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13/4/2014

Estudos Avançados - A trajetória do negro na literatura brasileira

A trajetória do negro na literatura brasileira

Domício Proença Filho

RESUMO ESTE ARTIGO busca traçar o percurso do negro na literatura brasileira, como objeto, numa visão distanciada, e como sujeito, numa atitude compromissada. Destaca, de um lado, textos literários sobre o negro e, de outro, literatura do negro. Identifica, na produção literária ao longo do processo literário brasileiro, estereótipos reduplicadores da visão preconceituosa, explícita ou velada. Procura marcar a ultrapassagem do estereótipo e a assunção do negro como sujeito do seu discurso e de sua ação em defesa da identidade cultural. Nessa direção, seleciona autores e textos representativos produzidos notadamente a partir dos anos de 1970, momento de efervescência dos movimentos de auto-afirmação da etnia. Discute a designação literatura negra, entendida como aparentemente valorizadora, mas passível de converter-se em risco de fazer o jogo do preconceito velado. ABSTRACT THIS ARTICLE outlines the trajectory of blacks in Brazilian literature, both as an object, with a distant perspective, and as a subject, with a more assertive attitude. As result it addresses the literary text on blacks, on the one hand; and by Blacks, on the other. It identifies a long history of stereotypes, associated with a prejudice vision of Blacks, both explicitly and implicitly. It seeks to describe the moment of passage in wich the stereotype was overtaken by the affirmation of blacks as subjects of their discourse, acting in defense of own cultural worth and identity. It selects a number of representative authors and texts starting in the 1970s, a particularly vital moment of Black conciousness affirmation in Brazil. It then argues the propriety of styling ablack literature, superficially presented as a positive affirmation, but pregnant of being turned into a form of implicit prejudice.

A PRESENÇA DO NEGRO na literatura brasileira não escapa ao tratamento marginalizador que, desde as instâncias fundadoras, marca a etnia no processo de construção da nossa sociedade. Evidenciam-se, na sua trajetória no discurso literário nacional, dois posicionamentos: a condição negra como objeto, numa visão distanciada, e o negro como sujeito, numa atitude compromissada. Tem-se, desse modo, literatura sobre o negro, de um lado, e literatura do negro, de outro.

O negro como objeto: a visão distanciada
A visão distanciada configura-se em textos nos quais o negro ou o descendente de negro reconhecido como tal é personagem, ou em que aspectos ligados às vivências do negro na realidade histórico-cultural do Brasil se tornam assunto ou tema. Envolve, entretanto, procedimentos que, com poucas exceções, indiciam ideologias, atitudes e estereótipos da estética branca dominante.
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Estudos Avançados - A trajetória do negro na literatura brasileira

Assim dimensionada, a matéria negra, embora só ganhe presença mais significativa a partir do século XIX, surge na literatura brasileira desde o século XVII, nos versos satíricos e demolidores de Gregório de Matos, como os do "Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os seus membros e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia", poema de que vale lembrar a seguinte passagem, a propósito, manifestamente reveladora: Que falta nesta cidade?... Verdade. Que mais por sua desonra?... Honra. Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta Numa cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio. Quem causa tal perdição?... Ambição. E a maior desta loucura?... Usura. Notável desaventura De um povo néscio e sandeu Que não sabe que o perdeu Negócio, ambição, usura. Quem são seus doces objetos?... Pretos. Tem outros bens mais maciços?... Mestiços. Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos. Dou ao demo os insensatos, Dou ao demo a gente asnal, Que estima por cabedal Pretos, mestiços, mulatos1. No século XIX, presentifica-se a visão estereotipada, que vai prevalecer até a atualidade, com alguma variação. Tomada como ponto de partida a caracterização proposta por David Brookshaw, em seu livro Raça e cor na literatura brasileira, 1983, embora com algumas ressalvas a outras colocações suas nessa mesma obra, passo a destacar os estereótipos que considero mais evidentes. Começo pelo escravo nobre, que vence por força de seu branqueamento, embora a custo de muito sacrifício e humilhação. É o caso da escrava Isaura, do livro do mesmo nome, escrito por Bernardo Guimarães e publicado em 1872 e de Raimundo, o belíssimo mulato de olhos azuis criado por Aluísio de Azevedo em O mulato, lançado em 1881. Essa nobreza identifica-se claramente com a aceitação da submissão, apesar da bandeira abolicionista que o primeiro pretende empunhar e da denúncia do preconceito assumida pelo segundo. A fala de Isaura deixa clara a posição, como nesse diálogo com sinhá Malvina, diante da tristeza da canção entoada pela primeira: – Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima de senhores bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui uma vida, que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teus senhores. Deram-te uma educação, como não tiveram muitas ricas e ilustres damas, que eu conheço. És formosa e tens uma cor linda, que ninguém dirá que gira em tuas veias uma só gota de sangue africano2. [...] – Mas senhora, apesar de tudo isso que sou eu mais do que uma simples escrava? Essa educação, que me deram, e essa beleza, que tanto me gabam, de que me servem?... São trastes de luxo colocados na senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é: uma senzala. – Queixas-te de tua sorte, Isaura? – Eu não, senhora: apesar de todos esses dotes e vantagens, que me atribuem, sei conhecer o meulugar 3 (O grifo é meu).
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[.. sabida.. Zumbi nem pensar... e a minha posição a teu lado era tão falsa!..... A África personificada lamenta a sua sorte e termina por pedir perdão para os seus crimes (!): Mas eu. Meu Deus! Senhor.. marcado pela atitude resignada.. o apelo a que empunhem a bandeira da libertação é feito aos "heróis do Novo Mundo".. porém.. eu soluço um grito. desconhecedor de sua origem de mãe escrava....scielo. Nessa óptica. irritado.. um – mulato! – E como hei de apagar a minha história da lembrança de toda esta gente que medetesta?5 No momento em que se explicita a gravidez de Ana Rosa..... também faz uma severa auto-avaliação... também na última estrofe de "Bandido negro": ("Cai orvalho do sangue do escravo/Cai orvalho da face do algoz.. o que lhe custará a própria vida.. eu quero o ferro da vingança").. como nos empolgados versos de Castro Alves...php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 3/25 . a Andrada. a natureza cuida do seu túmulo e dele será o reino dos céus. que só não se consuma por força do determinismo biológico e circunstancial que comanda os comportamentos no romance: – Não chores.. Outro poema.. por exemplo.. "por quantos conheceram os seus parentes no Maranhão"4.. o descobridor da América. no final.. pretexto para a exaltação da liberdade e defesa da causa abolicionista. pra que meu pranto.... afastando-se para um canto a soluçar.. o patriarca da independência brasileira. À nobreza de caráter de Isaura e de Raimundo associa-se outra dimensão estereotipada: a do negro vítima. ele se transfigura em objeto de idealização. na quase totalidade dos seus poemas sobre a escravidão. Raimundo reage... poeta romântico....... "O navio negreiro". um de seus textos antológicos. perdoa-me se fui grosseiro contigo! mas que queres? Todos nós temos orgulho.13/4/2014 Estudos Avançados .. Eu triste abandonada Em meio das areias esgarrada..... Senhor!. um filho de negra. Senhor! Do teu potente braço Role através dos astros e do espaço Perdão pros crimes meus!... por sua vez.. cresce vingança feroz").A trajetória do negro na literatura brasileira Raimundo. sobretudo quando escravo../Cresce.. Escuta o brado meu lá do infinito... seu comportamento é ainda mais revelador: – O senhor é um malvado! Invectivou o pobre pai. porém quanto custa ouvir cara-a-cara: "Não lhe dou minha filha porque o senhor é indigno dela.. e toma posição. Há dois mil anos. o senhor é filho de uma escrava!" Se dissessem: "É porque é pobre!" que diabo! – eu trabalharia! Se dissessem: "É porque não tem a posição social!" juro-te que a conquistaria. situa a redenção pela morte.... Perdida marcho em vão! Se choro.... onde o escravo encontraria a sua plena liberdade: não há lugar para ele nessa sociedade.] Tens toda a razão. Vejo exceções no final de "A criança" ("Amigo.. O rapaz foi ter com ele e pediu-lhe humildemente que lhe perdoasse e lhe desse Ana Rosa poresposa6. O poeta baiano não atribui. Basta... destaca a desumanidade que marcava o tráfico dos escravos...Acredita que ninguém te amará mais do que te amo e desejo! Se soubesses.. mas em compensação.... na cena de sua quase renúncia. Verdade que..... fosse como fosse!" É porque é um infame! um ladrão! um miserável!" eu me comprometeria a fazer de mim o melhor dos homens de bem! Mas um ex-escravo....br/scielo. então já abolido..... "A cruz da estrada". minha flor.. nas associações imagísticas de http://www. ó Deus clemente! Não descubras no chão! .. qualquer movimento de reação ou de revolta ao escravo. a Colombo. meu Deus!7 Em "O navio negreiro"... bebe o pranto a areia ardente: Talvez...

O que move a sua indignação é. de Júlio Ribeiro. Trata-se. para aquele momento. em peças de teatro como O demônio familiar . que ele vê como ser humano. onde. sempre a mesma crioula suja. de Joaquim Manuel de Macedo. deixa entrever. com O calhambola. recai sempre no ato vingativo. segundo o narrador. o sofrimento do negro. o brado de revolta contra a escravidão. como O presidente negro (1926). sem categoria de arte. a branca personagem central. se deve à promiscuidade com os escravos. em 1864. Estamos diante de uma poesia que não foge à tônica do seu tempo. necessário dizê-lo. tenhamos presente. na vingança individualizada de Lucas. serviçal e subalterno. em nada. http://www. em altos brados. do romance O cortiço (1900).php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 4/25 . participava das novas regalias do amigo: pelo contrário. o escravo". entretanto. que é ele quem assume. das marcas profundas de uma formação desenvolvida no bojo de uma cultura escravista. nesses casos. de Monteiro Lobato. como percebeu José Guilherme Merquior. Ele. se ele não dá voz ao negro. centrado num escravo orgulhoso. como contraponto social. e em A família Medeiros(1892). embora resignado.13/4/2014 Estudos Avançados . assimilandolhe o caráter aos ideais de comportamento da raça dominante. No momento em que o negro é extremamente coisificado. Ainda sob a perspectiva idealizante do Romantismo. importa para a campanha afirmar. sem lenda histórica"9. ao retratar um negro de perfil heróico e consistente: trata-se de "Mauro. nunca no problema central. de Fagundes Varela.br/scielo.scielo. branqueia a figura moral do preto. facilitando-lhe assim a identificação simpática das platéias burguesas com os sofrimentos dos escravos"8. num momento histórico em que o negro era. em nada absolutamente. Curiosamente. que tem por título As vítimas-algozes (1873 e 1896). abre espaços para a problemática do negro escravo. o negro figura como personagem secundário. num romance pouco divulgado do mesmo Joaquim Manuel de Macedo. Na maioria dos casos. e em A carne (1888). destaca-se também em O rei negro (1914) romance de Coelho Neto. mas se comporta como um advogado de defesa que quer comover a platéia e provar a injustiça da situação que denuncia. Apesar do seu empenho consciente e do seu entusiasmo. por exemplo. O texto. Em situação oposta. tornado fera por força da própria escravidão. Esse estereótipo permanece. Daí para a conclusão de que a raça negra é inferior a distância é curtíssima. Se em sua visão idealizadora o poeta não consegue escapar do estereótipo. é por essa via que acredito se possa dimensionar a sua contribuição à causa da abolição. sobretudo. presentifica-se o escravo demônio. Por outro lado. nos seus textos. valoriza o negro mas não consegue afastar-se da tendência ao branqueamento. "não busca a especificidade cultural e psicológica do negro. abandonada como uma cavalgadura de que já não precisamos para continuar a viagem10. por exemplo. isto numa época em que Palmares e outros quilombos já eram realidades. a liberação dos instintos de Lenita. Repare-se que a ênfase. É um momento em que também emerge o negro infantilizado. a sua condição humana e contribuir assim para instalar na burguesia a culpa moral da escravidão. em quem o "selvagem" emerge para lavar a honra da mulher amada. por vezes dão voz ao negro: é o caso de Trajano Galvão de Carvalho. sai a lume. que se encontra. ao contrário. sempre atrapalhada de serviço. como assinala Antonio Candido. e que aparece. a desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. entretanto. ainda que a serviço da causa abolicionista.A trajetória do negro na literatura brasileira "Saudação a Palmares". João Romão subia e ela ficava cá embaixo. na figura da Bertoleza. à medida que ele galgava posição social. sem domingo nem dia santo: essa. que seria a luta pela liberdade ou a referência a posicionamentos coletivos. inegavelmente. e mais a necessidade de a nação livrar-se da mancha da escravidão. corajosíssima. de Adolfo Caminha. e O cego. e no ainda menos conhecido romance de José do Patrocínio denominado Mota Coqueiro (1877). E o negro pervertido ganha a cena no excelente romance O bom crioulo (1885). uma história de homossexualismo. um poema que se destaca dos demais de seu tempo. na literatura brasileira. a afirmação da liberdade era um dos ideais da ideologia predominante. Verdade que textos sem maior representatividade literária. de um notável feito para a época. Da condição de fera à perversão o caminho é curto. de Aluísio Azevedo: Bertoleza é que continuava na cepa torta. associado à animalização. de Júlia Lopes de Almeida. "a realidade degradante. o poeta não consegue livrar-se. de José de Alencar.

que não tenho pretensão de esgotar. em"Mulher na jogada". como resume o próprio autor. violento. uma caixa "cheia de histórias". Apesar da aparente valorização do mestiço. do citado O cortiço. Um cachorro sarnento. quando começam a surgir. Apresentam a mitificação/desmitificação do negro Pelé.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 5/25 . o negro fiel é o personagem Setembro. embora sem qualquer traço de linguagem especificamente reveladora. Trata-se de uma narrativa que focaliza "um drama humano em torno do forte. sensualíssimo. Um negro fedorento. evitar o estereótipo em "Um negro vai à forra". e da infantilizada e instintiva Gabriela. em "O rei nu". A prevalência da visão estereotipada permanece dominante.A trajetória do negro na literatura brasileira Instinto liricizado é a marca do sofrido Juca Mulato (1917). passa pelos poemas de Jorge de Lima. uma atitude inusitada e vanguardista na época da publicação do texto. http://www. poema de Menotti del Picchia. do mesmo romance. A seu favor. doutor?".scielo. o contraste entre a negra favelada que ganha fama e paga caro por isso e a branca privilegiada e nobre. Dizia que se amarrava no seu tição: demais. símbolo da antiviolência. marginal. livro de poemas de Raul Bopp. preto velho contador de histórias. Basta recordar o caso do ingênuo e simples Jubiabá. no romance O forte (1965). agressivo: – Um jogado fora. aliás. responsável pela educação cristã do herói Cajango. nesse passado. Mas vinha acontecendo o que não estava no traçado da idéia do negro Bira. romance de Adonias Filho. protetor e vingador. na literatura brasileira contemporânea. A propósito. a memória. enquanto Olegário conduz a narrativa. Ainda na galeria do estereótipo. vale assinalar a figura do negro exilado na cultura brasileira. É o que fazem os personagens Jairo e Tibiti. biscateiro do cais. de Gabriela. do romance do mesmo nome. é uma presença que vem desde a Rita Baiana.br/scielo. O negro ou o mestiço de negro erotizado. o fato de que. imprestável11. O experimentalismo de Adonias não se preocupa com a dimensão mimética a esse nível. Destaca-se o estereótipo da morena sensual na personagem Iuta. passional. objeto sexual. antes da preparação deste último para a vingança. trazem o negro injustiçado e ressentido de "O fim de uma agonia". terno e violento. Não conseguem. Outro negro da obra de Adonias é Olegário. A gamação só fazendo aumentar cada dia. na esteira da tradição do romance realista do século passado no país. Gamado de verdade estava ele. porém. Já os contos de Edilberto Coutinho. paralelamente. como "Nega Fulô". companheiro de luta quando o herói assume a sua inglória e cruenta missão. pelo menos até os anos de 1960. Acrescento o que ele não disse e o romance revela: a reconstrução da vida. um negro santo e demônio. onde desponta como personagem principal o negro Bira. É ele o personagem porta-voz. e mesmo do mulato Firmo. suaviza-se nos Poemas da negra (1929). de Mário de Andrade e ganha especial destaque na configuração das mulatas de Jorge Amado. embora não consiga escapar das armadilhas do estereótipo. no caso. o novo passageiro de um singular "Navio negreiro". com a destruição do passado e da violência. lançado em 1955. o forte em torno de Salvador e o fundo histórico de Salvador em torno de ambos". no âmbito da literatura-denúncia. como tem sido apontado por alguns críticos e de que um exemplo se encontra em Urucungo(1933). tomado como centro de referência e caracterizado simpaticamente no seu mundo emocional por um "narrador" distanciado. retoma-se a demonstração de que os mulatos também sentem. a ficção do excepcional romancista baiano contribui fortemente para a visão simpática e valorizadora de inúmeros traços da presença das manifestações ligadas ao negro na cultura brasileira. e em "Tem explicação.13/4/2014 Estudos Avançados . a caracterização da consciência desesperada do negro jogador de futebol e joguete na mão dos empresários. uma trágica história de amor passada no tríplice espaço geográfico indiciado pelo título do romance. título do conto. a maioria de suas estórias inserem-se no espaço da literatura-espelho e. Se arranjara com Wilma. cravo e canela (1958). Em Corpo vivo (1962). para só citar dois exemplos. entretanto. A tentativa de uma visão integradora aparece em Luanda Beira Bahia (1971). Destacar esse personagem ainda era. textos compromissados com a real dimensão da etnia. Cito alguns exemplos representativos do primeiro posicionamento. ele. se sentia agora. Branca. ela. refletem muito do comportamento brasileiro em relação às mulheres que privilegia.

MANUEL: – Foi isso mesmo. surgem. Sou. Você é cheio de preconceito de raça. sinto que estou diante de uma grande figura. troca a sua morte efetiva pela do desconhecido que riu debochado do seu ciúme no espaço real do bar do cais do porto. na década de 1980. pode me chamar de Jesus. mas se não me engano. destacada a relação entre o negro e a música popular brasileira. tira a vida da amante. de Deus. prendese mais à dimensão trágica da história grega. JOÃO GRILO: – Mas espere.. mas falou bonito. um exemplo significativo é o Cristo de Ariano Suassuna. ciumento de sua prostituição e. mas o senhor fala bem que faz gosto. Ele gosta de me chamar de Manuel ou Emanuel. na realidade. o Filho de Davi. onde a encontrara com o garotão louro do estrangeiro. diante de sua caracterização como negro é sintomaticamente revelador: Fala o "Encourado" (de costas. o senhor é que é Jesus? MANUEL: – Sou. ao transpô-la para a realidade urbana do Rio de Janeiro. na cena culminante do julgamento do Auto da Compadecida. Propositadamente selecionei exemplos em que atuam personagens representativos da classe média urbana. Vim hoje assim de propósito. porque sabia que ia despertar comentários. não. Você pensa que sou americano para ter preconceito de raça?13 A passagem citada fala por si. com o braço ocultando os olhos): – Quem é? É Manuel? MANUEL: – Sim. nasci branco e quis nascer judeu. A fala seguinte do Cristo. em nota ao texto. JOÃO GRILO: – Apesar de ser um sertanejo pobre e amarelo. mas agora é sua vez. o Leão de Judá. por quê? JOÃO GRILO: – Porque. João. Todos criados por autores contemporâneos. a reprimenda do Cristo por ele ter mandado João Grilo calar-se chamando-o de atrevido e a sintomática observação complementadora deste último: JOÃO GRILO: – Muito bem. obras preocupadas em resgatar a figura do negro. encenada com atores brancos". entretanto. que "todas as personagens da tragédia devem ser normalmente representadas por atores da raça negra. JOÃO GRILO: – Jesus? MANUEL: – Sim. em sua peça Orfeu negro (1954) e a etniza simpaticamente. Ainda no âmbito teatral. Esse é um dos meus nomes. de Senhor. não importando isso em que não possa ser. justificando a figura que assumira é também culturalmente reveladora: MANUEL: – Muito obrigado. Jesus. mas você pode me chamar também de Jesus. Na ultrapassagem do estereótipo. da realidade rural... Segue-se um protesto do Bispo. que era Cristo. Está entre elas o romance Os http://www. Tanto que o autor esclarece. e o próprio Cristo tem necessidade de se explicar.A trajetória do negro na literatura brasileira Essa paixão o levará ao crime. não é lhe faltando com o respeito não.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 6/25 . porque assim quer se persuadir de que sou somente homem. A cor pode não ser das melhores. Num sonho. No teatro. como podia ter nascido preto. Para mim tanto faz um branco ou um preto. grande grito. é Manuel. JOÃO GRILO: – Aquele a quem chamavam Cristo? JESUS: – A quem chamavam. Que vergonha! Eu. cujos textos demonstram uma preocupação com retratar aspectos marcantes da realidade sociocultural do nosso país.br/scielo. A peça. O estranhamento da popular figura folclórica do personagem João Grilo. Vinícius de Moraes atualiza e carioquiza a tragédia grega. Falou pouco.. mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado12. ainda que à luz de visões distanciadas. aquele sujeito acaba de chamar o senhor de Manuel. Repare-se que nem Deus pode ser negro sem despertar estranheza até do homem simples do sertão. João. se quiser. não se centraliza em questões especificamente ligadas à condição do negro.scielo. Mas você. eventualmente.13/4/2014 Estudos Avançados . Não quero faltar com o respeito a uma pessoa tão importante. Levantem-se todos pois vão ser julgados. da marginalidade e um sertanejo carregado de folclore e de literatura popular. ponto de partida.

um exemplo de consciência negra dilacerada. Merece também referência a posição revelada nos romances do ciclo do açúcar. Esse propósito se traduz numa história em que se evidencia. filho de pai português e mãe africana. Eu sou o Caldas de cobre16. cuja apreciação pormenorizada escapa aos objetivos deste trabalho.13/4/2014 Estudos Avançados . São bastante citados os versos com que se dirige ao seu contemporâneo. nos seus dramas e na sua tragédia [. Em destaque. assina um poema "A escrava" (1846). Tu és rico. formada em colégio de religiosas francesas.. se trata do percurso do negro em ambiente brasileiro contemporâneo e se contam histórias de usinas onde o braço negro tem atuação relevante. no caso integrada à preocupação de buscar. a suadenúncia"14. com a consciência de que. filho de pai português e mãe cafuza.] O resgate de uma velha dívida – a dívida contraída para com a raça negra em nosso país e que merecia. por exemplo. "a liberdade de um não era nada sem a liberdade de todos e a liberdade não era nada sem a igualdade e a igualdade há que estar dentro do coração e da cabeça. e um texto em prosa. e eu sou pobre. que não é negro nem mestiço assumido de negro. entre outras atitudes. reconhecidamente uma das mais altas expressões da poesia do Romantismo brasileiro. Referências sutis são encontradas em O horto (1900). Vossos lábios suaves http://www. a caracterização da gente do Brasil. eventualmente. num ou noutro texto.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 7/25 . Bardo mestiço. a acreditar-se na identidade entre o eu lírico e o poeta. nem na aparência física nem na confissão biográfica. de nossa literatura. eu sou Caldas.. a luta permanente pela liberdade. o que efetivamente se dá. "a grande saga do negro brasileiro. Antônio de Sousa Caldas: Tu és Caldas. nas quais a matéria negra é eventualmente tratada. "A meditação" (1849). nenhuma condenação aberta à escravidão. a sua verdade. que assume. em número maior. escritos por José Lins do Rego. encontro algumas passagens reveladoras de uma posição dividida. e afina com os ventos dos ares. e a professora brasileira Zilá Bernd o assinala. dada a multiplicidade de aspectos que envolvem. Tu és o Caldas de Prata. 1 e 1826. t. mas a denúncialamento da situação de opressão.scielo. São narrativas amplas. Na obra do mulato Mário de Andrade (1893-1945).br/scielo. como informa a própria orelha do livro. 2) essa condição. o seu canto em prosa. à luz da relação amorosa valorizadora: Você é tão suave. na transfiguração da arte literária. mestiços de negros reconhecidos ou não como tal. o Pe. Gonçalves Dias. de Domingos Caldas Barbosa (1740?-1800). Na "Meditação do Tietê" aparece uma referência à vinculação com a etnia: Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras. não pode ser comprada nem imposta"15. nas suas lutas. t. Nesse espaço literário marcado pelo distanciamento.A trajetória do negro na literatura brasileira tambores de São Luís (1985). nos quais. na sua Viola de Lereno (1798. da preta Auta de Sousa (1876-1901). na medida em que nela se configura o personagem negro dividido entre o mundo branco de sua circunstância e o mundo de sua ancestralidade e etnia. e [enrouquece Úmido nas espumas das águas do meu rio E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo [Amor17 Os seus "Poemas da negra" (1929) exaltam a beleza da raça. como sabia o personagem Dandão. obra onde o autor pretende realizar. situam-se também obras de escritores negros e. de Josué Montello. Outra tentativa de atitude revalidadora da história do negro encontra-se em Viva o povo brasileiro (1984). a partir da retomada ficcional do processo de formação do país. É o caso. e meu verso vence a corda Da caninana sagrada. de João Ubaldo Ribeiro.

br/scielo. é. relumeando caridade e acollhimento. fatalizadamente um ser de mundos que [nunca vi [. mas eu não me sinto vermelho.. sem ar neste arlivre da América! Me sinto só branco em minha alma crivada de raças!19 http://www. Mas eu não posso me sentir negro nem vermelho! Decerto que essas cores também tecem minha roupa arlequinal Mas eu não me sinto negro.. Purificado na revolta contra os brancos. Me sinto só branco. É a escureza suave Que vem de você. e meus ouvidos vão escutar [amorosos Outras vozes de outras falas de outras raças. do romance do mesmo nome. situam. quase nada. as guerras. na passagem que segue.13/4/2014 Estudos Avançados . singularmente representativo. O herói Macunaíma. as pátrias. as preguiças e as ignorâncias Me sinto só branco agora.] Não acho nada. [. entretanto.scielo. Que se dissolve em mim18. Fecha meu olhar.] Me sinto branco. mas formação.A trajetória do negro na literatura brasileira Vagam no meu rosto. outro posicionamento: Grito imperioso da brancura em mim. Sol-posto.. de sua autoria. nas suas mutações. [mas forçura.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 8/25 .. Os versos do "Improviso do mal da América". quando nasce preto e vira branco.. Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser. as posses..

php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 9/25 . a tentativa de exaltação mitificadora da Serra da Barriga. "Rei é Oxalá. aliás. eram evidentes em ambos traços físicos caracterizadores da mestiçagem. Condições epidérmicas à parte. associada à imagem de ladra e destruidora de lares. negro"). da beleza sedutora da mulher negra. porém. Há quem defenda que o fato de um mulato ter-se tornado um dos maiores. e ainda as que figuram em seus livros. lembrança nostálgica da babá negra ("Ancila negra"). mas. entendo que. Esse texto é. senão o maior dos escritores brasileiros. o único. é altamente significativo para a causa da afirmação da etnia. como atestam os que os conheceram pessoalmente. mesmo nesse último.scielo. embora não se encontre em sua obra ficcional uma assunção ideológica nesse sentido.13/4/2014 Estudos Avançados . Em todos os poemas.br/scielo. no caso. na tentativa de dar voz aos negros. é verdade.A trajetória do negro na literatura brasileira Como acontece com Mário de Andrade. da contribuição africana às comidas da Bahia ("Comidas"). a visão é simpática. "Obambá é batizado". no poema do mesmo nome. Já a posição de Machado de Assis tem merecido considerações especiais. portanto. numa atitude tão racista quanto a que discrimina os negros. rainha é Iemanjá"). em que se assume bandeira de libertação. Por outro lado. por força de sua sensualidade e de seu erotismo ("Essa nega fulô"). Curiosamente. para além da sentimentalidade e da folclorização. o único que se aproxima do negro como indivíduo e cidadão contemporâneo do poeta. canto de esperança redentora ("Olá. contêm referências às práticas religiosas ("Benedito Calunga". embora. pelo menos a publicada nas histórias e nos dicionários de literatura brasileira de que tenho notícia. mas distanciada e não comprometida diretamente. mesmo na condição de escrava. não apontam vinculação alguma com a ascendência negra. Outros mais consideram que a sua crítica mordaz à sociedade brasileira de seu tempo revela um modo de participação que o http://www. Outros criticam a ausência em seus textos de problemática ou temática negra positivamente dimensionada e vergastam o seu branqueamento. Há nos seus versos. Jorge de Lima é outro escritor que termina por falar sobre os negros. a biografia oficial de Jorge de Lima. costuma-se conceder ênfase à sua nordestinidade20. que se caracteriza por um dimensionamento social objetivamente situado.

no nível do conteúdo manifesto ou do realismo de detalhe. O distanciamento se evidencia também no espaço da crônica. e deixa nove poemas e dois textos em prosa comprometidos com a causa abolicionista. No plano da ação. mas no problema do egoísmo humano e da tibieza de caráter. "grotesca e triste. que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo. Por isso digo. e dei um jantar. dirige o jornalzinho O Moleque. Negro. não se centralizam na questão étnica.A trajetória do negro na literatura brasileira vincularia a uma certa literatura-denúncia.. filho de escravos alforriados. levantei-me e eu com a taça de champanha e declarei que. que lhe resta? ele mesmo responde. tendo sofrido amargamente a violência do preconceito que o impediu. acompanhando as idéias pregadas por Cristo. de sentimentos – direito. réprobo. finalmente. maldito. das perfeições oficiais dos meios convencionalmente ilustres! [. antes mesmo dos debates. Sua obra literária. que a liberdade era um dom de Deus. A confissão de "O emparedado" não deixa margem a dúvidas. Alforriá-lo era nada. em espiritualidades. São significativas as passagens do texto datado de 19 de maio de 1888: Eu pertenço a uma família de profetas après coup. depois do gato morto. entre outras atividades.13/4/2014 Estudos Avançados . devorada insaciavelmente pelo deserto.. até que o temperamento regulasse certo como um termômetro! [. tecido por tecido.. em Sonhos! Como se tu fosses das raças de ouro e da aurora. com nome. há dezoito séculos.. no adormecimento de certas horas. sobrenome e educação esmerada ganhos dos senhores de seus pais. mais ou menos. Mesmo os dois contos que envolvem escravos. nas moles quebreiras de vagos torpores enervantes. cristalizado o teu ser num verdadeiro cadinho de idéias. Cruz e Sousa. significativo desde o título. tórrida e bárbara.. em Requintes. e juro se necessário for. tratei de alforriar um molecote que tinha. deixei-me pairar. restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio. perdido por mil.. entendo que a literatura machadiana é indiferente à problemática do negro e dos descendentes de negro. melancólica gênese assombrosa de gemidos". sobre cuja cabeça nirvanizado pelo desprezo do mundo Deus arrojou toda a peste letal e tenebrosa das maldições eternas". na bruma crepuscular de certas melancolias na contemplatividade de certos poentes agonizantes. perfeito. depurados por todas as civilizações. em brilhos inatingíveis. como se pode perceber nas seguintes passagens. "África de Suplícios. evidencia uma posição dividida e conflitada. uma voz ignota. tanto que na segunda-feira.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 10/25 . que os homens não podiam roubar sem pecado21.] Num impulso sonâmbulo para fora do círculo sistemático das fórmulas preestabelecidas.] No golpe do meio (coup de milieu. Os demais tipos negros ou mestiços participam como figurantes em histórias que. arrastada sangrando no lodo das Civilizações despóticas. em Formas. post factum. entre outras: O temperamento entortava muito para o lado da África: – era necessário fazê-lo endireitar inteiramente para o lado Regra. se viesses de arianos.br/scielo.. como ele.scielo. célula por célula.] Artista! Podes lá isso ser se tu és d'África. entendi que. murmurar-me: – Tu és de Cam. que parece vir do fundo da Imaginação ou do fundo do mucilaginosos do Mar ou dos mistérios da Noite – talvez acordes da grande Lira noturna do Inferno e das harpas remotas de velhos céus esquecidos.. anatematizado! Falas em Abstrações. entretanto. pessoa de seus dezoito anos. criação colorosa e sanguinolenta de Satãs rebelados". perdido por mil e quinhentos. gelados e peregrinos caminhos da Via-Láctea. que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista. torvamente amamentada com o leite amargo e venenoso da Angústia!22 Filho dessa África que ele chama ainda de "gemente. De minha parte. ou como melhor nome tenha em holandês. em espiritual essência. [. entre outras discriminações. é outro caso singular. E é por isso que eu ouço. constituem reflexo da realidade social que pretendem retratar. deixa entrever na sua obra as marcas do conflito em que se dilacerava. de assumir o cargo de promotor público em Laguna. com a saída pela evasão: http://www. através dos nevados.mas eu prefiro falar a minha língua). o notável poeta do simbolismo brasileiro. tumultuada de matas bravias. "O caso da vara" e "Pai contra mãe". assume a luta contra a opressão racial e.

assim. força de trabalho produtivo. amante.br/scielo. Zumbi e a saga quilombola não habitam destaques nesse espaço. mais configurada nas manifestações literárias do século XIX. deste modo.scielo. por outro lado passou a ser uma via de saída confortável para o preconceito presente na realidade brasileira. culminou por tornar-se. mulatos.A trajetória do negro na literatura brasileira deixar-se "para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho"23. a solução pela sublimação24. ainda nas palavras do mesmo crítico em percuciente ensaio. como assinala Alfredo Bosi. e. O personagem negro ou mestiço de negros caracterizado como tal ganha presença ora como elemento perturbador do equilíbrio familiar ou social. Em síntese. em termos de manifestações. Por outro lado. essa visão negativa se corrobora. predomina o estereótipo. foi possível a Cruz e Sousa lançar o seu protesto contra os argumentos da ideologia dominante no discurso antropológico. de pleno direito. sobretudo quando associa à cor branca as qualidades do ideal e ao negro os mesmos aspectos dolorosos e viciosos que vincula à África de origem. Vale acrescentar. encaixá-los nos padrões da sensibilidade branca. são originariamente. que é sobretudo subjetivo e público ao mesmo tempo. que Compondo a prosa poética do "Emparedado". uma faca de dois gumes: se. sobe ao nível da consciência inconformada e se faz discurso. a fim de que o autor possa dar-lhes traços brancos.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 11/25 . entrando. os protagonistas de romances e de muitos poemas. como quer ainda o mesmo Antonio Candido.13/4/2014 Estudos Avançados . ora como negro heróico. que fehca o livro das Evocações. no âmbito do distanciamento que procurei caracterizar. na história objetiva da cultura25. como destaca Antonio Candido. Trata-se de um fenômeno notável de resistência cultural pelo qual o drama de uma existência. Essa poetização da figura do negro. notadamente em relação à produção literária do último século e do começo do atual. Autoconvertido em vítima da fatalidade de sua cor. elemento tranqüilamente integrador da gente brasileira. conseguiu impor a dignidade humana do negro. vítima sofrida de sua ascendência. E na sua poesia. na medida em http://www. consciente de não ter esgotado todos os exemplos representativos. quando escravos. ora como negro humanizado. o poeta lamenta a sua condição de emparedado e procura. segundo penso.

como Isaura.13/4/2014 Estudos Avançados . de que transcrevo um fragmento: Eu bem sei que sou qual Grilo De maçante e mau estilo. nos anos de 1930 e 1940. bodes brancos.. póstuma). há rajados. o excepcional ficcionista em cuja obra. a história de uma mulata. dóceis. escrito em 1922 (1948. resignados e que. a propósito. bodes sábios. o romance Clara dos Anjos. em que a fala final da personagem. traída e sofrida por causa de sua cor. vinculada à realidade social urbana e suburbana do Rio de Janeiro. impotente diante da injustiça. A dilaceração também se revela com realismo carregado de vivência pessoal nas Recordações de Isaías Caminha27. bode. e também alguns tratantes. embora com menor presença na repercussão pública28. uns plebeus e outros nobres. Se negro sou. Outro exemplo é o mulato Lima Barreto (1881-1922). http://www. O posicionamento engajado só começa a corporificar-se efetivamente a partir de vozes precursoras.A trajetória do negro na literatura brasileira que acabou escoando na aceitação do negro e do mestiço de negro reconhecido como tal enquanto emocionalmente e socialmente bem comportados. É também destacado pelas estrofes satíricas da "Bodarrada" ("Quem sou eu?"). marram todos. vou tangendo o meu badalo com repique impertinente. Um texto denunciador do preconceito. pondo a trote muita gente. importantes. tudo berra26. Aqui. preocupados com marcar. bodes negros. para além dos estereótipos e das distorções.scielo. As vozes continuam nos anos de 1990 e na atualidade. Tal imagem.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 12/25 . Mongibe.. que não me abalo. E que os homens poderosos desta arenga receosos. baios. diante dos posicionamentos daqueles que seguem empenhando na luta pela afirmação cultural e pela legítima e devida integração do negro à sociedade brasileira. e.. negro. bodes pobres. filha de um carreteiro de subúrbio.. em suas obras. pois que a espécie é muito vasta. pouco importa. se sou bode. O que isto pode? Bodes há de toda a casta. nos anos de 1970 e no curso da década de 1980. portanto. a afirmação cultural da condição negra na realidade brasileira.br/scielo. Porém eu. vem-se diluindo desde as duas décadas finais do século passado. bodes ricos. se destaca. ganha força a partir dos anos de 1960 e presença destacada através de grupos de escritores assumidos ostensivamente como negros ou descendentes de negros. ed. filho de africana com fidalgo baiano e o primeiro a falar em versos do amor por uma negra. iludida. hão de chamar-me tarelo. O negro como sujeito: a atitude compromissada A literatura do negro surge com as obras de alguns pioneiros. impacta pelo tom desesperançado: "– Nós não somos nada nesta vida". Há cinzentos. pampas e malhados. como o irônico Luís Gama (18501882). entretanto. nesta boa terra. sabem reconhecer o lugar que socialmente lhes foi imposto. sejamos todos francos.

entre eles. Aos nossos olhos desfia. onde se ressalta a figura de Abdias do Nascimento. através.scielo. cria-se. Segue-se o interregno da ditadura getuliana. Guarda rancor ou paixão! [.Urucungo (1936) e Negro preto cor da noite (1936): sua poesia é marcadamente irônica. mas não pela matéria negra de seu texto e sim pelo posicionamento políticosocial. fala que "tem gente com fome". com maior ou menor evidência. com alguma dose de autocomplacência e apelos de afirmação racial bem comportada. Novo Horizonte. funda-se a Associação de Negros Brasileiros. As vozes voltam a clamar a partir de 1945. Em nome dela somente faze com que nossa gente um dia gente se faça! Negro preto. a Fundação Palmares. do Museu de Arte Negra.. "Navio negreiro". do Centro de Cultura e Arte Negra. antologia representativa de uma das tentativas de renovação poética pós-modernista. tal como um santo. Menelik (1915-1935). Data de 1915 o aparecimento. Mas também são dele textos como. Data de 1978 a fundação do Movimento Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCAR). pois não?30 Exemplo da segunda posição é o poema "Novo rumo": "Negro preto cor da noite". escritores negros e descendentes de negros começam a manifestar em seus escritos o comprometimento com a etnia. negro preto sê tu um homem direito como um cordel posto a prumo! É só do teu proceder que por certo há de nascer a estrela do novo rumo!31 Outro combatente da velha guarda é Solano Trindade (1908-1973). entidades e movimentos de posições diferenciadas quanto ao equacionamento do problema. onde se lêem. de O canto do cisne preto (1926). na imprensa.A trajetória do negro na literatura brasileira Essa tomada de posição literária relaciona-se com os movimentos de conscientização dos negros brasileiros que marcam o início do século atual e vem ganhando contornos mais nítidos e definidos ao longo desse período histórico. legitimado pela tradição literária brasileira.13/4/2014 Estudos Avançados . nos anos de 1980. Voz da raça (1924-1937). entre outras publicações. o seu poema presente na coletânea Violão de rua (1962). de Mundo Novo. em 1968. mas todas com o mesmo núcleo de preocupação: a causa do negro brasileiro29. em 1931 surge a Frente Negra Brasileira.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 13/25 . autor. Nunca te esqueças do açoite que cruciou tua raça. de periódicos especializados. Estão no primeiro caso os seguintes versos: Se porventura mel fosse Não seria assim tão doce O sorriso de Pai João Que apesar de sofrer tanto De ninguém. de 1944 é a criação do Teatro Experimental do Negro. entre outros. No âmbito oficial. Quando sorria Pai João. em São Paulo. Dizendo com ironia: – Que história linda.br/scielo. O Clarim da Alvorada (1924-1937).] A lenda triste do Congo.. também fundador. entre outros títulos. Nesse mesmo ano. depois Movimento Negro Unificado (MNU). os http://www. São algumas das publicações. Criada em noites de jongo. É o caso do precursor Lino Guedes (1897-1951). por exemplo. Alvorada. Deste mesmo ano é a criação. Pouco a pouco.

1977). Como outros veículos de divulgação. Raros os exemplos em que se observa preocupação com uma linguagem diferenciada: os textos se fazem de versos livres. 1982. Os propósitos de afirmação étnica e de identidade cultural. Antônio Vieira (Areia. 1980). e o grupo Gens (Grupo de Escritores Negros de Salvador). (Poemas da carapinha. Éle Semog (Luiz Carlos Amaral Gomes) (Atabaques. produtores dos próprios livros. Arnaldo Xavier (Pablo. Axés do sangue da esperança (1983). embora não definitivas. 1972. e a globalizante Poesia negra brasileira (1992). Gestas líricas da negritude. Paulo Colina (Plano de vôo. 1970. Estrelas no dedo. A rosa da recusa.. com raras exceções. como escreve Paulo Colina na apresentação da antologia Axé. As musculaturas do Arco do Triunfo. 1983). em colaboração com J. J. Décima do negro peão. Transparece um comprometimento ideológico deliberadamente assumido. Túnica de ébano. saudade negra. 1980). 1979). 1986).. em que se configura uma tentativa de resgate dos mitos e rituais da cultura negra33. Oswaldo de Camargo (Grito de angústia. Entre os autores. de São Paulo. 1975. Carlos Assumpção (Protesto. Predomina uma posição de resistência e luta pela afirmação e pelo reconhecimento http://www. 1983. encantos e desencantos d'alma. 1976. Entre os pioneiros da arte feita por negros. nos Cadernos negros). entre eles. W. Antologia de poetas negros brasileiros (GRD. o discurso vincula-se às técnicas incorporadas pela linguagem poética a partir do modernismo. A leitura dos textos antologiados possibilita algumas conclusões. contos. nas naves da chamada poesia marginal ou independente. entre eles o grupo Quilombhoje. de Paula (Versos brancos. Sol na garganta.Fogo cruzado. lançado no Rio de Janeiro. Maria da Paixão (esparsos. 1984). 1982). periódicos divulgadores com vários números em circulação34. Os outros autores assumidos embarcaram. 1985). 1972). 1980). autor de inúmeros livros de poemas. 15 poemas negros. 1984. mar. 1975.A trajetória do negro na literatura brasileira versos: Lá vem o navio negreiro Cheio de melancolia Lá vem o navio negreiro Cheinho de poesia. Ronald Tutuca (O paquiderme com asas de água. poesia. na sua maioria.. São. A quase totalidade dos poemas centraliza-se na temática e na tomada de posição. o espírito de grupo. 1967. 1974. 1983.13/4/2014 Estudos Avançados . criado em 1980. Pelo escuro. 1982). Mortoalegrense. Banzo. responsável pela publicação dos Cadernos negros. Poesia e Arte do Crioulo. negra poesia. situa-se ainda o citado Abdias Nascimento.. que data de 1985. além das obras de cada escritor.scielo. A cor da pele. 1978. uma preocupação de " [. aliados às dificuldades mercadológicas que enfrentaram e enfrentam. 1980). com coordenação e seleção de Oswaldo de Camargo. figuram Abelardo Rodrigues (Memória da noite. Cantos. até porque a maioria desses escritores se encontra com obra em processo. Cantares d'África. A razão da chama. 1979). levaram-nos a integrar grupos e movimentos. Batuque de tocaia. 1981). Oliveira Silveira (Roteiro dos tantãs. cabe citar ainda três coletâneas: Axé – Antologia da poesia negra contemporânea (Global. 1978).php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 14/25 . 1963). Cuti (Luís Silva). organizada por Zilá Bernd. 1982). Geni Mariano Guimarães (Terceiro filho. Eduardo de Oliveira (Ancoradouro. o grupo Negrícia. com uma ou outra manifestação em verso tradicional. 1970. Adão Ventura (Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul. Homem ao rubro. C. 1960. Limeira). Algumas ultrapassagens verificam-se no nível da imagística. 1979. 1958. organizada por Paulo Colina. em 1982. Jônatas Conceição da Silva (Miragem do engenho. 1981. Mirian Alves (Momentos de busca. Lá vem o navio negreiro Com carga de resistência Lá vem o navio negreiro Cheinho de inteligência32.br/scielo.] atiçar na consciência de um povo usurpado/ usurpador a brasa da dignidade humana/ histórica a ser fundamentalmente resgatada". José Alberto de Oliveira de Souza (Cinco poemas vivos. 1980). por sua representatividade.

Geni M. permaneço ao lado da manhã e das cantigas. o pássaro conhece a manhã. Oswaldo de Camargo. A manhã se espalha nos quintais e a flauta matutina do pastor faz desenhos no ar. Encontro denúncia-lamento. entre os que ultrapassam. e sabe que é branca a manhã. está pousada em mim escandalosamente!37 E ainda no poema "Quem disse?". Guimarães.. uma preocupação com a singularização cultural. os textos se abrem sobretudo para uma leitura em nível de conteúdo manifesto e. assim caracterizado. em termos de linguagem literária. Os versos de "Protesto". nesses versos de Oswaldo de Camargo: Ai da tristeza de meu corpo. pela transparência. com freqüência. Eu. terminam prejudicados. mas não ousa enterrar-se de novo na noite. ai.. nos poemas.. Há. pelo menos em relação ao material que examinei. por exemplo. ora se situa como denúncia. O texto é posto a serviço desta última e. Paulo Colina e'Éle Semog encontram-se.br/scielo. no entanto.. Cúti. flagrantemente. entretanto. demonstram uma faceta desse posicionamento: Mas irmão...A trajetória do negro na literatura brasileira social. essas condições36. a grande noite. Uma e outra atitude envolvem enfoques variados. muitos. Oliveira Silveira. fica sabendo Piedade não é o que eu quero Piedade não me interessa Os fracos pedem piedade Eu quero coisa melhor Eu não quero mais viver No porão da sociedade Não quero ser marginal Quero entrar em toda a parte Quero ser bem recebido Basta de humilhações Minha alma já está cansada Eu quero o sol que é de todos Ou alcanço tudo o que eu quero Ou gritarei a noite inteira Como gritam os vulcões Como gritam os vendavais Como grita o mar E nem a morte terá força Para me fazer calar!35 Por força desse posicionamento deliberado.13/4/2014 Estudos Avançados .scielo. de Carlos Assumpção. http://www. ora no espaços da ruptura declaradamente assumida.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 15/25 . pela acentuada tendência à univocidade. de Oliveira Silveira: Quem disse já não sermos aqui burros cargueiros? Em pastos brasileiros ser negro e proprietário é fardo na garupa. A noite.

Desse mesmo poeta. O questionar associado à cobrança aparece. A violência ameniza-se na direção do desejo de integração.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 16/25 .. não me espeta o ventre. em "Viu".br/scielo.A trajetória do negro na literatura brasileira Ser negro e proletário é levar carga dupla38.13/4/2014 Estudos Avançados . A consciência da necessidade de afirmação está.. O negro pensa por participações ou por conceitos? O negro pensa39. E também no poema "minha namorada". A revolta acentua-se em versos como os de José Carlos Limeira: Quilombos meus sonhos sofro de uma insônia eterna de viver vocês... "Pequena balada insurgente". no texto de Paulo Colina. no texto de Cúti: FERRO Primeiro o ferro marca a violência nas costas depois o ferro alisa a vergonha nos cabelos Na verdade o que se precisa é jogar o ferro fora e quebrar todos os elos dessa corrente de desesperos41. que está escondida nas gavetas dos balcões40. E se um distinto senhor me disser para não pensar nessas coisas terei que matá-lo com certo prazer42. não me fura de faca. por exemplo. há versos que associam valorização e questionamento: ALTAS FILOSOFIAS O negro pensa: por que o pensador de Rodin é branco em vez de preto? O negro pensa. de que transcrevo passagem significativa: Não há rancor nem ódio: há esse clamor surdo http://www.scielo. de Cuti.] Só porque você não me bate de chicote. entre outros. onde se lêem os seguintes versos iniciais: Minha namorada? é a violência vestida de esperança é a legítima filha da mãe-história amarga43. não quer dizer que você não me deve nada: você me deve a chave da senzala. de Geni Mariano Guimarães: [.

que incorporou ao português "o mundo fascinante dos okiris da cultura nagô-iorubá". a nostalgia da ancestralidade africana e. Mas. a poesia de Ricardo Aleixo.br/scielo. lembra. sombra e relembrança. e o meu tropeço que ela não sabe. na terra. outras obras têm assegurado a resistência. seja no Brasil. inclusive no plano visual. por outros aspectos. No plano da recuperação da linguagem afro. em que ressalta. Transcrevo um trecho: Como pensei falar. Ser negra. na grama. "como um fato/na cor do Homem/ da História/ da luta e da vitória". na lama. Na integridade calma e morna dos dias. pudesse figurar também como militante". a minha história. De negras mãos. brincando de serem irmãos?44 Nem faltam. sozinho. desde logo. trabalho que marca também. o orgulho valorizador. de Nei Lopes. a pele como um fardo. de um lado. O grande inimigo é identificado por Éle Semog: Juntaremos tantos grilhões Quanto for possível E mais quatrocentas misérias Então trocaremos tudo por flores Para enfeitar o enterro Dessa coisa estranha: racismo47. mais recentemente. Além das antologias e dos livros dos autores citados. seja nas demais comunidades da diáspora africana. seus poemas associam os espaços de valorização étnica ao âmbito da preocupação com a condição humana. Assim posicionado. Puro Afro sangue negro. como Antonio Risério. negra. Saindo aos jorros por todos os poros46. face a tanto cuidar de telenovelas. Até quando nossos filhos poderão continuar a soltar pipas. samba e futebol. o meu nascimento. e oferecer-lhe. entretanto. Entre eles estão os poemas de Incursões sobre a pele (1996). à recuperação de linguagens afro e o seu universo simbólico. como está no poema de abertura. embora. nos textos de Edimilson de Almeida Pereira48. não carrega. Consciente da situação do negro.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 17/25 . Exemplo do primeiro caso é o poema "Oh. na afirmação da identidade cultural. nem viu e eu sendo filho dela!45 O orgulho de pertencer à etnia transparece vigoroso nas palavras de "Integridade".13/4/2014 Estudos Avançados .scielo. mamãe!" de Oswaldo de Camargo. nesta noite turva os meus pertences de vento. destaca o trabalho de poetas e pesquisadores. em outra elaboração. a intimidade com a música e a assunção da etnia. Ser negra. ou a experiências lingüístico-formais. O poeta se assume como sujeito.A trajetória do negro na literatura brasileira que rebenta em meu coração face a tantas bocas subterrâneas. de outro. De negras mamas. http://www. em artigo de 1997. seja na África. de Geni Mariano Guimarães: Ser negra. Este segundo caso está representado por Arnaldo Xavier. à minha mãe África. no cimento. Destaca ainda a presença do universo cultural banto. O poeta e crítico Sebastião Uchoa Leite. em meu peito. precocemente falecido em 2003. a rolar juntos. "poetas que se dedicam. cujas características experimentais podem incluí-lo no grupo dos poetas da linguagem. de negra alma.

e. em algum tempo da vida.br/scielo. Apoiado na história esquecida. os romances de que tenho notícia. no teatro. * * * Ao assumir compromissadamente a literatura como espaço de afirmação consciente de singularização e de afirmação cultural. de Romeu Crusoé. Quatro dias de rebelião (1980). a cada momento. as histórias registradas por Mestre Didi (Dioscóredes M. permitido. na literatura oral. no âmbito da literatura-testemunho. com fala típica de negros. 1956. 1986. ou seja. quilombos e quilombolas ingressam na vertente comemorativa do pensamento que recorda.1960. entre outros. o negro enfrenta novas e sutis armadilhas marginalizantes. Registro também A mulher de Aleduma. no escasso material que examinei.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 18/25 . mas. mas dimensionadas sobretudo à luz da altivez de um grupo étnico que se assume. publicados em 1998. como objeto de experiência individual e social.A trajetória do negro na literatura brasileira Quanto a Dionísio esfacelado (Quilombo dos Palmares) (1984).] Em Dionísio esfacelado. A maldição de Canaã (1951). a quem se deve ainda o livro de contos O carro do êxito (1972). literatura negra vem sendo configurada no restrito espaço reivindicatório de escritores negros ou mestiços de negros como tal. e Diário de Bitita. Na obra. entendo que não me compete avaliação. vale destacar um romance que julgo altamente representativo em termos de elementos valorizadores da contribuição do negro à cultura brasileira. São personagens da época. Deixo-o à apreciação dos eventuais leitores. http://www. Contos afro-brasileiros (1980). na luta por sua afirmação. destacam-se a nota erótico-sensual. Assinale-se. Quarto de despejo. escrito por João Felício dos Santos.13/4/2014 Estudos Avançados . Na medida em que a chamada. de Abdias Nascimento e. a partir de experiências ligadas à singularidade dos representantes da etnia50. o diário da favelada Carolina Maria de Jesus. de Aline França. não costumam ser nelas situadas obras feitas por escritores contemporâneos não vinculados à etnia. fruto de pesquisa e de arte. em texto da época do lançamento do livro: O que assegura a ligação dos fragmentos que compõem essa suíte lírica – na qual a negritude ascende ao plano conflitivo da história – é o permanente retorno a Palmares. 1961. resgatado em edição de 1990. o autobiográfico A descoberta do frio (1975). Refiro-me aGanga-Zumba (1962). a peça Sortilégio. do combativo historiador e professor Joel Rufino dos Santos. Mistério negro (1951). cede a voz às personagens nascidas a partir de uma realidade diluída ou ignorada pela história oficial. no percurso de Palmares. Mais não será preciso dizer sobre a originalidade dessa obra49. dos Santos) sob o título de Contos crioulos da Bahia (1961). um narrador onisciente alterna relatos com comentários explicitadores. de autoria deste último.. escrito no Rio de janeiro. a época e os personagens deste romance. registrar na área. com forte dose de ironia e a preocupação com assunto ligado ao negro. lutaram até o fim por uma estrela qualquer"51. Trata-se de uma narrativa visceralmente associada à história do negro. entretanto. ao assumir-se como sujeito do discurso literário. Sejame. e os textos do autor de história do Brasil romanceada e de literatura infanto-juvenil. rpensada e retomada pela memória [. acentuam a presença do erotismo e revelam uma preocupação maior com a linguagem e com uma perpspectiva universalizante. o fundo. pelo menos em nível epidérmico. o motivo. em torno do seu Ganga. também. dar a palavra a Benedito Nunes. um romancista que tem obsessão pela liberdade. Cabe. carregada de africanismos. Considerada. as narrativas constantes dos citados Cadernos negros. com sentimentos e problemática peculiares. Ganga Zumba é a presença de Palmares transfigurada na prosa poética de João Felício.. livro de poemas de minha autoria. a que se juntam ainda Casa de alvenaria. de 1959 a 1961. Os textos constantes dos "Melhores contos". e a antologia organizada por Júlio Santana Braga. Falta-me o necessário distanciamento e sobra-me pudicícia autoral. de ritmos. entre eles. da recordação que colige e recmpõe as partes dispersas de uma origem remanente. marcadas pelo sofrimento. no meu entender equivocadamente. entretanto.scielo. nessa direção e por força da matéria e do caráter deste ensaio. lembrado por Oswaldo de Camargo. Em termos de prosa. a condição negra na literatura. centrado na condição negra. O livro é de todos aqueles que. ou como se explicita na apresentação do romance: "Os Quilombos dos Palmares e Os Quilombolas do Rei Zumbi foram evidentemente o cenário. O dia em que o povo ganhou (1982) e Ipupiara (1985).

mas o brasileiro preconceituoso. seja no domínio da afrodiáspora e conduz. diante até da dificuldade de se estabelecer limites entre uma e outra no miscigenado universo da cultura nacional. mesmo uma designação aparentemente valorizadora. como não cabe agradecer aos brancos portugueses ou aos índios. O negro brasileiro não pode ser tratado como o outro. Há quem argumente que a literatura negra se situaria. sociais.13/4/2014 Estudos Avançados . A luta é um procedimento que surge forte no âmbito da crise da modernidade. e a quem se deve reconhecimento especial por isso. alguns estudiosos propõem que se devam adotar critérios específicos para a avaliação produzida pelos escritores http://www. o opositor não é o brasileiro branco. O sintagma admite. na realidade brasileira. traz. a partir de uma tomada de consciência de sua situação social. à preocupação com a singularização cultural mencionada. livre de conotação preconceituosa. Como os demais grupos étnicos.A trajetória do negro na literatura brasileira Nesses espaços de sutileza. equivalência ou oposição à condição branca. A designação. assim. o âmbito significativo da primeira expressão parece-me bastante marcado e semanticamente comprometido. das mais variadas maneiras. isto se deve. considera-se negra uma literatura feita por negros ou por descendentes assumidos de negros e. que tanto trabalhou pela grandeza da nação etc. Há que reivindicar o direito à plenitude da cidadania. ostensiva ou disfarçadamente. no explicável mas perigoso empenho em situar radicalmente uma autovalorização da condição negra por emulação. ligada a um intuito claro de singularidade cultural. configuradora da reivindicação pelos negros de determinados valores caracterizadores de uma identidade própria. será negra a arte literária feita por quem quer que seja. e históricas condicionadoras. segundo penso. como tal. reveladora de visões de mundo. duas acepções: Em sentido restrito. E mais: diante da atitude engajada e de outros traços que a singularizam. Nesse sentido. ao fato de ter-se tornado alvo de tratamento social e historicamente discriminatório.br/scielo. Outra deve ser a estratégia. Mesmo porque as distinções nessa área costumam apoiar-se na cor da epiderme e na estereotipia sedimentada. seja no espaço dos povos da África. literatura gaúcha etc. em plano similar ao que marca expressões como literatura nordestina. O esquecimento desta distinção implica não considerar o apoio dos aliados relevantes na busca do espaço negado.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 19/25 . desde que centrada em dimensões peculiares aos negros ou aos descendentes de negros. ligada à fragmentação social. ligados que são os dois últimos ao âmbito geográfico. como literatura negra. mas também não deve tratar-se como o outro em nome de sua auto-afirmação. caracteriza-se por uma certa especificidade. desde logo.scielo. de presença tranqüila na área dos estudos literários desde os anos de 1970. segundo entendo. como é sabido. também em sentido amplo. Há que assumir a igualdade na coparticipação da construção da nacionalidade. por força de condições atávicas. tal como vem sendo utilizado no Brasil e em outros países da América. entre outros aspectos. o sério risco de fazer o jogo do preconceito velado. vincula-se ao significado restrito e emerge no bojo de uma situação histórica dada. de ideologias e de modos de realização que. Tal preocupação ganha pertinência quando ultrapassa as dimensões epidérmicas e o corporativismo. Lato sensu. O risco da adjetivação limitadora reside. aceitar o jogo do preconceito. O exercício da literatura associa-se. ele é parte da comunidade que fez e faz o país. Além disso. Penso que se trata de adjetivos imersos em área semântica distinta. aos movimentos de afirmação do negro. Essa identidade e sua presença forjadora e aglutinadora da comunidade em que o grupo étnico se situa seriam elementos decisivos na luta pela eliminação das discriminações e pela conquista do lugar que lhes pertence de direito e que o grupo dominante insiste em negar. caracterizadoras de um direito àdiferença52. Se a luta em que se empenha se tornou e continua necessária. e traz para a representatividade literária a afirmação de elementos que vão dos espaços míticos (resgate da memória coletiva) aos sócio-históricos (resgate dos elementos que fazem a história do negro enquanto grupo étnico). colocação no mínimo complexa no caso brasileiro. Admitir o isolamento no espaço de uma especificidade identificadora é..

A trajetória do negro na literatura brasileira negros e mestiços de negro assumidos como tal. Se. mas integradas no tecido da arte literária brasileira e universal. qualidade literária por oportunidade histórica53. dada a natureza questionadora de sua produção e a pertinência da causa que defendem. através da transfiguração na literatura. ruptura. Entendo que é muito mais pertinente e apropriado.scielo. têm aflorado. podem. contribuir. por força mesmo do propósito de afirmação da etnia. Essa posição benjaminiana não pode ser desprezada. além de facilitar a caracterização da matéria no processo literário do país e a avaliação mais objetiva da contribuição literária de representantes assumidos da etnia que. mesmo diante dos mais variados obstáculos. como se não tivesse nada a ver com a arte literária que se realiza no país e que é dimensionada à luz dos conceitos norteadores da teoria da literatura e que. O que julgo se deve considerar é que nesses textos há o centramento na causa do negro no Brasil. Tal proposta pode. o tempo escravo repensado. a literatura feita por negros ou por descendentes assumidos de negros concretizar linguagens geradoras de cânones de uma poética nova. mesmo em tempos pós-modernos. Não me parece atitude válida. mas sem distorções nostálgicas. e me incluo entre eles. realizado por escritores que. a proximidade cultural com a África. sob pena de descaracterizar-se e perder seu poder de repercussão mobilizadora. concordará em ter o seu texto legitimado apenas por força do tema ou do assunto que elege. Importa prosseguir na busca de uma plena e insofismável representatividade. a partir da perspectiva de uma releitura cultural. a partir da adoção de procedimentos até então consagrados. na apreciação. converter-se em instrumento mantenedor de discriminação: equivaleria a considerar que a literatura produzida pelos negros é literatura negra e como tal deve ser tratada. São verdades e valores capazes de se opor vigorosamente aos estereótipos e preconceitos ainda vigentes no comportamento de muitos brasileiros. têm trazido a público. É importantíssima a ocupação pelos negros e seus descendentes de espaços literários e de outros espaços igualmente culturais até então timidamente freqüentados. como procurei assinalar. em revelação. a situação do negro e de seus descendentes na construção socioeconômica do país e sua marcada participação nos tempos heróicos da formação da nacionalidade. e que eles se convertem. as contribuições lingüísticas colocadas em evidência na nossa língua portuguesa do Brasil. têm condições de concretizá-lo. tem-se centralizado nos conteúdos.br/scielo. na luta por sua indiscutível afirmação cultural na realidade brasileira. ter sempre em mente que a arte literária compromissada precisa ser arte literária antes de ser compromissada. O caminho vem sendo percorrido. É preciso. pertence ao segmento étnico. Há mesmo quem proponha. Mesmo porque nenhum deles. entretanto. Há que considerar a literatura como lugar de afirmação e singularização de identidades múltiplas e várias. Notas http://www. até que se torne inteiramente dispensável a presença como marca de uma diferença redutora. seguem orientando os estudos da arte literária no Brasil e nos demais centros ocidentais. Alguns resultados. de certa forma.13/4/2014 Estudos Avançados . em lugar de literatura negra se defenda a referência à presença do negro ou da condição negra na literatura brasileira.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 20/25 . produto cultural afirmativo. entre outros traços. ou porque. essa dimensão se inserirá necessariamente no processo da literatura brasileira e não no nicho discriminatório de uma literatura "negra" ou "marrom". literatura não tem cor. por força de características peculiares. a força de sua palavra poética. mais do que quaisquer outros. Acredito que nenhum dos autores que se encontram nesse caso na atualidade brasileira. as revoltas. que. Tal posicionamento foge a qualquer jogo preconceituoso. quando consideramos a contribuição literária dos negros e dos descendentes de negros que trazem para seus textos a preocupação com a etnia. denúncia. O resgate dos mitos. para o melhor conhecimento e o redimensionamento da presença do negro na sociedade brasileira. até o momento. concretizou uma linguagemcapaz de justificar uma alteração no conceito vigente de literatura: a ênfase. em função dessa especificidade e das circunstâncias sócio-históricas em que é produzida. e com outros países em que a discriminação existe. ao elegê-lo. Afinal. legitimamente. substituir. nas últimas décadas. poucos.

Rio de Janeiro. sel. [ Links ] 17 Mário de Andrade. p. O mulato. Evocações.. Os tambores de São Luís. São Paulo. Poesias completas.).php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 21/25 [ Links ] . Aguilar. Aguilar. 1ª orelha. Nova Fronteira.13. Aguilar. J. Gilberto Freire. pp. [ Links ] 10 Aluísio Azevedo. p. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 168.. 5 Idem. 1979. 1960. São Paulo. Rio de Janeiro. 2ª ed. J. p. Ática/ INL/Fundação Nacional Pró-Memória. pp.apud Jorge de Lima. crítica de Diléia Zanotto Manfio.ed. [ Links ] 18 Idem. 6ª ed. 1.A trajetória do negro na literatura brasileira 1 Gregório de Matos. 307. p. Cultrix. p. Obra completa. da Câmara Cascudo (org. p. Obra completa. 1964. 1953. Belo Horizonte/São Paulo. p. e notas de José Miguel Wisnik. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 385. pp. pp. Rio de Janeiro. em ____. Rio de Janeiro. em _____ L. São Paulo. 104. Rio de Janeiro. 15ª impr. Agir. 394. 7ª ed. "Poesia versus racismo". Cultrix. pp. 1959. [ Links ] 12 Ariano Suassuna. Viva o povo brasileiro. p. [ Links ] 23 Idem. 664. De Anchieta a Euclides. O cortiço. São Paulo.scielo. em _____. p. 266-267. [ Links ] [ Links ] [ Links ] 11 Edilberto Coutinho. 1974. Obra completa. 1. Poesia. J. 520. 6 Idem. [ Links ] 8 José Guilherme Merquior..br/scielo. Aguilar. 4 Aluísio Azevedo. vol. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. p. 651 e 662-663. 248. Agir. [ Links ] 2 Bernardo Guimarães. 6. [ Links ] 16 Domingos Caldas Barbosa. 1977. [ Links ] 21 Machado de Assis. 1958. Itatiaia/Edusp. Auto da compadecida. 3 Idem. 19 Idem. p. com o título "Jorge de Lima e seus poemas negros".. vol. 37. 1984. 270. Martins. 1985. 67. em Os jogos. 2002. J. [ Links ] http://www. 1976. em _____. Ática. 1984. "Os escravos". História concisa da literatura brasileira. Martins. p. A escrava Isaura.. 24 Alfredo Bosi. Rio de Janeiro. 272. 23. 22 nov. p. São Paulo. p. 148-149. 303. "Nota preliminar". 1987. Poemas negros e transcrita posteriormente em O Jornal. [ Links ] 22 João da Cruz e Sousa. publicada como prefácio a Jorge de Lima. introd. pp. J. Poemas escolhidos. Das Letras. 291 e 293. [ Links ] 15 João Ubaldo Ribeiro. p. 312-313. 20 Cf. rev. 1976. São Paulo/Brasília. 1970. [ Links ] 9 Antonio Candido. Rio de Janeiro. pp. 146-148. Viola de Lereno. Breve história da literatura brasileira. 5ª ed. p. vol. ed. 1960. São Paulo. Obra completa. 14 Josué Montello.. III. 1958. Cia. 92-93. Literatura e resistência. 13 Idem. Ática. 7 Antônio de Castro Alves.. 126. "Um negro vai a forra". Olympio. [ Links ] 25 Alfredo Bosi. 1964.13/4/2014 Estudos Avançados . São Paulo.

cit. cit. op. [ Links ] 27 Para um visão ampla e profunda do posicionamento. 53. [ Links ] 39 Idem. Colina e Abelardo. para discutir literatura e que. 36 Outros poetas e prosadores negros ou descendentes assumidos de negros vêm marcando a representatividade literária de seus textos. cit. op. onde se reuniam pessoas ligadas às letras. cit. em 2003. os numerosos sites sobre "literatura negra". "Breve história da literatura negra – publicar ainda é difícil para autores negros brasileiros". 46 Geni Mariano Guimarães.A trajetória do negro na literatura brasileira 26 Luís Gama. p. op. In: ºc. 38 Oliveira Silveira. cit.Negritude e literatura na América Latina.). p. por volta de 1980. A razão da chama. Ver também. 32 Solano Trindade. "Ferro". 26 números. eles decidiram lançar os Cadernos Negros. em Oswaldo de Camargo.br/scielo. mamãe!" apud Paulo Colina. envolvendo poesia e prosa e totalizam. Zilá Bernd.. pequenas coletâneas de poemas. "Minha namorada". publicado na revista Problemas brasileiros. ver os números 25 e 26 dos Cadernos negros. p. p. "Figuras do eu nas Recordações de Isaías Caminha". op. 1961. em 2004. apud Oswaldo de Camargo.. "Oh. cit. que se reunia no bar Mutamba. [ Links ] 30 Lino Guedes.. p. cit.. o Centro de Cultura e Arte Negra (Cecan). no bairro do Bexiga. Os Cadernos continuaram a ser publicados. "Integridade". op. [ Links ] 29 Para uma visão desses posicionamentos. 74.. 35. 14. 44 Paulo Colina. lançados em 2003. p. p. 59. 40 Geni Mariano Guimarães. 88. Mercado Aberto. ainda dificilmente encontrados nas livrarias. o artigo de Flávio Carrança. existiu em São Paulo. 42 José Carlos Limeira. pp.. cit. Paralelamente. Porto Alegre. op. apud Oswaldo de Camargo (org. ver Alfredo Bosi. mas em seguida sofreu uma ruptura.. pode-se ler.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 22/25 . "Quem disse". em Oswaldo de Camargo. 45 Oswaldo de Camargo. a propósito. Flávio Carrança: "Durante o ano de 1978. Rio de Janeiro.). "Quilombos". pp. 33 Abdias Nascimento é também autor de uma antologia do teatro negro brasileiro intitulada Drama para negros e prólogo para brancos.. como ponto de partida. (Carrança.. p. Global. 90. que criticavam principalmente a qualidade do material publicado". Cuti participava de um grupo formado por Oswaldo de Camargo. São Paulo. op. 45. apud Oswaldo de Camargo. apud Oswaldo de Camargo. op. em prosa e poesia. cit . 1982. apud Paulo Colina.. 1987. p. no centro de São paulo. 68. 39. 28 Ver. 83 e ss.13/4/2014 Estudos Avançados . cit. 35 Carlos Assumpção. p. Abelardo Rodrigues e o falecido Paulo Colina. 43 (Luiz Silva) Cuti. op. Teatro Experimental do Negro. resolveu batizar-se Quilombhoje. 31. [ Links ] 34 Esclarece.scielo.. com a saída de Camargo. apud Paulo Colina. 56.São Paulo. p. 31 Idem. na internet. 1986. p. op. Juntos.186-208. 41 (Luiz Silva) Cuti. p. op. GRD. em Oswaldo de Camargo. 33. apud Paulo Colina. O grupo assumiu a publicação dos Cadernos recebeu adesões. http://www. p. Para uma visão ainda ainda que restrita da produção atual. cit. para uma idéia da situação atual. 37 Oswaldo de Camargo. ºc. 84. apud Paulo Colina. cuja análise escapa aos limites do presente artigo. entre as quais o poeta Cuti e o advogado Hugo Ferreira. Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira.

José Carlos Limeira. Conceição Evaristo. Porto Alegre. O mulato. Brasiliense.br/scielo. Rio de Janeiro. 48 Cf. em O Estado de S. Rio de Janeiro. [ Links ] 53 É o caso de Luíza Lobo. São Paulo. 106. 51 João Felício dos Santos. 1974. ALVES. A. "Canção para um negro abandonado". 1960 ANDRADE. nº 14. de Lima. "Presença negra na poesia brasileira moderna". 37. crítica de Diléia Zantto Manfio. ______. Suplemento de Cultura. Porto Alegre. Mercado Aberto. de L. Ed. Míram Alves. [ Links ] BARRETO. Zilá. São Paulo. em Revista do patrimônio histórico e artístico nacional. intitulado "Literatura negra brasileira contemporânea". Martins. Rio de Janeiro. 1987. Aguilar. Martins. 1964. em artigo de 1987. 1990. Belo Horizonte/São Paulo. 1987. 1997. Oswaldo de Camargo. nº 223. p. Clara dos Anjos. da Câmara Cascudo. Lia Vieria.scielo. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. publicado em Cadernos Cândido Mendes de Estudos Afro-Asiáticos. Márcio Barbosa. ______. apud Oswaldo de Camargo. Ática. Rio de Janeiro. Ramatis Jacino. Bibliografia ADONIAS FILHO. São Paulo. [ Links ] [ Links ] [ Links ] [ Links ] [ Links ] ______. Poesias completas. p. Aguilar. 1971. Mostra Internacional de São Paulo. Eustáquio José Rodrigues. [ Links ] 50 O volume traz narrativas de Abílio Ferreira. [ Links ] onde escreve: "Focalizando a literatura negra que surgiu desde a década de 70 como uma possibilidade de releitura cultural. Negritude e literatura na América Latina. Obra completa. Civilização Brasileira. Jônatas Conceição. op. 1987. O cortiço. Éle Semog. Oubi Inaê Kobuko. [ Links ] ANDRADE. Zilá Bernd. Rio de Janeiro. Antonio. Comunicação apresentada no Perfil de Literatura negra. Ricardo Dias e Sônia Fátima. 1962. 1985. ALENCAR. Literatura como forma de resistência. [ Links ] CANDIDO. Pensamentos e reflexões de Machado de Assis. Antonio de Castro. 1974. Paulo. Cuti. Civilização Brasileira. Obra completa. Civilização Brasileira. 1958. Rio de Janeiro. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. nº 25 Negro brasileiro negro. Domingos Caldas. Rio de Janeiro. 1984. [ Links ] AZEVEDO. p. José de. http://www. Luanda Beira Bahia. Rio de Janeiro.A trajetória do negro na literatura brasileira 47 Ele Semog. Brasiliense. p. 1962. Poesia. São Paulo. Sebastião Uchoa Leite. Corpo vivo. H. [ Links ] [ Links ] BARBOSA. [ Links ] BERND. [ Links ] 49 Benedito Nunes. cit. rev. Civilização Brasileira. 119. Ganga Zumba. A questão da negritude. O forte. 1965. 6ª ed. Mário de. Agir. 1987. Gentil de. então se percebe que nela não importa sua qualidade. 1958. Itatiaia/Edusp. Aluísio. São Paulo. [ Links ] ______. [ Links ] 52 Cf. Esmeralda Ribeiro. mas sim sua oportunidade". [ Links ] ______.. 1978.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017 [ Links ] 23/25 . 2ªed. Org. Negritude e literatura na América Latina . Mercado Aberto.. 113. São Paulo.13/4/2014 Estudos Avançados .

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