História intelectual no Brasil: a retórica como chave de leitura

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José Murilo de Carvalho

A história intelectual no Brasil: breve retrospecto
ode-se dizer que a história intelectual, ou história das idéias, feita no Brasil, resumia-se até muito recentemente a dois tipos de abordagem. O primeiro, de longa tradição, aproximava-se da prática, usada na filosofia, de expor o pensamento de cada pensador isoladamente. Era uma história centrada no pensador, cujas idéias supunha-se possível interpretar com exatidão. Os autores com preocupação histórica acrescentavam à reprodução das idéias algum esforço no sentido de situar o pensador em seu contexto social. A vinculação entre idéia e contexto era mais ou menos estreita de acordo com a convicção metodológica de cada autor. Exemplos desse tipo de trabalho são as várias histórias do pensamento político, jurídico, filosófico, sociológico, econômico etc., todas de inegável utilidade.1 Alguns historiadores das idéias iam um pouco além. Ao invés de estudarem autores isolados, buscavam agrupá-los buscando identificar famílias intelectuais construídas em torno de certas correntes de pensamento. Essas correntes eram quase sempre definidas de acordo com as categorias clássicas de liberalismo, positivismo, socialismo, fascismo. Assim, surgiram histórias do pensamento positivista, socialista, liberal.2 Alguns buscavam outras classificações, como pensamento conservador, autoritário etc.3 Nessas histórias, os pensadores eram agrupados e se discutiam seus pontos de coincidência e de desacordo, estabelecendo-se certa intertextualidade. Histórias mais recentes combinam análise de pensadores, de correntes e de contexto institucional.4
Este artigo é uma versão ligeiramente modificada de outro que foi publicado em Prismas. Revista de História Intelectual, nº 2 (1998), Quilmes. Universidad Nacional de Quilmes, pp. 149-168.
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Topoi, Rio de Janeiro, nº 1, pp. 123-152.

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Sem desfazer da importância desses estudos, mesmo porque eram os únicos disponíveis, é preciso dizer que continham boa dose de ingenuidade analítica. Em nenhum caso aparece qualquer discussão metodológica sobre a natureza do exercício que se fazia. A crítica não é injusta, pois todos esses trabalhos foram publicados após 1936, quando apareceu o livro de Arthur O. Lovejoy, The Great Chain of Being, juntamente com o Journal of the History of Ideas, criado pelo mesmo Lovejoy em 1940. O livro e a revista podem ser considerados os marcos iniciais da criação da disciplina ou subárea de conhecimento chamada hoje de história das idéias ou história intelectual.5 Seria inútil buscar nas histórias referidas qualquer discussão sobre autoria, recepção, linguagem, texto. A autoria era dada como o determinante principal, se não único, do texto. A atenção à recepção limitava-se a alguma vaga informação sobre influência exercida pelos autores estudados. Não há nada sobre linguagem, texto, ou escritura. Essa literatura passava à margem dos debates e das teorias sobre o tema desenvolvidas nos últimos 50 anos. O segundo grupo de estudos prende-se mais às ciências sociais do que à história ou à filosofia. Com poucas exceções, é menos abrangente, não busca fazer histórias gerais de idéias, limita-se a um ou outro autor, ou a uma temática. Pode-se dizer que a inspiração predominante desses trabalhos provém da sociologia do conhecimento tributária de Marx e Mannheim. Predomina o esforço, agora mais sistemático do que no grupo anterior, de interpretar as idéias como ideologias vinculadas a interesses de grupos e classes sociais, ou mesmo do Estado.6 Trata-se de análises mais elaboradas e aprofundadas. Algumas, como a de Lamounier, assemelham-se à abordagem de Pocock, na medida em que buscam descobrir e caracterizar linguagens particulares, como a da ideologia do Estado.7 Incluem-se também neste grupo de estudos, os esforços de desenvolver uma sociologia dos intelectuais.8 A abordagem presa à sociologia do conhecimento, ao lado das contribuições inegáveis, traz também limitações. A ênfase no autor é simplesmente deslocada para o contexto, em geral definido em termos de modos de produção ou conflitos de classes. O contexto determina o pensamento. As limitações dessas análises ficam claras num rumoroso debate travado na

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década de 70 sobre o lugar das idéias. Trata-se do debate entre Roberto Schwarz e Maria Sylvia de Carvalho Franco.9 Simplificadamente, Schwarz afirmou que as idéias, sobretudo o liberalismo, no Brasil do século XIX e pelo menos até 1930, estariam fora do lugar. O liberalismo teria surgido na Europa como produto ideológico do capitalismo triunfante. Importado para um país em que predominava o modo de produção escravista, ele deixava de ser até mesmo uma ideologia ocultadora da exploração do trabalho, como era na Europa. Tornava-se comédia ideológica, um divertimento das elites vazio de sentido, reduzido a um verbalismo ornamental. Franco respondeu que o Brasil, embora escravista, era parte integrante do sistema capitalista mundial. Não haveria nenhuma distinção essencial entre as partes do sistema, todo ele voltado para o lucro. As idéias importadas estariam assim no Brasil perfeitamente em seus lugares. Sua produção e circulação seriam determinadas internacionalmente pelo sistema capitalista global. A autora, ao final, acusou Schwarz de retrocesso ideológico por separar a condição brasileira do capitalismo internacional, arrefecendo assim a radicalidade da crítica ao sistema capitalista. Apesar da divergência ideológica, que se pretende radical, do ponto de vista do estilo de análise, da teoria do conhecimento, os dois opositores não se distinguem, estão no mesmo campo. Ambos analisam as idéias a partir da hipótese de sua radical determinação pelo contexto social. E o contexto é definido de maneira estreita como modo de produção. Fora desta determinação, as idéias perdem seu conteúdo, mesmo ideológico, e se tornam comédias inúteis. Schwarz, pelo menos, ao admitir o que chama de uma ideologia do favor que regeria as práticas sociais entre senhores, não reduz os brasileiros a meros macaqueadores dos europeus, totalmente destituídos de criatividade. Mas, naturalmente, a ideologia do favor é, ela também, produto das relações sociais geradas pelo modo de produção escravista. Em anos recentes, sobretudo em teses universitárias, algumas ainda não publicadas, já se percebe a incorporação nas análises das novas abordagens, seja explicitamente,10 seja “sans le dire”.11 Estão presentes nesses trabalho, como no de Lamounier, um tratamento explícito do estilo, ou a exploração de valores meta-históricos que configuram os textos, ou a busca de linguagens (no sentido de Pocock) historicamente construídas e trans-

126 • TOPOI mitidas de texto a texto ao longo de extensos períodos históricos. o controle sobre currículos. é preciso reconhecer que há ainda pouca problematização na pratica da história intelectual no Brasil. .12 Apesar desses avanços. Tem faltado. A segunda característica. chamada também por José Guilherme Merquior. no entanto. como nas ex-colônias espanholas. Mesmo onde a educação superior foi mais difundida. As incorporações de novas abordagens têm sido feitas de maneira um tanto informal e fragmentada. uma vez que se proibiu a criação de universidades e escolas superiores na colônia. idéias e métodos didáticos. De particular importância aqui foi o controle do sistema educacional. Não se quer com isso dizer que sejam eles os únicos a importar idéias. uma reflexão mais aprofundada sobre os problemas específicos enfrentados pela história intelectual em países pós-coloniais. Parece. A crítica literária tem avançado muito mais rápido e tem ido mais longe sobretudo. compêndios. aliás. sobretudo. que a iberoamérica apresenta pelo menos duas características que a tornam distinta. sobretudo de Roma. de outros países gerados pela expansão européia. No caso da colônia portuguesa. o controle era ainda muito mais rígido. na incorporação do debate lingüístico e da teoria da recepção. exercido pelo Estado e pela Igreja oficial. já com freqüência apontada. refere-se à tradição ocidental a que se filiou a iberoamérica. de esperar. torna particularmente complexa a tarefa de interpretar a vida intelectual desses países. A circulação de idéias é fenômeno universal. A Revolução Francesa foi tributária de idéias e valores estéticos do mundo antigo. inspirado pelo instigante trabalho de Richard Morse. gerada em um processo de dominação colonial de longa duração. Um bom exemplo aqui é o esforço de reconstruir a linguagem do americanismo e do iberismo ao longo de mais de um século de história. A proximidade ocidental. como era. A primeira tem a ver com o fato de ter sido a colonização controlada pelo Estado metropolitano. A fecundação mútua entre a crítica literária e a história intelectual certamente poderia trazer avanços mais significativos. era rigoroso. obrigando-se os coloniais a buscarem o ensino superior na metrópole. no ponto que aqui me interessa. o mesmo podendo ser dito da Revolução norte-americana.

um pensador original. O Conselho era formado por número pequeno e selecionado de pessoas (12 conselheiros. inútil e vã. A observação de Oliveira Viana lembrou-me estudo anterior que fizera sobre os debates no Conselho de Estado Imperial. mesmo que não se admitam as posições radicais que reduzem tudo a linguagem ou a texto. salientados por Morse. das visões de mundo. embora fosse. Ao ler certa vez um texto de Oliveira Viana. dos valores.13 Esta característica é importante não apenas pelas diferenças entre a Ibéria e o mundo anglo-saxônico no campo das idéias. das práticas retóricas. Os conselheiros formavam o topo da elite política da época. Sem citação de autoridades estrangeiras. Vários estudiosos já observaram. O estilo retórico “.” Manoel Bomfim A última observação acima leva à discussão das peculiaridades culturais ligadas a estilos de pensamento. no entanto. Pondo em prática sua receita.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 127 de o “outro ocidente”. Tratava-se de um grupo homogêneo de pessoas que não tinha diante de si um auditório diversificado e mal informado que fosse . sob muitos aspectos. Seus textos referiam-se quase sempre às suas próprias obras. A virada linguística não pode ser ignorada. Segundo Viana.. Viana sempre citou abundantemente. dos estilos de pensar. Alberto Torres. Viana explicava a pequena repercussão da obra de seu mestre.. mas também pelos contrastes no campo da linguagem. central diante do “linguistic turn” que tomou conta da história intelectual. Esta última especificidade parece-me não ter sido adequadamente estudada. nenhum pensador nacional seria levado a sério. deparei-me com uma observação que serviu para chamar minha atenção para um ponto que antes não me tinha parecido importante. a maneira peculiar que tinha de citar.. ora pomposa.. aliás. dos modos de discurso. a verbiagem oca. a retórica. deturpando muitas vezes o pensamento do citado em benefício da confirmação de suas teses. Ela é. pelo fato de que Torres quase não citava autores estrangeiros. mais um ministro e o Imperador). tal tática no Brasil era fatal. ora técnica.

lá também. tirada dos compêndios de lógica. marcada pela volta dos conservadores ao poder em substituição aos liberais. A forma tinha tanta força que foi transmutada em agente político: é o sorites que destrói o sistema representativo. além de muitas expressões latinas. Uma indicação do impacto do sorites é dada pelo fato de que 31 anos depois Alberto Sales. porque há de fazê-la. no entanto. em meio a uma grave crise política. O conselheiro lamentava.16 O próprio Nabuco anunciou a forma do raciocínio ao dizer: “Vede este sorites fatal. referência a seu autor. esta eleição faz a maioria. Um dos mais famosos discursos feitos no Senado imperial ficou conhecido como o discurso do sorites. que as circunstâncias do país o obrigassem a afastar-se da “boa doutrina”.128 • TOPOI necessário impressionar e convencer pela exibição de erudição. O discurso foi pronunciado em 1868. ou como “o sorites de Nabuco”. No entanto. as falas eram marcadas por abundantes citações de autores estrangeiros. este sorites que acaba com a existência do sistema representativo”. Outras pistas apontando para a mesma direção já tinham surgido em outros estudos sem que eu lhes desse a atenção devida.14 Achava-me claramente diante de um fenômeno que tinha a ver com estilos de pensamento e de discurso. No entanto. O sorites era o seguinte: O Poder Moderador pode chamar a quem quiser para organizar ministérios. intelectual da Repú- . seria abandonado na hora do voto sobre questões práticas. quase sempre postulados liberais. sem dúvida convencido do impacto que a forma poderia ter entre seus ouvintes. Eis aí o sistema representativo do nosso país. O anúncio mostra que o senador estava plenamente consciente do que fazia: ele quis formular suas idéias em um sorites. mas pela forma.15 Nabuco fazia uma denúncia contundente do mecanismo representativo do Império e sem dúvida o tema do discurso afetou sua repercussão. o senador José Tomás Nabuco de Araújo. o surpreendente é que o discurso ficou conhecido não pelo tema o ou pelo argumento. Podia acontecer também que a citação fosse feita para sancionar um determinado discurso que. então. esta pessoa faz a eleição. O mais curioso é que freqüentemente a mesma autoridade era usada para justificar posições divergentes.

Holanda o atribui à aversão ao trabalho manual. cuja palavra abundante e preciosa impõe-se como sinal de gênio. não só no Brasil mas em toda a América Latina.. o retoma e o refaz para descrever o sistema representativo do novo regime: O presidente da República faz os governadores dos estados. sobretudo dos políticos liberais. Bem antes dele.19 O brasileiro. Uma conseqüência desse prestígio da palavra escrita. não instrumento de conhecimento e de ação. Tentando fazer uma sociologia do fenômeno. Seja-me permitido fazer uma citação mais longa: Por toda a parte. a erudição míope. seria o bacharelismo. seria antes ornamento e prenda. própria de uma sociedade em que por muito tempo dominou o escravismo. tão generalizada nas elucubrações dos letrados sulamericanos. uma algaravia afetada e ridícula. para o bacharelismo e o verbalismo. inútil e vã. para a “política silogística”. e as eleições fazem o presidente da República. Concordando ou não com sua sociologia. Sérgio Buarque de Holanda faria observações semelhantes sobre a natureza retórica dos brasileiros. ora técnica.18 Um pouco depois de Oliveira Viana. ora pomposa. segundo ele. quem mais cita mais sabe. embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma idéia original. O verbocinante é o sábio. os governadores fazem as eleições. a fascinação com o título de doutor. e à conseqüente exaltação da atividade mental. resumem toda a elaboração intelectual. fizera longa catilinária contra a ausência de espírito de observação e o predomínio do discurso livresco. a verbiagem oca. dessa crença mágica no poder das idéias. encontram-se em sua obra freqüentes e enfáticas críticas à tendência brasileira. interessa aqui registrar .HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 129 blica. o aparato de sabedoria. um discursador é um homem apto para tudo. nem uma só observação própria. outro ensaísta. do talento.. à erudição ostentosa. Teria antes “amor à frase sonora.17 Voltando a Oliveira Viana. Inteligência. para o brasileiro. à expressão rara”. teria pouca estima às especulações intelectuais. a retórica. Aceitam-se e proclamam-se — os mais altos representantes da intelectualidade: os retóricos inveterados. [. ao verbo espontâneo e abundante. Manoel Bomfim. médico de formação.] Vem daí esta mania de citação.

em 1639. Verney O peso da retórica é facilmente explicado pela análise da tradição escolástica portuguesa. gasta sete páginas para falar mal da verbiagem e o faz no melhor estilo retórico. e muitos outros. Mas no resto do livro não faltam citações de Darwin. Spencer. sobretudo a que predominou no Colégio das Artes e na Universidade de Coimbra. Mas o que mais chama a atenção na citação de Manoel Bomfim não é a crítica à retórica vazia. isto é. Por meio dele os padres da Companhia controlavam também os estudos da Universidade. Para seu crédito. supostamente técnica e baseada no oposto do bacharelismo. consegue citar nas sete páginas apenas um autor estrangeiro (G. na cultura nacional. inclusive de retórica. de “declamação”. da ratio studiorum. onde se faziam os estudos menores. florido e cheio de redundâncias e repetições.130 • TOPOI o diagnóstico da importância. Virgílio. O autor. Goethe. professores e advogados da época. O Colégio das Artes. Raízes históricas “Todo lugar é teatro para a retórica”. no discurso político. quando os jesuítas foram expulsos de Portugal e do Brasil. na observação dos fatos e não no brilho da palavra. Tarde). A declamação equivale em retórica à parte chamada de elocução. o método de estudo jesuítico. Não há prova mais convincente do predomínio da retórica do que o fato de se recorrer a ela para a atacar. É o estilo retórico em que a crítica é feita. da retórica enfim. . apesar de sua formação médica. que era sem dúvida do conhecimento dos políticos. Heackel. da frase bem feita. foi dominado pelos jesuítas desde 1555. da palavra sonora. e durou até 1759. Por essas duas instituições passaram muitos membros da elite política e intelectual brasileira da primeira metade do século XIX. uma vez que era passagem obrigatória para todos os candidatos aos cursos universitários. O controle tornou-se mais rígido a partir da introdução. Elas correspondem ao que no século passado se chamava. Não seria difícil multiplicar observações do mesmo gênero.

Aristóteles e Santo Tomás. foi escrito de propósito para combater. citando como autoridades últimas. ao excesso de ornamentos estilísticos. Verney buscara modificar-lhe o conteúdo e ampliar seu alcance. A filosofia e os planos da reforma basearam-se na obra do frade oratoriano Luís Antônio Verney. o método do ensino do latim e a concepção da retórica. No segundo. dedicadas à retórica. reformou-se. E as divergências que escapavam à ratio studiorum caíam nas malhas da censura do Santo Ofício. As duas instituições mantiveram Portugal isolado dos avanços da ciência moderna que se verificavam no norte da Europa. eram um ataque cerrado ao mau gosto da oratória portuguesa. e substituir. não houve. A civilização eram as ciências e suas aplicações práticas. afetando tanto os estudos menores como os maiores. Seu polêmico Verdadeiro Método de Estudar. As cartas 5 e 6 do Verdadeiro Método de Estudar. dominou a ortodoxia: Santo Tomás e Aristóteles. a ratio studiorum. uma tentativa de extinção. foram introduzidas na Universidade a matemática e a filosofia. discursos e outros tipos de escrita.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 131 No período de dominação jesuítica. A reação anti-jesuítica. ao abuso dos tropos de linguagem. Enquanto os métodos modernos de investigação e raciocínio se desenvolviam em outros lugares. atingiu em cheio o Colégio e a Universidade. liderada por Pombal. conseqüentemente. ou reformar o conteúdo e o método de ensino de matérias antigas. No que se refere à última. dentro dos estudos menores.20 Dentro das preocupações pragmáticas de Pombal. No primeiro caso. à afetação. posição de que fora afastado. A reforma dos estudos menores se deu em 1759. a da Universidade em 1772. Verney mostra o vazio . O professor que não pudesse concordar com Santo Tomás em determinada questão deveria omitir a questão. como se poderia esperar. Com abundância de exemplos tirados de sermões. entendendo-se por este termo as ciências naturais. publicado em 1746. Longe de pregar seu abandono. assim acreditavam os pombalinos. a física e a química. pelo predomínio da escolástica jesuítica. a reforma buscava recolocar Portugal em posição digna dentro do mundo civilizado e polido da Europa. chamado da segunda escolástica portuguesa. alunos e professores do Colégio das Artes e da Universidade de Coimbra ocupavam-se em disputationes escolásticas. além da Bíblia. sobretudo na Inglaterra. a reforma buscou introduzir novas matérias.

para todos os domínios das relações humanas. estava na ignorância do que fosse a retórica. queria levar a retórica para a rua. no espírito de Verney. Os portugueses simplesmente ignoravam o que ela fosse. querendo ser eloqüentes. parte mínima e menos importante. se fazia o elogio da utilidade da retórica. Na tradição de Quintiliano. ela é utilíssima. Sem eles não . Mas. seja por a estudarem em péssimos manuais (jesuíticos). por esta regra. as citações fora de propósito. O que era preciso era reformar radicalmente a concepção de retórica e o método de ensinála. Nos discursos familiares.21 Dito de outro modo. em toda a ocasião em que se trata com os homens. a retórica a arte mais necessária no comércio dos homens. e não só no Púlpito ou na Advocacia. é preciso conciliar-lhes a vontade e fazer. Quem não a estudava não sabia. mas que se persuadam do que se lhes diz e o aprovem. E acusa: “Estão todos persuadidos que a eloqüência consiste na afetação e singularidade e. delectare. era que se reduzia à inteligência dos tropos e das figuras.22 O mal da retórica jesuítica. pois. procuram de ser mui afectados nas palavras. Verney estava acusando os portugueses de praticarem uma retórica barroca. o problema não estava na retórica. É. nas disputas. ensina todos os meios e artifícios para persuadir os ânimos e atrair as vontades. seja por não a estudarem. segundo ele. com isto. movere”. as repetições inúteis. Como arte de persuadir. como vulgarmente se imagina. Nelas. Os tropos e figuras são os andaimes do edifício dos discursos. Verney queria que a ênfase fosse no “movere”. aplicase a todas as circunstâncias da vida: “todo lugar é teatro para a retórica”. mui singulares nas idéias. a exibição fútil de erudição. nos negócios públicos. continua a Instrução. os títulos estrambóticos e obscuros e até mesmo a imperícia na elocução (na qual os italianos eram os mestres).132 • TOPOI e o ridículo em que incorriam os oradores e autores. não só que entendam o que se lhes diz. E. ciência que ordena os pensamentos. Na clássica definição dos fins da retórica “docere. O alvará régio de 1759 que reformou os estudos menores trazia em anexo umas “Instruções para os professores de retórica”. a sua distribuição e ornato. quem estudava. Ridiculariza o excesso de citações de frases e de autores. e mui fora de propósito nas aplicações”. sabia menos ainda. o barroco português enfatizava o “delectare”.

da retórica. teria alguma formação em retórica. de modo geral.23 A política reformista exigiu. ainda. entre os exames preparatórios exigidos para ingresso estava o de retórica. foram criadas. Cícero. no fato de que. adaptado por Rolin. eram preenchidas por concurso. Tal posição significava que. Elas incluíam o ensino do vernáculo. aulas régias nas principais cidades da metrópole e da colônia. retórica e poética) como base de todo o conhecimento. equivalente ao Colégio das Artes de Coimbra. em 1808. longe de esvaziá-la. um de seus prin- . José I em 1777. A importância dada à retórica revela-se. segundo Joaquim de Carvalho. quando se criaram as escolas de direito no Brasil. O conteúdo humanista da reforma dos estudos menores não abria mão da importância das Letras Humanas (línguas. desde 1759. inclusive a de retórica e poética. o arcabouço expositivo do pensamento escolástico. sobre Verney. Várias teses de concurso foram publicadas. a queda de Pombal após a morte de D. da poética e da filosofia racional. portanto. teria passado por elas e. aprovação em exame de retórica para admissão à Universidade de Coimbra. as mudanças não foram radicais. foi criado no Rio de Janeiro o Colégio de Pedro II.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 133 é possível construir. Sem o patrocínio do ministro. o movimento reformista perdeu vigor e regrediu. em 1838. Para preparar os candidatos. Suas cadeiras. naturalmente. As aulas régias substituíam os colégios dos jesuítas. pode-se dizer que no início do século XIX qualquer pessoa com alguma educação acima da alfabetização elementar. reforçou sua importância e lhe ampliou o alcance. João ao Brasil. Aristóteles e Longino. Uma das razões para isto foi. do latim. nomeados e pagos pelo Estado. do grego. e foram muitas vezes ocupadas por figuras de proa da cultura nacional. a partir de 1763.24 Em 1827. teria sobrevivido. no que se refere à retórica. Apesar do pequeno número de aulas régias criadas na colônia. Os especialistas no estudo das reformas pombalinas são unânimes em afirmar que. a reforma. Mais tarde. Apesar da influência de Locke. seus professores eram aprovados. após a chegada da corte do príncipe d. Outra razão foi mais profunda. de seu utilitarismo e experimentalismo. mas não devem aparecer depois de pronta a obra. Os principais autores antigos recomendados pela Instrução são Quintiliano. em Portugal ou no Brasil.

Outro indicador da divulgação dos estudos de retórica é um compêndio de Bento Soto-Maior e Menezes. A retórica ciceroniana. publicado em 1794. admoestações. Que o autor se tenha disposto a escrever um compêndio de tal amplitude com tal finalidade indica sua convicção da existência de número razoável de “curiosos” fora dos circuitos acadêmicos. Os mestres da retórica. redigiu ele mesmo um compêndio publicado entre 1813 e 1820 sob o título de Preleções Philosophicas. a retórica não devia ser enfeite mas instrumento cotidiano de argumentação e persuasão. Dois outros pontos do compêndio merecem referência pela importância que têm para a prática do debate político. abriu um curso de filosofia e de teórica do discurso e da linguagem. ou “manual do perfeito retórico”. Os argumentos podem ser demonstrativos ou laudatórios. e judiciais. que geram discursos sobre o útil e o honesto (petições. recomendações. O conteúdo do texto segue o espírito da reforma de Verney. como ele a define. Intitulado Compêndio Rhetórico ou Arte Completa de Rhetórica. se assim se pode dizer. A retórica destina-se a ensinar.26 Para o autor das Preleções.134 • TOPOI cipais conselheiros. orações fúnebres). Não tendo encontrado manuais adequados. a teoria do raciocínio não deveria separar-se da teoria da linguagem. Seu fim precípuo é persuadir. para Menezes.27 Isto é. próprios para a defesa e acusação no foro.25 Sua visão da retórica se parecia com a de Verney e se aproxima da que é defendida hoje por aqueles que procuram resgatar a disciplina da má fama que a acompanha. conseguir a adesão das pessoas. é Menezes quem . O primeiro liga-se à opção pela tradição romana da retórica cívica (Cícero e Quintiliano) distinta da tradição formalista aristotélica. são Cícero e Quintiliano. era uma espécie de livro que hoje poderia ter o título de “retórica para todos”. a retórica não deveria separar-se da lógica e da gramática. o livro de 300 páginas pretende apresentar um método fácil de aprendizado para os curiosos que não querem freqüentar aulas. deliberativos ou suasórios. deleitar e mover. genetlíacos. mais tarde feito ministro. Isto é. concitações). Divide-se de acordo com a natureza dos argumentos utilizados. Silvestre Pinheiro Ferreira. próprios para os panegíricos (epitalâmios. a arte de pensar não se devia separar da arte de falar com clareza. indica certa popularidade. da retórica ou da “ciência do falar bem”.

28 Nele exaltava a importância da retórica e buscava adaptá-la ao idioma brasileiro. além de vários autores modernos. O tipo de audiência determina o estilo do orador e os argumentos a serem utilizados. Acízelo concentra seu estudo na influência da retórica sobre a literatura. engenho. o orador não passará de um rábula enganador e não convencerá ninguém. segundo ele. nota o autor. bondade. outra figura conhecida da política nacional. destinada apenas a convencer. feitas entre 1810 e 1886. educação. costumes. e daquele que é por ele patrocinado. Lopes Gama dá ênfase à parte da retórica dedicada à elocução. exige do orador virtude. à maneira de dizer. denunciando a força da tradição do ensino da retórica. pois é aí. Os autores incluem além de Silvestre Pinheiro e Lopes Gama. Seus mestres são os mesmos de Menezes: Aristóteles. A não ser assim. isto é. como pelo modo. a qualidade moral do orador vale tanto quanto a qualidade de seus argumentos. benignidade. Frei Caneca. As audiências. conduta. Os costumes do orador.29 Pelo resto.. prudência. Este autor levantou 34 publicações sobre retórica e poética. ao contrário da argumentação puramente racional. O que isto quer dizer é que na retórica. variam muito em índole. reinos e mesmo províncias. isto é. Isto significa também que na retórica se pode admitir o argumento ad hominem. que está a força da eloqüência: “. a tentativa de desqualificar o opositor atacando sua qualificação moral. o compêndio de Gama não se distingue muito dos anteriores.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 135 fala. porque se dizem”. e vários professores do Pedro II. publicou um vasto compêndio dedicado à eloqüência nacional. em geral tratadas conjuntamente.. ou mesmo ad personam. variam segundo as nações. É óbvia a proximidade desta observação com a temática moderna da leitura e da recepção. padre e militante da imprensa na década de 1830. por quanto as cousas não valem tanto pelo que dizem. devem ser recomendáveis. O outro ponto é a observação de que na retórica é fundamental levar em conta a audiência para que se fala. e theor. Cícero e Quintiliano. A importância dos manuais de retórica e o papel do Colégio de Pedro II no ensino desta disciplina durante o século XIX foram bem estabelecidos por Roberto Acízelo de Souza. Logo após a criação do Colégio de Pedro II.30 . um antigo professor de retórica de um liceu em Pernambuco. Lopes Gama.

33 Perelman parte da verificação do desprestígio da retórica. com a idéia de paradigmas científicos de Kuhn.. A estratégia de Perelman para retirar a retórica do limbo é defini-la como a lógica dos juízos de valor. e com os conceitos de linguagem política de Pocock e de práticas e protocolos de leitura de Chartier. ou ouvinte. sem dúvida. porque se dizem. o autor e seu leitor. Mas extrapola a lógica na medida em que recorre a argu- . A retórica está dentro do domínio da lógica na medida em que recorre a argumentos (e não à ação.32 Um dos principais esforços recentes para recuperar a retórica.31 A natureza da retórica em si já exige. Observo apenas que minha aceitação da importância de se levar em consideração a dimensão linguística não implica a adesão a posições radicais. à sugestão. desde Aristóteles colocada no campo da opinião (aletéia). em oposição à lógica que estaria no campo da verdade (doxa). as cousas não valem tanto pelo que dizem. Será uma de suas obras que me servirá de guia nos próximos parágrafos. ou à experiência). “. que se leve em conta. como a da hermenêutica de Gadamer. A distância entre as duas ciências teria aumentado em função dos grandes avanços no campo da lógica. no sentido estrito do termo. além da linguagem e do texto. A virada linguística refere-se precisamente à recuperação da dimensão retórica do discurso. se deve a Chaïm Perelman. como vimos. enquanto a retórica permanecia relegada ao abandono. Não é preciso lembrar que tal exercício tem diretamente a ver com a “virada linguística” na filosofia. que nos aprisiona dentro da linguagem. que nos aprisiona dentro do texto escrito. Uma abordagem via retórica estabeleceria. menos ainda a do escriturismo de Derrida. depois transplantada para a crítica literária e para a história intelectual. com reputação que variava entre a inutilidade e a suspeita de desonestidade. Lopes Gama A recuperação da tradição retórica teve por finalidade explorar a possibilidade de usá-la como instrumento de trabalho na prática da história intelectual. contatos com a estética da recepção de Jauss.. e teor.136 • TOPOI A retórica como chave de leitura. como pelo modo.

Na lógica ele é fechado dentro de um sistema. prestígio. este recurso era obrigatório. Os valores estão obviamente presentes em dois dos três gêneros retóricos clássicos. mesmo na presença de elementos suficientes de convencimento. A autoridade do último (pela competência. ou epidíctico. A necessidade de recorrer a esses argumentos. como vimos. o que exige uma grande variedade de argumentos de natureza não-lógica. O argumento lógico.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 137 mentos que vão além da estrita racionalidade. o deliberativo (político). O orador pode. Perelman observa. que acabou sendo identificado à retórica e lhe deu má fama por supostamente reduzir-se a espetáculo. havia um cânone relativo aos nomes aceitos como autoridade. deve-se tanto ao fato de que a maioria dos problemas enfrentados pelos seres humanos extrapolam o domínio da racionalidade estrita por envolverem juízos de valor. Ela pretende persuadir. operação que se faz mediante raciocínios lógicos. a retórica não busca apenas convencer. que trata do útil e do honesto. a autoridade de quem é invocado pode suprir a falta de autoridade do orador. ao puro “delectare”. e o judicial. Interessa-me aqui selecionar características da retórica que podem ser úteis para trabalhar textos do século XIX. Na retórica não há como decidir quando . no entanto. Resta o gênero laudatório. que o gênero laudatório também tem a ver com valores. Na lógica. por assim dizer meta-racionais. recorrer à autoridade de outros para sustentar seus argumentos. finalidade que extrapola o espetáculo oratório. ao contrário do retórico. A segunda característica tem a ver com o campo da argumentação. honestidade) é elemento importante de convicção. ele se destina a confirmar os valores predominantes na sociedade e a responder a possíveis objeções futuras. Como já vimos nos compêndios examinados. pois o convencimento pode não ser suficiente para levar à ação. obviamente. como à finalidade específica da retórica. Em muitos casos. Mais ainda. mover a vontade. na retórica é sempre aberto. portanto. Algumas já foram apontadas. havendo. à exibição inútil de talentos oratórios. A primeira é a relação estreita entre os argumentos e a pessoa do orador. é necessário o recurso à retórica. a prova liquida a questão. que trata do justo. No limite. Na retórica escolástica. separa totalmente argumento e orador ou autor. Pede-se aí também uma adesão do ouvinte.

a retórica é o campo do debate democrático. cada época terá seus auditórios. Vai além de Pombal ao conceber a democracia como parte integrante do humanismo. os estilos. A aceitação ou rejeição dos ouvintes não afeta esta validade.que orador deve ser considerado o melhor? Sem dúvida. a modificação parcial da posição dos opositores para se chegar a um ponto de acordo. como diz Perelman. não apenas a peças oratórias. para a geometria. Isto em lógica é impossível. A variação de estilos e argumentos não pode.. há também uma retórica adequada para a história. uter melior dicetur Orator? Nimirum qui homo quoque melior”. portanto. Uma última característica é que a retórica permite sempre o compromisso.. o autor recupera a política da reforma pombalina de manter a retórica dentro do ensino das humanidades. Ele não estará violando as regras do jogo retórico. Neste sentido. ou em qualquer outro país. Como está claro no próprio Verney. religiosas ou leigas. “. de uma cultura marcada pela retórica são verdadeiros. é necessário que o orador conheça seu público para escolher os argumentos. ser motivo de crítica ao orador. Sempre se podem aduzir argumentos adicionais. é o campo do humanismo. para a metafísica.. dispensa totalmente tal preocupação. Nesta conclusão tento indicar. a pronunciação adequados para movê-lo. Ou. aquele que é também o melhor homem” Quintiliano Se os indícios da existência no Brasil. Ela procura apenas a validade do argumento. Refiro-me aqui a qualquer tipo de texto. Uma terceira característica da retórica é a importância do auditório. Auditórios diferentes exigem argumentos e estilos diferentes.. então o protocolo de leitura fornecido pela forma retórica de argumentação deveria ter utilidade na decifração dos textos produzidos dentro dessa cultura. Daí a necessidade de repetições. de redundâncias e do uso das figuras de linguagem para persuadir o ouvinte ou leitor. ao contrário. Ao colocá-la neste campo. Cada auditório terá seus valores. para a física. Como ela deve ser eficaz. Um exemplo: o argumento ad personam “. como alguns problemas encontrados . A lógica.138 • TOPOI é que a “prova” é suficiente. para a teologia.

após a revolta liberal do Porto. a promessa é logo quebrada. foi vítima de um atentado a bala. um debate elevado de idéias. Ele falava com conhecimento de causa pois. Muitos dos principais políticos da época. facções. de divulgadores das luzes. Desde 1820. A quebra sistemática das promessas não impede que os novos jornais que surgem repitam o mesmo ritual de prometer e descumprir.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 139 na prática da história intelectual do Brasil poderiam ter sua solução facilitada com o auxílio das sugestões tiradas do modo retórico de argumentar. e com a única exceção do Jornal do Commércio. de pedagogos da cidadania. voltado para a praça do Rio. O próprio nome do jornal às vezes reflete tal propósito. Muitos assumem explicitamente o papel de educadores da opinião. não fogem à linguagem violenta. o argumento ad personam. Segundo Evaristo.34 No entanto. embora moderado. vários jornais apareceram representando grupos. Em geral de curta duração. a agressão extrapola o domínio verbal e se manifesta em agressões físicas e atentados contra a vida de jornalistas. tinham seu jornal. no entanto. como os dos Andrada. Uma das características apontadas por todos os que já estudaram esses panfletos e jornais é a violência da linguagem. na linguagem da época. Após 1821. essas folhas eram o principal veículo do debate político e cumpriram papel importante no aprendizado democrático. ou. o debate político se intensificou mediante a publicação de centenas de panfletos em geral voltados para a discussão da permanência ou não do rei no Brasil. Quase todos os jornais prometem no primeiro número adotar uma posição equilibrada. Evaristo da Veiga. o ataque pessoal. e depois em torno das alternativas abertas pela independência. A liberdade de imprensa no Brasil só foi implementada em 1821. ou mesmo indivíduos isolados. enchiam suas páginas com nomes pró- . Uns mais que outros. Em alguns casos. Mesmo jornais dirigidos pelos mais importantes políticos da época. O primeiro deles tem a ver com o estilo do debate político encontrado sobretudo na imprensa e nos panfletos. O fenômeno foi reconhecido por um dos melhores e mais equilibrados políticos e jornalistas da época. começam a atacar e agredir. a maior parte dos jornais invectivavam mais que argumentavam. e alguns dos principais intelectuais (freqüentemente eram as mesmas pessoas).

que é o que se aplica ao debate político. Certamente este era o caso de todos os que tinham estudos superiores e de todos os sacerdotes.35 A explicação que sempre me ocorria para o fenômeno. no sentido que Hannah Arendt dá à palavra. competência e . Se olhado pelo prisma da retórica. Deste modo. A explicação é plausível. Ficavam de fora apenas alguns autodidatas. é ainda mais clara a exigência de virtude do orador como garantia da capacidade suasória do argumento. era a da inexperiência de todos em matéria de debate político democrático. tal espaço se formava na ausência de uma esfera pública no sentido habermasiano do termo. Daí que as práticas da esfera privada se transferiam diretamente para a política sem a intermediação do aprendizado do debate público não político. No gênero retórico deliberativo. havia um problema de formação de espaço público. Ora. não tinha permitido o aprendizado do debate de idéias. como vimos. Entre elas estaria a que exige do orador virtude. Obviamente. não se pode dizer “façam o que eu digo. Mais ainda. no argumento retórico não se separam a autoridade do orador e a do argumento.140 • TOPOI prios antes que com doutrinas. falta de educação. tributária da tradição cívica romana. incivilidade. transferiam-se para o debate político público as práticas do debate privado que freqüentemente recorriam ao ataque pessoal. tal imagem negativa pode ser matizada. Como vimos. Estes mesmos poderiam ser familiares à ciência do bem falar. Não se tinham ainda estabelecido regras civilizadas para tal debate. de que a censura das idéias e dos escritos era parte essencial. Na concepção de retórica adotada pela reforma pombalina. O despotismo político. No entanto. Ele é visto como imaturidade. sobretudo. a grande maioria dos principais jornalistas da época sem dúvida tinha conhecimentos de retórica. e que é partilhada por outros analistas. pois. podiam ter acesso a compêndios especiais para os que não quisessem ou pudessem assistir às aulas. E confessa: “nesta parte também nos confessamos culpados ou arrastados pela força da torrente”. não o que eu faço”. Era ainda o caso de todos os que tinham cursado as aulas régias. Não seria fora de propósito supor que aplicassem em seus jornais as noções de retórica aprendidas nas aulas. há na explicação uma visão talvez excessivamente negativa do fenômeno da violência verbal.

eram eles próprios. Certamente era pequeno. mesmo levando-se em conta que a capital francesa tinha uma população sete vezes maior. Há um permanente debate entre os jornais e entre seus redatores. Só poderiam ser dispensados em altas discussões filosóficas que supõem um auditório universal. Mas a agressão pessoal direta é sem dúvida uma prática que deve ser tratada como indicadora de um estilo específico de argumentação. o jornalismo não passando de um meio de fazer política. fazendo com que mesmo pessoas que preferiam uma discussão centrada em princípios fossem arrastadas pela corrente. não estavam apenas debatendo abstratamente questões que envolviam valores e princípios. o argumentum ad hominem é quase inevitável. é que o auditório. ao mesmo tempo. A falta de público mais amplo. não era nada em comparação com as 480 livrarias e 850 tipografias existentes em Paris. estariam em desvantagem. A corrente (o público) puxava na direção do argumento pessoal. que envolve a desqualificação do adversário.36 A impressão que se tem. uma vez que desqualificar um argumento desmoraliza seu autor. A confissão de Evaristo da Veiga é reveladora. sabiam também que a eficácia da argumentação dependia de um bom conhecimento do público. Portanto. se não todos. A exigência era particularmente adequada pois quase todos. os jornalistas eram. Debatiam sua própria ação política e a ação política dos adversários. de uma opinião pública capaz de mediar o debate. Uma cidade de cerca de 100 mil habitantes tinha apenas 13 livrarias e sete tipografias. Ele fala em ser arrastado pela força da corrente. Muitos eram jornalistas por serem políticos. pode ser vista como um fator de exacerbação dos ataques pessoais. Não há estudos satisfatórios sobre o público leitor no Rio de Janeiro na década de 1820. Ele deve ser distinguido do argumentum ad hominem que não ataca a pessoa mas argumentos específicos de certos adversários ou auditórios.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 141 honestidade.37 . Os dois tipos de argumento facilmente se confundem. no entanto. Se era mais do que as cinco livrarias e quatro tipografias de Buenos Aires. Falo do argumentum ad personam. políticos. Os que se recusassem a aderir a este estilo teriam sua eficácia reduzida. Como retóricos. o público leitor dos jornalistas-políticos. Em debates políticos.

na tradição retórica portuguesa a abundante citação de autores era generalizada. O argumento de prestígio. etc. estava presente a mesma preocupação. cuja escola devia ser seguida “inviolável e uniformemente [. será fácil ver o recurso a outros autores como parte da tática de reforçar a própria autoridade. havia uma rígida definição dos autores aceitos como autoridade: Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. Na reforma dos estudos maiores (Universidade de Coimbra). Seguramente. por exemplo. por exemplo. amplamente usada na argumentação jurídica. por exemplo. A reforma pombalina não afetou esta característica do ensino.”39 Vimos como em Coimbra. Levando-se em conta a importância que tem para a retórica a autoridade do autor. como nas lições públicas”.. incluindo antigos e modernos. as “Instruções para os professores de retórica”. que deslocava a prova para o experimento e a observação.. Em suas palavras: “Este desejo de parecer erudito com a repetição de mil passos de autores tem alucinado infinita gente. Bártolo devia ser substituído por Cujácio.40 Os esforços de introduzir o experimentalismo lockeano. O mesmo é feito para os professores de grego. e escritos.142 • TOPOI Um exemplo: o argumento de autoridade Começamos a discussão sobre retórica com a observação de Oliveira Viana sobre a necessidade que tinham autores brasileiros de citar autores estrangeiros como condição de aceitação pelos pares. tiveram êxito apenas parcial e pouco duradouro. Apenas mudaram-se os autores. de Juvenal. pertence à prática comum da retórica. sobretudo o de autoridade. uma vez que muitas questões são controversas e a opinião de especialistas pode ser útil para a persuasão. Nos estudos menores. ou orador. Verney a identifica como um dos vícios que condena. Em filosofia racional. Foi. Aristóteles era substituído por Antônio Genovese. ele não pode ser descartado. não é outra coisa senão um argumento de autoridade. o tipo de raciocínio mais atacado por ter sido muito usado contra os avanços científicos. No direito.38 Apesar dos abusos. como observam Perelman e Olbrechts-Tyteca. latim e hebraico. A jurisprudência. durante o período jesuítico. indicam com precisão os autores a serem usados. Conheci um que não abria a boca que não repetisse um verso de Marcial.]por todos os professores assim nas dissertações. .

Sugere-se que uma chave útil de leitura pode ser dada pelo estilo de raciocínio. adotada por Euclides como núcleo de sua argumentação e atribuída por ele a Gumplowicz. não seja visto apenas como indicador de dependência intelectual. Além disso. transferiu-se para o Brasil e talvez ainda esteja presente até hoje. Os mesmos autores. a citação de um autor estrangeiro não significava necessariamente adesão a suas idéias. O fato de que raramente se cobrava a fidelidade . Muitos tomavam conhecimento de autores estrangeiros via artigos de divulgação publicados. ou pela pura deturpação. Em princípio. uma retórica. O primeiro caso foi mostrado por João Quartim de Moraes em relação ao uso que Oliveira Viana faz do pensamento do publicista e antropólogo espanhol Joaquín Costa. muitas vezes baseadas em comentadores. Dentro da tradição brasileira.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 143 De qualquer modo. Se não se trata. ao pensamento deste autor. o uso de autores estrangeiros poderia ter caráter puramente instrumental. não corresponderia. a observação de Verney continuaria válida. O que se sugere aqui é que o fenômeno onipresente da citação de autores estrangeiros. segundo Costa Lima. portanto. este traço do estilo. e da concomitante importação de idéias.41 O segundo pode ser encontrado na análise de Luís Costa Lima sobre a leitura que Euclides da Cunha faz das teorias raciais de Gumplowicz. ou da retórica portuguesa. embora pudesse significar. A operação pode-se dar por meio do recurso de pinçar frases isoladas ou aspectos secundários. o argumento de autoridade era um requisito indispensável. era um recurso de argumentação. Trocandose os poetas Marcial e Juvenal por outros nomes. Como o importante era citar. de simples dependência e simples mimetismo. Há vários casos documentados de usos de citações que não correspondem ao pensamento do citado. as leituras eram freqüentemente superficiais. Exemplos como estes poderiam ser facilmente multiplicados. nem como colocação correta ou incorreta de idéias. portanto. como mostrei no estudo do pensamento dos conselheiros de Estado.42 A noção de guerra de raças como motor da história. por exemplo. As deturpações eventuais podem não ser voluntárias. ou as mesmas práticas eram usados para justificar políticas radicalmente distintas. na Révue des Deux Mondes. também não é o caso de considerar o fenômeno como desonestidade intelectual.

144 • TOPOI das citações indica a aceitação de seu caráter retórico e instrumental. ou eram mais aceitos pelo público. ultrapassar essa barreira retórica para tentar chegar ao que poderia estar mais próximo do sentido do autor. A estratégia de leitura deve. jurídico. Um geólogo norte-americano dizia em 1883 que “what passed for science in Brazil was characterized by an almost complete absence of investigation”. e nem mesmo seu conteúdo. como nos antigos tempos de Coimbra. Para o historiador das idéias. A disputa se deslocava. então. do sentido dos leitores. Permanece. filosófico. Daí se deduz que a citação em si. ter sido o maior palrador que o país jamais produziu. do que uma pista sólida de explicação. então. A resposta à citação de um autor. ela pode constituir antes um obstáculo. se poderia fazer uma lista dos autores mais citados e tentar estabelecer a existência ou não de um cânone de autores do pensamento político. supostamente treinados nos métodos e linguagem da ciência. É sem dúvida uma ironia o fato de que o redator do relatório.43 Até mesmo médicos (como Manoel Bomfim. a pergunta: por que a longa vida da prática de citar autores estrangeiros? O recurso ao argumento de autoridade talvez se deva às mesmas razões do fracasso da reforma de Verney: o deslocamento da prova para a evidência empírica. Até o final do século XIX. referente ao ensino nos liceus. citado no início deste trabalho) e engenheiros. eram vítimas do mesmo fenômeno. O fenômeno era reconhecido pelos próprios brasileiros. ou grupo de autores. aponta sua característica quase exclusivamente literária. científica. consistia em geral em citar outro autor. Um relatório de 1882. constituem o ponto central para a análise. uma armadilha. ou grupo de autores. Um cânone escolhido agora livremente e não imposto. econômico. Na melhor das hipóteses. Rui Barbosa. ou mesmo. Nas faculdades de medici- . Seus alunos iam para as faculdades de onde sairiam doutores incapazes de ver a natureza. Formava-se assim um povo de palradores e ideólogos. para a questão de saber quais autores tinham mais autoridade. a investigação científica no Brasil apenas engatinhava. exigiria o desenvolvimento da prática científica. no entanto. mas prontos para sustentar com todas as pompas da retórica “as hipóteses mais inverificáveis sobre a existência do incognoscível”.

o ensino era quase sempre feito em livros. tradicionalmente considerada a parte essencial da retórica (como se diz é mais importante do que o que se diz). Não houve apenas a sobrevida da prática da citação de autores estrangeiros. permanecia a necessidade do argumento de autoridade. nos veio [. os instrumentos de persuasão. sobretudo. ou alegórica. têm mais a ver com elementos externos ao texto. a ironia. É na elocução. tiveram inúmeros seguidores mas não afetaram a prática da ciência. Positivismo e evolucionismo. médicos. mesmo quando falavam contra o vício da retórica. Naturalmente. A própria linguagem científica nacional manteve-se dentro do estilo retórico de argumentação e dicção. Nova Luz Brasileira (12/01/1830) Obviamente. Conclusão “O grande uso da linguagem simulada. aliás. que se encontram os ornatos da linguagem.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 145 na e de engenharia. Um próximo passo seria deslocar a análise para o interior dos textos a fim de verificar em que medida as regras do argumento retórico se fazem presentes. sobretudo dos tropos.. a variedade dos tropos. por exemplo.] das intrigas e traições dos diplomatas e inquisidores do Despotismo”. eram mais importantes que sua veracidade. brilho era o que deles se esperava. para a elocução. Produziram engenheiros. que sabiam filosofar sobre a ciência e o mundo. Estes aspectos. sem saber fazer ciência. seria a predominância de certos tropos. E filosofavam no melhor estilo retórico. Citavam-se pesquisadores e pesquisas de outros países.. por exemplo. Na ausência da prática científica. em que o brilho da frase. A atenção aqui deveria ser dirigida. Ou de certas figuras de linguagem mais apropriadas . a utilidade do uso da retórica como chave de leitura não se limita aos aspectos discutidos acima. As correntes cientificistas que invadiram o país na segunda metade do século passado não produziram cientistas. É nela que se dá o uso das figuras de linguagem. Um ponto a se verificar. o sarcasmo. sua qualidade literária. o estilo. militares. o modo de dizer. a antífrase. inexistindo em quase todas a prática de laboratório e de investigação. como a paródia.

a linguagem que tem todo cidadão honrado”. houve durante o período da independência. a retórica. e traições. Alguns jornalistas da época da independência percebiam com clareza a importância da retórica. por exemplo. sabiam estar envolvidos numa batalha linguística que tinha a ver com o conteúdo e a forma. Restaria muito a ser feito. até mesmo por ser danoso à causa pública”. com o fim de reduzir a gravidade da transgressão. quando um ladrão é chamado de ladrão. É o caso. dos diplomatas e inquisidores do Despotismo. Os redatores deste jornal.146 • TOPOI à persuasão e ao sentimento. “a linguagem da verdade. A certa altura. compositores de mil e uma noites. a imprecação. por exemplo. por exemplo. A título de exemplo. uma guerra de retóricas. o uso de termo impróprio para expressar uma idéia. não esgota as possibilidades de análise linguística dos panfletos e jornais. sobretudo no que se refere ao conteúdo dos textos. a linguagem dos bons tempos da antigüidade. A percepção das conotações políticas embutidas na retórica predominante é rica de sugestões para a espécie de análise que aqui se propõe. a linguagem que entende um povo sincero ainda não afeito à cortesania de Cortes corrompidas. A guerra política acaba sendo também uma guerra contra a retórica. isto é. chamar roubo de desperdício seria. crime de chalaça. Tal trabalho ainda não foi feito. ou melhor. do já citado Nova Luz Brasileira. a prosopografia. por exemplo.44 Essas pessoas delicadas torcem o nariz. nos veio das intrigas. a prosopopéia. como a apóstrofe. ou alegórica. sem eufemismos. Há um ataque direto ao que seria um estilo retórico de escrever: “O grande uso da linguagem simulada. a hipérbole. A linguagem “delicada” chama roubo de desperdício. e é portanto impróprio de Americanos Constitucionais. uma catacrese. A visão da retórica é claramente negativa. aquilo que um participante dos debates chamou de “guerra de . um patife de patife. um farmacêutico e um funcionário público. É óbvio que a retórica. não deturpada pelos hábitos cortesãos. O jornal pretende restaurar o que seria a virtude antiga. Em termos retóricos. nos veio dos escravos do Oriente. pois implica dissimulação a serviço do despotismo. mesmo utilizada em todo o seu potencial heurístico. atacam aquelas pessoas que dizem ter ouvidos delicados e que não suportam uma linguagem direta.

o governo misto (monarquia liberal). O povo é o conjunto dos cidadãos livres. Até aí. como a liberdade. a retórica era uma das armas principais. baixezas e maus costumes. educando-os para os novos tempos. cheia de vícios. Tanto a retórica como esses outros instrumentos de análise lingüística constituem campos ainda pouco explorados que se abrem aos que se interessam pela história intelectual. é a Nova Luz Brasileira que viu o problema com maior acuidade.45 A nova linguagem brasileira baseava-se em algumas concepções centrais. Trata-se de uma extraordinária fonte para o estudo das mudanças semânticas em curso. Alguns dos verbetes incluídos no dicionário constituem verdadeiras inversões semânticas. Nesta guerra. os altos empregados. um fenômeno semelhante ao da criação de uma nova linguagem política durante a Revolução Francesa. Mas quem constitui a plebe. a representação. tudo normal. . perseguidos pela Santa Aliança. A plebe são os fidalguetes. o patriotismo. Os carbonários. que é gente má. Mais uma vez. Este artigo pretendeu sugerir a potencialidade do uso de tais instrumentos. Alguns jornais perceberam com muita clareza a necessidade de criar esta nova linguagem e de inculcá-la nos cidadãos. Distingue-se da plebe. os negociantes ricos. é da palavra povo. mas havia muitas outras que diziam respeito à semântica e ao tipo de linguagem utilizado. por outro lado.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 147 idéias”. por exemplo. não tenha estado à altura do que foi dito. talvez seja porque o modo de dizer. A primeira definição. em escala naturalmente muito mais modesta. segundo o jornal? Aqui vem a inversão. Ateus práticos são os jesuítas. a retórica. por exemplo. Insurreição é o levantamento dos cidadãos virtuosos em defesa do mesmo pacto. no sentido em que foi estudado por Jacques Guilhaumou. são definidos como cidadãos virtuosos. Pode-se detectar. o constitucionalismo. Sua contribuição mais importante quanto a este ponto foi a publicação de um dicionário político destinado a levar as luzes aos que ainda se encontravam nas trevas. Se não convenci nem persuadi. Rebelião é o ataque dos tiranos contra o pacto social. o contrato social.

1963. Carlos Guilherme Ideologia da cultura brasileira (1933-1974). no. 1976. LIMA. 6 Ver MOTA. The languages of political theory in early modern Europe. Entre le peuple et la nation. O positivismo na República. 1973. L. Nelson. Recife: UFPE. História do Positivismo no Brasil. SALDANHA. São Paulo: Grijalbo. 1965. Paris: Maison des Sciences de l’Homme. Vicente e PAIM. Contribuição à história das idéias no Brasil. 1956. São Paulo: Cia. 1967. Rio de Janeiro: Duas Cidades. MACHADO NETO.G. Séculos XVII e XIX. “The concept of a language and the métier d’historien: some considerations on practice”. 1977. pp. Boris (org. Antônio. Vamireh. Antônio. pp. Ivan. CHACON. Brasília: Câmara dos Deputados. Anthony ed. Arnaldo Daraya em Imprensa e Ideologia em São Paulo (1822-1842). 10 Note-se aqui a análise de vocabulário político feita por CONTIER. História do pensamento econômico no Brasil. Ao vencedor as batatas. por exemplo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Cambridge: Cambridge Univesity Press. Heitor Ferreira. São Paulo: Convívio. Adolpho. Rio de Janeiro: Saga. Intelectuais e classe dirigente no Brasil. 5 Para uma visão geral e crítica do percurso da versão norte-americana da história das idéias.A. Vicente. 1967. In: Cadernos de Debate. 9 Ver SCHWARZ. Maria Sylvia de Carvalho. Pocock. coord. História geral da civilização brasileira. 1969. Donald R. e BARRETO. 1978. 3 Ver MEDEIROS. no. In: FAUSTO. A consciência conservadora no Brasil. 2 Ver CRUZ COSTA. Bolivar “Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República: uma interpretação”. 1978 e Paulo Mercadante. In: PAGDEN. 1979. PAIM. The history of ideas. Editora Nacional. Publicado inicialmente em Estudos CEBRAP. ed. (Matizes do Vocabulário Político e Social). 1. História das idéias filosóficas no Brasil. Ideologia autoritária no Brasil. Rochester: University of Rochester Press. CRUZ COSTA. t. A. 1920-1945. Wanderley Guilherme dos Ordem burguesa e liberalismo político. Jarbas.. João. CRIPPA. LINS. 4 É o caso de BARRETO. Les intellectuels et la politique au Brésil. São Paulo: Atica.. 7 Ver LAMOUNIER. 1965. 1990. Vamireh. 1978 e SANTOS. Daniel.. Editora Nacional. Roberto. 1 . 1978. São Paulo: Difel. 342-374 e J. 1990. 1976 e FRANCO. 1977. 1930-1945. 1989. O Brasil republicano. 3. São Paulo: Grijalbo. a partir da obra de Lovejoy. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. “As idéias estão no lugar”. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Canon and variations. História das idéias políticas no Brasil. ver KELLEY.148 • TOPOI Notas Ver. João. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo: Brasiliana.). 61-64. História das idéias sociológicas no Brasil. Evolução do pensamento político brasileiro. As idéias filosóficas no Brasil. História das idéias jurídicas no Brasil. 1989 e de MICELI. 1976. 1956. Rio de Janeiro: José Olímpio. 1977. São Paulo: Grijalbo. II. São Paulo: Cia. A Ideologia Liberal no Processo da Independência do Brasil (1789-1824). São Paulo: Difel. 8 Ver os trabalhos de PÉCAUT. CHACON. História das idéias socialistas no Brasil. Sérgio.

crítica e verdade em Capistrano de Abreu”. Sérgio Buarque de. 21 Verney. Antônio. Lisboa: Editorial Presença. 12 Ver VIANNA. 1975.cit. O quinto século. Elementos de lógica. 65-66. I A construção da ordem: a elite política imperial. 1. História da Universidade de Coimbra nas . 1979 e ainda os trabalhos de ARAÚJO. em “A utopia de Oliveira Viana”. In: Presença. 1981. Rio de Janeiro: R. Iberismo e americanismo no Brasil.. Introdução e notas de Maria Lucília Gonçalves Pires. 4. pp. Rio de Janeiro:Topbooks. pp. A primeira edição é de 1936. As reformas pombalinas da instrução pública. Males de origem. 1991. 14 Ver CARVALHO. José Murilo de. da Universidade de Brasília. II Teatro de sombras: a política imperial. 1991. Joaquim. José Murilo de. 47. op. 170-171. Un estudio de la dialéctica del Nuevo Mundo. Ogier. 1984. Richard M. no. 15 NABUCO. Marcello Otávio Neri de Campos. encontramos um exercício de análise do vocabulário e da retórica de jornais do século XIX em BASILLE. 17 Citado em PAIM. 28-54 e CARVALHO. 7. Rio de Janeiro: Revan. 663. 20 VERNEY. 1990. Maria Alice Rezende de. Coimbra: Por Ordem da Universidade. São Paulo: Saraiva/Edusp. ed. p. José Saturnino da Costa. Anarquistas. 11 É o caso de CARVALHO. nº. 50-51. A revolução passiva. Rio de Janeiro: IUPERJ/Revan. El espejo de Prospero. caps. 16 Lembre-se. 3 vol. 327-358. v.. pp. 18 BOMFIM. Manoel. a propósito. 19 Ver HOLANDA. op. In: Estudos Históricos. 92. Plataforma política do positivismo ilustrado. Brasília: Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. In: Estudos Históricos. Mais recentemente. p. 1993. Raízes do Brasil. 1996. que um senador do Império publicou em 1834 um compêndio de lógica adaptado às escolas brasileiras. A América Latina. Verdadeiro método de estudar (Cartas sobre retórica e poética). 1997. 1980. Luís Antônio. escriptos em vulgar e apropriados para as escolas brasileiras. Antônio Alberto Banha de. 13 Ver MORSE. CARVALHO. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ/Relume-Dumará. Ver PEREIRA. A reforma pombalina dos estudos secundários (1759-1771).. 1982 e José Guilherme Merquior. 2000. Laerte Ramos de. 15. A primeira edição é de 1905. ver ANDRADE. pp. 23 Sobre as reformas da Universidade de Coimbra. Luiz Werneck. Teófilo Braga.. pp. no. México: Siglo Veintiuno. cit. A primeira edição é de 1746. 1998. rusguentos e demagogos: os liberais exaltados e a formação da esfera pública na corte imperial (1829-1834). André Rebouças e a construção do Brasil. 2a. 1978.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 149 Petrópolis: Vozes/ Campinas: Unicamp. 1988. IV e V. 22 Citado em ANDRADE. Um estadista do Império. 82-99. “O outro ocidente”. pp. Ricardo Benzaquen de “Ronda noturna: narrativa. 2º vol. Rio de Janeiro: José Olympio. Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ.1. Antônio Alberto Banha de. v. 1834. Dissertação de Mestrado. p.

Silvestre Pinheiro. a diceósyna. 28 Ver GAMA. Práticas da leitura. Retórica e Poética no Brasil Oitocentista. 1978 e PAIM. de Francisco Freire de Carvalho. Ver. op. a esthética. São Paulo: Martins Fontes.. 1846. sem frequentar as aulas saber a arte da eloquência: toda composta das mais sábias doutrinas dos melhores autores. São Paulo: Grijalbo. Paris: Gallimard. Pour une esthétique de la réception. a respeito deste jornal. São Paulo: Martins Fontes. e a cosmologia. que escreveram desta importante sciencia de falar bem. BASILE. Roger. A guerra dos jornalistas na Independência”. ainda. por exemplo. Tratado da argumentação. o excelente trabalho de PERELMAN. Nova Rhetórica Brasileira (1860). Retóricas. São Paulo: Martins Fontes. 32 Ver JAUSS. 1995. In: CHARTIER. 30 Ver SOUZA. Roger org. 1978. Compêndio de Rhetórica e Poética (1879). ed.A Pockok. 1997. Lições Elementares de Eloqüência Nacional (1834). 1813-1820. op. Lucie. professor do Colégio. cit. op. 34 É o caso.. 33 Ver PERELMAN. UFRJ/IFCS. Os compêndios usados no Pedro II eram sobretudo os de Antônio Marciano da Silva Pontes. Marcello Otávio Neri de Campos. Chicago: The University of Chicago Press. Antônio. Agradeço à autora o acesso aos textos da reforma. São Paulo: Estação Liberdade. 1996. Compêndio rhetórico. sobretudo a segunda parte do livro. J. cit. Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro.. Miguel do Sacramento Lopes. 77-105. e do Dr. 27 Ver MENEZES. Ver. especialmente a introdução e o capítulo final redigidos pelo organizador da coletânea. Prelecções philosophicas sobre a theórica do discurso e da linguagem.G. “A República das Letras na corte da América Portuguesa: a reforma dos Estudos Menores no Rio de Janeiro setecentista”. cit. 31 Para uma visão geral das transformações no campo da história intelectual e das principais correntes interpretativas. ver ALMEIDA. São Paulo: Saraiva/Edusp. O padre Lopes Gama foi professor de retórica e diretor da Faculdade de Direito do Recife. H. Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA. 25 Ver FERREIRA. 1967. ou arte completa de rhetórica com méthodo facil para toda a pessoa curioza. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira. José Maria Velho da Silva. Chaïm. pp. 35 Citado em Isabel Lustosa. 1997. 26 Ver. “Do livro à leitura”.R. História das idéias filosóficas no Brasil. Rio de Janeiro: Na Imprensa Régia.. Tese de doutoramento. Rio de Janeiro: EdUERJ/EdUFF. 1. Dissertação de Mestrado. Thomas S. e CHARTIER. Retóricas. Donald R. . A nova retórica. 24 Para um estudo dos professores de aulas régias no Rio de Janeiro. 1999. Anita Correia Lima de. PERELMAN. Rio de Janeiro: Paula Brito. do cônego Manoel da Costa Honorato. The structure of scientific revolution.150 • TOPOI suas relações com a instrução pública portuguesa. Lições de eloqüência nacional. Chaïm. 1794. op. “Insultos impressos. Roberto Acízelo de. do jornal A Nova Luz Brasileira. 1962. por exemplo.. 29 Lopes Gama. 1996. 1997. Lições de Rhetórica (1882). O Império da Eloqüência. p. ver KELLEY. KUHN. Bento Rodrigo Pereira de Soto-Maior e. cit.

Universidade Federal do Rio de Janeiro. 40 Citado em CARVALHO. 164. op. .). José Murilo de. Jacques. 42 Ver LIMA.. Esta tese dedica-se precisamente a examinar a presença da agressão verbal nos jornais da época da independência. João Quartim de. cit. Élide Rugai e MORAES. A reforma pombalina dos Estudos Secundários (1759-1771). HALLEWELL. Paris: Méridiens Klincksieck. 1993. Basile. 12/01/1830. 348. In: Marcello O.. 44 A Nova Luz Brasileira. p. 39. N. Dissertação de Mestrado. Laurence. Lucie.. 1995. cap. 170. CARVALHO. Marcello Otávio Neri de Campos. Luís Costa. p. Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA. 1989. 87-130. da Universidade Estadual de Campinas. op. São Paulo: Edusp. 37 Sobre a distinção entre os dois tipos de argumento. Editora Nacional. vol. 1985. De l’événement à la raison linguistique. O livro no Brasil (sua história). Anarquistas. rusguentos e demagogos: os liberais exaltados e a formação da esfera pública na corte imperial (18291834). 36 A informação sobre livrarias e tipografias encontra-se em HALLEWELL. pp. 125-129. ANDRADE. Campinas: Ed. op. 2000.HISTÓRIA INTELECTUAL NO BRASIL • 151 p. 38 PERELMAN. Laerte Ramos de. São Paulo: Saraiva/Edusp. 89. 43 Para as citações de Derby e do relatório de Rui Barbosa. cit. p.. 47-52. 1978. O livro no Brasil (sua história). op. As reformas pombalinas da instrução pública. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. “A República das Letras na corte da América Portuguesa: a reforma dos Estudos Menores no Rio de Janeiro setecentista”. 41 Ver MORAES. 2o. 45 Ver GUILHAUMOU. A Escola de Minas de Ouro Preto. Anita Correia Lima de. 1978. pp. A construção de Os Sertões. cit. Laerte Ramos de. Rio de Janeiro: FINEP/Cia. 314. p. de C. Dissertação de Mestrado. BASILE. cit. p. “Oliveira Viana e a democratização pelo alto”. Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ. ver PERELMAN e OLBRECHTSTYTECA. Laurence. 1997. pp. 1. O Peso da Glória. ver CARVALHO. Bibliografia ALMEIDA. João Quartim de (orgs. In: BASTOS. Antônio Alberto Banha de. Coimbra: Por Ordem da Universidade. op. cit. Terra ignota. São Paulo: Edusp. Agradeço a Marcello Basile o acesso a suas notas sobre este jornal. 1985. 39 VERNEY. 1981.. O pensamento de Oliveira Viana. La langue politique et la Révolution Française.

. are suggested. Abstract THE PAPER SUGGESTS the use of concepts and practices related to rethoric as an analytical instrument to deal with intelectual history in Brazil.. breve descrição do estado da história intelectual no país. VERNEY. Luís Antônio. The history of ideas. The languages of political theory in early modern Europe. sobretudo do século XIX. A nova retórica. 1996. A primeira edição é de 1746. especially from the XIX century. isto é.A. Canon and variations. como a história de formas discursivas de pensamento. Lisboa: Editorial Presença. ed.G. Intellectual history is taken in its strict sense of history of discursive forms of thought. Será feita.152 • TOPOI KELLEY. Donald R. São Paulo: Martins Fontes. . J. de início. PERELMAN. Retórica e Poética no Brasil Oitocentista. 1990. 1990. Resumo O ARTIGO SUGERE o uso de conceitos e práticas relacionados à retórica como instrumento de análise para pensar a história intelectual do Brasil. serão sugeridas maneiras de usar esta tradição como chave de leitura para trabalhar textos brasileiros. Rio de Janeiro: EdUERJ/EdUFF. In: Anthony Pagden. The paper starts with a brief evaluation of the state of the art of intellectual history in Brazil. ways of using this tradition to interpret Brazilian texts. Ao final. Rochester: University of Rochester Press. deixando de lado tanto a crítica literária como o que se tem convencionado chamar de nova história cultural. Finally. Tratado da argumentação. 1991. Verdadeiro método de estudar (Cartas sobre retórica e poética). Roberto Acízelo de. Chaïm e Lucie Olbrechts-Tyteca. Introdução e notas de Maria Lucília Gonçalves Pires. História intelectual é tomada em sentido estrito. SOUZA. Then a discussion is made of the rethorical tradition inherited from Portugal. “The concept of a language and the métier d’historien: some considerations on practice”. A seguir será discutida a tradição retórica herdada de Portugal. POCOCK. 1999. O Império da Eloqüência.. ed. Cambridge: Cambridge Univesity Press.

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