ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS

SEÇÃO LOCAL SÃO PAULO

Boletim Paulista de Geografia
PERSPECTIVA CRÍTICA
Nº 83

DEZEMBRO DE 2005

SÃO PAULO (BRASIL)

BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA ISSN 0006-6079
O Boletim Paulista de Geografia é editado pela Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Local São Paulo. Os trabalhos exprimem as opiniões dos respectivos autores e não necessariamente da AGB-SP ou dos editores do BPG. IDEALIZAÇÃO: Alexandre Santana Odzioba, Joana Cury, José Raimundo Sousa Ribeiro Junior, Paulo Miranda Favero, Renata Sampaio e Renato Ferreira. EDITORES: Carolina Massuia de Paula, José Raimundo Sousa Ribeiro Junior e Paulo Miranda Favero. CONSELHO EDITORIAL: Alvanir de Figueiredo, Ana Fani Alessandri Carlos, Ana Maria Marques Camargo Marangoni, Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Armen Mamigonian, Eva Alterman Blay, Gil Sodero de Toledo, João José Bigarella, José Pereira de Queiroz Neto, José de Souza Martins, Juergen Richard Langenbuch, Luis Augusto de Queiroz Ablas, Lylian Coltrinari, Manoel Fernando Gonçalves Seabra, Marcelo Martinelli, Orlando Valverde e Pasquale Petrone. DIRETORIA DA AGB-SP (2004-2006): Diretora: Sônia Maria Vanzella Castellar; Vice-diretor: Nilo Américo Rodrigues Lima de Almeida; 1ª Secretária: Maíra Bueno Pinheiro; 2º Secretário: Carlos Carriel Castro; 1º Tesoureiro: André dos Santos Baldraia Souza; 2º Tesoureiro: Wladimir Jansen Ferreira; Coordenação de Publicações: Leandro Evangelista Martins; Coordenação de Biblioteca: Gilberto Américo; Coordenação de Intercâmbio: Renata Smocowisk Miranda; Coordenação de Divulgação: Paulo Miranda Favero; Bolsistas: Aline de Souza Melo, Elaine Rosângela da Silva e Léa Lameirinhas Malina.
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Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi CRB 3608 Boletim Paulista de Geografia / Seção São Paulo - Associação dos Geógrafos Brasileiros. - nº 1 (1949) - São Paulo: AGB, 1949. Irregular Continuação de: Boletim da Associação dos Geógrafos Brasileiros ISSN 0006-6079 1. Geografia 2. Espaço Geográfico 3. História do Pensamento Geográfico. I. Associação dos Geógrafos Brasileiros. Seção São Paulo. CDD 910

Impressão: Xamã Editora

......................... 31 TEORIAS E CONCEITOS: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE CRÍTICO EM GEOGAFIA Amélia Luisa Damiani........ 89 PROBLEMÁTICA AMBIENTAL = AGENDA POLÍTICA ESPAÇO........................................... TERRITÓRIO.................................... 109 O ORDENAMENTO TERRITORIAL CAPITALISTA E A ESPACIALIDADE BRASILEIRA ATUAL: UMA INTRODUÇÃO AO DEBATE DA RELAÇÃO ENTRE FORMAÇÃO SOCIOESPACIAL E BLOCO HISTÓRICO Marcos Bernardino de Carvalho.............................. CLASSES SOCIAIS William Rosa Alves ........................ 139 GEOGRAFIA: CIÊNCIA DA COMPLEXIDADE (OU DA RECONCILIAÇÃO ENTRE NATUREZA E CULTURA) ..................................................................................... 5 SOCIEDADE E ESPAÇO NO BRASIL (AS FASES DA FORMAÇÃO ESPACIAL BRASILEIRA: HEGEMONIAS E CONFLITOS) Paulo Roberto Teixeira de Godoy........ 2005 EDITORIAL ............................. 3 ARTIGOS Ruy Moreira ..................................BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA NÚMERO 83 SÃO PAULO – SP DEZ....... 55 A GEOGRAFIA QUE DESEJAMOS Arlete Moysés Rodrigues....

nesta publicação. que não começa e nem termina aqui. que devem ser entendidas e debatidas. Mais do que a pura e simples adoção de rótulos. Assim. Marcos Bernardino de Carvalho. é importante dizer que este BPG faz parte de um movimento muito maior. Este BPG caminha no sentido contrário. comentado. 3 . portanto. usado e principalmente debatido. Arlete Moysés Rodrigues. Amélia Luisa Damiani. este BPG só pôde ser editado graças ao esforço de algumas pessoas.EDITORIAL É com muito prazer que apresentamos o Boletim Paulista de Geografia no 83 – Perspectiva Crítica. o que nos interessa é a postura com a qual estes autores tentam decifrar o mundo em que vivemos. apontando para o debate teórico como algo imprescindível não somente para a Geografia. Paulo Roberto Teixeira de Godoy. Ruy Moreyra e William Rosa Alves apresentam contribuições distintas. Nos últimos tempos temos visto a Geografia ser cada vez mais tomada pelos discursos tecnicistas que tentam diminuir o papel da teoria para o entendimento e transformação da realidade. Sua importância está de fato na possibilidade de que ele seja lido. que vêem na AGB um canal importante para promover um debate comprometido não somente com a Geografia. Entendemos que a construção do conhecimento é coletiva e. Fruto de um trabalho coletivo. Esperamos ter contribuído de algum modo para esse debate. como para toda e qualquer ciência. ao colocar “frente a frente” autores que tenham uma postura crítica diante da realidade em que estamos inseridos. mas também com a transformação da realidade. plural. Nossa principal intenção é fomentar um debate qualitativamente diferente. tentamos realizar mais do que uma simples exposição de artigos. Para finalizar.

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ARTIGOS
SOCIEDADE E ESPAÇO NO BRASIL (AS FASES DA FORMAÇÃO ESPACIAL BRASILEIRA: HEGEMONIAS E CONFLITOS) SOCIETY AND SPACE IN BRAZIL

Ruy Moreira1
Cinco são as fases da formação espacial brasileira, balizando as formas de relação sociedade-espaço no Brasil no tempo: a dos vetores fundacionais; a dos ciclos de assentamento; a da redivisão territorial industrial do trabalho; a da privatização da gestão e desintegração espacial do projeto nacional; e a da articulação das sociabilidades e as tendências de uma formação espacial complexa. São fases marcadas por um contraponto entre modelos comunitários, engendrados espontaneamente, e o modelo de sociedade dominante, num conflitamento que tensiona a formação espacial brasileira por dentro em caráter reiterado e permanente. Se no longo do tempo este contraponto foi mantido às ocultas pelo modo de regulação de espaço instituído pela face hegemônica, emerge hoje à evidenciação da consciência social, liberado pela reestruturação por que passa a formação espacial brasileira como resultado da entrada do modo de produção capitalista, seu nexo estruturador, no rumo duma forma de

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Professor dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Geografia da Universidade Federal Fluminense.

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RUY MOREIRA

organização e regulação espacial nova. Evidenciação revelada na surgência dos seus novos sujeitos. Quais as raízes históricas e as formas de tendência dessa realidade nova que a formação espacial brasileira aos poucos revela?

OS VETORES FUNDACIONAIS
A formação espacial inicial do Brasil tem origens na ação de dois vetores da formação do território: o bandeirantismo e a expansão do gado. Caminhando em sentidos contrários, no século XVIII estes dois vetores vão encontrar-se no planalto central e assim cristalizar a matriz do arranjo da formação espacial que hoje conhecemos. O bandeirantismo tem foco de irradiação em São Vicente e avança rumo a quatro direções: o litoral sul, seguindo pelo costeamento; o sudoeste, rumo ao território das missões jesuíticas; o oeste e noroeste, rumo aos territórios das comunidades indígenas do planalto central e da Amazônia; e o nordeste, rumo aos territórios quilombolas rebelados contra os centros canavieiros da zona da mata nordestina. São incursões apresadoras e de repressão, em cujos rastros os bandeirantes vão deixando manchas de cultivos e núcleos de futuras cidades que pontuarão a base logística da sociedade em formação. Todavia, a inspiração real é a descoberta de minas de ouro e prata, intento perseguido tenaz e permanentemente, com o destino de cumprir na Colônia a política do metalismo que norteia todo o empreendimento colonial de Espanha e Portugal neste momento. Daí o bandeirantismo perdurar por todo o correr dos séculos XVI ao XVIII, culminando com a descoberta das minas de ouro e diamantes no planalto central-mineiro, quando então cessa. Em cada ponto para o qual se dirige, combina então o apresamento de índios e a busca da descoberta do eldorado. Estimulado pela demanda interna de trabalho escravo, que
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em 1768. Indo para além do limite da região de Laguna. a quem recorre a classe plantacionista da zona da mata em diferentes momentos. onde suas tropas vão disputar hegemonias de território e de apresamento indígena com as tropas espanholas. todavia. em terras do atual Paraguai. SÃO PAULO. que aí também agem. ao tempo que garante a mercadoria escrava que o motiva. focos preferidos da ação de apresamento para muitas tropas de bandeirantes por seu menor poder de resistência e coincidir com a possibilidade de descoberta de metais preciosos. nº 83. o apresamento nas missões jesuíticas. 5-29. pelo qual o domínio colonial português pouco vai além da faixa estreita do litoral do Atlântico (MONTEIRO. por fim. quando são extintas. Neste propósito.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. as incursões bandeirantes avançam rumo ao litoral sul. porém. 2005 aumenta na Colônia com o sucesso e a expansão da economia açucareira dos engenhos. unindo apresamento e descoberta num só movimento (HOLANDA. Fogem a este escopo. desde 1610. MOOG. que reúnem numerosa população de índios guaranis. as incursões dos bandeirantes à região do Nordeste açucareiro (PUNTONI. a elite 7 . não respeitando o marco legal do Tratado de Tordesilhas. em nome da pertença dessas terras à Espanha segundo o Tratado de Tordesilhas. 2002). Mas também são grandes atrativos as aldeias espalhadas pela imensidão dos sertões do Centro-Oeste e da Amazônia. aldeados. de que Palmares ficou como grande símbolo. p. 1976 e 1986). Argentina e Rio Grande do Sul. o movimento bandeirante alarga os domínios da Colônia portuguesa. que leva. acumulando com o tempo uma experiência de guerra. no litoral de Santa Catarina. à dissolução e dispersão das comunidades no século XVIII. Seguidamente derrotados em campos de batalha pelos negros escravos organizados nos quilombos. 1966). É mais rico de possibilidades. 1995. o apresamento e venda de índios como escravos é o que motiva os bandeirantes em todos os seus movimentos de incursão pelo hinterland. Uma seqüência de conflitos atravessa a história das relações de bandeirantes e a região missioneira.

Tal como no caminho dos bandeirantes. e aos limites do planalto central. 1961). algumas com estruturas de organização que lembram as missões e os quilombos. de onde. Os quilombos e as missões jesuíticas são contrapontos ao modelo de sociedade que Portugal institui na Colônia. Mas esta é uma fase pontilhada também de inúmeras rebeliões indígenas. s/d) e a revolta de Ajuricaba. como a Confederação dos Tamoios. através da calha do rio São Francisco. o movimento bandeirante e o movimento de expansão do gado forçam o deslocamento das fronteiras formais do 8 .RUY MOREIRA açucareira dos engenhos da Zona da Mata convoca os serviços do capitão-de-guerra Domingos Jorge Velho. As trilhas do gado seguem em sentido contrário ao vetor bandeirante. encerrando um período de revoltas de escravos no Nordeste que dura desde 1597. Neste mister. no litoral do Estado do Rio de Janeiro (QUINTILIANO. só desaparecendo no correr da segunda fase da formação espacial brasileira. as missões jesuíticas desde seus começos de implantação e os quilombos quando o modelo já é uma forma de sociedade consolidada. entre 1554 e 1567. 1966. na direção sul. modelos comunitários de sociedade que se contrapõem ao modelo escravista que se implanta na América Portuguesa (CARNEIRO. quase ao mesmo tempo e pelas mesmas mãos. ambas. esgarçando-se uma série de confrontos que culmina com a morte de Zumbi em 1695 e a derrota dos palmarinos. e LUGON. uma diversidade de pontos de parada vai dando origem a manchas de cultivos e de vilas de onde irão brotando os centros de referência da ocupação e formação do território. São. a pecuária bovina avança rumo aos limites ocidentais do sertão nordestino no Piauí e Ceará. na Amazônia (BRUNO. Seu ponto de origem é a região açucareira da Zona da Mata. na forma de ondas. Palmares durando 98 anos (1597-1695) e as missões 158 anos (1610-1768). Dado essa estrutura e organização por isso mesmo resistem longamente às investidas de sua extinção. 1968). com ponto de referência em Pernambuco. na direção oeste. entre 1723 e 1727.

esse plano geral de linhas e cores das paisagens é o plano-guia de ocupação efetiva. borracha e café (NORMANO. no correr dos ciclos. Os vales dos rios merecem o privilégio. forjando o domínio que o Tratado de Madrid. DIEGUES. A extração do pau-brasil. irá consagrar como o novo recorte de fronteira das colônias de Portugal e Espanha. cuja madeira. de seiva vermelha. Ponto essencial desse processo. o ciclo do pau-brasil inicia a história da formação espacial brasileira. 1960). 5-29. 2005 Tratado de Tordesilhas. Primeiro momento dos ciclos da ocupação do território. 1997). do Rio Grande do Norte ao norte do Rio de Janeiro. orientam a pontuação dos assentamentos da população e das atividades econômicas. mineração. 1975 [1938]. Vigora no correr dos séculos XVI e XVII e tem por domínio de abrangência a estreita faixa da franja costeira da mata atlântica. OS CICLOS DE ASSENTAMENTO O desenho combinado das trilhas bandeirante e pastoril traça os grandes riscos de linha da tela em cujos interstícios o pincel discreto da história se incumbirá de desenhar em grandes manchas de tinta as paisagens com que a sociedade brasileira inscreverá o seu espaço. será enviada à Europa para a produção de corante. cana-de-açúcar. As trilhas dos bandeirantes e do gado. p. As grandes paisagens. ora dos rios e ora dos interflúvios – para o gado também as grandes superfícies planas do planalto. são os frutos de nossa evolução em seis grandes ciclos de espaço-tempo: pau-brasil. 9 . de l730. empurrando os limites legais crescentemente para os confins do hinterland. SÃO PAULO. gado. onde avança como uma mancha de óleo –. praticamente riscando o desenho do território brasileiro de hoje (PEREGALLI. nº 83.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. o roteiro dos assentamentos que os ciclos vão aqui e ali plantando no espaço. que a discrição da história paciente e incansavelmente desde então vai desenhando.

essas áreas fundam a toponímia e antecipam a depredação do meio ambiente como política colonial. quando se encerra o ciclo. 10 . instalando-o nas áreas ricas de mineração que se multiplicam pelos planaltos central e mineiro. em São Paulo. por encontrar de imediato as minas de ouro e prata que representavam a ambição colonial das metrópoles. encerrando a fase do bandeirantismo e de expansão do gado. O caráter agrário e mercantil substanciará o conteúdo social da formação espacial brasileira desde o começo. e troca o caráter agrário pelo mineiro-urbano da formação colonial. o pólo de irradiação do bandeirantismo. Inicia-se o ciclo da mineração. O ciclo da cana institui a sociedade agrária como modelo de sociedade no Brasil. particularmente no norte do Estado do Rio de Janeiro e em São Vicente. deixando atrás de si terra arrasada como herança para a história das relações da sociedade com o seu espaço no Brasil. é com o ciclo da cana-de-açúcar que começa efetivamente o processo da ocupação e formação espacial da Colônia. Entretanto. institui como modelo uma sociedade mineradora e urbana nas terras da espanoamérica. Instaladas como feitorias. Sua área de localização privilegiada é a zona da mata nordestina. restando a cultura de uma vida urbana que doravante terá efeitos profundos e de alta importância nas relações da Colônia. que transfere o centro de gravidade da ocupação do litoral para o interior. finalmente encontrado o ouro e os diamantes que desde o início o projeto colonial intentara. com o tempo se multiplicando por novas áreas da mata atlântica. diferentemente da política de ocupação espanhola.RUY MOREIRA dá origem às primeiras áreas de ocupação da Colônia. a formação espacial colonial experimenta uma ligeira mas substantiva mudança. num contraste com a essência mineiro-urbana da formação espacial da América hispânica. Esse deslocamento de conteúdo e localização do centro de gravidade dura apenas até o final do século. que. onde se instala em 1532. No século XVIII.

atraído pela mesma demanda. ao tempo que inicia nas antigas áreas mineiras o ciclo do gado. SÃO PAULO. quando é substituído pelo da extração da borracha. O ciclo da borracha cria 11 .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. o ciclo do gado terá por real abrangência toda a imensidão do sertão brasileiro formado pelas áreas de vegetação campestre do pampa. Este ciclo se esgota nos finais do século XVIII. O ciclo do gado é a culminância das ondas de deslocamento de rebanhos provenientes de duas áreas extremas da Colônia: o sertão do Nordeste e os campos do Sul. de modo que. se encontra com o rebanho sulino vindo da região do pampa. Estes deslocamentos. p. A instituição de aldeamentos indígenas. nº 83. da cana e dos metais preciosos. do planalto central e do planalto nordestino. chega e se espalha pelas áreas de vegetação de cerrado. Aí. O final do século XVIII é fase também do ciclo da borracha. ao cerrado e à caatinga. centrado no planalto centralmineiro. Até este final de século. e em paralelo aos ciclos do pau-brasil. 2005 O encerramento precoce do ciclo da mineração – dura menos de um século – devolve o centro de referência da vida de volta aos núcleos açucareiros do litoral. 5-29. E com isso sedimenta e consolida como espaço o território da Colônia estabelecido pelo Tratado de Madrid de 1730. vige no Norte o ciclo das drogas do sertão. É dos centros açucareiros que sai inicialmente o rebanho nordestino que. em busca dos mercados formados pelos núcleos urbanos da mineração. pelo trabalho de aculturação dos jesuítas. um vindo do Nordeste e outro do Sul. colmatam e povoam no seu caminho a enorme diversidade de sertões que forma o então hinterland. o novo ciclo reorganizando a economia regional como um todo. atraídos para o planalto central-mineiro pela demanda de alimentos criada pelo ciclo da mineração. subindo o vale do São Francisco. que vai ocorrer na região de florestas do vale do Amazonas. instaura a atividade do extrativismo como modo de vida dominante ao longo de todo o vale. numa faixa quase contínua e alongada do hinterland no sentido da latitude. desde o pampa.

e a do extrativismo vegetal da Amazônia. dispostas no sentido do litoral para o norte amazônico: a de lavouras e ocupações urbanas da região de mata atlântica. O café. para. O ciclo do café sustenta e faz inúmeras transições. num arranjo diferenciado em três grandes faixas de sentido latitudinal. disposta ao longo e em paralelo ao litoral. com a imensidão do sertão dos cerrados no meio. dispostas em faixa latitudinal quase contínua da caatinga nordestina ao pampa riograndense. Instaurado inicialmente nas matas dos maciços interiores da cidade do Rio de Janeiro. com maior densidade na faixa atlântica e intensidade sucessivamente menor até minguar e mostrarse rala na faixa extrativista do extremo norte. daí se expande para se instalar nas áreas florestadas da serra do Mar e do vale do Paraíba. a de pecuária das áreas dos sertões. Essa seqüência de ciclos implanta pois o formato de ocupação e assentamento econômico e demográfico da formação espacial brasileira. com epicentro no planalto de São Paulo.RUY MOREIRA um novo modo de vida. em que a lavoura ocupa as áreas de floresta e a pecuária as de vegetação aberta. também variando do atlântico ao vale do Amazonas. da colônia para a independência. atraindo imigrantes do sertão nordestino. domina o século XIX e as primeiras décadas do século XX. da escravidão para o capitalismo e da monarquia para a república. fechando o mapa no sentido do extremo oeste-norte. por fim. E cria o padrão do arranjo espacial que irá vigorar até meados do século XX. A ocupação demográfica reproduz essa ocupação sócio-econômica em três grandes faixas. quando então atinge seu clímax. assolados pelas secas do final do século. Minas Gerais e São Paulo. 12 . chegar ao planalto paulista. nos Estados do Rio de Janeiro. alterando as relações existentes e formatando a relação de exploração da floresta em função do novo empreendimento. o último dos ciclos. assim antecipando o momento instaurador da grande transformação que ocorrerá na formação espacial brasileira com o advento da industrialização e urbanização do agora país.

no período de transição do ciclo das drogas para o ciclo da borracha. são experiências de constituição de um outro modelo de sociedade que vicejam na fímbria da instituição do modelo hegemônico da formação espacial brasileira e por isso mesmo se multiplicam. na transição do regime escravista para o capitalista. localizado no oeste de Santa Catarina (GALLO. SÃO PAULO. 1996). A estrutura binomial latifúndio-minifúndio. principalmente.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. levantando uma seqüência de movimentos insurrecionais. voltados para o propósito de experimentar um modelo comunitário de sociedade. por cem anos. o modelo dos cabanos. entre 1893 e 1897. e que se institui como base organizativa do período da transição. à semelhança da experiência comunitária das missões jesuíticas. localizado em vários lugares. 2005 É nesse longo período dos ciclos que se implanta o modelo de sociedade brasileira como uma sociedade concentradora e excludente. na fase do ciclo do bandeirantismo. latifundiário e monocultor dominante: o modelo dos quilombos. e MONIZ. 1966. p. que domina o transcorrer do século XIX. e DI PAOLO. nº 83. Todos reprimidos e dissolvidos pelo sistema dominante. 1999. além do modelo do Contestado. 1995 [1901]. no período do ciclo da cana. 13 . e assemelhar-se-ía a uma fase de acumulação primitiva no Brasil. 2000). parece vir no sentido de neutralizá-las e arrefecê-las. localizado na Amazônia (ROCQUE. 5-29. entre 1835 e 1840. e DERENGOSKI. De um modo geral. em pleno período do ciclo cafeeiro. localizado no sertão norte da Bahia. existente desde o tempo colonial. entre 1912 e 1916. e o modelo de Canudos. em contraposição ao modelo escravista. 1985). 1978). na transição da monarquia para a república (CUNHA. 1984. e REIS e GOMES. com núcleo maior nas áreas montanhosas do agreste alagoano-pernambucano. entre 1597 e 1695 (CARNEIRO. período que se estende dos anos 1850 aos anos 1950.

seja por sua arrumação em faixas e seja pela arrumação nas diferentes regiões originadas ciclo a ciclo. a essa passagem referenciada no antes e depois dos anos 50 (OLIVEIRA. terá fundamental importância para o desenvolvimento da indústria. Oliveira designa transformação de “uma economia regional nacionalmente organizada”. 1987 e 1988). E será essa matriz a base de que o Estado nacional. no âmbito de uma organização espacial por ela inteiramente produzida e transformada. A diferenciação regional. a da formação espacial herdada do período dos ciclos de espaço-tempo. 14 . regionalmente organizada”. legada dos ciclos coloniais. no rumo da industrialização. na forma da importação de matérias-primas e equipamentos. partirá para esgotar e ultrapassar a fase dos ciclos. nome da formação espacial do presente. doravante o regulador do desenvolvimento. para uma “economia nacional. e obediente à sua lógica intrínseca de mercado.RUY MOREIRA A DIVISÃO TERRITORIAL INDUSTRIAL DO TRABALHO O século XX encontra a matriz da formação espacial brasileira fundamentalmente completada e consolidada em seu processo de constituição territorial e cartográfica. Após os anos 50. 1984. Caracteriza-a a diferenciação de áreas. dado o caráter de uma divisão territorial de trabalho em que ela é transformada pelo Estado. 1972). com o fim de dela extrair as divisas de exportação necessárias ao desenvolvimento industrial. que usa para financiar a formação do capital inicial das indústrias. Distinguem-se a fase pré e a fase industrial da formação espacial brasileira agora em construção. encontra-se já desenvolvida e centrando a formação espacial brasileira. crescendo com o consumo de suas divisas. Até os anos 50 a indústria utiliza em seu crescimento a economia de produção regional para fora. A industrialização tem seu fomento na passagem do modelo de economia “para fora” para o de uma economia “para dentro” (TAVARES. em particular. A década de 1950 é o marco temporal de passagem.

A segunda divisão territorial do trabalho é a da consolidação do arranjo do campo comandado pela cidade e da indústria e do espaço nacional comandado por São Paulo (MOREIRA. dois distintos momentos. 5-29. acontecida na formação espacial brasileira já dentro de sua fase industrial. Isto significa dois distintos momentos de divisão territorial do trabalho industrial: aquele da conversão pura e simples que responderá por sua arrancada e aquele seguinte da redivisão que irá caracterizar a organização espacial do seu auge. para reorganizar o espaço numa nova divisão de trabalho de tipo avançado. segue. nº 83. p. No geral. Essa metamorfose. progressivamente desigualando e invertendo a forma das relações espaciais até então existente. a industrialização arranca e ultrapassa nessa arrancada a economia regional herdada da matriz dos ciclos. todavia.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a seguir dissolvendo-a. ao atingir o seu auge. O campo passa o comando para a cidade. de comunicação e de transmissão de energia. organizados numa vasta rede de circulação. A primeira divisão territorial do trabalho faz a dissolução da fase da formação espacial onde o campo comanda ainda a cidade. 2005 A lei do desenvolvimento desigual e combinado passa então a reger a nova formação. assim se reorientando a regulação e o ordenamento espacial no interior da formação. Uma ampla base de infraestrutura para tanto deve ser instalada. as indústrias são ainda de bens de consumo e por isso encontram-se instaladas em praticamente todas regiões (coladas em suas respectivas economias agrárias). com impacto em geral negativo para os núcleos iniciais 15 . visando a que tudo convirja para a instauração do comando da cidade sobre o campo e da indústria paulista sobre o espaço nacional total. as regiões passam o comando para o Sudeste e as indústrias regionais passam o comando para a concentração em São Paulo. SÃO PAULO. que traga os meios de transporte. 2004). Primeiramente. a rede que a urbano-industrialização promove é a mesma das trilhas do bandeirantismo e da expansão do gado. porém orientada agora para outra direção de relações e propósito. e a concentração industrial em São Paulo não é um traço distintivo ainda.

Ali por onde passa o eixo modernizante da urbano-industrialização. nacionaliza o movimento do campesinato por reforma agrária e faz dele uma bandeira de confrontos das mais fortes. desalojando seus habitantes ou mesmo extinguindo seus espaços. a abolição da escravatura e a república – agora é questionada por um campesinato que começa a ser expulso do campo por conta das mudanças com que a agropecuária responde às demandas urbanas e da industrialização. numa pauta de reivindicações do operariado em que predomina o pleito igualmente de mudança estrutural: reforma urbana. urbana e regional. não raro a industrialização dissolvendo-os. preocupados com os limites do mercado interno para seus produtos –. redistribuição da renda.RUY MOREIRA de assentamento e suas localizações. e que atravessa sem mudança as transformações fundamentais do século XIX – a independência. os velhos núcleos de assentamento são encarados como de efeito inercial. não mais do tipo dos confrontamentos de modelos comunitáriolatifundiário do passado. que reduza a desigualdade da riqueza. O apoio dos segmentos sociais da cidade que vêem um rebatimento positivo da reivindicação dos camponeses no seu modo de vida urbano – caso dos trabalhadores. De modo que esse é um período dominado por grandes conflitos. A forte concentração da propriedade rural herdada do período colonial. com pano de fundo no mundo da indústria. que redistribua a terra e garanta o direito à moradia na cidade. Nos conflitos urbanos opõem-se capital e trabalho. mas aqueles advindos dos reordenamentos. reagindo o campesinato com a pressão pela partilha e redistribuição mais equânime da propriedade rural. que equilibre as relações no campo e modernize socialmente as relações agrárias. salários e moradia – e no alargamento do mercado – caso dos industriais. 16 . Nos conflitos rurais opõem-se grandes proprietários e camponeses ao redor da questão da reforma agrária. com sua pauta de emprego. tendo lugar conflitos de ordem rural.

SÃO PAULO. a subordinação das atividades regionais à performance econômica da indústria concentrada em São Paulo. Todos pleitos que remetem a uma radical reformulação dos privilégios da formação espacial passada e antepostos à formação do presente. pontuam as dissonâncias entre as velhas oligarquias rurais regionais e as novas nascidas da urbano-industrialização. via ação superestrutural e políticas de infra-estrutura. 5-29. são todos conflitos referidos à forma de regulação espacial. Todos esses conflitos expressam a passagem de uma formação para outra e a necessidade de sedimentar-se a regulação correspondente. ressaltando em particular o contraste que então se estabelece entre Sudeste e Nordeste.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. por fim. na medida que fortaleça o mercado sem o qual o desenvolvimento da economia fica obstaculizado. considerado o interesse da urbanização e da indústria. E são as políticas territoriais do Estado. Nos conflitos inter-regionais. que regulam esses conflitos. a canalização e transferência de meios de uma região para outra e a disparidade do desenvolvimento entre o campo e a cidade. canalizando-lhes as energias para a integração e desenvolvimento da formação espacial no seu todo. 17 . conflitos que ocorrem praticamente nas linhas de clivagem dos recortes territoriais que demarcam a relação cidadecampo. p. Demandas que o patronato industrial ambiguamente vê como pressão contra o capital e ao mesmo tempo favorável. São pontos que se somam à grande reivindicação da reforma agrária. que estabeleça um modo de vida mais apropriado. nº 83. 2005 e estabilidade no emprego e ampliação da seguridade social. região-região e cidade-espaço. acentuada pela passagem da velha para a nova divisão inter-regional do trabalho. A forte concentração da economia industrial no pólo paulista.

É a reestruturação do espaço brasileiro (MOREIRA. relacionando-se à migração de pequenos produtores das regiões de colonização alemã e italiana do Sul para a calha do rio Paraná. afetados em suas propriedades pelo desenvolvimento da agricultura gaúcha. que tem na expansão da sojicultura para as áreas do cerrado o seu carro-chefe. é anterior aos anos 70. mas de uma reordenação espacial. 18 . buscando reassentar-se no noroeste do Rio Grande do Sul. oeste de Santa Catarina e oeste do Paraná. e pela acentuada fragmentação da propriedade relacionada às seguidas transmissões de heranças.RUY MOREIRA A PRIVATIZAÇÃO DA GESTÃO DO ESPAÇO E DESINTEGRAÇÃO DO PROJETO NACIONAL A resposta desses confrontos não vem. pelo viés das reformas. que orienta o desenvolvimento na linha de uma modernização conservadora. De que a década de 1970 é o marco temporal. a modernização conservadora afeta e altera de modo ainda mais radical o mapa dos assentamentos. A reestruturação começa pela modernização da agropecuária. Estratégia de ação que usa da rearrumação do espaço no lugar da transformação estrutural da sociedade demandada pelos movimentos pró-reformas de base do período da industrialização. que nos anos 60-70 chega ao Mato Grosso. motivada pela industrialização de São Paulo. no entanto. esses pequenos produtores empreendem um movimento de migração. 1990). É o Estado que está por trás da geração de uma técnica agronômica de uso dos solos dos cerrados pela EMBRAPA. a redistribuição territorial da indústria e a despatrimonialização-desestatização que privatiza a gestão do espaço. Premidos por essas dificuldades. 2003). introduzindo na formação espacial brasileira um período de desarrumação demográfica e sócio-ambiental anteriormente nunca vistos (GUSMÃO. e que os governos militares aproveitam para orientar no sentido da política de colonização da fronteira amazônica. todavia. Três eixos seguem esta reestruturação: a modernização da agricultura. Esta expansão.

articulando e unificando todo o território nacional com referência nesses centros. Nas décadas de 80-90 o espaço brasileiro assim se redesenha e se descomprime. que irá ocorrer. que pressiona pela desconcentração da indústria. em São Paulo. E. muitos dos quais vão instalar-se nas áreas da fronteira agrícola. torres de transmissão de energia e longos eixos de transporte por rodovias cobre e integra em rede essas áreas aos centros de comando do Sudeste. A política dos grandes projetos. Consiste essa política em transferir para o arco de periferia do país as indústrias de bens intermediários. que afeta a concentração urbana e industrial da grande São Paulo nos anos 70. um enorme centro mínero-florestal-siderúrgico instalado na província ferrífera de Carajás. voltado para a produção de lingotes de ferro para exportação. As atividades agrícolas. via interiorização. a soja toma conta do cerrado. que leva a mecanização da agricultura a acelerar-se em toda a região. no Sudeste do Pará. p. pela política dos pólos. estratégia de desconcentração industrial. Um número crescente de grandes usinas hidrelétricas. 2005 que estimula o movimento migratório e abre esta área para a implementação agrícola em grande escala. O suporte dessa implementação combinada de modernização agrícola e desconcentração industrial é uma política de ampliação para as áreas do Centro-Oeste e da Amazônia da implantação de meios de transporte. pecuárias 19 .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. provocada pelo acúmulo de um conjunto de conflitos – dos conflitos do trabalho aos conflitos ambientais –. ainda. nº 83. A origem da desconcentração industrial é. comunicação e transmissão de energia elétrica que vinha sendo implementada no Sudeste desde os anos 50-60. apoiado em alto consumo de lenha extraída da floresta amazônica. a deseconomia de aglomeração. Em poucas décadas. implementando-as na forma de grandes pólos mínero-industriais. 5-29. coincide com essa fase de aceleração da modernização agrícola. entretanto. a exemplo do pólo Grande Carajás. da estratégia de desenvolvimento do setor de indústria para a agricultura. SÃO PAULO. e em nível nacional.

e VALVERDE. expulsão e desterritorialização da população dos velhos nichos de assentamento. desorganizando o ecossistema do cerrado. a matriz segundo a qual a formação espacial brasileira até então se organizara ganha novo formato. 20 . 1967. A rede de transporte. e 2) o desalojamento. As paisagens se dissolvem e se misturam: a lavoura passa a ser feita nas áreas de vegetação campestre e o gado nas antigas áreas de matas. reforça a desarrumação socioambiental que já vem na esteira da ocupação rodoviária do Centro e do Norte desde a abertura da Belém-Brasília. ainda na década de 60 (VALVERDE e DIAS. por fim. a opção pelo transporte rodoviário. 2003b). esgota as reservas hídricas. Já não mais são as faixas de sentido litoral-interior e as regiões oriundas dos ciclos as formas da diferenciação de áreas. E. as cidades e as trocas comerciais amplamente redistribuídas por todo o território. Ambos com ocorrência no campo e na cidade. assoreia e altera a rede de drenagem. intensamente explorada junto à ocupação predatória do cerrado e da floresta. Assim. com duas principais conseqüências: 1) a desarrumação socioambiental do país em ampla escala. num movimento institucional de desmonte e remonte. 1979). a população. destinado a favorecer o escoamento dos grãos e da madeira. Os efeitos socioambientais são conhecidos (MOREIRA. submete os solos a intensos desgastes. nacionaliza o problema ambiental antes concentrado nas grandes regiões industriais do Sudeste. E. E a forma de regulação desfaz-se.RUY MOREIRA e industriais estão agora mais disseminadas. comunicação e linhas de transmissão de energia mais difundidas. Peguemos três exemplos. grandes usinas hidrelétricas e grandes pólos de produção mínero-industrial. A propagação da soja pelo topo dos chapadões do planalto central sobre a base da mecanização e consumação de água para irrigação tirada dos lençóis subterrâneos a grandes profundidades e em grande escala. como efeito. A combinação de modernização monoagrícola. validada como política territorial para todo o país.

BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. nº 83. pelos lagos de barragem das usinas. p. 2000). num volume de trabalhadores informais até então desconhecido na realidade social brasileira (KRAYCHETE. o melhor exemplo é o desalojamento dos assentamentos onde as populações se localizavam desde os pontos de trilhas do bandeirantismo e da expansão do gado. a privatização dessas empresas privatiza a gestão das suas respectivas áreas. os desalojados são os trabalhadores despedidos de suas ocupações e empregos pela chamada flexibilização do trabalho. Nas áreas urbanas. centrados no poder das grandes propriedades. a exemplo das empresas estatais organizadoras e gestoras do pólos mínero-industriais implantados no correr dos anos 80-90. barrageiros e desempregados do campo. com seus embriões de vilas e comunidades rurais localizadas no fundo dos vales dos rios. indígenas. 5-29. e que a política de privatização das empresas estatais dos anos 80-90 transforma na instituição da gestão privada do território. 2005 Bem como são conhecidos os efeitos sociais. SÃO PAULO. Uma população flutuante para a qual reinventar os modos de vida torna-se uma imperiosa necessidade. multiplicando a população dos camponeses semterra. Responsável pelas empresas atuantes nos ramos estratégicos da infra-estrutura e de bens intermediários. dividindo a população trabalhadora urbana em população do trabalho formal e informal quase simetricamente. um movimento de (des)regulação em marcha. Essa combinação de efeitos no campo e na cidade desterritorializa e torna flutuante grande massa de população. chaves no comando da economia. expulsam as comunidades indígenas e camponesas de seus lugares históricos e forçam-nas a ter de reinventar seus modos de vida em ambientes totalmente distintos aos seus. que no campo vai alimentar a pressão dos semterra por novos assentamentos e na cidade a pressão por empregos urbanos para onde migra em levas sucessivas. Há. Os lagos inundam as áreas justamente desses antigos assentamentos. a 21 . Nas áreas rurais. Quando somados seus espaços aos da cultura da soja. assim.

em que a face privada e setorial se expressa na intervenção simbiótica das empresas e das Agências de Regulação e a face pública e global na intervenção paralela do Estado e dessas mesmas Agências.Parcerias Público-Privadas). a ANATEL. dissocia a formação espacial brasileira do projeto nacional que até determinara o seu conteúdo. do setor do petróleo. O poder dessas empresas fatia o controle do território. uma vez que o planejamento global com que o Estado intervinha desde os anos 40-50 é substituído pela ação fragmentada por setores. em parceria com o capital privado (estratégia das PPPs . A ARTICULAÇÃO DAS SOCIABILIDADES E AS TENDÊNCIAS DE UMA FORMAÇÃO ESPACIAL COMPLEXA A privatização da gestão do território desmonta a forma histórica de regulação do espaço até então associada à ação pública do Estado e institui como nova forma uma combinação privado-pública e setorial-global de gestão. Assim. define por sua lógica de mercado a lógica da regulação do espaço. Criadas uma para cada setor chave da economia (as primeiras das quais foram a ANP. por essa via. respectivamente. o Estado recua para a função de gestão e levantamento dos recursos financeiros. As Agências Reguladoras são o dado novo do esquema de gestão da formação espacial brasileira.RUY MOREIRA escala da privatização da gestão do espaço se torna um fato de abrangência nacional. desvincula sua administração do Estado. num mix de 22 . fazem elas um arremedo de gestão público-privado com o Estado. reguladoras. deixando para as Agências a função da execução e fiscalização das políticas territoriais. da energia elétrica e dos transportes terrestres. a ANEEL e a ANTT. e. a ação passando a ser levada por esta combinação de público-privado com conveniente aparência de sociedade civil. das telecomunicações. os setores estratégicos da regulação do espaço).

com os complexos agro-industriais (ARAÚJO. WEDEKIN e PINAZZA. solta ela as amarras que prendiam a criatividade do trabalho. PINAZZA e ARAÚJO. 2001). e. cujos personagens são melhor exemplificados. de capacidade de intervenção insuspeitadas. De um lado. 2004. 2004). Todo um momento se abre nessa conjuminação de nova regra de regulação e flutuação em escala crescente de uma população desalojada dos assentamentos de onde tirava uma estabilidade relativa de modo de vida. LOPES. um quadro de institucionalidade do qual parte em restrição crescente da sociedade compartilha. 1999. 1993. São os dois modos como o novo formato da formação espacial brasileira chega aos seus diferentes segmentos de população. Mas como num processo de brecha. dando asas ao desenvolvimento de formas coletivas e individuais de organização da produção e de vida antes amortecidas ou presas no âmbito da regulação antiga. e BELIK. realinha os vetores de sua política e traça o momento novo de sua cartografia. descarta as componentes que pesam nos seus custos. com as formas urbanas de economia popular (REIJNTJES. 5-29. Assim. e PACHECO. SÃO PAULO. 2000. de outro lado. essa (des)regulação entra na vida do capital tal qual um bicho voraz que sacode suas teias. de um lado. De outro. oferecendo-lhe o espaço-tempo de reorganização institucional de suas estruturas. todavia. liberando as energias da gestão popular para a emergência de formas espontâneas de auto-regulação. um mecanismo novo de regulação que só assegura estabilidade para o capital em sua busca de novos nichos de lucro. GAIGER. Como num momento novo.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Contraponto que encaminha a formação espacial brasileira rumo ao formato de um complexo 23 . 1996. KREYCHETE. que são a nova face dos monopólios. s/ d. 2005 representações ao qual cabe por hipótese a tarefa de pensar e gerir o todo da nova formação espacial assim criada. HAVERKORT e WATERSBAYER (orgs). p. a face das experiências comunitárias que reemergem. LARA e COSTA (orgs. Tudo indica tratar-se de uma nova fase de contraponto.). nº 83.

RUY MOREIRA de sociabilidades. e introduzindo um novo modo de organização espacial das sociedades. no plano da relação entre os corpos globais das empresas. Para além da fusão da agricultura e da indústria. de um lado. em que. agora. a forma que melhor encarna os efeitos da nova base material trazida à organização da produção e do trabalho no modo de produção capitalista pela era técnica da terceira revolução industrial. de outro lado. e cidade e região). as segmentações territoriais formam-se. novo porque sem as separações que segmentavam territorialmente as formações espaciais capitalistas. eliminando as separações setoriais (em setores primário. e do Estado. tal como previsto por Bukarin em sua teoria da economia mundial capitalista nos começos do século XX (BUKARIN. os setores da agricultura. todos os setores juntando-se. São novos o paradigma do trabalho e da política. s/d). assim. O complexo agro-industrial é sem dúvida a expressão mais evidente do novo rumo da organização da formação espacial brasileira pelo lado das classes hegemônicas. secundário. não mais entre os setores de especialização da economia. É uma economia indicativa da organização da sociedade e do espaço segundo padrões de regulação marcados pela ausência da divisão territorial do trabalho. dos serviços e da pesquisa-tecnologia. novos em face da regulação do espaço. e seu acontecimento num momento de hegemonia do capital de caráter eminentemente rentista. Então. num quadro indicativo da entrada da formação espacial brasileira num momento de perfil societário ainda incerto. no complexo agro-industrial fundem-se. terciário e quaternário) e espaciais (em cidade e campo. coexistem a sociabilidade capitalista e as formas de sociabilidade não-capitalista. ilustrando o desaparecimento justamente das estruturas reguladoras das ações e dos ordenamentos do recente passado. 2005). numa única estrutura de produção e trabalho. das indústrias. 24 . E. de modo claramente explícito. cujo epicentro são a microeletrônica e a engenharia genética. mas que sugere a possibilidade de caminhos e sujeitos novos de sua organização (MOREIRA.

supostamente extinto na história. e cuja natureza é o antigo modo de produção mercantil simples (SINGER. venda e financiamento se ligam numa só unidade corporativa. p. 2000. 2000). movimentos sociais organizados como o MST (FERNANDES. 1993). 2000). a revendedora e a financiadora como um só domínio de empresa. numa só empresa e numa mesma estrutura em rede de espaço. ora designadas de economia dos setores populares e ora de economia solidária (KREYCHETE. E CORAGGIO. e levando esta a se estruturar nesse molde em que produção. estes dois particularmente. 25 . eliminando as fronteiras e demarcações que separavam esses elos numa geografia segmentada de gestão e do trabalho. SÃO PAULO. O equivalente na “ponta urbana” do complexo agroindustrial é o complexo empresarial que junta a produtora. daí. CUNHA e DAKUZAKU. a multiplicação. Daí dizerse que o espaço tornou-se uma rede de redes.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. das formas de economia popular. das formas de sociabilidade até então ocultadas nos velhos nichos de assentamento. 2000) e a CUT (NETO e GIANNOTI. tanto no campo quanto na cidade. na cidade e no campo. Um nome apropriado para o espaço dos complexos. que despontam da reestruturação capitalista. socializando o modelo de realização do valor do ramo das montadoras de automóveis para todos os ramos de indústria. a economia em comum é a expressão mais evidente do lado popular. nessa reemergência e caminhada para consolidação. São formas de produção e trabalho que tomam por braço de apoio. e entregando a gestão do negócio inteiramente ao capital rentista. elas aparecem na evidenciação dos conhecimentos populares há séculos centrados na relação de biodiversidade. e. No campo. nas cidades. 2003). representado na agência de financiamento do grupo. nº 83. E. Daí a liberação. Assim também. para estabelecer seu confronto com a sociedade modelada nos complexos (SOUZA. sob o termo genérico de trabalho informal. 2005 fundidos. 5-29.

Complexo Agroindustrial. Ernani Silva. Edson. Amazônia – volume I. s/d [1913]. 2001. e cidade e região. naquilo que a nova base material do capitalismo lhe traz de apoio. O Imperialismo e a Economia Mundial.RUY MOREIRA CONCLUSÃO Ao fazer desaparecer as divisões que distinguiam e separavam cidade e campo. Rio de Janeiro: Editora Melso CARNEIRO. História do Brasil Geral e Regional. Campinas: UNICAMP/IE BRUNO. Walter. Beatriz (orgs. Rio de Janeiro: Editora Vozes. N. Análise econômica. WEDEKIN. Luiz Antonio. Gabriel. São Paulo/Rio de Janeiro: Suma Econômica BELIK. superando a divisão territorial do trabalho criada pela indústria nos anos 50-60 para ser o padrão de organização espacial da formação capitalista. Muito Além da Porteira. Francisco e COSTA. Ivan e PINAZZA. região e região. Ney Bittencourt. e justificavam a necessidade da regulação que as unificasse por baixo do Estado. dizendo de outro modo. 26 . In KRAYCHETE. e essas emergências trazem um modo novo de contraponto e embaralham a formação espacial brasileira.). São Paulo: Editora Cultrix BUKARIN. s/d. Economia dos Setores Populares: entre a realidade e a utopia. a regulação privada do espaço abre para virem à tona sujeitos novos e formas novas dos antigos sujeitos da história. Mudanças nas formas de coordenação da cadeia agroalimentar no Brasil. Da economia dos setores populares à economia do trabalho. BIBLIOGRAFIA ARAÚJO. 2000. José Luís. 1966. O Quilombo dos Palmares. ou. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira CORAGGIO. LARA. região-região e cidaderegião. 1961. ao dissolver a fronteira das relações cidade e campo. O “agribusiness” brasileiro.

KRAYCHETE. 1966. Beatriz (orgs. 2000. Economia dos Setores Populares: entre a realidade e a utopia. LARA. Os Sertões. A revolução popular na Amazônia. Gabriel. 1985. O Extremo-Oeste. Bernardo Mançano. 2004. 2000.1986. 1995. John Manuel. 1978. Campanha de Canudos. Campinas: Editora da UNICAMP GUSMÃO. Ivone Cecília D’Ávila. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves DERENGOSKI. São Paulo: Companhia das Letras 27 . Mauro de Rezende. Rio de Janeiro: Paz e Terra MONIZ. 2000. Negro da Terra. O sonho do milênio igualitário. ________________________. A República Comunista Cristã dos Guaranis. 1999. Gabriel. Paulo Ramos. Rio de Janeiro: Editora Vozes. História dos grupos de interesse na agricultura. p. Monções. Sérgio Buarque. Diagnóstico Brasil: a ocupação do território e o meio ambiente. A Guerra Social de Canudos. A formação do MST no Brasil. Edmundo. Agricultura Política. Cabanagem. Luiz Inácio. Economia dos Setores Populares: entre a realidade e a utopia. Pasquale. nº 83. 1990. 1995 [1901]. Economia dos setores populares: entre a realidade e a utopia. São Paulo: Editora Brasiliense KRAYCHETE.). Euclides. 2000. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira MONTEIRO. Sentidos e Experiências da Economia Solidária no Brasil. 2005 CUNHA. Gabriel. Rio de Janeiro: Editora Vozes GAIGER. São Paulo: Editora Alfa-Ômega. 5-29. Belém: Conselho Estadual da Cultura do Pará FERNANDES. Florianópolis: Editora Insular DI PAOLO. 1968.). Francisco e COSTA. Rivaldo Pinto (Coord). Francisco e COSTA. In KRAYCHETE. O Contestado. Porto Alegre: Editora da UFRGS/Rede Unitrabalho GALLO. Rio de Janeiro: IBGE HOLANDA. Brasília: EMBRAPA/SPI LUGON. 1976. Rio de Janeiro: Editora Vozes LOPES. Guerra no Contestado. Beatriz (orgs. SÃO PAULO.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. LARA. C.

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30 .

Rio Claro. mas com as possibilidades de redefinir o debate sobre outras bases teóricas e conceituais. O objetivo é trazer para o debate teórico as questões referentes ao conteúdo do pensamento geográfico e os conceitos que sustentam as análises sobre a produção do espaço social. produção do espaço RÉSUMÉ Ce petit essai se compose d’un dialogue avec les tendances courantes de la Géographie brésilienne contemporaine et des notions et concepts de la Critique. 31 . Palavras-chave: teoria. crítica. Sans la prétension épuiser 1 Professor Assistente Doutor da Universidade Estadual Paulista .TEORIAS E CONCEITOS: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE CRÍTICO EM GEOGAFIA Paulo Roberto Teixeira de Godoy1 RESUMO Este pequeno ensaio consiste em um diálogo com as atuais tendências da Geografia brasileira contemporânea e com as noções e conceitos de Crítica. procurou-se ressaltar algumas questões relevantes para repensar criticamente o pensamento crítico na Geografia. com as proposições de uma Geografia Crítica. A preocupação não é. necessariamente. L’objectif est d’apporter pour la discussion théorique les questions la référence à la teneur de la pensée géographique et des concepts cet appui les analyses sur la production de l’espace social. Sem a pretensão de esgotar a problemática aqui apresentada.

entre os cientistas sociais (Harvey. Mas. Existem. critique. conduz para Outrem. razões para que esse ‘lugar comum’ permaneça ora como uma constatação. p. 142). 2002). 2005. la pensée critique dans la Géographie. ora como um refúgio para os que rejeitam a teoria como uma condição para se pensar as questões do espaço. cuja essência é crítica. O que é factível. e isto é válido não só para a tradição marxista como para todo o pensamento positivista (Harvey. 1980) A “crença” de que o conceito de Tempo possui uma fundamentação teórica mais profunda do que o de Espaço tornouse ‘lugar comum’. não somente entre os geógrafos. Acolher Outrem é pôr a minha liberdade em questão (LEVINAS. Talvez. não pode reduzir-se ao conhecimento objectivo. de modo geral. devese reconhecer o alcance e as possibilidades de rupturas de uma concepção crítica acerca das questões teóricas e conceituais da produção do espaço social. 32 . de manière critique.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY le problématique a présenté ici. nécessairement. INTRODUÇÃO O saber. o que pode haver de fato é uma rejeição teórica pelo espaço e não a sua ausência. neste caso. é a consideração de que a análise do espaço enquanto materialidade dada coloca-se como uma “complicação desnecessária”. Mots clés: théorie. mais avec les possibilités pour redéfinir la discussion sur autres appuis théoriques et conceptuelles. Santos. 2005. evidentemente. avec les propositions d’une Géographie Critique. production de l’espace 1. Para adentrarmos nesta seara. mas. deve-se ressaltar que esta não é uma verdade total ou absoluta. Le souci n’est pas. il a été regardé quelques questions importants pour repensez.

que a experiência não consiste na única fonte do saber. Em segundo lugar. a negação da experiência pela crítica como fonte única do saber deve-se ao fato de que a experiência também é. Estas. o problema da objetividade das conexões lógicas que sustentam as categorias de análise crítica poderão se apresentar como negação da sua própria fundamentação teórica. seja qual for a orientação ou sentido. não nos traz uma verdade maior. Numa primeira aproximação. Sabe-se. portanto. pois contém como princípio interno a sua própria negatividade. mas apenas uma outra forma de pensar. é crucial compreender. Embora o conhecimento científico não seja sinônimo de empirismo. elucidar as diferentes orientações e sentidos que ela poderá seguir. p. necessariamente. acredito haver a necessidade de reflexão sobre a própria negatividade possível do conceito de crítica e. por sua vez. em grande parte. como argumenta Lebrun (2002). os fundamentos da crítica não estão vinculados diretamente à experiência empírica. enriquecer os fundamentos teóricos. Assim. Para Adorno (1978) nenhuma teoria consegue escapar da lógica mercantil. é imanente à construção de um discurso crítico a destruição sistemática da aparência lógica do conhecimento científico. posteriormente. 31-54. Certamente. são os fundamentos teóricos que estruturam as experiências empíricas. científicos ou possuem esta pretensão. SÃO PAULO. a afirmativa não seria inteiramente correta. 2005 Neste sentido. Pelo contrário. entretanto. falsear o conteúdo dos fundamentos que a sustenta. Nem tampouco a 33 . O certo é que nem todos os fundamentos da crítica são. Neste sentido. Vale dizer que. que a crítica. redimensionam a complexidade dos conceitos de modo a recompor seus conteúdos e. uma dissimulação do real e poderá. portanto. primeiramente. elas são expostas como algo funcional a ser consumido. A presunção de que a teoria esquiva-se de tal simulacro degenera-se no seu auto-elogio.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. nº 83. a suposição possível é a de que a idéia de uma Geografia Crítica é diametralmente oposta a de uma Geografia Científica.

no entanto. A este mundo. 119). pensar implica identificar uma ordem conceitual que se interpõe como elo entre o pensamento e a possibilidade de compreensão. a aparência da identidade reside intrinsecamente no próprio pensamento. p.. 141) “O que a dialética tem de dolorido é a dor desse mundo elevada a conceito.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY dialética necessita emudecer-se frente a tal conseqüência. p. ao pretender conhecer melhor a realidade social contemporânea. 1989. entre 34 . a dialética tem que se submeter se deseja evitar que a concreção novamente se degrade em ideologia em que começa. cit. ditada pelo universal. 118). “A contradição não é uma essencialidade heraclítica (doutrina de Heráclito de Éfeso. mas impele ao pensamento sua insuficiência em relação aquilo que é pensado. que contradizem a norma tradicional da adequação lógica e racionalizante. de fato. Assim.. 1978. Neste sentido. Procura traspassar o véu que a ciência ajuda a tecer” (ADORNO. Aparência e verdade tornam-se cruzamentos superpostos de modo que a primeira – a aparência – não sucumbe por decreto uma verdade autocrática. a dialética não comporta previamente um ponto de vista ou um mirante analítico privilegiado.) A dialética desenvolve a diferença. p. de que o concebido absorve-se no conceito. A dialética indica que os objetos superam seu conceito. Segundo Adorno (op. segundo a qual a luta é o princípio de todas as coisas e de que o universo está em constante devenir) por mais que o idealismo absoluto hegeliano tenha inevitavelmente que transfigurar-se nesse sentido. em sua forma pura” (ADORNO. E. “A dialética quer encontrar o cientificismo em seu próprio campo. É assim que se transfere a impossibilidade de conhecimento do objeto ao método. É índice da falsidade da identidade. a se converter (..

até o que pensa de objetivo. “A teoria crítica moderna concebe a sociedade como uma totalidade e. igualmente único. 26-28) identifica algumas possíveis causas das dificuldades de se construir uma teoria crítica. O que distingue neste domínio a sociologia funcionalista da sociologia crítica é o facto de a primeira pretender a ordem da regulação social e a segunda pretender a ordem da emancipação social. propõe uma alternativa total à sociedade que existe. Sousa Santos (2001. 2005 o universal e o particular. ORDEM E (DES)ORDEM Em A Crítica da Razão Indolente. só pode encontrar seu fim na reconciliação”.. Segundo este autor.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a ruptura entre sujeito e objeto que penetrou em toda a consciência. A concepção da sociedade como totalidade é uma construção social como qualquer outra. um princípio único de transformação social. Tais pressupostos são os seguintes: uma forma de conhecimento ele próprio total como condição de abarcar credivelmente a totalidade social. integra necessariamente o sujeito e rompe tudo que ele pensa. nº 83.) O conhecimento totalizante é um conhecimento da ordem sobre o caos. Em segundo lugar. Como a diferença. p. capaz de a levar a cabo. A teoria marxista é exemplar a este respeito. um contexto político institucional bem definido que torne possível formular lutas credíveis à luz dos objetivos que se propõem (. e um agente colectivo. p. SÃO PAULO. como tal. 2.. O que a distingue das construções rivais são os pressupostos em que assenta. a industrialização não é necessariamente o motor do progresso nem a parteira 35 . 31-54.

regularidade e permanência. pois tanto uma como a outra não implica em determinação de um estado de equilíbrio.entropia . pode-se indagar sobre a natureza da superação e suas formas de re-organização. porque o primeiro não tem no segundo a sua condição essencial. uma reconstrução teórica do conceito de modo a problematizar suas evidências ontológicas. a ordem é a palavra-chave da ciência clássica. 36 . Clausius e Boltzmann para que a noção de ordem comportasse também o seu avesso. torna-se impraticável associar a noção de desenvolvimento com a noção de ordem sob a lógica do crescimento econômico capitalista. Assim. a não ser que consideremos o segundo como a glorificação das regras da acumulação capitalista. como argumenta Sousa Santos (2001). ela assenta numa concepção retrógrada da natureza.colocada por Carnot. a desordem. Por outro lado. isto é. Não sem motivos Humboldt intitulou sua grande obra de Cosmos. Por outro lado. Por um lado. constância. são mutuamente constitutiva da organização e da desorganização. incapaz de ver a relação entre a degradação desta e a degradação da sociedade que ela sustenta. Para Morin (1987). Ordem e Desordem estão mutuamente imbricadas e indissoluvelmente unidas. ordem significaria o cumprimento sistemático de etapas evolutivas do capital urbano-industrial. Se se entende a superação como o estabelecimento de uma “nova ordem”.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY do desenvolvimento. A concepção de ordem universal reinou absoluta e soberanamente escorada na crença da imutabilidade das leis da natureza. por sua vez. para dois terços da humanidade a industrialização não trouxe desenvolvimento”. possui apenas um caráter tautológico. pela idéia de degradação energética . entretanto. ‘regular’ ou ‘superar’ a ordem. Foi necessário esperar. Neste sentido. O desmoronamento da ordem suscitou.

31-54. portanto de uma lógica. isto é. ou seja. o positivismo amputa as contradições que afetam o procedimento científico e o seu objeto particular. reunir constatações sem contradição em um contínuo lógico. e a positivista. a dialética emerge. p. Para a concepção marxista. no sentido mais estrito possível. Segundo Adorno (1989. em vez de do objeto real. uma pretensão de objetividade. tanto quanto à estimulante esperança de que finalmente haverá uma mudança. isto é. Ao distorcer o conceito de totalidade produz uma espécie de teologia da ciência. das relações internas necessárias desta realidade. o movimento sistemático pelo qual o capital se constitui como processo de autovalorização do valor. p. eles não constituem simplesmente uma construção conceitual a partir da qual o objeto poderia ser apreendido. a mercadoria. 37 . enquanto o positivismo preocupa-se somente com a escolha de categorias as mais gerais possíveis. os conceitos de O Capital têm. como a estruturação lógica necessária enquanto condição adequada para conceituar a realidade histórica factual do capitalismo. Eles reproduzem ou pretendem reproduzir o real que é movimento em sua configuração específica. sem interpretar e descobrir a verdade. Sua orientação tende ao primado de métodos disponíveis. trata-se de expor o desenvolvimento conceitual do capital a partir de sua forma elementar. satisfazendose com os destroços desprovidos de sentido que restaram após a liquidação do idealismo. Sem esta exposição categorial. 117) “o cerne da crítica ao positivismo consiste em que este se fecha à experiência da totalidade cegamente dominante. SÃO PAULO. seria impossível explicar o caráter e a natureza do capitalismo. as relações capitalistas historicamente reais. por sua vez. Desta forma. nº 83. o real pode ser capturado mediante a articulação de categorias.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. da liquidação e do liquidado”. portanto. se evidencia porque o conceito dialético de totalidade pretende ser ‘objetivo’. o movimento internamente contraditório destas relações. 2005 A distinção básica entre a visão dialética da totalidade. Por esta razão.

centrar-se. imutável. 3. através da tematização de leis que teriam validade eterna. na ciência econômica moderna as categorias econômicas são entendidas como idéias eternas e não como a expressão teórica das relações históricas de produção que correspondem a um grau determinado de desenvolvimento material. no caso da ciência. CATEGORIAS E CONCEITOS O debate sobre a possibilidade de uma teoria crítica em Geografia deve. o que faz com que a exposição categorial signifique um enriquecimento semântico na medida que as categorias se referem a funções cada vez mais complexas até atingir o conteúdo ‘concreto’. portanto. inicialmente. entre outras coisas. Epistemologicamente. sobre os fundamentos teóricos que sustentam as análises sobre a produção do espaço social sob a égide do capitalismo e os desdobramentos das categorias e conceitos. a suspensão de qualquer verdade eterna. explique a relação necessária entre o nexo e a aparência invertida dele nas suas manifestações visíveis.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY A conseqüência primeira disto é. Assim. por exemplo. pois os fenômenos do cotidiano econômico são exatamente o inverso de seu nexo interno contraditório. a unidade das múltiplas determinações: há assim na exposição uma primazia das formas mais ricas e mais complexas em que as formas iniciais mais abstratas não são 38 . Tanto a filosofia como as ciências da natureza e da sociedade levantaram pretensões de tematizar verdades eternas. portanto o nexo interno por trás de suas formas de ocultamento e. com efeito. situada num campo fora da experiência. Isto é feito por um desenvolvimento categorial que tenta explicitar a articulação entre vários aspectos do conceito de capital enquanto um desdobramento de seus momentos. isto significa a busca de um modo de apresentação que revele o processo contraditório efetivo e.

A dialética de Marx se apresenta. em que cada uma delas é uma forma específica de manifestação da contradição que tudo abrange. não correspondem ao conteúdo essencial que é interior. o que 39 . que são exteriores. como é o caso por exemplo da circulação simples. como uma dialética dogmática no sentido da transgressão do entendimento. nº 83. isto é. a dialética torna-se impensável sem o entendimento. o que caracteriza a dialética hegeliana é o ocultamento do discurso científico e positivo envolto em uma ciência filosófica real. portanto. em antidogmatismo. Este aspecto apresenta a diferença crucial entre Hegel e Marx. uma indeterminação quanto à forma que não provém do fato de que as formas de existência. a ausência de um questionamento sobre a legitimidade do discurso do entendimento como forma de desviar a dialética idealista do dogmatismo. num primeiro momento. mas existe subordinada à circulação e produção capitalista. ou seja. O Capital pretende substituir a lógica categorial da análise econômica convertendo-se. No plano da apresentação. mas é o conteúdo mesmo que é cindido em aspectos opostos. há uma certa descontinuidade objetiva na sucessão temporal das formas. existe em Marx uma espécie de ‘metalógica’ do conceito que retoma tanto a lógica do ser como a lógica da essência. 31-54. mas redefinidas em seu papel.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Há. Entre razão e entendimento existe um equilíbrio instável. Isto significa que o conceito é finito e está sujeito a corrosões provocadas pelo próprio movimento do objeto. contraditórios. Neste sentido. Fausto (1987). SÃO PAULO. Para R. desse modo. Marx produz um discurso que pretende apresentar um paradigma novo em relação ao pensamento de Smith e Ricardo. que não é anulada no capitalismo. De acordo com R. Em Marx. 2005 eliminadas. p. Fausto (1987). abrindo assim a partir de si mesmo o núcleo para a indeterminação e a contigência na decisão sobre as formas de efetivação do movimento do capital. Para Hegel o conteúdo é uno. a forma determinada de efetivação do capital processual não é de necessidade absoluta.

como princípio interno.) Os conceitos são inteiramente impossíveis e não podem ter nenhuma significação ali onde nenhum objeto é dado”. A ausência da preocupação em examinar as condições sob as quais os conceitos adquirem sentido delimita ainda mais o seu campo de identificação. Esta surge quando o entendimento. não pode realizar mais que uma totalidade absoluta sem significação. identidade entre os dois. com conceitos que podem servir para o conhecimento daquilo que é transcendental. do conhecimento geográfico? O problema da objetividade das conexões lógicas que sustentam as categorias de análise será tratado em quais aspectos? A base de fundamentação teórica da crítica carregará. tomados enquanto atos formais. Não se trata. existe. 74) “Os conceitos. mas ainda outra coisa. deste modo. p.. contenta-se com ‘puras categorias’. orientado pela razão. de uma “ilusão inextirpável”.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY permite a simultaneidade da análise e da crítica do sistema.. pois aquele contém este. como pressuposto último. entretanto. mas. Diante do exposto acima. desde então. Embora a negação da negação em Marx não restabelece a positividade como em Hegel. então. 40 . não permitem ainda decidir quanto à possibilidade de sua utilização teórica (. O erro não consiste. a sua própria negação? A construção do discurso crítico terá. a (des)construção estética da aparência lógica do conhecimento científico? Para Lebrun (2002. algumas questões podem ser colocadas: em que ângulos e profundidade a crítica pretende romper com o caráter cientificista e. mas faz com que a versão metalógica de Marx seja geradora de uma nova versão da dialética. pois a divisibilidade reside realmente na necessidade de síntese. neste caso corre-se o risco tomar o real por uma proposição. em pôr o mundo como totalidade. O conceito de espaço. por exemplo. quer dizer. na própria coisa. Mas. é diferente do conceito de região. portanto positivo.

o espaço deve ser visto como um tal Todo. Vale ressaltar que as semelhanças e as diferenças entre os conceitos de espaço. Entretanto. que o lugar é um princípio da diferenciação. quer eles o considerem como ilimitado (infinito) e. 31-54. nenhum Todo é possível. o espaço torna-se apenas uma condição da razão formal e não recupera o seu sentido de condição material de um sistema de ações. nº 83. propriamente. o espaço e o tempo infinitos residam como formas acabadas? Como essas formas estáveis nasceram?” Com efeito.e. SÃO PAULO. seres finitos. pois se o espaço for dado como infinito. por não ter dado ao sensível e ao inteligível aquilo que lhes pertence. torna-se apenas uma idéia que deve servir de regra para considerar todo movimento situado no seu interior. no sentido mais estrito. os que admitem um Todo Absoluto de simples condições condicionadas contradizem a si mesmos.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. mas na relação do sistema desses lugares com o espaço total do mundo. pode-se interrogar: sem os objetos já dispostos no espaço. deve-se procurar portanto salientar uma diferença interna própria ao espaço e. Assim. quer eles considerem esse Todo como limitado (finito). dogmaticamente. através disso. ao contrário de afirmar. p. se se considera que todas as coisas são condicionadas no (no interior do) espaço e tempo. Pois. A possível arbitrariedade da idéia de totalidade absoluta pode-se apresentar como uma idéia paradoxal. o conceito de lugar). 2005 mas em efetuar essa posição de modo desastrado. “Não é um milagre que em nós. a região não consiste na relação que uma coisa no espaço entretém com outra (o que é. as posições das partes do espaço. lugar e território não devem dissimular a diferença das problemáticas. Isto é. Mas. De acordo com Lebrun (2002). região. se o espaço é sempre finito. assim como o tempo passado. como determinar a sua concretude? 41 . dado pode significar aqui. provar a existência de uma totalidade concreta. portanto. pois ele só é dado na medida em que produzido. umas em relação às outras. supõem que elas possam ser ordenadas em uma tal relação . Ora. limitado.

geravam também as condições de reprodução das relações sociais. condição da reprodução social. quanto de suas formas de espacialização. o espaço revelava no conteúdo de suas formas as mesmas contradições que o produziram. Para Santos (1991. certamente. pressupõe a existência de um movimento dialético da estrutura que opera sobre as formas e funções. Essa totalidade social. um resultado que se transformava em processo. o espaço aparecia como resultado e. isto é. Em outras palavras. 38). 42 . a imunização contra o pragmatismo descritivo da Geografia assume a forma de uma concepção estrutural de sociedade e de espaço cujo foco das análises dirigia-se para as contradições. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE ESPAÇO No final dos anos 70. a idéia central da interpretação da produção do espaço situa-se na combinação simultânea entre a forma. pois atravessam épocas posteriores ao seu surgimento e convivem com variáveis novas. Logo. ao mesmo tempo. 4.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY Acredito que as questões acima podem nos conduzir a uma espécie de prolegômenos das antinomias dos conceitos geográficos e. aos interstícios da base teórica que articulam as categorias de análise do que atualmente denominamos de Geografia Crítica. a estrutura e a função. Isso porque “os movimentos da totalidade social modificando as relações entre os componentes da sociedade alteram processos e incitam funções”. do seu lugar de origem e de sua difusão territorial. Nesse sentido. fazendo com que os lugares tornem-se combinações de variáveis que diferenciam-se ao longo do tempo. ou. A diferenciação entre as variáveis resulta tanto da periodização histórica. os conflitos e os antagonismos inerentes aos movimentos da estrutura social. o espaço consistia em um “efeito” que se transformava em “causa”. por sua vez. crê o autor. p. Essas.

reconhecer. na realização prática de produção de objetos “geograficizados” segundo uma dada lógica econômica. e assim construindo um conhecimento reducionista dado o caráter 43 . Sem estender-se em detalhes referente à fundamentação teórica da concepção do autor acima. SÃO PAULO. O sistema de pensamento. em síntese. Santos (1996. 2005 Nesse sentido. ao se combinarem para atender as necessidades geradas pelos “efeitos” de reestruturação dos processos de organização das relações sociais. nº 83. p. portanto. p. e destinam-se a cumprir funções diferenciadas em sintonia com as necessidades de reprodução das relações sociais de produção e da divisão social do trabalho. então. a relação dialética entre o conceito e a fundamentação lógica da teoria que o sustenta. organiza a relação entre o sujeito e o objeto de diferentes modos: separando-os. o de produção do espaço e de rugosidades. A produção do espaço consiste. entre outros conceitos.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a idéia de produção do espaço torna-se prisioneira de sua conotação técnica e econômica e adquire a noção de fabricação repetitiva de formas e geração de movimentos. produzem o espaço. de analisar e de interpretar um determinado objeto. seguiremos a direção de análise cujo ponto de partida é o entendimento de que a produção do espaço insere-se em um sistema de pensamento que assenta-se em uma dada lógica interpretativa visando revelar o movimento de transformação de determinadas partes da totalidade. em uma “geografização” do movimento estrutural da sociedade que se traduz espacialmente em novas formas e funções e estas. construído enquanto um método de pensar. A idéia de sistema retroativo permite-nos repensar. Neste caso. Esta noção permite. segundo o autor. Consiste. é a idéia de movimento da totalidade no tempo e no espaço que fundamenta a concepção de que o espaço é produzido no e pelo movimento da totalidade social. 21) tem com o ponto de partida a definição de espaço como um “conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistema de ações”. 31-54. Em A Natureza do Espaço.

isto é. mas enquanto constituição de uma natureza objetiva e de um horizonte de apreensão e transformação da realidade. em trabalho. Nos Manuscritos EconômicoFilosóficos (1844). Pode-se pensar que o espaço produzido é produto do trabalho. A “produção” significa. ou. O ‘trabalho’ constitui o “princípio gerador” do homem e não apenas uma atividade produtiva. 1978). 44 . Vale lembrar que os meios necessários ao trabalho constituem-se. produzindo um conhecimento complexo e crítico. e a natureza subjetiva do homem. que trazem o momento da objetividade constituída (MÜLLER.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY sistêmico de sua organização. unindo-os e os integrando em uma organização que se reorganiza dialeticamente. o conceito de trabalho pode ser entendido como atividade teleológica de transformação da Natureza e como síntese inseparável da natureza objetiva. vamos partir do conceito de produção. entender que os conceitos que procuram explicála se organizam a partir de uma lógica interpretativa correspondente aos objetivos traçados pelo sujeito. Na análise da produção do espaço. o conceito contém uma dupla dimensão: a de transformação da natureza e de constituição de objetos. Para Marx. envolvendo todas as objetivações da essência humana. circundante. de uma organização do trabalho que materializa-se em formas espaciais. primeiramente. a idéia de produção está ligada ao conceito marxista de trabalho e às noções de transformação e mudança. Neste sentido. “trabalho morto” e organização. também. A “produção” implica também em organização do trabalho e dos meios necessários para a sua realização enquanto produção de valor. Para esclarecer essa questão. o conceito de trabalho funciona como equivalente do conceito de ‘práxis revolucionária’ (primeira tese contra Feuerbach). Vale ressaltar que os conceitos de trabalho e produção se alteram ao longo da obra de Marx. Assim. Trata-se de imunizar o conceito de produção do espaço contra o simplismo mecanicista da “geografização das variáveis”. então. quando fala-se em produção do espaço deve-se.

a ‘síntese materialista’ tende a tornar-se unidimensional e as relações de produção são apenas um momento da produção material. knowledge. SÃO PAULO. está incluída no agir instrumental. como quer Santos (1996). p. Ao apontar as contradições imanentes do capital. até que ponto as condições do processo de vida social foram submetidas ao controle do general intellect ” (MÜLLER. Marx diz: “o desenvolvimento do capital fixo indica até que ponto o saber social universal. por sua vez. Marx mostra que as relações sociais de produção e o quadro institucional em que se realiza a integração social não são meras especificações ou efeitos do processo de trabalho. a produção do espaço é produção de objetos que articulam e organizam. apresenta múltiplas faces de interpretação. alvo de uma crítica enfática de Habermas (1987): se a práxis é considerada como um dos aspectos do trabalho. ser explicitada pela verificação de caráter empírico da divisão social do trabalho. a práxis tende a ser reduzida ao trabalho. assim. 2005 Essa concepção torna-se. p. enquanto objetivação da síntese homemnatureza através das correlações entre a estrutura normativa dos intercâmbios sociais com as rugosidades exteriorizadas do capital fixo no interior do processo de desenvolvimento das forças produtivas. e portanto. O espaço seria. então. 1978. Em uma passagem dos Grundrisse. em suas funções específicas. a materialidade e a mediação entre os sistemas de produção. a junção estabelecida entre os dois conceitos – produção/espaço – elucida a matriz teórica do sistema de pensamento que o sustenta. Em poucas palavras. “sistemas de objetos” e “sistemas de ações”. Percebe-se que as categorias que executam uma operação de análise fundamentam-se no conceito de trabalho. A variável espacial pode. tornou-se força produtiva imediata. intercâmbios sociais que envolvem o trabalho e a produção.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Assim. Mas. neste caso. de controle e reprodução do trabalho em sua dimensão técnica e material. 45 . no entanto. O conceito de espaço. o espaço seria um sistema de sistemas ou. 31-54. nº 83. 24).

ao mesmo tempo em que produz formas espaciais correspondentes. em um dado momento histórico. como também elementos novos surgidos da (des)construção espacial dessas relações. A natureza mutante das relações sociais traz. o espaço surge como uma seqüência de limitações. 46 . mas. às necessidades de produção. vale argumentar que o espaço como um sistema não define-se como um conjunto serial. 5. que o espaço não é um objeto de análise. não mais como uma soma de partes constituintes. como diria Kant. BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A NOÇÃO DE (DES)CONSTRUÇÃO A noção de (des)construção do espaço baseia-se na concepção de que a sociedade pós-moderna. circulação. Interpretá-lo. portanto. na eficácia da funcionalidade das formas – nos “sistemas de objetos”. Neste caso. de uma estrutura normativa e reguladora cujo movimento é dado pelos processos de transformações resultantes das relações entre trabalho e capital. mudanças na organização dos “sistemas de ações” e. Isto significa que as formas espaciais produzidas contêm elementos das partes e do todo. para o sujeito. mas um sistema de objetos. tomar consciência de ir do condicionado à condição.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY Por outro lado. que não é uma mera somatória equacionada das partes. A organização das ações emerge. então. um quantum composto de partes. quando ele só pode ser vivido de fato como uma seqüência de rupturas do contínuo. Assim. portanto. por sua vez. Pode-se pensar. vai expressamente de um espaço limitado ao espaço que o contém e permite. faz com que o espaço torne-se a dimensão empírica da organização das ações que o produz. de progredir na ruptura das partes. por sua vez. na ótica de sua produção. Somente na síntese. consumo e informação. considerava-se o espaço como um agregado. Mas só com isso o espaço permanece como conceito inconsistente.

nº 83. p. p. A visão heideggeriana traduz-se pela “busca da verdade. Na primeira abordagem o conceito de (des)construção coloca-se essencialmente relativista: “já não há continuidade por apreender nem racionalidade a atuar no pensamento e na ação do homem. e como o sujeito se encontra preso nas malhas do objeto. Essa reflexão assumiu duas formas: a nietzschiana. 31-54. que habitualmente moldam e restringem nossa compreensão do mundo” (JOHNSON. 1980). com Michel Foucault. em seguida... a supressão de ‘rugosidades espaciais’ (SANTOS. 47 . em um dado momento para. Entende-se a (des)construção do espaço como um processo de supressão e emergência de formas e funções que atendem às necessidades. em outras palavras. em que a história não coloca-se em situação de exterioridade em relação à estrutura mas é “desconstruída” por dentro. 2005 também as dissolvem e as redefinem em sintonia com as novas necessidades sociais que emergem. A (des)construção para o filósofo francês tornou-se uma “modalidade de pesquisa filosófica” e uma forma de “diálogo crítico que usa os exemplos de casos particulares (. por sua vez. num laço indissolúvel e imutável.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. nenhum modo de ver é estável”. em um dado momento. A visão de Derrida sobre a (des)construção provém das análises sobre os pensamentos de Rousseau. da divisão social do trabalho. 219). SÃO PAULO. 2001.) como sintomas de uma configuração ou estrutura mais geral”. Saussure e Lévi-Strauss. A supressão de formas espaciais significa. a história “é uma história pluralizada. da acumulação capitalista e do poder estatal. 38). Para Dosse (2001). coloca-se como uma possibilidade de ampliação dos quadros de referências e de ‘desvelamento’ dos “sistemas rígidos de oposições. o conceito de (des)construção possui suas raízes mais profundas em uma reflexão epistemológica de denúncia ao historicismo. e a heideggeriana. serem diluídas e transformadas. p. Além disso. com Jacques Derrida. fundamentalmente heterogênea” (DOSSE. 2001. da gênese do sentido”.

não suprime integralmente as formas do passado. expressada de diferentes modos desde o século XIX por Marx. de modo relativo. políticas e sociais que visam produzir as condições materiais de produção. As ‘rugosidades’ são. mas as renovam através das funções que adquirem na articulação do território e. ou de suprimir. construção e destruição de formas e funções sociais dos lugares. com características sócio-culturais específicas. as ‘rugosidades’ constituem-se em paisagens técnicas que podem ser periodizadas segundo o desenvolvimento do modo de produção ao longo do tempo histórico. ao mesmo tempo. Hegel. como argumenta Santos (1980). fazem-nas objetos de um sistema de ações econômicas. foi revisada por Milton Santos (1980) com o objetivo de fundamentar o importante papel das paisagens técnicas herdadas nos diferentes períodos da história. Bachelard. o espaço através do tempo produtivista. as formas espaciais do passado produzidas em momentos distintos do modo de produção e. A centralização das informações e das decisões em escala planetária atua. A emergência de novos arranjos espaciais. Ou seja. A noção de ‘rugosidades’ complementa a concepção de que a produção do espaço é. portanto. Nessa linha de interpretação. o “controle” não se faz cumprir somente no sentido político e ideológico da ação social. na acepção de Harvey (1993). Engels e outros autores. mas no sentido econômico e técnico-informacional dos mecanismos de acumulação do capital e de organização das forças produtivas. acumulação e consumo no processo de 48 . a capacidade de “controle” sobre o território e de regulação do processo de acumulação capitalista. nesse sentido. mas também às relações que os unem em combinações distintas ao longo do tempo. Canguilhem. Cavaillès. a (des)construção do espaço não refere-se apenas à destruição e à construção de objetos fixos. ao mesmo tempo.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY A idéia de ‘rugosidades espaciais’. na tentativa de restringir as ‘rugosidades espaciais’. A capacidade de fluidez e articulação das novas relações de produção. No entanto. no entanto.

p. referente ao estudo da paisagem como escavação arqueológica. 31-54. com a atual racionalidade tecno-científica e informacional. 49 . Se o capital visa à obtenção de altos lucros a baixo custo. nº 83. isso por si só bastaria para imprimir-lhe o caráter de seletivo. O primeiro refere-se à seletividade do capital.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. em virtude do aumento na velocidade de giro do capital e da expansão do “império do consumo efêmero” e massificado. poder-se-ia afirmar que. a alteração se deu em relação à capacidade de seletividade dada pelos meios técnicos de investigação e de reconhecimento de um número crescente de lugares e condições materiais e imateriais para a acumulação capitalista. por outro. porém. numerosas. Em relação ao argumento citado acima. em contrapartida. o capital mundial seria levado a adaptar-se ao espaço e não mais o contrário. para o processo de (des)construção de formas espaciais vinculadas à intensidade e à multiplicidade de funções atribuídas em períodos de tempo cada vez mais restritos. como também pela aceleração da circulação de mercadorias e fragmentos sócio-culturais em escala mundial. e. SÃO PAULO. Neste caso. A deposição acelerada das sucessivas camadas caracterizaria. Passa-se. de (des)construção do espaço. Desse modo. o capital mostrou-se seletivo na escolha dos lugares para sua reprodução e acumulação. desde a expansão marítima no século XVI. deste modo. o processo de (des)construção do espaço. Contudo. 2005 (des)construção de ‘rugosidades’ espaciais são possíveis em virtude da redução temporal entre os lugares através da difusão momentânea das mudanças manifestas nos centros informacionais de decisões. os lugares tornar-se-iam a condição e o resultado da mundialização da economia e da cultura técnica. por um lado. poder-se-ia dizer que as camadas produzidas nos últimos 50 anos seriam extremamente compactas. Outro argumento na mesma direção explicativa procurou mostrar que. devem-se apontar dois aspectos merecedores de maior atenção e que conduzirão a uma melhor compreensão da noção de ‘rugosidades’ e.

A seletividade do capital recoloca. 151). A produção dessas condições resultou. obviamente. as condições objetivas de reprodução social do capital foram produzidas através do Estado. das economias nacionais. entretanto. dos blocos regionais e. a relação entre mercado e planejamento. em grande parte dos países capitalistas e. podendo influenciar a racionalização das forças produtivas. Durante todo o século XX.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY O segundo aspecto trata-se do papel do Estado na produção das condições de reprodução do capital e do trabalho. O fato. “a construção de um espaço novo a partir de um preexistente (ora integrando. inclusive funcionando como técnica anti-cíclica. 129).. como uma “técnica de organização e dinamização das forças de mercado (. p. contando com meios eficazes de pesquisa e de avaliação das condições materiais e de possibilidades de investimentos.. 50 . constitui-se em um espaço de dominação”. faz com que o processo de (des)construção do espaço apresente-se como apropriação do espaço público pelas funções e necessidades do capital privado. particularmente no Brasil. De acordo com Ianni (1995. Na medida em que se traduz em diretrizes. normas de ação e instituições. O planejamento apresenta-se.) uma técnica versátil. da seletividade do capital não ser espontânea e sim planejada. em supressão das ‘rugosidades’ através da (des)construção das paisagens herdadas e da reorganização dos fluxos de bens. para os fins que pretendeuse nesta reflexão. desse modo. “a globalização do capitalismo reaviva a controvérsia mercado ou planejamento ao nível dos setores produtivos. De acordo com Carlos (1996. envolvendo padrões e valores sócio-culturais e jurídico-políticos. em outros termos. ora destruindo) inclui a articulação da técnica e do saber à gestão onde o Estado. ao lhe atribuir funções. da economia mundial como um todo”. p. de capitais e de pessoas.

2005 influencia as relações de produção também em termos de racionalização.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. uma expressão do “modismo” acadêmico ou de um “debate surdo” entre as concepções de modernidade e pós-modernidade. supõe a busca de vantagens comparativas que se materializam em formas espaciais novas ou na reutilização de formas preexistentes. tornaram-se os lugares de experimentação de um novo urbanismo e de uma nova estética arquitetônica. às vezes. como quer Harvey (1993). a intensificação dos fluxos de bens e informações. portanto. como também a significação política da relação entre o espaço público e privado no processo de emergência e supressão de formas e funções espaciais. nº 83. notando que se constituem em espaços de rigidez a partir da perspectiva do capital. Os efeitos espaciais mais explícitos dessas transformações deram-se com o processo de urbanização da sociedade. sobretudo as metrópoles. possui razões históricas que o tornam. ao esgotamento teórico de paradigmas científicos sustentados pelas visões generalizantes de totalidade. por outro. Nesse sentido. SÃO PAULO. Entre os principais motivos que levaram alguns autores ao resgate do conceito de (des)construção estão os que se relacionam. a introdução de novos capitais em uma dada região ou. proporcionando. As vantagens comparativas podem apresentar-se momentâneas ou transitórias e gerar formas espaciais cujas funções serão dissolvidas na medida em que as vantagens localizacionais tornarem-se ‘rugosidades’ para a reprodução do capital. em escala local-global. p. Esses dois aspectos permitem avaliar a dimensão econômica da noção de ‘rugosidades’. As cidades. em que o nome da coisa mostra-se mais importante que a própria coisa. 31-54. A retomada desse conceito. sempre em conformidade com as exigências da reprodução ampliada do capital”. de modalidades flexíveis de acumulação e gerenciamento. por um lado. às transformações históricas do capitalismo entre as décadas de 1960 e 1990 e. 51 .

identificam-se momentos de desintegração. generalização e articulação. de passagem. Pois mesmo em períodos de ordenamentos. 379). Assim.PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY Em suma. mas pelo conteúdo técnico. mormente através do Estado na história mais recente. em um dado momento da divisão do trabalho e do desenvolvimento do modo de produção. A (des)construção do espaço expressa-se na vaga do movimento dialético da totalidade com as partes. a interação e a articulação combinada com outras escalas de tempo e de espaço. “esta dialética vai além de uma simples articulação de escalas. nesse momento. nutrir-se da auto-crítica de seus instrumentos de análise e nos conduzir a uma reavaliação do método e da relação sujeito-objeto na construção de um conhecimento complexo do espaço social. através da periodização das paisagens técnicas e do processo de supressão das ‘rugosidades’. O conceito de (des)construção do espaço apresenta-se. p. como um instrumento de análise do processo de formação sócio-espacial que busca. de modo que a emergência de uma nova forma espacial traduza fragmentos da totalidade e combinações específicas em diferentes escalas de tempo e de espaço. De acordo com Randolph (1992. tem sua origem na própria concretude do processo histórico. cultural e ideológico de atribuir “valores sociais ao espaço”. integração. compreender a produção do espaço mediante a combinação entre as formas e as funções espaciais. entretanto. que consiste em uma via conceitual a ser explorada teoricamente na perspectiva da análise espacial. a forma espacial torna-se um fator social não apenas pela sua durabilidade no tempo. A reflexão crítica deve. Os problemas teóricos levantados neste ensaio são ingredientes fundamentais de uma reflexão mais aguda sobre o pensamento crítico da geografia. fragmentação e desordem que fazem parte do mesmo processo histórico”. a concepção de (des)construção do espaço deve considerar que a compreensão da realidade em escala local supõe o envolvimento. Vale dizer. 52 .

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o que equivale a pensar este momento da geografia como uma aproximação científica empirista. Letras e Ciências Humanas.” (Raoul Vaneigem) Tem-se. que a constituição da geografia. exercida socialmente. em 2005. pois se devota ao fenômeno como ele é. do Departamento de Geografia. Profa. portanto insuficiente e pouco científica. apresenta como fundamento o positivismo.A Geografia na Modernização do Mundo. a contém. para essa geografia. sendo que o aparecer é o instrumento do conhecimento o mais importante e não nega a história desse fenômeno. guiado pela única constância de ser humano e a consciência de não sê-lo jamais o bastante. praticamente como verdade inquestionável. E por que a contém? Porque não há descontinuidade: os elementos constitutivos do fenômeno sempre estiveram presentes e a história é a longa relação entre eles. enquanto geografia humana. Hoje. Considerando o fenômeno humano como o fundamental. os elementos que o constituem são o meio natural e a habilidade do homem. se essa geografia nos parece uma geografia especialmente descritiva. no seu primeiro fragmento. de tradição francesa. Faculdade de Filosofia. realizado pela AGB/BH. ela se propunha como 1 A primeira versão deste texto. Dra. como ele aparece regular e constantemente. ao contrário. 2 55 .A GEOGRAFIA QUE DESEJAMOS1 Amélia Luisa Damiani2 “Eu aprendo a querer tudo e a não alcançar nada. foi apresentada no V Encontro Estadual de Geografia de Minas Gerais . Universidade de São Paulo.

48. de outro. a antropologia.”6 3 4 5 6 LEFEBVRE. 2002. p.. o conhecimento e a própria ciência geográfica. do reconhecimento do “descontínuo. p. Henri Lefebvre. de modo diferente. 47. intercalam-se a geografia humana. Henri. movida por hipóteses teóricas. 56 . de um lado haveria a aplicação de técnicas e a prática. avanços que punham a possibilidade do desenvolvimento da ciência teórica. Op. identifica. p. cit.] expressa a possibilidade de uma revisão e de um aprofundamento dos conceitos. Paris : Anthropos. 48. Méthodologie des sciences.AMÉLIA LUISA DAMIANI ciência. “Portanto. 48.. como advogava o positivismo.]. as ciências tenderiam à unidade. mas em biologia (ecologia). p. Op. etc. Entre a sociologia e as ciências da natureza. A biologia comporta uma bioquímica. e. cit. como se diz em anatomia. no sentido de que ele representava pouco os avanços científicos de seu tempo. na sua própria constituição.”3 Trata-se. a pré-história. uma química biológica. mas linhas de demarcação flexíveis. uma negação do positivismo. também.. Op. de caráter relativo: “A hipótese teórica apóia-se numa realidade (portanto comporta a determinação da coisa. ‘anastomoseadas’ por uma rede cada vez mais complexa de relações. sua qualidade) [. em sociologia [. no final do século XIX. seu conceito. cit..”4 “As ciências se encontram religadas ou. do acaso. que não se confundia com as técnicas. do cálculo das probabilidades. na sua essência. A matemática sob sua forma estatística se introduz não somente em física e química.”5 Não haveria fronteiras estanques e rígidas entre as ciências. assim.

sua potência sobre a natureza. entre outras ciências. “reciprocamente. 57 . 2002. 2005 Essa perspectiva histórica do desenvolvimento das ciências. p. é ainda uma relação com a natureza. ser estudadas a partir da natureza e como um processo objetivo e natural. p. A organização (prática) desta relação é então um fato objetivo fundamental [.. SÃO PAULO. portanto. p. unem. Henri. propõe repensar os elos estreitos entre ela e o positivismo e encarar a geografia humana como de caráter cientificamente mais complexo e numa relação com a prática também mais complexa. quando as ciências naturais absorvem o acaso. nº 83. 51. p. não são estritamente limites metodológicos. Os limites históricos dessa geografia.. considerando os avanços das ciências e das técnicas e sua aplicação prática na indústria. Henri. 118.] Sua ação.”9 Os elos práticos entre o homem e a natureza. LEFEBVRE. através da geografia. Henri. não se separa dela metafisicamente [. 122-123. as ciências da natureza e as do homem. propostos nesse momento histórico e completamente potencializados.] A história humana e a sociedade podem.. no período de desenvolvimento de uma geografia humana. 7 8 9 LEFEBVRE.”7 “Entre as ciências do homem e aquelas da natureza se intercala a geografia humana”. mas limites de fundamentos da sociedade que se desenvolvia: a sociedade que se realiza e se nega pelo desenvolvimento das trocas e do dinheiro. que ainda são os nossos. se aproximam das leis históricas e sociais.. No momento do desenvolvimento das ciências. 55-88.. o estudo da realidade humana se aproxima das condições nas quais nós descobrimos as leis da natureza. LEFEBVRE. a sociedade cujo processo de identificação é abstrato.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 2002. [entre outras] [. 2002.. definem leis estatísticas.]8 O homem age sobre a natureza.

Paris: Gallimard.”11 A geografia definida como clássica acreditava na forma do Estado. mas cuja causa acumulativa maior é de cunho econômico e em que a proletarização de milhões de seres humanos também é acumulativa. necessariamente. o tempo cíclico. de alguma forma. mulheres e crianças. o que. La société du spectacle. 1992. que atualiza uma geografia crítica . pois leva de roldão. “economia empobrecida por ter consumido a terra e o homem”. Portanto.AMÉLIA LUISA DAMIANI através do desenvolvimento do Estado. em que “a relação mercantil substitui a relação humana. hoje. respectivamente. Nous qui désirons sans fin. não estatista . inclusive. os que mantêm o controle econômico e político. busca é encontrar a identidade da humanidade do homem. inseridos precariamente nesta história moderna.de capitais. sob o alvoroço da história que paira acima. Raoul Vaneigem fala de economia de exploração. Guy Debord avalia que esses seres não têm o controle da história. VANEIGEM. O desenvolvimento da geopolítica. a sociedade que se propõe acumulativa . 18 e 20. inerente às ações econômicas e estatistas.10 O que a geografia. tinha este caráter. 58 . a relação com a prática já não é. 10 11 DEBORD. sob a mediação do Estado. Raoul. produzida na relação homem-natureza. Então. Guy. Uma geografia contemporânea. especialmente. a relação da geografia com a prática passava pela mediação do Estado. mais e mais homens. na França especialmente. O que a devastação dessa economia acumulativa capitalista nos assegura tentar decifrar. é um enorme processo de desumanização. nesse final do século XIX. civilizações -.questiona a economia e o Estado. Paris: Gallimard. portanto. 1996. eles vivem. história sempre apropriada pelos poderosos: os que produzem as estratégias. como civilizatória. incluía uma análise positiva do moderno processo de colonização. nesta economia. técnicas. Esta é a grande aquisição destes novos tempos: generalizar a crítica do processo de desumanização. experiências.de presença anarquista e subversiva. p.

a relação entre estratégia e dialética pode nos ajudar a compreender os termos da modernização do mundo. valor de troca. nº 83. Pode ser elucidativo verificar.. 12 VANEIGEM. 2005). mas não a relação constitutiva interna dos elementos entre si. É possível reconhecer certas relações de causalidade. neste duplo. Raoul. é comum manter esses elementos autônomos. por exemplo. nenhum desses caracteres se manifesta em estado puro com suas particularidades definidas uma vez por todas. numa progressão em que um só se transforma modificando o outro. SÃO PAULO. nos termos da compreensão da dupla e interna determinação entre eles e de um processo negativo implicado. como um conceito básico e presente numa geografia mais crítica. Isidore Ducasse et le Comte de Lautréamont dans les Poésies (veiculado por internet. ainda. tal outra. como se fosse possível falar de um ou de outro separadamente. submetido a leis de interdependência. Tal coisa tem valor de uso. p. “Esclarecendo. E. 55-88. o tratamento dos elementos constitutivos da mercadoria . A relação interna e negativa entre esses elementos.. 59 . entretanto. Ele era combinado com o tratamento do objeto no interior de uma lógica formal. É necessário examinar o processo de modernização extensiva e intensivamente. se torna mais complicado encontrar um tratamento do objeto em movimento. O que é próprio desta lógica e difícil de romper é a separação entre os elementos de uma relação e o estabelecimento da exterioridade recíproca destes elementos no seu desenvolvimento. 2005 Cedo. a geografia reconheceu o plano das estratégias. mas cada um entre eles se une. E.valor de uso e valor de troca -. os termos da deterioração da vida social e humana e da própria economia.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. ainda é de difícil discernimento. num movimento. ao contrário. na definição da mercadoria.”12 Uma geografia que inclua a dialética e. por isto. uma noção de processo.

Raoul. p.13 Um núcleo de compreensão necessário é considerar a financeirização. são apenas signos de partes alíquotas do meio de circulação dominante. realizam os preços e não são meios de circulação evanescentes. trata-se da incorporação de todos os espaços e tempos no universo dessa economia. do absolutismo financeiro. costuma-se localizar na segunda metade do século XX -. que facilmente desaparecem. “O absolutismo financeiro engendra um empobrecimento absoluto. A idéia popular de quem guarda dinheiro no colchão e ele perde valor é própria de uma percepção popular de que o dinheiro no capitalismo tem que se manter no mercado. que são as notas de maior valor. como as moedas e notas de baixo valor. que estipulam os preços das mercadorias que definem a qualidade dos mercados. como determinantes. 75. nossa moeda corrente: as moedas propriamente e as notas de pequeno valor. e é uma extensão paradoxal. 67. 1996.”14 O capital não se resolve em simples entesouramento. 14 60 . “A realidade econômica é a realidade economizada. que circulam na vida cotidiana da maioria da população. das mercadorias de consumo duráveis. Uma outra consideração importante é aquela de que o dinheiro como meio de circulação no comércio e serviços a varejo e populares é um meio de circulação “subsidiário” e não exatamente o meio de circulação dominante. cada vez mais. O universo aí se reduz à dimensão do dinheiro.” (p. um ponto concêntrico de onde se regula à distância “todos os lugares”. neste momento de nossa história . das televisões. p. 1996. que interessam. 13 VANEIGEM.AMÉLIA LUISA DAMIANI . Raoul. os preços dos carros. 72) VANEIGEM. pois envolvida pelo universo concentracionista. circulando. próprios de nosso mercado. neste caso nacionais. Vamos pensar em reais. Então.o recorte histórico da presença dessas mercadorias.Extensivamente. em que “o espaço se contrai a dimensão de uma cotação de bolsa de valores”. a curto termo.

SÃO PAULO. a alienação cotidiana.00 reais: 400 moedas. só reunido em grandes quantidades. um cofre cheio e ao mesmo tempo de baixo valor.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. realizado no Laboratório de Geografia Urbana . 364 (em alemão. É eloqüente o tratamento da questão por Vaneigem. Este parágrafo faz parte de contribuição pessoal num trabalho coletivo. 15 MARX. etc.15 Ao mesmo tempo. que utilizo para considerar o movimento da modernização do mundo: “O sacrifício da vida humana à necessidade de trabalhar inaugurou uma lógica de morte que leva a suas conseqüências extremas o sacrifício da sobrevivência aos imperativos monetários. 695). a sociedade se culturaliza. Imaginem quantas moedas de R$ 0.LABUR sobre a crise do trabalho.”16 . a constituição e a reprodução da cotidianidade. o dinheiro que ela pode ter na mão todo dia. VANEIGEM. o dinheiro da maioria da população.Então. E. sintetizadora das várias formas de alienação: política. Elementos fundamentales para la crítica de la economia política (Grundrisse) 1857-1858. da população mais pobre. 2005 Entesourar moedas de pequeno valor parece equivocado exatamente porque o tesouro se produz com notas mais valorosas. em suma. trata-se de decifrar a metamorfose dos modos de vida. No lugar da vida. que chega na vida humana. 55-88. p. econômica. 1996. define o dinheiro dos negócios. paradoxalmente. numa generalização de produtos simbólicos ou simbolizados para consumo. Raoul. o que autonomiza os elementos do que se convencionaria como cultura. São cofres infantis. 16 61 . 1977. volume 2. Karl. mercantilizase tudo como tal. 77. Argentina: Siglo Veintiuno.25 centavos seriam necessárias para guardar R$ 100. Em resumo. p. nº 83. toda ordem de sobrevivência e morte. e traduzido em notas mais valiosas. p. isto é. esta parte alíquota ínfima demonstra a abstração própria do preço e do dinheiro. intensivamente . cultural.

através da contraposição entre qualidade ambiental e núcleos socialmente pobres: o controle da urbanização indesejada. definida como de “baixa qualidade ambiental e social” ou enquanto “ocupação informal”.. a mercadoria. as contradições abafadas.”17 Neste momento de deterioração da experiência humana possível.a completa identificação entre o homem e o que Lefebvre chama de a ordem distante . que persiste até em momentos de crise. Somente.. (veiculado por internet. 62 . fazem parte abstrações poderosas.a consciência ambígua das contradições. a apatia. no qual se reflete. isto é. “assentamentos irregulares” e “espontâneos”. de modo invertido. entre outros.AMÉLIA LUISA DAMIANI O que seria próprio dessa alienação cotidiana? . 17 VANEIGEM. como o dinheiro. espontâneos para se elevar a uma autonomia discursiva. quando o outro. De todo modo. em certos momentos. é preciso fazer a pergunta: como são vividas as abstrações? As relações não são exatamente imediatas. Daí. . atenuadas no cotidiano. diante do abstrato. Isidore Ducasse et le Comte de Lautréamont dans les Poésies. sem consciência desta relação de identificação doentia. é sua negação.” “Sem cessar a tomada de consciência se despoja dos elementos intuitivos. solidária nos seus inícios. Raoul. absoluta ao ponto de ignorar o recurso a uma experiência concreta da qual ela era. entretanto. 2005). Há uma “regressão do concreto. Abstrações concretas. numa relação constituída como esquizofrênica. são. vividas de forma crítica. o homem se perde na absoluta identificação com o outro dele. que entra na vida das pessoas.um âmbito do econômico e do político. talvez. os termos ideológicos de sua aparição. o Estado. sem que tenham dele discernimento -. por exemplo. Do concreto da vida.

as influências fora da geografia . inclusive. que viviam outras condições naturais. Havia uma particularidade . Definiu-se como possibilista.dos tempos modernos . na sua identidade com qualquer outra cidade. Num processo de. através de um conceito e de sua negação. SÃO PAULO. envolvido em certas condições naturais. nesta medida: sob a determinação da natureza.aqui imobilizando. era uma mudança de processo que assustava. na relação do homem com a natureza.especialmente considerando que o homem.que. mais de uma civilização tendia a se realizar e todo o processo sintetizava a formação do homem e de uma natureza transformada. p. A atividade humana era definida como transformadora. O plano era o dos fenômenos de longa duração. Ela alteraria a compreensão clássica posta pelo pensamento geográfico.. e de suas diferenças. .e a universalidade do processo civilizatório em curso. e à base dessa diferença se constituía outra diferença. tornadas contradições. superação. A concepção de meio geográfico exaltava a atividade humana. que era a capacidade humana diferenciada de transformar as condições naturais .foi o deciframento da natureza dessa atividade humana: ela não era sempre a mesma. nº 83. singular e universal. 2005 A natureza humana e a natureza natural aparecem cindidas. 55-88. encontrar a formação de outro conceito. precipitaria uma transformação radical da compreensão da geografia como ciência 63 . o homem apresenta-se como um elemento ativo do processo civilizatório. O que foi se constituindo . nesta economia de exploração que inclui a ambas. Ao mesmo tempo. Definia as especificidades de cada meio . tem-se o deciframento de seus elementos comuns. Um convite interessante é ensaiar o esboço de um movimento de dialetização dos conceitos de meio geográfico e espaço geográfico. que tenderam a ser superados. como mediação. Em síntese. era diferente de outros.. por análise.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. As cidades.

por sua vez. o espaço geográfico seria a contradição entre o homem e a natureza. . sem deixar de sê-lo. o embate entre os homens.. humanizado. o domínio da natureza não coincidindo com a apropriação da natureza. para muitos. A geografia passa a absorver a crítica da economia política. concreto. as diversas temporalidades históricas se realizam no espaço e o definem. de dialetização de um conceito da geografia. há um tratamento particular do objeto de estudo. como negação do homem. que. a transforma radicalmente. que inclui a problemática temporal. mais propriamente como geografia crítica. Esta passagem é um exemplo. tornando-se apropriado para uma finalidade de compra e venda e não de satisfação de necessidades cada vez mais humanas. A satisfação das necessidades torna-se um meio.. tornado espaço. Considero a Geografia uma das ciências do espaço e. seria a tradução da humanidade do homem e da natureza humanizada. por esta via. O meio. o espaço se homogeneizando. se colocaria. próprias de uma formação econômico-social . considero. se resolve numa universalidade abstrata. o trabalho. no capitalismo. também. Simultaneamente. que. o atributo do homem. concebida como trabalho. mas de modo diferenciado. submetida a uma finalidade. Nesse momento. Para nós.AMÉLIA LUISA DAMIANI humana: a atividade humana. que.como a capitalista 64 . que determina a negação de sua singularidade: o espaço como mercadoria. aqui reduzido. sugeria a metamorfose do trabalho útil. ao mesmo tempo. trabalhar com determinações históricas. como realização do ser humano e como perda de sua humanidade. se realizaria como trabalho abstrato. pela particularidade posta. para demonstrar o movimento de superação da geografia clássica e sua produção como geografia contemporânea. Se o meio. numa versão marxista estrutural.

incapaz de decifrar a abstração concreta do valor de troca e do valor. francamente a imperar na modernização da sociedade. meio sem jeito. metamorfoseiamse segundo impulsos econômicos e políticos mais precisos historicamente. portanto. necessariamente. escolhemos estratégias políticas para administrá-la. o tempo todo. nº 83. colado na economia e. Por outro lado. Os elementos sociais. remetem à relação homem-homem. estes são mais permeáveis a um tempo de curta duração. p. num salto no abismo. tendendo a se adequar a uma lógica dialética. na verdade. Ora. 65 . A Geografia. e não necessariamente. Sendo que os primeiros envolvem um tratamento. referentes à história de longa duração. que pode. SÃO PAULO.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. nos termos de um Estado de urgência. tendemos a discernir a questão ecológica com acuidade pormenorizada de tratamento físico-ambiental e. passando por cima da natureza intrínseca do que é o institucional numa época como a nossa: aquela do atrelamento do político com o econômico. que a Geografia era uma ciência que identificava ocupação e uso no e do espaço. de um ângulo complicado que é a ótica do espacial. define uma questão central. portanto. servindo-a. fatos de longa duração? Haveria uma questão espacial própria da formação econômicosocial atual? Ela se sobrepõe às demais questões? Ela as elimina? O que é da ordem do espacial é cumulativo no tempo. tendendo à sistêmica. nesta própria Universidade. 2005 – e com determinações gerais. está incluída neste possívelimpossível de relacionar fenômenos de natureza tão diversa. traduzir-se como próprio a fenômenos de longa duração. Dizia-se num determinado momento da história das ciências. O que é da ordem do espacial é mais diretamente ligado à estrutura e à forma. 55-88. A racionalidade do espaço implica ou não. tratamos a questão social. com relação constitutiva com a natureza. O que é da ordem do espacial inclui a relação entre elementos ecológicos e sociais. propondo uma lógica de interação e organização envolvendo o homem e a natureza.

19 18 MARTINS. possivelmente. em outras grandes metrópoles. Governo do Estado de São Paulo. que reflete a gravidade da crise econômica. as formas de profissionalização propostas por nossa época definem praticamente um segmento da Geografia. Tese de doutorado. Pesquisas recentes sugerem. a idéia de qualidade ambiental se contrapõe a tais espaços deteriorados. Este partilhamento jamais o superamos. que chega a se pretender enquanto uma estratégia de controle de espaços deteriorados e socialmente degradados. as áreas de conservação não se realizam plenamente como tais. que vivenciamos. impulsionado pela própria legislação ambiental. Bastiann P. Faculdade de Filosofia. no Programa Estratégico do Rodoanel. entre outras pesquisas. são assuntadas pela crise social. aquele que ensaia ler a determinação da crise econômico-social. um mercado informal de terras muito lucrativo. cindido do outro. É só examinar os milhões de moradores ao redor das represas Billings e Guarapiranga. Ana Karina S. e REYDON. em São Paulo.18 Também importante considerar que.AMÉLIA LUISA DAMIANI Uma Geografia sistêmica conduziu os estudos de Geografia Física e uma Geografia Crítica refletiu a Geografia Humana que estudava os fenômenos modernos e sociais. quer. A crise ecológica atual. em São Paulo. 2004. pela “valorização” dos espaços implicados. São Paulo: Departamento de Geografia. São Paulo: UNICAMP (manuscrito). O mercado de terras informal nas áreas de mananciais. E BUENO. As áreas de proteção ambiental. E o Programa apareceria como “inibidor da ocupação irregular”. O mesmo se repete na Billings. 19 66 . põe ambas determinações em embate . Universidade de São Paulo. Letras e Ciências Humanas. a propósito dos loteamentos da Represa Guarapiranga. quer em São Paulo. O “ambiente urbano”. Sérgio Manuel Merêncio. Avaliação Ambiental Estratégica do Programa Rodoanel.a determinação ecológica e a determinação social. Nos confins da metrópole: o urbano às margens da represa Guarapiranga. os instrumentos técnicos à disposição do geógrafo. 1999.

mas a utilização da legislação em benefício da formatação dos novos negócios urbanos. 246) 67 . p. mas pelos particulares. Do que precede: seria possível escolher entre os problemas ambientais e sociais? Seria possível administrá-los? Ambos imbricados estão a ressaltar a crise dos fundamentos dessa economia de exploração. destaca-se o “do empreendimento imobiliário ‘Vale dos Cristais’ (localizado às margens da rodovia MG-030). nº 83. a concepção de urbanização crítica. Belo Horizonte: Programa de Pós-graduação em Geografia. Eliano de Souza Martins. que remetem à vinculação ao mesmo empreendimento de áreas de terreno ou gleba não contíguas.como parte constitutiva dos núcleos de condomínios fechados. Com o tempo.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 55-88. é possível a anexação.reserva particular de patrimônio natural . de 2002. alterando a lei de proteção dos mananciais de 1976. pretende sintetizar. cuja solução aparece como o impossível-possível. Universidade de Minas Gerais. do estado de São Paulo. Entre os exemplos. Instituto de Geociências. pode vir a significar uma valorização potencial futura.216. a um loteamento irregular. A partir dessa nova legislação compensatória. com a qual venho trabalhando. protegida não pelo poder público. mapeando novas raridades. resultado da articulação entre a AngloGold e a Odebrecht Engenharia e Construções. A reprodução social da metrópole em Belo Horizonte: APA Sul RMBH. A compreensão sobre a metrópole de São Paulo. isto é. 20 FREITAS. de uma área que passa a constituir uma reserva particular do patrimônio natural (RPPN). um exemplo importante é a recuperação da RPPN . na teoria e na prática. SÃO PAULO. as compensações. Tese de doutorado. aponta para sua superação a necessária crítica radical desses fundamentos. para regularizá-lo. com a possibilidade de expulsão da população do loteamento popular assim regularizado. 2005 Outras pesquisas apontam a relação entre novos empreendimentos imobiliários e a absorção não só discursiva do ambientalismo. nesse sentido.”(p. 2004. constantes da Lei nº 11.20 Ainda a acrescentar.

abrigam também simultaneamente territórios religiosos vários. É também significativo o processo de homogeneização e fragmentação da vida social e urbana. posta. esses sem dinheiro sobrevivem nesses guetos. A extensão do tecido urbano. IN : La Somme et le Reste. p. a noção de cotidianidade traz à luz os termos da reprodução social atual. abrigando mais da metade da população da cidade. a problemática do cotidiano põe simultaneamente as questões sociais e ambientais. sejam invadidas pelas institucionalidades várias. E há hierarquias sociais. intensiva e extensiva. a do cerne do espacial e a Geografia. Portanto. Vende-se qualidade de vida. observa-se uma deterioração urbana. de fundamento apocalíptico. no mundo do dinheiro.”21 A presença possível de adensamentos populacionais. abrigando políticas clientelistas. acima levantada. nº 3. Quand la ville se perd dans la métamorphose planétaire.AMÉLIA LUISA DAMIANI Voltando à concepção. é inegável. Em nossas periferias. A este propósito. por si só. parte significativa da população mundial vive nas cidades. que se inscrevem no espaço dolorosamente. 21 LEFEBVRE. se vive a distância física e social da cidade propriamente. desde meados do século XX. no mundo inteiro. através de novos loteamentos clandestinos e conjuntos habitacionais. destrói a possibilidade de vida urbana. embora. 24. sem resolvê-las institucionalmente. 68 . vende-se “natureza”. a demonstrar não o que temos. O desemprego e. mas uma presença-ausência: o que necessitamos e somente negando radicalmente essa forma de reprodução social alcançaremos. em síntese. o sentido abrangente da urbanização. fevereiro de 2004. tornados territórios. confinados. define uma questão ecológica importante: a extensão dos espaços de concreto. que. Henri. “É exato afirmar que o quadro de vida e a qualidade do ambiente passam ao grau das urgências e da problemática política. Portanto. nas áreas periféricas já densamente ocupadas.

Henri. 21. e é um segundo paradoxo: centros e periferias se supõem e se opõem.”23 O “ambiente urbano” se define como o lócus dessa síntese de natureza espacial. Op. gastando vorazmente 22 23 LEFEBVRE. 2005 “O urbano concebido e vivido como prática social está em vias de deterioração e talvez de desaparição. 55-88. fevereiro de 2004. p. com conteúdos sócio-ecológicos a resgatar. 22. sistêmico. que.”22 Na cidade. O sentido do processo mercantil moderno é a economia financeirizada extremamente volátil. “É preciso restituir o lugar eminente de formas bem conhecidas mas um pouco negligenciadas. Cit. nº 83. p. impõe essa itinerância urbana. que rompe com as instituições e não a alimentam. . A questão é então de saber se o movimento social e político pode se formular e se articular em torno dos problemas pontuais mas entretanto concretos. Impõe-se a necessidade da vida associativa e autogestionária. o citadino está em movimento perpétuo. que adquirem um outro conteúdo quando elas se aplicam ao urbano.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. considerando a valorização e capitalização do espaço urbano. SÃO PAULO.. p. tais como a vida associativa ou a autogestão. própria do urbano como negócio. no sentido de que há um processo de transformação da situação geográfica da cidade.. Os mais pobres a vivem na pele e a aceitam como destino. 69 . pois está cravado nas contradições desta sociedade.. E não poderia fazê-lo sob o modelo formal. Aí se produz uma dialetização específica das relações sociais. concernindo todas as dimensões da vida cotidiana..

ele se gasta como humano. cit. sendo que a América Latina e a África compõem preferencialmente esses grupos de países . Op. p. é preciso sem dúvida melhorar a infra-estrutura. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. ano 17. 12. BARRETO. 66. Maria Inês. agosto/ setembro de 2004. Raoul. dela fazem parte. portanto há uma crescente desigualdade.1996. nº 59. de modo precário. Revista Teoria e Debate. 54.. 27 Nas questões sociais e econômicas a cidade personifica esses processos: adotando-se estratégias de competitividade na atração de investimentos e os poderes locais devendo promover essas possibilidades de inserção nos espaços econômicos globais.24 “A economia faz o homem à imagem da mercadoria”25. mas seleciona espaços de mercado privilegiados o tempo todo -. que se financeiriza. e aqueles que. considerando a globalização e a integração produtiva. 70 . p. A gestão. Raoul Vaneigem chega a situar um estado de delírio esquizofrênico: a estrita identificação entre o homem desumanizado e a coisa que o desumaniza. Verifica-se a intensificação de assimetrias entre países que centralizam essa economia. Raoul. 12-16. mas é preciso antes melhorar as capacidades de gestão das autoridades locais. p. E esse universo de economia dilapidadora é um universo concentracionário.AMÉLIA LUISA DAMIANI recursos humanos e recursos naturais e migrando incessantemente. completamente envolvidos pelas agendas e organismos internacionais de financiamento. É uma 24 25 26 27 VANEIGEM. “Se se quer atrair os investimentos do setor privado em lugares precisos. Inserção internacional de governos locais. comercial e financeira. p. 1996 e outros textos do autor. VANEIGEM. as ações deliberadas das estratégias se tornam cada vez mais dominantes.26 Luta-se por inclusão não residual.lembrando que esta economia tem circuito mundial.

envolvendo aí a presença do turismo.verdadeiros complexos produtivos -. e este mesmo se apresenta. agosto/setembro de 2004. p. de fevereiro de 1988. 29 30 71 . etc. cidades culturais . BARRETO.. como o sujeito (grifo nosso) destas forças. que inclui a cidade assim francamente. Outro tanto com a divisão do trabalho. p. 1995. Paris: Karthala. Outro tanto ocorre com a ciência. A partir de diálogo com Henri Lefebvre. SÃO PAULO. 145. cidades populares. Ante o trabalhador individual esta associação aparece como acidental. É uma transformação social: a cidade se culturaliza. o que pode substituir o grupo dominante local. sua condição de trabalho social. passam a se tornar cidades econômicas .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 55-88. Inclusive. nº 83. 15. La banque mondiale et les villes – du développement à l’ajustement. p. de inserção mais residual. aqui apenas anunciada. observe-se o tratamento do processo do capital como sujeito: “A força coletiva do trabalho. publicado na revista M. especialmente as pequenas. pois.”28 Entre os itens de inserção: a promoção econômica para o exterior e a concepção e implementação de projetos urbanísticos. se economiza. a cidade se eleva a sujeito.. tal qual aparece enquanto divisão dos empregos e da troca resultante.. 2005 transformação em profundidade das modalidades da gestão urbana local [.29 No mundo dessa economia. é por fim a força coletiva do capital. Aquele se vincula à sua própria associação com os 28 OSMONT. Maria Inês. Todos os poderes sociais da produção são forças produtivas do capital.. 30 Para a compreensão dessa possibilidade de interpretação da cidade. Annik.] Ela é legitimada pela busca de uma melhor rentabilidade dos investimentos públicos e privados. que também altera substancialmente a inserção econômica e cultural de sua população.

eis um ensaio de movimento possível de uma crítica. de dinheiro como forma geral da riqueza. de um misto de realidade e representação.] quando se fala unicamente do capital. como concentração [.] supõe já em certa escala. em La production de l’espace. o capital se enfrenta desde o começo na qualidade de um ou de unidade frente aos trabalhadores enquanto pluralidade. e por outro lado na forma subjetiva.] unidade à margem dos mesmos. como um modo de operar do capital.. “O capital [.. 87) “[. Revisitado. a concentração coincide com a acumulação ou com o conceito do capital.AMÉLIA LUISA DAMIANI demais trabalhadores e à sua cooperação com eles como algo alheio. O termo foi utilizado por Henri Lefebvre.. que ainda não constitui uma determinação especial. não obstante. Isto é.. p. a acumulação de forças de trabalho e concentração das mesmas em um ponto. como uma unidade externa a estes.”31 Num plano abstrato de tratamento desses processos. a concentração está compreendida no conceito do capital [. seria a produção do vazio. de uma confusão. potencializado. 86.” (p.. quanto ao espaço. 31 MARX. Guy.. Desta sorte e frente ao trabalho aparece como a concentração dos trabalhadores..o espaço em si .o espaço diferencial. Como termos do espaço livre da mercadoria32: a) Enquanto pressuposto: um pensamento que põe o espaço como a priori. A télescopage está no plano de uma ilusão. como indústria da herança. O espaço geométrico e vazio aparece como varredura ou a “telescopagem”33 entre a geometria do espaço e a história do espaço (uma oscilação entre ambas. sob o comando do capital. 72 . 1977. uma concentração. maior ou (p. numa outra abordagem. 86) menor. Karl. ou seja. Certamente. Ao mesmo tempo neutro e dando universalidade “fictícia” aos conteúdos reais. assim configurado.” (p. matéria-prima e instrumentos ou.. pretendendo-se de algum modo dialética: do espaço livre da mercadoria . por um lado em forma objetiva.] de meios de subsistência. 1992. volume 2. terrivelmente ativas. o espaço. 92) 32 33 DEBORD. Neste sentido. por transferência e redefinição de conteúdos.à ocupação do espaço ou realidade do espaço . para dizêlo em uma palavra. O espaço como continente.

caso se realize a metamorfose: no lugar do espaço em si. Elementos fundamentales para la crítica de la economia política (Grundrisse) 1857-1858.34 b) Como condição de existência: o espaço como ponto de reunião de conjuntos de produtos específicos. assim. e se ponha no lugar uma geografia do movimento. a rede é suficiente? Sim. MARX. Henri Lefebvre fala. Karl. Como conjunto que não supera a exterioridade recíproca desses objetos. Argentina: Siglo Veintiuno. 2005 reinvenção das tradições). a ocupação do espaço (práticas espaciais) ou a realidade do espaço. no plano do conhecimento. negação de um processo extensivo e intensivo de banalização posto pela unificação (igualizando as diferenças: mercadorias produzidas 34 35 LEFEBVRE. A noção de supostos históricos e de a condição de existência são argumentos decisivos sobre o movimento da acumulação originária do capital. b) Decifrar os objetos em diferentes escalas é suficiente? Somente se se reconhecer a sobreposição de escalas. nº 83. Chega-se ao espaço enquanto espaço produtivo. Que se questione o equilíbrio espacial. Que se leve. mistura dos termos em oposição). SÃO PAULO. como negação da seleção dos espaços. 55-88. p. 1977. c) Desdobramentos em dimensões: a trama.35 Em direção à realidade do espaço: a) Espaço geométrico como presença real. Socialmente é a fragmentação-unificação dos conteúdos da vida individual e social. os entrecruzamentos. a hipótese até o limite: vislumbrando da extensão do mundo da mercadoria e do mercado ao deciframento das formas insurgentes. volume 1.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. não só existência lógica. La production de l’espace. a produção capitalista unificando o espaço na fragmentação. Henri. Os limites de subjetivação que implica: a totalização pela economia. em acumulação primitiva do espaço. Paris: Anthropos. ao mesmo tempo. o subterrâneo. 4ª edição. mas sua “vivência” em estado de ambigüidade (quando as contradições se deterioram. há confusão. 2000. a oposição estagna. os imbricamentos: o local realizando o mundial e incluindo. 73 .

que sugere a possibilidade de projetos de planificação. mesmo levando em conta a história . vivido. pode ser um sintoma complexo das circunstâncias próprias à deterioração das 36 A deriva se define como um “comportamento ‘lúdico-construtivo’. Diante desse método. na verdade. A deriva tornando-se um procedimento de conhecimento. as diferenças: o espaço diferencial.AMÉLIA LUISA DAMIANI em série para o espaço abstrato do mercado). mas.Art et Utopie – textes situationnistes. a história como ativa. p. Põem-se as qualidades dos lugares. é o presente o que conta. ligada a uma percepção-concepção do espaço urbano enquanto labirinto: espaço a ‘decifrar’ (como decifrando um texto com características secretas) e a descobrir pela experiência direta” (New Babylon. Esse empirismo é combinado com uma compreensão de separação nítida do objeto e do sujeito. 74 . a implicação dos espaços sociais. a determinação do particular e do finito.. sendo que ambas ativas na produção das ações populares e estatistas: 1.36 . fundados em uma “racionalidade técnica competente”. guarda nessa concepção a definição de urbanização desordenada. de trabalho de campo. Quanto ao urbano. pratica o mundo. mantém sua atualidade. Constant . que. Esse caos espacial. sem sobras. o acento estaria na determinação do objeto como situação conjuntural. é possível contrapor duas leituras de processos. 14).e ela aparece como sedimento de um presente -. 1997. Dessa forma.. a dos processos quando experienciados de modo que. tendo a experiência como seu fundamento. É um pensamento tecnocrático. movido por uma racionalidade que pode se definir como técnico-burocrática. embora ele contenha certa universalidade de tratamento do objeto e certa unidade. Um empirismo a guiar o conhecimento. ainda potente. Paris: Cercle d’Art. inversamente. a deriva. E o sujeito. A noção de processo inclui aqui a de rupturas. livre da objetividade. entre outras. como referência de acontecimentos. Empirismo que rondou a geografia clássica. muito atuante. É uma hipótese.

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contradições; assim, da incapacidade de se vislumbrar sua superação e não de correção.37 Enquanto caos espacial, pode-se conceber, ao invés da urbanização desordenada, a urbanização crítica. 2. Uma outra leitura de processo ensaia superar a separação sujeito-objeto; e definir o sujeito não por sua particularidade, mas pela relação do particular e subjetivo com o que é universal e definido como objetividade: as situações conjunturais estão envolvidas, ao mesmo tempo, num processo histórico e num complexo estrutural. Na primeira concepção, o conhecimento e a ação, que sugere, são positivos.38 No segundo caso, inclui-se uma razão definida pelo trabalho do negativo. 39 Em direção à prática, incluindo o trabalho do negativo.

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LEFEBVRE fala em oposição estagnante: “em que os termos se afrontam ‘face a face’, significativamente, depois se separam, se misturam na confusão” (LEFEBVRE, Henri. La production de l’espace. Paris: Anthropos, 2000, 4ª edição, p. 257). “[...] é preciso em geral compreender por esta palavra o entendimento abstraindo e por isto dividindo, que persevera em suas divisões. Voltado contra a razão ele se comporta como senso comum, e faz valer suas visões segundo as quais a verdade repousa sobre a realidade sensível e os pensamentos são somente pensamentos, no sentido que é somente a percepção sensível que lhe dá conteúdo e realidade, e que a razão, na medida em que ela permanece em e para si dá vida a quimeras... o conceito de verdade se restringe ao conhecimento da verdade subjetiva, ao fenômeno, alguma coisa que não corresponde à natureza da própria coisa, o saber cai ao nível da opinião subjetiva.” [HEGEL, Morceaux choisis. Paris: Gallimard, 1995 (1ª edição 1939), tradução de Henri Lefebvre e Norbert Guterman, p. 77 (Ciência da Lógica ou Grande Lógica)]. “É preciso procurar o fundamento desta idéia tornada geral na descoberta do conflito necessário das determinações do entendimento. A reflexão já mencionada consiste em ir além do dado imediato concreto, de o determinar e de o dividir; mas ela deve ir igualmente além de suas determinações fragmentadoras, e antes de tudo as colocar em relação. No estágio desta relação seu conflito aparece; este procedimento de relação operada pela reflexão pertence implicitamente à Razão... chegar à descoberta do conflito é o grande passo negativo em direção ao conceito verdadeiro da razão... a contradição é precisamente o ato pelo qual a razão se eleva acima das limitações do entendimento e as dissolve” [Op. cit. p. 78 (Ciência da Lógica ou Grande Lógica)].

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Antonio Negri e Giuseppe Cocco falam que, do ponto de vista de classe, a relação de exploração mexe diretamente com a multidão. Dizem: “Com certeza, a multidão se apresenta como força produtiva, seu conceito integra (e não exclui) o conceito de classe operária.”40 A categoria de multidão, que hoje se atualiza, fez parte de um confronto de concepções, no século XVII, entre Spinoza e Hobbes; sendo a primeira definidora de “uma pluralidade que persiste como tal na cena pública [...] sem convergir no Uno”41, próprio, por sua vez, de uma concepção de Hobbes, sobre o povo, estreitamente ligado à existência do Estado: “depois da instauração do Estado advém o povo-Uno, dotado de uma vontade única”42; assim, a multidão, refrátária à obediência, é um conceito anti-estatal. Neste momento, é a confirmação de que a ação estatista não realiza a sociedade civil. A multidão apareceria como um conceito negativo, ativo e potente: “a forma de existência social e política dos muitos enquanto muitos... Para Spinoza, a multidão é a base, o fundamento das liberdades civis.”43 O sítio dessa presença massificada é a cidade, mais particularmente a metrópole. Para se realizar como multidão as classes sociais, em particular a classe trabalhadora, se reproduzem de modo concentrado. Trata-se de uma exigência do processo de circulação do capital, mesmo com os avanços da divisão do trabalho no processo produtivo, avanços que propõem a
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NEGRI, Antonio e COCCO, Giuseppe. Novidades na América do Sul. Teoria e Debate. São Paulo: FPABRAMO, abril/maio de 2005, ano 18, nº 62, p. 40/42. VIRNO, Paolo. Gramática de la multitud – para un análisis de las formas de vida contemporáneas. Madri: Traficantes de Sueños, 2003, p. 21. (baseado em Spinoza) VIRNO, Paolo, 2003, p. 23. VIRNO, Paolo, 2003, p. 22. (citando Spinoza em Tratado Político)

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desconcentração; o processo do capital é concentrador: de trabalhadores, de mercados, de mercadorias, de dinheiro, de finanças, de fluxos do capital, de signos; da força de trabalho como potência. Mas a particularidade do processo concentrador e massificador é também política: é possível identificar a produção política da massa, em detrimento da identidade da classe trabalhadora. Esta contradição histórica a pelo menos meio século se põe. Corroboram com esta situação particular as estratégias de organização, controle, regulação das populações e de sua mobilidade, na condição de trabalhadora, de moradora, de visitante, que acabam por estender esse processo concentrador, econômico e político, enquanto processo de redução da vida cotidiana, então concentrador dos restos de vida social e individual. Essa base particular do processo concentrador, localizada na metrópole, é, ao mesmo tempo, a universalidade do tempo e do espaço como valores de troca e a luta mundial pelo seu emprego: o do tempo e do espaço: “uma forma moderna de luta de classes”, imprevista por Marx, nos termos de Henri Lefebvre”44. Paolo Virno discorda do sinônimo massa-multidão; ao contrário, trata-se para ele da subjetividade possível, neste momento de negação da subjetividade das classes populares: “os muitos devem ser pensados como individuação do universal, do genérico, do comum compartido.”45 Mas os atos de revolta e revolução são artes e não ciência positiva e dogmática, que reverbera através das políticas estatistas.

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LEFEBVRE, Henri. A propos du centenaire de la mort de Marx. Revue La Somme et le Reste – études lefebvriennes – réseau mundial, nº 1, 2002, p. 20-26. São fragmentos de respostas de Henri Lefebvre a uma revista de Belgrado, a propósito de um questionário sobre o socialismo no mundo. Escritos referentes aos anos de 1983-84. VIRNO, Paolo, 2003, p. 26.

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AMÉLIA LUISA DAMIANI “Mas as teorias não são feitas senão para morrer na guerra do tempo: são unidades mais ou menos fortes que se deve empregar no combate no momento justo. nos termos de seu sentido histórico mais amplo. Sequer a funcionalidade de um mercado informal de trabalho é suficiente para explicar o que as crises social e econômica atuais apontam. Guy. 27-28. concentração de novos migrantes .”46 .dos últimos dez anos . um conflito. supõem-se como premissas: .o envolvimento da urbanização neste processo de modo nuclear: então se trata de urbanização crítica e não desordenada. A partir da urbanização crítica. Os dois fundamentos anteriores são incluídos no sentido de vinculálos à urbanização crítica e permitir a superação do limite da urbanização ser compreendido como “urbanização desordenada”. uma viagem. p. Barcelona: Anagrama.a riqueza tornada processo expressivo de financeirização implicada nesta economia... Assim como as teorias se devem substituir porque se desgastam com as vitórias decisivas. e sejam quais forem seus méritos ou suas deficiências. 46 DEBORD. certamente não se pode empregar mais que aquelas que estão aí no seu devido tempo. . inclusive. Há. 78 .a compreensão da miserabilidade potencializada neste momento da história da formação econômico-social capitalista: definida como processo de proletarização (destituição do lugar produtivo do trabalhador). mais ainda que com as derrotas parciais. . assim nenhuma época viva saiu de uma teoria: no princípio estava um jogo.na fronteira periurbana da metrópole de São Paulo. 2000. In girum imus nocte et consumimur igni e basuras y escombros.

abstratas .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. de remuneração mundial -. estradas. SÃO PAULO. canalizações . a economia urbana real incluiu uma economia fictícia.constituem formas autônomas do capital ou condição tecnológica para o efetuar-se do processo produtivo imediato (os lugares em que ocorre a produção.. endividamentos. para realizar como circulante um capital de natureza fixo. São sedimentos analíticos implicados.dada a natureza desses elementos. Esses elementos materiais se realizam.envolvendo títulos. com todas as regulações implicadas enquanto adiantamentos. logo potencialmente financeira. Assim. a distribuição. 2. mobilização. industrial. muito cedo.)..edifícios (para todas as formas de usos: comercial. A relação entre a 79 .. como capital fixo. que pode ser definido como produção do espaço urbano. do que aparece em princípio como condicionamento externo. o urbano de per si sempre envolveu uma economia. 55-88. Um momento dessa contabilidade financeira complexa é a realização da moderna propriedade da terra urbana: que tem buscado formas hiper-financeirizadas de realização e. a internalização subseqüente. p. portanto. sistema viário de modo geral. Que o processo urbano se realiza também como um processo econômico da urbanização. aparece sob formas financeiras cada vez mais internacionalizadas. consórcio entre o Estado e empresas. viadutos. pontes. ações. e do mais-valor envolvido. portanto. enquanto determinação formal do capital. enquanto determinação formal do capital. os elementos materiais envolvidos nesta produção . isto é. Enquanto produção do espaço urbano. a comercialização. As relações definem contradições externas e internas e a metamorfose de uma na outra. 2005 Falar nestes termos implica muita coisa.. para assegurar um retorno paulatino do valor adiantado . de complexa realização. doméstico. Em síntese. serviços. rendimentos balizados por juros. nº 83. cuja realização do valor. não se resolve facilmente. produção dos subterrâneos adequados. mutuamente relacionados. 1.).

tendo por finalidade realizar a mais-valia). HARVEY . implicado na urbanização.e. David. o trabalho de pesquisa em Geografia sobre a reprodução crítica da economia urbana. consorciadas com capitais e fundos internacionais. na imagem dos sedimentos. A magnitude da parte fixa do capital aumenta. A valorização do entorno realiza . a considerar as teses trabalhadas pela profa.como renda da terra. A considerar também aqui que tudo isso é processo. É necessário. 47 Para maior aprofundamento.AMÉLIA LUISA DAMIANI materialidade dos elementos e sua constituição enquanto determinação formal do capital vai se redefinindo para sua realização enquanto tal (determinação formal do capital. Los límites del capitalismo y la teoría marxista. movimento: altera-se o tempo todo o estado geral do urbano economizado. o que lhe é próprio. capítulo VIII. universalidade: considerando que a situamos no processo do capital. 1990. depois as cotas de grandes negócios imobiliários. 3. México: Fondo de Cultura Económica. p. mesmo assim com o concurso de dotações do Estado. como remunerações possíveis . São os apartamentos. como unidade e totalidade.configurando a idéia de ambiente construído: o capital fixado. também e não só.depende da possibilidade de valorização e/ou capitalização do entorno implicado.as massas fixadas. ao mesmo tempo. 210-243. produzem-se modos renovados de lhe determinar como circulante: a verticalização é um grande momento de tradução da materialidade em capital fixado enquanto circulante. ao mesmo tempo. inserido espacialmente a determinar a consideração do sentido ativo dessa qualidade espacial 47 . o define . Os Planos Estratégicos se põem neste sentido também. Acompanhem. envolvendo a produção do espaço. incluir: um sedimento que é essa economia na sua particularidade e. definidas. neste sentido.inclusive criticamente . Mas a possibilidade de realização do capital assim fixado e fixado localmente . As Operações Urbanas também aperfeiçoam as formas de realização de um corpo maior de edificações. 80 . neste momento.

A espoliação urbana.) Urbanização e mundialização – estudos sobre a metrópole. Até rentismos. e REYDON. Um terceiro sedimento é aquele da espoliação urbana. o edifício. portanto. por sua natureza complexa. mas o faz perversamente. BUENO. hoje. manuscrito. sendo esses lotes periféricos de grande potencial de absorção de rendimentos com formas creditícias popularizadas para viabilizá-lo (aos preços dos aluguéis). p. um trabalho coletivo. para seus negócios (incluindo a produção do espaço) e aqueles que os mesmos viabilizam .aqueles de denotam o processo de valorização real e fictício. não estando aquém do moderno sistema produtivo. A finalidade não são as suas necessidades. o tempo todo. SÃO PAULO. senão de modo contingente. nº 83.. Ana Fani Alessandri e CARRERAS. não só atrai. 2005. Ana Fani Alessandri. p. Quiçá nossa sociedade . pois. E. mas tornar capital: a terra. KOWARICK. IN: CARLOS. São Paulo: Contexto. Bastiann P. 49 50 81 . sobre o capital imobiliário e as de outros pesquisadores. 55-88. este excedente é rigorosamente o proletariado sem a possibilidade de inserção na produção. assim como outras similares tenha posto cedo a impossibilidade da absorção produtiva do trabalho potencial.os próprios processos produtivos imediatos -.49 Pois o espaço de localização dessa população está implicado economicamente e. 29-37. pois têm que ser. 2005 Ana Fani Alessandri Carlos48. cujos trabalhos são tão necessários para tal desvendamento.a brasileira.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. o lumpen-proletariado. Outro sedimento é a população trabalhadora atraída.. Nesse sentido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1979. Ana Karina S. o urbano. Classicamente. Lúcio. A reprodução da cidade como “negócio”. com todas as derivações históricas do processo de exploração. potencialmente não serve às suas necessidades e vai ganhando preços cada vez mais substanciosos . é posta também uma população superficial ao processo. Carles (orgs. mercado de lotes e casas precário. São Paulo: UNICAMP. O mercado de terras informal nas áreas de mananciais. mas anunciando sua própria natureza crítica: a sobrevivência instaurada no lugar da vida.50 48 CARLOS. para usar um termo já consolidado de Lúcio Kowarick.

Lembro-me do prof. as estratégias de mercantilização popular e clandestina dos espaços de moradia popular. Tempo. Não é possível resolver os espaços centrais como espaços vazios para essa população proletarizada. Houve uma literatura que concebia a necessária presença dessa população trabalhadora potencial nas cidades. Pedro Vasconcelos a esse propósito no tratamento da segregação espacial. 51 VIII Simpósio de Geografia Urbana . 82 . Agora. Vera da Silva Telles fala de trajetórias urbanas. deslocamentos cotidianos. com seus limites. enquanto “mobilidades urbanas: trajetórias habitacionais. percursos ocupacionais. o aluguel e a casa própria auto-construída. no VIII SIMPURB . Espaço. inclusive. em Pernambuco.AMÉLIA LUISA DAMIANI 4. As fronteiras estão e. ao mesmo tempo. Civilização: por “uma transformação radical da sociedade como sociedade política”. Mas logo se reconheceu o outro da cidade preparada como condição do capital: a “cidade” dos pobres urbanos. que concentrava o substancial do moderno processo de produção. as favelas. Dela derivou um lugar à política habitacional governamental.Cidade. não um fato empírico decisiva e facilmente constatado. que articulam trabalho. os mutirões. A partir deste segmento é possível falar de segregação sócio-espacial e centralidade como opostos e compostos. no período de 10 a 14 de novembro de 2003. É uma problemática. realizado no Recife. Eram os cortiços. Ele advogava a dificuldade de falar em segregação espacial. Mas a cidade é real. moradia e serviços urbanos. também. e ela propõe trajetórias. produzidos por esse duplo processo de capitalização. 5.Simpósio Nacional de Geografia Urbana51. os loteamentos clandestinos. os conjuntos habitacionais. não estão estritamente delimitadas. especialmente considerando as estratégias de manutenção de parte do loteamento em espera para valorizações potenciais). com seu sentido político integrador. estes últimos inclusive definidos como negócios lucrativos (especialmente quanto aos lotes produzidos nas fronteiras urbanas.

Trata-se de uma temática aberta. põe o relacional. de alguma forma. Odette Carvalho de Lima Seabra. Trabalho com a noção de medida e sua importância na compreensão das periferias metropolitanas. SÃO PAULO. contém uma análise nessa direção. localizadas. coordenado pelos professores Ana Fani Alessandri Carlos e Carles Carreras. Assim teríamos. inclusive.”52 Então. referente ao projeto “Globalización y Transformaciones Socio-Espaciales en las Metrópolis del Siglo XXI: Barcelona y São Paulo”. 53 83 . 55-88. Outros momentos da argumentação aqui exposta compõem esse texto de modo mais analítico. em Barcelona. E. como são tecidas essas relações no espaço vivido é mais complicado de considerar. Texto que poderá ser publicado em livro. Muda a medida do fenômeno periférico. Vera da Silva. nº 83.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. numa sociedade que. Trajetórias urbanas: fios de uma descrição da cidade. que do ponto de vista da mobilidade do capital são também mobilidades espaciais53. ela é recorrente e se torna aguda hoje: são milhões de moradores nas franjas dos espaços urbanos. Um texto. há segregação espacial. 7. (no prelo). espacialmente falando. a necessidade de pensar na existência de redes. ainda em 2006. A relação entre o fenômeno urbano e o cotidiano na geografia urbana tornou-se temática importante. como bem lembradas pela profa. Aqui se localiza o tratamento necessário da multidão e essas multidões tendem a ser verdadeiras muralhas de habitação popular. Sobre este assunto é importante considerar as aquisições de outros trabalhos envolvendo a alteração da natureza do fenômeno. 2005 Três dimensões entrelaçadas nas trajetórias individuais e familiares. as centralidades das periferias. com suas conseqüências a enfrentar. de acordo com a diferença de magnitude expressa. Pierre George em Sociologia e Geografia avalia que é comum a possibilidade de uma concepção da importância das comunicações e das técnicas de informação enquanto elos de cada lugar com o mundo. do ponto de vista da lógica do espaço e da realidade do espaço. tornase impossível não se relacionar com o outro da segregação: as centralidades. 52 TELLES. sob o título “Urbanización Crítica: Periferias Urbanas – Elementos a considerar en el camino de la comprensión de la ciudad como sujeto”. mesmo de modo irrisório. contudo. p. manuscrito p.

para constituir a possibilidade de uma geografia do movimento. Não existem só formas de combinação. p. uma varredura dos seus usos e moradores existentes. isto é.55 Isto é. A valorização e capitalização das periferias. sintonizada com os fundamentos da sociedade contemporânea. a exemplo do Rodoanel Mario Covas. 6. que envolve potencialmente a metrópole inteira. São Paulo: Loyola. em livros posteriores. Com toda a turbulência implicada. é preciso localizar o sentido da “grade de práticas espaciais”. 203. Deste ponto de vista. 1978. 54 55 HARVEY. RONCAYOLO.54 Nos termos de Roncayolo “a cidade é um campo de práticas”. em São Paulo. Trajetórias urbanas: fios de uma descrição da cidade (no prelo). Paris: Gallimard. mas rupturas postas nessas implicações. existem níveis e dimensões de espaços a decifrar. inclusive reproduzindo formas de especulação financeira e fundiária. Vera da Silva. A noção de situação geográfica é de grande valia para interpretar a materialidade do processo urbano e suas derivações enquanto determinações formais do processo do capital. 84 .AMÉLIA LUISA DAMIANI Com toda a necessidade de reconsideração. Condição Pós-moderna. Desde o início. constitutivas de centralidades potenciais. em prol de novas estratégias e empreendimentos. inclusive proposta pelo próprio autor. citado por TELLES. acabam por levar a uma acumulação primitiva desses espaços. as estratégias de expropriação devem ser gigantescas. 1992. Considerando a imensidão das periferias. há uma metamorfose da funcionalidade da presença do trabalhador potencial na do morador temporário. La ville et ses territoires. Marcel. David. intentada por David Harvey em Condição Pós-moderna. a geografia concebeu essa necessidade de pôr a relação do núcleo urbano com seu entorno e a concepção vem se mobilizando desde então.

Elas são menos econômicas e mais diversas pois há limites de tratamento econômico dos seus fundamentos. diferentes. insurgentes. igrejas. pois facilita o caminho a percorrer para realizar os desejos de consumo administrados.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. A sobrevivência e a vida como contradições no plano do possível-impossível. Os moradores vivendo esse sentido de perda: os adensamentos habitacionais. próprios a essa economia. um exemplo interessante é o do Shopping Center Tatuapé. SÃO PAULO. 55-88. que acaba por se tornar incômoda aos desígnios da promoção espacial. eis a conclusão. que situa a destituição produtiva como incluída e a necessidade e a atração sedutora de consumos diversos. 2005 Exatamente tendo em vista esse processo de produção de centralidades. institucionalidades que também perfazem as trajetórias mencionadas: descentralização dos poderes políticos. organizações não governamentais. como os shoppings centers. a extensão precária do tecido urbano. no interior da sobrevivência reiterada todo dia. Mas põem-se também ações insurgentes e potenciais que buscam a vida. 7. amontoados de gente sem infra-estruturas 85 . pode-se pensar na presença de equipamentos.. Sendo que a grande droga é essa economia. toda ordem de institucionalidades se põe como anteparo e solução. Em São Paulo. os territórios estritamente demarcados . envolvendo as periferias. nº 83. O tráfico de drogas faz parte das seduções dos consumos vários. onde existe uma circulação de pobres urbanos da região. Considerando essa base. clientelismos políticos e institucionais.. os hipermercados. p.. associações de moradores nominais. que alçam a presença do intermediário possível nesta situação limite: os negócios ilegais e a proletarização e morte.como o do tráfico de drogas. Diversas. que envolvem. localizando a possibilidade de vida: seu traço é cultural e ambiental. surgida com a capitalização do “bairro” do Tatuapé. significativamente. negando explicitamente os limites de sobrevivência. que alteram as trajetórias e a dinâmica das periferias. Dando identidade irreverente a espaços de sobrevivência. E definem o sentido do processo de expropriação potencial.

In girum imus nocte et consumimur igni e basuras y escombros.57 Espaços como diz um militante amigo. Ana Fani Alessandri e CARRERAS. Sérgio Manuel Merêncio. CARLOS. ver: MARTINS. Instituto de Geociências. BARRETO. FFLCH. 12-16. p. daí seu perfil cultural e ambiental. 1992. A reprodução da cidade como “negócio”. São Paulo: Loyola. 2004. 2005. p. Inserção internacional de governos locais. Governo do Estado de São Paulo. Tese de doutorado. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. USP. ano 17. Guy. 1999. La société du spectacle. FREITAS.) Urbanização e mundialização – estudos sobre a metrópole. Universidade de Minas Gerais. Barcelona: Anagrama. 1992. Carles (orgs. David. HARVEY. agosto/setembro de 2004. É a tentativa de buscar espaços qualitativos56. 2000. 2003. São Paulo: Contexto. Revista Teoria e Debate. das formas institucionais dos ambientalismos. O mercado de terras informal nas áreas de mananciais. BUENO. 56 Ver o tratamento substancioso do tema em: SEABRA. Guy.. São Paulo: UNICAMP (manuscrito). Maria Inês. DEBORD. São Paulo: DG. mapeando novas raridades. BIBLIOGRAFIA Avaliação Ambiental Estratégica do Programa Rodoanel. Condição Pós-moderna. nº 59. . A reprodução social da metrópole em Belo Horizonte: APA Sul RMBH. 2004. Odette Carvalho de Lima. Tese de livre-docência. Ana Karina S. 57 86 . Aldo: de busca da “extrema beleza como direito”.AMÉLIA LUISA DAMIANI urbanas. Ana Fani Alessandri. neste último caso. e REYDON. Urbanização e fragmentação: cotidiano e vida de bairro na metamorfose da cidade em metrópole. diferente. 29-37. Eliano de Souza Martins. DEBORD. Bastiann P .. IN: CARLOS. Sobre o significado do ambientalismo. Belo Horizonte: Programa de Pós-graduação em Geografia. Paris: Gallimard.

2002. LEFEBVRE. 1995. Giuseppe. Revue La Somme et le Reste – études lefebvriennes – réseau mundial. Paris: Cercle d’Art. 55-88. nº 1. 4ª edição. ano 18. Odette Carvalho de Lima. Universidade de São Paulo. A propos du centenaire de la mort de Marx. Nos confins da metrópole: o urbano às margens da represa Guarapiranga. 87 . nº 83. 2003. nº 3. Paris: Anthropos. México: Fondo de Cultura Económica. Teoria e Debate. São Paulo: Departamento de Geografia. Novidades na América do Sul. Los límites del capitalismo y la teoría marxista. 2005 HARVEY. Paris: Anthropos. p. fevereiro de 2004.Art et Utopie – textes situationnistes. Paris: Gallimard. 1990. São Paulo: FPABRAMO. Universidade de São Paulo. New Babylon. p. Revue La Somme et le Reste – études lefebvriennes – réseau mundial. Argentina: Siglo Veintiuno. SÃO PAULO. 20-26.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. LEFEBVRE. Henri. David. p. Letras e Ciências Humanas. Letras e Ciências Humanas. Sérgio Manuel Merêncio. 21-24. Constant . La banque mondiale et les villes – du développement à l’ajustement. Henri. MARX. A espoliação urbana. La production de l’espace. 2000. abril/maio de 2005. KOWARICK. Annik. NEGRI. LEFEBVRE. Henri. Morceaux choisis. Quand la ville se perd dans la métamorphose planétaire. tradução de Henri Lefebvre e Norbert Guterman. Lúcio. volumes 1 e 2. MARTINS. Tese de livre-docência. Tese de doutorado. Elementos fundamentales para la crítica de la economia política (Grundrisse) 1857-1858. OSMONT. 1997. Faculdade de Filosofia. Karl. LEFEBVRE. Méthodologie des sciences. HEGEL. SEABRA. Henri. nº 62. 2002. 1995 (1ª edição 1939). Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1979. 1977. Paris: Karthala. 1999. em São Paulo. Urbanização e fragmentação: cotidiano e vida de bairro na metamorfose da cidade em metrópole. p. 40/42. São Paulo: Departamento de Geografia. Antonio e COCCO. Faculdade de Filosofia.

VANEIGEM. Gramática de la multitud – para un análisis de las formas de vida contemporáneas. VIRNO. 1996. Raoul. Isidore Ducasse et le Comte de Lautréamont dans les Poésies (veiculado por internet. VANEIGEM. 2003.TELLES. Madri: Traficantes de Sueños. Trajetórias urbanas: fios de uma descrição da cidade (no prelo). Vera da Silva. Paolo. Paris: Gallimard. Raoul. Nous qui désirons sans fin. 88 . 2005).

através da construção do ideário das riquezas naturais como bem comum e da necessidade de suprir as necessidades da geração atual e da futura. em especial.2 1 2 Profa. encontros. simpósios. território.br. do território. Palavras-chaves: ambiente. CLASSES SOCIAIS Arlete Moysés Rodrigues1 RESUMO Este ensaio apresenta. A pesquisa científica tem um tempo longo de maturação. em 2005.PROBLEMÁTICA AMBIENTAL = AGENDA POLÍTICA ESPAÇO. Livre Docente da UNICAMP – amoyses@terra. mas as idéias aqui contidas foram apresentadas em debates. conflitos sociais. 89 .com. classes sociais. no discurso oficial sobre desenvolvimento sustentável. como forma de ocultar contradições de classe. das relações sociais. do espaço. ponderações sobre o ideário do “desenvolvimento sustentável”. de apropriação das riquezas naturais. na Semana de Meio Ambiente de Geografia da AGB-SP. INTRODUÇÃO Este texto tem o objetivo de apresentar algumas análises sobre a construção do ideário de desenvolvimento sustentável. Tenta mostrar que os problemas ambientais são utilizados. que não existem sem expressão espacial. Destaca a importância da Geografia e dos Geógrafos para colocar em destaque a complexidade do território. Este texto foi escrito especialmente para o Boletim Paulista de Geografia. com uma perspectiva crítica. TERRITÓRIO. espaço. desenvolvimento sustentável.

2a edição). Indagamos se o limite é conceitual ou se diz respeito aos objetivos que se pretende obter. porque totaliza 3 Documentos oficiais da ONU. às causas e conseqüências da dilapidação das riquezas naturais. 1989:53). De acordo com Deleuze & Guattari (1991). em especial o Relatório “Nosso Futuro Comum”. Qual é a extensão que se pretende com o “conceito” de desenvolvimento sustentável? Parece que é o planeta Terra. projetos. aprofundou as formas de ocultar os conflitos entre classes sociais. transformou a questão ambiental em agenda política de países e entre países. Afirma-se que o “conceito” tem limites (Nosso Futuro Comum. como um “objetivo” a ser alcançado num futuro. enquanto a compreensão refere-se ao “conjunto dos caracteres. 90 . Veja-se. Extensão significa “o conjunto particular dos seres aos quais se estende este conceito”. sem análise da complexidade da configuração do mundo real. que constituem sua definição” (Japiassu. O desenvolvimento sustentável é apresentado como “conceito” 3 . afirmam que desenvolvimento sustentável é um conceito. em programas. conflito. em especial “Nosso Futuro Comum/Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento” (1991. Um conceito exprime uma noção abstrata que se refere a um objeto suposto único. conceito é necessariamente complexo: “conceito é um todo.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES Partimos do pressuposto de que o uso do termo provocou deslocamentos de análises em relação ao território. ou a uma classe de objetos. Apresentamos algumas inquietações com a intenção de propiciar debates sobre o tema que virou “moda” nas agendas políticas. 1991) que deverão ser superados com o avanço da tecnologia e da organização social. visando “garantir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras atenderem também as suas”. sem nenhuma contradição. É caracterizado por sua extensão e compreensão. Quais seriam os conjuntos de caracteres? Parece que tudo e nada ao mesmo tempo. pesquisas.

1991:27-28). A junção das duas palavras – “desenvolvimento” e “sustentável” – tornou-se “senso comum”. mas uma idéia que pretende encontrar soluções para problemas de esgotamento. O termo “desenvolvimento sustentável” não é um conceito. Criou um ideário de que todos são igualmente responsáveis pela depredação das riquezas e pela preservação para as gerações futuras.. dificulta a análise crítica6. Todo conceito remete a um problema e os problemas exigem ‘soluções’ pois são decorrentes da pluralidade dos sujeitos.. U. de sua apresentação recíproca” (Guattari. Beck. e Moigne. nº 83. SÃO PAULO. Transformou a questão ambiental em agenda política. a existência de classes sociais. de preservar riquezas para as gerações futuras são tão fortes que viram palavras mágicas? 4 Utilizamos “riqueza natural” como contraponto de “recursos naturais”.. ao mesmo tempo. (1997). O debate sobre se o termo é um conceito. promover a “diminuição da pobreza”. uma proposta é importante para aprofundar o conhecimento de categorias analíticas. o “bem comum”. poluição das riquezas naturais4. num futuro. 2000. A. consenso para a formulação de políticas para utilizar as riquezas naturais (os recursos) de modo a não destruí-las e. Idéia genérica que abstrai a realidade. p. o último caracterizando os elementos da natureza como mercadoria. Tornou senso comum a preocupação com a biosfera.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. veja-se Giddens. Deleuze. Lasch S. Sobre complexidade. mas um todo fragmentado. cria uma espessa cortina de fumaça sobre a apropriação dos territórios. G. veja-se Morin. continuar com o desenvolvimento.. moda. Como se contrapor à manutenção das condições de vida para as gerações futuras? Como colocar a idéia dos bens vitais como bens comuns? As idéias do meio ambiente “bem comum” da humanidade. 89-107. sua relação. 2005 seus componentes. 5 6 91 . a reflexividade 5 do modo de produção de mercadorias. oculta a complexidade... sobre reflexividade. F. uma noção. E.

conflitos. as classes sociais podem ser diferenciadas entre. Aparece como um “conceito” sem instrumentais teóricos analíticos que exprimam porque é tido como conceito. referir-se à totalidade do meio físico e social. os que possuem a força de trabalho e que vivem. do desenvolvimento e das “gerações futuras”. Em vez de “ambiente” – que exprime a totalidade. em frações e extratos de classes – que aparecem como classes de rendas. aqueles que detêm o poder. Tornou senso comum a simplificação. a falta de análise de complexidade. do meio ambiente. por exemplo. 8 92 . em geral.8 Os problemas ambientais. são reais e debatidos desde o século XVIII. As questões apresentadas dizem respeito à forma como se traduzem problemas. o dinheiro. pesquisas que utilizam o termo “desenvolvimento sustentável”. sem considerar a realidade concreta. Mas a capacidade humana de pensar. Simplificadamente. projetos. para os segundos. A sociedade é dividida em classes sociais. Veja-se Relatório Nosso Futuro Comum. Não há neste texto negação da problemática. tem sido “reduzida” a “recursos 7 O meio ambiente entendido como externo à sociedade é visível quando se analisam. programas. Agenda 21 (e as Agendas 21 locais). o conhecimento e o domínio das técnicas e. de um lado. ricos e os pobres. na sua origem. no limite da sobrevivência. de outro lado. que parece referir-se principalmente ao meio externo à sociedade. problemáticas ambientais. contradições. Tornam-se mais conhecidos na segunda metade do século XX. os EIA-RIMAS e as propostas de mitigação de efeitos dos empreendimentos ao meio físico. embora pudesse. a ênfase é dada ao “meio ambiente”. Todos têm como atributo fundamental a capacidade de pensar. Não há idéias de compensação pelas perdas imprimidas aos indivíduos.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES Desenvolvimento sustentável passou a ser uma idéia mágica (não um conceito) para a resolução de problemas do meio-ambiente. a complexidade –.7 A sociedade é uma abstração nos documentos oficiais.

os países pobres poderiam pôr em risco as riquezas.9 Embora todos os componentes da sociedade sejam promotores do desenvolvimento. recebem os “frutos bons” do progresso. religiosas. um mito. São tidos como responsáveis por suas mazelas e pelas da humanidade. São tidos como os maiores responsáveis pela poluição. não têm acesso a educação. depredação das riquezas naturais. no geral. SÃO PAULO. Assim. p. várias pequenas lendas. ao apontar que os recursos naturais eram vitais para o desenvolvimento econômico. embora já fosse conhecido que o maior uso e abuso das riquezas naturais ocorria nos países do centro do sistema. Assim. em 1972. uma idéia para o futuro. nº 83. 1992). que criam empregos. 2005 humanos”. das técnicas e de seus usos futuros ”. o progresso é atribuído aos detentores de capital. Uma lenda. O trabalho não é considerado. étnicas. informação. novos temores. o receio de perda de qualidade de vida etc. recriam. os pobres – a maioria – só recebem os “frutos podres”. está alicerçada nos documentos anteriores da ONU e na idéia de que a preservação dos recursos naturais só poderia ser obtida com o uso de alta tecnologia sob a proteção dos países ricos. saúde. força de trabalho. Os problemas de esgotamento de riquezas naturais. mas a preocupação se torna mais explícita após a segunda metade do século XX. Em 1962. a dilapidação do meio ambiente aos países pobres e aos pobres. 89-107. Como diz Baudrillard: “novos medos. 93 . a falta de empregos à falta de iniciativa da força de trabalho. destacava que o desenvolvimento econômico nos países menos desenvolvidos poderia pôr em risco os recursos naturais (McCormick. os pobres. políticas ou a grande e falsa lenda planetária da informação. a poluição. o “medo” de destruição.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. do mundo conhecido. A proposta de crescimento zero do Clube de Roma. são debatidos desde o início do processo de industrialização. na Conferência do Meio Ambiente. a ONU. moradia. equipamentos. Consideramos que entre as novas lendas está a do Desenvolvimento Sustentável. 9 Atribui-se a pobreza aos pobres.

pelos representantes dos países. e para quem haverá futuro. Não se explicita quando será o futuro. Na 2 a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD). mantendose o modo de produção de mercadorias e atribuindo os problemas 10 Nobre. em 1992. 2002. referenciada na publicação do Relatório Nosso Futuro Comum. que resultou na assinatura. as formas de apropriação das riquezas. sem que se saiba quem a utilizou pela primeira vez. 94 . no futuro. da Agenda 21. A afirmação de que em 1962 os interesses das corporações internacionais ficaram ocultos é passível de ser observada quando se analisa que as propostas dos países da periferia do sistema capitalista não foram contempladas no ideário do desenvolvimento sustentável. apontava a preocupação internacional com o desenvolvimento e o esgotamento de recursos. apresentamos uma breve síntese sobre os debates oficiais internacionais. em Estocolmo. “desenvolvimento sustentável” torna-se expressão “usual”. porém apareciam como conflitos entre países.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Para tornar explícita a idéia de que desenvolvimento sustentável é um ideário construído que oculta as causas e as conseqüências da problemática ambiental. em 1972. Os conflitos entre o norte “desenvolvido” e o sul “subdesenvolvido” expressavam também os interesses das corporações internacionais na implantação de indústrias poluentes e na exploração de recursos naturais dos países da periferia do sistema. que torna obscuro compreender a existência de classes sociais. Desde a assinatura da Agenda 21. a importância do território. coloca-se o desenvolvimento sustentável como meta a ser atingida. A 1 a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente. no Rio de Janeiro. Maurício.10 Incorporar a palavra “sustentável” a “desenvolvimento” foi um ajuste na terminologia. Marcos e Amazonas.

Também representou um ajuste das “responsabilidades”. nº 83. “a biosfera”. p. 89-107.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. algumas análises da produção para o consumo. Implanta-se a idéia. de que a “preservação. para o bem e para o mal. em princípio. A aparência de neutralidade da técnica mostra a importância que os países “desenvolvidos” e as corporações internacionais têm no meio técnico-científico-informacional. também. 95 . em especial no Brasil. em especial. C. com a coleta. Desloca as formas de apropriação das riquezas territoriais. 2005 aos desvios do “modelo” de cada país. apropriadas privadamente. Serfati. e não ao modo de produção dominante. mas. É um princípio discursivo para tratar dos problemas ambientais que ocultam a complexidade da problemática ambiental. mas não no meio técnico-científico-informacional. propostas municipais. é porque ela foi primeira utilizada para dominar o trabalhador independente frente à sociedade” (Chesnais. A solução para os problemas do meio ambiente advirá do uso de tecnologia “apropriada”. separação dos resíduos sólidos recicláveis. denomina-se de Agenda 21 local a que se refere a projetos. pois todos passaram a ser responsáveis pelos problemas de esgotamento e poluição dos recursos. Obscurece. São os “zeladores” do meio ambiente para as gerações futuras. para a “natureza”. Teoricamente. Desloca os conflitos de classes para a idéia abstrata de gerações. F. deveria ser a agenda de cada um dos países que assinaram o documento da CNUMAD. nas Agendas 21 locais. Deslocam-se. conservação” dos recursos naturais poderá provocar a “inclusão” social. o “meio ambiente” como bem comum. SÃO PAULO. esconde a importância do território. Mas “Se a técnica tomou a aparência de um potencia independente frente à sociedade. Esse exemplo da chamada “inclusão” nos mostra que a técnica não é neutra e que serve como uma alavanca para dominar o trabalhador. que passa a ser objeto de programas da Agenda 21 e das Agendas 21 locais. vivendo de “restos” da produção os excluídos seriam incluídos no sistema. 2003:60). A Agenda 21 local.. A técnica parece neutra.

por exemplo. se aparentemente as problemáticas podem ser resolvidas com a tecnologia de ponta? Como “cuidar” das riquezas naturais se o território parece não ter importância? Onde estão as riquezas naturais? Qual a importância do território. mas não basta repetir palavras vazias de conteúdo. que não obedece a fronteiras administrativas ou políticas. para as gerações futuras. a aceitação de desenvolvimento sustentável relacionado ao meio ambiente fornece um amplo leque de alternativas decorrente da própria imprecisão do termo. a sustentabilidade econômica é contraditória com a idéia de sustentabilidade social. é elevada ao primeiro plano da agenda política e todas as questões e problemas referem-se ao meio ambiente como bem comum e as necessidades das gerações futuras. Para alguns estudiosos. Consideram possível construir uma agenda política para mudanças societárias. Também é importante compreender a dinâmica da natureza. A ilusão faz com que a expressão mais utilizada seja a de que “todos” devem contribuir para o futuro da humanidade. territorial. Busca-se legitimar o desenvolvimento sustentável com definições sobre sustentabilidade social. as diferentes escalas. o tempo geológico. políticos. lugar. política. A busca de legitimação científica com definições de sustentabilidade aponta que o desenvolvimento sustentável 96 . ao território. Mas como compreender a dinâmica. espacial. espaço.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES As abstrações em relação ao espaço. paisagem? Preservar áreas “reservadas” para a perpetuação do capital e do modo capitalista de produzir mais e mais mercadorias ou da sociedade? Como evitar a sociedade do descartável e a sociedade descartável? A questão ambiental. É preciso analisar a realidade para compreender o significado da “contribuição” de todos que está expressa nos documentos oficiais. com o mito do desenvolvimento sustentável. É fundamental a contribuição de todos. Porém cada uma dessas definições é contraditória em relação à outra. técnicos. econômica. às classes sociais iludem cientistas. ecológica.

sobre os limites das ciências para compreender a biosfera. podiam passar muitas horas confortáveis tentando definilo sem sucesso” (O’Riordan 1993:27 in Nobre. assim. a ser o tema mais importante do final do século XX e início do século XXI. M. SÃO PAULO. programas. “sustentabilidade” e/ou “sustentável” aparecem como eixo norteador. “sustentabilidade”. O meio ambiente passa. de acadêmicos e diplomatas. 89-107. Porém o que nos preocupa é a forma como se ocultam as contradições e os conflitos. empregos. na agenda política internacional. O termo “sustentabilidade” foi utilizado inicialmente como mediador. 97 .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. projetos. Os deslocamentos discursivos impedem que se compreenda que os conflitos de classe passaram. parece aceitar a questão ambiental como moda. da tecnologia na apropriação das riquezas naturais?11 11 Há também os oportunistas que buscam conseguir recursos para implantar projetos. agenda política. 2005 realizou a façanha de reunir visões antagônicas. 2000:42). de modo que as correntes sem fim.. nº 83. do poder dos detentores do conhecimento. para os conflitos de gerações? Impede que se analise a importância do território para a reprodução ampliada do capital? Dificulta a análise do espaço. trabalhos etc. da produção do espaço. O ideário do desenvolvimento sustentável. mesmo sem nenhuma formulação sobre quais os limites na utilização de recursos. p. e Amazonas M. ou seja. sem analisar como se oculta a realidade. A construção discursiva do desenvolvimento sustentável parece limitar também o desenvolvimento do principal atributo do homem. da sustentabilidade é uma espécie de resposta ao que era considerado na década de 60 como limites do “desenvolvimento” (entendido como crescimento econômico) e o meio ambiente (no sentido de estoque de recursos naturais). a capacidade de pensar. para lançar uma ponte entre os “desenvolvimentistas” e os “ambientalistas” com um “ conceito vago e inerentemente contraditório. É preocupante verificar que a maioria dos que utilizam “desenvolvimento sustentável”. Num grande número de pesquisas.

falava-se em matérias-primas e/ou fontes de energia para os elementos da natureza como o ferro. para os capitalistas (chamados de ecocapitalistas). o Estado tem de ser “mínimo”. As riquezas naturais são mercadorias desde o advento do capitalismo. sobretudo. no entanto são as corporações multinacionais que detêm o poder da tecnologia. ESPAÇO. o betume. atingir o desenvolvimento sustentável e. o carvão de pedra. têm de ser preservadas. a água. CLASSES SOCIAIS Os elementos da natureza. usar novas tecnologias. a aceitação do desenvolvimento sustentável implica impor regras de controle. sem contradições e conflitos. em especial com a hegemonia do pensamento neoliberal. TERRITÓRIO. como meta. São formas de ocultar a realidade através dos discursos. pois tudo se resolverá no futuro. São os Estados que assinam a Agenda 21. não têm o certificado ambiental. as riquezas naturais. a madeira. os vegetais. de controle de resíduos e. conferindo-lhes legitimidade para a concorrência com outras empresas “que não contribuem para a preservação do meio ambiente”. a hulha. Os Estados são responsáveis pela implementação. mas. A institucionalização do termo “desenvolvimento sustentável” está ligada à hegemonia da economia neoclássica predominante no Banco Mundial quando da assinatura da Agenda 21. porém a mercadificação atinge novas dimensões. a financeirização da economia. Até a primeira metade do século XX. as matériasprimas passaram a ser “recursos naturais” que devem ser utilizados para a reprodução ampliada do capital. para o neoliberalismo. obter certificados de uso racional de recursos (ISOS). como referencial. Embora 98 . em 1992. porém. o neoliberalismo. permitir a continuidade de reprodução ampliada do capital.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES É evidente que. o carvão. ao mesmo tempo. A agenda política passa a ser construída tendo. entre outros.

Consideradas como riquezas “naturais” à disposição para apropriação. ter-se-ia de analisar o ambiente (incluída a sociedade. compradas e vendidas no mercado. hoje incluída no “agronegócio” computa-se nos “custos” a mão99 . a biosfera em sua totalidade. debater o valor da vida. do ar. mas o valor para a vida não era contabilizado. o diamante (África). dos elementos e riquezas naturais. 1991) aponta que o fato de as riquezas naturais não serem contabilizadas gera problema para a economia. Vandana Shiva (Shiva. com papéis que garantem a posse/propriedade das mercadorias no território – a propriedade intelectual.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. o valor de mercado. fator de inflação. e que essa característica altera-se com o novo imperialismo. Exemplo: o guano (Peru). o carvão. Cabe lembrar que neste período – colonialismo e imperialismo – o domínio do território era demarcado por posse. Observa-se inclusive que o valor não foi incluído nas contabilidades. desterritorializando o território. por exemplo. do ambiente e até mesmo sua financeirização. Além dessas riquezas naturais. O que se considera é o preço. ao serem omitidos nas contas. o petróleo eram riquezas naturais. a concepção era diversa da atual. uso e propriedade dos que as estavam explorando. o ouro e a prata (Américas). SÃO PAULO. o ar puro. o espaço etc. a atmosfera. p. esquece-se de que o esgotamento ou a limitação da exploração pode ser. não pelo seu valor. da água. 2005 mercadorias e tidas como capitais naturais. A autora lembra que o valor em si não é computado. desde o final do século XX. o ferro. o pau-brasil. A financeirização da economia retirou o lastro da produção e também a possibilidade de incorporar o ambiente. nº 83. 89-107. ao mesmo tempo em que o tema “meio ambiente” é incorporado na agenda política. Dádiva divina para quem as explorava. Um exemplo: na exportação de madeira. O preço era estabelecido pela raridade e pela exploração. Para se considerar o valor. são também mercadorias: a água. Repercutem no computo econômico mas.). apropriação direta ou indireta de territórios. Há a mercadificação da paisagem.

construir-seiam possibilidades de preservação dos “recursos naturais”. etc. no futuro (sempre enunciado. existem. as metas do milênio devem ser atingidas no século XXI. o tempo de formação da vegetação. Já estamos no século XXI. o território. O deslocamento discursivo de “ambiente” para “meio ambiente”. De modo geral. a categoria de análise “espaço” permanece “oculta”. e os discursos continuam a referir-se ao futuro. o bem comum da humanidade. as máquinas utilizadas. A força de trabalho transformou-se em “recursos humanos”. devendo ser treinada (ou adestrada) para não provocar esgotamento dos “recursos naturais”. 100 . com o pressuposto de que os problemas espaciais e sociais seriam resolvidos no futuro. Assim. Arlete Moysés. desloca conflitos de classes para o um suposto conflito de gerações. grande volume de capitais. o espaço onde as relações sociais concretas se constituem. Ou seja. de “desenvolvimento” para “desenvolvimento sustentável”. O desenvolvimento sustentável busca o equilíbrio num futuro. tem um preço. Embora a problemática ambiental coloque em destaque a importância do espaço12. a retirada de água e de nutrientes do solo. pois a Agenda é Agenda 21. mas não se analisa o seu valor. 1998. sem considerar o presente e o passado. a agenda política construída com os problemas ambientais oculta o espaço. ambiente”. mas não a árvore da qual foi retirada a madeira. e os conflitos de apropriação dos territórios para a “natureza. utilizando-se alta tecnologia. têm contradições e conflitos. Parece que o tempo futuro é o século XXI. mas nunca atingido). a madeira como mercadoria aparece no mercado. o transporte etc. da “força de trabalho” para “recursos humanos” oculta a existência das classes sociais e a importância do território. transforma o meio ambiente em bem comum. Oculta o lugar.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES de-obra barata e superexplorada.. de “matérias-primas e energia” para “recursos naturais”. 12 Rodrigues. esconde as relações sociais. com o uso adequado das “novas” tecnologias.

os conflitos da apropriação. Paul. desde a revolução industrial até nossos dias. David. a realidade transforma-se em abstração.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. em especial o motor da informática. p. O tempo curto de transformações sociais. como esperar que essa mesma tecnologia promova a sustentação do modo de produção? Se as formas de produzir comprometem a reprodução da vida presente. utilizando-se dos motores da história e suas poderosas máquinas14. Reafirma-se na medida em que serão as novas tecnologias que irão proporcionar o desenvolvimento sustentável. alterações no ciclo da vida. 101 . que provoca mutação nas formas de produzir. decifração do código genético. SÃO PAULO. Sabemos que do século XVIII ao XX as transformações provocaram a compressão do tempo/ espaço13.. propriedade dos meios de produção e a existência de classes sociais. a fé na ciência/ tecnologia. Nega-se na medida em que as tecnologias do passado provocaram os problemas ambientais e precisa-se de tecnologias adequadas. parece não ser obstáculo para o desenvolvimento sustentável. então como acreditar que sua continuidade resolverá os problemas para as gerações futuras? Nega-se e reafirma-se. que é guardado em bancos de germoplasma (para o futuro). Sobre a designação motores da história. comunicação instantânea. Constrói-se o mito do conceito de desenvolvimento sustentável. comparado com o tempo longo da natureza. nº 83. Nega-se também a capacidade de “pensar” das gerações futuras para encontrar outras formas de sobrevivência que não as atuais. reordenam o processo de trabalho em todos os setores. 1992. os avanços da biotecnologia com a produção de transgênicos etc. 13 14 Veja-se Harvey. as contradições. 89-107. Oculta-se a importância do território. ao mesmo tempo. Ao ocultar as classes sociais e deslocar os conflitos entre a geração presente e a futura. 2005 Se a tecnologia acelerou a degradação do ambiente. O tempo de que se fala nunca existiu e parece que não será alcançado nem nas gerações futuras. veja-se Virilio.

utilizados como fonte de energia diretamente ou indiretamente para as máquinas. entre urbano e rural. a tecnologia.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES É importante considerar que há um desafio para analisar o espaço com mudanças substanciais no que se considerava separação entre campo e cidade. produtos agrícolas. as riquezas naturais. dos lugares. é tido como uma forma de garantir o meio ambiente – um bem comum da humanidade. reprodução. Como já dito. do território. Os bancos de germoplasma guardam o poder do conhecimento para o futuro. é fundamental que analisemos a complexidade da produção. do neoliberalismo. riquezas esgotáveis como o petróleo. da força de trabalho não é considerada na agenda política ambiental. consumo. e como a preocupação com a geração futura “esquece” as contradições e conflitos de classes. a do “bem comum” “esquece” a importância do território e das riquezas naturais. energia da força de trabalho. Trata-se de compreender como as idéias de busca do futuro “esquecem” o passado e o presente. o registro da patente. os motores utilizados para produzi-los) e a força de trabalho utilizada tanto na produção direta como na indireta. carvão. 102 . independentemente do local onde se encontram. No novo imperialismo. a apropriação das riquezas do ambiente. Guardar para o futuro. garante a “propriedade intelectual” aos que detêm as técnicas. impõe o domínio político e econômico com a financeirização. Para destacar a importância do espaço. A “nova” divisão territorial do trabalho. exportam-se também elementos da natureza que se esgotam (solo. que Harvey (2005) denomina apropriadamente de novo imperialismo. água. Junto com as mercadorias. o poder das corporações multinacionais. em especial para as gerações futuras. matérias-primas. Um “papel”. os “recursos” podem ser patenteados. O Estado-Nação é subjugado pelas normas do capital financeiro.

2004. é importante também considerar a divisão técnica do trabalho entre as diferentes categorias profissionais. SÃO PAULO. meios e força de produção) que garantem o poder em seus vários matizes. 2005 CONSIDERAÇÕES GERAIS O espaço. consome força de trabalho. Os conflitos de apropriação das riquezas naturais são transformados com a tecnologia informacional. “transformam-se” em direitos individuais. capital.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. da Geografia é necessário compreender a complexidade do mundo atual. Além da divisão social e territorial do trabalho. é mais poderoso do que a capacidade que temos de o analisar e das formas retóricas e discursivas que tentam ocultá-lo.15 As contradições e conflitos de classe não aparecem. p. o que não é uma tarefa fácil. território. especialmente a agenda política do meio ambiente onde não há classes sociais. com a agenda ambiental transformando-se em agenda política. como mostra Harvey (op. energia. insere o mundo no fetiche das contas. 89-107. pois o poder de intervenção ou atuação no espaço depende da apropriação e propriedade (terra. e cabe aos Geógrafos não se intimidar pelas tentativas discursivas e não aceitar a subalternidade. provoca poluição. compromete o ambiente. com a tentativa de ocultar o espaço e diminuir a importância dos Geógrafos. As contradições e conflitos de classes são novamente transmutadas com o ideário de preservação do meio ambiente para as gerações futuras. O desenvolvimento como progresso produz sempre novas mercadorias. 15 16 Veja-se Rodrigues.16 Para mostrar a importância do espaço. com o poder de conhecimento técnico. Arlete Moysés. O poder do espaço e da Geografia que o analisa são demonstráveis pela tentativa de ocultar a importância do espaço e dos Geógrafos. contradições. matérias-primas. altera o uso do solo. conflitos. dilapida os elementos da natureza.cit) ao analisar o processo de construção da hegemonia norte-americana. nº 83. 103 . A Geografia ficou “subalterna” das ciências dominantes. A problemática ambiental mostra a importância da Geografia. objeto de estudo da Geografia.

à educação. mas no território. a sociedade sustentável. utiliza energia dos alimentos etc.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES Os deslocamentos dos discursos dificultam a análise das relações entre sociedade e natureza. envolve tanto os processos que permitem a liberdade de ações e decisões como as oportunidades reais que as pessoas têm. 2005. Segundo Amartya Sen. mas não necessariamente com tantas máquinas. A liberdade. sociais. Um outro ideário para o desenvolvimento é apontado por Amartya Sen (2002) que afirma que o desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. David.. do território. locais. a retomada da importância do espaço. Coloca. necessariamente. Parafraseando Neil Smith17. para o autor citado. 104 . que aponta as dificuldades para se contrapor aos discursos do “século americano”. que rouba das pessoas a liberdade de saciar a fome. Pensar não ocupa espaço. Mas ao mesmo tempo como pensar nas gerações futuras. motores e mercadorias. Neil in Harvey. regionais. não polui a natureza. A remoção das fontes de privação implica. o desenvolvimento sustentável como meta para um futuro. dadas as suas circunstâncias pessoais. de vestir-se. em primeiro plano. indagamos se seria possível negar a importância de pensar nas gerações futuras. ao conhecimento. no espaço produto e condição da ação societária transformadora e libertadora que tem como meta o desenvolvimento como liberdade. Sem pensar não há liberdade. no período de construção da hegemonia norte-americana. nacionais. há diversos condicionantes para pensar esse desenvolvimento como liberdade: acesso à saúde. à informação. à cultura. Significa a remoção das fontes de privação: remover a pobreza econômica. se a geração 17 Smith. A sociedade sustentável é um lema proposto pelas ONGs e movimentos sociais em 1992. de morar. Esses processos não ocorrem no espaço sideral. ao lazer.

como condição de superação e não apenas como condição de permanência da pobreza e exclusão. do lugar e outras categorias analíticas da Geografia. o desenvolvimento como liberdade. a importância do espaço. a meu ver. Geógrafos. onde se concentram os que não têm acesso ao conhecimento. nos propusermos a debater algumas questões fundamentais do mundo contemporâneo. Como tornar o espaço produto – o espaço segregado – em espaço condição de mudança? Pensar no ambiente. Este é o objetivo das questões apresentadas neste texto. à liberdade. do território. em que paisagem. significa. nº 83. em que espaço. SÃO PAULO. à reprodução adequada da vida). 2005 presente não tem participação na apropriação das riquezas? Em que lugar. compreender o ambiente em seu significado e significância é tentar compreender as relações societárias. 89-107. regiões. que oculta a importância do espaço para a reprodução ampliada do capital. sua fundamental importância para compreender o mundo presente. as relações da sociedade com a natureza. desenvolver a capacidade de pensar. analisar o espaço produto.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. locais. interferir neles. Pensar o espaço com categorias de análise que mostrem as contradições e conflitos permite considerar as liberdades dos indivíduos como aspectos constitutivos básicos para compreender a construção da matriz discursiva que responsabiliza todas as classes sociais pela dilapidação das riquezas naturais. 105 . na biosfera como bem comum só poderão ser transpostos se nós. o território. no desenvolvimento. pode trazer à tona. o espaço segregado (lugares. na garantia de vida das gerações futuras. Enfim. sustentabilidade. com sua plenitude. que torna o território ainda mais abstrato na idéia da biosfera como bem comum. em que território. Pensamos que os desafios de compreender como se torna senso comum falar em desenvolvimento sustentável. p. estará a geração futura? Esta é uma questão vital para que possamos debater o espaço.

1998. 106 . 1992. Claude. E. Modernização Reflexiva. Tratado das ONGs. 1992. Rio de Janeiro. Ed.. São Paulo. F. Paulo. 2000. D. Agenda 21. 2005. ____________ O Novo Imperialismo. 1990. Editora Hucitec. A. Rumo ao paraíso – A história do movimento ambientalista. Jorge Zahar Editores. Desenvolvimento Sustentável: A institucionalização de um conceito. Arlete Moysés. Caderno Mais. 1992. David. 1991. 1996. Rio de Janeiro. 27/02/05. Brasília. 1992. Marcos & AMAZONAS. GUATTARI. 2000. LASH. & SERFATI. Boitempo. Rio de Janeiro: Instituto de Ecologia e Desenvolvimento. Edições Ibama. Rio de Janeiro. F. MCCORMICK. DELEUZE. O que é Filosofia? Rio de Janeiro. BECK & U. Edições Loyola. S. Brasília: Senado Federal. Jean – “O apocalipse da Razão”. CHESNAIS. nº 16. H. Folha de S. J. Maurício de C. Crítica Marxista. HARVEY.. A inteligência da Complexidade. & LE MOIGNE. G. São Paulo. John. CONFERÊNCIA das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Editora da Unesp. São Paulo. MORIN. NOBRE. Edições Loyola. “‘Ecologia’ e condições físicas da reprodução social: alguns fios condutores marxistas”. RODRIGUES. Condição Pós-Moderna. GIDDENS. Fórum Internacional das ONGs e Movimentos Sociais. 1992. São Paulo. JAPIASSU. 1992. Rio de Janeiro. & MARCONDES. Editora 34 Literatura S/C Ltda. Produção e Consumo do e no Espaço – a problemática ambiental urbana. Fundação Getúlio Vargas. Nosso Futuro Comum. 2003.ARLETE MOYSÉS RODRIGUES BIBLIOGRAFIA CITADA BAUDRILLARD. Relume Dumará. Dicionário Básico de Filosofia. Fundação Petrópolis. São Paulo. COMISSÃO Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD. Rio de Janeiro.

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108 .

forma-se um bloco histórico (no sentido gramsciano) que avançou para uma quasehegemonia no Brasil. Estudante de doutorado em Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF.O ORDENAMENTO TERRITORIAL CAPITALISTA E A ESPACIALIDADE BRASILEIRA ATUAL: UMA INTRODUÇÃO AO DEBATE DA RELAÇÃO ENTRE FORMAÇÃO SOCIOESPACIAL E BLOCO HISTÓRICO THE CAPITALIST TERRITORIAL ARRANGEMENT AND THE CONTEMPORARY BRAZILIAN SPATIALITY: AN INTRODUCTION TO THE DEBATE CONCERNING THE RELATION BETWEEN SOCIOSPATIAL FORMATION AND HISTORICAL BLOCK William Rosa Alves1 RESUMO Parte-se da hipótese de que. Brasil: hegemonia. Palavras-chave: Brasil: espacialidades. por ocasião da governança conseguida por Luís Inácio Lula da Silva. Coordenador de Assuntos Urbanos e Meio Ambiente da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local de Belo Horizonte – AGB-SLBH. pretende-se demonstrar. Brasil: movimentos sociais. desde as mudanças parciais no modo de regulação da formação socioespacial brasileira (com a eleição de Collor de Mello para Presidente). 1 Professor de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. 109 . as permanências e mudanças recentes na espacialidade brasileira. Considerando-se que as repercussões de tal processo na dimensão espacial-territorial ainda não têm sido analisadas e refletidas o suficiente pela Geografia Brasileira ao nível do entendimento. Brasil: formação socioespacial.

Ao Thiers e à Ruth. at the level of its understanding.. this paper intends to show. relato mui brevemente um episódio que nos chama a pensar sobre o que se vive como geógrafas(os) e professora(e)s de Geografia: uma amiga professora. what remained the same and what was recently changed in Brazilian spatiality. in the occasion of the govern of Luís Inácio Lula da Silva.” (Adivinha cantada em moda de viola no interior de Minas Gerais desde as calendas do século XX) PRÓLOGO E INTRODUÇÃO A título de provocação. geógrafos em formação sublimada em 2006 “O que é o que é? São sete mortos esticados E cinco vivos passando Os vivos estão calados E os mortos estão cantando. Olhava o aparelho com a porta 110 . enquanto gestante. Keywords: Brazil: spatialities. a historical block was formed (in the gramscian sense). Considering that the repercussions of such process in the spatial-territorial dimension havent yet been sufficiently analysed and reflected upon by Brazilian Geography.. Brazil: social movements. Brazil: hegemony. since some partial changes occurred in the way of regulation of the Brazilian sociospatial formation (with the election of Collor de Mello for President). Brazil: sociospatial formation. instintivamente rumava às geladeiras em busca de algo que nunca descobriu por si própria. which attained a quasi hegemony in Brazil.WILLIAM ROSA ALVES ABSTRACT This paper starts from the hypothesis that.

1978). 2005 aberta por vários minutos e. em esp. utópico. em esp. p.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. nº 83. mas selecionar dele elementos que reafirmem tática e estrategicamente um projeto. até onde chegamos. Propomos à Geografia uma análise das lacunas e opacidades que impedem um conhecimento 2 Expressão construída por Henri Lefebvre (1999. Superou assim alguns dos vários períodos de depressão emocional. Ariovaldo Umbelino de Oliveira (1988) e Ruy Moreira (1994). SÃO PAULO. Foi o suficiente para a professora acorrer com freqüência aos refrigeradores para “descontar o tempo perdido” sem o seu “delicioso” gelo. e não somente como soma dos fluxos mostrados pelas digressões parciais. alguém de nós – chamadas/os pela “Geografia Crítica” a contribuir para a compreensão da realidade por meio da categoria espaço – já não percebe – e assim muito menos pensa e entende – sua própria amplitude humana por meio do sensório. esses tensionaram o binômio Tempo x Espaço nos termos positivista kantiano e buscaram desenvolver referentes teóricoconceituais mais íntegros a fim de corresponder à inteireza e sincronicidade do mundo contemporâneo. irritava-se e chorava. ou seja. temporal. grosso modo. embora não o realize em absoluto. entre os muitos comentários encontra-se no exame de Anselmo Alfredo (2005) uma análise mais próxima da idéia de movimento – íntegro nalgum sentido. histórica. A provocação acima nos serve para iniciar ou continuar a pensar sobre os desencontros entre a Geografia e as contradições entre a potência do mundo contemporâneo – fase que chamamos de “urbanização crítica”2 – e a mundialização da miséria como relação socioespacial3 fundamental e extensiva. 109-138. 3 111 . Foi assim até que uma amiga comentou que. quando grávida. 1) para exprimir a idéia de que quanto mais esta sociedade produzir – coisas – mais ela segregará as possibilidades de apropriação. enfim. com a consciência de tal perplexidade. Diante de um objeto moderno – a geladeira –. a espacialidade. 28) explica-a como “pura negatividade: o trabalho como miséria absoluta”. cap. É uma evidência da ausência do sensível – no sentido dinâmico e projetivo. correspondente aos conteúdos presentes somados aos virtuais da formação social. mais contribuíram para a elaboração da idéia de formação socioespacial Milton Santos (1977). um projeto que nega o presente – não para eliminá-lo. mesmo que não-esclarecido (Milton Santos. Na Geografia Brasileira. p. A concretização de abstração da formação socioespacial é. Amélia Luisa Damiani (2000. Quanto ao primeiro geógrafo. chupava gelo compulsivamente.

e sua gana por uma “teoria transparente” permanece como requisito a uma possibilidade de intervenção. impelem e aprisionam rumo a uma unidimensionalidade alienada e alienante como produtores de saberes e fazeres a fim de superação dos limites por ora apresentados. Naquele momento. e indica as fases e os seus respectivos elementos temáticos que questionaram efusivamente o compromisso da institucionalidade da Geografia por aqui praticada. a fim de emancipação sem constrangimentos de qualquer ordem. Selecionamos entre as idéias de tal artigo a perspectiva de desenvolvimento de conceitos que propiciassem diálogos e práticas que relacionassem. Celso Furtado. até os dias de hoje considera-se como contribuição fundamental a discussão teórica da totalidade como categoria a ser explorada e desvendada em prol da compreensão do “mundo moderno”.WILLIAM ROSA ALVES efetivo do(s) movimento(s) que nos atingem. soberana e emancipatória. parte das elaborações da Geografia por aqui desenvolvida contrapunha-se às representações da formação socioespacial da integração passiva à ordem mundial mercantil por meio do crescimento econômico sem a contrapartida do “desenvolvimento social” – como alertava desde a crise do imperialismo capitalista – revelada com a Segunda Guerra Mundial – uma intelectualidade significada com Caio Prado Júnior. Florestan Fernandes e tantas e tantos com gana de brasilidade autônoma. Do debate da Geografia na formação socioespacial francesa que viu e sentiu as “barricadas do desejo” no maio de 1968. por meio de uma – agora – Geografia Brasileira. Quanto aos desdobramentos de tal episódio. Ruy Moreira (1992) relata o período de 1978 a 1988 como o de maior transformação – chamada desde então de “renovação” – da Geografia Brasileira (a irrupção dos presentes ao 3º Encontro Nacional de Geógrafos em Fortaleza). Comparando-se com a plêiade que se apresenta atualmente como “Geografia Brasileira”. a formação socioespacial brasileira com a formação mundial(izada). a primeira impressão 112 . como espacialidade e territorialidade. O autor já empunhava a necessária consideração da escala a partir dos escritos de Yves Lacoste e do espaço como Henri Lefebvre e Milton Santos – cada qual à sua maneira – analisavam.

O conceito de sociedade civil. nº 83. p. “Tanto em Marx como em Gramsci a sociedade civil – e não mais o Estado. como favorece a pretensão de uma classe em converter-se no próprio Estado (p. Carlos Nelson Coutinho.. 2005 é que há um crescimento e diversificação notáveis da disciplina. 2000/2001. a confluência das reivindicações e a integração das formas e conteúdos de cidade e urbano – por vezes imaginada até como país e nação – que. que institui a simbiose entre Estado e mercado e. 1982. p. que quase sempre não se encontra na própria fala dos protagonistas. pois que o adjetivo “social” a qualquer movimento em geral pressupõe uma perspectiva teleológica ampla e profunda de transformação social. Miguel Abensour (1998) avança quando acompanha o alerta marxiano para o risco de a sociedade civil aproximar-se da anatomia da ação cilvilizatória da burguesia. a nosso ver. Rio de Janeiro. os sindicais de trabalhadores. como em Hegel – representa o momento ativo e positivo do desenvolvimento histórico. 5 113 . Assim. como as interfaces – ditas multi. A partir da idéia de “configurações sociais”. enquanto em Gramsci é superestrutura” (Norberto Bobbio. SÃO PAULO. Mas o próprio Nogueira alerta para uma relação dialética em que a formação da sociedade civil pode tanto contribuir para a organização do povo a fim de protegê-lo da negação de sua superação como explorado-dominado. [e em Marx] esse momento ativo é estrutural. 121). Foi concreta a articulação das lutas.. 109-138. 33. p. mesmo que de forma relativa em razão de suas particularidades – como os populares. A expressão. tanto em termos das temáticas assumidamente “internas”. os consistiram como movimentos sociais. iniciativas e projetos dos chamados “movimentos sociais”4 e mesmo a coalizão de governança autodita “democrático-popular” que se apresenta nas várias esferas da atuação do Estado no sentido estrito – as instituições oficiais – e amplo – a sociedade civil organizada 5. não as reduz às contingências de sua fundação. Este texto 4 Considera-se que aí cabem movimentos que na sua origem empunharam perspectiva distinta do sentido geral de docilidade frente às contradições geradas pelo próprio desenvolvimento do capital na formação socioespacial brasileira. o autor reconhece em seus fazeres um “sentido novo” reconhecido pelos próprios em razão das pequenas mas valiosas conquistas num cotidiano amesquinhado por uma urbanização-metropolização voltados para a apropriação privada dos meios de vida. citado em Marco Aurélio Nogueira. 121). Graal. a “democracia burguesa”. nota 5. carece ainda hoje de densidade conceitual. um totalitarismo com fachada de “democracia”. que se não antecipa conteúdo às práticas dos agentes investigados e as exacerba em nome de uma história heróica. inter e transdisciplinares – nos envolvimentos com os demais campos disciplinares científicos institucionalizados. acompanhamos a vertente teórica de Eder Sader ([1988] 1995).BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. os de “minorias” etc. aí sim. no limite. Trad.

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pretende indicar alguns eixos de reflexão sobre os fundamentos da espacialidade-territorialidade que no Brasil desafiam a perspectiva de contribuição ao entendimento do(s) sentido(s) da reprodução social – e socioespacial – por ora mais próxima da hegemonia, a reiterar a permanente separação entre a potência de produzir objetos-mercadorias e as possibilidades de apropriação e produção de humanidade. Mais precisamente, prioriza a reflexão sobre o ordenamento territorial a que estamos submetidos na espacialidade contemporânea brasileira, considerando a hipótese de que um campo de mobilização oriundo e insistente das lutas por uma territorialidade livre, ruma para a colaboração com a aceleração, reverberando assim uma perspectiva redentora da classe-que-vive-da-venda-do-próprio-trabalho 6 por meios das formas e do sentido próprio da modernização capitalista: o crescimento – cada vez mais centrado na circulação – do próprio capital, como se somente através de uma distribuição das estreitas formas vigentes da riqueza se possa ampliar as possibilidades de humanidade entre nós. Trata-se da constituição e instituição contemporânea de

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A partir e com Ricardo Antunes (2000, p. 101 e ss.), propõe-se o conceito de “classe-que-vive-da-venda-do-próprio-trabalho”, pois que a totalização e hipostasia do trabalho no contexto da mundialização do capital implica em expansão e heterogeneização das subsunções formal e real à totalidade da superfície do planeta e todos os momentos e tempos da vida dos seres humanos, fato que até aprofunda, através da mercantilização das dimensões da vida – nunca absolutamente – o domínio do trabalho-do-outro por parcela restrita da humanidade – a classe proprietária. O autor indica que a expressão é mais abrangente que a “classe trabalhadora” (de Karl Marx) e assim tenta atualizá-la. A nosso ver é deveras mais consistente para o período atual da modernização crítica, não só porque contempla as formas que não se apresentam como trabalho manual direto, operário fabril ou agrícola, mas por que se afirma numa locução verbal (“que-vive-da-venda-...”) e não de em uma adjetivação (“trabalhadora”), que no chamado “mundo ocidental”, se instituiu como senso comum moral, de “trabalhador(a) assíduo e honesto”.

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um bloco histórico7, algo inédito na formação socioespacial brasileira e que requer, por parte da Geografia, atenção que pode contribuir para o entendimento do sentido – significado e tendências com potências e limites – que a espacialidade brasileira atual assume ou pode assumir nas querências de uma efetiva transformação social.

EXPRESSÕES ATUAIS E FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO SOCIOESPACIAL BRASILEIRA
A formação socioespacial brasileira vive o aprofundamento gradativo – cuja exposição midiática é extremamente seletiva – das contradições que constituem o momento em que a produção de mercadorias amplia-se sem aparentemente comprometer suas condições de permanência ou crescimento. Ao mesmo tempo em que o crescimento dos volumes e valores monetários da produção e da reprodução do dinheiro aparecem, respectivamente, como recordes das exportações sem diminuição do consumo pelo mercado interno, e como crescimento significativo da rentabilidade das maiores instituições financeiras – em especial os bancos de varejo –, é notória a precarização
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A expressão é elaborada de forma mais conceitual por Gramsci ([1955] 1981, p. 31-63), que ao discutir os traços mais permanentes da Filosofia e da História presentes no debate do campo do Materialismo Histórico-Dialético, infere seu descolamento com o mundo real e assim tornarem-se justificação da exploração-dominação. Na perspectiva de construir um conhecimento popular – e suas ações genuínas correspondentes – rumo à superação do senso comum pragmático, Gramsci explora questões particulares transversais – religião, individualismo, ciência etc. – para encontrar, via concretude das contradições vigentes nas formações econômico-sociais debatidas pelos “filósofos materialistas”, um fundamento real que dá coerência – ordem e eficácia – ao modo de produção capitalista: o bloco histórico. Assim, a expressão significa uma integridade e dialética entre a “infra-estrutura” e a “superestrutura” a ponto da “inversão da práxis” (p.52), o que para nós pode significar uma chave para reflexão sobre as contradições teoria-práxis do campo “democrático-popular” expressas mais amplamente no governo Lula.

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das condições de trabalho e intertrabalho8 para a maioria de quem vive por aqui como semiproprietário ou não-proprietário do além de si mesmo – sua força de trabalho. Se pululam falas da instabilidade e fraqueza do crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), por outro lado observamos que não se interrompeu um modelo de reprodução social que acirra a desigualdade em quaisquer termos que se considere9. Os debates atuais quanto às orientações do governo de Luis Inácio Lula da
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Acompanhando Ricardo Antunes (2000), o intertrabalho é a articulação entre o trabalho concreto (produtor dos objetos de valor de uso) e o trabalho abstrato (produtor dos objetos de valor de troca, as mercadorias). Se há como distingui-los, tampouco há como separá-los, pois como atividade propriamente humana o trabalho traz ao mundo conteúdo que interfere na vida humana. Com a modernização, cada vez mais as atividades repercutemse tendentes a um sistema, a totalidade, que não se completa nunca. A apropriação do trabalho – sentido genérico – é também cada vez mais complexa, porque suas formas se multiplicam e assim geram e desenvolvem níveis cuja realização mercantil varia, mas sempre com algum grau de composição pró-capital: a mesma atividade pode, no decorrer de um período, assumir uma forma tipicamente capitalista e em outro momento não. Um exemplo singelo é a sazonalidade do trabalho agrícola de semicamponeses, que podem ser requisitados por empresas da agroindústria a qualquer momento do ano, dependendo da demanda do mercado capitalista de gêneros agrícolas. Assim, em alguns anos na mesma estação climática ocorre evasão relativa de homens jovens trabalhando, pois como mais produtivos e rentáveis, e assim considerados mais competitivos no trabalho abstrato, deixam as lavouras rústicas das suas propriedades familiares para as mulheres, as/os sexagenárias/os e até as crianças e adolescentes. A partir da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD) da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pesquisadoras/es confluem para a revelação de um ciclo de acirramento da desigualdade socioeconômica no Brasil até 2002, seguido de algum arrefecimento desde 2003. Porém, a forma predominante de tal reversão relativa não tem sido o emprego formal, mas os programas governamentais como o Bolsa-Família, o que é visto por quase todas/os as/os analistas como forma insuficiente para uma reversão da concentração das riquezas nas suas diversas formas de efetiva apropriação. (Cf. “Pobres se distanciam de ricos e dependem mais do governo”, Folha de São Paulo. Brasil. São Paulo, 25 de dezembro de 2005).

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pois o processo não é linear. 2005 Silva (desde 2003 e com a possibilidade de reeleição neste 2006) pouco colocam em questão mais do que o próprio sentido capitalista de uma via brasileira: mesmo os “desenvolvimentistas”. 117 . entre os quais alguns arautos de uma “soberania nacional” não trazem à baila as contradições permanentes de tal formação.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. SÃO PAULO. 109-138. que a nosso ver instituiu a “cidadania competitiva”. Em tal contexto. destrutiva da formação nacional como vivido na França. constituem particularidade(s) e não singularidade versus absoluto em separado. No caso do Brasil. sua representação jamais é instantânea. constituindo enfim a formação socioespacial – sentido geral – e espacialidade – momentos e fases não-etapistas. a depender do fenômeno objetivado. p. Daí se observar o tempo como mediação do próprio espaço. são unidade na diversidade e unidade da diversidade. Assim – e sobretudo na mass media. a “grande imprensa” – são apresentados de um lado ou de outro quaisquer indicadores que revelem “teses” quanto ao desempenho e projeto econômicosocial. A formação socioespacial e a espacialidade não são transparentes quanto ao movimento. pois que se constituem em expressões contínuas do(s) movimento(s) do mundo. pois que sendo este complexo e contraditório. a sucessão das espacialidades foi imposta como território colonial virtualmente desde antes do dito “descobrimento” – pois que o arranjo da propriedade conseguido pela Monarquia Portuguesa em seu expansionismo preemptivo (preventivo) evitou uma disputa antagônica entre burguesia mercantil nascente e proprietários fundiários. Por isto que a referência conceitual da formação socioespacial e da espacialidade é a que nos embasa a fim de uma chegada a uma problematização atual da Geografia Brasileira. nº 83. Itália. pois que são mediação(ões) entre o singular – quase sempre apresentado pela Geografia como “local” – e o total – “global” ou “mundial”. Inglaterra. é relevante “Geografizar” o que está oculto no debate: a dimensão espacial do sentido que tem reiterado os fundamentos dessa modernização.

ao gosto da “Escola Regulacionista” francesa. uma relação livre entre seres humanos e natureza (Lefebvre. Francisco de Oliveira (1998) quando afirma que “Em 1989. período inaugurado pelo governo Collor de Mello-Itamar Franco (1990-1993) como presidentes do Brasil – o primeiro renunciou em razão da sua própria consciência quanto ao forte risco de impedimento constitucional. o trabalho à propriedade no nível do território: Colônia e “Período Independente” – Império e “Repúblicas” – mantiveram o domínio da propriedade no nível do constrangimento das formas modernas de socialização. Daquela formação da propriedade dos meios de produção e suas decorrentes formas da apropriação dos meios de vida – entre eles a terra no sentido territorial –. 7). não se alterou a formação de prevalência do trabalho manual por meio da escravidão e de uma industrialização que aprisionou. que corrói as práxis intencionadas na poiésis. todo o arcabouço da ‘revolução 10 Marilena Chauí (1999) apresenta um histórico do imaginário chamado de “neoliberalismo” e Perry Anderson (1995) discute seus efeitos nas espacialidades continentais e no mundo com um todo. então. advém de uma acepção em que a idéia de “regulação” não se restringe à administração econômico-política das atividades em uma parcela da sociedade. 2000). 118 . Acompanhamos. Antes de tal recorte se restringir a um evento de Estado-Nação. consideraremos a partir mais estritamente a espacialidade da mudança parcial do modo de regulação da sociedade brasileira para o modelo comumente chamado de “neoliberal”10. 1998.WILLIAM ROSA ALVES Estados Unidos da América e outros exemplos de revolução burguesa (Luiz Felipe de Alencastro. p. com descompassos e riscos de totalização de uma imagem de mundo que se realiza porque se legitima como a única possibilidade. ideológica e praticamente. até das relações tipicamente capitalistas que mantém o mando sobre o outro – considerado humano só nos discursos da figuração formal “republicana” e não no centro e/ou conjunto das práticas sociais (José de Souza Martins. ([1965] 1967). Para as pretensões deste texto. trata-se de mais uma ideologia no nível da mimésis – uma mediação condutora –.

109-138. em que os proprietários fundiários chamados de “fazendeiros” alcançaram legitimidade e cumplicidade com as classes médias urbanas11 a ponto de evitar a distribuição da propriedade da terra por meio da Reforma Agrária (José de Souza Martins. 200 e ss.” Porém. aparecia na expressão dos 45% de votos conquistados por Luís Inácio Lula da Silva na eleição de 89. em que o “neoliberalismo”. 2005 passiva’ e das contradições não resolvidas quase foi abaixo: um devastador terremoto. uma acepção mais enquanto mediação sociopolítica que estritamente socioeconômica. hegemonia. A situação sugere. voltou a funcionar com a eleição de Fernando Henrique Cardoso [1994]. participante das classes subalternas. agora contabilizados como “custo Brasil”. grifos do autor. as organizações mercantis insistiram na “aliança do atraso”... Como agentes da dimensão sociopolítica. 119 . 2) à esquerda... Aprendida a lição [pelas classes dominantes].. pois. por meio da destruição dos direitos.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. todas as críticas do capitalismo em razão da 11 Compõe-se majoritariamente dos funcionários públicos civis e militares. medida pelos chamados “rendimentos monetários”: trata-se de capacidade de fazer valer seus interesses na intervenção do Estado federativo brasileiro. parte significativa da “oposição” as organizações de inspiração política variada – desde as “comunitaristas cristãs” até as reverberantes de versões do materialismo histórico-dialético (chamadas comumente de “marxistas”). o autor chama a atenção para o “desmantelamento do campo de significados” no Brasil. comerciantes. p. 1994). apontamentos meus). nega a presença minimamente subjetiva. Consideramos. para além da constatação de continuidade... nº 83.. que dois fluxos se polarizaram desde as impossibilidades do pacto político estatistadesenvolvimentista desde o advento da república – o Golpe que instituiu a Ditadura de Execução Policial-Militar de 1964: 1) à direita. profissionais liberais etc. o amálgama de interesses divergentes no bloco dominante e a fusão entre economia e política. SÃO PAULO. e assim realiza o “apartheid total” (p. portanto.

selecionamos as posições mais contundentes sobre a espacialidade brasileira por ora existente. A fim de iniciar uma reflexão mais ampla sobre a dimensão mais ampla do ordenamento territorial na determinação – não-determininista – da vida de quem por aqui habita. como mo(vi)mento. o desempenho efetivo e a captura ideológica do desenvolvimentismo para os axiomas da doutrina “crescimento econômico” de uma coalizão liderada por Luís Inácio Lula da Silva eleito para o maior posto de comando formal do país. 12 A democracia. pois que as condições produzidas pelos seres humanos podem ser apropriadas por quaisquer seres humanos. mesmo dos agentes reconhecidos como “esquerda”. 120 . sem seletividade. antes das eleições de 2002.).WILLIAM ROSA ALVES individualização prevalecente nas relações sociais – reivindicavam desde os meios institucionais uma cotidianidade identificada com a democracia12. não no sentido da sua substituição por uma aristocracia. implicou na aparição de falas descontentes e até desqualificatórias. sem competição (Miguel Abensour. mas rumo a um êxtase de contínua (re)criação das possibilidades da vida. e o segundo momento com a perspectiva mais nítida da eleição de Lula e assim desde a “Carta aos brasileiros” até alguns resultados vistos na dinâmica da formação socioespacial em estudo. 71 e ss. p. a partir de 2003. Se a unidade político-eleitoral se manteve enquanto tal confluência não alcançou a Presidência da República. o que implicava na mudança nas normas de decisão a partir do Estado. sem hierarquias..). p. [1997] 1998. 20 e ss. é o desaparecimento do Estado. considerando dois momentos: o das expectativas quanto às mudanças preconizadas pela coalizão eleitoral identificada à “esquerda” – as candidaturas de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República – e colaboradores acadêmicos da Geografia Brasileira. portanto. Significa liberdade (ibid. com eleições dos representantes legislativos e agentes decisórios mores do Poder Executivo.

2005 ALGUNS ELEMENTOS DO DEBATE OCULTO SOBRE A ESPACIALIDADE BRASILEIRA ATUAL Dentre as diversas posições que consideram a espacialidade brasileira – mesmo que esta apresentada em outros termos –. Emir Sader. Plínio de Arruda Sampaio. Luis Bassegio. Tânia Bacelar de Araújo. Tal “configuração espacial” carece de “reatualização da questão agrária” e da “imperfeita constelação de cidades”. 109-138. SÃO PAULO. iniciamos pela coordenada por César Benjamin et al. Lúcia Camini. Reinaldo Gonçalves. proposições e mesmo em atuação concreta na história das posições à esquerda entre nós13 .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. e assim padece da “concentração de renda e riqueza” e do “envelhecimento da estrutura”. Luís Eduardo Greenhalgh. em genérico na Introdução do livro. que envolve várias autoras/es significativos nas análises. 121 . João Pedro Stédile. Coerentes com uma visão periodizada em que sempre o cume das ações da sociedade resultou na negação de um “povo de cidadãos”. Alguns/mas desses/as foram parlamentares estaduais e federais e depois – o livro foi escrito no calor da campanha eleitoral de 1998 que legou a Fernando Henrique Cardoso um segundo consecutivo mandato presidencial – até ocuparam cargos em equipes de trabalhos de programa de governo Lula ou foram consultores ou próceres de agências de desenvolvimento regional ou ministérios do mesmo. nº 83. iniciada desde a fundação da colônia. figuram entre os autores do livro Ari José Alberti. porque contagiante de todo o país. (1998). José Albino. A principal característica da espacialidade brasileira desde 1990 é a fragmentação. p. os 13 Além do próprio coordenador. Os autores identificam alguma potência de crescimento econômico a contribuir para a superação da problemática da “exclusão” – dita. mas recrudescida com a transnacionalização da indústria maquinofatureira com sede nos países “centrais” do mundo capitalista: Estados Unidos da América ou nos países da Europa Ocidental. Na Apresentação do livro há referência à origem do livro em encontros preparatórios estaduais e uma reunião nacional da “Consulta Popular” – movimento criado em 1997 e que existe até os dias de hoje. como o maior problema nacional.

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autores cobram um Estado “que expresse uma ordenação jurídicopolítica legítima e eficaz”. A sempre possível vantagem do enorme território unificado foi prejudicada pela “difícil e tardia construção da identidade nacional”, o que nos legou enfim uma unidade somente formal e a “ausência de um projeto popular para o Brasil”. Naquele “momento crítico” (1998), ainda assim os autores diziam das vantagens – em especial a “população jovem, com presença marcante de pessoas habituadas à produção moderna... vasto espaço geográfico, recheado de recursos... centros internos geradores de dinamismo... ”, enfim, “A estrutura econômica que emergiu das transformações operadas no ciclo longo de 1930-80 permite... a abertura de caminhos novos... não se trata de retornar à trajetória anterior, nem de, no outro extremo, negá-la – mas sim de desdobrá-la, de acordo com novas condições locais e internacionais”. A continuidade da crítica às elites chega a uma síntese sobre a espacialidade requerida para a “opção brasileira” proposta: “só retomaremos um crescimento acelerado se adotarmos uma estratégia que seja homogeneizadora dos níveis de produtividade e de renda presentes em nossa sociedade” [grifos dos autores]. A partir de tal corolário, o livro achega até a algumas considerações econômicas de talhe setorial, o que revela sua limitação na perspectiva de um entendimento da relação entre a espacialidade e a formação socioespacial como um todo, uma vez que as considerações sobre os fundamentos políticos para uma sociedade autônoma, uma nação soberana e uma realização socialista – nos termos apresentados no livro – não vislumbraram claramente a amplitude e a profundidade do ordenamento territorial contínuo. Uma segunda posição, vista a partir de Milton Santos & María Laura Silveira (2001), pode até ser vista como em parte contínua à vista acima – até porque os autores agradecem ao geógrafo agora em foco –, se considerarmos a dimensão técnica do trabalho como central do sentido da formação socioespacial. Mais preciso do que o anterior em termos teórico-metodológicos – já inicia assumindo um “caminho de método” para discorrer sobre um objeto tão amplo como o Brasil – os autores se centram na “constituição do território, a partir dos seus
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usos, do seu movimento conjunto e do de suas partes, reconhecendo as respectivas peculiaridades”; desdobram o “esforço central de operacionalizar geograficamente a idéia de sistemas técnicos, entendidos como objetos e também como formas de fazer e de regular”, a fim de encontrar os sentidos da sociedade a cada momento, em suma, para elaborar uma teoria do Brasil a partir do território – utilizandose da categoria formação socioespacial. A espacialidade começa a aparecer na idéia de uso do território, definido desde a “implantação da infra-estrutura... [os] sistemas de engenharia, mas também pelo dinamismo da economia e da sociedade”. Nesse nível do discurso, os elementos indicados para a espacialidade – como conceito – são apresentados como didaticamente separados, mas a idéia de “novo meio geográfico” aparece logo em seguida para observar o fenômeno da “fluidez do território, hoje balizada por um processo de aceleração”. Tal assertiva nos é importante para considerarmos a espacialidade atual – pós-1990, correspondente ao período comumente chamado de “neoliberal” – constitui não somente um suporte, mas um veículo das possibilidades de transformação do sentido da formação socioespacial como um todo – o que não iguala suas partes entre si e forma uma homogeneidade como desejado na obra anteriormente analisada. Provoca à reflexão também quando afirma que “cada momento da história tende a produzir sua ordem espacial” – considerando o espaço como “um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações” e procura sintetizá-los para compor uma síntese que observe a dinâmica da formação socioespacial: ao dizer do “uso competitivo do território” e da “guerra global entre lugares”, os autores demonstram algo das contradições do espaço 14, como a “circulação
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A expressão foi cunhada e desenvolvida por Henri Lefebvre ([1972], inéd.), ao discutir exemplos em que a própria rentabilidade das atividades capitalistas decaem conforme o desenvolvimento da complexidade do espaço como totalidade; o que serve para demonstrar que o capitalismo não é um sistema, pois que não se realiza segundo um plano, uma lógica, mas no desenvolver de estratégias em escalas virtuais e materiais crescentes, até a mundialização do próprio capital.

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desnecessária”, a “instabilidade do território”, as “especializações alienígenas alienadas”; chegam até “às desarticulações resultantes” e às “desvalorizações e revalorizações do território”. Neste ponto, é interessante considerar o território como “uno”, pois que o “seu movimento é solidário” a algum nível de capital e por isso mesmo “menos valioso para os homens”. Tal elaboração parece coincidir território com a noção “espacialidade” conforme indicamos anteriormente, além de poder significar a polaridade entre as “práticas do neoliberalismo, com sua seletividade maior na distribuição geográfica dos provedores de bens e serviços, levados pela competitividade... [sua] solidariedade organizacional”, e as práticas de “solidariedade orgânica... [que] resulta de uma interdependência entre ações e atores que emana de sua existência no lugar”. Se por um lado, na obra em foco, Santos & Silveira já achegam a uma análise da dinâmica concentradora e até podem revelar elementos da dimensão social da divisão do trabalho – mais complexa, embora não mais importante que a dimensão técnica –, os interesses concretos na reprodução do espaço na formação socioespacial brasileira são mais explicitados por Milton Santos (2000, p. 134 e ss.) ao considerar a “metamorfose das classes médias”. Se essas se expandem quase ininterruptamente desde as intervenções estatistas mais contundentes – com o “Estado Novo” de Getúlio Vargas (1937-1945), os “50 anos em 5” de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o “JK” (1955-1960) e o “milagre econômico” do “regime militar” (1968-1973) –, vivem uma crise de base econômica que se generaliza para a própria identidade nacional (im)posta sempre pelas elites. O “ocaso do projeto nacional” implicou em limites para a “nação ativa” – as frações reconhecidas pelo senso comum como produtivas e não classificadas como estorvo ao crescimento econômico – e a “dissolução das ideologias e utopias” deixou a formação socioespacial brasileira à mercê da “aceleração” da história –
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força o todo à ruptura – contra o totalitarismo da globalização. O brilho de tal feito pode ter diluído o debate – mais convicto para as posições à esquerda em tempos de oposição política do que situação eleitoral – sobre o próprio projeto de nação. nº 83. 125 . 2005 numa concepção cronológica do tempo –. 1999). Mônica Carvalho & José Leite. mas para o autor os “pobres”. familiar e territorial mais estrito – da maioria do povo brasileiro conseguiu que sua representação político-eleitoral mais direta. Conformou-se assim uma espacialidade em que praticamente todos – classes médias e pobres – são “deficientes cívicos” (Milton Santos. nos níveis individual. se quase invisível por agora – e a Geografia. 2000. o globaritarismo. Pelo exposto. à Presidência da República e o Governo Federal. Milton Santos. uma vez que a aparente centralidade do governo mais reforçou a imagem fetichista do Estado como provedor-mor da formação social do que esclareceu o desafio de diminuí-lo frente a uma poiésis – e não à mimésis da mercadoria. SÃO PAULO. mas a própria contradição de ter formado uma massa urbano-industrial – não estritamente fabril – no contexto de uma “involução metropolitana” 15 implicou em recusa dos pobres quanto à tendência de apartação quanto aos benefícios mínimos do seu próprio trabalho. até por sua “integração orgânica com o território” (Milton Santos. Odette Seabra. para o período 2003-2006. em que a “esperança” – anseios legítimos porque relativos à própria sobrevivência. são sujeitos em potência que já constituem uma base que.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. o ícone do “campo democrático-popular”. deve não só conferir visibilidade ao que quase não aparece. p. 15 A expressão tem origens em estudos – sistematizados em Milton Santos (1994) – que revelaram índices de crescimento regional e nacional maiores nos interiores e nas cidades pequenas e de porte médio do que nas metrópoles. alçasse. visíveis portanto –. 2000). encontramos algumas condições teóricas para introduzir o debate sobre o momento atual – lembramos a hipótese central deste trabalho –. mas cumpliciar-se com formas já existentes. cobra o mesmo. 109-138.

É coerente o apelo ideológico-moral a concluir tal manifesto. para o que deve concorrer uma espacialidade com rigidez interna em termos da gestão da atividade econômica – chamada no texto de “equilíbrio fiscal” e superadora da “vulnerabilidade externa”. chamando “todos que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis”. o que revela a ausência de uma hegemonia política como problema geral do país. há que se refletir sobre algumas contribuições clássicas do Materialismo Histórico Dialético. considerando-o o terreno e o meio de superação da dicotomia kantiana Tempo x Espaço e assim entender como a formação socioespacial “se movimenta”: qual a (in)suficiência da espacialidade perante a disputa das correntes político-eleitorais – que rumam para constituir e instituir-se como blocos históricos no Brasil pós-1990 – pela hegemonia inédita no país? Com tais achegas conceituais – ver nota 6 –.WILLIAM ROSA ALVES O TENSIONAMENTO DA ESPACIALIDADE BRASILEIRA ATUAL: QUASE-HEGEMONIA? Chegando à principal questão suscitada na hipótese deste texto – a formação quase-hegemônica de um bloco histórico que congrega bases do projeto da “utopia democrática” confluentes com a vertente tecnoburocrática da “sociedade política” brasileira –. Anuncia-se que “o sentimento predominante em todas as classes e em todas as regiões é o de que o atual modelo esgotou-se”. Daí a candidatura presidencial em foco conclamou uma “vasta coalizão” e uma “ampla negociação nacional” centradas na objetividade de um “crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social”. podemos entender a “Carta ao Povo Brasileiro”. 126 . documento da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva em 22 de junho de 2002. Sugere ainda que já se encontravam ali – ao menos potencialmente – as condições para uma competitividade que resgatasse o papel soberano do povo brasileiro.

A classificação básica – sem o arrogo de estabelecer mais uma tipologia – é. 127 . crivada entre campo e cidade. as territorialidades com seus domínios mais “puros”. 2005 Desde então. os resultados econômicos não são de se estranhar quando se investigam como os fundamentos da espacialidade participam da fase atual da formação socioespacial brasileira. 1999). inferimos a instituição da espacialidade do “totalitarismo neoliberal” (Chico de Oliveira. o desempenho da economia – medido quase exclusivamente pelo crescimento do PIB – não teve significativa alteração. p. a contraponto da história da coalizão que se insinuou “democrático-popular” – desde a “Frente Brasil Popular” com Lula candidato a Presidente da República nas eleições gerais diretas de 1989. vê-se um aparente paradoxo no desenvolvimento da formação socioespacial brasileira: se os impactos da desconfiança quanto ao governo Lula foram intensos e freqüentes nas mass media – chegando ao ponto de pedido do impedimento presidencial constitucional –. atualização e/ou sofisticação da “infra-estrutura” – a base de espacialidade para as atividades produtivas –. nos dias de hoje. nº 83. ou os mais complexos e participativos dos diversos “públicos” constituintes da formação social. o que demonstra em princípio a heteronomia da espacialidade brasileira considerando os elementos sociopolíticos constituintes – sociedade política e sociedade civil. p. quando afirmam a anterioridade e a primazia da “separação” – em verdade. 20 e ss.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. trata-se de uma distinção didática de um conteúdo integrado – entre campo e cidade. SÃO PAULO.16 A conseqüência lógica do paradoxo entre o crescimento das exportações de gêneros agrícolas in natura ou usinados e a 16 Acompanhamos Marx e Engels ([1845-1846] s. considera-se que ainda vige entre nós.d. os exemplos mais contundentes são aqueles referidos à apropriação do nível concreto da dimensão espacial. ou mediadores. por enquanto. Assim. 109-138. Para os propósitos deste debate.) em A ideologia alemã. entre “trabalho agrícola” e o “industrial e comercial”. se é consenso a continuidade da insuficiência do Governo Federal na expansão.. privados. primeiras desde 1960 –.

em propriedades que não cumprem sua “função social”. Considerando os questionamentos e elaborações de geógrafos (Ariovaldo Umbelino de Oliveira. 2006). p. Bernardo Mançano Fernandes apud in Dafne Melo. acrescido do crescimento significativo da atividade agrícola puramente mercantil – o “agronegócio” – podemos dizer que a espacialidade brasileira. Uma classificação simplificada se encontra em João Pedro Stédile & Bernardo Mançano Fernandes (1999. quem está disposto ao trabalho agrícola em terra própria sem depender exclusivamente das formas pré-capitalistas ou tipicamente capitalistas de emprego no campo. 157-163). 128 . na particularidade do campo. acompanha o sentido geral de conformação capitalista da formação socioespacial brasileira ao não fazer avançar a Reforma Agrária conforme uma concepção 17 Várias formações socioespaciais já realizaram. 2006. mormente na Europa Ocidental – numa forma mais próxima da realização burguesa da expropriação do campesinato. enquanto no México houve intervenção estatal iniciada em 1920 já na própria distribuição de terras. Em não havendo apropriação positiva – por meio da desapropriação de terras “improdutivas” de produzir gêneros agrícolas no patamar do fator produtivo. chamada por Marx ([1890] 1996) de “acumulação primitiva” – e na América – em que os Estados Unidos da América tiveram um processo de formação mercantil burguesa com a anteposição policial do Estado. vê-se que a soma entre formação de propriedade por troca mercantil. cuja definição data de 1976 – assumida pelo próprio Governo Federal de plantão – o 2º Plano Nacional de Reforma Agrária –. a promoção de loteamentos com fins de produção agrícola – a colonização – e à regularização fundiária institucional superam a distribuição da terra por reconhecimento da necessidade de assentar.WILLIAM ROSA ALVES permanência da carência de alimentos para a maioria dos habitantes do campo brasileiro é a insistência na “Reforma Agrária” como expediente de apropriação da terra como meio de trabalho e de vida anteposto ao negócio fundiário como componente da valorização capitalista da terra17. somada à expulsão de viventes do campo.

Se tal fato implica em outra forma que não a da competição capitalista no campo. nota 16.). 2005 mais afeita aos que ela reivindicam. p. p. 161). principalmente quando se pensa numa superação no nível do modo de produção e não só na regulação da formação socioespacial. 1999. sobretudo no aspecto da produtividade social da terra (João Pedro Stédile & Bernardo Mançano Fernandes. e assim contribui para avaliarmos em parâmetros e termos mais profundos os limites da produtividade capitalista de uma espacialidade. p. inclusive a terra.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Carlos Walter Porto Gonçalves (2006. Tais percalços não demovem o reconhecimento dos contrapontos à valorização do espaço – e da terra – no campo brasileiro. nº 83. 109-138. 1999. e assim rechaça a idéia de “latifúndio improdutivo x produtivo” por isto já se encontra na circunscrição ideológica da produção capitalista. interessa-nos aqui observar a dimensão de apropriação concreta transformadora da propriedade privada rumo a uma totalidade com a redistribuição dos meios de vida. A fim da discussão sobre a qualidade da espacialidade brasileira na perspectiva de análise da formação de uma hegemonia. Considerando a própria consciência da 18 A priorização das práticas de prevalência do valor de uso sobre o de troca é questão por demais polêmica na história das elaborações intelectuais e das práticas pela socialização dos meios de produção e de vida. é importante observar os fundamentos e resultados da “cooperação produtiva” que o MST desenvolve sistematicamente (João Pedro Stédile & Bernardo Mançano Fernandes 1999. 129 . Ele é explícito ao defender que a desapropriação de terras improdutivas deve contribuir para que “o camponês assentado tenha acesso a capital” (João Pedro Stédile & Bernardo Mançano Fernandes. 157 e ss. Para além deste âmbito técnico de tal problemática. SÃO PAULO. 95-121). Tal posição destoa daquela apresentada por lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terras – MST. pois observamos que o MST insiste na prevalência do valor de uso sobre o de troca. algo pouco estudado na própria Geografia Brasileira18. p. 12) considera que “todo o latifúndio contribui para a produção de uma estrutura social injusta”. embora esta implique em fase imprescindível da análise da Geografia. p.

qualquer que seja o seu tamanho – não deve encobrir que ele se realiza como qualidade das práticas que (des)envolvem as obras sem o destino alienado como produto e mercadoria. 1999. 1986. “Enfim. a liberdade. que “estabelece normas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo. o cidadão-citadino-usuário participando de maneira cada vez mais próxima de todos os momentos da realização. 10). o urbano tornar-se-ia o lugar de uma democracia cada vez mais direta. Também contra uma concepção de espacialidade – no contexto da(s) cidade(s) – como “máquina produtiva” do capital. Quanto ao adjetivo “urbano”. I. ver nota 3. traduzidos como elementos constitutivos de uma presença democrática. 126 e ss. 20 130 . ao mesmo tempo que é fundamental perquirir tal questão na dimensão da espacialidade da(s) cidade(s).WILLIAM ROSA ALVES limitação da luta pela terra no campo. de regulamentação e normatização dos artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988 e logo abaixo desta na resolução dos conflitos aí prescritos – nº 10. Artigo 1º). Um elemento importante para pensarmos a regulação específica das espacialidades “urbanas” brasileiras é o Estatuto da Cidade20. os movimentos sociais “urbanos”19 já pautavam por ocasião da eleição presidencial de 2002 questões e propostas no sentido da (re)distribuição dos meios de vida. Mais preciso que o artigo 19 V1 Com relação à concepção de movimentos sociais por aqui burilada. Do que? De uma vida social diferente: de uma sociedade civil fundada não em abstrações. da segurança e do bem-estar dos cidadãos.). p. fato que nos impele a considerar que a perspectiva da hegemonia aí já se encontra. de julho de 2001. p. ou seja. [1965] 1967). Lei Federal – Ordinária. o MST sugere a princípios e objetivos similares de luta pelos meios de vida na cidade (João Pedro Stédile & Bernardo Mançano Fernandes. a desigualdade e a competição. a produção está voltada para a humanidade do homem no sentido genérico. ou seja. sem os constrangimentos da propriedade e suas conseqüências: a escassez.257. Podemos dizer que o verdadeiro urbano é a poiésis (Henri Lefebvre. bem como do equilíbrio ambiental” (Cap. o uso mecanicamente associado à espacialidade conhecida como “cidade” – aglomerado de seres humanos denso de ocupação e atividades. mas no espaço e no tempo tais como ‘vividos’” (Henri Lefebvre.

4º ao 42º). via precisão das atribuições (Cap. 3º). de proposta e de negociação”. instrumentos (Caps. ficou para os Projetos de Lei de Iniciativa Popular – que devem ter assinatura de ao menos 1% do eleitorado nacional – e para a regulamentação do Cap. saneamento. 46º ao 58º). Arts. II e III. mediante as seguintes diretrizes gerais. nas cartilhas e folhetos do Fórum Nacional da Reforma Urbana (FNRU)21. SÃO PAULO. o 2º (Cap.” É importante observar aí a escala genérica de consideração do urbano. 2005 mencionado. a cidadania é vista na dinâmica desde a crítica refratária à ordem até algum acordo com o Estado. Numa primeira 21 O FRNU surgiu em 1987 em razão mesma de aprovar uma “plataforma da Reforma Urbana” na Constituinte que definiria a Constituição Federal (CF) a ser promulgada – como de fato o foi – em 1988.. Os quase 13 anos de demora na definição do Estatuto da Cidade – de outubro de 1988 a julho de 2001 – demonstra a insuficiência do processo legislativo para a superação dos interesses privatistas – mesmo que minoritários no quantitativo eleitoral da formação social brasileira – em torno da terra urbana. por vezes expressa como “cidadania”22.. de resistência. I. embora alguns elementos concretos – fundamentalmente a propriedade – podem contribuir para. 28-9). 109-138. 22 131 . a depender de aprovação por maioria simples do Congresso Nacional. V. sic!) da CF. p. IV. 43º ao 45º) e “disposições gerais” (Cap.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. p. transporte coletivo. Art. I) aponta o objetivo da lei em “ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana. Arts. as ações no campo da sociedade política – cidadania representada ou delegada aos governantes dos “poderes republicanos” – que correspondam aos anseios das frações da sociedade civil reivindicativa de condições concretas para uma vida até então representada como mera reprodução da sua força de trabalho. Como não alcançou nem a legitimidade da Reforma Agrária. nos anos de 1990 observa-se a transição das reivindicações particularizadas pela “infra-estrutura urbana” – asfalto. Arts. De fato. princípios de gestão (Cap. equipamentos de saúde e educação e similares – para uma perspectiva política sintética. sua construção “inclui um processo contínuo de mobilização social e de busca de ampliação de direitos que se realiza através de momentos de denúncia. II (Da Política Urbana) do Título VII (da Ordem Econômica e Financeira. nº 83. Para Jean Rossiaud e Ilse Sheren-Warren (2000.

s. dalguma presença das frações da sociedade civil no Estado – mesma do Direito à Cidade conforme a publicidade do FNRU (FASE & Fórum Nacional da Reforma Urbana. a compor um sentido mercantil da urbanização-metropolização que se totaliza na formação socioespacial em questão. pois que particular na unidade da formação socioespacial brasileira –. 132 . as experiências e resultados dos movimentos sociais “urbanos” se expressam de forma íntegra no Estatuto da Cidade e sugerem. Só pode ser concebido como formulado como direito à vida urbana. encontre sua fase morfológica. grifos do autor). transformada. Sem a pretensão de esgotar a complexidade da questão urbana e das suas relações vistas como espacialidade específica – mas não setorial ou sistêmica. inscrição no espaço de um tempo promovido à posição de supremo bem entre os bens. não só alguns avanços rumo a condições mais profícuas à socialização dos meios de vida. prioridade do valor de uso. sua realização prático-sensível (p.d. por meio da crítica à(s) espacialidade(s) capitalista – mercantil –. ou seja. até então não há notícia de apropriação mais ampla e íntegra do Estatuto da Cidade como nível de colaboração tática – muito menos estratégica – entre as frações demandantes do urbano – na concepção lefèbvriana co(r)tejada na nota 17 – e o Estado já demonstrado suficientemente como simbiótico aos interesses privatistas. Pouco importa que o tecido urbano encerre em si o campo e aquilo que sobrevive da vida camponesa conquanto que o ‘urbano’.). lugar de encontro. mas a constituição – por enquanto como potência no nível da participação e representação. Acompanhando a ênfase quanto ao valor de uso como critério de uma espacialidade mais avançada rumo à emancipação – como realização semelhante à Comuna de Paris –. recorremos à provocação de Henri Lefebvre (1991) quanto à cara expressão grifada acima: O direito à cidade não pode ser concebido com um simples direito de visita ou retorno às cidades tradicionais.WILLIAM ROSA ALVES mirada. renovada. 116-117.

Mas o que dizer das possibilidades de superação da tendência capitalista – por meio da produtividade crescente do trabalho social – da formação social. Ainda não há expressões de forças sociopolíticas que alterem os rumos apontados pela reestruturação parcial do modo de regulação a partir de 1990. Milton Santos. Entre as(os) pensadoras(es) do Brasil. deixamos a pergunta sobre qual o grau da crítica dos movimentos sociais no campo e na cidade brasileiros quanto à espacialidade existente e a possível. como se iniciou a partir do governo de JK (19551960) e parece avançar com os governantes de turno. e assim a análise da constituição e instituição do bloco histórico por ora em consolidação é um enfoque necessário ao entendimento da qualidade e papel da espacialidade brasileira atual. p. 2005 À guisa de concluir este tópico. o que não quer dizer que um projeto de hegemonia heterônoma implica em soberania nacional – pró-Estados Unidos da América.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. SÃO PAULO. tem sido consenso que a espacialidade sem hegemonia corresponde a uma formação socioespacial sem soberania. [1989] 1999. 133 . 2000). e assim à disputa do sentido desta formação socioespacial que não seja o da inércia dos “ventos reinantes”. agora acrescida por uma fração significativa do que foi parte crítica da sociedade civil? GEOGRAFIA E LIBERDADE Se de um lado já se consideram as elaborações reveladoras da aceleração e transformação do mundo (David Harvey. 109-138. uma vez que os termos da transformação social – sobretudo no chamado “campo democrático-popular” – já carregam considerações quanto às qualidades requeridas a uma vida moderna democrática – ver nota 11. a teoria crítica deve explicar a instrumentalização e conseqüente despolitização da(s) espacialidade(s) ao acompanhar o aprofundamento da divisão do trabalho a fim da expansão capitalista. nº 83.

/dez. Pablo (orgs. a soberania popular. 2005. Trad. Belo Horizonte. B. São Paulo. Se o nível do território continua como ameaça quando seus agentes propensos a sujeito insistem na sua dimensão política última. Boletim Mineiro de Geografia. Ricardo. Que os esforços até então faiscados no chão desse “mundinho” chamado “Brasil” não sejam engolidos pela quimera da via única. em verdade a destituição da fala autêntica da territorialidade que ainda não acompanha sincronicamente a reprodução mercantil. Balanço do neoliberalismo. 1995. Que a dança dos vivos também cante no passeio sobre as cordas da viola. Luiz Felipe de. 17 de maio de 1998.). São Paulo: Boitempo. No labirinto das colônias. 1ª reimp. Rio de Janeiro: Paz e Terra. que comecemos por uma análise refinada – sem perder a escala – do ordenamento territorial que até então conforma as espacialidades onde vivemos. Consuelo F. Cleonice P. Belo Horizonte: Ed. [1997] 1998. nº 13. A democracia contra o Estado: Marx e o momento maquiaveliano. da UFMG. ANTUNES. 7-8. que o gosto desta jornada não seja o gelo de uma Geografia insípida encerrada na visão de uma geladeira aberta. 134 . mesmo – e sobretudo se – visto como anti-eficiência econômica. Perry. Miguel.WILLIAM ROSA ALVES Contra a perspectiva da simbiose capitalista – Estado + mercado –. Emir & GENTILI. Anselmo. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. p. ALENCASTRO. p. Folha de São Paulo. Os sentidos do trabalho: ensaios sobre a afirmação e negação do trabalho. In: SADER. à Geografia requer-se o dissenso interno e externo. 9-23. [1999] 2000. Mais! ALFREDO. p. Mourão. 9-39. Galéry. jul. ANDERSON. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABENSOUR. Uma abordagem sobre a problemática espaço-temporal no capitalismo contemporâneo. Santiago & Eunice D.

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139 .. a Carvalho (2004). enfim. enquanto horizonte epistemológico. dos lugares. nos autorizam a sugerir e a fundamentar tal definição. das relações homem-meio. como se sabe. da guerra.htm. Camus) Ciência do espaço. além dos reconhecimentos divulgados por pensadores de outras áreas.. Muitas são.ub. Com a mecânica quântica.que as adotaram e as divulgaram. as formulações desses pensadores nos aproximaram (e seguem nos aproximando) 1 Nos referimos. pretendemos chamar a atenção para uma outra possível definição da Geografia: ciência da complexidade. Ou. graças aos contextos em que foram produzidas ou aos pensadores ..de Kant a Lacoste . como seria mais adequado dizer nestes tempos excessivamente corretos (plurais) e também para dar uma medida mais justa dos objetivos deste artigo.” (A.. das territorialidades. retomando um tema que vimos desenvolvendo em outros trabalhos1 . por exemplo. Aqui. Pioneirismos produzidos por diversos geógrafos. dos estados. Este trabalho também foi publicado em http://www. das paisagens. devemos aos progressos e formulações desenvolvidos sobretudo pelos físicos e biólogos que praticamente repartiram o século XX entre si. as definições que já “colaram” na Geografia.es/geocrit/sn-34.GEOGRAFIA: CIÊNCIA DA COMPLEXIDADE (OU DA RECONCILIAÇÃO ENTRE NATUREZA E CULTURA) Marcos Bernardino de Carvalho “Mas quando a abstração começa a matar-nos. a dupla hélice do DNA.. A complexidade. caso se prefira. é necessário que nos ocupemos da abstração. a manutenção de certas características e potencialidades do saber que produziram. entre outros. uma das ciências da complexidade.

que acreditavam presentes em cada situação investigada.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO de uma possibilidade maior de compreensão da vida e da matéria. Nessas revisões não são poucos os atalhos e caminhos inéditos. e sistematicamente recusados pelas histórias de cada especialidade 2 Expressão utilizada por Alfredo Bosi (Dialética da Colonização. geografias e demais “humanas científicas” também se renderam e foram instadas a rever alguns dos caminhos simplificadores ou reducionistas a que invariavelmente se entregavam. seja pela imposição das novas necessidades cognitivas. das Letras. algumas das humanas também impuseram a si próprias uma revisão dos estatutos que as obrigavam a identificar os fragmentos de cultura. enriqueceram nosso vocabulário que a partir de então passou a conviver com inúmeras expressões derivadas das novas formulações. Por tabela. Após longo período de afirmação análíticocorporativa e após os abalos desferidos pela realidade dos fatos produzidos no “curto século XX”. portanto. macromoléculas. estruturas dissipativas. antropologias. de economia e de política. diga-se de passagem. típico de quem vive em permanente “obsessão do descompasso”2 . de espacialidade. 1993) e recuperada por Laymert Garcia dos Santos (2003) para expressar a condição daquelas mentes obcecadas (colonizadas. quanta. histórias. prende-se muito mais ao propósito de justificar a existência de quem investiga do que o de entender (dialogar com) as realidades multidimensionais perscrutadas. 140 . incerteza. ou por elas recuperadas: espaço-tempo. São Paulo: Cia. afastadoras do real eram algumas de nossas mais caras e antigas certezas. de história. demonstrando quão simplificadoras e. em verdade) por alguma condição. A difusão de tal crença. caos. genômica. relatividade. as sociologias. principalmente inconclusos ou pouco explorados. de modernidade ou desenvolvimento. fractais. que por ser a do “outro” (o colonizador) é eleita como a ideal. etc. Às ciências humanas ou sociais esse novo “horizonte” revelouse mais tardiamente. Seja pelo velho hábito de macaquear os caminhos indicados pelas chamadas ciências duras.

Para Morin. Mas aqui. Ambos os pensadores mencionados não se referem apenas à Geografia como sendo portadora dessas características de um saber complexo (ou de indicadora de caminhos para orientar o “paradigma emergente”. SÃO PAULO. nos restringiremos à Geografia e ao exame de como aprofundar esse potencial que permitiria de fato defini-la como uma ciência da complexidade.. Santos). como prefere Boaventura S. pode se oferecer como exemplo de instrumento cognitivo e facilitador para reconciliar grande parte dos objetos (divididos entre naturais e sociais) que as ciências pautadas apenas pela disjunção e/ou redução multiplicaram. 3 4 Ver especialmente Morin (2001) e Souza Santos (1995). cindiu-se internamente entre uma antropologia que é cultural e uma que é físico-biológica4 . principalmente aquelas estimuladoras da reconciliação entre os fragmentos-objetos mencionados.. por sua vez. em uma outra obra sua (Morin & Kern.: 40) faz menção explícita. pois aquela também teria lidado mal com as separações exigidas entre as “naturais” e as “sociais”.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. portanto. A essa cisão o mencionado texto de Boaventura S. o sociológico. que de pronto chamam a atenção pelas potencialidades de diálogo com as tais necessidades cognitivas contemporâneas. p. Para Boaventura. 139-160. o econômico. Edgar Morin. não abandonou esse seu arco ampliado de interesses e. À antropologia também é sugerida essa mesma condição. É nesse sentido que pensadores como Edgar Morin e Boaventura Souza Santos. nos chamam a atenção para as contribuições que a Geografia poderia oferecer ao debate. isso seria proporcionado diretamente pelo fato da Geografia revelar-se como saber complexo.” 141 . Santos (op. o histórico. tal qual a Geografia (física e humana). tanto que. cit. nº 83. essa contribuição viria graças às características de ambigüidade e indefinição de uma ciência que ao mesmo tempo se manteve interessada pelos fenômenos da natureza e da sociedade. em algumas de suas produções recentes3 . para os propósitos deste artigo. que não cedeu à pressão analítica. 1993: 50) a esse propósito afirma o seguinte: “A antropologia. 2005 disciplinar. ciência multidimensional (articulando nela o biológico. por exemplo. o psicológico) que revelaria a unidade/diversidade complexa do homem.

abraçadora de toda a Terra. de uma Antropogeografia. mesmo que dignas de nota. todavia o seu método se distingue por causa de sua tendência natural a ultrapassar seus próprios muros.. podem ser apenas um bom ponto de partida para o estabelecimento das reconciliações (ou separações) cognitivas necessárias. no seguinte contexto (tradução nossa): “Se é verdade que a geografia investiga os mesmos fenômenos que são estudados também por outras ciências. 1997b. as cisões internas e os duplos estatutos verificados em algumas disciplinas. pois. mas estas terão que ser construídas. no entanto. invariavelmente nos remete para a história dessa disciplina. 6 142 . convém estabelecer que apesar das possibilidades indicadas pelas formulações dos pensadores que exemplificamos.. No original alemão: “hologäische Erdansicht” (Ratzel. 1914: 91)6 . ou seja.. Humboldt e posteriormente Ratzel a formular instrumentos cognitivos que pretensiosamente nos capacitariam a “abraçar o mundo com as próprias mãos”. apoiavam-se em sua concepção hologeica.” (Ratzel. que ainda sob inspiração do chamado romantismo alemão levaram figuras como Ritter. como já tivemos a oportunidade de demonstrar em outros trabalhos 5 . 1914: 91). que bravamente resistiram às pressões analíticas. A expressão aparece na obra mencionada. as condições de ambigüidade. Assim. VOCAÇÃO DE ABRAÇAR O MUNDO A condição de saber complexo. realizando uma observação que eu denominarei hologeica . permanecerão apenas sendo o que são: potencialidades.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO Antes. sobretudo a partir do seu reconhecimento acadêmico-institucional. indicada para a Geografia. 1882). do contrário. As propostas ratzelianas. que o próprio pensador alemão definia como uma perspectiva de observação “abraçadora de toda a Terra” (Ratzel. 1997a e Carvalho. redefinidas e mais bem aproveitadas. As características realçadas em favor dessa condição também remontam às muitas exortações conectivas. 5 Aqui nos referimos ao trabalho já indicado na nota 1 e também aos seguintes: Carvalho.

complexus refere-se ao ato de abraçar.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 1914: 92). compreender) o instrumento cognitivo proposto e para resistir à excessiva desconexão entre os saberes: “Nós não desconhecemos a grande ajuda que o critério hologeico traz ao estudo de cada um dos problemas antropogeográficos. 139-160. na qual. SÃO PAULO. complexizar (na etimologia latina. geomorfología. diríamos. de forma que a investigação possa ser dirigida e conduzida sobre uma base ampla. Sugerida em meados do século XIX por Ernst Haeckel (que. edafología. cada uma das ciências é dividida em um grande número de pequenos estudos particulares. nasceu prematuramente uma vez que se propôs a estudar as relações dos seres vivos com seus habitats. 2005 incapaz de conceber investigações geográficas desvinculadas dos estudos históricos ou antropológicos. biogeografía. hidrología. a uma Biogeografia Universal que se propunha abarcar estudos de todos os seres vivos sobre a superfície da terra (fito. por efeito da especialização. p. exatamente em um momento de grande privilégio às formulações analíticas em detrimento das visões de conjunto: “O meio natural foi deixando de ser tomado em consideração à medida em que as disciplinas que o tinham como objeto de estudo foram se subdividindo: climatología. foi professor de Ratzel). A partir disso poderíamos até parafrasear uma famosa afirmação de Tricart e conferir também à (Antropo)Geografia de Ratzel a mesma condição de precocidade que o geógrafo francês atribuiu à Ecologia. a Ecologia. entrelaçar. Em uma época como a nossa. possibilitando a descoberta de campos investigativos completamente novos” (Ratzel. que por sua vez se fragmentaram em inúmeros pontos de vista setoriais cada 143 . nº 83. segundo Tricart. zoo e antropogeografia). o critério hologeico oferecia-se como suporte para. diga-se de passagem. é uma verdadeira felicidade que na ciência geográfica tal fracionamento não seja ainda muito acentuado.

compilado e traduzido por Mendoza. E. na virada do século XIX para o XX.7 Neste tipo de contexto. com destaque para a reação daqueles que viam entre as principais idéias presentes nesse conjunto um grande potencial de diluição dos objetos e dos territórios pretendidos pelas ciências sociais que. Estamos nos referindo. e que logo mais concluiremos. lastreadas em corporações e associações científico-profissionais. são fundamentais para a compreensão dessa nossa abordagem e por isso voltamos a essa história. também buscavam se estabelecer como disciplinas analíticas. respectivamente. 1922. 1988: 470). dessa reação cujo conteúdo pode ser muito bem ilustrado por esse trecho extraído do texto de Febvre: “Agora compreendemos melhor o que querem dizer os partidários da morfologia social quando denunciam ‘esta 7 O texto de Jean Tricart foi publicado originalmente nos Annales de Géographie. L. podem ser considerados igualmente como marcos. com tendência a se tornarem incompatíveis entre si. Paris: La Renaissance du Livre. inicial e final9. 533-539. 1979.8 Um artigo de Émile Durkheim (fundador do L’Année Sociologique) .MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO vez mais limitados e parciais. La Sociogéographie. foi alvo de uma rica polêmica. p. mas com certa brevidade. Die Erde und das Leben).La Sociogeographie . I. como já indicamos nas notas 1 e 5. que tratamos mais extensamente em outras oportunidades. cujos marcos inicial e final podem ser considerados. pois envolvem desenvolvimentos conhecidos por muitos dos que agora nos lêem. 1897. Nos limitamos a lembrar alguns dos principais fatos e episódios de uma história. p. aos seguintes textos: DURKHEIM. E uma volumosa obra. 8 9 144 . 1988. e impróprios para se integrarem em una visão de conjunto” (Tricart. 705-714. LXXXVIII. a perspectiva hologeica de Ratzel sofreu duro combate. do qual extraímos essa citação (tradução nossa). L’Année Sociologique. a Antropogeografía (1882-91. vol.La terre et evolution humaine -. Os aspectos a que estamos nos reportando. La Terre et l’évolution humaine. FEBVRE. Anthropogeographie) e A Terra e a vida (1901-02. respectivamente.e um livro de Lucien Febvre (um dos fundadores dos Annales d’Histoire ) .

Os geógrafos querem explicar pela Geografia. de política mundial. as sociedades humanas. 1925: 65). uma ciência sociológica de objetivos modestos e marcha prudente. 1907: 817). a prudência. Todas as expressões entre aspas foram colhidas na citada obra de Febvre. forjou até mesmo uma falsa oposição entre La Blache e Ratzel. ou ao menos reivindicam como objeto de estudo. 2005 disciplina de grandes ambições que denomina a si mesma geografia humana’.11 Como sabemos. prevaleceu a disciplinarização. p. Mas é evidente que no progresso da civilização. no entanto. que com sua “geografia. por ter um objetivo limitado e fixado de antemão. se dependesse das exortações de Ratzel.” (Febvre. no incremento da cultura. para tal. dos Estados se inscreve uma tendência em direção a uma cidadania universal” (Ratzel. a prudência e a modéstia. das comunicações. Essa versão preservou o texto integral do original francês e foi publicada apenas três anos depois da primeira edição francesa de 1922. de comércio mundial. das menores às maiores. não teriam lugar.. 139-160.. e se busca ao mesmo tempo ansiosamente evitar cada sinal que possa revelar que as barreiras nacionais existem para estreitar o olhar que aspira a abraçar o mundo inteiro. a modéstia e a reclusão disciplinada às fronteiras demarcadas pelos Estados. Um exemplo desse inconformismo poderia ser colhido nas páginas finais daquela que é considerada sua última grande obra. como queria Febvre que. ciência dos lugares”. Abusos flagrantes que não cometeria. 11 12 145 .. Die Erde und das Leben: “É próprio do nosso tempo! Fala-se de ciência universal. atribuindo ao primeiro a condição de verdadeira “tábua de salvação”. 10 Esse trecho. com nossa tradução. das mais rudimentares às mais complicadas.. SÃO PAULO. produziria os antídotos necessários para o combate à “rapinagem” pretendida pela “antropogeografia Ratzeliana”12.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. extraímos da versão espanhola do livro de Febvre. inclusive para o conhecimento. nº 83. Extraído da versão italiana do mencionado livro (tradução nossa).10 De fato. por sua vez.

em vez de ser assumido como uma vantagem comparativa diante das outras disciplinas. o social e particularmente com os resultados produzidos pelas relações entre os dois. Ou seja. que a citação abaixo sintetiza. sobre o território. da indefinição de objetos e da vaguidão. ao homenagear Carl Sauer. isso não foi além dessa condição potencial e jamais se configurou com a mesma ousadia dos pioneiros desse processo de institucionalização. Humboldt. no entanto.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO GEOGRAFIA: SABER INDISCIPLINADO Essa disciplinarização. logrou mais sucesso entre as outras ciências sociais emergentes. Não há melhor exemplo disto que Sauer com suas intrépidas especulações acerca do fogo. garantido-lhes a posse territorial das fatias de conhecimento reivindicadas. sobre o potencial humano. em uma importante conferência proferida na Universidade de Berkeley no início dos anos 1980. entre outros: “Se atreveram a fazer algo que nós. 1988: 544). das discussões e das tentativas de enquadramento. raramente fazemos: formularam as grandes perguntas sobre o homem. Para amparar esse desafio. passou a ser (auto)criticado como sintoma da ausência de cientificidade. Stoddart lançou seu repto. com nossa sofisticação. mesmo onde o potencial de desenvolvimento de um saber complexo já estava presente. com destaque para Forster. Necessitamos recordar que a ciência tem que fazer-se perguntas atrevidas como essas” (Stoddart. orbitando entre as preocupações com o mundo natural. o abraço que originalmente se propunha a dar no conjunto das dimensões do planeta intimidou-se diante da vitória corporativa e. da origem da agricultura. da função da costa. Ratzel. Stoddart relembra a ousadia de várias personalidades da Geografia. A Geografia mal se conteve (no lugar que lhe fora determinado por Febvre) e a despeito da exortação às produções especializadas. além de Sauer. seguiu vivendo seu estatuto de ambigüidade. Em favor do desenvolvimento desse potencial é que David R. Mas. Kropotkin que. 146 . sobre os recursos.

Para tanto. conforme conclui em sua conferência: “Não existe uma Geografia física de Bangladesh separada de sua Geografia humana. o biogeógrafo (e geomorfólogo) Stoddart. sugere o exame do caso de Bangladesh no qual uma intervenção. o malogro resultou. dependentes do fluxo interrompido das águas e da ecologia dos manguezais. em detrimento da recuperação dos mangues. p. A opção holandesa.: 542). apenas acrescentaram números às vítimas dos “acidentes naturais”. diga-se de passagem. com vistas a conter os constantes processos de inundação ali verificados. como sucumbiu tecnicamente diante de novas inundações que. teria resultado de uma incorreta percepção do nível de interdependência que os fatos das geografias humana e física de Bangladesh apresentam. 2005 Lamentando os “muros edificados” entre os especialistas dedicados aos estudos físicos e os da chamada Geografia humana. demonstra. inclusive. 139-160. Com certeza a conclusão de Stoddart é absolutamente generalizável para quaisquer outros lugares. em sua homenagem ao geógrafo cultural (e histórico) Sauer. Uma Geografia humana divorciada do meio físico constitui pura e simplesmente algo carente de sentido” (Ibid. segundo Stoddart. SÃO PAULO. portanto. nº 83. revelou-se profundamente desastrada: não só destruiu meios de vida de enormes contingentes populacionais. sendo a recíproca ainda mais certa. de uma solução técnico-especializada que se recusa ou tem dificuldade em ver o seguinte. Mas que outra solução se poderia esperar daqueles que estão aprisionados em um dos lados daqueles rígidos “muros edificados”? Segundo Stoddart. Bastaria mencionar fatos recentes como as tragédias provocadas pelo Tsunami asiático de 2004 (mais de 300 mil mortes) ou pelo episódio do furacão Katrina e a devastação de Nova Orleans 147 .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. E hoje não precisaríamos nem argumentar longamente em favor disso. que optou pela construção de Polders (chamada por Stoddart de “solução holandesa”). os prejuízos práticos que investigações conduzidas em estrita e cega obediência às fronteiras disciplinares (sobretudo as que rigidamente dividem fatos físico-ambientais dos humano-sociais) podem acarretar.

) do planeta. que invariavelmente são colocadas em oposição. Enrique Leff (Coordenador da Rede de Formação Ambiental para América Latina e Caribe . não traz como conseqüência apenas problemas teóricos. econômica. já não caíram na tentação de associar geografias humanas à teoria e. Ao propor suas formulações voltadas para a construção do que ele denomina de uma “pedagogia da complexidade ambiental” (Leff. Os números de vítimas e as catástrofes colhidas graças à voracidade do reducionismo analítico que dificulta a percepção desta interdeterminação alerta-nos para outra reciprocidade: aquela existente entre prática e teoria. ou como tópicos de identificação dos diversos saberes especializados. Quantos. geografias físicas à prática? Ou quantos jovens incautos e desinformados já não foram (auto)convencidos a optar por essa ou por aquela especialidade. por exemplo. social. demonstra que nossos chamados problemas ambientais são em grande parte decorrentes da forma como temos produzido e conduzido nosso conhecimento do mundo.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO (EUA) em 2005 (obrigando a evacuação de mais de um milhão de pessoas) para não termos sequer que lembrar da condição que a chamada questão físico-ambiental tem assumido na determinação da “Geografia humana” (política. também não precisaríamos chamar a atenção para o fato do vice-versa dessa determinação ser. em contrapartida. em função de maior afinidade com a prática do que com a teoria. como afirmaria Stoddart. antes de mais nada. E. ainda mais certo. uma opção teórica. pois contam-se aos milhões os números de vítimas decorrentes desses “problemas teóricos”.PNUMA) é hoje um dos que melhor consegue traduzir essa relação teoria/prática para o âmbito das idéias que aqui desenvolvemos.. abandonamos a perspectiva de um entendimento das coisas para 148 . evidentemente. 2003).. ou vice-versa? Mas o reducionismo analítico. mesmo que de fato seja. Segundo ele. como podemos muito bem demonstrar somente com os fatos e exemplos mencionados.

Mas isso é o equivalente a sugerir que os processos. Sendo assim.que deve passar por uma política do conhecimento -. conclui Leff: “A crise ambiental não é crise ecológica. a denominada crise ambiental deveria ser vista. com todas as implicações daí decorrentes: reconhecer os defeitos da razão prevalecente. admitir a falibilidade e também o poder destrutivo da ciência e da tecnologia.” (Ibid. A primazia conferida a esse processo de “objetivação e coisificação do mundo”. “um chamado à reconstrução social do mundo: a aprender a complexidade ambiental. mas crise da razão. dando lugar a um desenvolvimento das forças produtivas fundadas no domínio da ciência e da tecnologia” (Ibid. investir nos esforços para reconciliar saberes e disciplinas que tenham sido vítimas de separações ou agrupamentos artificiais ou simplistas. mas de compreensão do conhecimento sobre o mundo” (Ibid. nº 83. Isto tem fortes implicações para toda a política ambiental . e para a educação. 139-160. Conseqüentemente.: 43). Os problemas ambientais são. no entanto.: 39). SÃO PAULO. fundamentalmente. recusar a subordinação permanente do logos em relação ao nomos (para pensar a relação entre ecologia e 149 . Aprender a aprender a complexidade ambiental não é um problema de aprendizagem do meio. tidos como irreversíveis. como um chamado à revisão dos processos cognitivos e de produção dos discursos que conduzem a nossa apropriação do mundo. antes de mais nada. “desterrou a natureza e a cultura da produção. e de qualquer outra construção humana. problemas do conhecimento. 2005 uma “intervenção sobre o real que culminou na tecnologização e na economização do mundo” (Ibid.: 57).: 55). sacrificar interesses corporativos em nome do privilégio ao conhecimento. p. Nas palavras de Leff. cedam passo para as perspectivas de complexização. recusar a pecha de irracionalismo para as formulações divergentes dessa razão prevalecente.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. de economização ou tecnologização.

mesmo que na sua versão acadêmico-burocrática. mas é também o princípio diretor. sem hierarquização entre eles. podem ser muito 13 Segundo Susan George: “O logos é a palavra. entre muitas mais que poderíamos enumerar. é que acreditamos ser possível convocar o saber geográfico.. e isto se traduz pela supremacia outorgada à economia sobre a ecologia. Para contribuir com o equacionamento de várias dessas implicações. estimular abordagens integradas das naturezas e das culturas (em nosso caso: das geografias físicas e das humanas). a desenvolverem aquele potencial de instrumento cognitivo da complexidade que nas origens de seu processo de institucionalização já havia sido indicado. Em uma sociedade normal o princípio diretor do domínio ou da casa [oikos] deveria ser mais importante que as regras. Mas.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO economia. promover diálogos sinceros entres esses saberes. e seus praticantes. é claro. p.e. IDENTIDADE ENTRE SABERES COMPLEXOS E CERTAS GEOGRAFIAS A recuperação (ou revisitação) das formulações originais dos conteúdos preconizados pelas idéias de uma biogeografia universal. Como buscamos demonstrar. 1996:41) 150 . como legítimos promotores de conhecimentos. sobretudo quando consideramos o peso de uma tradição histórica ainda pouco difundida e as características de resistente epistemológica cultivada por inúmeras geografias que não sucumbiram totalmente diante da rendição generalizada à ordem disciplinar (ou departamental). ditada por aquilo que contemporaneamente poderia se sintetizar na expressão “mundo corporativo”.)13 . de uma antropogeografia ou do critério hologeico. nos sentimos autorizados a fazer tal convocação.” (George. que o nomos. considerar todos os saberes produzidos e lastreados por tradições coletivas.. em realidade no mundo moderno atuamos como se nomos prevalecesse sobre o logos. e assim por diante. devidamente recontextualizadas.

Assim como pode ser igualmente fértil a consideração das formulações e produções mais recentes que continuaram a assumir o duplo estatuto de uma Geografia que é 100% física e 100% humana. distinções e iterações inexistentes. ambigüidade e contingências mutantes. tais como paisagem. apenas por causa dos interesses analíticos em sua volúpia classificatória. com o estabelecimento de limites rígidos e artificiais entre fenômenos. e como princípio geral. portanto. 1991). E com esse espírito eles deveriam ser tratados. abrangentes e abertos à imprecisão. território. como os fatos e fenômenos que nos rodeiam. SÃO PAULO. 151 . as interferências e flexibilidades recorrentes que os objetos investigados sempre apresentam. os saberes que podem assim ser identificados manifestam algumas características comuns e de fácil percepção. Sujeitos. portanto. ou seja. 2005 férteis. no sentido de contribuir para a afirmação de um horizonte epistemológico da complexidade. aos contextos e diálogos de quem os adota. 139-160. Tal princípio geral tende a desviar-nos de uma preocupação obsessiva com as fronteiras. entre outras. de um “pensar por constelação e solidariedade de conceitos” (Morin. do que pelas clarezas. nº 83. As dificuldades que historicamente o conhecimento geográfico encontra. isto é. esses saberes não são pautados pela rigidez canônica das categorias conceituais clássicas. ao mesmo tempo. espaço. Em primeiro lugar. típicas dos fenômenos reais. a não ser nos ambientes controlados e criados no interior de assépticos laboratórios. em outras palavras. nos dão vivas indicações de que estamos diante de um conjunto de macro-conceitos.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. seja para definir a própria Geografia. seja para fixar o significado de algumas de suas mais caras categorias conceituais. Em todos esses casos encontraremos grandes sintonias com os princípios que podem caracterizar saberes que se pretendam tributários do pensamento complexo. Segundo Morin. à interpretação. p. pois. e a buscar o significado. mas são dependentes de macro-conceitos. tais “dificuldades” sugerem estarmos diante de um saber que se move muito mais inspirado pela abrangência.

Lógicas ecossistêmicas. mas que se pautam pelo reconhecimento das recorrências circulares existentes entre esses pólos. Naquelas formulações geográficas em que as realidades espaciais são configuradas como produtos . Com espaço para as duplas (dúbias) existências . ao mesmo tempo. não teríamos muita dificuldade para identificar tal filiação epistemológica. emprestado da idéia de holograma físico (que preserva as mesmas 152 . determinismos e possibilismos. Pelo contrário. esse princípio de recursão sempre esteve presente.seja de injunções histórico-sociais. concomitantes. nem forçar sínteses artificiais. da recursão organizacional. produtores em todos os produzidos.o dialógico.que nos permitem identificar os saberes que lhes são tributários. segundo Morin. e para realidades que não se explicam sem a consideração de que todos os fatores. p.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO Desse princípio geral é que decorrem. seja das físico-naturais ou de uma combinação entre todas elas -. desenvolvimentos de análises e produções de certas geografias. dos físico-naturais aos humano-sociais. são determinantes para a produção das espacialidades. dos objetos de interesse das geografias que são físicas e humanas. os três princípios básicos da complexidade . submissão em todos os que submetem e assim por diante.e). o da recursão organizacional e o hologramático . Sobrevive da dualidade. Caso cotejássemos o significado de cada um deles com características das formulações. Nesse caso. da ambigüidade e das dicotomias assumidas (geografias físicas e humanas. segundo o chamado princípio hologramático. caracteriza aqueles saberes que não buscam estabelecer hierarquizações lineares entre causas e efeitos. Não busca superar contradições. reconhecem ‘causas’ em todos os ‘efeitos’. O princípio dialógico se nutre da associação entre complementares e antagônicos. ambi-entes -. portanto. Por último. que ao mesmo tempo produzem as novas (ou reproduzem as mesmas) condições. mantém a unidade graças à diversidade das lógicas assumidas. O segundo princípio básico.em uma palavra.

pois cada um deles evidentemente revela a existência dos demais. por exemplo. nem tampouco podem ocorrer de maneira opcional. et alii (Orgs. SÃO PAULO. de uma recusa a adotar os caminhos que os diversos reducionismos buscaram lhe impor. Col. Tais geografias se poderiam inserir entre aquelas que mesmo sem o saber já aderiram a esse “princípio hologramático” de que nos fala Morin.A. 1991: 90). tanto o analitismo negligente com a percepção do todo. já que há um movimento de recursão e de dialógica na relação que se estabelece. M. da mesma forma como há geografias que desde as formulações pioneiras estão claramente pautadas por essas 14 Para uma maior familiarização com algumas dessas idéias e também com as de outros autores. resulte este do modismo holista.” (Morin. nº 83. 139-160. a “célula de paisagem” de Troll. 2005 dimensões constituintes da totalidade da imagem em quaisquer de suas partes). 1993. entre os saberes identificados por sua filiação (mesmo que potencial) à complexidade. 153 . Jiménez e Nicolás Cantero (Mendoza. Ver também: Santos. mencionaríamos: o “hologeismo” de Ratzel. 1988). M e Souza. como sabemos. há inúmeras formulações na Geografia em que se podem observar claramente tentativas de rechaçar. sugerimos a coletânea organizada por Josefina Gomez Mendoza. como as abordagens abrangentes e descuidadas das partes.. ou da cegueira analítica que investe apenas na investigação da parte. a “ecogeografia” de Tricart. É importante dizer que os princípios mencionados não se desenvolvem isoladamente. ou seja: “a idéia hologramática está ligada à idéia recursiva. a “ciência diagonal” de Bertrand..BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a caracterização de saber complexo só deve ser reconhecida naquelas formulações avessas a qualquer tipo de reducionismo. etc. que por sua vez está ligada à idéia dialógica. São Paulo: Hucitec-Anpur.).). A Geografia. O Novo Mapa do Mundo (3 vols. o “sistema-mundo” de Dollfus14 . Apenas para lembrar alguns. entre a parte e o todo. p. em certo sentido. resulta. Julio M. que só realça a importância do todo. Ademais. No entanto.

Estas. quase sempre). com suas perspectivas de progresso. E as indicações desse afastamento também não são difíceis de serem percebidas. negligenciam o papel do espaço. Não se trata de uma citação literal. presentes nas geografias de todos os lugares. há as que se pautam pela simplificação e afastamento desse mesmo horizonte epistemológico. além do mais.). ou com as forças. acrescenta Marcelo L.). sejam estes identificados como externos e internos à economia-política de um país. costumam ser adeptas também de formulações monoescalares ou fracamente multiescalares. pois estas geografias da simplificação costumam deixar muitos vestígios. suas “etapas de desenvolvimento” e seus mecanismos 15 A relação das características que reunimos a seguir inspira-se em lista sugerida por Marcelo L. p. o “caráter fechado. etnocêntrico e teleológico das teorias”. pois os acréscimos e ampliações para inclusão dos chamados aspectos físico-ambientais são de nossa inteira responsabilidade. 1997: 48). operam separações simplistas entre os chamados fatores endógenos e exógenos. Entre outros15: pautam-se por abordagens monodimensionais e monocausais. costuma ser também uma característica importante e comum para identificar essa “inclinação obsessiva para a simplificação” que certas formulações apresentam.das físicas às humanas -. de Souza (op. produzindo enfoques banalizadores.e. que dificultam a percepção do conjunto de dimensões . 154 . que atuam nas estruturas geomorfológicas dos lugares. que algumas formulações geográficas apresentam. seja porque sociologizam as causas dos naturais. seja porque naturalizam os problemas sociais. igualmente externas e internas. absolutizante. de Souza para detectar o conjunto “dos principais sintomas dessa inclinação obsessiva para a simplificação” (Souza. cit. Por fim. além de se pautarem pela adesão exclusiva aos modelos ocidentais (eurocêntricos. aferrando-se às determinações quase exclusivas de uma dimensão ou uma explicação (como costuma-se fazer com a dimensão econômica.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO características aproximativas de saberes complexos. reduzindo e simplificando suas componentes naturais e sociais.

conforme apontam os autores que examinamos. aberturas para o XXIº Século. mas que se abrem para além do campo disciplinado pelos saberes científicos e institucionalizados. fica estabelecido que. As concepções de transdisciplinaridade presentes nesses documentos também foram trabalhadas e desenvolvidas em: NICOLESCU. B. Ciência e Tradição: perspectivas transdisciplinares. Há também que se produzir escolhas. nem tampouco recompor certos itinerários abandonados pela “inovação” ou pela obsessão analítico-corporativa da Geografia.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. no entanto . 2005 de conhecimento. dicotomias e contradições que tem caracterizado essa área do conhecimento. Lisboa: Hugin. não basta apenas elogiar as resistências epistemológicas. como se vê. Paris: Unesco. Diante disso. É isso que de certa forma nos indicam. Veneza: Unesco. pouco investem nos diálogos transculturais. março de 1986. o potencial para a afirmação e desenvolvimento dessa sintonia que está reconhecidamente (por geógrafos e não geógrafos) presente nas muitas formulações. p. pouco estimulam as posturas transdisciplinares16 . 155 . 16 Aqui nos referimos às concepções de transdisciplinaridade. Tais concepções foram expressas nos seguintes documentos: UNESCO (Diversos autores). tanto aquelas características que aproximam como aquelas que afastam as formulações geográficas de abordagens sintonizadas ou não com a complexidade. sobretudo dentre as que não receiam a manutenção das dualidades. nº 83. SÃO PAULO. 2-6 Dezembro de 1991. O Manifesto da Transdisciplinaridade.insistimos -. para desenvolver o potencial de uma abordagem sintonizada com as exigências da complexidade. UNESCO (Diversos autores). 2000. 139-160. Inegável. que não se confundem apenas com aquela justaposição de disciplinas que é adotada pelos mecanismos interdisciplinares ou multidisciplinares. investir nas opções e vencer pressões. desenvolvimentos e histórias da ciência geográfica. Ciência e as fronteiras do conhecimento: o prólogo de nosso passado cultural. exortando por diálogos com a arte e outros saberes tradicionais.

independentemente dos seus oportunismos ou de suas sinceridades. no fraco envolvimento dos sujeitos e na filiação especializada. que simplesmente desprezam a dimensão da política. historiográficas. impôs às geografias abordagens onde invariavelmente predominam reduções sociológicas. das economias sem as políticas. E a necessidade contemporânea. são um reconhecimento de que é preciso em parte reverter o processo que ao transformar algumas das ciências sociais (incluindo a Geografia que aí se aninha) nessas espécies de antropogeografias reduzidas. ou na eliminação das dicotomias e ambigüidades.. Tais pressões. Ou seja. uma grande confusão entre os territórios corporativos e as fatias do conhecimento. tais agregações. A todas essas reduções se pode indicar o horizonte da complexidade. É o que acreditamos estar fazendo com os 156 . Nas primeiras é comum deparar-se com análises políticas ou sociológicas que desprezam o componente territorial e os fundamentos biogeográficos. sem antropologias.. é confissão dessa culpa. antes de mais nada. investindo obsessivamente na precisão dos objetos. E nas segundas é possível depararse com análises ambientais. com as quais estabelecem nova expressão composta. de agregação de qualificativos ecológicoambientais (em suas diversas variações). das histórias sem geografias. que praticamente todos eles demonstram.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO Pressões simplificadoras que atuam no sentido da superação das contradições e incertezas. Dito de maneira menos simbólica. antropológicas etc. criando. estimulam o desenvolvimento de (defi)Ciências que conseguem falar do tempo sem falar do espaço. desenvolvem-se saberes que às vezes chamam muito mais atenção por causa de suas omissões do que por seus aportes. da cultura ou da economia. ou territoriais. invariavelmente têm contribuído apenas para tornar mais rígidas e impenetráveis as diversas fronteiras cognitivas. assim. e reconduzindo a discussão para o campo em que a desenvolvemos. ou da cultura sem falar da natureza. ou dos prefixos bios e etnos. ou simplesmente dos nomes de outras disciplinas.

entre outras. aos quais os geógrafos historicamente têm dedicado grande parte de seus esforços de investigação. nº 83. a uma certa e original Geografia 17 realçada neste artigo. Angelo Turco. Com ele. ao caracterizar seu entendimento desse processo. em seu Verso una teoria geografica della complessitá. No pequeno trecho que reproduzimos abaixo. 139-160. p. o território e a territorialidade. em virtude do qual o espaço incorpora valor antropológico. esse último não se agrega às propriedades físicas. SÃO PAULO. sintetiza em grande parte os elementos concretos que acreditamos devam ser considerados. terminamos essa nossa reflexão: “A territorialização é. 157 . o conjunto desses elementos podem ser divisados. um grande processo.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. mas as absorve e as remodela. sejam suficientemente sensíveis à percepção das lógicas recursivas (entre fatos da natureza e da cultura) que identificam e presidem qualquer processo de territorialização. que claramente nos indica a necessidade de uma ciência (uma Geografia?) que seja capaz de captar a complexidade descrita. 2005 destaques oferecidos. e o adotamos: “La originalidad consiste em volver al origen”. Por outro lado. Para esta. ao mesmo tempo. irreconhecíveis para uma análise exclusivamente naturalista do ambiente geográfico. recompondo-as em associações com formas e funções culturalmente diversificadas. para que se perceba as regras desse jogo complexo que tem promovido todos os espaços do mundo em territórios da nossa atenção. de fato só podem ser compreendidos com o auxílio de instrumentos cognitivos que estejam abertos a algum nível de reconciliação disciplinar entre os saberes apartados e. portanto. o 17 Aqui rendemos homenagem ao sentido que o grande arquiteto catalão conferiu ao conceito de originalidade. como para sugerir as múltiplas lógicas recorrentes que igualmente devem ser consideradas. tanto para alimentar essa perspectiva de retomada do diálogo entre os saberes.

1988: 76). Barcelona: Editorial Cervantes. “Geografia e complexidade”. AGB. (http://www. S. A. L. agosto de 1997b. pelo contrário. 42-60. La Tierra Y La Evolución Humana/ Introducción Geográfica A La Historia. “Ratzel: Releituras Contemporâneas. São Paulo: Ed. FEBVRE. Porto Alegre: Editora Sulina. GARCIA dos SANTOS. F. “Diálogos entre as Ciências Sociais: um legado intelectual de Friedrich Ratzel (1844-1904)”. B. devemos ter presente que ele se dissolve em contínuas reconfigurações da complexidade a partir da qual. p. Politizar as novas tecnologias. Revista Bibliográfica de Geografia y Ciencias Sociales. Marginación del Tercer Mundo y de la naturaleza. ciência do complexus.es/geocrit/ b3w-34. Biblio 3W. M. 2003. Liberalismo económico. nº 34. 34. A. Trotta. In: Silva.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO processo de territorialização não se confunde com o acúmulo de artifícios sobre a superfície terrestre. CARVALHO. D & Galeno. 1925. 158 . B. GEORGE. p. et alii. CARVALHO. definitivamente. M. Nº 13. BIBLIOGRAFIA: CARVALHO. Geografia. com um crescimento linear e genérico do valor antropológico de um espaço. 2004. normas ou ao menos indicações para a sua ação” (Turco. Revista Terra Livre. Barcelona: Ed.htm). 39-53. Uma Reabilitação?”. Ecología Solidaria. 1996. In: MIRES. 10 de junho de 1997a Universidad de Barcelona.ub.). A. (orgs. M. L. o homo geographicus extrai situações. B.

1882. E. El analisis de sistemas y el estudio integrado del medio natural. 15-64. E . 1995 (7ª ed. In: MENDOZA. A Expulsão do Paraíso. J. E. G. (Coord. MORIN. M. R. In: Leff. 2003. 1988. J. 159 . O paradigma da Complexidade e o Desenvolvimento Sócio-Espacial. p. Madrid: Alianza Editorial. El Pensamiento Geográfico. 1993. El Pensamiento Geográfico. Reformar o Pensamento. E. Pensar a Complexidade Ambiental. MORIN. 139-160. 1997. et alii. B. (orgs. et al. et alii. A complexidade Ambiental. I. El Pensamiento Geográfico. et alii. & KERN. Terra-Pátria. D. Um Discurso Sobre as Ciências. G. In: MENDOZA. Madrid: Alianza Editorial. 531-545. RATZEL. F. Torino: Unione Tipografico-Editrice. E. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. SOUZA. F. E. 1907.). MORIN . 1988. Stuttgart: Engelhorn. RATZEL. STODDART. In: Castro. F. SÃO PAULO. 836 p. Lisboa: Instituto Piaget. São Paulo: Cortez. 1). A Cabeça Bem Feita: Repensar a Reforma. Turim: Fratelli Bocca. B. nº 83. L. MENDOZA. J. 2001. Porto: Afrontamento. Anthropogeographie/ Grundzüge der Anwendung der Geographie auf die Geschichte (Vol. RATZEL. Lisboa: Instituto Piaget. J. SOUZA SANTOS. Madrid: Alianza Editorial. 1914.). II). Introdução ao Pensamento Complexo . p. Geografia Dell’Uomo (Antropogeografia). Altas Miras Para Una Geografia De Final De Siglo.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. G. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Explorações Geográficas. 1991. TRICART.). 2005 LEFF. 1988. La Terra E La Vita/ Geografia Comparativa (Vol. p. A.

março de 1986. Lisboa: Hugin. Veneza: Unesco. UNESCO (Diversos autores). 184 p. 1988. Verso Una Teoria Geografica Della Complessità. Milano: Unicopli. aberturas para o XXIº Século. Ciência e as fronteiras do conhecimento: o prólogo de nosso passado cultural. 2000. 2-6 Dezembro de 1991. As concepções de transdisciplinaridade presentes nesses documentos também foram trabalhadas e desenvolvidas em: NICOLESCU.MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO TURCO. Ciência e Tradição: perspectivas transdisciplinares. A. B. O Manifesto da Transdisciplinaridade. UNESCO (Diversos autores). Paris: Unesco. 160 .

com seus currículos e realizações no âmbito da ciência geográfica. bem como o intercâmbio profissional.CEP: 05402-970 . no Brasil e no exterior.São Paulo – SP – Brasil . Manter intercâmbio e colaboração com outras entidades dedicadas à pesquisa geográfica ou de interesse correlato. ou ainda à sua aplicação. Analisar atos dos setores públicos ou privados que interessam e envolvam a ciência geográfica.USP – São Paulo – SP – BRASIL Fone: (11) 3091-3758 www.br Endereço para correspondência: Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção São Paulo Caixa Postal 64525 . Estimular o estudo e o ensino da Geografia.Prédio da História/Geografia Cidade Universitária . pesquisando e divulgando assuntos geográficos.agbsaopaulo. Prof. visando ao conhecimento da realidade brasileira. periódicas ou não. culturais ou técnicas. Promover encontros.ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS · · · · · · · · · A AGB tem por objetivo: Promover o desenvolvimento da Geografia. principalmente brasileiros. professores.org. Organizar e manter atualizado um cadastro de seus associados. estudantes de Geografia e demais interessados.br Correio eletrônico: agbsaopaulo@yahoo. mantendo contato com entidades congêneres e afins. Lineu Prestes. Promover e manter publicações de interesse geográfico. Congregar os geógrafos. e manifestar-se a respeito. cursos e debates. Representar o pensamento de seus sócios junto aos poderes públicos e às entidades de classe. os geógrafos e as instituições de ensino e pesquisa de Geografia. para defesa e prestígio da classe e da profissão. · ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS Sede da Seção Local São Paulo Av. propondo medidas para o seu aperfeiçoamento. simpósios. 338 . conferências. de modo a favorecer a troca de observações e experiências entre seus associados. Propugnar pela maior compreensão e mais estrita colaboração com os profissionais e estudantes de disciplinas afins. congressos. exposições.com.

ARTIGOS RUY MOREIRA SOCIEDADE E ESPAÇO NO BRASIL (AS FASES DA FORMAÇÃO ESPACIAL BRASILEIRA: HEGEMONIAS E CONFLITOS) PAULO ROBERTO TEIXEIRA DE GODOY TEORIAS E CONCEITOS: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE CRÍTICO EM GEOGAFIA AMÉLIA LUISA DAMIANI A GEOGRAFIA QUE DESEJAMOS ARLETE MOYSÉS RODRIGUES PROBLEMÁTICA AMBIENTAL = AGENDA POLÍTICA ESPAÇO. CLASSES SOCIAIS WILLIAM ROSA ALVES O ORDENAMENTO TERRITORIAL CAPITALISTA E A ESPACIALIDADE BRASILEIRA ATUAL: UMA INTRODUÇÃO AO DEBATE DA RELAÇÃO ENTRE FORMAÇÃO SOCIOESPACIAL E BLOCO HISTÓRICO MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO GEOGRAFIA: CIÊNCIA DA COMPLEXIDADE (OU DA RECONCILIAÇÃO ENTRE NATUREZA E CULTURA) . TERRITÓRIO.

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