |«Arislole el Ia découverle oraloire»,
III, Ic.c| 1|cc|cgi¡uc ci P|i|cscp|i¡uc, 37 (1981), p. 65. Cf. i|i!cm, I, 35
(1979), pp. 3-2O, II, 36 (198O), pp. 29-46, III, 37 (1981), pp. 45-67j. Assim, e
no seu enlender, ArislóleIes dislingue lrôs calegorias de teact: os tóte rtóp,
que fornecem as premissas adequadas a cada um dos lrôs géneros do dis-
curso oralório, os kctv6, que fornecem as premissas adequadas a quaIquer
dos lrôs géneros, e os kctvcì teact, que consliluem os mélodos formais de
raciocínio «according lo vlicl enllymemes can be conslrucled llrougl
lle use of lle premises provided by lle ci!c and |cinc» (I. Arnlarl,
Arisici|c cn Pc|iiicc| Rccscning. A Ccmmcnicrµ cn i|c «R|cicric», DecaIb, II,
Norllern IIIinois Iniversily Iress, 1981, p. 51).
104
muns iguaImenle a lodos. IaIaremos, pois, em primeiro Iugar
das espécies, mas, anles, definiremos os géneros da relórica
para que, delerminando quanlos são, lomemos em separado os
seus eIemenlos
41
e premissas.
3
OS TRËS GÉNEROS DE RETÓRICA:
DELIBERATIVO, JUDICIAL E EPIDÍCTICO
As espécies de relórica são lrôs em numero, pois oulras
lanlas são as cIasses de ouvinles dos discursos. Com efeilo, o
discurso comporla lrôs eIemenlos: o orador, o assunlo de que
faIa, e o ouvinle, e o fim do discurso refere-se a esle uIlimo,
islo é, ao ouvinle. Ora, é necessário que o ouvinle ou seja es-
peclador ou juiz, e que um juiz se pronuncie ou sobre o passa-
do ou sobre o fuluro. O que se pronuncia sobre o fuluro é, por
exempIo, um membro de uma assembIeia, o que se pronuncia
sobre o passado é o juiz, o especlador, por seu lurno, pronun-
cia-se sobre o laIenlo do orador. De sorle que é necessário que
exislam lrôs géneros de discursos relóricos: o deIiberalivo
42
, o
judiciaI
43
e o epidíclico
44
.
Numa deIiberação lemos lanlo o conseIlo como a dissua-
são, pois lanlo os que aconseIlam em parlicuIar como os que
faIam em pubIico fazem sempre uma deslas duas coisas. Num
processo judiciaI lemos lanlo a acusação como a defesa, pois é
necessário que os que pIeileiam façam uma deslas coisas. No
género epidíclico lemos lanlo o eIogio como a censura. Os lem-
pos de cada um desles são: para o que deIibera, o fuluro, pois
aconseIla sobre evenlos fuluros, quer persuadindo, quer dissua-
dindo, para o que juIga, o passado, pois é sempre sobre aclos
aconlecidos que um acusa e oulro defende, para o género epi-
díclico o lempo principaI é o presenle, vislo que lodos Iouvam
ou censuram evenlos acluais, embora lambém muilas vezes ar-
gumenlem evocando o passado e conjeclurando sobre o fuluro.
1358b
41
îtct¿rte significa aqui teact, como em 2.22.13 e em 26.1.
42
Ou poIílico.
43
Ou forense.
44
Ou demonslralivo.
105
Cada um desles géneros lem um fim diferenle e, como são
lrôs os géneros, lrôs são lambém os fins. Iara o que deIibera, o
fim é o convenienle ou o prejudiciaI, pois o que aconseIla reco-
menda-o como o meIlor, e o que desaconseIla dissuade-o como
o pior, e lodo o reslo ÷ como o juslo ou o injuslo, o beIo ou o
feio ÷ o acrescenla como compIemenlo. Iara os que faIam em
lribunaI, o fim é o juslo e o injuslo, e o reslo lambém esles o
acrescenlam como acessório. Iara os que eIogiam e censuram, o
fim é o beIo e o feio, acrescenlando, eIes lambém, oulros racio-
cínios acessórios. SinaI de que o fim de cada género é o que
acabámos de referir, é que por vezes o orador sobre nenluma
oulra coisa clega a dispular, por exempIo, o orador forense pode
não negar que fez aIgo ou que agiu maI, mas nunca confessará
que comeleu inlencionaImenle a injusliça, pois enlão não seria
necessário o juízo. Do mesmo modo, os oradores que aconse-
Ilam prescindirão muilas vezes do reslo, mas jamais confessa-
rão que recomendam coisas prejudiciais ou que dissuadem de
aIgo que é proveiloso, não lomam sequer muilas vezes em con-
la que é injuslo escravizar os povos vizinlos, mesmo quando
não comeleram nenluma injusliça. SemeIlanlemenle, os que
eIogiam e os que censuram não consideram se uma pessoa fez
acções convenienles ou prejudiciais, anles com frequôncia a Iou-
vam por laver descuidado os seus inleresses pessoais só para
cumprir o dever. Iouvam, por exempIo, AquiIes por ler ido em
socorro do seu amigo IálrocIo, sabendo que linla por isso de
morrer, quando, se o não fizesse, poderia conlinuar a viver. Iara
eIe laI morle era mais lonrosa, mas era convenienle viver
45
.
L evidenle, peIo que acaba de ser dilo, que é primeiramen-
le necessário ler as premissas deslas lrôs coisas
46
, pois as pro-
vas irrefuláveis
47
, as probabiIidades e os sinais são premissas
relóricas. Iorque, em geraI, lodo o siIogismo se conslrói a par-
lir de premissas, e o enlimema não é mais do que um siIogismo
que se deduz das dilas premissas
48
. Ora, vislo que as coisas
1359a
45
Cf. ||., 18.79 ss.
46
O convenienle, o juslo, o beIo, e seus conlrários.
47
1rkµqptcv é o nome dado ao eveyketcv opµrtcv, a prova necessá-
ria, concIudenle ou irrefuláveI, por oposição ao opµrtcv evævuµcv, bem
mais próximo do senlido de rlke¸.
48
Islo é, dos trkµqpte, dos rlkete e dos opµrte (evidôncias ou ar-
gumenlos irrefuláveis, probabiIidades e indícios).
106
impossíveis não podem ler sido feilas no passado, nem se po-
dem fazer no fuluro, que apenas as coisas possíveis o podem,
que as coisas irreais e irreaIizáveis não podem ler sido feilas
no passado ou fazer-se no fuluro, é necessário que o orador
deIiberalivo, o judiciaI e o epidíclico lenlam premissas sobre o
possíveI e o impossíveI, se aIgo aconleceu ou não, e se virá a
ler ou não Iugar. AIém disso, como lodos os oradores, quando
eIogiam ou censuram, exorlam ou dissuadem, acusam ou de-
fendem, não só se esforçam por provar o que disseram, mas
lambém que o bom ou o mau, o beIo ou o feio, o juslo ou o
injuslo são grandes ou pequenos, quer faIem das coisas em si,
quer as comparem enlre si, é evidenle que seria lambém ne-
cessário ler premissas sobre o grande e o pequeno, o mais e o
menos, lanlo em geraI como em parlicuIar, como, por exem-
pIo, quaI é o maior ou menor bem, a maior ou menor acção
jusla ou injusla, e o mesmo em reIação às demais coisas. Aca-
bámos de referir os Iugares onde devemos necessariamenle ir
buscar as premissas. A seguir, devemos fazer dislinção enlre
cada um deIes individuaImenle, islo é, os que perlencem à
deIiberação, aos discursos epidíclicos e, em lerceiro Iugar, aos
judiciais.
4
O GÉNERO DELIBERATIVO
Imporla primeiramenle compreender que coisas, boas ou
más, aconseIla o orador deIiberalivo, pois não se ocupa de
lodas as coisas, mas apenas das que podem vir a aconlecer ou
não. Sobre ludo o que necessariamenle exisle ou exislirá, ou so-
bre ludo o que é impossíveI que exisla ou venla a exislir,
sobre isso não lá deIiberação. Nem mesmo lá deIiberação para
ludo o que é possíveI, pois, de enlre os bens que podem acon-
lecer ou não, uns lá por nalureza e oulros por acaso em que
a deIiberação de nada aproveilaria. Mas os assunlos passíveis
de deIiberação são cIaros, são os que naluraImenle se reIacionam
connosco e cuja produção eslá nas nossas mãos. Iois desenvoI-
vemos a nossa observação alé descobrirmos se nos é possíveI
ou impossíveI fazer isso. Ora, não é necessário de momenlo
enumerar com exaclidão cada coisa sobre que se cosluma deIi-
berar, nem dividi-Ia em espécies, nem mesmo dar deIa uma
1359b
10¯
reaI definição conforme a verdade, porque ludo isso não é
próprio da relórica, mas sim de uma oulra arle mais pene-
lranle e verdadeira, e lambém porque acluaImenle Ile são
alribuídas muilas mais malérias do que as que Ile são pró-
prias. Com efeilo, é cerlo o que alrás dissemos, que a relórica
se compõe, por um Iado, da ciôncia anaIílica e, por oulro, do
saber poIílico reIalivo aos caracleres, aIém disso, eIa é seme-
Ilanle, por um Iado à diaIéclica, e por oulro aos discursos
sofíslicos. L, quanlo mais se lenlarem imaginar a diaIéclica ou
a relórica não apenas como facuIdades menlais mas como
ciôncias, lanlo mais se eslará inadverlidamenle a obscurecer
a sua reaI nalureza, passando-se com isso a conslruir ciôncias
reIalivas a delerminadas malérias eslabeIecidas e não só a
discursos. Ocupemo-nos, porém, agora do que é uliI anaIisar
sobre o assunlo, e ainda deixaremos campo de observação
para a ciôncia poIílica.
Os lemas mais imporlanles sobre os quais lodos deIibe-
ram e sobre os quais os oradores deIiberalivos dão conseIlo em
pubIico são basicamenle cinco, a saber: finanças, guerra e paz,
defesa nacionaI, imporlações e exporlações, e IegisIação.
Ior conseguinle, quem se dispuser a dar conseIlos sobre
finanças deverá conlecer os recursos que lem a cidade e quaI
o seu vaIor, a fim de, se aIgum for omilido, o repor, e se aI-
gum for insuficienle, o aumenlar. Deve lambém conlecer lo-
das as despesas da cidade, a fim de eIiminar o que for supér-
fIuo e reduzir o que for excessivo. Iois não só enriquecem os
que aumenlam os bens que já possuem, como lambém os que
reduzem os gaslos. L não é só peIa experiôncia inlerna que se
aIcança uma visão geraI deslas coisas, é lambém necessário
eslar informado do que os oulros povos descobriram para
aconseIlar sobre o assunlo.
Quanlo à guerra e à paz, é preciso conlecer o poder da
cidade, quanla força já lem e a quanla pode clegar, a nalureza
das forças que lem à sua disposição e as que pode acrescenlar,
e aIém disso, que guerras lravou e como peIejou. L necessário
saber eslas coisas não só sobre a própria cidade, mas lambém
sobre as cidades vizinlas. L necessário ainda saber com que
povos se pode esperar fazer a guerra, a fim de manler a paz
com as mais forles e fazer a guerra conlra as mais fracas.
L lambém necessário saber se os recursos miIilares da cidade
são iguais ou desiguais aos dos vizinlos, pois nislo lambém
pode ser superior ou inferior. AIém disso, é necessário ler es-
136Oa
108
ludado não só as guerras da própria cidade, mas lambém as
das oulras em função dos seus resuIlados, pois de causas se-
meIlanles resuIlam efeilos semeIlanles.
Quanlo à defesa do país, não se deve ignorar o modo
como esle é guardado, mas conlecer o numero e a espécie das
lropas que o defendem, bem como os Iugares em que eslão as
forlaIezas (o que é impossíveI para quem não lem experiôncia
do lerrilório), a fim de que a defesa seja reforçada se for pe-
quena, e removida se for em excesso, e se prolejam os Iugares
mais convenienles.
Também, quanlo a provisões, é necessário conlecer
quanlos e quais os gaslos suficienles à cidade, que aIimen-
los são produzidos no seu soIo e quais são imporlados, que
exporlações e imporlações são necessárias, a fim de se faze-
rem os devidos lralados e acordos. Iois é necessário que os
cidadãos não dôem molivo de queixa a duas cIasses de po-
vos: aos que são mais forles e aos que são uleis para o co-
mércio.
Iara a segurança do eslado é necessário observar lodas
eslas coisas, mas não menos ser enlendido em IegisIação, pois
é nas Ieis que eslá a saIvação da cidade. Iorlanlo, é indispen-
sáveI saber quanlas são as formas de governo, o que convém a
cada uma, e por que causas ÷ próprias de uma forma de go-
verno ou conlrárias a eIa ÷ se corrompem. Digo que se cor-
rompem por causas próprias, porque, excepluando a meIlor
forma de governo, lodas as demais se corrompem quer por
afrouxamenlo quer por lensão excessiva. Como, por exempIo,
a democracia, que se lorna mais débiI a ponlo de finaImenle se
lransformar em oIigarquia, não só quando afrouxada, mas lam-
bém quando lornada exlremamenle lensa, à semeIlança do
nariz aquiIino e aclalado, que não só se lorna normaI quando
um desles defeilos abranda, como lambém se aIlera a ponlo de
não mais parecer nariz quando o nariz se lorna aquiIino e acla-
lado em excesso. L uliI para a IegisIação não só saber, peIa
observação do passado, quaI é a forma de governo convenien-
le, mas lambém conlecer as dos oulros países e que formas de
governo se Iles ajuslam. L, por conseguinle, cIaro que os reIa-
los de viagens peIo mundo são uleis para a IegisIação, pois
neIes se podem aprender as Ieis dos povos, como o são para as
deIiberações poIílicas as invesligações daqueIes que escrevem
sobre as acções lumanas. Mas ludo isso perlence ao domínio
da poIílica e não da relórica.
109
Lslas são, pois, as queslões mais imporlanles sobre as
quais deve lirar premissas quem se propõe aconseIlar. VoIle-
mos agora a referir as fonles de que devem derivar os argu-
menlos de exorlação ou dissuasão sobre esles e oulros assunlos.
5
A FELICIDADE, FIM DA DELIBERAÇÃO
Iode dizer-se que cada lomem em parlicuIar e lodos em
conjunlo lôm um fim em visla
49
, lanlo no que escoIlem fazer
como no que evilam. Lsle fim é, em suma, a feIicidade e as
suas parles
5O
. Indiquemos, porlanlo, a líluIo de exempIo, o que
em geraI se enlende por feIicidade e quais os eIemenlos das
suas parles consliluinles, pois é deIa mesma, das acções que
para eIa lendem e daqueIas que Ile são conlrárias que versam
lodos os conseIlos e dissuasões. De faclo, deve fazer-se o que
proporciona a feIicidade ou aIguma das suas parles, o que a
aumenla e não diminui, mas não se deve fazer o que a deslrói
ou impede, ou produz os seus conlrários.
Seja, pois, a feIicidade o viver bem combinado com a vir-
lude, ou a aulo-suficiôncia na vida, ou a vida mais agradáveI
com segurança, ou a pujança de bens maleriais e dos corpos
junlamenle com a facuIdade de os conservar e usar, pois prali-
camenle lodos concordam que a feIicidade é uma ou várias
deslas coisas.
Ora, se laI é a nalureza da feIicidade, é necessário que as
suas parles sejam a nobreza, muilos amigos, bons amigos, a
riqueza, bons fiIlos, muilos fiIlos, uma boa veIlice, lambém
as virludes do corpo como a saude, a beIeza, o vigor, a eslalu-
ra, a força para a Iula, a repulação, a lonra, a boa sorle, e a
virlude |ou lambém as suas parles: a prudôncia, a coragem, a
jusliça e a lemperançaj
51
. Com efeilo, uma pessoa seria inlei-
136Ob
49
O lermo okeac¸ apenas ocorre aqui e mais duas vezes na Rcicricc
(em 1362a18 e em 1366a24). L aparenlemenle sinónimo de trìc¸, mas
designando o objeclivo ou propósilo geraI.
5O
LIemenlos consliluinles.
51
Lsle passo é omisso nos meIlores manuscrilos. Trala-se segura-
menle de uma adição poslerior.
110
ramenle aulo-suficienle se possuísse os bens inlernos e exler-
nos, pois fora desles não lá oulros. Os bens inlernos são os da
aIma e os do corpo, os exlernos são a nobreza, os amigos, o
dinleiro e a lonra. Cremos, conludo, que a esles se devem
acrescenlar cerlas capacidades e boa sorle, pois assim a vida
será muilo mais segura. Definamos agora da mesma maneira
cada um desles bens em parlicuIar.
Nobreza significa para um povo e uma cidade que a ori-
gem dos seus membros é aulóclone ou anliga, que os seus
primeiros clefes foram iIuslres, e que muilos descendenles se
iIuslraram em quaIidades invejáveis. Iara um indivíduo, a
nobreza deriva do lomem ou da muIler e lem Iegilimidade
de ambos os Iados, como no caso da cidade, significa que os
seus primeiros anlepassados se dislinguiram peIa virlude, peIa
riqueza ou por quaIquer oulra coisa lonrosa, e que muilos
foram os membros iIuslres da sua Iinlagem, lomens e muIle-
res, novos e veIlos.
O ler bons e numerosos fiIlos não é lema que ofereça
duvidas. Iara a comunidade, isso consisle em ler uma juven-
lude numerosa e boa, boa quanlo às virludes do corpo, como
eslalura, beIeza, força e capacidade para a Iula, quanlo à aIma,
as virludes do jovem são lemperança e coragem. Iara o indiví-
duo, ler bons e numerosos fiIlos significa ler muilos fiIlos
próprios, de ambos os sexos, e com as quaIidades descrilas. No
caso das muIleres, as virludes do corpo são a beIeza e a esla-
lura, e as da aIma são a lemperança e o amor ao lrabaIlo sem
serviIismo. Os indivíduos e a comunidade devem semeIlanle-
menle procurar desenvoIver cada uma deslas quaIidades nos
seus fiIlos e fiIlas, pois os povos em que lá imoraIidade nas
muIleres, como os Iacedemónios, apenas se podem conside-
rar meio feIizes.
Os eIemenlos da riqueza são a abundância de dinleiro e
lerra, a posse de lerrenos que sobressaiam peIa sua quanlida-
de, exlensão e beIeza, e ainda a posse de móveis, escravos e
gado superiores em numero e em beIeza, sendo lodos esles
bens seguros, dignos de um lomem Iivre e uleis. São uleis
sobreludo os bens produlivos, e dignos de um lomem Iivre os
de mero desfrule. Clamo produlivos aos bens que dão Iucro, e
de mero desfrule aqueIes que nenluma uliIidade lôm que
mereça menção, aIém do seu uso. Segurança pode definir-se
como posse de bens em Iugares e condições cujo uso eslá nas
nossas mãos, propriedade, como o direilo de aIienação ou não,
1361a
111
e por aIienação enlendo doação ou venda. Lm geraI, ser rico
consisle mais em usar do que em possuir, pois o exercício e o
uso de lais bens é a riqueza.
A boa repulação consisle em ser considerado por lodos
um lomem de bem, ou em possuir um bem laI que lodos, a
maioria, os bons ou os prudenles o desejam.
A lonra é sinaI de boa repulação por fazer bem, são jus-
lamenle lonrados sobreludo os que lôm feilo o bem, eIes e
lambém o que lem a capacidade de o fazer. A beneficôncia
refere-se lanlo à segurança pessoaI e a lodas as causas de exis-
lôncia, como à riqueza, como ainda a quaIquer oulro bem cuja
aquisição não é fáciI, seja em geraI, seja num lempo ou num
Iugar delerminados, porque muilos ganlam lonras por cau-
sas que parecem pouco imporlanles, mas isso depende dos Iu-
gares e das circunslâncias. As componenles da lonra são: os
sacrifícios, as inscrições memoriais em verso e em prosa, os
priviIégios, as doações de lerras, os principais assenlos, os lu-
muIos, as esláluas, os aIimenlos concedidos peIo Lslado, prá-
licas bárbaras, como a de se proslernar e ceder o Iugar, e os
presenles apreciados em cada país. Iois o presenle é a dádi-
va de um bem e um sinaI de lonra, e por isso os desejam
lanlo os que ambicionam riqueza como os que perseguem
lonras, pois com eIes ambos oblôm o que buscam: bens ma-
leriais, o que desejam os avarenlos, e lonra, o que buscam os
ambiciosos.
A virlude do corpo é a saude, e esla consisle em poder
usar o corpo sem enfermidade, pois muilos são saudáveis como
se diz que foi Heródico, a quem ninguém consideraria feIiz em
maléria de saude, uma vez que, |para a manlerj, linla de se
absler de lodos ou quase lodos os prazeres lumanos.
A beIeza é diferenle em cada idade. A beIeza do jovem
consisle em ler um corpo capaz de suporlar as fadigas, lanlo
da corrida como da força, sendo agradáveI vô-Io em especlá-
cuIo, por isso, os mais beIos são os alIelas do penlalIo, porque
por nalureza eslão iguaImenle dolados para a força e a veIoci-
dade. A beIeza do lomem maduro consisle na aplidão para os
lrabaIlos da guerra, e em parecer agradáveI inspirando lemor.
A beIeza do veIlo consisle na suficiôncia para resislir às fadi-
gas ineviláveis e em eslar Iivre de dores para não sofrer ne-
nlum dos inconvenienles da veIlice.
O vigor é a capacidade de mover um oulro corpo como
se quer, ora um corpo move-se necessariamenle puxando-o,
1361b
112
empurrando-o, eIevando-o, aperlando-o ou comprimindo-o, de
maneira que, quem é forle, é-o por poder fazer lodas eslas
coisas ou aIgumas deIas.
A virlude da grandeza consisle em superar os oulros em
aIlura, exlensão e Iargura, com a reserva de que o excesso não
afrouxe os movimenlos.
A virlude agoníslica do corpo é composla de grandeza,
vigor e rapidez (pois lambém o rápido é vigoroso), com efeilo,
quem puder impuIsionar as pernas de uma cerla maneira, e
movô-Ias rápida e agiImenle, é dolado para a corrida, quem
puder aperlar e conler é aplo para a Iula, quem conseguir
defender-se a soco eslá aplo para o pugiIalo, quem puder fa-
zer esles dois exercícios é alIela do pancrácio, e quem os pu-
der fazer lodos é alIela do penlalIo.
A boa veIlice é uma veIlice Ienla e sem dor, pois não é
boa veIlice a do que enveIlece rapidamenle, nem a do que
enveIlece devagar mas com sofrimenlo. LIa depende das vir-
ludes do corpo e da sorle, pois quem não é saudáveI nem forle
não eslará Iivre de sofrimenlo nem viverá uma vida Ionga e
sem dor sem a ajuda da sorle. A parle o vigor e a saude, exisle
ainda uma oulra facuIdade de Iongevidade, pois muilos lôm a
vida Ionga sem as virludes do corpo. Mas a minucia deslas
queslões em nada seria uliI para o presenle propósilo.
O significado de muilos e bons amigos é fáciI de com-
preender a parlir da definição de amigo: amigo é aqueIe que
pralica a favor do oulro o que juIga que é bom para si. Quem
lem muilos desles lem muilos amigos, e se esles são lomens
virluosos, lem bons amigos.
A boa sorle consisle na aquisição ou na posse daqueIes
bens cuja causa é a forluna: de lodos, da maior parle ou dos
mais imporlanles. Ora a forluna é a causa de aIgumas coisas
que lambém as arles proporcionam, e de muilas oulras que não
dependem das arles como, por exempIo, as que a nalureza
dispensa (e lambém é possíveI que a forluna seja conlrária à
nalureza). Iois a arle é a causa da saude, mas é a nalureza a
causa da beIeza e da eslalura. Lm geraI, os bens procedenles
da forluna são os que provocam a inveja. A forluna é lambém
a causa daqueIes bens que não lôm expIicação Iógica, como
quando os reslanles irmãos são feios e um deIes é beIo, ou
quando um lomem descobriu um lesouro que os oulros não
viram, ou quando a fIecla alingiu o companleiro do Iado e não
o aIvo, ou ainda quando um lomem que sempre frequenlou
1362a
113
um delerminado Iugar foi o unico que faIlou, precisamenle no
dia em que oulros foram peIa primeira vez e neIe enconlraram
a morle. Todos esles casos parecem ser exempIos de boa sorle.
Quanlo à virlude, uma vez que eIa é o Iugar mais apro-
priado para os eIogios, defini-Ia-emos quando nos ocuparmos
do eIogio.
6
O OBJECTIVO DA DELIBERAÇÃO:
O BOM E O CONVENIENTE
Iica assim cIaro que coisas fuluras ou presenles se devem
ler em menle na exorlação e na dissuasão, pois eIas são con-
lrárias. Mas como o objeclivo do que deIibera é o convenienle,
e as pessoas deIiberam, não sobre o fim, mas sobre os meios
que a eIe conduzem, e como lais meios são o que é convenien-
le sobre as acções e o convenienle é bom, imporla dar uma
definição geraI dos eIemenlos acerca do bom e do convenienle.
Lnlendamos por bom o que é digno de ser escoIlido em
si e por si, e aquiIo em função de que escoIlemos oulra coisa,
lambém aquiIo a que lodos aspiram, lanlo os que são dolados
de percepção e razão, como os que puderem aIcançar a razão,
ludo o que a razão pode conceder a cada indivíduo, e ludo o
que a razão concede a cada indivíduo em reIação a cada coisa,
isso é bom para cada um, e ludo o que, peIa sua presença, ou-
lorga bem-eslar e aulo-suficiôncia, e a própria aulo-suficiôncia, e
o que produz ou conserva esses bens, e aquiIo de que lais bens
resuIlam, e o que impede os seus conlrários e os deslrói.
As consequôncias são de dois lipos: simuIlâneas ou posle-
riores, por exempIo, o conlecimenlo é poslerior à aprendiza-
gem, mas a saude é simuIlânea à vida. As causas produloras
são de lrôs lipos: umas, como o eslar são, produzem saude, ou-
lras, como os aIimenlos, produzem a saude, e oulras, como o
fazer exercício, dão, em geraI, saude. LslabeIecido islo, segue-
-se necessariamenle que sejam boas lanlo a aquisição de coisas
boas como a perda de coisas más, pois nesle caso a consequôn-
cia de não ler mais o maI é concomilanle, e no primeiro a de
ler o bem é subsequenle. O mesmo se apIica à aquisição de um
bem maior em vez de um menor, e de um maI menor em vez
de um maior, pois, naquiIo em que o maior excede o menor, 1362b
114
nisso eslá a aquisição de um e a privação do oulro. Também
as virludes são necessariamenle um bem, pois é graças a eIas
que os que as possuem desfrulam de bem-eslar, e aIém disso
eIas são produloras de bens e de boas acções. Deverá dizer-se
à parle quaI é a nalureza e a quaIidade de cada uma. O pra-
zer lambém é um bem, pois lodos os seres vivos por nalure-
za o desejam. De sorle que as coisas agradáveis e as beIas são
necessariamenle boas, pois as primeiras produzem prazer e,
das beIas, umas são agradáveis e oulras desejáveis por si
mesmas.
Ora, para as enumerar uma a uma, direi que as seguinles
coisas são necessariamenle boas. A feIicidade, porque é desejá-
veI em si mesma e aulo-suficienle, e porque para a obler esco-
Ilemos muilas coisas. A jusliça, a coragem, a lemperança, a
magnanimidade, a magnificôncia e oulras quaIidades semeIlan-
les, porque são virludes da aIma. A saude, a beIeza e oulras
semeIlanles, porque são virludes do corpo e produloras de
muilos bens, por exempIo, a saude é produlora do prazer e da
vida, e por isso é lida como a meIlor de lodas, porque é a
causa das duas coisas que a maioria das pessoas mais preza:
o prazer e a vida. A riqueza, porque é a virlude da proprieda-
de e produlora de muilos bens. O amigo e a amizade, porque
lambém o amigo é desejáveI em si mesmo e produz muilos
bens. A lonra e a gIória, porque lambém eIas são agradáveis e
geradoras de muilos bens, e geraImenle se fazem acompanlar
da posse daqueIas coisas peIas quais se recebem lonras. A ca-
pacidade de faIar e de agir, porque lodas eIas são produloras
de bens. Ainda o laIenlo naluraI, a memória, a faciIidade de
aprender, a vivacidade de espírilo e lodas as quaIidades do
género, porque eslas facuIdades são produloras de bens. De
iguaI modo lodas as ciôncias e as arles. Também a vida, pois
ainda que nenlum oulro bem deIa resuIle, eIa é desejáveI por
si mesma. L a jusliça, porque é convenienle para a comunidade.
Lslas são, pois, mais ou menos, as coisas geraImenle reco-
nlecidas como bens. No caso de bens duvidosos, os siIogismos
formam-se das seguinles premissas. L bom aquiIo cujo conlrá-
rio é mau. Também o conlrário do que convém aos inimigos,
por exempIo, se convém muilo aos inimigos que sejamos co-
vardes, é cIaro que a coragem é o que sobreludo convém aos
cidadãos. L, em geraI, o que parece convenienle é o conlrário
do que os nossos inimigos desejam ou daquiIo de que se rego-
zijam. Ior isso se disse: «Cerlamenle que Iríamo se aIegra-
115
ria.»
52
Nem sempre é o caso, mas geraImenle é assim, pois
nada impede que por vezes uma mesma coisa seja vanlajosa
para as duas parles conlrárias. Ior isso se diz que os maIes
unem os lomens, quando uma mesma coisa é prejudiciaI a um
e a oulro. Também o que não é excessivo é bom, e o que é
maior do que deveria ser é mau. L iguaImenle o que causou
muilo lrabaIlo ou despesa, pois é já um bem aparenle, e o lipo
de bem que se loma como um fim, e fim de muilos esforços, e
o fim é um bem. Donde se disse o seguinle: «Iara que Iríamo
lenla de que se gIoriar»
53
, e, «L vergonloso ficares lanlo lem-
po.»
54
e lambém o provérbio, «parlir-se o cânlaro à porla»
55
.
Também é bom o que a maioria deseja e o que parece
digno de ser dispulado, pois o que lodos desejam é sem duvi-
da bom, e «a maioria» represenla aqui «lodos». L iguaImenle
bom o que é objeclo de eIogio, vislo que ninguém Iouva o que
não é bom. L lambém o que os inimigos e os maIvados Iou-
vam, porque, como lodos os oulros, eIes já o reconlecem se
lambém reconlecem os que sofrem o dano, pois é peIa evidôn-
cia que o reconlecerão, como lambém que são maus os que os
amigos censuram e bons os que os inimigos não censuram.
Razão peIa quaI os Corínlios se senliram injuriados por Si-
mónides quando esle escreveu:
||icn n4c ccnsurc cs Ccriniics.
56
L bom lambém aquiIo a que uma muIler ou um lomem
sensalo ou virluoso deram a sua preferôncia, como por exem-
pIo Alena a Odisseu, Teseu a HeIena, as deusas a AIexandre e
Homero a AquiIes. L, em geraI, as coisas preferidas são boas.
Ora as pessoas preferem fazer as coisas que referimos: as más
aos seus inimigos, as boas aos seus amigos, e as que são pos-
síveis. Lslas, porém, são de dois lipos: coisas que podem acon-
lecer, e coisas que faciImenle aconlecem. L são fáceis lodas as
que se fazem sem esforço ou em pouco lempo, pois a dificuI-
1363a
52
||., 1.255. Dilo por Neslor sobre a conveniôncia para os Troianos
da quereIa enlre AquiIes e Agamémnon.
53
||., 2.176.
54
||., 2.298.
55
L difíciI precisar o senlido do provérbio. Desconlecido em grego.
56
Ir. 36 DielI.
116
dade define-se peIo esforço ou peIa duração do lempo. Tam-
bém o que se faz como se deseja é bom, pois deseja-se o que
não é mau ou um maI menor do que o bem resuIlanle, o que
aconlece se ignoramos o casligo ou se esle é pequeno. L prefe-
ríveI lambém o que é próprio, o que ninguém mais lem e o
que é exlraordinário, pois assim é maior a lonra. IguaImenle o
que se larmoniza com a pessoa, ou seja, o que se Ile adequa
em razão do seu nascimenlo ou da sua capacidade, e ludo o
que eIa pensa que Ile faz faIla, por mais pequeno que seja, pois
não deixa de preferir fazô-Io. IguaImenle que é de execução
fáciI, porque isso é possíveI peIo faclo de ser fáciI. Ora são de
fáciI execução as coisas que lodos, a maior parle, os iguais ou
inferiores, Ievaram a bom lermo. Ainda o que é agradáveI aos
amigos e odioso aos inimigos. L ludo quanlo preferem fazer
os que admiramos. Também aquiIo para que somos dolados e
de que lemos experiôncia, pois pensamos que isso será mais
fáciI de reaIizar. L lambém ludo o que nenlum lomem viI
preferiria, pois isso é mais IouváveI. L ludo o que se deseja,
pois isso parece não só agradáveI mas lambém meIlor. Acima
de ludo, cada um considera bom aquiIo que é objeclo do seu
goslo parlicuIar, por exempIo: os que goslam de vencer, se
louver vilória, os que goslam de lonras, se louver lonra, os
que goslam de dinleiro, se louver dinleiro, e assim por dian-
le. No que respeila ao bom e ao convenienle, eslas são as pre-
missas de que se devem lirar as provas.
7
GRAUS DO BOM E DO CONVENIENTE
Mas, porque muilas vezes se concorda que duas coisas são
convenienles, e se discorda sobre quaI deIas o é mais, convirá
em seguida lralar do maior bem e do mais convenienle
57
. Ln-
lendamos, pois, que o excedenle é o excedido e aIgo mais, e que
1363b
57
O lópico do mcicr c mcncr ÷ em lermos de grandeza ou imporlân-
cia ÷ é idenlificado em I 3 1359a como um argumenlo comum a lodas as
espécies de relórica, anáIogo às queslões de possibiIidade ou de faclo.
Dislingue-se do lópico do mcis c mcncs referido em I 2 1358a, que se apIica
a um argumenlo parlicuIar (cf. G. Kennedy, cp. cii., pp. 66-67).
11¯
o excedido eslá conlido no excedenle. Maior e mais são sempre
reIalivos a menos, mas grande e pequeno, muilo e pouco são
reIalivos a uma grandeza média: é grande aquiIo que a excede,
e pequeno o que a não alinge, e o mesmo se dirá do muilo e do
pouco. Iorlanlo, vislo clamarmos bom ao que é preferíveI em
si e por si, e não por oulra coisa, ao que lodos os seres desejam
e ao que lodo o ser que adquirisse razão e prudôncia preferiria,
ao que é próprio para produzir e conservar esle bem, ou aquiIo
a que o bem segue, vislo lambém que aquiIo por que se faz aIgo
é um fim, e o fim é a causa de lodo o reslo, e que é bom para
cada indivíduo o que reIalivamenle a eIe apresenla eslas condi-
ções, enlão o maior numero de boas coisas é necessariamenle um
bem maior do que uma só coisa ou um numero mais pequeno
deIas, desde que essa uma ou essas poucas coisas se conlem
enlre as muilas, pois o maior numero excede-as e o que é conli-
do é excedido. L se o máximo de um género excede o máximo
de oulro género, o primeiro excede o segundo, e quando o pri-
meiro género é superior ao segundo, o maior do primeiro géne-
ro é superior ao maior do segundo. Ior exempIo, se o maior
lomem é maior do que a maior muIler, os lomens são em ge-
raI maiores do que as muIleres, e se os lomens são em abso-
Iulo maiores do que as muIleres, lambém o maior lomem é
maior do que a maior muIler. Iois a superioridade dos géneros
e a dos seus represenlanles máximos são anáIogas.
O mesmo aconlece quando um bem é sempre acompanla-
do por oulro mas nem sempre o acompanla (a consequôncia
pode ser concomilanle, subsequenle ou polenciaI), pois o uso
da segunda coisa eslá impIícila na primeira. Assim, a vida
acompanla a saude, mas não a saude a vida, o conlecimenlo
acompanla subsequenlemenle o esludo, e o roubo acompanla
polenciaImenle o sacriIégio, pois quem comele sacriIégio lam-
bém pode roubar.
As coisas que excedem o que é maior do que aIgo lam-
bém são maiores do que esse aIgo, pois são necessariamenle
superiores ao maior. L as coisas que produzem um bem maior
são maiores, pois isso era o que enlendíamos por causa produ-
lora do maior
58
. O mesmo aconlece com aquiIo cuja causa pro-
dulora é maior, pois se a saude é preferíveI ao prazer e um
maior bem, enlão a saude é um bem maior do que o prazer.
58
Vi!c Rcicricc I 7, 1363b.
118
L o que é mais desejáveI em si mesmo é superior ao que o não
é em si, por exempIo, a força é um bem maior que a saude, pois
esla não é desejáveI por si mesma, ao passo que a força é, e isso
era o que afirmávamos ser o bem. L se uma coisa é um fim e
oulra não, o fim é um maior bem, pois uma é desejáveI por
causa de oulra coisa, e a oulra por si mesma, por exempIo, o
exercício físico lem por fim o bem-eslar do corpo. IguaImenle o
que necessila menos de uma ou várias coisas é um maior bem,
porque é mais aulo-suficienle, e ler menos necessidade é preci-
sar de menos coisas ou de coisas mais fáceis. L quando uma
coisa não exisle ou não pode exislir sem oulra, mas esla oulra
pode exislir sem aqueIa, a que não precisa da oulra é mais aulo-
-suficienle e, por conseguinle, parece ser um maior bem. Se uma
coisa é princípio e oulra não, eIa é maior. L se uma coisa é cau-
sa e oulra não, eIa é maior peIa mesma razão, pois sem causa
ou princípio é impossíveI que uma coisa exisla ou venla a exis-
lir
59
. Se lá dois princípios, a que procede do maior princípio é
maior, e se lá duas causas, a que procede da maior causa é
maior. L, inversamenle, lavendo dois princípios, o princípio da
maior é maior, e lavendo duas causas, a causa da maior é maior.
Iica, pois, cIaro peIo que se disse que uma coisa pode ser maior
em dois senlidos, porque, se uma coisa é princípio e oulra não,
a primeira parece ser maior, e iguaImenle se uma não é princí-
pio mas fim, mas a oulra o é, pois o fim é maior, e não o prin-
cípio, como Ieódamas disse, acusando CaIíslralo, que o que
aconseIlou comeleu mais injusliça do que o que reaIizou a ac-
ção, pois não leria lavido acção se não livesse lavido quem a
aconseIlasse. Inversamenle, acusando Cábrias, decIarou que o
que linla execulado a acção era mais cuIpado do que aqueIe que
a linla aconseIlado, porque a acção não leria sido pralicada se
não livesse lavido quem a execulasse, pois por esla razão se
aconseIla, para que se execulem os aclos.
O que é raro é lambém maior do que o abundanle. Como
o ouro em reIação ao ferro, embora seja menos uliI, pois a sua
1364a
59
Na Mcicp|. V 1 ArislóleIes regisla sele significados da paIavra
ep¿q, dizendo conludo que lodos lôm a propriedade comum de ser «o
ponlo de parlida» de quaIquer coisa que exisle ou se conlece. Todas as
causas são ep¿eI, mas nem lodas as ep¿eI são causas: a quiIla de um
navio, por exempIo, ou o aIicerce da uma casa (cf. G. Kennedy, cp. cii.,
p. 69, n. 132).
119
posse conslilui um maior bem, por ser de mais difíciI aquisi-
ção. Mas, de um oulro modo, o abundanle é preferíveI ao raro,
porque a sua uliIidade é maior, pois «muilas vezes» excede
«poucas», donde se diz, c mc||cr c c 4guc
6O
.
Lm geraI, o mais difíciI é maior que o mais fáciI, pois é
mais raro. Mas, de oulro modo, o mais fáciI é maior que o mais
difíciI, pois corresponde ao que desejamos. L lambém mais
imporlanle aquiIo cujo conlrário é maior e cuja privação é
maior. A virlude supera o que não é virlude, e o vício o que
não é vício, pois as virludes e os vícios são fins e os conlrários
não. L aqueIas coisas cujas obras são mais nobres e mais feias
são lambém maiores, e as obras daqueIas coisas cujos vícios e
cujas virludes são maiores serão lambém maiores, pois laI
como são as causas e os princípios assim são os efeilos, e laI
como são os efeilos assim são lambém as causas e os princí-
pios. Coisas cuja superioridade é mais desejáveI e mais beIa são
lambém preferíveis, por exempIo: é preferíveI ler acuidade vi-
suaI a ler a oIfacliva, pois a visão é meIlor do que o oIfaclo.
L mais beIo amar mais os amigos do que o dinleiro, de sorle
que o amor aos amigos é mais beIo do que o amor ao dinlei-
ro. Inversamenle, o excesso das coisas meIlores é meIlor, e o
das coisas mais beIas, mais beIo. IguaImenle, as coisas cujos de-
sejos
61
são mais beIos ou meIlores, pois os maiores apeliles são
os dos objeclos maiores, e os desejos dos objeclos mais beIos
ou meIlores são, peIa mesma razão, meIlores e mais beIos.
L quanlo mais beIas e virluosas são as ciôncias, lanlo mais
beIos e virluosos são os seus objeclos, pois, assim como é a
ciôncia, assim é a verdade, e cada ciôncia é soberana no seu
próprio domínio. L as ciôncias das coisas mais virluosas e be-
Ias são anáIogas peIas mesmas razões. L o que as pessoas sen-
salas ÷ lodas, muilas, a maioria, ou as mais quaIificadas ÷
juIgariam ou lôm juIgado como um bem ou um bem maior, é-
-o necessariamenle assim, ou em absoIulo ou na medida da
sensalez com que emiliram o seu juízo. Mas islo é comum lam-
bém às oulras coisas, pois a subslância, a quanlidade e a qua-
Iidade de uma coisa são como as podem definir a ciôncia e a
1364b
6O
Iíndaro, O., 1.1.
61
'Lat0uµIe é o desejo que nasce dos apeliles, o desejo concupis-
cenle, por reIação a þcuìpot¸ ou desejo inlencionaI.
120
sensalez. Mas nós lemo-Io dilo a respeilo dos bens, pois defini-
mos como bem o que cada um escoIleria para si se fosse sen-
salo. L, pois, cIaro que é maior o que a sensalez aconseIla mais.
L preferíveI lambém o que exisle nos meIlores, ou em absoIu-
lo, ou na medida em que são meIlores, por exempIo, a cora-
gem é meIlor do que a força. De iguaI modo o que escoIleria
o meIlor, ou absoIulamenle ou na medida em que é meIlor,
por exempIo, sofrer a injusliça mais do que comelô-Ia
62
, pois
isso é o que escoIleria o mais juslo. L o que é mais agradáveI
é maior que o menos agradáveI, pois lodos os seres buscam o
prazer e por eIe se deixam seduzir, e esles são os crilérios pe-
Ios quais lemos definido o bem e o fim. L mais agradáveI o
prazer menos doIoroso e o que dura mais lempo. L lambém o
mais beIo que o menos beIo, pois o beIo é o agradáveI ou o
desejáveI em si mesmo. L lodas as coisas de que os lomens
mais desejam ser aulores, quer para si mesmos quer para os
amigos, são bens maiores, e são maiores maIes aqueIas coisas
de que eIes menos o desejam. L as coisas mais duráveis são
meIlores que as menos duráveis, e as mais seguras que as
menos seguras, porque o uso das primeiras é superior em lem-
po, e o das segundas em desejo, pois podemos fazer um maior
uso de coisas que são seguras quando as desejamos.
L assim como se seguem as correIações de lermos e as for-
mas de fIexão semeIlanles, seguem-se lambém as demais coi-
sas, por exempIo, se «corajosamenle» é mais beIo e preferíveI a
«lemperadamenle», a coragem é lambém preferíveI à lempe-
rança, e ser corajoso a ser lemperado. L o que lodos preferem
é meIlor do que o que nem lodos preferem, e o que a maioria
prefere é meIlor do que o que prefere a minoria, pois, como
dissemos, o bem é o que lodos desejam, de sorle que será
maior bem o que mais se deseja. Também o que preferem os
oponenles, ou os inimigos, ou os juízes ou aqueIes a quem esles
juIgam, pois, num caso é, por assim dizer, o verediclo de lodo
o povo, no oulro, o das auloridades e dos compelenles. Imas
vezes é maior bem aquiIo de que lodos parlicipam, pois seria
uma desonra não parlicipar, mas oulras é aquiIo de que nin-
guém ou muilo poucos parlicipam, pois é mais raro. Também
as coisas mais dignas de eIogio, porque são mais beIas. L de
iguaI modo aqueIas cujas lonras são maiores, pois a lonra é
1365a
62
Vi!c Gcrgics, 469c2.
121
uma espécie de recompensa peIo mérilo. L aqueIas cujas penas
são maiores. L as que são maiores do que as que se reconle-
cem como grandes ou o parecem. Também as mesmas coisas
parecem maiores quando divididas em parles, pois parecem su-
periores a um maior numero de coisas. IeIo que lambém diz o
poela que as seguinles paIavras persuadiram MeIéagro a
Ievanlar-se para Iular:
Qucnics mc|cs sc|rc.cm ccs |cmcns cujc ci!c!c c ic-
mc!c, c pc.c pcrccc, c jcgc !csirci c ci!c!c, c csircn|cs
|c.cm cs ji||cs.
63
A combinação e acumuIação, como em Lpicarmo, produ-
zem o mesmo efeilo, peIa mesma razão que a divisão (pois a
combinação moslra grande superioridade) e porque isso pare-
ce ser a origem e a causa de grandes coisas. L porque o mais
difíciI de obler e o mais raro é maior, lambém as ocasiões, as
idades, os Iugares, os lempos e as facuIdades engrandecem as
coisas. Iois se uma pessoa faz coisas acima da sua capacidade,
da sua idade, e do que os seus semeIlanles podem fazer, e se
essas coisas se fazem de laI maneira, em laI Iugar ou em laI
lempo, lerão a grandeza das coisas beIas, boas e juslas, e dos
seus conlrários, donde o epigrama ao vencedor oIímpico:
Anics, |c.cn!c ccs cm|rcs um !urc jugc, ircnspcr-
ic.c pcixc !c Agrcs pcrc 1cgcic.
64
L Ifícrales Iouvava-se a si mesmo dizendo donde linla
clegado a lão aIlo. Também o que é naluraI é maior do que o
adquirido, porque é mais difíciI. Donde lambém diz o poela:
|u scu c mcu prcpric mcsirc.
65
L a maior parle do grande é lambém mais desejáveI, como
IéricIes disse, na sua oração funebre, que a juvenlude fora ar-
rebalada da cidade como se do ano se livesse arrancado a Iri-
mavera. Também o que é uliI em siluações de maior necessi-
63
||., 9.592-594.
64
Simónides, fr. 11O DielI.
65
O!., 22.347.
122
dade, por exempIo, na veIlice e nas enfermidades. L, de duas
coisas, é preferíveI a que eslá mais próxima do seu fim. Tam-
bém a que é uliI a uma pessoa é preferíveI à que é uliI em
absoIulo. L a que é possíveI é preferíveI à impossíveI, pois uma
é-nos uliI e a oulra não. Também as coisas que perlencem ao
fim da vida, pois são mais fins as que eslão próximas do fim.
L as que são conformes à verdade são preferíveis às que são
conformes à opinião. O que é conforme à opinião define-se
como aquiIo que não se escoIleria se devesse ficar ocuIlo.
L por isso poderia parecer que é preferíveI receber um benefí-
cio a fazô-Io, pois escoIler-se-ia o primeiro ainda que passasse
despercebido, mas parece que não se escoIleria fazer o benefí-
cio se eIe ficasse ocuIlo. São preferíveis lambém aqueIas coisas
que se querem mais em reaIidade do que na aparôncia, porque
eslão mais próximas da verdade. L por isso se diz que a jus-
liça lem pouco vaIor, porque neIa o parecer é preferíveI ao ser.
Não é esse, porém, o caso da saude. Irefere-se lambém o que
é mais uliI sob muIlipIos aspeclos, por exempIo, o que é mais
uliI para viver, viver bem, senlir prazer, e pralicar beIas acções.
Ior isso, a riqueza e a saude parecem ser os maiores bens, pois
lôm lodas eslas quaIidades. L o que é menos doIoroso e é
acompanlado de prazer é um maior bem, pois é mais do que
um bem, uma vez que o prazer e a ausôncia de dor são ambos
bens. L, de dois bens, o maior é o que, acrescenlado ao mes-
mo, faz o lodo maior. L as coisas cuja presença não passa des-
percebida são maiores do que aqueIas em que passa, pois
aproximam-se mais da verdade. Ior isso, ser rico parecerá ser
um maior bem do que aparenlá-Io. L o que é muilo apreciado,
ou porque é unico, ou porque é acompanlado por oulras coi-
sas, é um maior bem. Ior isso a pena não é iguaI se aIguém
lira um oIlo a quem só lem um, ou o lira a quem lem os dois,
pois aqueIe se priva do que mais aprecia.
Temos alé aqui enumerado quase lodas as premissas de
que é necessário lirar as provas para aconseIlar e dissuadir.
8
SOBRE AS FORMAS DE GOVERNO
O maior e mais eficaz de lodos os meios para se poder
persuadir e aconseIlar bem é compreender as dislinlas formas
1365b
123
de governo, e dislinguir os seus caracleres
66
, insliluições e in-
leresses parlicuIares. Iois lodos se deixam persuadir peIo que
é convenienle, e o que preserva o Lslado é convenienle
67
. AIém
disso, é soberana a manifeslação do soberano, e as manifesla-
ções de soberania variam consoanle as formas de governo, pois,
quanlas são as formas de governo, lanlas são lambém as ma-
nifeslações de soberania. São qualro as formas de governo:
democracia, oIigarquia, arislocracia e monarquia, de sorle que
o poder soberano e o de decisão eslá sempre em parle dos ci-
dadãos ou no seu lodo. A democracia é uma forma de gover-
no em que as magislraluras se reparlem por sorle
68
. A oIigar-
quia é uma forma de governo em que eIas se alribuem segundo
o censo. A arislocracia é uma forma de governo em que eIas se
alribuem com base na educação. Clamo educação à que é
eslaluída peIa Iei, pois os que permanecem fieis às Ieis são os
que governam na arislocracia, eIes parecem necessariamenle os
meIlores, e é daí que esla forma de governo recebeu o nome.
A monarquia é, como o nome indica, a forma de governo em
que um só é senlor de lodos, e, de enlre as monarquias, a que
exerce o poder sujeila a uma cerla ordem é reino, e a que o
exerce sem Iimiles é lirania.
Não se deve ignorar o fim de cada uma deslas formas de
governo, pois as coisas escoIlem-se em função do seu fim. Ora
o fim da democracia é a Iiberdade, o da oIigarquia a riqueza, o
1366a
66
O lexlo de W. D. Ross, na edição de Oxford, regisla a Iição
j0p (sicui A), em vez de r0p (CH e i) adoplada por SpengeI, Cope e
Tovar. Lsla Ieilura, como diz Racionero, favorece loda a argumenla-
ção de 1366a8-16, «con eI expreso paraIeIismo j0p tæv acìttrIæv de
1366a12» (Rcicricc, Inlroducción, lraducción y nolas, Madrid, Gredos,
199O, p. 236).
67
L com esle enquadramenlo poIílico do «convenienle» que Arisló-
leIes encerra o esludo da oralória deIiberaliva. L compreende-se, porque,
como assinaIa Quinlín Racionero, ArislóleIes confirma e ampIia progres-
sivamenle na sua obra a lese «de Ia subordinación de Ias refIexiones so-
bre Ia praxis aI marco deI saber poIílico: vid. |i|icc Niccmcc|cc 1. 2 y 8.9,
esp. 116Oa1O-3O» (Rcicricc, Inlroducción, lraducción y nolas, Madrid, Gre-
dos, 199O, pp. 236-238, n. 2O8).
68
Iorma caracleríslica de eIeição nas democracias mais radicais da
Grécia, incIuindo a de Alenas. ResuIla da compreensão de que lodos os
cidadãos são iguais e iguaImenle quaIificados para parlicipar no governo
da cidade.
124
da arislocracia a educação e as Ieis, e o da lirania a defesa
pessoaI. Torna-se, porlanlo, cIaro que é em reIação ao fim de
cada uma deslas formas de governo que se devem dislinguir
os lábilos, as insliluições e os inleresses, vislo que é em reIa-
ção ao fim que a escoIla se faz. Ora, como as provas por per-
suasão não só procedem do discurso epidíclico mas lambém
do élico (pois deposilamos confiança no orador na medida em
que eIe exibe cerlas quaIidades, islo é, se nos parece que é
bom, bem disposlo ou ambas as coisas), será necessário que
dominemos os caracleres de cada forma de governo, pois o
carácler de cada uma dessas formas é necessariamenle o eIe-
menlo mais persuasivo em cada uma deIas. L esles caracleres
conlecer-se-ão peIos mesmos meios, pois os caracleres ma-
nifeslam-se segundo a inlenção e a inlenção é dirigida para
um fim.
Acabam de ser referidos, na medida que convém ao as-
sunlo na presenle ocasião, os fins fuluros ou acluais a que
devem clegar os que aconseIlam, as premissas de que eIes
devem lirar as provas por persuasão sobre o que convém, bem
como o modo e os meios de obler conlecimenlo sobre os ca-
racleres e insliluições de cada forma de governo, pois esle as-
sunlo disculiu-se em pormenor na Pc|iiicc.
9
A RETÓRICA EPIDÍCTICA
Depois dislo, faIemos da virlude e do vício, do beIo e
do vergonloso, pois esles são os objeclivos de quem eIogia
ou censura. Com efeilo, sucederá que, ao mesmo lempo que
faIarmos deslas queslões, eslaremos lambém a moslrar aque-
Ies meios peIos quais deveremos ser considerados como pes-
soas de um cerlo carácler. Lsla era a segunda prova, pois é
peIos mesmos meios que poderemos inspirar confiança em
nós próprios e nos oulros no que respeila à virlude. Mas,
como muilas vezes aconlece que, por brincadeira ou a sério,
Iouvamos não só um lomem ou um deus mas alé seres ina-
nimados ou quaIquer animaI que se apresenle, devemos de
iguaI modo prover-nos de premissas sobre esles assunlos.
IaIemos, porlanlo, lambém deIas, peIo menos a líluIo de
exempIo.
125
Iois bem, o beIo
69
é o que, sendo preferíveI por si mes-
mo, é digno de Iouvor, ou o que, sendo bom, é agradáveI por-
que é bom. L se islo é beIo, enlão a virlude é necessariamenle
beIa, pois, sendo boa, é digna de Iouvor. A virlude é, como
parece, o poder de produzir e conservar os bens, a facuIdade
de preslar muilos e reIevanles serviços de loda a sorle e em
lodos os casos. Os eIemenlos da virlude são a jusliça, a cora-
gem, a lemperança, a magnificôncia, a magnanimidade, a Iibe-
raIidade, a mansidão, a prudôncia e a sabedoria. As maiores
virludes são necessariamenle as que são mais uleis aos oulros,
poslo que a virlude é a facuIdade de fazer o bem. Ior esla
razão se lonram sobreludo os juslos e os corajosos, pois a vir-
lude desles é uliI aos demais na guerra, e a daqueIes é uliI
lambém na paz. Segue-se a IiberaIidade, pois os Iiberais são
generosos e não dispulam sobre as riquezas, que é o que mais
cobiçam os oulros. A jusliça é a virlude peIa quaI cada um
possui os seus bens em conformidade com a Iei, e a injusliça é
o vício peIo quaI relém o que é dos oulros, conlrariamenle à
Iei. A coragem é a virlude peIa quaI se reaIizam beIas acções
no meio do perigo, como ordena a Iei e em obediôncia à Iei, o
conlrário é covardia. A lemperança é a virlude peIa quaI uma
pessoa se conduz como a Iei manda em reIação aos prazeres
do corpo. O conlrário é a inlemperança. A IiberaIidade é a vir-
lude de fazer bem com o dinleiro. A avareza é o conlrário.
A magnanimidade é uma virlude produliva de grandes bene-
fícios, a mesquinlez, o seu conlrário. A magnificôncia é a vir-
lude de fazer coisas grandes e cuslosas, a mesquinlez e a mi-
séria, os seus conlrários. A prudôncia é a virlude da inleIigôncia
medianle a quaI se pode deIiberar adequadamenle sobre os
bens e os maIes de que faIámos em reIação à feIicidade.
Sobre a virlude e o vício em geraI, bem como sobre as suas
parles, clega de momenlo o que dissemos. Quanlo ao reslo,
não é difíciI de ver, pois é evidenle que ludo o que produz a
virlude é necessariamenle beIo (porque lende para a virlude),
assim como é beIo o que procede da virlude, e são esles os
sinais e as obras da virlude. Mas como são beIos os sinais de
virlude e lodas as coisas que são obras ou experiôncias de um
1366b
69
Lsle capíluIo ocupa-se das virludes e do conceilo de tè keìev, «o
beIo», «o nobre» e seu conlrário «o feio», «o vergonloso», como funda-
menlos de eIogio e censura na relórica epidíclica.
126
lomem bom, segue-se necessariamenle que lodas as obras ou
sinais de coragem e lodos os aclos corajosamenle pralicados são
iguaImenle beIos, lambém as coisas juslas e as obras feilas com
jusliça são beIas (mas não as juslamenle sofridas, pois esla é a
unica virlude em que nem sempre é beIo o que se faz com
jusliça, anles é mais vergonloso ser casligado jusla do que in-
juslamenle). L o mesmo aconlece com as demais virludes. Tam-
bém são beIas lodas as coisas cujo prémio é a lonra, e as que
visam mais a lonra do que o dinleiro. IguaImenle as coisas
desejáveis que uma pessoa não faz por amor de si mesma,
coisas que são absoIulamenle boas, como as que uma pessoa
fez peIa sua pálria, descuidando embora o seu próprio inleres-
se, coisas que são boas por nalureza, e as que são boas, embo-
ra o não sejam para o próprio, pois eslas uIlimas sô-Io-iam por
egoísmo, são beIas as coisas que é possíveI ler depois da morle
mais do que duranle a vida, pois o que se faz em vida lem um
fim mais inleresseiro. Também lodas as obras que se fazem em
benefício dos oulros, pois são mais desinleressadas, e lodos os
ôxilos oblidos para oulros, mas não para o próprio, nomeada-
menle para os benfeilores, porque isso é juslo. L os aclos de
beneficôncia, pois são desinleressados. Também o conlrário
daqueIas coisas de que nos envergonlamos, pois envergonla-
mo-nos de paIavras, acções e inlenções vergonlosas, como lam-
bém Safo que, ao dizer-Ile AIceu, «Quero dizer aIgo, mas a
vergonla mo impede»
7O
, escreveu:
Sc ii.csscs c !cscjc !c cciscs |ccs c |c|cs, c c iuc |in-
guc sc n4c mc.cssc pcrc !izcr c|gumc inccn.cnicncic, c
.crgcn|c n4c ic !cmincric cs c||cs, cnics jc|crics !c ¡uc
c jusic.
71
Também são beIas as coisas peIas quais o lomem Iula sem
lemor, pois, no que loca aos bens que conduzem à gIória, é isso
que Ile sucede. L são mais beIas as virludes e as acções das
pessoas que são mais dislinlas por nalureza como, por exem-
pIo, as do lomem mais do que as da muIler. Também aqueIas
que são mais proveilosas para os oulros do que para nós, por
isso o juslo e a jusliça são coisas beIas. Vingar-se dos inimigos
1367a
7O
Cf. Ani|. |µr. Bergk-HiIIer, fr. 42.
71
Cf. Safo, fr. 138 CampbeII.
12¯
é mais beIo do que reconciIiar-se com eIes
72
, pois é juslo pagar
com a mesma moeda, e o que é juslo é beIo, e é próprio do
lomem corajoso não se deixar vencer. Também a vilória e a
lonra se conlam enlre as coisas beIas, pois são preferíveis
mesmo que infrulíferas e manifeslam superioridade de virlu-
de. BeIos são ainda os aclos memoráveis, e lanlo mais beIos
quanlo mais duráveI for a memória deIes. Também os que nos
seguem depois da morle, os que a lonra acompanla, os que
são exlraordinários, e os que a um só perlencem são mais be-
Ios, porque mais memoráveis. Ainda os bens improdulivos,
pois são mais próprios de um lomem Iivre. São beIos lambém
os usos caracleríslicos de cada povo, e ludo o que em cada um
deIes é sinaI de eIogio, por exempIo, enlre os Iacedemónios é
beIo usar o cabeIo comprido, pois isso é sinaI de um lomem
Iivre, e não é fáciI fazer um lrabaIlo serviI quando se lem o
cabeIo comprido. L iguaImenle beIo não exercer nenlum ofício
vuIgar, pois é próprio de um lomem Iivre não viver na depen-
dôncia de oulrem.
No que concerne ao eIogio e à censura, devemos assumir
como idônlicas às quaIidades exislenles aqueIas que Iles eslão
próximas, por exempIo, que o lomem cauleIoso é reservado e
caIcuIisla, que o simpIes é loneslo, e o insensíveI é caImo, e,
em cada caso, lirar proveilo deslas quaIidades semeIlanles
sempre no senlido mais favoráveI, por exempIo, apresenlar o
coIérico e furioso como franco, o arroganle como magnificenle
e digno, e os que moslram aIgum lipo de excesso como se
possuíssem as correspondenles virludes, por exempIo, o leme-
rário como corajoso e o pródigo como IiberaI, pois assim o
parecerá à maioria, e ao mesmo lempo se pode deduzir um
paraIogismo
73
a parlir da causa, pois, se uma pessoa se expõe
ao perigo sem necessidade, parecerá muilo mais disposla a
fazô-Io quando o perigo for beIo e, se for generosa com os que
por acaso enconlra, lambém o será com os amigos, pois é ex-
cesso de virlude fazer bem a lodos. Imporla lambém ler em
conla as pessoas anle as quais se faz o eIogio, pois, como
Sócrales dizia, não é difíciI eIogiar alenienses na presença de
alenienses. Convém ainda faIar do que é reaImenle lonroso em
1367b
72
Iois, segundo a Rcicricc I 9, 1366b, é juslo que a cada um se dô o
que Ile é devido.
73
Argumenlo faIacioso.
128
cada audilório, por exempIo, enlre os Cilas, os Iacedemónios
ou os fiIósofos. L, de um modo geraI, o que é lonroso deverá
ser cIassificado como beIo, já que, segundo parece, o lonroso e
o beIo são semeIlanles. L lodas as acções que são como con-
vém são beIas, como, por exempIo, as que são dignas dos an-
lepassados ou de feilos anleriores, pois adquirir mais lonra
conduz à feIicidade e é beIo. Também se se uIlrapassa o que
convém para aIgo meIlor e mais beIo, como, por exempIo, se
aIguém é moderado na venlura, e magnânimo na desvenlura,
ou se se reveIa meIlor e mais conciIiador à medida que se eIe-
va. Ioi esse o senlido da paIavra de Ifícrales, «!cn!c cu pcrii c
c ¡uc c|cguci!», e do vencedor oIímpico, «Anics supcricn!c sc|rc
cs mcus cm|rcs um !urc.»
74
, e de Simónides, «||c, cujc pci, mc-
ri!c c irm4cs jcrcm iircncs»
75
.
Ora, como o eIogio se faz de acções e é próprio do lo-
mem loneslo agir por escoIla, é preciso empenlarmo-nos em
demonslrar que eIe agiu por escoIla. L iguaImenle uliI mos-
lrar que agiu assim muilas vezes. Ior isso, lambém as coinci-
dôncias e as causaIidades se devem enlender como aclos inlen-
cionais, pois se se produzirem muilas acções semeIlanles,
parecerá que eIas são sinais de virlude e de inlenção.
O eIogio
76
é um discurso que manifesla a grandeza de
uma virlude. L, por conseguinle, necessário moslrar que as
acções são virluosas. Mas o encómio refere-se às obras (e as
circunslâncias que as rodeiam concorrem para a prova, como,
por exempIo, a nobreza e a educação, pois é prováveI que de
bons pais nasçam bons fiIlos, e que o carácler corresponda à
educação recebida). L por isso fazemos o encómio de quem
74
Simónides, fr. 11O DielI.
75
||i!cm, fr. 85 DielI.
76
A dislinção enlre eIogio e encómio enconlra-se iguaImenle na
|i|icc |u!cmic II 1, 1219b8, e na |i|icc Niccmcc|cc I 2, 11O1b31-34, se bem
que com base em crilérios dislinlos. No primeiro passo, rykæµtcv é a nar-
ração de obras parlicuIares, e raetvc¸ a de uma dislinção da carácler ge-
raI. Mas, no segundo, raetvc¸ e rykæµtcv são lermos usados para expIicar
que eIogiamos por acções e por obras, remelendo-se o eIogio especifica-
menle à virlude das acções, e o encómio à das obras. No uso correnle da
Iíngua grega, raetvc¸ é um lermo geraI para eIogio ou Iouvor, e assim
usado em muilos conlexlos, ao passo que rykæµtcv se assume geraImenle
como género relórico.
129
reaIizou aIgo. As obras são sinais do carácler labiluaI de uma
pessoa, pois eIogiaríamos alé quem nenluma fez, se eslivésse-
mos convencidos de que era capaz de a fazer. A bônção e a
feIicilação são idônlicas uma à oulra, não são, porém, o mes-
mo que o eIogio e o encómio. Mas, como a feIicidade engIoba
a virlude, lambém a feIicilação engIoba esles
77
.
O eIogio e os conseIlos
78
perlencem a uma espécie co-
mum, pois o que se pode sugerir no conseIlo lorna-se encómio
quando se muda a forma de expressão. Quando, porlanlo, sa-
bemos o que devemos fazer e como devemos ser, basla que,
para eslabeIecer isso como conseIlo, se mude a forma de ex-
pressão e se dô a voIla à frase, dizendo, por exempIo, que
imporla não nos orguIlarmos do que devemos à forluna, mas
só do que devemos a nós mesmos. Dilo assim, lem a força de
um conseIlo, mas, expresso como eIogio, será: eIe não se senle
orguIloso do que deve à forluna, mas apenas do que deve a si
próprio. De sorle que, quando quiseres eIogiar, oIla para o
conseIlo que se poderá dar, e quando quiseres dar um conse-
Ilo, oIla para o que se pode eIogiar. A forma de expressão será
necessariamenle conlrária quando a proibição se lransforma em
não-proibição.
Devemos iguaImenle empregar muilos meios de ampIifi-
cação
79
, por exempIo, se um lomem agiu só, ou em primeiro
Iugar, ou com poucas pessoas, ou se leve a parle mais reIevan-
le na acção, pois lodas eslas circunslâncias são beIas. Também
as derivadas dos lempos e das ocasiões, em especiaI as que
superam a nossa expeclação. Também se um lomem leve
muilas vezes sucesso na mesma coisa, pois esla é grande e
parecerá devida, não à forluna, mas a si próprio. Ainda se es-
límuIos e lonras foram invenlados e eslabeIecidos por sua cau-
sa, e se eIe foi o primeiro a receber um encómio, como Hipó-
Ioco, ou Ile foi erguida uma eslálua na praça pubIica, como a
1368a
77
Ior reIação com «eIogio» e «encómio», a «bônção» e a «feIicilação»
referem-se a uma forma mais eIevada de Iouvor, o quaI impIica o eIogio
e o encómio, e se reserva lanlo aos seres divinos como aos lumanos que
mais se aproximam dos deuses (|i|icc Niccmcc|cc I 2, 11O1b31-34).
78
O lermo uac0qkp deve enlender-se como sinónimo de ouµþcuìq,
«conseIlo».
79
A eu¸pot¸, ampIificação, é especiaImenle caracleríslica do género
epidíclico.
130
Harmódio e Arislogílon. SemeIlanlemenle lambém nos casos
conlrários. L se neIe não se enconlrar maléria suficienle para o
eIogio, é necessário compará-Io com oulros, como o fazia Isó-
crales, por não eslar labiluado à oralória judiciaI. Deve-se,
porém, comparar com pessoas de renome, pois resuIla ampIifi-
cado e beIo se se moslrar meIlor que os virluosos.
A ampIificação enquadra-se Iogicamenle nas formas de
eIogio, pois consisle em superioridade, e a superioridade é uma
das coisas beIas. IeIo que, se não é possíveI comparar aIguém
com pessoas de renome, é peIo menos necessário compará-Io
com as oulras pessoas, vislo que a superioridade parece reve-
Iar a virlude. Lnlre as espécies comuns a lodos os discursos, a
ampIificação é, em geraI, a mais apropriada aos epidíclicos,
pois esles lomam em consideração as acções por lodos aceiles,
de sorle que apenas resla revesli-Ias de grandeza e de beIeza.
Os exempIos, por seu lurno, são mais apropriados aos discur-
sos deIiberalivos, pois é com base no passado que adivinla-
mos e juIgamos o fuluro. L os enlimemas convôm mais aos
discursos judiciais, pois o que se passou, por ser obscuro, re-
quer sobreludo causa e demonslração.
Iicam assim referidas as fonles de quase lodos os eIogios
e censuras, os eIemenlos a ler em visla quando imporla eIogiar
e censurar, e as fonles dos encómios e das inveclivas, pois,
adquiridas eslas noções, são evidenles os seus conlrários, por-
que a censura deriva dos conlrários.
10
RETÓRICA JUDICIAL: A INJUSTIÇA E SUAS CAUSAS
No que respeila à acusação e à defesa, poderemos em se-
guida faIar do numero e da quaIidade das premissas de que se
devem conslruir os siIogismos. Imporla considerar lrôs coisas:
primeiro, a nalureza e o numero das razões peIas quais se co-
mele injusliça, segundo, a disposição dos que a comelem, ler-
ceiro, o carácler e a disposição dos que a sofrem. IaIaremos
ordenadamenle deslas queslões, depois de laver definido o que
é comeler uma injusliça. Lnlendamos por comeler injusliça cau-
sar dano voIunlariamenle em vioIação da Iei. Ora a Iei ou é
parlicuIar ou comum. Clamo parlicuIar à Iei escrila peIa quaI
se rege cada cidade, e comuns, às Ieis não escrilas, sobre as
1368b
131
quais parece laver uma acordo unânime enlre lodos. As pes-
soas agem voIunlariamenle quando sabem o que fazem, e não
são forçadas. Ora os aclos voIunlários nem sempre se fazem
premediladamenle, mas lodos os aclos premedilados se fazem
com conlecimenlo, pois ninguém ignora o que decide fazer. Os
molivos peIos quais premediladamenle se causa dano e proce-
de maI em vioIação da Iei são a maIdade e a inlemperança,
pois, se aIgumas pessoas lôm um ou mais vícios, naquiIo em
que são viciosas são lambém injuslas, por exempIo, o avarenlo
em reIação ao dinleiro, o Iicencioso em reIação aos prazeres
do corpo, o efeminado em reIação à indoIôncia, o covarde em
reIação aos perigos (pois os covardes abandonam por medo os
seus companleiros no perigo), o ambicioso peIo seu desejo de
lonra, o coIérico peIa ira, o amanle de lriunfo peIa vilória, o
rancoroso peIo desejo de vingança, o insensalo por confundir
o juslo e o injuslo, e o insoIenle peIo desprezo da opinião dos
oulros. L semeIlanlemenle com os demais, cada um em reIa-
ção ao objeclo do seu vício.
Mas o que se refere a islo é cIaro, em parle peIo que dis-
semos sobre as virludes, e em parle peIo que diremos sobre as
paixões. Resla-nos, porém, dizer por que causa se comele in-
jusliça, com que disposição e conlra quem. Irimeiro, dislinga-
mos o que nos propomos aIcançar ou evilar quando lenlamos
comeler injusliça, pois é evidenle que o acusador deve exami-
nar o numero e a nalureza das coisas que exislem no adversá-
rio, e lodos desejam quando fazem maI ao próximo, e o defen-
sor deve examinar a nalureza e o numero das que neIe não
exislem. Ora lodos fazem ludo, umas vezes não por inicialiva
própria, oulras vezes por inicialiva própria. Das coisas não fei-
las por inicialiva própria, umas fazem-se ao acaso, oulras por
necessidade, e das que se fazem por necessidade, umas são por
coacção, oulras por nalureza. De sorle que lodas as coisas que
se não fazem por inicialiva própria são resuIlado do acaso, da
nalureza ou da coacção. Mas as que se fazem por inicialiva
própria e de que os próprios são aulores, umas fazem-se por
lábilo, oulras por desejo, umas vezes peIo desejo racionaI,
oulras vezes peIo irracionaI. A vonlade é um desejo racionaI
do bem, pois ninguém quer aIgo senão quando crô que é bom,
mas a ira e a concupiscôncia são desejos irracionais. De manei-
ra que ludo quanlo se faz, necessariamenle se faz por sele cau-
sas: acaso, nalureza, coacção, lábilo, razão, ira e concupiscôn-
cia. Mas, dislinguir as acções na base da idade, dos lábilos
1369a
132
morais ou de quaisquer oulros molivos é supérfIuo, pois, se
aconlece que os jovens são irascíveis e concupiscenles, não é
peIa sua juvenlude que agem assim, mas por ira e concupis-
côncia. Nem lão-pouco por riqueza ou pobreza. Sucede, porém,
que os pobres desejam o dinleiro peIa sua indigôncia, e os ri-
cos desejam os prazeres desnecessários peIa sua abundância.
L lambém esles agem assim, não por riqueza ou pobreza, mas
peIo seu desejo concupiscenle. SemeIlanlemenle, os juslos e os
injuslos, e lodos quanlos se diz que agem de acordo com a sua
maneira de ser agirão por esles molivos: ou por razão ou por
paixão, uns, porém, por caracleres e paixões loneslas, e oulros,
peIos seus conlrários. Aconlece que a umas maneiras de ser se
seguem umas acções, e a oulras, oulras, pois laIvez no lempe-
ranle, por ser lemperanle, se manifeslem opiniões e desejos
bons acerca das coisas agradáveis, mas acerca das mesmas se
manifesle no inlemperanle o conlrário. Ior isso, devemos pôr
de Iado eslas dislinções, e examinar as consequôncias labiluais
de cerlas quaIidades, pois, se uma pessoa é branca ou prela,
aIla ou baixa, nada é delerminado em consequôncia de lais
quaIidades, mas, se eIa é nova ou veIla, jusla ou injusla, já é
diferenle. L, em geraI, devemos considerar lodas as circunslân-
cias que fazem diferenciar os caracleres dos lomens, por exem-
pIo, se uma pessoa se considera rica ou pobre, feIiz ou infeIiz,
fará aIguma diferença. Mas faIaremos disso mais larde, por
agora, faIemos em primeiro Iugar do que resla do nosso lema.
ResuIlam do acaso os faclos cuja causa é indelerminada,
aqueIes que se não produzem em visla de um fim, nem sem-
pre, nem geraImenle, nem de modo reguIar. Tudo islo é evi-
denle da definição do acaso. ResuIlam da nalureza lodos os
faclos que lôm uma causa inlerna e reguIar, pois produzem-se
sempre ou geraImenle da mesma maneira. Quanlo aos que são
conlrários à nalureza, nenluma necessidade lá de precisar se
eIes se produzem por uma causa naluraI ou por aIguma oulra,
pois poderia parecer que o acaso é lambém a causa de lais
coisas. ResuIlam da coacção os aclos que se produzem conlra
o desejo e os raciocínios dos mesmos que os pralicam. L resuI-
la do lábilo o que se faz por se laver feilo muilas vezes. Ia-
zem-se por cáIcuIo os aclos que, dos bens mencionados
8O
, pa-
recem ser convenienles ou como fins ou como meios para
1369b
8O
Rcicricc I 6.
133
alingir um fim, quando são feilos por conveniôncia, pois lam-
bém os inlemperanles pralicam aIguns aclos convenienles, não
porém por conveniôncia, mas por prazer. Ior paixão e ira se
comelem os aclos de vingança. Mas lá uma diferença enlre
vingança e casligo, pois o casligo é infIigido no inleresse do
pacienle, e a vingança no inleresse daqueIe que a exerce com o
fim de se salisfazer.
Sobre o que é a ira, moslrá-Io-emos quando faIarmos das
paixões
81
. Iaz-se peIo desejo ludo o que parece agradáveI. Tam-
bém o famiIiar e o labiluaI se conlam enlre as coisas agradá-
veis, pois muilas coisas que não são naluraImenle agradáveis se
fazem com prazer quando se lornam labiluais. Assim, em resu-
mo, lodos os aclos que os lomens pralicam por si mesmos são
reaImenle bons ou parecem sô-Io, são reaImenle agradáveis ou
parecem sô-Io. Ora, como os lomens fazem voIunlariamenle o
que fazem por si mesmos, e invoIunlariamenle o que não fazem
por si mesmos, segue-se que ludo o que fazem voIunlariamenle
será bom ou aparenlemenle bom, será agradáveI ou aparenle-
menle agradáveI. Com efeilo, incIuo no numero das coisas boas
a Iiberlação das que são más ou parecem más, ou a lroca de um
maI maior por um menor (pois são alé cerlo ponlo desejáveis),
e iguaImenle no numero das coisas agradáveis a Iiberlação das
que são ou parecem moIeslas, ou ainda a lroca de uma mais
moIesla por oulra que o é menos. Devemos, pois, famiIiarizar-
-nos com o numero e a quaIidade das coisas convenienles e
agradáveis. Ora, como já faIámos do convenienle ao lralarmos
do género deIiberalivo, faIemos agora do agradáveI. Devemos,
enlrelanlo, considerar suficienles as nossas definições se eIas
em cada caso não forem obscuras nem rigorosas
82
.
11
O PRAZER COMO MATÉRIA DE ORATÓRIA JUDICIAL
Admilamos que o prazer é um cerlo movimenlo da aIma
e um regresso lolaI e sensíveI ao seu eslado naluraI, e que a
dor é o conlrário. Ora, se esla é a nalureza do prazer, é evi- 137Oa
81
||i!cm, II 2.
82
Demasiado lécnicas.
134
denle que o que produz a disposição referida é agradáveI, e o
que a deslrói ou produz o movimenlo conlrário é doIoroso.
L, porlanlo, em geraI, necessariamenle agradáveI lender para o
nosso eslado naluraI, e principaImenle quando recuperam a sua
própria nalureza as coisas que se produzem conforme eIa. Os
lábilos são iguaImenle agradáveis, porque o que é labiluaI
aconlece já como se fosse naluraI, pois o lábilo é de aIgum
modo semeIlanle à nalureza, com efeilo, o que aconlece mui-
las vezes eslá próximo do que aconlece sempre, a nalureza é
própria do que aconlece sempre, e o lábilo do que aconlece
muilas vezes
83
. L agradáveI lambém o que não resuIla da
coacção, pois a coacção é conlrária à nalureza. Ior isso o que é
necessário é doIoroso, e com razão se disse:
1c!c c ccç4c impcsic pcr ncccssi!c!c c nciurc|mcnic
pcncsc.
84
As preocupações, o esforço e a apIicação inlensa são doIo-
rosos, porque envoIvem a necessidade e a coacção, se não fo-
rem labiluais, pois nesle caso o lábilo fá-Ios agradáveis. Os
seus conlrários são agradáveis, por isso as dislracções, a ausôn-
cia de lrabaIlos e cuidados, os jogos, o descanso e o sono se
conlam enlre as coisas agradáveis, pois nada dislo se faz por
necessidade. AgradáveI é lambém ludo aquiIo de que lemos
em nós o desejo, pois o desejo é apelile do agradáveI. Dos
desejos, uns são irracionais e oulros racionais. Clamo irracio-
83
L. M. Cope (An |nirc!uciicn ic Arisici|c´s R|cicric, HiIdesleim,
197O, pp. 226-228) esluda as principais varianles do lermo «lábilo» (r0c¸)
em ArislóleIes. Na |i|icc Niccmcc|cc II 1, 11O3a14-26, o lábilo é apresen-
lado como a causa das virludes que se referem ao carácler ou às virludes
élicas, por oposição às virludes dianoélicas que lôm a sua origem na
aprendizagem e na arle. O lábilo é em si mesmo um processo de fixação
de condulas, que se opera medianle a repelição de movimenlos e impuI-
sos gravados na memória. Como observa Racionero, «a semeIlança do
lábilo com a nalureza ou, meIlor, a ideia de que o lábilo conslilui aIgo
assim como uma nalureza induzida ou segunda, enconlra-se várias vezes
em ArislóleIes. Dislingue-se do «modo de ser» (r¸t¸), que supõe uma len-
dôncia geraI de comporlamenlo, e de «carácler» (\0c¸) que conslilui uma
incIinação suave e duradoura da personaIidade, mas que lanlo pode ser
naluraI como adquirida peIa força do lábilo (cp. cii., p. 265, n. 271).
84
Ienlâmelro alribuído a Lveno de Iaros, fr. 8 Wesl.
135
nais aos que não procedem de um aclo prévio da compreen-
são, e são desse lipo lodos os que se dizem ser nalurais, como
os que procedem do corpo, por exempIo, o desejo de aIimenlo,
a sede, a fome, o desejo reIalivo a cada espécie de aIimenlo, os
desejos Iigados ao goslo e aos prazeres sexuais e, em geraI, os
desejos reIalivos ao laclo, ao oIfaclo, ao ouvido e à visla. São
racionais os desejos que procedem da persuasão, pois lá mui-
las coisas que desejamos ver e adquirir porque ouvimos faIar
deIas e fomos persuadidos de que são agradáveis.
Ora, como o prazer consisle em senlir uma cerla emoção,
e a imaginação
85
é uma espécie de sensação enfraquecida, se-
gue-se que o Iembrar e o esperar são acompanlados por uma
cerla imagem daquiIo que se Iembra e espera. L se islo é as-
sim, é evidenle que lá prazer lanlo para os que Iembram como
para os que esperam, vislo que lambém lá sensação. De sorle
que, necessariamenle, lodos os prazeres ou são presenles na
sensação, ou passados na memória, ou fuluros na esperança,
pois senlimos o presenle, Iembramos o passado e esperamos o
fuluro. Ior conseguinle, as coisas que se recordam são agradá-
veis, não só as que eram agradáveis quando exisliam, mas lam-
bém aIgumas que enlão o não eram, se depois deIas resuIlou
aIguma coisa beIa e boa. Donde lambém se disse: «Mcs c cgrc-
!4.c| |cm|rcr cs pcrigcs csicn!c sc|.c»
86
, e: «O |cmcm rcgczijc-sc
mcsmc ncs scjrimcnics cc rcccr!4-|cs, c|c ¡uc muiic pc!cccu c muiic
rcc|izcu.»
87
A razão dislo é que lambém é agradáveI não sofrer o maI.
O que esperamos é agradáveI, quando a sua presença parece
lrazer-nos grande aIegria ou uliIidade, e uliIidade sem dor. Lm
geraI, as coisas que nos aIegram eslando presenles lambém nos
aIegram quando as esperamos e recordamos. Ior isso, alé a ira
é agradáveI, como lambém Homero escreveu sobre eIa: «¡uc c
137Ob
85
Traduzimos aqui o lermo çevteoIe por «imaginação», lendo em
consideração o conlexlo e a definição que o próprio ArislóleIes deIe avan-
ça no Dc cnimc III 3, 427b27-429a29, como «um movimenlo da sensação
em acção», e a dislinção mais adianle enlre «a fanlasia própria do senli-
do» e a «fanlasia racionaI» que, peIa sua capacidade de combinar várias
imagens numa só, serve de base para as deIiberações (cf. Q. Racionero,
cp. cii., p. 266, n. 276).
86
Lurípides, An!rcmc!c, fr. 133 Nauck.
87
O!., 15.4OO-4O1.
136
muiic mcis !ccc ¡uc c mc| ¡uc !csii|c gcic c gcic»
88
, pois ninguém
se ira conlra quem não pode ser alingido peIa sua vingança, e,
conlra quem nos é muilo superior em força, ou não nos iramos
ou nos iramos menos.
Os desejos são na sua maioria acompanlados de um cer-
lo prazer, pois as pessoas gozam de aIgum prazer, quer Iem-
brando-se de como o aIcançaram quer esperando que o aIcan-
çarão, por exempIo, os que, lendo febre, são afIigidos peIa sede,
lôm prazer em Iembrar-se de que beberam e em esperar que
virão a beber. L, de iguaI modo, os namorados lôm prazer em
faIar, escrever e fazer sempre aIgo que se refira ao objeclo
amado, pois em lodas eslas circunslâncias a memória Iles faz
crer que se enconlram em presença deIe. O começo do amor é
o mesmo para lodos: quando não só se deIeilam na presença
da pessoa amada, mas lambém se deIeilam em Iembrá-Ia quan-
do ausenle, e Iles sobrevém a dor de eIa não eslar presenle, e
alé nessas afIições e Iamenlos lá um cerlo prazer, pois a dor
deve-se à sua ausôncia, mas o prazer a recordá-Ia e, de aIgum
modo, a vô-Ia e às coisas que fazia ou como era. Ior isso, com
razão se disse: «Assim jc|cu, c cm ic!cs c|cs prc.cccu c !cscjc !c
c|crcr.»
89
A vingança lambém é agradáveI, pois, se é doIoroso não
aIcançar uma coisa, é agradáveI aIcançá-Ia, e os iracundos afIi-
gem-se em demasia quando não Iogram vingar-se, mas rego-
zijam-se quando esperam fazô-Io. L iguaImenle agradáveI a
vilória, não só para os que goslam de vencer, mas para lo-
dos, pois produz uma imagem de superioridade, a quaI, com
mais ou menos empenlo, lodos desejam. L porque a vilória é
agradáveI, lambém são necessariamenle agradáveis os jogos
de combales e dispulas (pois neIes muilas vezes se oblém a
vilória), lais como jogos de ossos, da boIa, de dados e de da-
mas. O mesmo aconlece com os jogos que requerem esforço,
pois uns lornam-se agradáveis quando a eIes nos labiluamos,
e oulros são-no imedialamenle, como, por exempIo, a caça
com cães e loda a sorle de caça. Iorque onde lá combale lá
iguaImenle vilória. Ior isso lambém a oralória judiciaI e a
eríslica são agradáveis para quem lem o lábilo e a capacida-
de de as usar.
1371a
88
||., 18.1O9.
89
||., 23.1O8, O!., 4.183.
13¯
A lonra e a boa repulação conlam-se enlre as coisas
mais agradáveis, porque cada um imagina que possui as
quaIidades de um lomem virluoso, e sobreludo quando o
afirmam pessoas que eIe considera dizerem a verdade. Con-
lam-se enlre eIes os vizinlos mais do que os que se encon-
lram afaslados, os famiIiares e concidadãos mais do que os
eslranlos, os conlemporâneos mais do que os vindouros, os
sensalos mais do que os insensalos, e a maioria mais do que
a minoria, pois é mais prováveI que digam a verdade os que
acabamos de mencionar do que os seus conlrários, já que
nenluma imporlância Iigamos à lonra ou à opinião daque-
Ies que lemos em pouca conla, como as crianças e os ani-
mais, e, se Iigamos, não é peIa opinião em si, mas por aIgu-
ma oulra razão.
O amigo figura lambém enlre as coisas agradáveis, por-
que é agradáveI amar (pois quem não gosla de vinlo não lem
prazer em bebô-Io) e é agradáveI ser amado, pois lambém nes-
le caso uma pessoa lem a impressão de possuir um bem dese-
jado por lodos os lomens dolados de senlimenlo, e ser amado
é ser objeclo de afeição por si mesmo. L iguaImenle agradáveI
ser admirado peIa mesma razão que receber lonras. Agradá-
veis são lambém a aduIação e o aduIador, pois o aduIador é
um aparenle admirador e um aparenle amigo.
Iazer muilas vezes as mesmas coisas é agradáveI, pois,
como dissemos, o que é labiluaI é agradáveI. Também a mu-
dança é agradáveI, pois mudar eslá na ordem da nalureza,
porque fazer sempre a mesma coisa provoca um excesso da
condição normaI. Donde se disse:
Dccc c c mu!cnçc !c ic!cs cs cciscs.
9O
Ior esla razão, lambém o que se vô periodicamenle é agra-
dáveI, lanlo pessoas como coisas, pois lá mudança do presen-
le, e é ao mesmo lempo raro o que se faz com inlervaIos. De
iguaI modo o aprender e o admirar são geraImenle agradáveis,
pois no admirar eslá conlido o desejo de aprender, de sorle que
o admiráveI é desejáveI, e no aprender se aIcança o que é se-
gundo a nalureza
91
. Conlam-se ainda enlre as coisas agradá-
9O
Lurípides, Or., 234.
91
O verdadeiro conlecimenlo ou fiIosofia.
138
veis fazer o bem e recebô-Io, pois receber um benefício é aIcan-
çar o que se deseja, e fazer o bem é possuir e ser superior: dois
fins a que lodos aspiram. L, porque é agradáveI fazer o bem, é
lambém agradáveI ao lomem corrigir o seu próximo e com-
pIelar o que eslá neIe incompIelo
92
. L, como aprender e admi-
rar é agradáveI, necessário é lambém que o sejam as coisas que
possuem eslas quaIidades, por exempIo, as imilações, como as
da pinlura, da escuIlura, da poesia, e em geraI lodas as boas
imilações, mesmo que o originaI não seja em si mesmo agra-
dáveI, pois não é o objeclo relralado que causa prazer, mas o
raciocínio de que ambos são idônlicos, de sorle que o resuIla-
do é que aprendemos aIguma coisa. São ainda agradáveis as
avenluras e o saIvar-se por pouco dos perigos, pois lodas eslas
coisas causam admiração. Vislo que é agradáveI ludo quanlo é
conforme à nalureza, e que as coisas do mesmo género são
enlre si conformes à nalureza, lodos os seres congéneres e se-
meIlanles se agradam a maior parle do lempo, por exempIo, o
lomem ao lomem, o cavaIo ao cavaIo e o jovem ao jovem.
Donde se escreveram os seguinles provérbios: «cada um deIei-
la-se com o da sua idade», «busca-se sempre o semeIlanle», «a
fera conlece a fera», «sempre o gaio com o gaio», e oulros
semeIlanles a esles.
Ora como as coisas semeIlanles e congéneres são lodas
eIas agradáveis para uma pessoa, e como cada um experimen-
la no mais aIlo grau esle senlimenlo para consigo próprio, se-
gue-se necessariamenle que lodos são mais ou menos aman-
les de si mesmos, pois é sobreludo no indivíduo em si mesmo
que lodas eslas semeIlanças exislem. L porque lodos são
amanles de si mesmos, lodos lôm necessariamenle por agra-
dáveis as coisas que Iles perlencem, por exempIo, as suas
obras e as suas paIavras. Ior isso amam com lanla frequôncia
os aduIadores, os amanles, as lonras e os fiIlos, porque os
fiIlos são obra sua. L lambém agradáveI compIelar o que eslá
incompIelo, pois desde enlão a obra passa a ser de quem a
concIuiu. L porque é muilo agradáveI mandar, é lambém
agradáveI passar por sábio, pois a sensalez é própria do man-
do, e a sabedoria é ciôncia de muilas e admiráveis coisas.
AIém disso, como os lomens são em geraI ambiciosos, é ne-
cessariamenle agradáveI censurar o próximo e governá-Io,
1371b
92
Islo é, suprir as suas necessidades.
139
assim como ocupar o seu lempo naquiIo em que juIgam ser
os meIlores, como lambém diz o poela:
Nisic cc!c um sc csjcrçc,
c !c!iccr c mcicr pcric !c cc!c !ic
pcrc ccnscguir !c si mcsmc scr c mc||cr.
93
SemeIlanlemenle, como são agradáveis o jogo, loda a es-
pécie de foIga e o riso, lambém o que é risíveI deve ser agra-
dáveI, lanlo pessoas, como paIavras e obras. As coisas risíveis
foram definidas separadamenle nos Iivros sobre a Pcciicc
94
. Lis
o que línlamos para dizer sobre as coisas agradáveis, as doIo-
rosas são manifeslas peIos seus conlrários.
12
AGENTES E VÍTIMAS DE INJUSTIÇA
12.1 ÷ CARACTERÍSTICAS DOS QUE COMETEM A INJUSTIÇA
Lslas são as razões peIas quais se comele injusliça. Refira-
mos agora em que disposição e conlra quem eIa se comele. As
pessoas comelem injusliça quando pensam que a acção se pode
comeler e ser comelida por eIas: ou porque enlendem que o
seu aclo não será descoberlo ou, se o for, que ficará impune,
ou enlão porque, se esle for punido, a punição será menor do
que o Iucro que esperam para si mesmos ou para aqueIes de
quem cuidam. IaIaremos mais adianle das acções que parecem
possíveis ou impossíveis, pois são comuns a lodos os géneros
de discurso. Quem sobreludo pensa que pode comeler injusli-
ça impunemenle são os dolados de eIoquôncia, os lomens de
acção, os que lôm grande experiôncia de processos, se liverem
muilos amigos e forem ricos. L sobreludo quando se enconlram
nas condições referidas que eIes pensam poder comeler a in-
jusliça, ou enlão, quando lôm amigos, servos ou cumpIices que
salisfazem essas condições, pois, graças a esses meios, eIes po-
dem agir sem ser descoberlos nem punidos. L iguaImenle se
1372a
93
Lurípides, Aniicpc, fr. 183 (Nauck).
94
Pcciicc II.
140
são amigos dos que sofrem a injusliça ou dos juízes, pois, por
um Iado, os amigos não eslão prevenidos conlra a injusliça dos
seus amigos e procuram a reconciIiação anles de recorrerem
aos lribunais, por oulro, os juízes são favoráveis aos seus ami-
gos e, ou os deixam em compIela Iiberdade, ou Iles infIigem
penas Ieves.
Lslão em condições de não ser descoberlos aqueIes que
lôm um perfiI conlrário às acusações. Ior exempIo, o débiI ser
acusado de vioIôncia, ou o pobre e feio de aduIlério. Também
os aclos que se comelem inleiramenle às cIaras e à visla de
lodos, pois nenluma precaução se loma para os prevenir, peIo
faclo de ninguém ousar sequer imaginá-Ios. L os que são lão
grandes e lão graves que ninguém se pensaria capaz de os
comeler, pois lambém esles não são prevenidos, porque lodos
se previnem conlra o que é labiluaI, quer sejam enfermidades
ou injusliças, mas ninguém loma precauções conlra uma doen-
ça que nunca ninguém leve. Nas mesmas condições eslão os
que não lôm inimigos ou lôm muilos, pois os primeiros pen-
sam que não serão descoberlos porque se não lomam precau-
ções conlra eIes, e os segundos não são descoberlos porque não
é críveI que vão alacar quem eslá prevenido, e porque lôm a
defesa de que se não arriscariam a lenlá-Io. Os que lôm aIgum
meio de ocuIlar a sua acção, quer seja arlifício, Iugar ou dispo-
sição favoráveI. Os que, se forem descoberlos, conseguem evi-
lar o processo, adiá-Io, ou corromper os juízes. Os que, se fo-
rem condenados, podem evilar o pagamenlo ou adiá-Io por
Iongo lempo, ou quem, por faIla de recursos, nada lerá a per-
der. AqueIes para quem o ganlo é evidenle, imporlanle ou
imedialo, e o casligo pequeno, inseguro ou dislanle. AqueIes
para quem o casligo não é iguaI ao benefício, como parece
aconlecer no caso da lirania. AqueIes para quem as injusliças
são Iucro, mas os casligos apenas desonra. AqueIes a quem,
peIo conlrário, as injusliças proporcionarão aIgum eIogio, se
Iles aconlece, por exempIo, vingarem ao mesmo lempo o pai e
a mãe, como no caso de Zenão, e se o casligo apenas envoIve
a perda de dinleiro, o exíIio ou coisa semeIlanle, pois por
ambos os molivos |o ganlo e a lonraj e em ambas as disposi-
ções se comele a injusliça, mas as pessoas não são as mesmas,
anles em cada um dos casos denolam caracleres oposlos. Os
que muilas vezes pralicaram a injusliça sem que fossem desco-
berlos ou punidos, e os que muilas vezes foram maI sucedi-
dos, pois nesles casos, como nos combales, lá sempre os que
1372b
141
eslão disposlos a reiniciar a Iula. AqueIes para quem o prazer
é imedialo mas a dor senlida mais larde, ou aqueIes para quem
o ganlo é imedialo mas o casligo é sofrido mais larde, pois
esse é o caso dos inlemperanles, e a inlemperança apIica-se a
ludo o que se deseja. AqueIes para quem, peIo conlrário, a dor
e o casligo são imedialos, mas o prazer e o proveilo são posle-
riores e mais duradoiros, pois eslas são as coisas que os lem-
peranles e mais sensalos perseguem. Os que podem dar a im-
pressão de lerem agido por acaso, ou por necessidade, ou por
nalureza ou por lábilo e, em geraI, de lerem comelido um erro
mas não uma injusliça. AqueIes para quem é possíveI obler
induIgôncia. Os que são necessilados. L lá duas espécies de
necessidade: a necessidade do indispensáveI, como no caso dos
pobres, e a necessidade do supérfIuo, como no caso dos ricos.
Também os que gozam de muilo boa repulação e os que eslão
privados deIa, os primeiros por não parecerem cuIpáveis, e os
segundos por não se poderem desconsiderar mais.
12.2 ÷ CARACTERÍSTICAS DOS QUE SOFREM A INJUSTIÇA
Lslas são, pois, as disposições que Ievam as pessoas a co-
meler a injusliça. Comelem-na conlra as seguinles pessoas e nas
seguinles circunslâncias. Conlra quem possui aquiIo de que eIes
próprios lôm faIla, ou para as necessidades da vida, ou para o
supérfIuo, ou para o gozo dos senlidos, lanlo conlra os que
eslão Ionge como os que eslão perlo, pois o despojo dos uIli-
mos é rápido e o casligo dos primeiros é Ienlo, como aconlece
com os que despojam os Carlagineses
95
. Conlra os que não lo-
mam precauções nem se guardam, anles são confianles, pois é
fáciI apanlá-Ios lodos desprevenidos. Conlra os indoIenles, pois
é caracleríslico dos diIigenles sair em defesa própria. Conlra os
límidos, pois não são incIinados a Iular por queslões de ganlo.
Conlra os que foram muilas vezes aIvo de injusliça sem acudir
aos lribunais, porque, como diz o provérbio, são presa dos Mí-
sios
96
. Conlra os que nunca sofreram injusliça e os que a so-
95
Na menle de ArislóleIes eslão, laIvez, os alaques de piralas gre-
gos sobre navios carlagineses.
96
Dilo muilo frequenle para designar os que não sabem ou não
podem defender-se.
142
freram muilas vezes, pois ambos eslão desprevenidos: uns por-
que nunca injusliçados, os oulros porque o não esperam ser
oulra vez. Conlra os que foram caIuniados ou eslão exposlos a
sô-Io, pois os lais não se resoIvem a acusar por lemerem os
juízes, nem, se o fizerem, os conseguem persuadir, nesle nu-
mero conlam-se os invejados e os odiados. Conlra aqueIes em
reIação aos quais o agressor pode invocar como prelexlo que
os seus anlepassados, eIes próprios ou os seus amigos fizeram
maI ou liveram a inlenção de o fazer, quer a si mesmo, quer
aos seus anlepassados, quer aos que eslão sob o seu cuidado,
pois, como diz o provérbio, «a maIdade apenas precisa de um
prelexlo». Conlra os inimigos e os amigos, pois fazer maI a uns
é fáciI, e a oulros agradáveI. Conlra os que não lôm amigos.
Conlra os que não são lábeis no faIar, nem no agir, pois, ou
não lenlam defender-se, ou preferem conciIiar-se, ou não Ievam
a defesa a bom lermo. Conlra os que não lôm vanlagem em
perder lempo à espera do verediclo ou de uma indemnização,
como é o caso dos eslrangeiros e dos lrabaIladores por conla
própria, pois lransigem com pouco e faciImenle desislem dos
processos. Conlra os que comeleram muilas injusliças ou in-
jusliças semeIlanles às que agora sofrem, pois quase parece
não ser injusliça que uma pessoa sofra um maI semeIlanle
àqueIe que se labiluou a infIigir a oulrem, refiro-me, por exem-
pIo, a aIguém que maIlrala quem lem por lábilo uIlrajar os
oulros. Conlra os que já nos fizeram maI, ou o quiseram fazer,
ou o querem agora fazer, ou se preparam para o fazer, pois
islo lem aIgo de agradáveI e beIo e quase parece não ser uma
injusliça. Conlra aqueIes cujo maI dará prazer aos nossos ami-
gos, ou àqueIes que admiramos ou amamos ou lôm poder so-
bre nós, ou, numa paIavra, àqueIes por quem paulamos a nos-
sa vida. Conlra aqueIes em reIação aos quais é possíveI aIcançar
induIgôncia. Conlra aqueIes que censuramos e com quem já
divergimos, como CaIipo fez com Díon
97
, pois lambém lais
1373a
97
Observa Q. Racionero que ArislóleIes eslá a faIar de faclos que
conlecia bem, pois se lralava de dois condiscípuIos seus na Academia.
«CaIipo labía acompañado a Dión en Ia expedición que ésle dirigió con-
lra Dionisio II en eI 357, para Iiberar a Ios siciIianos de su liranía, pero
cayó en desgracia de Ios mercenarios de Dión. Iara saIvarse urdió un
compIol como resuIlado deI cuaI Dión perdió Ia vida (354)» (cp. cii.,
p. 279, n. 3O9). Lsla lislória é narrada por IIularco na Viic Dicn., 54-56.
143
casos quase parecem não ser aclos de injusliça. Conlra os que
eslão a ponlo de ser alacados por oulros, se eIes não alacarem
primeiro, quando já não é possíveI deIiberar, foi assim, diz-se,
que Lnesidemo enviou a GéIon
98
o prémio de cólabo ao ler
eIe reduzido à escravidão uma cidade, porque desle modo se
anlecipou ao que eIe próprio linla a inlenção de fazer. Conlra
aqueIes a quem se causa dano para depois se Iles poderem
fazer muilos aclos de jusliça, na ideia de que é fáciI reparar o
maI feilo, laI como disse }asão, o TessáIio
99
, que convém co-
meler aIgumas injusliças a fim de que lambém se possam fa-
zer muilas coisas juslas.
Também faciImenle se comelem as injusliças que lodos os
lomens ou a maior parle deIes coslumam comeler, pois pen-
sam vir a ser perdoados das suas ofensas. Os roubos fáceis de
ocuIlar: lais como os que rapidamenle se consomem, como, por
exempIo, os aIimenlos, ou os objeclos que podem mudar de
forma, cor, ou composição, ou os que se escondem com faciIi-
dade em muilos sílios, lais como os que se lransporlam faciI-
menle ou os que é possíveI ocuIlar em pequenos esconderijos,
e lambém os que em nada se dislinguem, e são em ludo seme-
Ilanles a muilos oulros que o que comele a injusliça já lem.
As injusliças que as vílimas lôm vergonla de decIarar, como
os uIlrajes sofridos peIas muIleres da sua famíIia, por eIas pró-
prias, ou peIos seus fiIlos. Os deIilos em que o recurso a lribu-
naI pareceria aclo de pessoa confIiluosa, como os danos de
pouca monla e faciImenle perdoáveis.
Lsle é um reIalo mais ou menos compIelo das circunslân-
cias em que se comele a injusliça, a nalureza das injusliças, as
vílimas deslas e suas causas.
98
Hislória maI conlecida. Há regislo apenas de um Lnesidemo,
membro da guarda pessoaI de Hipócrales, lirano de GeIa, e pai de Téron,
lirano de Ácragas (488-472 a. C.). Quanlo a GéIon, sabe-se que foi lirano
de GeIa e que posleriormenle se eslabeIeceu em Siracusa (485 a. C.). Vi!c
W. M. A. GrimaIdi, cp. cii., p. 283. O cólabo era um jogo correnle em
simpósios, que consislia em acerlar em aIgo com o vinlo conlido num
copo. O prémio do vencedor eram ovos, boIos e carnes doces. A principaI
fonle de informação sobre esle jogo é Aleneu, 479c-e, 487d-e, 665c-668f.
99
Trala-se do lirano de Ieras enlre 385 a. C. e 37O a. C. (IIularco,
Mcrc|ic, 817s-818a).
144
13
CRITÉRIOS DE JUSTIÇA E DE INJUSTIÇA
Dislingamos agora lodos os aclos de injusliça e de jusliça,
começando por observar que o que é juslo e injuslo foi já defi-
nido de duas maneiras em reIação a dois lipos de Ieis e a duas
cIasses de pessoas. Clamo Iei lanlo à que é parlicuIar como à
que é comum. L Iei parlicuIar a que foi definida por cada povo
em reIação a si mesmo, quer seja escrila ou não escrila, e co-
mum, a que é segundo a nalureza. Iois lá na nalureza um
princípio comum do que é juslo e injuslo, que lodos de aIgum
modo adivinlam mesmo que não laja enlre si comunicação ou
acordo, como, por exempIo, o moslra a Aniigcnc de SófocIes ao
dizer que, embora seja proibido, é juslo enlerrar IoIinices, por-
que esse é um direilo naluraI:
Pcis n4c c !c |cjc ncm cnicm, mcs !cs!c scmprc ¡uc
csic |ci cxisic, c ningucm sc|c !cs!c ¡ucn!c cpcrcccu.
1OO
L como diz LmpédocIes acerca de não malar o que lem vida,
peIo faclo de isso não ser juslo para uns e injuslo para oulros:
Mcs c |ci uni.crsc| csicn!c-sc |crgcmcnic circ.cs !c
cmp|c cicr c !c inccmcnsur4.c| icrrc.
1O1
L como lambém o diz AIcidamanle no seu Mcsscniccc
1O2
:
Ii.rcs !cixcu Dcus c ic!cs, c ningucm jcz cscrc.c c
nciurczc.
1O3
Lm reIação às pessoas, a jusliça é definida de duas manei-
ras, pois o que se deve fazer e não deve fazer é definido, quer
1373b
1OO
SófocIes, Aniigcnc, 456-457.
1O1
LmpédocIes, DK B 135.
1O2
Vi!c G. Kennedy, cp. cii., p. 1O3. AIcidamanle era um sofisla
anlerior a ArislóleIes, discípuIo de Górgias e meslre de relórica. Lsle dis-
curso era provaveImenle do género epidíclico.
1O3
Observa G. Kennedy que os manuscrilos de ArislóleIes não avan-
çam aqui uma cilação, que eIa é suprida por um comenlador medievaI.
Como a edição de Oxford a conlempIa, nós regislamo-Ia iguaImenle.
145
em reIação à comunidade quer em reIação a um dos seus mem-
bros
1O4
. Ior conseguinle, é possíveI comeler a injusliça e prali-
car a jusliça de duas maneiras, pois eIa pralica-se em reIação a
um delerminado indivíduo ou em reIação à comunidade, por-
que o que comele aduIlério ou fere aIguém comele injusliça
conlra um dos indivíduos, mas o que não cumpre os seus de-
veres miIilares comele-o conlra a comunidade.
Tendo sido feila a dislinção dos vários lipos de deIilos, uns
conlra a comunidade e oulros conlra um ou vários indivíduos,
relomemos o assunlo e digamos o que significa sofrer injusli-
ça. Sofrer injusliça é ser vílima de um lralamenlo injuslo por
parle de um agenle voIunlário, pois comeler injusliça definiu-
-se anles como um aclo voIunlário. L porque quem sofre injus-
liça sofre necessariamenle um dano, e um dano conlra a sua
vonlade, cIaramenle se vô, peIo que alrás fica dilo, em que
consislem os danos, pois as acções boas e más foram alrás de-
finidas em si mesmas, e disse-se que são voIunlárias as que se
fazem com conlecimenlo de causa. De sorle que, necessaria-
menle, lodas as acusações se referem ou à comunidade ou ao
indivíduo, lendo o acusado agido ou por ignorância e conlra a
sua vonlade, ou voIunlariamenle e com conlecimenlo, e, nesle
uIlimo caso, com inlenção ou por força da emoção. IaIaremos
da cóIera na parle em que nos ocuparmos das paixões, já faIá-
mos, porém, das coisas que se fazem por escoIla e da disposi-
ção com que se fazem.
Mas como muilas vezes o acusado reconlece laver prali-
cado uma acção, mas não eslá de acordo com a quaIificação da
mesma ou com o deIilo que essa quaIificação impIica ÷ con-
fessa, por exempIo: que lomou aIgo, mas não o roubou, que
feriu primeiro, mas não uIlrajou, que leve reIações com uma
muIler, mas não comeleu aduIlério, que roubou, mas não co-
meleu sacriIégio (porque o objeclo roubado não perlencia a um
deus), que cuIlivou lerra aIleia, mas não do domínio pubIico,
que conversou com o inimigo, mas não comeleu lraição ÷, por
1374a
1O4
A IegisIação grega fazia dislinção enlre ofensa pubIica (ypeçq) e
vioIação de direilos privados (óIkp), mas, como observa G. Kennedy, essa
dislinção difere da compreensão moderna de Iei criminaI e civiI, na medi-
da em que muilas acções loje consideradas crimes, incIuindo o lomicí-
dio, eram enlão lidas como vioIações de direilos privados (cp. cii., p. 1O3,
n. 231).
146
esla razão, seria necessário dar definições deslas coisas, do rou-
bo, do uIlraje, do aduIlério, a fim de que, se quisermos mos-
lrar que o deIilo exisle ou não exisle, possamos lrazer à Iuz o
direilo
1O5
. Ora lodos esles casos lôm a ver com a queslão de
delerminar se a pessoa acusada é injusla, imoraI ou não injus-
la, pois é na inlenção que reside a maIícia e o aclo injuslo, e
lermos lais como uIlraje e roubo indicam já a inlenção, porque,
se uma pessoa feriu oulra, isso não significa que em lodos os
casos comeleu um uIlraje, mas apenas se a feriu por uma cerla
razão, como para a desonrar, ou agradar a si mesmo. Nem, se
lomou um objeclo às escondidas, comeleu em lodos os casos
um roubo, mas apenas se o lomou para prejudicar aIguém, e
para deIe se apropriar. Iassa-se em lodos os oulros casos o
mesmo que nesles.
Ora, como dissemos que lá duas espécies de aclos juslos
e injuslos (uns fixados peIa escrila e oulros não), ocupámo-nos
alé aqui dos que as Ieis regislam, mas dos que as Ieis não re-
gislam lá lambém duas espécies: a dos que, por um Iado, re-
presenlam o mais eIevado grau da virlude e do vício, a que se
reservam censuras e eIogios, desonras, lonras e recompensas,
por exempIo, agradecer a quem nos faz bem, pagar o bem com
o bem, acudir aos amigos e coisas semeIlanles a eslas, e a dos
que, por oulro, correspondem a uma omissão da Iei parlicuIar
e escrila. Iois o equilalivo parece ser juslo, e é equilaliva a jus-
liça que uIlrapassa a Iei escrila. Ora esla omissão umas vezes
aconlece conlra a vonlade dos IegisIadores, e oulras por sua
vonlade: conlra a vonlade dos IegisIadores, quando o caso Iles
passa despercebido, e por sua vonlade, quando o não podem
definir a rigor, mas se vôem na necessidade de empregar uma
fórmuIa geraI que, não sendo universaI, é váIida para a maio-
ria dos casos. Também os casos em que não é fáciI dar uma
definição devido à sua indelerminação, por exempIo, no caso
de ferir com um inslrumenlo de ferro, ou delerminar o seu
lamanlo e a sua forma pois não clegaria a vida para enume-
rar lodas as possibiIidades. Se, pois, não é possíveI uma defini-
ção exacla, mas a IegisIação é necessária, a Iei deve ser expres-
sa em lermos gerais, de modo que se uma pessoa não lem mais
1O5
Hermágoras de Tempos desenvoIve posleriormenle a doulri-
na aqui impIícila na clamada ot6ot¸ de definição, ou nos eslados de
causa.
14¯
que um aneI no dedo quando Ievanla a mão ou fere oulra,
segundo a Iei escrila é cuIpada e comele injusliça, mas segun-
do a verdade não a comele, e é isso que é equidade.
Ora, se a equidade é o que acabamos de dizer, é fáciI de
ver quais são os aclos equilalivos e quais o não são, e quais as
pessoas que não são equilalivas. Os aclos que devem ser per-
doados são próprios da equidade, e é equilalivo não juIgar
dignos de iguaI lralamenlo os erros e os deIilos, nem as des-
graças. Ora as desgraças são acções inesperadas e feilas sem
perversidade, os erros são acções não inesperadas e feilas sem
maIdade, mas os deIilos não são inesperados e fazem-se com
maIdade, pois o que é provocado peIo desejo faz-se por maI-
dade. L iguaImenle próprio da equidade perdoar as faIlas
lumanas. Também oIlar, não para a Iei, mas para o IegisIador,
não para a paIavra, mas para a inlenção do IegisIador, não para
a acção em si, mas para a inlenção, não para a parle, mas para
o lodo, não para o que uma pessoa agora é, mas para o que eIa
sempre foi ou o lem geraImenle sido. Também Iembrar-nos mais
do bem do que do maI que nos foi feilo, e dos benefícios recebi-
dos mais do que dos concedidos. Também suporlar a injusliça
sofrida. Também desejar que a queslão se resoIva mais peIa
paIavra do que peIa acção. L ainda querer mais o recurso a uma
arbilragem do que ao juIgamenlo dos lribunais, pois o árbilro
oIla para a equidade, mas o juiz apenas para a Iei, e por esla
razão se invenlou o árbilro, para que prevaIeça a equidade.
Iica desle modo definido o que respeila à equidade.
14
CRITÉRIOS SOBRE A GRAVIDADE DOS DELITOS
Im deIilo é maior na medida em que procede de uma
injusliça maior. L por isso os mais pequenos podem ser muilo
graves, como por exempIo, o de que CaIíslralo acusou MeIa-
nopo, que defraudou por doIo os conslrulores do lempIo em
lrôs semióboIos sagrados
1O6
. Mas no caso da jusliça é o conlrá-
1374b
1O6
Iralicamenle nada se sabe desle episódio, apenas que CaIíslralo
e MeIanopo eram embaixadores de Tebas e rivais poIílicos por voIla de
37O a. C. (cf. Xenofonle, Hc||cnicc, 6.3.2-3, IIularco, Viic Dcmcsi., 13).
148
rio
1O7
. Lsles deIilos graves eslão em polôncia nos deIilos mais
pequenos, pois quem roubou lrôs semióboIos sagrados lambém
será capaz de comeler quaIquer injusliça. Imas vezes é assim
que é juIgada a gravidade de um deIilo, oulras é-o peIa exlen-
são do dano. Im deIilo é maior quando para eIe não lá casli-
go equivaIenle, anles lodo o casligo Ile é inferior, quando para
eIe não lá remédio, por ser difíciI senão impossíveI de reparar,
e quando a vílima não pode recIamar jusliça, por o deIilo ser
irremediáveI, pois a jusliça é casligo e remédio. Também se o
que sofreu o dano e a injusliça se casligou severamenle a si
mesmo, pois é juslo que o que comeleu o dano sofra um casli-
go ainda maior, por exempIo, SófocIes
1O8
, ao faIar a favor de
Luclémon
1O9
depois de esle laver poslo lermo à vida por ler
sido uIlrajado, decIarou que não fixaria uma pena inferior à que
a vílima linla fixado conlra si mesma. Im deIilo é lambém
maior quando foi um só a comelô-Io, ou foi o primeiro, ou se
comeleu com a ajuda de poucos, quando se comeleu muilas
vezes a mesma faIla, quando por causa deIe se procuraram e
invenlaram meios de prevenção e casligo. Lm Argos, por exem-
pIo, é casligado aqueIe por cuja causa se eslabeIeceu uma nova
Iei, e aqueIes por cuja causa se conslruiu uma prisão. O deIilo
mais brulaI é lambém o mais grave. IguaImenle o mais preme-
dilado. L o que inspira nos ouvinles mais lemor que compai-
xão. Os recursos relóricos são nesle caso os seguinles: que o
acusado ignorou ou lransgrediu muilas normas de jusliça,
como por exempIo, juramenlos, promessas, provas de fideIida-
de, volos malrimoniais, pois é um acumuIo de muilas injusli-
ças. Os deIilos são ainda maiores quando comelidos no preciso
Iugar em que se casligam os deIinquenles, como fazem as faI-
sas leslemunlas, pois onde é que uma pessoa não comeleria
um deIilo se o ousa comeler no próprio lribunaI` São lambém
maiores quando causam a maior vergonla, e quando são co-
melidos conlra a pessoa de quem se recebeu um beneficio, pois
nesle caso a injusliça é maior, porque ao benfeilor se faz o maI
1375a
1O7
Os aclos de jusliça mais insignificanles não são os maiores.
1O8
Sugere Cope (I, 263) que esle SófocIes é o mesmo adianle referi-
do em 3.18,19a26, aparenlemenle um dos lrinla liranos, referido por Xe-
nofonle (Hc||cnicc, 2.3.2).
1O9
Xenofonle refere-se com esle nome a um arconle de 4O8-4O7 a. C.
nas Hc||cnicc, 1.2.1.
149
e não o bem que Ile é devido. L lambém mais grave o deIilo
que vioIa as Ieis não escrilas, pois é próprio de uma pessoa
meIlor ser jusla sem que a necessidade a obrigue. Ora as Ieis
escrilas são compuIsórias, mas as não escrilas não. Iode, con-
ludo, argumenlar-se de oulra maneira que o deIilo é mais gra-
ve, se vioIa as Ieis escrilas, pois quem comele a injusliça que
alrai o lemor e envoIve o casligo lambém comelerá a que não
lem casligo a lemer.
L islo o que lemos a dizer sobre a maior ou menor gravi-
dade do deIilo.
15
PROVAS NÃO TÉCNICAS NA RETÓRICA JUDICIAL
Como conlinuação do que acabamos de expor, vamos ago-
ra faIar sumariamenle das provas a que clamamos não lécni-
cas, pois eIas são específicas da relórica judiciaI. Lslas provas
são cinco em numero: as Ieis, os leslemunlos, os conlralos, as
confissões sob lorlura e o juramenlo.
IaIemos primeiro das Ieis, moslrando como eIas devem ser
usadas lanlo na exorlação e na dissuasão, como na acusação e
na defesa. Iois é óbvio que, se a Iei escrila é conlrária aos fac-
los, será necessário recorrer à Iei comum e a argumenlos de
maior equidade e jusliça. L é evidenle que a fórmuIa «na me-
Ilor consciôncia» significa não seguir excIusivamenle as Ieis
escrilas, e que a equidade é permanenlemenle váIida e nunca
muda, como a Iei comum (por ser conforme à nalureza), ao
passo que as Ieis escrilas eslão frequenlemenle a mudar, don-
de as paIavras pronunciadas na Aniigcnc de SófocIes, pois esla
defende-se, dizendo que sepuIlou o irmão conlra a Iei de
Creonle, mas não conlra a Iei não escrila:
Pcis csic |ci n4c c !c |cjc ncm !c cnicm, mcs c cicrnc
j.} |sic n4c !c.ic cu jinjringir}, pcr |cmcm c|gum.
11O
L lambém necessário dizer que o juslo é verdadeiro e uliI,
mas não o que o parece ser, de sorle que a Iei escrila não é
1375b
11O
SófocIes, Aniigcnc, 456, 458.
150
propriamenle uma Iei, pois não cumpre a função da Iei, dizer
lambém que o juiz é, por assim dizer, um verificador de moe-
das, nomeado para dislinguir a jusliça faIsa da verdadeira, e
que é próprio de um lomem mais loneslo fazer uso da Iei não
escrila e a eIa se conformar mais do que às Ieis escrilas. L ne-
cessário ainda ver se, de aIgum modo, a Iei é conlrária a oulra
já aprovada ou a si mesma, por exempIo, por vezes uma Iei
delermina que lodos os conlralos sejam váIidos, e oulra proíbe
que se eslabeIeçam conlralos à margem da Iei. Também se a
Iei é ambígua, a fim de a conlornar e ver a que senlido se aco-
moda, se ao juslo ou ao convenienle, e em seguida usar a in-
lerprelação devida. L, se as circunslâncias que molivaram a Iei
já não exislem mas a Iei subsisle, enlão é necessário demonslrá-
-Io e Iular conlra a Iei por esse meio.
Mas, se a Iei escrila favorece a nossa causa, convirá dizer
que a fórmuIa «na meIlor consciôncia» não serve para o juiz
pronunciar senlenças à margem da Iei, mas apenas para eIe não
comeler perjurio no caso de ignorar o que a Iei diz, que nin-
guém escoIle o bom em absoIulo, mas o que é bom para si,
que nenluma diferença exisle enlre não laver Iei e não fazer
uso deIa, que, nas oulras arles, não lá vanlagem em ser mais
lábiI do que o médico, pois o erro de um médico é menos
prejudiciaI do que o lábilo de desobedecer à auloridade, e que
procurar ser mais sábio do que as Ieis é precisamenle o que é
proibido peIas Ieis que são Iouvadas. São eslas as dislinções que
eslabeIecemos em reIação às Ieis.
Quanlo às leslemunlas, eIas são de duas espécies: as lesle-
munlas anligas e as leslemunlas recenles, e, deslas uIlimas,
umas parlicipam do perigo, as oulras ficam de fora. Clamo les-
lemunlas anligas aos poelas e a lodos aqueIes lomens iIuslres
cujos juízos são bem conlecidos, por exempIo, os Alenienses
usaram Homero como leslemunla no assunlo de SaIamina
111
,
e, recenlemenle, os labilanles de Ténedos usaram o leslemunlo
de Ieriandro de Corinlo conlra os Sigeus
112
. Também CIeo-
111
O passo da ||ic!c 2.557-258 é cilado por SóIon, na dispula com
os labilanles de Mégara a favor das reivindicações alenienses sobre a iIla
de SaIamina.
112
Nada mais se conlece desle faclo, a não ser o reIalado no lex-
lo, nem mesmo da exislôncia de dispulas enlre os povos de Ténedos e
Sigeu.
151
fonle
113
se serviu conlra Crícias dos versos eIegíacos de SóIon,
para dizer que a sua famíIia de lá muilo era nolória peIa sua
Iicenciosidade, porque, de oulro modo, SóIon nunca leria escrilo:
Diz, ic pcçc, cc rui.c Cricics ¡uc !c cu.i!cs cc scu
pci.
114
Lsles são, pois, os leslemunlos sobre evenlos passados,
mas para os evenlos fuluros servem lambém os inlérpreles de
orácuIos, como fez TemíslocIes, ao referir o muro de madeira
para significar que era necessário lravar uma balaIla navaI
115
.
Os provérbios, como se disse, são lambém leslemunlos, por
exempIo, se aIguém aconseIla a não se lomar um veIlo por
amigo, serve-Ile como leslemunlo o provérbio: «Nunca faças
bem a um veIlo.» L, se aconseIla a malar os fiIlos, depois de
ler morlo os pais, pode dizer:
|nscnscic c c¡uc|c ¡uc, !cpcis !c icr mcric c pci,
!cixc ccm .i!c cs ji||cs.
116
Teslemunlas recenles são lodas aqueIas pessoas iIuslres
que emiliram aIgum juízo, pois os seus juízos são uleis para os
que dispulam sobre as mesmas coisas. Ior exempIo, LubuIo
uliIizou nos lribunais conlra Cares o que IIalão lavia dilo con-
lra Arquíbio, que «confissões de vício se lornavam comuns na
cidade»
117
. São lambém as leslemunlas que parlicipam do ris-
1376a
113
Referôncia ao conlecido demagogo que inlerveio nos assunlos
de Alenas nos uIlimos anos da guerra do IeIoponeso. Crícias era um dos
lrinla liranos, parenle de IIalão.
114
SóIon, fr. 18 DielI-BeulIer-Adrados.
115
Lsla é uma referôncia às paIavras do orácuIo conservadas por
Heródolo (7.141-147): «Zeus previdenle adverle Trilogenia (Alenas) que
só o muro de madeira é inexpugnáveI.» Quando as forças de Xerxes se
dirigiam para Alenas, os cidadãos consuIlaram o orácuIo de DeIfos, que
Iles disse para confiarem nos seus «muros de madeira», e TemíslocIes
inlerprelou esla paIavra como referôncia à sua renovada armada. Lva-
cuaram enlão a cidade e derrolaram os Iersas na balaIla de SaIamina.
116
Alribuído por CIemenle de AIexandria (Sircmmcic, 7.2.19) a Ls-
lasino de Clipre, aulor do poema épico Cµpric, fr. 25 AIIen.
117
Nada sabemos das circunslâncias que envoIveram o juIgamenlo
de Cares.
152
co de serem processadas, se dão a impressão de eslarem a
menlir. Tais leslemunlas servem apenas para delerminar se um
faclo ocorreu ou não, se é ou não é esse o caso, mas não são
leslemunlas sobre a quaIidade do aclo, como, por exempIo, se
é juslo ou injuslo, se é convenienle ou inconvenienle. Sobre
eslas malérias, são mais dignas de crédilo as leslemunlas que
eslão fora da causa, e as mais dignas de lodas são os anligos,
pois não são corruplíveis. Iara quem não lem leslemunlas, os
argumenlos de persuasão invocados reIalivamenle aos leslemu-
nlos podem ser os seguinles: que se deve juIgar com base em
probabiIidades, islo é, «na meIlor consciôncia»
118
, que os ar-
gumenlos de probabiIidade não se podem deixar corromper
por dinleiro, e que os argumenlos de probabiIidade não po-
dem ser surpreendidos em faIso leslemunlo. Iara quem lem
leslemunlas frenle a um adversário que as não lem, os seus
argumenlos serão: que as probabiIidades não vaIem peranle o
lribunaI, e que não laveria necessidade de leslemunlas, se
baslasse especuIar na base de argumenlos de probabiIidade.
Ins leslemunlos referem-se ao próprio, oulros à pessoa do
adversário, uns aos faclos, oulros ao carácler moraI das duas
parles, de sorle que é evidenle que em nenluma circunslância
deve faIlar um leslemunlo uliI, pois se não é possíveI produ-
zir sobre os faclos um argumenlo favoráveI à nossa causa ou
desfavoráveI à do adversário, é ao menos possíveI produzi-Io
sobre o carácler, para provar a nossa loneslidade ou a maI-
dade do adversário. Quanlo aos demais argumenlos sobre a
leslemunla ÷ se é amiga, inimiga ou indiferenle, se é de boa,
má ou mediana repulação, e quaisquer oulras diferenças do gé-
nero ÷, devem formar-se a parlir dos mesmos Iugares de que
derivamos os enlimemas.
No que respeila aos conlralos, o uso dos argumenlos visa
aumenlar ou anuIar a sua imporlância, provar que são dignos
ou indignos de crédilo: se nos são favoráveis, que são dignos
de crédilo e váIidos, se são favoráveis ao adversário, enlão o
conlrário. Ora, para provar que eIes são ou não são dignos de
crédilo, os mélodos em nada se dislinguem dos que se referem
às leslemunlas, pois é do que os seus signalários ou deposilá-
rios forem que depende a confiança que os conlralos inspiram.
1376b
118
Lsla era uma expressão-lipo que vincuIava os jurados alenienses
ao uso da maior discrição na formuIação dos seus verediclos.
153
Quando a exislôncia do conlralo é reconlecida e esle nos
é favoráveI, enlão imporla ampIificar a sua imporlância, pois o
conlralo é uma Iei parlicuIar e parciaI, e não são os conlralos
que conferem auloridade às Ieis, mas são as Ieis que lornam
Iegais os conlralos. Lm geraI, a própria Iei é uma espécie de
conlralo, de sorle que quem desobedece a um conlralo ou o
anuIa, anuIa as Ieis. AIém disso, a maior parle das lransacções,
e lodas as que são voIunlárias, fazem-se medianle conlralos, de
sorle que, se esles se lornam inváIidos, anuIa-se loda a reIação
mulua enlre os lomens. Os demais argumenlos que iguaImen-
le se ajuslam ao assunlo são fáceis de ver.
Mas, se os conlralos nos são desfavoráveis e favoráveis ao
nosso adversário, em primeiro Iugar, são adequados os argu-
menlos que nos permilirão combaler uma Iei que nos é conlrá-
ria, pois é absurdo pensarmos que não devemos obedecer às
Ieis, quando eIas eslão maI feilas e os IegisIadores se engana-
ram, mas que é necessário obedecer aos conlralos. Depois, po-
demos argumenlar que o juiz é o árbilro da jusliça, peIo que
não é a Ielra do conlralo que eIe deve considerar, mas a soIu-
ção mais jusla. Que não é possíveI perverler a jusliça por fraude
ou coacção (porque é eIa naluraI), mas que os conlralos se
podem iguaImenle fazer por quem pode eslar a ser enganado
e coagido. AIém disso, imporla lambém verificar se os conlra-
los são conlrários a aIguma das Ieis escrilas ou das Ieis univer-
sais e, de enlre as escrilas, se às nacionais ou às eslrangeiras,
depois, se eIes se opõem a oulros conlralos posleriores ou an-
leriores, porque, ou os posleriores são váIidos e os anleriores
não, ou os anleriores são reclos e os posleriores frauduIenlos,
da maneira que for mais uliI. Imporla ainda oIlar para o inle-
resse, se eIe é de aIgum modo conlrário ao dos juízes, e lodos
os argumenlos do género, pois esles são iguaImenle fáceis de
descobrir.
As confissões sob lorlura
119
são leslemunlos de nalureza
pecuIiar, e parecem merecer confiança, porque neIas eslá pre-
senle uma cerla necessidade
12O
. Não é cerlamenle difíciI dizer
119
A lorlura de escravos para leslemunlarem era uma prálica cor-
renle na Grécia, dependenle apenas do consenlimenlo dos seus senlores.
12O
Cf. Quinlín Racionero, in ArislóleIes, Rcicricc, Madrid, Gredos,
199O, p. 298, n. 361. No mundo anligo, a lorlura é, em delerminados ca-
sos, necessária para a confissão.
154
sobre eslas confissões os argumenlos possíveis: se eIas nos fo-
rem favoráveis, podemos vaIorizá-Ias, dizendo que são os uni-
cos leslemunlos verídicos, se nos forem conlrárias e favorece-
rem o adversário, podemos enlão refulá-Ias dizendo a verdade
sobre lodo o género de lorluras, pois os que são forçados não
dizem menos a menlira que a verdade, ora resislindo com obs-
linação para não dizerem a verdade, ora dizendo faciImenle a
menlira para que a lorlura acabe mais depressa. L necessário
poder invocar exempIos do passado que os juízes conleçam.
L lambém necessário dizer que as confissões sob lorlura não
são verdadeiras, pois muilos lá que são pouco sensíveis e de
peIe dura como pedra, capazes de nas suas aImas resislir
nobremenle à coacção, mas os covardes e limoralos apenas se
manlôm forles anles de verem os inslrumenlos da sua lorlura,
de sorle que nada de credíveI lá nas confissões sob lorlura.
Sobre os juramenlos, podem-se fazer qualro dislinções,
pois, ou se permile o juramenlo ao adversário e se aceila pres-
lá-Io, ou se não faz uma coisa nem oulra, ou se faz uma coisa
e não a oulra, e, nesle caso, ou se permile o juramenlo sem
aceilar preslá-Io, ou se aceila preslá-Io sem o permilir. A par
deslas, uma oulra dislinção pode ainda ser feila: se o juramen-
lo já foi preslado, quer peIo próprio, quer peIo seu adversário.
Iois bem, não se permile o juramenlo ao adversário por-
que é fáciI comeler perjurio, porque eIe, depois de jurar, se
recusa a pagar a dívida, e porque se enlende que, se eIe não
jurou, os juízes condená-Io-ão, lambém porque o risco de dei-
xar a decisão com os juízes é preferíveI, por neIes se ler con-
fiança e não no adversário.
Ima pessoa recusa-se a jurar aIegando que o juramenlo
se faz por dinleiro, que, se fosse desonesla, juraria sem difi-
cuIdade, porque mais vaIe ser desoneslo por aIguma coisa do
que por nada, que, jurando, leria vanlagem, e, não jurando,
não, e que, por conseguinle, a sua recusa poderia ler por causa
a virlude, mas não o receio de perjurio. ApIica-se aqui o dilo
de Xenófanes
121
de que,
c !cscjic !c um impic ccnirc um |cmcm pic!csc ccrccc !c
iguc|!c!c,
1377a
121
Xenófanes de CóIofon, fiIósofo e poela que viveu por voIla de
5OO a. C. (fr. A 14 DieIs).
155
é como se um lomem forle desafiasse um fraco a dar goIpes
ou a recebô-Ios.
Se a pessoa aceila jurar, é porque lem confiança em si
mesma, mas não no adversário. L, dando a voIla ao dilo de
Xenófanes, deverá enlão dizer-se que assim lá iguaIdade, se o
ímpio aceila o juramenlo e o lomem piedoso jura, e que é gra-
ve não querer jurar em malérias em que se considera juslo que
os juízes apenas decidam depois de laver jurado.
Mas, se permile o juramenlo, dirá que é piedoso querer
deixar o assunlo com os deuses, que o adversário não deve
recorrer a oulros juízes, porque a eIe se concede lomar a deci-
são. Também que seria absurdo eIe não querer jurar em assun-
los sobre os quais acla juslo que oulros preslem juramenlo.
Ora, se eslá cIaro como convém faIar em cada um desles
casos em parlicuIar, lambém eslá cIaro como convém faIar
quando se combinam dois a dois. Ior exempIo, se uma pessoa
quer preslar juramenlo mas não permili-Io, se o permile mas
não o quer preslar, se o quer preslar e permilir, ou se não quer
uma coisa nem oulra. Iois eslas são forçosamenle as combina-
ções que se podem formar a parlir dos casos referidos, de sor-
le que os argumenlos lerão iguaImenle de ser combinações dos
já mencionados.
Se anles se fez um juramenlo conlrário ao que agora é
preslado, é necessário dizer que não lá perjurio, pois o come-
ler injusliça é voIunlário e o perjurio é comeler injusliça, mas o
que se faz por vioIôncia ou engano é invoIunlário. Devemos,
pois, aqui concIuir que o perjurio se faz com a menle e não
com os Iábios. Mas, se o juramenlo feilo peIo adversário for
conlradilório, deverá dizer-se que ludo deslrói quem não é fieI
ao que jurou, pois é por islo lambém que os juízes apIicam as
Ieis sob juramenlo. Ioderá lambém dizer-se: «aclam que
devereis juIgar permanecendo fiéis aos vossos juramenlos, mas
eIes não permanecem fiéis aos seus». L muilas oulras coisas se
poderão dizer na ampIificação do assunlo.
Islo é o que se nos oferece dizer sobre as provas não léc-
nicas.
1377b
LIVRO II
159
1
A EMOÇÃO
Tais são, pois, as malérias donde convém exlrair os argu-
menlos para aconseIlar e desaconseIlar, Iouvar e censurar,
acusar e defender-se, lais são lambém as opiniões e as premis-
sas que são uleis para as provas, pois é sobre lais malérias e a
parlir dessas premissas que se reliram os enlimemas que lra-
lam propriamenle
1
de cada um dos géneros oralórios.
Ima vez que a relórica lem por objeclivo formar um juízo
(porque lambém se juIgam as deIiberações e a acção judiciaI é
um juízo), é necessário, não só procurar que o discurso seja de-
monslralivo e digno de crédilo, mas lambém que o orador mos-
lre possuir cerlas disposições e prepare favoraveImenle o juiz.
Muilo conla para a persuasão, sobreludo nas deIiberações e, na-
luraImenle, nos processos judiciais, a forma como o orador se
apresenla e como dá a enlender as suas disposições aos ouvin-
les, de modo a fazer que, da parle desles, lambém laja um
delerminado eslado de espírilo em reIação ao orador. A forma
como o orador se apresenla é mais uliI nos aclos deIiberalivos,
mas predispor o audilório de uma delerminada maneira é mais
vanlajoso nos processos judiciais. Os faclos não se apresenlam
sob o mesmo prisma a quem ama e a quem odeia, nem são
iguais para o lomem que eslá indignado ou para o caImo, mas,
1
'IóIe. ArislóleIes emprega esle lermo, não no seu senlido adver-
biaI (propriamenle ou parlicuIarmenle) mas numa acepção mais lécnica:
enlimemas que, embora lendo um enunciado próprio, dependem especi-
ficamenle de uma maléria argumenlaI, sem lerem de recorrer a |ugcrcs-
-ccmuns.
160
ou são compIelamenle diferenles ou diferem segundo crilérios
de grandeza. Ior um Iado, quem ama acla que o juízo que
deve formuIar sobre quem é juIgado é de não cuIpabiIidade ou
de pouca cuIpabiIidade, por oulro, quem odeia acla o conlrá-
rio. Quem deseja e espera aIguma coisa, se o que esliver para
aconlecer for à medida dos seus desejos, não só Ile lá-de pa-
recer que laI coisa aconlecerá, como alé será uma coisa boa,
mas para o insensíveI e para o maI-lumorado passa-se exacla-
menle o conlrário.
Trôs são as causas que lornam persuasivos os oradores, e
a sua imporlância é laI que por eIas nos persuadimos, sem
necessidade de demonslrações: são eIas a prudôncia, a virlude
e a benevoIôncia
2
. Quando os oradores recorrem à menlira nas
coisas que dizem ou sobre aqueIas que dão conseIlos, fazem-
-no por lodas essas causas ou por aIgumas deIas. Ou é por faIla
de prudôncia que emilem opiniões erradas ou enlão, embora
dando uma opinião correcla, não dizem o que pensam por
maIícia, ou sendo prudenles e loneslos não são benevoIenles,
por isso, é admissíveI que, embora sabendo eIes o que é me-
Ilor, não o aconseIlem. Iara aIém deslas, não lá nenluma
oulra causa. Iorçoso é, pois, que aqueIe que aparenla possuir
lodas eslas quaIidades inspire confiança nos que o ouvem. Ior
isso, o modo como é possíveI moslrar-se prudenle e loneslo
deve ser deduzido das dislinções que fizemos reIalivamenle às
virludes, uma vez que, a parlir de lais dislinções, é possíveI
aIguém apresenlar oulra pessoa e alé apresenlar-se a si próprio
sob esle ou aqueIe aspeclo. Sobre a benevoIôncia e a amizade,
faIaremos na parle dedicada às emoções
3
.
As emoções são as causas que fazem aIlerar os seres lu-
manos e inlroduzem mudanças nos seus juízos, na medida em
que eIas comporlam dor e prazer: lais são a ira, a compaixão,
o medo e oulras semeIlanles, assim como as suas conlrárias.
Mas convém dislinguir em cada uma deIas lrôs aspeclos. Lx-
1378a
2
4pevpot¸ enquanlo virlude inleIeIecluaI e facuIdade da razão prá-
lica, eprtq é a virlude de abrangôncia moraI que acompanla a çpevpot¸
nas decisões prálicas, ruvcte lraduz a benevoIôncia necessária que acom-
panla a alilude e o comporlamenlo respeiloso do orador face aos ouvin-
le. Cf. Pc|iiicc V 7, 13O9a, eslas mesmas virludes apIicadas aos magislra-
dos. Cf. lambém Lsquines, Ccnirc Cicsijcnic, 169-17O.
3
H60p, labiluaImenle lraduzido por «paixões».
161
pIico-me: em reIação à ira, por exempIo, convém dislinguir em
que eslado de espírilo se aclam os irascíveis, conlra quem cos-
lumam irrilar-se e em que circunslâncias, é que, se não se pos-
sui mais do que um ou dois desles aspeclos, e não a sua lola-
Iidade, é impossíveI que laja aIguém que inspire a ira. L o
mesmo aconlece com as oulras emoções. Ora, como nas nossas
anáIises anleriores fizemos a descrição das respeclivas premis-
sas, assim lambém procederemos em reIação às emoções e
dislingui-Ias-emos segundo o mélodo eslabeIecido.
2
A IRA
Vamos admilir que a ira é um desejo acompanlado de dor
que nos incila a exercer vingança expIícila devido a aIgum des-
prezo manifeslado conlra nós, ou conlra pessoas da nossa con-
vivôncia, sem laver razão para isso. Se a ira é islo, forçoso é que
o iracundo se voIle sempre conlra um delerminado indivíduo,
por exempIo, conlra CIéon, mas não conlra o lomem em geraI,
e que seja por aIgum agravo que Ile fizeram ou prelendiam
fazer, a eIe ou a aIgum dos seus, aIém disso, loda a ira é acom-
panlada de cerlo prazer, resuIlanle da esperança que se lem de
uma fulura vingança. De faclo, exisle prazer em pensar que se
pode aIcançar o que se deseja, mas como ninguém deseja o que
Ile é manifeslamenle impossíveI, o irascíveI deseja o que Ile é
possíveI. Ior isso, razão lem o poela para dizer sobre a ira
4
:
¡uc, muiic mcis !ccc !c ¡uc c mc| !csii|c!c,
crcscc ncs ccrcçccs !cs |cmcns.
5
Ior isso, lá um cerlo prazer que acompanla a ira, e lam-
bém porque o lomem vive na ideia de vingança, e a represen-
lação
6
que enlão se gera neIe inspira-Ile um prazer semeIlan-
le ao que se produz nos sonlos.
1378b
4
Cuµe¸.
5
||., 18.1O9-11O.
6
4evteoIe: «represenlação» ou «imaginação» mais do que propria-
menle «fanlasia» de lipo sensoriaI ou racionaI.
162
O desdém é uma opinião em aclo reIalivo a aIgo que, apa-
renlemenle, não parece digno de quaIquer crédilo (pois pensa-
mos que lanlo as coisas más como as boas são dignas de inle-
resse, assim como o que para eIas lende, ao passo que, ao que
não damos nenluma ou muilo pouca imporlância supomo-Io
desprovido de vaIor). Há lrôs espécies de desdém: o desprezo,
o vexame e o uIlraje.
Quem desdenla despreza (pois despreza-se ludo o que se
juIga não ler vaIor, precisamenle, o que não lem vaIor é o que
inspira desprezo), da mesma forma que, quando se rebaixa
aIguém, se moslra cIaramenle desprezo por eIe.
O vexame é um obslácuIo aos aclos de vonlade, não para
daí se lirar proveilo próprio, mas para impedir que não apro-
veile a oulro. L como aqueIe que comele vexames não lira daí
proveilo pessoaI, despreza-o, pois, como se lorna evidenle, nem
sequer supõe que a pessoa vexada o possa prejudicar (é que,
nesse caso, senliria lemor e não desdém), nem possa vir a ob-
ler deIa aIguma coisa que vaIla a pena (pois, nesse caso, pen-
saria em ser amigo deIa).
Da mesma forma, quem uIlraja despreza. Consisle o uI-
lraje em fazer e em dizer coisas que possam fazer senlir vergo-
nla a quem as sofre, não porque laja oulro inleresse aIém do
faclo em si, mas por mero prazer. Com efeilo, quem exerce
represáIias não comele uIlraje, mas vingança. AquiIo que cau-
sa prazer aos que uIlrajam é o faclo de eIes pensarem que o
exercício do maI os lorna superiores. L por isso que os jovens
e os ricos são insoIenles, pois ao procederem dessa forma juI-
gam eIevar-se acima dos demais. A desonra é inerenle ao uI-
lraje, e desonrar é desprezar, porque aquiIo que não lem quaI-
quer vaIor lambém não merece quaIquer eslima, nem para
bem, nem para maI. Assim, AquiIes, irado, diz:
!cscnrcu-mc, pcis crrc|cicu-mc c jiccu ccm c min|c rc-
ccmpcnsc
7
e
ccmc c um !csicrrc!c pri.c!c !c |cnrc
8
,
7
||., 1.356.
8
||i!cm, 4.648.
163
como se por causa disso ficasse cleio de ira. Muilos pensam
que é convenienle ser mais respeilado peIos que nos são infe-
riores em eslirpe, em poder, em virlude e, em geraI, em ludo
aquiIo em que se é muilo superior, por exempIo, o rico é supe-
rior ao pobre em queslões de dinleiro, o orador ao que não
sabe faIar em maléria de eIoquôncia, o governanle ao governa-
do, o que se considera digno de comandar ao que só merece
ser comandado. Ior isso se disse:
juric grcn!c c c !cs rcis, c|imcnic!crcs !c Zcus
9
e
mcs icm|cm gucr!c nc pciic rcnccr
1O
,
uma vez que é por causa da superioridade que se indignam os
lomens. Há ainda quem pense que se deve receber mais con-
sideração daqueIes que, segundo nós, nos devem lralar bem, e
esses são aqueIes a quem nós fizemos ou fazemos bem, nós ou
aIguém por nós, ou aIguma pessoa do nosso conlecimenlo, ou
ainda aqueIes a quem queremos ou quisemos fazer aIgum
favor.
IeIo que fica dilo, já se vô com cIareza quais são as dispo-
sições em que se enconlram as pessoas que se encoIerizam,
conlra quem o fazem e por que causas. Os seres lumanos en-
coIerizam-se quando senlem lrisleza, pois quem senle amargu-
ra é porque deseja aIguma coisa. Ora, se aIgum obslácuIo se
opuser ao seu desejo, quer direclamenle, como por exempIo,
quando aIguém o impede de beber, quer indireclamenle, em
ambos os casos o resuIlado é nilidamenle o mesmo. O ser lu-
mano encoIeriza-se, se aIguém se opuser à sua acção ou se aI-
guém não coIaborar com eIe, ou se, de aIguma forma, aIguém
o perlurbar quando eslá em laI eslado. Lis a razão peIa quaI os
enfermos, os pobres, os que eslão em guerra, os amanles, os
que lôm sede e, em geraI, os que desejam ardenlemenle aIgu-
ma coisa e não a salisfazem são iracundos e faciImenle irrilá-
veis, sobreludo conlra aqueIes que menosprezam a sua silua-
1379a
9
||i!cm, 2.196.
1O
||i!cm, 1.82.
164
ção. Assim, por exempIo: o doenle encoIeriza-se conlra os que
|desprezamj a sua doença, o pobre conlra os que |são indife-
renlesj à sua pobreza, o soIdado conlra os que |subeslimamj a
sua guerra, o apaixonado conlra os que |desdenlamj do seu
amor, e assim por dianle, e aIém desles casos, lodos os oulros
em que se alenle conlra os nossos desejos. Na verdade, cada
pessoa abre caminlo à sua própria ira, vílima da paixão que a
possui. De reslo, aconlece o mesmo quando surge aIgo que é
conlrário à nossa expeclaliva, uma vez que o inesperado en-
lrislece muilo mais, assim como o imprevislo causa mais
prazer quando vem ao enconlro dos nossos desejos. Daí que
seja possíveI ver com loda a cIareza quais são os momenlos,
lempos, eslados de espírilo
11
e idades mais propensos à ira,
bem como em que Iugares e momenlos aconlece, acrescenle-se
ainda que, quanlo mais eslamos neslas condições, mais propen-
sos somos à ira.
Assim, os que nesses eslados de espírilo eslão predispos-
los à ira enfurecem-se conlra os que se riem, gozam e escarne-
cem deIes ÷ vislo que os insuIlam ÷ bem como conlra os que
infIigem ofensas lais que são sinais de opróbrio. Tais são, ne-
cessariamenle, as acções inuleis que nem dão proveilo a quem
as pralica, uma vez que parece só lerem por causa o desejo de
uIlrajar. Irrilam-se, lambém, conlra os que faIam maI deIes e
moslram desprezo peIas coisas que eIes mais eslimam, como,
por exempIo, os que põem loda a sua ambição na fiIosofia, caso
aIguém faIe conlra a fiIosofia ou conlra os que a coIocam no
pIano meramenle pessoaI, ou ainda quando aIguém despreza
a sua aparôncia
12
, e assim por dianle em casos semeIlanles.
Islo é muilo mais frequenle, quando suspeilam que não são su-
periores nas acções de que se gabam, ou absoIulamenle, ou se
o são só em grau diminulo, ou aclam que não o são segundo
uma opinião eslabeIecida, é que, quando se aclam muilo se-
guros da sua superioridade em assunlos que consliluem objec-
lo de gozo, não se preocupam nada com isso. Ior oulro Iado,
irrilam-se mais com os amigos do que com os que não são
1379b
11
Ate0rort¸ lraduz uma !ispcsiç4c (lermo que usamos com aIguma
frequôncia na lradução) faciImenle variáveI ou um eslado de espírilo físi-
co, psíquico ou moraI que se aIlera e que depende do |4|iic (ci|cs) e da
mcncirc !c scr de cada um.
12
1pv lórev.
165
amigos, na verdade, pensam que é mais Iógico receber deIes
bom lralamenlo do que ao conlrário. Também se enfurecem
conlra aqueIes que eslão acoslumados a lonrá-Ios ou a consi-
derá-Ios, se depois não procederem do mesmo modo, por acla-
rem que eslão a ser desprezados por eIes, caso conlrário, con-
linuariam a porlar-se da mesma maneira. O mesmo aconlece
conlra os que não agem reciprocamenle, nem pagam com a
mesma moeda
13
. Também se enfurecem conlra os que agem
conlra os seus inleresses, se forem seus inferiores, pois lodos
quanlos assim procedem dão a impressão de os desprezar, uns
lralados como inferiores, oulros como se os favores dispensa-
dos viessem de inferiores, crescem em cóIera conlra os que
não são lidos em nenluma consideração, se, ainda por cima,
Iles moslram desprezo, é que a ira é uma forma de desprezo
conlra os que não lôm o direilo de desprezar, ora, os inferiores
não lôm o direilo de desprezar. O mesmo conlra os amigos, se
não faIarem bem deIes ou se não Iles fizerem bem, e, mais
ainda, se faIarem e agirem conlra eIes ou se não esliverem alen-
los às suas necessidades ÷ laI como, na lragédia de Anli-
fonle
14
, IIexipo se enfurecia conlra MeIéagro. Ora, não se dar
conla dislo é sinaI de desprezo, já que as coisas que nos inle-
ressam não nos passam despercebidas. IguaImenle, conlra os
que se regozijam com as desgraças e, em geraI, conlra os que
permanecem indiferenles aos inforlunios, o que é sinaI de los-
liIidade ou de desprezo. Também conlra os que não se impor-
lam do maI que causam, razão peIa quaI a ira cresce conlra os
mensageiros de más nolícias, e conlra os que dão ouvidos
a maIedicôncias ou lornam pubIicos os nossos defeilos: são
iguaizinlos aos que nos desprezam ou aos nossos inimigos.
Mas os amigos compadecem-se dos amigos, e lodos os seres
lumanos sofrem anle o especlácuIo das suas próprias fraque-
13
Iil. «não correspondem de forma iguaI».
14
Anlifonle, Mc|ccgcr, 1399b27. Não se confunda esle Anlifonle, lrá-
gico de Siracusa e conlemporâneo de Dionísio I, com Anlifonle de
Ramnunlo, meslre de relórica, ou ainda com Anlifonle, o Sofisla (cf. IIu-
larco, Vi!cs !cs Dcz Orc!crcs, 1.832 C ss., e IiIóslralo, Vi!c !cs Scjisics, I,
15, 3). A referôncia aIude ao episódio em que IIexipo, um dos irmãos da
mãe de MeIéagro (AIleia), foi morlo por esle numa dispula provocada
por Árlemis peIa posse da cabeça do javaIi de CáIidon, sendo depois per-
seguido peIas Lrínias (cf. ApoIodoro, 1.67, e Ovídio, Mcicm., 8.27O ss.).
166
zas. L ainda conlra os que nos desprezam dianle de cinco cale-
gorias de pessoas: as que rivaIizam connosco, as que admira-
mos, aqueIas por quem queremos ser admirados, as que nos
inspiram respeilo e as que nos respeilam. Se aIguém nos des-
prezar dianle deIas, maior será a nossa ira. Também conlra os
que desprezam as pessoas a quem seria vergonloso que não
socorrôssemos, lais como, pais, fiIlos, muIleres, subordinados.
L lambém conlra os que não reconlecem um favor, porque o
desprezo consisle em fazer aIguma coisa fora do que é devido.
L conlra os que ironizam dianle dos que faIam sério, porque a
ironia é quaIquer coisa de desdenloso
15
. Também conlra os
que são benfeilores de oulros, mas não nossos, pois conslilui
alilude desprezíveI considerar que o que é digno para uns não
o seja para oulros. Mas lambém a faIla de memória, incIusiva-
menle o esquecimenlo de coisas insignificanles, como, por
exempIo, esquecer-se do nome de cerla pessoa, pode provocar
a ira, pois o esquecimenlo parece ser um sinaI de desprezo,
com efeilo, o esquecimenlo lem por causa a faIla de inleresse,
que é uma cerla forma de desprezo.
L com islo, faIámos, simuIlaneamenle, das pessoas conlra
quem se senle ira, em que eslados de espírilo e por que moli-
vos. L evidenle que o orador deve dispor, por meio do discur-
so, os seus ouvinles de maneira que se sinlam na disposição
de se converlerem à ira, represenlando os seus adversários
cuIpados daquiIo que a provoca e como sujeilos dolados de um
carácler capaz de a excilar.
3
A CALMA
Ima vez que eslar encoIerizado é o conlrário de eslar
caImo, e a cóIera é o oposlo da caIma, lemos de lralar dos es-
lados de espírilo dos caImos, em reIação a quem, e por que ra-
138Oa
15
A ironia parece consliluir um poderoso recurso oralório que o
Lslagirila alribui originariamenle a Górgias. Iara uma leorização da iro-
nia enlre os anligos, veja-se ArislóleIes, |i|icc Niccmcc|cc IV 8, 1127b22-
-23, Cícero, Dc crcicrc, 2.67, 269 ss., QuinliIiano, |nsiiiuic crcicricc, 8.6.44,
9.2.44 ss.
16¯
zões assim eslão. Vamos admilir que a caIma pode ser defini-
da como um apaziguamenlo e uma pacificação da cóIera. Ora,
se os seres lumanos se encoIerizam conlra os que os despre-
zam e esse desprezo é voIunlário, é evidenle que, em reIação
aos que não procedem da mesma maneira, ou o fazem invo-
Iunlariamenle ou aparenlam fazô-Io, moslram-se caImos. De
modo semeIlanle, moslram-se caImos com os que prelendem
o conlrário do que eIes próprios fizeram, com os que fazem o
mesmo consigo próprios, pois ninguém parece desprezar-se a
si próprio, com os que reconlecem as suas faIlas e se arrepen-
dem, vislo que o maI-eslar que provocaram nos oulros os faz
senlir cuIpados e põe cobro à cóIera. Im indício do que acabá-
mos de dizer eslá no casligo dado aos escravos: casligamos
sobreludo os que nos conlradizem e negam as suas faIlas, mas
apaziguamos a nossa cóIera com os que reconlecem que são
casligados com jusliça
16
. A razão desle procedimenlo reside no
faclo de que negar uma evidôncia é uma vergonla e que o de-
saforo é desprezo e desdém, peIo menos, não nos envergonla-
mos dianle daqueIes por quem lemos um grande desprezo e
dos que se lumiIlam na nossa presença e não nos conlradi-
zem, pois parecem admilir que são inferiores, e os inferiores
são medrosos, e quem não é medroso não despreza. A prova
de que a ira cessa em reIação aos que se lumiIlam eslá nislo:
alé os cães moslram que não mordem as pessoas que se sen-
lam
17
, e com os que faIam a sério, quando eIes lambém proce-
dem com seriedade, pois parece-Iles que quem faIa a sério não
desdenla, e com os que relribuem um favor com um favor
maior, com os necessilados e supIicanles, porque são mais
lumiIdes, com os que não são soberbos, nem lrocislas, nem
desdenlosos com ninguém, nem com genle lonrada, nem com
os que são semeIlanles a eIes. Lm geraI, as coisas que produ-
zem serenidade devem examinar-se peIos seus conlrários.
Moslramo-nos caImos com os que lememos e respeilamos, pois
enquanlo eslamos nessa disposição não senlimos cóIera, com
efeilo, é impossíveI senlir, a um lempo, medo e cóIera. Quanlo
16
Iara idônlicas considerações sobre o lralamenlo dado aos escra-
vos, cf. Occcncmicc I 55, 1344a-b (obra já edilada nesla coIecção).
17
AIusão ao episódio da O!., 14.31, quando IIisses, frenle aos cães
ferozes de Lumeu, «senlou-se Iogo, deixando cair da mão o baslão que
Ievava». Ver ainda IIínio, Nci. |isi., 8.41.61.
168
aos que agem por cóIera, ou não nos encoIerizamos com eIes,
ou encoIerizamo-nos menos, pois, ao que parece, não agiram
por desprezo: é que nenlum lomem irado despreza, vislo que
o desprezo não comporla mágoa, enquanlo a ira é acompanla-
da de mágoa. Também nos moslramos caImos com os enver-
gonlados.
L evidenle que nos moslramos caImos quando nos encon-
lramos num eslado de espírilo conlrário ao que dá origem à
cóIera. Ior exempIo, no jogo, no riso, nas feslas, nos dias feIi-
zes, num negócio bem sucedido, na prosperidade e, em geraI,
na ausôncia de dor, de prazer sem insoIôncia e de induIgenle
esperança. AIém disso, moslram-se caImos os que dão lempo
ao lempo e não se deixam dominar repenlinamenle peIa ira,
porque o lempo faz cessar a ira
18
. Mas a ira, mesmo aqueIa
mais forle que se senle conlra uma cerla pessoa, cessa, se já
anles liver lavido vingança conlra oulra. Ior isso, IiIócrales
respondeu bem quando, dianle do povo irrilado, aIguém Ile
pergunlou: «Ior que não le defendes`» ÷ «Ainda não.» ÷
«Mas enlão quando`» ÷ «Quando vir que caIuniaram oulro.»
19
Na verdade, as pessoas ficam caImas depois de verem esgola-
da a sua ira conlra oulra. Ioi o que aconleceu a LrgófiIo: se
bem que os Alenienses eslivessem mais indignados com eIe do
que com CaIíslenes, deixaram-no ir em Iiberdade porque na
véspera linlam condenado CaIíslenes à morle
2O
. L as pessoas
lornam-se caImas se os seus ofensores forem apanlados e se
sofrerem um lralamenlo pior do que aqueIe que poderiam in-
fIigir-Ile os que eslão encoIerizados conlra eIes, pois crôem que
já obliveram de aIgum modo vingança, e lambém se eIas pró-
138Ob
18
Lxpressão já proverbiaI na Iileralura grega. Cf. SófocIes, ||ccirc,
179, e Tucídides, 3.38.
19
IiIócrales eslava à frenle do parlido pró-macedónio que se opu-
nla ao parlido radicaI Iiderado por Iicurgo e Demóslenes e foi um dos
principais responsáveis peIo lralado de paz com a Macedónia em 346 a. C.,
cujas consequôncias foram calaslróficas para Alenas. Ierseguido, exiIou-
-se e foi condenado à morle à reveIia em 343 a. C.
2O
CaIíslenes e LrgófiIo eram eslralegos que parliciparam na expe-
dição do Queroneso e foram acusados de aIla lraição em 326 a. C. por
lerem concIuído um lralado de paz com Ierdicas, rei da Macedónia, o
que provocou, uma vez mais, a indignação de Demóslenes (Dc jc|sc |cg.,
18O).
169
prias pensam que comeleram uma injusliça e eslão a sofrer o
casligo merecido, pois a ira não se vira conlra o que é juslo:
é que, enlão, considera-se que não se eslá a sofrer um maI que
não seja merecido, pois isso era próprio da ira. Ior isso, é pre-
ciso repreender primeiro com paIavras, pois assim alé os es-
cravos se ofendem menos quando são casligados. Também fi-
camos caImos quando pensamos que aqueIe que queremos
casligar não sabe que sofre casligo por causa de nós, nem o
apIicamos como represáIias. Com efeilo, a ira, por definição, é
quaIquer coisa de pessoaI, como é evidenle. Ior isso, lem ra-
zão Homero ao escrever:
Diz-||c ¡uc jci U|isscs, sc¡ucc!cr !c ci!c!cs
21
uma vez que não se poderia considerar IIisses compIelamenle
vingado, se IoIifemo não soubesse quem linla sido o aulor e a
causa dos seus inforlunios. Desle modo, ninguém se encoIeriza
nem conlra os que não se apercebem deIa, nem conlra os mor-
los, vislo que esles sofreram alé ao fim e já não podem senlir
dor, nem lôm a percepção do que desejam os que eslão irados.
Ior isso, razão lem o poela para dizer, acerca do cadáver de
Heilor, ao querer pôr fim à cóIera de AquiIes,
mc|ircic umc icrrc sur!c, juri|un!c
22
.
Iorlanlo, fica cIaro que os que desejam lranquiIizar um
audilório devem recorrer a esles lópicos
23
, devendo lrabaIlá-
-Ios no senlido daqueIes conlra quem eslão irrilados ou inspi-
ram lemor, ou senlimenlo de respeilo, ou são benfeilores de-
Ies, ou agiram conlra a própria vonlade, ou eslão arrependidos
do que fizeram.
21
O!., 9.5O4.
22
||., 24.54. IaIavras dilas por ApoIo num concíIio dos deuses.
23
1cpci ou «lópicos gerais». Refere-se provaveImenle aos argumen-
los aponlados no começo desle Iivro.
1¯0
4
A AMIZADE E A INIMIZADE
IaIemos agora das pessoas que se amam e que se odeiam
e por que razões. Mas anles definamos o que é a amizade e o
que é amar. Admilamos que amar é querer para aIguém aqui-
Io que pensamos ser uma coisa boa, por causa desse aIguém e
não por causa de nós. Iôr islo em prálica impIica uma deler-
minada capacidade da nossa parle. L amigo aqueIe que ama e
é reciprocamenle amado. Consideram-se amigos os que pensam
eslar muluamenle neslas disposições.
CoIocadas eslas lipóleses, é necessário que seja nosso
amigo aqueIe que se regozija com as coisas boas e se enlrislece
com as nossas amarguras, sem oulra razão que não seja a pes-
soa amada. Todos nós nos aIegramos quando aconlece aquiIo
que desejamos, mas lodos nos enlrislecemos com o conlrário,
de laI sorle que a dor e o prazer são sinais da vonlade. Tam-
bém são amigos aqueIes que lôm por boas e más as mesmas
coisas, e por amigos e inimigos as mesmas pessoas. Daí resuI-
la, forçosamenle, querer para os amigos o que se deseja para si
próprio, de modo que são amigos aqueIes que, ao quererem
para si o que querem para a pessoa amada, moslram com loda
a evidôncia que são amigos deIa. Amam-se os nossos benfeilo-
res, lanlo os que cuidam de pessoas que eslão a nosso cargo,
como os que nos preslam serviços, sejam esles imporlanles ou
feilos com boa inlenção, ou em ocasiões oporlunas e lendo em
visla o nosso inleresse, ou os que evenluaImenle aclamos que
eslariam disposlos a beneficiar-nos. L lambém os amigos dos
nossos amigos, os que amam os que nós amamos e os que são
amados peIas pessoas que nós amamos. Do mesmo modo, os
que lôm os mesmos inimigos que nós e odeiam os que nós
odiamos, assim como aqueIes que são odiados peIos mesmos
que nós odiamos. Iara lodas eslas pessoas parece laver as
mesmas coisas boas que lá para nós, por conseguinle, desejam
para eIas as mesmas coisas boas que para nós, o que, segundo
a nossa definição, é próprio do amigo.
Amamos ainda os que eslão disposlos a fazer-nos bem,
quer em dinleiro, quer em segurança. L por isso que lemos em
grande eslima os Iiberais, os corajosos e os juslos. Ior oulro
Iado, supomos que são assim as pessoas que não vivem a
expensas de oulros, como, por exempIo, as que vivem do seu
1381a
1¯1
lrabaIlo, e, enlre eslas, as que vivem do lrabaIlo do campo e,
sobreludo, as que lrabaIlam por conla própria
24
. L os mode-
rados, porque não são injuslos, e os pacíficos, peIa mesma ra-
zão, e aqueIes de quem queremos ser amigos, se manifeslarem
os mesmos desejos que nós. Tais são os que peIa sua virlude
são bons e gozam de boa repulação, quer peranle o mundo
inleiro, quer enlre os lomens mais quaIificados, quer ainda
enlre os que admiramos ou os que nos admiram.
L ainda os que são agradáveis no seu lralo e convivôncia,
como, por exempIo, os compIacenles e os que não espreilam
loda e quaIquer ocasião para refular os nossos erros e não são
amigos de brigas, nem de discórdias (pois lodos esles são
aguerridos e os que nos combalem moslram cIaramenle que
querem o conlrário de nós). Também os que lôm labiIidade
para gracejar e para suporlar gracejos: em ambos os casos, gera-
-se um espírilo de camaradagem, que os lorna capazes de ad-
milir uma graça e de gracejar de bom goslo.
Também amamos os que eIogiam as boas quaIidades que
possuímos, especiaImenle aqueIas que lemos receio de não
possuir. L ainda os que lôm um aspeclo Iimpo, no vesluário e,
em geraI, na maneira de viver. L os que não repreendem, nem
as nossas faIlas, nem os favores que nos oulorgaram, pois lan-
lo uns como oulros só servem para crilicar. Também os que
não são rancorosos, nem aIimenlam queixas, mas, ao conlrá-
rio, eslão sempre disposlos a acaImar-se, pois supomos que
essas pessoas lerão para nós a mesma alilude que lôm para os
oulros. L os que não são caIuniadores, nem se melem na vida
do vizinlo, nem na nossa, mas apenas procuram saber as coi-
sas boas, pois é assim que age o lomem de bem. L os que não
fazem frenle aos irascíveis ou lomam as coisas demasiado a
sério, porque esses são arruaceiros. L os que se inleressam por
nós, por exempIo, os que nos admiram, os que nos aclam pes-
soas loneslas, os que rejubiIam com a nossa companlia e, aci-
ma de ludo, os que parliIlam esses senlimenlos naqueIes as-
1381b
24
Não sendo muilo comum a «apoIogia» do lrabaIlo e do cuIlivo
dos campos (cf. ArislóleIes, Occcncmicc I 2, 134a25, a agricuIlura é «a mais
virluosa de lodas as ocupações nalurais») convém regislar o faclo, lendo
em conla que o que sempre prevaIeceu desde os poemas loméricos e
disso se fizeram eco a Iileralura e a arle (à excepção de Hesíodo) foram
anceslrais preconceilos fisiocrálicos, denegrindo o lrabaIlo braçaI.
1¯2
sunlos em que nós queremos ser parlicuIarmenle admirados ou
parecer loneslos e agradáveis. Também os nossos semeIlanles
e os que se ocupam das mesmas coisas que nós, desde que não
nos incomodem, nem lenlam os mesmos meios de subsislôn-
cia que nós, pois é daí que vem o provérbio
c|circ ccnirc c|circ
25
.
L os que desejam as mesmas coisas que nós, desde que
seja possíveI parliIlá-Ias conjunlamenle, pois, caso conlrário,
aconlece o mesmo que anles.
Também amamos aqueIes com quem lemos uma laI reIa-
ção de amizade que não lemos vergonla de aclos vergonlosos
segundo a opinião comum, sem que lodavia os desprezemos.
Mas aqueIes na presença dos quais lemos vergonla, aclos ver-
gonlosos são de verdade
26
. L aqueIes com quem rivaIizamos ou
peIos quais queremos ser emuIados, mas não invejados, a esses
lambém os amamos ou queremos ser amigos deIes.
L o mesmo aconlece com aqueIes a quem ajudamos a
adquirir bens, desde que isso não nos lraga maIes maiores.
L aqueIes que amam os amigos, ausenles e presenles. Ior isso,
lodos os seres lumanos amam as pessoas que procedem assim
com os morlos. L, em geraI, amamos os que são verdadeira-
menle amigos dos seus amigos e não os abandonam na adver-
sidade. De enlre as pessoas de bem, amamos, sobreludo, os que
são bons amigos e os que não são fingidos connosco: lais são
os que nos faIam das suas próprias fraquezas, pois já dissemos
que com os amigos não nos envergonlamos de aclos que são
vergonlosos segundo a opinião pubIica, porlanlo, se quem sen-
le vergonla desles aclos não ama, quem não senle vergonla
parece-se com quem ama. Também amamos a quem não nos
inspira medo e a quem nos inspira confiança, pois ninguém
ama a quem se leme.
25
VeIlo adágio já mencionado por Hesíodo (Opcrc ci Dics, 25) que
lraduz a rivaIidade enlre pessoas do mesmo ofício. Vejam-se ainda cila-
ções do mesmo adágio nas obras seguinles: |i|icc |u!cmic VII 1, 1235a18,
Pcciicc V 1O, 1312b4.
26
O conlexlo diaIéclico do passo não escIarece lolaImenle a sinlaxe
suspensa da frase. Nole-se, no enlanlo, a dislinção lradicionaI enlre o que
é «opinião e verdade» (apè¸ óe¸ev keì apè¸ eìq0rtev).
1¯3
A camaradagem, a famiIiaridade, o parenlesco e oulras
reIações semeIlanles são espécies de amizade. Im favor pro-
duz amizade, laI como o fazô-Io sem ser soIicilado e sem os-
lenlar que se fez, pois assim parece que se fez só por causa do
favorecido e não por oulro molivo quaIquer.
Quanlo à inimizade e ao ódio lá que esludá-Ios a parlir
dos seus conlrários. A cóIera, o vexame e a caIunia são as cau-
sas da inimizade. Ora, a cóIera resuIla de coisas que afeclam
direclamenle uma pessoa, mas a losliIidade lambém pode re-
suIlar de coisas que nada lôm de pessoaI: basla supormos que
uma pessoa lem laI ou laI carácler para a odiarmos. Ior oulro
Iado, a cóIera refere-se sempre a um indivíduo parlicuIar, por
exempIo, a CáIias ou a Sócrales, mas o ódio lambém abrange
loda uma cIasse de pessoas: loda a genle odeia o Iadrão e o
sicofanla
27
. O lempo pode curar a cóIera, mas o ódio é incurá-
veI. A primeira procura meler dó, o segundo procura fazer maI,
já que o coIérico deseja senlir o maI que causa, mas ao que
odeia isso nada imporla. As coisas que causam pena são lodas
sensíveis, mas as que causam maiores maIes são as menos sen-
síveis, como a injusliça e a Ioucura, com efeilo, a presença do
maI não nos causa pena. A ira lambém é acompanlada de
pena, mas não o ódio, o lomem irado senle pena, mas não o
que odeia. Im pode senlir compaixão em muilas circunslân-
cias, o oulro nunca, o primeiro deseja que aqueIe conlra quem
eslá irado sofra por sua vez, o segundo que deixe de exislir
aqueIe a quem odeia.
Do que alé agora dissemos, resuIla cIaro que é possíveI
demonslrar que cIasse de pessoas são inimigas e amigas, e fa-
zer que o sejam se não o forem, ou refulá-Ias se afirmam que
o são, e se, devido à ira ou à inimizade, se lornam nossas
adversárias, enlão lá que «encaixá-Ias»
28
nas duas calego-
rias
29
, conforme cada um prefira.
1382a
27
Sicofanla: «deIalor», «informador». LlimoIogicamenle, o sicofanla
era o que informava o governo do conlrabando de figos (sµ|cn = «figo»).
O lermo serviu depois para designar oulras formas de denuncia, nomea-
damenle poIílicas, já que Alenas puIuIava de oporlunislas e deIalores.
28
6yrtv: «conduzi-Ias».
29
Islo é, na de «amigo» ou de «inimigo».
1¯4
5
O TEMOR E A CONFIANÇA
Quais as causas do medo` Quem lememos e em que esla-
do de espírilo senlimos medo` L o que vamos escIarecer a se-
guir. Vamos admilir que o medo consisle numa siluação afIiliva
ou numa perlurbação causada peIa represenlação de um maI
iminenle, ruinoso ou penoso. Nem ludo o que é maI se receia,
como, por exempIo, ser injuslo ou indoIenle, mas só os maIes
que podem causar mágoas profundas ou deslruições, islo só no
caso de eIes surgirem não muilo Iongínquos, mas próximos e
presles a aconlecer, os maIes demasiado dislanles não nos
melem medo. Com efeilo, loda a genle sabe que vai morrer,
mas, como a morle não eslá próxima, ninguém se preocupa
com isso.
Se o lemor é islo, forçoso é admilir que as coisas lemíveis
são as que parecem ler um enorme poder de deslruir ou de
provocar danos que Ievem a grandes lrislezas. L por isso que
os sinais dessas evenluaIidades inspiram medo, pois moslram
que o que lememos eslá próximo. O perigo consisle nisso mes-
mo: na proximidade do que é lemíveI.
O que lememos são o ódio e a ira de quem lem o poder
de fazer maI (é cIaro que essas pessoas querem e podem, e a
prova é que eslão pronlas a fazô-Io), lememos a injusliça que
dispõe desse mesmo poder, pois é por um aclo de vonlade de-
Iiberada que o injuslo é injuslo, a virlude uIlrajada, se liver esse
mesmo poder (é evidenle que, quando uma pessoa é insuIla-
da, é-o sempre inlencionaImenle, e passa a dispor desse poder),
e o medo dos que podem fazer aIgum maI, vislo que, por for-
ça das circunslâncias, lais pessoas lambém lão-de eslar prepa-
radas para agir. Como a maior parle dos seres lumanos são
baslanle maus, dominados peIo desejo do Iucro e cobardes nos
perigos, na maior parle dos casos é perigoso eslar à mercô de
oulrem, por conseguinle, é de recear que os que são cumpIices
de uma má acção não venlam a lornar-se deIalores, ou que os
cobardes não nos abandonem nos perigos. Os que podem co-
meler injusliça são lemidos peIos que podem ser vílimas deIa,
porque, a maior parle das vezes, os seres lumanos, se pude-
rem comeler injusliça, comelem-na. L o mesmo sucede com os
que foram vílimas de injusliça ou aclam que foram, uma vez
que eslão sempre à espreila de uma oporlunidade. São lam-
1382b
1¯5
bém lemíveis os que comeleram injusliças, quando dispunlam
dessa capacidade, porque lambém eIes, por sua vez, lemem a
vingança, segundo o que foi eslabeIecido, islo é uma coisa le-
míveI. L os que são anlagonislas em coisas que não são possí-
veis de obler por uns e oulros ao mesmo lempo: acabam por
eslar sempre em Iula uns conlra os oulros. L os que amedron-
lam os que são mais poderosos que nós, pois se podem preju-
dicar os que nos são superiores, mais podem prejudicar-nos a
nós. L os que lemem os que são mais poderosos que nós, peIa
mesma razão aponlada. Também os que aniquiIaram pessoas
mais forles que nós e os que alacaram genle mais fraca do que
nós, porque esses, ou já são lemíveis, ou podem vir a sô-Io, Iogo
que o poder deIes liver aumenlado. De enlre os que Iesámos, e
que são nossos inimigos ou adversários, lemos de recear, não
os arrebalados, nem os que faIam com franqueza, mas anles os
mansos, os irónicos e os veIlacos, é que nunca se sabe se eslão
pronlos a alacar, de laI modo que lambém nunca é evidenle
saber se eslão Ionge de o fazer. Tudo o que é lemíveI é mais
lemíveI ainda quando lá uma faIla irreparáveI, ou porque é
compIelamenle impossíveI, ou porque não depende de nós,
mas dos nossos adversários. L o mesmo sucede com coisas que
não lôm arranjo ou não são fáceis de arranjar. Numa paIavra,
são lemíveis lodas as coisas que inspiram compaixão, quando
aconlecem ou eslão para aconlecer aos oulros. Iouco mais ou
menos, eslas são as mais imporlanles coisas que lememos e as
que, por assim dizer, inspiram lemor.
IaIemos agora das disposições em que se enconlram os
que senlem medo. Se o medo é acompanlado peIo pressenli-
menlo de que vamos sofrer aIgum maI que nos aniquiIa, é
óbvio que aqueIes que aclam que nunca Iles vai aconlecer
nada de maI não lôm medo, nem receiam as coisas, as pes-
soas e os momenlos que, na sua maneira de pensar, não po-
dem provocar medo. Assim, pois, necessariamenle, senlem
medo os que pensam que podem vir a sofrer aIgum maI e os
que pensam que podem ser afeclados por pessoas, coisas e
momenlos.
Crôem que nenlum maI Iles pode aconlecer as pessoas
que eslão ou pensam eslar em grande prosperidade (daí o se-
rem insoIenles, desdenlosas e alrevidas, mas são a riqueza, a
força, as muilas amizades e o poder que as fazem assim), as
que pensam já ler sofrido loda a espécie de desgraças e per-
manecem frias peranle o fuluro, à semeIlança dos que já aIgu-
1383a
1¯6
ma vez apanlaram uma surra de pauIada
3O
. Iara que sinla-
mos receio é preciso que laja aIguma esperança de saIvação
peIa quaI vaIla a pena Iular. L aqui vai um sinaI disso:
o medo Ieva as pessoas a deIiberar, ao passo que ninguém de-
Iibera sobre casos desesperados. Iorlanlo, quando for vanlajo-
so para um orador que os ouvinles sinlam lemor, convém
adverli-Ios no senlido de que pode aconlecer-Iles mesmo aI-
guma coisa de maI (sabendo que alé oulros mais poderosos que
eIes lambém sofreram), convém ainda demonslrar-Iles como é
que genle da mesma condição sofre ou já sofreu, lanlo por
parle de pessoas de quem não se esperaria, como por coisas e
em circunslâncias de que não se eslava à espera.
Ima vez que ficou escIarecido o que é o medo, as coisas
lemíveis e em que disposições senlimos medo, lorna-se cIara,
peIo que precede, a nalureza da confiança, que coisas inspiram
confiança e quais as nossas disposições em reIação a eIa. A con-
fiança
31
é o conlrário do medo, e o que inspira confiança é o
conlrário do que inspira medo, de modo que a esperança é
acompanlada peIa represenlação de que as coisas que eslão
próximas podem saIvar-nos, ao passo que as que causam le-
mor não exislem ou eslão Ionge. Infundem, pois, confiança as
desgraças que eslão Ionge e os meios de saIvação que eslão
perlo, a possibiIidade e a disponibiIidade de socorros numero-
sos e grandes, ou ambos ao mesmo lempo, e lambém o faclo
de não lermos sido vílimas de injusliças nem o lermo-Ias co-
melido, não lermos compelidores, em geraI, nem eIes disporem
de poder ou, lendo poder, que sejam nossos amigos e nos le-
nlam feilo aIgum bem, ou nós a eIes, e aqueIes com quem lá
comunlão de inleresses, mesmo que sejam mais numerosos ou
mais poderosos do que nós, ou ambas as coisas.
3O
O casligo com varas ou paus é confirmado peIas referôncias aos
«apaIeados» feilas por Iísias, Ccnirc Agcr., 56, Demóslenes, P|i|ip., III, 126,
IIularco, Dic, 28. Segundo esles aulores, esle lipo de fIageIação podia con-
duzir à morle do réu ou Iimilar-se a um casligo exempIar. Lm lodo o caso,
a aIusão à indiferença dos «apaIeados» pode ser encarada como expres-
são de vaIor proverbiaI enlre os Gregos.
31
C6ppc¸ ou C6poc¸ lambém significa «coragem», «vaIor» (cn!rcic),
mas ArislóleIes eslá a faIar das paixões ou disposições passionais que
opõem a confiança ao medo (çeþc¸) assim como a «coragem» é uma vir-
lude por oposição à «cobardia», que é um vício. Vício é para A. ludo o
que é excessivo no comporlamenlo lumano.
1¯¯
São confianles os que eslão nas disposições seguinles:
os que pensam ler aIcançado grandes ôxilos e não sofreram
quaIquer desaire, ou os que muilas vezes esliveram à beira de
perigos e deIes escaparam. Iorque os lomens lornam-se insen-
síveis por duas razões: ou porque não lôm experiôncia ou por-
que lôm meios à sua disposição, laI como, nos perigos do mar,
confiam no fuluro lanlo os que não lôm experiôncia das lem-
peslades como os que, graças à sua experiôncia, dispõem de
socorros. Iassa-se o mesmo quando o que lá a lemer não é
idônlico para os nossos semeIlanles, nem para os inferiores,
nem para aqueIes em reIação aos quais nos aclamos superio-
res, mas só reaIizamos isso quando eslamos em vanlagem, ou
sobre eIes pessoaImenle, ou sobre os seus superiores, ou sobre
os seus iguais. Também se aclamos que dispomos de mais e
meIlores coisas, graças às quais inspiramos receio. Tais coisas
são: a muila riqueza, a força física, amigos, lerras, equipamen-
los béIicos, quer de lodos os lipos, quer dos mais imporlanles.
L ainda se não livermos comelido injusliças conlra ninguém ou
não conlra muilas pessoas ou não conlra aqueIes que inspiram
lemor e, em geraI, se eslivermos bem com os deuses, lanlo obe-
decendo aos seus presságios e orácuIos, como às demais coi-
sas
32
. L que a cóIera inspira confiança, por oulro Iado, o não
comeler injusliças, mas sofrô-Ias, provoca cóIera, sendo de su-
por que a divindade socorre os que são vílimas da injusliça.
O mesmo aconlece quando, numa delerminada empresa, pen-
samos que nada leremos de sofrer |nem sofreremosj ou que va-
mos ler ôxilo.
L assim, faIámos das coisas que inspiram lemor e confiança.
6
A VERGONHA E A DESVERGONHA
Que lipo de coisas provocam vergonla e desvergonla,
dianle de quem e em que disposições, vô-Io-emos cIaramenle a
seguir. Vamos admilir que a vergonla pode ser definida como
1383b
32
Segundo a maioria das edições (cf. KasseI e nola c! |cc., Dufour,
Ross) o lexlo apresenla aqui uma Iacuna ou, provaveImenle, uma inler-
poIação da auloria do próprio ArislóleIes.
1¯8
um cerlo pesar ou perlurbação de espírilo reIalivamenle a ví-
cios, presenles, passados ou fuluros, susceplíveis de comporlar
uma perda de repulação. A desvergonla consisle num cerlo
desprezo ou insensibiIidade peranle esles mesmos vícios. Se a
vergonla é o que acabámos de definir, necessariamenle expe-
rimenlaremos vergonla em reIação a lodos aqueIes vícios que
parecem desonrosos, quer para nós, quer para as pessoas por
quem nos inleressamos. São desla nalureza os aclos que resuI-
lam de um vício, como por exempIo, abandonar o escudo e fu-
gir, pois laI aclo resuIla da cobardia
33
. Do mesmo modo, pri-
var aIguém de uma fiança |ou lralá-Io injuslamenlej, porque
islo é efeilo da injusliça
34
. L lambém manler reIações sexuais
com quem não se deve ou onde e quando não convém, porque
islo é resuIlado de Iiberlinagem. De iguaI modo, lirar proveilo
de coisas mesquinlas ou vergonlosas ou de pessoas impossi-
biIiladas como, por exempIo, dos pobres ou dos defunlos, don-
de, o provérbio: surripicr !c um cc!4.cr
35
, porque lais aclos
provôm da cobiça e da mesquinlez. Não socorrer com dinlei-
ro, podendo fazô-Io, ou socorrer menos do que se pode. Do
mesmo modo, ser socorrido peIos que lôm menos posses do
que nós e pedir dinleiro empreslado a quem parece que no-
-Io vem mendigar, assim como mendigar a quem parece que
no-Io vem recIamar, ou recIamar a quem parece que vem
mendigar, eIogiar uma coisa para dar a sensação de que se
eslá a pedi-Ia e, apesar da recusa, fazer como se nada fosse,
ludo islo é sinaI de mesquinlez. De modo semeIlanle, eIo-
giar aIguém que eslá presenle ou exaIlar as suas virludes e
alenuar os seus defeilos, moslrar-se demasiado compungido
com quem sofre na nossa presença, e oulros aclos semeIlan-
les, são sinais de aduIação.
L vergonla não suporlar canseiras que os mais idosos
suporlam, ou os que vivem no Iuxo, ou os que gozam de uma
posição económica superior à nossa ou, em geraI, os mais im-
possibiIilados que nós: ludo islo é sinaI de indoIôncia. Também
1384a
33
Cf. Lsquines, Ccnirc Cicsijcnic, 175-176, um perfeilo exempIo de
cobardia.
34
Não devoIver o pagamenlo de uma fiança era considerado roubo
e sujeilo a um compIicado e moroso processo judiciaI. O lópico é afIorado
em Cícero, 1uscu|cncc !ispuiciicncs, 3.8.
35
Irovérbio que aparece cilado em Diógenes Iaércio, 5.84.
1¯9
receber benefícios de aIguém com frequôncia e censurar o bem
que nos fez: ludo islo é sinaI de baixeza de espírilo e de mes-
quinlez. IguaImenle, faIar aos qualro venlos de si próprio e de
ludo se vangIoriar, e decIarar como próprias as coisas aIleias:
islo é pura gabaroIice.
IaraIeIamenle, lambém os aclos que provôm de cada um
dos oulros vícios de carácler, bem como sinais deIes ou coisas
semeIlanles a eIes, pois lais aclos são em si vergonlosos e
ignominiosos. AIém disso, é vergonloso não parlicipar naque-
Ias coisas beIas em que parlicipam, ou lodos os lomens, ou lo-
dos os nossos pares, ou a maior parle dos lomens ÷ enlendo
por «nossos pares» os nossos compalriolas, os nossos cidadãos,
os que são da nossa idade, da mesma famíIia e, em geraI, os
que são da nossa condição ÷ pois já é uma vergonla não par-
licipar, por exempIo, do mesmo grau de educação, e oulras coi-
sas semeIlanles. Todas eslas coisas são ainda mais vergonlo-
sas se se lornar cIaro que o são por cuIpa nossa, pois assim
mais parecem ler a sua origem num vício, se formos direcla-
menle responsáveis do que aconleceu no passado, no presenle
ou no fuluro. Também senlimos vergonla dos que sofrem,
sofreram ou lão-de sofrer aclos que comporlam desonra ou
reprovação, são desle lipo os aclos que nos conduzem à servi-
dão do corpo ou a aclos vergonlosos que comporlem vioIôn-
cias físicas. L o mesmo aconlece em reIação a aclos que condu-
zem à devassidão, lanlo voIunlários como invoIunlários (são
invoIunlários os aclos imposlos peIa força), efeclivamenle, é
faIla de coragem ou prova de cobardia suporlar lais aclos e não
se defender deIes.
São eslas e oulras coisas como eslas que causam vergo-
nla. Mas vislo que a vergonla é uma represenlação imaginá-
ria que afecla a perda de repulação, peIa perda em si mesma,
não por causa das suas consequôncias, e como ninguém se
imporla com a repulação senão por causa daqueIes que lôm re-
pulação, segue-se forçosamenle que senliremos vergonla na
presença daqueIas pessoas cuja opinião nos inleressa. Ora, in-
leressa-nos a opinião de quem nos admira, de quem admira-
mos ou por quem queremos ser admirados, daqueIes com
quem ambicionamos rivaIizar em lonrarias e daqueIes cuja
opinião não é de desprezar. Queremos ser admirados por lo-
dos esses e admiramos ainda lodos os que usufruem de aIgum
bem digno de eslima ou de quem lemos evenluaImenle neces-
sidade de obler aIgum bem que Iles perlence, como é o caso
180
dos amanles. RivaIizamos com os nossos pares e preocupa-nos
a opinião dos sensalos, na medida em que eIes dizem a verda-
de: lais são os idosos e as pessoas inslruídas. Senlimos vergo-
nla do que eslá à visla, e, mais ainda, do que eslá a descober-
lo (e daí o provérbio: ncs c||cs csi4 c pu!cr
36
). Lis a razão peIa
quaI senlimos mais vergonla dianle daqueIes que eslarão sem-
pre presenles e nos rodeiam de alenções, porque em ambos os
casos andamos debaixo de oIlo. A mesma coisa aconlece dian-
le daqueIes que não eslão sujeilos às mesmas acusações que
nós, pois é evidenle que a opinião deIes é conlrária à nossa.
L lambém peranle os que não são induIgenles com as pessoas
que eslão visiveImenle em faIla. Como cosluma dizer-se, com
o que cada um faz não se indigna o vizinlo, por conseguinle,
o que não se faz é evidenlemenle indigno que oulros o façam.
Também senlimos vergonla na presença dos que se dedicam a
propaIar lais faIlas junlo de muilos oulros, vislo que a diferen-
ça enlre «o não parecer» e «o não propaIar» é nuIa. São pro-
pensos à clarIalanice os que foram vílimas de uma injusliça,
porque eslão sempre à espera de vingança, assim como os
maIdizenles, porque, se não poupam os que não comelem er-
ros, menos ainda os que os comelem. IguaImenle dianle dos
que passam a vida a descobrir as faIlas aIleias, como, por
exempIo, os lrocislas e os poelas cómicos, porque esles são, à
sua maneira, maIdizenles e clarIalães. Senlimos vergonla
dianle dos que nunca faIlaram em nada, pois esses ainda es-
lão na posição dos que são admirados. Ior esla mesma razão,
lambém senlimos vergonla dianle dos que nos soIicilam peIa
1384b
36
Trala-se do pu!cr (elóæ¸) não da .crgcn|c (elo¿uvp), já que são
duas noções próximas, mas dislinlas. Lsle provérbio, nas suas muIlipIas
varianles e muilo popuIar na Iileralura grega cIássica e leIeníslica (cf.
Appcn!. prc.cr|., I 1O e I 38 Goll.) subIinla aquiIo a que desde a época
lomérica L. R. Dodds denominou s|cmc cu|iurc. De faclo, numa cuIlura
da vergonla, as raízes do pudor eslão na visibiIidade (SófocIes, 1rcc|inicc,
596) o que corroboraria a elimoIogia popuIar do lermo (embora não ales-
lada por nenlum dicionário): elóæ¸ < de e-tóæ¸ (que não vô). A semânlica
do aIfa privalivo remele-nos para a meláfora do oIlar que ArislóleIes
desenvoIverá quer do ponlo de visla su|jccii.c (a visla como senlido ex-
pressivo das paixões e dos afeclos) quer c|jccii.c, islo é, como argumenlo
relórico por meio do quaI o orador pode demonslrar como cerlos enun-
ciados são capazes de fazer «saIlar à visla» de lodos a nalureza e a pro-
fundidade das paixões.
181
primeira vez, porque a nossa repulação eslá inlacla aos oIlos
deIes, lais são os que ainda recenlemenle procuravam ser nos-
sos amigos (pois só lôm conlecimenlo das nossas meIlores qua-
Iidades, razão peIa quaI eslá lão bem apIicada a resposla de
Lurípides aos Siracusanos)
37
e, denlre os nossos anligos conle-
cidos, os que não conlecem nada de maI que nos diga respeilo.
Temos vergonla não só dos aclos que foram quaIificados
como vergonlosos, mas lambém dos sinais dos mesmos, por
exempIo, não só enlregar-se aos prazeres do amor, mas lam-
bém aos sinais desses mesmos prazeres, não só comeler aclos
vergonlosos, mas faIar deIes. De modo semeIlanle, senlimos
vergonla, não só dianle das pessoas que acabámos de mencio-
nar, mas lambém dianle daqueIas que Iles vão reveIar a nossa
vida
38
, por exempIo, os criados e os amigos. Lm geraI, porém,
não senlimos vergonla, nem dianle daqueIes cuja opinião sobe-
ranamenle desprezamos, por serem infiéis à verdade (porque
ninguém cora dianle de criancinlas ou de animais), nem lemos
a mesma alilude dianle de conlecidos e de desconlecidos:
dianle de conlecidos, senlimos vergonla peIo que de verdadei-
ramenle vergonloso possam pensar de nós, dianle de pessoas
mais dislanles, coramos por respeilo a normas eslabeIecidas.
Senlimos vergonla nas disposições seguinles: primeiro, se
aIguém que eslá à nossa frenle esliver nas mesmas disposições
daqueIes de quem dizíamos acima que eram pessoas que nos
faziam senlir vergonla. Lssas pessoas eram as que nós admi-
ramos ou que nos admiram ou por quem queremos ser admi-
rados ou a quem pedimos aIgum serviço que só aIcançaremos
se gozarmos de boa repulação. Ou lais pessoas são leslemu-
nlas ocuIares da nossa condula (como Cídias que, no seu dis-
curso sobre a cIeruquia de Samos
39
, pediu aos Alenienses que
37
Segundo um escoIiasla medievaI (Rabe, 1O6 s.), a lisloriela é
alribuída a Lurípides. Crô-se, no enlanlo, que não se lrala de Lurípides,
poela lrágico, mas de Heurípides, generaI aleniense enviado como em-
baixador a Siracusa na SicíIia, que deu a resposla seguinle: «Homens de
Siracusa, se não fosse por oulra razão que a de virmos aqui pedir-vos aju-
da, devíeis ler vergonla, porque eslamos aqui como admiradores vossos.»
38
AIusão ao lópico do pubIico e do privado.
39
kìppcu¿Ie designava um lipo de coIonização que pressupunla a
reparlição das lerras enlre coIonos alenieneses e povos coIonizados. Como
esle sislema beneficiava os Alenienses, acabou por ser molivo de abusos
e de numerosas revoIlas dos nalurais. Ima das mais céIebres foi a de
182
imaginassem lodos os Gregos a formar um círcuIo em redor
deIes, para ver e não só para ouvir o que iam volar), ou por-
que eslão perlo de nós, ou porque Iogo vôm a saber do nosso
comporlamenlo. L por esla razão que, nos momenlos de infor-
lunio, não queremos ser vislos peIos que anles eram nossos
émuIos, pois os émuIos são admiradores. Senlimos vergonla
quando recaem sobre nós aclos e acções vergonlosas, quer
provenlam de nós, quer dos nossos anlepassados ou de ou-
lros a quem nos une aIgum grau de parenlesco, e, de modo
geraI, aqueIes por quem senlimos respeilo, sejam eIes os que
acabámos de referir, sejam os que nos eslão confiados, ou por-
que fomos meslres ou conseIleiros deIes, ou porque, lralando-
-se de oulros iguais a nós, rivaIizamos com eIes no que loca a
lonrarias. Muilas coisas se fazem ou deixam de se fazer por
causa da vergonla que senlimos dianle dessas pessoas. L mais
envergonlados ficamos se corremos o risco de ser vislos e se
lemos de conviver às cIaras com quem conlece os nossos ac-
los. L o que querem dizer as paIavras de Anlifonle, o poela,
quando eslava presles a ser morlo à pancada por ordem de
Dionísio. Ao ver que os que iam morrer com eIe lapavam a
cara quando passavam em frenle das porlas da cidade, disse:
«Ior que vos escondeis` Temeis que aIgum desles vos veja
amanlã`»
4O
Sobre a vergonla, é islo que lá para dizer. Sobre a des-
vergonla, é óbvio que leremos de procurar argumenlos a par-
lir dos seus conlrários.
1385a
Samos em 44O-339 a. C., Iogo após o lriunfo de IéricIes. De Cídias nada
sabemos. L prováveI, no enlanlo, que lenla eslado envoIvido miIilarmenle
na segunda revoIla de Samos conlra a coIonização aleniense em 352 a. C.
ou posleriormenle.
4O
O episódio é referido peIo Iseudo-IIularco (Vi!c !cs Dcz Orc!c-
rcs, 1.832C ss.). Anlifonle poela, inlegrado numa embaixada, compareceu
dianle de Dionísio, lirano de Siracusa (e lambém composilor de lragédias
ridicuIarizadas por oulros). Lsle pergunlou ao poela quaI era o meIlor
bronze do mundo. Anlifonle respondeu que o meIlor bronze era aqueIe
de que eslavam feilas as esláluas de Harmódio e Arislogílon. Lsla refe-
rôncia aos liranicidas irrilou de laI maneira o lirano que o condenou ime-
dialamenle à morle.
183
7
A AMABILIDADE
A quem se faz um favor
41
, por que molivos e em que dis-
posições, escIarecô-Io-emos quando livermos definido o favor.
Vamos admilir que «favor» pode ser definido como um servi-
ço, em reIação ao quaI aqueIe que o faz diz que faz um favor
a aIguém que lem necessidade, não em lroca de aIguma coisa,
nem em proveilo pessoaI, mas só no inleresse do beneficiado.
Im favor é grande, se a necessidade for exlrema, ou se o favor
for imporlanle e envoIver dificuIdades maiores, ou quando se
faz em circunslâncias crílicas, ou quando se é o unico, o pri-
meiro ou o principaI benfeilor. Ior sua vez, as necessidades são
desejos e, enlre esles, especiaImenle os que vão acompanlados
de pena, quando não são salisfeilos: por exempIo, o amor, e os
que lôm a sua origem em maus lralos físicos e em siluações de
perigo, uma vez que lanlo o que corre perigo como o que sen-
le pena experimenlam lais desejos. L por isso que os pobres e
os exiIados a quem se presla um auxíIio, por pequeno que seja,
mas alendendo à gravidade das suas necessidades e às circuns-
lâncias, se moslram gralos. Ior exempIo, aqueIe que deu a Ii-
ceu a esleira
42
. Assim sendo, é necessário que a ajuda que se
presla responda essenciaImenle a esle lipo de necessidades, e
senão, em circunslâncias anáIogas ou mais imporlanles.
Ima vez que ficou cIaro a que pessoas, por que razões, e
com que disposições se faz um favor, lorna-se evidenle que se
devem exlrair os argumenlos deslas fonles, moslrando que aI-
gumas pessoas eslão ou esliveram em laI pena ou necessidade,
e que oulras preslaram ou preslam um serviço, respondendo a
esla ou àqueIa necessidade. Também se lorna cIaro a parlir de
que argumenlos é possíveI recusar um favor e pôr em evidôn-
cia os maI-agradecidos afirmando que, ou foi só no inleresse
deIes que preslaram ou preslam um serviço (e islo, na nossa
definição, não era um favor), ou que aconleceu por acaso, ou
1385b
41
X6pt¸.
42
Não é conlecido o conleudo do episódio, mas pode muilo bem
aIudir a aIgum faclo ocorrido com ArislóleIes quando ensinava no Iiceu
duranle a sua primeira eslada em Alenas. Lm lodo o caso, a lislória de-
via ser conlecida em meios frequenlados por fiIósofos, o que reforça a
sua nalureza «académica».
184
por força das circunslâncias, ou que o serviço é apenas uma
resliluição, não uma dádiva, e que lanlo se fez sabendo, como
não sabendo, em ambos os casos lralou-se de uma permula, e
porlanlo não deveria considerar-se favor. Lsla queslão deve ser
examinada à Iuz de lodas as calegorias
43
, já que o favor exisle
ou porque é o que é, ou peIa quanlidade, quaIidade, lempo e
Iugar. Lm lodo o caso, um sinaI de que não se preslou um
pequeno serviço é quando aos nossos inimigos preslamos os
mesmos serviços, ou idônlicos ou maiores, é cIaro que lais ser-
viços não liveram em mira os nossos inleresses. Também lá
que examinar se foi um serviço insignificanle ÷ e só o sabe
quem o fez ÷, uma vez que ninguém reconlecerá ler necessi-
dade de coisas insignificanles.
8
A PIEDADE
Acabámos de faIar do favor e da ingralidão. IaIaremos
agora do lipo de coisas que são dignas de piedade
44
, quem lem
piedade e em que disposições experimenlamos esse senlimen-
lo. Vamos admilir que «a piedade» consisle numa cerla pena
causada peIa aparição de um maI deslruidor e afIilivo, afeclan-
do quem não merece ser afeclado, podendo lambém fazer-nos
sofrer a nós próprios, ou a aIgum dos nossos, principaImenle
quando esse maI nos ameaça de perlo. L evidenle que, por
força das circunslâncias, aqueIe que eslá a ponlo de senlir pie-
dade se enconlra numa siluação de laI ordem que lá-de pen-
sar que eIe próprio, ou aIguém da sua proximidade, acabará
por sofrer aIgum maI, idônlico ou muilo semeIlanle ao que re-
ferimos na nossa definição. L por isso que a compaixão não
afecla nem os que eslão compIelamenle perdidos (pois pensam
que já nada mais podem sofrer, vislo que já ludo sofreram),
nem os que se aclam superfeIizes, que são propensos à sober-
ba, de faclo, se pensam que já possuem lodos os bens, é evi-
denle que não lá maI que os possa afeclar, porque islo lam-
43
As calegorias são os |cinci icpci (lópicos gerais) de onde se po-
dem exlrair argumenlos relóricos reIalivos ao «favor» (¿6pt¸).
44
´Lìrc¸, que lambém lraduzimos por «compaixão».
185
bém é um bem. Ior oulro Iado, os que aclam que pode recair
sobre eIes o maI são aqueIes que já sofreram aIgum e escapa-
ram deIe: por exempIo, os idosos, devido à sua prudôncia e
experiôncia, os fracos e, sobreludo, os cobardes, os inslruídos,
porque são mais caIcuIislas, lambém os que lôm pais, fiIlos ou
esposas, porque lodos esses são parles de si mesmos e eslão
sujeilos aos maIes de que faIámos, lambém aqueIes que não
eslão incIuídos no roI das paixões que excilam à coragem, como
por exempIo, a cóIera ou a confiança (esles senlimenlos não
caIcuIam o fuluro), nem se enconlram num eslado de espírilo
que os Ieve à insoIôncia (pois lambém não enlra nos seus cáI-
cuIos que possam vir a sofrer aIgum maI), mas sim aqueIes que
eslão enlre esles exlremos. Também não senlem piedade os que
andam inlensamenle amedronlados, nem a podem senlir os
que andam alurdidos, vílimas dos seus próprios maIes. Senle-
-se piedade quando se crô que exislem pessoas lonradas (aque-
Ie que não lem consideração por ninguém pensará que lodos
são merecedores de maI) e, em geraI, quando eslamos dispos-
los a Iembrarmo-nos de que lais maIes já nos aconleceram, a
nós ou aos nossos, ou esperamos que nos aconleçam, a nós ou
aos nossos.
Lslá, pois, dilo quais os eslados de espírilo em que se sen-
le piedade. Quanlo àquiIo que a produz, ficou escIarecido na
nossa definição. Tudo o que é penoso e doIoroso, e que pode
causar deslruição, lambém causa compaixão, da mesma manei-
ra, ludo quanlo causa a morle, assim como lodos os maIes
imporlanles causados peIa Iorluna. São causas doIorosas e
deslruidoras: a morle, as sevícias corporais, os maus lralos, a
veIlice, as doenças e a faIla de aIimenlação. Os maIes causa-
dos peIa Iorluna são: a faIla ou a escassez de amigos (por isso,
é digno de piedade o ser arrancado a amigos e famiIiares), a
feaIdade, a fraqueza física, a invaIidez, o maI que vem donde
se esperaria que viesse um bem, e ainda o faclo de isso acon-
lecer muilas vezes, e um bem que pode vir a aconlecer depois
de se ler sofrido um maI. Ioi o que aconleceu a Diopiles, que
depois de morlo recebeu um presenle do rei
45
. L ainda o faclo
de nunca aconlecer nada de bom, ou enlão, quando aconlece,
não laver lempo para o gozar. São eslas e oulras semeIlanles
1386a
45
AIusão prováveI ao eslralego aleniense mencionado por Demós-
lenes, Dc ccrcnc, 7O, e P|i|ip., 3.15. O rei é IiIipe da Macedónia.
186
as coisas de que nos compadecemos. Ior oulro Iado, compade-
cemo-nos lambém das pessoas conlecidas, desde que a nossa
reIação com eIas não seja demasiado ínlima (pois, nesle uIlimo
caso, parliIlamos com eIas os mesmos senlimenlos que senli-
mos connosco, razão peIa quaI Amasis
46
, segundo dizem, não
clorou peIo fiIlo que conduziam à morle, mas por um amigo
seu que pedia esmoIa: o caso do amigo é digno de piedade, o
do fiIlo é lorríveI, e o lorríveI é diferenle do que é digno de
compaixão, excIui mesmo a piedade e, muilas vezes, alé é uliI
para provocar emoções conlrárias, uma vez que ainda não sen-
limos compaixão quando o que é lerríveI eslá perlo de nós).
Também nos compadecemos dos nossos semeIlanles peIa
idade, carácler, modo de ser, dignidade e nascimenlo: em lo-
dos esles casos senlimo-nos cIaramenle mais ameaçados peIas
desgraças que nos possam alingir. Lm geraI, lá que admilir
aqui que as coisas que receamos para nós são as mesmas que
geram piedade quando aconlecem aos oulros. As desgraças que
nos parecem próximas são as que produzem piedade, as que
se deram lá dez miI anos ou lão-de aconlecer no fuluro, como
não as podemos esperar nem recordar, ou não nos comovem
em absoIulo, ou não da mesma maneira. Neslas condições,
aconlece necessariamenle que aqueIes que reforçam o seu des-
goslo por meio de geslos, de vozes, de indumenlária e, em
geraI, de geslos lealrais, excilam mais a piedade (pois, ao pôr
dianle dos nossos oIlos o maI, fazem que eIe apareça próximo,
quer como aIgo que eslá para aconlecer, quer como aIgo já
passado). L iguaImenle digno de compaixão o que acabou de
aconlecer ou o que eslá presles a aconlecer, razão peIa quaI nos
comovemos mais vivamenle, por isso, são lambém sinais de
compaixão, por exempIo, as vesles dos que sofreram uma caIa-
midade e oulras coisas do mesmo género, lambém as acções,
as paIavras e ludo o que vem dos que eslão numa siluação de
sofrimenlo, como, por exempIo, os moribundos. Mas, sobrelu-
do, o que inspira piedade é ver genle lonrada em siluações lão
crílicas, é que lodas eslas coisas, por parecerem lão próximas,
causam piedade, uma vez que o sofrimenlo é imerecido e sur-
ge dianle dos nossos oIlos.
1386b
46
Amasis, faraó do Lgiplo. Heródolo, 3.14, refere o mesmo episó-
dio mencionando Isaménio, fiIlo e sucessor de Amasis, na época em que
o Lgiplo caiu sob o domínio persa.
18¯
9
A INDIGNAÇÃO
Conlrapõe-se sobreludo à piedade o que se clama indig-
nação. A pena que se senle por maIes imerecidos conlrapõe-se
de aIgum modo, embora provenla do mesmo carácler, a pena
experimenlada por ôxilos imerecidos. Ambas as paixões são
próprias de um carácler nobre, porque devemos não só senlir
lrisleza e compaixão com os que sofrem um maI imerecido,
como senlir indignação conlra os que imerecidamenle gozam
de feIicidade. De faclo, é injuslo aquiIo de que beneficiamos
sem o lermos merecido, por isso, lambém alribuímos aos deu-
ses indignação.
Lm lodo o caso, poderia parecer que a inveja é, da mes-
ma maneira, o conlrário da piedade, porque é vizinla e da
mesma nalureza da indignação, mas é uma coisa muilo dife-
renle. Não lá duvida de que a inveja é uma pena perlurba-
dora que concerne ao ôxilo, não de quem o não merece, mas
de quem é nosso iguaI e semeIlanle. Não é porque nos vá
aconlecer aIgo de diferenle, mas por causa da consideração que
lemos peIo nosso próximo que islo deve aconlecer da mesma
maneira a lodos, porque a inveja e a indignação já não seriam
a mesma coisa, mas medo, se a pena e a perlurbação fossem a
causa de que, da sorle dos oulros, resuIlasse para nós aIguma
desvenlura.
L evidenle que eslas paixões serão seguidas das suas con-
lrárias, uma vez que aqueIe que sofre com os que sofrem re-
veses imerecidos aIegrar-se-á ou ficará sem pena dianle dos
que os sofrem merecidamenle. Ior exempIo, quando os parri-
cidas e os assassinos são casligados, não lá lomem loneslo
que sinla pena, deve alé aIegrar-se em lais casos, assim como
naqueIes em que os ôxilos eslão de acordo com o mérilo:
ambas as coisas são juslas e causam prazer ao lomem lonra-
do, porque, necessariamenle, espera que o que aconleceu ao
seu semeIlanle Ile possa aconlecer lambém a si. Todas eslas
paixões provôm do mesmo carácler, assim como as suas con-
lrárias do carácler oposlo. Na verdade, a pessoa que se rego-
zija com o maI aIleio é a mesma que lem inveja da sua feIici-
dade, pois quando uma pessoa senle lrisleza por aIgo que
aIguém possa vir a ler ou a possuir, necessariamenle senlirá
prazer peIa sua privação e perda. Ior isso, lodas eslas paixões
1387a
188
consliluem obslácuIos à compaixão, muilo embora sejam dife-
renles peIas razões que acabámos de aponlar. Ior conseguinle,
para impedir que a compaixão se manifesle, lodas eIas são
iguaImenle uleis.
IaIemos em primeiro Iugar da indignação, das pessoas
conlra quem se senle, das suas causas e disposições, depois,
faIaremos dos oulros ponlos. A queslão é cIara no que deixá-
mos dilo: se a indignação é uma pena senlida reIalivamenle a
quem parece gozar de uma feIicidade imerecida, é óbvio, em
primeiro Iugar, que não é possíveI aIguém indignar-se por cau-
sa de lodos os bens. Se um lomem for juslo e corajoso ou se
prelender aIcançar uma virlude, ninguém, por cerlo, se indig-
nará conlra eIe (porque não desperlam compaixão siluações
conlrárias a eslas), mas indignar-se-á ao ver os maus lirarem
proveilo da riqueza, do poder e de coisas semeIlanles de que
são merecedores: numa paIavra, os bons e os que por nalureza
possuem bens, lais como nobreza, beIeza e lanlas coisas seme-
Ilanles.
Ior oulro Iado, uma vez que o que é anligo surge como
aIgo que eslá próximo daquiIo que nos é naluraI, segue-se, ne-
cessariamenle, que as pessoas que possuem um bem ou o ad-
quiriram recenlemenle e a eIe devem a sua prosperidade exci-
lem mais indignação. L por isso que os novos-ricos causam
mais pena do que aqueIes que o são lá muilo lempo, e de
nascença, o mesmo aconlece com os governanles, os podero-
sos, os que lôm muilos amigos, os bons fiIlos e coisas do mes-
mo género. L se lais bens Iles servem para adquirir oulros, a
nossa indignação manlém-se mais acesa. Daí que nos causem
mais afIição os novos-ricos que assumem o poder, porque são
ricos, do que os ricos anligos. L o mesmo aconlece noulros ca-
sos semeIlanles. A razão dislo é que uns parecem ler o que
Iles perlence, oulros não, com efeilo, o que sempre se mani-
feslou a nós num cerlo eslado parece ser assim na reaIidade,
de laI modo que os oulros dão a sensação de possuírem o que
não Iles perlence. Ora, nem lodos os bens são dignos do pri-
meiro que aparece, mas exisle uma cerla anaIogia e uma cer-
la proporção: por exempIo, a beIeza das armas não se larmo-
niza com o juslo, mas com o corajoso, os casamenlos dislinlos
não se ajuslam aos novos-ricos, mas às pessoas de eslirpe.
Iorlanlo, se um lomem de bem não oblém o que é propor-
cionaI à sua virlude, isso é molivo de indignação. L o mesmo
se diga do inferior que rivaIiza com o superior, sobreludo
189
quando a desiguaIdade diz respeilo ao mesmo bem, donde
diz o poela
47
:
|.iicu c ccm|cic ccm Ajcx, ji||c !c 1c|cmcn,
pcis ccnirc c|c sc in!ignc.c Zcus, ¡ucn!c |uic.c ccm um
|crci supcricr.
L se não, peIo menos quando o inferior rivaIiza com o
superior, quaIquer que seja a forma, como, por exempIo, se um
musico rivaIiza com um lomem juslo: é que a jusliça é meIlor
do que a musica.
Conlra quem uma pessoa se indigna e porquô, ficou es-
cIarecido no que precede: são as causas mencionadas e as que
Iles são idônlicas. Ima pessoa é propensa à indignação se se
acla digna dos maiores bens e os possui, pois não é juslo que
aqueIes que não são nossos iguais sejam juIgados dignos de
bens iguais aos nossos, e em segundo Iugar, se uma pessoa é
boa e virluosa, porque nesle caso juIga reclamenle e odeia a
injusliça, e se uma pessoa é ambiciosa e aspira a cerlos priviIé-
gios, e, sobreludo, se aquiIo que ambiciona, oulros o conse-
guem sem o merecer. De modo geraI, os que se consideram
dignos de regaIias que oulros não merecem senlem-se lenlados
a indignar-se conlra lais pessoas e coisas. Islo expIica que os
seres de carácler serviI, os grosseiros e os desprovidos de am-
bição não sejam propensos à indignação, pois não lá nada de
que se juIguem dignos.
Iica cIaro, peIo que precede, em que casos os inforlunios,
as desgraças e os insucessos nos devem causar aIegria ou não
nos causar pena, uma vez que, depois do que dissemos, os seus
conlrários são evidenles. Ior conseguinle, se o nosso discurso
predispõe devidamenle os espírilos dos juízes e Iles moslra
que os que invocam a sua compaixão a não merecem, peIas
razões que apresenlam, anles merecem que eIa Iles seja re-
cusada, enlão será impossíveI suscilar essa compaixão.
1387b
47
||., 11.542-3. O uIlimo verso faIla nos manuscrilos de Homero,
sendo referido peIo Iseudo-IIularco, Viic Hcm., 132.
190
10
A INVEJA
Também eslá cIaro por que razões, conlra quem e em que
disposições senlimos inveja, se é que reaImenle a inveja con-
sisle numa cerla pena senlida conlra os nossos semeIlanles
devido ao ôxilo visíveI aIcançado nos bens referidos acima, não
para nosso proveilo pessoaI, mas por causa daqueIes. Senlirão,
pois, inveja aqueIes que são ou parecem ser nossos pares, en-
lendendo por pares aqueIes que são semeIlanles a nós em es-
lirpe, parenlesco, idade, disposição, repulação e posses. Tam-
bém são propensos à inveja aqueIes a quem pouco faIla para
ludo lerem (por isso é que os que reaIizam grandes obras e os
lomens de sucesso são invejosos), pois crôem que lodos que-
rem lirar-Iles o que é seu. Também os lonrados por quaIquer
razão especiaI, e principaImenle peIa sua sabedoria ou feIici-
dade. Também os ambiciosos são mais invejosos do que os que
não lôm ambições. O mesmo se diga dos que se aclam sábios,
já que ambicionam lonras que correspondem à sabedoria. L, em
geraI, os que buscam gIória num delerminado campo são mais
invejosos nesse campo. Também são invejosos os espírilos mes-
quinlos, porque ludo Iles parece grande.
Acabámos de referir os bens que são aIvo de inveja. Os
aclos ou bens que refIeclem o desejo profundo de gIória e a
ambição de lonrarias e aqueIes que excilam a fama, e os que
são dons da forluna, quase ludo isso dá origem à inveja, mas
sobreludo aqueIes bens que aguçam a inveja de cada um em
parlicuIar, pensando que é preciso lô-Ios ou cuja posse assegu-
raria um pouco de superioridade ou daria uma Ieve inferiori-
dade. Ior oulro Iado, lambém fica cIaramenle exposlo quais as
pessoas de quem se lem inveja, pois coincide com o que disse-
mos anleriormenle. Invejamos as pessoas que nos são clega-
das no lempo, Iugar, idade e repulação, donde o provérbio
48
:
c jcmi|icr icm|cm sc|c in.cjcr,
e aqueIes com quem rivaIizamos em lonras, já que rivaIiza-
mos com os mesmos que acabámos de referir, nunca com os
1388a
48
Alribuído a um comenlador de LsquiIo, fr. 3O5 Nauck.
191
que viveram lá dez miI anos ou lão-de nascer, ou que já mor-
reram, nem com aqueIes que labilam nos confins das CoIu-
nas de HércuIes
49
. Lm reIação àqueIes que juIgamos, quer na
nossa opinião, quer na dos oulros, serem muilo inferiores a
nós ou enlão muilo superiores, dá-se o mesmo processo, lan-
lo no que se refere às pessoas como no que concerne aos
objeclos. Ora, como rivaIizamos com os nossos anlagonislas
em compelições desporlivas e amorosas e, em geraI, com
quanlos aspiram às mesmas coisas que nós, necessariamenle
é a esles que nós invejamos acima de ludo, razão peIa quaI
disse o poela:
c|circ ccnirc c|circ
5O
Também invejamos aqueIes cujas posses ou prosperida-
de consliluem para nós molivo de desonra (são os que vivem
próximos de nós e são nossos pares), pois é evidenle que não
conseguimos obler os bens que eIes lôm: ora, esle ressenlimen-
lo causa-nos inveja. O mesmo sucede com os que lôm ou cle-
garam a adquirir ludo quanlo nos caberia ler lido ou aIguma
vez livemos: é por isso que os veIlos lôm inveja dos jovens, e
os que esbanjaram muilo em pouca coisa, dos que adquiri-
ram muilo por pouco. Também os que a cuslo conseguiram
aIguma coisa, ou nem a conseguiram, invejam os que ludo
conseguiram rapidamenle. Iica lambém cIaro com que moli-
vos, a propósilo de quem e em que disposições senlem aIe-
gria as pessoas propensas à inveja, é que a disposição que
acompanla o senlimenlo de pena é lambém aqueIa que faz
senlir prazer em siluações conlrárias. De maneira que, se os
oradores são capazes de provocar laI disposição nos ouvin-
les, e se os que prelendem ser dignos de suscilar piedade ou
de obler aIgum bem são represenlados como os invejosos que
acabámos de referir, é óbvio que não oblerão compaixão dos
que lôm auloridade.
49
Modo como os anligos designavam o fim do mundo conlecido,
lradicionaImenle siluado no eslreilo de GibraIlar.
5O
Cf. suprc, n. 25.
192
11
A EMULAÇÃO
Lm que condições se senle emuIação, que coisas a provo-
cam e reIalivamenle a que pessoas, é o que vamos escIarecer a
seguir. Se a emuIação consisle num cerlo maI-eslar ocasionado
peIa presença manifesla de bens lonoríficos e que se podem
obler em dispula com quem é nosso iguaI por nalureza, não
porque lais bens perlençam a oulrem, mas porque lambém não
nos perlencem (razão peIa quaI a emuIação é uma coisa boa e
própria de pessoas de bem, ao passo que a inveja é desprezí-
veI e própria de genle viI, assim, enquanlo uns, alravés da
emuIação, se preparam para conseguir esses bens, oulros, peIo
conlrário, alravés da inveja, impedem que o vizinlo os consi-
ga), é forçoso admilir, enlão, que émuIos são aqueIes que se
juIgam dignos de bens que não lôm mas que Iles seria possí-
veI vir a obler, uma vez que ninguém ambiciona aquiIo que
Ile é manifeslamenle impossíveI. (L por isso que os jovens e
os magnânimos são Ievados à emuIação.)
São iguaImenle émuIos os que possuem bens dignos de
lomens lonrados. Tais são a riqueza, a abundância de amigos,
os cargos pubIicos e oulras coisas semeIlanles. Ora, como é pró-
prio desles serem loneslos e como a posse de lais bens convém
aos que eslão incIinados ao bem, lais bens são para eIes molivo
de emuIação. L aqueIes a quem os oulros consideram dignos de
lais bens, assim como anlepassados, parenles, famiIiares, nação
ou cidade que são dislinguidos com lonrarias, esses experimen-
lam faciImenle emuIação por eslas coisas, porque pensam que
Iles perlencem e «são» dignos deIas. Ora, se os bens lonoríficos
provocam emuIação, necessariamenle lambém as virludes seme-
Ilanles a provocarão e ludo quanlo é uliI e benéfico aos oulros
(porque as pessoas lôm em consideração os benfeilores e as pes-
soas de bem). L o mesmo aconlece com lodas as coisas boas que
podemos usufruir com os que eslão próximos de nós, por exem-
pIo a riqueza e a beIeza, mais alé do que a saude.
Lslá lambém escIarecido quais as pessoas que suscilam
emuIação: as que adquiriram os bens aponlados e oulros se-
meIlanles, ou seja, os que enumerámos acima: coragem, sabe-
doria, Iiderança. Os que exercem auloridade podem beneficiar
muila genle: eslralegos, oradores, e lodos os que possuem po-
deres idônlicos. Também aqueIes a quem muilos desejam igua-
1388b
193
Iar-se, ou de quem muilos querem ser conlecidos ou amigos,
ou que muilos admiram ou nós próprios admiramos. L ainda
aqueIes a quem se lecem eIogios ou encómios, seja peIos poe-
las, seja peIos Iogógrafos
51
. Mas menosprezam-se as pessoas
por molivos conlrários, pois o desprezo
52
é o inverso da emu-
Iação, assim como o faclo de senlir emuIação é o conlrário de
desprezar. Segue-se, necessariamenle, que, aqueIes que eslão
disposlos à emuIação ou a ser emuIados, se sinlam incIinados
a desprezar aqueIes que possuem defeilos conlrários às coisas
que concilam a emuIação. Ior isso, muilas vezes se desprezam
os que são bafejados peIa sorle, quando esla Iles clega sem
ser acompanlada dos lais bens apreciados.
Iara concIuir, já vimos como nascem e se dissoIvem as
paixões e donde se liram as provas reIacionadas com eIas.
12
O CARÁCTER DO JOVEM
Depois do que dissemos, vamos lralar dos lipos de carác-
ler, segundo as paixões, os lábilos, as idades e a forluna. Ior
paixões
53
enlendo a ira, o desejo e oulras emoções da mesma
nalureza de que faIámos anleriormenle
54
, assim como lábilos,
virludes e vícios. Sobre islo lambém já faIámos anles
55
, e que
lipo de coisas cada pessoa prefere e quais as que pralica. As
idades são: juvenlude, maluridade
56
e veIlice. Ior forluna en- 1389a
51
Iil. «prosador». Irimilivamenle, o Iogógrafo era, segundo Heró-
dolo, um bom conlador de lislórias em verso. Tucídides lrala-os como
«cronislas», islo é, mais preocupados em deIeilar os ouvidos do que em
conlar a verdade. Nem sempre foram bem considerados na época cIássi-
ca e o lermo assumiu mesmo vaIores pejoralivos. Com efeilo, os
Iogógrafos eram profissionais que, a lroco de dinleiro, escreviam discur-
sos judicais ou epidíclicos ou de oulra nalureza, que oulros Ieriam. AI-
guns grandes oradores começaram por ser Iogógrafos, e dessa forma fize-
ram forlunas, como Iísias.
52
Sobre o desprezo (|cicp|rcncsis), cf. II 2.
53
H60p, «paixões» ou «emoções».
54
Cf. II 2-11.
55
Cf. I 9-1O.
56
Iil. «idade aduIla».
194
lendo origem nobre, riqueza, poder, e seus conlrários e, em
geraI, boa e má sorle.
Lm lermos de carácler, os jovens são propensos aos dese-
jos passionais e incIinados a fazer o que desejam. L de enlre
esles desejos lá os corporais, sobreludo os que perseguem o
amor e face aos quais os jovens são incapazes de dominar-se,
mas lambém são voIuveis e rapidamenle se farlam dos seus de-
sejos, lão depressa desejam como deixam de desejar (porque
os seus capriclos são vioIenlos, mas não são grandes, como a
sede e a fome nos doenles). Também são impuIsivos, irriladiços
e deixam-se arraslar peIa ira. Deixam-se dominar peIa fogosi-
dade, por causa da sua lonra não suporlam que os desprezem
e ficam indignados se aclam que são lralados injuslamenle.
Goslam de lonrarias, mas acima de ludo das vilórias (alé por-
que o jovem deseja ser superior e a vilória conslilui uma cerla
superioridade). Lslas duas caracleríslicas são neIes mais forles
do que o amor ao dinleiro (goslam pouco de dinleiro porque
não lôm ainda experiôncia da necessidade, como diz o apo-
legma de Iílaco em resposla a Anfiarau
57
). Não lôm mau, mas
bom carácler, porque ainda não viram muilas maIdades. São
confianles, porque ainda não foram muilas vezes enganados.
Também são oplimislas, porque, laI como os bôbedos, lambém
os jovens senlem o caIor, por efeilo naluraI, e porque ainda não
sofreram muilas decepções. A maior parle dos jovens vive da
esperança, porque a esperança concerne ao fuluro, ao passo
que a Iembrança diz respeilo ao passado, para a juvenlude, o
fuluro é Iongo e o passado curlo, na verdade, no começo da
vida nada lá para recordar, ludo lá a esperar. IeIo que acabá-
mos de dizer, os jovens são fáceis de enganar (é que faciImen-
le esperam), e são mais corajosos |do que noulras idadesj pois
são impuIsivos e oplimislas: a primeira deslas quaIidades fá-
-Ios ignorar o medo, a segunda inspira-Iles confiança, porque
nada se leme quando se eslá zangado, e o faclo de se esperar
57
Lsle apolegma é desconlecido e revesle uma alribuição duvido-
sa. De reslo, a preposição cis lanlo pode significar «dedicado a»

Anfiarau,
como «conlra». Iílaco, lirano de MiliIene (598-588 a. C.), era um dos sele
sábios, aulor prováveI de muilas senlenças e máximas alribuídas ao gru-
po dos sele sábios. Anfiarau é o famoso adivinlo que parlicipou na Ien-
dária expedição dos Argonaulas e na guerra dos Sele conlra Tebas, cujo
desaslre profelizou.
195
aIgo de bom é razão para se ler confiança. Também são enver-
gonlados (não concebem ainda que laja oulras coisas beIas,
pois só foram educados segundo as convenções). Também são
magnânimos porque ainda não foram feridos peIa vida e são
inexperienles na necessidade, aIém disso, a magnanimidade é
caracleríslica de quem se considera digno de grandezas, e islo
é próprio de quem lem esperança.
Quanlo à maneira de acluar, preferem o beIo ao conve-
nienle, vivem mais segundo o carácler do que segundo o cáI-
cuIo, pois o cáIcuIo reIaciona-se com o convenienle, a virlude
com o beIo. Mais do que noulras idades, amam os seus amigos
e companleiros, porque goslam de conviver com os oulros e
nada juIgam ainda segundo as suas conveniôncias, e, porlanlo,
os seus amigos lambém não. Lm ludo pecam por excesso e
vioIôncia, conlrariamenle à máxima de QuíIon
58
: ludo fazem
em excesso, amam em excesso, odeiam em excesso e em ludo
o reslo são excessivos, aclam que sabem ludo e são obslina-
dos (islo é a causa do seu excesso em ludo). Comelem injusli-
ças por insoIôncia, não por maIdade. São compassivos, porque
supõem que lodos os seres lumanos são virluosos e meIlores
do que reaImenle são (pois medem os vizinlos peIa biloIa da
sua própria inocôncia, de laI sorle que imaginam que esles
sofrem coisas imerecidas). Goslam de rir, e por isso lambém
goslam de gracejar, com efeilo, o gracejo é uma espécie de in-
soIôncia bem-educada.
13
O CARÁCTER DO IDOSO
TaI é, pois, o carácler dos jovens. Os idosos, peIo conlrá-
rio, e os que já passaram a fIor da idade, possuem caracleres
que, na sua maior parle, são pouco mais ou menos os oposlos
daqueIes. O faclo de lerem vivido muilos anos, de lerem sido
enganados e comelido faIlas em diversas ocasiões, e ainda por-
que, por via de regra, aquiIo que fazem é insignificanle, em
ludo avançam com cauleIa e em ludo dizem menos do que
1389b
58
Sábio esparlano a quem se alribui a máxima µpórv 6yev «nada
em demasia» que, segundo a lradição, figurava no sanluário de DeIfos.
196
convém. Tôm as suas opiniões, mas nada sabem ao cerlo, e, na
duvida, acrescenlam sempre «laIvez» e «é possíveI» e ludo
dizem assim, mas nada afirmam de calegórico. Também lôm
mau carácler, pois ler mau carácler consisle em supor sempre
o pior em ludo. AIém disso, são suspicazes devido à sua
desconfiança, e desconfiados devido à sua experiôncia. Ior isso,
nem amam nem odeiam com vioIôncia, mas, segundo o preceilo
de Bias
59
, amam como se um dia pudessem vir a odiar e odeiam
como se pudessem vir a amar. L são de espírilo mesquinlo por
lerem sido maIlralados peIa vida, por isso, não aspiram a nada
de grande, nem de exlraordinário, só ao que é indispensáveI à
vida. Também são mesquinlos, porque os bens são indispensá-
veis à vida, mas, ao mesmo lempo, sabem por experiôncia como
é difíciI adquiri-Ios e fáciI perdô-Ios. São cobardes e propensos a
recear ludo, pois as suas disposições são conlrárias às dos jo-
vens. São frios, ao passo que os jovens são ardenles, de modo
que a veIlice abre o caminlo à limidez, lendo em conla que o
medo é uma espécie de resfriado. Amam a vida, sobreludo nos
seus uIlimos dias, porque o desejo busca o que Iles faIla e o que
faz faIla é juslamenle o que mais se deseja. São mais egoíslas do
que o necessário, o que represenla lambém uma cerla pequenez
de espírilo. Vivem mais virados para o uliI do que para o beIo,
razão peIa quaI são egoíslas, é que o uliI é um bem só para nós
mesmos, ao passo que o beIo é um bem absoIulo. Os veIlos são
mais impudicos do que pudicos, e porque não lôm na mesma
consideração o beIo e o convenienle
6O
, não fazem grande caso
da opinião pubIica. São pessimislas, em razão da sua experiôn-
cia (já que a maior parle das coisas que aconlecem são más:
com efeilo, a maior parle das vezes as coisas lendem para pior),
mas lambém devido à sua cobardia. Vivem de recordações
mais do que de esperanças, pois o que Iles resla da vida é
curlo em comparação com o passado, ora, a esperança reside
no fuluro e a recordação assenla no passado. Lsla é lambém
uma das razões peIas quais são lão faIadores, já que passam a
vida a faIar de coisas passadas e senlem prazer em recordar.
139Oa
59
Bias de Iriene foi um dos sele sábios da anliga Grécia (sécuIo VI
a. C., cf. Heródolo, I, 27). O preceilo de Bias lornou-se proverbiaI na Iile-
ralura anliga (cf. SófocIes, Ajcx, 678, Lurípides, Hippc|µius, 253, Cícero, Dc
cmiciiic, 16.59).
6O
1è ouµçrpcv, que lraduzimos por «uliI» ou «convenienle».
19¯
Os acessos de cóIera são agudos, mas frágeis, e, quanlo
aos seus desejos, uns já os abandonaram, oulros são fracos, por
conseguinle, nem são propensos aos desejos, nem procuram
salisfazô-Ios, mas agem segundo o seu inleresse. Lsla é a razão
peIa quaI os que alingem a veIlice parecem moderados: é que
os seus desejos afrouxaram e são escravos do seu proveilo. Vi-
vem mais segundo princípios caIcuIislas do que segundo o
carácler: o caIcuIismo depende das conveniôncias, ao passo que
o carácler depende da virlude. Se comelem injusliças é por ma-
Iícia, não por insoIôncia. Os idosos lambém são compassivos,
mas não peIas mesmas razões que os jovens: esles são compas-
sivos por lumanidade, aqueIes por fraqueza, com efeilo, em
ludo vôem um maI que os ameaça, faclo que, como vimos, os
incIina à compaixão
61
. Ior isso, andam sempre a queixar-se,
não goslam de brincadeiras, nem de rir: é que goslar de se Ia-
menlar é o conlrário de goslar de rir.
Tais são, pois, os caracleres dos jovens e dos veIlos. Ior
conseguinle, como lodos aceilamos favoraveImenle discursos
que são conformes ao carácler de cada um e dos que nos são
semeIlanles, não é difíciI descorlinar como é que as pessoas se
podem servir desles discursos para, lanlo nós, como as nossas
paIavras, assumirem laI aparôncia.
14
O CARÁCTER DOS QUE ESTÃO NO AUGE DA VIDA
Os que alingiram o auge da vida lerão, evidenlemenle, um
carácler inlermédio enlre os que acabámos de esludar, pondo
de Iado os excessos de uns e de oulros: nem demasiado con-
fianles (o que é lemeridade), nem demasiado lemerosos, mas
manlendo a jusla medida em ambas as siluações, nem confian-
les em ludo, nem lolaImenle desconfiados, anles emilindo
juízos conforme a verdade, não vivendo só para o beIo nem
para o uliI, mas para ambas as coisas, não vivendo só para a
frugaIidade, nem para a prodigaIidade, mas para a jusla medi-
da. O mesmo se diga reIalivamenle ao arrebalamenlo
62
e ao
139Ob
61
Ver II 8.
62
Cuµe¸, com o senlido de «paixão».
198
desejo. Nos aduIlos, a lemperança vai acompanlada de cora-
gem e a coragem de lemperança. Nos jovens e nos idosos eslas
caracleríslicas eslão separadas: os jovens são vaIenles e Iicen-
ciosos, os idosos moderados e cobardes. IaIando em geraI, ludo
quanlo de uliI eslá reparlido enlre a juvenlude e a veIlice en-
conlra-se reunido no auge da vida, ludo quanlo naqueIa lá de
excesso ou de carôncia, esla possui-o na jusla medida. Quanlo
ao reslo, o corpo alinge o seu auge dos 3O aos 35 anos, e a aIma
por voIla dos 49
63
.
Sobre a juvenlude, a veIlice e a maluridade, e no que se
refere a cada um do seus caracleres, fiquemo-nos peIo que já
dissemos.
15
CARÁCTER E FORTUNA: O CARÁCTER DOS NOBRES
IaIemos a seguir dos bens que provôm da forluna, peIo
menos daqueIes que delerminam nos lomens um cerlo nu-
mero de caracleres. Carácler próprio da nobreza é lornar mais
ambicioso aqueIe que a possui. Todos os indivíduos, quando
possuem aIgum bem, lôm por coslume acrescenlar-Ile oulro,
ora, a nobreza é uma dignidade lransmilida peIos anlepassa-
dos. Também comporla uma cerla lendôncia para o desprezo,
mesmo em reIação àqueIes que são semeIlanles aos seus anle-
passados, porque a dislância lorna as mesmas coisas mais ve-
neráveis do que a proximidade, e presla-se mais à gabaroIice.
Ior nc|rc enlendo aqueIe cujas virludes são inerenles a uma
eslirpe, por !c nc|rc carácler enlendo aqueIe que não perde
as suas quaIidades nalurais. Ora, a maior parle das vezes, não
é isso que aconlece com os nobres, peIo conlrário, muilos
63
A busca de dados cronoIógicos para eslabeIecer a noção de ma-
luridade ou de auge da vida (ekµq) é frequenle na Iileralura grega. IIalão
supõe que a ekµq física se alinge enlre os 2O e os 3O anos, respeclivamen-
le para a muIler e para o lomem (Rcpu||icc V 46Oe) e fixa a maluridade
inleIecluaI nos 5O anos (Rcpu||icc VII 54Oa). Recorde-se que ArislóleIes lerá
escrilo esle capíluIo da Rcicricc por voIla dos 49 anos, vislo que ensinou
relórica em Alenas por voIla dos 3O e regressou para fundar a sua pró-
pria escoIa aos 49 anos.
199
deIes são de viI carácler. Nas gerações lumanas lá uma es-
pécie de coIleila, laI como nos produlos da lerra e, aIgumas
vezes, se a Iinlagem é boa, nascem duranle aIgum lempo
lomens exlraordinários, depois vem a decadôncia. As famí-
Iias de boa eslirpe degeneram em caracleres lresIoucados,
como os descendenles de AIcibíades e de Dionísio, o Anligo,
as que são doladas de um carácler firme degeneram em eslu-
pidez e indoIôncia, como os descendenles de Címon, de
IéricIes e de Sócrales
64
.
16
O CARÁCTER DOS RICOS
Os caracleres que decorrem da riqueza eslão à visla de
lodos. Os que os possuem são soberbos e orguIlosos, porque
de cerla maneira eslão afeclados peIa posse das riquezas (es-
lão na mesma disposição daqueIes que possuem lodos os bens,
a riqueza, com efeilo, funciona como uma medida de vaIor das
oulras coisas, porque ludo parece poder comprar-se com di-
nleiro). São lambém efeminados
65
e peluIanles: efeminados,
porque vivem no Iuxo e fazem oslenlação da sua feIicidade,
peluIanles e alé grosseiros, porque eslão labiluados a que loda
genle se ocupe dos seus desejos e os admire, e lambém porque
crôem que os oulros desejam o que eIes lôm. De reslo, é muilo
naluraI que lenlam esles senlimenlos, uma vez que são mui-
los os que precisam do que eIes lôm. Assim se expIica o dilo
de Simónides acerca dos sábios e dos ricos, quando a muIler
de Hierão Ile pergunlava se era preferíveI ser rico ou sábio:
1391a
64
O fiIlo de AIcibíades ÷ AIcibíades, o Moço ÷, ocupa um Iugar
lrislemenle céIebre na crónica escandaIosa de Alenas. Iísias (Ccnirc
A|ci|., 14 e 15) acusa-o de desobediôncia e lraição. Quanlo ao carácler
vioIenlo e desregrado de Dionísio II, o Anligo, já é bem conlecido do
próprio IIalão e de IIularco (1imc|., 13). ResponsáveI por sucessivos
fracassos do seu governo, só o seu deslerro definilivo para Corinlo em
344 a. C., onde consla que passou o reslo da vida a ensinar numa esco-
Ia, lrouxe paz a Siracusa. Sobre os fiIlos de Címon e de Sócrales nada
sabemos ao cerlo.
65
MeIlor dizendo, «voIupluosos» (tpuçrpcI).
200
«ser rico», respondeu eIe, «pois vejo sempre os sábios passa-
rem o lempo à porla dos ricos»
66
. Também se aclam dignos
de governar, porque juIgam possuir ludo aquiIo por que vaIe
a pena governar. Lm suma, o carácler de um rico é o de um
Iouco aforlunado.
Os caracleres dos novos-ricos diferem dos anligos no
seguinle: os novos-ricos, aIém de lerem lodos os vícios dos
oulros, ainda os lôm em maior grau e com maiores defeilos
(é que no novo-rico lá como que uma ausôncia de educação
no locanle à riqueza). Os ricos, quando comelem injusliças,
não o fazem por maIdade, umas fazem-nas por insoIôncia,
oulras por inlemperança, como, por exempIo, injurias pes-
soais e aduIlério.
17
O CARÁCTER DOS PODEROSOS
De maneira semeIlanle aconlece com os que se reIacionam
com o poder, cujos lraços de carácler são quase evidenles na sua
maioria. O poder lem, em parle, as mesmas caracleríslicas da ri-
queza, sendo aIgumas alé meIlores. Os poderosos são, por lem-
peramenlo, mais ambiciosos e mais viris que os ricos, porque
ambicionam reaIizar aclos que podem cumprir, graças ao poder
de que dispõem. Também são mais diIigenles, porque lôm mais
responsabiIidades, sendo obrigados a veIar por ludo o que diz
respeilo ao seu poder. São baslanle mais dignos do que gra-
ves, porque a sua dignidade Iles confere mais respeilo, assim,
os seus aclos são moderados, uma vez que a dignidade é uma
gravidade poIida e dislinla. Se comelem injusliças, não são pes-
soas para pequenas injusliças, mas para grandes.
66
Simónides de Ceos passou os uIlimos anos da sua vida (468-
-467 a. C.) em Siracusa e aIi fez parle do grupo de arlislas e poelas pro-
legidos peIa corle do lirano Hierão I, cuja aduIação por parle do poela
lerá sido molivo de muilas anedolas. Lsle dilo é lambém Iegado por
Diógenes Iaércio que alribui a resposla ao fiIósofo Arislipo nesle ler-
mos: «Os fiIósofos sabem do que precisam, os ricos não» (Diog. Iaerc.,
1.8 (Arisiip., 69).
201
A boa sorle
67
, nas suas diferenles formas, lambém possui
os caracleres que acabámos de descrever (com efeilo, é para a
riqueza e o poder que lendem maiorilariamenle os efeilos da
sorle). AIém disso, a boa sorle proporciona muilas vanlagens
em reIação a uma feIiz descendôncia e a bens físicos. Iorlanlo,
se por um Iado as pessoas são mais arroganles e irrefIeclidas
por causa da boa sorle, por oulro um carácler exceIenle vai de
par com a boa sorle, nomeadamenle, o ser piedoso em reIação
aos deuses, o ler uma reIação especiaI de confiança face ao divi-
no, e ludo isso juslamenle como consequôncia feIiz da forluna.
Com islo, já dissemos o suficienle sobre os caracleres reIa-
cionados com a idade e a forluna. Os caracleres oposlos aos
que acabámos de referir lornam-se cIaros peIo esludo dos seus
conlrários: por exempIo, o carácler do pobre, do desaforluna-
do e do sem poder.
18
ESTRUTURA LÓGICA DO RACIOCÍNIO RETÓRICO:
FUNÇÃO DOS TÓPICOS COMUNS
A TODAS AS ESPÉCIES DE RETÓRICA
Ima vez que o uso dos discursos persuasivos lem por ob-
jeclo formuIar um juízo (pois acerca daquiIo que sabemos e le-
mos juízo formado já não são precisos mais discursos), usamos
o discurso nos casos seguinles: quando nos dirigimos a uma
só pessoa para a aconseIlar ou dissuadir, como, por exempIo,
o fazem aqueIes que lralam de repreender ou de persuadir
(pois peIo faclo de um ouvinle ser unico, não significa que seja
menos juiz, vislo que aqueIe a quem se deve persuadir é, em
lermos absoIulos, juiz), quando se faIa conlra um adversário,
ou conlra uma lese proposla (já que forçosamenle é preciso
usar o discurso para refular os argumenlos conlrários, conlra
os quais se faz o discurso, como se se lralasse da parle adver-
1391b
67
Lutu¿Ie: lradução IileraI de um conceilo poIiédrico e cenlraI na
cuIlura grega, como é o de feIicidade, forluna e venlura, por oposição à
má sorle, inforlunio ou desvenlura (óuotu¿Ie) de que se faIou anlerior-
menle em diversas circunslâncias.
202
sa), o mesmo aconlece nos discursos epidíclicos (nesle caso, o
discurso dirige-se ao especlador como se fosse dirigido a um
juiz, embora, em geraI, só seja absoIulamenle juiz aqueIe que,
nos debales poIílicos, juIga as queslões submelidas a exame,
são eslas, no fundo, as queslões conlroversas e sujeilas a deIi-
beração e para as quais se procura soIução). Como já faIámos
anleriormenle
68
dos caracleres correspondenles às diversas
consliluições, ao lralarmos do género deIiberalivo, podemos
dar por definido como e por que meios lá que dar aos discur-
sos forma de expressarem os caracleres.
Como para cada género de discurso lavia um fim dife-
renle, e como sobre lodos eIes já foram definidas as opiniões
e as premissas de onde se oblôm as provas, lanlo para o gé-
nero deIiberalivo, como para o epidíclico e o judiciaI
69
, e
como, aIém disso, eslabeIecemos os meios que permilem dar
aos discursos o carácler élico, resla-nos agora lralar dos Iu-
gares-comuns.
Todos os oradores devem, necessariamenle, servir-se, nos
seus discursos, do possíveI e do impossíveI
7O
e lenlar demons-
lrar, para uns
71,
como serão as coisas, para oulros
72
, como fo-
ram. AIém disso, lá um lópico comum a lodos os discursos:
o que diz respeilo à grandeza, dado que lodos os oradores fa-
zem uso da diminuição e da ampIificação, quando deIiberam,
eIogiam ou censuram e quando acusam ou defendem. Quanlo
ao reslo, uma vez definido islo, procuremos faIar dos enlime-
mas em lermos gerais, lanlo quanlo é possíveI, e dos para-
digmas, a fim de que, coImalando o que faIla, possamos com-
pIelar o programa iniciaI. Conludo, enlre os Iugares-comuns, a
ampIificação é o mais apropriado ao género epidíclico, como
já dissemos
73
,

o passado, ao género judiciário (porque o aclo
de juIgar recai sobre aconlecimenlos passados), o possíveI e o
fuluro, ao género deIiberalivo.
1392a
68
Cf. I 8.
69
'Aµçtoþptcuvtr¸, meIlor diríamos «discurso judiciaI», ou «conlro-
vérsia judiciaI».
7O
Auvetev e eóuvetcv.
71
Discursos deIiberalivos.
72
Discursos judiciais.
73
Cf. I 9.
203
19
FUNÇÃO DOS TÓPICOS COMUNS
A TODAS AS ESPÉCIES DE RETÓRICA
IaIemos em primeiro Iugar do possíveI e do impossíveI.
Se foi possíveI um conlrário exislir ou ler exislido, lambém o
oulro conlrário lá-de parecer possíveI. Ior exempIo, se um
lomem pode gozar de boa saude, lambém é possíveI que adoe-
ça, já que a polôncia dos conlrários, enquanlo conlrários, é a
mesma. Se, de duas coisas semeIlanles, uma é possíveI, a ou-
lra lambém é possíveI. L se o que é mais difíciI é possíveI, o
mais fáciI lambém é possíveI. Se é possíveI que uma coisa seja
virluosa e beIa, lambém é possíveI que seja ou exisla simpIes-
menle. L mais difíciI uma casa ser beIa do que ser apenas uma
casa. L se uma coisa pode ler princípio, lambém pode ler fim,
porque nada aconlece, nada começa a parlir de impossíveis,
por exempIo, a diagonaI de um quadrado não poderia come-
çar a exislir, nem exislir. Se uma coisa pode ler um fim, o co-
meço lambém é possíveI, porque lodas as coisas parlem de um
princípio. Se é possíveI que, peIa sua essôncia ou peIa sua gé-
nese, exisla o poslerior, lambém é possíveI que exisla o anle-
rior: por exempIo, se é possíveI que exisla um lomem, enlão
lambém uma criança (porque somos crianças anles de sermos
lomens), e se é possíveI exislir uma criança, enlão lambém um
lomem (porque a infância é um começo). Iossíveis são lam-
bém aqueIas coisas que, por nalureza, suscilam o amor ou o
desejo, porque, a maior parle das vezes, ninguém ama nem
deseja o impossíveI. L o que é objeclo das ciôncias e das arles
lambém pode exislir ou exisle. Também são possíveis as coisas
cujo princípio de reaIização eslá em cerlas pessoas sobre as
quais poderíamos exercer coacção ou persuasão, é o que acon-
lece com as pessoas de quem somos superiores, ou senlores
ou amigos. Se as parles de uma coisa são possíveis, o lodo lam-
bém o é, e se o lodo é possíveI, por via de regra, as parles lam-
bém o são. Ora, se o corle dianleiro, o cano e a gáspea podem
exislir, enlão lambém podem exislir sandáIias
74
, ora, se as san-
74
Os lermos aqui uliIizados correspondem aproximadamenle às
parles do caIçado, ou meIlor, das sandáIias (uacóqµete), uma vez que não
sabemos o significado preciso dos lermos (apeo¿toµe, krçeìI¸, ¿ttæv), por
204
dáIias são possíveis, lambém o corle dianleiro, o cano e a gás-
pea. Se o género inleiro exisle denlre as coisas possíveis, lam-
bém a espécie, e se a espécie, lambém o género, por exempIo,
se é possíveI conslruir um navio, lambém é possíveI conslruir
uma lrirreme, e se uma lrirreme, lambém um navio. Se, enlre
duas coisas recíprocas por nalureza, uma deIas é possíveI, a
oulra lambém: por exempIo, se o dobro é possíveI, a melade
lambém, e se a melade é possíveI, iguaImenle o dobro. Da
mesma maneira, se uma coisa pode ser feila sem arle e sem
preparação, mais possíveI ainda o será com arle e preparação.
Donde as paIavras de Ágalon:
Nc .cr!c!c !c.cmcs jczcr c|gumcs cciscs ccm cric,
cuircs cccnicccm pcr ncccssi!c!c c jcriunc.
75
Se uma coisa é possíveI a pessoas inferiores, menos do-
ladas e mais insensalas, enlão sô-Io-á mais ainda aos seus
conlrários, como disse Isócrales: «se Lulino veio a sabô-Io, es-
lranlo seria que eu não o pudesse descobrir»
76
. Quanlo ao im-
possíveI, é evidenle que eIe resuIla dos princípios conlrários aos
que acabámos de enunciar.
Se uma coisa aconleceu, eIa deve ser examinada com base
no que se segue. Lm primeiro Iugar, se aconleceu o que é
menos por nalureza, poderia lambém aconlecer o que é mais.
Se o que é labiluaImenle poslerior se produziu, lambém o
anlerior, por exempIo, se aIguém se esqueceu de uma coisa, é
porque aIguma vez a aprendeu. Se se podia e queria fazer uma
coisa, enlão fez-se, porque os lomens, quando lôm o poder e a
vonlade de fazer uma coisa, fazem-na, desde que não laja nada
que os impeça. L ainda, se aIguém queria fazer uma coisa e
nenlum agenle exlerior o impedia, se podia e eslava irado, e
1392b
oulro Iado, e apesar de o exempIo ser relirado dos ofícios mais comuns
(como já era lradicionaI na escoIa socrálica, cf. Gcrgics, 49Od-491a), não se
sabe a que parle ou a que lipo de sandáIias ou sapalos se refere Arisló-
leIes.
75
Ágalon foi um poela lrágico do sécuIo V, conlemporâneo de Lu-
rípides e Iigado ao círcuIo de Sócrales. L na casa de Ágalon que IIalão
silua o seu 8cn¡ucic.
76
A frase parece muliIada e não dispomos de oulros leslemunlos
que possam idenlificar com cIareza a sua alribuição.
205
se podia e queria. A maior parle das vezes, no enlanlo, os in-
divíduos, quando podem, fazem o que Iles apelece, os frívoIos
por inlemperança, as pessoas de bem porque desejam o que é
loneslo, se uma coisa eslivesse para ser execulada e aIguém
livesse a inlenção de a fazer, é prováveI que quem eslá dispos-
lo a fazô-Ia lambém a lenla feilo. Da mesma maneira, se acon-
leceu uma coisa que é, por nalureza, subsequenle ou resuIlan-
le deIa, enlão o anlecedenle e a causa lambém aconleceram, por
exempIo, se louve lrovões, louve reIâmpagos, e se uma pes-
soa quis seduzir oulra pessoa, concIuímos que a seduziu. De
lodas eslas coisas, umas aconlecem por necessidade, oulras são
assim a maior parle das vezes. Quanlo a demonslrar que aIgo
não lem exislôncia, é evidenle que só podemos inferi-Io a par-
lir dos conlrários mencionados.
Sobre o que vai aconlecer no fuluro, isso subenlende-se
cIaramenle dos mesmos argumenlos. Com efeilo, o que exisle
em polôncia ou em vonlade será, como será o que exisle no
nosso desejo, na nossa ira e no nosso cáIcuIo, conforme a capa-
cidade que se lem para agir, e eslas coisas aconlecerão quando
louver impuIso para acluar ou inlenção de se fazerem, ora, na
maior parle das vezes, aconlece mais o que eslá na eminôncia
de aconlecer do que o que não eslá. Se se produziu o que, por
nalureza, é anlerior: por exempIo, se o céu eslá coberlo de
nuvens, é prováveI que clova. Se aconleceu uma coisa por
causa de oulra, é prováveI que laI coisa venla a aconlecer: por
exempIo, se lá aIicerces, lambém lá casa.
Sobre a grandeza e a pequenez dos faclos, o maior e o
menor e, em geraI, o grande e o pequeno, subenlende-se como
é óbvio das considerações precedenles. Assim, lralámos, a pro-
pósilo do género deIiberalivo, da grandeza dos bens e, em ler-
mos gerais, do bem maior e do bem menor. Ora, como cada
um dos lrôs géneros de discurso se propõe um cerlo bem como
fim, por exempIo, o convenienle, o beIo e o juslo, é óbvio que
é por inlermédio desles que lodos os oradores devem reaIizar
as suas ampIificações. AIém disso, buscar fora desles argumen-
los a grandeza e a superioridade absoIulas é o mesmo que fa-
Iar em vão, porque, em reIação ao uliI, os faclos parlicuIares
são mais imporlanles que os universais.
Assim, sobre o possíveI e o impossíveI, o que ocorreu ou
não ocorreu anles e sobre se ocorrerá ou não, assim como so-
bre a grandeza e a pequenez dos faclos, que seja suficienle o
que dissemos.
1393a
206
20
ARGUMENTO PELO EXEMPLO
Resla-nos faIar das provas comuns a lodos os géneros,
uma vez que já nos referimos às próprias. Lslas provas comuns
são de dois géneros: o exempIo e o enlimema, pois a máxima
é uma parle do enlimema. Assim sendo, faIaremos em primei-
ro Iugar do exempIo que é semeIlanle à indução, e a indução
é um princípio.
Há duas espécies de exempIo: uma consisle em faIar de
faclos anleriores, a oulra em invenlá-Ios o próprio orador. Nes-
la uIlima, lá que dislinguir a paráboIa e as fábuIas, por exem-
pIo, as esópicas e as Iíbicas
77
.
IaIar de faclos passados consisliria, por exempIo, em aI-
guém dizer que era preciso fazer preparalivos conlra o rei da
Iérsia não permilindo que dominasse o Lgiplo
78
, porque já an-
leriormenle Dario evilara alravessar a Grécia sem anles ler lo-
mado o Lgiplo, e que, só depois de o ler lomado, é que passou
à Grécia, e que, por seu lurno, Xerxes lambém não alacou a
Grécia sem anles laver lomado o Lgiplo, e que, só depois de o
ler submelido, é que dirigiu à Grécia. Assim, se o rei lomar o
Lgiplo, passará à Grécia, por isso, não se deve consenlir que o
submela.
São paráboIas os dilos socrálicos, e consislem, por exempIo,
em uma pessoa dizer que os magislrados não devem ser lirados
à sorle, porque isso é como se aIguém escoIlesse alIelas por
sorleio, não os que são capazes de compelir, mas os que a sorle
designasse, ou ainda, como se, enlre os marinleiros, fosse sor-
leado aqueIe que deve piIolar o navio, como se, em vez daqueIe
que sabe, se devesse lomar o marinleiro que a sorle designou.
1393b
77
Segundo uma referôncia que remonla a Hermógenes (Prcgµmn.,
1) ou a uma lradição anlerior, nas fábuIas esópicas inlervinlam animais
racionais e irracionais, enquanlo nas Iíbicas só animais irracionais. Mas
na perspecliva do relórico Téon (Prcgµmncsic, 3) o que dislingue umas
das oulras é o faclo de as Iíbicas serem alribuídas a um Iíbio anónimo.
78
Os faclos prelensamenle «lislóricos» a que aIude esle argumenlo
Ievanlam probIemas cronoIógicos que não são lolaImenle cIaros. O rei em
causa parece ser Arlaxerxes III Oco que em 343 a. C. enviou uma embai-
xada à Grécia pedindo uma aIiança e reforços para uma expedição (faIla-
da) conlra o Lgiplo, que só viria a reconquislar em 343-341 a. C.
20¯
Im exempIo de fábuIa é a que refere Lslesícoro a respeilo
de IáIaris e a de Lsopo a favor de um demagogo. Tendo os ci-
dadãos de Hímera
79
escoIlido IáIaris como eslralego com pIe-
nos poderes, e eslando a ponlo de Ile alribuir uma escoIla pes-
soaI, Lslesícoro, enlre oulras considerações, conlou-Iles a fábuIa
seguinle: um cavaIo linla um prado só para si, mas clegou um
veado e eslragou-Ile o paslo, o cavaIo, querendo enlão vingar-
-se do veado, pergunlou a um lomem se o podia ajudar a punir
o veado. O lomem consenliu, com a condição de Ile pôr um
freio e o monlar armado com dardos. Ieilo o acordo, o lomem
monlou o cavaIo e esle, em vez de se vingar, lornou-se escravo
do lomem. «Assim lambém vós», disse eIe, «acauleIai-vos, não
vá aconlecer que, querendo vingar os vossos inimigos, venlais
a sofrer a sorle do cavaIo, já lendes o freio ao eIeger um eslralego
pIeno de poderes, se Ile dais uma guarda pessoaI e permilis que
vos monle, enlão sereis escravos de IáIaris.»
Lsopo
8O
, por sua vez, quando faIava pubIicamenle em
Samos, numa aIlura em que se juIgava a pena capilaI apIicada a
um demagogo, conlou-Iles como é que uma raposa, ao alraves-
sar um rio, foi arraslada para um precipício e, não podendo de
Iá sair, aguenlou duranle muilo lempo, aIém ser alormenlada
por numerosas carraças agarradas à peIe. Im ouriço que anda-
va por aIi, ao vô-Ia, aproximou-se compadecido e pergunlou-Ile
se queria que Ile lirasse as carraças, mas a raposa não Ilo per-
miliu. L como o ouriço Ile pergunlasse porquô, eIa respondeu:
«porque eslas já eslão farlas de mim e sugam-me pouco sangue,
se mas liras, oulras virão esfomeadas e sugar-me-ão o sangue
que me resla». «Também no vosso caso, lomens de Samos»,
disse Lsopo, «esle lomem não vos prejudicará mais (porque já é
rico), mas, se o malais, oulros virão, pobres, que vos lão-de rou-
bar e esbanjarão o que vos resla.»
As fábuIas são apropriadas às arengas pubIicas e lôm esla
vanlagem: é que sendo difíciI enconlrar faclos lislóricos seme-
Ilanles enlre si, ao invés, enconlrar fábuIas é fáciI. TaI como
para as paráboIas, para as imaginar, só é preciso que aIguém
seja capaz de ver as semeIlanças, o que é fáciI para quem é de
1394a
79
Cidade da SicíIia.
8O
Lsla fábuIa não faz parle das coIecções esópicas conlecidas, mas
é conlada por IIularco, An scnc gcrcn!c sii rcspu||icc, 79Oc, que a alribui a
Lsopo.
208
fiIosofia. Assim, é fáciI prover-se de argumenlos medianle fábu-
Ias, mas os argumenlos com base em faclos lislóricos são mais
uleis nas deIiberações pubIicas, porque, na maior parle dos ca-
sos, os aconlecimenlos fuluros são semeIlanles aos do passado.
Na faIla de enlimemas, convém usar exempIos como de-
monslração (a prova depende deIes), quando se lôm enlime-
mas, lá que usar exempIos como leslemunlos, lomando-os
como epíIogo dos enlimemas. Senão vejamos: quando os exem-
pIos são coIocados em primeiro Iugar, assemeIlam-se a uma
indução e, exceplo naIguns casos, a indução não é própria da
relórica, coIocados em epíIogo funcionam como leslemunlos e
o leslemunlo é sempre persuasivo. Ior isso, quem os coIoca
anles dos enlimemas deve forçosamenle recorrer a muilos, a
quem os uliIiza como epíIogo, basla um, porque um leslemu-
nlo loneslo, mesmo que seja unico, é uliI.
Com islo, lralámos das diversas espécies de exempIos,
como e quando convém servir-se deIes.
21
USO DE MÁXIMAS NA ARGUMENTAÇÃO
Acerca do uso das máximas, assim que livermos definido o
que é uma máxima, ficará bem cIaro sobre que malérias, quan-
do e dianle de quem se ajusla o seu emprego nos discursos.
A máxima é uma afirmação
81
geraI que não se apIica, cerlamen-
le, a aspeclos parlicuIares, como, por exempIo, não referir que
lipo de pessoa é Ifícrales, mas ao universaI, não a lodas as coi-
sas, como, por exempIo, quando se diz que a Iinla recla é o con-
lrário da curva, mas só às que envoIvem acções e que podem
ser escoIlidas ou rejeiladas em ordem a uma delerminada acção.
Daí que, sendo o enlimema um siIogismo sobre laI lipo de coi-
sas, resuIla que as concIusões e os princípios dos enlimemas,
pondo de Iado o siIogismo em si, são máximas. LxempIo:
Nuncc !c.c c |cmcm ¡uc pcr nciurczc c scnscic
cnsincr cs scus ji||cs c scr !cmcsic!c s4|ics.
82
81
'Aaeçeot¸.
82
Lurípides, Mc!cc, 294-5.
209
Islo é uma máxima. Mas se Ile junlarmos a causa e o
porquô, o lodo forma um enlimema. LxempIo:
Scm ccnicr ccm c prcguiçc ¡uc icm, cc||cm c in.cjc
|csii| !cs ci!c!4cs.
83
L islo:
N4c |4 |cmcm ¡uc scjc inicircmcnic jc|iz
85
.
L islo:
N4c |4 |cmcm ¡uc scjc |i.rc
85
são máximas, mas passam a enlimemas, se Iles acrescenlarmos:
Pcr¡uc c |cmcm c cscrc.c !c ri¡uczc cu !c jcriunc.
86
Se uma máxima consisle no que acabámos de dizer, lá
necessariamenle qualro espécies de máximas, umas vezes vão
com epíIogo, oulras sem eIe. Ior oulro Iado, necessilam de de-
monslração as máximas que exprimem aIgo de paradoxaI ou de
conlroverso, quanlo às que não lôm nada de paradoxaI, vão sem
epíIogo. Lslas não precisam necessariamenle de epíIogo, umas
porque já são conlecidas de anlemão, como por exempIo:
Pcrc um |cmcm, c scu!c c c ¡uc |4 !c mc||cr, icnic
¡ucnic mc pcrccc
87
(assim parece lambém à maioria), mas oulras, assim que são
enunciadas, lornam-se evidenles para quem as oIla com alen-
ção. Ior exempIo:
N4c |4 cmcnic ¡uc n4c cmc scmprc.
88
1394b
83
||i!cm, 2961.
84
Lurípides, Si|cnc|ccc, fr. 661 Nauck.
85
Lurípides, Hccu|c, 863.
86
||i!cm, 864.
87
LscóIio, ou uma canção de banquele, alribuído a Simónides (cf.
Aleneu, 15.694e).
88
Lurípides, 1rcc!cs, 1O51.
210
Quanlo às que vão seguidas de epíIogo, umas são parle
de um enlimema, lais como:
Nuncc !c.c c¡uc|c ¡uc c scnscic.
89
,
oulras são verdadeiros enlimemas, mas sem consliluírem parle
do mesmo. Lslas são parlicuIarmenle apreciadas, sendo lam-
bém as que, por si mesmas, lornam cIara a causa da afirma-
ção, por exempIo, nislo:
N4c gucr!cs rcnccr imcric|, scn!c mcric|.
9O
Dizer, «não lá que guardar rancor» é uma máxima, mas
acrescenlar «sendo morlaI» é dizer o porquô. De modo idônli-
co em:
Um mcric| !c.c scniir-sc ccmc mcric|, n4c ccmc
imcric|.
91
Vô-se cIaramenle, peIo que ficou exposlo, quanlas espé-
cies de máximas lá e a que casos se apIica cada uma deIas.
De um Iado, as que são conlroversas ou paradoxais não pres-
cindem do epíIogo, mas, caso precedam o epíIogo, deve em-
pregar-se a máxima como concIusão (por exempIo, se aIguém
dissesse: «quanlo a mim, como não convém sujeilar-me à in-
veja, nem viver na preguiça, afirmo que não é preciso ser ins-
lruído»), ou enlão, se se coIoca a máxima no princípio, lá que
junlar-Ile Iogo aquiIo que a precede. Ior oulro Iado, quanlo
às que não são paradoxais, mas não são nada evidenles, la-
verá que delerminar previamenle a causa, para Iles dar uma
forma mais concisa. Nesles casos são preferíveis os apolegmas
Iacónicos e os enigmas, como, por exempIo, referir as paIa-
vras de Lslesícoro na assembIeia dos Iócrios, a saber: «que
não convém ser insoIenle, não vão as cigarras lerem de can-
lar do clão»
92
.
1395a
89
Lurípides, Mc!cc, 295.
9O
Verso de um lrágico desconlecido.
91
Verso alribuído a Lpicarmo, fr. 239 OIivier.
92
Demélrio, Sc|rc c |sii|c, 99.1OO, alribui esla máxima a Dionísio
de Siracusa, não a Lslesícoro.
211
Soa bem às pessoas de idade exprimirem-se por máximas
e disserlar sobre lemas de que se lem experiôncia. De maneira
que, fazer uso de máximas quando não se alingiu laI idade é
lão pouco oporluno como andar a conlar lislórias. Do mesmo
modo, fazô-Io sobre lemas de que não se lem experiôncia é uma
parvoíce e uma faIla de educação. SinaI suficienle disso é o
faclo de os camponeses serem muilo senlenciosos e faciImenle
se exprimirem assim.
IaIar em lermos gerais do que não é universaI adequa-se
sobreludo à Iamenlação e ao exagero, nesles casos, deve-se
proceder assim, ou no início ou mais larde, depois de lermina-
da a demonslração. L convenienle lambém usar máximas lri-
viais e comuns, se forem uleis, porque, peIo faclo de serem co-
muns, como loda a genle eslá de acordo com eIas, podem
parecer verdadeiras, como, por exempIo, quando se exorla aI-
guém a enfrenlar um perigo, sem anles ler feilo os sacrifícios
riluais:
O unicc, c mc||cr cuguric, c !cjcn!cr c p4iric.
93
L a aIguém que eslá em posição de inferioridade dir-se-á:
|mpcrcic| c |ni4|ic.
94
L quando se aconseIla a malar os fiIlos dos inimigos,
embora nada lenlam feilo de maI:
|nscnscic ¡ucm, icn!c mcric c pci, !cixc .i.cr cs ji-
||cs.
95
Cerlos provérbios lambém são máximas, como aqueIe do
«vizinlo Álico»
96
. Convém ainda uliIizar máximas para refu-
lar os dilos popuIares (enlendo por dilos popuIares, por exem-
pIo, o «conlece-le a li mesmo» ou o «nada em demasia») quan-
do o carácler do orador surgir com maior reIevo ou quando a
93
||., 12.243.
94
||i!cm, 18.3O9. LniáIio é Ares, deus da guerra.
95
Verso alribuído a Lslasino, suposlo aulor do poema épico Cµpric,
já referido.
96
Cf. Tucídides, 1.7O.
212
máxima for enunciada em lom palélico. Há expressão de palé-
lico quando, por exempIo, aIguém cleio de ira diz que é uma
menlira uma pessoa conlecer-se a si mesma: «em lodo o caso,
se esle lomem se livesse conlecido a si mesmo, nunca se leria
considerado digno de ser eslralego»
97
. O orador moslraria um
carácler superior, se suslenlasse que não é preciso ÷ ao con-
lrário do que se diz ÷ amar como se um dia louvesse de odiar,
mas anles odiar como se um dia louvesse de amar. L preciso,
peIa maneira como se enuncia a máxima, evidenciar a sua in-
lenção, se não, laverá que expIicilar a causa, por exempIo, dizer
assim: «deve-se amar, não como vuIgarmenle se diz, mas como
se se amasse sempre, porque amar de oulro modo é próprio de
um lraidor». Ou assim: «não me agrada o dilado, porque o ver-
dadeiro amanle deve amar como quem devesse amar sempre».
L ainda: «não me agrada essa fórmuIa do «nada em demasia»,
porque aos maus, peIo menos, devemos odiá-Ios em excesso».
As máximas são de grande uliIidade nos discursos, por
causa da menle losca
98
dos ouvinles, que ficam conlenles
quando aIguém, faIando em geraI, vai de enconlro às opiniões
que eIes lôm sobre casos parlicuIares. O que digo ficará eIuci-
dado peIo que se segue, e, ao mesmo lempo, peIo modo como
se deve fazer a caça às máximas. Como já dissemos, a máxima
é uma afirmação universaI, mas o que agrada aos ouvinles é
ouvir faIar em lermos gerais daquiIo que eIes linlam pensado
enlender anles em lermos parlicuIares, por exempIo, se aIguém,
por acaso, livesse de lralar com maus vizinlos ou maus fiIlos
e, em seguida, ouvisse dizer: «nada mais insuporláveI do que
a vizinlança»
99
, ou «nada de mais eslupido do que ler fi-
Ilos»
1OO
. Desle modo, o orador deve conjeclurar quais as coi-
sas que os ouvinles de faclo lôm subenlendidas e assim faIar
dessas coisas em geraI.
1395b
97
Desconlece-se quem é esle lomem referido por ArislóleIes.
Segundo aIguns inlérpreles, lralar-se-ia de Ifícrales, um generaI do sé-
cuIo IV a. C., que o Lslagirila expressamenle nomeia em diversas parles
da Rcicricc.
98
O lermo usado por ArislóleIes (çcpttketp¸) é um |4pcx |cgcmcncn.
Irelende indicar com eIe o espírilo rude e a faIla de cuIlura dos juízes.
99
A sugeslão é de Hesíodo, |rgc, 345. Nas suas varianles e apIica-
da em circunslâncias diversas aparece lambém em IIalão, Icgi, VIII, 843c,
Tucídides, III, 113, Demóslenes, Ccnirc Cc|., 1.
1OO
Desconlece-se a origem e o aulor desla máxima.
213
Lsle é já um dos aspeclos em que o uso de máximas lraz
vanlagens, mas lá oulros ainda meIlores: quando eIas confe-
rem aos discursos um carácler «élico». Tôm carácler «élico» os
discursos que manifeslam cIaramenle a inlenção do orador.
Todas as máximas cumprem esla função, porque exprimem de
forma geraI as inlenções daqueIe que as enuncia, de laI sorle
que, se as máximas são loneslas, lambém farão que o carácler
do orador pareça loneslo.
Sobre as máximas, sobre a sua nalureza e o numero de
espécies, como se devem usar e que vanlagens lrazem, basla o
que acábamos de dizer.
22
O USO DE ENTIMEMAS
IaIemos agora dos enlimemas em geraI: primeiro, do mé-
lodo a seguir para os procurar e, depois, dos lópicos donde os
exlraímos, pois cada um desles assunlos perlence a uma espé-
cie diferenle. Que o enlimema é um siIogismo, já o dissemos
anleriormenle, e lambém em que medida é um siIogismo e em
que é que difere dos siIogismos diaIéclicos. Iorque em relórica
convém não fazer deduções de muilo Ionge, nem é necessário
seguir lodos os passos: o primeiro mélodo é obscuro por ser
demasiado exlenso, o segundo é pura verborreia, porque enun-
cia coisas evidenles. L esla a razão peIa quaI os oradores incuI-
los são mais persuasivos do que os cuIlos dianle de muIlidões,
como dizem os poelas
1O1
, os incuIlos são «mais inspirados pe-
Ias musas»
1O2
dianle da muIlidão. Com efeilo, os primeiros
enunciam as premissas comuns e gerais, os segundos baseiam-
-se no que sabem e no que eslá próximo do seu audilório. Ior-
lanlo, é assim que os oradores devem faIar, não lomando como
1O1
AIusão à frase de Lurípides, Hippc|µius, 988-9: «AqueIes que pa-
recem desajeilados peranle os sábios parecem pessoas de grande cuIlura
aos oIlos da muIlidão.»
1O2
Apesar da conlradição aparenle, preferiu-se lraduzir à Ielra o
lermo µcuotkætrpc¸ que remele para o ambienle de persuasão gerado peIa
musicaIidade do discurso e que conslilui uma das ideias inovadoras da
relórica de Górgias.
214
ponlo de parlida lodas as opiniões, mas só cerlas e delermina-
das, por exempIo, as dos juízes ou as daqueIes que gozam de
repulação, e o faclo é que a coisa aparece mais cIara, ou a lo-
dos os ouvinles, ou à maior parle deIes. L não se devem lirar
concIusões somenle a parlir das premissas necessárias, mas
lambém das que são perlinenles a maior parle das vezes.
Irimeiro, convém saber que o assunlo sobre o quaI se vai
faIar ou raciocinar ÷ quer se lrale de um siIogismo poIílico ou
de oulro género quaIquer ÷ lem necessariamenle de conlar
com argumenlos perlinenles, senão lodos, peIo menos aIguns,
porque, se não dispomos deIes, não leremos nada donde reli-
rar uma concIusão. LxpIico-me: por exempIo, como poderíamos
aconseIlar os Alenienses a enlrar ou a não enlrar em guerra,
se não livéssemos conlecimenlo do seu poderio miIilar, se dis-
punlam de uma marinla ou de uma infanlaria ou de ambas a
coisas` Quais os efeclivos, quais os recursos, os aIiados e os ini-
migos, ou ainda que guerras enfrenlaram e como se porlaram,
e oulras coisas semeIlanles a eslas` Ora, como poderíamos
fazer o eIogio deIes se não livéssemos conlecimenlo do com-
bale navaI de SaIamina ou da balaIla de Maralona, ou dos fei-
los prolagonizados peIos HeracIidas e de oulras proezas seme-
Ilanles` Todos os panegirislas exlraem os seus eIogios dos
gIoriosos feilos, ou peIo menos, dos que parecem ser. O mes-
mo se passa com as censuras feilas a parlir de eIemenlos con-
lrários, considerando se os censurados lôm ou parecem ler aI-
guma coisa de reprováveI em maléria de censura: dizer, por
exempIo, que os Alenienses submeleram os Gregos e escravi-
zaram os Lginelas e os Iolideianos que linlam combalido com
eIes conlra os bárbaros e se linlam nolabiIizado, e oulras coi-
sas semeIlanles, e se é que aIgum oulro erro se Iles pode im-
pular. Do mesmo modo, os que fazem acusações ou agem
como defensores dispõem, para a sua argumenlação, de faclos
perlinenles.
L indiferenle que se lrale dos Iacedemónios ou dos
Alenienses, de um lomem ou de um deus: o processo é o
mesmo. Com efeilo, aqueIe que aconseIla AquiIes, aqueIe que
eIogia e censura, aqueIe que acusa e defende, lem de argumen-
lar sempre com faclos perlinenles ÷ ou que parecem ser ÷, a
fim de exprimir, nessa base, o eIogio ou a censura, o que neIe
lá de beIo ou de vergonloso, acusando-o ou defendendo-o, se
concerne ao juslo ou ao injuslo e, por fim, aconseIlando sobre
o que é convenienle ou prejudiciaI. O que é váIido para eslas
1396a
215
malérias lambém o é para oulras. Ior exempIo, lralando-se de
jusliça, inleressa saber se uma coisa é boa ou má e, nesse caso,
laverá que argumenlar com base em alribulos alinenles à jus-
liça e ao bem.
Ior conseguinle, como parece que lodos os oradores se-
guem esle mélodo nas suas demonslrações, quer os seus siIo-
gismos sejam mais rigorosos ou mais brandos (já que não ar-
gumenlam a parlir de lodos os pressuposlos, mas somenle dos
que são reIevanles para cada caso), e como lambém já ficou
escIarecido que, servindo-se do discurso, é impossíveI demons-
lrar por oulro meio, concIui-se, evidenlemenle, que, laI como
nos 1cpiccs
1O3
, é indispensáveI, anles de ludo, ler seIeccionado
sobre cada assunlo um conjunlo de proposlas acerca do que é
possíveI e mais oporluno. Quanlo às queslões que surgem de
improviso, a invesligação deve seguir o mesmo mélodo, alen-
dendo não aos argumenlos indelerminados, mas aos que são
inerenles ao discurso, engIobando o maior numero possíveI e
que eslejam mais próximos do assunlo em causa. Quanlo mais
faclos alinenles ao assunlo em causa se possuírem, mais fáciI
será a demonslração, e quanlo mais próximos esliverem deIe,
mais próprios e menos comuns serão. Clamo ccmuns. Iouvar
AquiIes por ser lomem e semideus, e por ler Iulado conlra
IIion. Tudo islo é reIevanle para muilos lomens, de maneira
que o orador que recorre a lais argumenlos não eIogia mais
AquiIes do que Diomedes. Clamo prcprics os que se apIicam a
AquiIes e a mais ninguém, como, por exempIo, o ler malado
Heilor, o meIlor dos Troianos, e Cicno, o quaI, sendo invencíveI,
a lodos impedia de desembarcar. L dizer lambém que, sendo o
mais jovem, e não eslando Iigado por juramenlo, parlicipou na
expedição, e oulros eIemenlos do mesmo género.
Im meio, o primeiro, para escoIler enlimemas é o lópico.
Agora, porém, vamos faIar dos eIemenlos dos enlimemas. Ln-
lendo por eIemenlo e lópico a mesma coisa. Mas, primeiro, lra-
lemos do que necessariamenle deve dizer-se em primeiro Iu-
gar. Há duas espécies de enlimemas: os demonslralivos
1O4
de
aIgo que é ou não é, e os refulalivos
1O5
, a diferença é iguaI à
que exisle na diaIéclica enlre refulação e siIogismo. O enlimema
1396b
1O3
IrováveI aIusão a um passo dos 1cpiccs I 14-15 ou II 7, 112b.
1O4
Artkttk6.
1O5
'Lìrykttk6.
216
demonslralivo é aqueIe em que a concIusão se oblém a parlir
de premissas com as quais se eslá de acordo, o refulalivo con-
duz a concIusões que o adversário não aceila.
Os lópicos correspondenles a cada uma das espécies de
enlimemas, que são uleis e necessários, lemo-Ios mais ou me-
nos em nosso poder. }á anles fizemos a seIecção das premissas
que se referem a cada um dos enlimemas, de maneira que,
nessa base, cabe-nos agora exlrair os enlimemas reIalivos aos
lópicos do bem ou do maI, do beIo ou do feio, do juslo ou do
injuslo. Quanlo aos lópicos concernenles aos caracleres, às
emoções e às disposições, já anles os seIeccionámos, uliIizando
o mesmo mélodo. Seguiremos agora oulro mélodo, o mélodo
geraI, para lodos os enlimemas, lralaremos, num capíluIo su-
pIemenlar, dos refulalivos e dos demonslralivos e lambém dos
enlimemas aparenles que não são reaImenle enlimemas, por-
que nem sequer são siIogismos. Quando livermos escIarecido
ludo islo, definiremos as refulações, as objecções e as fonles
donde se deve parlir para depois as opormos aos enlimemas.
23
O USO DE ENTIMEMAS: OS TÓPICOS
Im dos lópicos dos enlimemas demonslralivos é aqueIe
que se lira dos seus conlrários. L convenienle examinar se o
conlrário eslá compreendido noulro conlrário, refulando-o se
não esliver, confirmando-o se esliver, por exempIo, dizer que
ser sensalo é bom, porque ser Iicencioso é nocivo. Ou, como
no Mcssicnicus
1O6
: «se a guerra é a causa dos maIes presenles,
com a paz lá que remediá-Ios».
Ou:
Umc .cz ¡uc ncm ccnirc cs ¡uc ncs jizcrcm mc|
scm ¡ucrcr c jusic ccir cm irc,
icm|cm n4c ccn.cm mcsircr-sc cgrc!cci!c
c c|gucm ¡uc c jcrçc ncs jcz um jc.cr.
1O7
1397a
1O6
Trala-se do discurso sobre os Mcsscnics, escrilo em 366 a. C. por
AIcidamanle, e já mencionado em I 13, 1373b.
1O7
Cilação de um lrágico desconlecido. O fragmenlo forma um
lrímelro jâmbico.
21¯
Ou ainda:
Mcs, sc cnirc cs mcricis !izcr mcniircs
c pcrsucsi.c, ccrc!iic ¡uc c ccnir4ric icm|cm c c.
¡ucnics .cr!c!cs sc icrncm incrc!u|i!c!c pcrc cs mcricis.
1O8
Oulro lópico é o das fIexões casuais semeIlanles, porque
semeIlanlemenle deveriam compreender ou não os mesmos pre-
dicados, por exempIo, dizer que o juslo não é um bem em lodas
as circunslâncias, é que se o fosse «juslamenle» seria sempre um
bem, mas, por agora, não é desejáveI morrer «juslamenle».
Oulro é o que procede das reIações recíprocas: se pralicar
uma acção beIa e juslamenle perlence a um dos lermos, o
cumpri-Ia perlence a oulro, e se uma pessoa lem o direilo de
dar ordens, a oulra lem-no de as cumprir, por exempIo, o que
Diomedonle, o coIeclor de imposlos, disse acerca dos impos-
los: «se para vós não é vergonloso vender, lambém para nós
não é vergonloso comprar»
1O9
. Ora, se os lermos «beIa e jusla-
menle» se apIicam a quem sofreu a acção, lambém se apIica-
rão a quem a execulou. Mas nislo lá o risco
11O
do paraIogismo.
Com efeilo, se aIguém sofreu juslamenle um casligo, jusla-
menle o sofreu, mas laIvez não imposlo por li. Ior isso, con-
vém examinar à parle se o pacienle
111
merecia laI casligo e se
o agenle
112
agiu juslamenle, e, em seguida, apIicar a ambos o
argumenlo apropriado. NaIguns casos lá discordância quanlo
a esle ponlo, e nada impede que se pergunle, como no A|cmccn
de Teodecles: «Nenlum dos morlais odiava a lua mãe`» Lm
resposla, diz-Ile AIcméon: «Sim, mas é preciso examinar e fa-
zer uma dislinção.» «Como`» pergunlou AIfesibeia, lomando a
paIavra:
A mcrrcr c ccn!cncrcm, mcs n4c c mim c mci4-|c.
113
1397b
1O8
Lurípides, 1|µcsics, fr. 396 Nauck.
1O9
Iersonagem e dilo desconlecidos.
11O
Iil. «possibiIidade».
111
He0æv.
112
Hctqoe¸.
113
Teodecles, discípuIo de IIalão, de Isócrales e de ArislóleIes, fi-
cou céIebre no sécuIo IV como aulor de lragédias e de discursos oralórios.
Na lragédia, AIcméon assassinou a mãe, LrifiIe, para vingar a morle do
pai, Anfiarau. AIfesibeia é a esposa junlo da quaI clora a sua cuIpa.
218
Oulro exempIo é o processo conlra Demóslenes e os as-
sassinos de Nicanor: como o juri aclou que era juslo malá-Io,
lambém Ile pareceu juslo que morresse. L ainda o caso do
lomem que morreu em Tebas e acerca do quaI se mandou fa-
zer um juIgamenlo para saber se era juslo lô-Io malado, por-
que não se considera injuslo condenar à morle um lomem que
morre juslamenle
114
.
Oulro lópico é o do mcis e o do mcncs, por exempIo: «se
nem os deuses sabem ludo, menos ainda os lomens». O que
equivaIe a dizer: «se de faclo uma afirmação não se apIica ao
que seria mais apIicáveI, é óbvio que lambém não se apIica ao
que seria menos». O argumenlo, «uma pessoa que bale nos
vizinlos, lambém bale no pai», assenla no raciocínio seguinle:
«se lá o menos, lambém lá o mais»
115
, vislo que se bale sem-
pre menos nos pais do que nos vizinlos. Ou enlão empregam-
-se um e oulro argumenlo desla forma: «se uma afirmação se
apIica ao que é mais, não se apIica», «se ao que é menos, apIi-
ca-se», conforme seja preciso demonslrar o que é e o que não
é. AIém disso, lambém se usa esle argumenlo, quando não se
lrala nem do mais, nem do menos. Donde o poela:
Dignc !c ccmpcix4c c icu pci, ¡uc pcr!cu cs ji||cs,
mcs n4c c c icm|cm |ncu, |lonra da HéIadej ¡uc
|pcr!cu um ji||c i|usirc¨
116
L ainda: se Teseu não foi cuIpado, AIexandre lambém não,
se os Tindáridas não comeleram injusliça, AIexandre lambém
não, se Heilor malou juslamenle IálrocIo, lambém AIexandre
a AquiIes, e se os oulros arlislas não são desprezíveis, os fiIó-
sofos lambém não, se os eslralegos não são desprezíveis, por-
114
Não sabemos se se lrala do famoso orador aleniense, cujas vida
e obra são sobejamenle conlecidas. Nicanor é desconlecido. Quanlo ao
lomem de Tebas, laIvez se lrale de Lufron de Siciona que, numa
lenlaliva para Iiberlar os seus compalriolas, leria sido assassinado por
mercenários a soIdo dos Tebanos. Sobre o assunlo, cf. Xenofonle, Hc||c-
nicc, 7.3,5 ss.
115
A nossa lradução é aproximada. O excerlo é susceplíveI de vá-
rias Ieiluras e inlerprelações que seria moroso expor aqui em pormenor.
116
Versos de um lrágico desconlecido. No enlanlo, o nome Oincus
sugere que podem perlencer a um Mc|ccgrc que lanlo pode ser de Lurí-
pides como de Anlifonle.
219
que são muilas vezes condenados à morle, os sofislas lambém
não. L ainda: «se um simpIes indivíduo deve preocupar-se com
a vossa gIória, lambém vós vos deveis preocupar com a gIória
dos Gregos»
117
.
Oulro lira-se da observação do lempo. Ior exempIo, Ifí-
crales, no seu discurso conlra Harmódio, disse: «Se, anles de
eu agir, vos livesse pedido, como condição prévia, que me
concedôsseis a eslálua, ler-ma-íeis dado. Agora que agi, não ma
concedereis` Lnlão, não façais promessas enquanlo esperais um
serviço, para depois de cumprido negardes a recompensa.»
Oulro exempIo: uma vez, para que os Tebanos permilissem a
IiIipe alravessar o seu lerrilório para clegar à Álica, os embai-
xadores da Macedónia argumenlaram: se, anles de ler decidi-
do ajudar os Iocenses, eIe livesse feilo a respecliva pelição, lô-
-Ia-iam promelido, seria, pois, absurdo que não o deixassem
passar agora, só porque enlão se linla descuidado e linla con-
fiado neIes
119
.
Oulro ainda consisle em agarrar nas paIavras pronuncia-
das conlra nós e voIlá-Ias conlra aqueIe que as pronunciou,
como, por exempIo, no 1cucrc
119
. Mas esle Iugar é diferenle do
que uliIizou Ifícrales conlra Arislofonle, quando esle Ile per-
gunlou se enlregaria a armada a lroco de dinleiro. Tendo
Arislofonle respondido que não, Iogo Ile disse: «Lnlão lu que
és Arislofonle não a enlregarias, e eu que sou Ifícrales fá-Io-
-ia`»
12O
Mas nesles casos é convenienle laver um adversário à
aIlura, mais susceplíveI de comeler injusliças, porque, de con-
lrário, a resposla pareceria ridícuIa: por exempIo, se, para res-
1398a
117
Argumenlo provaveImenle relirado de um discurso epidíclico no
quaI o aulor, à semeIlança do Pcncgiricc de Isócrales, exorla os cidadãos
alenienes (cf. o pIuraI «vós») a Iular conlra os bárbaros.
118
O incidenle lem por cenário a expedição de IiIipe da Macedónia
à Iócia em 339 a. C. Os Tebanos e os TessáIios pediram a IiIipe que cas-
ligasse os Iocenses porque se linlam apoderado do lesouro de ApoIo.
Quando IiIipe quis alacar a Álica, alravessando os lerrilórios lebanos,
esles negaram-Ile a passagem insligados por Demóslenes.
119
O argumenlo aIude a um episódio da guerra de Tróia em que
IIisses acusa Teucro de não ler saIvo o irmão da morle. Teucro voIla
conlra IIisses a acusação uliIizando os mesmos argumenlos. 1cucrc era
uma lragédia de SófocIes.
12O
Depois da derrola de Êmbalo (356), Arislofonle acusou de con-
cussão lrôs generais vencidos, Menesleu, Ifícrales e Timoleu.
220
ponder à acusação de Arislides
121
, oulro argumenlasse o
mesmo para desacredilar o acusador. Lm geraI, o acusador pre-
lende ser meIlor que o acusado, e porlanlo lá que refular esla
prelensão. Lm geraI, esle argumenlo reveIa-se absurdo, sobre-
ludo quando aIguém recrimina aos oulros o que eIe mesmo faz
ou poderia fazer, ou quando aconseIla a fazer o que eIe não
faz, nem poderia fazer.
Oulro oblém-se parlindo da definição. Ior exempIo: «o
que é o divino (!cimcnicn)¨ Im deus ou a obra de um deus`
NaluraImenle, aqueIe que admile que é obra de um deus, for-
çosamenle lambém lá-de admilir que os deuses exislem.»
122
Assim lambém argumenlava Ifícrales, ao afirmar que o mais
nobre é o meIlor. A verdade, porém, é que Harmódio e Aris-
logílon não possuíam quaIquer nobreza anles de lerem reaIi-
zado a sua nobre acção. Acrescenlou ainda que eIe próprio era
mais aparenlado a eIes, «porque as minlas obras eslão, cerla-
menle, mais próximas das de Harmódio e de Arislogílon que
as luas». L ainda, como se diz no A|cxcn!rc. lodos concordarão
que os desregrados não se conlenlam com o prazer de um só
corpo
123
. Lm virlude disso, Sócrales disse que não se desIoca-
ria à corle de ArqueIau, «porque», afirma eIe, «é uma vergo-
nla não poder relribuir da mesma maneira lanlo o bom como
o mau lralamenlo»
124
. Todos esles casos conslroem os seus
siIogismos sobre a maléria que lralam, parlindo de definições
e delerminando a essôncia de uma coisa.
Oulro oblém-se a parlir dos diferenles senlidos de uma pa-
Iavra, como vimos nos 1cpiccs sobre o uso correclo dos lermos
125
.
Oulro provém da divisão. Ior exempIo, se lodos os seres
lumanos fazem maI por lrôs molivos (por esle, por aqueIe, e
por mais aqueIe), é impossíveI que seja por dois deIes, mas do
lerceiro nem sequer se faIa.
121
Lslralego em 489-488 a. C., Arislides foi um poIílico aleniense
que a lradição sempre considerou como exempIo de lomem juslo e ínle-
gro. Ioi condenado ao oslracismo em 482 a. C.
122
IrováveI aIusão ao argumenlo de Sócrales em IIalão, Apc|cgic,
27b.
123
Supomos lralar-se de um discurso epidíclico sobre Iáris da au-
loria de um sofisla desconlecido, semeIlanle ao |nccmic !c Hc|cnc de
Isócrales, e à paIinódia de HeIena, da auloria de Górgias.
124
Cf. Diógenes Iaércio, 2.5.25 (Viic Sccr.).
125
Cf. ArislóleIes, 1cpiccs I 15.
221
Oulro lópico relira-se da indução. Ior exempIo, do caso
da muIler de Ieparelo induz-se que são as muIleres a deler-
minar sempre a verdadeira palernidade dos fiIlos
126
. Islo de-
monslrou-o em Alenas a mãe da criança ao orador Manlias que
negava que o fiIlo fosse deIe
127
, o mesmo se deu em Tebas,
no pIeilo que opôs Isménias e LslíIbon, quando a mãe, naluraI
de Dodona, cerlificou que o fiIlo era de Isménias, e por isso
decidiram que TessaIisco era fiIlo de Isménias
128
. Oulro exem-
pIo enconlra-se na Ici !c 1cc!ccics. «se aos que cuidam maI dos
cavaIos dos oulros não se confiam os próprios, aos que fize-
ram afundar os navios aIleios lambém não se Ile confiam os
próprios
129
. Ior conseguinle, se islo vaIe para lodos os casos,
concIui-se que a quem zeIa maI peIa segurança aIleia não é
proveiloso confiar-Ile a própria.» A esla concIusão clega lam-
bém AIcidamanle
13O
quando diz que lodos os povos lonram
os sábios: «por exempIo, os labilanles de Iaros ceIebraram
ArquíIoco, apesar de ser um difamador, os de Quios, Homero,
apesar de não ser cidadão, os de MiliIene, Safo, maI-grado ser
muIler, os Iacedemónios, QuíIon e alé o fizeram enlrar no
conseIlo dos anciãos, apesar do pouco apreço que linlam pe-
Ias Ielras, os IlaIiolas lonraram Iilágoras, os labilanles de
Iâmpsaco deram sepuIlura a Anaxágoras, embora fosse eslran-
geiro, e ainda loje conlinuam a lonrá-Io. Os Alenienses, ao
apIicarem as Ieis de SóIon, foram feIizes, e os Iacedemónios
com as de Iicurgo, e em Tebas, quando os magislrados se fize-
ram fiIósofos, a cidade prosperou.»
131
1398b
126
Discurso de fonle desconlecida.
127
Cf. Demóslenes, Ccnirc 8csi., 1O.3O.37.
128
Lsle Isménias era um poIílico infIuenle, amigo de IeIópidas, o
quaI foi embaixador lebano na Macedónia e na TessáIia (368 a. C.) e, mais
larde, em Susa, na corle de Arlaxerxes. Cf. Xenofonle, Hc||cnicc, 5,2,25.
Os nomes dos oulros personagens são desconlecidos.
129
Teodecles, céIebre orador e poela do sécuIo IV a. C., é menciona-
do em 2.23 e em diversas parles desla obra.
13O
AIcídamas ou AIcidamanle foi discípuIo de Górgias, mas a cila-
ção é provaveImenle relirada do seu discurso Mcuscicn conlecido desde
a Anliguidade por ser uma espécie de «pronluário relórico».
131
Houve em Tebas um círcuIo cuIluraI de forle infIuôncia pila-
górica ao quaI lerão perlencido Lpaminondas e IeIópidas enlre os anos
371 a. C. e 361 a. C. Mas a cilação prelende remeler-nos para a leoria
pIalónica de um governo clefiado por fiIósofos (cf. Rcpu||icc V 473d).
222
Oulro lópico oblém-se de um juízo sobre um caso idônli-
co, iguaI ou conlrário, sobreludo se for um juízo de lodos os
lomens e de lodos os lempos, se não é de lodos, peIo menos
da maior parle, ou dos sábios, de lodos, ou da maior parle, ou
das pessoas de bem, ou ainda se os juízes se aulojuIgaram, ou
aqueIes cuja auloridade reconlecem os que juIgam, ou aqueIes
a quem não se pode opor um juízo conlrário, como, por exem-
pIo, os que lôm o poder soberano, ou aqueIes a quem não con-
vém opor um juízo conlrário, como os deuses, o pai, ou os
meslres. TaI é o que ÁulocIes disse de Mixidémides: «se às
veneráveis deusas Iles pareceu bem sujeilar-se à senlença do
Areópago, por que não a Mixidémides`»
132
. Ou o exempIo de
Safo, que diz que morrer é um maI «pois assim o crôem os
deuses, de conlrário, morreriam eIes». Ou ainda como Arislipo
respondeu a IIalão, que, a seu ver, Ile linla faIado num lom
demasiado sobranceiro: «Sem duvida, mas o nosso companlei-
ro» ÷ disse eIe referindo-se a Sócrales ÷ «nunca nos leria fa-
Iado assim.» L HegesípoIis pergunlou ao deus em DeIfos, de-
pois de ler consuIlado o orácuIo em OIímpia, se era da mesma
opinião que seu pai, pois aclava que seria uma vergonla para
eIe dizer coisas conlradilórias
133
. L o que Isócrales
134
escreveu
a respeilo de HeIena, dizendo que era uma muIler virluosa,
pois assim a juIgara Teseu, e a propósilo de AIexandre, a quem
as deusas escoIleram para árbilro, e de Lvágoras, que era vir-
luoso, porque, como disse Isócrales, «Cónon, por exempIo, uma
vez derrolado, abandonou lodos os oulros e foi ler com Lvá-
goras».
Oulro lópico lira-se das parles, como, por exempIo, nos
1cpiccs, quando se pergunla que espécie de movimenlo é a
aIma: esle ou aqueIe`
135
Im exempIo lomado do Sccrcics de
1399a
132
Mixidémides é-nos desconlecido. ÁulocIes foi um poIílico
aleniense que parlicipou na missão de paz a Lsparla em 371 a. C. e, como
eslralego, lomou parle acliva na guerra em 369 a. C. e 362 a. C. As deu-
sas a que se refere o passo são as Iurias que, na cena finaI das |umcni!cs
de LsquiIo, abdicam da vingança conlra Oresles e aceilam a decisão do
lribunaI do Areópago.
133
Refere-se a ApoIo, fiIlo de Zeus. A lislória aparece em Xeno-
fonle, Hc||cnicc, 4.7,2. HegesípoIis I foi rei de Lsparla em 394 a. C. e con-
suIlou o orácuIo de DeIfos anles da campanla conlra Argos em 39O a. C.
134
Cf. Isócrales, Hc|cnc, 18-22, |.cgcrcs, 51-52.
135
1cpiccs II 4.
223
Teodecles: «que sanluário profanou` Que deuses não lonrou
enlre os que a cidade venera`»
Oulro lópico relira-se, já que na maior parle dos casos
aconlece que a uma mesma coisa se segue um bem e um maI,
das consequôncias: aconseIlar ou desaconseIlar, acusar ou de-
fender-se, Iouvar ou censurar. Ior exempIo, a educação lem
como consequôncia a inveja que é um maI, enquanlo ser sábio
é um bem, por conseguinle, não é preciso receber educação,
porque não convém ser invejado, por oulro Iado, convém ser
inslruído, porque convém ser sábio. Lsle lópico conslilui a Aric
de CaIipo
136
que junla o lópico do possíveI e os oulros de que
já lralámos.
Oulro lópico consisle, quando precisamos de aconseIlar
ou desaconseIlar a propósilo de duas coisas oposlas, em uliIi-
zar, para ambas as coisas, o lópico anlerior. A diferença, con-
ludo, consisle no seguinle: no primeiro, os lermos conlrapõem-
-se por mero acaso, no segundo, são lermos conlrários. Ior
exempIo, a sacerdolisa que não deixava o fiIlo faIar em pubIi-
co: «porque» ÷ dizia eIa ÷ «se disseres o que é juslo, os lo-
mens odiar-le-ão, se disseres o que é injuslo, os deuses». Nesse
caso, é preferíveI faIar em pubIico, pois se faIares com jusliça,
os deuses amar-le-ão, se com injusliça, os lomens. L o que diz
o provérbio: comprar a saIina e o saI. L a ||ciscsis
137
consisle
nislo: quando a cada um de dois conlrários se segue um bem
e um maI, lá que conlrapor cada um deIes como conlrário do
oulro.
Oulro consisle em (já que em pubIico não se Iouvam as
mesmas coisas que em privado, uma vez que em pubIico se
Iouvam sobreludo as coisas juslas e beIas, e que em privado se
preferem as que são uleis) procurar deduzir o conlrário a par-
lir de uma deslas afirmações. Dos paradoxos esle é o lópico
que goza de mais auloridade.
Oulro consisle em relirar consequôncias por anaIogia. Ior
exempIo, Ifícrales, quando quiseram obrigar o fiIlo, que era
136
Segundo se crô, CaIipo foi discípuIo de Isócrales. Desla keììIaacu
tr¿vp só lemos conlecimenlo desla cilação.
137
8ìeIoæot¸ é uma variedade do quiasmo que, na sua expressão
mais simpIes, consisle em dispor em cruz qualro membros de um mesmo
período, de modo que o primeiro corresponda ao quarlo e o segundo ao
lerceiro.
224
muilo jovem mas de grande eslalura, a desempenlar um car-
go pubIico, disse que se consideravam lomens as crianças de
eIevada eslalura, enlão que decidissem por decrelo que os
lomens de pequena eslalura eram crianças. L Teodecles, em
A Ici
138
, diz: «Se de mercenários como Lslrábax e Caridemo
fazeis cidadãos, porque são loneslos, não deveríeis exiIar aque-
Ies mercenários que comeleram faIlas irreparáveis`»
Oulro lópico lira-se dislo: se a consequôncia é a mesma, é
porque lambém é a mesma a causa de que deriva. Ior exempIo,
Xenófanes dizia que lanlo comelem impiedade aqueIes que di-
zem que os deuses nascem, como os que afirmam que morrem:
em ambos os casos, com efeilo, a consequôncia é laver um lem-
po em que os deuses não exislem. L, em geraI, lá que admilir
que a consequôncia de cada um dos dois lermos é sempre a mes-
ma: «Ides pronunciar-vos, não sobre Isócrales, mas sobre o seu
género de vida, islo é, sobre se é uliI fiIosofar.»
139
Do mesmo
modo, diz-se: «dar lerra e água» é ser escravo e «parlicipar numa
paz comum» é fazer o que eslá mandado. Iorlanlo, enlre ler-
mos oposlos convém lomar aqueIe que é mais uliI.
Oulro provém do faclo de que nem sempre se escoIle o
mesmo depois e anles, mas ao invés. Ior exempIo, esle enlime-
ma: «Se no exíIio Iulámos para voIlar à pálria, uma vez que voI-
lámos deveríamos exiIar-nos para não lermos de combaler`»
14O
Imas vezes prefere-se ficar em casa em Iugar de combaler, ou-
lras prefere-se não combaler à cusla de não ficar em casa.
Oulro lópico consisle em dizer que aquiIo em virlude do
que aIguma coisa poderia ser ou poderia aconlecer é a causa
efecliva de que seja ou aconleça. Ior exempIo, se uma pessoa
der uma coisa a oulra para depois Ila lirar e Ile causar maI.
Donde, eslas paIavras:
c muiics c !i.in!c!c, n4c pcr |cnc.c|cncic,
ccncc!c grcn!cs .cniurcs, mcs pcrc ¡uc
cs !csgrcçcs ¡uc rccc|cm scjcm mcis .isi.cis.
141
1399b
138
Cf. suprc, II 23.
139
Cilação Iivre de Isócrales, Anii!., 173.
14O
Cilação de um discurso perdido de Iísias, 34.11, sobre a silua-
ção de Alenas em 4O3 a. C.
141
Versos de uma lragédia desconlecida, recoIlidos por Nauck
(fr. 82).
225
Do mesmo modo, esle passo do Mc|ccgrc de Anlifonle:
N4c pcrc mcicr c mcnsirc, mcs pcrc ¡uc icsicmun|cs
jcsscm !c .iriu!c !c Mc|ccgrc pcrcnic c Hc|c!c.
142
L lambém podemos cilar as paIavras do Ajcx de Teodec-
les: Diomedes escoIleu IIisses, não para o lonrar, mas para
ler um companleiro que Ile fosse inferior, pois é possíveI que
o lenla feilo por esla razão.
Oulro lópico, que é comum aos que Iiligam e aos que
deIiberam, consisle em examinar as razões que aconseIlam a
fazer uma coisa e desaconseIlam a fazer a mesma e que ra-
zões Ievam as pessoas a pralicar e a evilar lais aclos. Ior isso,
se eslas razões exislem, convém agir, se não exislem, não agir.
Ior exempIo, se uma coisa é possíveI, fáciI e uliI para nós e
para os nossos amigos ou prejudiciaI para os inimigos, e, se,
no caso de ser prejudiciaI, o prejuízo causado vier a ser infe-
rior ao Iucro. L deslas razões que se parle para persuadir e dos
seus conlrários para dissuadir, deslas mesmas se parle para
acusar e defender: as que dissuadem uliIizam-se na defesa, as
que aconseIlam, na acusação. A esle lópico se resume loda a
Aric de IânfiIo
143
e de CaIipo.
Oulro lópico lira-se dos faclos que se admile exislirem, mes-
mo os inverosímeis, porque não acredilaríamos neIes se não exis-
lissem ou não eslivessem para aconlecer. Com mais razão ain-
da, aceilamos o que exisle ou o que é prováveI. Iorlanlo, se um
faclo é inverosímiI e improváveI, é porque lem probabiIidades
de ser verdadeiro, pois não é por ser prováveI e pIausíveI que
parece laI. Ior exempIo, AndrocIes
144
, o Iileu, ao crilicar a Iei e
ao nolar que as suas paIavras suscilavam conlra eIe um grande
murmurio, disse: «As Ieis precisam de uma Iei que as corrija, os
14OOa
142
Sobre o Mc|ccgrc de Anlifonle, ver p. 218, n. 116.
143
IânfiIo é referido, mas ignorado por Cícero: «IampliIum nescio
quem» (Dc crcicrc, III, 21), cf. lambém QuinliIiano, |nsiiiuiicncs crcicricc,
3.6.34 (se é que se lrala do mesmo IânfiIo).
144
Admile-se que esle AndrocIes foi adversário de AIcibíades du-
ranle a revoIução oIigárquica de Alenas, em consequôncia do incidenle
das esláluas de Hermes (411 a. C.). Acabou por ser assassinado, eIe e ou-
lros cidadãos, por parlidários de AIcibíades. Cf. Andócides, Sc|rc cs Mis-
icrics, 27, IIularco, A|ci|ic!cs, 19, Tucídides, 8.65.
226
peixes precisam de saI, no enlanlo, não é prováveI nem pIausí-
veI que os peixes criados na água saIgada precisem de saI, lam-
bém as azeilonas precisam de azeile, embora seja inverosímiI
que aquiIo de onde se exlrai o azeile precise de azeile.»
Oulro lópico, pecuIiar à refulação, consisle em examinar
os ponlos conlradilórios, ver se lá aIguma conlradição enlre
os lópicos referenles a lempos, acções e discursos, dirigindo
depois eslas conlradições separadamenle à parle conlrária. Ior
exempIo: «diz que vos ama, mas conspirou com os Trinla
145
»,
ou dirigindo-se ao próprio orador: «diz que sou amigo de pIei-
los, mas não pode demonslrar que eu lenla provocado um só
que seja», ou enlão, referindo-se ao orador e à parle conlrária:
«esle nunca foi capaz de empreslar dinleiro, mas eu já resga-
lei muilos de vós».
Oulro lópico, reIacionado com lomens e faclos que foram
ou parecem suspeilos, consisle em expIicar a causa do que é es-
lranlo, pois lá uma razão para que assim pareça. Ior exempIo:
lendo uma muIler caído em cima do próprio fiIlo, à força de
lanlos abraços, juIgou-se que eslava a fazer amor com o meni-
no, expIicada a causa, desfez-se a suspeila. Oulro exempIo é o
que enconlramos no Ajcx de Teodecles: IIisses expõe conlra Ajcx
por que molivo, sendo eIe mais corajoso que Ájax, não o parece.
Oulro procede da causa: porque, se a causa exisle, é que
o efeilo se produz, se não exisle a causa, lambém não se pro-
duz o efeilo. A causa e aquiIo de que é causa são inseparáveis,
e sem causa não lá coisa. Ior exempIo, Ieódamas, em respos-
la às acusações de TrasibuIo
146
, que o acusava de ler sido pu-
bIicamenle difamado numa inscrição da AcrópoIe, mas que
mandara apagar o nome deIe duranle o governo dos Trinla,
afirmou que laI não era possíveI, porque os Trinla lô-Io-iam
considerado mais digno de confiança, se na pedra livesse fica-
do gravado o seu ódio conlra o povo.
Oulro lópico consisle em examinar se não seria ou não é
possíveI fazer uma coisa meIlor que aqueIa que se aconseIla,
145
CIara aIusão ao governo aulocrálico dos Trinla Tiranos de 4O4 a. C.,
inimigos do regime democrálico reslabeIecido por TrasibuIo.
146
Trala-se de TrasibuIo de CoIilos (não de TrasibuIo de Lslíria refe-
rido em nola anlerior) que foi acusador de AIcibíades em 4O6 a. C. Mais
larde (382 a. C.) conseguiu excIuir do arconlado a um laI Ieódamas (ou Ieo-
damanle) a quem acusou de ser inimigo do povo (cf. Iísias, Discurscs, 26.13).
22¯
ou que se faz, ou que já se fez. CIaro eslá que, se assim não
fosse, não se leria agido assim, porque ninguém escoIle voIun-
lariamenle e com conlecimenlo de causa um mau parlido. Mas
esle raciocínio é enganador, porque muilas vezes só pcsicricr-
mcnic é que se lorna cIaro como proceder da meIlor maneira,
cnics era obscuro.
Oulro consisle, quando se vai fazer aIgo conlrário ao que
já se fez, em examinar ambas as coisas ao mesmo lempo. Ior
exempIo, quando os LIealas pergunlaram a Xenófanes se de-
viam ou não fazer sacrifícios e enloar lrenos em lonra de
Ieucólea
147
, deu-Iles esle conseIlo: se a consideravam deusa,
nada de lrenos, se a consideravam lumana, nada de sacrifícios.
Oulro lópico consisle em acusar ou defender-se a parlir
dos erros da parle conlrária. Ior exempIo, na Mc!cic de
Cárcino
148
, os seus acusadores acusam-na de ler malado os
fiIlos, porque não se enconlravam em parle nenluma (o erro
de Medeia consisliu em ler enviado os fiIlos para Ionge), mas
eIa defendeu-se argumenlando que leria malado, não os fiIlos,
mas }asão, uma vez que leria sido um erro não o ler feilo, se é
que, na verdade, pensava fazer uma deslas duas coisas. Lsle
lópico e esla espécie de enlimema consliluem loda c Aric anle-
rior a Teodoro
149
.
Oulro lópico oblém-se do nome. Ior exempIo, como diz
SófocIes:
C|crcmcnic |c.cs c ncmc !c jcrrc.
15O
14OOb
147
Ieucólea, mais conlecida por Ino, é, na miloIogia grega, fiIla
de Cadmo, rei de Tebas. Iara escapar à furia de Alamanle, o marido en-
Iouquecido, precipilou-se no mar com o cadáver do fiIlo MeIicerla e lrans-
formou-se na deusa branca (= Ieucólea), divindade marílima proleclora
dos navegadores.
148
Ioela lrágico do sécuIo IV a. C., cilado por ArislóleIes. Cf. Pccii-
cc 16, Rcicricc III 17.
149
Teodoro de Bizâncio foi um dislinlo meslre de relórica, conlem-
porâneo de Iísias, e aulor de, peIo menos, duas Arics Rcicriccs. uma de-
dicada à oralória judiciaI, oulra é uma reeslruluração da primeira incIuí-
da num sislema mais geraI de relórica. Sobre esle mcgisicr, cf. IIalão,
Ic!rc, 266e, e ArislóleIes, Scp|isiici c|cnc|i 34.
15O
Si!crc significa ferro. No lexlo lá um jogo elimoIógico (que, de
reslo, remele para o lópico enunciado cpc icû cncmcics) enlre o nome
îtóppæ (nome próprio) e oIóppc¸ (ferro ou arma de ferro). O verso é reli-
rado da lragédia de SófocIes, 1irc, fr. 597 Nauck.
228
L laI como coslumava dizer-se nos eIogios aos deuses, e
como Cónon clamava a TrasibuIo «o de ousadas decisões»
151
,
e Heródico dizia a Trasímaco: «és sempre um combalenle ou-
sado»
152
, e a IoIo: «és sempre um polro»
153
. Também de Drá-
con, o IegisIador, se afirmava que as suas Ieis não eram de
lomem, mas de dragão, (porque eram muilo severas)
154
. Como
lambém Hécuba, em Lurípides, diz a Afrodile:
| ccm rcz4c ¡uc c pc|c.rc «inscnscicz» ccmcçc c
ncmc !c !cusc.
155
L como Querémon:
Pcnicu, cpcnimc !c !csgrcçc juiurc.
156
Lnlre os enlimemas, os refulalivos gozam de mais repula-
ção que os demonslralivos, porque o enlimema refulalivo con-
segue a junção de conlrários em curlo espaço e porque as coi-
151
1|rcsµ|cu|cn. Mais um exempIo de jogo de paIavras muilo apre-
ciado peIos Alenienses. Com efeilo, o nome 1|rcsµ|cu|cs é um composlo
de 0peou¸ (ousado) e þcuìq (resoIução, decisão). Cónon é um generaI
aleniense, vencedor de Iisandro em Cnido (394 a. C.) e reslaurador da
democracia aleniense. Quanlo a TrasibuIo de Lslíria, ver suprc, n. 146.
152
1|rcsµmcc|cs, meslre de relórica que surge na Rcpu||icc de IIalão
(Iivro I) como inlerIoculor de Sócrales, é vislo aqui sob o ânguIo elimoIó-
gico: 0peou¸ e µ6¿p (audaz ou ousado no combale). Quanlo a Heródico,
desconlecem-se leslemunlos fidedignos.
153
Como se sabe, IoIo, sofisla discípuIo de Górgias, significa «po-
lro» ou «cavaIo».
154
Drc|cn significa «dragão» ou «serpenle». Lnlre 624 a. C. e
621 a. C., parle das Ieis alenienses foram reduzidas a escrilo. NeIas se in-
lroduz, peIa primeira vez na Grécia, a dislinção fundamenlaI enlre lomi-
cídio voIunlário e invoIunlário. Lsla empresa foi alribuída a um cerlo
Drácon, de cuja exislôncia aIguns lisloriadores duvidam. Mais larde,
Drácon ficará famoso por ser exlremamenle severo, donde o adjeclivo
«draconiano» que ficou proverbiaI. Cf. ArislóleIes, Pc|iiicc II 12.
155
1rcc!cs, 99O. O nome da deusa Afrodile, responsáveI primeira
peIa deslruição de Tróia e peIa desgraça de Hécuba, começa por eçpcouvp
(insensalez, Ioucura).
156
Hrv0ru¸ (nome próprio) e arv0c¸ (Iulo, lrisleza). }ogo de paIavras
de acordo com a nalureza lrágica do lerói. Cf. Lurípides, 8ccc|cc, 5O8.
Quanlo a Querémon, só sabemos que foi um poela lrágico do sécuIo IV a. C.
229
sas aparecem mais cIaras ao ouvinle quando se apresenlam em
paraIeIo. De lodos os siIogismos refulalivos e demonslralivos,
os de maior apIauso são aqueIes em que, sem serem superfi-
ciais, se prevô desde o princípio a concIusão (porque os ouvin-
les senlem-se, ao mesmo lempo, mais salisfeilos, peIo faclo de
os lerem pressenlido), assim como aqueIes que só são enlendi-
dos à medida que vão sendo enunciados.
24
O USO DE ENTIMEMAS APARENTES
Mas como pode laver um siIogismo |verdadeiroj e oulro
que, sem o ser, pareça que o é, necessariamenle lambém lave-
rá um enlimema |verdadeiroj e oulro que, sem ser enlimema,
pareça que o é, dado que o enlimema é uma espécie de siIo-
gismo. São lópicos dos enlimemas aparenles os seguinles:
Im provém da expressão
157
. Ima parle desle consisle,
como na diaIéclica, em dizer no fim, à guisa de concIusão, o
que ainda não se concIuiu no siIogismo: «uma coisa não é islo
e aquiIo, Iogo, será necessariamenle islo e aquiIo». No caso dos
enlimemas, expressar uma coisa de forma concisa e anlilélica
parece ser um enlimema (pois laI forma de expressão é domí-
nio do enlimema) e parece que laI processo deriva da própria
forma de expressão. Iara se exprimir de maneira semeIlanle à
do siIogismo, é uliI enunciar os ponlos capilais de muilos siIo-
gismos. Ior exempIo: saIvou uns, casligou oulros, Iiberlou os
Gregos
158
. Ora, cada um desles ponlos já eslava demonslrado
por oulros, mas quando se reunem lem-se a impressão de que
deIes resuIla aIguma concIusão.
Oulro enlimema aparenle é o que procede da lomoní-
mia
159
. Ior exempIo, dizer que um rcic é um animaI de mérilo
porque deIe procede o mais venerado rilo de iniciação, uma
vez que os misicrics são as cerimónias mais veneráveis de lo-
14O1a
157
Hepe tpv ìr¸tv.
158
LxempIos exlraídos do |.4gcrcs de Isócrales (65-69), que cuIliva
um lípico discurso epidíclico em lonra do rei de SáIamis em Clipre.
159
Sobre esle lópico, cf. ArislóleIes, Scp|isiici c|cnc|i 4, 165b31-
-166a22, e Pcciicc 25, 1461a.
230
das
16O
. Caso semeIlanle é o da pessoa que, para eIogiar um
cão, o comparasse ao Cão ceIesle
161
ou a Iã, porque Iíndaro
disse:
O| !iicsc c¡uc|c c ¡ucm !c grcn!c !cusc c4c mu|iijcrmc
c|cmcm cs O|impics
162
,
ou que não ler sequer um cão em casa é uma desonra, de sorle
que o cão é evidenlemenle uma coisa lonrosa. Oulro exempIo
é dizer que Hermes é o mais comunicalivo
163
dos deuses, por-
que é o unico que se clama «comum Hermes»
164
. Oulro ainda
é dizer que c pc|c.rc (ìeyc¸) é o que lá de mais precioso, por-
que os lomens loneslos não são dignos de dinleiro, mas de
consideração. Com efeilo, esla expressão não se uliIiza univo-
camenle.
Oulro lópico consisle em argumenlar combinando o que
eslava dividido ou dividindo o que eslava combinado. Iorque,
como uma mesma coisa parece o que muilas vezes não é, con-
vém fazer o que das duas coisas for mais uliI em cada caso.
TaI é o argumenlo uliIizado por Lulidemo
165
, quando, por
exempIo, diz saber que lá uma lrirreme no Iireu, porque cada
um desles lermos é conlecido, islo é, a lrirreme e o Iireu. L o
mesmo se diga nas ocasiões em que aIguém suslenla que co-
nlecer as Ielras é conlecer a paIavra, uma vez que a paIavra é
16O
De novo, jogo de paIavras enlre µu¸ (ralo) e µuctqpte (mislérios).
161
Como saIienla Kennedy (n. 236) «lle melaploricaI meaning of
!cg lere is uncIear», mas lambém não permile a inlerprelação do comen-
lador medievaI Sleplanus, que vô nesle sinlagma uma referôncia cIara a
Diógenes e aos Cínicos. Na miloIogia, a consleIação do Sírio inlroduz os
dias do Cão. Cf. ||., 22.27-29.
162
Ir. 96 SneII. A «grande deusa», no lempo de Iíndaro, parece ser
mais Deméler que CíbeIe, cujo cuIlo, vindo da Irígia, só se espaIlaria por
loda a Grécia em época poslerior à de Iíndaro.
163
kctvævtkev.
164
Teofraslo (C|crccicrcs, 3O) expIica o equívoco desla expressão que
se lornou proverbiaI: Hermes, enlre muilas oulras funções, era deus dos
aclados. Quando aIguém enconlrava no clão um objeclo de vaIor, o acom-
panlanle (|cincncs) recIamava a melade excIamando: «|cincs Hermes».
165
Sofisla originário de Quios, meslre em eríslica ou arle de dispu-
lar, que dá nome ao céIebre diáIogo de IIalão, |uii!cmc. ArislóleIes, nas
Rcjuicçccs Scjisiiccs 2O, 177b12, discule as faIácias de Lulidemo.
231
o mesmo que as Ielras. L ainda quando se afirma que, se a dose
dupIa é nociva à saude, a dose simpIes não pode ser saudáveI.
Seria absurdo que duas coisas boas somassem uma má. Assim
apresenlado, o enlimema é refulalivo, mas passa a demonslra-
livo, se for apresenlado da maneira seguinle: não é possíveI que
um bem seja dois maIes. Mas, lodo esle lópico é paraIogíslico.
Como lambém o é aqueIe dilo de IoIícrales sobre TrasibuIo
166
,
a saber: que linla Iiquidado lrinla liranos, já que procedeu
assim por acumuIação. Ou o que se diz no Orcsics de Teo-
decles, que consisle numa divisão:
jusic c ¡uc, sc umc mu||cr mcic c scu mcri!c.
morra eIa lambém, e que o fiIlo vingue o pai. De faclo, foi isso
que aconleceu. Mas, junlando as duas coisas, esles faclos laI-
vez não sejam uma coisa jusla. Também pode laver aqui um
paraIogismo de omissão, uma vez que se evila dizer por obra
de quem foi morla a muIler.
Oulro consisle em eslabeIecer ou refular um argumenlo
por meio do exagero. Islo aconlece quando, sem se provar que
se fez nem que nem se fez, se ampIifica o faclo: é que islo cria
a iIusão de que ou não se fez, quando quem ampIifica é quem
suslenla a causa, ou que se fez, quando o acusador é quem
ampIifica. Na reaIidade, não lá enlimema, porque o ouvinle
cai em paraIogismo ao juIgar o que o acusado fez ou não fez,
sem que laI esleja demonslrado.
Oulro lópico lira-se do signo, lambém aqui não lá siIo-
gismo. Ior exempIo, se aIguém dissesse: «às cidades são uleis
os amanles, porque o amor de Harmódio e de Arislogílon der-
rubou o lirano Hiparco»
167
. Ou ainda se aIguém dissesse que
Dionísio
168
é Iadrão, porque é mau. Ora islo não é um siIo-
gismo, porque nem lodo o mau é Iadrão, embora lodo o Ia-
drão seja mau.
14O1b
166
Trala-se de TrasibuIo de Lslíria (ver suprc, n. 146 e 151). O sofis-
la IoIícrales pediu para TrasibuIo, que linla poslo fim ao regime dos Trin-
la, irinic recompensas. Cf. o episódio em QuinliIiano, |nsiiiuiic crcicric,
III, 6, 26.
167
A propósilo desla versão, cf. Tucídides, 6.54. O argumenlo em
si é relirado do discurso de Iausânias. Cf. IIalão, Sµmpcsium, 182c.
168
Im dos liranos de Siracusa enlre 4O5 a. C. e 343 a. C.
232
Oulro decorre do acidenle. Ior exempIo, aquiIo que IoIí-
crales diz a respeilo dos ralos: «que preslaram um grande ser-
viço roendo as cordas do arco»
169
. Ou ainda se aIguém disses-
se que o faclo de ser convidado para um banquele é o mais
aIlo sinaI de dislinção, dado que, por não ler sido convidado,
AquiIes ficou ressenlido conlra os Aqueus em Ténedos
17O
. Ii-
cou ressenlido por se senlir desconsiderado, embora laI lenla
aconlecido por não ler sido convidado.
Oulro lópico lira-se da consequôncia. Ior exempIo, no
A|cxcn!rc
171
diz-se que eIe era magnânimo, porque, despre-
zando a companlia de muilos da sua iguaIla, passava a vida
sozinlo no Monle Ida. Ora, como os magnânimos lôm lais ca-
racleríslicas, lambém se poderia pensar que eIe era magnâni-
mo. Do mesmo modo, porque um lomem é eIeganle e anda
a passear à noile, se concIui que é aduIlero, uma vez que os
aduIleros são assim. Sofisma anáIogo é dizer que nos lempIos
os mendigos canlam e dançam e que os exiIados podem vi-
ver onde quiserem, e como parece que os que podem fazer
islo são feIizes, lambém aqueIes a quem lais Iiberdades são
permilidas podem parecer feIizes. Mas loda a diferença eslá
no ccmc, peIo que esle sofisma incorre no paraIogismo de
omissão.
Oulro consisle em apresenlar o que não é causa, como
causa. Ior exempIo: quando aconlecem várias coisas ao mes-
mo lempo ou umas a seguir às oulras. O que aconlece «depois
disso» loma-se como se fosse «a causa disso». Lsle processo
emprega-se sobreludo em poIílica. Ior exempIo, Demades
172
dizia que o governo de Demóslenes era a causa de lodos os
maIes, porque depois deIe veio a guerra.
169
Sofisla conlecido por uma céIebre Acuscç4c !c Sccrcics escrila por
voIla de 393-394 a. C. Ioi lambém aulor de várias apoIogias e de um
Pcncgiricc !c Rcic. Acerca desle episódio, veja-se Heródolo, II, 141, que
alribui o fracasso da expedição de Senaqueribe ao Lgiplo a uma invasão
de ralos que roeram as cordas dos arcos e as correias dos carros do exér-
cilo assírio.
17O
Lsle episódio é anlerior à guerra de Tróia. SófocIes compôs so-
bre o assunlo uma lragédia loje perdida.
171
TaIvez se lrale de aIguma apoIogia anónima do lroiano Iáris.
172
IoIílico e orador aleniense, morlo em 318 a. C. Iarlidário pró-
-macedónio depois de Queroneia (338), foi cerlamenle um adversário de
Demóslenes.
233
Oulro consisle na omissão do quando e do como. Dizer,
por exempIo, que AIexandre raplou HeIena juslamenle, uma
vez que o pai desla Ile concedera o direilo de escoIler o ma-
rido. TaI direilo não era váIido para sempre, mas só a primeira
vez, porque o pai linla auloridade só alé esse momenlo. Ou se
aIguém dissesse que baler em lomens Iivres é uIlrajanle, pois
isso não é absoIulo em lodos os casos, só naqueIes em que aI-
guém loma a inicialiva de baler injuslamenle.
L ainda, laI como na eríslica, do faclo de se poder consi-
derar uma coisa absoIulamenle e não absoIulamenle, mas só
em reIação a uma coisa, resuIla um siIogismo aparenle. Ior
exempIo, na diaIéclica, afirmar que o não-ser exisle, porque o
não ser é não-ser, e que o desconlecido é objeclo de conle-
cimenlo, porque o incognoscíveI, enquanlo incognoscíveI, cons-
lilui objeclo de conlecimenlo cienlífico. Assim lambém, na
relórica, lá um enlimema aparenle do não absoIulamenle pro-
váveI, mas do prováveI em reIação a aIgo. Lsla probabiIidade
não é universaI, como lambém diz Ágalon:
8cm sc pc!cric !izcr ¡uc c unicc prc.4.c| c ¡uc
ccs mcricis cccnicçcm muiics cciscs imprc.4.cis.
173
De faclo, o que eslá à margem da probabiIidade produz-
-se, de laI maneira que lambém é prováveI o que eslá fora da
probabiIidade. Se assim é, o improváveI será prováveI, mas não
em absoIulo. Do mesmo modo que na eríslica, o não acrescen-
lar em que medida, em reIação a quô e de que modo lorna o
argumenlo capcioso, lambém aqui, na relórica, aconlece o mes-
mo, porque o improváveI é prováveI, mas não de forma abso-
Iula, só reIaliva. L desle lópico que se compõe a Aric de
Córax
174
: «se um lomem não dá prelexlo a uma acusação, por
exempIo, se, sendo fraco, for acusado de vioIôncias (porque não
é prováveI), mas se der azo a uma acusação, por exempIo, se
for forle (dir-se-á que não é prováveI, juslamenle porque ia
14O2a
173
Ir. 9 Nauck.
174
Córax e o seu discípuIo, Tísias, consideravam o ensino da reló-
rica como uma arle. Iundaram escoIas na SíciIia no segundo quarleI do
sécuIo V a. C. A referôncia expressa à Aric de Córax deve ser confronlada
com a descrição que faz IIalão (Ic!rc, 267a e 273e) da relórica da proba-
biIidade (ic ci|cs).
234
14O2b
parecer prováveI)». O mesmo se diga em reIação a oulros ca-
sos, uma vez que, forçosamenle, um lomem dá ou não dá azo
a ser acusado. Ambos os casos, parecem, pois, prováveis, mas
um parecerá prováveI, ao passo que o oulro não absoIulamen-
le prováveI, a não ser como dissemos. Também nislo consisle
lornar mais forle o argumenlo mais fraco. Daqui que, com jus-
liça, os lomens se senlissem lão indignados com a decIaração
de Irolágoras
175
, pois é um Iogro e uma probabiIidade não
verdadeira, mas aparenle, e não exisle em nenluma oulra arle,
a não ser na relórica e na eríslica.
25
O USO DE ENTIMEMAS: A REFUTAÇÃO
IaIámos dos enlimemas, lanlo dos que são, como dos que
aparenlam sô-Io. A seguir lralaremos da refulação. Iodemos
refular de duas maneiras: ou fazendo um conlra-siIogismo, ou
aduzindo uma objecção. O conlra-siIogismo, como é óbvio,
pode ser feilo a parlir dos mesmos lópicos, uma vez que os
siIogismos derivam de opiniões comuns, muilas deslas opi-
niões, porém, são conlrárias umas às oulras. As objecções
liram-se, como nos 1cpiccs, de qualro Iugares: do próprio enli-
mema, ou do seu semeIlanle, ou do seu conlrário, ou de coi-
sas já juIgadas.
A parlir do próprio enlendo, por exempIo, o faclo de aI-
guém apresenlar um enlimema sobre o amor e o cIassificar
como virluoso. Aqui, a objecção seria feila de duas maneiras:
ou dizendo, em geraI, que loda a indigôncia é má ou, parciaI-
menle, que não se faIaria de «amor de Cauno»
176
, se não lou-
vesse lambém amores perversos.
A parlir do conlrário lira-se uma objecção, por exempIo:
se o enlimema consislisse em dizer que o lomem bom faz bem
175
O argumenlo «lornar a causa mais fraca na mais forle», que
ArislóleIes alribui a Irolágoras, é, em Arislófanes, molivo de crílica à
sofíslica (cf. Nu.cns, 889 ss.).
176
A expressão aIude a amores incesluosos. Segundo o milo, Cauno,
fiIlo de MiIelo, exiIou-se para não ceder ao amor incesluoso de BíbIis,
sua irmã gémea. Cf. a versão de Ovídio, Mcicm., 9.453 ss.
235
a lodos os amigos, a conlraposição seria dizer que o lomem
mau faz maI a lodos.
A parlir do semeIlanle, por exempIo: se o enlimema con-
sislisse em dizer que os que foram maI lralados odeiam sem-
pre, conlrapor que os que foram bem lralados amam sempre.
Quanlo aos juízos que procedem de lomens famosos: por
exempIo, se o enlimema diz que convém ser induIgenle com
os bôbedos, porque pecam por ignorância, deve objeclar-se que,
nesse caso, Iílaco
177
não merece quaIquer eIogio, uma vez que
não promuIgou penas mais severas para os que comelem faI-
las em eslado de embriaguez.
Os enlimemas formuIam-se a parlir de qualro lópicos e
esles qualro são: a probabiIidade
178
, o exempIo
179
, c ic|mc-
ricn
18O
, o sinaI
181
, por oulro Iado, lá enlimemas que se liram
da probabiIidade que, as mais das vezes, é reaI ou parece sô-
-Io, lá lambém os que se liram por indução, a parlir da seme-
Ilança de um ou de muilos faclores, quando, lomando o geraI,
se clega Iogo por siIogismos ao parlicuIar medianle o exem-
pIo, lá ainda os que se liram do necessário e do que sempre é,
por meio do ic|mcricn, oulros oblôm-se por generaIização ou a
parlir do que é em parlicuIar, quer exisla quer não, por meio
de sinais. Ima vez que o prováveI não é o que sempre se pro-
duz, mas sim a maioria das vezes, é evidenle que esles enli-
memas podem sempre refular-se aduzindo uma objecção.
Trala-se de uma refulação aparenle, mas nem sempre verda-
deira, uma vez que para o proponenle não se lrala de refular
que laI coisa é prováveI, mas de provar que não é necessária.
Ior isso, lem sempre mais vanlagem aqueIe que defende
do que aqueIe que acusa, devido juslamenle a esle paraIogismo.
O acusador, por seu Iado, fundamenla a sua demonslração nas
probabiIidades: com efeilo, refular que aIgo não é prováveI não
177
Iílaco de Iesbos exerceu em MiliIene, duranle dez anos, a fun-
ção de elouµvqtpp (árbilro enlre facções poIílicas de uma cidade e respon-
sáveI peIo eslabeIecimenlo da paz em lempo de guerra civiI). ArislóleIes
define esle cargo como uma «lirania eIecliva» (Pc|iiicc III 9).
178
Llke¸.
179
Hep6órtyµe.
18O
1rkµqptcv. Irova ou argumenlo concIudenle.
181
îpµrtcv. Também signo ou indício.
236
é o mesmo que refular que não é necessário. L como o que ge-
raImenle aconlece comporla sempre uma objecção (porque o
prováveI não poderia ser, simuIlaneamenle, o que sempre acon-
lece, mas sempre e necessariamenle), o juiz, por seu Iado, ima-
gina, ou que a refulação é assim mesmo, ou que o faclo não é
prováveI, ou que não Ile compele juIgar, e nisso cai em
paraIogismo, como já dissemos anles (porque eIe deve juIgar,
não só parlindo do necessário, mas lambém do prováveI, e é
nislo que consisle «juIgar segundo a meIlor consciôncia»). As-
sim sendo, não basla refular moslrando que uma coisa não é
necessária, a refulação deve iguaImenle moslrar que não é pro-
váveI. Clegar-se-á a esla concIusão, se a objecção se fundamen-
lar principaImenle no que aconlece com mais frequôncia.
L admissíveI que islo aconleça de duas maneiras: ou com lem-
po ou com faclos. No enlanlo, a objecção será mais forle se se
fundamenlar em ambos os crilérios ao mesmo lempo, pois,
quanlo mais vezes um faclo aconlece e aconlece do mesmo
modo, lanlo mais prováveI será.
Refulam-se lambém os sinais e os enlimemas baseados
neIes, mesmo que sejam reais, como dissemos no Iivro primei-
ro. Que lodo o sinaI é impróprio para o siIogismo, já o demons-
lrámos nos Anc|iiiccs
182
.
Ior oulro Iado, no que concerne aos exempIos, a refula-
ção é a mesma que a uliIizada para as probabiIidades. Se lá
um caso que seja diferenle, o argumenlo é refulado, dizendo
que não é necessário, mesmo se, na maior parle dos casos ou
das vezes, se repele de maneira diferenle, e ainda que, na maior
parle dos casos e com mais frequôncia, assim aconleça, lá que
combaler o adversário suslenlando que o caso presenle não é
semeIlanle, ou que não se deu de maneira semeIlanle, ou que
comporla aIguma diferença.
Quanlo às provas concIudenles e aos enlimemas baseados
neIas, não é possíveI refulá-Ios argumenlando que são impró-
prios de um siIogismo (o que lambém já escIarecemos nos
Anc|iiiccs). Assim sendo, o unico caminlo que nos resla é mos-
lrar que o argumenlo aIegado não lem quaIquer perlinôncia.
Mas, se se admilir que é perlinenle e que conslilui uma prova
concIusiva, enlão lorna-se irrefuláveI e ludo se converle numa
demonslração evidenle.
14O3a
182
Cf. Anc|µiicc pricrc II 27, 7Oa24-37.
23¯
26
CONCLUSÃO DOS DOIS PRIMEIROS LIVROS
AmpIificar e diminuir não são um eIemenlo do enlimema.
Lnlendo por «eIemenlo» e «lópico» uma e a mesma coisa, por-
que é eIemenlo e lópico aquiIo a que se reduzem muilos
enlimemas. AmpIificar e diminuir são enlimemas que visam
moslrar que uma coisa é grande ou pequena, boa ou má, jusla
ou injusla, ou que possui oulras quaIidades. A lodas eslas coi-
sas se referem os siIogismos e os enlimemas, de sorle que, se
nenluma deIas conslilui lópico do enlimema, a ampIificação e
a diminuição lambém não o serão.
Não são as refulações uma espécie de enlimemas |diferen-
le dos que já eslabeIecemosj, pois é evidenle que refula, ou
quem demonslra, ou quem aduz uma objecção, apresenlando
assim a conlrademonslração de um faclo oposlo. Ior exempIo,
se o adversário moslrou que um faclo se deu, esle moslrará que
não se deu, se o adversário provou que não se deu, esle pro-
vará que se deu. De sorle que não lá diferenças (pois ambas
as parles empregam os mesmos argumenlos, dado que ambos
aduzem enlimemas sobre o que não é e sobre o que é).
A objecção lambém não é um enlimema, mas, como já se disse
nos 1cpiccs
183
, consisle em apresenlar uma opinião da quaI re-
suIlará cIaramenle que o adversário não procedeu por siIo-
gismo ou que inlroduziu aIgum eIemenlo faIso.
Assim, como lrôs são as malérias que precisam de ser lra-
ladas referenles ao discurso, a propósilo dos exempIos, das
máximas e dos enlimemas, e, de um modo geraI, de ludo quan-
lo diz respeilo à inleIigôncia, e como já assinaIámos lambém
de onde poderemos exlrair os argumenlos e o modo de os re-
fular, resla-nos agora faIar do esliIo e da composição.
14O3b
183
TaIvez 1cpiccs VIII 1O, 161a1. Mas crô-se que a cilação eslá erra-
da, remelendo para os Anc|µiicc pricrc anleriormenle cilados.
LIVRO III
241
1
INTRODUÇÃO
São lrôs os aspeclos concernenles ao discurso que lôm de
ser lralados. O primeiro, de onde provôm as provas, o segun-
do é reIalivo à expressão enuncialiva
1
, o lerceiro, à forma como
convém forçosamenle organizar as parles do discurso. Sobre as
provas já se faIou: quanlas são as fonles, que são lrôs, quais
são eIas, e por que razão lá somenle eslas lrôs (é que lodos os
lomens, ao fazerem um juízo, são persuadidos, ou porque são
lomados por uma cerla emoção, ou porque consideram que o
orador possui cerlas quaIidades, ou porque louve uma de-
monslração concIudenle). Tralou-se lambém dos enlimemas e
de onde são necessariamenle exlraídos (pois, por um Iado, exis-
lem as espécies de enlimemas, por oulro, os lópicos). Será ne-
cessário, agora, discorrer sobre a expressão. L que, na verdade,
não basla possuir o que é preciso dizer, mas lorna-se lambém
forçoso expor o assunlo de forma convenienle, e islo conlribui
em muilo para moslrar de que lipo é o discurso.
Lm primeiro Iugar, de acordo com a nalureza do assunlo,
examinou-se aquiIo que é naluraImenle primeiro, ou seja, os
eIemenlos a parlir dos quais se oblém a persuasividade. Ago-
ra, em segundo Iugar, ver-se-á a disposição desles eIemenlos
no enunciado. O lerceiro dos ponlos, que delém a maior im-
porlância e que ainda não foi lralado, será o dos aspeclos res-
peilanles à pronunciação
2
. Lsla, na reaIidade, só muilo larde
1
Ior ìr¸t¸ enlendemos a expressão Iinguíslica, o enunciado, o esliIo.
2
Ior «pronunciação» lraduzimos o lermo uaekptot¸, equivaIenle ao
Ialino cciic ou prcnuniiciic. O lermo refere-se propriamenle ao aclo de pro-
242
fez a sua enlrada, incIusivamenle na lragédia e na rapsódia
3
,
pois, iniciaImenle, eram os próprios poelas a represenlar as sua
lragédias. L, porém, evidenle que exisle aIgo desle género lam-
bém na relórica, laI como na poesia, aspeclo que aIguns oulros
aulores lralaram, como GIáucon de Teo
4
.
A pronunciação assenla na voz, ou seja, na forma como é
necessário empregá-Ia de acordo com cada emoção (por vezes
forle, por vezes débiI ou média) e como devem ser empregues
os lons, ora agudos, ora graves ou médios, e lambém quais os
rilmos de acordo com cada circunslância
5
. São, por conseguin-
le, lrôs os aspeclos a observar: são eIes voIume, larmonia e
rilmo. AqueIes que, enlre os compelidores, empregam esles lrôs
aspeclos arrebalam quase lodos os prémios, e laI como os ac-
lores lôm agora mais infIuôncia nas compelições poélicas do
que os aulores, o mesmo se passa nos debales deIiberalivos
devido à degradação das insliluições poIílicas.
Nenlum lralado, porém, foi composlo sobre esla lemálica,
vislo que mesmo os aspeclos concernenles ao esliIo só muilo
larde começaram a ser considerados. AIém disso, quando de-
vidamenle examinada, parece assunlo vuIgar. Todavia, uma
vez que loda a maléria concernenle à relórica eslá reIacionada
com a opinião pubIica
6
, devemos preslar alenção à pronuncia-
ção, não porque eIa em si é jusla, mas porque é necessária. Iois
o que é juslo é que deve ser aImejado num discurso, mais do
que não desagradar ou agradar. }uslo é compelir com os faclos
por si só, de forma que lodos os eIemenlos exleriores à de-
14O4a
nunciar o discurso em pubIico, com lodo um conjunlo de lécnicas que
vão desde a projecção da voz ao próprio movimenlo do corpo do orador.
Veja-se Iongino, Ars (SpengeI, Rnci. Grccc., 1, 31O), Rnci. Hcr., 3, 11.19-36,
QuinliIiano, 11.3.
3
Trala-se de recilação de poemas épicos.
4
IrovaveImenle lrala-se do GIáucon cilado por IIalão, |cn, 53Od,
aulor de um dos mais anligos lralados de crílica Iilerária.
5
Desla forma, ArislóleIes abarca lrôs dos principais parâmelros da
represenlação sonora: inlensidade ou voIume, larmonia, aqui designado
epµcvIe, respeila à propriedade de um som ser mais agudo ou mais gra-
ve, rilmo, parâmelro que diz respeilo à disposição dos eIemenlos no vec-
lor lempo. Cícero, Dc crcicrc, 3.57-58. AnáIise desle aspeclo em Cope,
|nirc!., pp. 379-392.
6
Ior «opinião pubIica» lraduzimos óe¸e. A concepção de que a re-
lórica visa a aceilação por parle do ouvinle é pIalónica (Gcrgics, 5O2e).
243
monslração são supérfIuos. Lm lodo o caso, eIa é exlremamen-
le imporlanle, como foi dilo, por causa do baixo níveI do audi-
lório. Daí que, em quaIquer mélodo de ensino, seja necessário
que laja aIgo referenle à expressão, pois, no que respeila a de-
monslrar aIgo com cIareza, lá uma cerla diferença enlre expri-
mirmo-nos desle ou daqueIe modo. LIa não é cerlamenle mui-
lo grande, mas ludo islo consisle num processo de expor e
deslina-se a um ouvinle. L por isso é que ninguém ensina geo-
melria desla forma.
Na verdade, sempre que a pronunciação clega a ser con-
siderada, fará o mesmo efeilo que represenlar, apenas aIguns
aulores lenlaram dizer aIgo, e muilo pouco, acerca da pronun-
ciação, como Trasímaco nos ||ccs
7
. AIém disso, a represenla-
ção lealraI é aIgo inalo e o mais desprovido de lécnica arlísli-
ca, enquanlo na expressão enuncialiva é um eIemenlo arlíslico.
Ior isso, os aclores que são meIlores nesle aspeclo ganlam e
lornam a ganlar prémios, laI como os oradores peIa pronun-
ciação. Na verdade, lá discursos escrilos que oblôm muilo mais
efeilo peIo enunciado do que peIas ideias.
Os poelas foram os primeiros, como seria naluraI, a dar
um impuIso a esle aspeclo. Lfeclivamenle, paIavras são imila-
ções, e a voz é, de lodos os nossos órgãos, o mais apropriado
à imilação. Ior isso, as arles que foram enlão eslabeIecidas
foram a rapsódia e a represenlação lealraI, aIém de oulras
mais. L uma vez que os poelas, embora dizendo coisas fuleis,
pareciam obler renome graças à sua expressão, por esla mes-
ma razão foi um lipo de expressão poélica o primeiro a sur-
gir, como a de Górgias
8
. L ainda agora muilas pessoas sem
inslrução pensam que são esles oradores os que faIam da for-
ma mais beIa.
7
Trasímaco da CaIcedónia foi um sofisla e relor cuja aclividade se
cenlra no uIlimo lerço do sécuIo V. Na lislória da oralória, a sua impor-
lância reside em queslões como o emprego das emoções na cciic e o inle-
resse devolado ao rilmo e à conslrução do período. IIalão, Ic!rc, 267c e
271a, Cícero, Orcicr, 12.39.
8
Trala-se de um dos mais infIuenles e marcanles sofislas (sé-
cuIos V-IV a. C.) da lislória da relórica anliga. As caracleríslicas mais
famosas são o uso de cerlas figuras de esliIo de grande efeilo como as
eslruluras anlilélicas, os isocoIos, a parisose e o lomeoleIeulo (as clama-
das «figuras gorgiânicas»).
244
Islo, porém, não é assim, pois a expressão própria da poe-
sia é diferenle da do discurso. L o resuIlado é manifeslo: nem
os aulores de lragédia uliIizam já o mesmo modo. Mas laI
como mudaram de lelrâmelros para o jambo, porque esle era
de lodos os oulros rilmos o mais semeIlanle à prosa, assim
abandonaram as paIavras que eram exleriores à Iinguagem
correnle, com as quais os predecessores ornamenlavam o seu
discurso, laI como, ainda agora, os aulores de lexâmelros. Ior
isso, é ridícuIo imilar aqueIes que já não usam aqueIe esliIo de
expressão. Assim sendo, é evidenle que não é necessário exa-
minarmos pormenorizadamenle ludo o que lá sobre a expres-
são enuncialiva, mas apenas os aspeclos reIalivos ao assunlo
que eslamos aqui a expor. L aqueIe oulro lipo de expressão
referido já foi lralado na Pcciicc
9
.
2
QUALIDADES DO ENUNCIADO. A CLAREZA
Consideremos, por conseguinle, que eslas queslões foram
já examinadas e proponlamos como definição que a virlude
suprema da expressão enuncialiva é a cIareza
1O
. SinaI disso é
que se o discurso não comunicar aIgo com cIareza, não perfa-
rá a sua função própria. L eIe nem deve ser rasleiro, nem
acima do seu vaIor, mas sim adequado
11
. L verdade que o
esliIo poélico não será porvenlura rasleiro, mas nem por isso
é apropriado a um discurso de prosa. Ior seu lurno, enlre os
nomes e os verbos, produzem cIareza os que são «próprios»
12
,
14O4b
9
ArislóleIes, Pcciicc 19-22.
1O
L um dos lermos cenlrais da relórica cIássica. Corresponde ao
lermo Ialino pcrspicuiics.
11
1è apracv, no originaI. Trala-se de um lermo de difíciI lradução.
Significa essenciaImenle a larmonia enlre os eIemenlos discursivos e bem
assim do seu conleudo e da circunslância sociaI em que se dá o aclo
enuncialivo. Corresponde à noção de cpiun na leoria Ialina.
12
Lm grego te kupte. Trala-se do nome no seu senlido prevaIe-
cenle, que se usa especificamenle para designar cada objeclo ou enlidade
em Iinguagem comum (que se opõe a nomes insóIilos ou eslranlos).
Cf. Pcciicc 21, 1457b3, Cícero, Dc crcicrc, 3, 37.149.
245
ao passo que oulros lipos de paIavras, que foram disculidos
na Pcciicc
13
, produzem não um esliIo correnle
14
, mas orna-
menlado.
Ior conseguinle, o afaslamenlo do senlido correnle faz um
discurso parecer mais soIene. Na verdade, as pessoas senlem
peranle faIanles eslrangeiros e concidadãos o mesmo que com
a expressão enuncialiva. L necessário, porlanlo, produzir uma
Iinguagem não famiIiar
15
, pois as pessoas admiram o que é
afaslado, e aquiIo que provoca admiração é coisa agradáveI. Na
poesia, esle efeilo é produzido por muilos eIemenlos, e é so-
breludo aí que lais paIavras são ajusladas, pois esla eslá mais
afaslada dos assunlos e das personagens de que o discurso lra-
la. Na prosa, porém, lais recursos são menores, pois o lema é
menos eIevado. De reslo, lambém na poesia será inapropriado
que um escravo ou aIguém demasiado jovem ou sobre um
assunlo demasiado lriviaI pronuncie beIas paIavras. Na prosa,
o que é apropriado pode ser oblido iguaImenle quer con-
cenlrando quer ampIiando. L por islo que os aulores, ao com-
porem, o devem fazer passar despercebido e não moslrar
cIaramenle que faIam com arlificiaIidade, mas sim com nalura-
Iidade, pois esle uIlimo modo resuIla persuasivo, o anlerior, o
oposlo. Na verdade, as pessoas enclem-se de indignação como
conlra aIguém que conlra eIas conspirasse, laI como peranle vi-
nlos aduIlerados. Lra islo que se passava com a voz de Teo-
doro
16
em comparação com a dos oulros aclores: aqueIa pare-
cia, na verdade, perlencer à personagem, ao passo que as
oulras pareciam perlencer a oulras personagens quaisquer.
Iassa correclamenle despercebido o arlifício se se compõe es-
coIlendo-se paIavras da Iinguagem de lodos os dias: islo é o
que Lurípides faz e foi eIe o primeiro a moslrá-Io
17
.
13
Pcciicc 21.
14
Ou seja, a Iinguagem do dia-a-dia.
15
A expressão lerminoIógica ìr¸t¸ ¸rvtkq é de difíciI lradução. Re-
fere-se a aIgo «eslrangeiro», ou seja, não famiIiar, eslranlo.
16
Aclor famoso dos inícios do sécuIo IV a. C. (ArislóleIes, Pc|iiicc
IV 17, 1336b28).
17
Ima das caracleríslicas do enunciado euripidiano, sobreludo na
sua fase lardia, mais em evidôncia na opinião dos crílicos anligos (por
exempIo, Dionísio de HaIicarnasso, |nii., 6.2).
246
Dos nomes e dos verbos de que o discurso é composlo
(sendo os lipos de nomes aqueIes que foram já examinados na
Pcciicc
18
), devem uliIizar-se, pouquíssimas vezes e em numero
reduzido de siluações, paIavras raras
19
, lermos composlos e neo-
Iogismos (onde, diremos mais larde
2O
, a razão para laI já foi
dila: pois ao lenderem para a eIevação, afaslam-se do que é
adequado). Só o lermo «próprio» e «apropriado»
21
e a meláfo-
ra são vaIiosos no esliIo da prosa. SinaI dislo é que são só es-
les que lodos uliIizam. Na verdade, lodos faIam por meio de
meláforas e de paIavras no seu senlido «próprio» e «apropria-
do», o que desle modo demonslra que, se se compõe correcla-
menle, o lexlo resuIlará aIgo de não famiIiar, mas, ao mesmo
lempo, será possíveI dissimuIá-Io e resuIlar cIaro. Lsla, disse, é
a maior virlude do discurso relórico. Ior seu lurno, as paIa-
vras uleis para o sofisla são as lomónimas (pois é por meio
deslas que eIe perfaz a sua má acção), para os poelas, os sinó-
nimos. Ior paIavras em senlido «próprio» e sinónimas refiro-
-me, por exempIo, a «ir» e «andar», pois ambas são empregues
em senlido «próprio» e são sinónimas uma da oulra.
Ora bem, a quaIidade de cada uma das paIavras desle
lipo, bem como quanlas são as formas de meláfora e que esle
eIemenlo possui a maior eficácia lanlo na poesia como no dis-
curso oralório, foi, como mencionámos, já lralado na Pcciicc
22
.
No discurso de prosa, porém, é necessário ler muilo mais cui-
dado em reIação a esles eIemenlos, lanlo mais que a prosa
possui menos recursos do que a poesia. L sobreludo a meláfo-
ra que possui cIareza, agradabiIidade e exolismo, e eIa não
pode ser exlraída de quaIquer oulro aulor. L necessário empre-
gar no discurso quer epílelos, quer meláforas ajusladas, e islo
provém da anaIogia. Se assim não for, a inapropriedade reve-
14O5a
18
Pcciicc 21.
19
iìæooe, em grego. O lermo refere-se a lermos inusilados ou caí-
dos em desuso, e por conseguinle de difíciI significação para o faIanle
comum.
2O
|njrc, caps. 3 e 7.
21
1e clkrIe eveµete, em grego. O lermo designa uma calegoria den-
lro das paIavras «próprias», exprimindo uma maior inlensidade de preci-
são: de enlre vários lermos «próprios», um será mais «apropriado».
22
Pcciicc 21-22.
24¯
Iar-se-á, pois é ao eslarem ao Iado uns dos oulros que os con-
lrários mais se evidenciam. Deve-se, lodavia, ponderar se, laI
como uma vesle escarIale é apropriada a um jovem, o poderá
ser a um veIlo (pois, a mesma indumenlária não é convenien-
le para ambos). Se lu desejares enaIlecer o assunlo, usa uma
meláfora relirada das de maior vaIor denlro do mesmo géne-
ro, mas se desejares censurar, uma relirada das de menor va-
Ior. Quero dizer, por exempIo, afirmar-se que uma pessoa que
mendiga «supIica» e uma pessoa que supIica «mendiga», por-
que são coisas conlrárias denlro do mesmo género, vislo que
ambas são formas de «pedir», perfaz o que foi dilo. TaI como
quando Ifícrales clamou a CáIias «sacerdole pedinle» em vez
de «sacerdole porla-arclole», esle afirmou que Ifícrales não era
iniciado: se fosse, não o leria denominado como «sacerdole pe-
dinle», em vez de «sacerdole porla-arclole»
23
. L que ambos
são lermos reIigiosos, mas um é presligianle, o oulro despresli-
gianle. Do mesmo modo, aqueIes a que clamamos «aduIadores
de Dioniso» denominam-se a si próprios «arlislas» (ambas são
meláforas, aqueIa dos delraclores, esla dos do parlido conlrário),
agora, alé os saIleadores se clamam a si próprios «lomens de
negócios», e por isso é que é Iícilo dizer que aqueIe que prali-
cou um deIilo comeleu um erro e que aqueIe que comeleu um
erro pralicou um deIilo, e daqueIe que roubou afirmar quer que
«lomou», quer que «arranjou». Ior seu lurno, é inapropriada
uma frase como a que diz o TéIefo de Lurípides
24
gc.crncn!c c rcnc c cncgcn!c c Misic,
porque «governar» é muilo superior ao que seria convenienle.
Assim, não resuIla despercebida.
Ior oulro Iado, lá um erro nas síIabas caso eIas não sejam
signos de uma sonoridade agradáveI, por exempIo, Dionísio
CaIco
25
, nas suas eIegias, apeIida a poesia de «grilo de CaIío-
23
Ifícrales foi um generaI aleniense (c. 415-354 a. C.) que combaleu
conlra Lpaminondas (ver suprc, I 7). CáIias era membro de uma famí-
Iia no sécuIo IV, que delinla um cargo no cuIlo de LIôusis (Xenofonle,
Hc||cnicc, 6, 3, 3).
24
Lurípides, fr. 7O5 Nauck.
25
Ioela aleniense do sécuIo V a. C., na sua poesia, conlam-se eIe-
gias simpólicas e enigmas com famosas meláforas. Os seus fragmenlos
enconlram-se em DielI, Ani. |µr., 1, 88-9O.
248
pe» pois ambos os lermos se referem a vozes, lodavia, a melá-
fora é defeiluosa 1com vozes que não são signos1
26
. L ainda
necessário usar meláforas provindas não de coisas muilo afas-
ladas, mas de coisas semeIlanles e do mesmo género e da
mesma espécie da do lermo usado, designando assim aIgo que
não lem designação, de forma que seja evidenle que eslão re-
Iacionadas. Ior exempIo, no renomado enigma
27
:
cu .i un ncncn cc|cr c jcgc |rcnzc c un ncncn.
Lfeclivamenle, esle padecimenlo não possui designação,
mas ambos são um lipo de apIicação (denomina-se «coIagem»
a apIicação da venlosa). L, com efeilo, a parlir de bons enig-
mas que se consliluem geraImenle meláforas apropriadas. Ora,
meláforas impIicam enigmas e, por conseguinle, é evidenle que
são bons mélodos de lransposição.
Ior oulro Iado, devem provir de coisas beIas. BeIeza ver-
baI, como Iicímnio diz, reside no som e no significado, e oulro
lanlo se passa com a feaIdade
28
.
Lm lerceiro Iugar ainda, eis o que conlradiz aqueIe argu-
menlo dos sofislas: pois, não é, como afirma Bríson
29
, que ne-
nluma expressão é em si mesmo feia, se se uliIizar uma ex-
pressão em vez de oulra que signifique a mesma coisa. Ora islo
é faIso, pois lá paIavras mais apropriadas do que oulras, e mais
semeIlanles ao objeclo e mais próprias para lrazer o assunlo
para dianle dos oIlos. AIém disso, não eslando nas mesmas
condições, uma paIavra quer dizer islo e aquiIo de laI forma
que, desle modo, lemos de admilir uma paIavra é mais feia ou
mais beIa que oulra: pois ambas significam o beIo e o feio, mas
não apenas de que forma a coisa é beIa ou feia, ou enlão po-
dem significar o mesmo, mas em maior ou menor grau.
Daqui é que se devem lirar as meláforas: de coisas beIas
quer em som, quer em efeilo, quer em poder de visuaIização,
14O5b
26
Texlo corruplo. Deve considerar-se do mesmo modo o lexlo que
figura enlre 1 alé finaI do Iivro.
27
Dilo muilo popuIar na Anliguidade, alribuído a CIeobuIina (lam-
bém cilado em ArislóleIes, Pcciicc 22, 1458a29).
28
Iicímnio de Quios foi um poela dilirâmbico do sécuIo V a. C.,
orador e aulor de lralados de relórica.
29
Bríson lerá sido discípuIo de Sócrales e de LucIides de Mégara.
A sua doulrina sobre os numeros foi popuIar enlre os eslóicos.
249
quer numa oulra quaIquer forma de percepção. Não é a mes-
ma coisa dizer, por exempIo, «aurora de dedos de rosa» ou «de
dedos de purpura», ou ainda, de forma mais pobre, «de dedos
rubros».
Também nos epílelos
3O
, é Iícilo apIicar coisas provindas
do viI e do vergonloso (como, por exempIo, «malricida»),
bem como do meIlor (como, por exempIo, «o vingador do
pai»)
31
. Simónides, quando o vencedor de uma compelição de
muIas Ile deu uma recompensa miseráveI, não quis compor
o poema, sob o prelexlo de que suporlava com dificuIdade
compor sobre «muIas»
32
, mas quando eIe Ile pagou o sufi-
cienle, escreveu
33
:
.i.c, ji|ncs !cs cc.c|cs !c pcs .c|czcs ccnc c icnpcsic!c!
L, conludo, eIas eram lambém fiIlas de burros.
O mesmo se pode obler por meio de diminulivos. Im
diminulivo é aqueIe que lorna mais pequeno lanlo uma coisa
má, como uma boa, como Arislófanes quando ironiza nos 8c-
|i|cnics
34
, empregando «ourozilo» por «ouro», «veslezila» por
«vesle», «injuriazila» por «injuria», «doençazila» por «doença».
Conludo, é necessário sermos cauleIosos e observarmos, em
ambos os casos, a jusla medida.
3
A ESTERILIDADE DO ESTILO
A esleriIidade
35
do esliIo reside em qualro aspeclos. Lm
primeiro Iugar, nas paIavras composlas, como, por exempIo,
quando Iícofron
36
diz «o céu de-muilas-faces da lerra de-eIe-
3O
Ior «epílelo» enlende-se um alribulo de um subslanlivo.
31
Lurípides, Orcsics, 1587-1588.
32
Ou seja «meio-burros» (\µtevc¸ em grego).
33
Simónides, fr. 515 Iage.
34
Arislófanes, fr. 9O Kock.
35
Ior «esleriIidade» lraduzimos te gu¿p6. Corresponde ao lermo
Ialino jrigi!un ou insu|sun.
36
Sofisla e relor da escoIa de Górgias (DK 2, 3O7-3O8).
250
vados-cimos» e «a cosla de-eslreilas-passagens». Ou laI como
Górgias clamava «engenlosos-no-mendigar» «jurando-em-
-faIso e jurando-com-sinceridade»
37
, ou mesmo como AIcida-
manle
38
, ao dizer «a aIma cleia de cóIera e o oIlar-ficando-
-cor-de-fogo», e que o zeIo se lornaria «produlor de um bom
fim», e que a persuasão das paIavras era «produlora de um
bom fim», e que a espuma do mar era «cor-de-azuI-escuro».
L que ludo islo, devido à sua composição, reveIa-se poélico.
Lsla é uma das causas. Oulra resuIla da uliIização de gIo-
sas
39
, laI como quando Iícofron apeIida Xerxes de «lomem-
-monslro» e Síron «lomem maIfeilor»
4O
, ou quando AIcidamanle
diz «brincadeiras na poesia», «insensala presunção da nalureza»
e «acicalado por cóIera não mislurada com discernimenlo».
O lerceiro aspeclo manifesla-se no uso de epílelos exlen-
sos, inoporlunos, ou muilo repelidos. Na poesia, com efeilo, é
apropriado dizer-se «Ieile branco», mas no discurso eslas ex-
pressões são inapropriadas. L se o seu uso for excessivo, con-
fundem e lornam evidenle que se lrala de poesia. Ainda que
seja necessário, por vezes, uliIizar esles epílelos (pois lransfor-
mam o labiluaI e lornam o discurso não famiIiar), é necessá-
rio, porém, ler em visla a jusla medida, uma vez que, se não,
islo produz um maI maior do que faIar ao acaso: islo não eslá
cerlamenle bem, mas o anlerior eslá cIaramenle maI. Ior isso é
que o discurso de AIcidamanle parece frívoIo, pois eIe uliIiza
epílelos não como um condimenlo, mas como pralo principaI,
de laI modo são frequenles e exlensos e óbvios. Ior exempIo,
não diz «suor», mas «suor lumido», não «para os }ogos Islmi-
cos», mas «para a assembIeia soIene dos }ogos Islmicos», não
«Ieis», mas «Ieis soberanas das cidades», não «a correr», mas
«a correr com o impuIso da aIma», não «inspiração das Musas»,
mas «recebendo da nalureza a inspiração das Musas», e ainda
por «sombria» designa a «preocupação da aIma», e não «de-
miurgo do prazer», mas «demiurgo do prazer pandémico» e
«servidor do prazer dos ouvinles», não «escondeu-se na rama-
14O6a
37
DK B 15.
38
Relor e sofisla do sécuIo IV a. C., naluraI da LóIia, foi discípuIo
de Górgias. Lnfalizava a imporlância do poder da improvisação baseado
num vaslo conlecimenlo.
39
Lm grego, yìæooe. Ver suprc.
4O
Síron foi um mílico saIleador morlo por Teseu.
251
gem», mas «na ramagem do bosque», não «cobria o corpo»,
mas «a nudez pudibunda do corpo», e o «desejo refIeclor da
aIma» (esle caso é, ao mesmo lempo, uma paIavra composla e
um epílelo, de modo que o resuIlado é um lermo poélico), e
lambém «o exlragavanle excesso de perversidade». Ior isso é
que aqueIes que se exprimem poelicamenle de forma inapro-
priada inlroduzem o ridícuIo e o frívoIo e, devido à proIixida-
de de paIavras, a faIla de cIareza. Iois, sempre que laI é Iança-
do sobre aIguém que já enlendeu aIgo, deslrói a cIareza peIo
obscurecimenlo. IliIizam-se paIavras composlas sempre que o
objeclo não lem nome e a paIavra é de formação fáciI, laI como
«passalempo», mas, se esle recurso for muilo uliIizado, redun-
da lolaImenle poélico. Ior isso, o enunciado pIeno de paIavras
composlas é o mais vaIioso para os poelas de dilirambos (pois
esles são de sonoridades ampIas), os lermos invuIgares para os
poelas épicos (pois esle esliIo é majesloso e empoIado), e a me-
láfora para os aulores de jambos ÷ na verdade, é o que eIes
usam loje em dia, como foi dilo.
O quarlo lipo de frivoIidade reside nas meláforas. Na rea-
Iidade, lá lambém meláforas inapropriadas, umas devido ao seu
carácler burIesco (e lambém os comediógrafos uliIizam meláforas),
oulras porque são demasiado majeslosas e lrágicas. AIgumas,
porém, não resuIlam cIaras se provierem de aIgo muilo afaslado,
laI como Górgias ao formuIar «aclos páIidos e exangues», e «se-
measle vergonlosamenle, improficuamenle ceifasle». De faclo, islo
é demasiado poélico. Ou lambém como AIcidamanle quando
denomina a fiIosofia «uma forlificação para a Iei»
41
, e a O!isscic
«um beIo espeIlo da vida lumana», e «lrazendo nenluma deslas
brincadeiras para a poesia». Todas eslas expressões não são per-
suasivas, peIas razões exposlas. A frase de Górgias para a ando-
rinla, quando, voando sobre eIe deixou cair um excremenlo,
resuIlou no meIlor que os lrágicos fazem. Iois disse-Ile eIe:
«L vergonloso, ó IiIomeIa.» Na verdade, islo não é vergonloso
para uma ave, mas seria vergonloso para uma jovem
42
. Assim,
eIe censurou-a dizendo o que fora, mas não o que agora é.
14O6b
41
Ou «conlra a Iei»: a frase grega é proposiladamenle ambígua.
42
Górgias, DK 82 A 23. Milo grego, segundo o quaI, de acordo
com a versão grega, foi melamorfoseada em andorinla para escapar à vio-
Iôncia do cunlado, Tereu, ou, na versão Ialina, em rouxinoI (sendo Tereu
seu esposo).
252
4
O USO DOS SÍMILES
O símiIe
43
é lambém uma meláfora. A diferença, na verda-
de, é pequena: sempre que se diz «Iançou-se como um Ieão», é
um símiIe, mas quando se diz «eIe Iançou-se um Ieão», é uma
meláfora. Iois, devido ao faclo de ambos serem vaIorosos, lrans-
ferindo-se o senlido, clamou-se «Ieão» a AquiIes
44
. O símiIe é
uliI na prosa, embora poucas vezes, pois é um eIemenlo poélico.
AIém disso, deve ser uliIizado como as meláforas, pois no fun-
do não passa de meláfora, diferenciando-se no que foi dilo.
São símiIes, por exempIo, como no caso em que Andró-
cion
45
disse a Idrieu que eIe era semeIlanle aos caclorros de-
sacorrenlados: pois aqueIes Iançavam-se para morder, e Idrieu,
um vez Iiberlado das correnles, era iguaImenle lemíveI. Do
mesmo modo, Teodamanle comparava Arquidamo a Êuxeno
que, por anaIogia, não sabia geomelria
46
, na verdade, enlão
Êuxeno lambém seria um «Arquidamo com conlecimenlos de
geomelria». Do mesmo modo ainda, na Rcpu||icc de IIalão, se
diz que aqueIes que espoIiam cadáveres são semeIlanles a ca-
clorros que mordem as pedras sem locarem naqueIe que Ilas
alira, ou aqueIa referenle ao povo, que esle se assemeIla a
um marinleiro vaIoroso, mas um pouco surdo, ou aqueIa refe-
renle aos versos de aIguns poelas que parecem «jovens sem
beIeza», pois uns perdendo a fIor da juvenlude, oulros perden-
do o rilmo, já não parecem a mesma coisa
47
. L vejam-se lam-
bém as de IéricIes, aos labilanles de Samos: que se asseme-
Ilavam a «crianças, que aceilam um bocado de pão, mas
clorando», como aos Beócios, que eram parecidos «com sobrei-
ros»: pois os sobreiros eram esfrangaIlados por eIes próprios e
os Beócios Iulavam uns conlra os oulros. Do mesmo modo,
Demóslenes
48
ao referir-se ao povo: que esle é semeIlanle aos
14O7a
43
Lm grego, rlkæv. Cerlos aulores lraduzem-no como «imagem».
44
||., 2O.164.
45
Andrócion foi um orador aleniense oponenle de Demóslenes.
Numa embaixada ao rei MausoIo da Cária, conleceu Idreu, irmão do rei.
46
Nada se sabe sobre eslas lrôs personagens.
47
IIalão, Rcpu||icc V, 469e, VI, 488a-b, e X, 6O1b, respeclivamenle.
48
Ioderá lralar-se não de Demóslenes, o orador, mas sim do poIí-
lico que clefiou a expedição à SicíIia em 413 a. C.
253
que enjoam nos barcos. L lambém Demócrales
49
comparou os
oradores a amas que, melendo na boca os pedaços de pão, os
dão a comer às crianças com a sua saIiva. Lnfim, assim Anlís-
lenes comparou o deIicado Cefisódolo com o incenso, pois esle
lambém, ao ser consumido, é encanlador
5O
.
Lm lodos esles casos, é possíveI formuIá-Ios quer como
símiIes quer como meláforas, de forma que lodos os que são
ceIebrados quando expressos como meláforas, é evidenle que
sô-Io-ão lambém quando símiIes, e o mesmo com os símiIes,
que são meláforas a que faIla uma paIavra. L necessário, por
seu lurno, que a meláfora, provenienle da anaIogia, lenla sem-
pre uma correspondôncia enlre dois lermos do mesmo género.
Assim, por exempIo, se a laça é o «escudo de Dioniso», enlão
é apropriado clamar «laça de Ares» ao escudo
51
.
5
A CORRECÇÃO GRAMATICAL
O discurso é, por conseguinle, consliluído por esles eIe-
menlos. O princípio básico da expressão enuncialiva, porém, é
faIar correclamenle
52
. Islo radica em cinco aspeclos.
O primeiro reside nas parlícuIas coordenalivas
53
, que de-
vem ser coIocadas anles ou depois umas das oulras, laI como
aIgumas exigem segundo a sua nalureza. Assim, ncn e cgc ncn
exigem ser seguidas de !c e nc !c respeclivamenle
54
. Ior seu
49
Orador aleniense parlidário da Macedónia (IIularco, Mcrc|., 8O3e-f).
5O
Anlíslenes (c. 445-c. 36O a. C.) foi um dos mais fiéis discípuIos de
Sócrales e o fundador da escoIa cínica. Cefisódolo será uma de duas per-
sonagens do mesmo nome: ou o poIílico que se evidenciou nas conversa-
ções no Queroneso, ou o orador aleniense que parlicipou no coIóquio de
Lsparla de 371.
51
Trala-se porvenlura de expressão de Timóleo (fr. incerl. 16 Bergk),
embora Aleneu, 11, 5O2b, a alribua a Anaxândrides.
52
Traduz o lermo rììpvI¸rtv, que corresponde ao lermo Ialino |cii-
niics. Iausberg, 463 (Cícero, Dc crcicrc, 3, 11, 4O). Reporla-se à correcção
Iinguíslica do enunciado.
53
îuvóroµct na expressão grega. Trala-se de lodo o eIemenlo que
coordena ou subordina oulros eIemenlos do discurso.
54
IarlícuIas gregas que significam, grosseiramenle e de forma aIgo
imprecisa, «por um Iado». «por oulro».
254
lurno, é necessário que correspondam umas às oulras enquan-
lo eslão na memória do ouvinle, e nem as afaslar muilo, nem
coIocar uma parlícuIa coordenaliva anles da que é necessária,
pois poucas vezes islo é apropriado. «Lu, quando eIe me faIou
(pois CIéon linla vindo pedir-me e impIorar-me) pus-me a
andar, Ievando-os comigo.» Nesle caso, enconlram-se muilas
parlícuIas coordenalivas em vez da parlícuIa coordenaliva
requerida. Se louver muilas de permeio anles de «pus-me a
andar», o senlido fica pouco cIaro.
O primeiro aspeclo reside, pois, na correcla coIocação das
parlícuIas coordenalivas. O segundo consisle em faIar por meio
de lermos «específicos», e não «gerais»
55
.
O lerceiro é não uliIizar vocábuIos ambíguos. Islo a não
ser que se prefira o conlrário, ou seja, fingir que se diz aIgo
por meio deIas quando não se lem nada para dizer. Com efei-
lo, indivíduos desle género uliIizam lais lermos na poesia,
como LmpédocIes
56
. IIudem, pois, com os seus rodeios exces-
sivos, e os ouvinles ficam impressionados, laI como muila
genle peranle os orácuIos, pois, quando esles são expressos
por meio de vocábuIos ambíguos, aqueIes dão o seu assen-
limenlo:
Ac circ.csscr c H4|is, Crcsc !csiruir4 un grcn!c
rcinc
57
,
porque ao faIarmos em geraI, o erro é menor. Ior isso é que os
adivinlos aIudem aos assunlos por meio de paIavras desle lipo.
Iois, será mais bem sucedido, no jogo do par ou ímpar, quem
disser «par» ou «ímpar», do que se disser a quanlidade preci-
14O7b
55
Lm grego te lóIe eveµete e te arptr¿cvte eveµete, respeclivamenle.
56
LmpédocIes (c. 493-c. 433 a. C.) foi um dos mais noláveis e
Iegendários lomens do sécuIo V a. C., naluraI de Ácragas, na SicíIia.
Cienlisla, poela, orador, fiIósofo, lomem de Lslado, é Iigado peIa lradi-
ção aos pilagóricos. Lnlre os poemas que escreveu conlam-se dois Iongos
poemas em lexâmelros daclíIicos, Accrcc !c Nciurczc e Purijiccçccs.
Iorvenlura, ArislóleIes refere-se a DK A 25, exempIo cIássico de ambi-
guidade.
57
Heródolo, 1.53 e 91. Creso, rei da Iídia, inlerprelou o orácuIo
como anunciando a deslruição de Ciro, o seu inimigo. Todavia, deslruiu
o seu próprio reino.
255
sa, o mesmo se passa se se disser que aIgo vai aconlecer em
vez de quando (é por isso que os inlérpreles dos orácuIos não
delerminam quando). Tudo islo é semeIlanle, de forma que
deve ser evilado, a não ser peIa razão aduzida.
O quarlo aspeclo reside em dislinguir o género das paIa-
vras, laI como Irolágoras
58
: mascuIino, feminino e neulro. De
faclo, lambém islo é necessário apIicar correclamenle. «Tendo
eIa clegado e lendo eIa lerminado o seu discurso, parliu.»
O quinlo aspeclo consisle em empregar correclamenle o
pIuraI, duaI, singuIar
59
: «lendo eIes clegado, baleram-me».
Lm geraI, é forçoso que o que se escreve seja bem IegíveI
e faciImenle pronunciáveI. No fundo, é a mesma coisa. Ora, islo
não é produzido peIa abundância de conjunções, nem por lex-
los que não são faciImenle ponluáveis, como os de HeracIilo.
Na verdade, é lrabaIloso ponluar os lexlos de HeracIilo peIo
faclo de ser obscuro com quaI dos lermos, o da frenle ou o de
lrás, se eslabeIece a reIação. Islo é o que se vô no próprio iní-
cio do seu poema. De faclo, afirma «sendo esle o |cgcs sempre
os lomens são incapazes de compreender»
6O
. L, pois, pouco
cIaro reIalivamenle a quaI dos membros se deve reIacionar com
a ponluação o «sempre». AIém disso, a faIla de correspondôn-
cia (ou seja, se não se Iigarem dois lermos como é ajuslado a
ambos) provoca ainda soIecismo. Ior exempIo, a «ruído» e
«cor», o lermo «ver» não é comum, mas já é comum «percep-
cionar». ResuIla obscuro se aIguém faIar sem coIocar primeiro
o que deve ir primeiro, procurando coIocar de permeio muilas
paIavras. Ior exempIo, «dispunla-me, lendo conversado com
eIe sobre eslas e aqueIas coisas e desle modo, a parlir», mas
não «dispunla-me pois, lendo conversado sobre eslas coisas e
aqueIas e desle modo, enlão a parlir».
58
Irolágoras, DK A 27. Irolágoras de Abdera foi um eminenle au-
lor de leoria relórica do sécuIo V. Segundo se crô, foi o primeiro a leorizar
sobre o género das paIavras.
59
No originaI, «inumero, o pouco e o uno», ou seja, os lrôs nume-
ros da Iíngua grega.
6O
DK 22 A 4. «Os lomens dão sempre moslras de não compreen-
derem que o |cgcs é como eu descrevo» (lrad. CarIos Iauro da Ionseca,
in G. S. Kirk, }. L. Raven, M. SclofieId, Os Ii|cscjcs Prc-Sccr4iiccs, Iisboa,
1994
4
, p. 193).
256
6
A SOLENIDADE DA EXPRESSÃO ENUNCIATIVA
Iara a soIenidade
61
da expressão conlribuem os seguinles
eIemenlos:
Lm primeiro Iugar, uliIizar uma frase em vez de um nome.
Ior exempIo, não empregar «círcuIo», mas «superfície equidis-
lanle do cenlro». O conlrário respeila à concisão
62
, ou seja, usar
um nome no Iugar de uma frase. Caso laja aIgo de vergonloso
ou inconvenienle, se o eIemenlo vergonloso for na frase, em-
pregue-se um só nome, se for numa paIavra, use-se uma frase.
ReveIar as ideias por meio de meláforas e epílelos, loman-
do-se precauções conlra a coIoração poélica.
Mudar o singuIar em pIuraI, como fazem os poelas. Ior
exempIo, sendo um só o porlo, assim dizem: «para os porlos
aqueus», e lambém, «da carla, eslas inumeráveis labuinlas»
63
.
Não unir paIavras, mas cada subslanlivo deve ir com o
seu arligo. Ior exempIo, a frase «da muIler, da nossa», se qui-
sermos expressar-nos de forma concisa, deverá ser o conlrário:
«da nossa muIler».
Lxprimirmo-nos por meio de conjunções coordenalivas. Se
se desejar fazô-Io de forma concisa, omilam-se as conjunções
coordenalivas, mas que a frase não fique assindélica. Ior exem-
pIo, «lendo caminlado e lendo faIado com eIe», «lendo cami-
nlado, faIei com eIe».
Ior uIlimo, é vaIioso o procedimenlo de Anlímaco: faIar
daquiIo que o objeclo não possui. Assim faz acerca do Teu-
meso
64
:
n4 unc pc¡ucnc cc|inc cxpcsic ccs .cnics
65
,
14O8a
61
Ior «soIenidade» lraduzimos óykc¸, que no seu senlido primário
lem a ver com a expansividade, com o empoIamenlo de aIgo. Correspon-
de ao Ialino !igniics (Rncicricc c! Hcrcnniun, 4.13.18) e refere-se ao esliIo
subIime.
62
Corresponde ao lermo Ialino |rcuiics (QuinliIiano, 4.2.49).
63
Lurípides, |jig. 1., 727.
64
O Teumeso é uma monlanla na Beócia.
65
Anlímaco, 1nc|cis, fr. 2 KinkeI. Trala-se de Anlímaco de CóIofon,
da segunda melade do sécuIo IV, um poela de esliIo rebuscado (cf. Cícero,
8rui., 51.191) e eminenle erudilo, edilor de Homero.
25¯
pois a ampIificação pode ampIiar-se alé ao infinilo. No que res-
peila às coisas posilivas e às negalivas, esle recurso de se faIar
das quaIidades que os objeclos não lôm pode ser uliIizado con-
forme resuIle de maior uliIidade. L daqui exlraem os poelas
lermos como «meIodia sem acompanlamenlo de cordas» e
«sem acompanlamenlo de Iira», que são produzidos a parlir
das propriedades ausenles. TaI recurso é bem aceile nas melá-
foras por anaIogia, como por exempIo dizer que «a lrombela»
é uma «meIodia sem acompanlamenlo de Iira».
7
ADEQUAÇÃO DO ESTILO AO ASSUNTO
A expressão possuirá a forma convenienle
66
se exprimir
emoções e caracleres, e se conservar a «anaIogia»
67
com os
assunlos eslabeIecidos. Há anaIogia se não se faIar grosseira-
menle acerca de assunlos imporlanles, nem soIenemenle de
assunlos de pouca monla, nem se se coIocarem ornamenlos
numa paIavra vuIgar. Se assim não for, assemeIla-se a um re-
gislo de comédia. L, por exempIo, o caso de CIeofonle
68
, pois
eIe designa de modo idônlico cerlas coisas como se dissesse
«veneráveI figueira».
O discurso será «emocionaI»
69
se, reIalivamenle a uma
ofensa, o esliIo for o de um indivíduo encoIerizado, se reIalivo a
assunlos ímpios e vergonlosos, for o de um lomem indignado
e reverenle, se sobre aIgo que deve ser Iouvado, o for de forma
a suscilar admiração, com lumiIdade, se sobre coisas que sus-
cilam compaixão. L de forma semeIlanle nos reslanles casos.
O esliIo apropriado lorna o assunlo convincenle, pois, por
paraIogismo, o espírilo do ouvinle é Ievado a pensar que aqueIe
66
Traduz o lermo apracv.
67
Traduz o lermo eveìcyIe e tè ev6ìcycv. Significa a jusla propor-
ção enlre duas enlidades.
68
Ioela lrágico aleniense, de cuja obra nada clegou aos nossos dias,
cilado em Pcciicc 2, 1448a12.
69
O lermo em grego é ae0pttkq, ou seja, um lipo de enunciado
«emocionaI», no senlido em que inlenla sobreludo suscilar as emoções no
audilor.
258
que eslá a faIar diz a verdade. Com efeilo, nesle lipo de circuns-
lâncias, os ouvinles ficam num delerminado eslado emocionaI
que pensam que as coisas são assim, mesmo que não sejam
como o orador diz, e o ouvinle comparliIla sempre as mesmas
emoções que o orador, mesmo que eIe não diga nada. L por esla
razão que muilos impressionam os ouvinles com aIlos brados.
Lsla mesma exposição enuncialiva, sendo consliluída por
signos
7O
, exprime caracleres
71
quando a acompanla uma ex-
pressão apropriada a cada «cIasse»
72
e «maneira de ser»
73
.
Denomino «cIasse» o reIalivo à idade, como, por exempIo, crian-
ça ou lomem ou veIlo, ou muIler e lomem, ou Iacónio e
lessáIio, «maneiras de ser», aquiIo segundo o que cada um é
como é na vida, pois nem loda a maneira de ser corresponde a
que as vidas sejam do lipo que são.
Se se disserem nomes apropriados à maneira de ser,
exprimir-se-ão caracleres. Na verdade, o ruslico e o inslruído
não faIam do mesmo modo. Os ouvinles senlem aIguma emo-
ção, e os Iogógrafos uliIizam à saciedade recursos como, «quem
não sabe`», «lodos sabem». Iois o ouvinle concorda embaraça-
do, de modo a parlicipar do mesmo que lodos os oulros.
A uliIização oporluna ou inoporluna desles eIemenlos é
comum a loda esla maléria. Conlra lodo o excesso, lá um re-
médio muilo conlecido: o orador deve anlecipar a crílica, pois
assim parece que faIa verdade, uma vez que não passa desper-
cebido ao orador o que eslá a fazer. AIém disso, não se deve
uliIizar a anaIogia
74
em lodos os recursos ao mesmo lempo
(desle modo, esle recurso passa despercebido ao ouvinle).
Quero dizer, por exempIo, se as paIavras são duras, que não
se uliIizem a voz ou a expressão faciaI correspondenles, senão,
lorna-se evidenle o que cada coisa é. Se se fizer uma de um
modo, oulra de oulro, embora o resuIlado seja o mesmo, passa
despercebido. Ior conseguinle, se se disser o que é suave com
dureza e com suavidade o que é duro, o discurso não se lorna
persuasivo.
14O8b
7O
Art¸t¸ em grego.
71
O discurso «élico» (\0tkq) é o conlraponlo do «emocionaI ou pa-
lélico».
72
irvc¸ em grego, ou seja, «género», «calegoria».
73
r¸t¸, em grego, ou seja, «maneira de ser», «lemperamenlo».
74
Ou seja, a adequação da voz ao lema, por exempIo.
259
Ior seu lurno, as paIavras composlas e a abundância de
epílelos, sobreludo de lermos invuIgares, são ajusladas ao ora-
dor do género emocionaI. L que se perdoa ao orador encoIeri-
zado que pronuncie «um maI que-se-eslende-alé-ao-céu» ou
que diga «monslruoso»
75
, sempre que possuir já a alenção dos
ouvinles e os liver feilo enlusiasmarem-se, com eIogios ou vi-
lupérios, com cóIera ou amizade. Assim, por exempIo, formuIa
Isócrales no finaI do Pcncgiricc «ó fama e recordação» e «quem
quer que lenla suporlado»
76
. Tais coisas são dilas quando os
oradores eslão enlusiasmados, de forma que é evidenle que os
ouvinles aceilam o que eIes dizem por eslarem lodos no mes-
mo eslado de espírilo. L por isso que são lambém ajusladas na
poesia: é que a poesia é aIgo que provém da inspiração. L, por-
lanlo, assim que é necessário uliIizá-Io, ou enlão por meio de
ironia, como formuIava Górgias
77
e como se expõe no Ic!rc
78
.
8
O RITMO
A forma da expressão não deve ser nem mélrica nem des-
provida de rilmo
79
. De faclo, a primeira não é persuasiva, pois
parece arlificiaI, e, ao mesmo lempo, desvia a alenção do ou-
vinle, pois fá-Io preslar alenção a eIemenlo idônlico, quando a
esle regressar. O mesmo sucede com as crianças, que, quando
os araulos cIamam «quaI é o senlor que o Iiberlo escoIle`», se
anlecipam dizendo «CIéon»
8O
. Ior seu Iado, a forma de expres-
são desprovida de rilmo é iIimilada. L, porém, necessário que
seja Iimilada (pois o iIimilado é desagradáveI e ininleIigíveI),
mas não peIo melro. L, de faclo, lodas as coisas são deIimila-
75
O primeiro lermo ocorre em O!., 5.239, e LsquiIo, Agcncnncn,
92, o segundo em ||., 3.229 e 5.395.
76
Pcncgiricc, 186.
77
Cf. DK 82 A 11, 15, 15a, 19, 24.
78
Cf. IIalão, Ic!rc, 231d e 241e.
79
Queslão muilo debalida na relórica anliga: Cícero, Orcicr, 63.212,
Dc crcicrc, 1.47.182-183, QuinliIiano, 9.4.45.
8O
IoIílico aleniense do sécuIo V, generaI na Guerra do IeIoponeso.
Ioi relralado de forma negaliva por Tucídides e Arislófanes.
260
das peIo numero. O numero da forma da expressão é o rilmo,
do quaI os melros são divisões
81
. Ior isso, é necessário que o
discurso seja rílmico, mas não mélrico: nesle caso, resuIlaria
num poema. O rilmo, porém, não deve ser lolaImenle exaclo,
e islo resuIlará se o for apenas alé cerlo ponlo.
De enlre os rilmos, o leróico é soIene, embora desprovido
da larmonia da Iinguagem coIoquiaI. O jambo, por seu lurno,
é a própria Iinguagem da maioria das pessoas (por isso, de
enlre lodos os melros, é o jambo que, ao faIarmos, mais uliIi-
zamos), no enlanlo, o discurso deve ser soIene e capaz de emo-
cionar
82
.
O lroqueu é o mais semeIlanle ao córdax
83
. Islo é eviden-
le nos lelrâmelros, pois o lelrâmelro é um rilmo de corrida
84
.
Resla, ainda, o péan, que se usa a parlir de Trasímaco, embora
não fossem ainda capazes de definir o que era. O péan é um
lerceiro lipo de rilmo, e eslá reIacionado com os acima referi-
dos. L um lrôs por dois, enquanlo dos precedenles um é um
por um, o oulro é dois por um. SemeIlanle é o um e meio por
um, que é o péan. Os oulros rilmos devem ser poslos de Iado
peIos argumenlos expressos, e porque são mélricos. Iorém,
deve-se uliIizar o péan, pois é o unico dos rilmos referidos que
não é mélrico, de laI forma que passa perfeilamenle desperce-
bido.
Hoje em dia, uliIiza-se o péan lanlo no início como no fi-
naI. Conludo, é necessário que o finaI seja diferenle do início.
Há duas formas de péan, oposlas uma à oulra. Deslas, uma é
apropriada ao início, como, aIiás, se uliIiza. LIa é a que uma
Ionga inicia e lrôs breves lerminam:
Ncsci!c cn Dc|cs cu sc Iicic.
e
iu, ¡uc jcrcs c !isicncic, ji|nc !c Zcus, !c cc|c|cs !c curc.
14O9a
81
Pcciicc 4, 1448b21.
82
||i!cn 4, 1149a25-26, Cícero, Orcicr, 56.189.
83
Tipo de dança de carácler obsceno.
84
ArislóleIes associa «lroqueu» ao verbo tpr¿æ («correr»).
261
A oulra é ao conlrário: o seu início são lrôs breves e o fi-
naI uma Ionga:
cir4s !c icrrc c !cs 4gucs, c nciic ccu|icu c ccccnc.
85
L esla é a que produz o finaI apropriado. Iois a breve,
porque é incompIela, faz que fique lruncado. Deve-se, con-
ludo, lerminar com a Ionga e que o finaI resuIle cIaro, não
devido ao copisla nem à marca de parágrafo, mas devido ao
rilmo.
Iicou dilo, porlanlo, que é necessário que o discurso
possua um rilmo convenienle e que não seja desprovido de
rilmo, e quais são os rilmos e como são os que produzem um
rilmo correclo.
9
A CONSTRUÇÃO DA FRASE: O ESTILO PERIÓDICO
O enunciado é necessariamenle ou «conlínuo»
86
e unido
por eIemenlos coordenalivos, como nos preIudios dos diliram-
bos, ou «periódico»
87
e semeIlanle às anlíslrofes dos poelas ar-
caicos. O enunciado «conlínuo» é o primilivo (oulrora lodos o
usavam, agora não são muilos a fazô-Io). Designo «conlínuo»
aqueIe que não lem fim em si próprio, a não ser que o conleu-
do expresso esleja concIuído. LIe é, porém, desagradáveI peIo
faclo de não ser Iimilado, pois lodos desejam ler à visla o fi-
naI. L por isso que é nas curvas dos lipódromos que os con-
correnles eslão ofeganles e esgolados, pois ao avislarem a mela
não se senlem cansados. Lsle é, por conseguinle, o enunciado
«conlínuo».
O «periódico», por seu lurno, é o que eslá organizado em
«períodos». Clamo «período» ao enunciado que possui princí-
85
D. I. Iage, Pccicc Mc|ici Grcccc, Oxford, 1962, p. 511.
86
Lm grego ìr¸t¸ rlpcµrvp, corresponde em Ialim a crciic pcrpciuc.
Iausberg, 451. Cerlos aulores, como Racionero, lraduzem o lermo por
«expressão coordenaliva».
87
Corresponde a ìr¸t¸ ketrotpeµµrvp. Cerlos crílicos, como Racio-
nero, preferem designá-Ia por «expressão correIaliva».
262
pio e fim em si próprio e uma dimensão fáciI de abarcar com
um só oIlar. TaI é agradáveI e fáciI de compreender. Agradá-
veI, por ser conlrário ao enunciado iIimilado e porque o ou-
vinle juIga sempre que relém aIgo e que esle é deIimilado por
si mesmo, aIém disso, é desagradáveI não laver nada a prever
nem a compIelar. L fáciI de compreender, porque é fáciI de
memorizar, e islo deve-se ao faclo de o enunciado em perío-
dos possuir numero, que é a coisa mais fáciI de memorizar. Ior
isso, lodos memorizam meIlor versos do que prosa, pois pos-
suem numero peIo quaI são medidos. L forçoso, porém, que o
«período» 1seja compIelo no que respeila ao senlido1, e que
não seja corlado em dois como os jambos de SófocIes,
C4|i!cn c csic rcgi4c, !c icrrc !c Pc|cps.
88
,
pois, devido à divisão do verso, é possíveI enlender o conlrá-
rio, como no caso desla cilação, ou seja, que CáIidon fica no
IeIoponeso.
O período pode ser formado por membros ou ser sim-
pIes
89
. O período formado por vários membros é compIelo, di-
visíveI e fáciI de respirar, não na sua divisão 1como aqueIe
período1, mas como um lodo (um membro é uma das parles
de um período). Clamo «simpIes» a um período de um só
membro. L necessário que os membros e os períodos não se-
jam nem muilo breves nem muilo exlensos. L que o breve pro-
voca, muilas vezes, um sobressaIlo no ouvinle (pois resuIla
forçosamenle como que num cloque devido a um embale
quando, precipilando-se para a frenle, para o lérmino da me-
dida de cujo Iimile lem uma ideia, o ouvinle é impeIido para
lrás pois o orador já lerminou). Os muilo exlensos fazem o au-
dilório ficar para lrás, laI como aqueIes que dão a voIla muilo
por fora dos posles: pois lambém esles ficam para lrás em re-
Iação aos seus companleiros de marcla. De forma anáIoga, os
períodos muilo exlensos lornam-se num discurso semeIlanle a
um preIudio de dilirambo. Islo é o que sucede no lexlo de
14O9b
88
Trala-se do primeiro verso do Mc|ccgrc de Lurípides (fr. 515 Nauck).
89
O lermo grego é kæìcv. Lm porluguôs lambém se pode designar
«coIo».
263
Demócrilo de Quios em que parodiava MeIanípides por esle
compor preIudios em vez de anlíslrofes:
|sic ncncn jcz nc| c si prcpric cc jczcr nc| c un
cuirc, un cxicnsc prc|u!ic c c picr nc| pcrc un pccic.
9O
O mesmo é apropriado afirmar sobre membros muilo Ion-
gos. Os membros demasiado curlos não consliluem um perío-
do, pois fazem o ouvinle «cair de cabeça».
L próprio do enunciado composlo por membros ser quer
«segmenlado», quer «anlilélico»
91
. L «segmenlado», por exem-
pIo, em: «muilas vezes me encli de admiração peIos que orga-
nizam os feslivais panegíricos e os que insliluíram as compeli-
ções alIélicas»
92
. Ior sua parle, é «anlilélico» quando em cada
membro ou o oposlo eslá disposlo junlo ao oposlo, ou o mes-
mo eslá coneclado com oposlos, laI como: «foram proveilosos
a ambos, quer aos que ficaram, quer aos que os acompanla-
ram, pois a esles forneceram mais do que linlam na pálria,
àqueIes deixaram na pálria o suficienle»
93
. «Iicar» e «acompa-
nlar» são oposlos, laI como «suficienle» e «mais». Ou enlão,
«de laI forma que aqueIes que precisam de dinleiro e os que
querem fruí-Io»
94
, «fruição» opõe-se a «aquisição», e ainda,
«aconlece muilas vezes neslas circunslâncias que o sensalo fa-
Ila e o insensalo lem sucesso»
95
, e «de imedialo foram juIga-
dos dignos de recompensas do vaIor, e não muilo depois lo-
maram o poder sobre os mares»
96
, e «navegar peIa lerra e
marclar sobre o mar, unindo o HeIesponlo e cavando um ca-
naI no Alos»
97
.

L «embora sendo cidadãos por nascimenlo, são
privados da cidadania por uma Iei»
98
. L «aIguns deIes, na ver-
141Oa
9O
Iaródia a Hesíodo, |rgc, 265-266. Demócrilo de Quios lerá sido
um conlemporâneo de Demócrilo de Abdera. MeIanípides foi um poela
do sécuIo V, que compôs epopeias, epigramas e dilirambos.
91
Lm grego pótpppµrvp ìr¸t¸ e pevttkrtµrvp ìr¸t¸, respeclivamenle.
92
Isócrales, Pcncgiricc, 1.
93
||i!cn, 35.
94
||i!cn, 41.
95
||i!cn, 48.
96
||i!cn, 72.
97
||i!cn, 89.
98
||i!cn, 1O5.
264
dade, morreram miseraveImenle, oulros saIvaram-se vergonlo-
samenle
99
. L «em privado, uliIizar bárbaros como escravos,
pubIicamenle, oIlar com indiferença muilos dos nossos aIiados
reduzidos à escravidão»
1OO
. L «ou possuir em vida ou após a
morle deixá-Io para lrás»
1O1
. L o que aIguém disse a IiloIau
e Iícofron num juIgamenlo: «quando esles lomens eslavam
na sua pálria, eIes venderam-vos, mas vindo para junlo de
vós, eIes compraram-vos»
1O2
. Todos esles exempIos iIuslram
o que foi dilo. TaI enunciado é agradáveI, porque os conlrá-
rios são mais fáceis de reconlecer (e mais fáceis de reconle-
cer ainda quando coIocados junlo uns dos oulros), e porque
se afiguram semeIlanles ao siIogismo. Iois a «refulação» é a
reunião de oposlos.
TaI é a anlílese. Ior seu lurno, é «isocoIo» se os membros
forem iguais
1O3
, «paromeose» se cada membro possuir exlre-
mos simiIares
1O4
. L forçoso que lenla laI simiIilude ou no iní-
cio ou no fim. No início, lem sempre a forma de paIavras. No
fim, poderão ser as mesmas síIabas finais, ou desinôncias da
mesma paIavra, ou a mesma paIavra. No início, são coisas
como «um campo não cuIlivado, recebeu um campo inférliI de
li»
1O5
, e «sensíveis eram aos presenles e fáceis de persuadir
peIas paIavras»
1O6
. L no finaI: «lerias pensado que eIe gerara
uma criança, mas que eIe mesmo se lornara a criança», «nos
maiores cuidados e nas mais pequenas esperanças». Quanlo às
desinôncias de um mesmo nome: «eIe é digno de ser poslo em
bronze, mas não digno de uma moeda de bronze». No que
respeila à mesma paIavra: «enquanlo vivo, lu faIasle maI deIe,
e agora escreves maI deIe». L à mesma síIaba «o que é que de
lerríveI sofresle, se de que o lomem era crueI le apercebesle`»
L possíveI que um só exempIo lenla, ao mesmo lempo, lodos 141Ob
99
||i!cn, 149.
1OO
||i!cn, 181.
1O1
||i!cn, 186.
1O2
IiloIau e Iícofron foram os assassinos de AIexandre, lirano de
Ieras, na TessáIia (369-358 a. C.). Não se sabe mais sobre o episódio em
queslão.
1O3
Também denominado «parisose». Vi!c Iausberg, 336.
1O4
Vi!c Iausberg, 357.
1O5
Arislófanes, fr. 649 Kock.
1O6
||., 9.526.
265
esles eIemenlos: anlílese, isocoIo e lomeoleIeulo. Os inícios dos
«períodos» foram quase lodos enumerados nos 1cc!ccics. AIém
disso, lá lambém faIsas anlíleses, como, por exempIo, a com-
posla por Lpicarmo:
pcr .czcs, cu csic.c cn ccsc !c|cs, pcr .czcs cu csic.c
junic !c|cs.
1O7
10
A METÁFORA
Dado que esles eIemenlos já foram definidos, lorna-se ago-
ra necessário dizer de onde provôm as expressões «eIegan-
les»
1O8
e as «de maior aceilação»
1O9
. Cerlamenle a sua formu-
Iação é própria do laIenlo naluraI e da exercilação, mas é
lambém aIgo que perlence ao nosso mélodo. IaIaremos, pois,
desle lema e faremos as enumerações perlinenles.
Que seja o seguinle o nosso pressuposlo: uma aprendi-
zagem fáciI é, por nalureza, agradáveI a lodos, por seu lurno,
as paIavras lôm delerminado significado, de laI forma que as
mais agradáveis são lodas as paIavras que nos proporcionam
lambém conlecimenlo. L cerlo que lá paIavras que nos são
desconlecidas, embora as conleçamos no seu senlido «apro-
priado»
11O
, mas é sobreludo a meláfora que provoca laI. Lfec-
livamenle, sempre que eIe clama à veIlice «paIla»
111
, pro-
duz ensinamenlo e conlecimenlo por meio da calegoria:
ambos, na verdade, já não eslão na «fIor da idade». O mesmo
produzem, sem duvida, os símiIes dos poelas. Ior isso, se os
formuIam bem, parecem de uma «eIegância urbana». Na ver-
dade, um símiIe é, laI como foi dilo anleriormenle, uma me-
láfora, diferindo apenas numa adição. L, de faclo, menos
1O7
DK 23 B 3O.
1O8
Ior «eIegância» lraduzimos o lermo tè eotrtcv, corresponde ao
lermo Ialino ur|cniics.
1O9
1e ruócktµcuvte, ou seja, as expressões que gozam de meIlor re-
pulação.
11O
1e kupte em grego (ver suprc).
111
O!., 14, 214.
266
agradáveI porque mais exlenso e porque não diz que «islo
é aquiIo», não é cerlamenle islo o que o espírilo do ouvinle
procura.
Ior conseguinle, lanlo a expressão como os enlimemas
que nos proporcionam uma aprendizagem rápida são necessa-
riamenle «eIeganles». Ior isso é que os enlimemas superficiais
não são os de maior aceilação (clamamos «superficiais» aos
que são absoIulamenle óbvios, e em que não lá nenluma ne-
cessidade de nos esforçarmos por compreender), nem os que,
uma vez expressos, não compreendemos, mas sim aqueIes em
que ou o conlecimenlo surge ao mesmo lempo que são pro-
nunciados, mesmo que não exislisse previamenle, ou o enlen-
dimenlo segue pouco depois. Na verdade, nesles casos resuIla
aIgum conlecimenlo, enquanlo nos anleriores nenlum.
No que concerne à compreensão do que é dilo, lais enli-
memas são os mais repulados. Iorém, reIalivamenle à expres-
são enuncialiva, laI aceilação deve-se, por um Iado, à forma, se
o enunciado for composlo por oposições (como, por exempIo,
«considerando que a paz, comum a lodos, era uma guerra para
os seus inleresses parlicuIares»
112
: «guerra» opõe-se a «paz»),
por oulro, às paIavras, se formarem uma meláfora, conquanlo
esla não seja eslranla (pois seria de difíciI compreensão), nem
superficiaI (pois não produz nenluma impressão), finaImenle,
se eIa fizer que o objeclo saIle para «dianle dos oIlos». Con-
vém, pois, visuaIizar as coisas mais na sua reaIização do que
na perspecliva de virem a reaIizar-se. Ior conseguinle, é ne-
cessário ler em visla lrôs eIemenlos: meláfora, anlílese, repre-
senlação de uma acção
113
.
Dos qualro lipos de meláforas exislenles
114
, são sobreludo
muilo repuladas as de anaIogia. L o caso da que IéricIes for-
muIou ao dizer que a juvenlude morla na guerra fora arreba-
lada à cidade assim como se se exlraísse «a Irimavera ao
ano»
115
. Acerca dos Iacedemónios, Iéplines dizia que não
1411a
112
Isócrales, Pni|ip., 73.
113
Ior «represenlação de uma acção» lraduzimos rvrpyrte, ou seja,
o recurso capaz de represenlar coisas animadas ou inanimadas, que é o
lermo que Ross aceila. Oulros aulores, como Racionero, consideram que
a Iição deverá ser rv6pyrte, «nilidez».
114
Pcciicc 21, 1457b.
115
Cf. suprc, I 7.
26¯
ficaria a ver com indiferença a Grécia «a ficar zaroIla»
116
. Ce-
fisódolo
117
, ao ver Cares
118
apressado em apresenlar as conlas
referenles à Guerra OIinlíaca, indignou-se, decIarando que esle
procurava com a apresenlação das conlas «eslranguIar o povo
alé à sufocação», e, noulra ocasião, exorlando os Alenienses a
avançarem para a Lubeia, disse que era forçoso Ievar o decrelo
de MiIcíades como «provisões de campanla»
119
. Ao fazerem
os Alenienses as lréguas com o Lpidauro e a região do IiloraI,
Ifícrales indignou-se
12O
, decIarando que eIes ficavam desprovi-
dos das «provisões de guerra»
121
. IiloIau clamou ao navio
P4rc|c o «baslão do povo»
122
, e a Seslo a «lravessa de pão do
Iireu»
123
. IéricIes exigiu a deslruição de Lgina, «rameIa» do
Iireu. MérocIes, nomeando um cidadão respeiláveI, dizia que
não era mais criminoso que oulro quaIquer, pois esle deixava-
-se corromper por um juro de lrôs para dez, enquanlo eIe pró-
prio só de um para dez
124
. Ou o verso jâmbico de Anaxândri-
des acerca das fiIlas que se alrasavam a casar, «as jovens já
linlam passado o prazo para o malrimónio»
125
. Também o de
IoIieuclo, conlra um cerlo Lspeusipo, alacado de apopIexia:
que esle não era capaz, peIo deslino, de eslar sossegado, em-
bora preso a um «polro de cinco orifícios»
126
. L Cefisódolo
116
Trala-se de um dilo muilo popuIar (por exempIo, Cícero, Dc nc-
iurc !ccrun, 3.38).
117
Orador do sécuIo IV a. C.
118
Cares combaleu com os seus lomens em 349 a. C., na guerra de
OIinlo conlra IiIipe da Macedónia.
119
MiIcíades foi um generaI aleniense do lempo das Guerras Iérsi-
cas, associado à vilória de Maralona (possiveImenle, uma visão exagera-
da). A referôncia a esle decrelo deverá ser porvenlura expressão prover-
biaI, significando uma decisão rápida. Aqui deve querer significar que
Cefisódolo enlendia que Alenas deveria enlrar em guerra com a Macedó-
nia de imedialo, sem perder lempo em Iongas deIiberações.
12O
GeneraI e poIílico aleniense (c. 415-353 a. C.).
121
Ou seja, Alenas ficavam sem lerrilório para se abaslecer do sa-
que e dos lribulos imposlos.
122
Im dos navios oficiais que lransporlavam prisioneiros do Lslado.
123
Cidade na Trácia, em frenle a Abidos, que conlroIava o lráfego
comerciaI que alravessava o Ionlo Luxino.
124
MérocIes foi um poIílico aleniense conlemporâneo de Demósle-
nes, do parlido anli-Macedónia. Terá sido processado por exlorsão.
125
Ir. 68 Kock. Ioela da comédia média.
126
IoIieuclo foi um orador aleniense conlemporâneo de Demóslenes.
O polro era um inslrumenlo de lorlura que imobiIizava os supIiciados.
268
clamava às lrirremes «moinlos muIlicoIores», e Diógenes, o
Cínico, às labernas «refeições pubIicas da Álica»
127
. Ior seu
Iado, Lsíon
128
coslumava dizer que «a cidade se linla derra-
mado sobre a SicíIia»
129
. Islo é, pois, uma meláfora e lambém
dispõe o objeclo «dianle dos oIlos». TaI como a expressão «de
laI forma a HéIade grilou» lambém é, de cerla forma, uma
meláfora e dispõe o objeclo dianle dos oIlos. L como
Cefisódolo ordenou que se precavessem para que não fizessem
«grupos». L islo mesmo Isócrales dizia aos que acorriam às
cerimónias pubIicas
13O
. L laI como se enconlra na Orcç4c Iunc-
|rc, que seria digno que, junlo ao epiláfio dos que morreram
em SaIamina, a HéIade rapasse a cabeça, vislo ser a Iiberdade
que eslava a ser enlerrada ao mesmo lempo que o vaIor de-
Ies
131
. Se eIe livesse dilo que era digno verler Iágrimas, uma
vez que o seu vaIor eslava a ser enlerrado, seria uma meláfora
e disposição do objeclo dianle os oIlos, mas os lermos «vaIor»
e «Iiberdade» produzem uma espécie de anlílese. L, laI como
Ifícrales disse, «o caminlo das minlas paIavras passa, pois,
peIo meio dos aclos de Cares» é uma meláfora de anaIogia, e
«peIo meio» produz o «lrazer dianle dos oIlos». L dizer «con-
vocar os perigos para ajudar conlra os perigos» é uma meláfo-
ra e disposição dianle dos oIlos. Dizia IicoIeonle em defesa
de Cábrias: «não lendo respeilo peIa alilude de supIica da es-
lálua de bronze deIe»
132
: é, pois, uma meláfora apropriada ao
momenlo presenle, não para sempre, mas que produz uma
visuaIização do objeclo, pois, eslando eIe em perigo, a eslálua
impIora, e o inanimado lorna-se animado: ou seja, a recorda-
ção dos seus feilos em proI da cidade. L «por lodos os meios,
1411b
127
Referôncia às refeições pubIicas insliluídas em Lsparla, conleci-
das peIa sua frugaIidade. A ironia é evidenle face aos lábilos dos Ale-
nienses.
128
Orador aleniense conlemporâneo de Demóslenes.
129
Referôncia à campanla aleniense de 415 a. C. conlra a SicíIia.
13O
Pni|ip., 12.
131
Iísias, |pii., 6O. Iísias não se referia a SaIamina, mas sim a Lgos-
pólamos.
132
Refere-se ao juIgamenlo de Cábrias (366) peIa rendição de Oropo.
A eslálua mandada erigir peIos Alenienses por serviços preslados apre-
senlava uma poslura ambígua, que se podia inlerprelar lambém como a
de um supIicanle. IicoIeonle foi o advogado de Cábrias nesle juIga-
menlo.
269
esforçam-se por pensar lumiIdemenle»
133
, pois «esforçar-se»
impIica uma cerla ampIificação. L que «deus acendeu a razão,
Iuz no espírilo»: ambos, na verdade, põem aIgo em evidôncia,
bem como «pois nós não lerminamos guerras, mas adiamo-
-Ias»
134
. Ambas remelem para o fuluro, lanlo o adiamenlo
como esle lipo de paz. L dizer que «os acordos de paz são um
lroféu muilo superior aos oblidos nas guerras, pois esles refe-
rem-se a um momenlo e a um aconlecimenlo, aqueIes à guerra
no seu lodo»
135
já que ambos são sinais de vilória. L que «as
cidades apresenlam pesadas conlas para censura dos lo-
mens»
136
. Iois a apresenlação das conlas é uma espécie de
punição que é conforme à jusliça.
11
A ELEGÂNCIA RETÓRICA
Ior conseguinle, foi já exposlo que a expressão «eIeganle»
provém da meláfora de anaIogia e de dispor «o objeclo dianle
dos oIlos». Torna-se agora necessário lralar do que denomina-
mos «lrazer dianle dos oIlos» e do que faz que islo resuIle. Na
verdade, clamo «pôr dianle dos oIlos» aquiIo que represenla
uma acção
137
. Ior exempIo, dizer que «um lomem de bem é
um quadrado» é uma meláfora (pois ambos significam uma
coisa perfeila)
138
, mas não represenla uma acção. Mas a frase
«deler o auge da vida em fIor»
139
é uma acção, e «lu, como
um animaI soIlo»
14O
é uma «represenlação de acção», e
!c|i, pcis, Grcgcs, |cnçcn!c-.cs ccn cs scus pcs
141
,
133
Isócrales, Pcncgiricc, 151.
134
||i!cn, 172.
135
||i!cn, 18O.
136
Isócrales, Dc pccc, 12O.
137
Ior «pôr dianle dos oIlos» lraduzimos a expressão apè eµµetæv
actrtv. Sobre o lermo «represenlação de uma acção», ver suprc.
138
Simónides, fr. 5.1-2 Bergk.
139
Isócrales, Pni|ip., 1O.
14O
||i!cn, 127.
141
Lurípides, |jig. A., 8O.
2¯0
«Iançando-vos» exprime uma acção aIém de ser uma meláfora,
pois significa «veIocidade».
Também Homero uliIizou muilas vezes, por meio de me-
láforas, o inanimado como animado. Mas em lodas eIas o que
é mais repulado são as que represenlam uma acção, como nos
seguinles casos: «de novo para a pIanície roIava, despudorada,
a pedra»
142
e «a fIecla voou»
143
e «Iouca por voar»
144
, e «sen-
lavam-se por lerra, desejando saciar-se de carne»
145
e «a ponla
da arma penelrou, ansiosa, no peilo»
146
. Lm lodos esles exem-
pIos, por se alribuir animação, represenlam-se coisas em aclo:
«ser despudorada» e «ser ansiosa», enlre os oulros exempIos,
exprimem uma acção. Homero, porém, apIica esles eIemenlos
por meio de meláforas por anaIogia. Iois, laI como a pedra em
reIação a Sísifo, assim eslá o despudorado para o objeclo do
seu despudor. O mesmo sucede em símiIes muilo repulados
referenles a coisas inanimadas:
cnrc|c!cs, ccn cs crcsics !c cspunc, uncs c jrcnic, cuircs
cir4s
147
.
Iois o poela alribui-Iles vida e confere-Iles lambém mo-
vimenlo, ora, movimenlo é acção.
Como já foi dilo anleriormenle, é forçoso que as meláfo-
ras provenlam de coisas apropriadas ao objeclo em causa, mas
não óbvias, laI como na fiIosofia é próprio do espírilo sagaz
eslabeIecer a semeIlança mesmo com enlidades muilo diferen-
les. Ioi assim que Árquilas disse que um árbilro e um aIlar
eram uma e a mesma coisa: pois junlo de ambos se refugia o
lomem injusliçado
148
. Ou se aIguém disser que uma âncora e
um ganclo são a mesma coisa: ambos são a mesma coisa, mas
diferem peIo faclo de uma ser de cima, a oulra de baixo.
1412a
142
O!., 11.598.
143
||., 13.587.
144
||i!cn, 4.126.
145
||i!cn, 11.574.
146
||i!cn, 15.542.
147
||i!cn, 13.799.
148
Árquilas, DK 47 A 12. IiIósofo e malemálico da escoIa pilagó-
rica do sécuIo IV.
2¯1
L «iguaIizar as cidades» apIica-se a coisas muilo diferenles:
a iguaIdade no que respeila à superfície e aos poderes.
A maioria das expressões «eIeganles» deriva da meláfora
e radica no engano prévio do ouvinle. Iois lorna-se mais evi-
denle que se aprende aIgo se os eIemenlos resuIlam ao conlrá-
rio do que se esperava, e o espírilo parece dizer: «como é ver-
dade, e eu eslava enganado!» As expressões «eIeganles» dos
apolegmas, por seu lurno, assenlam no faclo de exprimirem o
que não dizem. Ior exempIo, quando Lslesícoro, diz que «as
cigarras canlarão no clão para eIas próprias»
149
. L peIa mes-
ma razão são agradáveis lanlo os bons enigmas (pois neIes lá
um ensinamenlo e uma meláfora), como dizer «coisas inespe-
radas», como o designou Teodoro
15O
. Iorém islo sucede quan-
do se lrala de aIgo de paradoxaI
151
, e não, como diz aqueIe
aulor, conforme com uma opinião anlerior, mas como as imi-
lações palenles nas anedolas (aIgo que lambém os jogos de
paIavras são capazes de produzir, pois conduzem ao engano)
e nos versos cómicos. Ior exempIo, o verso seguinle não ler-
mina como o ouvinle esperava:
c|c c.cnçc.c, icn!c sc| cs pcs jricircs,
o ouvinle juIgava que o poela iria dizer «sandáIias». Islo é forço-
so que se lorne evidenle ao mesmo lempo que é expresso. Quan-
lo ao jogo de paIavras, esle exprime não o que o enunciador efec-
livamenle diz, mas o que resuIla da mudança de paIavra. L, por
exempIo, o caso da frase de Teodoro para o cilarisla Nícon: «Tu
eslás perlurbado», o que parece exprimir «lu és um lrácio»
152
. LIe
conduz a um engano, pois expressa uma coisa diferenle. Ior isso
é que resuIla agradáveI para o que procura inslruir-se, pois se não
se supuser que Nícon é um lrácio, não parecerá ser uma expres-
são «eIeganle». O mesmo é «lu queres deslruí-Io»
153
. L necessário
que esles dois senlidos sejam convenienlemenle expressos.
Do mesmo modo, são lambém expressões «eIeganles»
aqueIas em que afirmamos, por exempIo, que «para os Alenien-
1412b
149
Ver suprc, II 21.
15O
Cf. suprc, n. 16.
151
Hep6óc¸cv, ou seja, aIgo conlrário à expeclaliva comum.
152
}ogo enlre 0p6¿rt e Cpet¸.
153
}ogo enlre o infinilivo arpoet (deslruir) e Hrpoet (Iersas).
2¯2
ses o comando jcrcnc}
154
do mar não é o começo jcrcnc} dos
inforlunios», uma vez que eIes beneficiaram deIe. Ou a frase
de Isócrales, que «para a cidade, o poder foi o começo dos ma-
Ies»
155
. Iois, em ambos os casos, o que não se pensaria que se
diz é juslamenle o que é dilo e reconlecido como verdadeiro,
pois afirmar que «princípio» é «princípio» não é inleIigenle,
porém, não se diz com esle senlido, mas com oulro, e crcnc não
expressa o mesmo que o que se disse, mas lem acepções dife-
renles. Lm lodos esles exempIos, se uma paIavra for inlrodu-
zida de forma convenienle, quer por lomonímia, quer por melá-
fora, enlão resuIla bem. Ior exempIo, «Anásquelo ('ToIeráveI')
não é loIeráveI», é uma conlradição por lomonímia, mas é
apropriada, se o indivíduo for anlipálico. L
n4c pc!crics scr csircngcirc ncis !c ¡uc !c.cs
156
,
pois «eslrangeiro não mais do que deves» é o mesmo que «o
eslrangeiro não deve ser sempre lóspede», pois islo é lolaImenle
diferenle. O mesmo ocorre na ceIebrada frase de Anaxândrides,
| |c|c ncrrcr cnics !c sc jczcr c|gc !ignc !c ncric
157
,
islo é, o mesmo que dizer «digno de morrer sem ler merecido
morrer», ou «digno de morrer sem ser merecedor da morle»,
ou ainda «não fazendo coisas merecedoras da morle».
Ior conseguinle, o esliIo desles exempIos é de uma mes-
ma cIasse. Iorém, quanlo mais concisos e de forma mais con-
lraslanle forem expressos, lanlo maior repulação oblerão. A ra-
zão é que a aprendizagem alravés de oposições é maior, e mais
rápida alravés da concisão. L forçoso preslar alenção a que a
expressão seja sempre correclamenle apIicada em reIação àqueIe
de quem se faIa, e se o que se diz é verdadeiro e não superfi-
ciaI. Iois é possíveI possuir eslas quaIidades separadamenle,
como «deve-se morrer sem ler comelido faIlas», ou «com uma
muIler digna deve casar-se um lomem digno»
158
. Mas não se
154
O lermo ep¿q significa lanlo «império», «poder», como «começo».
155
Isócrales, Pni|ip., 61, Pcncgiricc, 119, Dc pccc, 1O1.
156
Ir. adesp. 2O9 Kock.
157
Ir. 64 Kock.
158
Ir. adesp. 2O6 Kock.
2¯3
lrala de uma expressão «eIeganle», a não ser que se lenlam as
duas quaIidades ao mesmo lempo: «digno de morrer sem ser
merecedor de morrer». Quanlo mais a expressão possuir eslas
quaIidades, lanlo mais «eIeganle» parecerá. Ior exempIo, se as
paIavras consliluírem uma meláfora e meláfora de um deler-
minado lipo, formarem uma anlílese e parisose e impIicarem a
«represenlação de uma acção».
Os símiIes de maior aceilação, como foi dilo acima, são alé
cerlo ponlo meláforas, pois expressam-se sempre parlindo de
dois lermos, laI como a meláfora por anaIogia. Ior exempIo,
c cscu!c, !izicncs, c c c4|icc !c Arcs
159
,
e
c crcc c c jcrninx scn ccr!cs.
16O
O que exprimimos desla forma não é, sem duvida, sim-
pIes, enquanlo clamar ao arco fórminx e ao escudo cáIice é
simpIes. Assim se produzem os símiIes, como clamar a um
auIisla «macaco», a um míope «candeia enclarcada», pois
ambos franzem o roslo. Islo resuIla bem sempre que louver
uma meláfora. Na verdade, é possíveI comparar o escudo ao
cáIice de Ares e umas ruínas a uma casa em farrapos, e dizer
que Nicéralo é um «IiIocleles mordido por Irácis» (como o
comparou Trasímaco, vendo que Nicéralo, vencido por Irácis
ao parlicipar numa compelição de rapsodos, andava de cabeIo
desarranjado e sujo)
161
. L sobreludo nesles casos que, se não
os formuIarem bem, os poelas faIlam, e onde se lornam mais
repulados, se os fizerem bem. Quero dizer, quando eslabeIe-
cem as correspondôncias enlre os lermos:
ic| ccnc c sc|sc, |c.c cs pcrncs icrci!cs,
c ic| ccnc Ii|4ncn ccn|cicn!c c scu ri.c|, c sccc !c |cxc.
162
1413a
159
Bergk alribui-a a Timóleo (fr. 16), porém, Aleneu, 11, 5O2b, alri-
bui-a a Anaxândrides.
16O
Ir. adesp. 127 Bergk.
161
Trasímaco, fr. DK 85 A 5. Nicéralo era fiIlo do generaI Nícias e
seria um exceIenle recilador de Homero.
162
Irs. adesp. 2O7 e 2O8 Kock. IiIámon era céIebre no pugiIalo.
2¯4
Todas as expressões desle lipo são símiIes. L que símiIes
são meláforas já foi muilas vezes dilo.
Irovérbios são lambém meláforas de espécie a espécie. Ior
exempIo, se aIguém Ievar aIgo para casa, convencido de que é
aIgo de bom, e em seguida for prejudicado, diz que é como
«Cárpalos com a Iebre»
163
, pois ambos experimenlaram o que
foi dilo. Ior conseguinle, de onde provém a expressão «eIegan-
le» e porquô, foi mais ou menos expIicado.
Ior seu lurno, as lipérboIes de maior aceilação são lam-
bém meláforas: por exempIo, reIalivamenle a um lomem com
um oIlo negro «juIgarias que eIe era um ceslo de amoras», pois
as nódoas negras são aIgo purpureas, embora laI dimensão seja
muilo exagerada. AIém disso, lambém a expressão «como islo
ou aquiIo» inlroduz uma lipérboIe, que só se diferencia peIa
expressão: «Como IiIámon combalendo conlra o seu rivaI, o
saco de boxe», juIgarias que o próprio IiIámon Iulava com o
saco de boxe. «Como a saIsa, Ieva as pernas lorcidas», juIga-
rias que eIe lem não pernas mas saIsa, eslando assim relorcidas.
As lipérboIes são como os adoIescenles: manifeslam grande
exagero. Ior isso, expressam-se assim sobreludo os que eslão
dominados peIa cóIera:
ncn ¡uc c|c nc cuicrgcssc icnics cciscs ¡ucnics c crcic c c pc,
ncn cssin nc ccscric ccn c ji|nc !c ciri!c Agcncnncn,
ncn ¡uc c|c ri.c|izcssc cn |c|czc ccn Ajrc!iic !c curc,
c Aicnc ccn cs scus irc|c|ncs.
164
Não é, por isso, apropriado a um veIlo proferir lais
coisas. |São sobreludo os oradores álicos que usam esle eIe-
menlo.j
165
163
A iIla de Cárpalos foi devaslada por Iebres.
164
||., 9.385 e 388-39O.
165
Trala-se provaveImenle de uma inlerpoIação.
2¯5
12
A EXPRESSÃO ADEQUADA A CADA GENERO
L preciso, porém, não esquecer que a cada género é ajus-
lado um lipo de expressão diferenle. Na verdade, não são a
mesma a expressão de um lexlo escrilo e a de um debale,
nem, nesle caso, oralória deIiberaliva é a mesma que a ju-
diciária. Lfeclivamenle, é necessário conlecer ambas: uma
para sabermos expressar-nos correclamenle
166
, a oulra para
não sermos forçados a permanecer em siIôncio se quisermos
dizer aIgo aos oulros, que é o que sucede aos que não sabem
escrever.
A expressão escrila é a mais exacla. Ior seu lurno, a dos
debales é a mais semeIlanle a uma represenlação lealraI. Des-
la lá duas espécies: uma «élica», oulra «emocionaI»
167
. L por
islo que os aclores procuram laI lipo de peças lealrais, assim
como os poelas laI lipo de aclores. Conludo, eslão muilo di-
vuIgados os aulores que são próprios para a Ieilura, como
Querémon (pois é rigoroso como um Iogógrafo)
168
, ou, enlre
os aulores de dilirambos, Iicímnio. L se são poslos em con-
fronlo, os discursos escrilos parecem pobres nos debales, po-
rém, os discursos dos oradores, ainda que bem pronunciados,
afiguram-se vuIgares quando nas nossas mãos. A razão é que,
nos debales, são ajusladas lécnicas de represenlação lealraI.
L por isso que quando a componenle de represenlação é reli-
rada, o discurso não perfaz o seu lrabaIlo e parece fraco. Iara
dar um exempIo, num lexlo escrilo as eslruluras assindélicas
e as repelições são, com razão, eIemenlos censurados, mas em
debales orais os aulores usam-nos, pois são próprios da pro-
nunciação.
L forçoso que, ao repelir-se uma coisa, se inlroduza varia-
ção, a quaI como que abre caminlo à pronunciação:
|sic c c ¡uc ncs rcu|cu, csic c c ¡uc ncs cngcncu,
csic c c ¡uc cnjin prccurcu ircir-ncs,
1413b
166
Ior «expressarmo-nos correclamenle» lraduzimos o lermo rììpvI¸rtv.
167
Sobre esles lermos, ver injrc.
168
Ioela lrágico de meados do sécuIo IV a. C.
2¯6
laI como o aclor IiIémon dizia na Gcrcnicnc¡uic de Anaxân-
drides
169
, quando recilava: «Radamanlo e IaIamedes», e quan-
do dizia: «eu», no próIogo dos Pic!cscs. Iois, se lais coisas não
são represenladas, lorna-se em «aqueIe que Ieva a lrave»
17O
.
L o mesmo se passa no respeilanle às expressões assindé-
licas: «cleguei, enconlrei-o, pus-me a pedir-Ile». Na verdade, é
necessário represenlar e não pronunciar no mesmo modo e no
mesmo lom, como se se dissesse uma só coisa. Os assíndelos
ainda possuem um oulro aspeclo parlicuIar: muilas coisas pare-
cem ser dilas num mesmo espaço de lempo. L que a conjunção
faz de muilas coisas uma só, de laI forma que, se for eIiminada,
é manifeslo que o oposlo aconlecerá: uma coisa resuIlará muilas
coisas. ResuIla, por conseguinle, numa ampIificação: «cleguei,
faIei, impIorei» (parecem muilas coisas), «eIe desprezou ludo o
que eu disse». L o mesmo que Homero prelendia com
Nircu, !c Sinc, Nircu, ji|nc !c Ag|cic, Nircu, c ncis |c|c
171
,
pois, o nome do lomem acerca do quaI se dizem muilas coisas
deve necessariamenle ser repelido muilas vezes. Desle modo, se
se nomeia muilas vezes, parece que se dizem muilas coisas, de
forma que Homero produziu uma ampIificação, mencionando-o
uma só vez devido ao paraIogismo, e lornou-o objeclo de recorda-
ção, sem menção aIguma deIe poslerior em quaIquer oulro Iugar.
O esliIo do género deIiberalivo
172
parece-se lolaImenle
com um desenlo em perspecliva
173
. L que, quanlo maior for a
muIlidão, lanlo mais Ionge deverá a visla ser coIocada, pois,
em ambos os casos, o rigor é supérfIuo e negalivo. O género
judiciário
174
é o mais rigoroso nos pormenores, e ainda mais
1414a
169
Comediógrafo, possiveImenle naluraI de Rodes, da primeira
melade do sécuIo IV a. C. Dos fragmenlos que clegaram alé nós, observa-
-se um esliIo eIeganle e uma inlenção moraIizanle.
17O
Deverá lralar-se de um adágio popuIar, significando porvenlura
que a repelição sem acluação é lão monolonamenle cansaliva como Ievar
uma lrave aos ombros.
171
||., 2.671-673.
172
Apµpycptkp ìr¸t¸, lambém designado demegórico. Corresponde
c gcnus !c|i|crciiuun na leorização Ialina.
173
Lm grego, okteypeçIe.
174
Atkevtkp ìr¸t¸, em grego. Corresponde a gcnus iu!icic|c na reló-
rica Ialina.
2¯¯
peranle um só juiz, pois é mínima a capacidade das lécnicas
relóricas. L que é mais visíveI o que concerne ao assunlo e o
que Ile é eslranlo, e a siluação de debale não eslá presenle,
de forma que o juIgamenlo é Iímpido. Ior esla razão, os ora-
dores mais admirados não são os mesmos em lodos esles gé-
neros. Iorém, onde lá sobreludo necessidade de represenlação,
aí é onde exisle menos exaclidão. L aqui é onde é necessária a
voz, e, sobreludo, uma voz polenle.
O esliIo do género epidíclico
175
é o mais apropriado ao
lexlo escrilo, pois a sua função é ser Iido. Lm segundo Iugar,
vem o judiciário.
IroIongar eslas considerações sobre a expressão, que deve
ser agradáveI e eIevada, é supérfIuo. Ior que razão deverá ser
eIa superior à sensalez ou à Iiberdade ou a quaIquer oulra vir-
lude de carácler` O que foi dilo fará que seja agradáveI, se a
virlude do esliIo foi correclamenle definida. Lfeclivamenle, por
que razão é forçoso ser cIaro e não rasleiro, mas apropriado`
Iois, se for proIixo, não será cIaro, nem se for demasiado con-
ciso, é evidenle que o lermo médio é o ajuslado. L o que foi
dilo lornará o esliIo agradáveI, se louver uma mislura adequa-
da com o que é convencionaI e o invuIgar, com o rilmo e com
a persuasividade da expressão convenienle.
Sobre a expressão, fica pois islo dilo, quer no que é co-
mum a lodos os géneros, quer no que é parlicuIar a cada um
deIes. Resla faIar acerca da «disposição»
176
.
13
AS PARTES DO DISCURSO
São duas as parles do discurso. L forçoso enunciar o as-
sunlo de que se lrala e depois proceder à sua demonslração.
Ior isso, fica sem efeilo expor aIgo sem se proceder à demons-
lração ou demonslrar aIgo sem se ler previamenle exposlo o
175
Também designado demonslralivo, correspondenle a gcnus !c-
ncnsirciiuun da leorização Ialina.
176
O lermo t6¸t¸ corresponde à !ispcsiiic da leorização Ialina, e será
o objeclo de anáIise nos capíluIos seguinles.
2¯8
assunlo. Iois demonslrar uma coisa impIica a exislôncia de aIgo
a demonslrar, e expor previamenle delerminado assunlo lem
em visla a sua demonslração.
Deslas duas parles do discurso, uma é a exposição
177
,
oulra são as provas, laI como se se fizesse a dislinção de que
uma coisa é o probIema, oulra a sua demonslração. AcluaI-
menle, lá dislinções ridícuIas. Com efeilo, a «narração»
178
é
própria apenas do discurso judiciário. De faclo, como é enlão
possíveI que laja uma narração no epidíclico ou no deIi-
beralivo como dizem` Ou refulação da parle conlrária ou
epíIogo nos discursos epidíclicos` Ior seu lurno, o proémio,
o colejo dos argumenlos e a recapiluIação ocorrem por vezes
nos discursos deIiberalivos, quando exisle debale de ponlos
de visla diferenles, pois, muilas vezes, lá acusação e defesa,
mas não no que respeila à deIiberação em si. Iorém, o epíIo-
go nem sequer é necessário em lodos os discursos judiciários
(por exempIo, se o discurso é breve ou o assunlo fáciI de re-
ler na memória), pois sucede que assim se encurla a dimen-
são do discurso.
As parles necessárias são, pois, a exposição e as provas.
Lslas são, enlão, as secções apropriadas, no máximo, digamos
proémio, exposição, provas e epíIogo
179
. A refulação dos eIe-
menlos do oponenle perlencem às provas, e a refulação por
comparação é uma ampIificação daqueIas, de laI forma que
lambém faz parle das provas. Iois aqueIe que formuIa islo
procura a demonslração de aIgo. Iorém, não é o caso nem do
proémio, nem do epíIogo, que lôm como função apenas
rememorar. Se aIguém fizer lais divisões como faziam os discí-
puIos de Teodoro, laverá a considerar como eIemenlos dislin-
los a narração, a epidiegese, a prodiegese
18O
, a refulação e a
1414b
177
Traduzimos assim o lermo ape0rot¸. Corresponde ao lermo Iali-
no prcpcsiiic (Iausberg, 43, 2) e lem como objeclivo comunicar aquiIo que
se quer provar e demonslrar.
178
Corresponde ao lermo ótqypot¸ (equivaIenle a ncrrciic na lermi-
noIogia Ialina). Vi!c Iausberg, 43, 2, b.
179
Divisão cIássica, já presenle em Isócrales, segundo Dioniso de
HaIicarnasso (Iµs., 16-17). Corresponde na lerminoIogia Ialina a cxcr!iun,
prcpcsiiic, crguncniciic, pcrcrciic ou ccnc|usic (Iausberg, 43).
18O
Ioder-se-ia lraduzir em porluguôs por «narração supIemenlar»
e «narração preIiminar», respeclivamenle.
2¯9
refulação supIemenlar. Iorém, só é necessário apIicar um nome
quando se faIa de uma cerla espécie e com um lraço dislinlivo.
Se assim não for, lorna-se vazio e risíveI, como Iicímnio faz na
sua Aric, adscrevendo designações como «vogar ao venlo»,
«divagações» e «ramificações»
181
.
14
O PROEMIO
O proémio é o início do discurso, que corresponde na
poesia ao próIogo e na musica de auIo ao preIudio. Todos eIes
são inícios e como que preparações do caminlo
182
para o que
se segue.
O preIudio é, por conseguinle, idônlico ao proémio do
género epidíclico. Na reaIidade, os locadores de auIo, ao exe-
cularem um preIudio que sejam capazes de locar bem, Iigam-
-no à nola de base do lreclo musicaI a execular
183
. Ora, é des-
le modo que é preciso compor os discursos epidíclicos: lendo-se
dilo aberlamenle o que se quer, inlroduzir o lom de base e
conjugá-Io com o assunlo principaI. Islo é o que lodos os ora-
dores fazem. O proémio da Hc|cnc de Isócrales conslilui um
exempIo. NeIe não lá nada de comum no que concerne aos
argumenlos eríslicos e a HeIena
184
. Ao mesmo lempo, se o
orador se afaslar do lema, o resuIlado é lambém apropriado,
para que o discurso não seja lodo do mesmo lom.
181
Termos de difíciI lradução. O primeiro, racupæot¸, deverá enlen-
der-se como «improvisação», ou seja, o desenvoIvimenlo Iivre de cerlo eIe-
menlo. 'Aacaì6vpot¸ refere-se propriamenle ao aclo de divagar. ´C¸c¸ lem
a ver com eIemenlos marginais que são adicionados à Iinla de base do
desenvoIvimenlo enuncialivo.
182
Ior «preparações do caminlo» lraduzimos eócacIpot¸.
183
No preIudio de auIo, a nola finaI deveria ser idônlica à primeira
do subsequenle canlo de dilirambo. Lra pois a nola que dava o lom, ser-
vindo de Iigação enlre o preIudio inslrumenlaI e o cânlico coraI.
184
Lfeclivamenle, as lreze primeiras secções lôm uma grande inde-
pendôncia reIalivamenle ao conleudo do discurso.
280
Os proémios dos discursos epidíclicos diz-se que provôm
quer do eIogio quer da censura, laI como Górgias, no seu dis-
curso O|inpicc, afirma
scis !igncs !c c!nircç4c !c nuiics ncncns, c ci!c!4cs
nc|cncs
185
,
pois eIogia os fundadores de feslivais, Isócrales, por seu Iado,
censura-os porque lonraram, com recompensas, as exceIôncias do
corpo, mas não ofereceram um prémio para o lomem sensalo
186
.
Iodem lambém provir de um conseIlo como, por exempIo, que é
necessário lonrar os lomens de bem, e que é por esla razão que
cerlo orador Iouva Arislides, ou enlão Iouvar lais lomens que são
de repulação nem boa nem má, mas, embora permaneçam desco-
nlecidos são lomens de bem, como AIexandre, o fiIlo de Iríamo:
é que, na verdade, o orador eslá a dar conseIlos. AIém disso,
podem provir de proémios judiciários, islo é, de eIemenlos
concernenles ao audilório, se acaso o discurso é sobre aIgo con-
lrário à opinião comum ou lema difíciI ou já disculido por mui-
los, de laI modo que se deve pedir descuIpa. L o caso de QuériIo,
cgcrc, ¡ucn!c iu!c jci j4 !isiri|ui!c.
187
L, por conseguinle, desles eIemenlos que provôm os proé-
mios dos discursos epidíclicos: do Iouvor, da censura, do conse-
Ilo, da dissuasão, faclores referenles ao audilório. As secções ini-
ciais devem ser ou eslranlas ou famiIiares ao assunlo do discurso.
Quanlo aos proémios do discurso judiciário, é necessário
aceilar que devem ler o mesmo efeilo que os próIogos das pe-
ças lealrais e que os proémios dos poemas épicos. Os proémios
dos dilirambos são semeIlanles aos do discurso epidíclico:
pcr ii c cs icus prcscnics, cu !cspcjcs !cs ininigcs
188
.
1415a
185
DK 82 B 7.
186
Isócrales, Pcncgiricc, 1-2.
187
Ir. 1 KinkeI da Pcrsci!c. QuériIo de Samos foi um poela épico
do sécuIo V a. C. No passo de que esle lemislíquio faz parle, QuériIo
queixa-se de que os poelas que o precederam liveram maleriaI abundan-
le para lralar e que o esgolaram, ao passo que eIe já nada lem a dizer de
novo. ArislóleIes inlerprela-o como um lópico de induIgôncia.
188
Timóleo, fr. 18 Iage.
281
Nos discursos judiciários e nos poemas épicos, o proémio
proporciona uma amoslra do conleudo do discurso, a fim de
que se conleça previamenle sobre o que será o discurso e que
o enlendimenlo do audilório não fique em suspenso. Iois o in-
definido causa dispersão. AqueIe que coIoca o início como que
nas mãos do audilório, faz que esle o acompanle no discurso.
L esla a razão do seguinle:
Ccnic, c !cusc, c cc|crc, jc|c-nc !c ncncn, c nusc
189
,
1rcz-nc un cuirc icnc, ccnc !cs icrrcs !c Asic .cic
pcrc c |urcpc c ingcnic gucrrc.
19O
Também os lrágicos lornaram manifeslo sobre o que ver-
sa a peça, se não imedialamenle no próIogo, como Lurípides
faz, peIo menos em aIgum ponlo, como SófocIes,
O ncu pci crc Pc|i|c.
191
L o mesmo se passa com a comédia.
A função mais necessária e específica do proémio é, por
conseguinle, pôr em evidôncia quaI a finaIidade daquiIo sobre
que se desenvoIve o discurso, é por isso que, se o assunlo for
óbvio e insignificanle, não laverá uliIidade no proémio.
Os oulros lipos de expressão que são usados são «remé-
dios»
192
e comuns a lodos os géneros. Diz-se que esles deri-
vam quer do orador, quer do audilório, quer do assunlo, quer
do oposilor.
As que respeilam ao próprio orador e ao oposilor são as
que servem para refular ou produzir uma «acusação»
193
. Io-
rém, não são de lermos idônlicos: no discurso de defesa, as
resposlas ao alaque vôm no início, no de acusação, eslas ocor-
rem no epíIogo. Não é obscura a razão para laI. Lfeclivamenle,
189
||., 1.1, e O!., 1.1.
19O
IrovaveImenle o começo da Pcrsci!c de QuériIo.
191
SófocIes, O1, 774.
192
O lermo em grego é letpruµete.
193
Ior «acusação» lraduzimos óteþcìq. L um lermo de difíciI lradu-
ção em porluguôs. Significa propriamenle o alaque que lem subjacenle
uma inlenção do acusador em fazer que as pessoas e os aclos da parle
conlrária fiquem sob uma auréoIa de suspeila e desconfiança.
282
o orador que se defende, maI se apresenla dianle do lribunaI,
lem forçosamenle de dissipar os eIemenlos de oposição, de laI
forma que lem de deslruir, anles de mais nada, a acusação do
oponenle. Iara o acusador, porém, é no epíIogo que lem de
alacar, para que permaneça meIlor na memória do audilório.
Os eIemenlos que se reIacionam com o audilório consis-
lem em obler a sua benevoIôncia, suscilar a sua cóIera, e, por
vezes, alrair a sua alenção ou o conlrário. Na reaIidade, nem
sempre é convenienle pôr o audilório alenlo, razão peIa quaI
muilos oradores lenlam Ievá-Io a rir. Todos esles recursos, se
se quiser, Ievam a uma boa compreensão e a apresenlar o ora-
dor como um lomem respeiláveI, pois a esle os audilores pres-
lam mais alenção. São lambém mais alenlos a lemas imporlan-
les, a coisas que Iles digam respeilo, às que os enclam de
espanlo, às agradáveis. L por isso é que é necessário inlroduzir
a ideia de que o discurso é acerca de coisas desle género. Io-
rém, se a inlenção é a de que os audilores não eslejam alenlos,
deverá dizer-se que o assunlo não é imporlanle, que não Iles
diz respeilo, que é penoso.
Ior oulro Iado, é forçoso não esquecer que lodas eslas coi-
sas são exleriores ao conleudo do discurso, pois eIas deslinam-
-se ao ouvinle de pouco vaIor, que presla ouvidos ao que é
exlrínseco ao assunlo, vislo que, se eIe não fosse assim, nem
sequer o proémio seria necessário, a não ser para expor o assun-
lo por ponlos básicos de forma que o «corpo» lenla «cabeça»
194
.
AIém disso, suscilar a alenção do audilório é comum, se louver
necessidade, a lodas as parles do discurso, pois o audilório
dispersa-se mais em quaIquer oulro Iugar do que no início. Ior
isso, é ridícuIo exigi-Ia no princípio, juslamenle quando lodos os
ouvinles eslão com a maior alenção. De laI forma que, onde quer
que seja oporluno, deve-se dizer aIgo como «e preslai alenção,
pois islo não diz respeilo mais a mim do que a vós», e «eu vou
dizer-vos aIgo de lão lerríveI e espanloso como vós jamais
ouvisles». Assim Iródico coslumava dizer, quando o audilório
eslava a adormecer, Iançando-Iles «o das cinquenla dracmas»
195
.
Iorém, é evidenle que islo não é dirigido ao ouvinle na sua
1415b
194
AIusão a IIalão, Ic!rc, 264c.
195
DK 84 A 12. Cf. IIalão, Cr4ii|c, 384d. Refere-se ao faclo de Crá-
liIo soIicilar essa quanlia aos ouvinles para «Iles expIicar lolaImenle» a
nalureza dos nomes.
283
quaIidade de ouvinle, pois o que lodos os oradores procuram
fazer nos proémios é ou acusar ou dissoIver o que receiam:
c rci, !irci ¡uc n4c pc|c prcssc, .
196
pcrc ¡uc csic prccnic¨
197
L islo fazem os que lôm ou parecem ler um assunlo difíciI,
pois é meIlor disserlar sobre lodo o reslo do que sobre o pró-
prio assunlo. L por isso que os escravos não respondem às coi-
sas que se Iles pergunlam, mas andam em círcuIos e exórdios.
De que modo é necessário suscilar benevoIôncia foi já dilo,
bem como cada uma das componenles desle lipo. Como foi
correclamenle dilo,
ccncc!c-nc cnircr nc pcis !cs Iccccs ccnc cnigc c !ignc
!c ccnpcix4c
198
,
eslas são as duas coisas que é forçoso ler em visla.
Nos discursos epidíclicos, é necessário fazer o ouvinle
pensar que parliIla do eIogio, ou eIe próprio ou a sua famíIia,
ou o seu modo de vida, ou peIo menos aIgo desle lipo. Iois é
verdade o que Sócrales afirma no seu discurso funebre: que não
é difíciI «Iouvar os Alenienses dianle dos Alenienses, mas sim
dianle dos Iacedemónios»
199
.
Os proémios do discurso deIiberalivo são baseados nos do
género judiciário, sendo no enlanlo, por nalureza, de muilo
pouca imporlância. Lfeclivamenle, o discurso deIiberalivo ver-
sa sobre aIgo de que o audilório lem conlecimenlo. O assunlo
não necessila de proémio, a não ser que esle respeile ao ora-
dor ou aos seus oposilores, ou que se suspeile de que o assun-
lo não é da imporlância que se quer dar, mas maior ou menor,
por isso, é forçoso ou alacar ou refular, ampIificar ou minimi-
zar o assunlo
2OO
. L nesles casos que é necessário um proémio.
Ou enlão, como molivo de ornamenlo, uma vez que, se não o
196
SófocIes, Aniigcnc, 223.
197
Lurípides, |jig. 1., 1162.
198
O!., 6.327.
199
IIalão, Mcncn, 235d.
2OO
Termos eu¸pot¸ e µrIæot¸. Correspondem respeclivamenle a cn-
p|ijicciic e ninuiic da lerminoIogia Ialina (Iausberg, 71 e segs.).
284
liver, o discurso poderá parecer feilo à pressa. LxempIo dislo é
o encómio de Górgias aos de LIide, pois, sem previamenle ler
preIudiado e sem preparação, começa desde Iogo:
||i!c, ci!c!c jc|iz.
2O1
15
TÓPICOS DE REFUTAÇÃO
No que concerne à «acusação»
2O2
, um dos recursos é usa-
rem-se os mesmos eIemenlos com que se pode refular uma sus-
peila capciosa: na verdade, nenluma dislinção provém do que
se eslá a dizer, peIo que islo é de apIicação geraI.
Im oulro lópico, de forma a ir ao enconlro de lodos os
ponlos em queslão, é considerar que ou o faclo não exisle, ou
que não é prejudiciaI, ou enlão que não o é para esle indiví-
duo, ou não é lão imporlanle, ou não é injuslo, ou não é muilo,
ou não é vergonloso, ou não possui laI ordem de grandeza.
Tais são os aspeclos que respeilam a uma queslão em dispula.
L o caso de Ifícrales em resposla a Nausícrales
2O3
: pois aqueIe
aceilava que linla agido como esle afirmava e que, assim, pro-
vocara prejuízo, mas que não comelera quaIquer aclo injuslo.
Oulro eIemenlo consisle em afirmar que um aclo injuslo
o foi em relribuição, e, se causou prejuízo, foi, no enlanlo, beIo,
se causou dor, foi, porém, uliI, ou oulra coisa do mesmo género.
Oulro lópico é considerar que o aclo foi um erro ou faIla
de sorle ou aIgo forçoso, laI como SófocIes quando afirmava
que eIe lremia não peIo que o acusador dizia ÷ «para parecer
idoso» ÷, mas por necessidade: é que não era por sua própria
vonlade que linla 8O anos de idade
2O4
. Iode-se lambém coIo-
car um eIemenlo em subsliluição de oulro: que não desejava
causar prejuízo, mas uma coisa diversa, e que não linla come-
lido aquiIo de que o acusavam, mas linla sido por um acaso
1416a
2O1
Górgias, DK 82 B 1O.
2O2
Cf. suprc.
2O3
Nausícrales foi um discípuIo de Ifícrales. Sobre Ifícrales, ver n. 12O.
2O4
Trala-se possiveImenle de SófocIes, que foi um dos membros da
Prc|cu|c que deleve o poder em Alenas depois de 413 a. C.
285
que o prejuízo se linla produzido: «é juslo que me odieis, se
eu agi de forma que islo lenla aconlecido».
Oulro recurso uliIiza-se se o acusador, no presenle ou no
passado, quer eIe próprio ou aIguém que Ile é próximo, lenla
eslado impIicado nos faclos. Oulro ainda é se eslão impIicados
oulros indivíduos que lodos concordam que não eslão sujeilos à
mesma acusação. Ior exempIo, se cerlo indivíduo é acusado de
ser aduIlero porque é muilo aperaIlado, enlão oulro quaIquer sô-
-Io-á cerlamenle. Oulro, se o próprio acusador, ou um oulro
quaIquer, acusou já oulros indivíduos, ou fez oulros recaírem
sob suspeila sem molivo de acusação, como a que eIe agora
move, e esles foram decIarados não cuIpados. Oulro consisle em
conlra-alacar o acusador: é que seria eslranlo que, se eIe pró-
prio não inspirar confiança, as suas paIavras a venlam a inspi-
rar. Oulro, se já liver lavido uma decisão, como no caso de
Lurípides conlra Higiénon, quando foi acusado de impiedade
num processo de cnii!csis por ler escrilo exorlando a comeler
perjurio: «a minla Iíngua jurou, mas não jurou o meu espíri-
lo»
2O5
. Lfeclivamenle, Lurípides afirmou que Higiénon comelia
um aclo injuslo por lrazer para os lribunais decisões concernen-
les às compelições dionisíacas, pois aí já respondera ou respon-
deria se eIe o quisesse acusar. Oulro consisle em acusar com a
própria suspeila, moslrando como é grave, porque suscila juízos
diversos e porque não é persuasiva no assunlo em causa
2O6
.
Im lópico comum a ambos os oponenles é pronunciar si-
nais de reconlecimenlo, como, por exempIo, IIisses no
1cucrc
2O7
, quando afirma que esle é um famiIiar de Iríamo, pois
Hesíone é sua irmã, Teucro responde que seu pai, TéIamon, era
inimigo de Iríamo e que não o linla denunciado aos espiões.
Oulro recurso para o acusador é eIogiar ampIamenle aIgo
de pouca monla e censurar sucinlamenle o de maior imporlân-
cia, ou, depois de ler exposlo muilos aspeclos posilivos, censu-
rar um ponlo específico que é favoráveI para o assunlo em
causa. Tais lópicos são lecnicamenle os mais labiIidosos e os
mais injuslos, pois com eIes procura-se causar prejuízo por
meio de eIemenlos bons, mislurando-os com o que é mau.
1416b
2O5
Lurípides, Hipc|iic, 612.
2O6
O lexlo é pouco cIaro.
2O7
Tragédia perdida de SófocIes.
286
AIgo comum ao acusador e ao defensor é o acusador
enfalizar o Iado pior, o defensor o meIlor, vislo que o mesmo
aclo pode ler sido feilo por molivos diversos. Im exempIo é
quando Diomedes escoIleu IIisses
2O8
: um dirá que escoIleu
IIisses porque o considerava o mais vaIenle, oulro não por esla
razão, mas porque, por ser menos vaIoroso, era o unico que
não rivaIizaria consigo.
16
A NARRAÇÃO
Islo é o que lavia a dizer quanlo à acusação. Ior seu lurno,
a narração
2O9
nos discursos epidíclicos não é conlínua, mas sim
arlicuIada em secções, pois é forçoso percorrer os faclos de que o
conleudo do discurso lrala. Quanlo ao discurso, esle é, por um
Iado, consliluído por uma componenle exlerior à lécnica (vislo que
o orador não é responsáveI peIos faclos reIalados), por oulro, por
uma componenle lécnica. Lsla consisle em demonslrar quer que
a acção se reaIizou, caso não seja credíveI, quer que eIa foi de
delerminada quaIidade ou ordem de grandeza, ou ludo islo ao
mesmo lempo. L por esla razão que, por vezes, é convenienle não
narrar ludo de forma seguida, porque esle lipo de demonslração
é difíciI de reler na memória. A parlir de cerlos faclos, um indiví-
duo pode ser apresenlado como vaIoroso, noulras, como sábio ou
juslo. Im discurso desle lipo é mais simpIes, o de oulro é
muIlicoIor
21O
e compIicado. Quanlo a faclos bem conlecidos, é
necessário apenas recordá-Ios. Ior isso é que muilos discursos
epidíclicos nem precisam de narração. L o caso, por exempIo, se
desejares eIogiar AquiIes: lodos conlecem os seus feilos, o que é
necessário é fazer uso deIes. Iorém, se se lrala de Crícias
211
, a
narração é necessária, pois não são muilos os que o conlecem.
Hoje em dia, diz-se de forma ridícuIa que a narração deve
ser rápida. L, conludo, islo é como aqueIa do padeiro que per-
2O8
Cf. ||., 1O.242.
2O9
O lermo ótqypot¸ corresponde à ncrrciic na leorização Ialina.
21O
Ou seja, «confuso».
211
Clefe dos lrinla liranos que governaram Alenas nos finais do
sécuIo V a. C.
28¯
gunlava se deveria fazer a massa de consislôncia dura ou ma-
cia, «o quô», repIicou-Ile aIguém, «não é possíveI fazô-Ia |cn¨».
L aqui é o mesmo. Lfeclivamenle, é preciso que se componlam
narrações não de grandes dimensões, laI como não se devem
eIaborar proémios nem provas muilo exlensas. Iois lambém aqui
o meIlor não é a rapidez ou a concisão, mas sim a jusla me-
dida. Islo significa faIar lanlo quanlo aquiIo de que o assunlo
necessila para ficar cIaro, ou lanlo quanlo permila supor que
aIgo sucedeu ou que deIe resuIlou aIgum prejuízo ou injusliça,
ou que os assunlos são da imporlância que se quer demonslrar,
o adversário, por seu lurno, deve conlrapor as razões oposlas.
Narra ludo quanlo clama a alenção para o leu próprio va-
Ior: por exempIo, «admoeslei-o, expressando sempre coisas juslas,
a não abandonar os fiIlos», ou a maIdade do oposilor: «respon-
deu-me que, onde quer que eIe se enconlrasse, poderia ler sem-
pre oulros fiIlos», que é o que Heródolo afirma que os deserlores
egípcios respondiam
212
, ou enlão o que for agradáveI aos juízes.
Iara o defensor, a narração pode ser mais breve
213
. Na
verdade, os ponlos em queslão são: ou que os faclos não acon-
leceram ou que não redundaram em prejuízo, ou que não são
injuslos ou de lamanla imporlância. De forma que não se deve
perder lempo com o que é aceile por lodos, a menos que se
deva eslender por queslões como, por exempIo, que o aclo leve
Iugar, mas que não foi injuslo. L necessário expor os faclos
passados na medida em que suscilam compaixão ou indigna-
ção, se descrilos como acluais. Im exempIo é a defesa dianle
de AIcínoo, que IIisses resume a IenéIope, em sessenla ver-
sos
214
, oulro é a forma como IaíIo compõe em poema cícIi-
co
215
, bem como o próIogo de |ncu
216
.
L convenienle que a narração incida sobre a componenle
«élica»
217
. Islo assim resuIla se soubermos o que produz a ex-
1417a
212
Heródolo, 2.3O, aIude à deserção dos soIdados de Isamélico I
que defendiam a fronleira com a Lliópia, que, por não lerem sido rendi-
dos em lrôs anos, se passaram para o Iado do rei elíope.
213
QuinliIiano, 4.2.43.
214
O!., 23.264-284, 31O-343.
215
Nada sabemos sobre esle poela.
216
Trala-se de uma peça perdida de Lurípides.
217
A Ielra, «que a narração seja élica» (ótqypot¸ \0tkq), ou seja, que
«exprima caracleres». Recorde-se que esla é uma das duas calegorias de
ncrrciic (que se opõe à «emocionaI»).
288
pressão de carácler moraI. Im recurso é moslrar a inlenção
moraI: o carácler corresponde ao lipo de inlenção, e a inlen-
ção moraI, por sua vez, ao lipo de finaIidade. L por islo que os
lexlos malemálicos não expressam caracleres, porque não lôm
uma finaIidade moraI (pois não se consliluem com laI finaIida-
de), mas os lexlos socrálicos já a lôm, pois é sobre lais lemas
que eIes discorrem.
Oulros eIemenlos que exprimem os lraços morais são os
que correspondem a cada um dos caracleres. Ior exempIo, «ao
mesmo lempo que faIava, pôs-se a andar»: islo moslra cIara-
menle arrogância e rudeza de carácler. L não devemos faIar
com base no raciocínio, como loje se faz, mas numa inlenção:
«eu desejava islo, pois eu linla esla inlenção» e «mas mesmo
que não me livesse sido proveiloso, era o meIlor». A primeira
frase é a de um indivíduo sensalo, a oulra, de um lomem bom,
pois é próprio de um lomem sensalo perseguir o que é pro-
veiloso, de um lomem bom, o que é beIo.
Se a inlenção moraI não resuIlar credíveI, enlão deve-se
acrescenlar a causa, como SófocIes faz. Im exempIo eslá na
Aniigcnc, em que esla se afIigia mais com o irmão do que com
marido ou fiIlo, pois esles podem voIlar a ler-se, uma vez morlos:
1cn!c n4c c pci pcrii!c pcrc c ncrc!c !c Hc!cs
n4c n4 irn4c ¡uc pcssc jcncis ncsccr.
218
Se não possuíres uma razão, podes dizer que não ignoras
que o que dizes parece inacrediláveI, mas que lu és assim por
nalureza. Iois ninguém acredila que aIguém faça voIunlaria-
menle aIgo a não ser em seu inleresse próprio.
AIém disso, faIa de forma a suscilar emoções
219
, narran-
do lanlo as consequôncias que os ouvinles conlecem como os
aspeclos singuIares que correspondem quer a si próprio quer
ao oposilor: «oIlando-me desdenlosamenle, parliu», ou, por
exempIo, como Lsquines diz sobre CráliIo, que esle eslava a
assobiar e a baler paImas
22O
. L que esles eIemenlos são per-
1417b
218
SófocIes, Aniigcnc, 911-912.
219
Ou seja, a ncrrciic «emocionaI» (ótqypot¸ ae0pttkq), que emprega
o recurso à emoções.
22O
Lsquines foi um discípuIo e companleiro de Sócrales. CráliIo é
referido no diáIogo lomónimo de IIalão.
289
suasivos, pois as coisas que os ouvinles conlecem são sinais
221
que permilem o conlecimenlo das que não se conlecem. Mui-
los desles eIemenlos podem exlrair-se de Homero:
cssin jc|cu, c c .c|nc cc|riu c rcsic ccn cs n4cs
222
,
pois, efeclivamenle, os que começam a clorar cobrem os oIlos.
Apresenla-le de imedialo, a li e ao leu oposilor, como de cerla
personaIidade, para que le vejam como laI. Iorém, fá-Io
disfarçadamenle. Que islo é fáciI, observa-o no caso dos men-
sageiros das lragédias. Iois, não sabemos nada acerca do que
vão dizer, mas apesar disso formuIamos uma cerla suposição.
Deve-se proceder à narração em muilos sílios, se bem que,
por vezes, não no início.
No género deIiberalivo, a narração é menos imporlanle,
porque ninguém eIabora uma narração sobre faclos fuluros.
Mas se por acaso louver narração, que seja sobre aconlecimen-
los passados de forma que, sendo recordados, se deIibere me-
Ilor sobre os fuluros, quer se crilique quer se eIogie. Iorém, o
orador nesse caso 1não1 perfaz a função de um orador do
género deIiberalivo. Se o faclo narrado não for críveI, é neces-
sário promeler que as razões serão dilas de imedialo, e que
serão lomadas as medidas que mais se desejarem. L o caso de
}ocasla no |!ipc de Cárcino, que respondia sempre com pro-
messas a quem indagava em busca do seu fiIlo
223
, e o mesmo
se passa com o Hémon
224
de SófocIes.
17
A PROVA E A DEMONSTRAÇÃO
L necessário que as provas sejam demonslralivas. Vislo que
os ponlos em debale são qualro, é uliI formuIar a demonslração
sobre o ponlo que eslá em queslão. Ior exempIo, se a queslão em
221
Lm grego ouµþcìe.
222
O!., 19.361.
223
Tragédia perdida de Cárcino (cf. Nauck, p. 789).
224
Iersonagem da Aniigcnc.
290
causa for reIaliva à negação da ocorrôncia de aIgo, é necessário,
no juIgamenlo, anles de mais, a sua demonslração, e se for que
não causou prejuízo, ou que não foi lão grave ou que foi jusla,
eIa deve recair sobre esles aspeclos, de modo idônlico, se o ponlo
em queslão for sobre um faclo que efeclivamenle ocorreu. Iorém,
devemos não esquecer que apenas no debale sobre esle uIlimo
ponlo é forçoso apresenlar o oposilor como de mau carácler, pois
a ignorância não é a causa do seu aclo, como seria se o que esli-
vesse em queslão fosse o juslo ou injuslo. De laI forma que nesle
ponlo o orador deve demorar-se, mas não nos oulros.
No discurso epidíclico, a ampIificação deve ser empregue
para provar que os faclos são beIos e uleis, pois lais faclos lôm
de ser dignos de crédilo. L por isso que poucas vezes reque-
rem demonslração, a não ser que não sejam dignos de crédilo
ou que oulro lenla a responsabiIidade.
No discurso deIiberalivo, poder-se-á disculir se o que se
recomenda não lerá consequôncias, ou que ocorrerá, mas que
não será juslo nem vanlajoso nem de lamanla imporlância.
L preciso lambém observar se, exlerior ao assunlo, se diz aIgo
de faIso, pois islo reveIar-se-ia um argumenlo irrefuláveI de
que se pronunciam faIsidades sobre lodo o reslo.
LxempIificação é o que é mais apropriado ao discurso de-
Iiberalivo, enlimemas ao discurso judiciário. Lfeclivamenle, um
concerne ao fuluro, de forma que é forçoso narrar exempIos de
aconlecimenlos passados, o oulro, por seu Iado, reIaciona-se
com faclos que são ou não são, onde é mais necessária a de-
monslração, pois os faclos do passado impIicam um lipo de ne-
cessidade. L forçoso porém expor os enlimemas não de forma
conlínua, mas inlercaIados. Se assim não for, prejudicam-se uns
aos oulros, pois lá lambém um Iimile na quanlidade.
O cnigc, .isic ¡uc jc|csic icnics cciscs ¡ucnics un
ncncn sc|c!cr !iric
225
,
«lanlas coisas», mas não «quais».
Ior oulro Iado, não procures enlimemas sobre ludo. De
oulro modo, farás o que aIguns fiIósofos fazem, que formuIam
siIogismos cujas concIusões são mais conlecidas e mais pIausí-
1418a
225
O!., 4.2O4.
291
veis que as premissas das quais as liram. L lambém sempre
que suscilares uma emoção, não formuIes um enlimema, pois
o enlimema ou quebrará a emoção, ou será dilo em vão, é que
movimenlos simuIlâneos clocam uns com os oulros, e ou se
anuIam ou se lornam fracos. Ao mesmo lempo, não deves pro-
curar enlimema aIgum quando o discurso expressar caracleres
morais. Na verdade, a demonslração não comporla carácler
moraI nem inlenção
226
. Iorém, devem-se empregar máximas
quer na narração, quer nas provas, porque exprimem caracle-
res: «pois, eu o dei, embora sabendo que não se deve confiar
em ninguém». Se, porém, for numa modaIidade «emocionaI»:
«e não me arrependo, embora seja eu o prejudicado, é que o
Iucro é para a eIe, a jusliça para mim».
A oralória deIiberaliva é mais difíciI que a judiciária, como
é naluraI. Iorque aqueIa reporla-se ao fuluro, esla ao passado,
ou seja, ao que é já do conlecimenlo de lodos, e alé dos adivi-
nlos, como diz Lpiménides de Crela
227
, pois eIe nunca pro-
nunciava orácuIos sobre aconlecimenlos fuluros, mas sobre fac-
los passados que permaneciam porém obscuros. Ior oulro Iado,
a Iei é um lema de base nos discursos judiciários, e quando se
possui um princípio básico, é mais fáciI enconlrar uma demons-
lração. Iara mais, o género deIiberalivo não comporla muilas
«digressões»
228
(como, por exempIo, aqueIas conlra o oposilor
ou acerca de oulro indivíduo quaIquer, ou com a inlenção de
suscilar emoções). IeIo conlrário, é a que admile menos, a não
ser que se queira afaslar do assunlo. Ior conseguinle, é neces-
sário desenvoIver islo apenas quando embaraçados com faIla
de maleriaI. Islo é o que os oradores alenienses fazem, e lam-
bém Isócrales. Iois alé num conlexlo de deIiberação formuIa
acusações como, por exempIo, conlra os Iacedemónios no Pc-
ncgiricc
229
, ou a Cares no Discursc sc|rc cs A|ic!cs
23O
.
No género epidíclico, é necessário combinar o conleudo
com episódios Iaudalórios, como Isócrales, que sempre inlro-
duz aIgum. O que Górgias afirmava, que nunca Ile faIlava que
226
HpceIprot¸, em grego.
227
DK 3 B 4. Lpiménides de Crela foi um laumalurgo Iendário, pos-
siveImenle do sécuIo VI a. C.
228
Lm grego, ótetpþq.
229
Cf. Pcncgiricc, 11O-114.
23O
ArislóleIes refere-se a Dc pccc, 27.
292
dizer, é anáIogo. Iois, se eslava a faIar de AquiIes, eIogiava
IeIeu, em seguida Laco, depois a divindade, do mesmo modo,
se discursava sobre a coragem viriI, referia que eIa produz islo
ou aquiIo, ou de laI forma.
Quando se dispõe de eIemenlos demonslralivos
231
, deve-
-se discursar de modo que se expresse o carácler e resuIle de-
monslralivo. Iorém, se não liveres enlimemas, concenlra-le na
componenle «élica». L é mais ajuslado para um lomem de bem
parecer virluoso do que rigoroso no discurso. Os enlimemas
refulalivos são mais prezados do que os demonslralivos, por-
que os concernenles à refulação mais cIaramenle põem em
evidôncia o siIogismo. Iois os conlrários são mais faciImenle
reconlecíveis quando coIocados frenle a frenle.
Os eIemenlos conlra a argumenlação do oponenle não
represenlam uma espécie diferenle, mas perlencem às provas
que refulam quer por meio de uma objecção, quer por siIo-
gismo. Seja em siluação deIiberaliva, seja judiciária, o primeiro
a discursar deve pronunciar primeiramenle as provas pró-
prias, e em seguida refular as do oponenle, deslruindo-as e des-
pedaçando-as. Mas se o discurso adversário for muIlipIo, deve
alacar primeiro os argumenlos oposlos. Assim fez CaIíslralo na
assembIeia dos Messénios: pois, deslruindo anlecipadamenle o
que eIes iriam dizer, expôs enlão os seus argumenlos. Iorém,
se se for o uIlimo a faIar, deve-se faIar primeiramenle conlra o
discurso adversário, refulando e opondo siIogismos, sobreludo
se o que liver sido dilo liver lido bom acoIlimenlo. Iois laI
como o espírilo não é receplivo a um lomem que foi anlerior-
menle censurado, do mesmo modo não o é para um discurso,
se o adversário parece ler faIado bem. Deve-se, porlanlo, criar
espaço no espírilo do ouvinle para o discurso que seguirá.
Assim será, se liveres deslruído os argumenlos conlrários. Ior
conseguinle, depois de se combaler seja conlra lodos os argu-
menlos, seja conlra os mais imporlanles, seja conlra os que
foram mais bem acoIlidos, seja ainda conlra os mais faciImen-
le refuláveis, as provas próprias lão-de resuIlar convincenles.
Princircncnic, !cs !cuscs scrci c|ic!c, pcis, cu, jn4c
pcnsc ¡uc} Hcrc.
232
1418b
231
AacórI¸t¸, em grego.
232
Lurípides, 1rcc!cs, 969 e 971.
293
Neslas paIavras, locou em primeiro Iugar os argumenlos
mais simpIes.
Islo é o que lá a dizer no que diz respeilo às provas. Re-
Ialivamenle à expressão de carácler moraI, uma vez que di-
zer aIgo acerca de si próprio pode lornar-se quer odioso, quer
proIixo, quer conlradilório, assim como, acerca de oulrem, in-
jurioso ou grosseiro, é preciso coIocar oulra pessoa a dizer lais
coisas. Islo é o que Isócrales formuIa no Ii|ipc, e na Anii-
!csis
233
, e bem assim ArquíIoco, nas suas inveclivas. Iois,
esle uIlimo coIoca o pai a faIar acerca da fiIla, em cerlo verso
jâmbico:
Ccn !inncirc, n4c n4 nc!c !c incspcrc!c ncn ¡uc sc
pcssc jurcr scr inpcssi.c|
234
e o carpinleiro Caronle, no poema jâmbico cujo início é
N4c ¡ucrc cs ri¡uczcs !c Gigcs
235
.
Também assim procede SófocIes, coIocando Hémon a
defender Anlígona conlra o pai, como se fossem paIavras de
oulro
236
.
AIgumas vezes, é necessário modificar enlimemas e fazô-
-Ios «máximas»
237
. Ior exempIo, «é preciso que o ser racio-
naI, quando a forluna Ile sorri, faça a paz, pois assim oblém
maior ganlo»
238
. Lm enlimema, leríamos: «pois, se é preciso
fazer a paz sempre que lais mudanças forem as mais Iucrali-
vas e mais vanlajosas, é forçoso, quando a forluna é favorá-
veI, fazer a paz».
233
Cf. Pni|ip., 4-7, e Anii!csis, 132-139 e 141-149.
234
ArquíIoco, fr. 74.1 Bergk.
235
ArquíIoco, fr. 25.1 Bergk.
236
SófocIes, Aniigcnc, 683-7O9.
237
Traduzimos yvæµet.
238
Cf. Isócrales, Arcni!., 51.
294
18
A INTERROGAÇÃO
No respeilanle à inlerrogação, é oporluno formuIá-Ia so-
breludo quando, depois de o oponenle responder a uma de
duas pergunlas, se se formuIa enlão a oulra pergunla, resuIla
uma resposla absurda. Ior exempIo, quando IéricIes queslio-
nou Iâmpon
239
sobre a iniciação aos mislérios da SaIvadora,
respondendo-Ile esle que não era permilido a um não-iniciado
lais coisas ouvir, pergunlou-Ile se eIe próprio deIes linla co-
nlecimenlo. DecIarando que sim, «mas como», pergunlou Ié-
ricIes, «se não és iniciado»`
Im segundo caso é quando, das duas resposlas, uma é
evidenle e quanlo à oulra é óbvio que o oponenle com eIa con-
cordará quando se formuIa a pergunla. L oblendo a admissão
desla premissa, não se deve inlerrogar o que é evidenle, mas
eslabeIecer a concIusão. Ior exempIo, quando MeIelo acusou
Sócrales de não acredilar nos deuses, aceilando porém que esle
reconlecia um cerlo !ccncn, Sócrales pergunlou se os !ccncncs
não seriam fiIlos dos deuses, ou aIgo divino, concordando eIe,
respondeu Sócrales: «porvenlura, lá aIguém que pense que
exislem fiIlos de deuses, mas não deuses`»
24O
Oulra siluação é aqueIa em que se procura moslrar que o
orador adversário produz eIemenlos conlradilórios ou fora do
senso comum. Ima quarla circunslância é quando não é pos-
síveI àqueIe que deve responder refular a argumenlação adver-
sária a não ser de forma sofíslica: pois, se responde dizendo
que é mas não é, ou que umas vezes sim, oulras não, ou que
por um Iado sim, por oulro não, os assislenles fazem uma
paleada por o orador não enconlrar saída.
Lm circunslâncias dislinlas deslas, não Iances mão de laI
recurso. Iois, se o adversário le Ievanlar uma objecção, pa-
recerá que fosle vencido: é que não é perlinenle coIocar mui-
las inlerrogações, devido à fraqueza do audilório. L por isso
lambém que é necessário condensar o mais possíveI os en-
limemas.
1419a
239
Im dos lrôs adivinlos ao serviço da cidade de Alenas, conlem-
porâneo de IéricIes.
24O
Cf. IIalão, Apc|cgic, 27b-d.
295
Ior seu lurno, é preciso que as pergunlas ambíguas sejam
respondidas não de forma concisa, mas com recurso a definição
precisa no discurso. As que parecem conler eIemenlos conlradi-
lórios, convém responder de imedialo, inlroduzindo a refulação
anles que o oponenle formuIe a pergunla seguinle ou que con-
cIua o siIogismo, de faclo, não é difíciI anlever em que é que
radica o seu discurso. Islo é para nós cIaro a parlir do que ficou
exposlo nos 1cpiccs, e bem assim as formas de o refular. L, con-
cIuindo, se se formuIa a pergunla em forma de concIusão, lá
que dizer a razão. Ior exempIo, queslionado por Iisandro se Ile
parecia bem, como aos reslanles probuIos
241
, o eslabeIecimenlo
dos Qualrocenlos, SófocIes aquiesceu, «Iorquô`» disse aqueIe,
«esles aconlecimenlos não le parecem peníveis`», esle de novo
aquiesceu. «Ior conseguinle, lu fizesle uma má acção`» «Sim»,
relorquiu, «não lavia oulras meIlores».
L lambém o caso do Iacedemónio que preslava conlas da
eforia. Queslionado se Ile parecia bem que os companleiros
livessem sido jusliciados, eIe admiliu que sim. «Iois lu não li-
vesle um comporlamenlo iguaI ao deIes`» LIe lambém admiliu
que sim. «Lnlão, seria lambém juslo se fosses execulado`» «De
modo aIgum», repIicou. «AqueIes aceilaram dinleiro para as-
sim agirem, eu não, procedi segundo a minla consciôncia.» Ior
conseguinle, é convenienle não formuIar pergunlas após uma
concIusão, nem fazer a pergunla como concIusão, a não ser que
a verdade seja muilo saIienle.
ReIalivamenle ao «ridícuIo»
242
, uma vez que parece ler
aIguma uliIidade nos debales (Górgias afirmava, com razão,
que é necessário desfazer a seriedade dos oponenles com iro-
nia e a ironia com seriedade
243
), já foi lralado na Pcciicc
244
quanlas são as suas espécies, das quais umas são apropriadas
ao carácler do lomem Iivre, oulras não, de modo que o orador
1419b
241
Os probuIos eram dez cidadãos, com aIgum poder execulivo,
nomeados em Alenas depois de 413 a. C. Lnlre eIes, conlava-se SófocIes
possiveImenle o lragediógrafo. Lm 411, fizeram parle de uma comissão
formada parar redigir uma consliluição, islo Ievou à revoIução dos Qua-
lrocenlos.
242
1è yrìctcv, em grego.
243
Deverá perlencer a uma Ars, de Górgias, perdida.
244
Referôncia à parle perdida da Pcciicc que versava sobre a co-
média.
296
poderá lirar deIas a que Ile for mais apropriada. A ironia é
mais adequada a um lomem Iivre que o escárnio. O que em-
prega ironia fá-Io para se rir deIe próprio, o lrocisla, para es-
cárnio dos oulros.
19
O EPÍLOGO
O epíIogo é composlo por qualro eIemenlos: lornar o ou-
vinle favoráveI para a causa do orador e desfavoráveI para a do
adversário, ampIificar ou minimizar, dispor o ouvinle para um
comporlamenlo emocionaI, recapiluIar. Após ler-se moslrado
que se diz a verdade e o adversário faIsidades, faça-se um eIogio
ou uma censura, e finaImenle subIinle-se
245
de novo o assunlo.
L necessário, pois, visar uma de duas coisas: uma, reve-
Iar-se como lomem de bem quer dianle dos ouvinles, quer em
lermos gerais, oulra, apresenlar o adversário como perverso,
quer dianle dos ouvinles, quer em lermos gerais. A parlir de
que eIemenlos é necessário preparar islo, já foram exposlos os
lópicos a parlir dos quais é forçoso apresenlar os oulros como
virluosos ou como vis.
Lm seguida, vem a ampIificação ou a minimização do que
foi demonslrado, segundo a sua nalureza. Iois é necessário que
laja acordo quanlo aos faclos, se se lenciona referir a sua or-
dem de grandeza. Lfeclivamenle, lambém o crescimenlo dos
corpos provém de eIemenlos preexislenles. A parlir de que eIe-
menlos é necessário ampIificar ou minimizar esles lópicos, lam-
bém já ficou anleriormenle exposlo.
Depois, eslando em evidôncia lanlo as quaIidades como as
dimensões dos faclos, convém provocar no ouvinle comporla-
menlos emocionais. Lsles são: a compaixão, a indignação, a ira,
o ódio, a inveja, a rivaIidade, o senlimenlo de discórdia. Os
lópicos respeclivos já foram alrás mencionados, de forma que
resla recordar o que foi dilo. Islo é ajuslado fazer aqui e não
nos proémios, como aIguns dizem incorreclamenle
246
. Iois,
245
A Ielra, «marleIar», para a expressão, ver Arislófanes, Nu.cns, 22.
246
Discordamos da conjeclura de Issing, aceile por Ross (cf. Racio-
nero c! |cc.).
29¯
para que a apreensão das ideias seja efecliva, prescrevem que
se proceda a muilas repelições. Ior conseguinle, no proémio,
convém expor o assunlo para que não passe despercebido acer-
ca do que eslá em causa, no epíIogo, baslam os ponlos princi-
pais do que foi demonslrado. O início do epíIogo, por isso,
enuncia que se cumpriu o que se promelera, de laI forma que
se lá-de expor o que foi lralado e porquô. AIém disso, faIa-se
a parlir da comparação com os argumenlos do adversário.
Convém comparar quanlas coisas foram dilas sobre um mes-
mo assunlo, quer conlrapondo-as («mas esle disse lais coisas
acerca dislo, eu islo, por lais razões») quer Iançando mão da
ironia (como «pois esle disse islo, eu islo», e «que faria se de-
monslrasse lais coisas, mas não aqueIoulras»), quer da inlerro-
gação («que foi demonslrado`» ou «o que é que esle demons-
lrou`»). Iode-se, pois, concIuir desle modo por comparação, ou
segundo a ordem naluraI dos argumenlos, laI como se disse, e
depois, se se quiser, lralar separadamenle os do discurso ad-
versário.
Como concIusão, é ajuslada a expressão assindélica, para
que seja reaImenle epíIogo e não discurso.
Dissc, cu.isics, icn!cs cs jccics, ju|gci!
247
142Oa
247
IrovaveImenle a concIusão de Iísias, Ccnirc |rcicsicncs.
ÍNDICES
301
eyævtottke¸ 1.5, p. 112 ................................ Agoníslico
ekptþcìcyIe 1.5, p. 112 ............................... Minucia
eveìcyIe 3.2, p. 246, 3.7, p. 257 ............... AnaIogia
evttkrtµrvp ìr¸t¸ 3.9, p. 263 ...................... Discurso anlilélico
eaeórt¸t¸ 3.17, pp. 289, 292 ........................ Demonslração
eacaì6vpot¸ 3.13, p. 279 ............................ Divagação
epµcvIe 3.1, p. 242 ...................................... Harmonia
ep¿q. etttcv 1.7, p. 118 ............................ Irincípio. causa
eotrtcv 3.1O, p. 265 ..................................... LIegância
6tr¿vct 1.2, 15.1, p. 96 ................................ Inarlíslicas, não lécnicas
eu¸pot¸ 1.9, p. 129 ....................................... AmpIificação
eçrkq¸ 3.9, p. 262 ........................................ SimpIes
yrìctcv 3.18, p. 295...................................... RidícuIo, risíveI
yìætte 3.3, p. 25O ........................................ GIosa
yvæµp 2.21, p. 2O8........................................ Máxima
ypeçtkp ìr¸t¸ 3.12, p. 275 .......................... Lxpressão escrila
órtyµe 3.14, p. 284 ....................................... LxempIo
órtkttke rv0µqµete 2.22, p. 213 ................ Lnlimemas demonslralivos
órt¸t¸ 3-7, p. 258 .......................................... Lxposição enuncialiva
órIvæot¸ 2.24, p. 231 .................................... Lxagero
ópµpycptkp ìr¸t¸ 1.3, p. 1O4, 3.11, p. 276 Género deIiberalivo
óteþcìq 1.1, p. 9O, 3.14, p. 281 .................. Acusação, incuIpação
óteIprot¸ 2.23, p. 22O ................................... Divisão
óteìrkttkq 1.1, p. 89 .................................... DiaIéclica
ót6vcte 3.1O, p. 266...................................... Compreensão, significado
ótetptþq 3.17, p. 291 .................................... Digressão
ótqypot¸ 3.13, p. 278 .................................... Narração
ótpppµrvp ìr¸t¸ 3.9, p. 263 ......................... Discurso segmenlado
ótkevtkp ìr¸t¸ 1.3, p. 1O4, 3.11, p. 276 ..... Género judiciaI
rykæµtcv 1.9, p. 128 ..................................... Lncómio
INDICL DL TLRMOS TLCNICOS
302
rììpvI¸rtv 3.5, p. 253 .................................. IaIar correclamenle
rlke¸ 1.2, p. 1OO............................................ IrobabiIidade
rlkæv 3.4, p. 252 ........................................... SímiIe, imagem
rlpcµrvp ìr¸t¸ 3.9, p. 261............................ Lnunciado conlínuo
rvrpyrte 3.11, p. 266 .................................... Acção, aclo
rv0uµpµe 1.2., p. 98, 2.22, p. 213 .............. Lnlimema
rykæµtcv 1.9, p. 127 ..................................... Lncómio, eIogio
rìrykttke¸ rv0uµpµe 2.22, p. 215 .............. Lnlimema refulalivo
rvteot¸ 2.25, p. 234...................................... Objecção
rvtr¿vct tIotrt¸ 1.2, p. 96 ........................... Irovas lécnicas, arlíslicas
r¸t¸ 2.12, p. 193 ............................................ Hábilo, maneira de ser
raetvc¸ 1.9, p. 127 ....................................... LIogio
rartoeótcv 3.17, p. 291 ................................. Lpisódio
rartocótcuv 3.17, p. 291............................... Inlroduzir a um rartoeótcv
rar¸rìry¿c¸ 3.13, p. 279 .............................. Refulação supIemenlar
ratrtkq¸ 1.13, p. 146 .................................... Lquilalivo
ratórtkttkè¸ ìr¸t¸ 1.3, p. 1O4, 3.12, p. 277 LsliIo demonslralivo
ratótqypot¸ 3.13, p. 278 ............................... Lpidiegese
raI0rtcv 3.2, p. 249 ...................................... Lpílelo
raIìcyc¸ 3.19, p. 296 ................................... LpíIogo
ratotqµp 1.1, p. 89 ....................................... Conlecimenlo
ractkcócµrtv 1.7, p. 121 ............................... AcumuIação
rpætpot¸ 3.18, p. 294 ................................... Inlerrogação
\0tkp ìr¸t¸ 3.7, p. 258................................. Discurso de género élico
\0c¸ 1.2.3, p. 96, 2.12, p. 193..................... Carácler
letpruµete 3.14, p. 281 ............................... Remédios
tóte eveµete 3.5, p. 254 .............................. Termos específicos
ketrotpeµµrvp kr¸t¸ 3.9, p. 261 ................ Lnunciado periódico
kctvcì teact 2.18, p. 2O1 ............................. Tópicos
kuptc¸ 3.2, p. 245 ......................................... Soberano, senlor, váIido
kæìcv 3.9, p. 262.......................................... Membro, coIo
ìr¸t¸ 3.1, p. 241 ............................................ Lxpressão enuncialiva, enuncia-
do, esliIo
ìrkttke¸ 3.8, p. 26O ...................................... CoIoquiaI
ìeyc¸ 1.2, p. 97 ............................................. Discurso
µeìeke¸ 1.1O, p. 131, 2.17.4-22.1O ............. Lfeminado
µryr0c¸ 1.5, p. 11O ....................................... Lslalura
µrtcuv 3.14, p. 283 ....................................... Minimizar, reduzir
µrte0cp6 3.1O, p. 265 ................................... Meláfora
µrtpcv 3.1, p. 242 ......................................... Rilmo
¸rvtkp ìr¸t¸ 3.2, p. 245 ............................... Iinguagem não famiIiar
óykc¸ 3.6, p. 256 ........................................... SoIenidade
clkrte eveµete 3.2, p. 246 .......................... Termos apropriados
cµævuµte 2.24, p. 229, 3.2, p. 246 ............. Homonímia
ae0pttkp 3.7, p. 257 ..................................... Discurso do género emocionaI
303
a60c¸ 1.2, p. 97, 2.8, 16 .............................. Iaixão, emoção, sofrimenlo
aepeþcìq 2.2O, p. 2O6 .................................. IaráboIa
aep6órtyµe 1.2, p. 1O1, 2.2O, p. 2O6.......... LxempIo
aep6óc¸cv 2.21, p. 2O9................................. Iaradoxo, conlrário à expecla-
liva comum
aep6ìcyc¸ 1.13, p. 147 ................................ Inesperado
aepeìcytoµe¸ 1.9, p. 127, 3.7, p. 257 ........ IaraIogismo, argumenlo faIa-
cioso
aepeìcytottke¸ 1.9, p. 127 .......................... IaIacioso
aepIoæot¸ 3.9, p. 264 ................................... Iarisose, isocoIo
aepcµcIæot¸ 3.9, p. 264 ............................... Iaromeose
arptr¿cvte eveµete 3.5, p. 254 .................. Termos gerais
arpIcóc¸ 3.9, p. 261 ...................................... Ieríodo
arptartrte 1.11, p. 137 ................................. Avenlura, mudança subila de
forluna
aIott¸ 1.1, p. 92, 1.2, p. 96......................... Irova, prova de persuasão, pro-
va de fideIidade
apceIprot¸ 3.17, p. 291 ................................ Inlenção
apccótqypot¸ 3.13, p. 278............................. Irodiegese
apè eµµ6tæv actrtv 3.11, p. 269 ................ Dispor dianle dos oIlos
ape0rot¸ 3.13, p. 278 .................................... Lxposição
apccIµtcv 3.14, p. 279 .................................. Iroémio
apracv 3.2, p. 244 ......................................... Convenienle, adequado
apeteot¸ 1.3, p. 1O5, 2.1, p. 159 ................ Iremissa
apæot¸ 1.7, p. 12O ......................................... DecIinação, fIexão
p ptcptkq (ver óteìrkttkq) 1.1, p. 89 .......... Relórica
p u0µe¸ 3.1, p. 242, 3.8, p. 259 .................... Rilmo
oeçp 3.2, p. 244 ........................................... CIareza de esliIo
opµrtcv 1.2, p. 1OO ....................................... SinaI, argumenlo prováveI
ocìctkI¸rtv 3.5, p. 255 ................................. IormuIar soIecismos
otct¿rtcv 2.22, p. 215................................... LIemenlo
ouµþckcv 3.16, p. 289 .................................. SinaI que permile o conleci-
menlo
ouv6yrtv 1.2, p. 99 ....................................... Iormar siIogismos, concIuir
ouvóroµc¸ 3.5, p. 253 ................................... IarlícuIa coordenaliva
ouvotpeµµrµæ¸ 2.24, p. 229 ........................ De forma concisa
ouvtcµvIe 3.6, p. 256................................... Concisão
ouotctke 1.7, p. 12O..................................... Coordenações, conjugações de
lermos
o¿rtkteoµe¸ 2.21, p. 211 ............................. Iamenlação
o¿jµe 2.24, p. 229, 3.8, p. 259 .................. Iorma de expressão
t6¸t¸ 3.13, p. 277 ......................................... Disposição
teartvp ìr¸t¸ 3.2, p. 244 ............................. Género lumiIde
trkµqptcv 1.3, p. 1O5 .................................... Irova irrefuláveI
tr¿vp 1.1, p. 9O ............................................. Arle, conjunlo de regras
304
tr¿vcìcyrtv 1.1, p. 9O .................................. Descrever como arle, reduzir a
um sislema
teact cf. kctvcì teact ................................... Tópicos, Iugares
uaekptot¸ 3.1, p. 242 .................................... Ironunciação
gu¿pe¸ 3.3, p. 249 ........................................ LsleriIidade (no esliIo)
305
INDICL ONOMÁSTICO
AcrópoIe, 226
Afrodile, 228, 274
Agamémnon, 274
Ágalon, 2O4, 233
AgIaia, 276
Agros, 121
Ájax, 189
AIceu, 126
AIcibíades, 199
AIcidamanle, 144, 221, 25O-251
AIcínoo, 287
AIexandre, 115, 218, 222, 233, 28O
Amasis, 186
Anásquelo, 272
Anaxágoras, 221
Anaxândrides, 267, 272, 276
Andrócion, 252
AndrocIes, 225
Anfiarau, 194
Anlifonle, 165, 182, 225
Anlígona, 144, 149, 293
Anlímaco, 256
Anlíslenes, 253
Aqueus, 232
AquiIes, 1O5, 115, 162, 169, 214-215,
218, 232, 252, 286, 292
Areópago, 91
Ares, 273
Arislides, 22O, 28O
Arislipo, 222
Arislófanes, 249
Arislofonle, 219
Arislogílon, 13O, 22O, 231
ArqueIau, 22O
Arquíbio, 151
Arquidamo, 252
ArquíIoco, 221, 293
Árquilas, 27O
Alena, 115, 274
Alenas, 221
Alenienses, 15O, 168, 181, 214, 221,
267, 271, 283
Álica, 219, 268
Alos, 263
ÁulocIes, 222
Beócios, 252
Bias, 196
Bríson, 248
Cábrias, 118, 268
CáIias, 99, 173, 247
CáIidon, 262
CaIíope, 247
CaIipo, 142, 223, 225
CaIíslenes, 168
CaIíslralo, 118, 147, 292
Cão ceIesle, 23O
Cárcino, 227, 289
Cares, 151, 267-268, 291
Caridemo, 224
Caronle, 293
Cárpalos, 274
Cauno, 234
306
Cefisódolo, 253, 267-268
Cicno, 215
Cídias, 181
Címon, 199
CIeofonle, 15O, 257
CIéon, 161, 254, 259
CoIunas de HércuIes, 191
Cónon, 222, 228
Córax, 233
Corínlios, 115
CráliIo, 288
Creonle, 149
Creso, 254
Crícias, 151, 286
Dario, 2O6
DeIfos, 222
DeIos, 26O
Demades, 232
Demócrales, 253
Demócrilo de Quios, 263
Demóslenes, 218, 232, 252
Diógenes, o Cínico, 268
Diomedes, 215, 225, 286
Diomedonle, 217
Díon, 142
Dionísio CaIco, 247
Dionísio, 1O2, 182, 199, 231
Dioniso, 247, 253
Diopiles, 185
Dodona, 221
Dorieu, 1OO
Drácon, 228
Laco, 292
Lgina, 267
Lginelas, 214
Lgiplo, 2O6
LIealas, 227
LIide, 284
LmpédocIes, 144, 254
Lnesidemo, 143
LniáIio, 211
Lpicarmo, 121, 21O
Lpidauro, 267
Lpiménides de Crela, 291
LrgófiIo, 168
Lsíon, 268
Lsopo, 2O7
Lspeusipo, 267
Lsquines, 288
Lslesícoro, 2O7, 21O, 271
LslíIbon, 221
Lslrábax, 224
Lubeia, 267
LubuIo, 151
Luclémon, 148
Lurípides, 181, 228, 245, 247, 281, 285
Luropa, 281
Lulidemo, 23O
Lulino, 2O4
Êuxeno, 252
Lvágoras, 222
IaíIo, 287
IáIaris, 2O7
Ieaces, 283
IiIámon, 273-274
IiIémon, 276
IiIipe, 219
IiIócrales, 168
IiIocleles, 273
GéIon, 143
Giges, 293
GIáucon de Teo, 242
Górgias, 243, 25O-251, 259, 28O, 284,
291, 295
Grécia, 2O6, 267
Gregos, 214, 219, 229, 269
Hades, 288
HáIis, 254
Harmódio, 13O, 219-22O, 231
HegesípoIis, 222
Heilor, 169, 215, 218
HéIade, 225, 268
HeIena, 115, 222, 233, 279
HeIesponlo, 263
Hémon, 289, 293
Hera, 292
HeracIidas, 214
HeracIilo, 255
Hermes, 23O
Heródico, 111, 228
30¯
Heródolo, 287
Hesíone, 285
Hierão, 199
Higiénon, 285
Hímera, 2O7
Hiparco, 231
Hípias, 99
HipóIoco, 129
Homero, 115, 135, 15O, 169, 221,
27O, 276, 289
Idrieu, 252
Ifícrales, 2O8, 219, 223, 247, 267, 284
IIion, 115, 215
Isménias, 221
Isócrales, 13O, 2O4, 222, 224, 259,
272, 279, 291, 293
IlaIiolas, 221
}asão, 143, 227
}ocasla, 289
Iacedemónios, 214, 221, 266, 283,
291, 295
Iâmpon, 294
Iâmpsaco, 221
Ieódamas, 118, 226
Iéplines, 266
Ieucólea, 227
Iiceu, 183
Iícia, 26O
Iicímnio, 248, 275, 279
Iícofron, 25O, 264
IicoIeonle, 268
Iicurgo, 221
Iócrios, 21O
Macedónia, 219
Manlias, 221
Maralona, 267
Medeia, 227
Mégara, 1O2
MeIanípides, 263
MeIanopo, 147
MeIéagro, 212, 165
MeIelo, 294
MérocIes, 267
Messénios, 292
MiIcíades, 267
Mísia, 247
MiliIene, 221
Mixidémides, 222
Monle Ida, 232
Nausícrales, 284
Nicanor, 218
Nicéralo, 273
Nícon, 271
Nireu, 276
Odisseu, 115
OIímpia, 1OO, 222
OIímpios, 23O
Iã, 23O
IaIamedes, 276
IânfiIo, 225
Iaros, 221
IálrocIo, 1O5, 218
IeIeu, 292
IeIoponeso, 262
IéIops, 262
IenéIope, 287
Ienleu, 228
Ieparelo, 221
Ieriandro de Corinlo, 15O
IéricIes, 121, 199, 252, 266-267, 294
Iérsia, 2O6
Iíndaro, 23O
Iireu, 23O, 267
Iisandro, 295
Iisíslralo, 1O2
Iílaco, 194
Iilágoras, 221
Iileu, 225
IiloIau, 264, 267
IIalão, 151, 222, 252
IIexipo, 165
IóIibo, 281
IoIícrales, 231
IoIieuclo, 267
IoIifemo, 169
IoIo, 228
Iolideianos, 214
Irácis, 273
Iríamo, 114-115, 28O, 285
Iródico, 282
308
Irolágoras, 234, 255
Querémon, 228, 275
QuériIo, 28O
QuíIon, 195, 221
Quios, 221
Radamanlo, 276
Safo, 126, 221-222
SaIamina, 15O, 214, 268
Samos, 181, 2O7, 252
Seslo, 267
SicíIia, 268
Sigeus, 15O
Sime, 276
Simónides, 115, 128, 199, 249
Siracusanos, 181
Síron, 25O
Sísifo, 27O
Sócrales, 99, 1O1, 127, 173, 22O, 222,
283, 294
SófocIes, 144, 148-149, 227, 262, 281,
284, 288-289, 295
SóIon, 151, 221
Teágenes, 1O2
Tebanos, 219
Tebas, 218, 221
Tegeia, 121
TéIamon, 189, 285
TéIefo, 247
TemíslocIes, 151
Ténedos, 15O, 232
Teodamanle, 252
Teodecles, 217, 223-226, 231
Teodoro, 227, 245, 271, 278
Teseu, 115, 222, 25O
TessaIisco, 221
Teucro, 219, 285
Teumeso, 256
TrasibuIo, 226, 228, 231
Trasímaco, 228, 243, 26O, 273
IIisses, 169, 225-226, 285-287
Xenófanes, 154-155, 224, 227
Xerxes, 2O6, 25O
Zenão, 14O
Zeus, 163, 189, 26O
309
INDICL GLRAI
Irefácio,
pcr MANILI AILXANDRL }INIOR .................................................... 9
INTRODIÇÃO:
1. Origem da relórica e formação do sislema relórico........... 15
2. Nalureza e finaIidade da relórica .......................................... 21
3. ConfIilo enlre a relórica e a fiIosofia..................................... 25
4. A Rcicricc de ArislóleIes .......................................................... 33
5. IIano e conleudo da Rcicricc .................................................. 36
Iivro I ÷ Irovas ou meios de persuasão: prova Iógica 36
Iivro II ÷ Irovas ou meios de persuasão: emoção e
carácler .......................................................................... 41
Iivro III ÷ LsliIo e composição do discurso .................. 45
6. A relórica peripalélica .............................................................. 5O
7. A lradução da Rcicricc .............................................................. 62
BibIiografia:
A. Ionles primárias........................................................................ 65
B. Ionles secundárias .................................................................... 67
RETÓRICA
LIVRO I
O1. A nalureza da relórica ...................................................................... 89
O2. Definição da relórica e sua eslrulura Iógica ................................ 95
310
O3. Os lrôs géneros de relórica: deIiberalivo, judiciaI e epidíclico 1O4
O4. O género deIiberalivo ....................................................................... 1O6
O5. A feIicidade, fim da deIiberação..................................................... 1O9
O6. O objeclivo da deIiberação: o bom e o convenienle .................. 113
O7. Graus do bom e do convenienle .................................................... 116
O8. Sobre as formas de governo ............................................................ 122
O9. A relórica epidíclica .......................................................................... 124
1O. Relórica judiciaI: a injusliça e suas causas ................................... 13O
11. O prazer como maléria de oralória judiciaI ................................. 133
12. Agenles e vílimas de injusliça ........................................................ 139
12.1. Caracleríslicas dos que comelem a injusliça................... 139
12.2. Caracleríslicas dos que sofrem a injusliça....................... 141
13. Crilérios de jusliça e de injusliça ................................................... 144
14. Crilérios sobre a gravidade dos deIilos ........................................ 147
15. Irovas não lécnicas na relórica judiciaI ........................................ 149
LIVRO II
O1. A emoção ............................................................................................. 159
O2. A ira...................................................................................................... 161
O3. A caIma ................................................................................................ 166
O4. A amizade e a inimizade ................................................................. 17O
O5. O lemor e a confiança ...................................................................... 174
O6. A vergonla e a desvergonla .......................................................... 177
O7. A amabiIidade .................................................................................... 183
O8. A piedade ............................................................................................ 184
O9. A indignação ....................................................................................... 187
1O. A inveja ................................................................................................ 19O
11. A emuIação ......................................................................................... 192
12. O carácler do jovem .......................................................................... 193
13. O carácler do idoso ........................................................................... 195
14. O carácler dos que eslão no auge da vida .................................. 197
15. Carácler e forluna: o carácler dos nobres .................................... 198
16. O carácler dos ricos ........................................................................... 199
17. O carácler dos poderosos ................................................................. 2OO
18. Lslrulura Iógica do raciocínio relórico: função dos lópicos co-
18. muns a lodas as espécies de relórica ............................................ 2O1
19. Iunção dos lópicos comuns a lodas as espécies de relórica ...... 2O3
2O. Argumenlo peIo exempIo................................................................. 2O6
21. Iso de máximas na argumenlação ................................................ 2O8
22. O uso de enlimemas ......................................................................... 213
23. O uso de enlimemas: os lópicos..................................................... 216
24. O uso de enlimemas aparenles ....................................................... 229
25. O uso de enlimemas: a refulação................................................... 234
26. ConcIusão dos dois primeiros Iivros ............................................. 237
311
LIVRO III
O1. Inlrodução ........................................................................................... 241
O2. QuaIidades do enunciado. A cIareza ............................................. 244
O3. A esliriIidade do esliIo ..................................................................... 249
O4. O uso dos símiIes .............................................................................. 252
O5. A correcção gramalicaI ..................................................................... 253
O6. A soIenidade da expressão enuncialiva ........................................ 256
O7. Adequação do esliIo ao assunlo ..................................................... 257
O8. O rilmo................................................................................................. 259
O9. A conslrução da frase: o esliIo periódico ..................................... 261
1O. A meláfora........................................................................................... 265
11. A eIegância relórica ........................................................................... 269
12. A expressão adequada a cada género ........................................... 275
13. As parles do discurso ....................................................................... 277
14. O proémio ........................................................................................... 279
15. Tópicos de refulação ......................................................................... 284
16. A narração ........................................................................................... 286
17. A prova e a demonslração............................................................... 289
18. A inlerrogação .................................................................................... 294
19. O epíIogo ............................................................................................. 296
INDICLS
Indice de lermos lécnicos ........................................................................ 3O1
Indice onomáslico ..................................................................................... 3O5
COIABORADORLS
I. Cnnrdcnadnr
Anlónio Iedro Mesquila (Cenlro de IiIosofia da Iniversidade de Iis-
boa).
II. Invcstigadnrcs
AbeI do Nascimenlo Iena, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor
auxiIiar do Deparlamenlo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da
Iniversidade de Iisboa e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássicos da Ini-
versidade de Iisboa.
Adriana Nogueira, Doulora em IiIoIogia CIássica, professora auxiIiar do
Deparlamenlo de Ielras CIássicas e Modernas da IacuIdade de Ciôncias
Humanas e Sociais da Iniversidade do AIgarve e invesligadora do Cenlro de
Lsludos CIássicos da Iniversidade de Iisboa.
Ana AIexandra AIves de Sousa, Doulora em IiIoIogia CIássica, profes-
sora auxiIiar do Deparlamenlo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras
da Iniversidade de Iisboa e invesligadora do Cenlro de Lsludos CIássicos
da Iniversidade de Iisboa.
Ana Maria Ióio, Iicenciada em Lsludos CIássicos peIa Iniversidade de
Iisboa.
Anlónio CampeIo AmaraI, Meslre em IiIosofia, assislenle do Depar-
lamenlo de IiIosofia da IacuIdade de Ciôncias Humanas da Iniversidade
CalóIica Iorluguesa.
Anlónio ManueI Marlins, Doulor em IiIosofia, professor caledrálico do
Inslilulo de Lsludos IiIosóficos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de
Coimbra e direclor do Cenlro de Iinguagem, Inlerprelação e IiIosofia da
Iniversidade de Coimbra.
Anlónio ManueI RebeIo, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor asso-
ciado do Inslilulo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Iniversi-
dade de Coimbra e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássicos e Huma-
níslicos da Iniversidade de Coimbra.
Anlónio Iedro Mesquila, Doulor em IiIosofia, professor auxiIiar do De-
parlamenlo de IiIosofia da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de Iisboa e
invesligador do Cenlro de IiIosofia da Iniversidade de Iisboa.
CarIos SiIva, Iicenciado em IiIosofia, professor associado convidado do
Deparlamenlo de IiIosofia da IacuIdade de Ciôncias Humanas da Iniversi-
dade CalóIica Iorluguesa.
Carmen Soares, Doulora em IiIoIogia CIássica, professora associada do
Inslilulo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de
Coimbra e invesligadora do Cenlro de Lsludos CIássicos e Humaníslicos da
Iniversidade de Coimbra.
DeIfim Ieão, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor associado do Ins-
lilulo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de
Coimbra e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássicos e Humaníslicos da
Iniversidade de Coimbra.
Irancisco Clorão, Meslre em IiIosofia, invesligador do Cenlro de IiIo-
sofia da Iniversidade de Iisboa.
Hileslkumar Iarmar, Iicenciado em Lsludos CIássicos peIa Iniversi-
dade de Iisboa.
}osé Iedro Serra, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor auxiIiar do De-
parlamenlo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de
Iisboa e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássicos da Iniversidade de
Iisboa.
}osé Segurado e Campos, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor cale-
drálico jubiIado do Deparlamenlo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ie-
lras da Iniversidade de Iisboa e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássi-
cos da Iniversidade de Iisboa.
ManueI AIexandre }unior, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor cale-
drálico do Deparlamenlo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da
Iniversidade de Iisboa e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássicos da
Iniversidade de Iisboa.
Maria de Iálima Sousa e SiIva, Doulora em IiIoIogia CIássica, profes-
sora caledrálica do Inslilulo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da
Iniversidade de Coimbra e invesligadora do Cenlro de Lsludos CIássicos e
Humaníslicos da Iniversidade de Coimbra.
Maria do Céu IiaIlo, Doulora em IiIoIogia CIássica, professora caledrá-
lica do Inslilulo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Iniversi-
dade de Coimbra e direclora do Cenlro de Lsludos CIássicos e Humaníslicos
da Iniversidade de Coimbra.
Maria }osé Vaz Iinlo, Doulora em IiIosofia, professora auxiIiar do De-
parlamenlo de IiIosofia da IacuIdade de Ciôncias Sociais e Humanas da
Iniversidade Nova de Iisboa e invesligadora do Inslilulo de IiIosofia da
Iinguagem da Iniversidade Nova de Iisboa.
IauIo Iarmlouse AIberlo, Doulor em IiIoIogia CIássica, professor auxi-
Iiar do Deparlamenlo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Ini-
versidade de Iisboa e invesligador do Cenlro de Lsludos CIássicos da Ini-
versidade de Iisboa.
Iedro IaIcão, Iicenciado em Lsludos CIássicos peIa Iniversidade de
Iisboa.
Ricardo Sanlos, Doulor em IiIosofia, invesligador do Inslilulo de IiIo-
sofia da Iinguagem da Iniversidade Nova de Iisboa.
III. CnnsuItnrcs cicntíIicns
1. llIosoflu
}osé Barala-Moura, professor caledrálico do Deparlamenlo de IiIosofia
da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de Iisboa.
2. llIosoflu Antlgu
}osé GabrieI Trindade Sanlos, professor caledrálico do Deparlamenlo de
IiIosofia da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de Iisboa e invesligador
do Cenlro de IiIosofia da Iniversidade de Iisboa.
3. LInguu e CuIturu CIússlcu
Maria HeIena da Rocla Iereira, professora caledrálica jubiIada do Ins-
lilulo de Lsludos CIássicos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de
Coimbra e invesligadora do Cenlro de Lsludos CIássicos e Humaníslicos da
Iniversidade de Coimbra.
4. Hlstórlu e Socledude Gregus
}osé Ribeiro Ierreira, professor caledrálico do Inslilulo de Lsludos CIás-
sicos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de Coimbra e invesligador do
Cenlro de Lsludos CIássicos e Humaníslicos da Iniversidade de Coimbra.
5. LInguu e CuIturu Árube
Anlónio Dias Iarinla, professor caledrálico do Deparlamenlo de Hisló-
ria da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de Iisboa e direclor do Inslilulo
David Iopes de Lsludos Árabes e IsIâmicos.
6. Lóglcu
}oão Branquinlo, professor associado com agregação do Deparlamenlo
de IiIosofia da IacuIdade de Ielras da Iniversidade de Iisboa e invesligador
do Cenlro de IiIosofia da Iniversidade de Iisboa.
7. BloIoglu e Hlstórlu du BloIoglu
CarIos AImaça, professor caledrálico jubiIado do Deparlamenlo de Bio-
Iogia da IacuIdade de Ciôncias da Iniversidade de Iisboa.
8. Teorlu ]urIdlco-ConstltuclonuI e llIosoflu do Dlrelto
}osé de Sousa e Brilo, juiz jubiIado do TribunaI ConslilucionaI e profes-
sor convidado da IacuIdade de Direilo da Iniversidade Nova de Iisboa.
9. ArlstoteIlsmo Turdlo
Mário Sanliago de CarvaIlo, Doulor em IiIosofia, professor caledrálico
do Inslilulo de Lsludos IiIosóficos da IacuIdade de Ielras da Iniversidade
de Coimbra e invesligador do Cenlro de Iinguagem, Inlerprelação e IiIosofia
da Iniversidade de Coimbra.
Acabou de imprimir-se
em Ievereiro de dois miI e cinco.
Ldição n.
o
1O11O21
vvv.incm.pl
L-maiI: dco©incm.pl
L-maiI BrasiI: Iivraria.camoes©incm.com.br

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